Romanos 7 – Miserável homem que eu sou!

Para quem ainda julga que o apóstolo Paulo continuava sendo ‘carnal’ após ter um encontro com Cristo, ou que, por momentos breves se deixava levar pela ‘carne’, ou que, em certos momentos era dominado por ela, já temos o veredicto: “Rogo-vos que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns que nos julgam, como se andássemos segundo a carne. Pois embora andando na carne, não militamos segundo a carne” ( 2Co 10:2 -3). Ter um corpo carnal não é o mesmo que ‘viver segundo a carne’. Somente quem não é nascido de novo (da água e do Espírito), ou seja, da semente incorruptível, ‘militar’ segundo a carne.


Romanos 7 – Miserável homem que eu sou!

Quem ‘conheceu’ o pecado?

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

A resposta é simples: ‘Eu’!

Uma análise da carta aos Gálatas é essencial à compreensão do ‘eu’ que ‘conheceu’ o pecado através da lei. Compare os elementos presentes nestes dois versos:

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei ( Rm 7:7 );

“Pois eu pela lei estou morto para a lei, a fim de viver para Deus” ( Gl 2:19 )

Quais são os elementos comuns aos dois versos?

Se não fizermos uma leitura apurada destes dois versos, perceberemos somente dois elementos em comum: o “Eu” e a “Lei”. Porém, ao observar melhor, verifica-se um terceiro elemento implícito nos versículos: ‘conhecer o pecado’ é o mesmo que ‘estar morto para Deus’ ou ‘estar vivo para a lei’.

Na carta aos Romanos o apóstolo Paulo deixa claro que “pela lei o ‘eu’ conheceu o pecado”, ou seja, morreu, distanciou-se do Criador, passando a ‘viver’ no pecado e para a lei. Aos cristãos da Galácia, Paulo demonstra que, para viver para Deus é necessário o ‘eu’ morrer para a lei.

Precisamente o apóstolo Paulo diz: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais ‘eu’, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ).

Para chegar a conclusão expressa em Gl 2:20, o apóstolo dos gentios demonstrou que:

  • Os cristãos judeus estavam se distanciando do evangelho de Cristo e Paulo se ocupou em escrever aos Judeus por natureza, ou seja, aos descendentes de Abraão segundo a carne. Ao utilizar o pronome na primeira pessoa do plural (nós), Paulo estava demonstrando que os judeus eram pecadores, e não somente os gentios. Ser descendente da carne de Abraão não tornava os judeus melhores que os gentios! ( Gl 2:15 );
  • Os cristãos judeus sabiam que eram justificados pela fé em Cristo, e não pela obras da lei ( Gl 2:16 );
  • Paulo demonstra que, tanto ele, quanto os cristãos judeus, procuraram ser justificados em Cristo “Se nós, que procuramos ser justificados em Cristo…” ( Gl 2:17 ), e que eles (Paulo e o cristãos judeus) já não eram mais pecadores, pois Cristo não é ministro do pecado. Ora, se eles ainda estavam buscando justificação na lei, isto instava contra eles de que ainda eram pecadores, e teriam de admitir que Cristo era ministro do pecado ( Gl 2:17 – 18).
  • Paulo apresenta sua nova condição e compreensão em Cristo, destacando-se dos demais cristãos judeus, visto que eles não precisavam da lei: “Pois eu pela lei estou morto para a lei, a fim de viver para Deus” ( Gl 2:19 ). Quem estava morto para lei? Paulo responde: ‘eu’! ‘Eu’ quem?

Ora, o Paulo que escreveu aos Gálatas estava ‘vivo para Deus’, porém, o ‘eu’ que ele faz referência foi crucificado com Cristo e morreu. Para que ele alcançasse a condição de ‘vivo para Deus’, antes precisou morrer com Cristo. O ‘eu’ que, pela lei está morto, diz de Saulo, e quem realmente vivia para Deus diz de Paulo, o apóstolo dos gentios.

Ao falar aos Gálatas da sua antiga condição em pecado (condição de vivo para o pecado e vivo para a lei), Paulo utilizou o pronome na primeira pessoa do singular: ‘eu’. Paulo não estava morto, antes o seu ‘velho homem’ é quem estava crucificado com Cristo, e já não vivia o seu ‘eu’, antes Cristo vivia em Paulo. A vida de Paulo na carne já não era segundo a descendência de Abraão (carne), antes, por ter sido gerado de novo, segundo a mesma fé que teve o crente Abraão, Paulo passou a viver para Deus ( Gl 2:20 ).

Através da Carta aos Gálatas é possível determinar que o ‘eu’ que Paulo fez referência diz da antiga natureza pecaminosa herdada de Adão. Paulo demonstra aos Gálatas que o ‘eu’ sujeito ao pecado e que nele habitava, não mais vivia, contrastando com a nova vida em Cristo, quando Cristo passa a habitar o homem.

Surge a pergunta: Quando Paulo escreveu aos cristãos Romanos, ‘eu não conheci pecado’, ele escreveu acerca da sua nova condição em Cristo, ou fez referência a sua antiga condição, quando ele ainda era escravo do pecado e sujeito à lei?

Seria possível o apóstolo ter morrido para o pecado e para a lei e continuar ‘conhecendo’ o pecado através da lei? ( Rm 6:2 ) Ou melhor, seria possível ao apóstolo estar liberto do pecado, livre da lei e depender da lei para ter ‘conhecimento’ do pecado? ( Rm 6:22 e Rm 7:6 ) De que ‘eu’ Paulo escreveu no verso 7, do capítulo 7?

No capítulo 5 de Romanos, verso 12 à 13, vemos que o pecado entrou no mundo por causa da transgressão de Adão, e, por ele, o pecado alcançou todos os homens ( Rm 5: 12 – 13). O pecado estava no mundo bem antes da lei, pois desde Adão até Moisés a morte estabeleceu o seu reino ( Rm 5:14 ).

Alguém poderia argumentar que sem a lei o pecado não é imputado, porém, a realidade demonstra que todos os homens, desde Adão até Moisés, morreram, e isto demonstra nitidamente que o pecado é imputado, mesmo sobre quem não peca à semelhança da transgressão de Adão.

Através da lei instituída no Éden o homem carnal (eu) conheceu o pecado “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei” ( Rm 7:7 ). Enquanto escrevia aos cristãos Romanos, Paulo não mais conhecia o pecado, antes o seu ‘eu’ noutro tempo conheceu o pecado por intermédio da lei ( Ef 2:2 e Ef 2:3 ). Observe que o verbo ‘conhecer’ está no passado, o que indica uma situação remota e diversa da nova vida que Paulo alcançou em Cristo.

O ‘eu’ de Paulo é o mesmo que ‘ser carnal’. Ele mesmo declarou: “Eu sou carnal”, ou seja, se ele deixa de ser carnal, deixa de existir o ‘eu’. Todos os homens são carnais, e, portanto, possuem um ‘eu’ segundo a natureza de Adão. Para serem salvos necessariamente precisam ser gerados de novo, para deixarem de ser carnais, aniquilando o ‘eu’.

O ‘eu’ define o homem carnal, ou seja, o homem que ainda não nasceu de novo. Ser carnal é essencial à existência do ‘eu’. Basta crucificar a carne com Cristo para não mais existir o ‘eu’.

É por isso que Paulo demonstra que todos que são de Cristo precisam despojar-se da carne, pois através dela o ‘eu’ proveniente de Adão vive para o pecado “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ). A natureza pecaminosa herdada de Adão, representada pelo ‘eu’ é que produziu a morte (condenação), e para a morte (iniquidades).

Em Cristo, Paulo crucificou o ‘eu’, e desta forma, as concupiscências que foram conhecidas através da lei, também foram crucificadas ( Gl 5:24 ). Todos cristãos já crucificaram a carne, o que demonstra que todos os homens sem Cristo possuem um ‘eu’ que deve ser crucificado.

 

Carne ‘versus’ Espírito

Paulo faz referência a carne e o Espírito como senhores que lutam (cobiçam) entre si para ter domínio sobre o homem. Ora, por que lutam (cobiçam)? A resposta é clara: eles se opõem um ao outro para que o homem não faça o seu querer, antes façam o desejo daquele a quem se sujeitarem “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

Quando gerado segundo Adão, o homem é sujeito ao pecado, e não faz a sua própria vontade, antes, por ser escravo, serve o pecado para morte ( Rm 6:16 ). O corpo do homem sujeito ao pecado é instrumento de iniquidade, ou seja, quem faz uso do corpo é o pecado. O homem não passa de um instrumento a serviço do seu senhor ( Rm 6:13 ; Rm 6:19 ).

Quando o homem é gerado de novo segundo o Espírito, é sujeito à obediência, e não faz a sua própria vontade, antes, como escravo da obediência para a justiça. O corpo do homem regenerado passa a condição de instrumento de justiça, ou seja, a justiça faz uso do corpo daquele que lhe é sujeito. O homem é instrumento nas mãos de Deus.

Não há como o homem lutar contra a carne por ser sujeito à carne como escravo. Quem luta contra a carne é o Espírito, e não o homem.

As obras da carne são próprias à carne por ela fazer o papel de senhor, da mesma forma que, o fruto do Espírito é próprio do Espírito, e somente o Espírito Eterno pode produzi-los naqueles que são servos da obediência. É por isso que Jesus disse: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ).

Observe que Jesus refere-se ao fruto que as varas ligadas n’Ele produzem no singular (o fruto), do mesmo modo que Paulo anunciou aos Gálatas. O fruto é único porque pertence ao Espírito, que o produz naqueles que estão ligados a Cristo, a videira verdadeira.

Mesmo após o seu ‘eu’ morrer com Cristo, Paulo continuou vivendo socialmente como qualquer outro homem, pois ainda dependia do seu trabalho ( At 18:3 ), tinha pertences pessoais ( 2Tm 4:13 ), fazia uso da tecnologia da época ( At 20:38 ), tinha sonhos e desejos ( 1Co 9:4 e 1Co 9:5 ) e opinião própria ( At 15:39 ).

O homem desejar ter uma esposa ou a mulher ter um marido não é ser carnal. O homem ter uma esposa ou a mulher ter um esposo não é carnalidade ( 1Co 9:5 ). Ter opinião diferente, ou discordar de outro irmão não é algo proveniente da carne ( At 15:39 ). Ser repreensível não e o mesmo que ser carnal ( Gl 2:11 ).

Jesus expulsou os que vendiam no templo, derrubou as mesas e espalhou o dinheiro dos cambistas, porém, não era carnal. Jesus possuía sentimentos, emoções, tais como alegria, tristeza, angustia, medo, coragem, etc., e não era sujeito a carne e as suas paixões.

Ter um corpo feito de matéria (carne e sangue) não é o que vincula o homem ao pecado. Jesus veio em carne, homem espiritual e espírito vivificante “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” (1Co 15:45). Paulo crucificou a carne, o ‘eu’ sujeito ao pecado, mas continuou de posse do seu tabernáculo terrestre ( 2Co 5:4 ).

Considerar que o cristão continua de posse da natureza pecaminosa após ter sido justificado ‘em Cristo’ é depor contra as Escrituras. Deus declara o homem justo porque Ele cria o novo homem justo e santo com um novo coração e um novo espírito. A justificação em Cristo é justificação de vida, e não judicial, como alguns pensam “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

J. Sidlow Baxter disse que:

“Permanece, no entanto, um problema sério que precisa ser resolvido para mim, pelo evangelho. O que desejo agora, além da retidão judicial, é alcançar a retidão prática de motivo e conduta em minha vida diária, através de um poder que irá libertar-me da escravidão deste tirano, o ‘pecado que habita em mim’” Baxter, J Sidlow, Examinai as Escrituras – Atos a Apocalipse, edição. 1989, Ed. Edições Vida Nova, pág. 87.

Para Baxter, o homem desventurado diz de alguém que obteve libertação, porém, a libertação não é plena, total. Falta ao homem desventurado poder para uma quarta libertação, ou seja, ele segue a mesma linha de raciocínio que critica (velha escola puritana), a de que o velho ‘eu’ há de seguir o homem regenerado até o amargo fim.

Ora, Jesus libertou os que creem para que sejam livres de fato ( Gl 5:1 ). O poder que Deus concedeu aos seus é suficiente para que sejam criados filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Cristo afirmou que Ele e o Pai estariam com os seus todos os dias, porque viriam e fariam neles morada. Diante da declaração de Jesus, fica impossível conceber que o pecado continue a habitar o crente, ou pior, que a casa fique dividida entre dois senhores: a obediência e o pecado.

O que se percebe através da exposição de Baxter, é que há uma confusão quanto às questões relativas à conduta do cristão. Ele esquece que todos os cristãos tropeçam em muitas coisas ( Tg 3:2 ), porém, aquele que não tropeça quanto a exposição do evangelho, este é perfeito, visto que é participante da natureza divina ( Cl 2:10 ), sendo como Cristo aqui neste mundo ( 1Jo 4:17 ).

Tiago avisou do perigo que ronda aqueles que desejam ser mestres: o duro juízo de Deus reservado para aqueles que prevaricarem quanto ao oficio de ensinar o evangelho. O aviso é solene: todos tropeçamos. Ou seja, somos passíveis de erros, mas aqueles que exercem o ministério como mestres não podem cometer erros quanto a palavra da verdade.

Só os perfeitos, ou seja, aqueles que estão em Cristo não tropeçam na palavra que lhes concedeu a perfeição. Além de se tornar perfeito em Cristo, o cristão tem poder para exercer domínio próprio “MEUS irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo. Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo” ( Tg 3:1 – 2).

 

Tudo que você queria saber sobre o ‘Eu’

Quando Paulo disse: “Eu sou carnal” ( Rm 7:14 ), ou: “…e vivo, não mais eu…” ( Gl 2:20 ), a qual ‘eu’ ele se referia? Seu eu psíquico? Histórico? Social?

Quando lemos: “Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus” ( 1Co 15:9 ), verifica-se que o ‘eu’ a que Paulo se refere não é o ‘eu’ que foi morto com Cristo, mas sim ao ‘eu’ histórico do apóstolo. Tudo que Paulo realizou no passado enquanto era chamado de Saulo, foi realizado por ele mesmo, ou seja, o apóstolo dos gentios não nega o seu passado, ou seja, sua história de vida.

Isto porque o mesmo homem que perseguiu a igreja de Deus passou a anunciar o evangelho de Cristo, ou seja, o perseguidor agora é perseguido ( Gl 1:23 ; 1Tm 1:13 ).

Paulo também não renega o seu ‘eu’ social, visto que, quando preso, apresentou-se como cidadão romano, e se defende com base nas leis vigentes: “E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que ali estava: É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?” ( At 22:25 ; At 25:16 ).

Paulo trazia na lembrança a sua origem, visto que fora circuncidado ao oitavo dia, pertencente a linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreu, fariseu, cidadão romano, etc ( Fl 3:5 -6 ; At 22:28 ), tais relatos demonstram que, o ‘eu’ que morre com Cristo não se refere a questões socioculturais.

Então, qual ‘eu’ foi crucificado com Cristo? O ‘ego’? (‘Ego’ diz da consciência inferior do indivíduo. Resulta da soma total dos pensamentos, ideias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais que tem por funções a comprovação da realidade e a aceitação, mediante seleção e controle, de parte dos desejos e exigências procedentes dos impulsos que emanam do indivíduo).

Quando lemos as cartas paulinas fica evidente que os seus pensamentos, lembranças, sentimentos, percepção sensoriais, desejos, etc., permaneceram inalterados. Qual era o sentimento de Paulo acerca dos seus compatriotas? Ele mesmo demonstra que desejaria ser separado de Cristo por amor aos seus irmãos segundo a carne ( Rm 9:3 ).

O que isto quer dizer? Este amor pelos seus compatriotas demonstra que os sentimentos, as lembranças e as emoções do apóstolo dos gentios não foram alteradas após o seu ‘eu’ deixar de existir. O desejo de Paulo permaneceu inalterado, mesmo após o seu ‘eu’ não mais viver ( Rm 10:1 ).

Isto significa que ‘morrer com Cristo’ não é o mesmo que ignorar as percepções sensoriais do corpo, da existência e dos registros que possuímos na memória ( ‘Ego’ por Jung).

O ‘eu’ carnal, ou o ‘eu’ que ‘não mais vive’ não diz do “centro da consciência superior do individuo, que é a soma total dos pensamentos, ideias, sentimentos, lembranças e percepções sensoriais, extra-sensorial, e não-sensorial, que também é nomeado pela psicologia moderna de ‘eu’”.

Paulo não estava renegando os impulsos instintivos da sua personalidade, ou extinguindo o seu reservatório inicial da energia psíquica como indivíduo.

O ‘eu’ que Paulo faz referência não tem relação com o ‘ego’, o ‘id’ e o ‘superego’ da psicanálise freudiana.

O ‘eu’ descrito pela psicanálise compõe-se do ‘id’, que é “instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes e regido pelo princípio do prazer”. Exige satisfação imediata, é a energia dos instintos e dos desejos em busca da realização desse ‘princípio do prazer’, e do ‘superego’, que representa a “censura das pulsões que a sociedade e a cultura impõem ao ‘id’, impedindo-o de satisfazer plenamente os seus instintos e desejos, e se manifesta indiretamente na consciência, sob forma da moral, como um conjunto de interdições e deveres, e por meio da educação, pela produção do “eu ideal”, isto é, da pessoa moral, boa e virtuosa”.

Quando Paulo anuncia que seu ‘eu’ morreu com Cristo, não se ocupa dos instintos e nem dos impulsos orgânicos do homem. Ele também não escreveu acerca da moral e do conjunto das interdições e deveres que tem o fito de tornar o homem virtuoso de ‘per si’.

As obras da carne que Paulo enumera aos cristão da Galácia não guardam relação alguma com os instintos e desejos do ‘id’ freudiano. Da mesma forma, o fruto do Espírito não tem relação alguma com o ‘eu ideal’ proveniente do ‘superego’ (Leia carne versus Espírito).

O ‘eu’ a qual Paulo faz referência, que é carnal ( Rm 7:14 ), não se refere a uma pessoa específica e nem diz de uma personalidade com sentimentos e emoções. O ‘eu’ a que ele se refere aponta uma condição. Como falar de uma condição? Ora, para falar de uma condição é essencial associá-la a um objeto ou pessoa.

Para falar acerca da condição do ‘eu’, ou da condição de sujeição ao pecado, o apóstolo fez referência ao seu passado, utilizando o ‘eu’ como figura. Através do ‘eu’, Paulo ilustra, ou melhor, demonstra a condição de todos os homens que não ‘conheceram’ a Cristo. Desta forma, temos na argumentação paulina a condição do homem carnal desempenhando o ‘papel’ principal.

Através de uma análise da frase (proposição): ‘Eu sou carnal’, utilizando ferramentas pertinentes à lógica, é possível identificar três componentes distintos:

a) denotação: o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;
b) conotação: os sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;
c) ênfase: a importância relativa que o autor atribui aos diferentes elementos da frase.

O componente de maior importância para a análise está na importância relativa que Paulo atribuiu aos diferentes elementos da frase (ênfase): ‘Eu sou carnal’. O estado do ‘eu’ na frase é a ‘carnalidade’ – denotação. A ideia que Paulo enfatiza é a sujeição do homem ao pecado como escravo – conotação. Quando afirmou a condição do ‘eu’, Paulo atribui maior importância ao predicativo (carnal) do sujeito (eu) – ênfase.

Portanto, durante a interpretação do verso: “Eu sou carnal”, devemos atentar para o elemento de maior importância na preposição, o predicativo ‘carnal’, e considerar o ‘eu’ como elemento coadjuvante ou como figura, algo essencial para se demonstrar a condição do homem sem Deus.

Para explicar a condição daqueles que estão divorciados do Criador, o apóstolo Paulo lançou mão de uma figura, o ‘eu’, onde fosse possível demonstrar a realidade do homem sem Deus. Como ele estava tratando diretamente com os cristãos judeus, havendo entre eles alguns judaizantes, não era de bom alvitre dizer: ‘Vocês são carnais, vendidos como escravos ao pecado’ ( Jo 8:33 ). Por amor aos seus compatriotas, Paulo fez referência a sua antiga condição utilizando o ‘eu’ como figura ( 1Co 4:6 ).

Após afirmar qual era a sua antiga condição sob a égide do pecado (Eu sou carnal), os compatriotas do apóstolo dos gentios teriam elementos para concluir que, ser descendente de Abraão, israelita, hebreu de hebreu ou pertencente à alguma tribo de Israel não livra o homem do jugo do pecado.

A proposição (afirmação) ‘Eu sou carnal’ tem a finalidade de apresentar a condição pertinente à natureza gerada segundo o pecado, ou seja, a condição do homem vendido como escravo ao pecado em decorrência da ofensa de Adão ( Rm 7:14 ).

Todos os descendentes de Adão são carnais, visto que, ser carnal é condição proveniente do nascimento natural. Para ser espiritual é necessário nascer de novo segundo o último Adão, que é Cristo.

A carne não é aniquilada através do ascetismo pessoal. Para o homem livrar-se da carne é necessário ter um encontro com a cruz de Cristo, diferente do ascetismo, que consiste na negação de desejos físicos e psíquicos em busca da espiritualidade.

Já reunimos os elementos necessários para analisar Romanos 7, versos 7 à 12.

 

A Lei é Santa

Partindo da argumentação paulina temos uma pergunta e uma resposta: “Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum! Logo após uma pequena exposição, vem a seguinte conclusão: “Portanto, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom” ( Rm 7:12 ).

Foi a lei quem causou a separação entre Deus e os homens? Não! A lei não causou a barreira de separação erguida entre Deus e os homens. Foi a desobediência à lei dada no Éden que ergueu a barreira de separação.

O que causou a separação entre Deus e os homens? A desobediência de Adão à lei de Deus! Ora, a lei de Deus é especifica: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente, morrerás” ( Gn 2:16 – 17).

A desobediência (ofensa) à lei dada no Éden trouxe o juízo de Deus e a condenação: separação, morte, alienação da glória de Deus ( Rm 5:16 ). O pecado surgiu da desobediência à lei divina que distanciou a humanidade de Deus. Por intermédio da lei o homem conheceu (uniu-se) o pecado quando desobedeceu a Deus.

Por que Paulo utiliza o pronome na primeira pessoa do singular para falar do pecado? “Mas eu não conheci o pecado senão por intermédio da lei”. Para demonstrar que foi através da desobediência à lei dada no Éden que todos os homens, inclusive o Paulo, tornaram-se pecadores. Através da lei concedida o pecado achou ocasião, visto que Adão a desobedeceu.

É costume do apóstolo Paulo fazer uso de figuras quando o tema é complexo e envolve aspectos pertinentes ao velho homem. O apóstolo Paulo usou de modo figurado a sua pessoa e a pessoa de Apolo quando precisou demonstrar que os cristãos de Corintos estavam envoltos em dissensões “Ora, irmãos, apliquei estas coisas figuradamente a mim e a Apolo, por amor de vós…” ( 1Co 4:6 ). O que foi aplicado figuradamente? Uma suposta divisão entre Paulo e Apolo para ilustrar as questões partidárias existentes entre os cristãos de Corintos ( 1Co 3:4 ).

De qual ‘eu’ o apóstolo fez referência? Ao ‘eu’ pertencente ao pecado, ou ao ‘eu’ que pertence a justiça?

No capítulo 3, verso 7, Paulo faz referência ao ‘eu’, observe: “Mas, se por causa da minha mentira sobressai a verdade de Deus para sua glória, por que sou eu ainda julgado como pecado?” ( Rm 3:7 ).

Perceba que, enquanto argumenta, o apóstolo dos gentios transita facilmente entre passado e presente, o que indica que ele só pode estar fazendo uso de uma figura. Ele afirma que Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso ( Rm 3:4 ), isto significa que, todos os homens se desviaram da verdade que há em Deus, e passaram a condição de mentirosos em Adão ( Rm 3:23 ).

A barreira de separação alienou o homem da verdade que há em Deus, o que levou todos os homens a condição de ‘mentira’.

Ora, quando o apóstolo Paulo argumenta que a sua mentira (minha mentira) faz sobressair a verdade de Deus, ele destacou sua antiga condição herdada de Adão (condição de todos os homens sem Cristo). Em Adão os homens tornaram-se mentirosos, ímpios, injustos, maus, inúteis, etc ( Rm 3:10 – 18).

Por intermédio da lei dada no Éden ‘Saulo’ conheceu o pecado, ou seja, foi gerado na condição de pecador. E não somente Saulo, mas todos os homens foram gerados pecadores por intermédio da mesma lei, pois a sentença da lei é irrevogável: ‘…certamente morrerás’. A condição ‘em pecado’ é proveniente da pena imposta: a morte.

Do mesmo modo que, por intermédio da lei perfeita o homem conheceu (separação de Deus) o pecado, por intermédio da lei mosaica o homem conheceu (soube) a cobiça e outras concupiscências.

Além da sujeição ao pecado estabelecida em Adão, o pecado passou a operar toda sorte de concupiscência no velho ‘eu’ de Paulo. Do mesmo modo que o pecado tomou ocasião na lei e o homem foi destituído da glória de Deus, agora o pecado opera sobre os homens sem Deus a concupiscência através do mandamento. Ex: não cobiçarás ( Ex 20:17 ).

Como foi possível o pecado tomar ocasião pelo mandamento? A obediência ao mandamento preservaria o homem participante da vida que há em Deus, porém, através da desobediência, o mandamento que era para preservar a vida, operou a morte. A morte surgiu da penalidade incrustada na lei. A força do pecado é proveniente da lei, que é santa, justa e boa.

Todos os homens sem Cristo estão debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), e se estão debaixo do pecado, segue-se que não há quem faça o bem, não há nem um só ( Rm 3:12 ). Ora, se não há quem faça o bem, isto demonstra o quanto a lei de Moisés (mandamento) é inócua sobre os que estão debaixo do pecado ( Rm 3:20 ).

Os homens são transgressores diante de Deus mesmo quando não descumprem prescrições legais. São transgressores porque foram gerados em pecado, ou seja, mesmo sem transgredirem as leis existentes são transgressores diante de Deus, e não porque transgridem leis ou regras morais ( Sl 25:3 ).

Para o homem ver-se livre da concupiscência é preciso estar em Deus, pois somente morto para o pecado por intermédio do corpo de Cristo o homem vive sem lei “Pois sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:8 b). Pelo mandamento o pecado opera sobre os homens toda sorte de concupiscência, porém, como sabemos que sem a lei o pecado está morto, basta morrer com Cristo para o homem ver-se livre da lei que disse: “…certamente morrerás”, e da concupiscência ( Gl 5:24 ).

Conclui-se que através da lei o pecado passou a existir, pois onde a lei de Deus diz: “…Certamente morrerás”, o pecado tomou ocasião e força. Como a lei de Deus é irrevogável, para o homem ver-se livre da lei é preciso morrer, como ela estipula.

 

O ‘Bom’ transformou-se em morte?

“Logo tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno” ( Rm 7:13 )

O apóstolo dos gentios novamente se antecipa e faz a pergunta que certamente os seus interlocutores fariam: “Logo tornou-se o bom em morte?”. Após explicar que a lei não era o mesmo que pecado, Paulo estava diante de uma nova questão que teve origem na seguinte conclusão: A lei é santa, justa e boa.

Do mesmo modo que a ‘lei’ não é ‘pecado’, o ‘bom’ não se tornou em ‘morte’. Novamente o apóstolo põe-se a explicar o que ocorreu: mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou no homem a morte (separação de Deus) através do mandamento.

Através do que é bom (mandamento) o pecado se mostrou excessivamente maligno, ou seja, mau. Deus é bom e o pecado é o mau. Deus é santo e o pecado maligno. Estes elementos demonstram que o pecado estabelece e nomeia a separação que há entre Deus e suas criaturas que foram destituídas de sua glória.

Quando foi que o pecado operou a morte sobre os homens pelo bem? O único evento que aponta esta realidade deu-se em Adão, pois através da ofensa (pecado) de Adão entrou a morte no mundo, e por ele todos pecaram (morreram) ( Rm 5:12 ).

 

A Escravidão como figura

“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim” ( Rm 7:14 -17).

Afirmar que a lei é espiritual não foi problema para o apóstolo Paulo, pois este era um conhecimento comum a todos “Porque bem sabemos que a lei é espiritual…” ( Rm 7:14 ). Falar positivamente da lei era bem-vindo aos judaizantes, porém, demonstrar que um descendente de Abraão (judeu) e seguidor da lei mosaica era carnal porque foi vendido como escravo ao pecado era uma tarefa difícil.

Para realizar tamanha tarefa, Paulo utiliza a figura do ‘eu’, demonstrando que todos os homens, sejam judeus ou gentios, são carnais (gerado segundo a carne de Adão), vendidos como escravo ao pecado.

Definitivamente Paulo não estava falando da sua nova condição em Cristo, o ‘eu’ foi interposto como figura para representar o velho homem (Saulo).

Para quem ainda julga que Paulo continuava sendo ‘carnal’ após ter um encontro com Cristo, ou que, por momentos breves, ele se deixava levar pela ‘carne’ ou que em certos momentos era dominado por ela, já temos o veredicto: “Rogo-vos que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns que nos julgam, como se andássemos segundo a carne. Pois embora andando na carne, não militamos segundo a carne” ( 2Co 10:2 – 3).

Ter um corpo carnal não é o mesmo que ‘viver segundo a carne’. Somente quem não é nascido de novo (da água e do Espírito), ou seja, da semente incorruptível, que consegue ‘militar’ segundo a carne.

Para melhor compreender o que é ser carnal, ou seja, estar vendido ao pecado como escravo faz-se necessário conhecer os elementos que se aplica a figura da escravidão.

Qual era a condição do apóstolo Paulo diante de Deus?

  • Reconciliado com Deus ( Rm 5:10 );
  • Morto para o pecado ( Rm 6:2 );
  • Batizado na morte de Cristo ( Rm 6:2 );
  • O pecado não mais reinava sobre o seu corpo mortal ( Rm 6:12 );
  • Liberto do pecado e escravo da justiça ( Rm 6:18 );
  • Morto para lei e livre da lei ( Rm 7:4 ).

Qual era a condição do apóstolo Paulo antes de conhecer a Cristo?

  • Inimigo de Deus ( Rm 5:10 );
  • Vivo para o pecado ( Rm 6:2 );
  • O pecado reinava sobre o seu corpo mortal ( Rm 6:12 );
  • Escravo do pecado ( Rm 6:18 );
  • Retido pela lei ( Rm 7:6 ).

Paulo apresenta a figura do seu ‘eu’ carnal (natureza escrava do pecado), tornando evidente o contraste com a lei, que é espiritual. O que Paulo quis enfatizar ao utilizar o ‘eu’ como figura: “Eu sou carnal”? Ele estava demonstrando que o ‘eu’, que agora não mais vivia ( Gl 2:20 ), foi gerado segundo o sangue, a vontade da carne e vontade do varão ( Jo 1:13 ). Ora, o que é gerado da carne é carne, ou seja, carnal, sujeito ao pecado como escravo ( Jo 3:6 ).

Ser descendente de Adão é o que sujeita o homem representado pelo ‘eu’ (velha criatura) à condenação. O ‘eu’ é gerado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Adão é a porta larga que conduz os homens à perdição ( Mt 7:13 ). Em Adão todos os homens tornaram-se culpáveis e destituídos de Deus.

Adão vendeu todos os homens como escravos ao pecado! Qual a condição de um escravo? O que a figura da escravidão interpõe? No que implicava ser escravo na época de Paulo?

Da figura ‘escravidão’ podemos tirar os seguintes elementos:

  • Um escravo serve um único senhor ( Rm 6:20 );
  • Para ser livre de um senhor precisa ser adquirido por outro ( Rm 6:22 );
  • Tudo que um escravo produz pertence por direito ao seu senhor ( Rm 6:19 );
  • Somente a morte do escravo livra-o do senhorio ( Rm 6:6 );
  • A força da escravidão era proveniente das leis da época ( Rm 7:4 );
  • As pessoas eram escravas quando eram conquistadas na guerra, por dívida (em última instância quando se vendiam) ou quando nasciam escravas ( Rm 7:14 ).

Ora, Adão vendeu-se ao pecado quando desobedeceu ao Criador e pela ‘força’ da lei (certamente morrerás) foi escravizado. Por causa da força da lei, o pecado, embora não seja uma pessoa, passou a ser personificado (existir) como ‘senhor’. A existência do pecado se dá na separação que se estabeleceu entre o Criador e as suas criaturas que se rebelaram.

A força da lei é tamanha que dá uma personificação à condição de destituído da glória de Deus, o que é nomeado de ‘pecado’.

Adão vendeu-se ao pecado e todos os seus descendentes vêem ao mundo na condição de escravos do pecado. Todos os homens, antes mesmo que façam o bem ou o mal, já nascem sob a égide do pecado. Após nascer, se fizer bem ou mal, não importa, o homem continuará sob o jugo do pecado.

Ora, quando Paulo afirmou que foi vendido ao pecado como escravo, ele destaca algumas peculiaridades pertinentes ao regime escravocrata que existia à época para ilustrar a condição do homem sob a égide do pecado. E para entender a ilustração proveniente da figura da escravidão é necessário observar que existem somente dois senhores: a justiça e o pecado ( Rm 6:16 ; Rm 6:18 ).

A Bíblia é clara: é impossível ao homem servir dois senhores. Ou o homem é escravo da justiça ou é escravo do pecado. É impossível servir o pecado e a justiça simultaneamente.

Todos os homens estão sob domínio: ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça ( Rm 6:16 ). É impossível aos homens existirem ‘livres’ destes dois senhores simultaneamente, ou servirem aos dois simultaneamente.

Ao homem só é possível produzir para um senhor. Os servos do pecado não podem produzir para a justiça e nem os servos da justiça produzir para o pecado. Não há como os servos de Deus produzirem para o pecado, do mesmo modo que é impossível os servos do pecado produzirem para Deus.

Todos os homens por serem descendentes de Adão eram ou continuam sendo escravos do pecado. Para deixar de servir o pecado e passar a servir à justiça é necessário ao homem nascer de novo obedecendo de coração à forma de doutrina que foi entregue por Cristo ( Rm 6:17 ).

Após a desobediência de Adão os homens passaram a existir divorciados do Criador, escravos do pecado. Após crer em Cristo, o homem é de novo gerado segundo Deus em verdadeira justiça e santidade e torna-se escravo da justiça, libertos do pecado ( Rm 6:18 ).

Por que o apóstolo Paulo conclui que o seu ‘eu’ fora vendido como escravo ao pecado? Porque o seu ‘eu’ não aprovava o que fazia! “Porque o que faço não o aprovo” ( Rm 7:15 ).

O que o ‘eu’ de Paulo fazia e não era aprovado? O que o ‘eu’ de Paulo queria fazer e não fazia? Ora, através da declaração anterior de que ele fora vendido como escravo ao pecado verifica-se que o ‘eu’ de Paulo desejava servir a Deus, porém, isso ele não fazia. Concomitantemente, fazia justamente o que aborrecia: servia ao pecado.

Novamente! O que alguém vendido como escravo ao pecado faz? Serve ao pecado. Por mais que queira deixar de servir ao pecado, não consegue. Por mais que aborreça servir ao pecado, inexoravelmente continuará sob o jugo do pecado. Por mais que intente servir a Deus, isso não faz porque é impossível fazê-lo.

Das impossibilidades destacadas acima surge mais uma prova de que a lei é boa ( Rm 7:16 ). Através da realidade pertinente a quem foi vendido como escravo ao pecado, Paulo apresenta uma nova argumentação em favor da natureza da lei: se o ‘eu’ vendido como escravo ao pecado faz o que não quer, segue-se que a lei é boa.

O versículo dezesseis do capítulo sete encerra a questão que teve início no verso sete: É a lei pecado? ( Rm 7:7 ) Não! A lei é boa ( Rm 7:16 ).

 

Como realizar o bem?

“De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo” ( Rm 7:17 – 21).

Sabemos que o apóstolo Paulo quando escreveu aos cristãos em Roma era templo e morada do Espírito ( 1Co 3:16 e 1Co 3:17 ). Como o Espírito de Deus é luz e não há n’Ele trevas alguma, segue-se que o pecado não mais habitava em Paulo ( 1Jo 1:5 ; Rm 7:17).

É possível co-existirem dois senhores em uma mesma casa? Ora, se o apóstolo dos gentios era uma ‘casa’ pertencente ao Filho por conservar firme a confiança e a gloria da esperança, é factível que o pecado continue a exercer domínio sobre a ‘casa’ do Senhor? Não! “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 ).

Através desta pequena análise conclui-se novamente que o ‘eu’ utilizado por Paulo no capítulo sete não se refere a sua atual condição em Cristo, antes aponta para um outro tempo em que o apóstolo Paulo era chamado ‘Saulo’ (trevas), e que tinha o pecado como senhor sobre a sua casa ( Ef 2:1 ).

No verso 14 do capítulo 7 Paulo utiliza a figura da escravidão para ilustrar a sua antiga condição sob o jugo do pecado. Já no verso 17 do capítulo 7, ele passa a destacar uma nova figura, a do senhor regendo a sua própria casa.

Estas duas figuras destacam elementos distintos pertinentes à condição do homem sob a égide do pecado. A figura da escravidão destaca as impossibilidades do servo “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço” ( Rm 7:15 ), e a casa (habitação) destaca o senhorio do dono da casa “De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim” ( Rm 7:17 ).

Se o leitor não perceber a transição sutil entre as duas figuras cometerá erros gravíssimos na interpretação deste capítulo.

O que o pecado que habitava em ‘Saulo’ (eu) fazia? Ou melhor, o que o ‘eu’ de Paulo não fazia? “…não sou eu que faço isto…” ( Rm 7:17 ). A resposta depreende-se dos versos 14 e 15 do capítulo 7.

Habitação ou casa = “De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim” ( Rm 7:17 );

Escravidão = “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado” ( Rm 7:14 );

Impossibilidade do escravo = “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço ( Rm 7:15 ).

O ‘eu’ de Paulo, por ter sido vendido ao pecado como escravo, não fazia o seu próprio querer, antes fazia o desejo do seu senhor, o pecado. O desejo do ‘eu’ de Paulo e da grande maioria dos homens é servir a Deus, porém, por terem sido vendidos como escravos ao pecado é impossível servir a Deus, ou seja, sob domínio do pecado é impossível ao homem fazer o que deseja.

O ‘eu’ de Paulo, que fora vendido como escravo ao pecado, desejava servir a Deus ( Rm 7:22 ), mas, por causa do seu senhor, o pecado, servir a Deus era impossível. Através da figura da escravidão Paulo destaca o desejo do escravo e a sua impossibilidade diante da sujeição ao seu senhor. Através da figura da ‘casa’ ou ‘habitação’, Paulo destaca que, como senhor, o pecado tem total autonomia sobre a vida do escravo. Compare:

“De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim ( Rm 7:17 );

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ).

Na carta aos Romanos o apóstolo Paulo ao falar do ‘eu’ sob sujeição ao pecado demonstra que o pecado habitava nele como senhor. Já na carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo demonstra que o seu ‘eu’ foi crucificado com Cristo, e que, portanto, o seu ‘eu’ não mais vive.

O pecado habitava no ‘eu’ de Saulo, agora, após ter sido crucificado, Cristo passou a habitar (viver) em Paulo. Observe que as palavras ‘habitar’ e ‘viver’ expressão ideias similares. Dentro deste contexto verifica-se que os cristãos são templos e moradas de Deus ( 1Co 3:16 ), visto que Deus vive e habita neles ( Hb 3:6 ; Gl 2:20 ; Ef 2:22 ; Jo 14:23 ).

Através da análise acima, é possível inferir que os incrédulos são casas e moradas do pecado, visto que, há um senhor habitando neles: o pecado. Através da análise anterior é possível fazer a seguinte leitura dos versos 14 ao 17 do capítulo 7 de Romanos:

Todos os cristãos em Roma sabiam que a lei é espiritual, porém, o ‘eu’ de Paulo era carnal, ou seja, havia sido vendido ao pecado por causa da desobediência de Adão ( Rm 7:14 ). Uma evidência de que o ‘eu’ de Paulo era sujeito ao pecado estava no fato de ele concordar com as prescrições da lei ( Rm 7:16 ; Rm 7:22 ), porém, não aprovava o que fazia. O ‘eu’ queria servir a Deus, mas, mesmo aborrecendo o pecado, servia ao pecado, uma vez que fora vendido ao pecado ( Rm 7:15 ).

O verso 17 demonstra que após ter sido vendido ao pecado como escravo, tudo o que o ‘eu’ de Paulo propusesse fazer seria realizado pelo pecado que nele habitava, ou seja, o pecado fez nele morada. Os desejos do escravo são para o seu senhor, as realizações do escravo pertence ao seu senhor, em suma, o escravo pertence ao seu senhor.

Como entender a declaração paulina: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum”? Para uma melhor compreensão, analisaremos alguns versículos do capítulo 3.

Após declarar que Deus é verdadeiro e que todo homem é mentiroso ( Rm 3:4 ), Paulo aplica esta declaração a sua pessoa, contrastando a sua antiga natureza (eu, mentira) com a natureza divina (Jesus, verdade) ( Rm 3:7 ). Ora, sabemos que o apóstolo Paulo não era um homem dado à mentira (faltoso com a verdade).

Também sabemos que, por natureza, Deus é verdadeiro e que o apóstolo Paulo compartilhava da natureza divina, visto que, naquele que é verdadeiro ele estava “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” ( 1Jo 5:20 ).

Quando Paulo escreveu aos Romanos ele era ‘verdadeiro’, visto que compartilhava da natureza divina. Ele estava em Cristo porque recebeu poder e foi de novo criado em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ). Ao dizer: ‘minha mentira’, Paulo faz referência a sua antiga condição em pecado (mentira), ou, à sua condição antes de ser crucificado com Cristo, contrastando-a com a natureza divina.

Por que Paulo usou este recurso no seu argumento? Porque ele estava escrevendo diretamente aos judeus, seus irmãos na carne ( Rm 9:3 ).

Observe este versículo: “Pois que? Somos melhores do que eles? De maneira nenhuma, pois já demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ). Paulo estava debaixo do pecado quando escreveu aos Romanos? Por certo que não. Porém, caso alguém queira distorcer a sua argumentação, pode inferir erroneamente que o apóstolo estava debaixo do pecado porque ele está incluso na pergunta: Somos melhores do que eles?

Quando Paulo diz que na sua carne não habita bem algum, não podemos esquecer que ele está abordando questões pertinentes à condição do ‘eu’ que fora vendido como escravo ao pecado. Nesta abordagem o apóstolo Paulo demonstra total conhecimento acerca da carne subjugada ao pecado, porém, a argumentação pode causar confusão entre a figura utilizada (eu) e a pessoa do apóstolo.

Como sanar estas dúvidas? Fazendo algumas perguntas para o texto considerando as análises que foram feitas até este ponto. Ex: Como Paulo soube que na sua carne não habitava bem algum? Ele sabia desta verdade antes de conhecer o evangelho?

Paulo sabia que no seu ‘eu’, o ‘eu’ que fora crucificado com Cristo, não habitava bem algum “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne…”. Para não causar confusão, Paulo especificou que, o ‘eu’ (mim) é o mesmo que ‘minha carne’.

Por que Paulo sabia que na sua carne não habitava o bem? Porque ele observou nos profetas e nos salmos que dentre os homens sem Deus não havia quem fizesse o bem ( Rm 3:10 à 18). Na ignorância o apóstolo desconhecia esta realidade, porém, agora, em Cristo, ele passou a conhecer que à parte de Deus é impossível fazer o bem.

(Para compreender melhor o problema do bem e do mau, leia o ensaio: Deus, o bem e o mau)

Na condição de apóstolo, Paulo demonstra que na carne não há bem algum (ele não se refere a corpo físico).

Antes de ter um encontro com Cristo Paulo desconhecia que não havia como fazer o bem, visto que buscava guiar-se na lei visando fazê-lo. Descobriu não haver bem algum na sua carne (eu) somente após converter-se ao evangelho de Cristo.

Perceba que as argumentações de Paulo acerca do ‘eu’ confunde-se com a sua nova condição em Cristo porque somente como nova criatura teve entendimento para dissertar acerca de sua antiga condição.

Como o apóstolo Paulo soube que em sua carne não havia bem algum?

O apóstolo dos gentios já havia demonstrado que todos os homens, sem exceção, estavam debaixo do pecado ( Rm 3:9 ). Todos eram escravos do pecado porque assim diz as Escrituras: “Não há um justo se quer” ( Rm 3:10 ). Todos os homens se perderam e juntamente se fizeram inúteis. Conseqüentemente, por estarem debaixo do pecado, não há quem faça o bem, nem se quer um só ( Rm 3:12 ).

No capítulo 7, verso 14, novamente o apóstolo faz referência à sujeição (escravidão, jugo) ao pecado e a seguir apresenta as conseqüências provenientes desta sujeição: não é possível realizar o bem ( Rm 7:18 ).

O que impedia o apóstolo de realizar o bem? A sua vontade? NÃO! Embora o seu desejo fosse realizar o bem, ele não achava como realizar o bem “Porque eu tenho sabido que em mim (isto é, na minha carne) não habita bem algum; porque o querer está presente em mim, mas eu não acho como realizar o bem” ( Rm 7:18 ) Bíblia Literal do Texto Tradicional – LTT.

Por que ele não achava como realizar o bem? Porque ele era mau na natureza por causa da sujeição ao pecado (mau). Deus é bom e todos quantos são participantes da sua natureza são bons e capacitados a produzir o bem. O Senhor Jesus chamou seus ouvintes de maus, embora eles soubessem realizar coisas boas ( Lc 11:13 ). Isto porque, dar boas dádivas não é o mesmo que fazer o bem. Caridade, sacrifício, esmola, compaixão, companheirismo, etc., são boas dádivas, porém, não transforma os homens maus em homens bons.

Somente a sujeição a Cristo transforma os homens maus em bons, da mesma forma que a sujeição ao pecado por causa da condenação de Adão tornou os homens maus. Fazer o bem não é uma questão de vontade, antes decorre da natureza herdada no nascimento. Se nascido da carne, o homem é carnal, vendido ao pecado como escravo e não consegue realizar o bem. Se nascido do Espírito é espiritual, comprado pela justiça e não consegue realizar o mau.

Quem habitava o ‘eu’ do apóstolo Paulo? O pecado ( Rm 7:17 ). Ora, se o pecado (mau) habitava o ‘eu’ que era pertinente a Saulo, segue-se que, nele não habitava bem algum. Porém, após receber a Cristo como Senhor em sua casa “… essa casa somos nós…” ( Hb 3:6 ), o Pai e o Filho fez nele morada ( Jo 14:23 ). Conseqüentemente, o bem passou a residir em Paulo, capacitando-o a realizar o bem.

A figura da árvore demonstra melhor a questão acerca do bem e do mau: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ). Quais são as árvores que serão cortadas e lançadas no fogo? As árvores que o Pai não plantou ( Mt 15:13 ).

Quais são as árvores que dão bons frutos? As árvores plantadas por Deus, que não serão arrancadas, pois nasceram de semente incorruptível, que é a palavra de Deus. “As árvores” nascidas da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue serão arrancadas, pois não foram plantas por Deus e não podem dar bons frutos ( Mt 7:17 ).

Embora os pecadores desejam fazer o bem, as suas obras não passam de trapos de imundície. As suas obras e retidão não são aproveitáveis diante de Deus ( Is 57:12 ). As obras realizadas pelos pecadores são obras de iniquidade, comparadas a teias que não prestam para se vestir. Não se podem cobrir com as suas obras ( Is 59:6 ).

Por que não? Porque as suas obras não são feitas em Deus, antes na carne, no ‘eu’ onde o pecado habita e reina ( Jo 3:21 ). Apesar do desejo de realizar o bem ser pertinente a todos os homens, não conseguem realizar. Os judeus são exemplos desta verdade, visto que tinham zelo de Deus, porém, sem o entendimento que decorre do evangelho. No afã de servir a Deus, os judeus estabeleceram a sua própria justiça e rejeitaram a justiça de Deus ( Rm 10:3 ).

Diante da impossibilidade do ‘eu’ realizar o bem (porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço), Paulo conclui que fazer o que não se quer é proveniente do pecado que habita o ‘eu’ “Ora, se o que não quero isto eu faço, não sou mais eu que faço isto, mas o pecado que está habitando em mim” ( Rm 7:18 ) LTT.

Ora, o pecado como senhor em sua própria casa, que é o ‘eu’ gerado em Adão, tem total autonomia sobre o homem e impede-o de servir a Deus. Mas, Jesus sendo Senhor sobre a sua própria casa, e a casa somos nós, passamos da morte para a vida e reinamos com Cristo Jesus, nosso Senhor ( 2Tm 2:12 ).

 

O Mau

“Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros” ( Rm 7:20 -23 ).

Novamente o apóstolo Paulo enfatiza a sujeição ao pecado como impedimento para se realizar o bem.

O que impede o homem sem Deus de realizar o bem é o pecado, porém, a vontade do homem é livre para desejar servir a Deus. Observe que em momento algum o apóstolo Paulo demonstra que a vontade do homem está sob o jugo do pecado. Embora deseje fazer o bem, o homem é impedido pelo seu senhor, que habita nele.

Por que o ‘eu’ escravo do pecado possui uma lei que o impede de fazer o bem? Porque o mau está atrelado ao ‘eu’, ou seja, o pecado habita o homem carnal.

Paulo não estava tratando de comportamento, visto que é possível a todos os homens fazerem coisas boas ou ruins. Observe que é plenamente possível aos homens maus dar boas dádivas aos seus filhos, porém, eles não podem fazer o bem, porque o mau reside neles.

Sabemos que Deus é bom e todos que são moradas do Espírito Eterno são bons, visto que Deus não habita templo imundo ( 1Co 3:17 ). Deus não habita onde há trevas, visto que, Ele é luz e não há nele trevas nenhuma. Para estar em Deus o homem precisa ser de novo gerado, passando a ser luz no Senhor, ou seja, o pecado perde o seu domínio e o mau não habita o novo homem gerado em Cristo ( 1Jo 1:5 ; Ef 5:8 ).

Há uma lei que prende o ‘eu’ sob o pecado. Que lei é está? Refere-se à lei estabelecida no Éden: “…dela não comerás, pois no dia em que comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ). A morte (separação de Deus) ou o pecado se estabeleceu por intermédio da lei, e não importa as ações dos homens, se boas ou más, se não nascer de novo, continuará sob o domínio do mau.

O ‘eu’ se deleita na lei de Deus, mas não pode servir a Deus. Isto ocorria com o povo de Israel, que ‘servia’ a Deus com os lábios, porém, a barreira de separação persistia “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

O povo de Israel não via que a lei do pecado estava sobre os seus membros, e que os conduzia para longe do objetivo que traçaram. Eles pensavam que estavam se aproximando de Deus e com a boca prestava honras, porém, o coração deles era o que os afastava de Deus.

Como? Ter zelo de Deus não é o mesmo que tê-lo habitando no coração ( Rm 10:2 ). Para que Deus pudesse habitar neles era preciso que eles circuncidassem os corações conforme Moisés apregoara “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

O problema do povo de Israel e de toda a humanidade estava no coração que receberam através do nascimento natural. Por causa da desobediência de Adão o mau passou a residir nos corações dos homens, afastando-os de Deus. Somente após circuncidar o ‘prepúcio’ do coração, algo que somente Deus pode realizar pelo homem, a barreira de separação é desfeita.

Não basta ao homem deleitar-se na lei. Não basta honrar a Deus com os lábios. Há uma lei que prende o homem debaixo do jugo do pecado “Porque, conforme o homem interior, juntamente me deleito na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros uma lei diferente, batalhando contra a lei do meu entendimento e me levando cativo para a lei do pecado, aquela estando nos meus membros” Bíblia Literal do Texto Tradicional – LTT.

Quando o homem aceita a Cristo, ele se apresenta a Deus como vivo dentre os mortos: uma nova criatura. A nova criatura gerada em Cristo agora precisa apresentar os seus membros, ou seja, o seu corpo físico como instrumento de justiça, uma vez que este mesmo corpo era instrumento de iniquidade “Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 ).

Quando o homem nasce segundo Adão, ele é apresentado ao pecado na condição de vivo para o pecado e morto para Deus. Os seus membros (corpo carnal) são instrumentos de iniquidade, mesmo quando executam boas ações aos seus semelhantes “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ; Rm 6:19 ).

O Mau é pertinente ao homem carnal, ou seja, gerado segundo Adão. Quando Paulo disse ‘eu sou carnal’, ele estava referindo à sua condição no passado que é pertinente a todos os homens que ainda não aceitaram a Cristo. ‘Eu sou carnal’ não era a condição do apóstolo após ter um encontro com Cristo, visto que a sua atual condição é expressa logo a seguir: não andamos segundo a carne ( Rm 8:4 ; Rm 8:9 ).

 

O Miserável

“Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado” ( Rm 7:24 – 25).

O homem ‘miserável’ é um problema para muitos expositores bíblicos. Seria o homem gerado de novo o desventurado por ainda estar ligado ao pecado? Ou refere-se a condição do pecador?

Alguns dizem que o homem miserável é o regenerado que ainda está ligado ao pecado, e utiliza a ordem dos assuntos que o apóstolo Paulo apresentou em favor dos seus argumentos. Alegam que Paulo já havia tratado da santificação do crente e morte para o pecado no capítulo 6, e que não é plausível o apóstolo voltar repentinamente a tratar no capitulo 7 da escravidão do pecado.

Porém, é próprio ao apóstolo dos gentios apresentar, em primeiro lugar, a nova condição dos cristãos em Cristo para depois fazer alusão à antiga condição no pecado. Esquecem de observar que o apóstolo Paulo não volta a tratar no capítulo 7 da santificação do crente através da morte para o pecado, antes, procura demonstrar a verdadeira natureza da lei contrastando-a com a condição do homem miserável.

Na carta de Paulo aos Efésios a nova condição dos cristãos é apresentada primeiro ( Ef 1:3 à 14), para depois ser lembrada a antiga condição dos cristãos quando ainda estavam em sujeição ao pecado ( Ef 2:2 à 6).

Na carta aos Colossenses o apóstolo Paulo apresenta a nova condição daqueles que estão em Cristo ( Cl 2:10 – 11), para depois relembrar da antiga condição de sujeição ao pecado ( Cl 2:12 – 15).

Na carta aos Gálatas a abordagem é semelhante. Paulo aborda a justificação em Cristo primeiro ( Gl 2:16 ), para depois fazer alusão ao seu ‘eu’ “Pois eu pela lei estou morto para a lei, a fim de viver para Deus” ( Gl 2:19 ).

Além do mais, o apóstolo Paulo descarta a possibilidade dos cristãos estarem unidos ao pecado quando pergunta: “…é Cristo ministro do pecado?” ( Gl 2:17 ). Se admitirmos que o pecado habita o novo homem, também devemos admitir que a obra de Cristo não é perfeita ( Hb 9:26 ).

Teríamos que contrariar o exposto por João, que diz: “Deus é luz, e nele não há trevas alguma” ( 1Jo 1:5 ). Todos quantos aceitam o evangelho da graça passam a estar em Deus, e para tanto precisam nascer de novo para serem filhos da luz “Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” ( 1Ts 5:5 ). Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas?

Pecado é a barreira de separação que há entre Deus e os homens. Deus é luz e o pecado é trevas, ou seja, não há comunhão entre a luz e as trevas. É por isso que Deus chama os homens do pecado para a justiça “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pd 2:9 ).

Diante destas premissas fica impossível admitir que o ‘eu’ de Paulo refere-se ao cristão nascido de novo.

Então eu pergunto: é miserável um homem que expôs aos Cristãos em Éfeso que Deus nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo? ( Ef 1:3 ) Como se considerar miserável e ensinar que foram eleitos em Cristo antes da fundação do mundo? Como é possível ter certeza de ser irrepreensível diante de Deus por Cristo Jesus e lamentar?

Este Paulo, que alguns afirmam ser miserável, ensinou outras tantas maravilhas acerca daqueles que não andam mais segundo a carne, que necessitaríamos de um artigo de muitas páginas somente para relatá-las.

O apóstolo afirma: “não mais vivo ‘eu’, mas Cristo vive em mim”. Dá pra ser miserável quando se é habitado pela ressurreição, pela vida, pela paz, pela verdade? Certamente que não!

Este posicionamento é contraditório, visto que todos os que estão em Cristo são bem-aventurados. Quando Jesus anunciou as bem-aventuranças no Sermão do Monte, os seus ouvintes eram miseráveis espiritualmente. Mas, todos quantos creem em Cristo alcançaram a “Bem aventurança proposta”.

Por que, então, Paulo exclama: Miserável homem que eu sou? Porque neste verso ele encerra a sua exposição acerca da escravidão do pecado. O escravo do pecado é miserável, pois o seu salário é a morte ( Rm 6:23 ). O ‘eu’ formado em iniquidade e concebido em pecado é miserável porque nada possui e só a morte pode livrá-lo do seu senhor.

É por isso que vem a indagação logo a seguir: ‘Quem me livrará do corpo desta morte?’ Diante de tamanha miséria, o escravo do pecado vê a sua total incapacidade para livrar-se do seu senhor. Quem poderá resgatá-lo? Perceba que o desejo do escravo sob o jugo do pecado é ser livre desse senhor maldoso.

Todos os homens sem Deus são miseráveis porque foram destituídos da glória de Deus. Se partirem desta vida para a eternidade sob o jugo do pecado existirão para sempre alienados de Deus. Jesus é o único caminho que conduz os homens a Deus, e para tanto é necessário morrer com Cristo e ressurgir um novo homem “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

Através da carne de Cristo, todos quantos tornaram participantes da sua carne e sangue, passam a trilhar um novo e vivo caminho, visto que está livre do corpo que os levava a morte. O corpo herdado de Adão é morte, mas o corpo de Cristo é vida dentre os mortos ( 1Co 15:45 ).

Diante da sua total incapacidade de livrar-se do pecado, Paulo da graças a Deus por Jesus nosso Senhor! Cristo é a resposta para a pergunta: “Quem me livrará para fora do corpo desta morte?” LTT.

“Assim que, Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do Pecado ( Rm 7:25 ).

Compare estes dois versículos:

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais o pecado ( Rm 6:6 ).

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do Pecado ( Rm 7:25 ).

Que conhecimento! Que alegria saber (conhecer) que o velho homem foi crucificado com Cristo! “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado…” ( Rm 6:6 ).

Mas, por que o velho homem foi crucificado com Cristo? Qual o objetivo de tal crucificação? Para que ‘não sirvamos mais ao pecado’!

Em Cristo Jesus o corpo do pecado foi desfeito (deixou de existir) com o objetivo de o cristão não servir mais ao pecado ( Hb 9:26 ).

No mesmo contexto Paulo assevera: “Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:12 ).

A palavra ‘considerar’ não é um faz de conta. Da mesma forma que é certa a morte de Cristo, também é certa a morte dos que crêem em Cristo, ou seja, os cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

O ‘eu’ é crucificado, morre, a seguir sepultado e ressurge do mesmo modo que Cristo ressurgiu, visto que, o velho homem foi crucificado e morreu à semelhança da morte de Cristo na cruz do calvário, para que o novo homem possa ser semelhante a Ele na ressurreição dentre os mortos ( Rm 6:4 – 6).

Não há como o crente servir o pecado, uma vez que o corpo do pecado foi desfeito (escravidão), e ele não tem mais domínio sobre aqueles por quem Cristo morreu “Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” ( Rm 6:14 ). Ora, se a lei era a força do pecado, uma vez que o cristão morre para a lei, segue-se que está livre do pecado.

Diante destes versículos resta a pergunta: Paulo se contradiz ao apregoar que o cristão é livre do pecado e que serve a lei do pecado? É claro que não! Como desfazer esta contradição aparente?

Como já demonstramos, é impossível o homem servir a Deus e ao pecado, visto que ou você serve a justiça ou serve ao pecado. Deus jamais permitirá que seus filhos sirvam ao pecado, do mesmo modo que o pecado impede que seus servos sirvam a Deus. O apóstolo diz: “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita a lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” ( Rm 8:7 ). “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ).

Não é possível ao homem servir a Deus segundo a carne (o ‘eu’ está em inimizade com Deus), e isto demonstra que, para servir a Deus é preciso crucificar o ‘eu’ com Cristo e sepultá-lo.  Porém, o que Paulo realmente diz em Rm 7:25 ?

Voltemos ao versículo: Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor…” ( Rm 7:25). Diferente do ‘eu’ que tinha o pecado como senhor, agora em Cristo Paulo agradece a Cristo, o Senhor que o resgatou.

Devemos observar que o contexto do versículo é de agradecimento. O apóstolo está agradecendo porque já tinha alcançado as dádivas de Deus. Paulo demonstra que o Senhor de sua vida é Cristo Jesus, e não o pecado, o que nos remete a segunda parte do versículo: “…assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus ( Rm 7:25 ).

Temos que observar nesta frase três expressões:

  1. ‘eu mesmo’;
  2. ‘servir com entendimento’, e;
  3. ‘servir a lei de Deus’:

Eu mesmo – Quando Paulo expressa algo sobre a sua pessoa ou seu estado atual diante de Deus, ele enfatiza a sua nova condição em Cristo com o peculiar “EU MESMO”: “Porque, em que tendes vós sido inferiores às outras igrejas, a não ser que eu mesmo vos não fui pesado? Perdoai-me este agravo” ( 2Co 12:13 ); “Mas confio no Senhor que também eu mesmo em breve irei ter convosco” ( Fl 2:24 ; 2Co 8:3 ; 1Co 9:27 ; 1Co 7:7 ; Rm 9:3 ; Rm 7:25 ). O apóstolo Paulo geralmente utiliza o ‘eu mesmo’ para evitar confusão com o ‘eu’ figurativo que representa o corpo do pecado. Paulo utilizou o seu ‘eu’ de modo figurativo para falar da sujeição da carne ao pecado a partir do verso 7 do capítulo 7 de Romanos até o verso 24, porém, no verso 25 o apóstolo Paulo volta a descrever a sua atual condição em Cristo. Este mesmo recurso Paulo já havia utilizado no capítulo 3, quando fez referência a condição da carne contrastando-a com a verdade de Deus ( Rm 3:7 );

Entendimento – O apóstolo Paulo servia a Deus com entendimento, já o os judeus só possuíam ‘zelo de Deus’, porém, eles não serviam a Deus com entendimento. O que é servir a Deus com entendimento? Por que os judeus não serviam a Deus com entendimento? Servir a Deus por meio da lei de Moisés é o mesmo que ter zelo de Deus, porém, ter zelo de Deus não é o mesmo que servi-lo com entendimento.  Servir a Deus com entendimento é servi-lo através da verdade do evangelho ( Rm 10:2 ). Ou seja, só serve a Deus com entendimento aqueles que não mais estão na carne, pois foram gerados de novo através do poder que há no evangelho;

A lei de Deus – Paulo demonstra que só através do ‘entendimento’ é possível servir à lei de Deus, isto porque é impossível aos homens carnais cumprirem a lei. Pergunto: qual lei de Deus que Paulo servia? A lei de Moisés? Por certo que não! Ele estava apontando para a lei de Deus em Cristo “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo” ( Gl 6:2 ), que só é possível o homem sujeitar-se quando vive em espírito ( Rm 8:7 ; 1Jo 3:23 ).

Resta-nos estudar a última parte do versículo:

“…mas com a carne à lei do Pecado ( Rm 7:25 ).

Temos outros três elementos a serem analisados neste versículo:

  1. ‘mas’;
  2. ‘a carne’, e;
  3. ‘lei do pecado’.

mas – nesta frase o ‘mas’ é uma conjunção adversativa que introduz uma nova ideia contrária ao pensamento da oração anterior. Ou seja, com o entendimento o apóstolo serve a lei de Deus, porém, com a carne o serviço era para a lei do pecado. Se o apóstolo Paulo quisesse dar a entender que é possível servir simultaneamente a lei de Deus e a lei do pecado, a conjunção que deveria ser utilizada era o “E”, e não o “MAS”. Deste modo a frase demonstra que com o entendimento Paulo servia a lei de Deus e que também servia a lei do pecado;

a carne – ‘a carne’ é uma das formas que o apóstolo utiliza para fazer referência à velha natureza herdada de Adão. Neste versículo em análise o apóstolo está falando da condição do ‘eu’ (velho homem) que é descrita na condição de escravo do pecado;

Lei do pecado – Qual é a lei do pecado? A lei do pecado consiste em dar fruto para morte, gerando toda sorte de concupiscência ( Rm 7:8 ). Tudo que o homem no pecado faz pertence por direito ao seu senhor que o assalaria com a morte. Por isso não há quem faça o bem, pois todos pecaram e destituídos estavam da glória de Deus.

Após ter morrido para a lei o apóstolo dos gentios ainda servia ao pecado? Ele ainda produzia frutos para a morte? ( Rm 7:4 ) Ora, estou convencido de que Paulo não mais produzia frutos para a morte.

O que Paulo disse após agradecer pela redenção?

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do Pecado” Rm 7: 25.

“Mas” é uma conjunção adversativa que indica contrariedade quanto a ideia presente na argumentação. Porém, muitos interpretam que Paulo servia a Deus com o entendimento e que também (mas) servia a lei do pecado.

Ora, se o apóstolo Paulo estivesse servindo a ‘lei de Deus’ e a ‘lei do pecado’, haveria um conectivo ‘e’ em lugar da conjunção adversativa ‘mas’ para indicar que havia uma complementação entre a primeira e a segunda oração. Exemplificando: “Assim, eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus e (também) com a carne à lei do pecado”.

Porém, não é esta ideia que depreendemos do texto, visto que o apóstolo simplesmente utilizou um recurso próprio à linguagem chamado Elipse, que consiste na omissão de um termo facilmente identificável pelo contexto simplesmente para não repetir parte da frase. Ele utilizou a conjunção adversativa ‘mas’, que remete a um contra ponto, ou seja: agora que Paulo estava livre da carne servia a lei de Deus com entendimento, mas se procurasse servir a Deus antes de nascer de novo, ou seja, com a carne, serviria à lei do pecado.

Exemplo: “Assim, eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne [servia] a lei do pecado”. Através da conjunção adversativa ‘mas’ o verbo ‘servir’ fica subentendido na frase.

Sabemos que Paulo não mais servia à lei do pecado, visto que, ele já havia crucificado o ‘eu’ (a carne) com as suas concupiscências, sepultado-a com Cristo e ressurgiu um novo homem.

Este mesmo evento é descrito como sendo a circuncisão de Cristo, que nada mais é do que o despojar (lançar fora) do ‘corpo da carne’ (velha natureza). Na circuncisão de Cristo todo o corpo da carne é lançado fora, e não somente o prepúcio, como se dava na circuncisão de Moisés ( Cl 2:11 ).

Observe que, por uma necessidade de estilo na escrita, Paulo suprimiu na segunda parte do versículo o verbo ‘servir’ utilizando a conjunção adversativa ‘mas’. Paulo utilizou a conjunção ‘mas’ e suprimiu o verbo ‘servir’: ‘mas com a carne [servia] à lei do pecado’.

Este mesmo recurso na escrita podemos perceber no evangelho de João:

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas (nasceram da vontade ) de Deus” ( Jo 1:13 ).

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne (servia) à lei do Pecado ( Rm 7: 25 ).

Vontade: esta palavra é suprimida na segunda parte do versículo de Jo 1:13 , da mesma forma que a palavra ‘sirvo’ foi suprimida em Rm 7:25 . Para entendermos as argumentações dos dois textos faz-se necessário subentender as duas palavras em destaque inserindo-as no texto;

de Deus: nascer da vontade de Deus não possui relação com o nascimento proveniente do sangue, da vontade do varão ou da vontade da carne ( Jo 1:13 ).  Da mesma forma, o ‘servir à lei do pecado’ por meio da carne também não possui relação com o ‘servir à lei de Deus’ com o entendimento;

mas: em ambos os versículos a conjunção ‘mas’ remete a uma ideia de oposição a ideia da frase anterior.  Se em Adão nascemos da vontade da carne, do sangue e da vontade do varão, em Cristo Jesus nascemos da vontade de Deus. Se na carne o homem serve a lei do pecado, em Cristo serve a lei de Deus.

Observe:

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que Eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do Pecado ( Rm 7:25 ).

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais o pecado ( Rm 6:6 ).

Observe que com a carne só é possível servir a lei do pecado, porém, o corpo do pecado já foi desfeito, para que o cristão não mais sirva o pecado. Ora, servir o pecado é coisa do passado, portanto, com a carne o apóstolo servia o pecado.

Paulo agradece a Deus: “Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor”. Conclui a sua argumentação certo que servia a lei de Deus através do evangelho: “Assim que eu mesmo (Paulo) com o entendimento sirvo à lei de Deus…”, caso continuasse na mesma condição dos seus compatriotas, continuaria servindo ao pecado “mas com a carne (eu servia) à lei do pecado”.

Apesar da controvérsia entre teólogos sobre se Paulo descreve ou não o seu próprio estado quando diz: “Eu sou carnal”, é possível verificar que ele emprega o tempo presente para tornar a sua argumentação vívida e atual.

Todos os homens conheceram (estavam) o pecado, visto que aquele que é nascido da carne é carne. Todos juntamente se extraviaram, fato este que permitiu o apóstolo fazer alusão ao pecado utilizando a sua própria pessoa “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei” ( Rm 7:7 ). Ora, para conhecer o pecado é necessário estar sob a lei e na carne, condição esta pertinente a todos os homens sem Cristo.

Diante da lei imutável, não há outra afirmação que expresse tão bem a condição do velho homem, do que a fala “Eu sou carnal” ( Rm 7:14 ). Enquanto o homem carnal existir a lei o alcançará. Paulo, sabedor da imutabilidade da lei, torna o seu ‘eu’ vívido através do tempo verbal ‘eu sou’, porém, isto não significa e nem implica que ele continuava a ser carnal (pecador) e potencialmente salvo (não efetivamente).

Considerar que o apóstolo Paulo era um cristão ‘nascido de novo’, mas não totalmente liberto do pecado é contrariar o próprio autor que diz: “PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei, do pecado e da morte” ( Rm 8:1 -2).




Romanos 7 – Mortos para a lei

Quando os cristãos estavam na carne produziam frutos para a morte, agora, ’em Cristo’, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Só é ´possível servir a Deus após adquirir um novo espírito. O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 -19). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios (Is 57:19). É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ).


Epístola aos Romanos – Capítulo 7

Introdução e Conteúdo

Devido a complexidade do tema abordado nesta exposição, indico aos leitores e estudantes que façam um estudo sistemático e progressivo de alguns textos essenciais à compreensão deste capítulo, e que estão à disposição neste portal.

Leia atentamente os comentários aos capítulos anteriores, principalmente aqueles pontos que apresentam a metodologia de interpretação da carta paulina.

O leitor precisa conhecer e distinguir no que implica o caminho largo e o caminho estreito. Necessita conhecer quais são as plantas plantadas por Deus, e as que não são. É de suma importância saber quais são os vasos para honra e os vasos para desonra, etc. Todas estas questões foram abordadas neste portal e continua à disposição.

O estudo sobre Romanos 7 não passou por revisão ortográfica, e, desde já pedimos desculpar por possíveis erros de ortografia e gramática.

Agradeço a minha esposa (Jussara) por colaborar na elaboração deste estudo.

Tenha uma boa leitura, e que Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do nosso entendimento ( Ef 1:18 ).

 

Prefácio

Este é um dos capítulos de maior complexidade para se interpretar de toda a Bíblia. Ao longo dos séculos o capítulo sete da carta aos Romanos tem desafiado inúmeros teólogos e estudiosos quanto à sua real interpretação.

Uma correta interpretação deste capítulo é essencial à compreensão de toda carta, e, para interpretá-lo, precisaremos de todos os elementos que foram realçados através das análises feitas nos capítulos anteriores.

Antes de ler este capítulo, recomendo que seja feita uma leitura minuciosa de todos os comentários aos capítulos anterior da carta aos Romanos.

Além de observar os comentários versículo a versículo, é preciso observar também todas as introduções feitas aos capítulos, pois eles contêm elementos essenciais à interpretação deste capítulo em particular.

O primeiro ponto a se considerar na leitura deste capítulo é: Paulo escreveu uma carta, e ela originalmente não foi redigida em capítulos e versículos. Ao ler uma carta, o leitor não pode ater-se às divisões em versículos e capítulos, pois tal divisão interfere na interpretação do texto.

Para um maior proveito na leitura da carta que está sendo estudada, recomendo a quem tem um computador, que imprima a carta de Paulo aos Romanos sem as divisões em capítulos e versículos, pois a leitura do texto sem estes divisores será muito mais proveitosa para a interpretação.

Quem analisa qualquer texto bíblico precisa de algumas premissas centrais para não perder o foco durante a interpretação, uma vez que surgirão inúmeras perguntas, porém, dependendo da pergunta ela não vem ao caso no momento da análise.

Um exemplo claro de perca de foco, e que algumas pessoas incorrem ao ler a Bíblia, verifica-se na passagem acerca da vida de Caim. Há vários aspectos a serem analisados e compreendidos na vida de Caim, porém, muitos restringem a análise e não progridem por se fixarem em questionar quem foi a mulher de Caim.

Diante de um texto bíblico surgirão inúmeras questões, porém, é necessário estar resolvido somente levantar questões que focam o texto. Antes de prosseguir em certas questões é preciso ter em mente as seguintes questões: É pertinente tal pergunta? É necessária no momento? Tem relação direta com a ideia do texto em análise?

Estas são algumas perguntas que devem ser feitas durante a análise do texto bíblico para evitar divagações desnecessárias quando da interpretação de um texto complexo.

Exemplo: Questionar quem foi a mulher de Caim é plausível? Há na Bíblia qualquer referência à mulher de Caim? É possível encontrar uma resposta bíblica acerca da mulher de Caim que não seja mera especulação? Se não há nenhuma referência direta sobre a mulher de Caim, como descobrir quem foi sua mulher? De que adiantaria descobrir quem foi a mulher de Caim?

Paulo recomendou a Tito: “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ). Muitos há que procuram demonstrar conhecimento bíblico, e que, em qualquer conversa interpõe perguntas semelhantes: Quem foi a mulher de Caim? Quem eram os Nefilins? Qual o sexo dos anjos?

 

Convite ao Raciocínio

“NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” ( Rm 7:1 – 3).

1 NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?

Após demonstrar que todos os cristãos foram batizados em Cristo, ou seja, tornaram-se participantes da Sua morte, e que, por estarem mortos, não havia como viverem no pecado, Paulo convoca os seus interlocutores ao raciocínio.

Se os cristãos em Roma desconheciam que todos que foram batizados em Cristo ( Rm 6:3 ), destruíram de uma vez por todas o corpo do pecado ( Rm 6:6 ), e que não mais serviam ao pecado, este ponto em específico foi esclarecido no capítulo seis. Porém, caso alguém permanecesse agarrado à ignorância, Paulo propõe os mesmos argumentos aos seus leitores, só que agora, através de figuras.

Este modo de exposição foi utilizado anteriormente nesta mesma carta. Basta analisar os elementos do texto que Paulo escreveu após falar da justificação por meio da fé ( Rm 3:21 – 26), para compreendermos o modo e porque Paulo introduziu os argumentos que há no capítulo 7.

Para ilustrar a doutrina do evangelho no capítulo 3, que foi exposta em poucas linhas, Paulo apresentou Abraão, o homem que foi justificado por Deus pela fé na promessa divina ( Rm 4:1 – 5). Em seguida o apóstolo Paulo apresenta alguns versos do salmista Davi para dar sustentação aos seus argumentos ( Rm 4:6 – 8).

Novamente ele fala da justificação pela fé em Cristo ( Rm 5:1 ), e, somente então, Paulo apresenta a primeira figura na carta aos Romanos: a escravidão, para dirimir qualquer ignorância da parte dos cristãos acerca da justificação: “Ou, porventura, ignorais que (…) e não sirvamos o pecado como escravos” ( Rm 6:6 ).

Diante da ignorância dos cristãos “Porventura ignorais, irmãos…” ( Rm 7:1 ), Paulo apresenta uma nova figura: a mulher ligada ao marido pelo matrimônio ( Rm 7:1 – 3).

Paulo geralmente introduz uma figura ou uma alegoria através da expressão interrogativa: “… não sabeis…?”:

  1. “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis” ( 1Co 9:24 );
  2. “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” ( 1Co 5:6 ), e;
  3. “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” ( Rm 11:2 );

Paulo conhecia bem a sua ‘platéia’, o que é próprio à retórica (arte do bem falar), uma vez que ele estava escrevendo a quem conhecia à lei. A quem Paulo estava escrevendo? Ora, sabemos que ele escreveu aos cristãos em Roma, porém, a carta do capítulo dois ao doze tinha como público alvo um grupo mais específico: os cristãos judeus.

Como aos cristãos judeus? A resposta a esta pergunta encontra-se no início da carta, isto porque, ao registrar que estava falando a quem conhecia a lei, é possível demonstrar que Paulo estava tratando especificamente com os cristãos de origem judaica e que agora pertenciam à igreja que estava em Roma.

Por ser uma carta intitulada: ‘Epístola de Paulo aos Romanos’, muitos são levados a entender que Paulo escreveu especificamente aos cristãos chamados dentre os gentios que habitavam em Roma. Porém, ao observar alguns versos desde o início da carta, veremos que Paulo escreveu focado em dois grupos de cristãos: cristãos chamados dentre os judeus e cristãos chamados dentre os gentios. Observe:

  • “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso Pai segundo a carne?” ( Rm 4:1 ) – Com base neste versículo, Paulo estava escrevendo aos cristãos judeus ou aos cristãos gentios? De quem Abraão é pai segundo a carne? Dos Judeus ou dos gentios? Observe que Paulo está tratando especificamente com os judeus desde o capítulo 2;
  • “… mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é Pai de todos nós” ( Rm 4:16 ) – Através deste verso, Paulo procura convencer os filhos de Abraão segundo a carne (os judeus) que todos os cristãos, tanto gentios quanto judeus, efetivamente são filhos de Abraão segundo a fé. Ora, segundo a fé Abraão é pai de todos os que creem, sem distinção alguma, tanto de judeus quanto gregos;
  • “… porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” ( Rm 6:14 ) – Ora, quem esteve debaixo da lei a não ser os cristãos chamados dentre os judeus? Perceba que o público alvo da carta aos Romanos inicialmente eram os judeus convertidos, embora os cristãos gentios também pudessem se beneficiar da exposição de Paulo;
  • “Convosco falo, gentios” ( Rm 11:13 ) – Observe que, após tratar diretamente com os judeus, Paulo direciona o seu discurso aos cristãos chamados dentre os gentios, para que eles não se ensoberbecem contra os cristãos que foram chamados dentre os judeus.
  • “Mas tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ) – Paulo direcionou o seu discurso especificamente aos cristãos judeus a partir deste ponto em diante, embora, o alvo da mensagem do evangelho seja todos os homens sem distinção alguma ( Rm 2:3 ).

Quem eram os irmãos que conheciam a lei? Os cristãos judeus ou os gentios? É certo que Paulo diz dos cristãos judeus ( Rm 7:1 ).

O que os cristãos estavam aparentando desconhecer? Eles demonstravam desconhecer que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que viver ( Rm 7:1 ).

Paulo questiona os seus interlocutores se eles desconheciam que a lei só tem domínio enquanto o homem está vivo. Ora, se eles morreram com Cristo (foram batizados), como era possível questionarem a possibilidade de permanecerem no pecado para que a graça aumentasse ( Rm 6:1 ).

Ora, como é possível a alguém que morreu para o pecado estar sob o domínio do pecado? (Romanos 6: 2). Para quem não compreendeu que a lei não mais tinha domínio sobre os cristãos, visto que todos morreram com Cristo, Paulo apresenta a figura da mulher ligada à lei do marido, para ilustrar a verdade exposta no capítulo 6.

 

 

A Figura da Mulher ligada ao Marido

2 Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.

Um exemplo claro de que é impossível a alguém que morreu para o pecado permanecer no pecado é apresentado através da figura da mulher sujeita a lei do marido (lei estabelecida no matrimonio).

Enquanto o marido viver, a mulher estará ligada ao marido pela lei. Porém, morto o marido, qual o papel da lei? A viúva deveria continuar submissa à lei mesmo após a morte do marido?

É certo que, morto o marido, a lei continuará a existir, porém, a viúva não mais será alcançada pela lei, por mais que a mesma lei continue a submeter outras mulheres casadas a seus maridos, ela não submeterá a viúva.

Os leitores da carta de Paulo deviam construir um paralelo entre eles, que morreram para o pecado, e os não crentes, que permaneciam vivos para o pecado.

Quem não foi batizado (morreu) em Cristo, e que, portanto, não morreu com Cristo, permanece vivo para o pecado e sob a égide da lei. Quem não é batizado em Cristo, mesmo sem causa é transgressor “Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa” ( Sl 25:3 ).

Quem crê em Cristo, ou seja, quem espera na salvação providenciada por Deus (esperam em ti), jamais serão confundidos. Porém, todos os que não confiam em Deus serão confundidos, pois mesmo sem causa são transgressores ( Sl 25:3 ).

O que isto quer dizer? Ora, todos os nascidos em Adão são transgressores por natureza, sem qualquer relação direta com questões comportamentais ou morais. Mesmo quando não transgridem leis sociais, morais e comportamentais, são transgressores diante de Deus.

Quem confia no Senhor, morre para o pecado e ressurge uma nova criatura, que jamais será confundida, pois a salvação providenciada por Deus não advém das regras sociais, morais ou comportamentais, antes, é salvo por ter sido novamente criado na condição de filhos de Deus.

A lei do marido só tem razão de ser enquanto o marido estiver vivo, pois tal lei estabelece a sujeição da mulher ao marido, porém, após a morte do marido, a viúva está livre da lei do marido.

 

3 De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.

Paulo convida os seus interlocutores a pensarem e a chegarem a uma conclusão. Enquanto o marido viver, a mulher será chamada adúltera se for de outro homem, porém, após morrer o marido, a mulher estará livre da lei, e não mais será adultera se for de outro homem.

As figuras utilizadas por Paulo, tanto da escravidão quanto da mulher ligada ao marido pela lei são simples de entender.

Diante da lei jamais um escravo seria livre sem a aquiescência do seu senhor. Caso o senhor viesse a falecer, o escravo simplesmente fazia parte dos espólios do seu antigo senhor, porém, não seria livre.

Somente a morte do escravo é que o tornava livre do seu senhor, uma vez que a lei e o antigo senhor nada representavam para o escravo após a sua morte. Como é sabido, o pecado é um senhor tirano que não concede liberdade a seus escravos. Somente a morte deixa livre o pecador do seu tirano senhor, no entanto, seguirá para a eternidade sob condenação eterna.

O cristão efetivamente morre com Cristo, e é por isso que o pecado deixa de exercer domínio como senhor sobre ele.

Quem morre (a morte natural) como servo do pecado seguirá para a eternidade sob condenação, porém, aquele que morre com Cristo, é julgado em Cristo para não ser condenados com o mundo. Quem morre para o pecado em Cristo, ressurge uma nova criatura, e passa a viver para Deus.

O ponto principal que Paulo demonstra neste verso é que, após morrer o marido a mulher está livre da lei do marido. Do mesmo modo, após o escravo morrer, livre está do seu senhor.

Por certo, ao morrer para o pecado e para a lei, o cristão é livre da lei e do pecado. A figura da escravidão demonstra que o cristão é livre do pecado ( Rm 6:6 ), e a figura da mulher ligada ao marido pela lei, que o cristão é livre da lei ( Rm 7:4 ).

 

Argumentos Conclusivos

A figura da mulher ligada a lei do marido ( Rm 7:2 ) e a figura da escravidão ( Rm 6:18 ) que Paulo apresentou anteriormente conduz o leitor à conclusão que é apresentada nestes três versos a seguir.

Paulo novamente enfatiza que os cristãos estão mortos ( Rm 7:4 ), o que foi demonstrado nos capítulos anteriores exaustivamente “Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ). Todos cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

Paulo descreve de modo retroativo os eventos pertinentes àqueles que morreram em Cristo:

  • “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 ) – diz do agora (presente), diz da nova condição pertinente a vida dos cristãos. Para alcançar esta posição (mortos para o pecado), os cristãos ressurgiram com Cristo (vivos para Deus);
  • “…todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (v. 3) – Antes de ressurgir com Cristo, os cristãos foram sepultados pelo batismo na morte de Cristo, ou seja, o batismo que Paulo faz referência não é o batismo em águas, antes ao batismo na morte;
  • “…fomos sepultados com ele pelo batismo na morte…” (v. 4) – o sepultamento se dá efetivamente no batismo na morte, o que não dá vazão a doutrina da regeneração batismal;
  • “…fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte…” (v. 5) – a semelhança não é um faz de conta, antes a semelhança que os cristãos foram plantados é conforme a morte de Cristo;
  • “Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…” (v. 6) – antes de estar efetivamente morto, antes de ser batizado, ou seja, ser plantado com Cristo, em primeiro lugar o ‘velho homem’ foi crucificado com Cristo.

É pertinente ao modo literário do apóstolo Paulo, apresentar inicialmente a condição efetiva dos cristãos “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade,…” ( Ef 1:13 ), para depois demonstrar como alcançaram tal condição “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ). Geralmente o apóstolo dos gentios apresenta aos cristãos a nova condição em Cristo, para depois demonstrar como se alcançou tamanha graça. Para tanto, ele demonstra qual era a condição do homem sem Cristo.

Paulo faz alusão a um princípio doutrinário do evangelho nos versos três a cinco do capítulo 7, mas para compreendê-los é preciso relembrar o que Jesus disse aos discípulos através da figura da árvore e seus frutos: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Através da figura da árvore e seus frutos Jesus demonstrou que é impossível uma árvore boa produzir frutos maus, e que é impossível uma árvore má produzir frutos bons. Ora, este princípio é observável na natureza, porém, que aplicação há com relação às questões espirituais?

Jesus demonstrou que é impossível um falso profeta (lembre-se que eles têm aparência de ovelha), produzir frutos bons, ou seja, dizer o que é verdadeiro. Ora, nem todo o que diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus, porque produzem frutos maus, ou seja, não professam a Cristo segundo a verdade do evangelho (não produzem bons frutos).

Qual é o fruto bom? O fruto dos lábios que professam a Cristo! ( Hb 13:15 ). Quem professa a Cristo, conforme diz a Escritura, é porque nasceu da semente incorruptível. É plantação do Senhor, árvores de Justiça ( Is 61:3 ).

Os nascidos em Adão são árvores más, plantas que o Pai não plantou, e todos os seus frutos são maus. Porém, aqueles que creem na palavra da verdade são plantação do Senhor, árvores de Justiça, e produzem frutos bons, ou seja, professam a Cristo, pois este é o fruto que Deus criou Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

É preciso relacionar Rm 6:19 e Rm 6:22 com Rm 7:4 sem esquecer que, antes de serem libertos do pecado, os cristãos eram escravos do pecado, e, portanto, só podiam produzir para o seu senhor.

Lembrando que um servo não pode servir a dois senhores e esta mesma impossibilidade é encontrada na figura da árvore, pois do mesmo modo que um servo do pecado não pode servir à justiça, uma árvore má não pode produzir frutos bons.

Como pode um servo da justiça servir ao pecado, se é impossível servir a dois senhores? ( Rm 6:20 ). Ou melhor, como pode alguém que está morto para o pecado, viver ainda nele? ( Rm 6:2 ). Como é possível a uma árvore que germinou de uma semente incorruptível produzir frutos maus? ( 1Pe 1:23 ). Como ser achado ainda pecador, quem já se refugiou em Cristo? ( Gl 2:17 ).

O capítulo 7 da carta aos Romanos apresenta uma resposta a estas perguntas.

 

Os Frutos

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:4 – 6).

 

4 Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.

O comparativo é estabelecido entre os cristãos e a figura da mulher que estava ligada ao marido através da lei “Assim, meus irmãos, também vós…” (v. 4).

Observe a similaridade entre este verso e Efésios 1: 13:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” ( Ef 1:13 );

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo…” ( Rm 7:4 ).

‘Estar em Cristo’ e ‘estar morto para a lei’ aponta para uma mesma condição diante de Deus: uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘em Cristo’ é dizer que ele é uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘morto para a lei’ é o mesmo que dizer: você é uma nova criatura “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é…” ( 2Co 5:17 ).

Por que os cristãos estavam mortos para a lei pelo corpo de Cristo? Porque através do evangelho conclui-se que, se um morreu por todos, logo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Ora, foi através da oferta do corpo de Cristo que os cristãos deixaram a condição de velha criatura e passaram à condição de nova criatura ( Hb 10:10 ).

A oferta diz do corpo de Cristo, do corpo que o Verbo encarnou. Foi através do corpo humano que Deus preparou para o seu Filho ( Hb 10:5 ), que os cristãos passaram a estar mortos para a lei.

Quando Paulo faz referência ao corpo de Cristo, ele está fazendo referência à morte de Cristo, ou seja, ao corpo que foi apresentado imaculado como oferta a Deus. Deste modo, por causa do corpo de Cristo, que foi entregue aos pecadores, os cristãos estão mortos para a lei.

Como? Ao apresentar um paralelo entre a figura da mulher que estava ligada ao marido pela lei, e que após a morte do marido não mais estava sujeita à lei, Paulo demonstra que a lei só teve alcance sobre os cristãos pelo tempo que em que viveram na carne ( 2Co 5:15 ).

Uma vez que todos que creram em Cristo foram crucificados, mortos com Cristo, e sepultados com Cristo, que relação há entre a lei e o cristão?

Da morte com Cristo surge uma nova condição: livres da lei e do pecado.

Enquanto filhos de Adão, gerados da semente corruptível, o homem está sob o domínio da lei e da escravidão do pecado, através do corpo de Cristo, o homem efetivamente morre, e passa a compartilhar da natureza divina através da ressurreição com Cristo.

Antes de morrer com Cristo, a quem os cristãos pertenciam? Ao pecado, ao mundo, às trevas, à ira, à perdição e estavam debaixo da lei (certamente morrerás). Agora, por estarem em Cristo, os cristãos passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos.

Os cristãos não pertencem ao Cristo que veio em carne, antes pertencem àquele que ressurgiu dentre os mortos para louvor da glória e graça de Deus ( 2Co 5:16 ).

Por que os cristãos estão mortos para a lei? Por que eles passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos? A resposta é simples: “… a fim de darmos fruto para Deus”.

Como é possível dar fruto para Deus? Assim como é próprio a árvores produzir frutos segundo a sua espécie é próprio à natureza daqueles que estão mortos para a lei produzirem frutos para Deus! Não depende do esforço do homem.

Como os cristãos são árvores de justiça, plantação do Senhor é próprio da nova natureza produzir fruto para Deus.

Repassando:

  1. Os cristãos estão mortos para o pecado e não podem viver nele. Paulo não fez uma recomendação aos cristãos: – Vocês não devem viver no pecado! Antes, ele demonstrou que é impossível viver no pecado, quando se está morto para o pecado ( Rm 6:2 ). Paulo demonstra que é impossível viver no pecado, o que difere completamente da concepção de que ele tenha ordenado a que não vivessem em pecado. Ou o homem vive para a justiça ou vive para o pecado. É impossível o homem viver para ambos;
  2. Os cristãos andam em novidade de vida porque ressurgiram com Cristo, ou seja, só é possível ‘andar em novidade de vida’ quando se vive no Espírito, ou seja, após morrer e ressurgir com Cristo ( Rm 6:4 ; Gl 5:25 );
  3. Os cristãos foram plantados juntamente com Cristo, na semelhança da sua morte, e, portanto, são semelhantes a Ele na ressurreição: a morte não tem mais domínio ( Rm 6:5 e Rm 6:9 ; “…qual ele é, somos nós também aqui neste mundo” 1Jo 4:17 );
  4. O pecado não mais tem domínio sobre os cristãos, pois não estão debaixo da lei (morreram), ou seja, o pecado não reina sobre os cristãos de modo que venham a produzir frutos que tenham do que se envergonhar ( Rm 6:14 e Rm 6:21 ).

É próprio à natureza daqueles que foram gerados de novo produzirem frutos de justiça, e que o comportamento humano não se vincula ao fruto que Deus cria Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

Os frutos que os cristãos produzem para Deus são provenientes do próprio Deus sem qualquer relação com o esforço humano. Quem é nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ), é plantação do Senhor, ou melhor, plantas que o Pai plantou ( Mt 15:13 ). Ora, as plantas que o Pai plantou produzem frutos segundo a sua espécie: frutos bons.

É por isso que o profeta Isaías registrou: “Eu crio o fruto dos lábios…”. Por quê? Ora, se a boca fala do que o coração está cheio “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ), um coração mal só fala malignidade, mas de um coração novo, que é criado por Deus ( Sl 51:10 ), só é possível produzir fruto bom.

Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito. Tudo que é proveniente do novo coração foi criado por Deus, e, por isso mesmo, Ele criou o fruto dos lábios.

Quem vive de acordo com a verdade do evangelho é porque está em Cristo, de modo que todos podem ver claramente que as suas obras são feitas em Deus, pois quem vive em trevas e nela anda, não vem para Cristo, porque amam mais as trevas do que a luz para preservarem as suas próprias obras ( Jo 3:19 – 21 ).

 

A Carne e o seu Fruto

5 Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.

Paulo neste verso faz referência à antiga condição dos cristãos, quando estavam vivos para o pecado e mortos para Deus.

Naquele tempo específico, quando os cristãos estavam na carne, eles davam frutos para a morte. Hoje, em Cristo, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 e Is 57:19 ). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios ( Is 57:19 ).

É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ). Os cristãos estão livres do pecado e os seus frutos são para Deus e por fim herdarão a vida eterna ( Rm 6:22 ), porém, antes de aceitarem a Cristo eram servos do pecado, os seus frutos eram para o pecado, e por fim herdariam a morte eterna.

As paixões pertinentes ao corpo do pecado existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado. Quem morre com Cristo, crucifica o corpo do pecado e as suas paixões “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a natureza carnal que produz tal fruto, pois, a inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez às paixões e concupiscência da carne.

Analisando a seguinte tradução com base em outros versículos: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ), chega-se à seguinte conclusão: não são as paixões dos pecados que produzem fruto para a morte. Como? Ora, dizer que as paixões e as concupiscências produzem fruto para morte é o mesmo que dizer que o comportamento humano é que produz a morte (separação de Deus).

Porém, como é de conhecimento geral, a natureza pecaminosa herdada de Adão, designada carne, é que estabeleceu a morte (condenação) e produz para a morte (iniquidades). É por isso que quando os cristãos crucificam a carne, crucificam também as paixões e as concupiscências ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões e as concupiscências que se inclinam para a morte, antes é a carne. A carne é sujeita à lei, e a lei realça as paixões e as concupiscências nos membros (corpo) que pertencem à carne.

Assim sendo, o versículo é melhor traduzido quando evidencia a condição da carne (sujeição ao pecado), e para quem ela produz o seu fruto (para a morte). Ou seja: “… quando estávamos na carne (…), frutificávamos para a morte”. Com relação às paixões, Paulo somente evidenciou que elas são (realçadas) através da lei, e que efetivamente tais paixões operavam nos membros da carne.

Sugestão de emenda a tradução: “Porque, quando estávamos na carne (as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros) frutificávamos para a morte”.

Basta comparar os versos ( Rm 7:4 e Rm 7:5 com o verso 16: “… sóis servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça” ( Rm 6:16 ).

É possível o homem escolher não obedecer ao pecado sem ter obedecido a Cristo? É possível ao homem abandonar o pecado sem ser adquirido por Cristo? Não!

Ora, a humanidade sem Cristo (escravos) obedece ao pecado (senhor) porque foram introduzidos no mundo sob o domínio do pecado. Em Adão a humanidade ‘obedeceu’ ao pecado! Adão é a porta larga pela qual todos os homens entraram, e seguem por um caminho largo que os conduz à perdição.

Embora muitos procurem realizar boas ações, as suas obras não passam de trapos de imundície. Por serem servos do pecado todas as obras dos homens são más, ou seja, os servos do pecado frutificam para a morte.

Em Cristo, o último Adão, os homens são novamente criados segundo Deus, livre do poder do pecado, e sob o jugo da justiça. Ao entrar pela porta estreita, o homem deixa de produzir para a morte e passa a produzir para a justiça, pois se inclinam para a vida que há em Deus e para a paz que excede a todo entendimento.

 

Em Espírito e em Verdade

6 Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Paulo apresenta uma conclusão à sua exposição: agora, após serem libertos da lei, ou seja, mortos para aquilo que estavam retidos (a lei), os cristãos servem a Deus em novidade de espírito.

Por que em novidade de espírito? Porque após crer em Cristo o homem adquire um novo coração e um novo espírito, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Sl 51:10 ; Ef 4:24 ).

Paulo demonstra que os judeus não serviam a Deus, antes, só tinham zelo, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ). Por quê? Porque só é possível servir a Deus em espírito e em verdade, ou seja, quando o homem é gerado do Espírito, o mesmo que ser circuncidado no coração. Somente em Cristo é possível ao homem alcançar a condição de servir a Deus em espírito ( Jo 4:23 ).

A condição ‘em espírito’ só é possível quando o homem é gerado de Deus. É por isso que Jesus disse a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Somente após o homem ser gerado de novo através da fé em Cristo torna-se possível servir a Deus (o Espírito Eterno) em espírito.

Os judeus pensavam servir a Deus, porém, a qualquer homem nascido de Adão (nascido da carne) é impossível servir a Deus. Deus somente ‘conhece’ aqueles que o adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:24 ; Gl 4:9 ).

Paulo estava tratando diretamente com os judeus convertidos, como foi demonstrado anteriormente, e aqui temos outra evidência: somente os cristãos judeus tentaram servir a Deus através da velhice da letra (lei de Moisés), ponto abordado por Paulo que não tem relação com os gentios.

Só é possível servir a Deus em novidade de espírito, e, somente Ele, é quem ‘renova’ (cria) no homem um espírito reto ( Sl 51:10 ). Só é possível ter novo coração e um novo espírito quando o homem está livre da lei, ou melhor, quando morre para aquilo em que se estava retido.

Como é possível ao homem morrer para o que estava retido (lei)? Através da circuncisão do coração! Quando Moisés apregoou a circuncisão do coração ao povo de Israel, tal circuncisão só era possível através da fé em Deus, Aquele que tem o poder de circuncidar o coração, ou seja, Ele mata o homem gerado em Adão e concede um novo coração “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Somente após alcançar novo coração (novo nascimento) o homem compreende a palavra de Deus “Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” ( Dt 29:4 ).

Em resumo: Os cristãos morrerem com Cristo, portanto, estavam livres da lei. Qual o objetivo de os cristãos terem morrido para a lei, ou antes, morrido com Cristo? Para servirem a Deus com um novo espírito e um novo coração ( Ez 36:25 – 27 ). Ora, o novo coração e o novo espírito só são possíveis alcançar através da regeneração em Cristo.

A lei de Moisés (velhice da letra) não poderia proporcionar o novo nascimento. Somente o evangelho de Cristo, que é a água limpa aspergida pelo Espírito Eterno, faz nascer o novo homem para louvor de sua glória ( Jo 3:5 ; Ez 36:26 ). É através do evangelho que o homem recebe poder para ser criado em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

Após declarar que os cristãos eram livres da lei ( Rm 7:6 ), do mesmo modo que eram livres do pecado ( Rm 6:6 ), poderia surgir um entrave na mente de alguns cristãos: acharem que Paulo estava equiparando a lei ao pecado ( Rm 7:7 ).

 

Verbos, flexões e Interpretação

Como interpretar este versículo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ).

Quem crê em Cristo é (presente) salvo ou será salvo (futuro)? Por que Jesus disse: quem crer será salvo? Você é salvo ou ainda será salvo no futuro?

Há pessoas que dizem que ainda não estão salvas, mas que serão salvas. Ao serem indagadas, citam o seguinte versículo: “quem crer será salvo”, ou seja, porque o verbo salvar está no futuro essas pessoas entendem que somente estarão salvas no futuro.

O argumento anterior é válido? Não! Por quê?

Porque a frase: ‘quem crer será salvo’ está corretíssima, porém, ‘quem crê está salvo’, também é correta e não contradiz a afirmação anterior.

No verso 16, do capítulo 16, do evangelho de Marcos (Mc 16:16 ), o verbo ‘crer’ está no infinitivo, ou seja, neste caso o verbo conserva a forma não flexionada: ‘crer’.

A frase ‘Quem crer…’ é impessoal, ou seja, o verbo ‘crer’ não faz referência a nenhum sujeito específico. Qualquer homem que ouvir a mensagem do evangelho e crer assumirá a condição de salvo, ou seja, assumirá a condição de sujeito desta frase.

Como o verbo ‘crer’ está no infinitivo, e neste caso o infinitivo não é flexionado, o verbo ‘ser’ é conjugado no futuro simples. Porém, se colocarmos o verbo ‘crer’ no presente ‘crê’, o verbo ‘ser’ é posto no presente: ‘é’. Compare:

Quem crer será salvo;
Quem crê é (está) salvo.

É só substituir o pronome indefinido ‘Quem’ por um substantivo, que a frase apresenta os verbos em tempos flexionados: João crê, portanto, é salvo.

Por que o verbo ‘crer’ foi colocado no infinitivo? Porque a mensagem do evangelho destina-se a todas as pessoas em todos os tempos. A mesma mensagem apregoada por Cristo e os apóstolos continua atual, e destina-se a todos os homens, em todos os tempos e lugares.

Esta primeira análise é gramatical, porém, é possível analisar o mesmo versículo através de outros recursos.

Ao escrever aos cristãos de Coríntios, Paulo disse: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Paulo aponta a nova condição dos cristãos efetiva no presente. Ora, se alguém (sujeito indeterminado) está (presente) em Cristo é uma nova criatura, ou seja, a salvação é efetiva hoje: “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ).

Paulo utiliza neste verso todos os verbos no presente para falar de uma condição pertinente a todos quantos creem em Cristo.

João, ao falar da salvação, registrou: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ). João fala da salvação como sendo um evento do passado. Todos quantos creram no nome de Jesus receberam poder para serem feitos filhos de Deus. Quem creu, recebeu poder, o que nos leva a seguinte conclusão: quem crê está salvo.

Os tempos verbais podem causar muitos problemas na hora de interpretar um versículo específico ou uma carta. Erros podem surgir da má compreensão dos tempos verbais, principalmente quando há regras para se estabelecer a correta correlação verbal proveniente de questões gramaticais.

O capítulo 6 da carta aos Romanos contém alguns versículos que podem causar alguns problemas na hora da interpretação. Observe:

  • “Se formos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição?” ( Rm 6:5 ) – O versículo é argumentativo, ou seja, o apóstolo não fez uma afirmação. Por causa desta peculiaridade do argumento apresentado por Paulo é preciso estabelecer uma correlação verbal entre as orações, que é ‘a articulação temporal entre duas formas verbais’. No argumento apresentado por Paulo, ‘se formos plantados’ surge a correlação com o verbo ‘ser’ no futuro (seremos). Porém, é assente que os cristãos já morreram com Cristo ( Cl 3:3 ), e, portanto, são semelhantes a Cristo na sua ressurreição ( Cl 3:1 ; 1Jo 4:17 ), pois assim como Jesus é, são os cristãos aqui neste mundo;
  • “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:8 ) – Neste verso o apóstolo baseia-se na premissa de que os cristãos já morreram com Cristo (para morrer com Cristo é preciso crer), segue-se que os cristãos creram, morreram, ressurgiram, e que também esperam que viverão para sempre com Cristo. O fato de Paulo ter colocado o verbo ‘viver’ no futuro, o que dá uma ideia de algo que será alcançado, é proveniente do argumento introduzido pela partícula ‘se’. Caso o apóstolo tivesse apontado a morte efetiva dos cristãos, a conclusão seria: com ele vivemos.

 

É a Lei Pecado?

“Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Diante do que foi exposto, Paulo convoca os cristãos ao raciocínio: “Que diremos, pois?”.

Com base no que já foi demonstrado anteriormente, qual a conclusão que os cristãos deveriam abraçar? Que a lei é pecado? A resposta é clara: De modo nenhum! A lei não é pecado!

Embora o apóstolo não tenha afirmado no decurso da carta que a lei é pecado, alguns judaizantes poderiam distorcer os argumentos e afirmar que Paulo anunciou que a lei é pecado. Como Paulo anunciava que os cristãos eram livres do pecado e da lei, alguém mal intencionado poderia anunciar que Paulo estava equiparando a lei com o pecado, distorcendo o que o apóstolo dos gentios procurou evidenciar.

Paulo demonstra incisivamente que a lei não é pecado para desfazer qualquer conclusão diferente da verdade do evangelho. Ele apregoou a necessidade dos cristãos livrarem-se da lei, porém, nunca disse que a lei é pecado.

Este deve ser um dos cuidados de quem interpreta as escrituras: não concluir por si só algo que não foi afirmado categoricamente. É necessário saber diferenciar argumentação, asserção e conclusão. Uma argumentação é construída com premissas, porém, as premissas e as argumentações não podem ser consideradas como sendo uma asserção (afirmação).

Do mesmo modo, uma conclusão não tem o mesmo valor de uma asserção, pois a asserção deriva da conclusão ou da argumentação. Isto porque, as premissas utilizadas em uma argumentação que levará a uma conclusão geralmente foram retiradas de asserções. Exemplo:

  • Uma asserção: “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 );
  • Uma argumentação: “…como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 );
  • Uma conclusão: “Pois o pecado não terá domínio sobre vós…” ( Rm 6:14 );
  • Duas premissas: “…porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça ( Rm 6:14 ).

Observe que as duas premissas apresentadas em Romanos 6: 14b são excludentes ( Rm 6:14 ). Ora, quem está debaixo da graça não pode estar sob a lei, e vice-versa.

Deste ponto em diante, o leitor deve estar atento as peculiaridades apresentadas acima, sabendo divisar bem o que é argumento, premissa, asserção e conclusão.

Quando questionou os seus interlocutores acerca da lei (É a lei pecado?), Paulo esperava ter como resposta uma negativa (De modo nenhum!). Em seguida, ele apresenta argumentos que desfaz qualquer argumentação dos judaizantes que vincule a lei ao pecado (versos 7b a 11), para que seus leitores possam chegar à seguinte conclusão: “Portanto, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom” ( Rm 7:12 ).

Agora analisaremos os versos 7b a 11 de Romanos 7, para que possamos chegar à mesma conclusão que Paulo estabeleceu: a lei é santa e o mandamento também ( Rm 7:12 ). Qualquer conclusão que destoe da conclusão que Paulo apresenta no verso 12 de Romanos 7, demonstra que o interprete ‘prevaricou’ na sua atribuição.

Para chegar à conclusão de que ‘a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom’, é necessário analisar criteriosamente os cincos versículos ( Rm 7:7 -11) e algumas questões pertinentes à linguística.

 

Figuras de Linguagem

Durante a leitura da carta aos Romanos é fácil perceber que Paulo utiliza um recurso linguístico (figura de linguagem) ao falar do evangelho de Cristo. Observe:

  • “… para a obediência da fé entre todos os gentios…” ( Rm 1:5 );
  • “… porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé ( Rm 1:8 );
  • “… seja consolado pela fé mutua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ).

Tal figura de linguagem é denominada perífrase, onde temos a palavra ‘fé’ substituindo a palavra ‘evangelho’, assumindo a ideia da palavra substituída. O evangelho foi anunciado aos gentios para obediência. Do mesmo modo, em todo mundo era anunciado o evangelho, ou seja, a vossa fé. Paulo e os cristãos seriam consolados mutuamente através do evangelho (fé mutua).

Perceba que, para não repetir várias vezes a palavra ‘evangelho’ e dar maior graciosidade a escrita da carta, Paulo substitui alguns termos por outros, utilizando-se de alguns recursos pertinentes à linguagem.

Após descobrir este uso de uma figura semântica, faz-se necessário observar com acuidade toda a carta, visto que, algumas ‘figuras de linguagem’ ou ‘recurso de estilística’ pode interferir na interpretação do texto.

Desta forma, analisemos a seguinte afirmação de Paulo: Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 ). O que o ‘apóstolo dos gentios’ expõe neste verso era de conhecimento geral dos cristãos, uma vez que eles ‘bem sabiam’ do que Paulo estava tratando.

Percebe-se através do contexto que a palavra ‘verdade’ em Romanos 2: 2, substitui a palavra ‘evangelho’, como se verifica no verso 16.

  • “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 );
  • “Isto sucederá no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por meio de Jesus Cristo, segundo o meu evangelho” ( Rm 2:16 ).

Ora, se o julgamento de Deus é segundo a verdade do evangelho, fica claro que o julgamento de Deus não é segundo a lei. Perceba também que o juízo é segundo a verdade (presente), e que há um dia preordenado para ser manifesto este juízo ( Rm 2:5 ), o que indica que o juízo segundo a verdade já ocorreu e está estabelecido.

Porém, ‘segundo o evangelho (de Paulo)’, Deus também julgará os segredos dos homens. Isto demonstra que o juízo de Deus foi estabelecido no passado em Adão “O Juízo veio de uma ofensa (…) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo…” ( Rm 5:16 e Rm 5:18 ), e, que, Deus julgará todos os homens segundo as suas obras no futuro (Grande Trono Branco) ( Ap 20:11 ).

Procuramos demonstrar que é similar a ideia entre ‘evangelho’ e ‘verdade’, ‘fé’ e ‘evangelho’, porque recursos literários semelhantes a este foram utilizados diversas vezes pelos apóstolos.

 

 

Qual a relação entre Pecado, Lei e Conhecimento?

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Para compreender a declaração: “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei”, é necessário saber:

a) de qual lei o apóstolo estava falando;
b) o que é pecado, e;
c) o que é ‘conhecer’. Após responder as questões acima, será possível verificar de que ‘eu’ o apóstolo estava falando.

A primeira citação da palavra ‘lei’ Paulo fez na carta aos Romanos no capítulo 2, verso 12: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Já analisamos este verso, porém, faz-se necessário aprofundar a análise.

É possível inferir de Rm 2:12 que os que sob a lei pecaram são os judeus, do mesmo modo, que os gentios pecaram sem lei. Isto demonstra que Paulo estava escrevendo acerca da lei de Moisés, visto que, desde Adão até Moisés todos pecaram, mesmo não tendo uma lei específica.

Não é porque os gentios não possuíam uma lei que não estavam sob condenação. Do mesmo modo, não é porque os judeus possuíam uma lei, que não haveriam de perecer. Ou seja, todos pecaram e estavam debaixo de condenação, e seguiam para a perdição ( Rm 3:9 ).

Isto demonstra que a transgressão à lei mosaica não é o que subjugou a humanidade ao pecado. Porém, Paulo demonstra que o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a ter comunhão intima com o pecado através da lei ( Rm 7:7 ), o que indica que em Rm 7:7 ele não está se referindo a Lei de Moisés, antes fez referência a lei perfeita da liberdade concedida ao homem no Éden ( Gn 2:16 – 17).

Ora, Adão perdeu a comunhão com o criador quando desobedeceu a ordenança divina que foi dada no Éden, e por causa da ofensa dele, todos pecaram, tanto gentios quanto judeus. Todos ficaram alienados da glória de Deus, ou seja, ‘conheceram’ o pecado.

O pecado subjugou a humanidade por causa da desobediência à lei dada no Éden. Ora, tanto os que estavam sob a lei de Moisés quanto os gentios, ambos pecaram, o que demonstra que o pecado decorre da desobediência de Adão.

Desta análise é possível concluir que Paulo faz referência a dois tipos de lei na sua carta. Uma refere-se à lei de Moisés, e a outra à lei de Deus outorgada no Éden. Desta última decorre a penalidade eterna: ‘certamente morrerás’, ou seja, o homem ‘conheceu’ a separação da vida que há em Deus através da ofensa no Éden.

Ora, se o pecado decorre da desobediência à lei dada no Éden, logo, o ‘eu’ da qual o apóstolo faz alusão refere-se a algo proveniente de Adão, e que é comum a todos os homens destituídos da glória de Deus.

 

O que é pecado?

Se uma das definições de pecado é a transgressão da lei ( 1Jo 3:4 ), como é possível pecar sem lei? ( Rm 2:14 ) Qual lei transgredida é pecado: a lei de Moisés ou a lei dada no Éden?

Paulo afirma categoricamente que a lei não é pecado ( Rm 7:7 ). Também afirmou que os gentios pecaram mesmo sem lei. Estas afirmações levam-nos a concluir que, o pecado surgiu da transgressão à lei dada no Éden, e não da transgressão das prescrições de Moisés.

Uma das definições de pecado geralmente é extraída da I carta do apóstolo João, que diz: “Todo aquele que comente pecado, transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ) Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, Ed. Vida. Se adotarmos este verso da carta de João como sendo a definição de pecado, como é possível aos gentios pecarem, se eles não têm lei?

Observando a carta de João, perceba que apenas neste verso a palavra ‘lei’ foi utilizada. No decurso da carta de João a palavra que foi utilizada diversas vezes é ‘mandamento’, porém, 1Jo 3:4 destoa da carta. A palavra “lei” também não é utilizada nas outras cartas do apóstolo João.

Já a versão João Ferreira Corrigida não utiliza a palavra lei em I João 3: 4, observe: “Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade” ( 1Jo 3:4 ). Versão Corrigida e fiel.

Ora, surge a dúvida: o pecado é ‘iniquidade’ ou o pecado é a ‘transgressão da lei’?

Pois bem, dúvidas a parte, segue-se que, ao ler os versículos nestas traduções, faz-se necessário analisar o seu contexto para chegarmos a um entendimento acerca das palavras utilizadas pelos tradutores, e qual a ideia que os apóstolos procuram evidenciar.

Ora, inferimos de Rm 2:12 que é plenamente possível pecar mesmo sem lei. Bem antes da lei de Moisés a morte reinou sobre todos os homens ( Rm 5:13 ). Desde Adão até Moisés a morte reinou sobre os homens o que significa que todos pecaram ( Rm 5:14 ). Daí, vale destacar que, o pecado impera aparte da lei mosaica.

Como? Um homem pecou, todos pecaram ( Rm 5:18 ). Ora, se um só homem pecou e todos pecaram, segue-se que o pecado que subjugou a humanidade não decorre da desobediência à lei de Moisés, visto que, após a desobediência de Adão, Deus não instituiu de imediato leis, porém, mesmo assim, todos morreram, o que demonstra que todos estavam em pecado.

O homem peca porque foi vendido como escravo ao pecado, e isto através da ofensa de Adão. Jesus é claro ao afirmar: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). O homem peca porque é escravo do pecado, e não porque transgride a lei de Moisés.

Resta a pergunta: O que é pecado? ‘Pecado’ diz da condição da criatura quando divorciada do Criador.

Quando a criatura se distancia do Criador, a condição ‘em pecado’ se manifesta. Ou seja, pecado é o mesmo que estar destituído da glória de Deus (morto para Deus e vivo para o mundo).

Se pecado fosse a transgressão da lei de Moisés ( 1Jo 3:4 ), não haveria como o homem ser formado em iniquidade e nem gerado em pecado, pois como poderia alguém transgredir no ventre materno? ( Sl 51:5 ).

Verifica-se nas Escrituras que um homem transgrediu e que todos transgrediram. Um pecou e todos vêem ao mundo separados de Deus, destituído da Sua Glória, porque todos pecaram pelo simples fato de serem descendentes de Adão.

O que toda humanidade passou a compartilhar após a ofensa de Adão? A mesma condenação! Como o apóstolo Paulo demonstrou que através da lei o ‘eu’ ‘conheceu’ o pecado, isto demonstra que o ‘eu’ surgiu quando da ofensa de Adão, pois ninguém pode transgredir a semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).

Somente Adão poderia e vendeu a humanidade como escrava ao pecado. O ‘eu’ jamais poderia pecar a semelhança do pecado de Adão, antes o ‘eu’ surgiu do pecado de Adão.

A humanidade conheceu o pecado por causa da ofensa de Adão, visto que todos são gerados em iniquidade e concebidos em pecado. O ‘eu’ não possuía autonomia para ‘conhecer’ o pecado, antes ‘conheceu’ o pecado por ser descendente da carne de Adão.

Enquanto os judeus acreditavam que os homens eram pecadores por não serem descendentes de Abraão e transgressores da lei de Moisés, o salmista Davi demonstra que os pecadores diante de Deus são transgressores sem causa ( Sl 25:3 ).

Sem esquecer que Paulo estava tratando com cristãos judeus e que o seu discurso tinha como tema central o Cristo crucificado, é necessário considerar que ele procurava dissuadir os que continuavam apegados à lei, como se ela fosse essencial à justificação ( Gl 5:4 ).

A concepção humana aponta que a justiça divina é proveniente da lei, como é o caso da justiça humana. ‘Sem lei não há justiça’, está é a concepção dos homens, porém, a justiça de Deus tem por base o seu eterno poder, e não a lei.

Como Deus perdoa pecados? Com base na ‘lei’ ou no seu ‘poder’? Ao curar um paralítico Jesus demonstrou que o perdão dos pecados tem como base o seu eterno poder: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico)…” ( Mc 2:10 ). O versículo não esta dizendo que Deus tem ‘autonomia’ para perdoar pecado, antes que Ele detém o poder necessário para perdoar pecado.

É por isso que João disse: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ). Ora, é através do poder de Deus que a justiça de Deus se estabelece, diferente da justiça dos homens, que têm nas leis a sua maior expressão de justiça. O perdão do pecado só ocorre quando Deus cria (Bara) o novo homem.

Qual o poder necessário para perdoar pecado? O poder de transformar homens gerados segundo a carne em filhos de Deus! Ou seja, somente tem o pecado perdoado aqueles que são recebidos por Deus na condição de filhos. Para tanto é necessário nascer de novo, da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

Os homens procuram valer suas leis através de sanções, e a lei é invocada apenas quando alguém descumpre suas prescrições. Diante de suas leis os homens clamam por justiça, mas da mesma lei criada para se fazer justiça surgem inúmeras injustiças. Elas nunca podem reparar o dano, somente tem valor punitivo.

Da justiça de Deus é preciso considerar que:

  1. Ela não é tardia, pois é aplicada quando do nascimento dos homens;
  2. Ela alcança a todos os homens, sem distinção alguma;
  3. Ela não precisa de leis, antes se aplica à natureza dos homens;
  4. Todos os homens gerados segundo a natureza de Adão foram julgados e estão debaixo de condenação;
  5. Somente os homens gerados segundo o último Adão, que é Cristo, estão livres de condenação;
  6. Ela não se vincula à moral, ao comportamento ou ao caráter, antes alcança a natureza, que é permanente;
  7. Ela é reta, e não se prende às questões de mérito ou demérito proveniente das relações humanas.

O evangelho é poder de Deus que gera homens espirituais estabelecendo a justiça de Deus. É por isso que o evangelho é descrito como semente incorruptível e através desta semente os homens tornam-se árvores de justiça, plantação do Senhor. As árvores plantadas por Deus produzem frutos bons, já as plantas que Ele não plantou produzem frutos maus. Não há como o homem gerado em Adão ser aceito por Deus, e tão pouco suas obras. Aqueles que são gerados de Deus, não são rejeitado, e tão pouco as suas obras ( Mt 15:13 ).

 

O que é ‘conhecer’ o pecado?

A palavra ‘conhecer’ na Bíblia possui dois sentidos e só o contexto pode indicar o seu real significado. Em determinados contextos a palavra ‘conhecer’ indica ‘união intima’, ‘estar ligado intimamente’ ou ‘ser participante da mesma natureza’. Quando Paulo escreveu: “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ), ou “O Senhor conhece os que são seus” ( 2Tm 2:19 ), ele demonstra que o ‘conhecimento’ de Deus vai além da ‘ciência’ de algo, ou seja, neste contexto a palavra ‘conhecer’ indica comunhão intima com o Criador ( Jo 17:11 ; Jo 17:21 – 22).

O significado mais utilizado para a palavra ‘conhecer’ é ‘saber acerca de’, ‘ter ciência de’, diferente do significado apresentado nos versículos acima. Observe como a mesma palavra é empregada com sentidos diferentes na frase seguinte: “Só conhece (saber acerca de) a concupiscência aqueles que ‘conhecem’ (união intima) o pecado, ou antes, foram conhecidos dele”.

Antes de pecar (conhecer o pecado = união intima), jamais seria possível a Adão conhecer (saber) que estava nu “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” ( Gn 3:7 ).

Quando Adão conheceu que estava nu, não havia nenhuma lei estabelecida por Deus sobre a nudez, porém, por causa da corrupção do pecado, ele constatou haver uma lei escrita em seu coração, testificando a sua consciência e os seus pensamentos, que o acusou de estar nu.

Adão encontrou em si mesmo uma lei ao reconhecer que estava nu. Ele passou a fazer naturalmente as mesmas coisas que, no futuro, seriam pertinentes à lei de Moisés, ou seja, mesmo não tendo a lei de Moisés para norteá-lo, Adão seguiu uma lei impressa em seu coração, proveniente do fruto do conhecimento do bem e do mal ( Rm 2:14 – 15).

Como Adão pecou, ou seja, ‘conheceu’ o pecado? Pela lei! Como assim? Adão conheceu o pecado pela transgressão da lei perfeita que foi dada no Éden: “De todas as árvores comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 – 17).

Através da lei o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a estar destituído da glória de Deus, separado do Criador, ou ainda, em comunhão intima com o pecado por causa da desobediência de Adão.

Paulo é enfático: a lei não é pecado, porém, através dela o homem tornou-se ‘carnal’, ‘conhecendo’ (união intima) o pecado “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei” ( Rm 7:7 ). Quando escreveu aos cristãos em Roma, Paulo não mais ‘conhecia’ o pecado, visto que esta condição se deu noutro tempo, quando ele conheceu o pecado por intermédio da lei ( Ef 2:2 e Ef 2:3 ).

Observe que o verbo ‘conhecer’ está no passado, o que indica uma situação remota e diversa da nova vida que Paulo alcançou em Cristo. Observe também que a palavra ‘conhecer’ em Rm 7:7 indica ‘união intima’ com o pecado (estar em pecado).

Para os judaizantes e alguns cristãos judeus, era absurdo o pecado ser ‘conhecido’ (união íntima) através da lei. Para eles, através da lei Deus estabeleceria a sua justiça. Após apresentar argumentos que contradiz o pensamento dos judaizantes, Paulo apresentou outro argumento: “…porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 ).

Ora, do mesmo modo que o homem soube (conheceu) por intermédio da lei que é vetado cobiçar, por intermédio da lei dada no Éden que diz: ‘…dela não comerás…’ ( Gn 2:17) o homem passou a ‘conhecer’ (união intima) o pecado (separação de Deus).

Como já demonstramos anteriormente, a concupiscência não é o pecado, antes a concupiscência é o engodo da carne sujeita ao pecado.  É algo próprio do mundo, ou seja, a existência humana ( 1Jo 2:16 – 17). Ora, quando o cristão crucifica a carne, a concupiscência também é exposta ao vitupério ( Gl 5:24 ). Os cristãos não estão entregues a concupiscências, visto que a concupiscência é pertinente aos corações incircuncisos ( Rm 1:24 ), ou seja, que não aceitaram a circuncisão de Cristo, que é o despojar da carne ( Cl 2:11 ).

As paixões desordenadas pertinentes a carne existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado que é gerado segundo Adão ( Rm 7:5 ). Quem morreu com Cristo crucificou o corpo do pecado e as suas paixões, o que leva a concluir que Paulo não mais conhecia a concupiscência pertinente a carne “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as tentações ou paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a carne pertencente ao pecado que produz tal fruto. A inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez as paixões, tentações e concupiscência da carne.

A natureza pecaminosa herdada de Adão, representada pela carne de Paulo que foi crucificada com Cristo, é que produziu a morte (separação e condenação), e para a morte (iniquidades). Em Cristo, Paulo crucificou a carne, e desta forma, as concupiscências que foram ‘conhecidas’ (saber) através da lei, também foram crucificadas ( Gl 5:24 ).

Através da lei, Paulo tomou consciência de que cobiçar era algo pertinente ao pecado. Porém, a carne surgiu pelo pecado de Adão e não depende da cobiça para estar sob condenação, ou seja, mesmo sem qualquer transgressão aparente é imputada a morte (condenação) à carne por ela ser gerada de Adão ( Sl 25:3 ). Não é a cobiça a causa do pecado (separação entre Deus e os homens), antes a causa do pecado é a desobediência de Adão.

Pela lei dada a Adão ( Gn 2:17 ) todos os homens gerados segundo a carne conheceram (uniram-se) o pecado ( Sl 51:5 ). Diferente de Adão, vieram ao mundo sob o domínio do pecado, e a lei mosaica somente evidenciou o pecado ( Rm 7:5 ), trazendo a lume a concupiscência, quando diz: “não cobiçarás”.

Analise estes dois versículos:

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei. Pois eu não conheceria a concupiscência se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 );

“Quando estávamos na carne, as paixões do pecado, realçadas pela lei, operavam em nossos membros a fim de darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ).

Não podemos perder de vista que o objetivo da argumentação do apóstolo dos gentios é levar os cristãos judeus à conclusão do verso 12: “Portanto a lei é santa, e o mandamento, justo e bom” ( Rm 7:12 ), para que não concluíssem que Paulo estava declarando que a lei é o mesmo que pecado. Paulo estava simplesmente demonstrando que a lei serviu de ‘aio’, para conduzir todos os homens a Cristo. Dentre estes homens estão inclusos principalmente os judeus, que pensavam que a lei conduzia o homem a Deus.

Ao escrever: ‘Mas eu não conheci o pecado senão pela lei…’ ( Rm 7:7 ), Paulo fez referência ao tempo em que ele estava morto em delitos e pecados ( Ef 2:5 ). Por causa da lei instituída no Éden ocorreu a queda do homem, e todos passaram a ‘conhecer’ (estar unido) ao pecado.

Se a lei perfeita instituída no Éden deu ocasião à queda de toda a humanidade, outra lei não traria liberdade, no caso, a lei de Moisés. Através da lei o homem somente soube (conhecer) que não devia cobiçar: “…porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 ).

A lei dada no Éden enfatizava o cuidado e a liberdade que há em Deus. A lei que Adão transgrediu e que trouxe o ‘conhecimento’ (união intima) do pecado enfatizava plena liberdade em Deus “…de todas as árvores comerás livremente…”. Ela continha o conhecimento necessário para que o homem obedecesse, o que demonstra o cuidado de Deus.

A lei no Éden foi dada para que o homem não atentar contra a sua própria natureza, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus. Quando foi destituído da glória de Deus estabeleceu-se a separação (pecado). Do mesmo modo que Deus não pode mentir, foi concedido, por semelhança, uma restrição ao homem, que poderia afetar a sua natureza.

 

 

‘Quem’ outrora viveu sem Lei?

“Que diremos pois? É a lei pecado? Nunca seja assim! Mas eu não conheci o pecado senão através da lei; porque também eu não tinha sido consciente da (minha) concupiscência, se a lei não dizia: “Não cobiçarás”. Mas o pecado, havendo tomado ocasião através do mandamento, operou em mim todo tipo de concupiscência; porquanto sem a lei o pecado estava morto. E eu, outrora, vivia sem lei; mas, havendo vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri. E o mandamento, o qual foi ordenado para vida, este por mim foi achado ser para morte. Porque o pecado, havendo tomado ocasião através do mandamento, me enganou, e me matou através dele (do mandamento) ( Rm 7:7 – 11) – LTT – Bíblia Literal do Texto Tradicional.

 

Para continuarmos é necessário fazermos algumas perguntas:

  1. Outrora ‘eu’ vivia sem lei – Em que período da vida de Paulo ele viveu sem lei? Paulo escreveu aos Filipenses que nasceu sob a lei ( Fl 3:5 ), o que demonstra que jamais ele viveu sem estar sob a égide da lei;
  2. ‘Vivia’ sem lei – Antes de ter um encontro com Cristo era possível o apóstolo estar vivo para Deus? Paulo mesmo disse que todos os homens (ele estava incluso neste rol), eram por natureza filhos da ira ( Ef 2:3 ), ou seja, outrora o apóstolo nunca esteve vivo, visto que estava morto em delitos e pecados, sendo por natureza filho da ira e da desobediência ( Ef 2:5 );
  3. Outrora – “Outrora” diz de um tempo remoto, passado. Quando o apóstolo Paulo utilizou a palavra ‘outrora’, ou ‘noutro tempo’, geralmente a utilizou para designar o tempo em que os homens (mortos) viviam sem Deus ( Ef 2:2 ). O contraste é claro: outrora filhos da ira e da desobediência, agora, uma nova condição em um novo tempo ( Cl 1:21 ).

Ora, como Paulo nunca viveu sem lei, segue-se que o ‘eu’ do qual ele faz referência diz de todos os homens que potencialmente ‘viveram’ em Adão. Como? Se todos os homens morreram em Adão ( Rm 5:12 ), segue-se que todos ‘viveram’ em Adão. Ou seja, o ‘eu’ que Paulo utiliza é uma figura que engloba todos os homens, judeus e gregos, sem distinção alguma, pois se todos morreram ‘em Adão’, todos viveram ‘em Adão’.

Diante do que a Bíblia afirma sobre a vida de Paulo e sobre a natureza humana, não é possível afirmar que Paulo utiliza o ‘eu’ para falar literalmente de si mesmo, visto que, Paulo nunca viveu sem lei. O ‘eu’ também não se refere a sua infância (inocência), visto que ele foi formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Não saber discernir entre o bem e o mal não exime o homem da condenação estabelecida em Adão.

Também sabemos que o pecado nunca esteve morto ou que tenha tornado à vida “…reviveu o pecado…”. A palavra ‘reviver’ aqui empregada não significa tornar a ter vida, antes a ter animo, força, como se lê de Jacó ( Gn 45:27 ).

Quando ocorreu o evento em que o pecado ‘reviveu’, e conseqüentemente o ‘eu’ morreu? A época que Paulo era criança? Quando adulto? De que modo este evento ocorreu se, segundo a lei, Paulo era fariseu?

Percebe-se que o ‘eu’ que Paulo utiliza nestes versos refere-se a Adão, onde toda a humanidade existiu potencialmente. A figura utilizada é a mesma empregada pelo escritor aos Hebreus ao dizer que Levi, que recebe dízimo, por meio de Abraão, pagou dízimo ( Hb 7:9 ; Hb 7:10).

Ora, se um pecou e todos morreram, segue-se que todos viviam em Adão. Porém, ao ser dado o mandamento “…mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerá…”, o pecado achou ocasião e todos morreram. O pecado refere-se à divisão que se estabelece entre Deus e as suas criaturas.

Como sabemos, Satanás é a primeira criatura a experimentar (o pecado) uma existência alienada da vida que há em Deus ( 1Jo 3:8 ). Antes da queda do homem o pecado já existia, porém, com a vinda do mandamento, o pecado reviveu, tomou força e alcançou todos os homens.

O mandamento ordenado no Jardim do Éden era para vida “…dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), visto que, nele continha plena liberdade e o alerta quanto às conseqüências de se comer da árvore do bem e do mal. O mandamento foi dado especificamente para preservar a vida do homem, porém, o homem achou (entendeu) que era para morte.

Por que tal entendimento? Por causa do pecado, visto que, pelo mandamento o pecado achou ocasião, enganou o homem, e através dele, o matou. Como?

Na determinação divina dada no Éden temos três aspectos:

  1. Plena Liberdade – na primeira parte do mandamento temos plena liberdade;
  2. Preservação da vida – na segunda parte um alerta solene;
  3. Condenação – na terceira parte do mandamento temos a pena imposta: separação da vida que há em Deus.

O elemento que diferencia a lei do mandamento é a pena. No mandamento temos a ordenança: “Não cobiçaras”, sem uma pena previamente imposta. Já na lei, além do mandamento “…dela não comerás…”, temos uma pena estipulada “…certamente morrerás”.

O mandamento de Deus foi dado ao homem visando proteger a vida que possuía e compartilhava de Deus. Porém, através da tentação no Éden, o homem esqueceu-se da liberdade que possuía “De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ), e aquiesceu a palavra do tentador que enfatizou a proibição “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do Jardim?” ( Gn 3:1 ).

Pelo mandamento santo, justo e bom ( Gn 2:16 ), o pecado achou ocasião e matou o homem por causa da força da lei “…certamente morrerás”, que é santa ( Rm 7:12 ). Desta exposição paulina advém a conclusão do versículo 12.

Observe que o pecado só passou a exercer domínio sobre o homem por causa da força existente na lei que estipulava: certamente morrerás.