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O vinhateiro estava cuidando da figueira, há três anos, porém, quando o dono da vinha foi verificar se havia fruto na figueira, não encontrou. Por que não produzia fruto? Porque rejeitou a Cristo, o fruto dos lábios, que são boas novas de paz, aos que estão longe (gentios) e aos que estão perto (judeus).


A figueira estéril na vinha

“Um certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha, e foi procurar nela fruto, não o achando. E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho; corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente? E, respondendo ele, disse-lhe: Senhor, deixa-a a este ano, até que eu a escave e a esterque; E, se der fruto, ficará, e, se não, depois a mandarás cortar” ( Lucas 13:6 -9)

O homem que procurou fruto na figueira plantada em sua vinha e não achou, representa o Senhor Deus, o vinhateiro representa a pessoa de Cristo e a figueira, o povo judeu. Então, como interpretar as relações que envolvem as figuras desta parábola? Por que a figueira não produzia fruto? Por que a figueira deveria ser cortada?

Para compreender todas as nuances que a parábola apresenta, faz-se necessário se socorrer do contexto em que ela foi citada e construir um paralelismo com outro texto bíblico.

Galileus e Judeus

O Senhor Jesus estava anunciando as boas novas do reino aos homens (Lucas 12:1-59) e, naquele ínterim, percebeu a conversa de algumas pessoas que, pelo contexto, entende-se tratar de judeus: “E, NAQUELE mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios” (Lucas 13:1).

O texto enfatiza que aquele grupo de judeus enfatizavam o quão condenáveis eram os galileus que foram mortos por Pilatos. – ‘Que sacrilégio’! – ‘Estavam sacrificando aos ídolos’! – ‘Receberam a paga pelo pecado’!, argumentavam eles.

Jesus, porém, lhes responde: “Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas?” (Lucas 13:2). Ou, seja, Jesus questiona o entendimento dos judeus.

O fato de aqueles judeus apresentarem a calamidade, envolvendo galileus, como sendo uma prova da punição de Deus, em decorrência de serem pecadores, demonstra que estavam esquecidos da calamidade que ocorreu, em Jerusalém, precisamente, com a torre de Siloé, e Jesus os faz recordar o ocorrido.

O entendimento deles estava embotado, visto que Jesus lhes demonstrou que os galileus que foram mortos não eram mais culpáveis que o restante e que os judeus que lhe apresentaram aquela calamidade não estavam em melhor condição, pois, se não mudassem de entendimento, de igual modo pereceriam: “Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” (Lucas 13:3).

Ora, a queda da torre de Siloé, possivelmente, vitimou alguns judeus e Jesus demonstra que as calamidades não escolhem entre galileus ou, judeus, o que não prova a culpabilidade de ninguém, porém, se os judeus que ali estavam não mudassem de conceito, de igual modo pereceriam “E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos, de igual modo, perecereis” (Lucas 13:4-5).

A morte da qual o Senhor Jesus apresenta como ‘de igual modo’, não diz da finalização das funções vitais por meios trágicos, antes, diz da condição de perdido, que era comum, tanto aos galileus, quanto aos judeus.

Jesus demonstrou que todos os homens, não importando se judeus ou, gentios, estavam em igual condição diante de Deus. Desse modo, caso os judeus, que se consideravam privilegiados diante de Deus, por serem descendentes da carne de Abraão, não mudassem de conceito, de igual modo pereceriam, passariam para a eternidade, sem Deus e sem salvação.

Arrependimento

Outra passagem bíblica que fala de arrependimento e, também, faz referência à árvore, é a passagem de João Batista:

“E dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus (…) E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão. E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mateus 3:2 e 7-10).

Entre a passagem de João Batista e o contexto que foi proferida a parábola da figueira estéril, existe um paralelismo sem igual:

  • Em ambas as passagens, os judeus presumiam, de si mesmos, que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne de Abraão, mesmo após o batismo de João, enquanto que, na parábola da figueira, presumiam que os galileus, mortos por Pilatos, eram mais pecadores que todos os outros galileus;
  • Em ambas, os judeus foram repreendidos quanto ao que pensavam de si mesmos.
  • Em ambas, os judeus são apontados como infrutíferos; não produzem o fruto requerido por Deus;
  • Em ambas, a árvore está prestes a ser cortada.

Qual é o fruto digno de arrependimento? Qual o fruto que certo homem foi procurar na figueira e não encontrou? Porque o machado está posto à raiz das árvores?

Jesus demonstrou, certa feita, que os escribas e fariseus pareciam justos aos olhos dos homens, tendo em vista o regramento e a moral deles, porém, eram hipócritas, visto que, no interior, estavam plenos de iniquidade: “Assim, também, vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mateus 23:28).

Como a figueira produziria fruto? Ele dá a resposta: “… de mim é achado o teu fruto” (Oseias 14:8).

Que fruto Deus esperava encontrar na figueira? Ele dá a resposta: É o fruto dos lábios que Deus cria: “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Isaías 57:19).

Mas, para a ‘figueira’ produzir fruto, necessariamente, os israelitas teriam de estar ligados à videira verdadeira, pois, Cristo mesmo diz: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim, nada podeis fazer” (João 15:5).

O vinhateiro estava cuidando da figueira, há três anos, porém, quando o dono da vinha veio verificar se havia fruto na figueira, não encontrou. Por que não produziam fruto? Porque rejeitaram a Cristo, o fruto dos lábios, que são boas novas de paz, aos que estão longe (gentios) e aos que estão perto (judeus).

O fruto proveniente de Deus, os judeus rejeitaram. Não quiseram estar ligados à Oliveira verdadeira (Efésioas 2:17).

O fruto dos lábios que os judeus produziam era: ‘para que o homem possa ser salvo é necessário tornar-se um prosélito, circuncidar-se, cumprir a lei e seguir os ritos’. Na condição de prosélito (convertido ao judaísmo), o homem passava a declarar que era salvo, por ser um dos descendentes de Abraão: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que, percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno, duas vezes mais do que vós” (Mateus 23:15; Êxodo 12:48).

Ao aceitarem o ensinamento judaico, os prosélitos eram circuncidados e faziam a oferta de sacrifício, segundo a lei, rito importante para os judeus, considerado como um novo nascimento, o início de uma nova vida, que ali estava, mais um filho de Abraão. Porém, esse era o maior erro deles, pois, não eram filhos de Abraão e induziam as pessoas a erro, tornando-as duas vezes mais, filhas do inferno. Por quê? Porque, além de serem descendentes da carne de Adão e, portanto, filhos da desobediência e da ira, agora acreditavam que eram filhos de Abraão.

O fruto que deviam produzir era confessar e professar o nome de Cristo, do mesmo modo que o apóstolo Pedro professou, diante da multidão: “E, em nenhum outro há salvação, porque, também, debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12).

Os escribas e fariseus professavam que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne de Abraão, diante da mensagem: Arrependei-vos, por que é chegado o Cristo, e não mudaram sua concepção (Mateus 3:9). Os judeus permaneceram apresentando uma religião enraizada na lei mosaica, elevada moral e comportamento ascético, o que atraía muitas pessoas.

Se houvessem, verdadeiramente, ‘arrependido’ (metanoia), teriam mudado de concepção e aceitariam o Cristo (João 8:33). Não seriam cortados, porque se professassem o nome de Jesus como salvador, seriam plantação de justiça: “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória, em vez de cinza, óleo de gozo, em vez de tristeza, vestes de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” (Isaías 61:3), pois, somente seria cortada a planta que o Pai não plantou: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mateus 15:13).

A figueira, que representa o povo de Israel, foi cortada, pois não produziu o fruto digno de arrependimento. Apesar de o vinhateiro ter cuidado da figueira, a mesma não produziu o fruto esperado: os filhos de Jacó deveriam anunciar ao mundo que Cristo é a paz com Deus, tanto para judeus, quanto para gentios, ou seja, não mudaram de concepção.

O Fruto esperado

O povo de Israel não se arrependeu, crucificou o Messias e continuou com a Torá e obrigado a seguir as mais variadas formas de moral e ética dogmáticas.

Entendo a moral, como sendo um fenômeno sociocultural, daí surge a pergunta: o evangelho de Cristo é moralista? Jesus veio trazer uma nova moral ou, boas novas de salvação à humanidade? Porque os judeus foram rejeitados se, moralmente, eram superiores aos povos circunvizinhos?

Certo é que Cristo não veio resgatar o homem de uma vida, moralmente, desamparada e carente de parâmetros morais convenientes, antes, veio livrá-lo da servidão do pecado, que é uma condição imposta pela ofensa de Adão à lei de Deus, no Éden. Por causa da desobediência, todos pecaram e destituídos foram da glória de Deus, e a missão de Cristo é conduzir muitos filhos à glória de Deus.

As leis, a consciência, a sociedade, as religiões e a filosofia já desempenham papel relevante no campo moral, porém, nada podem fazer quanto à salvação da condenação eterna.

Não são estes frutos (no plural), que Deus quer que o homem produza, ao estar ligado na Oliveira verdadeira. Deus busca um único fruto e é o fruto que provem d’Ele, pois Ele diz: de mim vem o seu fruto! E qual é o fruto? É a mensagem de paz, para os que estão longe e para os que estão perto.

O fruto que o crente produz é o fruto dos lábios que professam a Cristo. Esse fruto (singular) que somente o crente produz, possui no seu interior a semente incorruptível, que é a palavra de Deus. O fruto que o crente produz é vida, pois, através dele é que se ganha almas para o reino de Deus: “O fruto do justo é árvore de vida e o que ganha almas é sábio” (Provérbios 11:30).

Boas ações todos os homens podem produzir, pois, Jesus demonstrou que, até mesmo os fariseus, sendo maus, sabiam dar boas dádivas aos seus semelhantes. Porém, o fruto dos lábios que professam a Cristo, somente os que creem, segundo as escrituras, podem produzir, por estarem ligados à Oliveira verdadeira.

Quando professa a mensagem da cruz, a língua do justo é como prata escolhida, que servirá o fruto precioso, que é a salvação, em tempo oportuno: “Prata escolhida é a língua do justo; o coração dos perversos é de nenhum valor” (Provérbios 10:20); “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo” (Provérbios 25:11).

O bom comportamento tem o seu campo de aplicação na vida do cristão, visto que, através de um bom comportamento, evita-se o escândalo, como bem alertou o apóstolo Paulo: “Portai-vos de modo que não deis escândalo, nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus” (1 Coríntios 10:32).
Porém, não é o bom comportamento que produz vida, pois, o homem só viverá, através de toda palavra que sai da boca de Deus. É Cristo que concede vida, não a moral e o comportamento humano.

Jesus disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” (João 6:51) ou, seja, o que dá vida é a palavra de Deus e todos os que estão ligados n’Ele produzem muito fruto: “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós e vos nomeei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto, em meu nome, pedirdes ao Pai, Ele vos conceda” (João 15:16).

O fruto é uma determinação de Cristo: vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça! Qual o fruto que permanece? A palavra de Deus, que o cristão anuncia, é o fruto que permanece para sempre: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e eternamente” (Hebreus 13:8); “Portanto, ofereçamos sempre, por ele, a Deus, sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15), pois, Cristo é a semente incorruptível, que permanece para sempre.

Os frutos do Platonismo e Aristotelismo

A palavra grega traduzida por arrependimento é ‘metanoia’, que significa, especificamente, ‘mudança de pensamento’, ‘mudança de entendimento’, ‘mudança de compreensão, acerca de uma matéria’. Tal palavra era usada pelos gregos, muito antes de constar dos evangelhos.

Já, no fim do IV século, a palavra grega ‘metanoia’ foi traduzida para o latim como sendo ‘paenitentia’, imprimindo ao termo certo dogmatismo: ‘façam penitência’.

Tal tratamento à palavra ‘metanoia’, deriva de influências provenientes do neoplatonismo, de Plotino, que, em seguida, foi reafirmado, com forte influência, pelo aristotelismo, posicionamento filosófico que infundiu forte carga moral no cristianismo.

E, na reforma, quando se acreditava que houve uma mudança radical na forma de pensar o cristianismo ou, seja, um retorno ao evangelho primitivo, os reformadores, fortemente, influenciados pelo Humanismo, visto que voltaram a se socorrer da dita ‘pureza da antiguidade Clássica’, foram remetidos à cultura helenística, o que, paralelamente, ocorreu com o movimento cultural Renascentista.

O pensamento socrático ‘conheça a ti mesmo’ passou a estar relacionado com o conhecimento de Deus, no período medieval, porém, o humanismo renascentista impôs o duplo-conhecimento, como se vê refletido nas Institutas da Religião Cristã, do reformador protestante João Calvino, onde o conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo, necessariamente, estão conectados.

Durante a reforma, o termo ‘metanoia’ e outros, como ‘anagnorisis’ (reconhecimento) e ‘peripeteia’ (reversão), que foram empregados por Aristóteles, na obra ‘A Poetica’, foram mal compreendidos, em decorrência de paradigmas firmados no platonismo. A má interpretação não atingiu somente a reforma, mas, afetou, também, a produção artística do movimento cultural renascentista.

Alguns pensamentos distorcidos, já nos primeiros séculos, tornaram-se paradigmas, principalmente, o sacramento da confissão, o que remete à ‘penitência’, que traduziram por arrependimento.

No pensamento Renascentista, que fez uma releitura da ‘anagnorisis’, o reconhecimento que envolve o herói das tragédias gregas clássicas, entendeu que o herói trágico, quando confrontado com a culpa da sua conduta imoral, acabava aceitando a culpa e curvando-se às suas consequências. Nessa releitura renascentista, quando o herói trágico aceita a culpa, é levado a ‘peripeteia’ (reversão – o que denominaram de a volta de 180 graus, na condição do herói), que, externamente, se dava pelo sofrimento e, internamente, pela graça.

Nas tragédias gregas, a ‘anagnorisis’ representa uma simples admissão do herói trágico, reconhecendo a verdade que lhe era apresentada ou, seja, o herói toma posse de uma compreensão dos eventos que o cercavam, como nunca tivera antes. O herói acabava se expressando, após a ‘anagnorisis’, da seguinte forma: “Finalmente, compreendo” ou, “Eu que estava cego, agora vejo”, o que não coaduna com o pensamento divulgado pela cristandade e pelo movimento cultural renascentista, que acabou mesclando ‘peripeteia’ com questões de cunho moral e modos de penitência.

Diferente das peças teatrais gregas (tragédias), só a ‘anagnorísis’ cristã/renascentista tornou-se carregada com imperativos morais.
No período da reforma surgiram correntes teológicas, como o puritanismo (moralista, austera, rígida nos costumes, especialmente, quanto ao comportamento sexual) e o pietismo (ênfase na necessidade de conversão individual, acompanhada do nascer de uma nova conduta no crente, desapegada do mundo material e firmada no apoio mútuo da comunidade, tendo por base uma moralidade ascética, especialmente, no que tange à alimentação, vestimenta e lazer).

Seria esse o arrependimento exigido? No arrependimento bíblico, há a volta de 180 graus, conforme a leitura dos Renascentistas? Qual o objetivo de terem mesclado o significado do termo ‘metanoia’, com o termo ‘peripeteia’?

‘Anagnorisis’ é uma mudança de ignorância para conhecimento e se vincula ao enredo e à ação trágica, o que causa a ‘peripeteia’ (reversão) nas circunstâncias do herói, que passa da fortuna para o infortúnio, da felicidade para a infelicidade, o que não implica e não há relação com ‘metanoia’ (arrependimento).

Jesus e os discípulos apregoaram o arrependimento (metanoia), sem referência a qualquer ‘peripeteia’, ou seja, a volta de 180 graus, algo que só aparece nas tragédias gregas e, que não se vincula à ‘metanoia’, apregoada nos evangelhos.

Debaixo da bandeira católico romana, alguns teólogos filósofos passaram a considerar a relação liberdade ‘versus’ mal, principalmente, com relação à origem e natureza do mal. Santo Agostinho (354-430 d. C.), já, influenciado pelo maniqueísmo na sua juventude, cujo postulado é a existência de dois princípios ativos, o bem e o mal, segue o postulado de Plotino, de que o mal é a ausência de bem, uma privação, uma carência, o que influenciou sobremaneira a cristandade, nos séculos seguintes.

Em ‘A Cidade de Deus’, Santo Agostinho adota a postura de um filósofo da história universal e a sua atitude é, sobretudo, moralista, indicando que há dois tipos de homens: os que se amam a si mesmos até ao desprezo de Deus (estes são a cidade dos homens) e os que amam a Deus até ao desprezo de si mesmos (estes são a cidade de Deus).

Neste sentido, Santo Agostinho vê a impossibilidade de o Estado chegar a uma autêntica justiça, se não primar pelos princípios ‘morais’ do cristianismo, o que leva a Igreja a ter primazia em relação ao Estado, o que debilita o Estado, perante a Igreja.

Quase um milênio depois, São Tomás de Aquino (1225-1274 a. C.), também, se envereda pelo campo da moral, porém, distingue-se do agostinianismo e estabelece a moral tomista, que é, essencialmente, intelectualista, ao passo que a moral agostiniana é voluntarista. Desse modo, agir moralmente, segundo o tomismo, é agir racionalmente, em harmonia com a natureza racional do homem.

A despeito de vários movimentos pré-reforma, que datam desde o século XII, a reforma só veio no século XVI, porém, foi agregada à reforma forte carga moral, pois, mais uma vez foram redefinidos os padrões da moral e da ética cristã, o que culminou em movimentos de cunho moral, como o pietismo e o puritanismo.

Segundo o idealismo platônico, a ascese servia para aproximar a pessoa (o asceta) da verdadeira realidade espiritual e ideal, desligando o homem da imperfeição e materialidade do corpo. A religiosidade, dita cristã, vinculou os desejos corporais à ideia de pecado, o que deveria ser refreado a todo o custo, caso se pretendesse atingir a santidade, algo semelhante ao imposto ao asceta.

O cristão seria um asceta? O pecado é alienação de Deus e tem relação com os sete vícios capitais?

O asceticismo é um fruto proveniente do platonismo e do aristotelismo e o apóstolo Paulo deixa claro que este não é o fruto, que as varas ligadas à videira verdadeira produz:

“Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” ( Colossenses 2:23 ).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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