Bom e mau, bem e mal, segundo uma perspectiva bíblica

Quando a Bíblia diz que Deus é bom, isso não significa que Deus é bonzinho, condescendente, parcial, etc. Deus é bom, no sentido de nobre e bondoso, no sentido de misericordioso. Deus é eterno, imutável, transcendente e conhecedor do bem e do mal, consequentemente, o bem e o mal por ser conhecimento subsistem desde sempre em Deus, e por isso, é impossível o mal ter sido criado.


Bom e mau, bem e mal, segundo uma perspectiva bíblica

Introdução

Para abordar o tema ‘bom’ e ‘mau’, do posto de vista bíblico, analisaremos o seguinte provérbio português: “Quem é bom já nasce feito, quem quer se fazer, não pode”, de fácil leitura, mas, de difícil interpretação.

Essa máxima foi utilizada por diferentes compositores brasileiros, o que servirá de parâmetro para analisarmos se tal proverbio é de fato compreendido e, por fim, constatar o quanto uma má leitura de um texto conduz a uma má interpretação.

 

Quem é bom já nasce feito

A música ‘Sete Flechas’, composição de Tião Carreiro, Lourival dos Santos e Zé Mineiro começa com o seguinte verso, claramente, uma releitura do provérbio português citado acima:

“Quem é bom já nasce feito,

quem é ruim só atrapalha”

O cantor Liminha canta a música: “Quem é bom, já nasceu feito”, e faz a seguinte colocação:

“O bom capoeira não se faz

Quem é bom já nasce feito”.

A cantora Elza Soares canta a composição: “Quem é bom já nasce feito”, e faz a seguinte declaração:

“Quem é bom já nasce feito

Talento não tem preconceito

É um dom que Deus nos dá”

“Fala meu louro”, de Silvo Caldas, faz uma citação:

Não tenhas medo

Coco de respeito

Quem quer se fazer não pode

Quem é bom já nasce feito”.

Em 1966, Otolindo Lopes, Waldir Ferreira e Adauto Michilles, com Orlando Dias, compuseram uma marchinha para o carnaval “Quem pode, pode”, que dizia:

“Você fala de mim

Mas fala por despeito

Quem quer se fazer não pode…

Quem é bom, já nasce feito!”

Esse adágio é utilizado em marketing, aulas de liderança, educadores e até por pastores, padres e bispos, quando exortam aqueles que desejam o episcopado. Observe a seguinte colocação em uma música do Pr. Jairzinho:

“Tem que ter chamada desde o berço.

Há um ditado: “quem é bom já nasce feito”.

É diferente do crente precipitado,

Que está querendo ser pastor de todo jeito. ”

Sem crítica à licenciosidade poética, se faz necessário postular que nenhuma das composições acima reflete fielmente a ideia do provérbio português. Todas as composições fazem alusão ao ‘bom’, segundo uma perspectiva turvada por uma concepção que é própria ao homem da atualidade, portanto, desfocada e fora da realidade sociocultural, na qual a máxima foi cunhada.

No ano de 2004, na cidade de São Paulo, Dafne Sampaio, Ricardo Tacioli e Sérgio Seabra entrevistaram os compositores e cantores Antônio Vieira e Riachão e, em um dado momento da entrevista, Vieira explica ao entrevistador como compunha as suas músicas, com a seguinte declaração:

“Pronto, está aí! E assim como ele, milhares e milhares no mundo inteiro. Minha avó dizia pra mim – minha avó era uma mulata, filha de escravo –, “Ó, meu filho, quem é bom já nasce feito. Quem quer se fazer, não pode. Quando o ruim quer se apurar, vem a natureza e descobre”. [risos] Filosofia de crioulo. Quem é bom já nasce feito…”[1].

Vieira ouviu uma máxima de sua avó, que muitos anos mais tarde, durante uma entrevista, citou, para afirmar que um exímio compositor ou magnifico músico é pendor de nascença, e que tal capacidade artística não resulta da pretensão de um indivíduo.

Na visão do homem da atualidade, ‘bom’ é sinônimo de excelente, boníssimo, melhor, superior, elevado, perfeito, sublime, supremo, grande, magnífico, maravilhoso, extraordinário, esplêndido, ótimo, estupendo, formidável, inigualável, assombroso, supimpa, etc., enquanto a máxima em análise retrata a condição de quem pertencia à nobreza, nas sociedades da antiguidade.

A máxima: “Quem é bom já nasce feito, quem quer se fazer (bom, nobre) não pode”, evidencia que um nobre nasce nobre, uma condição que não deriva da vontade do indivíduo e nem depende de alguma habilidade ou, de perícia específica. Quando é dito que ‘quem quer se fazer, não pode’, não se refere a uma inaptidão, imperícia, etc., mas, sim, a uma impossibilidade do indivíduo.

Na máxima, o termo ‘bom’ está para real, superior, verdadeiro, senhor, distinto, etc., mas, a nevoa produzida pelo passar dos anos, decorrente da evolução e transformação da sociedade, passou a se utilizar do termo ‘bom’, como predicativo de questões subjetivas, como moral, ações e habilidades.

A avó do compositor Vieira complementa a máxima portuguesa, evidenciando um contraponto entre ‘bom’ e ‘ruim’. Percebe-se, através do complemento “Quando o ruim quer se apurar, vem a natureza e descobre”, que o termo ‘ruim’ tem o sentido de vil, ralé, baixo, etc., condição que o impossibilita de alcançar a nobreza ou, seja, a condição de ‘real’, e que o termo, ao longo dos tempos, transmutou em realeza.

O modo como os compositores e poetas acima utilizaram o provérbio “Quem é bom já nasce feito, quem quer se fazer não pode”, não se sustem diante de análise acurada e contraria, agudamente, outro provérbio, que diz:

“Mar calmo nunca fez bom marinheiro”.

Percebe-se, através do provérbio “Mar calmo nunca fez bom marinheiro”, que a habilidade de um marinheiro é diretamente proporcional à agitação do mar. Nessa máxima, o termo ‘bom’ é empregado no sentido de ‘exímio’, ‘ótimo’, e que a habilidade de marinheiro sofre influência do meio.

Friedrich Nietzsche, em sua obra ‘A genealogia da moral’, distinguiu de forma precisa a diferença entre o ‘bom’ da frase ‘Mar calmo nunca fez bom marinheiro”, do ‘bom’ da frase “Quem é bom já nasce feito, quem quer se fazer não pode”:

“… que significam exatamente, do ponto de vista etimológico, as designações para ‘bom’ cunhadas pelas diversas línguas? Descobri então que todas elas remetem à mesma transformação conceitual – que, em toda parte, ‘nobre’, ‘aristocrático’, no sentido social, é o conceito básico a partir do qual necessariamente se desenvolveu ‘bom’, no sentido de ‘espiritualmente nobre’, ‘aristocrático’, de ‘espiritualmente bem-nascido’, ‘espiritualmente privilegiado’: um desenvolvimento que sempre corre paralelo àquele outro que faz ‘plebeu’, ‘comum’, ‘baixo’ transmutar-se finalmente em ‘ruim’” Nietzsche, Friedrich, Genealogia da moral – Uma polêmica, Tradução Paulo César de Souza, São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Pág. 18.

A composição do Liminha, que diz: “O bom capoeira não se faz / Quem é bom já nasce feito”, é contraditória, pois uma boa roda de capoeira influencia a habilidade do capoeirista, bem como é na roda de capoeira que a sua habilidade é comparada e avaliada. A má interpretação do provérbio “Quem é bom já nasce feito, quem quer se fazer não pode”, levou o poeta a construir uma canção que peca quanto à lógica.

É inegável que Antônio Vieira era um excelente compositor e musicista, mas, apesar de tal habilidade, afirmar que ele nasceu de posse plena de tal habilidade é temerário, pois ele alcançou tal maestria aprendendo e treinando.

Todo e qualquer artista, por maior que seja a sua habilidade e pendor para uma determinada atividade, evolui ao longo da sua carreira, o que demonstra que ninguém nasce perito em alguma atividade, a ponto de ser classificado como ‘bom’, sem ter sido ensinado por um mestre, no seu oficio, aprendido e desenvolvido a sua habilidade.

Quando o Pr. Jairzinho afirma que, para exercer o oficio de pastor, é necessário ao cristão ter ‘chamada de berço’, comete um equívoco e contraria as Escrituras, pois, se fosse um chamado de berço, o apóstolo Paulo não exortaria os cristãos a desejarem o episcopado.

“ESTA é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja” (1 Timóteo 3:1).

Um nobre, caso desejasse, poderia ser um exímio (bom) guerreiro, marinheiro, músico, etc., mas, todo e qualquer plebeu jamais poderia ascender à condição de nobre ou, seja, tornar-se bom, no sentido social.

Jaeger, analisando os poemas de Teógnis, fez a seguinte observação:

“O poeta aconselha a que se evite o trato com os maus (kakoi), em que o poeta engloba todos os que não pertencem a uma estirpe nobre; por outro lado, também, nobres (agathos) só se acham entre seus iguais” (Jaeger, Paideia, 244).

A música ‘Sete Flechas’ contrapõe ‘bom’ e ‘ruim’: “Quem é bom já nasce feito, quem é ruim só atrapalha” que, pela construção, percebe-se que os compositores não compreenderam a essência do provérbio “Quem é bom já nasce feito”[2]. Na música ‘Sete flechas’ percebe-se que o termo ‘ruim’ não possui componente moral, antes, retrata a falta de habilidade.

 

O mau também já nasce feito

Da mesma forma que foi dito que o ‘bom’ já nasce feito, é possível inferir que o ‘mau’, também, já nasce feito.

Certa feita, Jesus falou à multidão:

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:11).

Quem não considera algumas nuances da sociedade à época, ao se deparar com a fala de que um homem mau é afeto a praticar boas ações, no mínimo, considerará que há um paradoxo na frase.

Quando Jesus disse que os seus interlocutores eram maus, não estava acusando-os de maldosos, maléficos, malévolos, malfazejos, malvados, perversos, etc. Antes, estava demonstrando que seus ouvintes eram vis, comum, plebeu, ralé, baixos, mentirosos, etc.

A acusação de Jesus tem um motivo específico: a lei! O profeta Moisés, há muito, havia anunciado que os filhos de Israel não eram filhos de Deus, portanto, eram maus.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é.” (Deuteronômio 32.5).

Jesus não estava denunciando o caráter ou a moral dos seus interlocutores, mas, sim, a sua filiação. Observe a importância que há na geração e no nascimento:

“Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.” (João 8.41).

A multidão que ouvia a Jesus, no Sermão no Monte, entendia que, por serem descendentes da carne de Abraão, Isaque e Jacó, eram filhos de Deus e Jesus, ao chamá-los de ‘maus’, evidencia que eles não eram filhos de Deus, vez que não faziam a vontade de Deus, como fez Abraão (João 8.39).

O profeta Isaías denunciou a condição dos filhos de Israel, nos seguintes termos:

“Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR.” (Isaías 30.9).

O termo traduzido por mentiroso é [כֶּחָשִׁים[3, transliterado kechash, adjetivo que nomeia quem é enganoso, falso, enganador, mentiroso. O verso é melhor compreendido quando o termo kechash é vertido como falso, ou seja, não é filho de fato.

O Salmista também faz essa declaração:

“Dizia na minha pressa: Todos os homens são mentirosos.” (Salmos 116:11).

O Salmista fica aterrorizado (pressa) ao constatar que todos os homens são mentirosos[4], ou, seja, nem os filhos de Israel são exceção! O verso é melhor traduzido, ao utilizar o termo ‘vão’, no sentido de vaidade. Ao demonstrar qual a vantagem de ser judeu, o apóstolo Paulo cita o Salmo 116, verso 11, enfatizando que, diante de Deus, não há vantagem alguma em ser judeu (Romanos 3.9).

Observe que a condição social do homem é irrelevante diante de Deus: todos são vaidade:

“Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que a vaidade.” (Salmos 62.9).

Na parábola das Bodas, temos uma referência a homens bons e maus, como se lê:

“E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de convidados.” (Mateus 22.10).

O contexto da parábola indica que os convidados podiam ser de todas as classes sociais, tanto maus, como bons ou, seja, todos que encontrassem pelo caminho (Mateus 22.9).

Na parábola dos diversos trabalhadores e as diferentes horas do dia, temos o pai de família defendendo a sua posição de ‘bom’.

“Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” (Mateus 20.15).

Na visão do homem do nosso tempo e até mesmo para os trabalhadores da vinha da parábola, o senhor da vinha deveria ser bonzinho, ou seja, agir segundo o padrão de pensamento dos homens comuns: quem trabalhou mais, ganha mais, quem trabalhou menos, ganha menos. Entretanto, os bons (nobres) se guiam por seus próprios valores e, no caso da parábola, o justo é dar aos trabalhadores o que foi tratado, pois o senhor dispõe do que possui, segundo o que bem lhe parecer.

Deus é bom[5] e, por isso mesmo, Ele age do seguinte modo:

“Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.” (Mateus 5.45).

Deus faz com que o sol alcance tanto os nobres, quanto os vis, tanto os justos, quanto os injustos ou, seja, Jesus demonstrou que, quanto às benesses desta vida, Deus não faz distinção, com relação à posição social (maus e bons) ou, com relação àqueles que são ou, não, seus servos (justos e injustos).

Quando a Bíblia apresenta Deus como ‘bom’, temos que lembrar do seu senhorio, pois a raiz etimológica da palavra grega ‘agathos’[6] traduzida por ‘bom’, significa ‘alguém que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro’. O termo era empregado para levar adiante o lema da nobreza, de modo a distinguir o nobre do homem comum, mentiroso (Jaeger, Paideia, pág. 19).

 

Bem e mal

É comum os estudiosos de filosofia e de teologia abordarem o bem e o mal, com a seguinte pergunta: Se Deus é bom, por que criou o mal? Ou, por que Deus criou o pecado?

A análise que se segue é complexa, pois, muitos que se dizem cristãos (e não nego que agem com dolo), por não considerarem o que foi exposto acima, afirmam, com todas as letras, que Deus ‘é o soberano e justo autor do pecado’[7].

Quando a Bíblia diz que Deus é bom, isso não significa que Deus é bonzinho, condescendente, parcial, etc. Deus é bom, no sentido de nobre e bondoso, no sentido de misericordioso.

A bondade e a severidade de Deus andam de mãos dadas, pois, aos que são pecadores, Deus é indomável (Salmo 18.26), mas, para os que se arrependem, Deus é bondade.

“Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado.” (Romanos 11.22).

Ao falar com Moisés, Deus vincula a sua bondade à sua misericórdia, sendo certo que Deus tem misericórdia daqueles que o amam ou, seja, dos que obedecem ao seu mandamento.

“Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êxodo 33.19);

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Deuteronômio 5.10).

Nesse diapasão, Deus, ao tratar com os filhos de Israel, estabeleceu o seguinte:

“Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, e a morte e o mal;” (Deuteronômio 30.15);

“E será que, assim como o SENHOR se deleitava em vós, em fazer-vos bem e multiplicar-vos, assim o SENHOR se deleitará em destruir-vos e consumir-vos; e desarraigados sereis da terra a qual passais a possuir.” (Deuteronômio 28.63).

Caso os filhos de Israel obedecessem ao estabelecido por Deus na lei, viveriam e gozariam do melhor da terra prometida, mas, se desobedecessem, viria a morte e o mal.

Por causa da benção e maldição dos montes Gerisim e Ebal, os filhos de Israel foram dispersos entre as nações e, quando da repatriação, por intermédio de Ciro, foi dito por intermédio do profeta Isaías:

“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas.” (Isaías 45.7).

Como os filhos de Israel não obedeceram a Deus, ocorreu a diáspora babilônica ou, seja, Deus estabeleceu o mal, retirando a paz que foi feita no governo de Davi (1 Reis 4.24). O mesmo Deus que criou a luz e fez separação entre o dia e a noite, por causa da rebeldia do povo, em lugar da luz, trouxe trevas: morte através de pragas, pestilências, guerras, etc. (2 Crônicas 34.22-28; Deuteronômio 31.14-30).

Qual o objetivo do mal sobre os filhos de Israel? Estabelecer um sinal, de modo que se lembrassem do testemunho e se arrependessem (Deuteronômio 28.46 e 31.21). O mal, como maldição, servia para castigo e repreensão, para despertar os filhos de Israel à obediência, mas, quanto mais eram castigados, mais se rebelavam.

“Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco.” (Isaías 1.5);

“E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do SENHOR, E não desmaies quando por ele fores repreendido; Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos.” (Hebreus 12.5-8).

Através desses textos bíblicos, fica evidente que Deus é bom, veraz, verdadeiro, etc., mas, também, é conhecedor do bem e do mal (Gênesis 3.22). O homem, por sua vez, também se tornou conhecedor do bem e do mal, pois, na queda, perdeu a comunhão com Deus (morte), tornando-se mau, vil, baixo, mentiroso, etc.

De tudo o que foi demonstrado, a suma é: não é o conhecimento do bem e do mal alcançado através do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que torna o homem bom ou mau, antes é o seu nascimento que determina a sua condição: bom ou mau.

Se o homem descende de Adão é mau, independente das ações que venha a praticar: quer sejam boas ou, más. A descendência de Adão é classificada como filhos da desobediência, filhos da ira.

Para que o homem possa ser classificado como bom, independe das suas ações, se boas ou, más, pois, é necessário que nasça de novo, de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

A essência da mensagem do evangelho é o novo nascimento pois, só nascendo de novo, é possível ao homem se tornar participante da natureza divina (2 Pedro 1:4).

“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.” (Gálatas 3.26);

“Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo.” (1 João 4.17).

Através do novo nascimento, os homens se tornam filhos de Deus, luz no Senhor, pedras vivas, Sacerdócio real e santo e estão assentados nas regiões celestiais em Cristo ou, seja, tal qual Cristo é, ainda, neste mundo.

O mau nasce mau e, por isso, é dito:

“Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um.” (Salmo 53.3).

Quando todos se desviaram e, juntamente, se fizeram imundos? No Éden, através da ofensa de Adão.

Os maus alienam-se no ventre. Quando nascem, os ímpios percorrem um caminho tortuoso que, inexoravelmente, os conduz à perdição e, por isso, são mentirosos, são vaidade, desvanecem como a relva.

“Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras.” (Salmos 58.3).

 

Deus criou o mal?

Há teorias mil, que se propõem a apresentar Deus como bom e sem qualquer relação com o mal.

Há até quem diga que o Deus do Antigo Testamento é malévolo, por causa da sua ira e vingança, contrastando-o com Jesus, o Deus do Novo Testamento, benevolente. Tal abordagem é um equívoco completo, pois o Deus do Antigo Testamento é o mesmo do Novo Testamento, tanto que Jesus é apresentado como o Verbo que, no princípio, estava junto com o Pai.

Há quem diga que Deus é equilíbrio, portanto, tanto bom como mau. Esse é um pensamento oriundo das religiões orientais e utilizam símbolos como “yin-yang”. A Bíblia não apresenta Deus como forças opostas ou, que se completam. Na Bíblia, o que mais se aproxima da ideia do “yin-yang” é o fruto do conhecimento do bem e do mal, que demonstra que o bem e o mal faz parte de um todo inseparável: o conhecimento.

Se alguém dá esmolas, pensa fazer o bem, entretanto, faz igualmente o mal, ao perpetuar a miséria do outro. O pai que castiga o filho para corrigir, parece fazer o mal, mas o que busca é o bem, de modo que, através desses exemplos, fica patente que o bem e o mal são ‘faces’ (sabor) de uma mesma moeda (fruto).

Mas, a abordagem mais absurda emerge da chamada teologia reformada, que diz que Deus é, em última instância, o criador do mal e do pecado.

Na análise da doutrina reformada, utilizaremos a abordagem do Dr. Vincent Cheung:

“Não estamos usando a palavra “criar” no mesmo sentido da criação original de Deus do nada, mas estamos nos referindo ao controle de Deus sobre coisas que Ele já criou. Isto é, embora os maus pensamentos e as inclinações devam ser ativamente causadas na criatura por Deus, e, portanto, Ele deva ativamente causar a má ação correspondente, todavia, Ele não cria um novo material ou substância quando Ele faz isto, visto que Ele está controlando o que Ele já criou. É verdade que uma pessoa peca segundo a sua natureza má, mas como Lutero escreveu, é Deus quem “cria” esta natureza má em cada pessoa concebida segundo o padrão do Adão caído, cuja queda Deus também causou. E então, Deus deve ativamente causar esta natureza má para funcionar e a pessoa age de acordo com ela. Lutero escreveu que Deus nunca permite que esta natureza má fique ociosa em Satanás e nas pessoas ímpias, mas Ele continuamente a faz funcionar por seu poder. (Veja The Bondage of the Will de Lutero e meu “Chosen in Christ”).” Cheung, Vincent, Por que Deus Criou o Mal? < http://www.monergismo.com/textos/problema_do_mal/cheung_porque_deus_mal.htm > Consulta realizada em 07/02/19.

Enquanto a Bíblia apresenta Deus criando o homem isento do pecado e, em seguida, narra o evento que evidencia que o homem, por sua própria desobediência se degenerou, Cheung afirma que Deus criou o mal, pois Ele criou o homem e detém o controle sobre todas as coisas.

Embora afirme que Deus não criou o mal no sentido da criação original do nada, afirma que Deus criou o mal por controlar tudo o que criou. Dessa exposição, vê-se o absurdo de entender que Deus ativamente causou os maus pensamentos e as más inclinações de Adão. Essa proposição, impõe a Deus culpa por Adão, sob influência da mulher, ter lançado mão do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

“Isto é, embora os maus pensamentos e as inclinações devam ser ativamente causadas na criatura por Deus, e, portanto, Ele deva ativamente causar a má ação correspondente…”

É verdade que uma pessoa peca segundo a sua natureza má, mas como Lutero escreveu, é Deus quem “cria” esta natureza má em cada pessoa concebida segundo o padrão do Adão caído, cuja queda Deus também causou.”

Diferentemente, as cartas do Novo Testamento demonstram que Deus não é a causa do pecado:

“Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.” (Tiago 1.15);

A concupiscência é quem deu à luz o pecado e não Deus (Tiago 1.13). Percebe-se que Eva não foi tentada por Deus, mas, por Satanás. Porém, a tentação que levou à queda do homem, teve origem na concupiscência, que atraiu e engodou a mulher: concupiscência dos olhos – viu que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento, pois, desobedeceu e comeu do fruto. A condescendência de Adão em, também, comer do fruto, trouxe o pecado ao mundo e o pecado, por sua vez, a morte.

Não foi por Deus que entrou o pecado no mundo, mas, por Adão:

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte…” (Romanos 5.12).

O mandamento dado no Éden era para preservar a comunhão do homem com Deus, mas, por causa da concupiscência, o homem foi tentado, atraído e engodado. Pelo mandamento justo, santo e bom, o pecado encontrou ocasião e toda a humanidade morreu.

O apóstolo Paulo, como representante do homem judeu, evidencia que houve um tempo em que os filhos de Israel viveram sem uma lei positiva, mas, com a vinda do mandamento, o pecado reviveu, pois, o que era para vida, tornou-se em morte, devido à concupiscência, que é própria aos homens. O pecado engana aqueles que viviam sob a lei, pois, através do que é santo, justo e bom, o pecado se mostra excessivamente maligno, pois mata.

“Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado. E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri. E o mandamento que era para vida, achei eu que me era para morte. Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou, e por ele me matou. E assim a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom. Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno” (Romanos 7.8-13).

“E o SENHOR nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos, que temêssemos ao SENHOR nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje.” (Deuteronômio 6.24).

Deus criou o homem bom ou, seja, segundo a sua natureza: santa, justa e boa. O homem, por sua vez, na queda, se tornou mau ou, seja, ímpio, injusto, imundo e mau. O homem, em comunhão com Deus, era bom, mas, na queda se tornou vil, mau, baixo, mentira.

A condição vil do homem não é uma ‘criação’ de Deus, mas, sim, o resultado de uma escolha que se impôs, por força do mandamento, que estabelecia: ‘certamente morrerás’“Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.” (1 Coríntios 15.56).

Deus alertou o homem que a desobediência teria como consequência a separação de Deus e essa nova condição do homem recebe o predicativo de mau, vil, mentiroso, etc.

É Deus quem cria a natureza má em cada pessoa que nasce? De modo algum! Quando Deus criou o homem, concedeu-lhe a capacidade de se procriar, ao abençoá-lo, dizendo: “Frutificai e multiplicai-vos…” (Gênesis 1.28). Como os dons de Deus são irrevogáveis (Romanos 11.29), trazer outros semelhantes ao mundo, segundo a sua própria imagem e semelhança, é capacidade própria aos homens e, por isso, produzem sementes (óvulos e espermatozoides), segundo a benção de Deus, concedida antes da queda.

A natureza má não é uma criação original de Deus, mas, uma condição que é própria à humanidade, que está separada d’Ele. Enquanto Deus é real ou, seja, enquanto Ele possui realeza, o homem é vil, ralé.

Isto posto, compreende-se a exposição de Jesus:

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mateus 7.11).

Os ouvintes de Jesus eram maus, mas todos estavam aptos a praticarem boas e más ações. É por isso que, mesmo um pecador (mau), dá pão aos seus semelhantes, e não cobras e escorpiões. Um pecador é mau no sentido de vil, plebe, ralé, entretanto, no exercício de sua razão, pode guiar-se, segundo o conhecimento adquirido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

A resposta para a pergunta: Deus criou o mal? É não, isto porque os filósofos pensam o mal somente como malignidade, maldade, calamidade! Deus criou o homem bom, e o homem, por sua ofensa, se tornou mau, e no mesmo evento que trouxe a condição de ‘mau’ à humanidade, o homem se fez conhecedor do bem e do mal, ou seja, tornou-se como Deus: apto a guiar-se entre o bem e o mal. Deus é bom e tudo que criou era igualmente bom, e no momento da criação detinha o conhecimento do bem e do mal. Deus não criou o mal, visto que, o mal, como conhecimento, desde a eternidade faz parte do conhecimento de Deus. Em essência, o mal faz parte do conhecimento que Deus detém desde a eternidade, conhecimento que o homem lançou mão através do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2.9). Ora, mesmo o fruto da árvore do conhecimento sendo do ‘bem’ e do ‘mal’, Deus deu testemunho de que tudo que criou era bom (Gênesis 1.31).

“Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal….” (Gênesis 3.22).

Deus é eterno, imutável, transcendente e conhecedor do bem e do mal, consequentemente, o bem e o mal por ser conhecimento subsistem desde sempre em Deus, e por isso, é impossível o mal ter sido criado.

De tudo que foi analisado, vale destacar que a proposta do evangelho não está em corrigir a problemática das escolhas que os homens fazem entre o bem e o mal (fruto), e sim, o resultado da desobediência (pecado) que tornou o homem vil, mau, ralé.

Resultará em inúmeros equívocos tentar dar uma resposta às questões filosóficas, acerca do ser e a existência do mal, sendo um desses erros negar o livre-arbítrio do homem e enfatizar a soberania de Deus. Isso porque a filosofia trata do ser segundo uma cosmovisão recente, enquanto que a Bíblia explica a realidade espiritual da humanidade, através das relações sociais que pautavam as sociedades antigas.

É próprio a filosofia ler a Bíblia da mesma forma que os poetas e compositores citados acima leram o provérbio português: “Quem é bom já nasce feito, quem quer se fazer não pode”, pois os filósofos interpretam a Bíblia embriagados com os valores de uma sociedade contemporânea e segundo uma perspectiva acadêmica que sempre é inovadora, e se esquecem que a linguagem bíblica emerge dos princípio e valores de sociedades antiquíssimos, pois a literatura que estudam da antiguidade geralmente não reflete os valores da organização social à época, visto que os trabalhos acadêmicos à época refletem o pensamento de homens além do seu tempo, pois os acadêmicos quase sempre possuem uma visão inovadora.

A proposta do evangelho não visa dar respostas às questões metafisicas e ontológicas, antes, devolver ao homem à sua condição original, propondo um novo nascimento, através da morte e ressurreição com Jesus. O homem sem Deus é vil, e somente através da morte com Cristo livra-se da condição herdada de Adão, e na ressurreição com Cristo adquire uma nova natureza que lhe confere direito a uma herança incontaminável guardada no céus.

Certo é que todos os que comparecerem ante o Tribunal de Cristo estarão salvos, em união plena com Deus, mas, tal condição não é obstes à prática do mal, enquanto neste mundo.

“Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal. (2 Coríntios 5.10).

É pela possibilidade de praticar ações reprováveis (mal), que o escritor aos Hebreus se propôs ser honesto em tudo.

“Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente.” (Hebreus 13.18).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

[1] < http://gafieiras.com.br/wp-content/uploads/2014/06/PDF-Vieira-e-Riach%C3%A3o.pdf >

[2] “Eles se denominam, por exemplo, ‘os vorazes’; primeiramente a nobreza grega, cujo porta-voz é o poeta Teógnis de Megara. A palavra cunhada para este fim, αγαθός [bom, nobre], significa, segundo sua raiz, alguém que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro; depois, numa mudança subjetiva, significa o verdadeiro enquanto veraz: nesta fase da transformação conceitual ela se torna lema e distintivo da nobreza, e assume inteiramente o sentido de ‘nobre’, pra diferenciação perante o homem comum mentiroso, tal como Teógnis o vê e descreve – até que finalmente, com o declínio da nobreza, a palavra resta para designar a aristocracia espiritual, tornando-se como que doce e madura” Nietzsche, Friedrich, Genealogia da moral: uma polemica; tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza – São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pág. 19.

“… com o declínio da nobreza, a palavra (αγαθός) resta para designar a aristocracia espiritual (…) desta regra, a de que o conceito denotador de preeminência política sempre resulta em um conceito de preeminência espiritual…” Nietzsche, Friedrich, Genealogia da moral: Uma polêmica, 2° reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pág. 20 e 21.

“Os ‘bem-nascidos’ se sentiam mesmo como os ‘felizes’; eles não tinham de construir artificialmente a sua felicidade, de persuadir-se dela, menti-la para si, por meio de um olhar aos seus inimigos (como costumam fazer os homens do ressentimento); e do mesmo modo, sendo homens plenos, repletos de força e portanto necessariamente ativos, não sabiam separar a felicidade da ação – para eles, ser ativo é parte necessária da felicidade (nisso tem origem [fazer bem: estar bem]” Idem.

[3] “כחש 03586 kechash procedente de 3584; DITAT – 975b; adj 1) enganoso, falso, enganador, mentiroso” Dicionário Bíblico Strong.

[4] “כזב 03576 kazab uma raiz primitiva; DITAT – 970; v 1) mentir, contar uma mentira, ser um mentiroso, ser achado mentiroso, ser em vão, falhar 1a) (Qal) mentiroso (particípio) 1b) (Nifal) ser provado estar mentindo 1c) (Piel) 1c1) mentir, contar uma mentira, contar uma mentira com, enganar 1c2) desapontar, falhar 1d) (Hifil) tornar um mentiroso, provar que é um mentiroso” Dicionário Bíblico Strong.

[5] “O termo grego traduzido por ‘bom’ no Novo Testamento é ἀγαθούς (agathos), com origem em outra raiz correspondente ao substantivo Arete, daí a necessidade de considerar a essência do termo na sociedade grega antiga: “… continha em si a conjugação de nobreza e bravura militar (…) quase nunca tem o sentido posterior de ‘bom’, como arete não tem o de virtude moral” Jaeger, Werner, Paideia, A Formação do homem Grego, tradução Artur M. Parreira, São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2003. Pág. 27; “Senhorio e arete estavam inseparavelmente unidos. A raiz da palavra é a mesma: άριστος, superlativo de distinto e escolhido…” Idem, Pág. 26.

[6] Crispim, Claudio, Por que Deus é bom? < https://estudosbiblicos.org/por-que-deus-e-bom/ > Consulta realizada em 09/02/19.

[7] “Quanto ao propósito de Deus para o pecado, primeiro, ao reconhecer ousadamente a verdade bíblica de que Deus é o soberano e justo “autor do pecado”, podemos notar que até mesmos se fôssemos incapazes de responder a questão do porquê Ele causou o pecado e o mal, isso não proporia um problema para o Cristianismo, nem invalidaria o que eu tenho dito sobre o assunto do “autor do pecado” Cheung, Vincent, Por que Deus Criou o Mal? < http://www.monergismo.com/textos/problema_do_mal/cheung_porque_deus_mal.htm > Consulta realizada em 07/02/19.