Quem são aqueles que Deus deu a Cristo?

Aquele que crê em Cristo conforme diz as Escrituras de maneira nenhuma será lançado fora por Cristo, porque quem crê passa a pertencer a Cristo, ou seja, é dado pelo Pai ao Filho.


Quem são aqueles que Deus deu a Cristo

“Todo o que o Pai me dá, virá a mim e o que vem a mim, de maneira nenhuma o lançarei fora.” (João 6:37)

Cuidados ao ler a passagem

Há uma grande celeuma no meio teológico, quanto ao sentido do verso que diz:

“Todo o que o Pai me dá, virá a mim” (João 6:37).

Para desfazer os equívocos, primeiro é necessário ao leitor entender que, ao falar à multidão, Jesus sempre utilizou parábolas:

“E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava, em particular, aos seus discípulos” (Marcos 4:33-34).

Anunciar à multidão o reino dos céus, através de adágios, símiles e parábolas, tinha por objetivo alcançar a compreensão dos ouvintes e dar cumprimento às profecias:

“Tudo isto disse Jesus, por parábolas, à multidão, e nada lhes falava sem parábolas; para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca; publicarei coisas ocultas, desde a fundação do mundo” (Mateus 13:34-35).

É imprescindível compreender que as diferenças entre a doutrina de Cristo e a compreensão que o povo de Israel tinha, das Escrituras, era gritante.

Se Jesus falasse, abertamente, ao povo de Israel, acerca do reino dos céus (João 3:12), por possuírem um entendimento carnal (1 Coríntios 2:14), jamais compreenderiam a exposição, daí a necessidade de se falar por parábolas (João 3:12).

Quando Jesus disse: – ‘Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer’, ensinava uma multidão que, após comer pão a fartar, queriam fazê-Lo rei. A multidão viu na pessoa de Cristo somente mais um profeta, mas, na verdade, o Filho de Deus estava revelando o Pai ao mundo:

“Vendo, pois, aqueles homens o milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo. Sabendo, pois, Jesus que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para o monte” (João 6:14-15; João 1:18).

Enquanto Jesus estava no mundo, na condição de servo, os homens deveriam reconhecê-Lo como o enviado de Deus, que tira o pecado do mundo, cuja missão era edificar o templo de Deus prometido a Davi (2 Samuel 7:13), que seria chamada de casa de oração para todos os povos (Isaias 56:7), um santuário que traria escândalo às duas casas de Israel (Isaías 8:14).

Também, não era, através da vontade do povo de Israel, que Cristo deveria ser entronizado rei em Israel, antes, o reino só seria entregue a Cristo, após Ele edificar o templo, que é o seu corpo, a igreja. Deus já havia ungido o Cristo como seu rei no monte Sião (Salmos 2:6), mas, somente após o templo ser edificado, é que o trono seria confirmado para sempre (2 Samuel 7:13 e 16).

Nunca fomos escravos de ninguém

Considerando que: “E sem parábolas nunca lhes falava” (Marcos 6:34), quando se lê a asserção: – ‘Ninguém pode vir a mim…’, se faz imprescindível à compreensão questionar: Jesus falou abertamente aos seus ouvintes ou, falou por parábola?

Somos instruídos a considerar que: “E sem parábolas nunca lhes falava…” (Marcos 6:34) ou, seja, ao dizer ‘ninguém pode vir a mim’, Jesus anunciou-lhes um enigma dos antigos, conforme consta das profecias nos Salmos.

“Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade.” (Salmos 78:2; Mateus 13:35).

Partindo do pressuposto de que Jesus ensinava a multidão por parábolas, pois nunca lhes falava sem parábolas, conclui-se que a passagem bíblica, em análise, é uma parábola com símiles e adágios e que carece de ser interpretada à luz das Escrituras.

Com base no exposto pelos evangelistas Mateus e Marcos, não podemos aceitar uma leitura superficial da mensagem ‘ninguém pode vir a mim’, como se a fala de Jesus à multidão fosse um ensinamento que não demande interpretação.

O simples fato de o evangelista João enfatizar que, do outro lado do rio formou-se uma multidão composta, na sua grande maioria, de judeus que, após comer pão a fartar, passou a considerar que Jesus era o profeta que deveria vir ao mundo (João 6:14) e que queriam fazê-lo rei (João 6:15), evidencia que a fala de Jesus não tinha por alvo a Igreja, mas os judeus.

Por causa do público alvo do ensinamento de Cristo, não resta alternativa a não ser concluir que estamos diante de uma parábola. E, se estamos diante de uma parábola, primeiro é necessário desvendarmos os enigmas contidos na parábola. Em segundo lugar, é imprescindível considerarmos que o público alvo da mensagem era formado por um grande número de judeus ou, seja, a parábola não tem por alvo pecadores dentre os gentios, mas, os pecadores judeus.

A real condição dos judeus diante de Deus

Por serem descendentes da carne de Abraão, praticarem a circuncisão e seguirem doutrinas e preceitos de homens, os judeus se consideravam melhores que os gentios (Deuteronômio 9:4-6). Muitos religiosos judeus entendiam serem justos, porém, eram justos aos seus próprios olhos e rejeitaram a justiça de Deus, por causa de uma justiça própria.

“E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé” (Filipenses 3:9);

“Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça” (Romanos 9:31).

O diagnóstico de Cristo, ao observar os escribas e fariseus, é acertado: “Assim, também, vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mateus 23:28) e, caso algum judeu quisesse se salvar, teria de ter obra superior à dos seus líderes religiosos: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder à dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20; João 3:3).

Devemos lembrar que Jesus citou Isaías, para enfatizar a condição do povo de Israel: “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas, o seu coração está longe de mim, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.” (Mateus 15:8-9) e, mesmo aqueles que diziam crer, Jesus os olhava com reserva: “Mas, o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia” (João 2:24; João 8:31).

Todo o que o Pai me dá virá a mim

A passagem bíblica: “Todo o que o Pai me dá virá a mim …” (João 6:37), deve ser analisada, através do seguinte prisma:

“Veio para o que era seu e os seus não o receberam” (João 1:11).

Por que o próprio povo de Jesus não O recebeu? Porque não creram nas Escrituras ou, seja, no testemunho que Deus deu acerca do Cristo, consequentemente, não creram nas palavras de Cristo.

“Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto, não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu” (1 João 5:10);

“Como podeis vós crer, recebendo honra uns dos outros, não buscando a honra que vem só de Deus?” (João 5:44).

As palavras que Cristo falava ao povo foram determinadas por Deus, portanto, crer em Cristo era crer em Deus e vice-versa. Crer em Cristo é crer no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho, nas Escrituras (João 12:49-50). Mas, apesar dos seus próprios irmãos, segundo a carne, não terem recebido a Jesus, todos quantos O receberem ou, seja, aqueles que crerem em seu nome, Deus dá o poder de serem feitos filhos de Deus (João 1:12).

A linguagem de Cristo visava alcançar o entendimento dos judeus, portanto, as parábolas, os símiles e os adágios utilizados por Ele, derivam das Escrituras, o que demanda ao leitor um trabalho maior: considerar as Escrituras para compreender a mensagem de Cristo.

As Escrituras

Para compreender a linguagem empregada por Cristo, em João 6, verso 37 (“Todo o que o Pai me dá virá a mim …”), se faz necessário ter em mente algumas passagens bíblicas do Antigo Testamento.

No Livro de Deuteronômio, Deus protestou contra os filhos de Israel, dizendo de que eles não eram seus filhos, mas uma mancha, como se lê:

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas, a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Deuteronômio 32:5).

Os filhos de Israel não ‘pertenciam’ a Deus, antes eram uma geração perversa e distorcida. O que entender por geração perversa e distorcida?

Na concepção do homem de hoje, uma geração é caracterizada por elementos como linguagem, filosofia, cultura, educação, valores, etc., mas, quando Jesus diz: “Uma geração má e adúltera pede um sinal e nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal do profeta Jonas. E, deixando-os, retirou-se” (Mateus 16:4), o significado de geração não segue o método Mak’Gregor, que atribui nomes às gerações, como: geração ‘Alfa’, ‘X’, ‘Y’, etc., para diferenciar posturas do homem de hoje, com o de vinte anos atrás.

Jesus não estava pensando na definição de Heráclito, de que uma geração seria de trinta anos ou, no espaço de tempo, no qual o pai vê seu filho capaz de procriar.

Não ser filho de Deus é o que caracteriza o homem como geração perversa, no sentido de má, vil, ralé. A geração perversa é a planta que o Pai não plantou (Mateus 15:13) ou, seja, homens nascidos da vontade da carne, do varão e do sangue (João 1:13). Todos os descendentes de Adão são contados como geração perversa, também, denominados filhos da ira e da desobediência.

Na frase “não são seus filhos”, é empregado o verbo ‘ser’ e o pronome possessivo ‘seus’, de modo que, ser filho de Deus é pertencer a Deus. Observe o pronome possessivo ‘seus’: não são SEUS filhos. Se não são Seus filhos, não pertencem a Deus. Por que não eram filhos? Porque não deram ouvidos à voz de Deus.

“E disse-me o SENHOR: Apregoai todas estas palavras nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém, dizendo: Ouvi as palavras desta aliança e cumpri-as. Porque, deveras, adverti a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, até ao dia de hoje, madrugando, protestando e dizendo: Dai ouvidos à minha voz. Mas não ouviram, nem inclinaram os seus ouvidos, antes andaram cada um conforme o propósito do seu coração malvado; por isso, trouxe sobre eles todas as palavras desta aliança, que lhes mandei que cumprissem, porém não cumpriram” (Jeremias 11:6-8).

Muito tempo depois, o profeta Isaías anunciou ao povo de Israel que os filhos de Deus seriam ensinados por Ele:

“E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Isaías 54:13).

Novamente, é empregado o pronome possessivo, para apontar para os filhos da mulher estéril: TEUS filhos (Isaías 54:1).

Deus declarou que seria Deus de um povo e que este povo passaria a ser propriedade d’Ele, quando Deus fizesse morada nele. Que, ao receber este povo por Seu, tal povo seria para Deus seus filhos e suas filhas.

“Neles habitarei e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Por isso, saí do meio deles e apartai-vos, diz o Senhor; não toqueis nada imundo e eu vos receberei; Eu serei para vós Pai e vós sereis, para mim, filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso” (Coríntios 6:16-18, cf. Jeremias 31:1);

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar, dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êxodo 19:5).

As Escrituras também predisseram que Deus daria, por sinal e maravilha, em Israel, filhos ao Senhor, que ‘escondeu o seu rosto da casa de Israel’.

“Assim, se acenderá a minha ira, naquele dia, contra ele e desampará-lo-ei, e esconderei o meu rosto dele, para que seja devorado; e tantos males e angústias o alcançarão, para que diga, naquele dia: Não me alcançaram estes males, porque o meu Deus não está no meio de mim?” (Deuteronômio 31:17);

“Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos Exércitos, que habita no monte de Sião” (Isaías 8:18).

Como Cristo é o Senhor ‘que escondeu o seu rosto da casa de Israel’, que se revelou ao mundo, quando veio em carne, e, ao ser morto e crucificado, ressurgiu e assentou-se à destra da majestade nas alturas, após ser dito: “DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Salmos 110:1), segue-se que Deus concedeu a Cristo filhos por ‘sinal e maravilha’, de modo que, ao retornar à glória conduz muitos filhos a Deus (Hebreus 2:10).

O Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Israel, convida, solenemente, aqueles que estão prontos a aprenderem d’Ele, dizendo: “Vinde, meninos, ouvi-me e eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Salmos 34:11) e os que ouviram e aprenderam de Cristo, que é manso e humilde de coração, são declarados filhos de Deus, irmãos de Cristo, diferentemente, da mancha que Deus protestou em Deuteronômio.

“Então declararei o teu nome aos meus irmãos; louvar-te-ei no meio da congregação” (Salmos 22:22).

A abordagem de Cristo

“Jesus respondeu-lhes e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas, porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai não pela comida que perece, mas, pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” (João 6:26-27).

Após ler a passagem da multiplicação dos pães, onde consta a atitude do povo judeu, em querer constituir a Cristo como rei (João 6:14-15), o leitor precisa considerar que o povo só queria fazer Cristo rei, pelo sinal da multiplicação dos pães, mas, ninguém estava preocupado em como agradar a Deus. Jesus contraria o posicionamento da multidão, ausentando-se, pois procuravam-no somente porque comeram pão e se saciaram, não pelos sinais que viram (João 6:2) ou, seja, não estavam preocupados em saber quem era aquele homem que efetuou sinais.

A multidão viu os sinais que Jesus operou para com os enfermos e, pelo fato de ter comido pão a fartar, consideraram que Jesus era profeta, porém, não O reconheceram como o Cristo prometido, segundo as Escrituras ou, seja, não creram n’Ele como o salvador do mundo.

Como não consideraram os sinais miraculosos que Jesus operou diante deles, para o receberem como O enviado de Deus, Jesus alertou os seus seguidores que ‘trabalhassem’, não pela comida que perece (alimento cotidiano), antes, pela comida que permanece para a vida eterna.

“Mas, se as faço e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele” (João 10:38; João 10:25).

Seguir a Cristo pela comida que perece é ‘trabalhar’ de modo equivocado, antes, deveriam segui-Lo pelas palavras que anunciava, pois, as palavras de Cristo são alimento para a vida eterna: “Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (João 6:68).

Jesus deixa claro que deveriam trabalhar pelo alimento que Ele dá: a vida eterna. Como Jesus concede a vida eterna? Anunciando a palavra de Deus, conforme o estabelecido nas Escrituras, pois o homem vive das palavras que sai da boca de Deus (Deuteronômio 8:3; João 12:49-50).

O selo (garantia) de Deus que estabelece o Filho como aquele que dá a comida para a vida eterna é a própria Escritura. O testemunho que Deus deu do seu Filho nas Escrituras é o selo do Pai.

“E o Pai, que me enviou, ele mesmo testificou de mim. Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu parecer. E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós. Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam; E não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:37-40);

“… a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” (João 6:27).

O povo de Israel deveria buscar o Filho do homem que dá o alimento para a vida eterna. Como? Procurando aprender d’Ele, no entanto, o povo não creu em sua mensagem, antes, saiu à procura de Cristo por causa do alimento cotidiano.

A multidão não entendia a linguagem de Cristo, pois perguntaram: – “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” (João 6:28).

Cristo estava falando do alimento para a vida eterna, que deveriam buscá-Lo para aprenderem, pois, essa era a obra de Deus e a multidão desconversou, querendo saber como desempenhar as obras de Deus. Ora, se executassem as obras de Deus, alcançariam o alimento que o Filho do homem dá, para a vida eterna. Bastava crer em Cristo, como o enviado de Deus, que a multidão faria as obras de Deus e receberia o alimento para a vida eterna.

“Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (João 6:29).

Diante das palavras de Jesus, redarguiram: “Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos e creiamos em ti? Que operas tu? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu” (João 6:30-31).

A multidão exigiu um sinal como condição para crer em Cristo. Se visse mais sinais, a multidão, equivocadamente, continuaria crendo em Cristo como profeta, porém, era necessário crer em Cristo como o Filho de Deus. Para crerem em Cristo, como o Filho de Deus, era necessário crerem no testemunho contido nas Escrituras, pois, somente através dos sinais, jamais concluiriam, como o apóstolo Pedro, que Jesus era o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo (João 6:69).

O povo fez menção de uma passagem das Escrituras: “Deu-lhes a comer o pão do céu” (Êxodo 16:4; Neemias 9:15; Salmos 105:40) e Jesus, em seguida, explica que o verdadeiro pão que Deus dá é o que desce do céu e dá vida ao mundo (João 6:32).

Arrependimento

“Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas, meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (João 6:32-33)

A multidão que comeu o pão da multiplicação tinha o entendimento de que foi Moisés quem deu aos seus pais pão do céu, quando no deserto. O posicionamento do povo parecia ser conforme as Escrituras e, inclusive, citaram para Jesus uma passagem do livro do Êxodo, como embasamento para exigirem um sinal miraculoso, por parte de Jesus (Êxodo 16:4).

Uma leitura superficial da passagem bíblica dá a entender que, no deserto, foi concedido ao povo de Israel comer um alimento que concedesse vida. A má leitura do texto dá a falsa concepção de que Moisés deu ao povo o ‘pão dos anjos’, porém, não foi assim. O maná não foi uma dádiva, antes foi uma prova:

“Então, disse o SENHOR a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus e o povo sairá e colherá, diariamente, a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou, não” (Êxodo 16:4).

Em segundo lugar, Deus não deu pão, antes, deu a matéria prima para que fizessem o pão. Deus deu a eles o material necessário para que assassem no fogo ou, cozinhassem na água. O que caia do alto eram sementes, semelhantes ao coentro branco, com sabor parecido ao do mel (Êxodo 16:31), porém, o povo tinha que sair no deserto para colher a matéria prima para o pão (Êxodo 16:14).

Ora, comer o maná envolvia trabalho. Era necessário colher e preparar o alimento com a matéria prima providenciada por Deus, do que se conclui que, aquele não era o verdadeiro pão do céu. O povo teve que trabalhar, ao sair no deserto, para colher o maná e trabalhou para preparar o alimento, mas não se empenhou em obedecer à voz de Deus, o que, realmente, dá vida (Êxodo 16:28).

Em terceiro lugar, não foi Moisés quem deu a matéria prima para os pães, antes, foi providência divina, de modo que não foi Moisés quem deu o verdadeiro pão do céu e nem o alimento cotidiano que os pais comeram no deserto.

O povo de Israel não compreendia que Deus jamais invalidaria a sua palavra, estabelecida no Éden, dando pão a comer sem suor:

“No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto, és pó e em pó te tornarás” (Gênesis 3:19).

Ora, no deserto foi concedido o maná aos pais, para prová-los, não para suprir o alimento cotidiano. Além do mais, tiveram que trabalhar para se alimentar, pois tinham de colher e preparar o alimento.

Jesus fez a multiplicação dos pães e, igualmente, colocou a multidão à prova, pois O seguiam somente porque comeram pão a fartar e não porque queriam ouvir a sua mensagem (João 6:26). No deserto, foram dadas as sementes para o pão, a fim de ver se obedeceriam a voz de Deus ou, não, e no Novo Testamento, por comerem pão, quiseram aclamá-Lo rei, mas, o rejeitaram, dizendo que o seu discurso era duro.

A concepção do povo era distorcida, com relação ao pão do céu, de modo que a abordagem de Cristo deveria produzir a ‘metanoia’ (arrependimento), uma mudança de pensamento que consistia numa transformação radical no entendimento deles.

Cristo expôs à multidão que é Deus quem dá o verdadeiro pão do céu e que o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Para abraçarem a mensagem anunciada por Cristo, deveriam abrir mão da concepção que possuíam, de que foi Moisés quem deu aos pais pão do céu e aceitarem que Jesus é o verdadeiro pão dos céus.

Na transação, substituir a concepção de que Moisés deu pão dos céus, pela verdade de que Cristo é o pão que Deus dá aos homens, está o verdadeiro arrependimento e não no arrependimento de obras mortas, que é o arrepender-se de questões comportamentais.

Quem dá o pão do céu?

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas, pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” (João 6:27);

“Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas, meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (João 6:32-33).

Quem dá o pão do céu, o Pai ou o Filho?

No verso 27, Jesus diz que Ele mesmo haveria de dar a comida que permanece para a vida eterna, mas, no verso 32, disse que o Pai é que dá o pão do céu: Cristo, que desce do céu e dá vida ao mundo.

Quem não observa o que disseram os evangelistas Mateus e Marcos, de que Cristo falava à multidão, somente por parábolas (Marcos 6:34), verá contradição nas palavras de Cristo.

Como o testemunho que um judeu dava de si mesmo não era aceito como verdadeiro, Jesus fala da sua própria pessoa à multidão, como de uma terceira pessoa. Ele utilizava o nome ‘Filho do homem’, ao se apresentar ao povo, e fazia referência ao seu ministério, como se ainda estivesse por vir: “… a qual o Filho do homem vos dará” (João 6:27).

Ora, a multidão não cria em Cristo como o enviado de Deus, antes, entendia que Ele era um dos profetas (João 6:14; Mateus 16:14) e, caso alguém admitisse ser Jesus o Cristo, seria acusado de blasfêmia ou, expulso da sinagoga (João 9:22).

A multidão deveria reconhecê-Lo como o Cristo, através do testemunho das Escrituras e das obras que Cristo realizava, por isso, Jesus não falava, abertamente, ao povo, ser o Cristo e proibia aqueles que eram curados, que falassem, abertamente, aos outros (Marcos 7:36).

Crer em Cristo, como profeta, é diferente de crer que Jesus é o Cristo, pois, muitos creram à sua própria maneira e questionavam se o Cristo, quando viesse, faria sinais maiores que aqueles que Jesus operava: “E muitos da multidão creram nele e diziam: Quando o Cristo vier, fará ainda mais sinais do que os que este tem feito?” (João 7:31).

Os irmãos de Jesus ficavam intrigados porque Jesus não se manifestava, abertamente, ao povo (João 7:3-5). Por que Jesus não se manifestava, abertamente? Porque o povo de Israel tinha a obrigação de reconhecê-lo, através do testemunho que Deus deu do seu Filho, testemunho esse, que constava nas Escrituras, que Jesus era o Cristo, o Filho de Davi (João 5:39).

O povo de Israel ouvia os seus líderes lerem que os seus pais haviam comido o pão dos anjos, como se lê: “O homem comeu o pão dos anjos, ele lhes mandou comida a fartar” (Salmos 78:25), porém, não ensinavam que tal citação foi feita em uma passagem de repreensão, pela falta de confiança em Deus:

“Portanto o SENHOR os ouviu e se indignou; e acendeu um fogo contra Jacó e furor, também, subiu contra Israel; porquanto, não creram em Deus, nem confiaram na sua salvação ( …) Quando a ira de Deus desceu sobre eles, matou os mais robustos deles e feriu os escolhidos de Israel. Com tudo isto, ainda, pecaram e não deram crédito às suas maravilhas. Por isso, consumiu os seus dias na vaidade e os seus anos na angústia” (Salmos 78:21-22 e 31-33).

Observe que o povo comeu o maná no deserto, porém, todos pereceram e, dos que saíram do Egito, somente dois entraram na terra prometida: Josué e Calebe.

A lei dava aviso solene, acerca do maná: “E te humilhou, te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas, de tudo o que sai da boca do SENHOR, viverá o homem.” (Deuteronômio 8:3) Daí Jesus passou a ensiná-los, conforme expôs Moisés, que o verdadeiro pão do céu é dado por Deus e não por Moisés.

O que dá vida é o que sai da boca de Deus, ou seja, a sua palavra. Como Cristo é o Verbo de Deus, que desceu do céu, Cristo é o verdadeiro pão do céu, que dá vida ao mundo. Os versos 32 à 33 tratam da perspectiva divina, em conceder aos homens o verdadeiro pão do céu, pois, Cristo desce do céu e dá vida ao mundo, pela misericórdia de Deus.

Já o verso 27, trata da perspectiva dos homens, em como obter a comida que permanece para a vida eterna. Deus concede o pão do céu – Cristo – e, na condição de mediador entre Deus e os homens, é Ele que transmite aos homens as palavras de vida eterna que ouviu junto ao Pai (João 14:24; João 17:8; João 3:32-34).

Cristo dá o alimento para a vida eterna, porque Ele foi incumbido de anunciar aos homens a palavra de Deus e o Pai dá o pão para a vida eterna, porque Cristo foi enviado ao mundo, para anunciar a palavra de Deus.

Todo o que o Pai me dá virá a mim

Após anunciar que o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo, a multidão respondeu: – “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Diante da solicitação da multidão, Jesus apresentou-se como o pão da vida ou, seja, aquele que desceu do céu e dá vida ao mundo.

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome e quem crê em mim nunca terá sede” (João 6:35).

Novamente, Jesus faz abordagem do tema, através de duas perspectivas: a divina e a humana. Aos homens que ‘vem’ a Cristo ou, seja, aqueles que ‘trabalharem’ pela comida que permanece (João 6:27), Cristo dá a sua palavra de que jamais terão fome. Em outras palavras, crer em Cristo é o mesmo que achegar-se a Ele, de modo que o núcleo da ideia ‘vem a mim’ e ‘crê em mim’ no verso 35, de João 6, é o mesmo e concede o mesmo benefício: o homem jamais terá fome e sede (João 7:38).

Mas, apesar do pedido: – “Senhor, dá-nos sempre deste pão”, Jesus lembra á multidão que, apesar de terem visto as maravilhas que operou sobre os enfermos (João 6:2), não creram n’Ele: “Mas, já vos disse que, também, vós me vistes e contudo não credes” (João 6:36).

O único meio de serem participantes do pão concedido por Deus, era crer que Jesus é o Cristo. Percebe-se, através do pedido da multidão:  – “Senhor, dá-nos sempre deste pão”, que não compreenderam a linguagem de Cristo: “Por que não entendeis a minha linguagem? Por não poderdes ouvir a minha palavra” (João 8:43).

Em seguida, Jesus diz: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim, de maneira nenhuma, o lançarei fora” (João 6:37). Aquele que ‘vem’ a Cristo é porque tem sede e se o que tem sede crê em Cristo, conforme diz as Escrituras, beberá água viva, de modo que rios de água viva fluirão do seu ventre. “E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (João 7:37-38).

O que é beber da água que Jesus dá? Como comer o pão que desceu do céu? A resposta está no verso: “Em verdade, em verdade, vos digo que, se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte” (João 8:51). Ao obedecer a palavra anunciada por Cristo, o homem come do pão e bebe da água que dá vida, por isso nunca verá a morte.

Quem crê no nome de Jesus Cristo ou, seja, aquele que O recebe, Deus dá poder para ser feito filho de Deus, pois é gerado de novo, da vontade do Pai (João 1:12-13). Os que creem são gerados da vontade de Deus, portanto, como os que creem são filhos de Deus, segue-se que, especificamente, os ‘filhos de Deus’ são aqueles que Deus ‘concede’ a Cristo, como se lê:

“Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos Exércitos, que habita no monte de Sião” (Isaías 8:18).

Quem é o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel? Quem é que se apresenta com os filhos concedidos por Deus?

Ora, o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel é Cristo, o mesmo Senhor que se assentou à destra da Majestade nas alturas (Salmos 110:1) e que deve ser santificado nos corações dos homens.

“Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro. Então, ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém. E muitos entre eles tropeçarão e cairão, serão quebrantados, enlaçados e presos” (Isaías 8:13-15).

Aquele que crê em Cristo, conforme diz as Escrituras, de maneira nenhuma será lançado fora por Cristo, porque, quem crê, passa a pertencer a Cristo ou, seja, é dado pelo Pai ao Filho.

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz e eu as conheço, elas me seguem e lhes dou a vida eterna e nunca hão de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que as deu, é maior do que todos; e, ninguém, pode arrebatá-las da mão de meu Pai” (João 10:27-29).

Mas, porque Jesus falou a multidão dessa forma? A resposta está no verso 45:

“Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus” (João 6:45).

A passagem de Isaías, que diz: “E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Isaías 54:13), é a base do ensinamento de Jesus, quando diz: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer”.

Compare:

“E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Isaías 54:13);

“Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos Exércitos, que habita no monte de Sião” (Isaías 8:18);

“Então, declararei o teu nome aos meus irmãos; louvar-te-ei no meio da congregação” (Salmos 22:22).

De que maneira o Pai dá alguém (todo aquele que o Pai me dá) a Cristo? Através dos ensinamentos contidos nas Escrituras. As Escrituras são o testemunho vivo do Pai, acerca de Cristo (João 5:39) e todos os que creem nas Escrituras vão (virá a mim) a Cristo.

“Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque, de mim, escreveu ele” (João 5:46).

Deus prometeu que todos os filhos da mulher desprezada seriam ensinados por Deus. E quem prometeu foi o Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Israel (Isaías 54:8). Observe:

“E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Isaías 54:13).

Jesus lembra os seus ouvintes:

“Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim (João 6:45);

“Todo aquele que o Pai me dá virá a mim e o que vem a mim, de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37).

Qualquer que ‘ouve’ e ‘aprende’ de Deus é dado a Cristo, de modo que, por ouvirem e aprenderem de Deus, estes vão a Cristo.

O profeta Moisés bem disse:

“O SENHOR teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis (…) Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Deuteronômio 18:15 e 18).

O Pai ordenou aos filhos de Israel que ouvissem as palavras de seu Filho, pois, as palavras de Deus seriam postas na boca do Cristo e Ele falaria tudo o que Deus lhe ordenasse. Cristo falava somente o que Deus ordenou, de modo que, se o povo de Israel, verdadeiramente, desse ‘ouvido’ à palavra de Deus, creria em Cristo.

Por que Jesus diz que “Todo o que o Pai me dá virá a mim” (João 6:37)? Porque ele está interpretando o Salmo 22, que diz:

“Então declararei o teu nome aos meus irmãos; louvar-te-ei no meio da congregação” (Salmos 22:22).

Como o verso contém o pronome possessivo ‘meus’ ao falar dos filhos de Deus (meus irmãos), isso significa que eles foram ‘dados’ a Cristo.

Cristo declarou a mensagem de Deus no ajuntamento solene e, ao declarar o nome de Deus aos homens, os que creem são feitos irmãos de Cristo (filhos de Deus). Os filhos de Deus, por sua vez, são aqueles que foram ensinados por Cristo, de modo que as Escrituras previram que quando Cristo viesse, estaria acompanhado dos filhos que Deus lhe concedeu (Isaías 54:13; Isaías 8:18; Salmos 22:22).

Jesus anunciou ser o Cristo por parábolas

Os judeus queriam que Cristo dissesse, abertamente, que Ele era o Cristo, porém, Jesus não dava testemunho de Si mesmo (João 5:31), antes, as Escrituras e as obras que Jesus realizava é que davam testemunho de que Ele era o Cristo.

“Rodearam-no, pois, os judeus e lhe disseram: Até quando terás a nossa alma suspensa? Se tu és o Cristo, dize-nos, abertamente. Respondeu-lhes Jesus: Já vos tenho dito e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim” (João 10:24-25).

Ora, se o homem ouve o conteúdo da Escritura e aprende (compreende) o que é ensinado, verá que a palavra de Deus aponta para Cristo, de modo que, se o homem aprende o que o Pai ensina nas Escrituras, virá a Cristo, crendo que Ele é o enviado de Deus, e será feito um dos filhos de Deus, com os quais Cristo se apresenta: eis-me aqui!

Após anunciar que ‘o pão de Deus é aquele que desce dos céus’ (João 6:33), Jesus declara que desceu dos céus, identificando-se como o verdadeiro pão dos céus, e que fazia, não a sua, mas a vontade de Deus (João 6:38). E qual é a vontade de Deus?

“E essa é a vontade daquele que me enviou, que eu não perca nenhum de todos os que Ele me deu, mas o ressuscite no último dia.” (João 6:39).

“Porquanto, a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” (João 6:40).

A vontade de Deus é que todos os que vejam a Cristo, creiam que Ele é o Filho de Deus, para alcançar a vida eterna. Quem crê, será ressuscitado por Cristo, no último dia, ao que se conclui que ‘os que são dados a Cristo’ pelo Pai são os que creem em Jesus, conforme diz as Escrituras.

Os que ‘pertencem’ a Cristo ou, melhor, os que foram concedidos por Deus a Cristo, jamais serão rejeitados.  Quando Jesus enfatiza que aquele que o Pai me dá virá a mim, tem por base o que está escrito nos profetas: ‘E serão ensinados por Deus’.

“Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu, vem a mim (João 6:45);

“Todo aquele que o Pai me dá virá a mim e o que vem a mim, de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37).

Se Deus havia de ensiná-los, conclui-se que, o que de Deus aprendeu (ouviu), irá a Cristo. E quem Deus dá a Cristo? Aqueles que Ele ensinou, através das Escrituras.

Só porque comeram pão a fartar, os filhos de Israel reputaram que Jesus era profeta e quiseram fazê-lo rei. O crivo que os ouvintes de Jesus utilizavam para aceitarem alguém como profeta era somente receber alimento cotidiano e não o que, desde o princípio, Deus havia anunciado. Não se importavam com o que era anunciado, mas, com o que era posto à mesa para comer (João 5:43).

Diante da declaração: ‘Eu sou o pão que desceu do céu’, murmuraram de Jesus, pelo fato de saberem que Jesus era filho de José e Maria (João 6:41-42).

Ao que Jesus respondeu: ‘Não murmureis entre vós.’ (João 6:43). Por que não deviam pensar daquela forma? Porque carne e sangue não tem os elementos necessários para alguém reconhecer se o outro é proveniente de Deus ou, não.

“Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que te revelou, mas, meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 16:17).

Por que os ouvintes de Jesus consultavam uns aos outros, acerca de José e Maria, quando ficavam na dúvida se Ele era o Cristo, se as Escrituras alertavam para não confiarem no amigo:

“Não creiais no amigo, nem confieis no companheiro; guarda as portas da tua boca daquela que repousa no teu seio. Pois o filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, a nora contra a sogra; os inimigos do homem são os da própria casa.” (Miqueias 7:5-6).

O alerta do profeta Miqueias está relacionado aos dias de confusão, dias esses em que as duas casas de Israel haveriam de tropeçar (Isaías 8:14). Em vez de perguntarem uns aos outros, os filhos de Israel deveriam consultar as Escrituras para identificarem o Cristo. Se estava previsto que os inimigos do Cristo seria os de sua própria nação, não deveriam analisar de quem Jesus era filho segundo a carne, mas, sim, o que as Escrituras diziam acerca dele.

Quando Jesus diz que ‘ninguém pode vir a mim’, fala por parábolas, pois, não podia dizer, abertamente, ‘eu sou o Cristo’. Quando se diz que é necessário o Pai que O enviou trazer esse alguém a Cristo, por parábola, Jesus ensina que somente através do testemunho de Deus que consta das Escrituras é possível alguém aceitá-Lo como salvador do mundo.

“Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.” (João 6:44);

“E essa é a vontade daquele que me enviou, que eu não perca nenhum de todos os que Ele me deu, mas o ressuscite no último dia.” (João 6:39);

“Porquanto, a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” (João 6:40).

Nos três versos há um núcleo de identidade: é Cristo quem ressuscitará o crente, no último dia. Reconhecendo que Deus deseja que todos os homens se salvem, e para isso é necessário que conheçam a Cristo (1 Timóteo 2:4), certo é que a vontade de Deus, que vejam a Cristo e creiam, para alcançarem a vida eterna. Ao crer em Cristo, o homem passa da morte para a vida, portanto, jamais se perde. Quem ouve a Cristo crê em Deus e vice-versa, pois, Cristo tornou Deus manifesto aos homens, através do evangelho.

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida.” (João 5:24)

Os homens a quem foi manifesto o nome de Deus já eram salvos? Evidente que não! Na verdade, ‘todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho’ (saías 53:6), por isso, é dito ‘que do mundo me deste’.

“Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, tu os me deste e guardaram a tua palavra.” (João 17:6).

Quando é dito ‘eram teus’, temos de lembrar que do Senhor é a terra e a sua plenitude, portanto, todos os que habitam a terra pertencem a Deus (João 17:2). Entretanto, a salvação é concedida aos homens do mundo que obedecem a palavra de Deus, anunciada por Cristo.

Quando o sentido de ‘eram teus e tu os me deste’? Temos de lembrar que Cristo é a destra e o braço do Senhor, salvação notória e justiça manifesta aos olhos dos gentios (Salmos 98:1-2), a quem foi dado julgar a terra (Salmo 98:9).

“E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem.” (João 5:27).

Se no enviado de Deus não havia beleza alguma, para que os homens o desejassem, não havia como os homens, que se guiam pela aparência, irem a Cristo (Isaías 53:2). Mas, Cristo, na condição de servo do Senhor, não veio fazer manifesto o seu próprio nome, mas, o nome daquele que O enviou.

Enquanto manifestava o nome de Deus ao mundo, muitos creram que Cristo era o enviado de Deus e obedeceram a palavra de Deus: creram em Cristo, de modo que é dito que Deus trás os homens a Cristo.

Cristo foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel para anunciar as palavras de Deus (Deuteronômio 18:18) e não para se fazer conhecido (João 7:4). Ao guardarem as palavras de Cristo, os homens guardavam o mandamento do Pai e a esses Cristo era manifesto.

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele.” (João 14:21).

Calvinismo e arminianismo

Enquanto as Escrituras apontam para Jesus de Nazaré como o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mateus 16:16), revelação que não se alcança por intermédio da carne e do sangue (Mateus 16:17), alguns sistemas doutrinários, engendrados por homens, deturpam o sentido das palavras de Cristo, para dar suporte às suas ilações.

Enquanto Jesus instruiu os seus ouvintes de que é necessário ouvir e aprender de Deus, para se achegar a Cristo, em quem há salvação (João 6:44-46), o calvinismo e o arminianismo desenvolveram o conceito controverso de que Deus escolheu, unilateralmente, aqueles que serão salvos e os que não serão.

Como a Bíblia apresenta os crentes em Cristo como “eleitos de Deus”, em função de pertencerem a uma geração escolhida (1 Pedro 2:9), equivocadamente, concluíram que a salvação se dá por predestinação.

Cristo é o eleito de Deus, o ungido, o escolhido, o Messias, e os cristãos, por sua vez, por serem gerados, segundo a palavra da verdade, alcançam a posição de eleitos n’Ele. Cristo é o ungido, porque foi escolhido por Deus, para ser o primogênito entre muitos irmãos e o mais sublime dos reis da terra; já, os cristãos, não participaram de qualquer processo de escolha, antes, tomaram posse (eleitos-adjetivo), por causa de Cristo.

Ao longo da história da cristandade, tem se propagado dois pontos de vista sobre como se dá a salvação:

  1. o arminianismo, que nomearemos visão presciente ou, de presciência, ensina que Deus, através de sua onisciência, por saber quem vai no curso do tempo escolher de própria vontade confiar em Jesus Cristo, para a sua salvação, de antemão, escolheu esses indivíduos para serem salvos;
  2. o calvinismo, que segue viés agostiniano, ensina que Deus, por ser soberano, unilateralmente, concede aos indivíduos, que escolheu, fé para que possam crer em Jesus Cristo.

Em outras palavras, esses dois sistemas doutrinários alegam que a salvação se dá por eleição (ou, por predestinação) e dão vazão às controvérsias: de um lado, o arminianismo, de que a eleição de Deus para a salvação é baseada em um conhecimento prévio da fé de um indivíduo e, do outro, o calvinismo, de que a eleição para a salvação é baseada na graça livre e soberana do Deus Todo-Poderoso.

Ambos os sistemas negam, em essência, que a graça de Deus, que é Cristo, se manifestou segundo as Escrituras, trazendo salvação a todos os homens (Tito 2:11) e que é da vontade de Deus salvar os crentes pela loucura da pregação (1 Coríntios 1:21), de modo que a salvação se dá por intermédio do evangelho (Romanos 1:16; Efésios 1:13) e não por um processo seletivo.

Por que ambos os sistemas negam que Cristo trouxe salvação a todos os homens? Porque ambos afirmam que Deus escolheu alguns em detrimento de outros ou, que Deus tem preferência entre suas criaturas.

Enquanto Deus afirma que tem misericórdia dos que guardam os seus mandamentos (Deuteronômio 5:10; Daniel 9:4), transtornam a palavra de Deus anunciada a Moisés, que diz: ‘Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão’ (Romanos 9:15). Enquanto aprouve a Deus ter misericórdia dos que guardam os seus mandamentos, pois, jamais Ele honrará aquele que não O honra, sob o argumento de que Deus é soberano, alegam que Deus pode passar ao largo de sua própria palavra: honrar aquele que O despreza.

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam, serão desprezados.” (1 Samuel 2:30).

Um trocadilho utilizado por Deus para enfatizar um ensinamento que já havia sido dado é utilizado para negar a própria palavra de Deus (Êxodo 20:6 e Êxodo 33:19). Assim como aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação, aprouve a Deus ter misericórdia dos que O obedecem.

Moisés queria que Deus tivesse misericórdia dos filhos de Israel e tenta barganhar, ao que Deus responde que, ao que pecar, será riscado do livro da vida, pois, a misericórdia é para os que obedecem.

“Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito.” (Êxodo 33:32).

Outro trecho das Escrituras que deturpam é Romanos 9, no qual o apóstolo Paulo evidencia que a eleição não é para a salvação, mas, para Deus estabelecer o seu propósito.

Ao evidenciar que nem todas as pessoas etnicamente de Israel (isto é, aqueles descendentes de Abraão, Isaque e Jacó), pertencem ao verdadeiro Israel (os eleitos de Deus), o apóstolo Paulo utiliza a história de Israel para demonstrar que, mesmo Deus escolhendo Isaque e rejeitando Ismael, escolhendo Jacó e desprezando Esaú, Deus não se agradou da maioria deles (1 Coríntios 10:5).

Se eram eleitos, por que nem todos os descendentes de Abraão eram filhos de Abraão? (Romanos 9:7) Quando o apóstolo destaca que a palavra de Deus não falhou, fica evidente que a eleição dos pais não confere aos filhos filiação divina.

Por que Deus elegeu Isaque e Jacó? Para trazer o descendente prometido ao mundo e não para dar salvação aos filhos da carne de Abraão. Todas quantas promessas há de Deus, são nele o sim e por Ele o amém (2 Coríntios 1:20), de modo que, ao serem anunciadas as seguintes promessas: a) Em Isaque será chamada a sua descendência; b) Por esse tempo virei e Sara terá um filho e; c) O maior servirá o menor, Deus elegeu os pais em vista do seu propósito, estabelecido no Descendente, e por isso a sua palavra não falhou, mesmo a descendência de Abraão não sendo seus filhos.

“Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é. Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é.” (Deuteronômio 32:4-5).

Há injustiça da parte de Deus? Conforme os versos acima, jamais! Mesmo os filhos de Israel sendo eleitos, por causa dos pais, não eram salvos.

“E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas novas não entraram por causa da desobediência, determina, outra vez, um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações. Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria depois disso de outro dia.” (Hebreus 4:5-8).

A escolha soberana de Deus, de trazer do alto o Cristo, da linhagem de Abraão, Isaque e Jacó (Romanos 10:6), não pode ser confundida com a palavra da fé que é anunciada, que é rica para com todos os que invocam a Cristo como Senhor (Romanos 10:8).

“Porquanto, não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo.” (Romanos 10:12-13).

A doutrina de eleição para a salvação é uma grande falácia, quer seja a vertente calvinista, quer seja a vertente arminianista, pois, a misericórdia de Deus só é demonstrada aos que obedecem ao evangelho.

“Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Romanos 10:16).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto