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Deus não rejeitou o Seu povo que ‘antes conheceu’ (προγινοσκω -proginosko-presciência), ou seja, que se tornou propriedade d’Ele.


Como entender o termo ‘presciência’? 

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele.” (1 Coríntios 8:3).

O objetivo deste artigo é expor as contradições e a má leitura que Arthur W. Pink fez de alguns versos bíblicos, no artigo intitulado ‘A Presciência de Deus’, que consta do livro ‘Os Atributos de Deus’, publicado pela editora PES.

Primeiro, analisaremos o uso que o apóstolo Paulo faz dos termos ‘amor’ e ‘conhecer’ e, em seguida, analisaremos a exposição de Arthur W. Pink.

 

Amor e Conhecer

O apóstolo Paulo argumenta que, ‘se alguém ama a Deus, é conhecido d’Ele’ e o termo grego traduzido por conhecer é γινωσκω[1] (ginosko).

Quando escreveu aos cristãos da Galácia, o apóstolo dos gentios afirmou que, no tempo presente (agora), os cristãos conheciam a Deus ou, antes, eram conhecidos d’Ele e utilizou o termo grego γινωσκω.

“Mas, agora, conhecendo a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gálatas 4:9).

Ora, sabemos que, para ser conhecido de Deus, é imprescindível amá-Lo, de modo que, quem ama a Deus, conhece a Deus ou, antes, é conhecido d’Ele.

O termo grego traduzido por amor é αγαπαω[2] (agapao) e, dependendo do contexto, refere-se à submissão de um servo ao seu senhor.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou, há de odiar a um e amar ao outro ou, se dedicará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” (Mateus 6:24).

O verso anterior é esclarecedor, pois, demonstra que, quando os cristãos não amavam (serviam) a Deus, serviam aos que por natureza não são deuses, mas, quando amaram a Deus, passaram a conhecê-Lo.

“Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses.” (Gálatas 4:8).

O evangelista João, também, faz uso dos termos gregos γινωσκω (ginosko) e αγαπαω (agapao):

“Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade.” (1 João 2:4);

Aquele que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor.” (1 João 4:8);

Após essa breve análise, conclui-se que será tomada vingança daqueles que não amam a Deus, ou seja, que não obedeceram ao evangelho:

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo;” (2 Tessalonicenses 1:8).

Quando o apóstolo Paulo diz que todas as coisas contribuem para o bem dos que amam a Deus, na verdade, ele está enfatizando que todas as coisas contribuem, juntamente, para o bem daqueles conhecem a Deus, pois, quem ama a Deus, conhece a Deus ou, antes, é conhecido d’Ele.

“E sabemos que todas as coisas contribuem, juntamente, para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28).

Com base no exposto, podemos dizer que aqueles que amam a Deus ou, aqueles que conhecem a Deus, foram chamados segundo o seu propósito. Como não há diferença entre amar a Deus e conhecer a Deus, consequentemente, os que conhecem a Deus são os chamados segundo o seu propósito.

Da relação: “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele.” (1 Coríntios 8:3), decorre o enunciado do verso seguinte:

“Porque, os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29).

‘Dantes conheceu’ é tradução do termo grego προγινοσκω[3] (proginosko) que, em função do contexto, que faz referência àqueles que amam a Deus, assume o significado de ‘anteriormente conheceu’. Ou seja, os que ‘dantes conheceu’ são aqueles que amam a Deus, pois, “se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele“, vez que “Aquele que não ama não conhece a Deus”.

O que os apóstolos Paulo e João expuseram coaduna com o expresso na lei:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.” (Êxodo 20:6).

Aqueles que amam a Deus se sujeitaram a Ele, na condição de servos, portanto, são propriedade de Deus, de modo que, os que pertencem a Deus, são conhecidos d’Ele.

“Todavia, o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus e qualquer que profere o nome de Cristo, aparte-se da iniquidade.” (2 Timóteo 2:19).

 

‘Conhecer’ no Antigo Testamento

Críticas ao arminianismo a parte, Arthur W. Pink argumenta que o termo presciência não ocorre no Antigo Testamento, entretanto, o termo ‘conhecer’ ocorre muitas vezes.

“A palavra “presciência” (pré-conhecimento) não se acha no Velho Testamento. Mas “conhecer” (ou “saber”) ocorre ali muitas vezes. Quando esse termo é empregado com referência a Deus, com frequência significa considerar com favor, denotando não mera cognição, mas, sim, afeição pelo objeto em vista. “… te conheço por nome” (Êxodo 33:17). “Rebeldes fostes contra o Senhor, desde o dia em que vos conheci” (Deuteronômio 9:24). “Antes que te formasse no ventre te conheci … “ (Jeremias 1:5). “…  constituíram príncipes, mas, eu não o soube …” (Oséias 8:4). “De todas as famílias da terra a vós somente conheci …” (Amos 3:2). Nestas passagens, “conheci” significa amei ou designei.” Arthur W. Pink. Os Atributos de Deus. Editora PES; Texto disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/presciencia/presciencia_pink_atributos.htm >, consulta em 10/02/2018.

Quase todos os versos citados por Pink, nos quais o termo ‘conhecer’ ocorre, apontam para os filhos de Israel como povo e não como indivíduos.

“OUVI esta palavra que o SENHOR fala contra vós, filhos de Israelcontra toda a família que fiz subir da terra do Egito, dizendo: De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniquidades.” (Amos 3:1-2).

Qual o significado de ‘conhecer’ neste verso? Resposta: – Propriedade peculiar!

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha.” (Êxodo 19:5).

Em função dos pais os filhos de Israel, como povo, foram amados, no entanto, individualmente Deus não se agradou da maioria deles e, por isso, pereceram no deserto (1 Coríntios 10:5).

“Tão somente o SENHOR se agradou de teus pais para os amar e a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos, como neste dia se vê.” (Deuteronômio 10:15).

Deus não se agradou da maioria dos filhos de Israel, antes, se agradou dos pais (Abraão, Isaque e Jacó) e escolheu a descendência dos pais.

Considerando a fala de Pink: ‘Quando esse termo é empregado, com referência a Deus, com frequência significa considerar com favor, denotando não mera cognição, mas, sim, afeição pelo objeto em vista’o termo não é utilizado ‘considerar com favor’, nem ‘cognição’ e nem ‘afeição pelo objeto’. Observe:

“PÕE a trombeta à tua boca. Ele virá como a águia contra a casa do SENHOR, porque transgrediram a minha aliança e se rebelaram contra a minha lei. E a mim clamarão: Deus meu! Nós, Israel, te conhecemos. Israel rejeitou o bem; o inimigo persegui-lo-á. Eles fizeram reis, mas não por mim; constituíram príncipes, mas eu não o soube; da sua prata e do seu ouro fizeram ídolos para si, para serem destruídos” (Oséias 8:1-4).

Os filhos de Israel são declarados transgressores e mesmo assim, alegam que ‘conhecem’ a Deus. Se Israel rejeitou o bem, isso significa que rejeitaram amar a Deus, pois, tudo concorre para o bem somente para os que amam a Deus.

Embora tenham elegido príncipes sobre o povo, Deus declara: eu não o soube! O termo ‘conhecer’ não é utilizado no sentido de ‘considerar com favor’, nem ‘cognição’ e nem ‘afeição pelo objeto’.

Tem alguma coisa que Deus não conheça ou, que não saiba? Todas as coisas são conhecidas de Deus, mas, para algumas pessoas, que clamarão naquele dia, ‘Senhor, Senhor’, Deus dirá: nunca vos conheci (Mateus 7:23). Perceba que o termo na Antiga Aliança extrapola a concepção de Pink.

Quando lemos a passagem de Jeremias, que diz: “Antes que te formasse no ventre te conheci e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta” (Jeremias 1:54), a ideia do termo ‘conhecer’ significa propriedade, pois, foi para servir a Deus como profeta que Deus o santificou.

“Porque todo o primogênito é meu; desde o dia em que tenho ferido a todo o primogênito na terra do Egito, santifiquei para mim todo o primogênito em Israel, desde o homem até ao animal: meus serão; Eu sou o SENHOR.” (Números 3:13).

Com relação à citação de Deuteronômio, Moisés é o sujeito do verbo ‘conhecer’ e não Deus.

“Rebeldes fostes contra o Senhor, desde o dia em que vos conheci” (Deuteronômio 9:24).

Com relação a Moisés, Deus declarou conhecê-lo pelo nome. Isso significa que o termo ‘conhecer’ é utilizado no sentido de ‘considerar com favor’, ‘cognição’ ou ‘afeição pelo objeto’?

“Então, disse o SENHOR a Moisés: Farei também isto, que tens dito; porquanto achaste graça aos meus olhos e te conheço pelo nome.” (Êxodo 33:17).

Após rogar a Deus que fosse com o povo, Deus aceita o pedido de Moisés, por ter achado graça aos olhos de Deus e porque aquela era a missão de Moisés, daí a asserção: conheço-te pelo nome.

 

‘Conhecer’ no Novo Testamento

Pink afirma que o termo ‘conhecer’ é empregado com o mesmo significado que há no Antigo Testamento:

“Assim, também, a palavra “conhecer” é empregada muitas vezes no Novo Testamento, no mesmo sentido do Velho Testamento. “E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci …” (Mateus 7:23). “Eu sou o bom Pastor e conheço as minhas ovelhas e das minhas sou conhecido ” (João 10:14). “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Coríntios 8:3). “… o Senhor conhece os que são seus…” (2 Timóteo 2:19).” (Idem).

Em todos os versículos citados por Pink no Novo Testamento, o sentido do termo ‘conhecer’ aparece em conexão com a ideia de ‘pertencer’. Deus conhece os que pertencem a Ele (2 Timóteo 2:19), por isso, Ele conhece as ovelhas que pertencem a Ele (João 10:14).

Os que amam a Deus são os que se fazem servos, portanto, são propriedade de Deus (1 Coríntios 8:3) e os que clamam ‘Senhor, Senhor’ não são conhecidos pois, nunca pertenceram a Deus (Mateus 7:23).

Em nenhum dos versos citados o termo ‘conhecer’ tem o sentido de ‘considerar com favor’, ‘cognição’ ou ‘afeição pelo objeto’, como apontado por Pink.

Após a má leitura que fez do termo ‘conhecer’, Pink passa a considerar o termo ‘presciência’ e os três versículos em que o termo é empregado no Novo Testamento:

“Pois bem, a palavra “presciência”, como é empregada no Novo Testamento, é menos ambígua que a sua forma simples, “conhecer”. Se cada passagem em que ela ocorre for estudada cuidadosamente, ver-se-á que é discutível se alguma vez se refere apenas à percepção de eventos que ainda estão por acontecer. O fato é que “presciência” nunca é empregada nas Escrituras em relação a eventos ou ações; em lugar disso, sempre se refere a pessoas. Pessoas é que Deus declara que “de antemão conheceu” (pré-conheceu), não as ações dessas pessoas. Para provar isto, citaremos agora cada uma das passagens em que se acha esta expressão ou sua equivalente”. (Idem).

Pink faz uma análise de Atos 2, verso 23, com os argumentos seguintes:

“A primeira é Atos 2:23. Lemos ali: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos”. Se se der cuidadosa atenção à terminologia deste versículo, ver-se-á que o apóstolo não estava falando do conhecimento antecipado que Deus tinha do ato da crucificação, mas, sim, da Pessoa crucificada: “A este (Cristo) que vos foi entregue”, etc.” (Idem).

O texto não está falando do conhecimento antecipado que Deus tinha do ato da crucificação e nem da pessoa crucificada, antes, o texto se refere às profecias contidas nas Escrituras, acerca da crucificação do Cristo:

O primeiro discurso do apóstolo Pedro tem por base várias profecias das Escrituras, entre elas uma profecia do profeta Joel e duas profecias do salmista Davi, que constam no Salmo 16 e 110.

Nessas profecias estavam previstom eventos que se referiam diretamente ao Cristo (Salmo 16 e 110) ou, à mensagem anunciada por Ele (Joel 2:28). Em função dessas previsões, afirmou o apóstolo Pedro:

“Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos;” (Atos 2:22-23).

O apóstolo Pedro evidencia aos seus concidadãos que Jesus foi entregue aos judeus em conformidade com o conselho de Deus (essa era a vontade de Deus, conforme Efésios 1:11) e presciência[4] de Deus, ou seja, segundo o anunciado (previsto), anteriormente, nas Escrituras.

“Para que vos lembreis das palavras que, primeiramente, foram ditas pelos santos profetas e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador.” (2 Pedro 3:2).

No texto de Atos, o termo προγνωσις (prognosis) tem o sentido de profecia, conhecimento anunciado de antemão, conforme o próximo discurso do apóstolo Pedro:

“Mas, Deus, assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os seus profetas havia anunciado; que o Cristo havia de padecer (…) E envie ele a Jesus Cristo, que já dantes vos foi pregado (…) Sim e todos os profetas, desde Samuel, todos quantos depois falaram, também, predisseram estes dias.” (Atos 3:18, 20 e 24);

“Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham, anteriormente, determinado que se havia de fazer” (At 4:28).

No contexto, προγνωσις (presciência) não se refere a um atributo da divindade, até porque Deus é onisciente e a ideia decorrente da presciência constituiu reducionismo do atributo da divindade. O apóstolo da circuncisão, ao utilizar o termo προγνωσις fez referência a um conhecimento dado de antemão aos homens, através dos seus santos profetas, portanto, não tem o sentido de ‘considerar com favor’, ‘cognição’ ou ‘afeição pelo objeto’, como foi apontado por Pink.

Nesse sentido, também, é falha a asserção de Pink, que disse: O fato é que “presciência” nunca é empregada nas Escrituras em relação a eventos ou, ações; em lugar disso, sempre se refere a pessoas”pois o apóstolo Pedro utilizou o termo para fazer referência aos eventos e as ações dos homens ímpios, anunciado de antemão pelos profetas, que matariam o Cristo.

Com relação ao emprego do termo, na carta do apóstolo Paulo aos Romanos, Pink faz a seguinte alegação:

“A segunda é Romanos 8:29-30. “Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho; a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a estes, também, chamou”, etc. Considere-se bem o pronome aqui empregado. Não se refere a algo, mas a pessoas, que ele conheceu, de antemão. O que se tem em vista não é a submissão da vontade, nem a fé do coração, mas as pessoas mesmas.” (Idem).

Pelo fato do termo ‘conhecer’, no texto de Romanos fazer referência a pessoa e não a algo, Pink conclui que o termo expressa a ideia de que ‘Deus conhece, de antemão, o que será porque Ele decretou o que há de ser’.

Pink despreza a pequena diferença de escrita entre os termos προγινοσκω (proginosko) e προγνωσις (prognosis), sendo que este é empregado em Atos e aquele em Romanos. Enquanto προγνωσις (prognosis) tem o sentido de profecia, um conhecimento que é antecipado aos homens pelos profetas, προγινοσκω (proginosko) tem o sentido de propriedade, de comunhão intima.

As pessoas que ‘dantes conheceu’ refere-se àqueles que amam a Deus, de modo que o ‘conhecimento’ tem por base a ideia do versículo anterior. O termo προγινοσκω (proginosko) é utilizado em Romanos 11, verso 2, também, no sentido de propriedade: “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu…” (Romanos 11:2). Uma vez mais a clara referência é a pessoas e somente a pessoas.

Mas, Pink faz outra leitura:

“Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu…” (Romanos 11:2). Uma vez mais a clara referência é a pessoas e somente a pessoas.” (Idem).

Por último, Pink faz um comentário a primeira Pedro, verso 2:

“A última citação é de 1 Pedro 1:2: “Eleitos, segundo a presciência de Deus Pai…” Quem são “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai”? O versículo anterior nô-lo diz: a referência é aos “estrangeiros dispersos”, isto é, à Diáspora, à Dispersão, aos judeus crentes. Portanto, aqui, também, a referência é a pessoas e não aos seus atos previstos.” (Idem).

O termo utilizado por Pedro é προγνωσις (prognosis), que, no contexto, se refere a um conhecimento dado de antemão, conforme o anunciado pelos profetas. Como estava previsto pelo profeta Isaías que, com o seu ‘conhecimento’, o Cristo justificaria a muitos (Isaías 53:11), Pedro evidencia que os cristãos são eleitos, segundo o que Deus havia anunciado, através dos seus santos profetas.

O espírito que estava sobre o Cristo (Isaías 11:1-2; Isaías 61:1; Isaías 42:1 e 7; Joel 2:28; Deuteronômio 32:2), a palavra de santificação (santificação do espírito), é o conhecimento que Deus anunciou, de antemão, por intermédio dos seus profetas, conhecimento no qual os homens são limpos, a palavra anunciada por Cristo (João 6:63; João 15:3).

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; Eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.” (1 Pedro 1:1-2).

Mas, para ser agraciado com a santificação proporcionada pelo espírito, o homem precisa obedecer e só, então, alcançará a aspersão (purificação), através do sangue de Cristo.

Através desse verso, claro está que Deus jamais ‘pré-conheceu’ certa pessoas ou, os seus atos, antes, Ele conhece todas as coisas, pois é onisciente. Os eleitos são os estrangeiros da dispersão e a ‘presciência’ de Deus Pai não é pré-conhecer pessoas, antes, diz do conhecimento anunciado no passado pelos profetas.

“Para que vos lembreis das palavras que, primeiramente, foram ditas pelos santos profetas e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador.” (2 Pedro 3:2).

Da má leitura, Pink condena o posicionamento arminianista, pois é descabido o Deus onisciente, conhecedor de todas as coisas, antever que responderá ao evangelho, elegendo-o. No entanto, o posicionamento que Pink defende é, igualmente, equivocado, de que presciência tem o sentido de ‘considerar com favor’, ‘cognição’ ou ‘afeição pelo objeto’.

“Ora, em vista destas passagens (e não há outras mais), que base bíblica há para alguém dizer que Deus “pré-conheceu” os atos de certas pessoas, a saber, o seu “arrependimento e fé”, e que devido a esses atos Ele as elegeu para a salvação? A resposta é: absolutamente nenhuma. As Escrituras nunca falam de arrependimento e fé como tendo sido previsto ou pré-conhecido por Deus. Na verdade, Ele sabia desde toda a eternidade que certas pessoas se arrependeriam e creriam ; entretanto, não é a isto que as Escrituras se referem como objeto da “presciência” de Deus. Esta palavra se refere uniformemente ao pré-conhecimento de pessoas; portanto, conservemos “… o modelo das sãs palavras. . .” (2 Timóteo 1:13).” (Idem).

O equivoco de Pink torna-se mais evidente na argumentação seguinte:

“Outra coisa para a qual desejamos chamar particularmente a atenção é que as duas primeiras passagens acima citadas mostram com clareza e ensinam implicitamente que a “presciência” de Deus não é causativa, pelo contrário, alguma outra realidade está por trás dela e a precede e essa realidade é o Seu decreto soberano. Cristo “… foi entregue pelo (1) determinado conselho e (2) presciência de Deus” (Atos 2:23). Seu “conselho” ou decreto foi a base da Sua presciência. Assim, também, em Romanos 8:29. Esse versículo começa com a palavra “porque”, conjunção que nos leva a examinar o que o precede imediatamente. E o que diz o versículo anterior? “… todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles… que são chamados por seu decreto”. Assim é que a “presciência” de Deus baseia-se em Seu decreto (ver Salmo 2:7).” (Idem).

Ele afirma, para combater o arminianismo, que a presciência de Deus não é causativa. Ora, nenhum atributo de Deus é de per si causativo, quer seja a onisciência, a onipresença ou a onipotência. Tudo o que Deus faz é segundo o conselho da sua vontade, evidente que não é pela presciência e a tal presciência, segundo a concepção calvinista e arminianista, nem é atributo de Deus.

Cristo foi entregue segundo a vontade de Deus (Hebreus 10:10: Atos 2:23), conforme anunciado de antemão pelos profetas (1 Pedro 1:2; 2 Pedro 3:2). A base do conselho ou, decreto de Deus, é a sua vontade e não a tal ‘presciência’ (Efésios 1:9 e 11).

Tentar dizer que Romanos 8, verso 29 coaduna com a ideia de que “Seu ‘conselho’ ou, decreto, foi a base da Sua presciência.”, é absurdo. Dizer que a conjunção ‘porque’ enfatiza que a ‘presciência’ tem por base o decreto de Deus, é atropelar os elementos constitutivos dos dois versículos, que dizem:

“E sabemos que todas as coisas contribuem, juntamente, para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:28-29).

O versículo não diz que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que são chamados segundo o propósito, antes, daqueles amam a Deus. Aqueles que amam a Deus é que são chamados, segundo o propósito de Deus.

E que propósito é esse? O apóstolo Paulo explica:

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;” (Efésios 1: 9-10).

E esse propósito se concretizou na Igreja:

“Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor,” (Efésios 3:10-11).

A conjunção explicativa ‘porque’ remete o leitor aos que amam a Deus, pois, só os que, de antemão, amaram a Deus, são ‘conhecidos’ d’Ele. Esses que são ‘conhecidos’, ou seja, propriedade, santificados, não terão outro destino, a não ser serem conforme a imagem de Cristo ressurreto, pois, assim, a vontade de Deus se efetiva: Cristo, que é filho unigênito, torna-se primogênito entre muitos irmãos.

Enquanto a predestinação tem em vista os que conhecem a Deus, pois serão conforme a imagem de Cristo, Pink considera que a predestinação tem em vista a salvação do homem, evento que é descrito como ‘conhecer’ a Deus, ou antes, ser conhecido d’Ele.

Observe:

“Deus conhece de antemão o que será, porque Ele decretou o que há de ser. Portanto, afirmar que Deus elege pessoas, porque as pré-conhece, é inverter a ordem das Escrituras, é pôr o carro na frente dos bois. A verdade é esta: Ele as “pré-conhece” porque as elegeu. Isto retira da criatura a base ou, a causa da eleição, e a coloca na soberana vontade de Deus. Deus Se propôs eleger certas pessoas, não por haver nelas ou por proceder delas alguma coisa boa, quer concretizada, quer prevista, mas,, unicamente por Seu beneplácito. Quanto ao por que Ele escolheu os que escolheu, não sabemos e só podemos dizer: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus l1:26). A verdade patente em Romanos 8:29 é que Deus, antes da fundação do mundo, elegeu certos pecadores e os destinou para a salvação (2 Tessalonicenses 2:13). Isto se vê com clareza nas palavras finais do versículo: “… os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”, etc. Deus não predestinou aqueles que “dantes conheceu”, sabendo que eram “conformes”, mas, ao contrário, aqueles que Ele “dantes conheceu” (isto é, que Ele amou e elegeu), “predestinou para serem conformes”. Sua conformidade a Cristo não é a causa, mas o efeito da presciência e da predestinação divina.” (Idem).

Deus é onisciente, portanto, conhecedor de todas as coisas e não conhecedor, de antemão, por ter decretado o que há de ser. Nada mais natural alguém conhecer o que estabeleceu, mas Deus, sendo onisciente, conhece até mesmo as intenções do coração.

“A noção popular da presciência divina é inteiramente inadequada. Deus não somente conheceu o fim desde o princípio, mas, planejou, fixou, predestinou tudo desde o princípio.” (Idem).

Quando Pink diz que: “Deus conhece, de antemão, o que será, porque Ele decretou o que há de ser. Portanto, afirmar que Deus elege pessoas porque as pré-conhece, é inverter a ordem das Escrituras, é pôr o carro na frente dos bois. A verdade é esta: Ele as “pré-conhece”, porque as elegeu.”, a primeira frase parece que ele considera o termo ‘conhece’ no sentido de saber, estar informado, no entanto, na frase que faz criticas ao arminianismo, percebe-se que ele faz uso do termo, no sentido de ‘considerar com favor’, ‘cognição’ ou ‘afeição pelo objeto’.

Em Romanos 8, verso 29, não tem referência alguma a qualquer evento estabelecido antes da fundação do mundo, mas Pink alega que antes da fundação do mundo Deus elegeu certos pecadores para salvação. O texto diz que Deus predestinou, os que se tornaram propriedade Sua, para serem conforme a imagem de Cristo, até por que, assim como Ele é, o veremos e seremos semelhantes a Ele (1 João 3:2).

O objetivo pelo qual os que amam a Deus são predestinados a serem conforme a imagem de Cristo é a primogenitura de Cristo, entre muitos irmãos, a essência do propósito eterno de Deus.

A predestinação divina é a consequência da ‘presciência’, ou seja, de pertencer a Deus, pois da consequência de entendemos o objetivo da predestinação: a primogenitura entre muitos irmãos.

Mas, Pink não para por ai, pois cita 2 Tessalonicenses, como baluarte da sua exposição, mas no verso há uma alteração de significado do termo ‘primícias’ para ‘princípio’.

O verso citado por Pink reza assim:

“Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do SENHOR, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito e fé da verdade;” (2 Tessalonicenses 2:13).

Mas, como se verifica, o termo traduzido por ‘desde o princípio’ é απαρχη, que outras versões traduzem por ‘primícias’ e não há nos melhores manuscritos a preposição essencial ‘desde o’.

O apóstolo Paulo escreveu aos Tessalonicenses que Deus escolheu os cristãos (a vós) primícias para salvação, em santificação do espírito e fé na verdade, ou seja, os cristãos, na condição de primícias (Tiago 1:18), são salvos em santificação pela palavra de Cristo, que é espírito e vida, crendo (fé) na verdade.

Pink nem mesmo consegue distinguir a fé em Cristo, que é crer, depositar confiança, da fé que é dom de Deus.

“As Escrituras afirmam que Deus, em Sua soberania, escolheu alguns para serem recipientes de Seus distinguidos favores (Atos 13:48) e, portanto, determinou conferir-lhes o dom da fé. A falsa teologia faz do conhecimento prévio que Deus tem da nossa fé a causa da eleição para a salvação, ao passo que a eleição de Deus é a causa  e a nossa fé em Cristo, o efeito (…) Deus não elegeu nenhum pecador porque previu que creria, pela razão simples, mas suficiente, de que nenhum pecador jamais crê, enquanto Deus não lhe dá fé; exatamente, como nenhum homem pode ver antes que Deus lhe dê a vista. A vista é dom de Deus e ver é a consequência do uso do Seu dom. Assim, também, a fé é dom de Deus (Efésios 2:8-9) e crer é a consequência do uso deste Seu dom. Se fosse verdade que Deus elegeu alguns para serem salvos porque no devido tempo eles creriam, isso tornaria o ato de crer num ato meritório e, nesse caso, o pecador salvo teria motivo para gloriar-se, o que as Escrituras negam enfaticamente (veja Efésios 2:9)”. (Idem).

Pink alega que, na Sua soberania, Deus escolheu alguns para dar-lhes o dom da fé, no entanto, o dom da fé é Cristo, a ‘fé’ que veio, que segundo o apóstolo Paulo, havia de se manifestar (Gálatas 3:23-25) e que foi dada aos santos (Judas 1:3).

O homem é salvo pela graça de Deus, por meio da verdade do evangelho, que também é denominado fé (Efésios 2:8), fé essa que é anunciada ou pregada (Gálatas 3:2; Romanos 1:8). Sem Deus ter dado o dom da fé, que é Cristo, não haveria a fé pela qual o justo viverá e se faz agradável a Deus (Hebreus 11:6).

O dom da fé que consta em Efésios 2, versos 8 à 9 não é conforme os dos ministeriais que são concedidos para edificação dos santos. Crer em Cristo não é o exercício de um dom, antes, Cristo é o dom de Deus e os homens devem obedecê-lo, crendo em Cristo.

Crer em Cristo é um mandamento e o homem só ama a Deus, quando obedece a Deus, crendo em Cristo, o dom de Deus, que graciosamente salva os homens. A salvação é graça, mas o homem é salvo por meio da fé, que é o evangelho (Romanos 1:16; Efésios 1:13).

Certamente que crer não é ato meritório, antes, é ato de sujeição a Deus, em obediência ao seu mandamento. Não há como alguém se gloriar em obedecer, por isso é dito que, o amor não se ensoberbece (1 Coríntios 13:4). Crer vai além de voluntariedade e cumprir com o exigido por Deus:

“Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (João 6:29).

Pink preocupa-se tanto em que haja mérito em o homem crer naquele que é fiel, que se esquece de que crer em Cristo é um mandamento, de modo que aquele que crê, humilha-se a si mesmo, fazendo-se servo de Deus.

“Certamente, a Palavra de Deus é bastante clara ao ensinar que crer não é um ato meritório. Afirma ela que os cristãos vieram a crer “pela graça” (Atos 18:27). Se, pois, eles vieram a crer “pela graça”, absolutamente não há nada de meritório em “crer”, e, se não há nada de meritório nisso, não poderia ser o motivo ou causa que levou Deus a escolhê-los. Não; a escolha feita por Deus não procede de coisa nenhuma existente em nós ou, que de nós provenha, mas, unicamente, da Sua soberana boa vontade.” (Idem). 

No afã de validar a concepção calvinista, Pink cita Romanos 11, verso 5, como base para dizer que a eleição é ‘da graça’, como se o texto estivesse tratando da salvação de alguns e rejeição dos restantes. No entanto, o apóstolo fez um contraponto entre a lei e o evangelho, visto que a eleição dos filhos de Israel se deu pela promessa feita aos patriarcas (Romanos 11:28) e não porque Deus ‘pré-conheceu’ alguns israelitas e outros não e os elegeu para serem salvos.

“Mais uma vez, em Romanos 11:5 lemos sobre “… um resto, segundo a eleição da graça”. Eis aí, suficientemente claro; a eleição mesma é “da graça” e a graça é favor imerecido, coisa a que não tínhamos direito nenhum diante de Deus.” (Idem).

Deus não rejeitou o povo de Israel que ‘antes conheceu’ (προγινοσκω – proginosko) ou, seja, que se tornou propriedade d’Ele (Romanos 11:2; Deuteronômio 10:15), isso porque o povo foi eleito por causa dos pais, tendo em vista o propósito de Deus, que se concretiza no descendente prometido a Abraão e não que a eleição deles resultou em salvação de alguns e perdição de outros.

Pink não observa que na Bíblia não há eleição de indivíduos para a salvação, mas, sim, eleição de um povo para um propósito. Israel foi eleito por causa de Abraão, pois, em Isaque, seria chamada a sua descendência (Romanos 9:7). No Novo Testamento, o último Adão é o eleito de Deus e a Igreja é eleita em Cristo, por isso, o apóstolo Pedro se refere à igreja como a ‘geração eleita’, pois a Igreja atende ao propósito de Deus de tornar o Seu Filho preeminente em tudo (1 Pedro 2:9).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

[1] “1097 γινωσ κω ginosko forma prolongada de um verbo primário; TDNT – 1:689,119; v 1) chegar a saber, vir a conhecer, obter conhecimento de, perceber, sentir 1a) tornar-se conhecido 2) conhecer, entender, perceber, ter conhecimento de 2a) entender 2b) saber 3) expressão idiomática judaica para relação sexual entre homem e mulher 4) tornar-se conhecido de, conhecer Sinônimos ver verbete 5825” Dicionário Bíblico Strong.

[2] “25 αγαπαω agapao Talvez de agan (muito) [ou cf 5689 עגב ]; TDNT 1:21,5; v 1) com respeito às pessoas 1a) receber com alegria, acolher, gostar muito de, amar ternamente 2) com respeito às coisas 2a) estar satisfeito, estar contente sobre ou com as coisas Sinônimos ver verbete 5914” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “4267 προγινοσκω proginosko de 4253 e 1097; TDNT – 1:715,119; v 1) ter conhecimento de antemão 2) prever 2a) daqueles que Deus elegeu para a salvação 3) predestinar” Dicionário Bíblico Strong.

[4] “4268 προγνωσις prognosis de 4267; TDNT – 1:715,119; n f 1) pré-conhecimento 2) presciência, prognóstico” Dicionário Bíblico Strong.

 

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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