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Devido à estrutura gramatical de Gênesis 4, verso 7, este verso é considerado pelos tradutores bíblicos como sendo o mais difícil de traduzir do Antigo Testamento, e conseqüentemente, esta dificuldade influencia os interpretes na sua atribuição. Porém, como o verso transmite uma ideia, mesmo que nebulosa, analisemos isoladamente todas as proposições nele contido à luz das escrituras, para compreender a recomendação divina que foi dada a Caim.


“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )

Devido à estrutura gramatical de Gênesis 4, verso 7, ele é considerado pelos tradutores bíblicos como sendo o mais difícil de traduzir do Antigo Testamento, e conseqüentemente, esta dificuldade influencia os interpretes na sua atribuição.

Porém, como o verso transmite uma ideia, mesmo que nebulosa, analisemos isoladamente todas as proposições nele contido à luz das escrituras, para compreender a recomendação divina que foi dada a Caim.

 

Se bem fizeres, não é certo que serás aceito?

Qual a resposta para esta pergunta?

Se Caim tivesse ‘feito’ o bem, seria aceito? Ele fez o mal e por isso foi rejeitado?

O salmista Davi deixou claro que todos os homens, de uma única vez em um mesmo evento (juntamente), se desviaram e se fizeram imundos. Como conseqüência de terem se tornados imundos, não há quem faça o bem, nem se quer um só homem “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um” ( Sl 14:3 ).

Ora, se não há se quer um homem que faça o bem, isto implica que Caim também estava impedido de realizá-lo. A Bíblia demonstra que Adão desviou-se, tornando-se imundo, e com ele todos os seus descendentes também se desviaram e destituídos estão da glória de Deus. Ninguém pode realizar o bem!

Por que Deus exortou Caim a ‘fazer’ o ‘bem’, se não há quem faça? A pergunta ‘Se bem fizeres, não é certo que será aceito?’, induz o leitor a concluir que fazer o bem era possível, logo, haveria uma aparente contradição nas escrituras. Quando se entende que Caim tinha condição de realizar o bem, a exortação ‘Se bem fizeres’ é contraditória “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ).

Deus é claro: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ). A mesma impossibilidade do etíope, ou que qualquer homem possui com relação a mudar a cor da sua pele, é a mesma com relação a fazer o bem. Da mesma forma que o leopardo não pode desfazer-se das suas manchas, o homem não pode realizar bem.

Como Deus apresentaria a Caim a oportunidade de ser aceito fazendo o bem, se fazer o bem era impossível? Não encontramos nas escrituras apoio para o argumento de que Deus aceita os homens através do realizar o ‘bem’!

A Bíblia dá testemunho que o homem somente é aceito pela fé, sem as obras Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala” ( Hb 11:4 ), pois “… sem fé é impossível agradar-lhe” ( Hb 11:6 ).

Com base nestas premissas, é certo que Deus não estava incentivando Caim a fazer o bem para que fosse aceito, o que contraria o princípio da justificação pela fé somente.

 

E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…

Desconsiderando o livro de Jó, esta é a primeira vez que a palavra traduzida por pecado (taj’x) aparece nas Escrituras.

A proposição acima é condicional, ou seja, a frase demonstra que se Caim não fizesse o bem (o que era impossível fazer quando analisado à luz das escrituras), o pecado estaria em seu lugar: à porta.

Como entendemos que é impossível ao homem fazer o bem, segue-se que a proposição condicional ‘E se não fizeres bem’, não corresponde à ideia bíblica. Mesmo sendo possível aos homens darem boas dádivas aos seus semelhantes, são maus diante de Deus “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos …” ( Lc 11:13 ).

Fazer boas ações não torna o homem bom diante de Deus. Boas dádivas (boas ações) aos semelhantes (vossos filhos) não torna o homem bom (vós, sendo maus) “Porque cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos” ( Lc 6:44 ).

Apesar de ser impossível a Caim fazer o bem, segue-se a asserção: “… o pecado jaz à porta…”. O que Deus disse?

  • Que o pecado estava (jaz) morto;
  • Que Caim estava (jaz) para pecar, ou;
  • Que o pecado exerce domínio?

Que o pecado estava morto (jazia) é certo que não estava, pois o apóstolo Paulo demonstra que ele reinou desde Adão ( Rm 5:14 ).

Que Caim estava prestes (jaz) a pecar, também não é uma ideia aceitável, pois Caim foi concebido em pecado tal qual todos os homens ( Sl 51:5 ). Quem pecou e estabeleceu a parede de separação entre Deus e os homens foi Adão, e não Caim. O apóstolo Paulo demonstra que não há como os descendentes de Adão pecarem à semelhança da sua transgressão ( Rm 5:14 ).

Resta a terceira opção: que o pecado exercia domínio sobre Caim. Através do verso seguinte: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ), somos informados que:

  • A morte reinou desde Adão, e isto implica que o pecado também reinou sobre todos os homens desde Adão “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 );
  • Adão pecou por desobedecer a uma determinação específica, e Caim pecou porque a condenação de Adão passou a todos os seus descendentes, ou seja, Caim foi gerado em pecado ( 1Co 15:22 ).

Lembrando que ‘à porta’ diz do lugar em que se exercia na antiguidade o domínio político ou social de uma cidade, como se lê em Jó: “Quando eu saía para a porta da cidade, e na rua fazia preparar a minha cadeira. Os moços me viam, e se escondiam, e até os idosos se levantavam e se punham em pé; Os príncipes continham as suas palavras, e punham a mão sobre a sua boca” ( Jó 29:7 ). Ou seja, estar à porta diz do lugar onde se dá o exercício do poder, do domínio, e não da iminência de algo que está para acontecer.

Quando lemos nos Salmos: ‘levantai, ó portas, as vossas cabeças’, o salmista está convocando aqueles que estão assentados exercendo domínio a se postarem em pé para recepcionar reverentemente o rei da glória “Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória” ( Sl 24:9 ).

Há vasto repertório bíblico demonstrando que às portas refere-se ao local que se exerce domínio, ou ao domínio:

  • “Quando alguma coisa te for difícil demais em juízo, entre sangue e sangue, entre demanda e demanda, entre ferida e ferida, em questões de litígios nas tuas portas, então te levantarás, e subirás ao lugar que escolher o SENHOR teu Deus” ( Dt 17:8 );
  • “E será que, se te responder em paz, e te abrir as portas, todo o povo que se achar nela te será tributário e te servirá” ( Dt 20:11 );
  • “Donde se ouve o estrondo dos flecheiros, entre os lugares onde se tiram águas, ali falai das justiças do SENHOR, das justiças que fez às suas aldeias em Israel; então o povo do SENHOR descia às portas ( Jz 5:11 );
  • “Tem misericórdia de mim, SENHOR, olha para a minha aflição, causada por aqueles que me odeiam; tu que me levantas das portas da morte” ( Sl 9:13 );
  • “Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra” ( Pv 31:23 ).

Diante do exposto, Gênesis 4, verso 7 seria melhor traduzido trocando-se ‘jaz’ por ‘estar, permanecer’, ou seja, ‘o pecado está à porta’, significando que o pecado está exercendo o seu domínio sobre os homens.

A interpretação de ‘o pecado jaz à porta’ refere-se ao domínio que o pecado exerce sobre os homens alienados de Deus “A sabedoria é demasiadamente alta para o tolo, na porta não abrirá a sua boca” ( Pr 24:7 ). Porta é o mesmo que local de domínio, onde o exercício do poder político ou religioso se dá.

 

… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar

A quem pertence o desejo: pertence a Caim ou ao pecado? É possível ao homem caído dominar o pecado?

É confuso, pois quando Adão pecou, o pecado passou a exercer domínio sobre todos os homens, quer eles queiram ou não. A sujeição ao pecado é condição que se impôs ao homem quando foi gerado, independentemente de suas ações.

O homem piedoso Adão foi julgado e condenado à morte, depois disso não houve mais entre os homens ao menos um que fosse justo “Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com a rede” ( Mq 7:2 ).

Observe a tradução da Bíblia na linguagem de hoje: “Por que você está com raiva? Por que anda carrancudo? Se você tivesse feito o que é certo, estaria sorrindo; mas você agiu mal, e por isso o pecado está na porta, à sua espera. Ele quer dominá-lo, mas você precisa vencê-lo” Bíblia na Linguagem de Hoje.

Surgem algumas indagações:

  • Apesar de já exercer domínio sobre Caim por causa da queda de Adão, Deus procura alertar que o pecado ainda queria dominá-lo?
  • O pecado estava à espreita de Caim esperando que ele matasse o seu irmão para então dominá-lo?
  • Deus dá uma ordem impossível ao homem realizar: vencer o pecado?

Quantas indagações! Porém, já temos os elementos necessários para analisar o versículo.

 

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )

Considerando:

  • Que não há quem faça o bem, nem se quer um;
  • Que todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos;
  • Que a justiça é pela fé (evangelho, promessa);
  • Que os homens são maus, apesar de saberem dar boas dádivas;
  • Que o pecado exerce domínio sobre a humanidade;
  • Que o homem não domina o pecado;
  • Que ‘à porta’ diz de exercer domínio, senhorio;
  • Que fazer boas ações não faz o homem agradável a Deus, e;
  • Que fazer o mal não é o que afasta o homem de Deus, uma vez que o homem já está distante de Deus em conseqüência da desobediência de Adão.

Faz-se necessário uma releitura do verso.

Lembrando que estudiosos da língua hebraica apontam a possibilidade de se desconsiderar a famosa vocalização massorética, o que é o caso da Septuaginta, e teríamos a seguinte tradução: “Porventura não pecarias, se prudentemente o tivesses trazido, mas não o tivesses corretamente repartido? Calma ; para ti será sua submissão, e tu o dominarás”.

Porém, esta versão também não acrescenta nenhum elemento significativo à compreensão.

 

O pecado jaz à porta

Por Adão ter pecado, todos os seus descendentes pecaram. Quando o apóstolo Paulo diz que ‘a morte veio por um homem’ e que ‘todos morreram em Adão’ ( 1Co 15:21 -22), ele demonstra que o pecado entrou no mundo por Adão, e passou a todos os homens, assim também a condenação (morte) passou a todos.

Ou seja, se todos estão debaixo da mesma condenação (morte), isto significa que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus ( Rm 3:23 ).

Nenhum dos descendentes de Adão tem condição de pecar à semelhança da transgressão de d’Ele.

  • Adão pecou quando era santo, justo e bom;
  • Não era como Deus, conhecedor do bem e do mal;
  • Desobedeceu a uma ordem específica;
  • Seus descendentes não são justos, santos e bons, mas são como Deus, no quesito conhecedores do bem e do mal ( Gn 1:31 e Gn 3:22 );
  • A transgressão de Adão sujeitou-o ao pecado e a morte, e seus descendentes são gerados todos em pecado: sujeitos ao pecado e a morte.

Com base nestas premissas é possível concluir que a asserção ‘o pecado está à porta’ é um aviso solene acerca da atual condição de Caim: o pecado já exercia pleno domínio sobre ele.

A proposição: ‘o pecado está à porta’, ou ‘O pecado exerce domínio’ não contradiz nenhum princípio bíblico, antes confirma a ideia de que o pecado é senhor dos homens quando alienados de Deus, portanto, a proposição ‘o pecado jaz á porta’ é plenamente correta e aceita.

Ora, como temos uma sentença declarativa ‘o pecado está à porta’, a frase que a antecede (Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti?), deve conduzir o leitor à ideia de que ‘o pecado exerce domínio’. Qualquer construção que conduz o leitor a uma conclusão que desconstrói a ideia de que ‘o pecado exerce domínio’, não deve ser aceita como bíblica.

Que ideia a construção frasal: “Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti?” contém? A pergunta sugere que Deus estivesse dando a entender que Caim seria aceito ‘se’ fizesse o bem. Porém, a Bíblia demonstra que, após a queda, o homem ficou impossibilitado de fazer o bem, pois é impossível que a árvore má produza fruto bom.

O evento da oferta voluntária apresentada por Caim e Abel continha a lição necessária para compreenderem como seriam aceitáveis a Deus. Deveriam aprender que, o que torna o homem agradável a Deus é aproximar-se d’Ele crendo que será galardoado, sem confiar que a oferta é o que torna o homem aceito “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Abel ofereceu melhor sacrifício pela fé, e não por escolher o melhor animal do campo. A oferta voluntária podia ser tanto o melhor do campo quanto o melhor dos animais, pois tudo que provem da terra pertence ao Senhor “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ; Is 1:1 ).

O que tornou a oferta de Caim e Abel diferente foi como os ofertantes se aproximaram de Deus: Caim confiou que a sua oferta haveria de agradar a Deus, pois era o melhor fruto do seu trabalho, e Abel ofereceu o cordeiro pela fé, ou seja, crendo que Deus haveria de aceitá-lo por ser misericordioso ( Hb 11:4 ).

Observe a reclamação de Deus para com o seu povo: “Se eu tivesse fome, não te diria, pois meu é o mundo e tudo o que nele há. Como carne de touros, ou bebo sangue de bodes?” ( Sl 50:12 -13). Crer que Deus retribui com salvação àqueles que o buscam é o sacrifício que Ele aceita ( Sl 51:17 ; Is 57:15 ).

Se a confiança em Deus é o que torna o homem agradável a Ele, como é possível Ele exigir que Caim fizesse o bem para ser aceito? Se o pecado está à porta, ou seja, exercendo domínio sobre os pecadores, como é possível fazer o bem? É um contra senso Deus exigir algo que não satisfaz a Sua justiça.

Observe a parte inicial do verso que sugere fazer o bem para que o homem possa ser aceito, na imagem abaixo:

Gênesis 4:7

As palavras que constroem a ideia original estão todas ali, o problema está em organizá-las de modo a evidenciar a ideia correta. A vocalização massorética auxilia a leitura das palavras, mas, não auxilia na alocação correta das palavras de modo a evidenciar a ideia correta.

Com apóio do Novo Testamento, compreendemos que não faz parte do evangelho de Cristo a ideia de que fazer o bem torna o homem agradável a Deus. Aceitar que Deus instruiu Caim a fazer o bem para que fosse aceito fere alguns atributos de Deus, como a sua santidade, imutabilidade e justiça.

É contraditório admitir que no Gênesis Deus instrua o homem a fazer o bem para que fosse aceito por Ele, e em Salmos profetizar por intermédio de Davi que é impossível alguém dar a Deus o resgate por sua alma “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre)” ( Sl 49:7 -8).

Aceitar que há uma interrogação neste verso sugestionando ao homem fazer o bem para ser aceito é admitir que Deus contraria a Sua própria palavra, o que não coaduna com a obra de Cristo, pois se fazer o bem resgata o homem, por qual motivo Deus enviou seu Filho para resgatar o homem?

A tradução para este verso não pode sugestionar que:

  • Fazer o bem é o que torna o homem agradável a Deus, ou que;
  • Fazer o mal é o que torna o homem alienado de Deus.

O verso a seguir: “Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…”, deveria ser lido assim:

“Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti, e se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…”, para depreendermos a seguinte ideia: “Se bem fizeres, e se não fizeres bem, não haverá aceitação para ti, (pois) o pecado jaz à porta…”.

A ênfase do enunciado está em ‘não haverá aceitação para ti’ em decorrência de ‘o pecado estar exercendo domínio’.

Deus alertou Caim que, se ele fizesse boas ações, ou não, continuaria não sendo aceito, isto por causa do pecado à porta. Caim ofereceu uma oferta ao Senhor, o que entendemos como algo promissor (bom), entretanto não foi aceito, por causa da sua sujeição ao pecado.

Caim não seria aceito se fizesse o mal, e nem se fizesse boas ações, porque o pecado estava exercendo o seu domínio. Isto leva a concluir que, o bem e o mal não tornam o homem aceitável diante de Deus, como foi demonstrado antes: o homem tornou-se desagradável por causa da desobediência de Adão.

O conhecimento do bem e do mal é uma das conseqüências da desobediência, que além de alienar o homem de Deus, também tornou o homem como Deus. O conhecimento tornou o homem como Deus, mas, continuou desagradável a Deus ( Gn 3:22 ).

A interrogação na frase sugere que fazer o bem torna o homem aceito por Deus, mas, basta excluir a interrogação que a verdade vem à tona: se Caim fizesse ou não o bem (boas e más ações), segundo o conhecimento que todos os homens adquiriram da árvore do conhecimento do bem e do mal, não havia diferença para ele perante Deus, pois o pecado exerce o seu domínio independentemente de suas ações.

Por estar sob domínio do pecado, todas as realizações de Caim era o mal diante de Deus, o que não o impedia de fazer boas e más ações. Ao falar com os fariseus Jesus demonstrou que eles eram maus, mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus semelhantes, o que demonstra que boas e más dádivas não é o que influencia a condição do homem diante de Deus ( Mt 7:11 ).

Após a ofensa de Adão todos os seus descendentes tornaram-se maus, e dentre eles não há quem faça o bem, nem se que um. Desde a madre se desviaram e proferem mentiras “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ). Com base neste verso é possível declarar: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Como o coração de Caim era mau, nada de bom podia produzir “O homem bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más” ( Mt 12:35 ), pois ninguém pode tirar o imundo o puro “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” ( Jó 14:4 ).

Caim foi concebido em pecado, e continuou rejeitado quando ofertou ao Senhor ( Gn 4:5 ). Como ele poderia oferecer uma oferta pura, se era imundo? Somente pela fé Deus atentaria para Caim, e depois para a sua oferta, pois somente após o homem ser aceito é que Deus aceita o que lhe é oferecido ( Hb 11:4 ).

Sem antes alcançar o testemunho de que é justo, como Abel alcançou, é impossível fazer o bem.

A ideia de que o homem é aceito se fizer boas ações, e se não as realizar, acaba pecando, decorre da proposta de um pseudo-evangelho de que a salvação ocorre através de boas ações.

Como já enunciamos, se o homem fizer boas ações, ou não, o pecado exerce o seu domínio. Se quiser ver-se livre do domínio do pecado, necessário é nascer de novo: alcançando um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:25 -27 ; Is 57:15 ).

Somente o aspergir de água pura pode purificar o homem da sua imundície, tornando possível oferecer o que é puro ( Lv 11:34 ).

Apesar de não ser possível ao homem fazer o bem quando sob o domínio do pecado, resta lhe mais uma instrução:

 

“… e para ti será o seu desejo, e sobre ele dominarás”

Caim não foi aceito por estar sob domínio do pecado e nada que fizesse podia livrá-lo desta condição. Por ver que seu irmão foi aceito, Caim ficou irado e com vontade de matá-lo.

Deus ‘viu’ o quanto Caim se irou ao ver que Abel foi aceito por Ele, e sabia qual era a intenção de Caim ( Gn 4:5 ). Foi quando Deus lhe disse: “Porque te iraste? E por que descaiu o seu semblante?” ( Gn 4:6 ).

Com relação a sua condição espiritual, alienado de Deus, Caim nada podia fazer. Se fizesse boas ou más ações, continuava sob o domínio do pecado, porém, o desejo de matar o seu irmão era um sentimento humano egoísta e mesquinho, e Deus avisa Caim de que ele podia reprimir tal desejo.

Apesar do ‘pecado estar no domínio’, a vontade pertence ao homem, e é através da vontade que o homem exerce o domínio que foi concedido no princípio ( Gn 1:26 ). O domínio que Deus concedeu em Gênesis 1, verso 26, não diz do domínio que o pecado exerce.

Deus podia impedir o intento de Caim, mas não o fez, uma vez que tiraria o que foi dado ao homem: o domínio sobre a face da terra “Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

Como já vimos, o domínio expresso no verso 7 de Gênesis 4 não diz de exercer domínio sobre o pecado, pois o pecado é quem figura como senhor dos homens quando alienados de Deus. Porém, por ter sido criado para viver em sociedade, mesmo sob o domínio do pecado, o homem deve controlar as suas emoções, agindo de modo equilibrado entre seus semelhantes.

Deus demonstrou a Caim que ele podia exercer domínio, pois a sua vontade lhe pertencia. Por que é necessário ter a vontade sob seu poder para poder exercer o domínio? Observe o que Deus disse a Eva ao declarar a sua penalidade: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará ( Gn 3:16 ).

Compare:

  • “… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )
  • “… e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” ( Gn 3:16 ).

Ao conceber a mulher sentiria dores, e o seu desejo estaria sob os cuidados do marido, que sobre ela exerceria domínio. O que isto quer dizer? Para compreendermos a proposta de Deus, temos que nos socorrer do que Paulo escreveu aos cristãos em Éfeso: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” ( Ef 5:22 – 25 ).

Quando lemos que o homem exercerá domínio sobre a mulher, muitos entendem que a mulher deve ser subjugada pelo homem, porém, não é isto que Deus ensina. Quando a Bíblia diz que o homem exerce domínio, ele diz do cuidado que lhe é outorgado.

Quando a Bíblia diz que o desejo da mulher será para o marido é o mesmo que ordenar à mulher que se sujeite ao marido, pois assim como Cristo é a cabeça da igreja, o marido é a cabeça da mulher. Qual o objetivo da comparação? Demonstrar que o papel do marido com relação à esposa é zelar, cuidar!

O domínio que Deus deu ao homem em Gênesis 1, verso 26, é para cuidar de tudo que há debaixo da terra. A mulher deve sujeitar-se ao marido porque é dever do marido cuidar da mulher, assim como Cristo cuida da igreja, ou seja, Jesus exerce domínio sobre a igreja porque zela da igreja, e entregou até sua vida por ela.

Qual o papel da cabeça? Dominar o corpo. Com que objetivo? Cuidar para que ele não definhe e venha a pereçer. Deste modo a mulher se sujeita ao marido, porque o marido tem o dever de cuidar do seu corpo “Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” ( Ef 5:28 ).

Quando Deus falou com Caim demonstrando que o seu desejo pertencia a ele, e que ele exerceria domínio, tinha o fito de demonstrar que competia a ele cuidar e zelar de tudo que diz respeito a sua existência neste mundo. Ninguém haveria de cuidar e zelar de Caim, de modo semelhante ao zelo que marido deve para com a esposa.

O desejo da mulher é para o marido porque compete ao marido cuidar da mulher, por outro lado, o desejo de Caim era para ele mesmo, ou seja, ele devia cuidar de si mesmo. Em resumo, o intento do Criador era alertar Caim para ter cuidado com o que desejava.

O pecado sujeitou o homem como escravo, mas não a sua vontade. Apenas sobre a sua própria vontade o homem é soberano, sendo assim, Caim era capaz de controlar as suas emoções e escolher não dar cabo da vida de seu irmão.

Caim levou a efeito o seu desejo, e matou Abel. Por não cuidar das suas próprias emoções, o seu desejo o dominou, e Caim passou a ser um fugitivo e errante sobre a face da terra.

O homem deve dominar seus desejos e não os desejos dominar o homem. Quando os desejos dominam o homem ele é prejudicado perante a sociedade.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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