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A salvação em Cristo decorre da graça de Deus concedida a todos os que em todo lugar invocam a Cristo como Senhor “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:” ( 1Co 1:2 ) Judas sentiu a necessidade de concitar os cristãos a batalharem pela fé, ou seja, a lutarem em defesa da doutrina do evangelho, visto que algumas pessoas que se diziam cristãs buscavam transtornar a mensagem do evangelho.


“JUDAS, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo: Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados” ( Judas 1:1 )

Apresentação

Judas identifica-se aos destinatários da sua epístola como servo (δοῦλος – doulos) de Cristo e irmão de Tiago.

Judas e Tiago eram filhos de Maria e José e, por sua vez, ambos eram irmãos de Jesus segundo a carne por parte de Maria “Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas?” ( Mt 13:55 ).

Através desta apresentação fica evidente que Judas não se considerou privilegiado em relação aos demais cristãos quanto à salvação, pois a salvação é dádiva de Deus comum a todos quantos creem em Cristo “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:” ( 1Co 1:2 ).

Judas não se arroga no direito de escrever aos cristãos na condição de apóstolo de Cristo, embora reunisse em si todas as condições necessárias para fazê-lo (v. 17), pois ele conviveu com Jesus quando em carne. Mas, como a condição de apóstolo decorre de uma escolha de Jesus Cristo, como se verifica na lista com o nome dos doze apóstolos ( Mt 10:2 -4), Judas se absteve de lançar mão deste título.

Apesar de ser irmão de Jesus segundo a carne, ao posicionar-se como servo Judas demonstra que se submeteu ao senhorio de Cristo assim como os demais cristãos “Judas, servo de Jesus Cristo…” (v. 1).

É na condição de servo (obediente a Cristo) que Judas escreve aos cristãos (chamados), ou seja, àqueles que ouviram a mensagem do evangelho e creram. Quando foi anunciada a mensagem do evangelho os cristãos foram chamados, e quando creram tornaram propriedade (pertencerem) peculiar de Deus “Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” ( Rm 1:6 ; Ef 1:13 ).

Os cristãos estavam em Deus, portanto, sobre a proteção do amor (cuidado) do Pai, e em Cristo Jesus guardados “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ; 1Pd 1:5 ; Rm 1:6 ; Ex 16:5 ).

 

Santos

Todo e qualquer que aceita (crê) a proposta do evangelho (chamado) são santificados. A proposta do evangelho está em que o homem reconheça que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus e, quem assim crê é porque creu no testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho ( 1Jo 5:10 ; At 26:18 ).

Por santificado devemos entender ‘separado’ como propriedade para uso exclusivo de Deus. Por ser propriedade de Deus é que o cristão é nomeado ‘santo’ “E ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou santo, e vos separei dos povos, para serdes meus” ( Lv 20:26 ); “Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” ( Rm 1:6 ; Jd 1:3 ).

O nome ‘santo’ decorre única e exclusivamente da nova condição ‘em Cristo’, e não de questões comportamentais ( Rm 1:7 ). O homem alcança a santificação crendo em Cristo, mas como se dá a santificação?

Por intermédio do evangelho ocorre o chamado, por isso é dito muitos ‘chamados’, e como poucos atendem o ‘chamado’, poucos são denominados ‘escolhidos’. O convite para entrar pela porta estreita é direcionado a todos, mas são poucos os que encontram Cristo, ou seja, são poucos os escolhidos “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” ( Mt 22:14 ; Mt 7:13 -14; 1Co 1:26 ).

Ora, quem crê em Cristo segundo as Escrituras atendeu ao chamado do evangelho, e agora são designados ‘chamados’ (κλητός – klétos). Os cristãos são nomeados ‘chamados’ em vista da vocação em Cristo: eleição e predestinação. Cristo é o eleito de Deus, e os cristãos por serem geração de Cristo são santos e irrepreensíveis (eleitos). Por causa da vocação (chamado) estabelecida na eternidade em Cristo, os que creem estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ; Ef 3:11 ).

Os que são ‘chamados’, ou seja, aqueles que ouvem a mensagem do evangelho (poder de Deus) e creem (escolhidos), recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus. Por serem participantes da salvação em Cristo por intermédio do evangelho, os que creram são chamados com santa vocação, portanto eleitos e predestinados ( Jo 1:12 ; 2Tm 1:8 -9).

Esta nova criatura proveniente do poder criativo de Deus pertence exclusivamente a Deus ( Ef 4:24 ; 2Co 5:17 ), diferente da velha criatura proveniente da semente corruptível de Adão que pertence ao pecado. Como a nova criatura proveniente da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é gerada em verdadeira justiça e santidade, agora é designada ‘santo’ ( 1Pe 1:23 ; Ef 4:24 ).

A raiz da qual se origina a palavra ‘santificados’ e outras correlatas é proveniente do vocábulo grego ἁγιάζω, transliterado “hágios”, e significa ‘o sublime’, ‘o consagrado’, ‘o venerável’, sem qualquer referência às questões de ordem moral ou comportamental. O termo ‘hágios’ aponta especificamente para questões de ordem funcional, pois entre os gregos da antiguidade tudo se definia pela função.

Quando nomeou os cristãos de ‘santos’, Judas utilizou a raiz do vocábulo grego ‘hagios’, dando a entender que os cristãos são propriedade de Deus, portanto verdadeiramente e inteiramente separados para uso de Deus (santos). Os cristãos por serem gerados de novo, criados segundo a palavra da verdade (semente incorruptível) participantes da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), são declarados santos porque Deus os separou por Seu.

Assim como os cristãos são nomeados santos, também são nomeados ‘primícias’ e ‘primogênitos’, porque funcionalmente são propriedades do Senhor “À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” ( Hb 12:23 ); “Mas o primogênito de um animal, por já ser do SENHOR ninguém o santificará; seja boi ou gado miúdo, do SENHOR é” ( Lv 27:26 ); “Porque meu é todo o primogênito entre os filhos de Israel, entre os homens e entre os animais; no dia em que, na terra do Egito, feri a todo o primogênito, os santifiquei para mim” ( Nm 8:17 ).

Em momento algum a santificação em Cristo é apresentada como gradual e/ou processual. A ideia de que a santificação é processual decorre do trabalho e do entendimento de alguns lexicógrafos, pois ao longo dos anos ‘amalgamaram’ ao termo ‘hagios’ a ideia de que santo é ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’.

Para ser salvo basta ao homem crer na mensagem do evangelho, graça que é ofertada através da revelação de Cristo Jesus aos homens, e Deus há de operar o milagre da Regeneração, a sua obra perfeita, visto que, para ser salvo é necessário ser gerado de novo de Deus, ou seja, da água e do espírito ( Jo 6:29 ).

Como propriedade de Deus, herança, os de novo nascido segundo a semente de Deus são guardados em Jesus Cristo, como bem demonstrou o apóstolo Paulo: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá” ( 1Pe 5:10 ; Ef 1:11 ).

É Deus quem chama os cristãos à sua eterna glória por intermédio do evangelho de Cristo, e Ele mesmo há de conservá-los irrepreensíveis até a vinda de Cristo ( 1Ts 5:23 -24).

 

Saudação

Quando Judas saudou os cristãos nos mesmos moldes que os apóstolos, ele o fez confiado em Deus que multiplica misericórdia, paz e amor aos que obedecem a Deus.

Após se identificar, o irmão Judas identifica os seus destinatários como ‘chamados’, e os saúda com a misericórdia, a paz e o amor de Deus (v.2); “A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” ( Rm 1:7 ).

A misericórdia (prover bem a quem merece o mal), a paz (comunhão com Deus) e o amor (o cuidado de Deus) decorrem do evangelho de Cristo. Quando Judas solicita a Deus que se multipliquem estas benesses, ele tem em mente a mesma oração do apóstolo Paulo: “E oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

O amor de Cristo já foi derramado sobre os cristãos em misericórdia, paz e caridade, porém, é necessário compreender qual a dimensão deste amor. A exata compreensão do amor de Deus revelará quais foram as benesses concedidas sem medida ( Ef 1:18 ).

 

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” ( Judas 1:2 -4)

Este verso demonstra que a epístola de Judas é fruto de uma necessidade, portanto, não se trata de frivolidade. Judas envidou todo esforço para escrever está epístola.

Ao perceber que alguns homens ímpios estavam dissimuladamente introduzindo heresias de perdição entre os cristãos, Judas sentiu a necessidade de concitar os cristãos a batalharem pela ‘fé’, ou seja, a lutarem pela doutrina do evangelho.

Estes indivíduos se introduziram em meio aos que professavam o evangelho e ensinavam doutrinas provenientes de uma concepção carnal, pois pervertiam a graça de Deus negando a pessoa de Cristo.

Não podemos confundir o ajuntamento solene de pessoas, onde os ímpios também podem comparecer, com a Igreja de Deus, que é formada somente por aqueles que efetivamente são membros do corpo de Cristo.

Para fazer parte do corpo de Cristo como membro é necessário comungar da fé (doutrina) dos apóstolos, confessando (admitindo) Cristo como Senhor, pois só assim será participante do batismo na morte de Cristo. O batismo nas águas é representação de um evento espiritual: a morte com Cristo ( Ef 4:4 -6 ; Rm 6:3 ; 1Co 12:13 ).

Os homens somente se tornam membros da igreja de Cristo quando batizados em um só espírito, ou seja, nas palavras de Cristo, que são espírito e vida ( Jo 6:63 ). É possível que não surjam heresias, porém, jamais o corpo de Cristo, a Igreja de Deus, será maculado.

A exortação de Judas é idêntica à que o apóstolo Paulo escreveu aos Filipenses:

“O que é mais importante, deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo. Então, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais firmes em um mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho( Fl 1:27 ).

A salvação em Cristo se dá através do evangelho, que é poder de Deus para salvação do que crê. Todos que creem no evangelho torna-se participante de uma mesma salvação, portanto, salvação comum ( de todos que creem).

O substantivo πίστις (pistis), traduzido por ‘fé’ não se refere a crença do homem, e sim ao corpo doutrinário do evangelho. O cristão não luta por uma crença, antes luta para defender dos ataques dos adversários a mensagem anunciada por Cristo e seus apóstolos ( Ef 2:20 ).

 

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” ( Judas 1:4 )

 

Ímpios

Os homens que dissimuladamente negam a Cristo, único Senhor e Deus, são nomeados ímpios, pois procuravam transtornar o evangelho impondo as suas próprias sujidades. Quando Judas fez alusão aos ímpios, não estava se referindo aos descrentes, mas aqueles que se diziam irmãos e eram devassos.

“Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” ( 1Co 5:10 -11).

Desde que iniciou-se a proclamação do evangelho aos povos, os seguidores de Jesus foram perseguidos e confrontados pelos judaizantes.

A doutrina do evangelho foi confrontada quando os judaizantes passaram a anunciar que era necessário aos cristãos se circuncidarem segundo a lei de Moisés ( At 15:1 ), embora Jesus e os apóstolos não tenham dado mandamento algum neste sentido “Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento” ( At 15:24 ).

Os judaizantes queriam introduzir no evangelho elementos da lei mosaica, ou seja, deitar fermento à massa “Um pouco de fermento leveda toda a massa” ( Gl 5:9 ), e concitava os cristãos a adotarem práticas e ritos segundo a tradição dos judeus.

O apóstolo Paulo alerta que tal apelo dos judaizantes é um outro evangelho ( Gl 1:6 -7), que tal chamado não é proveniente de Cristo ( Gl 5:8 ), ou seja, tais homens queriam submeter novamente os cristãos à escravidão “Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” ( 1Co 5:7 -8).

Os judaizantes negavam a eficácia da obra de Cristo, uma vez que queriam que os cristãos convertidos dentre os gentios adotassem práticas da lei, como a circuncisão do prepúcio da carne, para serem salvos.

Um crente em Cristo crê que para ser salvo é suficiente crer que Jesus é o Filho de Deus, ou seja, que a salvação não está em ser descendente da carne de Abraão ( Gl 5:13 ). O apóstolo Paulo deixa claro que abriu mão de todas as práticas judaicas que por tradição herdou dos seus pais para poder ganhar a Cristo ( Fl 3:4 ).

Os ‘infiltrados’ entre os cristãos são descritos como querendo transtornar (perverter) a graça que se revela em Cristo Jesus, o único Soberano e Senhor. Como? Negando que Cristo é Soberano e Senhor, ou seja, contrariando o profetizado por Isaias: “Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro” ( Is 8:13 ; 1Pe 3:15 ).

Temos na epístola de Judas uma confissão da deidade de Cristo, pois o próprio irmão de Jesus se refere a Cristo como Soberano e Senhor, segundo o que foi anunciado no Antigo Testamento: Cristo é o Emanuel, Deus conosco, nosso Salvador ( Rm 10:9 ).

O intuito dos que querem transtornar o evangelho é uma flagrante ação do anticristo, visto que, nega a eficácia da obra de Cristo, ou nega que Jesus de Nazaré é o Filho do Deus vivo “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho” ( 1Jo 2:22 ); “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Judas adverte que as Escrituras já haviam previsto que haveria tais homens ímpios, e nos versos 5 à 6 demonstra onde tal previsão encontra-se nas Escritura através dos exemplos que o povo de Israel deixou “Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” ( Hb 4:11 ; 2Pe 2:6 ; Jd 1:7 ).

Assim como o apóstolo Paulo entendia que tudo o que consta nas Escrituras foi escrito para o nosso ensino, Judas demonstra através da história de Israel que em meio aos cristãos haveria os enganadores “Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” ( Rm 15:4 ).

A sentença dos que rejeitam a verdade (não creram) foi prevista há muito tempo: destruição. Os que odeiam a Deus, ou seja, que não guardam o seu mandamento estão destinados à perdição, pois permanecem na iniquidade “Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:5 -6; Sl 81:11 -12).

Quando Moisés roga a Deus para que perdoasse o pecado do povo por haver feito um bezerro de ouro, foi lhe dito: “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” ( Ex 32:33 ), dando a entender o que foi anunciado posteriormente pelo profeta Ezequiel: ‘a alma que pecar, esta mesma morrerá’ “Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá” ( Ez 18:4 ).

Embora Deus tenha dado ordem a Moisés para que conduzisse o povo pelo deserto, o povo de Israel foi ferido mais tarde, porque Deus disse: “… porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado” ( Ex 32:33 ), ou seja, estava predito a destruição dos que não creram “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” ( Ex 32:34 -35).

Ora, rejeitar a Cristo como Senhor é causa de eterna perdição ( 2Ts 1:8 -9), o que também foi predito pelos profetas acerca dos líderes de Israel, como se lê: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” ( Sl 118:22 ); “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” ( Is 8:14 ); “Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei; tropeçaram na pedra de tropeço” ( Rm 9:32 ).

Há muito estava previsto por boca dos profetas que aqueles que rejeitam a verdade são passíveis da destruição, leitura semelhante a que foi feita pelo apóstolo Pedro: “E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina, e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados( 1Pe 2:7 -8). Compare: “Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo…” ( Jd 1:4 ).

Na segunda carta do apóstolo Pedro é feito alusão aos mesmos homens ímpios que se infiltraram em meio aos cristãos:

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita” ( 2Pe 2:1 -2).

A sentença de destruição é enfatizada pelos escritores do Novo Testamento todas as vezes que apresentam o povo de Israel como exemplo de desobediência.

 

“Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram” ( Judas 1:5 )

 

Exemplo negativo

Embora os cristãos já soubessem da necessidade de estarem engajados na defesa da verdade (fé) do evangelho, Judas escreveu para trazer a lembrança algo que já sabiam ( Jd 1:5 ).

Para relembrá-los da necessidade de perseverarem firmes no evangelho (fé que foi dada aos santos), Judas apresenta três exemplos:

a) a destruição dos que não creram após serem resgatados do Egito;

b) a destruição dos mensageiros que não guardaram a sua posição, e;

c) o exemplo das cidades de Sodoma e Gomorra.

O Senhor Jesus que os homens ímpios negavam o seu senhorio, era o mesmo Senhor que resgatou o povo de Israel da escravidão no Egito “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” ( 1Co 10:4 ).

Por causa da incredulidade de Israel, o Senhor que os resgatou do Egito escondeu o Seu rosto “E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade” ( Dt 32:20 ).

O profeta Isaias ao falar da salvação aponta para o Senhor que ‘esconde’ o seu rosto da casa de Jacó, pois o resplendor da glória de Cristo é a misericórdia de Deus manifesta aos homens “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” ( Is 8:17 ); “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti” ( Nm 6:25 ); “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ; Sl 80:3 ).

Através desta pequena alusão ao povo de Israel, Judas trouxe à memória dos irmãos uma lição que eles já haviam aprendido (v. 5). Uma lição que o escritor aos Hebreus enfatiza: “Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” ( Hb 4:2 ).

Sobre o resgate de Israel do Egito e os que foram destruídos no deserto, podemos nos socorrer dos ensinamentos do apóstolo Paulo. Embora tenha sido resgatado do Egito um povo, nem todos eram israelitas de fato “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas” ( Rm 9:6 ). Da mesma forma, nem todos que se apresentam na assembleia solene dos cristãos são verdadeiramente membros do corpo de Cristo.

Os que pereceram no deserto eram descendentes da carne de Abraão, porém, pela incredulidade que havia neles, não vieram a ser contados como filhos de Abraão. Na condição de descendentes da carne de Abraão foram resgatados do Egito, porém, por não tiveram a mesma fé que o crente Abraão, não puderam ser contados como filhos de Deus.

Através desta pequena referência a Israel, Judas esperava que os cristãos considerassem que Deus resgatou a Israel da escravidão do Egito transtornando os pensamentos de Faraó para tornar conhecido o seu nome em toda a terra. Deus fez de Israel sua propriedade particular dentre todos os povos da terra “Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” ( Ex 9:16 ).

Embora saiu do Egito um povo livre, individualmente cada membros do povo de Israel ainda era prisioneiro do pecado, pois não confiavam em Deus ( Dt 9:4 e 6). Tomando Israel como exemplo, os cristãos deveriam continuar considerando que, para permanecerem participantes do corpo de Cristo, é preciso crer na verdade do evangelho.

Da mesma forma que foram destruídos os descrentes dentre o povo de Israel, visto que somente dois homens entraram na terra prometida, os ímpios à época de Judas haveriam de ser destruídos por não crerem em Cristo.

Israel não foi salvo porque pesava sobre eles a condenação proveniente de nascimento segundo a maldição que há na semente corruptível de Adão ( Sl 53:3 ; Sl 58:3 ). A circuncisão do prepúcio da carne não os livrava da condenação herdada de Adão. Somente estariam livres do pecado quando circuncidassem o prepúcio do coração, o que é feito sem auxílio de mãos humanas ( Cl 2:11 ).

O irmão Judas propõe trazer a lembrança dos cristãos um conhecimento que dispunham, pois amplamente era lido nas Escrituras o que ocorreu com os desobedientes de Israel.

O exemplo de desobediência dos filhos de Israel é apresentado aos cristãos para não incorrerem no mesmo erro:

“Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram (…) Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” ( Hb 4:1 -2 e11).

O apóstolo Paulo também faz referência a Israel como exemplo negativo:

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. E não nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” ( 1Co 10:6 -11).

 

Continua…

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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