As bestas do campo nas visões de Daniel

Após os três primeiros animais: leão (babilônia), urso (medo/persa) e leopardo (grego), Daniel viu um quarto animal terrível que será substituído pelo reino de Cristo, portanto, este animal não se refere a Roma.


As bestas do campo nas visões de Daniel

Introdução

Por que Abraão habitou em tendas na terra da promessa?

As visões de Daniel contêm várias figuras de animais do campo e as suas respectivas interpretações, o que nos auxiliará na interpretação das visões que constam do livro do Apocalipse. Através das figuras de bestas feras do campo foi apontado, cronologicamente, a sucessão dos reinos da terra.

Observe esta passagem do livro do profeta Jeremias que destaca três bestas feras do campo: “Por isso um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” ( Jr 5:6 ).

Oséias profetizou: “Serei, pois, para eles como leão; como leopardo espiarei no caminho. Como ursa roubada dos seus filhos, os encontrarei, e lhes romperei as teias do seu coração, e como leão ali os devorarei; as feras do campo os despedaçarão” ( Os 13:7 -8). As feras do campo anunciadas pelos profetas referem-se às nações inimigas que Deus haveria de incitar contra Israel.

Por causa das explicações contidas no livro de Daniel é possível afirmar que as figuras do leão, do lobo e do leopardo elencadas pelo profeta Jeremias fazem referência respectivamente às nações gentílicas: babilônia, medos/persas e grega.

Quando Deus explica através do profeta Jeremias o motivo pelo qual a nação de Israel seria levada cativa e pisada pelos gentios, utilizou a figura de três bestas feras do campo para fazer referencia às três primeiras grandes nações que dominaram o mundo da antiguidade, e elas foram apresentas em uma ordem cronológica.

As feras do campo são figuras utilizadas para ilustrar as nações gentílicas quando utilizada por Deus para punir a nação de Israel, como se lê:

“E devastarei a sua vide e a sua figueira, de que ela diz: É esta a minha paga que me deram os meus amantes; eu, pois, farei delas um bosque, e as feras do campo as devorarão ( Os 2:12 );

“Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” ( Is 56:9 ).

 

O sonho da estátua de Nabucodonosor

Nabucodonosor sonhou com uma estátua que tinha uma cabeça de ouro, e Daniel informou ao rei que a cabeça da estátua representava a Babilônia dos caldeus, cujo esplendor representava o próprio reino de Nabucodonosor ( Dn 2:37 -38). O peito e os braços da estátua eram de prata simbolizando os reinos dos medos persas, que subjugaram o reino Babilônico ( Dn 2:39 ). O ventre e os quadris da estátua eram de bronze representando o reino dos Gregos ( Dn 2:29 ), e, por fim, as pernas confeccionada em ferro, representado o domínio dos Romanos.

Nabucodonosor viu que os pés e os dedos da estatua era feito de uma mescla de ferro e barro que não se misturam, o que aponta para um reino formado por alianças politicas (casamento), mas que continuarão a coexistir separadamente ( Dn 2:43 ).

A visão demonstra que os pés e dedos da estátua, compostos de ferro e barro, refere-se ao final dos tempos, quando Cristo virá e estabelecerá o seu reino sempiterno que jamais será destruído, pois permanecerá para sempre ( Dn 2:44 ).

O reino de Cristo é representado por uma pedra cortada sem auxilio de mãos humanas ( Dn 2:45 ), que será arremessada contra os pés e os dedos da estátua, destruindo a estatua sem deixar vestígios ( Dn 2:34 -35). A visão do impacto da pedra arremessada contra os pés da estátua demonstra que o domínio dos reinos da terra passará a pertencer ao Verbo de Deus, o Criador dos céus e da terra “Ó SENHOR dos Exércitos, Deus de Israel, que habitas entre os querubins; tu mesmo, só tu és Deus de todos os reinos da terra; tu fizeste os céus e a terra” ( Is 37:16 ).

Na visão a pedra cortada sem auxilio de mão tornou-se uma grande montanha (reino) que encheu toda a terra, demostrando que o domínio do reino do Cristo englobará todos os reinos da terra ( Is 2:1 -4; Dn 7:13 -14).

A estátua possui dois membros superiores para ilustrar o império Medo-Persa, dois membros inferiores que representam os dois impérios romanos (oriente e ocidente) e os pés com dez dedos, que apontam para um reino e dez reis que antecederão o reinado do Messias ( Dn 7:7 ; Ap 17:12 ).

É significativo que o reino de Cristo não é representado por um dos membros da estátua, evidenciando que o reino do Cristo não é deste mundo. O reino de Cristo não faz parte da estátua, por conseguinte, a visão apresenta uma pedra arremessada sem auxilio de mãos “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” ( Jo 18:36 ).

Vale destacar que a Igreja de Cristo aqui na terra não é a pedra cortada sem auxilio de mãos que é arremessada contra os pés da estatua, antes a pedra representa o reino milenial de Cristo em que Ele se assentará sobre o trono de Davi para reinar sobre toda a terra. Antes de iniciar-se o reino milenar, Cristo se assentará no seu trono e julgará as nações separando uma das outras assim como os pastores separam os bodes das velhas ( Mt 25:31 -33; Dn 2:44 ).

Nesta visão fica claro que a cabeça que será restaurada de um ferimento mortal e que maravilhará os moradores do mundo não é Roma, porque Roma é representada somente pelas pernas da estátua “As pernas de ferro…” ( Dn 2:33 e 40). Antes de vir o reino sempiterno do Messias, haverá o reino representado pelos pés e artelhos, pois os pés e os artelhos representam um reino diferente do representado pelas pernas “… os seus pés em parte de ferro e em parte de barro” ( Dn 2:33 ).

A pedra será arremessada sem auxilio de mãos contra os pés e artelhos da estátua, e não contra as pernas da estátua (Roma). O reino de Cristo substituirá o reino representado pelos pés e os artelhos ( Ap 13:3 ; Dn 2:33 e 41-44).

 

As quatro bestas feras que subiram do mar

Na visão do capítulo 7 de Daniel as nações e reinos da terra são representados por figuras de animais do campo. Daniel viu os ‘quatro ventos’ agitarem o ‘grande mar’ e subiram do mar quatro animais grandes e diferentes uns dos outros ( Dn 7:3 ; Dn 7:17 ; Ap 13:1 ).

O primeiro animal que ele viu subir do mar foi um leão com asas como de águia, símbolo do reino babilônico. Enquanto Daniel contemplava, as asas do leão foram arrancadas e, em seguida o leão se firmou sobre dois pés como um homem e passou a ter mente (ou coração) de homem ( Dn 7:4 ).

Moisés já havia profetizado acerca desta nação que viria com asas como de águia quando o povo de Israel se distanciasse das ordenanças de Deus, e os filhos de Jacó seriam levados cativos por povos de terras longínquas “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço” ( Dt 28:49 -50; Jr 21:7 ).

Os caldeus foi o primeiro povo a ser enviado por Deus contra Israel conforme avisou o profeta Habacuque ( Hc 1:7 ). Mas, após dominarem a nação de Israel conforme estabelecido por Deus ( Dn 5:18 ), Nabucodonosor se ensoberbeceu ( Dn 5:20 ). Belsazar, Filho de Nabucodonosor, apesar de saber o que ocorrera ao seu pai, não atribuiu ao Deus de Israel a magnificência do reino Babilônico ( Dn 5:23 ; Dn 2:37 ), o que trouxe ruína a Babilônia.

Babilônia era representada por um leão com asas de águia. As asas significam que Babilônia era uma nação estabelecida por Deus para executar uma obra específica: a punição de Israel ( Dn 5:18 ; Hc 1:5 -6). Por causa da grandeza, glória e majestade concedidas por Deus aos caldeus para que desempenhassem a missão, envaideceram-se e “ergueram-se sobre os seus pés”. Por sua suposta autossuficiência, Babilônia se ensoberbeceu (soberba é sentimento afeto aos homens), desprezou o Deus de Israel.

Enquanto besta, a babilônia serviu de Vara de repreensão contra Israel ( Jr 27:6 ) e, ao considerar que por sua própria força sobrepujou os reinos da terra obteve coração (arrogância e soberba) de homem, perdeu as asas como de águia, perdeu a aprovação de Deus ( Is 47:10 ; Jr 51:17 ; Is 13:11 ).

Em seguida, Daniel vê uma besta fera do campo semelhante ao urso. O urso é figura que representa o império da Média e da Pérsia, que é visto erguendo-se sobre um dos seus lados (Medos) e com três costelas (Lídia, Babilônia e Egito) e em sua boca ( Dn 7:5 ).

O leopardo representa o império dos gregos. A visão do capítulo 7 comparada com a visão do capítulo 11 permite inferir que as quatro asas e as quatro cabeças que possuía faz referencia aos quatro generais de Alexandre Magno (quatro asas), que rapidamente dominaram o mundo antigo ( Dn 7:6 ). Após a morte de Alexandre o império foi dividido e passou aos seus quatro generais ( Dn 11:3 -4).

O quarto animal diz de uma fera (besta= em grego ‘therion’, e significa um grande e feroz animal) impossível de ser comparado a qualquer animal terrestre. A quarta besta vista nesta visão foi descrita como muito forte, terrível e espantosa, possuía dentes de ferro, unhas de bronze e dez chifres. A fera devorava, fazia em pedaços e pisava aos pés o que sobrava ( Dn 7:7 ).

Cada besta teve o seu ciclo de atuação e foram substituídas, o que nos remete a ideia de que os reinos subsistiram por um período de tempo e tiveram um fim após o surgimento da próxima fera ( Dn 7:12 ). O quarto animal, porém, representa um reino que ainda não existiu e, quando existir, será o reino que será substituído pelo reino milenial de Cristo ( Dn 7:26 -27).

Após os três primeiros animais: leão (babilônia), urso (medo/persa) e leopardo (grego), Daniel viu um quarto animal terrível que será substituído pelo reino de Cristo, portanto, este animal não se refere a Roma.

Embora saibamos pela visão da estátua e pela história que existiram quatro grandes impérios: babilônico, medo-persas, grego e romano, a visão do capítulo 7 de Daniel difere da visão de Nabucodonosor.

Enquanto a estátua é uma visão panorâmica da história das nações gentílicas revelada a um gentil, as visões das bestas representando nações apontam para o papel que as nações gentílicas desempenham na punição do povo de Israel, e foi revelada a um judeu: Daniel.

O capítulo 7 contém figuras de bestas que representam as nações gentílicas enviadas para castigar a apostasia dos judeus (leão, lobo, leopardo e a besta indescritível= quatro nações), já a visão do capítulo 2 só apresenta um quadro panorâmico dos reinos da terra sem conexão com a missão que desempenham. O profeta Jeremias aponta três nações descritas através das figuras do leão, do lobo e do leopardo ( jr 5:6 ), as mesmas nações que constam dos capítulos 2 e 7.

O império Romano só é representado na visão da estátua (pernas de ferro) que Nabucodonosor viu em sonho. A estátua representa todos os reinos gentílicos. Já as outras nações (Babilônia, Medo Pérsia, Gregos), além de serem representadas na visão da estátua, também são representadas nas demais visões como bestas feras do campo (vara de punição contra Israel) que subiram da agitação do mar grande.

A agitação do mar representa a amotinação das nações gentílicas contra o Ungido de Deus e o povo que Deus escolheu ( Sl 2:1 ; Sl 46:3 ).

Observando com acuidade as visões de Daniel, não encontramos os romanos representados como uma besta fera do campo, significando que o império romano não recebeu a missão de punir o povo de Israel por sua apostasia. O império Romano contempla o período bíblico singular denominado de ‘plenitude dos gentios’, ou seja, Roma não faz parte do tempo que corresponde às setenta semanas de Daniel.

Roma estabeleceu o que se denomina em nossos dias de ‘PAX ROMANA’, pois Augusto em 29 a. C. declarou o fim das guerras civis, o que perdurou até o ano da morte de Marco Aurélio, em 180 d.C.

Enquanto as outras nações são identificadas através de bestas feras do campo, não é atribuído ao império Romano nenhuma figura de alimária do campo. Nas visões que consta do livro de Daniel, Roma é representada somente através das pernas de ferro da estatua que Nabucodonosor viu em sonho.

‘Besta’ ou ‘animais ferozes do campo’ são figuras utilizadas para fazer referencia às nações gentílicas que executariam o juízo e a ira de Deus contra o povo de Israel por não darem ouvidos à palavra de Deus.

Vale destacar novamente que as figuras construídas através das alimárias do campo representam as nações instituídas para punir a apostasia de Israel, porém, ao Império Romano não é atribuído nenhuma figura de fera do campo. Esta distinção se dá porque no período que foi estabelecido o Império Romano, inaugurou-se o tempo denominado de ‘a plenitude dos gentios’, período de tempo que abrange da morte do Cristo ao arrebatamento da Igreja e a contagem de tempo estabelecida sobre os judeus suspenso.

As perseguições ao povo de Israel durante a plenitude dos gentios não são previstas nas profecias e nem nas visões. Portanto, a diáspora dos judeus após a destruição de Jerusalém pelos Romanos não está representado nas profecias bíblicas, visto que a contagem de tempo que está determinada sobre o povo de Isael foi suspensa na sexagésima nona semana.

De acordo com a profecia, até o nascimento de Cristo foi estabelecido sessenta e nove semanas de anos sobre o povo de Israel, e o Ungido foi cortado da terra dos viventes (morto) após as sessenta e nove semanas “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias ( Dn 9:25 -26).

A contagem das setenta semanas (tempo dos Judeus) foi suspensa com o nascimento de Cristo ( Dn 9:24 -25), como também as profecias para Israel e, após a morte de Cristo iniciou-se a plenitude dos gentios ( Lc 16:16 ).

Desde a ordem dada por Ciro para restaurar e edificar o templo em Jerusalém, tempo em que parte do povo de Israel saiu da Babilônia e voltou para Israel até o nascimento de Cristo, transcorreram sessenta e nove semanas, que corresponde à soma de sete semanas e sessenta e duas semanas “Que digo de Ciro: É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz, dizendo também a Jerusalém: Tu serás edificada; e ao templo: Tu serás fundado” ( Is 44:28 ; Ed 1:1 ).

A última semana que resta para completar as setenta semanas profetizadas pelo Jeremias somente voltará a ser computada após o arrebatamento da Igreja, quando se encerrará a plenitude dos gentios ( Rm 11:25 ).

Não há na Bíblia nenhuma figura de besta relacionada ao tempo em que a Igreja de Cristo permanecer na face da terra, mas, quando a Igreja for arrebatada a contagem de tempo da ‘última semana de Daniel’ terá início, quando a besta apocalíptica que subirá do mar surgirá e fará guerra aos santos e será dado besta vencê-los ( Ap 13:1 ).

Para muitos interpretes o quarto animal apontado na interpretação da visão como o quarto reino da terra seria o Império Romano. Mas, se considerarmos:

  1. as características do animal: diferente de todos os animais que apareceram antes dele, grandes dentes de ferro, as unhas de bronze e os dez chifres ( Dn 7:19 );
  2. a interpretação da visão: ‘devorará toda a terra, e a pisará aos pés, e a fará em pedaços’ ( Dn 7:23 ), e;
  3. as características do Império Romano, que impunha o seu domínio pela escravidão sem destruir completamente a cultura e o modo de existência daqueles que eram conquistados.

Chegaremos à seguinte conclusão: o quarto animal não pode ser o Império Romano.

Por causa das características do quarto animal, Daniel ficou curioso para saber:

  1. a verdade acerca do quarto animal ( Dn 7:19 );
  2. a verdade acerca dos dez chifres que o animal possuía ( Dn 7:20 );
  3. a verdade acerca do chifre que surgiu entre os dez e fez com que caísse três chifres, e;
  4. e a guerra que o chifre fez contra os santos e os vencia.

O quarto animal que Daniel viu refere-se à besta do Apocalipse, ou seja, um reino diferente de todos os outros reinos que existiram.

Em determinado tempo (na metade da última semana) se levantará deste reino dez reis conforme representado pelos dez chifres que o animal possui ( Dn 7:19 -20).

Através da explicação contida nos versos 21, 23 e 24 do capítulo 7 de Daniel, somos remetidos tanto à besta que subiu do mar que consta do Apocalipse, quanto aos pés e dedos da estátua vista por Nabucodonosor confeccionados em ferro e barro ( Dn 2:41 ; Ap 13:1 ; Dn 2:33 e 40).

Daniel observava bem os dez chifres da besta que tem aparência terrível quando surgiu um chifre pequeno e três dos dez chifres foram arrancados, ficando ao total 8 chifres ( Dn 7:8 ). O ‘chifre’ possuía olhos de homem e uma boca que proferia blasfêmias como é apresentado em Apocalipse 13, verso 5, pois era mais robusto que os outros chifres e fazia guerra aos santos e os vencia ( Dn 7:20 -21; Ap 13:7 ).

A profecia é clara ao estabelecer que o quarto reino da terra terá um período delimitado de tempo (tempo, tempos e metade de um tempo – três anos e meio), porém, o Império Romano se estabeleceu por um período de aproximadamente 1500 anos, período muito superior a uma semana de anos como o previsto por Deus a Daniel “E proferirá palavras contra o Altíssimo, e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei; e eles serão entregues na sua mão, por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo” ( Dn 7:25 ); “E ouvi o homem vestido de linho, que estava sobre as águas do rio, o qual levantou ao céu a sua mão direita e a sua mão esquerda, e jurou por aquele que vive eternamente que isso seria para um tempo, tempos e metade do tempo, e quando tiverem acabado de espalhar o poder do povo santo, todas estas coisas serão cumpridas” ( Dn 12:7 ).

Para a Igreja Apostólica Romana o leopardo refere-se aos gregos na figura de Alexandre Magno e as quatro asas aos reinos que surgiram após a morte de Alexandre. No entanto, os teólogos católicos identificam o quarto animal como sendo o reino dos Diádocos (sucessores de Alexandre), posicionamento diferente dos protestantes que consideram o quarto reino como sendo Roma ou o papado.

Enquanto Daniel continuava olhando, foi posto tronos e o Ancião de dias assentou-se para julgar ( Dn 7:9 -10), e os reinos da terra foram dados aos santos para sempre ( Dn 7:27 ).

 

O carneiro e o bode

Outra visão com relação às nações contendo figuras de animais foi vista por Daniel. Quando teve as visões do capítulo 8 Daniel estava na cidade de Susã, província de Elão, porém, na visão ele estava nas proximidades do rio Ulai “E vi na visão; e sucedeu que, quando vi, eu estava na cidadela de Susã, na província de Elão; vi, pois, na visão, que eu estava junto ao rio Ulai” ( Dn 8:2 ).

O profeta Daniel viu um carneiro com dois chifres altos, um maior que o outro, sendo que o chifre que subiu por último era maior que o primeiro. O carneiro dava marradas (chifradas) para o ocidente, norte e sul. Em seguida foi dada a interpretação da visão, e apontado os reis da Média e da Pérsia como sendo os chifres do carneiro ( Dn 8:3 e 20).

Em seguida foi visto um bode peludo que veio do ocidente planando no ar e possuía um chifre enorme na testa e arremeteu-se contra o carneiro, que não pode resistir. O bode tornou-se grande, mas o seu chifre quebrou-se e surgiram quatro em seu lugar ( Dn 8:5 ). O rei da Grécia é o bode peludo, sendo o chifre grande seu primeiro grande rei (Alexandre).

Com a queda do primeiro grande rei da Grécia surgiram quatro reinos em seu lugar, mas não possuíam a força do primeiro rei.

O reino de Alexandre, o Grande, foi dividido por seus quatro generais:

  1. Cassandro recebeu a Macedônia e a Grécia;
  2. Lisímaco ocupou a Trácia, a Bítínia e a maior parte da Ásia Menor;
  3. Seleuco assumiu a Síria e a área ao leste deste país, inclusive a Babilônia, e;
  4. Ptolomeu ficou com o Egito, e provavelmente a Palestina e a Arábia ( Dn 8:21 -22).

Na visão o grande chifre do bode quebrou-se e foi substituído por quatro chifres, que cresceram em direção aos quatro ventos ( Dn 8:8 ). Em seguida, Daniel destaca que, quando a medida dos prevaricadores for completa, um chifre pequeno surgirá e se desenvolverá para o sul, oriente e a terra formosa (joia).

Em seguida o anjo apresenta a explicação da visão, de mostrando que, com a ruptura do grande chifre do carneiro, quatro chifres nasceriam em seu lugar, porém, sem terem o mesmo poder do chifre grande. Sabemos que o chifre grande refere-se a Alexandre, o grande, e que os quatro chifres representam os seus quatro generais. Ou seja, os quatro chifres ainda representam o domínio do carneiro, ou seja, dos gregos.

Após demonstrar que os quatro chifres substituíram o chifre grande, a visão especifica um tempo: quando for dada por completa a medida dos infiéis (judeus). Neste tempo um rei (chifre pequeno) surgira pleno de mentiras e de crueldade.

Há quem considere que o chifre pequeno do verso 9 refere-se a pessoa de Antíoco IV Epífânio (215 – 162 a.C.), rei da Dinastia Selêucida que governou a Síria entre 175 e 164 a.C., e que o chifre pequeno originou-se de um dos quatro chifres.

“De um dos chifres saiu um chifre pequeno e se tornou muito forte para o sul, para o oriente e para a terra gloriosa” (v. 9) ARA;

No entanto, o chifre pequeno do capítulo 8 é o mesmo chifre pequeno do capítulo 7 ( Dn 7:24 -26), que é a boca dada à besta do Apocalipse ( Ap 13:5 ).

A confusão de estabelecer Antíoco Epifânio como o chifre pequeno do capítulo 8 se dá porque muitos entendem que o chifre pequeno surge de um dos quatro chifres do bode peludo. No entanto, o chifre pequeno surge do mar grande, uma vez que os quatro ventos é o que agita as nações gentílicas ( Ap 13:1 ; Dn 7:2 ).

“De um deles saiu um pequeno chifre que se desenvolveu consideravelmente para o sul, para o oriente e para a joia (dos países)” (v. 9) Bíblia Ave Maria.

No texto hebraico do capítulo 8 de Daniel não há o termo ‘chifres’ no verso 9.

Por inferência e sem colocar o termo ‘chifres’ entre colchetes os tradutores inseriram no texto o termo ‘chifres’, o que veta ao leitor a faculdade de analisar e concluir por si mesmo se é ou não plausível fazer a inferência do termo na leitura.

O chifre pequeno saiu dos quatro ventos, visto que há uma ruptura entre o reino do bode peludo e o surgimento do chifre pequeno (o rei de feroz catadura e entendido em intrigas que consta do verso 23). O chifre pequeno é descendente do povo do bode peludo como foram os quatro chifres (quatro generais) que subirarm em lugar do chifre grande que foi quebrado.

O anjo deixou claro que do povo do bode peludo haveria de se levantar quatro reinos (chifres), mas se considerarmos Etioco Epifânio como sendo o chifre pequeno, teríamos cinco chifres.

Se o chifre pequeno subiu de um dos quatro chifres do bode peludo, o texto necessáriamente deveria apontar que o bode teria cinco chifres.

Nas visões que apresntam a figura de bestas, os chifres são vistos sobre as cabeças dos animais. As visões não apresentam um chifre surgindo de um chifre que já existe sem ants derrubá-lo. É possível que um chifre suba quando outro é arrancado ou se quebra, porém, um chifre subir sem o outro ter sido quebrado não ocorre nas Escrituras.

O texto não diz que um dos quatro chifres foi quebrado, antes que subiram do seu lugar para os quatro ventos do céu. Mas, se surgisse um chifre após os quatro, certo é que seria apresentado os quatro e, em seguida, narrado que após o quarto, surgiu um quinto chifre no mesmo animal.

A tradução que mais reflete o texto hebraico é: “E de um deles saiu um chifre muito pequeno, o qual cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa” (v.9).

A expressão ‘de um deles’ contida no verso 10 induz o leitor a entender que o chifre pequeno sai de um dos quatro generais de Alexandre.

Mas, ao observar as Escrituras como um todo, percebe-se que as figuras de animais que representam as nações gentílicas surgem da agitação do mar grande ( Dn 7:2 ), que é agitada pelos quatro ventos do céu ( Ap 13:1 ). Como a última expressão do verso 8 é: ‘os quatro ventos do céu’, certo é que o chifre pequeno sobe do mar por causa da agitação dos quatro ventos (de um deles) “Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar grande” ( Dn 7:2 ; Ap 13:1).

Dos quatro ventos que agitaram o mar grande surgiu quatro grandes animais, cada qual diferente um do outro representando respectivamente a babilônia, os medos persas, os gregos e o animal terrível ( Dn 7:3 ). Quando da visão do capítulo 8, a babilônia já havia caido diante dos medos, daí o motivo de não aparecer uma figura que representasse a Babilônia.

A visão do capítulo 8 apresenta os mesmos reinos do capítulo 7, exceto a babilônia, de modo que tanto o cordeiro com dois chifres, quanto o lobo peludo e os seus chifres e o chifre pequeno surgiram da da agitação do mar grande causada pelos quatro ventos, conforme narra o verso 2 e 3 do capítulo 7: “Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar grande. E quatro animais grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar” ( Dn 7:2 -3).

Ora, se o animal semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, e o outro semelhante um leopardo, o qual tinha quatro asas de ave nas suas costas e possuia quatro cabeças, surgiram da agitação do mar grande, certo é que o cordeiro de dois chifres e o bode com um chifre grande surgiram da agitação que os quatro ventos causaram ao mar grande.

As visões do capítulo 7 e do capítulo 8 são similares, de modo que a do capítulo 8 suprime a figura de um animal que representava a Babilônia e, por apontar eventos pertinente ao último tempo da ira, a figura do quarto animal terrível e espantoso (reino) foi suprimida, sendo evidenciado somente o chifre pequeno (rei) que surge após serem arrancados três de um total de dez ( Dn 7:8 ).

O chifre pequeno não é Epifânio porque do chifre pequeno é dito que ele ‘cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa’. Do ponto de vista geopolítico, se compararmos a expansão do governo de Antíoco como rei da Síria, vê-se que ele não se fortaleceu nem no sul (Israel), nem no sudoeste (Egito), visto que Antíoco estava sujeito a Roma em virtude do tratado de Apaméia assinado por Antíoco III, o Grande, e viu-se obrigado a impor-se contra Jerusalém para honrar as suas obrigações para com Roma.

Quando é dada a explicação da visão a Daniel é dito pelo anjo que os eventos da visão referem-se ao último tempo da ira, que pertence ao tempo determinado do fim “E disse: Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira; pois isso pertence ao tempo determinado do fim ( Dn 8:19 ). Ora, os tempos dos reis da Média e da Pérsia, bem como dos reis da Grécia não foram o tempo do fim, pois quando Jesus veio, deixou claro que os inúmeros eventos de guerras e rumores de guerras ainda não era o fim, antes o ‘princípio de dores’.

Jesus explicou que rumores de guerras não é o fim, antes indica um periodo de tempo que precede as dores. Através da explicação de Cristo fica evidente que as ações de Antíoco não selaram o último tempo da ira e nem pertencem ao tempo determinado do fim “E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim ( Mt 24:6 ).

Ora, o reinado dos quatro reinos estabelecidos pelos generais de Alexandre findou-se muito antes do tempo chamado por Jesus de ‘princípio de dores’, tempo este apontado como aquele que antecede o tempo do fim, o que descarta Antíoco Epifânio como o chifre pequeno, pois à época de Jesus ainda não havia trasncorrido o ‘princípio de dores’ apesar dos horrores perpetrados por Antíoco contra os judeus.

Observe os versos 22 e 23 de Daniel 8: “O ter sido quebrado, levantando-se quatro em lugar dele, significa que quatro reinos se levantarão da mesma nação, mas não com a força dele. Mas, no fim do seu reinado, quando acabarem os prevaricadores, se levantará um rei, feroz de semblante, e será entendido em adivinhações” ( Dn 8:22 -23), e compare com os versos 8 e 9: “E o bode se engrandeceu sobremaneira; mas, estando na sua maior força, aquele grande chifre foi quebrado; e no seu lugar subiram outros quatro também insignes, para os quatro ventos do céu. E de um deles saiu um chifre muito pequeno, o qual cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa” ( Dn 8:8 -9).

Tanto o chifre insigne (grande) que foi quebrado, quanto os quatros chifres que surgiram no lugar do chifre grande pertenciam ao bode peludo. Isto significa que o chifre grande e os quatro reinos que surgiram e que cresceram em direção dos quatro ventos do céu pertencia aos gregos.

A abordagem sobre o carneiro e o bode não se refere ao tempo do fim, visto que os medos/persas e os gregos passaram e não chegou o fim.

É importante compreender que, apesar de ter sido revelado pelo anjo o significado do carneiro e do bode (urso e leopardo), o objetivo da visão era mostrar a Daniel os acontecimentos pertinentes ao tempo do fim “e disse: Eu te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira, porque ela se exercerá no determinado tempo do fim” ( Dn 8:17 ).

O tempo do fim fica vinculado ao tempo em que os prevaricadores completarão a medida de suas trangressões. Quem são os prevaricadores? Os prevaricadores são os judeus que se desviaram de seguir o seu Deus “Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores” ( Is 46:8 ); “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” ( Is 59:13 ; 2Cr 28:19 ; Jr 2:8 ).

O verso deixa claro que, somente quando os ‘prevaricadores’ completarem a medida de suas transgressões se levantará o rei de semblante feroz e entendido de adivinhações “Quando acabarem os prevaricadores, se levantará um rei, feroz de semblante, e será entendido em adivinhações” ( Dn 8:23 ), ou “Quando os transgressores encherem a medida do seu pecado…”.

O anjo deixa claro que a visão se refere ao determinado tempo do fim, o que iria acontecer no último tempo da ira ( Dn 8:19 ). Ora, o tempo do fim refere-se à última semana de Daniel, período de tempo posterior ao parentese dos gentios.

É impossível o reinado de Antíoco Epifânio ser o reinado do rei feroz de semblante (chifre muito pequeno), porque muito tempo depois Jesus ensinou aos seus discípulos que o tempo do fim ainda estava por vir.

O reinado do chifre pequeno que consta da visão do verso 23 tem relação com o que há de acontecer no último tempo da ira, visto que a ira de Deus será exercida no determinado tempo do fim.

Com o advento da igreja é necessário considerar o tempo da plenitude dos gentios, que antecede a última semana de Daniel, visto que a contagem do tempo estabelecido por Deus sobre Israel (as setentas semanas) está suspensa até o arrebatamento da igreja.

No verso 23 é apontado a característica do rei de feroz semblante, as mesmas característica atribuídas ao reino da besta que subiu do mar do Apocalipse e ao animal do capítulo 7 do livro de Daniel ( Ap 13:1 ; Dn 2:34 ).

O governo da besta terá as principais características dos grandes reinos da antiguidade: será um reino semelhante ao leopardo (Grécia), pés como os de urso (Medos e Persas), e a sua boca como a de leão (Babilônia).

Observe que o governo representado pela besta apocalíptica crescerá por causa da força que o dragão (Satanás) concederá, assim como o rei de semblante feroz ( Ap 13:2 ). Mas, por fim o reino representado pela besta será quebrado, assim como os pés da estátua que teve os pés destruídos sem auxílio de mão ( Dn 8:24 -25). Tanto a visão de Daniel quanto a visão do apóstolo João refere-se ao tempo do fim ( Dn 8:26 ).

Continua…




O barro nas mãos do Oleiro e a doutrina calvinista

Como é possível Deus ter determinado o destino final das pessoas segundo a sua soberania, se são muitos os que entram pela porta larga? Ora, se a vontade expressa de Deus segundo o seu amor é que ninguém pereça e que muitos venham ao conhecimento da verdade, como conciliar a parábola dos dois caminhos com a ideia de que o destino final das pessoas foi estabelecido por Deus?


O barro nas mãos do Oleiro e a doutrina calvinista

Uma Lição na Casa do Oleiro

“A PALAVRA do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo: Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas, como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer” ( Jr 18:1 -4).

Após escutar a voz de Deus, Jeremias desceu à casa do oleiro e passou a observar o oleiro trabalhando o barro.

O profeta observou que o oleiro em questão fazia a sua obra sobre as rodas. Perceba que o ato de trabalhar o barro até formar os vasos é uma obra específica do oleiro. Em determinado momento, o vaso que estava sendo moldado quebrou-se, e o oleiro tornou a fazer do vaso quebrado outro vaso. Tudo que foi realizado pelo oleiro era conforme o seu parecer.

De tudo que o profeta Jeremias observou podemos destacar o seguinte:

  • A matéria prima que o oleiro utiliza sobre as rodas é o barro;
  • O produto final da obra do oleiro é o vaso;
  • Quando um vaso, que esta sendo moldado, se quebra o oleiro pode utilizar a mesma massa, porém, o resultado final é outro vaso;
  • O oleiro tem autonomia para fazer o vaso segundo o seu parecer.

O Profeta Isaías complementa o exposto por Jeremias: “Ai daquele que contende com o seu Criador! O caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? Ou a tua obra: Não tens mãos?” ( Is 45:9 ).

  • Para os que contendem com o Criador não há salvação;
  • A obra soberana de Deus é formar vasos a partir do barro;
  • O caco de barro que contende com o Oleiro Eterno questiona as ações como se as mãos do Criador não pudessem salvar.

Após o profeta observar o oleiro exercendo o seu ofício, Deus falou com Jeremias:

“Então veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? Diz o SENHOR. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel”
( Jr 18:6 -7)

A palavra de Deus teve inicio com uma pergunta: “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?”. A pergunta é respondida com um sonoro ‘Sim’! Assim como o barro inerte depende do oleiro para tomar forma, o povo de Israel precisava descansar (confiar) nas mãos do Oleiro Eterno, que tem poder para fazer novamente todas as coisas.

Para os calvinistas a soberania de Deus se estabelece quando Deus salva ou condena o homem, porém, o que se depreende da palavra de Deus anunciada pelo profeta Jeremias é que a soberania de Deus é exercida na criação do homem. O apóstolo Paulo ciente desta verdade escreveu aos cristãos em Roma e alertou aqueles que achavam que a palavra de Deus havia falhado para com o povo de Israel ( Rm 9:6 ).

 

Princípios

“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 )

Para rebater os judeus contradizentes e enfatizar que a palavra de Deus não falhou ( Rm 9:6 ), o apóstolo Paulo ao escrever aos cristãos em Roma introduziu as mesmas figuras que Deus apresentou ao profeta Jeremias: o oleiro, o barro e o vaso.

É assente entre os cristãos que Deus é o oleiro, visto que, através de algumas referências bíblicas é possível aos leitores das Escrituras chegarem a esta conclusão “Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos” ( Is 64:8 ).

Seguindo o exposto no versículo anterior é fácil concluir que os homens são ‘feitos’ a partir do barro. Não importa se salvos ou não, todos os homens são provenientes do ‘barro’, como é demonstrado no Gênesis ( Gn 2:7 ). Do mesmo modo que se conclui que todos os homens são vasos ‘confeccionados’ (formados) a partir do barro, conclui-se também que todos os homens (salvos e perdidos) são obras da mão de Deus “… da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

O apóstolo Paulo apresenta duas categoriais de vasos: vasos para honra e vasos para desonra. Daí surgem outras perguntas: Quem são os vasos para honra e os vasos para desonra? Quando são ‘modelados’? No que diferem os vasos para honra dos vasos para desonra?

Analisemos a argumentação paulina:

  • Deus é o oleiro“… não tem o oleiro poder sobre o barro…?” – a figura do oleiro foi utilizada por vários escritores do Antigo Testamento e Paulo utilizou a mesma figura de modo singular, visto que é da alçada de quem exerce o ofício de oleiro modelar o barro segundo a sua livre vontade, decisão e agência;
  • Deus é Todo Poder“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro…?” – é incontestável o poder criativo de Deus. Ele é todo poder (soberano) “Porque toda a casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus” ( Hb 3:4 ). Soberanamente Deus cria (forma) os homens tendo por matéria prima o barro;
  • O Oleiro e o barro – Deus exerce o seu poder sobre o barro, ou seja, o poder do Oleiro Eterno é exercido especificamente sobre o barro, diferente da ideia difundida de que o poder de Deus ou a sua soberania é a imposição da sua vontade sobre alguns vasos. O ‘barro’ é a matéria prima onde o ‘oleiro’ exerce soberanamente o seu oficio.O comparativo estabelecido por Paulo demonstra que Deus exerce o seu eterno poder criativo (soberania) sobre o barro (massa), para trazer a existência os homens (vasos) “… ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso…”. Este verso demonstra que Deus exerce poder quanto à criação dos homens (poder sobre o barro para fazer vasos), porém, como é próprio à sua santidade, Deus a ninguém oprime, ou seja, Ele não exerce o seu poder criativo com o fito de obrigar as suas criaturas (vasos) a submeterem-se ao seu senhorio. O oleiro não exerce o seu poder sobre os vasos, antes o seu poder é exercido sobre o barro, podendo fazê-los (criar) conforme o estabelecido pelo seu propósito eterno: vasos para honra e vasos para desonra.
  • O homem é feito do barro“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro…?” – utilizaremos Isaías 64: 8 para compreender melhor a atuação de Deus sobre o barro. Em Is 64:5 , o profeta indaga sobre como é possível ao homem alcançar salvação; no verso 6 ele demonstra que todos os homens são comparados ao que é imundo; os atos de justiça dos homens são comparáveis a trapos de imundície; todos os homens estão sujeitos a morte (folha que cai) devido ao pecado (salário do pecado). Devido à condição da humanidade não há quem esteja vivo (acordado), que invoque a Deus e detenha a sua ira; Porém, mesmo diante deste quadro horrível, o profeta clama a Deus invocando-o como Pai, pois ele sabia que, para ser salvo é necessário a filiação divina, e este milagre só é operado por Deus quando o homem reconhece a sua condição de miséria herdada de Adão e descansa (fé) em Deus. A massa (barro) utilizada para fazer os vasos para honra e desonra é a mesma. Isaías profetizou neste texto, por figura, a ideia da doutrina do novo nascimento;
  • A massa utilizada é única “… para da mesma massa…” – a matéria prima utilizada para moldar os vasos para honra e desonra é a mesma: o barro! Da mesma massa Deus faz vasos para honra e desonra. Como isto é possível? Os homens (vasos para desonra) são gerados através da semente corruptível de Adão (barro), e por serem gerados de novo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus (evangelho), Deus usa a mesma ‘massa’ para fazer vasos para honra em Cristo.

Através da análise anterior foi possível determinar que:

  • Deus é o oleiro;
  • Os homens são vasos (para honra ou desonra);
  • Ambos os vasos são feitos de uma mesma massa: o barro;
  • Deus exerce o seu poder sobre o barro para fazer vasos (homens), diferente da ideia de que Deus exerce poder sobre os vasos; Obs.: o senhorio do pecado ou da obediência sobre os homens vincula-se respectivamente a Adão e Cristo, visto que, a quem o homem se oferecer por servo para obedecer, será servo de quem obedecer: ou do pecado ou da obediência ( Rm 6:16 );
  • Adão vendeu-se ao pecado, e com ele todos os seus descendentes (humanidade).

 

Honra

Resta determinar quem são os vasos para honra. Ora, o apóstolo Paulo demonstra que ‘nós’, ou seja, os cristãos (aqueles que são chamados através do evangelho dentre judeus e gentios) são os vasos de honra “… a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou, os quais somos nós…” ( Rm 9:23 -24).

“Vasos de misericórdia” é o mesmo que “vasos de honra”, de acordo com o que se depreende da argumentação paulina. Todos que creem em Cristo, conforme diz as Escrituras, são vasos para honra, visto que, em Cristo todos são feitos participantes da natureza divina, contados como filhos de Deus.

Os vasos para honra são os cristãos. Todos os que creram foram de novo modelados (criados) segundo o evangelho que é poder de Deus ( Jo 1:12 -13; Rm 1:16 ). Deixam a condição de filhos da ira para serem vasos de misericórdia. Deixaram a condição de pecado proveniente da desobediência de Adão, e passaram a condição de filhos de Deus proveniente da obediência do último Adão (Cristo).

 

Desonra

Ora, se os vasos para honra são provenientes da obediência do último Adão, que é Cristo, segue-se que os vasos para desonra são provenientes da desobediência do primeiro Adão. Todos os homens sem Cristo são vasos para desonra, visto que são nascidos segundo a vontade do varão, da vontade da carne e do sangue, e por isso todos os homens nascem sob o senhorio (jugo) do pecado ( Jo 1:13 –13). Em Adão os vasos para desonra são ‘criados’.

Ora, o poder de Deus trás à existência tanto os ‘vasos’ para desonra quanto os ‘vasos para honra. O barro utilizado para fazer os vasos para a honra e desonra é o mesmo. Porém, não podemos esquecer que, primeiro são feitos os vasos para desonra, para depois vir à existência os vasos para honra ( 1Co 15:46 -48). Primeiro o homem natural, depois o espiritual.

Através da análise anterior chega-se a conclusão que:

  • Todos os homens são vasos;
  • Os homens sem Cristo são vasos para desonra;
  • Os que creem em Cristo são vasos para honra;
  • Os ‘vasos’ para desonra passam somente uma vez pela ‘olaria’ de Deus, e isto se dá quando do nascimento natural; já os vasos para honra passam pela segunda vez na mão do Oleiro, visto que, é necessário que o vaso para desonra seja quebrado, e novamente modelado, ou seja, o homem necessita nascer de novo para ser feito vaso para honra.

 

O Barro nas Mãos do Oleiro e a Teologia da Reforma

A teologia reformada ou calvinista considera que o homem sem Deus é semelhante a uma porção de barro, desprovido de vida e de poder.

Com base nos versos analisados anteriormente, podemos demonstrar que o homem sem Deus não é uma porção de barro, antes é um vaso “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” ( Rm 9:22 ).

O Oleiro Eterno exerceu o seu ofício quando criou o primeiro homem a partir do pó da terra, utilizando o barro como massa “Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra…” ( Gn 2:7 ), porém, esta obra não parou, visto que, ao conceder aos homens a dádiva de trazerem a existência os seus semelhantes, Deus continua a exercer o ofício de oleiro.

A bíblia demonstra que o caminho dos ventos e a formação da criança no útero da mãe é obra exclusiva d’Ele “Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos…” ( Gn 1:28 ). Porém, devemos lembrar que, foi Adão quem gerou filhos segundo a sua espécie, e não Deus. Deus gera filhos para si através da sua palavra, e Adão segundo a carne. A carne gera homens carnais e o Espírito gera homens espirituais ( Jo 3:6 ). Para o homem nascer de Deus é necessário nascer da água, ou seja, da palavra de Deus ( Jo 3:5 ).

Nicodemos ficou perplexo diante do ensinamento de Jesus e perguntou: “Como pode ser isso?” ( Jo 3:4 ). Jesus respondeu com uma citação de Eclesiastes: “Assim como não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da que está grávida, também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas ( Ec 11:5 ).

Ora, todos os homens descendem de Adão, e, portanto, são obras da mão de Deus. Todos os homens passaram pela olaria de Deus na condição de barro e foram modelados assumindo a condição de vasos.

Porém, por causa da queda de Adão, todos os vasos (descendentes de Adão) que são moldados são vasos para desonra. São destituídos da vida que há em Deus.

(Sobre a origem da parte imaterial do homem será feito uma exposição em outra ocasião)

Outra afirmativa dos reformadores dá conta que não há diferença intrínseca entre os eleitos de Deus e os não eleitos. Ambos são feitos do mesmo barro. Concordo com este posicionamento, de que não há diferença entre salvo e perdidos quanto à substância da qual foram formados: ambos são formados do barro “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra, e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

No entanto, vale salientar que, como não há diferença intrínseca entre os salvos e os não salvos, é possível demonstrar uma falha na declaração de que o homem sem Deus é uma porção de barro. Ora, tanto os salvos quanto os não salvos são feitos e uma mesma massa, porém, após saírem da olaria de Deus são vasos. Os vasos para honra, embora feitos da mesma massa utilizada para fazer os vasos de ira, foram refeitos participantes da vida que há em Deus, enquanto os vasos para desonra, aqueles que permanecem na condição oriunda do primeiro nascimento, permanecem divorciados da vida que há em Deus.

A ideia calvinista também dá conta que o destino final dos homens é decidido (soberanamente) por Deus, porém, o que se depreende das figuras do oleiro, do barro e do vaso não coaduna com este posicionamento.

Observe que soberanamente Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ), e, segundo o que propôs na eternidade, o Oleiro Eterno formou o homem do pó da terra.Quem era Adão para se queixar do Criador? Ora, acaso a coisa formada poderia queixar-se do Criador, dizendo: “Por que me fizeste assim?” Não! Embora alguém possa questionar a soberania de Deus, o homem na condição de vaso jamais poderia fazê-lo, pois o Oleiro é detentor de todo poder.

O que se observa na leitura do Gênesis, Jeremias e Romanos é que o poder de Deus e a sua soberania se estabelecem sobre o barro, ou seja, quando Ele cria o homem. A soberania de Deus não se dá sobre os vasos, visto que, Adão como vaso perfeito, recém saído da olaria de Deus, rebelou-se contra o Criador. De vaso para honra Adão passou a condição de vaso para desonra. De filho de Deus passou a condição de filho da desobediência. De agradável a Deus passou à condição de filho da ira.

Ora, se a soberania de Deus se dá sobre os vasos, como dizem os calvinistas, era da vontade de Deus a queda de Adão? Adão não conseguiu resistir à sugestão da serpente ou a queda foi da vontade de Deus? Se um calvinista responder que Adão não conseguiu resistir à vontade da serpente, conclui-se que a soberania de Deus não engessa a vontade do homem. Se responder que a vontade de Deus não era a queda de Adão, como ele conseguiu resistir à vontade de Deus?

O que se verifica nos textos que fazem referência ao poder e soberania de Deus é que ambos, poder e soberania, se demonstram quando o Oleiro Eterno trabalha o barro, e não quando os vasos estão formados “… tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer ( Jr 18:4 ).

Todos os homens são obras das mãos de Deus, visto que ele os faz conforme o que parece bem aos seus olhos: vasos para honra e vasos para desonra “Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos” ( Is 64:8 ).

Paulo destaca que Deus tem poder sobre o barro para fazer vasos conforme bem parece aos seus olhos “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).Observe que o poder do Oleiro se manifesta sobre a massa para tão somente fazer vasos, ou seja, em momento algum temos a ideia de que Deus intervém ou influência o destino final dos vasos.

O que determinou o destino dos vasos para desonra foi a desobediência de Adão e não Deus, como dizem os seguidores da reforma.

Através de Adão Deus faz do barro vasos para desonra, e através do último Adão, que é Cristo, Deus faz vasos para honra. A desobediência de Adão fez surgir os vasos para desonra, e a obediência de Cristo os vasos para honra. Ora, o que se percebe é que Deus não decidiu o destino da humanidade, antes todos os homens podem decidir-se por Cristo para se verem livres da condenação estabelecida em Adão.

Como é possível Deus ter determinado o destino final das pessoas segundo a sua vontade, se são muitos os que entram pela porta larga? Ora, se a vontade expressa de Deus é que ninguém pereça e que muitos venham ao conhecimento da verdade, como conciliar a parábola dos dois caminhos com a ideia de que o destino final das pessoas é segundo a vontade de Deus?

Jesus demonstrou que são muitos os que entram pela porta larga e seguem o caminho que conduz à perdição ( Mt 7:13 ), porém, o apóstolo Paulo demonstra que a vontade de Deus é que nenhum homem se perca, antes que todos venham ao conhecimento da verdade ( 1Tm 2:4 ).

Ora, se são muitos os que seguem pelo caminho de perdição, isto demonstra claramente que Deus não impõe a sua vontade sobre os homens, pois ela é clara: Ele deseja que todos venham ao conhecimento da verdade. Embora soberano, Ele não é ditador, visto que não oprime as suas criaturas para que façam ou se submetam a sua vontade.

Como é possível Deus decidir o destino final dos homens se a desobediência de Adão deu origem à porta larga por onde todos os homens entram? Como é possível Deus estipular o destino final das pessoas se elas entraram pelo caminho que as conduz à perdição? É Deus que conduz os homens à perdição ou à salvação, ou é o caminho que trilham que os conduz? “Entrai pela porta estreita. Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela ( Mt 7:13 ).

Jesus demonstrou que é o caminho em que os homens estão que os conduz à perdição ou à salvação. Embora muitos homens não desejem conscientemente a perdição, esta vontade não muda e nem influência o destinou final deles. Caso continuem sem se decidirem pelo caminho estreito, seguirão inexoravelmente para a perdição.

Sabemos que a porta estreita é Cristo e que Ele é o caminho que conduz os homens a Deus. Também sabemos que Adão é a porta larga, por onde os homens entram ao nascer, e que a porta larga dá acesso ao caminho largo que conduz à perdição.

Para os calvinistas, Deus molda os vasos segundo o seu propósito e consentimento. É o que denominam de eleição incondicional, ou seja, para eles Deus decidiu unilateralmente onde cada um dos homens passará a eternidade. O que se observa através da leitura da bíblia é que o pensamento que teve origem na reforma não é conforme a verdade do evangelho!




Vasos para desonra

O apóstolo Paulo é enfático em especificar quem são os vasos para honra: “Somos nós”, ou seja, os vasos para honra é a igreja (corpo) do Deus vivo! “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” ( 1Tm 3:15 ). Os vasos para honra também são designados “vasos de misericórdia”: “… nos vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem chamou, não só dentre os gentios?” ( Rm 9:22 -24).


Vasos para desonra

“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro…?” ( Rm 9:21 )

Quem são os vasos para honra e quem são os vasos para a desonra? Quem é o barro e quem é o oleiro?

Muitas questões doutrinárias surgiram ao longo da história da igreja por causa da má interpretação deste versículo. Porém, estas questões são facilmente respondidas quando o leitor compreender o real significado de cada figura presente no versículo.

Deus é o Oleiro e Ele tem poder sobre o barro. Ou seja, não há como o homem questionar a soberania e o poder de Deus “Ai daquele que contende com o seu Criador! O caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? Ou a tua obra: Não tens mãos?” ( Is 45:9 ).

Quem é o barro? Todos os homens são descritos como barro. O homem foi criado do pó da terra, e por isso, a figura do barro remete ao homem, uma das criaturas de Deus.

O profeta Isaías evidência as diferenças entre o homem e o Criador utilizando as figuras do oleiro e do barro: “Vós tudo perverteis, como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Não me fez; e o vaso formado dissesse do seu oleiro: Nada sabe” ( Is 29:16 ). É evidente que Deus é o oleiro, e o homem, o barro.

Estas figuras foram utilizadas várias vezes no Antigo Testamento: “Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai; nós o barro e tu o nosso oleiro; e todos nós a obra das tuas mãos” ( Is 64:8 ).

A primeira parte do versículo é facilmente respondida: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro…?” ( Rm 9:21 ). Sim! Deus tem total poder sobre os homens (barro)! O oleiro representa a pessoa do Criador, que de uma mesma massa (barro) cria vasos para uso diverso (honra e desonra).

Deus tem poder sobre os homens, mas, quem são os vasos (homens) para honra e quem são os vasos (homens) para desonra?

A Bíblia apresenta algumas figuras em pares antagônicos. Observe:

  • Porta larga e porta estreita;
  • Caminho largo e caminho estreito;
  • Árvore má e árvore boa;
  • A planta não plantada pelo Pai e a planta que o Pai plantou;
  • Filhos das trevas e filhos da Luz;
  • Servos do pecado e servo da justiça;
  • Semente corruptível e semente incorruptível;
  • Carne e Espírito;
  • Vasos para desonra e vasos para honra.

As perguntas se avolumam diante do quadro acima: Quem é a porta larga? Quem é, ou o que é o caminho largo? Quem é a árvore boa; Quem são as plantas que o Pai não plantou? Quem são os filhos das trevas? Quem são os servos do pecado? Qual é a semente corruptível? Quem é carnal? Quem são os vasos para desonra?

É certo que Deus tem poder sobre o barro! Porém, o versículo demonstra que Deus pega de uma mesma massa (barro) e faz vasos para honra e vasos para desonra “… para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

Como é possível de uma mesma massa serem feitos vasos para honra e vasos para desonra? O que diferencia os vasos para honra e os vasos para desonra não é a massa (barro) que foram moldados. A diferença está na utilidade dos vasos (vasos para honra e vasos para desonra).

Através dos elementos apresentados no parágrafo anterior é possível esclarecer outro ponto: tanto os vasos para honra, quanto os vasos para desonra são moldados (feitos) de uma mesma massa (barro). Ou seja, a distinção entre vasos para honra e vasos para desonra não é proveniente da massa que os vasos são moldados. De uma mesma massa Deus faz vasos (homens) para honra e desonra.

Podemos dizer que há homens para honra e homens para desonra, sendo que, todos são provenientes de uma mesma massa (barro).

Quem são os homens (vasos) para honra, e quem são os homens (vasos) para desonra? Quando eles são feitos?

Os três versículos seguintes são esclarecedores:

“E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem chamou, não só dentre os gentios?” ( Rm 9:22 -24).

O apóstolo Paulo é enfático em especificar quem são os vasos para honra: “Somos nós”, ou seja, os vasos para honra é a igreja (corpo) do Deus vivo! “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” ( 1Tm 3:15 ).

Os vasos para honra também são designados “vasos de misericórdia”: “… nos vasos de misericórdia, que para a glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem chamou, não só dentre os gentios?” ( Rm 9:22 -24).

Através do versículo anterior foi possível determinar quem são os vasos para honra! São os cristãos, homens (vasos) que Deus chamou dentre todos os povos.

Agora, quem são os vasos para desonra?

Eles representam uma seita? Uma organização? Uma igreja? É o anticristo? São os Falsos profetas?

Os vasos para desonra também foram designados por Paulo como “vasos da ira”, e eles foram preparados especificamente para a destruição. O apóstolo Paulo demonstra que Deus suportou os vasos criados para desonra com muita paciência!

A resposta sobre quem são os vasos para desonra está nos versículos seguintes:

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:23 -26).

Deus suportou com paciência os vasos da ira (desonra) ( Rm 9:22 ), e, concomitantemente, propôs através do sangue de Cristo, propiciação pela fé a todos (vasos para desonra) que cometiam pecado sob a paciência de Deus ( Rm 3:25 ).

Deus “… suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” ( Rm 9:22 ), para “… demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus” ( Rm 3:25 ).

Que entrave para a mente humana! Você, que hoje é vaso para honra por meio da fé em Cristo, outrora já foi um dos vasos para desonra.

Isto demonstra que, os vasos da ira, ou os vasos preparados para a perdição, são todos aqueles que pecaram e foram destituídos da glória de Deus. Por que vasos da ira? Porque são filhos da ira e da desobediência ( 1Co 15:22 ).

Isto leva a seguinte conclusão: todos pecaram em Adão, ou seja, os vasos para desonra (ira) são provenientes da semente corruptível de Adão.

É possível construir o seguinte paralelo entre Adão e Cristo:

Adão (O primeiro Adão) Cristo (O último Adão)
Porta larga Porta estreita
Caminho largo Caminho estreito
Árvore má Árvore boa
Planta não plantada pelo Pai Planta que o Pai plantou
Filhos das trevas Filhos da Luz
Servos do pecado Servos da justiça
Semente corruptível Semente incorruptível
Carne Espírito
Vasos para desonra Vasos para honra

 

O apóstolo Paulo demonstra que ‘todos pecaram e foram destituídos da glória de Deus’ Rm 3: 23. Verifica-se que todos pecaram em Adão, e que em Adão os homens são feitos vasos para desonra “Pois assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição veio por um homem” ( 1Co 15:21 ).

De igual modo, os homens que creem são justificados pela redenção que há em Cristo ( Rm 3:24 ) “Pois assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem” ( 1Co 15:22 ).

Isto por si só demonstra que os vasos para desonra são feitos (criados) em Adão. Todos os nascidos segundo a vontade da carne, a vontade do varão e do sangue são vasos de desonra preparados para ira. São filhos da ira e da desobediência de Adão ( Jo 1:12 -13).

Deus utiliza a mesma massa que dá forma aos vasos para desonra para fazer vasos para honra. A ‘matéria prima’ (massa) que Deus utiliza para fazer a nova criatura (vaso para honra) é a mesma que foi utilizada para fazer os vasos para desonra.

O homem nascido de Adão é criado um novo homem por meio da fé em Cristo. Ou seja, a mesma massa utilizada para fazer os vasos para perdição (homens nascido de Adão), agora é utilizada para fazer vasos para honra (homens nascidos da água e do Espírito).

Não é possível apresentar qualquer outro tipo de interpretação às figuras apresentadas no quadro acima. O primeiro Adão é alma vivente, é da terra e é homem carnal.

Os vasos para honra são feitos (criados) em Cristo, o último Adão. Ele é Espírito vivificante ( 1Co 15:45 ). Ele é homem espiritual e é de cima (céu).

Todos que creem em Cristo, conforme diz a Escritura, são feitos vasos para honra em Cristo Jesus. São vasos de misericórdia. Deixaram a condição de vaso para desonra, pois alcançaram misericórdia.

A mesma massa que foi utilizada para fazer vasos para desonra em Adão, agora é utilizada para fazer vasos para honra em Cristo. É da mesma massa (homens nascidos em Adão) que Deus faz vasos para honra (homens nascidos do último Adão).

Isto demonstra que Deus tem poder sobre a massa para fazer vasos para honra e vasos para desonra. É por isso que, aqueles que creem, recebem poder para serem feitos (cridos) filhos de Deus.

Os vasos preparados para a destruição que crerem Naquele que o Pai enviou serão feitos (criados) vasos para honra segundo o poder de Deus que operou em Cristo ressuscitando-o dentre os mortos ( Ef 1:19 ).

As figuras dos vasos para honra e vasos para desonra também são utilizadas pelo apóstolo dos gentios ao escrever a Timóteo:

“Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” ( 2Tm 2:20 -21).

Ao escrever a seu filho na fé ( 2Tm 2:1 ), Paulo estava tratando de questões relativas à igreja (local) que estava sob o cuidado de Timóteo.

A igreja (corpo) de Jesus Cristo é constituída somente de vasos para honra, porém, no ajuntamento solene de pessoas, há vasos para honra e vasos para desonra (crentes e descrentes).

Este versículo trata especificamente do ajuntamento solene de pessoas, onde várias pessoas reúnem-se (crentes e descrentes).

Quando o apóstolo estabeleceu o comparativo entre uma grande casa e o ajuntamento solene de pessoas crentes e descrentes, ele torna evidente que não há somente vasos de ouro e prata nestes ajuntamentos (reuniões), mas que também há vasos de pau e barro.

Ora, se em uma grande casa há vários tipos de vasos feitos de materiais diferentes (ouro, prata, pau e barro), da mesma forma o ajuntamento solene, que congrega varias pessoas, é um misto de pessoas com valores culturais diferenciados.

Sobre as qualidades e méritos de cada indivíduo que compõe a igreja local, Paulo é bem claro: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós” ( 2Co 4:7 ). Paulo sabia qual o valor do conhecimento humano perante o evangelho de Cristo ( 1Co 3:15 ).

O apóstolo Paulo falava a sabedoria proveniente de Deus, para que a fé dos irmãos não estivesse alicerçada em valores provenientes da sabedoria humana ( 1Co 2:5 ).

Ou seja, o apóstolo Paulo pregava o evangelho de maneira dissociada de suas qualidades pessoais. Isto porque ele não pregava a si mesmo “Pois não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus…” ( 2Co 4:5 ). Ele tinha plena consciência de que era vaso de barro.

E quanto a nós? Você se considera que tipo de vaso?

Em Cristo Jesus o cristão é vaso para honra, mas há aqueles que ousam classificar ou medirem a si próprio “Porque não ousamos classificar-nos, ou comparar-nos com alguns, que se louvam a si mesmos; mas estes que se medem a si mesmos, e se comparam consigo mesmos, estão sem entendimento” ( 2Co 10:12 ).

Enquanto Paulo considerava ser um vaso de barro por causa da excelência de Deus, havia aqueles que consideravam ser vasos de ouro e prata, por considerarem a si mesmos como mestres, doutores, pastores, graduados, etc. O que Paulo considerou como escória para ganhar a Cristo, eles (maus obreiros) consideravam como forma de evidenciar uma posição de honra e destaque perante a igreja local ( Fl 3:8 ).

Não é o ser vaso de ouro e prata (qualidades pessoais) que torna o homem vaso para honra. E não é o ser vaso de pau e barro que torna alguém vaso para desonra.

É Deus que tem poder sobre o homem (barro), para constituí-los vasos para honra, e não importa as suas qualidades pessoais (ouro, prata, pau ou barro), pois, é Ele quem faz vasos para honra em Cristo.

Os vasos para desonra moldados em Adão não são provenientes da vontade de Deus, mas da vontade do homem, da carne e do sangue. Não importam quais são as qualidades dos homens nascidos em Adão, é preciso ser feito vaso para honra. Nicodemos é um exemplo claro de um vaso para desonra que possuía vários méritos e qualidades pessoais, etc.

De quais coisas é necessário ao homem purificar-se para ser um vaso para honra? Das contendas de palavras e dos falatórios inúteis que produzem maior impiedade ( 2Tm 2:14 e 16). Este era o caso de Himeneu e Fileto, que não conservaram o modelo das sãs palavras de Cristo e se desviaram da verdade do evangelho ( 2Tm 1:13 e 18).

Crer conforme o modelo das sãs palavras de Cristo, ou seja, crer conforme a Escritura torna um vaso preparado para desonra e que foi destinado à destruição em um vaso de honra e misericórdia.

Mas, se o homem não guardar o modelo das sãs palavras do evangelho, será vaso para desonra e sujeito a ira de Deus.

Quem não segue o caminho de Fileto e Himeneu é separado para uso exclusivo de Deus (santificado). É idôneo para uso, uma vez que é participante da herança dos santos na Luz ( Cl 1:12 ). Foi criado para toda a boa obra ( Ef 2:10 ).

Com base no que foi exposto, vem a pergunta: você é vaso para honra ou vaso para desonra?

Se você creu em Cristo conforme diz a Escrituras e guarda o modelo das sãs palavras do evangelho (persevera), você foi criado um novo homem (vaso) para honra e louvor ao nome de Deus ( Ef 1:11 -12).

Mas, aquele que não crê na mensagem do evangelho ou que transtorna a doutrina do evangelho, é vaso para desonra, preparado para a perdição, visto que, ‘não crê no nome do unigênito Filho de Deus’, e, por tanto, já está debaixo de condenação.

Isto demonstra que Deus não predestinou os homens nascidos em Adão à perdição (embora eles sejam preparados para a destruição), visto que, os cristãos eram filhos da ira e da desobediência, mas foram suportados por Deus com muita paciência ( Rm 9:22 ).

Aqueles que eram preparados para perdição, mas que ao ouvirem a palavra do evangelho e creram, foram remidos dos pecados dantes cometidos sob a paciência de Deus, e tornaram-se vasos para a honra ( Rm 3:25 ).

Agora, compreendendo esta verdade, não tenha um sentimento de soberba, achando que você é melhor que os demais (vaso de ouro, prata), antes guardem este tesouro, sabendo que é vaso de barro, criado em Cristo para toda boa obra ( 2Co 4:7 ).

Agora, ao analisar o contexto do capítulo 9 de Romanos, temos que os israelitas confiavam da carne que eram filhos de Deus. Não atinavam que os nascidos segundo a carne são carnais. Não era porque eram descendentes de Abraão que eram seus filhos (filho de Abraão é o mesmo que filho de Deus).

Para ser filho de Abraão é preciso a mesma fé que teve o crente Abraão, que creu na promessa de Deus. Os judeus cofiavam da carne que eram filhos de Deus, porém, segundo a carne eram filhos de Adão. Continuavam na condição de filhos da ira e da desobediência.

Eles (judeus) eram vasos de desonra como os demais gentios, pois todos os homens são gerados segundo a carne por causa de Adão. Tanto judeus quanto gentios precisam nascer de novo para serem feitos filhos de Deus, tornando-se vaso para honra.




O primeiro e o último Adão

O ritualismo, o formalismo e o legalismo são ferramentas utilizadas para caracterizar devoção religiosa. Criam mecanismos para medirem e serem medidos e forçam outros a seguirem o que preceituam como necessário à salvação. Estabelecem padrões de justiça e santidade a ser seguido. Procuram lições provenientes do paganismo e das filosofias humanas.


O primeiro e o último Adão

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45 )

Adão e Cristo são os dois personagens de maior importância para a interpretação bíblica.

Grande parte das parábolas de Jesus e das figuras do Novo Testamento são referências específicas aos eventos no Éden e da cruz. Muitas figuras e parábolas ilustram as conseqüências destes eventos para a humanidade.

Um exemplo é a parábola dos ‘Dois Caminhos’, que, implicitamente, faz referência as consequências decorrentes dos eventos que sucederam no Éden e na cruz.

Observe: Adão foi feito (criado) alma vivente e participante da vida que há em Deus, porém, após desobedecer à determinação divina passou a condição de morto para Deus. A ‘nova’ condição de Adão após a queda passou a ser de sujeição ao pecado pela natureza adquirida.

A sujeição ao pecado deixou Adão em inimizade com Deus, e por causa da condenação deixou de ser participante da vida que há em Deus, passando a viver para o mundo e suas concupiscências (morto para Deus e vivo para o mundo).

Todos os nascidos de Adão (nascidos da carne, vontade do varão e do sangue) passaram a condição de filhos da ira e da desobediência. Desta forma todos os homens passaram a estar destituídos da glória de Deus, pois todos pecaram.

Esta condição pertinente à toda humanidade é ilustrada através da parábola das duas portas e dos dois caminhos, ou seja, todos os homens ao nascerem, por serem descendentes de Adão, entram pela porta larga, e seguem pelo caminho espaçoso que conduz à perdição ( Mt 7:13 ).

Em Adão todos os homens morreram e destituídos estão da glória de Deus. Em Adão, a ‘porta larga’, todos os homens seguem o caminho de perdição. Todos os homens morreram em Adão e passaram a viver para o pecado, para o maligno e para o mundo.

Porém, através do último Adão, que por Deus constitui-se espírito vivificante, todos os que creem entram pela porta estreita, ou seja, nascem de novo. São criados por Deus em verdadeira justiça e santidade, segundo o poder concedido através do evangelho, sendo feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Passam a trilhar o caminho estreito que conduz à vida. O caminho é estreito porque poucos entram por ele, ou seja, quando se fala em quantidade, muitos vem ao mundo segundo Adão, e poucos são os que creem para a salvação, segundo o último Adão, que é Cristo.

Em números absolutos, em Adão todos morreram, e em Cristo, o último Adão, todos quantos crerem também morre. Em Adão toda a humanidade morreu e passou a viver para o mundo, em Cristo, o último Adão, todos os que creem, morrem para o pecado, para o maligno e para o mundo, e são de novo criados, e passam a viver para Deus. Amém.

Outro exemplo é a figura dos “vasos”, conforme Paulo escreveu aos Romanos, veja: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ). Como entender esta figura apresentada por Paulo?

Sabemos que Deus é o oleiro, e é Ele que detém o poder sobre o barro, que é o homem. Todos os homens decorrem de uma mesma massa, ou seja, todos são alma viventes conforme Adão.

Todos os homens que vêem ao mundo são criados pelo poder de Deus, porém, por serem descendentes de Adão, todos são feitos vasos para desonra. Todos os descendentes de Adão são vasos para ira, preparados para perdição. Através deles Deus demonstra a sua ira, e dá a conhecer o seu poder, suportando-os com muita paciência.

Deus chama pacientemente os vasos preparados para a ira a fim de torná-los vasos para honra, ou seja, o evangelho é o chamado de Deus a todos os homens nascidos segundo Adão. Todos os cristãos foram chamados por Deus, e neles é demonstrado o poder de Deus e as riquezas de sua graça. Todos os que são chamados e creem são os vasos de misericórdia, e, portanto, vasos para a honra.

Observe que, tanto os nascidos em Adão e os nascidos em Cristo constituem-se vasos e são formados da mesma massa como nos afirma “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual” ( 1Co 15:46 ). Todos os homens precisam ser feitos almas viventes (homem natural), para depois serem criados espirituais (homem espiritual).

Quando criados, os homens naturais passam à condição de escravos do pecado, por causa do pecado de Adão. Percebe-se então que, o grande diferencial é, os nascidos segundo Adão são vasos para a desonra, e os nascidos em Cristo são vasos para honra.

Quando o leitor não compreende a verdade sobre os eventos da cruz e do Éden, acaba por interpretar a Bíblia erroneamente. Ao deparar-se com parábolas e ilustrações como as apresentadas acima terão um entendimento segundo a concepção humana, e permanecerá enfatuado, segundo uma carnal compreensão.

Muitos interpretam que a porta é larga porque as pessoas do mundo estão entregues aos prazeres, são sensuais, céticas e criminosas. Entendem que a porta é larga por não apresentar ‘dificuldades’ ou condições para entrada. Entendem que o caminho estreito está diretamente relacionado com dificuldades, proibições, restrições de ordem moral, comportamental e religiosa.

Entendem que, para trilhar o caminho estreito, ou que, para entrar pela porta estreita basta seguir preceitos religiosos, cumprir leis nacionais, ou seguir filosofias de vida.

Diante deste entrave surgem muitas religiões, igrejas e denominações. Avolumam-se os discursos sobre disciplina, sofrimento, penitências, orações, rezas, moralidade, santidade, serviço, pró-atividade. As qualidades procedentes do ego humano são louvadas insistentemente, como: coragem, determinação, empenho, disciplina, resignação, etc.

O ritualismo, o formalismo e o legalismo são ferramentas utilizadas para caracterizar devoção religiosa. Criam mecanismos para medirem e serem medidos e forçam outros a seguirem o que preceituam como necessário à salvação. Estabelecem padrões de justiça e santidade a ser seguido. Procuram lições provenientes do paganismo e das filosofias humanas.

Esquecem de observar o que Jesus disse a Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer de novo, não pode ver o reino dos céus” ( Jo 3:3 ). Não observam que o ‘melhor’ da religião, da lei, da moral, do comportamento não faz o homem agradável a Deus, e, por tanto, esquecem também a recomendação de Jesus a um dos mestres do judaísmo: nascer de novo.

O mundo ainda continua apegado a elementos fracos e pobres, que não pode livrar o homem da condição de sujeição ao pecado ( Gl 4:9 -10).

O apóstolo Paulo demonstra estar consciente das conseqüências decorrente da desobediência de Adão e da obediência de Cristo ao escrever aos cristãos de Corinto ( 1Co 15:45 -50).

Ao escrever a Timóteo, Paulo alerta sobre este pretenso ‘evangelho’: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé (…) que proíbem o casamento, e ordenam a abstinência de alimentos” ( 1Tm 4:1 -3).