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O evangelista João é enfático ao apresentar, de modo objetivo, como se percebe que alguém ama o seu irmão: quando ama a Deus, ou seja, quando guarda o Seu mandamento!


Como amar os irmãos?

“Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (1 João 5:2)

Introdução

Inúmeros pensamentos, sobre como amar os irmãos, são apresentados nos púlpitos, em seminários, em tratados, nos livros, porém, na sua grande maioria, tais recomendações decorrem de questões subjetivas.

Como amar o irmão, se o que entendemos por amor não pode ser mensurado, provado ou demonstrado por evidências físicas, visto estarem atreladas as questões de foro íntimo, como sentimentos e emoções? Como amar, se palavras, atitudes e ações não evidenciam, de maneira prática, inequívoca e irrefutável o que é o amor bíblico?

Quando pensamos o amor do ponto de vista sentimental, temos de considerar o amor como uma via de mão dupla pois, quem é amado, também, tem que se sentir amado.

Neste sentido, não basta quem ama deixar de fazer ao outro o que não deseja que outros lhe façam, se o outro não considerar ou sentir que está sendo amado. Não basta entender que amar é fazer o bem ao outro, se o outro não compreender que o que está sendo feito é o bem, consequentemente, não se sentirá amado.

O que seria o bem a ser feito para com o irmão? Dar uma esmola é fazer o bem? A esmola não seria o mal, quando se perpetua a mendicância e a miséria? O outro não se sentirá ofendido, caso lhe seja oferecido auxilio?

Geralmente, não gostamos de ser repreendidos. Dai, a pergunta: a repreensão não é o bem? Se alguém nos repreende, não estaria amando?

O maior problema de definirmos o amor ou, o bem que se deve ao outro, está no campo do subjetivismo, o que nos leva a questionarmos: como amar o irmão?

Vale destacar que doar bens materiais ou se deixar desgastar, até exaurir o fôlego de vida para melhorar as condições econômicas dos pobres, não é o amor exigido por Deus (1Co 13:3). Abraçar causas sociais assistencialistas, feministas, abolicionistas, sindicalistas, não é o amor exigido por Deus. Levantar bandeira contra o homossexualismo, o ateísmo, o liberalismo, o humanismo, não é o amor exigido por Deus!

Tudo quanto a nossa sociedade, na atualidade, considera como amor, geralmente depende de questões subjetivas. Mas, o mandamento “… deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13:34), possui um elemento objetivo e todos os cristãos devem obedecer.

“Portai-vos de modo que não deis escândalo, nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus. Como, também, eu, em tudo, agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar” (1Co 10:32-33).

 

Diferença entre amor e afeição

Antes de continuarmos a análise, o leitor precisa estar informado acerca de dois termos gregos:

  1. αγαπη (agapē), comumente, traduzido por amor, caridade, misericórdia e;
  2. σπλαγχνον (splagchnon), traduzido por entranhas, que aponta para a sede das afeições humanas, de onde procede a bondade, a benevolência, a compaixão, etc.

Os lexicógrafos, geralmente, entendem que o termo αγαπη[1] (agapē) não possui um significado específico e raramente era utilizado na literatura grega. A ideia que o termo transmitia, antes de ser utilizado pelos escritores do Novo Testamento, era para ‘expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso’. Daí a indefinição dos tradutores, que ora vertem o termo por amor, outras vezes por caridade e outras por misericórdia.

Mas, indefinições à parte, o termo era utilizado para indicar as honras devidas aos visitantes (hospitalidade) ou, para indicar a honra devida ao outro.

O termo grego σπλαγχνον[2] (splagchnon), que significa entranhas, foi utilizado pelos apóstolos para fazer referência aos sentimentos.

É cediço que as entranhas (coração, pulmão, fígado, etc.), eram consideradas pelos povos da antiguidade como a sede dos sentimentos, como amor e ódio. O povo Hebreu seguia essa mesma linha de pensamento, daí as afeições mais sensíveis, como bondade, benevolência, compaixão,  serem representadas pelas entranhas.

“Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus?” (1 Jo 3:17).

O apóstolo João deu um exemplo claro ao usar o termo traduzido por ‘entranhas’ (σπλαγχνον), no verso acima, ao instruir os cristãos a serem benevolentes, bondosos, caridosos, etc.

 

Amar a Deus

O evangelista João é enfático ao apresentar, de modo objetivo, como se percebe que alguém ama o seu irmão: quando ama a Deus, ou seja, quando guarda o Seu mandamento!

Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (1 João 5:2)

“ἐν τούτῷ γινώσκομεν ὅτι ἀγαπῶμεν τὰ τέκνα τοῦ θεοῦ. ὅταν τὸν θεὸν ἀγαπῶμεν καὶ τὰς ἐντολὰς αὐτοῦ ποιῶμεν” Westcott/Hort with Diacritics.

O evangelista não diz que quem ama a Deus é aquele que se propõe a perdoar o seu irmão, ou servir o outro, sem pedir nada em troca ou, fazer o bem, sem olhar a quem ou, não desejar o mal ao outro, etc. Amar a Deus é obedecer ao seu mandamento: crer em Cristo (1 Jo 3:23).

A abordagem de João é especifica: nisso conhecemos, ou seja, nisso sabemos. Só é possível saber que amamos os filhos de Deus (ao irmão ou, uns aos outros), quando amamos (obedecemos) a Deus.

Os filhos de Deus são todos os que creem em Cristo ou, seja, gerados de Deus, portanto, irmãos: “Todo o que crê que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus” (1 Jo 5:1).

O amor de Deus é manifesto nisto: que guardemos seus mandamentos[3] (1 Jo 5:3). Só ama a Deus quem cumpre o seu mandamento, como se observa:

“Se me amais, guardais os meus mandamentos” (Jo 14:15);

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama” (Jo 14:21);

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará e viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama, não guarda as minhas palavras” (Jo 14:23-24).

Quem ama a Deus, deve amar por obra e em verdade ou, seja, não de palavra ou de língua (1 Jo 3:18). Isso significa que o verbo ἀγαπάω não aponta para o sentimento do homem, mas, para a disposição em honrar a quem ordena.

‘Honrar’ é o sentido que abstraímos da profecia de Isaias:

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13);

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 Jo 3:18).

O mandamento (temor) que os filhos de Israel obedeciam (honra) era somente temor (mandamento) de homens.

“E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim; Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas” (Mc 7:6-8).

Estes versos demonstram que o amor a Deus não consiste em sentimentos, mas, sim, em sujeitar-se a Ele, cumprindo o que foi ordenado[4]. O significado de amor transmutou-se ao longo do tempo, de sujeição de um servo ao seu senhor, passando a significar sentimento, afetividade.

“Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22);

“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6);

Por isso o alerta:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

O amor expresso por Jesus indica obra, serviço, sujeição a um senhor. Amor e ódio não se referem a sentimentos, mas à ideia de obedecer, de honrar ao seu senhor.

Após verificar que só ama a Deus quem obedece ao Seu mandamento, resta saber qual é o mandamento de Deus.

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele” (2 Jo 1:6).

O evangelista João, objetivamente, aponta qual é o mandamento de Deus:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23).

Crer em Cristo é o mandamento de Deus e aquele que crê em Cristo ama a Deus, ou seja, obedece a Deus. Com base no exposto pelo apóstolo João, só é possível verificarmos que amamos os irmãos quando efetivamente cremos em Cristo, ou seja, quando guardamos (amamos) o Seu mandamento.

“Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (1 João 5:2).

O mesmo princípio utilizado para verificarmos se o cristão está em comunhão com Deus é utilizado para verificarmos se o cristão ama os irmãos. Observe:

“E nisto sabemos que o conhecemos[5]: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade. Mas, qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele, verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele” (1 Jo 2:3-5).

Quando é dito que conhecemos a Deus, na verdade o termo traduzido por ‘conhecer’ expressa a ideia de comunhão, união. Quando é dito: γινώσκομεν ὅτι ἐγνώκαμεν (sabemos que o conhecemos), é utilizado os termos que são traduzidos por ‘saber’ e ‘conhecer’.

O termo γινώσκομεν é saber, conhecer, perceber e o termo ἐγνώκαμεν, além do significado de saber, conhecer, também significa ter comunhão intima, indicando a ideia de um corpo.

Só desfruta de comunhão intima com Deus aquele que obedece aos seus mandamentos (1 Jo 3:24). Ora, só é possível saber se alguém está n’Ele, quando esse alguém O obedece, ou seja, O ama. Só é possível identificar quem ama o irmão quando essa pessoa obedece a Deus, ou seja, se fez servo de Deus, crendo em Cristo.

É condição sine qua non ter comunhão com Deus para ser possível amar ao irmão!

“Aquele que diz que está na luz e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz e nele não há escândalo” (1 Jo 2:9-10).

 

Amar ao irmão

“E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 Jo 4:21)

Ama a Deus quem crê em Cristo e quem crê em Cristo, deve amar ao irmão, segundo o Seu mandamento (1 Jo 3:23). Mas, só ama os filhos de Deus (irmão) quem crê em Cristo, ou seja, quem ama o seu irmão segundo o mandamento de Deus (1Jo 5:2).

No entanto, além de obedecer ao mandamento de Deus (que é crer em Cristo), os que creem em Cristo receberam o mandamento de amarem aos seus irmãos, segundo o que foi ordenado.

Enquanto o cristão ‘servir’ ao seu irmão em Cristo demonstra amor a Deus (Hb 6:10). Em função do mandamento de Deus, o crente deve honrar aos outros cristãos (Rm 13:8).

“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis, então, da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor” (Gl 5:13);

“Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o SENHOR; e nós mesmos somos vossos servos, por amor de Jesus” (2 Co 4:5).

Os judaizantes instavam os cristãos a guardarem a lei para serem salvos, porém, basta ao cristão honrar ao outro irmão, para ser cumpridor da lei.

O apóstolo Paulo, juntamente com Barnabé, contendeu com alguns cristãos convertidos, dentre os judeus que vieram de Jerusalém, pois diziam que os gentios que se converteram a Cristo deveriam se circuncidar (At 15:1-5). A disposição do apóstolo Paulo em defender a verdade do evangelho, foi um cuidado dispensado aos irmãos, segundo o mandamento de Deus: amor segundo o evangelho.

Mas, objetivamente, como amar o irmão? Neste ponto se faz necessário diferenciar o sentimento humano que denominamos por ‘amor’ e o mandamento de Deus, que também é designado por ‘amor’.

Quando o apóstolo dos gentios faz referência ao ‘amor’ como sentimento, para expressar a ideia de ‘gostar de alguém ou, de algo’ (ter em alta conta), geralmente faz uso do termo grego σπλάγχνα, que também se refere aos órgãos internos, como as vísceras que, em nossos dias, remete ao coração, ou à sede das emoções humanas. Figurativamente, o termo é utilizado para apontar os sentimentos do homem, a capacidade para sentir empatia, compaixão, afeto, etc.

Quando falamos de sentimentos, falamos de algo subjetivo, que flui por uma via de mão dupla. Um exemplo, verifica-se no apóstolo Paulo, pois ele amava, afetuosamente, os cristãos de Corinto, porém, alguns deles não consideravam desta forma.

Alguns cristãos de Corinto não conseguiam aquilatar o sentimento que o apóstolo Paulo nutria por eles, por conseguinte, estavam ‘estreitados’ no sentimento para com o apóstolo: “Não estais estreitados em nós; mas estais estreitados nos vossos próprios afetos” (2 Co 6:12). O termo utilizado pelo apóstolo Paulo para fazer referência ao afeto dos cristãos de Corinto é σπλάγχνα, ou seja, entranhas, intestinos (coração, pulmão, fígado, etc.).

Ao escrever acerca de Onésimo a Filemom, o apóstolo Paulo faz uso do termo σπλάγχνα para descrever a sua amizade e apreço por Filemom. É patente, nesta epístola, que o apóstolo Paulo e Filemom possuíam uma boa amizade, pelo teor do pedido do apóstolo.

Na epístola a Filemom, inicialmente, o apóstolo dos gentios dá graças a Deus e enfatiza que sempre faz menção do irmão Filemom em suas orações (Fm 1:4), por ouvir acerca do amor e da fé de Filemom, em Cristo. A fé (crença) de Filemom é resultado do seu amor, ou seja, da obediência ao evangelho (fé). Em decorrência de Filemom ter crido em Cristo, o apóstolo sentiu grande gozo e consolação (Fm 1:7), e os sentimentos dos santos foram acalentados.

Pela sua posição, como apóstolo, Paulo podia ordenar a Filemom que o obedecesse, porém, pediu, um modo de honrá-lo (amor) (Fl 1:8-9). Ao enviar o irmão Onésimo, que pertencera a Filemom, como escravo, o apóstolo Paulo esperava que Filemom recebesse Onésimo, como se fosse as suas próprias entranhas, ou seja, o apóstolo dá destaque ao vínculo do sentimento de apreço, que havia entre eles (Fl 1:12, 17).

Hoje, em nossa língua, seria como se o apóstolo escrevesse que estava enviando o seu próprio coração, uma forma de expressar o seu sentimento. Esse cuidado do apóstolo, dispensado a Onésimo, também é amor, pois roga a Filemom que receba o seu escravo Onésimo através do seguinte prisma:

a) como seu irmão amado, e;

b) como filho do apóstolo (Fl 1:16).

O apóstolo destaca duas razões para Filemom recepcionar Onésimo:

a) sujeição ao Senhor, e;

b) por Filemom e Onésimo compartilharem a mesma nacionalidade.

O sentimento de saudade que o apóstolo Paulo expressa aos cristãos de Filipos foi registrado nos seguintes termos:

“Porque Deus me é testemunha das saudades que de todos vós tenho, em entranhável afeição de Jesus Cristo” (Fl 1:8).

A saudade do apóstolo é sentimento (afeição) que decorre dos laços afetivos, ou σπλάγχνοις (entranhável afeição), que surgiram por causa de compartilharem a mesma doutrina. O evangelho os uniu como irmãos e, em decorrência dessa união, surgiram os laços afetivos.

Após expressar o seu sentimento, o apóstolo Paulo faz um pedido aos cristãos de Filipos: que o amor deles se desenvolva em discernimento e em conhecimento! Esse amor, que demanda  ἐπίγνωσις e αἴσθησις, respectivamente ‘conhecimento’ e ‘discernimento’, não é sentimental, mas, objetivo: obediência a Deus (crer em Cristo) com o dever de honrar os irmãos.

O apóstolo Pedro enfatiza que os cristãos são purificados por Deus, através da obediência ao evangelho (verdade), que leva ao amor fraternal sincero, que procede de um coração puro. Daí a ordem: amai-vos uns aos outros!

“Purificando as vossas almas pelo Espírito, na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos, ardentemente, uns aos outros, com um coração puro” (1 Pe 1:22).

A obediência à verdade leva ao amor fraterno (φιλαδελφίαν/philadelphia), que é livre de fingimento, de malícia, de engano, de inveja e de murmurações (1 Pe 2:1). Daí a ordem: amai-vos, intensamente, uns aos outros (ἀγαπήσατε ἐκτενῶς). ‘Amor fervente’, diz de um cuidado intenso para com os outros, em virtude do mandamento.

O apóstolo Pedro faz essa recomendação, para que os cristãos convertidos, dentre os judeus, mudassem sua concepção (1 Pe 1:13), portando-se como filhos obedientes: não seguindo as concupiscências de antes (1 Pe 1:14). Se como cristãos invocavam por Pai a Deus, que não faz acepção de pessoas (1 Pe 1:17), deveriam amar a todos cristãos, quer fossem judeus ou gentios convertidos.

Se o amor é sem fingimento, sem engano, sem malícia, os cristãos da dispersão (judeus convertidos), deveriam ser  hospitaleiros e sem murmurações (1 Pe 1:1). O apóstolo Pedro sinaliza que é necessário cuidar (amar, honrar) dos irmãos, sem fazer acepção. Portanto, cada qual deveria servir uns aos outros, conforme o dom que cada um recebeu (1 Pe 4:9).

A hospitalidade era uma questão sociocultural imprescindível à época dos apóstolos e um dos cuidados indispensáveis que todos os cristãos deveriam dispensar a todos os irmãos.

“PERMANEÇA o amor fraternal. Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns, não o sabendo, hospedaram a anjos” (Hb 13:1-2).

O escritor aos Hebreus instrui para que o amor fraterno seja contínuo. Um dos aspectos do amor fraternal é a hospitalidade. De que adianta alguém que chama os membros da comunidade de irmãos em Cristo, mas se recusa a receber outro, calcado em questões econômicas, sociais, nacionais, etc.

O ‘ardente amor’ (ἀγάπην ἐκτενῆ), apontado pelo apóstolo Pedro, é superior ao amor fraternal, pois este deriva daquele, por ser mandamento: amai-vos ardentemente (1 Pe 1:22).

Ao falar da hospitalidade, o apóstolo Pedro recomenda o ‘amor fervente’, ou seja, o cuidado intenso, uns para com os outros. Na ‘hospitalidade’, está implícito o amor que desfaz as ofensas (1 Pe 4:9; Pv 10:12), porque o ‘ódio’, no sentido de ‘desonra’, suscita contendas, dissensões, mas o ‘amor’, no sentido de ‘honra’, encobre (dissipa) transgressões, erros.

Temos que compreender a citação do apóstolo Pedro, à luz do contexto do Livro dos Provérbios:

“O ódio excita contendas, mas o amor cobre todos os pecados” (Pv 10:12);

“Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá uma multidão de pecados” (1 Pe 4:8).

Um cristão judeu receber outro cristão, em sua residência, não importando a sua nacionalidade, é amar fraternalmente. Essa hospitalidade é o mesmo que andar, dignamente, diante de Cristo, agradando a Ele em tudo, pois se Cristo não fez acepção de pessoas e chama, a todos que creem, de irmãos (Hb 2:11), os seus seguidores não podem fazer diferente: “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra e crescendo no conhecimento de Deus” (Cl 1:10).

Pensando na sociedade à época, a hospitalidade é pertinente a todos os cristãos. Cada qual deveria receber o outro, sem fazer comentários desairosos. De nada adiantava um cristão judeu recepcionar um cristão convertido, dentre os gentios, e, após despedi-lo, fazer gracejos, comentários e críticas sobre questões como: comidas, dias de festas, genealogias, jejuns, votos, etc. “Portanto recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu, para glória de Deus” (Rm 15:7).

Quando o apóstolo Pedro instrui a servir uns aos outros, a ideia é que cada cristão tivesse o outro em alta conta, ou seja, em honra. Além da hospitalidade, cada qual deveria servir o outro, segundo o dom que recebera de Deus, como bons despenseiros do evangelho (1 Pe 4:10).

Como despenseiros da multiforme graça de Deus, quem fala aos irmãos, para que instruam segundo as palavras de Deus; ou, para quem ministra, que ministre segundo o poder concedido por Deus (evangelho), de modo que Deus seja glorificado. Quem instrui ou, quem ministra uma palavra, que não é segundo a verdade do evangelho, não ama a seu irmão.

Que valor teria, alguém ministrar os irmãos com base em tradições e ordenanças de homens? Que valor teria alguém ensinar aos cristãos a hospitalidade, com base em preceitos de homens? Tal ensinamento promove dissensão e não o amor fraternal, segundo o evangelho! Esse ensinamento diz do ‘fermento’ dos fariseus, ou, do ‘vinho’ em que há contenda!

Falar a verdade é aspecto próprio ao fruto dos lábios, apontado pelo escritor aos Hebreus, pois, por ele, Deus é glorificado: “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz, nas vossas portas” (Zc 8:16; Ef 4:25; Hb 13:15; Jo 15:8).

Cristo é a verdade, e confessar a Cristo como Senhor, é dizer a verdade. Da mesma forma que o apóstolo Pedro, Paulo aponta qual é o modo pelo qual amamos os nossos irmãos:

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual, também, para o que é dos outros” (Fl 2:3-4).

Em poucas linhas, o apóstolo dos gentios apresenta como deve ser o amor dos cristãos, para com os irmãos. De tudo quanto o cristão vai fazer ou, deixar de fazer, que as suas ações ou omissões não sejam para promover contenda ou, para se autopromover.

Tudo quanto o cristão vai fazer ou, deixar de fazer, em relação ao seu irmão, deve ser por humildade (sujeição), ou seja, em obediência a Deus.

A ordem para se humilhar debaixo das potentes mãos de Deus, significa que é para o cristão se fazer servo de Deus (Tg 4:10; 1 Pe 5:6), assim como Cristo humilhou-se a si mesmo (se fez servo), sendo obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2:8).

Um homem livre era humilhado, se perdesse a sua condição de livre e fosse feito escravo. No evangelho, o homem deve humilhar-se a si mesmo, ou seja, se fazer escravo de Deus, crendo em Cristo (Rm 6:18).

Agora, em Cristo, o cristão recebe a ordem para amar o irmão, ou seja, tê-lo em honra. Como amar? Considerando o outro superior a si mesmo!

“… cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Fl 2:3).

– “Mas eu sou senhor de escravos”! O dever como servo de Cristo, é considerar o irmão que é escravo, superior a si mesmo! – “Mas eu sou cidadão Romano”! O dever é considerar todos os outros cristãos como superior a si mesmo! – “Mas eu sou Judeu”! O dever é não fazer acepção de pessoas!

O amor bíblico está acima de um sentimento para com o outro, pois é um mandamento! A afeição somente vai aflorar com o tempo e pela inteiração que surge das relações entre aqueles que amam a Deus!

Na comunidade de Filipos reuniam servos e livres, homens e mulheres, judeus e gregos, sábios e ignorantes, etc., mas cada um tinha que considerar o outro como superior a si mesmo, ou seja, em alta conta, em honra. Isto é amor, como mandamento, diferente do afeto entranhável, que é sentimento.

Se os membros daquela comunidade compreendiam a essência do evangelho, deveriam entender que, no corpo de Cristo “… não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3:28).

Assim como no corpo damos honra aos membros que possuem menos honra, assim, também, deve ser o comportamento do cristão para com o seu irmão:

“E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos, damos muito mais honra. Porque os que, em nós, são mais nobres, não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela; Para que não haja divisão no corpo, mas, antes, tenham os membros igual cuidado uns dos outros” (1 Co 12:23-25)

Quem faz por humildade, cumpre o que é ordenado:

“Sujeitando-vos uns aos outros, no temor de Deus” (Ef 5:21);

“Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor” (Ef 5:22);

“Vós, mulheres, estai sujeitas a vossos próprios maridos, como convém no Senhor” (Cl 3:18);

“Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana, por amor do Senhor; quer ao rei, como superior” (1 Pd 2:13);

“Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hb 13:17).

Sujeitar-se a Cristo (jugo), obriga o cristão a carregar o fardo de Jesus, que é leve. O jugo é tomado quando se crê em Cristo, já o fardo refere-se ao dever de honrar o irmão, suportando uns aos outros, em amor.

“ROGO-VOS, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros, em amor(Ef 4:1-2).

Suportar uns aos outros é um fardo decorrente do jugo, portanto, não é agradável, ou, decorrente de afeição, mas, por sujeição ao mandamento do Senhor: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:29-30).

É agradável um cristão, convertido dentre os judeus, receber em casa um grego? Como ser hospitaleiro, contrariando uma gama de tradições herdada dos pais? Como adentrar a casa de um gentio, se não for por amor (sujeição a Deus)? Como conceder a mão de uma filha a alguém que não é da minha nação? Etc.

“E foi-lhe dirigida uma voz: Levanta-te, Pedro, mata e come. Mas Pedro disse: De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda. E segunda vez lhe disse a voz: Não faças tu comum ao que Deus purificou” (At 10:13-15).

“E disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo. Por isso, sendo chamado, vim sem contradizer. Pergunto, pois, por que razão mandastes chamar-me?” (At 10:28-29).

Cada cristão deve aprender de Cristo, que é humilde e manso de coração, para poder, com longanimidade, em humildade e mansidão, suportar o outro em obediência (amor) a Deus!

Daí a ordem para os servos:

“E os que têm senhores crentes não os desprezem, por serem irmãos; antes, os sirvam melhor, porque eles, que participam do benefício, são crentes e amados. Isto ensina e exorta” (1 Tm 6:2).

Recomendação semelhante aos senhores:

“VÓS, senhores, fazei o que for de justiça e eqüidade a vossos servos, sabendo que também tendes um Senhor nos céus” (Cl 4:1);

“E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças, sabendo também que o SENHOR deles e vosso está no céu, e que para com ele não há acepção de pessoas” (Ef 6:9).

Observe:

“Ninguém oprima ou engane a seu irmão, em negócio algum, porque o SENHOR é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos. Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação. Portanto, quem despreza isto não despreza ao homem, mas, sim, a Deus, que nos deu também o seu Espírito Santo. Quanto, porém, ao amor fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus, que vos ameis uns aos outros; Porque também já assim o fazeis, para com todos os irmãos, que estão por toda a Macedônia. Exortamo-vos, porém, a que ainda nisto aumenteis cada vez mais” (1 Ts 4:6-10).

O apóstolo Paulo instruiu aos cristãos que não oprimam ou enganem o outro, em negócio algum. De modo que, quem despreza a ordenança transmitida pelo apóstolo Paulo, na verdade despreza a Deus, que também concedeu a ele o Espírito Santo. Essa ordem alcança, tanto senhores, quanto servos, gentios ou judeus, homens ou mulheres.

Amar uns aos outros, é instrução dada por Deus, o que deve ser feito sem distinção (nacionalidade, língua, condição social, etc.) para com todos. Esse serviço deve aumentar cada vez mais (1 Ts 3:12; 1 Ts 4:1, 10). Como? Acrescentando à fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraternal e ao amor fraternal, o amor (2 Pd 1:5-7).

Se todos os elementos apontados pelo apóstolo Pedro forem acrescentados uns aos outros, o cristão não será ocioso e nem deixará de produzir (2 Pd 1:8). Daí a necessidade de oobediência ao mandamento: ter o outro em alta conta, ou seja, em consideração. “E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb 10:24). [6]

Se um judeu quiser viver como judeu, não há problema algum, mas, pelo dever de honrar a seu irmão, não pode impor aos outros, as suas práticas, herdadas por tradição, dos seus pais. Um cristão convertido, dentre os judeus, que se sujeita ao Senhor, deve reger as suas atitudes, em submissão ao Senhor: sem fazer acepção de pessoas.

Por essa razão, o apóstolo Paulo repreendeu o apóstolo Pedro:

“E, chegando Pedro a Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível. Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, foi se retirando e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus, também, dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não andavam bem e corretamente, conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro, na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gl 2:11-14).

Emquanto comia com os gentios, o apóstolo Pedro amava os gentios, segundo o mandamento de Deus. Mas, por causa da chegada de alguns cristãos convertidos dentre os judeus, juntamente com Tiago, o apóstolo Pedro separou-se dos cristãos convertidos dentre os gentios, deixando de honrá-los (cuidando, honrando): “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23).

O mandamento do amor não visa implantar ou promover filosofias, dogmas, ritos, legalismos, formalismos, e nem tem por base questões de ordem econômica ou, social. Assistência social não é o mesmo que amar.

O mandamento do amor deriva do evangelho, pois é um complemento que orna a doutrina do evangelho. Se for de valia para a edificação do corpo de Cristo, cada cristão deve agradar a seu irmão, no que é bom para crescimento do corpo de Cristo.

“Portanto, cada um de nós agrade ao seu próximo, no que é bom para edificação. Porque, também Cristo não agradou a si mesmo, mas, como está escrito: Sobre mim caíram as injúrias dos que te injuriavam” (Rm 15:1-2);

“Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros” (Rm 14:19).

A essência do mandamento do amor é para que os cristãos andem, segundo o evangelho de Cristo, que desfez a barreira de separação entre judeus e gentios (Ef 2:14). Se não há barreira entre judeus e gentios no corpo de Cristo, como um membro do corpo deve portar-se em relação ao seu irmão?

Embora a realidade em Cristo seja a reconciliação de judeus e gentios, pois de dois povos fez um, viver essa nova realidade demandava boa compreensão da verdade do evangelho, bem como abrir mão de convicções que eram tão caras aos cristãos, quando ainda na ignorância.

Os cristãos convertidos dentre os judeus não podiam julgar os cristãos convertidos dentre os gentios, e nem esses por tropeço ou escândalo àqueles e vice versa: “Assim que não nos julguemos mais uns aos outros; antes, seja o vosso propósito não por tropeço ou escândalo ao irmão” (Rm 14:13).

“Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece ou, se escandalize ou, se enfraqueça” (Rm 14:21).

 

Amor como mandamento

“Isto vos mando: Que vos ameis uns aos outros” (Jo 15:17).

Por que Jesus ordena aos seus discípulos que se amem uns aos outros? Essa capacidade não deveria ser nata do indivíduo nascido de novo?

“Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós, uns aos outros, vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13:35).

Além de ordenar aos seus discípulos, que amem uns aos outros, Jesus se interpôs como exemplo, pois Ele também havia amado todos eles. Os discípulos deveriam amar uns aos outros, para que os homens conhecessem que eles eram, verdadeiramente, discípulos de Jesus. Como entender isso?

Para compreender como as pessoas reconhecem os seguidores de Jesus, faz-se necessário lembrar que Jesus amou ao Pai, obedecendo a Ele em tudo! Ao obedecer ao Pai, Jesus amou o Pai e permaneceu ao abrigo do amor (cuidado) do Pai.

“Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15:9-10);

“Mas, é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Para permanecer sob o cuidado (amor) de Cristo, os cristãos devem guardar os seus mandamentos, pois foi assim que Jesus permaneceu sob o amor do Pai e tornou possível ao mundo saber que Ele amava o Pai.

E como o mundo soube que Jesus amava o Pai? Pelo fato de Jesus não se sujeitar às tradições dos anciãos e nem comungar da religião dos escribas, fariseus e saduceus.

O amor de Cristo para com o Pai se vê quando Ele, na forma de homem, se humilhou, fazendo-se servo, sendo obediente até a morte e morte de cruz (Fl 2:8).

O amor de Cristo para com os discípulos e para com a humanidade se vê em atitudes como:

  1. quando Jesus comia sem lavar as mãos (Mc 7:2 -5) ou;
  2. quando operava sinais e maravilhas nos sábados (Mc 2:24) ou;
  3. por não jejuar e nem ordenar tal aos seus discípulos (Mt 9:17) ou;
  4. quando se assentava para comer com os cobradores de impostos e os gentios (Mt 9:11) ou;
  5. quando deixou ser tocado por uma pecadora (Lc 7:37-39), etc.

Se Jesus seguisse as ordenanças dos anciões, não seria possível ver distinção entre o evangelho e o judaísmo. Mas, ao amar os seus discípulos, Jesus se santificou a Si mesmo, ou seja, se manteve separado das práticas dos seus concidadãos.

“Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:18-19).

O Senhor Jesus teve o cuidado de manter-se separado da doutrina e das práticas dos seus concidadãos, para que homens de todos os povos, nações e línguas soubessem que Ele, verdadeiramente, obedeceu a Deus.

Da mesma forma que Cristo veio ao mundo, como O enviado de Deus, enviou os seus seguidores e esses, por sua vez, foram santificados na verdade (em Cristo) e comissionados a amarem uns aos outros.

Após ser instruído por Deus, quão grande amor não demonstrou o apóstolo Pedro, ao entrar na casa da família de Cornélio? (At 10:27-28) Que cuidado demonstrou o apóstolo Pedro, ao recepcionar e ao hospedar os homens enviados por Cornélio! (At 10:23)

Mas, e se Deus não desse a visão de um vaso, que desceu dos céus, como um grande lençol, com toda a sorte de animais, incluindo os considerados imundos? E se Deus não instruísse, que não era para o apóstolo Pedro ter como imundo ou comum o que Deus purificou? (At 10:15)

Ao entrar na casa de Cornélio, o apóstolo Pedro estava dando um testemunho público de que era um seguidor de Cristo. No simples ato de hospedar estrangeiros em sua casa, o apóstolo Pedro estava amando, por obra e em verdade. Mas, quando dissimulou e foi repreendido pelo apóstolo Paulo, o apóstolo Pedro estava amando só de palavra e de língua! (1 Jo 3:18)

Ao abordarmos o amor como mandamento, fugimos do subjetivismo, decorrente do pensamento recente da humanidade, que é próprio ao humanismo[7]. O amor bíblico não é incondicional, nem baseado no comportamento para com os outros[8], como disse James C. Hunter, antes, deriva do mandamento de Deus: crer em Cristo e amar uns aos outros, segundo o que Ele ordenou.

No amor como mandamento não temos sensibilidade e nem afeição, pois como afirma Emery, o sentimento por si só não é amor, apesar da definição equivocada que ele apresenta de que ‘O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão’ [9].

O evangelista João narra que, antes da festa da páscoa, Jesus, sabendo que era a hora de partir desse mundo, por amar aos seus discípulos, os amou até o fim (Jo 13:1). O evangelista João descreveu um sentimento? Não! Ele narrou o cuidado que Jesus dispensou aos seus discípulos, ao instrui-los até o fim.

Durante a ceia, Jesus se levantou, tirou a vestimenta de cima e cingiu-se com uma toalha (Jo 13:4). Depois, colocou água em uma bacia e passou a lavar os pés aos discípulos. Após terminar de lavar os pés de todos os discípulos, retomou as suas vestes, voltou para a mesa e questionou:

“Entendeis o que eu fiz” (Jo 13:12).

Os discípulos chamavam Jesus de Mestre e Senhor e Jesus se declarou Mestre e Senhor, para demonstrar que, do mesmo modo que cuidou dos seus discípulos até o último dia, eles também deviam cuidar uns dos outros (Jo 13:14).

Jesus se interpôs como exemplo, para que os seus discípulos fizessem o mesmo: cuidassem uns dos outros. Ao amarem (cuidarem) uns aos outros, seriam bem-aventurados (Jo 13:17).

“Cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual, também, para o que é dos outros” (Fl 2:3-4).

Os cristãos judeus. para amarem, deveriam ter em honra os cristãos gentios; os senhores cristãos deveriam considerar os seus escravos cristãos em alta conta; os homens cristãos deveriam horar as mulheres cristãs; os cristãos romanos honrarem os cristãos pertencentes às outras nações, etc., pois, amar, decorre de honrar, a essência do termo grego αγαπη (agapē).

Sacrifício, como dar o corpo para ser queimado, não é amor ao mandamento de Deus. Desfazer-se de riquezas aos pobres, não é o amor exigido por Deus (1 Co 13:3). Alimentar os desvalidos, doar bens, assistencialismo, etc., não é o mandamento de Deus.

Isso não significa que esteja vetado aos cristãos fazer doações e caridades. Mas, o cristão deve ter o conhecimento necessário para compreender que causas sociais (feminismo, abolicionismo, sindicalismo, dignidade da pessoa, igualdade, etc.), não é a essência do mandamento de Deus.

Quando lemos o seguinte trecho da primeira epistola de João:

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade. Mas, qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele, verdadeiramente, aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele. Aquele que diz que está nele, também, deve andar como ele andou. Irmãos, não vos escrevo mandamento novo, mas o mandamento antigo, que desde o princípio tivestes. Este mandamento antigo é a palavra que desde o princípio ouvistes. Outra vez vos escrevo um mandamento novo, que é verdadeiro nele e em vós; porque vão passando as trevas e já a verdadeira luz ilumina. Aquele que diz que está na luz e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas e anda em trevas e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo 2:3 -11).

Temos que compreender que só sabemos que estamos em comunhão com Deus, quando cumprimos o seu mandamento (vs. 3-5). Mas, quem diz estar em comunhão com Deus, deve andar como Cristo andou, não fazendo acepção de pessoas e nem julgando os outros pela aparência (Tg 2:1).

Em razão disto, aquele que diz amar a Deus, mas não aceita o outro irmão por causa da sua nacionalidade, condição social, língua, etc., é homicida, pois odeia o seu irmão e permanece nas trevas.

Ora, os seguidores de Jesus têm que obedecê-lo quanto ao ide: Ide por todo mundo, ou seja, fazei discípulos de todos os povos (Mt 28:19; Cl 1:23).

Como um cristão judeu prega o evangelho se considera os gentios comuns ou imundos? Como evangelizá-los sem se assentar em uma mesa para comer?

O mundo só compreenderá que um judeu é seguidor de Cristo, se ele abrir mão dos seus costumes herdados dos seus pais.

A humanidade só sabe que Abraão creu em Deus porque ele, em obediência, apresentou a Deus o seu único filho, em holocausto. Só entendemos que Raabe obedeceu a Deus, por ter recebido os espias e colocado o cordão de cor vermelha na janela de sua casa (Tg 2:23, 25).

Quem ama o seu irmão não tem em si escândalo, pois, como chamará alguém de irmão e membro do corpo de Cristo, se recusar comungar de uma mesma mesa, ou rejeitar hospedá-lo?

Se o crente, pelo evangelho, chama a Deus por Pai, e entende que o seu irmão em Cristo, não importando nacionalidade, é coerdeiro com Cristo, que prove o seu amor, estendendo, também, a destra da comunhão, em todos os sentidos (Gl 4:6).

Aquele que ama a seu irmão que vê e desconsidera tudo o que a sua perspectiva humana desaprova, verdadeiramente, creu em Deus que não vê (1Jo 4:20-21).

“Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas, por causa da tua comida, aquele por quem Cristo morreu” (Rm 14:15).

 


[1] “Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701. “agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114. “Na LXX, agapaõ se emprega, de preferência, para traduzir o verbo heb. Ãhèb. O subs. agapè acha aqui a sua origem, ao representar o Heb. ’ah bâk. O vb. Ocorre, muito mais, frequentemente, do que o subs. ’ahèb e pode se referir, tanto a pessoas, como a coisas, e denota, em primeiro lugar, o relacionamento de seres humanos entre si, e, em segundo lugar, o relacionamento entre Deus e o homem (…) Na LXX (Septuaginta), surge diante de nós um quadro bem diferente’; phileõ, ocorre raras vezes, enquanto o vb. agapaõ, e o subs. agapè (doutra forma, quase, inteiramente, desconhecido no Gr.) se acham a cada passo. Não é possível discernir se se empregam conforme regras fixas, pois phileò (30 vezes), tal como agapaò (cerca de 263 vezes), geralmente traduz o Heb. ahèb (e.g. Gn 27:4 e segs.; 37:4 [cf. 37:3]; Is 56:10; Pv 8:17 [cf. 8:21]). Embora o Heb. tenha uma gama inteira de palavras para expressar o conceito contrário do ódio (enquanto a LXX só tem a palavra única miseõ – Inimigo, art. miseõ), tem, virtualmente, a única raiz .ahèb à sua disposição para a gama de sentimentos, que se associam com o amor. O Gr., de outro lado, tem várias raízes e palavras derivadas para expressar as várias matizes do amor: philia (38 vezes), que geralmente traduz ‘aheb, ’ahabâh, é comparativamente rara, embora philos (cerca de 181 vezes), que, geralmente, traduz rèa, embora, frequentemente, sem equivalente heb., seja mais comum na LXX” Idem. Págs. 114 e 121.

[2] “4698 σπλαγχνον splagchnon provavelmente fortalecido de splen (“baço”); TDNT – 7:548,1067; n n 1) entranhas, intestinos, (coração, pulmão, fígado, etc.) 1a) entranhas 1b) as entranhas eram consideradas como a sede das paixões mais extremas, tal como o ódio e o amor; para os hebreus, a sede das afeições mais sensíveis, esp. bondade, benevolência, compaixão; daí, nosso coração (misericórdia, afetos, etc.) 1c) coração no qual reside misericórdia” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “1785 εντολη entole de 1781; TDNT – 2:545,234; n f 1) ordem, comando, dever, preceito, injunção 1a) aquilo que é prescrito para alguém em razão de seu ofício 2) mandamento 2a) regra prescrita de acordo com o que um coisa é feita 2a1) preceito relacionado com a linhagem, do preceito mosaico a respeito do sacerdócio 2a2) eticamente usado dos mandamentos da lei mosaica ou da tradição judaica” Dicionário Bíblico Strong.

[4] “A obediência exigida por Deus, que aceita em todas as nossas ações a vontade pelos atos, é um esforço sério de lhe obedecer e é também denominada com todos aqueles nomes que significam esse esforço. E, portanto a obediência é umas vezes denominada com os nomes de caridade e amor, porque implicam a vontade de obedecer e, mesmo nosso Salvador, faz de nosso amor a Deus e ao próximo um cumprimento de toda a lei”. Hobbes de Malmesbury, Thomas, Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil, Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva.

[5] “1097 γινωσκω ginosko forma prolongada de um verbo primário; TDNT – 1:689,119; v 1) chegar a saber, vir a conhecer, obter conhecimento de, perceber, sentir 1a) tornar-se conhecido 2) conhecer, entender, perceber, ter conhecimento de 2a) entender 2b) saber 3) expressão idiomática judaica para relação sexual entre homem e mulher 4) tornar-se conhecido de, conhecer” Strong, James Dicionário Bíblico Strong, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong, Ed. Sociedade Bíblica do Brasil:2002.

[6] “2657 κατανοεω katanoeo de 2596 e 3539; TDNT – 4:973,636; v 1) perceber, notar, observar, entender 2) considerar atenciosamente, fixar os olhos ou a mente em alguém” Dicionário Bíblico Strong.

[7] “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como principais, numa escala de importância, no centro do mundo. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, às aspirações e às capacidades humanas, particularmente a racionalidade”, Wikipédia.

[8] “… os gregos usavam o substantivo ágape e o verbo correspondente agapaó para descrever um amor incondicional, baseado no comportamento com os outros, sem exigir nada em troca. E o amor da escolha deliberada. Quando Jesus fala de amor no Novo Testamento, usa a palavra ágape, um amor traduzido pelo comportamento e pela escolha, não o sentimento do amor”. HANTER, James C., O monge e o executivo. Tradução Maria da Conceição F. de Magalhães. Rio de Janeiro: Sextante, 2004. Pág. 76.

[9] “Assim como existe uma mente mais alta que a nossa, semelhantemente, existe um coração maior que o nosso. Deus não é, simplesmente, Aquele que ama; Ele é igualmente o Amor que é amado. Há uma infinita vida de sensibilidade e afeição em Deus. Deus tem sensibilidade em grau infinito. O sentimento, por si só, porém, ainda não é amor. O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão…” Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, Doutrinária e Conservadora, Editora Batista Regular, São Paulo, 2001, pág. 73.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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