Espíritos em prisão e as partes mais baixas da terra

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Espíritos em prisão – Vale destacar que ‘as partes mais baixas da terra’ não se refere a um lugar como o ‘limbo’, ‘purgatório’, ou ‘paraíso’, tão presente no imaginário popular.


Espíritos em prisão – Parte I

Quem são os ‘espirito em prisão’ que Cristo ‘pregou’, segundo o que foi registrado pelo apóstolo Pedro? O que Jesus pregou aos espíritos em ‘cadeias’? Qual o local onde foi feita tal pregação?

“No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão” ( 1 Pedro 3:18 )

 

O espírito do Senhor

O profeta Isaías durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias (período compreendido entre 765 a.C. a 681 a.C.,) deixou registrado que que Jesus Cristo, o Filho de Deus e de Davi (2Sm 7:14), o Ungido de Deus pregaria boas novas aos mansos, restauraria os contritos de coração, proclamaria liberdade aos cativos e abertura de prisão aos presos:

O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” ( Is 61:1 )

O ‘espírito do Senhor’ sobre o Messias significa que a ‘palavra de Deus’, que é sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, conhecimento e temor, estaria sobre o rebento da raiz de Jessé – Jesus Cristo-homem:

“PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR (Is 11:1 -2).

Em outras palavras, a missão de Jesus – o Servo do Senhor – era pregar, restaurar, proclamar, etc., isto porque o ‘espírito’ que estava sobre Ele refere-se à palavra de Deus, o conhecimento, que, segundo o profeta Isaias, justificaria a muitos (2Sm 7:14; Is 11:1 -2; Lc 4:18 -21).

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is 53:11).

Para levar a efeito a redenção da humanidade, o Senhor Jesus foi pleno de sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, conhecimento, amor e temor, ou seja, a palavra (espírito) do Senhor estava sobre Ele “O Espírito de Yahweh, o SENHOR, repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito que proporciona o verdadeiro saber, o amor e o temor do SENHOR” ( Is 11:2 ).

‘Espírito’ no texto não se refere a uma ‘força’, ‘poder’, ‘possessão’ ou algo ‘fantasmagórico’, antes diz da palavra de Deus, dos conselhos antigos, que são juntamente ‘verdade’ e ‘fidelidade’ que permanece para sempre “Acerca dos teus testemunhos soube, desde a antiguidade, que tu os fundaste para sempre” ( Sl 119:152 ; Is 25:1 ; Sl 33:4 ).

A ‘unção do espírito’ proporciona conhecimento:

“E vós tendes a unção do Santo, e sabeis tudo” (1Jo 2:20);

“E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis” (1Jo 2:27).

Quando Asafe compôs o Salmo 78, nada disse de novo, pois apresentou os mesmos enigmas e as mesmas parábolas que fora anunciada aos pais na antiguidade (Sl 78:1- 2). Entretanto, Asafe profetizou que o Cristo, ao abrir a sua boca, proporia aos seus ouvintes as mesmas parábolas, enigmas e símiles anunciadas aos antigos, o que foi confirmado pelo evangelista Mateus:

“ESCUTAI a minha lei, povo meu; inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade. Os quais temos ouvido e sabido, e nossos pais no-los têm contado” ( Sl 78:1 -3; Mt 13:34 -35; Hb 1:1 ).

Quando se lê: “NO princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” ( Jo 1:1 -3), ou: “A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” ( Hb 1:2 -3), vemos que estas passagens bíblicas constituem notas explicativas de diversas profecias que constam dos Salmos e Profetas:

“Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca. Tema toda a terra ao SENHOR; temam-no todos os moradores do mundo. Porque falou, e foi feito; mandou, e logo apareceu” ( Sl 33:6 -8; Sl 102:25 -27).

O escritor aos Hebreus disse: “Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” ( Hb 11:3 ); “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele” ( Cl 1:16 ); “E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo” ( Ef 3:9 ).

O escritor aos Hebreus demonstrou que o Salmo 102 refere-se a Jesus Cristo, o Filho de Deus:

“Desde a antiguidade fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles se envelhecerão como um vestido; como roupa os mudarás, e ficarão mudados. Porém tu és o mesmo, e os teus anos nunca terão fim” ( Sl 102:25 -27 ; Hb 1:11 -12).

De antemão, as Escrituras apontavam que o Verbo eterno criou todas as coisas e, Deus, segundo o seu eterno propósito, que é a preeminência de Cristo em todas as coisas, aprouve salvar os homens que creem pela loucura da pregação (evangelho), para louvor e gloria da sua graça, vez que a humanidade estava sentenciada à morte por causa da ofensa de Adão.

“Pois olhou desde o alto do seu santuário, desde os céus o SENHOR contemplou a terra, para ouvir o gemido dos presos, para soltar os sentenciados à morte ( Sl 102:19 -20).

Com base no exposto acima, é seguro afirmar que o Salmo 146 também faz referência a Cristo, pois Ele é o Senhor que fez os céus e a terra e permanece para sempre:

“Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio, e cuja esperança está posta no SENHOR seu Deus. O que fez os céus e a terra, o mar e tudo quanto há neles, e o que guarda a verdade para sempre; O que faz justiça aos oprimidos, o que dá pão aos famintos. O SENHOR solta os encarcerados. O SENHOR abre os olhos aos cegos; o SENHOR levanta os abatidos; o SENHOR ama os justos; O SENHOR guarda os estrangeiros; sustém o órfão e a viúva, mas transtorna o caminho dos ímpios. O SENHOR reinará eternamente; o teu Deus, ó Sião, de geração em geração. Louvai ao SENHOR” ( Sl 146:5 -10); “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13:8).

Conforme a profecia, na plenitude dos tempos, o Verbo eterno despido de sua gloria e majestade, se fez homem quando veio ao mundo proclamar liberdade aos cativos e abertura das masmorras aos presos “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11:28); “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4:4; Lc 4:21; Rm 1:2 -4; Is 61:1).

O Verbo eterno despiu-se da sua glória e se fez carne para poder redimir a humanidade “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 2:7). O poder para libertar os contritos, de conceder liberdade aos cativos e abertura das masmorras aos presos estava especificamente na mensagem, no conhecimento, que o Filho de Deus veio proclamar:

“O Senhor DEUS me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer a seu tempo uma boa palavra ao que está cansado. Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça, como aqueles que aprendem” ( Is 50:4 ; Is 45:23 e Is 55:11 ; Sl 34:18 ; Is 57:15).

Segundo o predito pelos profetas, Cristo seria entregue nas mãos de pecadores, morto e ao terceiro dia ressurgiria dentre os mortos, no entanto, após a ascensão de Jesus, surgiram alguns pseudocristãos dizendo que não havia ressurreição dos mortos e que Jesus não veio em carne “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ; 1Co 15:12; 1Jo 4:3 ; 2Jo 1:7).

Fato é que, muitos viram Jesus em carne ( 2Co 5:16 ), e muitos irmãos viram o Cristo ressurreto, portanto, testemunhas oculares de que Ele ressurgiu dentre os mortos segundo o anunciado de antemão pelos profetas:

“Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus” ( 1Co 15:3 -9).

O cumprimento das profecias acerca da encarnação, morte e ressurreição de Jesus foi narrado sucintamente pelo apóstolo Paulo a Timóteo no seguinte verso:

“E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ).

O ministério evangelístico de Cristo visa soltar os presos em prisão, e foi nomeado pelo apóstolo Paulo de ‘o mistério da piedade’, através das premissas que se seguem:

  • Deus se manifestou em carne – Significa que o Verbo Eterno despiu-se da sua glória e se deu a conhecer aos homens em carne e sangue, tornando-se semelhante aos homens. ‘Deus manifesto em carne’ refere-se ao ministério terreno de Jesus quando veio revelar Deus aos homens ( Fl 2:7 -8; Hb 2:17 );
  • Foi justificado no Espírito – a ideia de ἐδικαιώθη ἐν πνεύματι ‘justificado no Espírito’ decorre do profetizado por Isaías: “… ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca (…) com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos” ( Is 53:9 e 11). Embora Cristo tenha se revelado aos homens em carne, a palavra de Deus contém o testemunho de que Cristo ‘nunca cometeu injustiça, nem engano houve em sua boca’, portanto, as Escrituras o declarou Justo ( 1Pe 2:22 ). Cristo foi declarado justo (justificado) nas Escrituras, ou seja, justificado no espírito; justificado no espírito é o mesmo que ser declarado justo pelas escrituras (espírito);
  • Visto dos anjos – Quando na carne, o Verbo eterno foi visto e tocado pelos seus seguidores (1Jo 1:2 -3; 2Pe 1:16), de modo que, o que os apóstolos viram e ouviram anunciaram: que Cristo veio em carne. Mas, aquele que veio em carne e foi justificado, após ressurgir dentre os mortos foi visto (ὀπτάνομαι) por seus ‘mensageiros’ (ἄγγελος), ou seja, pelos apóstolos; a ideia dos termos ‘ὤφθη ἀγγέλοις’ é evidenciar que, ao se manifestar ressurreto, o Verbo de Deus permitiu que muitos dos seus seguidores O vissem, de modo que os seus ‘mensageiros’ (ἄγγελος) servissem de testemunha a todos os povos do poder de Deus manifesto em Cristo, que o ressuscitou dentre os mortos “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra” ( At 1:8 );
  • Pregado aos gentios – o nome de Cristo foi anunciado a todos os povos ( Cl 1:23 );
  • Crido no mundo – homens dentre todos os povos ouviram a mensagem do evangelho e creram n’Ele;
  • Recebido acima na glória – após concluir a obra que o Pai comissionou, Cristo foi recebido acima no céu e assentou-se à destra da Majestade nas alturas até o tempo estabelecido pelo Pai (Sl 110:1).

O ‘mistério da piedade’ refere-se ao ‘ministério do espírito’, do qual o apóstolo Paulo foi feito ministro:

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um Novo Testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ).

Jesus veio ao mundo salvar o que se havia perdido e, desde que Ele nasceu, é anunciado aos homens boas novas de alegria “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” ( Lc 19:10 ); “E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor” ( Lc 2:10 -11; Mt 18:11 ; Is 42:19 ; Is 49:6 ; Rm 10:15 ).

Daí a pergunta: Por que o mundo estava perdido?

 

Os encarcerados

Segundo o Seu eterno propósito, Deus propôs em Si mesmo fazer Cristo preeminente (primogênito) entre muitos irmãos, e também, o mais elevado dos reis da terra. Para isso, o Verbo de Deus que a tudo criou, também criou o primeiro homem – Adão – à imagem que Ele, na plenitude dos tempos, haveria de vir ao mundo para levar a efeito o propósito eterno de Deus, que é fazer o Cristo elevado e mui sublime. Para isto, Cristo é:

  1. a) a cabeça da igreja, que é o seu corpo (Cl 1:18), e;
  2. b) o mais elevado dos reis da terra (Sl 89:27).

Vale destacar que Adão foi criado pelo Verbo Eterno à imagem do Cristo que havia de ser encarnado: Cristo-homem, precisamente na condição que o último Adão viria ao mundo, e não a expressa imagem e semelhança do Deus invisível ( Rm 5:14 ; Is 52:13 ).

Entretanto, o homem tornou-se aquém do propósito eterno estabelecido em Cristo, que é a sua preeminência, quando desobedeceu a palavra de Deus. O homem tornou-se impróprio para participar do propósito que Deus estabeleceu em Cristo, que é convergir n’Ele todas as coisas, para que em tudo Ele tenha a preeminência ( Ef 1:10 ), por causa da ofensa de Adão.

A Bíblia descreve o ‘mundo’ como perdido, isto porque todos os homens dentre todos os povos (judeus e gentios) pecaram e estão mortos em delitos e pecados ( Rm 3:23 ; Ef 2:1 ). Um homem pecou (transgrediu) e todos foram gerados em pecado (perderam a marca, padrão). Um só homem pecou e juntamente todos se desviaram e alienaram-se de Deus, inclusive os judeus (1Co 15:21 -22; Sl 53:3; Rm 3:19 ). Todos pecaram (perca da marca) porque um só homem pecou (transgrediu), ou seja, todos ficaram aquém do padrão de justiça e retidão que há em Deus!

Por causa da ofensa de um só homem entrou o pecado no mundo e, pelo pecado a separação (morte) de Deus ( Rm 5:12 ). A condição de Adão, após ofender a Deus, passou a todos os homens, por isso é dito nos Salmos que ‘todos juntamente se desviaram’ de Deus (judeus e gentios), ou seja, todos pecaram ( Sl 53:3 ; Sl 14:3 ).

Da mesma forma que a Bíblia afirma que Levi deu dízimo a Melquisedeque, vez que Levi ainda estava na coxa de Abraão quando o patriarca dizimou ao sacerdote do Deus Altíssimo Melquisedeque, segue-se que a humanidade juntamente se fez imunda e se desviou de Deus por estar na coxa de Adão quando ele pecou ( Hb 7:9 ).

Estar em comunhão com Deus é liberdade plena, mas em função da ofensa, o homem alienou-se de Deus. A liberdade que havia na comunhão com Deus foi substituída pela prisão decorrente da barreira de separação que foi erguida pela ofensa ( Is 59:2 ).

“Liberdade é classificada pela filosofia, como a independência do ser humano, o poder de ter autonomia e espontaneidade” Wikipédia.

A ideia bíblica de ‘liberdade’ só se aplica quando há comunhão ou uma relação entre as partes, diferente do conceito filosófico que aponta a independência como liberdade. Ex: enquanto um filho permanece na casa do pai, goza de liberdade, pois a liberdade é intrínseca à relação pai e filho. Mas, se o filho se emancipa, adquire independência, porém, perde a liberdade que possuía na casa do pai.

Em nossos dias poucos compreendem a distinção que há entre gozar de liberdade e o conceito recente de liberdade cunhado na Revolução Francesa. Ex: para muitos o filho pródigo ganhou a liberdade quando pegou a herança do pai, no entanto, o prodigo tornou-se independente. Ele ganhou independência e perdeu a liberdade que possuía quando na casa do pai.

Enquanto o homem é servo de Deus possui plena liberdade, mas quando é livre de Deus, passa a condição de escravo do pecado e sem comunhão com Deus.

“Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça” ( Rm 6:20 ).

Por causa da ofensa, Adão ingressou em uma prisão tendo a morte como aguilhão, e todos os seus descendentes, por serem proveniente da carne, do sangue e da vontade do homem (coxa) já nascem separados de Deus (mortos), portanto, presos pelo pecado, ou seja, escravos ( Jo 1:12 -13).

Enquanto se submetia à ordenança divina, Adão gozava de liberdade, mas ao desobedecer, tornou-se ‘livre’ (independente) de Deus e aprisionado pelo pecado. Ao se vender ao pecado, Adão comprometeu a sua semente, aprisionou na morte todos os seus descendentes, e todos juntamente passaram a compartilhar de igual condição: perdidos.

Para a escravidão do pecado não se aplica os princípios da lei abolicionista do ventre livre (Lei Rio Branco) que foi aplicada no Brasil nos idos de 1871. Todos os descendentes de Adão, independentemente de suas vontades ou virtudes, são pecadores, portanto, sujeitos à pena capital (morte).

Ora, todos os homens morreram e são contados como pecadores porque foram gerados alienados de Deus. A ideia de que os homens se tornam pecadores a partir do momento que fazem coisas inconvenientes do ponto de vista da moral é equivocada.

Embora os descendentes de Adão não tenham individualmente desobedecido a uma lei, como fez Adão, todos foram feitos pecadores quando nasceram por serem gerados segundo a carne de Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão…” ( Rm 5:14 ).

O pecado não deriva de questões morais, antes decorre de nascimento. O homem é pecador porque todos estavam na coxa de Adão quando Ele ofendeu a Deus, embora nenhum descendente de Adão tenha desobedecido a Deus à semelhança da transgressão de Adão, que era não comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

O homem não se torna pecador quando pratica uma conduta má, antes é pecador porque Adão desobedeceu a Deus comendo do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Todos foram feitos pecadores no Éden, e ao abrirem a madre (porta larga) acessaram o mundo na condição de escravos do pecado por terem sido gerados segundo a carne de Adão. Por isso é disto que o homem natural é filho da ira e da desobediência “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão…” ( Rm 5:14 ; Cl 3:6 ).

É impossível aos descendentes de Adão transgredir conforme Adão transgrediu, vez que todos os seus descendentes já são gerados alienados de Deus, porém, todos os descendentes de Adão são contados como transgressores por serem descendentes de Adão, gerados alienados de Deus e sujeitos a ira de Deus.

Para transgredirem a semelhança de Adão, os descendentes de Adão deveriam ser livres do pecado e com o dever de se sujeitarem a uma lei estabelecida por Deus que os alertasse e preservasse vivos em Deus, como o foi com Adão no Éden.

O pecado que separa o homem de Deus não tem origem em questões comportamentais, morais, éticas, legais, etc., pelo contrário, o pecado originou-se da desobediência do pai da humanidade, sentenciando todos os homens à morte. O pecado diz da condição do homem sujeito à condenação (morte=separado de Deus) após ser gerado da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue ( Jo 1:11 -12).

Não se pode confundir a ‘ofensa’ com o ‘conhecimento’ proporcionado pelo fruto da árvore que estava no meio do jardim do Éden. Enquanto a ofensa é o pecado que alienou o homem de Deus, o conhecimento do bem e do mal é o que tornou o homem ‘como’ Deus: sabendo o bem e o mal “Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente” ( Gn 3:22 ).

Questões éticas, morais, comportamentais, etc., são posteriores à desobediência de Adão, pois elas decorrem do conhecimento do bem e do mal proveniente do fruto da árvore que estava plantada no meio do jardim do, e não da ofensa de Adão. Da ofensa (desobediência) de Adão originou-se o pecado, o que não pode ser confundido com o conhecimento proporcionado pelo fruto. No fruto não havia pecado, só conhecimento. O pecado surgiu da transgressão de Adão por força do mandamento.

Ao comer do fruto da árvore que estava no meio do jardim do Éden, primeiro o homem pecou e, em seguida, adquiriu o conhecimento proveniente do fruto. O conhecimento proveniente do fruto não é o pecado. O pecado entrou no mundo pela desobediência de Adão, portanto, não decorre das virtudes e dos vícios, pois a alienação de Deus decorre de nascimento e não do comportamento. O pecado é anterior ao conhecimento do bem e do mal, apesar de o ‘pecado’ e o ‘conhecimento do bem e do mal’ se instalarem no mesmo evento: quando Adão comeu do fruto que Deus alertou para não comer. Conhecer o bem e o mal não é pecado, antes é o que tornou o homem como Deus.

Para serem pecadores os descendentes de Adão nada necessitam fazer ou deixar de fazer. O homem é pecador pelo fato de ser gerado separado de Deus. A separação se instalou quando Adão desobedeceu ao Criador. Um homem pecou, todos os homens foram gerados pecadores, ou seja, um homem pecou, todos foram feitos pecadores.

Os homens são pecadores porque são gerados alienados de Deus. Não podemos confundir as ações inconvenientes dos homens que se deixam guiar por seus pensamentos vãos com a condição nomeada de ‘pecado’. Pecar não decorre das ações desregradas dos homens, antes o homem peca porque é servo do pecado. A condição de servo do pecado é o que torna o homem pecador, e não o contrário.

A figura da escravidão é utilizada para ilustrar a condição da humanidade separada de Deus. Quando Adão transgrediu o mandamento de Deus contraiu uma dívida que jamais conseguiria quitar. Uma dívida impagável na antiguidade levava à escravidão, daí a colocação de que Adão se vendeu como escravo ao pecado.

O escrito de dívida que pesava contra Adão passou a vigorar sobre todos os seus descendentes, por isso que é dito que todos pecaram, mesmo não tendo transgredindo a semelhança da transgressão de Adão.

É comum os homens apontarem condutas sociais inconvenientes como sendo pecado, porém, só Deus pode apontar o que é pecado. Lá no Éden foi evidenciado que ‘pecado’ é a desobediência à ordem de Deus. Deus deu ordem a Adão para não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal apontando as consequências, caso o homem comesse. Ao desobedecer, Adão ofendeu a Deus e passou à condição de morto, ou seja, separado, alienado de Deus, consequentemente, toda a geração de Adão foi afetada pelo pecado.

Ora, o que prende o homem à morte é o pecado, condição herdada de Adão e que perdura sobre os homens por força do mandamento que foi dado lá no Éden “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

A penalidade expressa no mandamento (lei) que previa a alienação de Deus (morte) concedeu ao pecado força, pois pela transgressão do mandamento, juntamente, todos os homens extraviaram-se e morreram. Em decorrência desta realidade funesta é que os profetas descreviam a humanidade como andando em trevas, habitando na região da sombra da morte, presos em uma prisão, mortos que residem em um cárcere ( Is 9:2 e Is 42:7 ).

O mal da humanidade está na alienação de Deus, condição proveniente da ofensa de Adão. Ao comer do fruto o homem cometeu injustiça e separou-se de Deus.

Deus é vida, luz, liberdade e verdade, separado de Deus o homem perdeu a vida, ingressou nas trevas, aprisionou-se na mentira.

Apesar da condição da humanidade, Deus amou todos os homens de todos os povos de igual maneira, pois deu o seu Filho Unigênito em resgate de muitos. O Verbo que se fez carne anunciou aos homens boas novas de alegria para que todo aquele que n’Ele crer não pereça, mas tenha a vida eterna ( Jo 3:16 ; 1Pd 1:20 -21; 1Pd 2:6 ; Is 42:6 ).

As boas novas de alegria em Cristo foram anunciadas aos pecadores, homens de todas as tribos e línguas condenados pela ofensa de Adão, ou seja, aos encarcerados, aos presos em masmorras “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” ( Is 61:1 ).

Deus prometeu a Abraão que, em seu descendente todas as famílias da terra seriam benditas e, na plenitude dos tempos, enviou o seu Filho nascido de mulher com a missão de soltar os sentenciados à morte, para que recebessem o espírito (palavra de Deus) através da pregação da fé (evangelho) “Pois olhou desde o alto do seu santuário, desde os céus o SENHOR contemplou a terra, para ouvir o gemido dos presos, para soltar os sentenciados à morte ( Sl 102:19 -20); “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4:4).

 

A Liberdade

Como só um homem trouxe o pecado (separação de Deus), e, pelo pecado a morte, e a morte passou a todos os homens, para se estabelecer a justiça exigida por Deus e o homem voltar a vida, somente através de um ato de justiça de outro homem em tudo semelhante a Adão: livre do pecado, portanto Cristo, o último Adão ( 1Co 15:21 -22).

Só um homem sem pecado seria capaz de reparar a ofensa do primeiro Adão e, por este motivo, o Verbo eterno se fez carne. Introduzido por Deus no ventre de Maria, nas mesmas condições do primeiro homem (Sl 22:10), Cristo é a cabeça de uma nova geração der homens celestiais, assim como o último Adão ( 1Co 15:45 ).

Para ser introduzido no mundo, o Verbo eterno despiu-se da Sua glória e foi lançado no ventre de uma virgem, momento em que se cumpriu a profecia que diz:

“Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ; Sl 22:9 -10; Fl 2:7 ).

Neste mundo, o Verbo eterno despido de sua glória, desfrutou de uma nova relação com a divindade: assumiu a posição e a condição de Filho, e Deus a posição de Pai. Por amor de todos os homens, Deus entregou o Seu único Filho que estava no mundo para salvá-los, e Cristo, ainda que era Filho, não usurpou sua posição, antes se resignou a obedecer a Deus na condição de servo, humilhando-se a si mesmo até concretizar a salvação dos homens, entregando-se à morte de cruz “EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” ( Is 42:1 ; Fl 2:8 ).

Jesus veio ao mundo e anunciou as boas novas de salvação a todos os homens, pois todos estavam encarcerados. Os homens residiam (habitavam) na região da sombra da morte, portanto, todos eram espíritos em prisão. Cristo é a luz anunciada pelo profeta Isaías que resplandeceu aos habitantes da região da sombra da morte, para abrir os olhos dos cegos, tirando da prisão os presos e os encarcerados que jazem em trevas.

“O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 );

“Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” (Isaías 42 : 7).

Por Cristo é anunciada a paz a todos os homens (tanto os judeus quanto os gentios), de modo que, a humanidade voltou a ter acesso a Deus por intermédio de uma mesma mensagem (espírito), que expressamente diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ); “E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto; Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito” ( Ef 2:17 -18).

Mas, como alcançar a liberdade oferecida por Cristo? Morrendo para aquilo que retém o homem na morte: o pecado! Como? Sendo participando da morte de Cristo, ou seja, crendo na Sua palavra, pois só desta maneira o homem morre, é sepultado e, é de novo gerado ao ressurgir com Cristo (o último Adão – Cristo – espírito vivificante) uma nova criatura ( 1Co 15:45 ).

A salvação está em que o homem creia na mensagem anunciada por Cristo, pois as palavras que Ele veio anunciar é de vida eterna “Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” ( Jo 6:68 ); “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” ( Hb 2:3 ).

Hoje, o homem permanece no pecado, debaixo de condenação, até que creia no nome do Filho de Deus, Jesus Cristo. Porque a justiça e a vida esta em que se obedeça a Deus crendo que Jesus é o Filho de Deus. Quando o homem crê em Cristo obedece ao mandamento de Deus, e honra tanto o Pai quanto o Filho ( Jo 5:23 ; 1Jo 2:23 ), sendo restaurado à comunhão com Deus ( Jo 16:9 ; 1Jo 3:23 ).

Qualquer que não crê que Jesus é o Filho de Deus permanece no pecado, ou seja, é escravo do pecado ( Jo 8:34). Se não crer em Cristo conforme as Escrituras, o homem permanece em trevas, morto, alienado de Deus, inimigo de Deus, etc. “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ); “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo. Do pecado, porque não creem em mim” ( Jo 16:8 -9).

O homem permanece no pecado porque não quer comer do pão que dá vida: Jesus Cristo, nosso Senhor. Para comer do pão e beber da água basta crer com o coração que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos e confessar com a boca que Jesus é o Senhor, o Filho de Deus.

Crer em Cristo é o exigido do homem por Deus, e não obedecer a Deus é permanecer no pecado “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” (Jo 8:24). Enfatuados na carnal compreensão os homens relacionam ações e omissões diversas relacionadas com a moral e o comportamento humano como sendo o pecado que separa o homem de Deus, e não atentam para o que Deus exige: crer em Cristo.

Aquilo que os homens entendem por pecado não é o que consta das Escrituras, pois a Bíblia demonstra que os homens são pecadores porque um só homem desobedeceu ao Criador quando comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Ciente de que os homens estabelecem de moto próprio o que é pecado, Jesus disse: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). É a condição de servidão ao pecado que faz com que o homem seja pecador, e não o contrário.

Os homens erram o alvo (pecam) quando buscam a Deus através das suas práticas religiosas porque elas não livram o homem da natureza herdada de Adão. Pelo fato de ter sido gerado segundo a carne, o homem natural sempre errará o alvo através das suas práticas morais ou religiosas, pois é imprescindível o conhecimento de Deus revelado por Cristo que concede o poder de ser gerado de novo.

Somente os gerados segundo a carne são escravos do pecado, pois os gerados segundo a palavra de Deus – a semente incorruptível – são libertos do Senhor, portanto, não são pecadores e não pecam “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” ( 1Jo 3:9 ).

Quando Jesus declarou que: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ; 1Co 15:46 ), estava demonstrando a Nicodemos que o homem natural é pecador, ou seja, invariavelmente peca, pois tal problemática decorre da sua origem. Semelhantemente, Jesus demonstrou que o homem nascidos da palavra de Deus (espírito), não é pecador, ou seja, não peca, por causa da sua origem: é nascido de Deus e a semente de Deus permanece nele ( 1Jo 3:9 e 5:18).

Os nascidos segundo a carne são todos os homens que veem ao mundo segundo o nascimento natural, já os nascidos do Espírito, são os nascidos de novo segundo a verdade do evangelho, que é poder de Deus.

Os homens nascidos segundo a carne se inclinam para os mandamentos de homens, filosofias, vãs sutilezas, estórias de velhas, genealogias, fábulas, vãs contendas, etc., coisas que são pertinentes à carne e que não livra o homem da morte. Já os nascidos de novo se inclinam para a palavra da verdade (espírito), que concede vida por reconciliar o homem com Deus.

“Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:4 -6).

Com base na exposição acima, reunimos os elementos para começarmos a desvendar a questão acerca dos ‘espíritos em prisão’ para os quais Jesus pregou.

Quem são os espíritos em prisão para os quais Jesus pregou, conforme o que escreveu o apóstolo Pedro? Onde e quando Jesus pregou aos espíritos encarcerados?

“No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão” ( 1Pd 3:18 ).

Antes de analisar a asserção do apóstolo Pedro, que consta do verso 18 do capítulo 3, primeiro analisarmos Efésios 4, verso 9, pois muitos equivocadamente relacionam ou amalgamam a mensagem endereçada aos cristãos em Éfeso com o que foi redigido pelo apóstolo Pedro aos cristãos da dispersão, como se fosse o mesmo assunto.

“Ora, isto ele subiu que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?” (Ef 4:9)

Neste ponto, faz-se necessário uma releitura da epístola aos Efésios desde o inicio, quando o apóstolo Paulo se apresenta como apóstolo pela vontade de Deus (Ef 1:1), e, depois ele esclarece que foi feito ministro do evangelho segundo o dom da graça de Deus (Ef 3:7), para compreender a abordagem que ele fez do Salmo 67.

 

A medida do dom de Cristo e o exercício do ministério

Ao demonstrar que o homem é salvo graciosamente por meio do evangelho (fé, Cristo), o dom de Deus ( Ef 2:8; Jo 4:10 ), o apóstolo Paulo enfatiza que foi feito ministro através do mesmo dom ( Ef 3:7 ). No entanto, a graça redentora foi concedida a cada cristão segundo a medida do dom de Cristo, ou seja, através do evangelho.

Além de ter sido salvo por intermédio do evangelho, o dom da graça de Deus (Ef 2:5 e 8), o apóstolo Paulo demonstra que lhe foi concedida a graça de anunciar o evangelho entre os gentios (Ef 3:7 -8). Ao demonstrar que os cristãos foram salvos (a graça foi dada a cada um de nós) por intermédio de Cristo – o dom de Deus – a fé manifesta ( Ef 2:8 ; Gl 323 -25; Jo 4:10 ), o apóstolo Paulo fez referência a seguinte profecia do salmista Davi:

Tu subiste ao alto, levaste cativo o cativeiro, recebeste dons para os homens, e até para os rebeldes, para que o SENHOR Deus habitasse entre eles” (Sl 68:18).

“Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo. Por isso diz: ‘Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens’. Ora, isto – Ele subiu – que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas” ( Ef 4:8 -10 );

Ao apresentar o evangelho como dom concedido por Cristo (Ef 4:7), o apóstolo referencia o Salmo 68, em que consta que foi concedido ‘dons aos homens’ ( Ef 4:8 ).

Até então, os judeus não compreendiam as Escrituras, e não atinavam acerca do que o salmista disse com a frase ‘subindo ao alto’. O apóstolo Paulo, por sua vez, demonstra que o único que subiu ao alto, foi o que de lá desceu: Cristo ( Jo 3:13 ), pois Cristo mesmo alertou que as Escrituras testificavam d’Ele (Jo 5:39).

O dom da graça de Deus é concedido mediante o evangelho, o poder de Deus para todos os que creem. Mas, este mesmo dom que concede justificação, também estabeleceu alguns como apóstolos, outros mestres, outros doutores, etc., isto visando o aperfeiçoamento dos santos.

O apóstolo Paulo divide a citação dos Salmos em duas partes:

“διὸ λέγει· ἀναβὰς εἰς ὕψος ᾐχμαλώτευσεν αἰχμαλωσίαν…

…[καὶ] ἔδωκεν δόματα τοῖς ἀνθρώπ”

“Por isso diz: ‘Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro…

… [e] deu dons aos homens”

Primeiro o apóstolo explica o motivo pelo qual o Salmista registrou ‘subiu ao alto’, dizendo: ‘Ora isto – ele subiu – que é, senão que desceu…’. Depois de explicar o fato de ter sido concedido ‘dons aos homens’ (Ef 4:8 10), o apóstolo Paulo enfatiza que foi Cristo que separou os homens para o exercício de ministérios visando o aperfeiçoamento dos santos.

Os cativos do Senhor são comissionados como despenseiros da graça de Deus, pois por meio dos seus servos, muitos são libertos do Senhor.

“Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pd 4:10);

“Além disso, requer-se dos despenseiros que cada um se ache fiel” (1Co 4:2).

É o mesmo Cristo que concedeu dons aos homens que concede a uns serem apóstolos, e a outros profetas, evangelistas, pastores, doutores, etc., tendo em vista a edificação dos santos.

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas…” (Ef 4:11).

Além do dom inefável que concede vida, segundo esse mesmo dom os cristãos foram agraciados com uma missão:

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15).

 

O dom de Cristo e as partes mais baixas da terra

Como compreender a explanação do apostolo Paulo de que Jesus ‘desceu às partes mais baixas da terra’?

Para os teólogos católicos ‘às partes mais baixas da terra’ seria o ‘limbus patrum’ um lugar fora dos limites do céu, onde os mortos não salvos pela graça justificadora vivem em plena felicidade natural, no entanto, privados da visão beatífica de Deus.

Para a teologia católica, o limbo não deve ser confundido com o purgatório e nem com o inferno. O inferno seria um lugar de condenação eterna e o purgatório um lugar de punição purificadora temporária.

O dogma do ‘limbus patrum’ aponta para um lugar em que os santos do Antigo Testamento permaneceram despertos e conscientes, aguardando a redenção da humanidade por Cristo, e que Jesus noticiou a sua vitória sobre o pecado e a morte quando ocorreu o seu ‘descensus’ ao Hades, e assim, Jesus concedeu às almas dos santos do Antigo Testamento salvação.

Esse posicionamento doutrinário decorre do Credo dos Apóstolos, uma profissão de fé (credo) que data antes da quinta década d.C., que tem as seguintes asserções:

Credo dos Apóstolos:

  1. Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra;
  2. E em Jesus Cristo, um só seu Filho (seu único Filho), Nosso Senhor,
  3. Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem;
  4. Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
  5. Desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia;
  6. Subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,
  7. De onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
  8. Creio no Espírito Santo,
  9. Na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos,
  10. Na remissão dos pecados,
  11. Na ressurreição da carne,
  12. Na vida eterna. Amém.

Por causa dos verbos que constam dos itens 4 e 5 do suposto Credo Apostólico: “…foi crucificado, morto e sepultado; Desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia”, que é dito pelos Católicos que Cristo desceu ao limbo. Tal entendimento decorre de uma má leitura da passagem bíblica que diz: “Ora, isto: ‘Ele subiu…’”, que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?” ( Ef 4:9 ), amalgamada com a passagem de primeira Pedro 3, verso 18.

A má leitura do texto bíblico combinada com a ideia filosófica de Platão fez com que esta passagem bíblica da carta do apóstolo Paulo aos Efésios fosse combinada com outra passagem bíblica da carta do apóstolo Pedro, o que deu azo a uma concepção equivocada acerca do estado dos salvos após a morte física, e sobre o Cristo quando na sepultura.

O apóstolo Paulo arguiu que Jesus desceu à parte mais baixa (κατώτερος) da terra (μέρη τῆς γῆς), ao interpretar o verso 19 do Salmo 67, que diz:

“Tu subiste ao alto, levaste cativo o cativeiro, recebeste dons para os homens, e até para os rebeldes, para que o SENHOR Deus habitasse entre eles” ( Sl 67:19 ).

O apóstolo somente explicou o fato de Cristo ter ‘subido ao alto’, quando diz:

“Ora, isto: ‘Ele subiu…’, que é, senão que também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?” (Ef 4:9).

Vale destacar que, o apóstolo Paulo desvenda o enigma que há no verso 18 do Salmo 68, apontando Cristo como aquele que ‘subiu ao alto’.  O apóstolo explica que Cristo subiu ao alto (Sl 68:18), mas que, antes de subir, desceu às partes mais baixas da terra.

Em resumo, o Verbo eterno se fez carne e habitou entre os homens (Sl 68:16 -17), mas antes de subir ao alto (voltar para o Pai), desceu à sepultura, ou seja, à parte mais baixa da terra.

Cristo subiu de onde e foi para onde? Cristo subiu da sepultura (as partes mais baixas da terra) para se assentar à destra da Majestade nas alturas (Sl 110:1). Vale destacar que ‘as partes mais baixas da terra’ não se refere a um lugar como o ‘limbo’, ‘purgatório’, ou ‘paraíso’, tão presente no imaginário popular.

O Salmo 30 faz referência à ressurreição de Cristo, como Aquele que subiu da sepultura e que teve a vida preservada, diferentemente do destino de todos quantos descem à cova “SENHOR, fizeste subir a minha alma da sepultura; conservaste-me a vida para que não descesse ao abismo” (Sl 30:3).

Para entrar no mundo, todos os homens entram pelo nascimento natural através de Adão. As exceções somente se deram em Adão e Cristo, pois este entrou no mundo lançado por Deus no ventre da virgem Maria e foi feito espírito vivificante (Sl 22:10; Sl 139:14), e aquele foi formado do pó da terra, feito alma vivente (1Co 15:45).

Mas, para sair do mundo, a única maneira é a morte, quando se desce às partes mais baixas da terra: a sepultura. Com Cristo não foi diferente, pois Ele desceu ao seio da terra, à sepultura, permanecendo três dias no túmulo como um sinal da parte de Deus para os incrédulos (Mt 12:40).

Exceções de como sair do mundo vemos em Enoque e Elias, pois este foi elevado aos céus em um redemoinho e, aquele trasladado (2Rs 2:11; Gn 5:24). Futuramente alguns membros do corpo de Cristo, a igreja, serão arrebatados, portanto, não descerão à sepultura.

Quando lemos a seguinte profecia acerca de Cristo: “A minha força se secou como um caco, e a língua se me pega ao paladar; e me puseste no pó da morte” ( Sl 22:15 ), o verso contém um jogo de palavras que descreve o termino das funções vitais do corpo, pois o ‘pó da morte’ refere-se à terra, donde o corpo físico foi tomado “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:19 ).

Nas profecias acerca de Cristo, temos aspectos distintos acerca da confiança e dos sentimentos de Cristo. A confiança de Cristo no Pai é patente quando lemos acerca da certeza da ressurreição e glorificação de Cristo “Não morrerei, mas viverei; e contarei as obras do SENHOR. O SENHOR me castigou muito, mas não me entregou à morte” ( Sl 118:17 -18), porém, os mesmos escritos proféticos demonstram os sentimentos, agonia e aflição diante da morte: “Tristezas de morte me cercaram, e torrentes de impiedade me assombraram. Tristezas do inferno me cingiram, laços de morte me surpreenderam. Na angústia invoquei ao SENHOR, e clamei ao meu Deus; desde o seu templo ouviu a minha voz, aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face” ( Sl 18:4 -6; Lc 22:44 ).

Embora Cristo tenha sido posto no pó da terra, pois foi sepultado, contudo a sua carne não viu corrupção, pois ao terceiro dia ressurgiu num corpo glorificado.

Diversos versículos tratam o evento do sepultamento como ‘descer à cova’, ‘descer à sepultura’ “O SENHOR é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela” ( 1Sm 2:6); “Porque não te louvará a sepultura, nem a morte te glorificará; nem esperarão em tua verdade os que descem à cova” ( Is 38:18 ).

De Cristo foi predito: “Tu, que me tens feito ver muitos males e angustias, me darás ainda a vida, e me tirarás dos abismos da terra ( Sl 71:20 ), o mesmo predito no Salmo 86: “Pois grande é o teu amor para comigo; livraste a minha alma das profundezas da sepultura ( Sl 86:13 ).

Os homens tem acesso aos sepulcros, quer sejam covas ou cavernas, porém, os termos ‘abismos’, ‘profundezas’, etc., não só se referem aos locais onde os corpos são enterrados, antes servem para demonstrar que só Deus pode resgatar o homem com vida do poder da sepultura ( Sl 68:20 ).

As ‘profundezas da terra’ é um lugar acessível a todos os homens quando aplicado como sinônimo de ‘sepultura’, vez que são os próprios homens que cavam as sepulturas “Que homem há, que viva, e não veja a morte? Livrará ele a sua alma do poder da sepultura?” ( Sl 89:48 ).

O local onde os corpos dos que morrem são colocado, também é utilizado como sinônimo de ‘condenação’:

“Aqueles que procuram a minha vida serão destruídos; irão para as profundezas da terra” ( Sl 63:9 ).

Cristo foi morto e sepultado, quando foi sepultado (colocado no seio da terra), cumpriu-se a palavra que diz: ‘desceu as partes mais baixas da terra’, ou seja, cova, sepultura, abismo ( Mt 12:40 ). Descer às partes mais baixas da terra refere-se ao evento em que o corpo de Cristo foi depositado na sepultura, e não que Ele tenha ido ao limbo, purgatório, paraíso, céus, infernos, etc.

‘As partes mais baixas da terra’ é o mesmo que ‘abismo’, ou ‘sepultura’, como atesta o Salmo 30, através do paralelismo, recurso que é próprio as poesias hebraicas:

“SENHOR, fizeste subir a minha alma da sepultura;

conservaste-me a vida para que não descesse ao abismo ( Sl 30:3 );

“E, havendo eles cumprido todas as coisas que dele estavam escritas, tirando-o do madeiro, o puseram na sepultura” ( At 13:29 ).

O único homem que desceu à sepultura e, de lá subiu ao alto, foi Cristo. Observe que, ao interpretar a seguinte passagem bíblica: “Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem tampouco está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, para que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos?” ( Dt 30:12 ), o apóstolo Paulo não faz referência ao limbo, purgatório ou inferno, antes faz referência a ressurreição de Cristo:

“Ora Moisés descreve a justiça que é pela lei, dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas. Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.)” ( Rm 10:5 -7; Ef 1:20 -21 ).

A pergunta: ‘Quem subirá ao céu?’ era uma predição de que Cristo haveria de vir ao mundo (isto é, a trazer do alto a Cristo). De igual modo, ao perguntar: “Quem passará por nó além do mar”?, o mar[1] refere-se ao ‘abismo’, à ‘sepultura’, pois da sepultura Deus trouxe o Cristo, ressuscitando-O dentre os mortos (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo).

De Davi é dito que ele foi posto junto dos seus pais, ou seja, permaneceu na sepultura, ou seja, no ‘sheol’, mas de Cristo é dito que a sua alma não foi deixada no inferno, no sheol, no abismo, ou na morte, porque Ele ressurgiu, de modo que, a sua carne não sofreu corrupção.

“Nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no inferno, nem a sua carne viu a corrupção” ( At 2:31 ).

A ressurreição de Cristo dentre os mortos demonstra que foi cumprida a promessa de Deus aos pais:

“E nós vos anunciamos que a promessa que foi feita aos pais, Deus a cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus” ( At 13:32 ).

Jesus afirmou taxativamente que estaria por três dias e três noites no seio da terra, assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia ( Mt 12:40 ).

Nos três dias que esteve no seio da terra Jesus não subiu ao Pai, e nem fez ‘contato’ com os mortos, antes permaneceu no seio da terra:

“Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20:17).

O termo grego μέρη (regiões) não está nos melhores manuscritos e foi posta entre colchetes no verso em comento. A interpolação do termo ‘regiões’ induz o leitor a pensar que existe um lugar na qual os mortos ficam acomodados e até se relacionam uns com os outros até que venha o dia do juízo final.

“τὸ δὲ Ἀνέβη τί ἐστιν, εἰ μὴ ὅτι καὶ κατέβη εἰς τὰ κατώτερα [μέρη] τῆς γῆς;”

O[2] E[1] “Subiu” que é, senão que também desceu para as inferiores [regiões] da terra?

O termo κατώτερα (inferiores) dentro do contexto das Escrituras denota tão somente ‘sepultura’, a parte ‘mais’ inferior da terra. Significa que Cristo desceu literalmente ‘para dentro das partes mais baixas da terra’ ao ser sepultado.

No Antigo Testamento o termo utilizado para fazer referência ao lugar dos mortos é “Seol”. Esta palavra aponta exclusivamente o “lugar dos mortos”, ou seja, a sepultura, a tumba. Uma interpretação extensiva de que o ‘Seol’ refere-se ao “lugar das almas/espíritos que partiram” é temerário, pois os termos alma e espíritos servem para indicar que o indivíduo voltou para Deus, contrastando com o corpo, que é posto na sepultura.

No Novo Testamento, o termo utilizado para sepultura é “hades”, que em decorrência da mitologia grega, contempla a ideia pagã de que os mortos possuem um lugar como se fosse uma antessala do destino final.

Considerando que, após o corpo do homem voltar ao pó, o seu espírito volta para Deus, certo é que ‘seol’ e/ou ‘hades’ refere-se à sepultura, o lugar onde o corpo dos mortos são postos, pois Deus não está na sepultura.

“E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” ( Ec 12:7 ).

Se o seol/hades é um lugar temporário onde os espíritos dos mortos ficam aguardando a ressurreição, teríamos que admitir que Deus fica no seol/hades, no entanto, o texto é claro: o pó volta para à terra (seol/hades ) e o espírito volta a Deus.

A ideia de que o seol/hades é a dimensão dos mortos com duas divisões é pagã e teve origem na mitologia grega. Quando é dito que “Nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no inferno, nem a sua carne viu a corrupção” ( At 2:31 ), o termo traduzido por inferno é ‘hades’, e que muitos relacionam o termo a uma divindade grega.

Conforme a construção própria à poesia hebraica, neste caso, um paralelismo sintético, o salmista demonstra que Cristo não foi abandonado na sepultura (hades), assim como Davi está na sepultura até os dias de hoje, ou seja, este viu corrupção permanecendo na sepultura, e aquele não viu corrupção, vez que não permaneceu na sepultura:

“SENHOR, fizeste subir a minha alma da sepultura;

conservaste-me a vida para que não descesse ao abismo” ( Sl 30:3 );

Através do paralelismo sintético verifica-se que o que permanece no Hades é a carne, visto que a carne é o elemento passível de corrupção, e não o espírito.

Quando é dito pelo apóstolo Paulo que Cristo subiu ao alto, levando ‘cativo o cativeiro’, muitos entendem que Cristo levou aos céus os salvos da Antiga Aliança que estavam no seol/hades, para um lugar chamado ‘Paraíso’, e que no seol/hades permaneceu o lugar dos perdidos.

Mas, o que Jesus levou cativo quando subiu ao alto? Jesus estava conduzindo à glória muitos filhos a Deus, os cativos do Senhor ( Sl 69:33 ), visto que, ao provar a morte por todos, venceu a morte (o aguilhão do pecado) e o pecado, tornando-se Senhor dos que estavam por toda existência sujeitos à servidão:

“E que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho” ( 2Tm 1:10 );

“Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles (…) E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo, e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:10 e 14 -15);

“Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne” ( Rm 8:3 ).

O que foi conduzido ao alto não diz de um lugar, antes diz de homens (αἰχμαλωσίαν = grupo de cativos), que são conduzidos a Deus, ou seja, que voltam à comunhão com Deus.

Jesus é a ressurreição e a vida, portanto detém poder sobre a morte e a vida, e restaura os homens à comunhão com Deus “E o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno” ( Ap 1:18 ); “Deus faz que o solitário viva em família; liberta aqueles que estão presos em grilhões; mas os rebeldes habitam em terra seca” ( Sl 68:6 ); “O nosso Deus é o Deus da salvação; e a DEUS, o Senhor, pertencem os livramentos da morte” ( Sl 68:20 ).

Influenciados pela concepção plantonista do ‘limbo’ e da ‘reencarnação’, muitos teólogos, ao lerem que Jesus ‘desceu as partes mais baixas da terra’, entendem que Jesus desceu a um lugar semelhante aos lugares descritos na mitologia grega e, por isso, introduziram a ideia de que há ‘regiões’ no interior da terra que pertencem aos mortos.

“Quanto às outras almas, terminada a primeira vida, passam por um julgamento. Umas vão para lugares de penitência, abaixo da terra, para sofrerem o castigo; outras sobem, por sentença, a um lugar do céu onde desfrutam as recompensas das virtudes que praticaram na vida terrestre. No milésimo ano, cada alma destas duas espécies tira a sorte e escolhe uma segunda vida, obtendo o que merece! Assim, uma alma humana pode entrar em corpo de animal, e a alma de um animal pode ir animar um corpo de homem, desde que já uma vez tenha sido homem” Platão, Fédon.

Para os gregos, o Hades é um lugar onde os mortos ficam. Para eles, o Hades era subdividido em dois setores: o Elísio (lugar dos bons) e o Tártaro (lugar dos maus). Por causa da expressão “desceu as partes mais baixas da terra”, e com base em alguns credos datados do primeiro século da história do cristianismo, surgiu a ideia de um mundo dos mortos com a seguinte composição: Paraíso e Hades.

Influenciados pela concepção plantonista do ‘hades’ e da reencarnação, muitos teólogos ao lerem que Jesus desceu às partes mais baixas da terra, relacionaram ‘as partes mais baixas da terra’ (κατώτερα μέρη τῆς γῆς) com as descrições mitológicas dos gregos acerca do ‘hades’.

Vale destacar aqui, que João Calvino, por causa da questão ‘desceu ao inferno’ no Credo Apostólico, argumentou que Cristo teve que sofrer as agruras do inferno para salvar o homem.

“Mas, além do Credo, devemos buscar uma exposição mais segura da descida de Cristo ao inferno: e a Palavra de Deus nos fornece uma não somente piedosa e santa, mas repleta de excelente consolo. Nada teria sido feito se Cristo tivesse suportado somente a morte corpórea. A fim de Se interpor entre nós e a ira de Deus e satisfazer o Seu juízo justo, era necessário que Ele sentisse o peso da vingança divina. Por isso, também foi necessário que Ele se engajasse, por assim dizer, de perto com os poderes do inferno e os horrores da morte eterna.

Nós recentemente citamos a partir do Profeta, que “o castigo que nos traz a paz sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados”, que “Ele foi moído por causa das nossas iniquidades”, que “Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades”, que intimam que, como um patrocinador e fiador dos culpados e, por assim dizer, sujeito à condenação, Ele assumiu e pagou todas as penalidades que deviam ter sido exigidas deles, excetuando-se apenas que as dores da morte não O puderam conter. Por isso, não há nada estranho em ser dito que Ele desceu ao inferno, visto que Ele suportou a morte que é infligida aos ímpios por um Deus irado. É frívolo e ridículo objetar que desta forma a ordem é pervertida, sendo absurdo que um acontecimento que precedeu o sepultamento deva ser colocado depois dele. Mas, depois de explicar o que Cristo suportou à vista do homem, o Credo adequadamente acrescenta o julgamento invisível e incompreensível que ele suportou diante de Deus, para nos ensinar que não só o corpo de Cristo foi dado como o preço da redenção, mas que havia um preço maior e mais excelente – que Ele suportou em Sua alma as torturas de um homem condenado e arruinado” (Calvin, Institutas 6:10, https://www.ccel.org/ccel/calvin/institutes.iv.xvii.html.)

Outra leitura equivocada do texto da conta que ‘descer’ à parte mais baixa da terra refere-se ao evento da encarnação de Cristo. Da encarnação de Cristo é dito que Ele foi introduzido (εἰσάγω) no mundo, e não que desceu ( Hb 6:1 ).

Ora, a passagem bíblica não diz que Cristo desceu ao inferno (hades), o lugar preparado para o diabo e seus anjos e todas as gentes que se esquecem de Deus ( Sl 9:17 ), e nem da encarnação de Cristo, e sim que Cristo desceu as partes mais baixas da terra. A passagem bíblica faz alusão ao sepultamento de Cristo, visto que, para estar ‘no seio da terra’ por três dias, Jesus teve que ser sepultado, ‘descer as partes mais baixas da terra’ ( Mt 12:40 ).

De Davi é dito que ele foi posto junto dos seus pais, ou seja, na sepultura, ou no ‘hades’, mas de Cristo é dito que a sua alma não foi deixada no inferno (ᾍδης – hades), ou na morte, ou seja, Ele ressurgiu, de modo que a sua carne não sofreu degradação “Nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no inferno, nem a sua carne viu a corrupção” ( At 2:31 ).

Jesus afirmou taxativamente que estaria por três dias e três noites no seio da terra, assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia ( Mt 12:40 ). Interpretar que Jesus foi a algum lugar quando esteve no seio da terra é tergiversação.

O Salmista profetizou: ‘Tu subiste ao alto, levaste cativo o cativeiro’, e o que Cristo levou cativo ao subir ao alto? Um lugar? Uma masmorra? Uma prisão? Não! O salmista não fez referência a um lugar, mas àqueles que estavam presos (αἰχμαλωσίαν – um grupo de cativos).

Ao subir ao alto, os que estavam cativos no cativeiro, são conduzidos por Cristo como despojos (cativos). Por que os cativos são conduzidos ao alto? Porque foram feitos filhos de Deus. Quando subiu ao alto, Cristo conduziu muitos filhos à glória de Deus, ou seja, Ele tomou para si os cativos que estavam presos (Is 8:18).

“Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” (Hb 2:10);

“O Senhor ouve os necessitados, e não despreza os seus cativos” ( Sl 69:33 ).

Os cativos conduzidos ao alto referem-se à igreja, de modo que cada cristão está ‘assentado com Cristo nas regiões celestiais’ (Ef 1:3 e Ef 2:6).

“E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” (Ef 2:6).

Quando o dom de Deus – Cristo – subiu ao alto, levando cativo o cativeiro (um grupo de cativos), tais cativos (homens) foram adquiridos (לָקַ֣חְתָּ)[2], o que é uma dádiva (מַ֭תָּנוֹת)[3], pois Deus faz deles habitação, o santuário (templo) prometido a Davi (Sl 68:18; 2Sm 7:13).

O Salmo 107 descreve quem são os ‘rebeldes’ do Salmo 68:

“Tal como a que se assenta nas trevas e sombra da morte, presa em aflição e em ferro; Porquanto se rebelaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altíssimo. Portanto, lhes abateu o coração com trabalho; tropeçaram, e não houve quem os ajudasse. Então clamaram ao SENHOR na sua angústia, e os livrou das suas dificuldades. Tirou-os das trevas e sombra da morte; e quebrou as suas prisões. Louvem ao SENHOR pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens. Pois quebrou as portas de bronze, e despedaçou os ferrolhos de ferro” ( Sl 107:10 -16).

A expressão: ‘até dos rebeldes’ refere-se aos judeus, povo que desprezaram o conselho do Altíssimo, foram abatidos em função do tropeço! São descritos como em trevas, à sombra da morte, presos no cárcere (Sl 107:14).

Os judeus entendiam que o Salmo 68 era uma referência a Deus, porém, o apóstolo Paulo, através do verbo Ἀνέβη (subiu), demonstrou que se refere a Cristo, o único que subiu, mas que primeiro teve que descer ao seio da terra, ou seja, morrer para ressurgir dentre os mortos.

Sabemos, por intermédio dos eventos narrados no Novo Testamento, que o único que subiu ao alto, foi o que de lá desceu, o seja, Cristo. Jesus citou uma passagem do Livro de Provérbios ao dizer que ‘ninguém subiu ao céu, a não ser o que de lá desceu’, uma referência a encarnação e glorificação, diferentemente do apóstolo Paulo, que através do Salmo 68, verso 8, faz referência à morte e sepultamento de Cristo.

“Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu” ( Jo 3:13 );

“Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu. E diziam: Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu? (…) Sabendo, pois, Jesus em si mesmo que os seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: Isto escandaliza-vos? Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava?” (Jo 6:41 -42 e 61 -62)

“Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas numa roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?” ( Pv 30:4 ).

Diferentemente de João 3, verso 13, o versículo de Efésios não fala da encarnação de Cristo (do evento em que o Cristo de Deus veio ao mundo em carne). Cristo foi introduzido no mundo na encarnação e subiu aos céus quando da glorificação ( Jo 1:5 ), evento posterior à ressurreição dentre os mortos ( Hb 1:6 ; At 1:9 ).

Cristo ‘subiu ao alto’ após ter ressurgido dentre os mortos, mas antes, desceu do céu quando encarnou, e, também desceu as partes mais baixas da terra, apontando para o fato dele ter sido morto e sepultado.

Para que o Cristo subisse ao alto, primeiro era necessário morrer e ser sepultado (descer ao pó da terra, ou descer as partes mais baixas da terra). Ora, Cristo foi introduzido no mundo quando lhe foi preparado um corpo ( Hb 10:5 ), e só desceu as partes mais baixas da terra quando o seu corpo foi posto na sepultura com os ímpios ( Is 53:9 ).

Ao interpretar o verso 18 do Salmo 68, o apóstolo Paulo afirma que, antes de subir ao alto, Jesus desceu às partes mais baixas (κατώτερος) da terra (μέρη τῆς γῆς). Pelo fato de a profecia dizer: ‘Tu subiste ao alto…’, o apóstolo apontou que primeiro Cristo desceu, de modo que “… aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas” ( Ef 4:10).

O que Cristo cumpriu ao descer à sepultura e subir ao alto? Cumpriu todas as coisas que acerca d’Ele estava predito nas Escrituras pelos santos profetas (Mt 5:17 -18).

Há um alerta do apóstolo Pedro que enfatiza que Davi não foi quem subiu aos céus ao citar o Salmo 110, e sim, quem subiu foi o ‘Senhor’ do salmista, ou seja, o seu Filho, Jesus Cristo:

“Pois Davi não subiu aos céus, mas ele próprio disse: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés” ( At 2:34 -35).

Davi não subiu aos céus, mas o seu Filho é convidado do Senhor para assentar-se à sua destra, o que significa que o Cristo subiu aos céus.

Como Cristo foi enviado por Deus, o apóstolo Paulo apresenta Cristo como o dom de Deus, a fé manifesta na plenitude dos tempos, e por intermédio de Cristo, Deus passou a habitar entre os homens ( Jo 1:10 ). O dom de Deus veio ao mundo, e por intermédio d’Ele, o homem alcança salvação – vida eterna ( Rm 6:23 ; Jo 3:16 ; Jo 4:10 ).

O Salmo 68 é messiânico, e aponta para Cristo, o Senhor que escondeu o seu rosto do povo de Israel quando se desviaram após outros deuses “E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade” ( Dt 32:20 ). Mas, por diversas vezes os profetas anunciaram que os filhos de Israel deveriam aguardar o Senhor que escondeu a sua face “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” ( Is 8:17 ).

Cristo é o Senhor que saiu à frente do povo de Israel nas batalhas ( Sl 68:7 ), a pedra que os seguia no deserto ( 1Co 10:4 ). Cristo tornou a sua vontade manifesta ao povo de Israel ( Dt 30:12 ), mas ao rejeitá-Lo, Ele encobriu o Seu rosto.

Cristo é quem faz juízo aos pobres (viúvas) e recebe por filhos os órfãos provendo-lhes de casa, aquele que liberta os presos em grilhões ( Sl 68:5 -6 ). O Senhor Jesus, que a tudo criou, foi quem do seu santuário contemplou a terra e ouviu o gemido dos presos para soltar os que estavam sentenciados à morte “Pois olhou desde o alto do seu santuário, desde os céus o SENHOR contemplou a terra, para ouvir o gemido dos presos, para soltar os sentenciados à morte” ( Sl 102:19 -20).

A ‘condenação’ à morte dos ‘presos que gemem’ fala da perdição eterna, e não do termino das funções vitais do corpo. Diz de um quesito espiritual, e não físico. Com relação à sepultura, não há diferença alguma entre os justos e os injustos, pois ambos descem a campa fria “Que homem há, que viva, e não veja a morte? Livrará ele a sua alma do poder da sepultura?” ( Sl 89:48 ); “Porque eu sei que me levarás à morte e à casa do ajuntamento determinada a todos os viventes” ( Jó 30:23 ; Ec 9:2 ), porém, diante de Deus há diferença ( Ml 3:18 ), pois os nomes dos justos não estão inscritos junto com os nomes dos ímpios ( Sl 69:28 ).

Ao descer as partes mais baixas da terra e subir ao alto, Cristo cumpriu todo o que estava determinado nas Escrituras (Ef 4:10), para que pudesse “… abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas (Is 42:7; Sl 68:7).

Os cristãos precisam compreender a dimensão do amor de Deus para serem plenos da plenitude de Deus (Ef 3:18 -19), pois só assim estarão aptos a preservar a unidade do espírito, ou seja, a fé (evangelho). Como a graça foi concedida a cada cristão segundo o ‘padrão’ (medida[4]) do dom de Cristo (evangelho), todos precisam chegar à unidade da fé, que é a medida (padrão) da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4:13).

Como a graça foi dada segundo a medida (padrão) da fé – e a fé é uma só – a cada um dos cristãos, o apóstolo Paulo cita os Salmos:

“Por isso diz: subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens (Ef 4:8);

“Porque pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um (Rm 12:3).

Se o crente não pensar o evangelho segundo o que foi anunciado pelos apóstolos e os profetas estará indo além do que convém, não é moderado, ou seja, não se resigna à medida (padrão) da fé (evangelho) que foi entregue aos santos (Jd 1:3).

 

A expressão “desceu ao Hades”

O Dr. Heber Carlos de Campos, ministro presbiteriano, fez uma análise histórica da expressão ‘desceu ao Hades’ em um artigo disponível na Web intitulado “Descendit ad Inferna”: Uma Análise da Expressão “Desceu ao Hades” no Cristianismo Histórico <http://www.thirdmill.org/files/portuguese/13874~9_19_01_10-42-34_AM~heber1.htm> Consulta realizada em 23/12/13.

Em resumo, o Dr. Heber expõe que a expressão ‘desceu ao Hades’ consta de dois credos antigos, porém, com termos diferentes, sendo que a primeira ocorrência se dá no Credo Apostólico através da expressão latina “descendit ad inferna” (desceu aos infernos/Hades), e a outra, no Credo de Atanásio, com a expressão latina “descendit ad inferos” (desceu às regiões inferiores).

Heber cita Herman Witsius:

“É digno de nota que, antigamente, aqueles credos que possuíam o artigo sobre a descida de Cristo ao inferno, não continham o artigo relativo ao seu sepultamento, e aqueles nos quais o artigo com respeito à descida ao inferno foi omitido, de fato continham o artigo relativo ao sepultamento” Herman Witsius, Dissertations on The Apostle’s Creed, vol. II, reimpressão (Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1993), 140.

No artigo é citado Rufinus para demonstrar que a expressão ‘descendit ad inferna’ não fazia parte do Credo Apostólico, mas quando foi inserida no Credo, visava tão somente substituir a expressão ‘crucificado, morto e sepultado’.

“a intenção da alteração do Credo em Aquiléia não foi a de acrescer uma nova doutrina, mas a de explicar uma antiga e, portanto, o credo de Aquiléia omitiu a cláusula “foi crucificado, morto e sepultado” e a substituiu por uma nova cláusula, “descendit ad inferna”” Citado por W. G. T. Shedd, Dogmatic Theology, vol. II (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1889), 604.

O Dr. Heber lembra que o Credo de Atanásio foi escrito por volta do século V ou VI, e segue os mesmos traços do Credo de Aquiléia, sendo demonstrado que a expressão “desceu ao Hades” substitui a expressão “sepultado”.

Esta mudança, aparentemente inocente, pareceu não causar problema à doutrina cristã durante o tempo em que a expressão “desceu ao Hades” substituía o termo “sepultado”. Mas, quando as duas expressões ‘sepultado’ e ‘desceu ao Hades’ apareceram no mesmo Credo, uma citada após a outra, surgiu um grande problema.

O Dr. Heber demonstra que, por volta do século VII, a cláusula ‘descendit ad inferna’ apareceu em outros credos como acréscimo, e não somente como substituição da ideia de que Cristo foi ‘crucificado, morto e sepultado’.

Daí a ideia de que Jesus foi “crucificado, morto e sepultado” e “descendit ad inferna”, surgindo um pensamento de que Jesus, durante o tempo que seu corpo permaneceu na sepultura, teria descido a um local chamado Hades. Daí surgiu vários credos rezando que: Cristo padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao Hades e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

É estarrecedor o que se vê a seguir:

“Witsius menciona que, por volta de 359, “encontraram-se em Constantinopla cerca de cinquenta pessoas, e lá compilaram um Credo, no qual professavam que criam em Cristo, que foi morto e sepultado e que ‘penetrou as regiões subterrâneas, nas quais até mesmo o Hades foi golpeado com terror’,” o que dá a entender um sentido diferente e que vai além de um sepultamento, contrastando com o entendimento de Rufino. J. N. D. Kelly também menciona que na doxologia da Didascalia siríaca, que parecia uma formulação credal, havia a seguinte expressão: “Que foi crucificado sob Pôncio Pilatos e partiu em paz, a fim de pregar a Abraão, Isaque e Jacó e a todos os santos a respeito do fim do mundo e da ressurreição dos mortos”. O descensus (“descida”), como uma atividade de Cristo em um mundo inferior entre a sua morte e a sua ressurreição, não apareceu, a princípio, nas formulações credais da igreja ocidental. Porém, sob a influência do pensamento da igreja oriental desde tempos bem antigos, veio a aparecer posteriormente até mesmo nas formulações ocidentais. Kelly afirma: “Deveria ser observado que após Santo Agostinho é que prevaleceu o hábito ocidental de explicar 1 Pedro 3.19 como um testemunho da missão de Cristo aos contemporâneos de Noé muito antes de sua encarnação” Heber Carlos de Campos, “Descendit ad Inferna”: Uma Análise da Expressão “Desceu ao Hades” no Cristianismo Histórico.

Agostinho e muitos outros pensadores que se diziam cristãos, ao longo dos séculos, adotaram o pensamento platônico, convencidos de que a verdade não se inventava, antes era descoberta, daí a melhor forma de se fazer filosofia consistia na reflexão sobre verdades imutáveis e universais tendo por base os princípios do ‘Mundo das Ideias’ de Platão.

Apesar do apelo do apóstolo Paulo: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” ( Cl 2:8 ), o que se vê na história da cristandade são os Padres da Igreja Católica bebendo na fonte do médio platonismo (platonismo eclético), o que trouxe um enorme prejuízo para o entendimento de diversas passagens bíblicas.

Após compreender a exposição do apóstolo Paulo aos Efésios, podemos analisar a abordagem do apóstolo Pedro.

 

Continua…

[1] Lembre-se que, à época, o homem desconhecia a extensão do mar, assim como hoje ainda compartilhamos dos mistérios acerca da morte física.

[2] “03947 לָקַ֣חְתָּ laqach uma raiz primitiva; DITAT – 1124; v 1) tomar, pegar, buscar, segurar, apanhar, receber, adquirir, comprar, trazer, casar, tomar esposa, arrebatar, tirar 1a) (Qal) 1a1) tomar, pegar na mão 1a2) tomar e levar embora 1a3) tomar de, tirar de, pegar, carregar embora, tirar 1a4) tomar para ou por uma pessoa, procurar, pegar, tomar posse de, selecionar, escolher, tomar em casamento, receber, aceitar 1a5) tomar sobre si, colocar sobre 1a6) buscar 1a7) tomar, liderar, conduzir 1a8) tomar, capturar, apanhar 1a9) tomar, carregar embora 1a10) tomar (vingança) 1b) (Nifal) 1b1) ser capturado 1b2) ser levado embora, ser removido 1b3) ser tomado, ser trazido para 1c) (Pual) 1c1) ser tomado de ou para fora de 1c2) ser roubado de 1c3) ser levado cativo 1c4) ser levado, ser removido 1d) (Hofal) 1d1) ser tomado em, ser trazido para 1d2) ser tirado de 1d3) ser levado 1e) (Hitpael) 1e1) tomar posse de alguém 1e2) lampejar (referindo-se a relâmpago)” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “04979 מַ֭תָּנוֹת mattanah procedente de 4976; DITAT – 1443c; n f 1) presente” Dicionário Bíblico Strong.

[4] Medida (μέτρον) – o termo ‘medida’ não pode ser pensado como proporção, e sim como padrão, unidade.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

Um comentário em “Espíritos em prisão e as partes mais baixas da terra

  • 24/01/2018 em 15:17
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    Amo esses temas, e penso que são os mais difíceis de tratar. Gostei da leitura, densa, profunda e esclarecedora.

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