As doutrinas de João Calvino e Jacó Armínio

As doutrinas Calvinista e Arminianista estão equivocadas, pois ambas acreditam que Deus elegeu e predestinou alguns homens para a salvação.


As doutrinas de João Calvino e Jacó Armínio

Introdução

Analisaremos os cinco pontos segundo as perspectivas das doutrinas Calvinista e Arminianista, mas antes, faz-se necessário destacar que os cinco pontos da doutrina calvinista como conhecemos foram formulados pelo Sínodo de Dort, pontos estes destacados da doutrina defendida por João Calvino.

O Sínodo foi convocado pelos estados gerais da Holanda e composto por 84 teólogos e 18 representantes seculares, para debaterem os ensinamentos de Armínio, que fez objeções à Confissão de Fé Belga.

Os Cinco Pontos do Calvinismo foram formulados em resposta a um documento apresentado ao Estado da Holanda pelos discípulos de Jacob Hermann, um professor de um seminário holandês, e esse documento ficou conhecido na história como ‘Remonstrance’ ou ‘Protesto’.

A ‘Remonstrance’ possuía cinco pontos principais, conhecidos como “Os Cinco Pontos do Arminianismo”, e em resposta a estas cinco questões principais, o Sínodo de Dort elaborou o que passou a ser denominado “Os Cinco Pontos do Calvinismo”.

 

Os cinco Pontos em debate

Arminianismo Calvinismo
Vontade Livre Total Depravação
Eleição Condicional Eleição Incondicional
Expiação Universal Expiação Limitada
A Graça pode ser Impedida Graça Irresistível
O Homem pode Cair da Graça Perseverança dos Santos

 

Com relação ao evangelho, os alunos de Armínio alegaram que a vontade do homem é ‘livre’ para escolher, ou a palavra de Deus, ou a palavra de Satanás, e o Sínodo de Dort concluiu que o homem não regenerado é absolutamente escravo de Satanás, e, por isso, totalmente incapaz de exercer sua própria vontade livremente para receber o evangelho, dependendo, portanto, da uma obra de Deus, que vivifica o homem habilitando a crer em Cristo.

Em ambos os seguimentos doutrinários há equívocos, mas o Calvinismo, neste ponto, é mais pernicioso que o Arminianismo.

Para compreender a essência dos erros destes dois seguimentos teológicos, se faz uma pequena análise da ofensa e condenação de Adão, consequentemente, da obediência e salvação em Cristo, o último Adão.

Vê-se nos argumentos apresentados durante a Reforma Protestante que os teólogos à época interpretavam a Bíblia com base em uma dualidade: Deus ‘versus’ Satanás, entretanto, a Bíblia deve ser interpretada tendo por base dois Adão (homens): Adão e Cristo.

 

Vontade Livre ‘versus’ Total Depravação

O apóstolo Paulo analisou as questões da perdição e da salvação nos seguintes termos:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Romanos 5:18 -19).

A ofensa de Adão estabeleceu o juízo, e todos os homens foram condenados, por outro lado, com um só ato de justiça, a graça foi concedida sobre todos os homens, ou seja, sem distinção alguma de nação, tribo ou língua.

Em Adão a humanidade já foi julgada e apenda com a morte, em Cristo há salvação poderosa, de modo que por uma substituição de ato, obediência pela desobediência, muitos são feitos justos.

O primeiro equívoco do Arminianismo é afirma que a vontade do homem é livre para escolher, ou a palavra de Deus, ou a de Satanás.

Analisando o Éden, a vontade de Adão era livre caso se decidisse desobedecer a Deus. A palavra de Satanás à Eva não vem ao caso, visto que Adão recebeu mandamento diretamente de Deus, e cabia a Ele como a cabeça do corpo obedecer a Deus, tanto que o casal somente descobriu que estava nu quando Adão tomou do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e comeu.

A ofensa só se consumou quando Adão comeu do fruto, e assim, com a contaminação da cabeça (Adão), o corpo (casal) se perdeu por completo.

Por causa da ofensa, todos os descendentes de Adão foram vendidos ao pecado como escravos, de modo que todos os descendentes de Adão quando entram no mundo, já entram na condição de escravos do pecado.

Em razão da ofensa, o nascimento natural, pelo qual vêm todos os homens ao mundo, tornou-se a porta larga. Ao abrir a madre, todos os homens entram no mundo sob condenação, mesmo não tendo feito escolha ou decisão alguma, e estão em um caminho largo que os conduz à morte.

Para serem salvo, Deus enviou o seu Filho Unigênito na condição de último Adão, e Ele é a porta estreita pela qual os homens devem se decidir entrar, ou seja, novo nascimento para que possam trilhar um caminho estreito que os conduzirá a Deus.

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante.” (1 Coríntios 15:45).

Hoje, o homem está no pecado porque entrou no mundo por Adão, a porta larga, e permanece neste estado sem tem feito uma escolha ou decisão, e não há uma palavra de Satanás anunciada no mundo que faz o homem ser conduzido à perdição, e sim, o caminho largo é o único meio que conduz o homem à perdição.

O homem antes da queda, e depois da queda, apesar de escravo do pecado, possui a vontade livre, mas não há a tal escolha entre a palavra de Deus e a palavra de Satanás.

A conclusão de que a salvação depende, portanto, ‘da obra de sua fé’ é outro equivoco completo, tendo em vista que não compreenderam a essência do termo ‘obra’, e nem a natureza do termo ‘fé’.

A salvação decorre de Cristo, a ‘fé’ manifesta, e que foi dada aos santos (Gálatas 3:23; Judas 1:3). Nesse sentido o termo ‘fé’, significa mensagem, verdade, querigma, doutrina, etc., de modo que a fé é anunciada, pregada aos homens (Gálatas 3:2), ao que se dá o nome de fé mutua (Romanos 1:12).

‘Sua fé’ é algo pessoal, no sentido de acreditar, crer, ter convicção, algo pertinente ao home, diferente da fé como dom de Deus, que é Cristo, a verdade anunciada.

Outra questão está relacionada ao termo ‘obra’, que devido ao trabalho de Lutero, acabou demonizada. Martinho Lutero apresentou a fé, no sentido de crer, como essencial à salvação, contrapondo a fé às exigências católicas das indulgencias para salvação, ao que se deu o nome obras.

Com o trabalho de Lutero, a essência do termo ‘obra’ perdeu-se, sendo que o termo era muito utilizado em meio à comunidade judaica à época de Jesus, principalmente nas relações senhor e servo, significando o resultado da obediência a um mandamento.

A obra só acontecia quando havia mandamento de um lado, e obediência do outro. Aristóteles bem apresenta o significado do termo à época:

“… existe uma obra, desde que haja comando de uma parte e de outra, obediência” (ARISTÓTELES, 2011, p. 25);

“… um ser que ordena e um ser que obedece” (ARISTÓTELES, op. cit., p. 20);

Crer em Cristo é uma obra? Conforme Jesus disse, sim!

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (João 6:29).

Crer em Cristo é a obra da fé, pois a fé anunciada aos homens constitui-se mandamento de Deus que os homens devem obedecer para serem salvos.

“Lembrando-nos sem cessar da obra da vossa fé, do trabalho do amor, e da paciência da esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai,” (1 Tessalonicenses 1:3).

Portanto, a salvação depende da obra da fé, que é crer no enviado de Deus, e não da obra da sua fé, que é a crença divorciada do mandamento de Deus, como indulgências, sacrifícios, esmolas, etc. A salvação é por meio do dom de Deus, a fé pela qual o justo viverá, ou seja, a palavra que sai da boca de Deus (Deuteronômio 8:3; Habacuque 2:4).

Os Arminianistas não souberam diferenciar a fé que é anunciada a todos os homens sem distinção alguma, da fé que se refere à crença dos homens.

“Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.” (Romanos 1:8)

A proposta da Vontade Livre é a essência da Bíblia, porém, a defesa formulada pelos Arminianista, equivocada.

Já o argumento da Depravação Total instituída no Sínodo de Dort é totalmente equivocada.

A Bíblia apresenta o homem como escravo do pecado, e não como escravo de Satanás. A morte é o que prendia o homens, sujeitando-os à servidão (Hebreus 2:15), de modo que a condição de pecado era determinada pela imposição (aguilhão) da morte decorrente da ofensa de Adão (1 Coríntios 15:56).

O homem pode exercer a sua vontade livremente, mas o que o torna ligado ao pecado é a lei, assim como a mulher quando ligada ao marido pela lei, e não a sua vontade livre (Romanos 7:1 -3).

Enquanto o homem viver para lei que diz: ‘certamente morrerás’, estará ligado ao pecado pela lei, pois a lei é à força do pecado. A vontade livre do homem não o livra do pecado, e sim, a sua morte para a lei. O problema do homem sob o domínio do pecado não está na sua livre vontade, mas na lei que o mantém ligado ao pecado.

“Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.” (1 Coríntios 15:56).

O homem depende do mandamento de Deus para salvar-se (Salmo 71:3), e o evangelho é mandamento: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.” (1 João 3:23), e quando o homem crê, a obra de Deus é realizada (João 6:29).

Enquanto a Bíblia enfatiza que a obra de Deus é o homem crer em Cristo, o Calvinismo apregoa que a obra de Deus é vivificar o homem para que seja habilitado a crer em Cristo.

Tem-se no conceito da Depravação Total três equívocos:

  1. a) o homem é escravo do pecado;
  2. b) é incapaz de exercer a sua própria vontade livremente, e;
  3. c) depende da obra de Deus para que possa crer.

 

Eleição Condicional versus Eleição Incondicional

Para os Arminianista a eleição é condicional, vez que acreditam que Deus escolheu aqueles que ‘pré-conheceu’. ‘Pré-conhecer’, na concepção Arminianista, é Deus saber antecipadamente quem haverá de aceitar a salvação, e assim escolhe-los, de modo que a escolha de Deus estaria condicionada a uma resposta prevista por Deus.

Os calvinistas, por sua vez, acreditam que o pré-conhecimento de Deus está relacionado ao Seu propósito ou plano, e decorre da livre vontade de Deus, sem qualquer cooperação do homem.

A doutrina calvinista da Eleição Incondicional é equivocada na sua essência, e os Arminianistas, acabaram sendo induzidos a outro erro, ao contraporem os calvinistas.

Os equívocos decorrem por três motivos:

  1. não sabem qual é o propósito eterno de Deus;
  2. desconhecem o que é ‘pré-conhecer’;
  3. desconhecem o objetivo da eleição.

Na Bíblia o proposito eterno de Deus refere-se a congregar em Cristo todas as coisas, de modo que Ele seja Primogênito entre muitos irmãos e mais elevado do que os reis da terra (Efésios 1:10; Efésios 3:11; Salmo 89:27), o Calvinismo entende que o propósito eterno de Deus é a salvação do homem.

O proposito eterno de Deus não é a salvação do homem, pois há um tempo determinado para findar a oportunidade de salvação dos homens. Como há um tempo determinado para findar a oportunidade de salvação, salvar não é o propósito eterno.

Como o proposito de Deus é eterno e, somente Deus é eterno, o propósito d’Ele foi estabelecido n’Ele mesmo, em Cristo. Para realizar o Seu propósito, Deus introduziria no mundo o seu Filho Unigênito, de modo que, quando retornasse à sua glória, alçasse a posição de Primogênito entre muitos irmãos.

Em função do propósito eterno estabelecido em Cristo, Deus criou o homem. Como o proposito de Deus foi estabelecido em Cristo, o eleito de Deus, na criação do homem havia duas alternativas:

  1. se o homem não se corrompesse, o propósito de Deus estaria firme, e;
  2. como o homem se corrompeu, o propósito de Deus permaneceu firme.

Por que o propósito permaneceu firme? Porque o propósito de Deus não se fundamenta em obras, antes n’Ele que chama.

Com a ofensa de Adão, os homens firam em uma condição imprópria para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo, que é fazê-lo primogênito entre muitos irmãos, embora ainda fosse possível fazê-lo o mais elevado do que os reis da terra.

Para introduzir o Seu Filho Unigênito no mundo, Deus elegeu a descendência de Abraão, e, na plenitude dos tempos, o Cristo veio ao mundo como o último Adão (1 Coríntios 15:45). Através de Cristo, o último Adão, todo aquele que crê conforme as Escrituras são crucificados, mortos e sepultados com Cristo, tornando-se livre da lei do pecado e da morte (Romanos 8:2).

Após ser morto e sepultado com Cristo, o homem que estava morto para Deus em delitos e pecados, ressurge com Cristo uma nova criatura, criada segundo Deus em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4:24).

Essa nova criatura gerada segundo a semente incorruptível do evangelho torna-se uma com o Pai e o Filho (João 17:21), de modo que o homem ‘conhece’ a Deus, ou antes é ‘conhecido’ d’Ele.

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gálatas 4:9).

O crente em Cristo é membro do corpo de Cristo, portanto, ‘conhece’ a Cristo, ou seja, se fez um só corpo com Ele. Somente os que são um só corpo com Cristo, ou seja, que conheceram a Deus, são eleitos para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo.

‘Estar em Cristo’ é o que concede salvação, pois não há nenhuma condenação para os que são novas criaturas (Romanos 8:1; 2 Coríntios 5:17). Concomitantemente, por estar em Cristo, o crente é eleito para ser santo e irrepreensível diante de Deus.

O termo grego προγινοσ[1] (proginosko), geralmente traduzido por ‘ter conhecimento de antemão, prever, daqueles que Deus elegeu para a salvação, predestinar’, possui uma ideia que é desprezada: estar unido (conhecendo[2]) a Deus de antemão.

Quando lemos em Romanos 8, verso 29: “Porque os que dantes conheceu…”, a ideia em pauta diz daqueles que anteriormente ‘se tornaram um com o Pai e o Filho…’, diferentemente da a ideia equivocada de que Deus anteviu o futuro para eleger ou predestinar.

Qualquer que ama a Deus é ‘conhecido’ de Deus, não no sentido de pré-conhecer, mas no sentido de se tornar um com Ele. É conhecido de Deus quem ‘dantes’ amou a Deus!

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele.” (1 Coríntios 8:3).

É equivocada a ideia de que Deus antevê o futuro, conforme alegam através da malograda ideia de que Deus é ‘presciente’. Na verdade, Deus é onisciente, ou seja, conhecedor de todas as coisas, quer do passado, presente ou futuro, de modo que, a concepção da presciência não é um atributo divino.

A ideia defendida em Romanos 8, verso 29, é diferente da ideia contida em primeira Pedro 1, verso 2: “Eleitos segundo a presciência[3] de Deus Pai…”, pois este verso apresenta a ‘presciência’ como a profecia, ou o prognóstico das Escrituras (Atos 2:23), e aquele apresenta a ideia de conhecer previamente, no sentido de se faze um com o Pai e o Filho (Gálatas 4:9).

Considerando a concepção calvinista da soberania de Deus para a salvação, a eleição visa o propósito eterno de Deus estabelecido em Cristo, e não a salvação do homem. A salvação do homem em Cristo, quando se torna um com o Pai e o Filho, é o que torna o homem eleito para ser participante do proposito eterno, que é a preeminência de Cristo em todas as coisas.

A salvação se da pela pregação do evangelho, pois no evangelho está o poder de Deus para redenção do homem. Após ser salvo por intermédio do evangelho, o novo homem por estar em Cristo (conhecer), está apto ao propósito eterno. Nesse sentido a eleição é condicional.

Ao contestar o calvinismo, os Arminianistas além de abraçarem a premissa equivocada de que a eleição possui relação com a salvação, e não considerarem nas Escrituras a questão do propósito eterno, somente substituiu a ideia calvinista da salvação segundo a soberania de Deus pela ideia da salvação segundo a presciência de Deus.

Nem os calvinistas nem os Arminianistas consideraram a eleição tendo em vista o propósito eterno de Deus, antes ambos consideraram a eleição visando à salvação do homem, sendo que um sistema doutrinário aponta para a soberania de Deus e o outro para uma presciência que não é atributo de Deus, mas uma profecia de Deus dada ao homem.

 

Expiação Universal versus Expiação Limitada

A concepção da expiação universal é equivocada, bem como a concepção da expiação limitada.

Quando lemos João 3, verso 16, temos a seguinte declaração:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16).

Jesus expôs a Nicodemos que, ao enviar o Seu Filho ao mundo, Deus não fez acepção de pessoas, pois Ele amou o mundo. Embora Deus tenha entregado o seu Filho ao mundo, só obtém vida eterna todo aquele que crê em Cristo.

A expressão ‘todo aquele’ é inclusiva, significando ‘qualquer que’. Por causa do amor de Deus o mundo todo foi agraciado com a vinda do Seu Filho unigênito, porém, a salvação eterna está ao alcance somente dos que creem em Cristo.

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens,” (Tito 2:11).

Cristo é a graça de Deus manifesta, e por meio dele qualquer homem, independentemente de tribo, nação ou língua, pode alcançar a salvação.

A proposta de Deus ao entregar o Seu Filho ao mundo é salvar os que creem pela loucura da pregação:

“Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.” (I Coríntios 1:21).

O homem só conhece a Deus, ou antes, é conhecido d’Ele, depois que ouve a palavra da verdade, o evangelho da salvação e crê.

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.” (Efésios 1:13).

Essa mesma verdade é exposta em outras palavras pelo irmão Tiago, quando ele enfatiza que os cristãos são gerados de novo pela palavra da verdade (Tiago 1:18), e que, portanto, deveriam recebe-la com mansidão, visto que pode para salvar almas (Tiago 1:21). Receber a palavra é o mesmo que ser cumpridor da palavra, diferente do ouvinte esquecido, que não cumpre. Só é bem-aventurado aquele que atenta para o evangelho, à lei perfeita da liberdade, e é perseverante, portanto, uma fazedor da obra (Tiago 1:25 e Tiago 1:4).

Certo é que Cristo morreu, mas não para salvar algumas pessoas em particular ou determinadas, antes ele morreu para salvar a todos quantos crerem.

O erro do Calvinismo é entender que Deus, na eternidade, deu ao Filho pessoas em pecado determinadas para serem salvas, sendo que na eternidade Deus estabeleceu que os que fossem gerados de novo, pela palavra da verdade, seriam como primícias das suas criaturas. As primícias é que pertencem a Cristo, pois são os eleitos de Deus para esse propósito.

Deus não elegeu pessoas determinadas, antes elegeu uma geração: a geração de Cristo. Todos os que são nascidos da semente incorruptível, que é o evangelho, fazem parte da geração eleita, povo adquirido, portanto, primícias de todas as criaturas de Deus, para o seu eterno proposito: a preeminência de Cristo.

Para a salvação em Cristo é imprescindível que o homem ouça a verdade do evangelho, pois no evangelho está o poder para a salvação, e então, crer que Jesus é o Cristo.

 

A Graça pode ser Impedida versus Graça Irresistível

Em primeiro lugar, como a graça de Deus é Cristo, e Ele trouxe salvação a todos os homens, verifica-se que não houve impedimento algum quanto à manifestação da graça de Deus.

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens,” (Tito 2:11).

Em segundo lugar, Deus quer que todos os homens se salvem,  e para isso e necessário que venham ao conhecimento da verdade do evangelho, pois sem crer no Evangelho não há salvação.

“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.” (1 Timóteo 2:4).

Assim como Adão sendo livre do pecado pode rejeitar o mandamento de Deus, homem o homem no pecado pode rejeitar o mandamento de Deus que há no evangelho.

Há algumas correções no posicionamento Arminianista a ser observado, vez que o Espírito Santo não tem a missão de levar os homens a Cristo, antes é Cristo que foi enviado como mediador para conduzir os homens a Deus. A missão do Espírito Santo é guiar o crente a toda verdade, diferente da ideia de que o Espírito Santo conduz o homem a Cristo (João 16:13).

Outro equivoco é entender que a vontade de Deus está amarrada à vontade do homem. Deus quer que todos os homens se salvem, diferentemente do Seu propósito, que não fica somente no Seu querer, antes Deus faz tudo o que lhe apraz para levar a efeito a preeminência de Cristo.

Em certo aspecto a teoria Arminianista, de que Deus concede a sua graça é verdadeira, pois se Deus não tomasse a iniciativa de enviar o seu Filho ao mundo ninguém seria salvo. A graça de Deus não induz o homem a crer n’Ele, e nem altera a sua natureza para que possa crer. Crer é capacidade inerente à natureza do homem.

O equivoco está em considerar que a fé é resultado da cooperação de Deus e do homem, o que denominam sinergismo. A fé é dom de Deus, pois se refere a Cristo, o tema da mensagem do evangelho. Mas, como a mensagem do evangelho, a fé entregue aos santos é firme, e Deus é fiel, poderoso e imutável para cumprir oque prometeu, resta ao homem confiar n’Ele, de modo que a crença do homem decorre da fé anunciada.

Quando alguém rejeita o convite do evangelho, não está resistindo o Espírito Santo de Deus como se fosse um oponente à altura, na verdade rejeitou a palavra de Cristo, que é espírito e vida. A mensagem do evangelho é espirito, concedido pela pregação da fé (Gálatas 3:2), e não podemos confundir a mensagem que é espírito, com a pessoa do Espírito Santo, como o fazem os Calvinistas.

Os Calvinistas, por sua vez, alegam que a graça de Deus não pode ser resistida pelo homem, vez que, aqueles que Deus escolheu e predestinou para serem salvos através da sua soberania, são agraciados com o dom da vida, a regeneração, o que os habilita a crer no evangelho, o que denominam monergismo.

Deste modo, os Calvinistas alegam que Deus não ignora a vontade do indivíduo suplantando-a, antes muda a orientação da sua vontade, concedendo-lhe uma graça superveniente.

Ora, considerando o posicionamento Calvinista de que é necessário o homem ser regenerado para que seja habilitado a crer, e assim, poder responder ao evangelho, crendo e ser salvo, segue-se que tal colocação é demasiadamente equivocada, pois desconsidera a verdade de que o homem morto em delitos e pecados, antes de ressurgir com Cristo, tem que ser crucificado, morrer e ser sepultado.

Dai a pergunta: Por que Deus concederia uma graça especial a um morto que, logo em seguida, tem que ser morto e sepultado? Tal proposta é descabida. O homem no pecado está morto para Deus, porém, vivo para a lei do pecado e da morte, e mesmo nessa condição a sua vontade é livre para decidir ouvir a voz do Filho de Deus (João 5:25).

O que retém o homem nessa condição é o medo da morte (Hebreus 2:16), mas quando lhe é anunciado a verdade do evangelho, em que o homem é informado que se crer em Cristo se conforma com Ele em sua morte, sendo crucificado, morto e sepultado, de modo que ressurgirá uma nova criatura para a glória de Deus Pai, como não atentar para tão grande salvação?

“Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram;” (Hebreus 2:3).

As questões que envolvem a graça de Deus são diferentes das questões que envolvem o propósito eterno de Deus. Enquanto com relação a graça o homem é livre para aceitar a mensagem da cruz, crendo em Cristo, com relação ao propósito eterno de Deus, que é Cristo preeminente sobre todas as coisas, todos que creem em Cristo são predestinados a serem conforme a imagem de Cristo.

Com relação ao propósito eterno o homem não tem com exercer escolha: se creu em Cristo, não terá outro destino a não ser conforme a imagem de Cristo, pois é assim que Ele é feito primogênito entre muitos irmãos semelhantes a Ele. Observe que a predestinação é para ser conforme a imagem de Cristo, e não para ser salvo, pois a salvação é por meio do evangelho.

 

O Homem pode Cair da Graça versus Perseverança dos Santos

As questões da perda da salvação e da perseverança dos santos decorrem de questões lógicas, tanto no Calvinismo quanto no Arminianismo.

Como o Arminianismo não crê na predestinação para salvação segundo a soberania, mas numa predestinação segundo a presciência, logo, quem exerceu a livre vontade e creu, a qualquer momento, ante um vento de doutrina, pode deixar de crer ou passar a outro evangelho, como estava passando os cristãos da Galácia.

O Calvinismo, por sua vez, como crê na predestinação para a salvação segundo a soberania de Deus, sustenta que não perderá a salvação por ser decorrente de uma eleição e predestinação. Neste ponto, por mais absurdo que pareça ao Calvinismo manter a lógica, tiveram que abraça-la, para não fazerem ruir a concepção teológica.

Deus começou a sua boa obra nos que creem concedendo um mandamento como Senhor, o evangelho, e é certo que Ele a aperfeiçoará até o dia de Cristo, quando Ele se manifestará como a cabeça da igreja, o seu corpo, formado de irmãos semelhantes a Ele, sendo Ele o primogênito.

“Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo;” (Filipenses 1:6).

É Deus quem aperfeiçoa a Sua obra por Ela ser executada em Cristo, mas a perseverança é cuidado que fica a cargo dos que creem, e não uma obra que Deus realiza.

“Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo.” (Mateus 24:13).

Cabe ao cristão ter cuidado da doutrina e de si mesmo, perseverando nela, pois disto depende a salvação de quem crê dos que ouvem o evangelho.

“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem.” (1 Timóteo 4:16).

A ideia da perseverança dos santos com apresentada pelo Calvinismo não é bíblica, pois cabe ao crente perseverar na doutrina para ter tanto o Pai como o Filho.

“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho.” (2 João 1:9).

O apóstolo Pedro se preocupava com aqueles que, sendo enganados, abandonassem a crença em Cristo.

“Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza;” (2 Pedro 3:17).

Os Calvinistas alegam que, caso alguém descaia, que o tal não era eleito e nem predestinado, pois se fosse, mesmo que abandone a verdade do evangelho, Deus o fará voltar porque está predestinado a ser salvo.

 

Eleição e predestinação para salvação

Conforme o exposto, a diferença crucial entre o Arminianismo e o Calvinismo se resume nas palavras soberania e livre-arbítrio. Enquanto os Calvinistas entendem que Deus opera a salvação na vida do homem conforme a sua livre e soberana vontade, os Arminianos salientam que o homem é capaz de por si só aceitar ou rejeitar a verdade do evangelho.

Entretanto, ambos os sistemas doutrinários estão equivocados, pois acreditam que Deus elegeu e predestinou alguns homens para a salvação, e a diferença entre ambos repousa em equívocos quanto à soberania e a presciência de Deus.

Primeiro porque Deus não salva ninguém porque escolheu ou predestinou, antes pela loucura da pregação. Deus elegeu e predestinou os que creem em Cristo para o seu propósito estabelecido em Cristo, e os salvos são chamados e predestinados a esse propósito, o que é completamente diferente da ideia de ser predestinado para a salvação.

Segundo, a concepção da presciência de Deus é equivocada, assim como a ideia construída sobre a soberania de Deus.

Deus não é presciente, antes é onisciente, vez que é onipresente. Ao revelar eventos futuros aos homens podemos falar em presciência, porém, Deus não precisa prever ou fazer prognóstico acerca do futuro, pois todas as coisas estão nuas e patentes aos seus olhos.

Quando dizemos que Deus é soberano, isto não quer dizer que Ele pode fazer o que quiser, mesmo tendo poder para tal. Deus é soberano por não haver quem olhe seja superior na ordem do universo, sendo Ele mesmo o criador de todas as cosias.

Mesmo sendo soberano, Deus não pode muitas coisas. Ele não pode mentir, negar a si mesmo, não cumprir a sua palavra, deixar de ser Deus, etc. Por causa da sua retidão e justiça, Deus não pode salvar quem quiser, vez que Ele sendo justo não pode justificar o ímpio. Entretanto, sendo justo e reto, Deus propôs exercer misericórdia aos que O obedecem, para que Ele seja justo e justificador dos que tem fé (creem) em Cristo.

“Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Romanos 3:26).

 

[1] “4267 προγινοσ κω proginosko de 4253 e 1097; TDNT – 1:715,119; v 1) ter conhecimento de antemão 2) prever 2a) daqueles que Deus elegeu para a salvação 3) predestinar” Dicionário bíblico Strong.

[2] “1097 γινωσ κω ginosko forma prolongada de um verbo primário; TDNT – 1:689,119; v 1) chegar a saber, vir a conhecer, obter conhecimento de, perceber, sentir 1a) tornar-se conhecido 2) conhecer, entender, perceber, ter conhecimento de 2a) entender 2b) saber 3) expressão idiomática judaica para relação sexual entre homem e mulher 4) tornar-se conhecido de, conhecer Sinônimos ver verbete 5825” Dicionário bíblico Strong.

[3] “4268 προγνω σις prognosis de 4267; TDNT – 1:715,119; n f 1) pre-conhecimento 2) presciência, prognóstico” Dicionário bíblico Strong.




O amor de Deus

03Jesus não falou do amor segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou ‘ágape’. O amor da qual Jesus fala é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15). O amor que Jesus exige é serviçal, sujeição ao seu senhorio…


O amor de Deus é condicional e não sentimental

Introdução

Qual a natureza do amor bíblico? Como entender a declaração: ‘Deus é amor’? Para essas perguntas há mil e uma respostas, inúmeros sermões, uma vastidão de livros e muitas definições, acerca do amor de Deus.

No seu livro ‘Os quatro amores’, no primeiro parágrafo da introdução[1], C. S. Lewis deixou registrado que acreditou que, no axioma ‘Deus é amor’, conforme anunciado pelo evangelista João, encontraria um caminho plano para o assunto, mas, ao que parece, pelas argumentações no seu livro, que Lewis não conseguiu encontrar um caminho plano.

Lewis deixou a Bíblia de lado e foi buscar nos termos gregos[2], que se traduzem por amor, a inspiração necessária para abordar o tema. Ele buscou nos termos στοργη (storge) afeição fraternal, φιλια (philia) amizade, έρως (eros) sexualidade e αγαπη (agapē) caridade, o conhecimento que o levou a uma concepção[3] própria do amor bíblico, e elegeu o agapē como o maior dos amores,  como uma virtude puramente cristã.

Mas, por que não se contentar com o axioma ‘Deus é amor’? Não há na Bíblia um caminho plano para o assunto?

O axioma anunciado pelo evangelista João: “… ὅτι ὁ θεὸς ἀγάπη ἐστίν” no grego ou, na língua portuguesa: “… porque Deus é amor” ou, na língua inglesa: “…because God is love” ou, em qualquer outro idioma ou dialeto, possui o mesmo valor.

O ‘agapē’, por ser escrito no grego, não é superior ao ‘love’ inglês, principalmente por causa do contexto onde é utilizado. Não é Lewis quem define o significado do amor bíblico e nem os lexicógrafos, mas, sim, o contexto onde foi utilizado.

O mesmo autor, que disse: ‘Deus é amor’, em seguida, definiu o amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nEle” (2 Jo 1:6).

Essa definição joanina será a bússola que nos conduzirá durante a análise do tema e que permitirá chegarmos a um entendimento seguro da natureza do amor de Deus para com os homens.

 

O amor dos homens para com Deus

Sobre o uso do termo amor, Jesus deixou explicito, de como amar a Deus:

“Mas, é para que o mundo saiba, que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Jesus amava a Deus, fazendo, especificamente, o que Ele ordenou e qualquer que diz amar a Deus, tem que fazer, exatamente, o que Jesus fez: obedecer a Deus!

Nesse mesmo sentido, qualquer que diz ‘amar’ a Jesus, tem que obedecer aos Seus mandamentos, pois, se não obedecer aos mandamentos de Jesus, significa que não O ama (Jo 14:21 e 23-24).

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama. não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14:23-24).

Jesus não falou do amor, segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou, ‘ágape’. O amor, do qual Jesus falou, é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam:

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15).

O amor que Jesus exige é serviçal, sujeito ao seu senhorio, conforme expresso no seu convite:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:28-30).

“E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Qualquer que se achegar a Cristo, precisa tomar sobre si o jugo de Jesus, se fazendo servo, ou seja, é o mesmo que humilhar-se a si mesmo. “E o que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar, será exaltado” (Mt 23:12).

 

O amor de Deus para com os homens

Ao fazer o que Deus manda, o homem ama a Deus e, em contra partida, o homem estará sob o amor de Deus, ou seja, sob o seu cuidado, como se lê:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

A definição do amor bíblico foi dada por Deus ao povo de Israel, por intermédio de Moisés, conforme expresso no livro do Êxodo:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Ex 20:6).

Assim, decorre de Êxodo 20, verso 6, a declaração: “Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

Os que guardam os mandamentos de Deus, são os que O amam, portanto, Deus ama os que O amam, ou seja, faz misericórdia aos que guardam o Seu mandamento.

Voltemos à definição joanina do amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

O amor de Deus está expresso em seus mandamentos e os homens, por sua vez, amam a Deus, obedecendo-O. Quando Deus dá um mandamento, há um objetivo: a obediência de um coração puro.

“Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida” (1 Tm 1:5)

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo não falou do fim da lei, antes, do objetivo do mandamento de Deus: a obediência. O termo grego τέλος (telos), traduzido por ‘fim’, na verdade significa ‘finalidade’, ‘objetivo’. O mandamento que o apóstolo Paulo destaca, refere-se à doutrina do evangelho (1 Tm 1:3).

O mandamento de Deus expressa o Seu cuidado e tem por objetivo a obediência do homem e quando a obediência ocorre, o homem estará ao abrigo do cuidado de Deus.

O leitor deve estar atento, pois, algumas vezes, os escritores bíblicos fazem referência ao amor de Deus e outras vezes, ao amor do homem. Por exemplo, neste verso da epístola de João, o amor em destaque é o do homem:

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

O amar que não remete ao medo, não diz do amor de Deus, mas, sim, do amor do homem. O amor como obediência, não tem espaço para o medo, antes a perfeita obediência lança fora o medo. O medo só vem à tona por causa da pena e, qualquer que tem medo, é porque não é um obediente perfeito.

O salmista, no Salmo 71, faz referência ao mandamento de Deus que salva, expressão do amor de Deus:

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer, continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Um exemplo de amor bíblico, ocorre no evento em que Jesus se encontra com o jovem rico. Ao amar o jovem rico, Jesus deu-lhe um mandamento: – “Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21).

Caso o jovem desse ouvidos à ordem de Cristo, teria obedecido ao Mestre. Em outras palavras, haveria amado a Cristo e seria amado por Deus. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Semelhantemente, Deus, ao amar homens de todas as tribos, povos e línguas (mundo), deu o seu Filho Unigênito, pois, em Cristo, está implícito o Seu mandamento, um mandamento que salva: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 3:23), visto que o amor de Deus é especifico:

“Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1 Jo 4:9).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos” (2 Jo 1:6).

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

O apóstolo João destaca que os cristãos só amam a Deus, porque Deus os amou primeiro: “Nós o amamos a ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:19). O amor de Deus para com a humanidade foi manifesto, quando Ele enviou o Seu Filho Unigênito ao mundo, porém, o amor de Deus foi estabelecido na fundação do mundo, uma vez que o cordeiro de Deus foi morto, desde a fundação do mundo (Ap 13:8).

Só é possível obedecer, quando há um mandamento, uma vez que, primeiro Deus deu o Seu mandamento em Cristo, daí o ‘amamos (obedecemos) a Ele, porque Ele nos amou (deu um mandamento) primeiro’.

Deus estabeleceu o seu mandamento, já na fundação do mundo. Deus não tem que provar nada e nem deu provas, antes, ‘estabeleceu’ o Seu amor, quando fundou o mundo, uma vez que o cordeiro foi morto, desde a fundação do mundo e o evidenciou aos olhos do mundo, na plenitude dos tempos, quando Cristo veio e morreu na cruz!

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

O apóstolo Paulo, ao abordar o amor de Deus, evidencia que Ele estabeleceu o seu amor para com os cristãos, no fato de Cristo ter morrido, quando ainda éramos pecadores. Os tradutores utilizam o verbo ‘provar’, para traduzir as variantes συνισταω (sunistao), συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi) [4].

A ideia de um amor que admite prova, é decorrente do humanismo, movimento cultural/filosófico que se apegou aos conceitos filosóficos platonista e aristotélico, e que, em muitos casos, deixou de lado o sentido da linguagem do homem do campo, da antiguidade, que permeava as relações aristocráticas.

 

O termo ‘ágape’

Cristo, por sua vez, ao fazer uso do termo αγαπη (agapē), não o fez, no sentido de caridade, mas, no sentido de honra. Para que o mundo soubesse que Cristo honrou o Pai, Ele fez, especificamente, o que o Pai ordenou: “Mas, é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Apesar dos estudiosos conhecerem a essência do termo grego αγαπη (agapē), quando abordam o tema ‘amor’ na Bíblia, dão um novo significado ao termo e fazem um desserviço ao evangelho. Observe:

“Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.

“agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114.

Por causa da má leitura do termo αγαπη (agapē), quando empregado nas Escrituras, surgiu a ideia de que o amor de Deus é incondicional[5], ou seja, que Deus não exige nenhum quesito para amar e nem espera reciprocidade. Por outro lado, as Escrituras apresentam o amor de Deus, em outros termos:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

O amor de Deus para com o homem é condicional, pois Ele ama aos que O amam. É condicional por haver um quesito e demanda reciprocidade. Concluir que o amor de Deus é incondicional, geralmente decorre da má leitura dos seguintes versículos:

“Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou (…) Nós o amamos a Ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:10 e 19).

“Mas, Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

Só é possível ao homem amar a Deus porque Ele amou primeiro, ou seja, se Deus não houvesse primeiramente dado um mandamento aos homens, seria impossível aos homens amarem a Deus. Daí a definição joanina:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

A essência do amor bíblico é a obediência à palavra de Deus, enquanto as elucubrações humanas entendem o amor, a partir de termos gregos e daí surgem só especulações, como: amor-doação, amor-entrega, que sai de si, em benefício do outro, capaz de doar-se, dar a vida, amor que faz tudo pelo amado, amor incondicional, amor que também é perdão, amor-caridade, misericórdia, etc.

Observe a exposição de Bancroft, acerca do amor de Deus:

“Assim como existe uma mente mais alta que a nossa, semelhantemente, existe um coração maior que o nosso. Deus não é, simplesmente, Aquele que ama; Ele é igualmente o Amor que é amado. Há uma infinita vida de sensibilidade e afeição em Deus. Deus tem sensibilidade e isso, em grau infinito. O sentimento por si só, porém, ainda não é amor. O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão…”  Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, Doutrinária e Conservadora, Editora Batista Regular, São Paulo, 2001, pág. 73.

A definição de Bancroft não passa de tergiversações e elucubrações, sem nenhuma fundamentação bíblica, pois trata o amor de Deus do ponto de vista da sensibilidade e da afeição humana.

Um exemplo claro do amor de Deus, nas Escrituras, encontramos na pessoa de Naamã, o capitão do exército do rei da Síria. Naamã não nutria nenhuma sensibilidade ou afeição pelo Deus de Israel, visto que ele nem mesmo sabia que somente em Israel havia Deus.  Ao saber que teria de mergulhar sete vezes no rio Jordão, a reação de Naamã foi de indignação.

Do mesmo modo, Deus não fez concessões e nem se sensibilizou com Naamã, por causa da sua enfermidade. Se Deus não se sensibilizou para atender aos milhares de leprosos que haviam em Israel, não seria o caso de se sensibilizar por um único homem estrangeiro (Lc 4:27).

O amor de Deus foi demonstrado por intermédio de um mensageiro do profeta, que disse: – “Vai e lava-te sete vezes no Jordão, que a tua carne será curada e ficarás purificado” (2Rs 5:10). Deus não se ocupou com o fato de Naamã ficar indignado e nem com a ideia que ele possuía acerca de Deus e do seu profeta (2Rs 5:11), mas, sim, em que se obedecesse à Sua palavra.

Deus não se sensibilizou e nem sentiu qualquer afeto pela viúva de Sarepta, de Sidom, pois, em igual situação, estavam muitas outras viúvas em Israel. Ele atendeu a viúva, por ela se dispor a atender a ordem de Deus: sustentar o profeta de Deus, mesmo não tendo recursos para fazê-lo: “Levanta-te e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente” (1Rs 17:9).

Devemos conhecer (tornar um com Ele) e prosseguir em conhecer ao nosso Deus (Os 6:3), pois o que Ele requer é a obediência:

“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).

Mas, como ler o verso 16, do capítulo 3, do evangelho de João?

“Porque Deus amou ao mundo de tal[6] maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Como temos a definição joanina: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos”. (1 Jo 5:3), para compreendermos o verso 16, de João 3, temos que localizar onde está expresso o mandamento de Deus que os homens devem guardar.

Como desconhecem a natureza do amor de Deus, muitos intérpretes da Bíblia vislumbram, equivocadamente, que, no ato de Deus dar o Seu Único Filho, tem-se prova da intensidade do amor de Deus.

Considerando o texto na língua grega, verifica-se que Jesus estava explicando a Nicodemos como Deus amou o mundo: deu o Seu Filho único, o que é completamente diferente da ideia de que Deus amou intensamente o mundo. Ao dar o Seu Filho, temos como Deus amou o mundo, não um vislumbre da intensidade do amor de Deus.

“οὕτως[7] γὰρ[8] ἠγάπησεν[9] ὁ θεὸς τὸν κόσμον, ὥστε τὸν υἱὸν τὸν μονογενῆ ἔδωκεν ἵνα πᾶς ὁ πιστεύων εἰς αὐτὸν μὴ ἀπόληται ἀλλ’ ἔχῃ ζωὴν αἰώνιον” (João 3:16), Westcott and Hort.

“assim[2] Pois[1] amou[4] deus[3] o mundo, que o[2] Filho[3] único[4] deu[1], para que todo o que crê em ele não pereça mas tenha vida eterna”. Novo Testamento Interlinerar,  grego-português, Barueri, SP, SBB, 2004.

O texto, na língua grega, não tem um advérbio que modifique o sentido do verbo ἠγάπησεν (amou) intensificando-o, antes, temos um advérbio explicativo: οὕτως (deste modo, assim, desta maneira). Entretanto, apesar de não termos um advérbio que intensifique a ação do verbo, os tradutores passaram a considerar que o termo grego ἠγάπησεν (ēgapēsen), traduzido por ‘amou’, demonstra intensidade.

O termo ἠγάπησεν ocorre 12 vezes no Novo Testamento, incluindo João 3, verso 16: Marcos 10:21; Lucas 7:47; João 13:1; João 15:9; Efésios 2:4; Efésios 5:2 e 25; 2 Pedro 2:15; 1 João 4:10-11 e 19 e, em nenhuma dessas referências, o termo ἠγάπησεν denota amor com intensidade.

Vale destacar que, no capítulo 2 da carta de Paulo aos Efésios, verso 4, o apóstolo faz referência a Deus como rico em misericórdia, em virtude do seu grande amor. Mesmo fazendo referência à grandeza do amor de Deus, dimensionando-o, o apóstolo dos gentios afirma somente que Deus amou, portanto, não faz referência à ideia de intensidade.

O apóstolo Paulo ao fazer referencia aos elementos que utilizamos para dimensionar um objeto (largura, comprimento, altura e profundidade), demonstra que o amor de Deus é um conhecimento invariável e plenamente compreensível “Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” (Ef 3:18).

“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou” (Ef 2:4).

Percebe-se que os tradutores do Novo Testamento seguiram a tendência dos tradutores da Septuaginta[10], que utilizaram o termo grego αγαπαω. para verterem o termo hebraico עגב, donde a concepção de intensidade, quando da tradução do termo ἠγάπησεν, no verso em comento, possivelmente surgiu.

Se o leitor seguir a definição dada pelo evangelista João e procurar o mandamento de Deus no versículo em análise, verá que Deus deu o Seu Filho com uma finalidade: para que, qualquer (judeu ou grego) que crer em Cristo, não pereça, mas tenha a vida eterna. Em crer em Cristo está o mandamento de Deus, como se lê:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Portanto, o amor de Deus é objetivo[11]: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, como já lemos:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).


[1] “Deus é amor”, diz o apóstolo João. Quando tentei começar a escrever este livro pensei que seu axioma iria fornecer-me um caminho plano, através de todo o assunto. Estava certo de poder dizer que o amor humano só merecia ser assim chamado, naquilo em que se assemelhava àquele Amor que é Deus” Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[2]  Para os eruditos, o amor possui quatro vertentes, conforme os termos gregos utilizados para fazer referência ao amor: Storge, Eros, Philia e Ágape. Analisam o amor através da mitologia grega ou, através dos escritos de Platão (Eros) ou, procuram compreender o amor através da percepção de Aristóteles (philia), e, quando se deparam com a Bíblia, alegam que as ideias ditas cristãs devem ser analisadas através do amor ‘ágape’.

[3] “Deus é amor. De novo: “Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou” (I João 4:10). Não devemos principiar com misticismo, com o amor da criatura por Deus, ou com a maravilhosa antecipação da fruição de Deus, concedida a alguns na vida terrena. Começamos no verdadeiro inicio, com o amor, como a energia Divina. Este amor primevo é o amor-Doação. Em Deus não existe fome a ser satisfeita, apenas fartura que deseja doar. A doutrina de que Deus não tinha necessidade de criar não é uma peça de especulação acadêmica, mas essencial”. Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[4] “4921 συνισταω (sunistao) ou (fortalecido) συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi), de 4862 e 2476 (que inclui suas formas concomitantes); TDNT – 7:896, 1120, v. 1) estabelecer com, colocar no mesmo lugar, juntar ou unir 1a) permanecer com (ou próximo) 2) colocar alguém com outro 2a) apresentando-o ou introduzindo-o 2b) compreender 3) colocar junto por composição ou combinação, ensinar pela combinação e comparação 3a) mostrar, provar, estabelecer, exibir 4) colocar com, unir as partes num todo 4a) ser composto de, consistir”, Dicionário Bíblico Strong.

[5] “Mas o amor-Doação divino – o próprio Amor operando no homem – é inteiramente desinteressado e deseja o que é, simplesmente, melhor para o ente amado” Lewis, C. S., Os Quatro Amores.

[6] “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra quem nele acredita, mas tenha a vida eterna”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014.

[7] “3779 ουτω (houto) ou (diante de vogal) ουτως (houtos) de 3778; adv 1) deste modo, assim, desta maneira”, Dicionário Bíblico Strong.

[8] “1063 γαρ (gar), partícula primária; conj 1) porque, pois, visto que, então”, Dicionário Bíblico Strong.

[9] “25 αγαπαω (agapao) talvez de agan (muito) [ou cf 5689 עגב ]; TDNT 1:21,5; v 1) com respeito às pessoas 1a) receber com alegria, acolher, gostar muito de, amar ternamente 2) com respeito às coisas 2a) estar satisfeito, estar contente sobre ou com as coisas. Sinônimos, ver verbete 5914”; “05689 agab (עגב), uma raiz primitiva, grego 25 αγαπαω; DITAT, 1559; v 1) (Qal) ter afeição desordenada ou cobiça 1a) cobiça (particípio) 1b) amantes (particípio como subst)”, Dicionário Bíblico Strong.

[10] “Na LXX, agapaõ se emprega, de preferência, para traduzir o verbo heb. Ãhèb. O subs. agapè acha aqui a sua origem, ao representar o Heb. ’ah bâk. O vb. Ocorre, muito mais, frequentemente, do que o subs. ’ahèb e pode se referir, tanto a pessoas, como a coisas, e denota, em primeiro lugar, o relacionamento de seres humanos entre si, e, em segundo lugar, o relacionamento entre Deus e o homem (…) Na LXX (Septuaginta), surge diante de nós um quadro bem diferente’; phileõ, ocorre raras vezes, enquanto o vb. agapaõ, e o subs. agapè (doutra forma, quase, inteiramente, desconhecido no Gr.) se acham a cada passo. Não é possível discernir se se empregam conforme regras fixas, pois phileò (30 vezes), tal como agapaò (cerca de 263 vezes), geralmente traduz o Heb. ahèb (e.g. Gn 27:4 e segs.; 37:4 [cf. 37:3]; Is 56:10; Pv 8:17 [cf. 8:21]). Embora o Heb. tenha uma gama inteira de palavras para expressar o conceito contrário do ódio (enquanto a LXX só tem a palavra única miseõ – Inimigo, art. miseõ), tem, virtualmente, a única raiz .ahèb à sua disposição para a gama de sentimentos, que se associam com o amor. O Gr., de outro lado, tem várias raízes e palavras derivadas para expressar as várias matizes do amor: philia (38 vezes), que geralmente traduz ‘aheb, ’ahabâh, é comparativamente rara, embora philos (cerca de 181 vezes), que, geralmente, traduz rèa, embora, frequentemente, sem equivalente heb., seja mais comum na LXX”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown], 2ª ed., São Paulo, Vida Nova, 2000, págs. 114 e 121.

[11] “A névoa do subjetivismo, permeado pelo idealismo, que as concepções religiosas de nossos dias prescrevem aos seus seguidores, através do termo ‘amor’, não guarda relação com o imperativo grave e objetivo definido no N. T., como: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13)” Crispim, Claudio, in A obra que Demonstra Amor a Deus, São Paulo, NewBook, 2012, pág 78. “Tanto o amor de Deus, quanto o amor a Deus, é objetivo: Cristo é o amor de Deus e quem O obedece, O ama. Quando compreendemos o amor, segundo o proposto por Cristo e pelos apóstolos, saímos do campo do subjetivismo. O amor deixa de ter relação com o que se passa no íntimo do sujeito pensante: julgamentos, sentimentos, hábitos, paradigmas, etc., de cada indivíduo, visto que o mandamento de Deus não sofre variação”, idem, pág. 108.




Só é possível crer depois de chamado e habilitado por Deus?

Através do corpo de Cristo que foi entregue na morte, o homem percorre um novo e vivo caminho ( Hb 10:20 ), pois é morto e sepultado, para depois ressurgir um novo homem segundo a imagem daquele que O criou. Como os que ressurgem com Cristo despojaram o seu corpo através da circuncisão de Cristo (morte) e ressurgiram, o pecado já não tem domínio sobre o novo homem, assim como a morte não tem poder sobre Cristo ( Rm 6:9 ; Cl 3:11 ).


Só é possível crer depois de chamado e habilitado por Deus?

Questões históricas

A bandeira da ‘depravação total’ e da necessidade da ‘graça preveniente’ erguida pelos reformadores começou a tremular pelos idos do século III, com Santo Agostinho (354-430 d.C), o idealizador da chamada ‘graça preveniente’, ou seja, uma ‘graça’ que precede a decisão do homem, que permite ao homem exercer o seu livre arbítrio para aceitar ou rejeitar a oferta de salvação.

Jaco Armínius e Jonh Wesley afirmavam a depravação total e, acreditavam que somente a graça preveniente permitiria que os homens escolhessem a salvação “Concernente a graça e livre-arbítrio, isto é o que eu ensino conforme as Escrituras e o consentimento ortodoxo: o livre-arbítrio é incapaz de iniciar ou aperfeiçoar alguma bondade verdadeira e espiritual, sem a graça… Essa graça [prœvenit] vem antes, acompanha, e segue; anima, assiste, opera em nossa vontade, e coopera para que a nossa vontade não torne-se vã” Jaco Armínius.

As propostas entorno da graça não param por aí, ainda acrescentam não poucos adjetivos a ela, sendo que, além da graça preventiva ou precedente, surgiu também a problemática de que, se a graça poderia ser resistida (Agostinho) ou se ela somente permite, mas não assegura, a aceitação da salvação (arminianismo).

A doutrina calvinista, por sua vez, também afirma a depravação total, de que o homem não regenerado é absolutamente escravo do pecado, porém sendo totalmente incapaz de exercer sua própria vontade livremente para aceitar a salvação. Para ser salvo, por estar morto, o homem primeiro precisa ser regenerado para que possa crer em Cristo.

A depravação total, segundo a abordagem calvinista é descrita como total incapacidade, ou seja, significa que o homem é incapaz de fazer o bem, de entender o que é bom e até mesmo de desejar o que é bom. Afirma que a vontade do pecador é livre para escolher o que acha melhor, mas o que ele naturalmente pensa como melhor é não buscar ou escolher Deus. Que apesar da vontade ser livre para escolher a oferta de salvação, contudo, ela está presa pelo pecado, o que afeta seu entendimento e visão “O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso” Confissão de fé de Westminster.

Como o homem é totalmente incapaz de compreender e decidir por Cristo, surgiram outras questões agregadas, como:

a) Eleição incondicional – Deus soberanamente marcou alguns indivíduos para serem salvos;

b) Chamada eficaz ou graça irresistível – que o evangelho é um chamado geral, que invariavelmente os homens irão resistir por estarem mortos, mas que os marcados para serem salvos são chamados de uma forma diferenciada, especial (Graça Irresistível ou Vocação Eficaz), em adição ao chamado geral.

c) Expiação limitada – de que a obra redentora de Cristo é especifica para pecadores específicos, assegurando salvação para estes indivíduos e a ninguém mais.

Ambos os posicionamentos, calvinistas e arminianistas, atribuem vários adjetivos à graça de Deus e a condição do homem alienado de Deus. Tais adjetivos foram acrescentados em decorrência do posicionamento doutrinário que adotaram com relação à eleição e a predestinação.

Para afirmar que somente alguns indivíduos foram escolhidos e predestinados a serem salvos, fez-se necessário introduzir os ‘novos’ conceitos, o da depravação total (arminianismo) e o da inabilidade total (calvinismo), pois somente assim justifica-se a eleição e predestinação de alguns indivíduos para serem salvos.

De igual modo fez-se necessário adjetivar a graça de Deus, como sendo irresistível, limitada (calvinismo) e preveniente (arminianismo), pois somente desta forma justifica-se a ideia da eleição incondicional calcada na soberania divina e a eleição pela preciencia, o que justificaria a ideia da graça resistível.

Tais posicionamentos teológicos despertam alguns questionamentos quando comparados com as Escrituras e um deles é: Por que o homem pôde querer pecar enquanto estava em Deus e não pode querer se reconciliar com Ele por estar no pecado?

 

Questões lógicas e argumentativas

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:11 )

Antes de nos lançar as argumentações, faço minha as palavras do apóstolo Paulo: “Falo como homem” ( Gl 3:15 ; Rm 3:5 e 6:19 ) devido as considerações que serão tecidas com o objetivo de chegar a uma resposta.

Em primeiro lugar observe a seguinte super adjetivação do conceito de depravação total exposto na Confissão de fé de Westminster “… perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual…”. O homem perdeu ‘todo’ poder de vontade, ou perdeu ‘totalmente’ o poder de vontade?

Ao descrever o homem sob o domínio do pecado, o calvinismo descreve tal condição como sendo inabilidade total e, o arminianismo, em menor grau, de depravação total.

Descrevem a condição do homem natural como morto, sendo incapaz de ouvir, ver e entender. O homem morto é descrito como cego e surdo para as coisas espirituais. O homem natural não é descrito somente como incapaz de operar a sua própria salvação por meio de suas obras, antes é descrito como incapaz de reagir à mensagem do evangelho, ou seja, de crer na mensagem se antes Deus não regenerá-lo.

A condição do homem natural como ‘morto’ é descrito em termos gerais como:

  • Inabilidade total;
  • Incapacidade de escolher, de fazer, de entender e até mesmo de desejar o que é bom, ou seja, é incapaz de escolher o que é contrário à sua natureza;
  • Vontade livre para escolher a oferta de salvação, porém, como está presa pelo pecado, afeta o seu entendimento e visão;
  • É o mesmo que estar cego e surdo para as coisas de Deus;
  • Incapaz de reagir ao evangelho sem antes ser regenerado.

Ora, a Bíblia afirma que o homem natural está morto para Deus e, concomitantemente, vivo para o pecado. Na condição de morto para Deus o homem natural é servo do pecado, ou seja, livre da justiça e escravo do pecado ( Rm 6:20 ).

Com relação ao homem espiritual, a Bíblia afirma que ele está vivo para Deus e, concomitantemente, morto para o pecado ( Rm 6:11 ). Na condição de vivo para Deus, o homem espiritual é servo da justiça, ou seja, livre do pecado e escravo da justiça ( Rm 6:18 ).

Portanto, considerando que o homem natural, por estar morto para Deus, não pode reagir à oferta de salvação que é proposto no evangelho, da mesma forma, Adão antes da queda, por estar morto para o pecado jamais poderia ter visto, ouvido e se convencido da oferta do engano que o levou a queda.

Utilizando a mesma terminologia reformada, de que o chamado geral (evangelho) é invariavelmente resistível aos homens naturais por estarem mortos, cegos e surdos, por estar morto para o pecado Adão jamais poderia ter aquiescido a oferta da ofensa.

É inegável que Adão originalmente estava vivo para Deus e morto para o pecado, portanto, ele não estava sujeito a qualquer compulsão natural para escolher o mal, ou seja, ele estava vivo e suscetível somente às coisas de Deus. Consequentemente, ele estava morto para o pecado, ou seja, seguindo a lógica e a super adjetivação calvinista, Adão nem mesmo teria poder de querer o mal pecaminoso, considerando que ele estava de posse de todo poder de vontade quanto à qualquer bem espiritual “O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual…” Confissão de fé de Westminster.

Se o conceito de morte estabelecido pelo calvinismo significa:

  • Inabilidade total do morto no pecado para aceitar a graça segue-se que, vivo na justiça implica em inabilidade para aceitar o pecado;
  • Incapacidade de escolher o que é contrário à sua natureza (o homem natural só escolhe o mal porque a natureza é má), segue-se que Adão só poderia escolher o bem porque sua natureza era boa;
  • Vontade livre, mas presa à sua própria natureza (o homem natural é livre com a sua vontade presa pelo pecado), segue-se que, como Adão era livre, obrigatoriamente a sua vontade estava presa pela justiça);
  • Ser servo do pecado é ter o seu entendimento afetado e preso ao seu senhor, segue-se que Adão, como servo da justiça, também deveria ter a sua visão orientada por esta, e;
  • Que morto no pecado é ser cego e surdo para justiça, o vivo na justiça obrigatoriamente deve ser cego e surdo para o pecado.

O apóstolo Paulo rogou aos cristãos que compreendessem que efetivamente estavam mortos para o pecado e vivos para Deus “Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:11 ).

Neste mesmo diapasão, devemos considerar que Adão antes da queda estava efetivamente morto para o pecado e vivo para Deus.

Como ele de fato estava ‘morto’ para o pecado, visto que foi criado livre do pecado sem qualquer compulsão natural para escolher o mal, considerando os mesmos princípios que informam as doutrinas, calvinista e arminianista, que apresentam a ideia da ‘depravação total’, conclui-se que Adão era ‘santo total’.

Nesta mesma linha de argumentação, de que o homem morto para Deus e vivo para o pecado significa inabilidade total para justiça, segue-se que Adão, por estar vivo para Deus e morto para o pecado, possuía inabilidade total para o pecado.

Deste modo, conclui-se que Adão deveria ser surdo e cego para o pecado. Quando lhe foi apresentado a possibilidade de ofender a Deus desobedecendo a sua palavra, ele não podia aquiesce-la por impossibilidade decorrente do estado de morte para o pecado, antes, deveria escolher sempre o bem, segundo a sua natureza boa.

Apesar de possuir a vontade livre, para escolher a oferta de ofensa, contudo, a vontade de Adão estaria presa pela justiça, ou seja, a justiça afetaria seu entendimento e visão para não aceitar a ofensa. Adão, neste estado de graça (morto para o pecado), não teria totalmente qualquer poder de vontade quanto ao mal que acompanhava a ofensa.

Seguindo o princípio proposto na Confissão de fé de Westminster, Adão seria inteiramente adverso a esse mal e vivo na justiça, sendo incapaz de, pelo seu próprio poder, desvirtuar-se ou mesmo preparar-se para a ofensa, isto porque originalmente Adão estava morto para o pecado.

 

A ofensa foi irresistível?

Embora saibamos que o dom gratuito não é como a ofensa, pois um só ofendeu e muitos morreram, agora, através do dom a graça abundou sobre muitos ( Rm 5:15). A diferença entre o dom e a ofensa está em que, por uma ofensa veio o juízo para condenação de muitos, e o dom veio de muitas ofensas para a justificação ( Rm 5:16 ).

Porém, há um equilíbrio: por uma ofensa a morte reinou, agora muitos reinarão em vida pela justiça ( Rm 5:17 ). Um só ofendeu e trouxe o juízo sobre todos os homens, condenando-os, agora, um só obedeceu trazendo graça sobre todos os homens para salvação (aquele que crer) ( Rm 5:18 ). O desequilíbrio da desobediência de um foi desfeito pela obediência de um ( Rm 5:19 ).

Em decorrência deste equilíbrio temos a porta e o caminho largo em contraste com a porta e o caminho estreito. Temos o nascimento natural em contraste com o novo nascimento. Temos a semente corruptível com a semente incorruptível. Temos o primeiro Adão e o último Adão, etc.

De modo que, como a morte veio por Adão, a ressurreição dos mortos vem pelo último Adão, visto que todos morreram em Adão e todos serão vivificados em Cristo ( 1Co 15:21 -22). Equilíbrio total, demonstrando a justiça e equidade de Deus.

Porém, como a doutrina calvinista demonstra que, por o homem estar morto no pecado não responderá ao chamado geral, antes precisa da ‘graça irresistível’ ou, ‘da vocação eficaz’, segue-se que, como Adão estava morto para o pecado e vivo para Deus a ofensa também deveria ser irresistível.

Se o homem morto no pecado precisa da ação soberana do Espírito Santo para sobrepujar toda resistência, rebelião do coração, tornando a sua influencia irresistível, como o diz o calvinismo, Adão, por estar morto para o pecado usaria da sua liberdade para resistir o pecado e, necessariamente precisaria de um ser mais poderoso que o Espírito de Deus que tornasse a ofensa irresistível (Falo como homem).

É assente entre os calvinistas que, sem a graça irresistível o homem sempre utilizaria a sua liberdade para resistir a Deus, sendo incapaz de submeter-se a Deus. Seguindo este mesmo princípio, por Adão estar ‘completamente’ morto para o pecado, invariavelmente teria que utilizar a sua liberdade para resistir a ofensa, isto porque, é inegável que originalmente a vontade de Adão estava livre do domínio do pecado.

Se a graça irresistível é apresentada somente aos eleitos e predestinados, que os regenera, arrancando-os da morte para que possam abraçar a fé, quem arrancou Adão da Vida para que ele pudesse abraçar a ofensa?

Segundo esta doutrina, Deus é soberano e pode sobrepujar qualquer resistência humana, mais especificamente a resistência humana à salvação e, justificam tal concepção em outro ponto do calvinismo: se a doutrina da depravação humana é verdadeira, o homem nunca teria fé a não ser que a isso fosse coagido, ou seja, para eles o Espírito Santo acaba convencendo e infundindo a fé salvadora no crente.

Vejamos trecho da Confissão de Fé de Westminster:

“Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza. Ref. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7. O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder.Ref. Ec. 7:29; Col. 3: 10; Gen. 1:26 e 2:16-17 e 3:6. O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Ref. Rom. 5:6 e 8:7-8; João 15:5; Rom. 3:9-10, 12, 23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; João 6:44, 65; I Cor. 2:14; Tito 3:3-5” (Confissão de Fé de Westminster, 1999, p.23).

O que estabelece a diferença da morte para o pecado de Adão antes da queda e da morte no pecado de Adão após a queda? O conceito de morte é variável? Antes da queda o homem morto para o pecado poderia decair da sua liberdade, agora, morto para Deus não tem o mesmo poder e sorte?

O que é mais estranho nesta concepção, é que o pecado conseguiu arrebatar alguém que estava morto para ele e, com o seguinte gravame: desconsidera que o Senhor de Adão é onipotente e soberano. Embora Adão estivesse morto para o pecado, a ofensa conseguiu arrebatá-lo de Deus e, sem a devida resistência de Adão que estava de pleno poder da sua vontade e sob influência da justiça.

Ainda pior, os homens mortos no pecado, sob o domínio de um senhor que já foi vencido junto com o seu aguilhão, resistem ao poder que Deus investiu no evangelho, que por sua vez, os calvinista denominam de geral.

Como é possível conceber que um Deus onipotente precise de uma graça específica para cooptar os mortos no pecado, sendo que para aliciar Adão, que estava efetivamente morto para o pecado, não houve a necessidade de uma ‘ofensa eficaz’ que transtornasse a natureza de Adão?

Na Confissão de Fé de Westminster, ficou estipulado que Deus salva os crentes: “…iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça” Confissão de Fé de Westminster.

Embora a Bíblia demonstre que Deus dá um novo coração e um novo espírito ao homem quando da regeneração, contudo, ela não diz que Deus renova as disposições internas do indivíduo, como mente e vontade. Antes, a Bíblia demonstra que Deus respeita tais disposições, como se lê: “Se a sua oferta for holocausto de gado, oferecerá macho sem defeito; à porta da tenda da congregação a oferecerá, de sua própria vontade, perante o SENHOR” ( Lv 1:3 ); “Todavia o que está firme em seu coração, não tendo necessidade, mas com poder sobre a sua própria vontade, se resolveu no seu coração guardar a sua virgem, faz bem” ( 1Co 7:37 ); “E por isso, se o faço de boa mente, terei prêmio; mas, se de má vontade, apenas uma dispensação me é confiada” ( 1Co 9:17 ); “Porque, se há prontidão de vontade, será aceita segundo o que qualquer tem, e não segundo o que não tem” ( 2Co 8:12 ).

As considerações acerca da vontade e da liberdade do homem, inicialmente, foram formuladas por Agostinho, porém, o seu trabalho não se resumiam em questões teológicas, antes ele buscava um diálogo entre teologia e ontologia, levando-o a formular um teologia que ‘conciliasse’ a ideia da causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem.

Influenciado pelo maniqueísmo e o neoplatonismo, Agostinho buscou uma explicação para a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal. O interesse filosófico levou Agostinho a teorizar acerca da liberdade de Adão, sendo colocado por Agostinho que antes de pecar a liberdade de Adão consistia em ‘poder não pecar’ e, após a queda, tornou-se em ‘não poder não pecar’.

É corretíssimo tal pensamento, visto que, Adão pecou, o que implica dizer que Adão era livre para pecar ou não. Do mesmo modo, é corretíssimo o pensamento de que o homem sob o domínio do pecado não tem como não pecar, como se lê: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). Pecar é uma condição própria aos servos do pecado, o que nos remete a novas considerações.

 

Figuras bíblicas

Jesus utilizou a ‘servidão’ como figura para ilustrar a condição do homem sob o domínio do pecado, porém, outra figura que é utilizada para ilustrar o homem sob o pecado é a morte.

A escravidão é o sistema de subjugação humana mais terrível que a humanidade tem conhecimento, do mesmo modo que a morte é o evento mais doloroso de separação que a humanidade tem conhecimento.

Escravidão e morte são figuras excelentes para demonstrar qual é a condição e as impossibilidades do homem após a queda.

A escravidão, como figura, demonstra que a condição do homem sob o pecado é de impossibilidade de libertar-se a si mesmo. Devemos visualizar o pecado como um senhor que jamais dará a carta de alforria para os seus servos. Tal figura demonstra também que tudo que o servo do pecado produz, bem ou mal, pertencem por direito ao seu senhor, ou seja, um escravo não possui bens ou posse que lhe possa garantir a liberdade.

No entanto, por pior que fosse o regime escravagista, tal sistema jamais sobrepujava a vontade dos escravos. Do mesmo modo a Bíblia demonstra que a vontade dos homens sob o pecado é livre, uma vez que muitos procuram servir a Deus, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ). O apóstolo Paulo ao falar da sua condição sob o pecado, demonstrou que a vontade dele era fazer o bem, porém, como servia ao pecado, fazia o mal ( Rm 7:18 ).

O querer estava em Saulo, porém, o realizar o bem ele não conseguia realizar. Porque? Seria o conceito da inabilidade total? Não! Ora, a inabilidade total diz que o homem perdeu totalmente o poder da vontade, mas o apóstolo Paulo demonstra que tinha a vontade, queria fazer o bem, tinha a capacidade para avaliar que a lei era boa e o seu entendimento batalhava contra a lei dos seus membros ( Rm 7:18 , 20, 22 e 23).

Porque ele não conseguia? Ora, a figura da escravidão explica: ele não conseguia porque tudo o que ele fazia ou intentasse fazer, por direito, pertencia ao seu senhor, o pecado. Mesmo seguindo a lei, como fazia o povo de Israel, o pecado se apoderava de tudo que ele produzia. Daí a ideia de que o homem não consegue salvar-se por seu próprios meios e méritos, visto que o que produz é do pecado.

Quando o interprete não sabe diferenciar ‘poder de vontade’ do ‘poder de escolha’ dá azo à má interpretação da figura da escravidão. A inabilidade do escravo está no poder de escolha, pois a liberdade não é uma escolha possível. Porém, ainda continua de posse do seu poder de vontade, pois a vontade é ilimitada e insubjugável. O poder da vontade é ilimitado, podemos perceber esta verdade no fato de o homem não ser capaz de voar e, mesmo assim, desejar voar, já o poder de escolha restringe-se ao que é factível.

Um escravo tinha a sua vontade livre, pois sempre desejava alcançar a liberdade, embora houvesse exceções: escravos que eram postos em liberdade, mas que, de livre vontade, permaneciam a serviço do seu senhor. Porém, apesar da vontade livre, no sistema escravagista a possibilidade de escolha inexistia, pois tal poder, de libertá-lo, estava nas mãos do seu senhor.

O que era preciso para que o escravo ver-se livre de tal condição? A única saída era a morte! É por isso que o convite de Jesus ordena que o homem tome a sua própria cruz e siga-O, ou seja, para se ver livre do pecado o homem precisa morrer.

Num sistema escravagista, o que submete o escravo ao seu senhor é a lei, portanto, para o escravo se ver livre de um senhor perverso que não o liberta, somente a morte pode livra-lo da lei do seu senhor. Para ilustrar a possibilidade de o homem ser livre da lei do pecado, o apóstolo Paulo apresenta a figura da mulher ligada ao marido pela lei, ou seja, a mulher casada só é livre da lei do marido quando ele morre ( Rm 7:2 ; 1Co 15:56 ).

A mensagem do evangelho tem por alvo o intelecto do homem, buscando uma resposta da sua vontade livre, pois o seu corpo que está sob o domínio da lei, do pecado e da morte. Como semente, o evangelho é lançado ao coração dos homens que, após, ouvirem e compreendem, crendo na esperança proposta, o homem é regenerado ( Jo 1:12 ; 1Pe 1:23 ).

A Bíblia não apresenta a concepção de uma mente do pecado, antes é o corpo que pertence ao pecado. Através da figura da escravidão fica claro que os escravos eram escravizados em decorrência do corpo. Os seus corpos é que eram escravizados, visto que não há como se escravizar a mente “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” ( Rm 6:6 ).

Quando o corpo é desfeito não há mais escravidão, visto que a escravidão submete o corpo ( Rm 6:6 ). Através da circuncisão de Cristo o homem despoja-se do corpo da carne. Pelo evangelho (fé) o homem é sepultado com Cristo ( Ef 4:5 ), e por ter descansado (fé) na promessa do evangelho, ressurge através do poder de Deus ( Cl 2:11 ).

Através do corpo de Cristo que foi entregue na morte, o homem percorre um novo e vivo caminho ( Hb 10:20 ), pois é morto e sepultado, para depois ressurgir um novo homem segundo a imagem daquele que O criou. Como os que ressurgem com Cristo despojaram o seu corpo através da circuncisão de Cristo (morte) e ressurgiram, o pecado já não tem domínio sobre o novo homem, assim como a morte não tem poder sobre Cristo ( Rm 6:9 ; Cl 3:11 ).

Quando se ressurge com Cristo a morte não mais prende o homem, pois os seu aguilhão, o pecado, foi desfeito juntamente com a lei ( Rm 6:10 ; 1Co 15:56 ). Neste ponto o homem morre para o pecado e ressurge livre e de posse de uma viva esperança ( Rm 6:10 ).

Embora o homem sob o pecado não possua o poder de escolha quanto à liberdade, todavia possui o poder de escolha quanto a morrer e, é com base neste poder de escolha que a mensagem do evangelho apela ao poder da vontade do homem para que venha a morrer com Cristo, pois na morte com Cristo está a liberdade ( Rm 6:7 ).

É nesto ponto em específico que o homem precisa ter a mesma fé do crente Abraão para ser justificado, visto que, quando Abraão ofereceu o seu filho em holocausto, ele cria que Deus era poderoso para traze-lo dentre os mortos. Do mesmo modo, quando o homem toma sua cruz e segue após Cristo ( Mt 10:38 ), precisa crer do mesmo modo como creu Abraão, de que Deus é poderoso para trazê-lo dentre os mortos através da ressureição com Cristo “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé (…) E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” ( 1Co 15:14 e 17); “Mas já em nós mesmos tínhamos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos” ( 2Co 1:9 ).

É por isso que o homem natural diante da mensagem do evangelho não pode ter a sua vida sob o pecado por preciosa, visto que vai ter que dispor dela para poder alvançar a Cristo ( Mt 16:25 ).

Deste modo, a correta interpretação da morte como figura é separação ( Gn 2:17 ), indicando alienação, barreira, inimizade, distância, etc., e não indica deficiência com relação a ver e ouvir. A morte como termino das funções vitais é descrita como voltar ao pó ( Gn 3:19 ), sendo utilizada como figura para descrever a alienação do homem com relação ao seu Criador.

Quando a Bíblia aponta a condição da humanidade sob o domínio do pecado, o homem não é apresentado como sendo cego ou surdo, como se lê: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ); “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” ( Is 45:22 ).

Os termos ‘surdo’ e ‘cego’ são utilizados para com os judeus que, vendo não viam, e ouvindo não atentavam “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ); “Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” ( Is 43:8 ).

A morte, como figura, indica a condição do homem em relação a dois senhores: justiça e pecado. Enquanto o homem está vivo para ao pecado, concomitantemente, está morto para Deus. A partir do momento em que o homem morre para o pecado, passa a estar vivo para Deus.

Ou seja, a figura indica que o homem jamais pode ter amizade com Deus e ser amigo do mundo. Jamais o homem terá comunhão com a luz e as trevas ao mesmo tempo. Quando se está no pecado, o homem está livre da justiça, e quando na justiça, livre está do pecado ( Rm 6:18 e 20).

 

Conclusão

Quando Deus criou o homem concedeu-lhe o livre arbítrio (vontade livre), e a queda do homem demonstra que Deus, na sua soberania, não influenciou a vontade do homem para dissuadi-lo da sua decisão. Com a queda o homem perdeu a possibilidade de escolher a liberdade (poder de escolha), porém, como a vontade é livre, Deus por intermédio da sua palavra concede a opção de o homem reconciliar-se com Ele, desfazendo a impossibilidade que havia quanto ao poder de escolha.

Quando Deus roga aos homens, de se reconciliarem com Ele, ele demonstra que através d’Ele é possível o homem ser livre “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

Deus poderia impor a sua vontade em lugar de rogar? A resposta é clara: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ), visto que: “Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” ( 2Co 3:17 ).

Deste modo, apesar de corretíssimo o pensamento de Agostinho de que a liberdade de Adão consistia em ‘poder não pecar’ e, que após a queda tornou-se em ‘não poder não pecar’, contudo a concepção ‘depravação total’ e ‘inabilidade total’ é resultado da não diferenciação dos conceitos ‘poder de vontade’ e ‘poder de escolha’.

Enquanto a ‘inabilidade’ recaiu sobre o poder de escolha do homem, visto que a oportunidade de ser livre não era factível por ser escravo, contudo o ‘poder da vontade’ do homem é livre, tendo em vista o testemunho do apóstolo Paulo e a realidade do homem ilustrada pela figura da escravidão ( Rm 7:18 -23).




A salvação é condicionada ou incondicionada?

Se alguém oferece um copo com água a alguém com sede, que mérito há em quem bebe a água? É isto que Jesus oferece: “E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” ( Jo 7:37 ). Ora, se alguém tem sede, que venha e beba: oferta de salvação “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” ( Jo 4:14 ).


A salvação é condicionada ou incondicionada?

Introdução

A discussão acerca da salvação se é condicionada ou não se deve a uma outra: se há algum mérito em o homem crer em Cristo.

Há aqueles que negam que a salvação é concedida aqueles que ouvem a mensagem do evangelho e creem em Cristo, pois anunciam uma graça ‘especial’ dada somente a alguns indivíduos que, por meio desta graça, são ‘habilitados a crerem. Este pensamento surgiu por entenderem que, se o homem se decidir crer em Cristo somente por ouvir a mensagem do evangelho, que há mérito no homem que tornou-se um coadjuvante na salvação.

 

Convite

No Antigo Testamento a salvação é apresentada de várias formas ao povo. Dentre elas destacamos:

a) Ordem – “Olhai para mim, e sereis salvos…” ( Is 45:22 );
b) Convite – “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” ( Is 55:1 );
c) Orientação – “E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal” ( Jl 2:13 ).

O que estes versículos apresentam: uma condição a ser satisfeita pelo homem ou apontam uma necessidade intrínseca ao homem?

Os homens são concitados a se salvarem, ou a olhar para Deus que salva? Os homens são concitados a ‘virem’ às águas, ou que providenciem água para si?

No Antigo Testamento não havia a concepção de ‘promessa’ como é usual em nossos dias, pois era o bastante afirmar que alguém disse ou proferiu alguma palavra com referência ao futuro para ser aceito como verdadeiro “…onde nossas versões portuguesas dizem que alguém prometeu alguma coisa, o hebraico simplesmente afirma que alguém disse ou proferiu (‘amar, dabhar) alguma palavra com referência ao futuro…” (Promessa. In: DOUGLAS, J.D. O novo dicionário da Bíblia, t.II, p.1330).

Em nossos dias, por causa da crescente onda de mentiras, a ideia de promessa assume um significado específico. Não basta alguém declarar algo a respeito do futuro, antes deve declinar a sua palavra e dar peso a ela através de uma promessa.

Por ‘promessa’, os lexicógrafos modernos definem como ‘ato ou efeito de prometer’ ou ‘compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação’. Tal palavra tem origem no latim “promissa”, palavra derivada do plural de uma forma verbal “promissum”, cujo significado é ‘lançar, atirar longe, deixar crescer para diante, oferecer, propor, obrigar-se, etc.

A ideia grega proveniente da palavra ‘epangelia’ também não segue a concepção atual de promessa. Para os gregos a ideia de promessa vincula-se a palavra grega “epangelia” (επαγγελια) que também significa ‘anuncio’, ‘mensagem’, e deriva da mesma raiz da palavra ‘evangelho’.

Percebe-se que na antiguidade ‘anunciar’ ou transmitir uma ‘mensagem’ era o mesmo que estabelecer algo veraz. Se alguém proferisse alguma palavra com referência ao futuro, era mais que suficiente para ter a devida credibilidade.

Hoje, para dar à devida credibilidade as palavras que proferimos, é usual prometermos ou até estabelecermos um compromisso oral ou escrito de realizar um ato ou de contrair uma obrigação frente algumas testemunhas ou autoridade constituídas para este fim.

Ora, a palavra, o anúncio, a mensagem ou o que Deus proferiu a respeito do futuro é superior ao que entendemos hoje por promessa. A promessa: ‘… será salvo…’ é a palavra que Deus (aquele que não pode mentir) proferiu a respeito da salvação “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ).

A palavra proferida por Deus acerca da salvação teve por base o Cristo e foi estabelecida ‘antes dos tempos dos séculos’. Deus falou acerca da salvação e o cordeiro foi morto antes da existência dos homens, e no seu devido tempo por intermédio do evangelho é ofertada salvação a todos os homens ( Tt 1:3 ).

Quando Deus prometeu (επαγγελια) salvação, não foi imposta nenhuma condição, uma vez que aqueles que seriam salvos nem mesmo existiam. Porém, o que era necessário para levar a efeito a palavra que foi anunciada antes dos tempos dos séculos Deus providenciou: o cordeiro foi morto antes da fundação do mundo ( Ap 13:8 ).

Neste sentido não há como relacionar a promessa de salvação a algum mérito por parte do homem, pois o que era preciso para o homem ser salvo Deus providenciou antes de os homens virem à existência.

Quando Deus diz: “Olhai para mim, e sereis salvos…” ( Is 45:22 ), a sua palavra demonstra duas verdades: a) que o homem está perdido, e; b) que necessita de salvação. É por isso que Jesus disse a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 b).

A necessidade é premente a todos os homens. Todos precisam de salvação por estarem perdidos, e somente Deus pode satisfazer-lhes a necessidade.

Deus apontou aos homens a necessidade do novo nascimento, porém, o novo nascimento não é algo possível aos homens realizarem.

É possível ao homem promover um novo nascimento? Não! É impossível ao homem nascer de novo assim como é impossível ao homem fazer com que venha ao mundo um novo ser. E por que Jesus alerta Nicodemos que é necessário ao homem nascer de novo? Porque assim como é necessário a vontade do homem para vir a existência um ser segundo a carne e o sangue, para vir a existência um novo homem é necessário a vontade do homem.

Ora, o homem só nasce de novo quando nasce da água (palavra) e do Espírito (de Deus). Não há como o homem providenciar a água ou o Espírito, mas é necessário atender o chamado de Deus, quando lhe será dado um novo coração e um novo espírito que só Deus tem poder para criar ( Sl 51:10 ).

Por isso, quando lemos: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ), a mensagem deve ser entendida como um convite à salvação, e o crer na mensagem do evangelho é o essencial a salvação. Com relação a mensagem de salvação não há o que o homem possa realizar, se não descansar na promessa.

“Quem crer…”  diz de uma oferta salvadora a todos os homens que lhes preserva o arbítrio. Como oferecer salvação gratuita a todos os homens sem influenciá-los? Ora, a influencia está na mensagem que demonstra que o homem está perdido e que necessita de salvação.

Quando se lê: “Quem crer em mim, como diz as escrituras…” ( Jo 7:38 ), há muitos que entendem o ‘crer’ na mensagem do evangelho como uma obra meritória por parte do homem. No entanto, o evangelho não estabelece exigências aos homens, pois se assim fosse deixaria de ser oferta graciosa para ser um acordo entre as partes.

Para melhor compreender a oferta redentora é preciso considerar os elementos que envolveram a queda da humanidade em Adão. Quando lemos: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerá, pois no dia em que comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), percebe-se que Deus enfatizou a plena liberdade que o homem possuía em comer de todas as árvores do jardim.

Em segundo lugar, Deus alerta sobre as conseqüências em decidir-se por lançar mão do fruto da árvore do bem e do mal.

Foi concedida ao homem liberdade plena com garantias (acesso a todas as árvores), meios (árvore da vida, árvore do conhecimento do bem e do mal e toda sorte de árvores frutíferas) e o conhecimento necessário para exercício desta liberdade (restrição com as conseqüências).

Satanás ao tentar a mulher enfatizou somente a proibição: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” ( Gn 3:1 ). Onde Deus estabeleceu plena liberdade, satanás apresentou ao homem proibição.

Ou seja, quando se diz: “Quem crer em mim… ’ a ênfase do anunciado é salvação a todos os homens. Todos quantos crerem, sem exceção, serão salvos “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” ( At 2:39 ).

Quando se diz: “Quem crer…” é o mesmo que: “… a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos (judeus), e a todos os que estão longe (gentios), a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar”, ou seja, Deus não está restringindo a sua graça, antes ele manifesta a sua graça a tantos quantos forem chamados, pois o seu desejo é que ninguém se perca, mas que venham ao conhecimento da vida eterna ( 1Tm 2:4 ).

É por isso que o apóstolo Paulo disse que a graça de Deus se manifestou trazendo salvação a todos os homens ( Tt 2:11 ).

A manifesta benignidade de Deus não veio por obras de justiças realizáveis por parte do homem, mas por intermédio da sua misericórdia ( Tt 3:4 -5).

A graça de Deus foi concedida aos homens antes dos tempos eternos e manifesto através do aparecimento de Jesus, o Salvador, pois ele destruiu a morte trazendo à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho ( 2Tm 1:9 -10).

A graça foi dada em um tempo imemorial através da oferta do cordeiro, porém, tal fato tornou-se conhecido dos homens através da manifestação (aparecimento) de Cristo. Temos dois eventos distintos.

Ela foi concedida aos homens antes de virem à existência, portanto, neste aspecto é incondicional e graciosa a todos os homens. A graça de Deus é incondicional, ou seja, não depende de obras para ser alcançada.

Mas, que se dirá da fé? A salvação não necessita de fé?

 

O ‘evangelho’ versus a ‘crença’

A fé em Cristo não se compara a ideia de fé que existe em outras crenças.

A fé ou a crença dos homens resulta de um esforço próprio em acreditar em seus ídolos. Embora os ídolos nada sejam, os seus seguidores nutrem uma crença que originou-se neles mesmo “Assim que, quanto ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só” ( 1Co 8:4 ).

Os ídolos dependem da devoção (crença) de seus seguidores, uma vez que sem a ‘devida’ devoção deixariam de ser ídolos. Com relação a Deus, quer creia ou não, Deus sempre será Deus. Ele não depende da fé dos homens para existir ou para realizar os seus propósitos como é o caso dos ídolos.

Um exemplo de esforço humano em acreditar em seus deuses visualiza-se nos seguidores de Baal, quando desafiados por Elias. Eles invocaram a Baal desde a manhã até o meio-dia fazendo oferendas e retalhando os seus corpos, porém, não desistiram da crença em Baal ( 1Re 18:28 ).

Os livros de auto-ajuda apregoam uma fé em si mesmo. Confiança e persistência em realizar o que se propõe tornam-se a força motriz das realizações humanas, o que também denominam fé. Da fé procedem os desígnios dos homens e as suas realizações neste mundo: é a fé natural que o homem adquire proveniente das leis naturais que regem este mundo.

A fé para salvação não é o lançar-se no improvável, antes é certeza quanto às coisas que se esperam. A fé diz da confiança na esperança proposta, e não naquilo que não foi proposto “ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem” ( Hb 11:1 ).

Deus havia determinado ao povo de Israel que não levassem a arca da aliança para a guerra, porém, quando guerrearam contra os filisteus desobedeceram a Deus e confiaram que a arca da aliança haveria de livrá-los do inimigo “E voltando o povo ao arraial, disseram os anciãos de Israel: Por que nos feriu o SENHOR hoje diante dos filisteus? Tragamos de Siló a arca da aliança do SENHOR, e venha no meio de nós, para que nos livre da mão de nossos inimigos” ( 1Sm 4:3 ).

Ora, a confiança deles era grande, pois estavam motivados a irem à batalha e cantaram em alta voz de tal forma que a terra chegou a estremecer. A confiança deles de nada aproveitou, pois ignoraram (desprezaram) a palavra de Deus e seguiram os seus corações enganosos “E sucedeu que, vindo a arca da aliança do SENHOR ao arraial, todo o Israel gritou com grande júbilo, até que a terra estremeceu” ( 1Sm 4:5 ).

A ‘fé’ que tiveram não os salvou, pois Deus não tinha compromisso com os rebelados. Lançaram-se onde não havia promessa. O ato de lançarem-se confiados seriam vencedores indica que tinham fé, porém, a fé deles não tinha como base o firme fundamento, que é a palavra de Deus.

A definição que o escritor aos hebreus apresenta sobre a fé, demonstra que só em Deus é possível ao homem ter certeza quanto ao que se espera. A fé em Deus constitui-se em prova das coisas que não se vêem, pois é o mesmo que lançar mão da esperança proposta ( Hb 6:18 ).

Ora, quando Jesus disse: “Quem crê em mim, conforme diz as escrituras…”, temos uma oferta de salvação a todos os homens que, ao ouvirem a palavra da verdade, devem lançar mão (crer) da esperança proposta.

Há muitos tipos de fé e crenças. Muitos creem em Cristo como um ser elevado, outros como sendo um anjo de Deus. Outros acreditam que Jesus é um espírito iluminado, outros que ele não veio em carne, outros que não ressurgiu etc. De nada lhes aproveitará tal fé para a salvação, pois devem crer segundo a palavra de Deus (segundo a esperança proposta).

Em nossos dias há um pseudo-evangelho que anuncia que Deus prometeu aos que creem bens materiais, relacionamentos amorosos, sucesso profissional, vida conjugal, destaque na sociedade, etc., porém, Cristo não fez promessas específicas e pontuais acerca do dia-a-dia dos seus seguidores, pois a sua promessa é a de vida eterna “E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” ( 1Jo 2:25 ).

Como prova de fé muitos lideres solicitam contribuições, doações, votos, provas, desafios e muitos se lançam no improvável, porém, de nada lhes adiantará tamanha fé, pois não é segundo a esperança proposta.

Com relação à vida dos servos de Cristo tem-se a promessa de que Ele estará com eles todos os dias; que tudo concorrerá para o bem deles; que em tudo teriam toda a suficiência; que teriam aflição neste mundo, mas que tivessem bom ânimo. Todas as promessas de Cristo diferem completamente do que se anuncia em nossos dias.

A fé para salvação não é um sentimento, um patuá ou um talismã que o homem se apodera para manter-se unido a Deus. A fé para a salvação não é fé na fé, ou seja, não é a fé que moverá as montanhas ou propiciará salvação (a fé é naquele que remove montanhas), antes a fé para salvação é descansar em Deus que prometeu (esperança proposta) e tem poder para mover montanhas (fazer o impossível aos homens). Confiar nele equivale a descansar, a estar quieto.

Somente descansa e fica quieto aquele que constata que Deus é verdadeiro ( Sl 46:10 ). A crença por si só não faz o impossível, antes é Deus quem faz o impossível, segundo a sua palavra (esperança proposta) “E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível” ( Mt 19:26 ).

Ora, confiar em Deus é o mesmo que: obedecer, cumprir os seus mandamentos, descansar, aquietar, assentar, arrepender-se, etc.

A fé está em Cristo “…sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo” ( 2Tm 3:15 ). A fé que há em Cristo é que promove a salvação, e não a fé proveniente da concepção humana.

A fé para salvação é rendição frente à impossibilidade do homem promover a própria salvação. É descansar, entregar-se por ver que a salvação não depende e nem é promovida através de obras humanas.

Não foi o esforço de Naamã ao descer e mergulhar no rio que o livrou da lepra. Ele foi limpo da lepra segundo a palavra do profeta Eliseu.

Alguém acometido da mesma doença que Naamã poderá ir hoje ao rio Jordão crendo que, se mergulhar sete vezes ficará limpo, porém, tal confiança no mergulho no rio, ou no número de vezes a mergulhar, ou no local como propício para uma manifestação de Deus, etc, de nada aproveitará, pois as ações e nem a pretensa confiança promovem a cura.

Naamã só foi curado porque desceu ao rio segundo a palavra de Deus. Houve a multiplicação de peixes porque os discípulos lançaram a rede segundo a palavra de Jesus. Pedro andou sobre as águas porque se lançou as águas segundo a palavra de Jesus. De igual modo, o homem só é salvo quando se lança sobre a palavra de Deus anunciada por intermédio do evangelho (esperança proposta).

A salvação é incondicional no sentido de que o homem não dispunha de meios para providenciá-la. Neste sentido a cura de Naamã não dependia dele, e sim de Deus.

A salvação é incondicional por não depender de ações humanas. Deus anunciou salvação providenciando o cordeiro que foi morto antes da existência dos homens. Ou seja, quando falamos de mérito, não há mérito algum em acreditar na promessa de salvação. Não houve mérito algum em Naamã quando mergulhou no rio Jordão por sete vezes. Antes de faze-lo Naamã considerou tal ordem como um demérito.

Alguém pode argumentar que Naamã cooperou com Deus, porém, não há cooperação quando só uma das partes age. Que ação Naamã executou que o curasse? Se Naamã possuía algum mérito, porque não o demonstrou nos rios da Síria?

A cura foi realizada por Deus que é fiel a Sua palavra, bastando para a cura a obediência de Naamã. O mérito da cura é de Deus que curou!

Ocorrem duas má leituras acerta da salvação:

A) Considerar que a salvação é o resultado da cooperação entre Deus e os homens, ou que é preciso algum esforço por parte do homem, como se a salvação dependesse de uma crença do homem (condicional). Alega que a salvação é por fé, mas negam-lhe a eficácia, ao acreditar que depende do esforço do homem;

B) Por outro lado, ao dizer que a salvação é incondicional, muitos a compreendem segundo a visão calvinista e arminianista. Consideram que a salvação é o resultado de uma escolha de Deus (segundo a sua ‘soberania’ ou segundo a ideia equivocada de ‘presciência’*) de alguns homens para a salvação. Em última análise, segundo os calvinistas e os arminianistas, é o mesmo que afirmar que certos homens nunca estiveram realmente perdidos e outros nunca tiveram oportunidade de salvação.

A salvação de Deus é incondicional, pois ela se dá em Cristo “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” ( 2Co 1:20 ).

A salvação não depende da fidelidade do homem, como dizem aqueles que consideram que a salvação depende da fé ou de esforços do homem. Exigir que o homem fosse fiel a Deus sem o evangelho (da esperança proposta) é impossível.

A Bíblia demonstra que só é possível ser fiel quando se está em Cristo, diferente da ideia que propõe que o homem seja fiel a Cristo “PAULO, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus:” ( Ef 1:1 ).

A fé para salvação é ‘aguardar na esperança proposta’, ou seja, que ação, obra ou cooperação exerce quem espera que uma promessa seja cumprida? Que ação, obra ou cooperação fará quem espera naquele que é fiel ( Hb 10:23 ), que não pode mentir ( Tt 1:2 ), e é todo poder ( Jd 1:4 )?

Sem a promessa de vida eterna não há como o homem ser fiel a Deus. Somente após receber a esperança proposta no evangelho é que o homem torna-se uma nova criatura, designada fiel em Cristo.

A esperança da vida eterna (fé) vem pelo ouvir acerca da esperança proposta. Ou seja, a fé que há em Cristo é dom de Deus concedido graciosamente a todos os homens.

Só é possível ouvir (ter vida) através da palavra de Deus. É por isso que o evangelho é denominado de palavra da vida ( 1Jo 1:1 ; Fl 2:16 ) e palavra da fé ( 1Tm 4:6 ), pois promove a vida e a fé.

Para aqueles que aguardam a esperança proposta (creem) só resta batalhar pela fé (evangelho) que um dia foi dado aos santos ( Fl 1:27 ; Jd 1:3 ).

Como exemplo, caso alguém ofereça um copo com água a alguém com sede, que mérito há em beber a água? É isto que Jesus oferece: “E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” ( Jo 7:37 ). Ora, se alguém tem sede, que venha e beba: oferta de salvação.

A salvação é incondicional, pois foi providenciada por Deus e desta providência não há como o homem ser participante.

Mas, há a necessidade do homem aceitar o que Deus lhe propõe por intermédio do evangelho, crendo que Jesus é o Filho de Deus, e neste sentido há uma condição a ser satisfeita: destina-se a quem quiser beber “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” ( Jo 4:14 ).

Ora, como a salvação é para os perdidos que quiserem, torna-se inválida a concepção de que alguns homens nasceram predestinados a salvação, e que outros jamais serão salvos.

Ora, a salvação está em Deus através da esperança proposta em Cristo a todos quantos atenderem o chamado que há na mensagem do evangelho. Muitos são chamados através do evangelho, porém poucos bebem da água oferecida, que lhes daria a condição de escolhido ( Mt 22:14 ).

De igual modo, muitos são que entram pela porta larga (nascem de Adão), mais poucos que entram pela porta estreita (nascem de novo). Nem todos entraram pela porta estreita porque Jesus é o único homem gerado de Deus que não entrou pela porta larga, ou seja, que não nasceu de Adão.

Em primeiro lugar Deus providenciou salvação poderosa a todos os homens incondicionalmente, pois todos pecaram e carecem da misericórdia de Deus. Neste sentido a salvação é incondicional. pois não há nada que o homem possa fazer que possa resultar em salvação.

Em segundo lugar a salvação está condicionada a resposta do homem à mensagem do evangelho, que é poder para salvação dos que creem ( Rm 1:16 ). O homem deve descansar na esperança proposta, na oferta da água que faz saltar uma fonte para a vida eterna. Ora, não há mérito no homem quando aceita a Cristo, pois o mérito está em Deus que prometeu salvação e é fiel.

Que mérito há em confiar em que é fiel? Ora a fidelidade de Deus é a causa da confiança do homem. O mérito está n’Aquele que é fiel e prometeu, portanto, não há mérito em que descansa em sua promessa.

É um erro considerar que a primeira obra de alguém regenerado é crer. Primeiro, porque qualquer que entrou no repouso de Deus descansou de suas obras como Deus das suas ( Hb 4:10 ); Segundo, o cristão está assentado nas regiões celestiais com Cristo em Deus. Não há obras a realizar para quem está assentado ( Ef 1:3 e Ef 2:6 ); Terceiro, se não foi exigido obras quando éramos pecadores, agora que já fomos reconciliados, resta somente a sua vinda. ‘Perseverar’ é a obra perfeita que a fé realiza.

Através da perseverança o homem em Cristo torna-se maduro e completo, não tendo falta de coisa alguma ( Tg 1:3 -4), aguardando a bem-aventurança proposta a quem beber da água ofertada.

* A ‘presciência’ de Deus refere-se ao ‘conhecimento’, a ‘mensagem’ de Deus anunciada previamente pelos seus santos profetas de que Cristo seria morto na plenitude dos tempos em função do beneplácito da vontade de Deus, pois Cristo é o Cordeiro de Deus morto deste a fundação do mundo, ou seja, a ‘presciência’ ou o ‘pré-conhecimento’ diz dos eventos que se sucederam com relação à vida e morte de Cristo em conformidade com as Escrituras “E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” ( Ap 13:8 ).