Erros teológicos na questão calvinista da Depravação Total

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Seria um contrassenso Jesus chamar os gentios de cegos e surdos, já que as Escrituras foram dadas aos judeus, e não aos gentios.


“Disse Jesus: ‘Se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece’” (João 9:41).

 

Introdução

A doutrina calvinista, a chamada pelo acrostico ‘T.U.L.I.P’, ao tratar da ‘Depravação Total’, aponta 5 questões:

1 – Como resultado da transgressão de Adão, os homens são nascidos em pecado e são, por natureza, espiritualmente mortos; portanto, para se tornarem filhos de Deus e entrarem no Seu Reino precisam nascer de novo, do Espírito.

2 – Como resultado da queda, os homens estão cegos e surdos para a verdade espiritual. Suas mentes estão entenebrecidas pelo pecado; seus corações são corruptos e malignos.

3 – Antes dos pecadores nascerem no reino de Deus pelo poder regenerador do Espírito, são filhos do diabo e estão debaixo de seu controle. São escravos do pecado.

4 – O domínio do pecado é universal: todos os homens estão debaixo do seu poder; por conseguinte, ninguém é justo, nem um só.

5 – Os homens, sendo deixados em seu estado de morte, são incapazes, por si mesmos, de se arrepender, de crer no evangelho ou de vir a Cristo. Não têm poder, em si mesmos, para mudar sua natureza ou preparar-se para a salvação.

Neste artigo verificaremos a 5 premissas calvinistas acerca da Depravação Total, tendo por base o artigo ‘Sobre a Depravação Total do homem no pecado’, do Pr. Thomas Miersma, tradução de Marcelo Herberts.

Mas, antes de faze-lo, analisaremos o capítulo 9 de João, verso 41.

 

Cegos e surdos

“Disse Jesus: ‘Se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece’” (João 9:41).

O que levou Jesus a fazer tal afirmação? Apesar de ser uma mensagem que possui uma lição de proveito para todos os homens, qual foi o público alvo do discurso de Jesus?

Para compreendermos o que Jesus disse, temos que alisar o contexto da citação, bem como verificar na Lei, nos Salmos e nos Profetas a base do pronunciamento de Jesus.

Tudo começou quando Jesus curou um cego de nascença em um dia de sábado (João 9:14). Quando os fariseus souberam que Jesus fizera lodo em um dia de sábado e aplicou nos olhos do homem que era cego, esses condenaram o fato de Jesus não ter guardado o sábado (João 9:15).

Por discordar do posicionamento dos fariseus, o homem que era cego foi expulso da sinagoga. Ouvindo Jesus que o homem que era cego foi expulso da sinagoga, o encontrou e questionou: – Crês tu no Filho do homem? Ao que o moço respondeu: – Quem é Ele, Senhor, para que eu nele creia?

Diante da resposta de Jesus, o homem se prostrou e o adorou.

Foi quando Jesus diante dos fariseus disse: – “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos”. Os fariseus ao ouvirem a declaração de Jesus questionaram: – “Também nós somos cegos?”.

Dai a resposta de Jesus: “Se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece” (João 9:41). O que Jesus enfatizou aos fariseus?

Que se fariseus eles tivessem reconhecido a condição deles, certamente seriam livres do pecado, mas, como diziam que não eram cegos, permaneciam no pecado. Este era o posicionamento típico dos judeus, até mesmo de alguns discípulos de Jesus, que ao serem confrontados, não reconheciam que eram pecadores.

“Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (João 8:33).

Mas, não reconhecerem a condição de pecadores após serem repreendidos era algo peculiar aos filhos de Israel, pois o profeta Isaías já havia protestado contra eles como sendo cegos e surdos:

“Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” (Isaías 43:8).

Até mesmo os líderes de Israel eram cegos:

“Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” (Isaías 56:10).

O profeta Moisés previu esta condição dos filhos de Israel:

“E apalparás ao meio dia, como o cego apalpa na escuridão, e não prosperarás nos teus caminhos; porém somente serás oprimido e roubado todos os dias, e não haverá quem te salve (Deuteronômio 28:29).

E o profeta Isaias viu a mesma condição dos filhos de Israel:

Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos. Todos nós bramamos como ursos, e continuamente gememos como pombas; esperamos pelo juízo, e não o há; pela salvação, e está longe de nós (Isaías 59:10 -11);

Ora, sabemos que toda humanidade, em razão da ofensa de Adão, é pecadora, porém, os filhos de Israel não se consideravam pecadores por serem descendentes da carne de Abraão. A lei foi imposta aos judeus para convencê-los de pecado, mas por serem descendentes da carne de Abraão, a lei não atingiu o seu objetivo, vez que, equivocadamente pensaram que a lei foi dada para salvá-los. Por isso é dito:

“Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne” (Romanos 8:3).

É por isso que o apóstolo Paulo disse:

“Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:19 -20).

A lei foi dada aos judeus para demonstrar que eles também eram condenáveis diante de Deus assim como os gentios. A lei foi dada para os judeus conhecerem a real condição em que estavam: condenáveis, por isso nenhuma carne, nem mesma os judeus, são justificados pelas obras da lei.

Mas, apesar dos apelos da Lei, dos Salmos e dos Profetas, os judeus não admitiam que eram cegos, por isso permaneciam no pecado:

“O SENHOR abre os olhos aos cegos; o SENHOR levanta os abatidos; o SENHOR ama os justos” (Salmos 146:8).

Observe a relação que há entre cegos, abatidos e justos. Por isso o apelo aos filhos de Israel:

“Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” (Isaías 42:18).

Ora, se as Escrituras descrevem o Servo do Senhor como cego e surdo, porque os filhos de Israel não reconheciam a real condição deles?

“Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” (Isaías 42:19).

Se reconhecessem que eram cegos e surdos, segundo o denunciado por Deus, seriam crentes de fato, pois acreditariam no testemunho de Deus acerca deles, e assim se tornariam filhos por causa da mesma fé que teve o crente Abraão. Se fossem cegos, não seriam pecadores!

“Disse Jesus: ‘Se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece’” (João 9:41).

Mas, por que os filhos de Israel não enxergavam e nem ouviam? Para cumprir o profetizado por Moisés:

“Mas este é um povo roubado e saqueado; todos estão enlaçados em cavernas, e escondidos em cárceres; são postos por presa, e ninguém há que os livre; por despojo, e ninguém diz: Restitui. Quem há entre vós que ouça isto, que atenda e ouça o que há de ser depois? Quem entregou a Jacó por despojo, e a Israel aos roubadores? Porventura não foi o SENHOR, aquele contra quem pecamos, e nos caminhos do qual não queriam andar, não dando ouvidos à sua lei? Por isso derramou sobre eles a indignação da sua ira, e a força da guerra, e lhes pôs labaredas em redor; porém nisso não atentaram; e os queimou, mas não puseram nisso o coração” (Isaías 42:22 -25).

Em virtude dessas profecias, o termo ‘cego’ tornou-se uma figura que remetia à condição dos judeus:

“Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” (Mateus 15:14);

“Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar, que santifica a oferta?” (Mateus 23:19);

“Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo” (Mateus 23:26).

Seria um contrassenso Jesus chamar os gentios de cegos e surdos, já que as Escrituras foram dadas aos judeus, e não aos gentios. Neste sentido, não se verifica em nenhum lugar nas Escrituras os profetas se referindo aos gentios como cegos e surdos, somente aos filhos de Israel.

 

É coerente cegar ‘cegos’?

Não podemos abrir mão de considerar essa profecia de Isaias:

“Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado” (Isaías 6:10).

Segundo os itens 1 e 2 da doutrina calvinista da Depravação Total, que diz:

1 – Como resultado da transgressão de Adão, os homens são nascidos em pecado e são, por natureza, espiritualmente mortos; portanto, para se tornarem filhos de Deus e entrarem no Seu Reino precisam nascer de novo, do Espírito.

2 – Como resultado da queda, os homens estão cegos e surdos para a verdade espiritual. Suas mentes estão entenebrecidas pelo pecado; seus corações são corruptos e malignos.

Certo é que todos os homens, inclusive os judeus, são nascidos em pecado, e, por natureza, estão espiritualmente mortos. Uma verdade insofismável, como se lê:

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23);

“E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação” (Romanos 5:16).

Mas, se todos os homens nascem em pecado, incluindo os judeus, por qual motivo Deus cegou fez os ouvidos pesados e cerrou os olhos dos judeus a fim de que não enxergassem com os olhos e ouvissem com os ouvidos? O resultado da queda, segundo a concepção calvinista, não teve como resultado homens cegos e surdos, e mentes entenebrecidas? Por que se fez necessário Deus cegar os olhos, agravar os ouvidos e engodar o coração de mortos? Seria o caso de os judeus não terem nascidos no pecado?

Para não restar dúvidas acerca do público alvo da mensagem de Isaías, deve-se considerar o que foi dito pelo evangelista João ao explicar a rejeição dos judeus após Jesus entrar em Jerusalém, que disse: – “Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” (João 12:38). Isto posto, o evangelista explica: Por isso não podiam crer, pois como Isaías diz em outra passagem:

“Cegou-lhes os olhos, e endureceu-lhes o coração, a fim de que não vejam com os olhos, e compreendam no coração, e se convertam, e eu os cure” (João 12:40).

Ora, João estava falando dos judeus, assim como Mateus:

“Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, E, vendo, vereis, mas não percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos, E compreendam com o coração, E se convertam, E eu os cure” (Mateus 13:13 -15).

Para que se cumprisse a profecia de Isaias, Jesus sempre falava ao povo de Israel por parábolas, como se lê:

“Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas” (Mateus 13:34);

“E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Marcos 4:33 -34).

Ora, sabemos que uma mentira jamais prescinde da verdade, de modo que a mentira só existe por torcer, omitir ou acrescentar algo a verdade.

Consideremos os três últimos itens da Depravação Total:

3 – Antes dos pecadores nascerem no reino de Deus pelo poder regenerador do Espírito, são filhos do diabo e estão debaixo de seu controle. São escravos do pecado.

4 – O domínio do pecado é universal: todos os homens estão debaixo do seu poder; por conseguinte, ninguém é justo, nem um só.

5 – Os homens, sendo deixados em seu estado de morte, são incapazes, por si mesmos, de se arrepender, de crer no evangelho ou de vir a Cristo. Não têm poder, em si mesmos, para mudar sua natureza ou preparar-se para a salvação.

A doutrina calvinista acusa os homens de serem filhos do diabo, uma inverdade, visto que tal alcunha só foi direcionada aos judeus que não creram em Cristo, quando afirmou que se permanecessem no seu ensino, então seriam livres (João 8:31).

“Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” (João 8:43 -44).

Quem queria matar Jesus? Os gentios? Não! Quem queria mata-lo eram os judeus. Por que são nomeados filhos do diabo? Porque o diabo é homicida e somente profere mentiras, portanto, pai da mentira, ‘pai’ dos judeus incrédulos que intentavam matar Jesus.

O homem nascido no pecado é escravo do pecado, e não escravo do diabo. Na verdade, o próprio diabo é escravo do pecado, pois está separado de Deus. Os homens são filhos de Adão, e por isso, servos do pecado, visto que Adão vendeu ao pecado toda a sua descendência quando da queda.

É verdadeiro quando a doutrina calvinista diz: ‘O domínio do pecado é universal: todos os homens estão debaixo do seu poder; por conseguinte, ninguém é justo, nem um só’, mas, em seguida vem à mentira: ‘Os homens, sendo deixados em seu estado de morte, são incapazes, por si mesmos, de se arrepender, de crer no evangelho ou de vir a Cristo’.

Tendo por verdade que o pecado é universal, certo é que os judeus também eram pecados. Mas, mesmo sendo pecadores de nascimento, Deus cegou-lhes o entendimento, o que não foi feito com os gentios.

A mentira está em afirma que o homem no pecado, ou seja, morto, são incapazes de se arrepender, ou de crer, ou de ir a Cristo. Primeiro que não há impedimento do homem ir a Cristo, visto que o impedimento é de o homem ir a Deus; segundo, como havia impedimento para o homem ir a Deus, Deus enviou a Cristo como único caminho pelo qual o homem tem acesso a Deus; terceiro, arrepender-se é mudar de concepção frente a verdade do evangelho, o que os gregos denominavam ‘metanoia’, mudança de concepção.

A doutrina calvinista sempre faz algumas afirmações verdadeiras, porém, acompanhadas de inverdades, pois a mentira, como distorção da verdade, surge de senão da verdade.

 

Os mortos ouvem e veem

“Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem, viverão” (João 5:25).

Apesar de o homem no pecado estar morto para Deus, ou seja, não tem comunhão com Deus, pode ver e ouvir a mensagem do evangelho que é poderosa para salvação do homem.

Nesse versículo, apesar de Jesus apontar a condição do homem: morto para Deus, contudo ele destaca a eficácia da mensagem anunciada por Cristo, que concede vida aos mortos que ouvirem e crerem.

Embora morto em delitos e pecados, o pecador ao ter um encontro com Cristo será crucificado, morto e sepultado com Cristo, pois só assim poderá ressurgir com Cristo uma nova criatura. Observe que para um morto no pecado possa ressurgir para salvação, primeiro precisa ser morto.

Ora, se os mortos no pecado não veem e não ouvem, por que antes de ressurgirem com Cristo lhes é necessário serem crucificados, mortos e sepultados? O pecador precisa morrer para ressurgir porque vivia para o pecado, assim como quando Adão vivia para Deus, estava morto para o pecado.

Quando Adão pecou, deixou de estar vivo para Deus e passou a viver para o pecado, e todos os seus descendentes para voltar a ter comunhão com Deus precisam morrer para o pecado, como se lê:

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado” (Romanos 6:6 -7).

Isto posto, observe o comentário do calvinista Rev. Thomas Miersma cerca do verso 25 do evangelho de João, capítulo 5:

“Nesse versículo Jesus descreve não o corpo de um homem, mas a condição espiritual da sua alma e a obra da graça pela qual ele é salvo ao ouvir a Palavra de Deus. Através dela Jesus ensina que o homem está espiritualmente morto, não simplesmente moribundo. A salvação envolve uma ressurreição espiritual da morte. Isso é evidente a partir do fato que nesse texto Jesus não fala da futura ressurreição do corpo (algo tratado por ele num versículo posterior e como algo futuro, João 5:28), mas daquela hora que “agora é.” Esse texto é repercutido pela Palavra de Deus que diz, “Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados” (Efésios 2:1). Esta verdade define os limites para qualquer doutrina bíblica da salvação. O homem é um pecador morto e como tal pode fazer apenas o que um cadáver faz, cheirar à corrupção. Trata-se apenas de uma doutrina da salvação fiel que começa com um pecador morto e com a necessidade de uma operação da graça que o levanta da morte para a vida”. Thomas Miersma, ‘Sobre a Depravação Total do homem no pecado’, tradução de Marcelo Herberts (Grifo nosso). Fonte: What Jesus said about, Rev. Thomas Miersma, cap. 3.

Há várias verdades ditas, porém, com o fito de introduzir uma mentira. Que no verso Jesus faz referência à condição do homem como morto para Deus é verdadeiro; que a obra da graça de Deus é conceder salvação aos que ouvem a Sua palavra é verdadeiro; que a salvação envolve a ressurreição dentre os mortos é verdadeiro; Que Jesus não está tratando da ressurreição do corpo, que é uma ressurreição futura é verdadeiro; por fim, a asserção ‘O homem é um pecador morto e como tal pode fazer apenas o que um cadáver faz, cheirar à corrupção’ é mentira.

O homem é pecador porque está morto, e não ‘é um pecador morto’. Morto não é qualificativo do pecador, e sim condição, pois por causa da ofensa de Adão foi apenado com a morte.

Logo em seguida vem uma enxurrada de erros, por má dedução do que o texto bíblico citado diz:

“Jesus disse, “Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más. Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, temendo que as suas obras sejam manifestas” (João 3:19-20). Por essas palavras Jesus ensina que o homem, sendo morto, é mau e está em trevas espirituais. Ele não é neutro, apto a escolher e crer em Deus, mas odeia a luz do evangelho e não virá a Jesus. O homem não está simplesmente em trevas sem conhecimento ou luz, mas ele próprio, sendo um pecador, está obscurecido. Ele ama as trevas, ele tem laços de amor com as trevas. Em si mesmo, odeia a luz do evangelho e Cristo que é a luz do evangelho. Ele persiste na incredulidade” Idem.

O primeiro erro do Rev. Miersma é desconsiderar o público alvo da exortação de Jesus: um fariseu que era mestre em Israel, Nicodemos. Em segundo lugar, Cristo está emitindo um julgamento, e quem são as pessoas sujeitas aquele julgamento?

Observe que após Jesus anunciar que Deus deu o seu Filho para salvação de todo aquele que crê, enfatizou que quem não crê já está condenado. Ora, em se tratando da humanidade, sabemos que todos os homens foram julgados e apensados em Adão, por isso estão todos mortos.

“E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação” (Romanos 5:16).

O juízo veio por causa de uma só ofensa, e por ela a condenação. Mas, ao emitir um juízo, Jesus não estava falando da condenação da humanidade, mas analisando o comportamento dos Judeus que rejeitaram a Cristo, a luz que veio ao mundo, porque as suas obras eram más, ou seja, consistia somente em obedecer mandamentos de homens. Os Judeus não se aproximavam de Cristo temendo que a natureza de suas obras fosse revelada, e não porque estavam impedidos de ouvir e ver acercam da salvação.

A tratativa de Jesus ao apontar o julgamento tinha por alvo os Judeus, e não a humanidade. Que a humanidade está morta, é vil (má) e são trevas é fato, mas através desta passagem bíblica Jesus não está dizendo que a humanidade é inapta para ouvir a mensagem do evangelho e crer.

A inaptidão apontada pelo Rer. Miersma estava nos judeus, e não na humanidade. Um dos maiores equívocos da doutrina calvinista está em utilizar passagem bíblicas que falam do endurecimento de Israel como se fosse condição de todos os homens no pecado.

Observe:

“Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos. Como está escrito: Deus lhes deu espírito de profundo sono, olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem, até ao dia de hoje. E Davi diz: Torne-se-lhes a sua mesa em laço, e em armadilha, E em tropeço, por sua retribuição; Escureçam-se-lhes os olhos para não verem, E encurvem-se-lhes continuamente as costas. Digo, pois: Porventura tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum, mas pela sua queda veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação” (Romanos 11:7 -11).

A quem Deus deu espírito de profundo sono? À humanidade? É claro que não. E por que Deus deu espirito de profundo sono aos judeus? Porque eles, assim como todos os homens, apesar de serem escravos do pecado, podiam ver e ouvir a voz de Deus. Por isso Deus escureceu os olhos dos Judeus e encurvou as costas. Com qual objetivo? Incitá-los à emulação, para que a salvação chegasse aos gentios.

Uma característica própria aos judeus, os calvinistas transportam para a humanidade como um todo, somente para poderem divulgar os seus erros doutrinários.

O Rer. Miersma ao citar o verso 44 do capítulo 6 do evangelho de João, alega que o homem não tem a capacidade de crer, e nem vontade de ser salvo, mas não é essa a abordagem de Jesus.

“Jesus também disse, “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair …” (João 6:44). Nessas palavras Jesus ensina o mesmo princípio, que o homem não pode por si só crer, ele não tem capacidade de crer e não tem vontade de ser salvo. Ele “não pode vir.” A sua vontade está constrangida, pois como escravo das trevas, ele está espiritualmente morto” (Idem).

Por que Jesus disse que ninguém poderia ir até Ele, se não fosse concedido pelo Pai? Por dois motivos:

  1. a) ao falar aos judeus Jesus sempre utilizava parábolas “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Marcos 4:33 -34);
  2. b) Por Jesus sabia quem eram os que não criam e quem havia de entrega-Lo “Mas há alguns de vós que não creem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido” (João 6:64 -65).

Jesus deixa claro que o que disse tem em vista especificamente o fato de alguns não crerem n’Ele, mas os calvinistas procuram calcar a sua doutrina em uma passagem em que que Jesus não estava falando da tal ‘Depravação Total’.

Sem analisar o contexto de João 8, verso 43, o Rer. Calvinista, Miersma, fala que a humanidade está cega e surda, sendo que o texto trata especificamente com os judeus.

“Mais adiante Jesus disse ao perverso e incrédulo, “Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo” (João 8:43). O homem por si só não pode mesmo discernir espiritualmente o evangelho, tal é a sua cegueira. Como testificam todos os milagres de Jesus, ele está cego e surdo às coisas espirituais. A sua boca é muda e assim ele não pode adorar a Deus. Ele é um leproso em sua alma, sob o domínio do pecado e está confinado à prisão do pecado. Ele é o paralítico que não pode seguir os caminhos de Deus, seja no arrependimento ou na fé. Seus pecados precisam ser perdoados (Lucas 5:17-26)” (Idem).

Jesus estava falando a judeus que criam nele (João 8:31), e o reverendo diz que Jesus falou ao ‘perverso’ e ‘incrédulo’, de modo que o leitor subentenda que o texto está tratando da condição da humanidade.

Para quem a linguagem de Jesus não era clara? Quem eram as pessoas incapazes de ouvir o que jesus dizia? A humanidade como um todo, ou os judeus que ali estava?

Certamente que Jesus estava dizendo dos judeus que ali estava, pois eles não entendiam a linguagem de Jesus por Ele sempre falar por parábolas, e não podiam ouvir porque Deus cegou o entendimento dos judeus. Mas, os calvinistas utilizam o texto fora do contexto para dizer que a humanidade é cega e surda.

Por fim, após utilizar textos bíblicos fora do contexto, o Rer. Miersma passa a dizer que Jesus disse aquilo que, na verdade, não disse:

“Assim, Jesus ensina que o homem é um pecador morto, incapaz de crer por si só, não tendo um livre-arbítrio com o qual possa se aproximar da luz do evangelho, ou qualquer capacidade de entendê-lo. Ele ensina que o homem ama as trevas do pecado e da morte. Jesus ensina a doutrina da depravação total e da incapacidade total do homem. A graça todo-poderosa de Deus, apenas e tão somente salva! Deus salva pecadores mortos. Você crê nessa palavra de Jesus e aceita a sua condição tal como nas Suas palavras? Ou você vê a si mesmo em sua própria sabedoria, como se tendo algum bem em si mesmo? A sua confissão é a confissão da doutrina de Jesus de que somos espiritualmente mortos, ou é uma confissão pelos termos do homem, que não estamos completamente mortos, não plenamente confinados às trevas do pecado e do mal? Jesus disse a respeito do homem que ele “ama as trevas” e “odeia a luz.” Você crê em Seu veredicto? Ou você crê que ainda pode vir a Ele por si própria vontade e decisão quando Jesus diz que ninguém pode vir a Ele nessa condição? Não se trata de uma questão inútil. Jesus advertiu acerca dos falsos evangelhos e cristos que enganariam a muitos (Mateus 24:4-5, 11, 23-25). Esse é na verdade um alerta frequente. Jesus também confronta aqueles que confiam em si mesmos, em sua retidão, em sua fé e bondade e fala parábolas contra essas pessoas (Lucas 18:9-14)” (Idem).

Isto posto, não afirmo aqui neste artigo a doutrina arminianista, que também é outro dispartes. O posicionamento das Escrituras é de que o povo que andava em trevas, viu grande luz, e os que habitavam na sombra da morte resplandeceu a luz (Isaías 9:2). Esse povo estava cego e surdo? Por que não é dito que foi restaurada a visão e a audição deste povo? Por que somente o resplendor da luz é suficiente para salvar?

Ora, ao afirmar no verso 25 do evangelho de João, capítulo 5 que era chagada a hora dos mortos ouvirem a voz do Filho do homem, Jesus estava enfatizando que a voz do filho do homem seria anunciada a todos os povos indistintamente, pois todos estavam mortos em delitos e pecados. No entanto, aquele que der ouvidos, ou seja, atender, ouvir a voz do Filho de Deus, viverá (João 5:25).

Longe das Escrituras qualquer ideia de que o homem é cego e surdo para as coisas de Deus, pois se de fato admitir que é cego e surdo tendo por base as Escrituras, não terá culpa do pecado.

A Bíblia ensina que a humanidade dispõe de livre-arbítrio, mas não há poder de salvação no livre-arbítrio, e sim na mensagem do evangelho.

Assim como Adão sendo escravo da justiça dispunha de livre-arbítrio e decidiu desobedecer a Deus, o homem no pecado, sendo escravo do pecado, dispõe de livre-arbítrio, e diante da mensagem do evangelho pode decidir obedecer a Deus, crendo em Cristo.

“Estas são questões importantes. A salvação é pela graça mediante a fé, mas ela é uma dádiva de Deus em todos os aspectos (Ef. 2:8-9). Graça não é um mero auxílio que salva o homem por si só pelo seu uso da graça ou do evangelho. Fé é o fruto da obra da graça efetiva de Deus naquele que é levantado da morte para a vida, que sendo espiritualmente morto, chamado e vivificado por Cristo, escuta de fato e então crê. “Eu lhes afirmo que está chegando a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem, viverão” (João 5:25). A doutrina do livre-arbítrio é um falso evangelho de um falso cristo. É o orgulho pecaminoso que confia em si mesmo. Jesus também adverte contra esse orgulho pecaminoso do homem, que confia em sua própria capacidade, nega a sua real cegueira espiritual, e não precisa de Salvador. “Disse Jesus: ‘Se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece’” (João 9:41)” (Idem).

Assim como Cristo, o perfeito, sendo Servo do Senhor, era surdo e mudo, todos quantos creem em Cristo são tal qual Ele é ainda neste mundo, cegos e surdos: não julga segundo a aparência e nem segundo o ouvir dos ouvidos (Isaías 11:3).

“Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” (Isaías 42:19);

“E deleitar-se-á no temor do SENHOR; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos (Isaías 11:3).

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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