É possível um crente carnal?

Toda carne é como a erva e não pode herdar o reino de Deus, mas, todo que é gerado de novo, da semente incorruptível, a palavra de Deus, permanecerá para sempre. Agora, surge a questão: É possível a alguém que crê em Cristo, conforme as Escrituras, ser carnal? É possível existir um crente carnal? É possível ser carnal, quem foi gerado da água e do espírito?


É possível um crente carnal?

“O que é nascido da carne, é carne e o que é nascido do Espírito, é espírito” (Jo 3:6)

Interpretação bíblica: nível avançado

 

Introdução

Nicodemos, um mestre em Israel, desconhecia que não tinha direito a entrar no reino dos céus e Jesus teve de ensiná-lo que, para ter direito a ver o reino dos céus, ele tinha que nascer de novo.

Nicodemos ficou sem compreender o que seria nascer de novo e especulou se era possível um homem velho voltar ao ventre materno e nascer novamente, quando Jesus lhe explicou que o novo nascimento se dá, através da água e do espírito (Jo 3:3-5).

Por que Nicodemos não podia entrar no reino dos céus? Porque “… o que é nascido da carne, é carne e o que é nascido do Espírito, é espírito”, de modo que este tem direito ao reino dos céus, mas aquele não, pois, carne e sangue não herdarão o reino dos céus.

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Co 15:50).

Ter sido gerado da carne, tornava Nicodemos carnal, consequentemente, o fato de ser carnal, impedia Nicodemos de entrar no reino dos céus. Por que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus? Porque a carne é efêmera, ou seja, não permanece para sempre.

Quando disse que ‘o que é nascido da carne, é carne’, Jesus estava enfatizando a mesma verdade anunciada pelos profetas: toda carne é erva e a sua beleza efêmera, como a flor.

Moisés deixou registrado:

“Goteje a minha doutrina como a chuva, destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como gotas de água sobre a relva” (Dt 32:2).

Como os filhos de Israel achavam que estavam em melhor condição, diante de Deus, em relação aos outros povos, por intermédio de Isaías, Deus esclarece que toda carne (homens), sem exceção (judeus e gentios), são como a erva:

“Uma voz diz: Clama e alguém disse: Que hei de clamar? Toda a carne é erva e toda a sua beleza, como a flor do campo. Seca-se a erva e cai a flor, soprando nela o Espírito do SENHOR. Na verdade, o povo é erva. Seca-se a erva e cai a flor, porém, a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” (Is 40:6-8);

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. Porque toda a carne é como a erva e toda a glória do homem, como a flor da erva. Secou-se a erva e caiu a sua flor; Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” (1 Pe 1:23-25).

Toda carne é como a erva e não pode herdar o reino de Deus, mas, todo que é gerado de novo, da semente incorruptível, a palavra de Deus, permanecerá para sempre. Agora, surge a questão: É possível a alguém que crê em Cristo, conforme as Escrituras, ser carnal? É possível existir um crente carnal? É possível ser carnal, quem foi gerado da água e do espírito?

 

Espírito

O que se entende por ‘espírito’?

Dependendo do contexto bíblico, o termo espírito é utilizado para fazer referência ao homem, como indivíduo, aos seres angelicais ou, a Deus.

Por definição, Deus é espírito (2 Co 3:17), ou seja, um ser pessoal. Da mesma forma, os seres angelicais, também, são espíritos.

A palavra espírito, também, é utilizada para contrastar o que é terreno, material, físico, de algo que é intangível e imperceptível aos sentidos humanos: realidade espiritual ou, mundo espiritual.

Em algumas passagens bíblicas, o termo ‘espírito’ é utilizado para fazer referência às condições psicológicas do indivíduo (Gn 26:35) ou, a uma habilidade especifica, etc.

Entretanto, o termo ‘espírito’, na Bíblia, é mais utilizado para se referir a uma mensagem, doutrina, pensamento, ideia, etc., do que para fazer referência a uma pessoa. Por exemplo:

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4:1)

O cristão não deve crer em toda mensagem, doutrina, pensamento, antes deve analisar se pertence a Deus ou não.

Como é purificado o homem? Pela palavra falada por Cristo.

“Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3).

Por intermédio dessas comparações e das relações entre as expressões dos versos, podemos analisar o seguinte verso:

“Purificando as vossas almas pelo Espírito, na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos, ardentemente, uns aos outros com um coração puro” (1 Pd 1:22).

Isso significa que, purificar a alma pelo ‘espírito’, é o mesmo que ser purificado pela ‘palavra de Cristo’. O meio utilizado para a purificação do homem é o evangelho e o modo é pela obediência à verdade do evangelho. O autor da purificação é Deus e o meio utilizado é a sua palavra.

“Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” (Ef 5:26);

“Então, aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

Certa vez, Jesus anunciou que a sua palavra (espírito) é o que concede vida e que a carne, para nada servia, arrematando: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6:63).

Em função dessa verdade, o apóstolo Paulo explicou que Cristo é espírito vivificante (palavra que concede vida), o último Adão, diferentemente do primeiro homem, Adão, que foi feito alma vivente (1 Co 15:45).

Ora, os crentes são limpos pela palavra que Cristo proferiu (Jo 15:3), o que nos permite compreender a declaração do apóstolo Pedro: ‘Purificando as vossas almas pelo espírito’, ou seja, pela verdade do evangelho! A purificação se dá por intermédio do evangelho, mas, para ser purificado, o homem precisa obedecer ao evangelho (mandamento de Deus), crendo que Jesus é o Cristo (1 Jo 3:23).

“E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem (Hb 5:9; 2 Ts 1:8; At 5:32).

Dependendo do contexto, percebe-se que a palavra espírito significa ou, remete, à verdade do evangelho, de modo que os apóstolos eram ministros do ‘espírito’, ou seja, do Novo Testamento (2 Co 3:6).

A santificação se dá pelo espírito, ou seja, pela ‘fé’ que é a verdade, a mesma fé que foi dada aos santos:

“Mas, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do SENHOR, por vos ter Deus eleito, desde o princípio, para a salvação, em santificação do Espírito e fé da verdade” (2 Ts 2:13; Jd 1:3; Fl 1:27; Gl 3:23).

“Porque nós, pelo Espírito da fé, aguardamos a esperança da justiça” (Gl 5:5).

O termo ‘fé’ foi utilizado pelo apóstolo para fazer referência à doutrina do evangelho como fiel, firme, verdade e não a uma crença de cunho subjetivo (Gl 1:11 e 23). ‘Espírito da fé’ é o mesmo que ‘mensagem do evangelho’, ‘mensagem de Cristo’, a fé manifesta, que é firme fundamento e torna os homens agradáveis a Deus (Hb 11:1 e 6).

Com base no que analisamos até aqui, acerca do ‘espírito’ e da ‘fé’, podemos compreender o que o apóstolo Paulo disse aos cristãos da região da Galácia:

“Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou, pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne? Será em vão, que tenhais padecido tanto? Se é que isso, também, foi em vão. Aquele, pois, que vos dá o Espírito e que opera maravilhas entre vós, fá-lo pelas obras da lei ou, pela pregação da fé?” (Gl 3:2-5).

O apóstolo queria que os cristãos explicassem como haviam recebido o Novo Testamento (espírito): pelas obras da lei ou, pela pregação da fé?

É loucura desmedida alguém começar a servir a Deus, através do Novo Testamento, e acabar voltando à carne, ou seja, servir a Deus, através das obras da lei!

Diferentemente das obras da lei, o espírito é decorrente da promessa, pois, tem por base, a Cristo, o Descendente que foi chamado em Isaque, o filho de Abraão e Sara, segundo a promessa:

“Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência. Porque a palavra da promessa é esta: por este tempo virei e Sara terá um filho” (Rm 9:7-9).

 

Carne

No grego temos o substantivo σαρξ (sarx) e os adjetivos σαρκικος (sarkikos) e σαρκινος (sarkinos), comumente traduzidos por carne e carnal. Quando empregados pelos apóstolos, no Novo Testamento, esses termos assumem vários significados, em função do contexto onde são usados.

Muitos entendem que a palavra “carnal”, tradução da palavra grega “sarkikos”, significa “mundano”, porém, esquecem que é necessário considerar o significado que o texto atribui ao termo.

“4559 σαρκικος sarkikos de 4561; TDNT – 7:98, 1000; adj 1) corpóreo, carnal 1a) que tem a natureza da carne, i.e., sob o controle dos apetites animais 1a1) governado pela mera natureza humana, não pelo Espírito de Deus 1a2) que tem sua sede na natureza animal ou, despertado pela natureza animal 1a3) humana: com a ideia implícita de depravação 1b) que pertence à carne 1b1) ao corpo: relativo ao nascimento, linhagem, etc.” Dicionário Bíblico Strong.

Por exemplo, o termo σὰρξ (carne) pode ser utilizado para fazer referência à matéria orgânica que compõe o organismo humano.

“Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lc 24:39).

O termo σὰρξ (carne), também, pode ser utilizado para fazer referência à humanidade, sem distinção de nacionalidade, língua, povo, nação, etc., pois todos os homens possuem um corpo constituído de matéria orgânica.

“E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que, do meu Espírito, derramarei sobre toda a carne (At 2:17; 1 Pd 1:24; Lc 3:6; Jo 17:2).

O termo σὰρξ (carne),  ainda, é utilizado para fazer referência à união entre o homem e a sua mulher, significando um corpo:

“Assim, não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19:6)

O mesmo termo grego σὰρξ (carne) pode ser utilizado para fazer referência ao nascimento natural, em contraste com o nascimento, segundo a promessa:

“Todavia, o que era da escrava nasceu, segundo a carne, mas, o que era da livre, por promessa” (Gl 4:23).

Ismael, filho da escrava, foi o fruto da relação sexual entre Abrão e Agar, a escrava egípcia, daí a designação: nasceu segundo a carne, ou seja, de uma relação sexual.

Isaque, filho da livre, também foi fruto da relação sexual entre Abraão e Sara, mas a diferença entre o nascimento de Ismael e de Isaque decorre do fato de Sara, mãe de Isaque, ser estéril. É em função de Deus ter anunciado ao patriarca Abraão que Ele teria um filho com Sara, que se diz que Isaque nasceu segundo a promessa, mesmo Isaque sendo fruto da conjunção carnal entre Abraão e Sara (Gn 17:16-19).

Como o homem, ao unir-se à sua mulher, ambos deixam de ser dois e tornam-se ‘uma só carne’, é dito que o nascimento natural se dá segundo a carne, ou seja, da união entre o homem e a sua mulher:

“E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher e serão dois numa só carne” (Mt 19:5).

O termo grego σὰρξ (carne), também, é utilizado para fazer referência à circuncisão, pois, como a circuncisão é realizada no prepúcio, ou como diziam: ‘na carne do prepúcio’, o termo carne passou a ser utilizado em substituição ao termo prepúcio:

“E circuncidareis a carne do vosso prepúcio; e isto será por sinal da aliança entre mim e vós (…) Com efeito, será circuncidado o nascido em tua casa e o comprado por teu dinheiro; e estará a minha aliança na vossa carne, por aliança perpétua” (Gn 17:11 e 13)

O termo σὰρξ (carne), ainda, é utilizado para fazer referência à linhagem de alguém ou, para demonstrar de quem a pessoa descende e os seus direitos:

“Sendo, pois, ele profeta e sabendo que Deus lhe havia prometido, com juramento, que do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono” (At 2:30; Rm 1:3).

Como pela ofensa de Adão o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, também, veio a morte, e a morte alcançou a todos os homens (Rm 5:12), conclui-se que todos pecaram e não tem comunhão com Deus (Rm 3:23). O que define todos os homens como pecadores é o fato de a morte ter alcançado a todos e não as ações inconvenientes dos homens, do ponto de vista da moral e do comportamento humano.

O pecado, na condição de senhor, não tem força, antes a força do pecado decorre do que está estabelecido no Éden, através de um mandamento santo, justo e bom. Pelo fato de Adão ter se vendido como escravo ao pecado, a morte afetou a natureza da humanidade, de modo que a força do pecado decorre da lei, que estabeleceu: “Certamente morrerás” (Gn 2:17; 1 Co 15:56; Rm 7:14).

O homem em sujeição ao pecado também é designado de ‘carnal’, através do adjetivo grego σαρκινος (sarkinos), pois a carne do homem, ou seja, o seu corpo, pela lei (certamente morrerás), pertence ao pecado. Enquanto o homem viver, estará ligado pela lei, ao pecado, de sorte que o seu corpo, gerado segundo a semente de Adão, pertence ao pecado. Todo descendente da carne e do sangue de Adão é carnal, pelo fato de estar sob o domínio do pecado, pois o que é nascido da carne, é carne, vendido como escravo ao pecado.

Os filhos de Jacó, por descenderem da carne de Abraão, entendiam que eram melhores do que os gentios (Rm 3:9), no entanto, Moisés, através do seu cântico, protestou contra Israel, dizendo que os filhos de Israel eram como erva e como a relva (Dt 32:2). Se os filhos de Israel foram designados erva e relva por Deus e toda carne é como a erva, certo é que os judeus também são carnais, portanto, corruptíveis como a flor do campo e, da mesma forma que os gentios, não podem herdar o reino dos céus (Is 40:6; 1 Co 15:50).

Os filhos de Israel, por serem descendência de Abraão, achavam que eram salvos, por compartilharem da carne e do sangue de Abraão. Por causa desse pensamento, o profeta Jeremias protestou contra os filhos de Jacó, pois eles fazem da carne (descendência de Abraão) o seu ‘braço’ (força, salvação), ou, em outras palavras: ‘se gloriam da carne’.

“Assim diz o SENHOR: maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

O substantivo σαρξ (sarx) e os adjetivos σαρκικος (sarkikos) e σαρκινος (sarkinos), também, são utilizados para fazer referência àqueles que, por terem Abraão por pai, confiam que são filho de Deus (Jo 8:33 e 39) e se esquecem de que, até das pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão (Mt 3:9).

O apóstolo Paulo, por servir a Deus, através do evangelho (espírito), se gloriava em Cristo, ou seja, não confiava na ‘carne’, diferentemente dos seus concidadãos que se gloriavam da carne e se escudavam nas obras da lei.

O que é confiar na ‘carne’? Servir a Deus, através de questões como circuncisão (oitavo dia), linhagem (Abraão, Isaque, Jacó), tribo (Benjamim), nacionalidade (judeu), religiosidade (fariseu), etc.

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne. Ainda que, também, podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível”  (Filipenses 3:3-6).

Os judeus achavam que eram circuncisos diante de Deus, porém, o apóstolo Paulo demonstra que não, pois a verdadeira circuncisão não é na carne (prepúcio), mas, no coração.

“Porque não é judeu o que o é, exteriormente, nem é circuncisão a que o é, exteriormente, na carne. Mas é judeu o que o é no interior e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2:28-29).

Quem serve a Deus, através da ‘carne’, pode até servir a Deus com zelo, porém, o seu serviço é sem entendimento (Rm 10:1-2; Dt 32:28). Os judeus tinham zelo da circuncisão, linhagem, tribo, lei, etc., mas tal zelo não dá direito à justiça de Deus.

O apóstolo Paulo, por sua vez, deu graças a Deus, pois, com o entendimento (conhecimento do evangelho), servia à lei de Deus, mas, qualquer que busca servir a Deus com a carne, na verdade, não serve à lei de Deus, mas, sim, serve à lei do pecado (Is 53:11).

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas com a carne, à lei do pecado” (Rm 7:25).

 

Carne ‘versus’ espírito

Mas, apesar dos mais variados usos para os termos σαρξ (sarx), σαρκικος (sarkikos) e σαρκινος (sarkinos), traduzidos por ‘carne’ e ‘carnal’, os apóstolos utilizaram tais termos para evidenciar a finalidade da lei e do evangelho, contrapondo-os.

Enquanto a finalidade da lei é conduzir o homem a Cristo, a finalidade do evangelho é revelar a justiça de Deus: Cristo!

“Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4);

“Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1 Pe 1:9; Rm 1:17).

Da mesma forma que contrapõe o ‘espírito’ que vivifica e a ‘letra’ que mata, em Romanos 2, verso 28, o apóstolo Paulo contrapõe ‘carne’ e ‘espírito’, no capítulo 8, verso 1, da epístola aos Romanos:

“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas, segundo o Espírito (Rm 8:1)

A conclusão do apóstolo Paulo, de que não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Cristo, decorre da definição de que, quem está em Cristo, é nova criatura (2 Co 5:17). E como alguém se torna nova criatura? Abraçando a verdade do evangelho, ou seja, deixando se persuadir (convencido) à fé (doutrina do evangelho) (2 Co 5:11), sendo criado, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24).

O evangelho é denominado ‘palavra da reconciliação’ (2 Co 5:19) ou, ‘ministério do espírito’ (2 Co 3:6 e 8):

“O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica (…) Como não será de maior glória o ministério do Espírito?” (2 Co 3:6);

“E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo, por Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação(2 Co 5:19).

O Novo Testamento é espírito vivificante, o que contrasta com a lei: o ministério da morte. Dai o contra ponto ‘letra’ versus ‘espírito’, pois a lei de Moisés (letra) mata, mas o espírito (evangelho) vivifica.

Não há condenação para os que estão em Cristo porque são novas criaturas, gerados de novo, segundo a semente incorruptível, ou seja, gerados do espírito, ou seja, da palavra de Deus, o evangelho (1 Pe 1:23).

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre. Porque toda a carne é como a erva e toda a glória do homem, como a flor da erva. Secou-se a erva e caiu a sua flor; Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada (1 Pe 1:23-25).

Conclui-se que os que ‘andam no espírito’ são aqueles que nasceram de novo e, que permanecem no evangelho, ou seja, aguardando inteiramente na graça que foi ofertada através da revelação de Jesus Cristo (1 Pe 1:13).

Qualquer que aguarda inteiramente na graça (evangelho), não se socorre de elementos da lei, ou seja, não se sobrecarrega de ordenanças próprias ao mundo, tal como: não proves, não toques e não manuseies.

“Se, pois, estais mortos com Cristo, quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não proves, não toques e não manuseies” (Cl 2:20-21);

“Consistindo somente em comidas, e bebidas, e várias abluções e justificações da carne, impostas até ao tempo da correção” (Hb 9:10).

Segundo a perspectiva do apóstolo Paulo, ao escrever aos Romanos, quem são os que andam segundo a carne? Os nascidos da carne, ou melhor, os escravos do pecado, visto que só podem andar no espírito, os nascidos do espírito. No entanto, o apóstolo Paulo não aborda a questão dos que andam na carne, da perspectiva de todos que nascem da união do homem com a mulher (judeus e gentios), mas, sim, trata, especificamente, daqueles que se gloriam da carne (judeus).

Vale destacar que, ao falar dos que andam na carne, o apóstolo Paulo, também, não está tratando da questão ‘carne’, sob o prisma moral ou, do comportamento humano.

O apóstolo Paulo deixa claro que a observância do mandamento do espírito de vida, que foi instituído em Cristo, é o que livra o homem da lei do pecado, ou seja, da separação (morte) entre Deus e o homem.

O que era impossível ao mandamento dado por intermédio de Moisés, por não possuir poder (domínio) sobre a carne (quem domina a carne é o pecado), Deus preparou um corpo constituído de carne ao seu Filho, semelhante em tudo aos homens, sob domínio do pecado (Hb 10:5; Hb 2:14), de modo que, ‘por causa do’[1] pecado,  condenou o pecado na sua carne (no corpo, em semelhança da carne do pecado).

O pecado é uma barreira que impede de o homem ter comunhão com Deus, mas, Cristo, pela sua carne (pelo véu) ofertada no calvário, consagrou o novo e vivo caminho pelo qual o homem volta à comunhão com Deus.

“Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10:20).

Cristo tornou-se participante de carne e sangue (corpo carnal), sujeito à morte física, para que, pela sua morte física, aniquilasse o adversário que detinha o império da morte, livrando os homens que, com medo da morte, estavam sujeitos à servidão do pecado (Hb 2:14-15).

Ora, Cristo morreu e ressurgiu, para que a justiça da lei fosse dada aos que andam segundo o evangelho, ou seja, que andam segundo o espírito vivificante. O apóstolo já havia afirmado que, no evangelho, se descobre a justiça de Deus: Jesus Cristo, a justiça de Deus, a qual os filhos de Israel não quiseram se sujeitar (Rm 1:17; Rm 10:3) e que, por isso mesmo, tornou-se pedra de tropeço às duas casas de Israel.

O homem só alcança a justiça da lei se fizer todas as coisas nela prescritas, conforme se lê:

“Ora, Moisés descreve a justiça, que é pela lei, dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas” (Rm 10:5; Gl 3:12).

“Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os, o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR” (Lv 18:5).

A lei não é o meio de se obter vida, antes, como sombra, aponta (objetivo) para Cristo (Gl 3:23; Hb 10:1), a justiça de Deus para todo o que crê (Rm 10:4).

Enquanto a lei exige que o homem observe todos os seus estatutos, a justiça que é por Cristo, a ‘fé’ manifesta na plenitude dos tempos (Gl 3:23), conforme a leitura que o apóstolo Paulo fez de Deuteronômio 30, versos 12 à 14, foi estabelecida nos seguintes termos:

“Mas, a justiça que é pela fé, diz assim: Não digas em teu coração: quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Ou: quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos” (Rm 10:6-8).

A justiça da fé refere-se ao Descendente prometido (Gl 3:8), que segundo a profecia de Moisés viria ao mundo dos homens, descendo dos céus (trazer do alto a Cristo) e que Deus haveria de tirá-Lo da sepultura, ressuscitando-O (trazer dentre os mortos a Cristo).

A justiça imputada ao crente Abraão, que consta do Gênesis, decorre da sua crença no evangelho, a mensagem anunciada por Deus, de que, em Seu Descendente, as famílias da terra seriam benditas, o que se concretizou quando o Verbo eterno desceu dos céus para habitar com os homens e, por fim, ressurgiu dentre os mortos pelo poder de Deus.

Os que existem (são) como novas criaturas, é porque estão em Cristo (2 Co 5:17), portanto, não andam segundo a carne, mas, segundo o evangelho (espírito). Já os que existem (são), segundo a carne, pensam segundo o entendimento (conhecimento) que é próprio à carne e não de acordo com o entendimento (conhecimento) segundo o espírito.

“Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito” (Rm 8:5).

Através da exposição acima, verifica-se que, na abordagem do apóstolo Paulo, o termo carne está para a lei mosaica, assim como o termo espírito está para o evangelho de Cristo, de modo que os homens que ‘existem’, segundo a carne, pensam em circuncisão, linhagem, tribo, nação, religião, sábados, festas, luas, etc., (Fl 3:5 -6) e os que existem, segundo o espírito, pensam nas coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus (Cl 3:2).

O verso 5 de Romanos 8 aponta respectivamente para as pessoas que seguem a lei e o evangelho. Já, os versos seguintes, contrapõem o pensamento dos seguidores da lei e o pensamento dos seguidores do evangelho:

“Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto, a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois, não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Rm 8:6-7).

O que é próprio à mente (inclinação) carnal é morte, enquanto que, o que é próprio à mente espiritual, é vida e paz. O modo de pensar da carne é inimizade contra Deus (inimigos no entendimento), vez que a carne não se sujeita à lei de Deus, pois lhe é impossível sujeitar-se (Cl 1:21; Rm 11:28).

Quem são os da carne que não podem agradar a Deus? Ora, os que se gloriam da carne, fazem dela a sua força (salvação) e se esquecem de Deus:

“Assim, diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem,  faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

Qualquer que confessa que ‘nunca foi escravo de ninguém’ e apresenta, como motivo, o fato de ‘ser descendente de Abraão’ ou ‘temos por pai Abraão’, na verdade são (existem) segundo a carne e se inclinam para as coisas da carne: circuncisão, lei, sábados, tribo, nação, religião, etc.  (Jo 8:33; Mt 3:9)

Os judeus estavam na carne, portanto, não se sujeitaram à justiça de Deus (Cristo) e, tampouco, podiam agradar a Deus, pois, só é possível agradar a Deus, por intermédio de Cristo: a fé manifesta aos homens.

“ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem (…) Ora, sem fé é impossível agradar-lhe” (Hb 11:1 e 6);

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar (Gl 3:23).

Pelo fato de os cristãos em Roma serem crentes em Cristo, conforme a verdade do evangelho, o apóstolo Paulo deixa claro que eles ‘não estavam na carne’, mas, sim, ‘no espírito’ (Rm 8:9). Em seguida, o apóstolo argumenta: “… se é que o Espírito de Deus habita em vós”.

O espírito, nesse contexto, diz da palavra de Deus, conforme se lê:

A palavra de Cristo habite em vós, abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao SENHOR, com graça em vosso coração” (Cl 3:16).

Percebe-se, através dessa abordagem do apóstolo Paulo, que o crente espiritual é aquele que crê em Cristo, conforme a verdade do evangelho, e não que o crente espiritual é aquele que jejua, ora, vai ao monte, faz sacrifícios, dizima, etc.

Qualquer que não tem o evangelho (espirito) de Cristo, não pertence a Deus (Rm 8:9). O apóstolo Paulo argumenta que, se Cristo habita o cristão, por causa do pecado, o seu corpo está morto, vez que foi crucificado com Cristo. Em contrapartida, vive no espírito, por causa da justiça de Deus! (Rm 8:10)

O corpo do pecado está morto vez que foi crucificado com Cristo (velho homem gerado, segundo Adão). Ao ser crucificado com Cristo o corpo do pecado é destruído, portanto, finda o domínio do pecado (Rm 6:6). É por isso que o apóstolo Paulo afirma que estava crucificado com Cristo, de modo que o seu velho homem (eu) não mais vivia, antes, Cristo vivia nele (Gl 2:20).

No verso seguinte, o apóstolo argumenta que, se a palavra (espírito) de Deus (Aquele que dentre os mortos, ressuscitou a Jesus) habita o crente, o mesmo Deus que ressuscitou a Cristo, vivificará o corpo mortal do cristão, pelo espirito (poder) que habita o crente. Não podemos esquecer que o evangelho é o poder de Deus!

Do verso 12 em diante, o apóstolo Paulo procura conscientizar os cristãos de que nada deviam à carne, para viver segundo o pensamento dela. Ora, o pensamento da carne é pertinente a quem vive no mundo, de modo que os que vivem, segundo a carne, se sobrecarregam de ordenanças como: “Não toques, não proves, não manuseies?” (Cl 2:21).

Se um crente em Cristo procurar viver segundo a carne, morrerá! Como isso é possível? Se alguém que está em Cristo buscar se circuncidar, sob o argumento de salvar-se, passa a viver segundo a carne, portanto, morrerá (At 15:1-2; Gl 5:2). Ou seja, quem busca ser justificado pelas obras da lei, volta a edificar aquilo que havia destruído! (Gl 2:18)

Este é o alerta para os que queriam viver segundo a carne:

“ESTAI, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão. Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” (Gl 5:1-4).

Os cristãos deveriam se deixar guiar pelo evangelho (Rm 8:14), o espírito de Deus, pois os que creem em Cristo, de fato, são filhos de Deus (Gl 3:26; 1 Jo 3:1-2). Ser guiado pelo espirito é o mesmo que esperar, inteiramente, na graça que se oferece na revelação de Jesus Cristo (1 Pe 1:13).

O espírito (palavra) da lei é o espirito de servidão, pois sujeita o homem ao medo, visto que não é um perfeito obediente (amor) e tem medo da pena. Quem tem medo, é porque não obedece plenamente e, com medo da pena (morte), se sujeita à servidão:

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

“E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hb 2:15).

Devemos lembrar a seguinte relação:

“Todavia, o que era da escrava, nasceu segundo a carne, mas, o que era da livre, por promessa(Gl 4:23).

A carne gera escravos e isso se depreende da alegoria que há na pessoa de Agar. Da mesma forma que Sara e Agar são alegorias das duas alianças: ‘espírito’ versus ‘carne’, ou ‘Novo Testamento’ versus ‘Velho Testamento’, entende-se que, os nascidos segundo a carne, correspondem aos judeus e o filhos da livre, à Igreja de Cristo.

Os judeus correspondem à Jerusalém que agora existe, um monte da Arábia, enquanto a Jerusalém que é de cima, que Abraão tinha esperança de alcançar, pertence aos filhos da promessa: a Igreja (Hb 11:10).

“O que se entende por alegoria; porque estas são as duas alianças; uma, do monte Sinai, gerando filhos para a servidão, que é Agar. Ora, esta Agar, é Sinai, um monte da Arábia, que corresponde à Jerusalém que agora existe, pois é escrava com seus filhos. Mas, a Jerusalém que é de cima, é livre; a qual é mãe de todos nós” (Gl 4:24-26).

Os cristãos da Galácia foram censurados pelo apóstolo Paulo, por se deixarem persuadir por outro evangelho (Gl 3:1; Gl 5:7-8). Eles haviam começado a carreira proposta por Deus no evangelho (espírito), mas, por aderirem às concepções judaizantes, estavam se aperfeiçoando nas questões da carne (Gl 3:3).

Aos cristãos da Galácia, o apóstolo Paulo contrapõe ‘obras da lei’ versus ‘pregação da fé’, da mesma forma que contrapôs ‘carne’ versus ‘espírito’, ao escrever aos cristãos de Roma (Gl 3:2 e 5).

O apóstolo estava abismado pelo fato de os cristãos terem servido a Deus em espírito, portanto, conhecendo a Deus (ou antes, sendo conhecidos d’Ele), no entanto, estavam voltando a abraçar os preceitos frágeis da lei, como guardar dias, meses e anos (Gl 4:9-10).

Os cristãos, pelo evangelho (espírito), aguardam a esperança da justiça, que provém de Cristo (Gl 5:6), a parte das obras da lei. Como a graça concedida pelo evangelho (fé) atua pela obediência (amor), voltar ao jugo da escravidão (lei) é desligar-se de Cristo (Gl 5:4).

Um pouquinho da lei corrompe a verdade do evangelho, assim como um pouquinho de fermento leveda toda massa (Gl 5:9). Como cada cristão foi chamado à liberdade, tinha que ter o cuidado de jamais dar ocasião à carne, algo semelhante ao comportamento que o apóstolo Pedro adotou, quando foi repreendido pelo apóstolo Paulo.

O apóstolo Pedro se fez repreensível, pois comia com os gentios, mas com a chegada dos judeus, se afastou dos gentios ao dissimular com os judeus, de modo que arrastou até mesmo Barnabé. A atitude do apóstolo Pedro deu ocasião à carne, ou seja, àqueles que se gloriam da carne!

Ou seja, o apóstolo Pedro, naquele momento de dissimulação, não estava andando dignamente, segundo a verdade do evangelho (Gl 2:14). Pelo fato de os cristãos serem irmãos em Cristo, não podia dar ocasião à carne, se ensoberbecendo uns contra os outros. Na verdade, deveriam ser servos uns dos outros, ou seja, considerar o outro como superior a si mesmo (Gl 5:13).

A lei se cumpre em um só mandamento: ‘Amarás o teu próximo, como a ti mesmo’ (Gl 5:14), entretanto, os cristãos da Galácia estavam se mordendo e se devorando mutuamente (Gl 5:15). Como? Alguns estavam se gloriando da circuncisão e menosprezando os da incircuncisão, em vez de se gloriarem na cruz de Cristo (Gl 6:15). E o pior: queriam circuncidar os cristãos da incircuncisão, para gloriarem-se na carne dos que se deixassem circuncidar (Gl 6:12).

É, em função desses erros doutrinários introduzidos sorrateiramente por alguns que perturbavam os cristãos, que o apóstolo Paulo os orienta a andarem no evangelho, ou seja, a procederem corretamente, segundo a verdade do evangelho. Ora, se o crente proceder segundo o evangelho, jamais satisfará as exigências da carne (Gl 5:16).

É ação e reação e não uma ação dupla! Quem anda segundo a verdade do evangelho (espírito), não satisfaz às concupiscências da carne. A reciproca, também, é verdadeira, pois quem satisfaz as concupiscências da carne, não anda segundo o espírito.

Da mesma forma que a alegoria em Sara e Agar demonstram que as duas alianças são antagônicas, de modo que o filho da escrava perseguia o filho da livre, no tempo presente a carne batalha contra o espírito e o espírito contra a carne.

Quando o apóstolo Paulo afirma: “Porque a carne cobiça contra o Espírito e o Espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis” (Gl 5:17), demonstra que o evangelho é antagônico às obras da lei e vice-versa.

Isso significa que o crente não tem que lutar contra a carne e nem contra o sangue (Gl 6:12). Muitos, ao lerem que ‘a carne milita contra o espírito’, entendem que é o crente que deve militar contra a carne, por não compreenderem a abordagem paulina.

O crente é posto para defesa da fé, ou seja, do evangelho (Jd 1:3) e isso é feito quando o crente maneja bem a palavra da verdade e não dá ocasião às inclinações da carne, ou seja, se rendendo aos preceitos fracos da lei.

A carne e o espirito militam entre si para que o crente não faça o seu próprio querer, antes, se sujeite ao espírito ou, à carne (Gl 5:17). Nessa luta, o crente não tem como figurar como soldado, pois o embate apresentado pelo apóstolo se dá entre as duas alianças.

O crente em Cristo é guiado pela palavra do evangelho (Gl 5:18), ou seja, pelo espírito, o que se conclui que não está sob a lei. O crente é gerado de novo, segundo o poder da palavra de Deus, que dá vida incorruptível, diferente da lei do mandamento carnal: “Que não foi feito segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível” (Hb 7:16).

Ao escrever aos cristãos de Éfeso, o apóstolo Paulo os alerta para que analisem como andavam: ‘não como néscios, mas como sábios’ (Ef 5:15). Os sábios são os que andam segundo o conhecimento que há no evangelho, enquanto os ‘néscios’ diz dos não entendidos, os filhos de Jacó.

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22; Dt 32:6)

O crente em Cristo não pode ser insensato, antes, deve entender a vontade de Deus em Cristo. Mas, para entender a vontade de Deus, não deve se embriagar na doutrina dos judaizantes (vinho da contenda), mas ser pleno do espírito (evangelho).

Quando o apóstolo Paulo diz que as obras da carne são conhecidas, geralmente, se interpreta o verso do ponto de vista moral, como se ele estivesse recriminando condutas contrárias à boa moral e aos bons costumes. Porém, se o leitor compreender que as obras da carne conhecidas e enumeradas, referem-se ao posicionamento dos judeus diante da lei, percebe-se que o apóstolo Paulo se utilizou de figuras.

De qual adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, que eram conhecidas, às quais o apóstolo fez referência?

A resposta depreende-se do que foi dito aos cristãos de Corinto, a respeito dos filhos de Israel:

“E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo. Mas Deus não se agradou da maior parte deles, por isso foram prostrados no deserto. E estas coisas foram-nos feitas por figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber e levantou-se para folgar. E não nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles, também, tentaram e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já é chegado os fins dos séculos” (1 Co 10:4-11).

Ao ler a lei e a história dos filhos de Israel, conhecemos quais são as obras da carne e porque eles não têm direito a herdar o reino dos céus, se não nascerem de novo (Jo 3:3-5).

É, em função das obras da carne já ‘conhecidas’, que o apóstolo Paulo disse:

“Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios, por causa de vós” (Rm 2:21-24).

O julgamento que o apóstolo Paulo faz acerca das obras da carne não é segundo a aparência, mas, sim, segundo a reta justiça, ou seja, com base no exposto nas Escrituras. São as Escrituras que designam os filhos de Israel de adúlteros, homicidas, promíscuos, idólatras, feiticeiros, etc.

“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24).

Os fariseus pareciam justos aos olhos dos homens, em função da aparência (Mt 23:28), e quando o apóstolo Paulo apresenta as obras da carne como: adúlteros, homicidas, promíscuos, idólatras, feiticeiros, etc., não o faz baseado no comportamento diário dos escribas e fariseus.

Apesar de os filhos de Israel possuírem uma moral superior à dos gentios, contudo, são apontados por Deus, nas Escrituras, como transgressores, adúlteros, homicidas, promíscuos, idólatras, feiticeiros, etc.

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto, tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1 Sm 15:23);

“Oh! se tivesse no deserto uma estalagem de caminhantes! Então, deixaria o meu povo e me apartaria dele, porque todos eles são adúlteros, um bando de aleivosos” (Jr 9:2);

“Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13);

“Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas agora (habitam) homicidas” (Is 1:21).

A lei foi instituída para os roubadores, homicidas, devassos, sodomitas, etc., ou seja, para os filhos de Israel, visto que o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei (Rm 3:19).

“Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros e para o que for contrário à sã doutrina” (1 Tm 1:10).

Como o crente não está sob a lei, pois agora pertence a Cristo, visto que crucificou a carne com as suas concupiscências, agora vive em novidade de vida em amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, etc.

Para quem pertence a Cristo não há lei, visto que foi chamado para a liberdade (Gl 5:23). O que o espírito (evangelho) proporciona (fruto) ao homem? Amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão e temperança e para essas coisas não há lei!

“Contra estas coisas não há lei” (Gl 5:23).

Se o crente vive pelo poder que há no evangelho, ou seja, no espírito, deve portar-se (andar) no espírito: não se deixando possuir de vanglória, provocando uns aos outros ou, invejando uns aos outros, por questões próprias à carne, como: circuncisão, tribo, língua, genealogia, festas, sábados, luas novas, etc.

Quando o apóstolo Paulo apresenta esses elementos: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, etc., como ‘obras da carne’, muitos pensam na depravação moral dos gentios.

Entretanto, tais obras identificam os filhos de Israel, povo que se auto intitulava povo de Deus. Inúmeras vezes, Deus chamou os filhos de Israel de adúlteros, idolatras, feiticeiros, impuros, etc. Inúmeras vezes, Deus os chamou de Sodoma e Gomorra, perversos, idólatras, feiticeiros, mancha, rebeldes, infiéis, homicidas, invejosos, altivos, etc. e, por isso, foram presenteados com a lei, nivelando os filhos de Israel com os gentios (Rm 3:9).

“Porque as nossas transgressões se multiplicaram perante ti e os nossos pecados testificam contra nós; porque as nossas transgressões estão conosco e conhecemos as nossas iniquidades; Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR, o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião e o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:12-13).

 

Má leitura

Após a releitura dos textos bíblicos que fazem referência à carne e ao espírito, resta responder à questão: existe crente carnal?

A ideia de que existe “cristão carnal” foi difundida por Lewis Sperry Chafer, através da Bíblia de Referência Scofield, quando fez um comentário à carta de Judas, com relação ao verso 23: ‘… até a roupa manchada pela carne’ (Jd 1:23).

“Carne, Resumo: “Carne no sentido ético é todo homem natural ou não regenerado – espírito, alma e corpo – centralizado no ego, inclinado a pecar e oposto a Deus (Rm 7:18). O homem regenerado não está “(na esfera da) carne, mas (na esfera do) no Espírito” (Rm 8:9); mas, a carne ainda está nele e ele pode, segundo a sua escolha, “andar na carne” ou “no Espírito” (1 Co 3:1-4; Gl 5:16-17). No primeiro caso, ele é um cristão “carnal”; no segundo, um cristão “espiritual”. A vitória sobre a carne será a experiência habitual do Cristão que anda no Espírito (Rm 8:2, 4; Gl 5:16-17).”

A carne, da qual a Bíblia trata, não possui aspecto ético. Nesse sentido, à parte da ética, o homem não regenerado é todo em pecado, ou seja, não há nele uma ‘inclinação’ para pecar, antes está no pecado, pois é escravo do pecado e, por isso, peca.

Outro equivoco de Lewis é entender que é possível ao homem estar no espírito e, ao mesmo tempo, a carne estar nele, sendo possível transitar entre o espírito e a carne. A vitória sobre a carne não é moral e nem ética e não se dá no dia a dia, antes, a vitória sobre a carne se dá quando o velho homem é crucificado com Cristo.

Com base no exposto acima, claro está que é impossível a um crente em Cristo, segundo a verdade do evangelho, ser carnal, pois seria um contra senso. Quem crê em Cristo é espiritual, pois é nascido do espírito e é impossível ser carnal, após ter sido gerado de novo. O crente espiritual jamais anda segundo a carne, ou seja, seguindo as obras da lei.

O que pode ocorrer com o cristão espiritual é não andar ‘bem’ e ‘direitamente’, conforme a verdade do evangelho, ou seja, de modo digno da vocação a que foi chamado. A dissimulação do apóstolo Pedro não era de acordo com o evangelho, porém, tal conduta não o tornava carnal e nem mesmo estava ele andando segundo a carne.

“Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente, conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gl 2:14).

A conduta do apóstolo Pedro, em não andar ‘bem’ e ‘direitamente’, segundo o evangelho, poderia se tornar um tropeço para os fracos, ou seja, para aqueles que ainda não estavam exercitados na palavra da verdade.

Outro equívoco, esse segundo a visão reformada, é a de que o homem salvo anda segundo o Espírito, como o padrão geral de sua vida, mas que, ocasionalmente, também, anda segundo a carne em áreas particulares de sua vida. Considerar os erros diários (tropeço) como sendo andar na carne não é o que as Escrituras ensinam, pois o irmão Tiago deixa claro que TODOS os cristãos, sem exceção, tropeçam em muitas coisas.

“Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito e poderoso para, também, refrear todo o corpo” (Tg 3:2).

Ser carnal ou andar segundo a carne, não possui relação com comportamentos ou desvios de conduta. Mesmo um cristão que tropeça em muitas coisas, permanece espiritual, pois a sua perfeição decorre de não tropeçar na palavra da verdade.

Há, também, quem aponte para o corpo constituído de matéria orgânica, como se a matéria fosse a carne da qual o apóstolo Paulo fala. Esse erro deriva de um pensamento platônico, e por isso, alguns cristãos se desviaram da verdade, ao anunciarem que Jesus não veio em carne (1 Jo 4:3).

O corpo humano é sujeito a emoções, sentimentos, desejos, necessidades, prazeres, etc., e não é essa gama de sensações que definem o homem como ‘carnal’, antes, é o que o torna humano. Jesus, ao vir ao mundo, veio participante de carne e sangue, sujeito às mesmas fraquezas pois, ao participar da natureza humana, Cristo, em tudo, se fez semelhante aos homens (Hb 2:14 e 15).

Carnal diz de um posicionamento, de um pensamento, da ideia que surge de uma má compreensão da lei mosaica. Carne remete a um conhecimento que é contrário à verdade do evangelho, no entanto, muitos pensam que a carne está vinculada às questões sensoriais do corpo físico.

Ao falar da carne, o apóstolo Paulo não trata do corpo físico. O crente não tem que lutar contra o seu próprio corpo, negando suas emoções, sentimentos, desejos, necessidades, prazeres, etc., o que muitos fazem ao trilhar o caminho do ascetismo pessoal, através de jejuns, votos, castidade, reclusão, flagelo, etc.

Se o apóstolo Paulo recomenda a moderação em tudo, certo é que buscar satisfazer as necessidades pessoais ou, deleitar-se nos prazeres próprios ao corpo físico, não é o que torna o homem carnal. O fato de o crente andar na carne, ou seja, possuir um corpo físico, constituído de matéria orgânica e sujeito às mesmas paixões que os demais homens, não o torna carnal.

O crente não milita segundo a carne, ou seja, não batalha segundo o entendimento derivado das obras da lei. As armas da milícia do apóstolo Paulo não eram carnais, pois a sua arma era a palavra da verdade, ou seja, o poder de Deus (2 Co 6:7), diferentemente dos judaizantes, cujas  armas eram a lei, a circuncisão, o culto aos profetas, as luas novas, as festas, etc.

“Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas, sim, poderosas em Deus para destruição das fortalezas” (2 Co 10:3-4).

O crente não luta contra a carne, antes, é o espírito que luta contra a carne e vice versa. A concepção equivocada do fariseu que foi ao templo orar, mas que justificava a si mesmo, através das obras da lei é o que define o homem como carnal e não as suas emoções, sentimentos, desejos, necessidades prazeres, etc. (Lc 18:9-14).

Mas, há quem diga que existe crente canal, à vista do que o apóstolo Paulo disse aos cristãos de Corinto:

“E EU, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei e não com carne, porque ainda não podíeis, nem, tampouco, ainda, agora podeis, porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” (1 Co 3:1-3).

A exposição do apóstolo Paulo, nesses versos, é argumentativa, portanto, demanda interpretação para uma compreensão segura e verdadeira.

Um crente em Cristo é espiritual, pois é nascido da água e do espírito. O apóstolo Paulo argumenta que não pode falar a eles como a ‘espirituais’, ou seja, como a quem já eram discípulos de Cristo.

Quando o apóstolo Paulo fala que teve que falar a eles como a ‘carnais’, significa que o discurso do apóstolo tinha o viés de convencê-los da verdade do evangelho, assim como quando se anuncia o evangelho a um judaizante.

É o tom da abordagem que está sendo apresentado, ou seja, de que a argumentação utilizada pelo apóstolo, ao falar aos cristãos de corinto, era próprio a ‘carnais’. Essa argumentação é semelhante ao exposto aos Gálatas:

“Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós; Eu bem quisera agora estar presente convosco e mudar a minha voz; porque estou perplexo a vosso respeito” (Gl 4:19-20).

O apóstolo queria mudar sua voz ao falar aos cristãos da Galácia, o que se percebe que ocorreu o mesmo com os cristãos de Corinto, uma vez que o apóstolo não podia falar como a quem era discípulo de Cristo, somente lembrando o que já haviam sido ensinados, antes tinha que falar de modo a convencê-los da verdade.

As práticas reprováveis, do ponto de vista da moral, que o apóstolo Paulo censurou acerca dos cristãos de corinto, não os tornavam carnais, antes, o perigo estava no partidarismo que havia surgido na comunidade, em função do ensinamento dos judaizantes, que era segundo as obras da lei.

Embora os cristãos de corinto fossem membros do corpo de Cristo (Igreja), santificados em Cristo e nomeados santos (1 Co 1:2), em função do partidarismo existente na comunidade local (1 Co 11:12), o apóstolo Paulo não pode falar a eles como a espirituais.

O problema não estava no apóstolo, mas, nos cristãos, visto que, apesar de terem sido alimentados com leite racional (ensinamento próprio a meninos), ainda não estavam prontos para serem alimentados com alimento sólido (carne).

“Do qual muito temos que dizer, de difícil interpretação; porquanto vos fizestes negligentes para ouvir. Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite e não de sólido mantimento. Porque, qualquer que ainda se alimenta de leite, não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas, o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” (Hb 5:12-14; 1 Pe 2:2).

O apóstolo Paulo não pode falar como a ‘espirituais’, ou seja, como a ‘seguidores’ do evangelho, antes teve que falar aos cristãos, como se eles fossem seguidores das obras da lei (canais), ou seja, como a meninos em Cristo (recém-nascido), na tentativa de convencê-los da verdade.

Como o apóstolo Paulo falava aos cristãos espirituais? Relembrando (instrução, ensinamento, etc.) e falando as mesmas coisas que já haviam ouvido (Fl 3:1). E como o apóstolo Paulo falava aos seguidores das obras da lei? Tentando cativá-los à obediência de Cristo!

“Destruindo os conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (2 Co 10:5)

Mas, apesar de os cristãos terem sido alimentados com leite, ainda não estavam prontos para o alimento sólido, pois muitos estavam seguindo as concupiscências da carne (carnais), vez que havia entre eles inveja e contendas decorrentes das questões pertinentes à lei (1 Co 3:3).

Ora, invejas e contendas são inclinações próprias aos carnais, ou seja, aos homens do mundo, o que leva a concluir que os cristãos de corinto estavam agindo como carnais, ou seja, estavam agindo da mesma forma que o apóstolo Pedro, quando dissimulou com os judeus. Eles ainda se gloriavam nos homens e não inteiramente em Cristo (1 Co 3:3 e 21).

Ao falar que os cristãos de corinto tinham preferência entre Paulo, Apolo e Cristo, na verdade, o apóstolo Paulo empregou a si mesmo e às pessoas de Apolo e de Cristo, figurativamente, ou seja, ele fez uso do seu nome e do irmão Apolo, somente para ilustrar o partidarismo existente entre eles (1 Co 4:6), partidarismo que surgiu, em virtude de outros homens que queriam colocar outro fundamento, além de Cristo (1 Co 3:11).

Ora, quem propõe outro fundamento, além do que está posto, que é Cristo, essencialmente, é carnal, pois, apresentará as obras da lei como fundamento. Mas, qualquer que crê em Cristo, que Deus o ressuscitou dentre os mortos e confessa que Ele é o Cristo, jamais é carnal. Mesmo que não compreenda algum ponto do evangelho e dê ocasião às questões da carne, se não se deixar levar, a ponto de viver por elas, mas, acatar a instrução das Escrituras, quando alertado, não é um crente carnal.

O grande erro, quando se considera o ensino do apóstolo Paulo, está em entender que, ser carnal, é o mesmo que ser mundano, no sentido de moralmente reprovável.  Traduzir o termo grego “sarkikos”, simplesmente, para ‘mundano’, resulta em erro, pois, mesmo o fariseu que foi ao templo orar, sendo moralmente irrepreensível, não desceu justificado, pois a sua moral ilibada não o tornava espiritual.

Uma concepção equivocada, acerca do que é ser carnal, resulta em julgamentos segundo a aparência, pois, se busca no outro, evidências comportamentais que possam defini-lo como espiritual ou, carnal.

Enquanto um cristão genuíno se identifica pelo fruto, ou seja, pelo que ele confessa a cerca de Cristo, pois a boca fala do que está cheio o coração, muitos olham para a aparência (comportamento) e são ludibriados por lobos, que se vestem de ovelhas.

O ser carnal segundo a abordagem do apóstolo Paulo não guarda relação com questões de ordem comportamental, ou segundo a moral humana, antes ao que é próprio à lei. Se alguém abraça os rudimentos do mundo, tais como, não toques, não proves e não manuseeis, é carnal, e qualquer cristão que pauta a sua vida à luz desses mandamentos carnais volta à escravidão, torna-se carnal e Cristo de nada aproveita.

O que define o homem carnal é estar vendido ao pecado. O crente em Cristo é liberto do pecado e servo de Deus, portanto, é impossível ser servo da justiça e ser carnal.

“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado (Rm 7:14).

“Mas, graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça (…) Mas, agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6:17 -18 e 22).

O ‘eu’ carnal que o apóstolo Paulo apresenta, como servo do pecado, diz do seu velho homem, que foi crucificado com Cristo, de modo que agora o antigo ‘eu’ não mais vivia, mas,  sim, Cristo, que vivia nele.

“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20).

Embora, com um corpo constituído de carne, o apóstolo vivia uma nova vida, crendo no Filho de Deus e não nas obras da lei.

“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas, pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei; porquanto, pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada (Gl 2:16).

As ‘obras da lei’ se contrapõem à ‘pregação da fé’, assim como o ‘espirito’ se contrapõe à ‘carne’:

“Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou, pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gl 3:2-3).

Conclusão: É impossível a quem crê no evangelho (espírito) ser carnal!

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “περι peri da raiz de 4008; TDNT – 6:53,827; prep. 1) a respeito de, concernente a, por causa de, no interesse de, em torno de, junto a” Dicionário Bíblico Strong.




O comportamento do cristão

Segundo o apóstolo Paulo ‘todas as coisas são lícitas’ para o cristão, e, se todas elas são lícitas, nada se excetua. Mas, apesar de tudo ser lícito, nem tudo convêm e nem tudo edifica.


O comportamento do cristão

Consílio de Jerusalém

No Tratado de Lucas a Teófilo, temos uma pequena lista de recomendações aos crentes convertidos dentre os gentios:

“Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” ( At 15:28 -29).

No concilio de Jerusalém onde estavam presentes os apóstolos e os anciões da igreja ( At 15:6 ), foi deliberado não impor encargo (ordenança, proibição) algum aos cristãos convertidos dentre os gentios, excetuando três questões: a) Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos; b) do sangue, e da carne sufocada, e; c) da prostituição.

O que foi determinado aos cristãos convertidos dentre os gentios foi classificado pelos apóstolos como o necessário e, sendo o necessário, isto significa que o que foi prescrito estava na medida certa, exata, ou seja, não é para impor nada mais.

Segundo o apóstolo Paulo ‘todas as coisas são lícitas’ para o crente e, se todas elas são lícitas, nada se excetua. O crente em Cristo pode fazer de tudo, pois é liberto do Senhor, porém, após demonstrar que todas as coisas são licitas, o apóstolo Paulo apela para a consciência dos seus interlocutores demonstrando que, apesar de tudo ser lícito, nem tudo convêm e nem tudo edifica “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam” ( 1Co 10:23 ).

Esta questão já havia sido abordada na mesma carta: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” ( 1Co 3:12 ). Ou seja, um cristão não pode se deixar dominar por nada, mesmo que tais coisas sejam lícitas.

O apóstolo Paulo não impõe nenhuma obrigação aos cristãos sobre o que podem ou não fazer, no entanto, faz-se necessário observarem o que o apóstolo dos gentios escreveu aos cristãos em Colossos: “Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” ( Cl 2:20 -23).

É de se estranhar que ainda em nossos dias muitos cristãos se sobrecarregam de inúmeras ordenanças tais como não tocar, não provar, não manusear, e deixam de considerar que tudo quanto o homem toca, prova ou manuseia não tem valor algum, antes o que é de valor é a obediência do evangelho “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ).

À época do apóstolo Paulo os judaizantes impunham obrigações sobre os cristãos convertidos dentre os gentios, porém, estas obrigações não passavam de preceitos e doutrinas dos homens. Daí a pergunta: qual deve ser o porte do cristão na sociedade em que convive, visto que o padrão de comportamento muda de sociedade para sociedade e de tempos em tempos?

Primeiro o crente deve compreender que todos os homens, antes de crerem em Cristo, andavam segundo o curso deste mundo. Todos, antes de crerem em Cristo, possuíam um coração enganoso e estavam entregues as suas próprias paixões, aos sentimentos perversos e faziam o que era inconveniente.

É por isso que o profeta Miqueias deixou registrado que dentre os filhos da ira (filhos de Adão) o mais reto dos homens é como um espinho e o mais justo (religioso) pior que um sebe de espinhos ( Mq 7: 4 ). Por que o mais justo é pior que uma sebe de espinhos? Porque é duas vezes mais filho do inferno ( Mt 23:15 ).

Qual o curso do mundo? Andar nos desejos da carne (instinto), fazendo a vontade da carne e dos pensamentos ( Ef 2:3 ; Ef 4:22 ). Todos os homens sem Cristo estão corrompidos, ou seja, impróprios para a glória de Deus por causa da ofensa de Adão, e estes, por sua vez, se entregam aos seus instintos carnais e deleitam-se na vaidade dos seus pensamentos “E digo isto, e testifico no Senhor, para que não andeis mais como andam também os outros gentios, na vaidade da sua mente. Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração; Os quais, havendo perdido todo o sentimento, se entregaram à dissolução, para com avidez cometerem toda a impureza” ( Ef 4:17 -19).

Ao aceitar a Cristo como Salvador, o cristão é criado de novo em verdadeira justiça e santidade, pois em Cristo adquire um novo coração e um novo espírito. Apesar de o crente ter morrido com Cristo, ter sido sepultado e ressurgido dentre os mortos para a glória de Deus, quanto à mentalidade e maneira de interagir com as pessoas no mundo não houve uma mudança. A mudança que ocorrerá é gradativa, paulatina, pois demanda a renovação do entendimento ( Rm 12:2 ).

É somente através da renovação do entendimento que o cristão deixará de agir conforme o mundo. O crente em Cristo é apto para ir morar no céu no dia em que crê na mensagem do Evangelho, porém, se não for instruído segundo a palavra da verdade, não saberá discernir entre o bem e o mal, não sofrerá a correção necessária “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ); “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ); “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” ( Cl 1:12 ).

O cristão não deve conformar-se (amoldar-se) com o mundo, mas qual é a regra que estabelece o comportamento do cristão no mundo?

 

Amar o próximo como a si mesmo

O apóstolo João evidencia que os mandamentos de Deus não são pesados ( 1Jo 5:3 ), e os mandamentos d’Ele se resumem em dois: a) crer em Cristo como o enviado de Deus, e; b) que os que n’Ele creram amem o próximo segundo o mandamento que Ele nos deu “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, como ele nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

Isto significa que, se obedecemos a Deus, devemos anunciar Cristo ao próximo, pois Cristo é o amor que Deus concedeu à humanidade, e é concedendo (anunciando) Cristo aos outros que amamos os nossos semelhantes ( Jo 3:16 ; 1Jo 4:14 -16 ). O evangelista João enfatizou que os mandamentos de Deus não são pesados, visto que o mandamento de Deus é crer em Cristo, e após crer, resta ao cristão anunciar ao próximo que Jesus Cristo é o Senhor.

A Bíblia não impõe regras, antes aponta princípios, como:

 

Humildade cristã

Tudo que o crente faz deve ser realizado por ‘humildade’.  De acordo com o apóstolo Paulo, ‘humildade’ significa obediência a Deus. Veja: “humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ).

O conceito de humildade em nossos dias possui diversos significados por causa do pensamento do homem da atualidade. Por exemplo: em nossa sociedade é humilde a pessoa sem luxo, apática, sem brilho, simples. Por causa deste conceito as pessoas procuram humildade nas vestes, no carro, na casa, na fala, etc. Esta não é a humildade bíblica.

Para muitos, humildade é sinônimo de quem não tem boa condição financeira. Outros entendem a humildade como despojamento, aquele que não faz caso dos bens que possui. Alguns entendem que humildade é reconhecer seus próprios limites, ou ser modesto. Há até aqueles que entendem que a humildade decorre de um sentimento de inferioridade, fraqueza diante de algo ou alguém.

No entanto, a humildade que a Bíblia prescreve é humilhar a si mesmo, ou seja, oferecer-se a Deus voluntariamente como servo. Aquele que voluntariamente se sujeita a obedecer a Deus se humilhou, ou seja, tornou-se escravo. Aquele que abre mão da sua condição social (livre) para tornar-se escravo humilhou-se a si mesmo.

Se o cristão quer ser discípulo de Cristo, deve imitar o nosso Senhor: obedecendo a Deus. Daí a ordem: “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo” ( Fl 2:3 ). Ora, tudo é lícito, porém, nada deve ser feito por contenda ou por vanglória, antes por humildade (em obediência ao seu senhor).

É por isso que o apóstolo Paulo roga aos cristãos na condição de prisioneiro de Cristo que andem com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando uns aos outros ( Ef 4:2 ). Os verbos amar e suportar não são contraditórios. Quem suporta é porque ama (obedece), mesmo que a afeição não seja suficiente, pois a obediência a Deus supre a falta de afeição.

Ser humilde, manso e longânime é o modo digno da vocação celestial. O que é exigido do cristão em sociedade é superior à moral e à ética exigida pela sociedade. O cristão deve portar-se de modo a não dar escândalo a judeus, gregos e nem a igreja de Deus “Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado” ( 2Co 6:3 ; 1Co 10:32 ).

O apóstolo João na sua terceira carta deixou registrado ao irmão Gaio que em tudo ele procedeu fielmente no que fazia para com os irmãos e para com os estranhos ( 3Jo 1:5 ). O fato de Gaio permanecer na fé e ensina-la aos homens é amar, e proceder fielmente em tudo o que fazia para com os irmãos e para com os estranhos é o modo é digno de se portar. Para andar de modo digno é necessário pautar-se em valores nobres como honra e dignidade, portanto não se deve levar em conta diferenças de nacionalidade, povo, língua, condição social, etc.

Através da leitura da terceira carta do evangelista João ao irmão Gaio é possível perceber que ele dispensava o mesmo tratamento a todos os congregados, que fossem gentios ou judeus ( 3Jo 1:7 ), o que permitiu ao evangelista escrever solicitando que providenciasse o necessário para a viagem de alguns cristãos, visto que eles não quiseram receber a contribuição providenciada por cristãos convertidos dentre os gentios, o que indica que eram judeus que creram em Cristo e que precisavam viajar ( 3Jo 1:7 ).

Um cristão sabedor de que tudo é lícito pode comer todo e qualquer tipo de carne que se vende no açougue ( 1Co 10:25 ). Este conhecimento também faculta ao cristão comer até mesmo as carnes sacrificadas aos ídolos, pois é instruído de que o ídolo nada é ( 1Co 8:4 ). No entanto, apesar da plena liberdade de decidir entre comer e não comer, o cristão não deve assentar-se à mesa dos ídolos, pois induzirá quem não tem o conhecimento necessário a comer.

Quais seriam as conclusões de quem não tem maturidade ao assentar-se na mesa dos ídolos? Tal atitude não faria perecer o irmão de consciência fraca? ( 1Co 8:10 -11). O cristão pode comer de tudo o que se vende no mercado! Olha a extensão da liberdade cristã. Mas, apesar da liberdade, o cristão não deve usar da liberdade para dar ocasião à malicia, de modo que se comer carne escandaliza o irmão, a regra é nunca mais comer carne.

Nunca mais comer carne evitando que o irmão se escandalize é o mesmo que o crente apresentar o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Como? Tal atitude é render um culto racional a Deus, pois o crente transformou o seu comportamento à medida da renovação do entendimento ( Rm 12:1 -2). Não causar escândalo algum tanto aos gentios, quanto aos judeus e a igreja de Cristo é render um culto racional. Quando o cristão porta-se de modo digno do evangelho diante dos homens e sabe discernir o corpo do Senhor, na verdade está oferecendo um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.

Outro exemplo: se uma pessoa que não crê em Cristo convida um cristão para uma refeição, e ele desejar ir, não há nenhuma proibição. Primeiro porque o cristão pode comer de tudo o que for posto na mesa, e segundo porque não há a necessidade de questionar de onde veio o alimento, ou como foi processada a bebida, ou quais os ingredientes do molho, etc. ( 1Co 10:27 ). Mas, se alguém alertar que aquela comida foi ofertada aos ídolos, o cristão não deve comer. Não deve comer, não porque Deus proibiu, ou porque é pecado, antes não deve comer por causa da consciência de quem avisou ( 1Co 10:28 ).

Mas, se o cristão se assentar a mesa sabendo que é ofertada a ídolos e comer para contender ou para se vangloriar da liberdade que possui, não o fez por humildade, pois a Bíblia nos ensina quando o cristão não deve fazer coisa alguma, apesar de tudo ser lícito: “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade, cada um considere os outros superiores a si mesmo” ( Fl 2:3 ).

O crente não deve agir por disputa! Em uma disputa o outro é considerado oponente. A Bíblia informa claramente quem é o oponente do cristão, o inimigo de nossas almas, portanto, com certeza os seus semelhantes não são os seus oponentes “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” ( Ef 6:12 ).

O que se opõe ao cristão é todo engano e mentira de demônios que surge para deturpar a verdade do evangelho de Cristo.

O objetivo de quem é contencioso é desarticular, humilhar ou até mesmo destruir o oponente. A contenda não aceita soluções de paz. A contenda é como fogo, enquanto houver combustível não para de se alastrar, destruindo tudo à sua volta “Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” ( Rm 12:18 ).

Quando o cristão lida com os irmãos em Cristo, tem que ter em mente que somos membros uns dos outros, logo, não deve haver contendas entre nós. E, quando lidamos com o pecador, sabemos que Cristo derramou sua alma na morte para resgatá-los do pecado, portanto não há lugar onde o servo de Deus possa agir por contenda.

É sem valor querer mostrar ou provar superioridade quando se está em Cristo, pois em Cristo ninguém é melhor ou pior “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” ( Gl 3:27 -28).

Portanto, nada se deve fazer por vanglória! O dicionário descreve vanglória como presunção infundada de valor próprio “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” ( 1Co 4:7 ). Quando a motivação é mostrar superioridade, o cristão não se deve fazer.

Nenhum crente é isento de ser tentado a agir por vanglória, mas deve resistir a esta tentação porque a vanglória é maligna “Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna” ( Tg 4:16 ). Agir por vanglória é aceitar a sugestão de Satanás, portanto, se for se gloriar, que se glorie no Senhor “… Aquele que se gloria glorie-se no Senhor” ( 1Co 1:31 ); “Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá; para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e poder para todo o sempre. Amém” ( 1Pd 4:11 ).

O adversário, continuamente, lança setas contra os cristãos. ‘Setas’ são mensagens malignas que procuram distorcer a compreensão do cristão no que tange à verdade das Escrituras. Assim como Satanás tentou dissuadir o Senhor Jesus, até mesmo nos últimos segundos de vida, de morrer na cruz por nós, igualmente ele tenta dissuadir os cristãos de experimentarem a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Deus quer compartilhar a sua glória com o homem, mas o adversário do crente tenta minar o entendimento com questões desta vida para que permaneça com o que é passageiro. A glória do homem é efêmera, passageira: “… não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas, sim, aquele a quem o Senhor louva” ( 2Co 10:18 ); “Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor” ( 1Pd 1:24 ).

Embora bom comportamento não torne o homem pior nem melhor diante de Deus, quem prima por um bom comportamento terá uma existência neste mundo mais aprazível. Sabemos que quando o homem crê em Cristo, Deus cria um novo homem em verdadeira justiça e santidade. Mas, com relação ao comportamento da nova criatura é necessário transformar-se, o que é gradativo. Fica a cargo do crente se desfazer do comportamento que era pertinente ao velho homem que foi crucificado e sepultado com Cristo, o que demanda instrução segundo a palavra de Deus para que haja mudança de entendimento. Somente através de uma mudança continua do entendimento é que o cristão transforma o seu comportamento em sociedade “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:2 ; ).

 

Comportamento familiar do cristão

Certa feita o apóstolo Pedro juntamente com os demais apóstolos disseram: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” ( At 5:29 ), isto porque as autoridades judaicas estavam proibindo os cristãos de anunciarem o Evangelho de Cristo ( At 5:27 -28), porém, a tônica da vida cristã não é a insurgência sociopolítica “TODA a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus” ( Rm 13:1 ).

É muito importante notar que apóstolo Pedro falou esta frase porque as autoridades religiosas do povo o proibiram de anunciar as Palavras de Cristo, quando horas antes um anjo retirou o apóstolo da prisão e mandou que anunciasse a palavra do Evangelho exatamente ali no templo onde estavam. Os apóstolos não utilizaram a fala “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” para fugir de suas obrigações junto aos irmãos e a sociedade “Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior” ( 1Pd 2:13 ).

Porém, em nossos dias muitos filhos de Deus utilizam este verso para ‘injustamente’ desobedecer a Deus. Por exemplo: não cabe à mulher desobedecer ao marido, pois há uma ordem direta de Deus às mulheres com relação aos maridos. Alegar que: – “Obedeço a Deus e não o homem (marido)”, ou “Todas as coisas me são licitas…”, de nada adianta diante de Deus “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR” ( Ef 5:22 ); “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” ( Ef 5:24 ).

A mulher deve obedecer ao marido por causa da ordem dada aos maridos “Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” ( Ef 5:28 ); “Assim também vós, cada um em particular, ame a sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o marido” ( Ef 5:33 ). O marido cuida da esposa com o objetivo de apresenta-la a si mesmo em obediência a palavra de Deus. O que está em voga é o objetivo da ordem: a obediência, e não o mérito da mulher: vou cuidar se ela for obediente. Os homens propõe cuidar com base no mérito (se a mulher merecer eu cuido) invertendo a responsabilidade.

Nenhum um cristão pode utilizar a Palavra de Deus para justificar sua rebeldia contra as autoridades instituídas, principalmente a estabelecida na família.

Na Bíblia a ideia de autoridade está atrelada ao dever de cuidar, portanto, não se deve conceber a ideia bíblica de autoridade segundo o curso deste mundo que é: buscar regalias negligenciando o dever. O princípio da autoridade na Bíblia não contempla arbitrariedades e abusos.

Na Bíblia autoridade e obediência são faces de uma mesma moeda, de modo que o marido é apresentado positivamente como tendo autoridade sobre a mulher porque tem o dever de cuidar. A mulher tem o dever de obediência, pois a obediência fará com que ela usufrua do cuidado do marido.

Da mesma maneira, os filhos devem obediência aos pais. Quando o filho casa deve obediência às autoridades constituídas e ao pastor. Já a mulher deve obediência ao marido e as autoridades constituídas, não mais aos pais ou aos pastores, pois um corpo só possui uma cabeça.

 

Homens cristãos

Os homens são instruídos a obedecerem aos seus pastores. A obediência que os homens devem aos pastores é concernente à palavra de Deus, pois é dever do pastor zelar pelas almas como aqueles que hão de dar conta delas a Deus. O cuidado não está em determinar o que o cristão precisa comprar, vender, investir, etc. “Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” ( Hb 13:17 ).

Com relação as questões desta vida o pastor deve instruir os cristãos em como cuidar das esposas, educar os filhos, ser fiel no trato, etc. O pastor orienta, diferente de impor ou determinar o que fazer.

 

Mulheres e Filhos cristãos

As mulheres são instadas a obedecerem aos seus maridos, como se obedecessem ao Senhor “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” ( Ef 5:22 -23); “Vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos; para que também, se alguns não obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra” ( 1Pe 3:1 e 5).

Os filhos devem obediência aos pais, pois os pais tem o dever de cuidado sobre os filhos “VÓS, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa; para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra” ( Ef 6:1 -2).

 

Servos / empregados cristãos

Os servos deviam obediência aos seus senhores, de modo que os empregados devem obediência aos seus empregadores “Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo; não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus; servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. Sabendo que cada um receberá do Senhor todo o bem que fizer, seja servo, seja livre” ( Ef 6:5 -8); “TODOS os servos que estão debaixo do jugo estimem a seus senhores por dignos de toda a honra, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados. E os que têm senhores crentes não os desprezem, por serem irmãos; antes os sirvam melhor, porque eles, que participam do benefício, são crentes e amados. Isto ensina e exorta” ( 1Tm 6:2 ); “Exorta os servos a que se sujeitem a seus senhores, e em tudo agradem, não contradizendo, Não defraudando, antes mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador” ( Tt 2:10 ); “Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos senhores, não somente aos bons e humanos, mas também aos maus” ( 1Pe 2:18 ).

 

Todos os cristãos

O apóstolo Pedro instrui a todos os cristãos, quer sejam servos, ou livros, ricos ou pobres, judeus ou gentios, homens e mulheres a sujeitarem-se a toda ordenação humana por obediência ao Senhor “Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos; como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus. Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao rei” ( 1Pe 2:13 -17).

Por que esta ordenança a todos os cristãos? Porque surgiriam homens que, por presidirem um ajuntamento de cristãos, utilizariam a sua posição para barganhar prestigio politico e social neste mundo. Outros apoiariam revoluções sociopolíticas em nome de Deus, outros estabeleceriam impérios corporativos, etc. O cristão busca as coisas que são de cima porque não mais pertence a este mundo “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” ( Jo 15:19 ).

A ordem é clara a todos: “E não nos cansemos de fazer bem, porque à seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” ( Gl 6:9 ).

Há cristãos que desprezam os deveres domésticos, como o dever de cuidado do marido para com a esposa e a esposa o dever de obediência para com o marido, mas devemos ter em mente que o apóstolo Paulo, quando falou dos deveres domésticos, fez o seguinte alerta: “Sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis” ( Cl 3:24 ).

É bem verdade que em nossos dias cumprir com deveres não é agradável, pois o pensamento que domina as sociedades da atualidade é a grita por direitos, mas todo filho de Deus não agrada a si mesmo, antes deve agradar aquele que o alistou para a guerra!




Efésios 2 – Vivificados com Cristo

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.


Introdução

Aqueles que já tiveram um contato com o comentário feito ao capítulo um de Efésios terão maior facilidade em assimilar os conceitos que aqui serão apresentados.

O capítulo um da carta de Paulo aos cristãos em Éfeso apresenta várias ideias que são detalhadas a partir do segundo capítulo.

Para início de nosso estudo, faremos um breve resumo do que já estudamos.

  • As cartas de Paulo possuem um público alvo pré-definido: os cristãos. Em decorrência destas características das Epístolas Paulo utiliza várias vezes o pronome “nós”;
  • Logo após a apresentação do remetente e saudações aos destinatários da carta, Paulo passa a agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas;
  • Para descrever a nova condição que os cristãos alcançaram em Cristo Jesus, Paulo utiliza a maioria dos verbos que fazem referência à ação divina no pretérito perfeito: abençoou, elegeu, predestinou, etc. Estes verbos no pretérito apontam para a nova condição dos cristãos no presente: Eles são abençoados, eleitos, predestinados, redimidos, etc “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas…” ( Ef 1:7 ); O verbo ter indica a nova condição dos cristãos no presente, e a desinência do verbo (-mos) indica que o apóstolo inclui-se entre os que alcançaram a redenção;
  • Após agradecer a Deus, Paulo procura conscientizar os Cristãos da nova condição que eles haviam adquiridos em Cristo “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa…” ( Ef 1:13 );
  • Por último, analisemos a oração de Paulo:

a) Paulo não cessava de agradecer a Deus pela vida dos novos cristãos;

b) Paulo passa a orar a Deus para que os olhos do entendimento dos cristãos fossem iluminados para que soubessem:

1. Qual a esperança da vocação divina;

2. Qual a riqueza da glória da herança divina nos santos, e;

3. Qual a suprema grandeza do poder de Deus para com todos.

Sobre o terceiro quesito que Paulo orou a Deus para que os cristãos conhecessem, ele demonstra que Deus manifestou a suprema grandeza do seu poder ressuscitando a Jesus Cristo.

“E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:19 -23).

A grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo. Sobre nós, os que cremos está a operação da força do mesmo poder que atuou sobre Cristo.

O capítulo dois de Efésios é uma continuação precisa dos versículos acima.

Observe:

A sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto naqueles que creem em seu nome “E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder…”, da mesma forma que a sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo Jesus, ressuscitando-o dentre os mortos “… que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus…”.

Deste ponto continua o nosso estudo.

Veremos o capitulo dois de Efésios sob o prisma da declaração de Paulo aos cristãos em Roma:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

Ele enfatiza que o evangelho é poder de Deus para os que creem. Estudaremos a transformação que ocorre naqueles que são agraciados com este poder.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 )

 

 

A Condição sob o Pecado

1 E VOS vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,

Paulo passa a demonstrar aos cristãos que todos foram vivificados por estarem em Cristo Jesus.

A sobre excelente grandeza do poder de Deus vivificou os cristãos “E vos vivificou…”. Antes de demonstrar os elementos pertinentes a operação do poder de Deus Paulo passa a falar da condição anterior a nova vida em Cristo “..estando vós mortos…”.

O que define o homem como morto ou vivo diante de Deus?

É impossível ao homem assumir as duas condições (vivo e morto) ao mesmo tempo diante de Deus. Ou se está morto ou se está vivo.

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.

Quando o homem está morto para Deus ele se encontra na condição de vivo para o mundo.

A condição de vivo para o mundo é em decorrência do pecado que herdamos de Adão e o salmista Davi assim diz: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Sl 51:5 ).

Para o homem passar a viver para Deus necessariamente ele precisa morrer para o mundo. Isto só é possível após o homem ter um encontro com a cruz de Cristo. Após o encontro com Cristo, o homem morre para o mundo e passa a viver para Deus.

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:11 );

“Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 );

“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

Desta forma devemos nos conscientizar que por estarmos vivos para Deus estamos mortos para o mundo. Aqueles que estão vivos para o mundo, estão mortos para Deus.

No passado, todos estavam mortos em ofensas e pecados, e hoje, os cristãos estão vivos em Cristo.

Há uma tênue diferença entre ofensa e pecado. Esta diferença é facilmente percebida ao lermos o capítulo cinco da carta aos Romanos.

Se observarmos as referências bíblicas, veremos que ofensa geralmente aponta para o pecado decorrente de Adão “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação” ( Rm 5:16 ).

A ofensa em Adão (um só que pecou) trouxe juízo e condenação sobre toda a humanidade. Já o dom gratuito de Deus veio de muitas ofensas para a justificação.

A ofensa de Adão deixou a humanidade diante de Deus na condição de mortos. Por quê? Por que a determinação divina a Adão foi clara: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Na determinação divina vem incluso a lei, o juízo e a condenação: Não comerás – a lei; No dia em que dela comerdes – o juízo foi estabelecido no momento que comeram do fruto proibido; certamente morrerás – a sentença é morte.

Em decorrência desta condenação Jesus declara: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ). Se aquele que não crê já está condenado é porquê este homem já passou pelo juízo e condenação divino.

A morte pertinente ao velho homem é em decorrência da queda de Adão e resulta da condenação adquirida no Éden.

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” ( Ef 1:7 );

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

Paulo coloca uma nota explicativa nas frases acima: A redenção pelo sangue é remissão das ofensas e dos pecados!

“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” ( Ef 2:5 ).

Geralmente a palavra ofensa vem em conexão com a condição de morto diante de Deus.

A palavra ‘pecado’ acaba por abranger duas perspectivas: a ofensa em Adão e a conduta do homem: “E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas” ( Cl 2:13 ).

A vivificação em Cristo ocorre quando as ofensas são perdoadas, quando o escrito de dívida que pesa sobre o homem é riscado.

“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” ( Cl 2:14 ).

Só é possível a vivificação em Cristo quando se tem um encontro com a cruz de Cristo. É necessário morrer com Cristo para que o homem possa ressurgir uma nova criatura, livre da ofensa e dos pecados.

“Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” ( 1Jo 1:7 ).

Andar em trevas é o mesmo que não praticar a verdade. A prática da verdade só é possível quando se anda, ou se comporta na luz.

Observe a exposição de João: Quando se diz que possui comunhão com Deus e não pratica a verdade, o homem anda em trevas, ou seja, é mentiroso ( Rm 3:7 ).

‘Mas…’, ou seja, se andar na luz, o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, segue-se que o sangue de Cristo purifica o homem de todo o pecado.

O pecado aqui está no singular. João não faz referência a conduta pecaminosa através da palavra pecado. A conduta pecaminosa é abordada através da expressão “andarmos em trevas”.

Quando se tem comunhão com Deus (se anda na luz), é porque o sangue de Jesus já purificou de todo o pecado (da morte decorrente das nossas ofensas).

Aquele que tem comunhão com Deus anda na luz; quem não tem comunhão, anda em trevas. Este princípio é semelhante ao da árvore: A árvore boa só produz bons frutos e a árvore má só produz frutos segundo a sua espécie: maus.

Se o homem disser que tem comunhão com Deus e anda em trevas, é mentiroso e não faz o que é verdadeiro. Por outro lado, se na luz andar, é o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, fato que leva a estar livre de pecado (nova condição).

Alguém pode pensar que o versículo compõe uma gradação para alcançar a libertação do pecado. Primeiro o homem teria que andar na luz, e; Segundo, ter comunhão com os irmãos, e, somente então, o sangue de Cristo haveria de purificar-lo dos pecados.

A ‘comunhão’ com os irmãos nunca livraria o homem do pecado, antes é a comunhão com Deus, por meio do sangue de Cristo, que torna o homem livre. A comunhão é um dos aspectos da nova vida com Deus, que demonstra efetivamente que o cristão prática a verdade. Para ter comunhão com os irmãos, primeiramente é necessário ter comunhão com Deus ( 1Jo 1:6 -7).

A ofensa de Adão é específica e nenhum outro homem teve ou terá a possibilidade de transgredir a mesma maneira de Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Não existe a possibilidade de alguém pecar à semelhança da transgressão de Adão: Adão antes de pecar era santo, justo e bom. Perfeito diante de Deus. A determinação de não comer da árvore do conhecimento só foi feita a Adão, e não aos seus descendentes; o ambiente onde Adão estava era perfeito, etc.

Pecado não envolve questões relativo a conduta. A ofensa refere-se ao pecado (desobediência) de Adão, e por ele todos os homens pecaram. O sangue de Cristo foi derramado para que a humanidade fosse redimida da ofensa herdada de Adão ( Ef 1:7 ).

Desta forma a palavra ‘pecado’ é genérica e abrange tanto as ofensas quanto o pecado de conduta: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

A remissão dos pecados refere-se a toda transgressão contra Deus. Ou seja, a remissão engloba tanto o pecado em Adão, que subjugou toda a humanidade, quanto às condutas errôneas dos homens que haverão de ser julgadas perante o Grande Trono Branco.

 

Mudou o Calendário para os Cristãos

2 Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência.

Paulo fala de outro tempo. Percebe-se que ele fala do passado dos cristãos pelo fato de o verbo ‘andar’ estar no passado (andastes).

Por que Paulo fala do passado desta maneira: “…noutro tempo…”? Porque os cristãos vivificados nunca viveram o tempo do pecado. Ou seja, os cristãos vivificados, regenerados, que foram criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade nunca viveram sob a égide do pecado.

Como? Noutro tempo existia o velho homem, escravo do pecado e sem Deus no mundo. Este velho homem ao ter um encontro com Cristo morreu. Foi crucificado com Cristo. Ao ressurgir, é criado por Deus um novo homem.

O novo homem vive num novo tempo: tempo de gozo, paz e amizade com Deus.

Observe que Paulo faz referência ao passado como se tal tempo não fosse o passado dos cristãos “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne…” ( Ef 2:11 ).

Da mesma forma que o nascimento de Cristo mudou a contagem do tempo, o nascimento da nova criatura estabelece um novo tempo de vida e paz no Espírito Santo para os que recebem um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

Compare este versículo com o versículo dez.

Os cristãos, quando ainda não eram cristãos, haviam andado segundo o curso deste mundo e segundo o maligno. O curso deste mundo é morte. O príncipe das potestades do ar é o diabo. O espírito que opera nos filhos da desobediência e o engano.

Andar refere-se a conduta. Observe o que Paulo escreveu na carta aos Gálatas: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:25 ). Paulo exorta a todos que nasceram de Deus, e que agora vivem em Deus, a também se comportarem como filhos de Deus.

Para se viver em Espírito, necessário é nascer do Espírito, conforme Jesus diz a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ).

O andar em Espírito diz da conduta da nova criatura: “Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências” ( Rm 13:13 -14).

‘Viver em Espírito’ não é o mesmo que ‘andar em Espírito’. Este não ocorre em consequência daquele. A ordem é dupla: revesti-vos do Senhor e não tenhais cuidado com a carne ( Rm 13:14 ).

Desta maneira podemos verificar que, se o homem viver em Cristo, também precisa andar em Espírito.

O viver em Espírito é o mesmo que ser revestido de Cristo, ou o despojar da carne ( Cl 2:11 ). O andar no Espírito refere-se ao cuidado diário que os cristãos precisam se aplicar para não praticar o que é pertinente à carne. Não é o cuidado que santifica o homem, porém, como o cristão foi santificado por estar em Cristo (nova criatura), esta é a vontade de Deus para a nova condição alcançada em Cristo.

“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 )

Há principados e potestades dos céus e principados e potestades do ar ( Ef 2:2 e Ef 3:10 ). Existem anjos e também existem demônios. Posteriormente aprofundaremos o estudo sobre os seres celestiais.

Os filhos da desobediência são atraídos e engodados pelo engano e este é o espírito que sobre eles opera. Mas, ‘nós’ (os cristãos), os que cremos em Cristo, temos a verdade do evangelho e o Espírito Santo de Deus.

 

3 Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.

Entre os filhos da desobediência, todos os cristãos, tanto judeus quanto gentios, antes andavam no desejo da carne.

Quando Paulo diz: ‘…todos nós também (…) como os outros também…’, ele esta fazendo referência a judeus e gentios. Está é uma das maneiras que Paulo utiliza para incluir os judeus na mesma condição dos gentios antes de terem um encontro com Cristo.

Os Judeus convertidos também andaram nos desejos da carne e eram também filhos da ira como os demais (gentios).

Paulo fala sobre o desejo da carne. Todos os homens antes de terem um encontro com Cristo andam nos desejos da carne. É possível ao homem desvencilhar-se do desejo da carne sem a cruz de Cristo? Não!

O desejo da carne refere-se à ofensa ocorrida em Adão. Só através do novo nascimento o homem torna-se livre do desejo pertinente à carne.

Qual é o desejo da carne? Paulo ao escrever aos Gálatas demonstrou que o desejo da carne é contrário ao desejo do Espírito de Deus “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” Ef 5. 17.

Em que o desejo da carne se opõe ao Espírito? A oposição entre a carne e o Espírito se resume em morte e vida “Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:6 ).

Desta maneira o apóstolo Paulo esclarece o que ocorre quando se está na carne: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ).

Quando se está no Espírito a inclinação do novo homem é amizade com Deus (vida), sendo certo que o novo homem produz exclusivamente fruto para Deus ( Rm 7:4 e Rm 8:7 ).

Só é possível andar no desejo da carne quando se está efetivamente na carne. Andar no desejo da carne só é possível àqueles que, por natureza, são filhos da ira, ou seja, é condição pertinente a todos aqueles que não tiveram um encontro com Cristo.

Todos os cristãos antes de terem um encontro com Cristo andavam no desejo da carne. Agora, em Cristo, não mais se anda no desejo da carne.

“… antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”

“… quando estávamos na carne” é o mesmo que dizer “antes andávamos nos desejos da carne”.

Por estar na carne o homem faz a vontade da carne e dos pensamentos.

Qual a diferença entre desejos da carne, vontade da carne e vontade do pensamento?

 

 

Os desejos da carne

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” ( Mt 7:18 )

Os fariseus faziam boas obras perante os olhos de seus semelhantes, entretanto, por rejeitarem a Cristo, continuavam sob o pecado de Adão e tudo o que produziam era segundo a natureza pecaminosa que possuíam.

Jesus ilustra a condição dos fariseus através da relação fruto – árvore. É pertinente à natureza das árvores boas produzirem frutos bons, e as árvores más produzirem frutos maus.

Por mais que os fariseus procurassem fazer as obras estipuladas na lei, não conseguiam realizar o bem, visto que a natureza deles era má. Eles não haviam nascido de novo, e, por tanto, eram filhos da ira, e tudo o que produziam eram frutos para a morte ( Rm 7:5 ).

Jesus dá o veredicto: “Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo” ( Mt 7:19 ). Não há exceção. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.

Quando Jesus falou a Nicodemos, ele demonstrou que para ver o reino dos céus necessariamente o homem precisa nascer de novo, e neste aspecto também não há exceção.

Os fariseus diziam: “Senhor, Senhor…”, mas, nem todos que assim dizem entrarão no reino dos céus, visto que estes não fazem a vontade de Deus.

Os fariseus não entrariam nos céus por não creem naquele que Deus enviou, pois esta é a vontade do Pai “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós” ( Jo 5:38 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

O que determina a qualidade do fruto é a natureza da árvore. Se alguém crê em Cristo, o seu fruto é bom. Como os fariseus não criam em Cristo, eles permaneciam em seus pecados, e por tanto, os seus frutos eram maus “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ).

João Batista disse aos fariseus que lhes era necessário produzirem frutos dignos de arrependimento. Frutos dignos de arrependimentos são boas obras? Não! As obras que os fariseus faziam eram ‘superiores’ as obras do povo, no entanto, eles não produziam frutos dignos de arrependimento “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ). Quem pensa que basta dizer que tem por pai Abraão que está salvo, não produz fruto digno de arrependimento ( Mt 3:9 ).

João Batista alerta: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ). Todas as árvores que não produzem bom fruto devem ser cortadas e destruídas.

Em contra partida, todos os que têm um encontro com Cristo também morrem para poderem ressurgir. Estes ressurgem e fazem parte da oliveira verdadeira e dão bom fruto “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ).

Os fariseus vieram ao mundo em pecado, e por tanto, andavam no desejo da carne. Eram filhos da ira, filhos da desobediência, filhos de Adão por natureza “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” ( Jo 8:44 ), ou se preferir, filhos do diabo.

Os fariseus por não nascerem de novo andavam segundo o curso deste mundo, ou seja, andavam nos desejos da carne “Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência” ( Ef 2:2 ).

Os fariseus eram árvores não plantadas pelo Pai, como Jesus disse: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

 

 

Fazendo a vontade da carne

“E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos ( 2Tm 2:26 )

As obras da carne são conhecidas: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia…” ( Gl 5:19 ).

A humanidade num todo andava segundo o desejo da carne: mortos em delitos e pecados. As obras da humanidade seguia o curso estipulado pela natureza perniciosa “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 b).

A pratica pecaminosa é uma constante na vida dos homens, pois fazem a vontade da carne. Fazem a vontade da carne, pois ela não é sujeita a lei de Deus “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” ( Rm 8:7 ).

 

Fazendo a vontade do pensamento

Qual era o pensamento dos escribas e fariseus? Eles pensavam que eram filhos de Abraão, e que, portanto, eram filhos de Deus.

E o que João Batista disse? “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Os homens sempre presumem de si mesmo que é preciso fazer algo para alcançar a salvação. O jovem rico é um exemplo: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” ( Mc 10:17 ). O homem sempre presume de si mesmo que para agradar a Deus é necessário fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Este é um dos maiores erros do pensamento humano.

Certa feita Jesus foi interpelado sobre o que deveriam fazer para fazer a obra de Deus: “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Os pensamentos do homem se estruturam na religião, na justiça própria, no conhecimento humano e na consciência.

“Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” ( Rm 2:15 )

Paulo ao escrever aos Romanos demonstrou que a obra que deriva da lei sempre esteve presente no coração dos homens. Os gentios, mesmo não tendo a lei de Moisés, sempre praticaram as obras da lei naturalmente.

Por quê? Porque os homens sempre se guiaram por meio de seus pensamentos tendo como parâmetro a consciência.

Desta maneira os homens seguem o que presumem “Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” ( Pv 14:12 ).

A vontade do homem é guiada pelas obras da lei. Muitos não se salvam por meio da crença em Cristo por se guiarem através da consciência e do pensamento. Estes se sentem seguros por estarem pautados na própria consciência (quer acusando ou defendendo), e continuam perdidos em decorrência da concupiscência do engano.

Aqueles que seguem a vontade do pensamento acabam por se sentirem ‘certinhos’ e com direito a salvação. Estes pensam que a salvação se dá por meio de boas obras e procuram respaldo e orientação em suas consciências. Ledo engano! Caem no engano do diabo.

O desejo da carne é que o homem faça a vontade da carne e do pensamento. Já a vontade do Espírito é que façamos a vontade do Espírito.

A luta entre carne e Espírito é para que não façamos a nossa vontade “…para que não façais o que quereis”, antes, devemos fazer a vontade de Deus, que é crer naquele que Ele enviou, e que nos amemos segundo o seu mandamento.

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ).

Quando o apóstolo Paulo diz: “… na minha carne, não habita bem algum…”, ele faz referência ao desejo da carne. Não há bem algum na natureza decorrente da queda e condenação de Adão. Através da queda de Adão os homens passaram a ser filho da ira, filho da desobediência, e não há bem algum nesta natureza.

Quando Paulo diz: “…com efeito o querer está em mim…”, ele faz referência a vontade do pensamento, o que é pertinente a todos os homens. Todos os homens querem e procuram fazer o bem, mas se não nascerem de novo é impossível fazerem o bem, visto que a carne não é sujeita a lei e Deus.

Quando Paulo diz que: “…não consigo realizar o bem”, ele faz referência a vontade da carne que decorre do desejo da carne.

O pecado de Adão tornou todos os homens escravos do pecado. Por mais que o homem queira realizar o bem, isto só fica na vontade. Por quê? Porque tudo aquilo que o escravo produz, produz para o seu senhor.

Há outra ilustração desta verdade: a árvore má não pode produzir bons frutos, isto porquê bons frutos não derivam de uma má árvore.

“… e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também”

A natureza de filhos da ira foi transmitida a todos os homens por meio da ofensa de Adão. Não podemos nos esquecer que filhos de Adão, filhos da desobediência e filhos da ira fazem referência a transgressão no Éden.

Faz-se necessário observarmos a estrutura de texto que Paulo construiu.

Paulo ora a Deus para que fosse dado aos cristãos: ‘…em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação’;

Segue-se que Deus iluminou os olhos do entendimento dos cristãos, para que:

  • Soubessem qual a esperança da vocação;
  • Quais as riquezas da glória da sua herança, e;
  • Qual a sobre-excelente grandeza do seu poder.

O poder de Deus foi manifesto em Cristo ( Ef 1:20 ), e este mesmo poder vivificou os cristãos ( Ef 2:1 ).

“E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar no lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( Ef 2:6 -7).

“… segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:19 -21).

No capítulo primeiro da carta, Paulo faz referência à operação do poder de Deus sobre aqueles que creram (v. 19). Em seguida Paulo demonstra que o poder de Deus foi manifesto em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos.

É característica própria às cartas de Paulo fazer um adendo contendo aspectos importantes acerca de Cristo.isto.

Na carta aos Efésios Paulo descreve a ação do poder de Deus em estabelecer a glória que Jesus tinha antes de haver mundo ( Ef 1:20 -23; Jo 17:5 ). Na carta aos Colossenses Paulo descreve a pessoa de Cristo, a imagem do Deus invisível ( Cl 1:15 -20).

Em seguida Paulo traz a lembrança dos leitores a condição passada ( Ef 2:1 ). Paulo demonstra que Deus vivificou os cristãos e a condição pecaminosa na qual se encontravam.

Do versículo quatro em diante Paulo passa a descrever o que o poder de Deus fez aos cristãos. Observe que a estrutura de texto que Paulo utiliza para descrever a ação divina na vivificação dos cristãos é semelhante ao que foi realizado em Cristo na ressurreição.

4 Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,

No capítulo anterior o apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus e que este mesmo poder foi manifesto ao ressuscitar Jesus dentre os mortos ( Ef 1:19 -23).

Quando Paulo fala do poder de Deus manifesto em Cristo, ele passa a descrever o que aconteceu com Cristo após a ressurreição.

Logo em seguida, Paulo passa a falar da ação de Deus sobre os cristãos: “Ele vos vivificou…”. Mas, antes de falar da vivificação Paulo faz um adendo e fala da condição do homem no pecado ( Ef 2:1 -3).

Agora, no versículo quatro Paulo volta ao tema que teve início no capítulo um, versículo dezenove: vivificou!

Apesar da condição pecaminosa do homem, Deus é riquíssimo em misericórdia. A expressão ‘riquíssimo em misericórdia’ se deve ao grande amor demonstrado aos homens.

5 Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo ( pela graça sois salvos ),

Observe que a morte decorre da ofensa.

O poder de Deus que foi manifesto em Cristo ressuscitando-o dentre os mortos e por meio deste poder os cristãos creram e foram vivificados juntamente com Cristo.

“E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” ( Ef 1:19 ).

6 E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;

Os cristãos foram ressuscitados (vivificados) juntamente com Cristo “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” ( 1Pe 1:3 ).

Cristo ao ressurgir assentou-se a destra de Deus nos céus e nos fez assentar nos lugares celestiais.

Os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo; é o mesmo que estar assentado nos lugares celestiais ( Ef 1:3 ; Ef 1:20 e Ef 2:6 ).

7 Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.

O objetivo dos cristãos terem ressurgido com Cristo é específico: “… mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( V. 7).

Cristo assentou-se a destra de Deus acima de todo principado, autoridade, poder, domínio e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas no vindouro.

Jesus, além de receber todo domínio e poder, também demonstrará nos séculos vindouros as abundantes riquezas da graça de Deus.

8 Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.

Pela graça somos salvos, por meio da fé.

Paulo retorna ao versículo dezenove do capítulo um: os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus “E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do teu poder” ( Ef 1:19 ).

A salvação é por meio da fé segundo a força do poder de Deus. Como? A salvação é por meio da fé segundo a pregação do evangelho:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

E novamente:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 )

Desta maneira conclui-se que: “A fé vem pelo ouvir…” .

A salvação é graça, pois foi dada aos homens por promessa. Deus prometeu salvação poderosa a todos os homens através do descendente de Abraão

“Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós…” ( Rm 4:16 ; Gl 3:16 ).

Primeiro Deus prometeu a Abraão o descendente e só após ouvir a promessa Abraão creu, sendo a sua fé em Deus imputada como justiça. Foi por graça a promessa. Abraão nada fiz e Deus lhe prometeu o descendente.

A promessa refere-se a graça de Deus dada aos homens por intermédio de Abraão e do descendente, que é Cristo.

“… mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão” ( Gl 3:18 ).

A promessa foi concedida por Deus. A promessa é dom de Deus. Não foi o homem que conquistou a salvação, mas Deus a deu gratuitamente.

9 Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

A salvação vem da promessa e não das obras. Caso a salvação fosse concedida por meio daquilo que produzimos, haveria motivo para alguém se posicionar de maneira altiva: “Eu conquistei a minha salvação. Fiz por merecer”.

10 Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

Não há como a salvação ser pelas obras. Por quê? Porque somos feituras de Deus.

Observe a grandeza da exposição de Paulo: antes de conhecermos a Cristo todas as nossas obras pertencia por direito ao pecado. Éramos escravos do pecado, e por tanto, tudo o que produzíamos pertencia ao pecado.

Por mais que o homem trabalhe e se esforce em fazer boas obras, elas não poderão salvá-lo, visto que tais obras não lhe pertencem.

Um escravo não adquire bens. Um escravo não ajunta fortuna. Como é possível a um escravo adquirir a própria liberdade se ele não possui recursos? Tudo o que se produz pertence ao seu senhor! O escravo é propriedade de seu senhor.

O trabalhador escravo do pecado só tem um salário estipulado: a morte!

A salvação não vem das obras porque há a necessidade de se nascer de novo. O novo homem é criado em Cristo, e só a partir de então é que se produz a boa obra.

A obra realizada por meio da antiga natureza não é contada como algo necessário para a existência da nova criatura. O salário que o pecador recebe é morte.

A vinda a existência da nova criatura fica na pendência única e exclusiva do poder de Deus. Primeiro há a regeneração e após as obras. Não há como inverter os fatores.

Não é por obras, visto que o novo homem é criado em Cristo; todos os que creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus com o objetivo de produzirmos boas obras.

São poucas as citações do antigo testamento, mas Paulo buscou em Isaías esta última declaração:

“SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ).

O profeta vaticinou o recebimento da paz que excede a todo entendimento. Há paz para aqueles que estão em Cristo Jesus, pois estes não necessitam realizar qualquer obra para alcançar a salvação.

Tudo que havia para ser feito foi realizado.

“Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo…” (v. 2);

“Não vem das obras (…) Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus…” (v. 10)

Por ser feitura de Deus, criado em Cristo, houve ‘um’ outro tempo em que o cristão não era feitura de Deus. Neste tempo a nova criatura (os cristãos) nunca existira.

Os versículos seguintes são conclusivos. Todo arcabouço doutrinário demonstrado nos versículos anteriores é utilizado como base para tocar o pensamento dos leitores.

Com base nos elementos doutrinários Paulo conclui: “Portanto…”

Gentios e Judeus

11 Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens;

O apóstolo reiterou aos seus leitores que eles haviam sido vivificados dentre os mortos.

Até o versículo anterior o apóstolo expõe questões de ordem doutrinária. Deste versículo em diante Paulo utiliza-se das questões doutrinárias para tratar do relacionamento entre gentios e judeus que se tornaram cristãos.

Os cristãos gentios não deveriam esquecer que ‘noutro tempo’ eles eram gentios na carne, ou seja, noutro tempo eles não pertenciam a Deus. Ser gentio na carne refere-se à descendência, a origem do indivíduo quando separado da comunidade de Israel.

Deus estabeleceu uma distinção entre gentio e judeu quando escolheu Abraão e lhe fez promessa. Esta distinção tinha a finalidade de preservar a linhagem que introduziria Cristo ao mundo.

Porém os judeus não entenderam este contexto e se achavam melhores que os outros povos simplesmente por terem o rito da circuncisão. Tinham na circuncisão um elemento de salvação, visto que, através dela, avocavam a filiação de Abraão com direito a promessa.

Por isso os judeus nomeavam os gentios de incircuncisos. Os judeus nomeavam os gentios de ‘incircuncisão’ e se auto-intitulavam de ‘circuncisão’.

Com a classificação feita por Paulo entendemos que os judeus são carnais, visto que eles não aceitaram a Cristo “… pelos que na carne …”.

A circuncisão dos judeus é caracterizada por Paulo de: “… feita pela mão dos homens”, para diferenciar da circuncisão realizada por Cristo ( Cl 2:11 ).

12 Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.

Paulo aponta cinco situações diferentes em que se encontravam os gentios:

a) Sem Cristo;

b) Separados da comunidade de Israel;

c) Estranhos às alianças da promessa;

d) Não tendo esperança, e;

e) Sem Deus no mundo.

Neste versículo Paulo refere-se ao ‘outro’ tempo através da afirmação: “naquele tempo”. A qual tempo o apóstolo se refere? A outro tempo, o que é diferente quando se refere ao passado.

Paulo enumera estas cinco situações de maneira peculiar: no tempo em destaque, os cristãos ainda eram incrédulos. As situações enumeradas por Paulo retroagem no tempo: os gentios estavam sem Cristo, condições sanadas quando creram na mensagem do evangelho.

Somado a situação de não terem Cristo, os gentios também estavam à parte da comunidade de Israel como conseqüência de não serem participantes das alianças.

Anterior a tudo isto, os gentios não tinham esperança, visto que a humanidade perdeu o vínculo com Deus em Adão.

13 Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto.

Porém, no tempo presente, o agora, os cristãos estavam em Cristo. O estar em Cristo remete a nova natureza, visto que aqueles que estão em Cristo, são novas criaturas “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

“…vós, que antes estáveis longe…” refere-se aos gentios.

O sangue de Cristo aboliu o pecado que fazia a separação entre Deus e os homens, e a lei, que fazia separação entre judeus e gentios. Desta maneira os gentios se achegaram a Deus.

14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio,

Cristo é a paz de Deus dada aos homens. Os que receberam a paz de Deus passam a fazer parte do grupo que Paulo intitula como sendo ‘nós’. Jesus é a nossa paz, visto que por meio da igreja ele uniu judeus e gentios em um único corpo ( Ef 3:6 ).

15 Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz,

Na carne de Cristo foi desfeita a inimizade entre os homens e Deus. Sabemos que a lei só pode disciplinar a carne, sem valor algum para o espiritual. Conforme esta verdade, Cristo ofereceu a sua carne na morte, e com ela desfez a lei dos mandamentos.

Todos quantos creem em Jesus também se desfazem da carne e tornam-se espirituais, pois se conformam com Cristo na as morte ( Cl 2:11 ), e não mais estão sujeitos a lei, pois ela só tem poder sobre aqueles que vivem na carne.

Ao destruir a barreira de inimizade, Cristo criou em si mesmo dos dois povos um novo homem, e estabeleceu a paz.

16 E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.

Reconciliar ambos, judeus e gentios, com Deus. É o mesmo que matar na cruz as inimizades. A cruz é o elemento reconciliador dos homens com Deus. Por quê? Porque por meio dela o homem morre para o mundo e é criado um novo homem que vive para Deus.

Quando Paulo aponta as inimizades, ele tem em mente a inimizade entre Deus e os homens pecadores, e a inimizade que existia entre judeus e gentios, visto que o véu do templo rasgou-se de alto a baixo.

17 E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto;

Paulo demonstra que Jesus não fez acepção de pessoas ao anunciar o evangelho da paz. Ele anunciou aos gentios e aos judeus a paz que excede todo entendimento.

18 Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.

Por que paz? Porque por Jesus, tanto judeu quanto gentio, tem acesso a Deus em um mesmo Espírito. Alguém poderia contestar onde estaria a paz evangelizada, e Paulo aponta a paz no acesso que ambos, judeus e gentios, têm acesso a Deus.

19 Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus;

Antes, os gentios eram estrangeiros e forasteiros. Em Cristo os gentios tomaram a posição de cidadãos e pertencentes à família de Deus.

20 Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;

O apóstolo aponta a solidez no qual os elementos que foram adquiridos em Cristo sustentam a condição anterior. Cristo é a pedra onde podemos construir um edifício a Deus “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina” ( At 4:11 ); “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

21 No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor.

Em Cristo, a Principal Pedra de Esquina, está sendo construído um só edifício, e o edifício cresce bem ajustado para habitação de Deus ( Is 57:15 ).

22 No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.

Paulo aponta para os gentios demonstrando que eles também estavam incluídos no edifício destinado à morada de Deus em Espírito “…vós juntamente sois edificados…” (judeus e gentios).

O elemento ‘comunhão’ é essencial para a construção deste edifício ( Jo 1:7 ).




Hebreus 1 – O testemunho de Deus acerca do seu Filho

Se entrevistássemos o escritor da carta aos Hebreus, e perguntássemos: Quem é Jesus? A resposta estaria nos versículos dois a quatro ( Hb 1:2 -4). Se pedíssemos que o escritor apresentasse argumentos em favor das suas alegações acerca de Jesus, elas estariam expostas nos versículo seis a quatorze ( Hb 1:6 -14).


A abordagem que faremos à carta aos Hebreus será realizada levando em conta o texto e o seu contexto. Não ficaremos presos à divisão feita em capítulos e versículos, antes analisaremos o contexto, e depois, comentaremos alguns aspectos do texto.

Esta abordagem será necessária para estabelecermos um novo parâmetro de análise como subsídio ao comentário bíblico, diferente do que estávamos fazendo com as outras cartas.

Esta maneira de analisar uma carta é uma ferramenta poderosíssima na interpretação de textos, o que auxiliará em muito o estudo dos nossos leitores quando da leitura de outras cartas bíblicas.

A linha de raciocínio do escritor da carta aos Hebreus ficará grafada na cor vermelha, um recurso para tornar fácil visualizar as diferenças entre texto e contexto. A ideia principal do autor da carta aos Hebreus sempre estará colorida de vermelho, e as outras cores, quando utilizadas, evidenciará outros aspectos pertinentes ao texto e o contexto.

Estou grato a Deus pela vida daqueles que puderem ter acesso a esta abordagem.

 

Hebreus – Capítulo 1

1 Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

A ideia principal que estrutura a carta é desenvolvida em uma única linha de raciocínio. Esta linha de raciocínio tem início no primeiro versículo da carta aos Hebreus. A ideia geral que dá estrutura a carta será nomeada de texto.

Durante o desenvolvimento do texto surgirão outras ideias, que podemos nomear subtextos, e que possuem um contexto próprio, porém, são utilizados para complementar ou ilustrar a ideia desenvolvida no decorrer da carta.

A ideia principal geralmente não depende dos subtextos para ser compreendida. Observe:

O versículo um deste capítulo dá início ao texto da carta, porém, só é possível determinar o seu contexto quando da leitura do versículo um do capítulo dois. Só a leitura do capítulo não concede os elementos necessários para se determinar qual o contexto da carta.

Do capítulo um só é possível extrair declarações acerca da pessoa de Jesus. Tais declarações são completas em si mesmas, porém não lançam luz ao contexto da carta.

Só é possível determinar o contexto da carta quando da leitura do capítulo dois, versículo um.

Destaquemos os personagens que compõe a estrutura do versículo um da carta aos hebreus:

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho

 

Deus – o escritor da carta aos Hebreus fala de Deus, Aquele que se deu a conhecer a Moisés como o ‘Eu Sou’ “E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” ( Ex 3:14 );

Pais – Refere-se ao povo de Deus que foi escolhido em Abraão; Ou seja, pais, neste versículo, representam a árvore genealógica do povo de Israel, que teve início com o patriarca Abraão. ‘Pais’ é uma referência a todo o povo de Israel;

Profetas – Eram homens e mulheres escolhidos por Deus dentre os pais para levar mensagens ao povo de Israel;

Nós – referem-se aos cristãos, aqueles que ouviram a palavra de Cristo e o aceitaram como Senhor e Salvador. Observe que o escritor da carta se inclui na narrativa através do pronome na primeira pessoa do plural;

Filho – O escritor fala de Cristo, o Filho de Deus “Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas numa roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?” ( Pv 30:4 ).

 

Os registros do Antigo Testamento, de Gênesis à Malaquias apresentam a fala de Deus a um povo contradizente “Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” ( Rm 10:21 ). Deus falou muitas vezes e socorreu outras tantas o povo de Israel, porém, eles eram um povo contradizente, de dura cerviz.

O cuidado de Deus não se restringiu só em falar por diversas vezes. Ele falou diversas vezes e de muitas maneiras, ou seja, através dos profetas, reis, juízes, salmistas, etc.

Os últimos dias referem-se ao ministério de Cristo, a sua morte, ressurreição e a igreja, o corpo de Cristo.

 

Obs: Os versículo coloridos de vermelho constituem o texto principal da carta, e os versículos em Azul, constituem subtextos.

 

 

2 Filho A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. 3 O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; 4 Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles.

O escritor deixa o enredo da carta e passa a falar da pessoa de Cristo. Ele abre um parêntese na escrita da carta para explicar quem é Jesus aos cristãos Hebreus.

Se entrevistássemos o escritor da carta aos Hebreus, e perguntássemos: Quem é Jesus? A resposta estaria nos versículos dois a quatro ( Hb 1:2 -4). Se pedíssemos que o escritor apresentasse argumentos em favor das suas alegações acerca de Jesus, elas estariam expostas nos versículo seis a quatorze ( Hb 1:6 -14).

Este é um recurso que na língua portuguesa denominamos aposto explicativo.

O escritor apresenta nove declarações sobre a pessoa de Jesus. Cada declaração não dependente da declaração seguinte para dar consistência a ideia.

Sobre a pessoa de Jesus o escritor da carta aos Hebreus faz as seguintes declarações:

Herdeiro de tudo“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ) – Jesus, como Filho de Deus é herdeiro de todas as coisas;

Fez o mundo“Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele” ( Cl 1:16 ) – Tudo foi criado por Jesus, o Filho amado;

Resplendor da glória de Deus“Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” ( Tt 2:13 ) – Jesus é o resplendor da glória de Deus;

Expressa imagem de Deus“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” ( Cl 1:15 ); “…para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” ( 2Co 4:4 ) – Jesus, o verbo de Deus;

Sustenta todas as coisas – “E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” ( Cl 1:17 ) – Todas as coisas subsistem por Cristo;

Purificou os cristãos dos seus pecados“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ) – Livrou aqueles que creram de todos os pecados;

Assentou-se a destra de Deus“O qual está à destra de Deus, tendo subido ao céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências” ( 1Pe 3:22 ) – Demonstra o poder de Cristo após a ressurreição;

É mais excelente que os anjos“Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:21 ) – Em todos os tempos o nome de Cristo é sobresselente;

Herdou um nome excelente“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” ( Is 9:6 ) – Jesus é o nome sobre todos os nomes.

Observe que todos os outros apóstolos comungam da mesma opinião que o escritor da carta aos Hebreus.

Após fazer este breve comentário acerca da pessoa de Cristo, o escritor passa a demonstrar de onde ele tirou as considerações acima.

A base para a crença dos cristãos está nos escritos do Novo Testamento. Para os apóstolos e/ou para o escritor da carta aos Hebreus as bases para as suas afirmações acerca da pessoa de Cristo estão contidas no Antigo Testamento.

Através do vínculo que os escritores do Novo Testamento faz com o Antigo Testamento podemos perceber, de maneira clara, que o Deus do Antigo Testamento é o mesmo Deus do Novo Testamento. Que o Antigo Testamento é divinamente inspirado por Deus, e seus livros contêm as bases do Novo Testamento. Este não subsiste sem aquele!

A Bíblia é um composto de livros em torno de uma ideia única: Deus revelando-se à humanidade!

A mesma estrutura de texto que temos na carta aos Hebreus, encontramos na Carta de Paulo aos Colossenses, quando o apóstolo escreve acerca de Cristo. Observe: Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” ( Cl 1:14 -19).

Paulo demonstra que Cristo é a imagem de Deus; o primogênito de toda criação; que nele foram criadas todas as coisas; tudo foi criado por Cristo; Ele é antes de todas as coisas; tudo subsiste por ele; etc.

Tanto Paulo quanto o escritor aos Hebreus utilizam uma estrutura de composição de textos semelhante, informando os leitores a respeito de Cristo. Compare ( Cl 1:14 –19) com ( Hb 1:2 -4).

Mas, na carta aos Colossenses temos outro texto a comparar com a carta aos Hebreus. Observe:

“Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade; No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” ( Cl 2:8 -15).

 

Apesar das estruturas de textos serem semelhantes em ( Hb 1:3 -4; e Cl 1:14 -19), o enfoque dos escritores e o contexto são diferentes.

A estrutura dos textos abaixo nos permite verificar que as afirmações que se seguem desempenham funções semelhantes na composição do texto de Hebreus e Colossenses. Compare:

“Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” ( Cl 2:9 ), e;

“A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas; Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles” ( Hb 1:3 -4), e;

O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele…” ( Cl 1:14 -19).

Estes três trechos desempenham a mesma função: são afirmações a respeito da pessoa de Cristo.

Paulo fez várias afirmações a respeito de Jesus ( Cl 1:14 -19), da mesma forma que o escritor da carta aos Hebreus também fez várias afirmações ( Hb 1:3 -4), porém, em ( Cl 2:8 -15) temos uma única afirmação sobre Jesus, e o restante do texto traz um enfoque e um contexto diferente do que vimos em ( Hb 1:3 -4 e Cl 1:14 -19).

A diferença nos textos decorre do enfoque dos escritores.

Enquanto Paulo procura demonstrar a nova condição dos cristãos em Cristo ( Cl 2:8 -15), o escritor aos Hebreus procura demonstrar que o Cristo, que os seus contemporâneos conheciam, foi feito menor que os anjos por causa da paixão da morte, e que agora, está assentado à destra do Poder nas alturas ( Hb 1:3 -4).

Em Hebreus o contexto é de exortação “Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas” ( Hb 2:1 ), e em Colossenses o contexto é de conscientização “E estais perfeitos nele (…) estais circuncidados (…) sepultados com ele (…) nele também ressuscitastes” ( Cl 2:9 -15).

Os cristãos alcançam a plenitude em Cristo ( Cl 2:10 ), porém os colossenses não tinham consciência do que possuíam; Os cristãos Hebreus ouviram a palavra de Deus algumas vezes, porém deveriam ser diligentes, para que em tempo algum se desviassem da verdade do evangelho.

Por possuir vários contextos, a carta de Paulo aos Colossenses evidencia de maneira clara as diferenças que um mesmo texto trás, quando se observa e analisa o contexto.

Continuemos o comentário à carta:

 

5 Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?

6 E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.

7 E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo.

8 Mas, do Filho, diz: O Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino. 9 Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.

10 E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. 11 Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.

13 E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?

14 Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?

 

O escritor da carta aos Hebreus faz sete citações do Antigo Testamento para dar base as declarações que ele fez acerca da pessoa de Jesus.

Por ele ter afirmado que Jesus foi “Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles”, o escritor da epistola, através de uma argumentação lógica e em conjunto com as citações, demonstra que o A. T. é a base de apoio para as suas afirmações.

O escritor argumenta que o que foi registrado acerca de Jesus não se refere a anjos. O que foi predito acerca do Messias, jamais foi dito de um ser angelical.

Seguem as citações do Antigo Testamento feitas pelo escritor da carta aos Hebreus:

“Tu és meu Filho, Hoje te gerei” ( Sl 2:7 ) – O salmo dois é eminentemente messiânico, e demonstra a Filiação divina do Cristo. O Messias prometido foi gerado de Deus. Não há registro no Antigo Testamento de que algum ser celestial tenha recebido uma declaração divina semelhante à recebida por Jesus. Só ele foi gerado de Deus, enquanto os anjos foram criados. Jesus é o unigênito de Deus.

“Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho” ( 2Sm 7:14 ) – Não há registro de que Deus tenha estabelecido a relação de Pai e Filho com algum ser celestial; por isso a argumentação: “Porque, a qual dos anjos ele disse jamais?”

“E todos os anjos de Deus o adorem” provavelmente uma citação do ( Sl 97:7 ) “Prostrai-vos diante dele, todos os deuses” – A nenhum ser foi dado a honra de receber adoração; Com relação a argumentação que antecede a citação do versículo, deve-se observar que, “E outra vez…” refere-se a argumentação anterior: “Porque, a qual dos anjos disse jamais…”. Ou seja, Ele já havia demonstrado que aos anjos jamais foi dito o que foi destacado dos salmos, e que outra vez ficaria demonstrado que sobre os anjos, jamais foi dito que alguém deveria adorá-los; Ele estava demonstrando novamente (E outra vez), através de outra citação do A. T. (v. 6), que, quando no mundo foi introduzido o primogênito de Deus, que todos deveriam adorá-lo;

“Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo” ( Sl 104:4 ) – Quando a Bíblia faz uma citação que contém algo a respeito dos seres celestiais, é bem clara a função que desempenham diante de Deus: são ministros de Deus.

“O Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de eqüidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros” ( Sl 45:6 -7) – Sobre Jesus, o Filho de Deus, o Salmo quarenta e cinco declara que Ele é Deus; que possui um reinado que dura pelos séculos dos séculos; a qual dos anjos foi dito o que está no salmo 45?

“Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. 11 Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão” ( Sl 102:25 -26) – O Salmo 102 é citado porque diz que no princípio Ele (Jesus) fundou a terra; Jesus, o Senhor que fundou a terra, e que os céus são obras de suas mãos; são provas irrefutáveis acerca da divindade de Cristo;

“Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?” ( Sl 110:1 ) – Alguma vez foi dito a um anjo que se assentasse a mão direita do Todo Poderoso? Jamais!

O escritor da carta aos Hebreus conclui com base nas citações do Antigo Testamento: “Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?”.

Após a exposição do escritor aos hebreus de quem é Jesus, o Filho de Deus, o escritor volta a compor o texto da carta, o que veremos no comentário ao próximo capítulo.

 

Comentário versículo à versículo do capítulo primeiro da carta aos Hebreus

Alguns leitores já estavam acostumados aos comentários versículo a versículo, e não podíamos nos furtar a não disponibilizar tal comentário.

1 – Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,

O escritor informa o leitor da carta que Deus falou no passado usando profetas, e esta mensagem era direcionada aos pais (‘pais’ refere-se a todo o povo hebreu), e Deus utilizou-os de várias formas para trazer a sua mensagem ao povo como: visões, profecias, cânticos e a lei.

Deus continua falando aos homens, porém, com um diferencial: antes falou por mensageiros, nos últimos dias através do Filho.

2 – A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.

Deus utilizou o seu próprio filho Jesus Cristo para falar ao povo, ou Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo.

Certa vez, Jesus conversando com os fariseus, foi indagado sobre a sua autoridade. Se esta autoridade era proveniente dele mesmo ou de Deus, e Ele lhes propôs está parábola: Um proprietário plantou uma vinha e arrendou a vários trabalhadores e de tempos em tempos mandava os seus servos verificarem como estava a vinha, e nenhum destes servos era respeitado, nem ouvido. Por último, o proprietário enviou seu filho na esperança que este fosse respeitado, mas arrastaram o herdeiro e o mataram. Na parábola o proprietário representa Deus, a vinha à nação de Israel, os trabalhadores os lideres do povo, e o filho a pessoa de Cristo.

Esta parábola ilustra de forma contundente o cuidado de Deus ao trazer uma mensagem à humanidade por intermédio de seu Filho.

Últimos dias referem-se aos dias do escritor, que se estende aos cristãos de hoje ( Mt 20:1 -16; Mt 3:17 ).

3 – O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas;

Cristo foi constituído por Deus herdeiro de tudo, e através d’Ele o mundo que habitamos foi feito. Cristo é o próprio resplendor da glória de Deus, a sua Imagem exata, uma vez que sustenta todas as coisas pelo poder de sua palavra.

Sabemos que Jesus foi enviado para purificação dos pecados dos homens, e para isso, tomou a forma humana. Muitos viram o Unigênito do Pai, porém não se deram conta da magnitude da pessoa de Cristo, o que motivou o escritor a evidenciar estas características do Filho de Deus aos leitores.

Aquele Cristo que tanto era falado pelos apóstolos havia feito o mundo e sustenta todas as coisas com o seu poder. O escritor amplia a visão dos seus leitores demonstrando que aquele Jesus que eles tiveram contato, Ele mesmo havia feito a purificação dos pecados deles e de todos quantos crerem, tornando evidente a Divindade de Cristo. Só Deus tem o poder de perdoar pecados.

O homem que entre eles andara, agora estava assentado a destra de Deus nas alturas, assumindo o seu lugar de direito. Estas declarações aos cristãos Hebreus são muito significativas do ponto de vista histórico e teológico.

4 – Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles.

Alguns pecavam em fazer um comparativo entre a pessoa de Cristo e os anjos, e este capítulo procura desfazer esta confusão, demonstrando que o Filho não era um ser angelical, mas o próprio Criador.

Textos citados pelo escritor da carta evidenciam que o Messias ao deixar a forma humana ascendeu aos céus sentando-se à destra de Deus, tornando-se mais excelente que os anjos (como homem ele era menor, por causa da paixão da morte).

Ao voltar aos céus e herdar a glória que antes possuía, Jesus adquiriu um nome mais excelente.

Entre Deus e os Anjos há a relação Criador e criatura. No céu não há relação de parentesco entre os anjos, como Cristo bem esclareceu. Lá não se casa e nem se dá em casamento. Não há como um ser angelical assumir a posição de Filho ( Mt 22:30 ).

Jesus assumiu a posição de Filho quando introduzido no mundo. Do momento em que Cristo foi introduzido neste mundo é que passou a vigorar a relação estabelecida na eternidade: Eu lhe serei por Pai e tu me será por Filho.

 

5 – Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?

O escritor da carta passa a demonstrar aos cristãos que Deus jamais disse a um Anjo “Tu és meu Filho”, sendo que o decreto é específico ao seu próprio Filho Jesus, que foi gerado pelo Espírito Santo.

Observando o ( Sl 2:7 ), é como se o Filho possuísse como garantia de sua filiação neste mundo uma lei (decreto) do seu Pai, chamando-o de Filho. O texto citado na carta refere-se à passagem na qual o profeta Natã entrega uma mensagem a Davi dizendo que o seu “descendente” edificaria uma casa a Deus, e em contra partida, Deus estabeleceria o reino do descendente para sempre.

Em certo momento da profecia, Deus declarou que haveria de ser Pai de um dos descendentes de Davi, e que o descendente lhe seria por Filho.

Dentro destas duas passagens apresentadas (v. 5), entendemos que na eternidade houve um acordo entre as pessoas da divindade (sendo elas iguais entre si em poder, glória e majestade) o Deus único, por quem foi feito o mundo.

A relação que se estabeleceu entre as pessoas da divindade na eternidade é que, uma das pessoas haveria de ser o Pai (Lhe serei por Pai) e o outro o Filho (Tu me serás por Filho).

Se assim considerarmos, quando da concepção e nascimento de Jesus se estabeleceu o tempo chamado “hoje”. Ou seja, Cristo sendo Deus assumiu o lugar de Filho ao ser gerado e introduzido no mundo, selando a relação que se estabeleceu na eternidade.

Na carne ele é o descendente de Davi, porém, é o Unigênito do Pai por existir antes dos séculos dos séculos. O Primeiro gerado de Deus, diferente de Adão e dos anjos.

Na glória, Deus e Cristo são iguais em todos os atributos pertinentes a divindade ( Jo 10:30 ), entre nós, Cristo cumpriu o papel proposto na relação que o versículo demonstra “Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho”.

6 – E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem.

Ao assumir o lugar de Filho Unigênito aqui na terra, foi dada uma ordem aos Principados e Potestades Celestiais para renderem adoração ao Emanuel, o Deus Conosco, que foi dado em resgate de muitos.

Verificamos a adoração do anjos quando do nascimento de Cristo. Os anjos em coro entoaram louvores ao Filho ( Lc 2:14 ). Quando da glorificação do cordeiro, ele foi recebido com louvores no céu ( Ap 5:11 -12). A ordem de adoração complementa a ideia de um selo da relação que foi estabelecida entre as pessoas da divindade na eternidade, entre Pai e Filho, que se concretizou a partir do dia chamado “hoje”, ou seja, quando da concepção no ventre de Maria ( Sl 97:7 ).

7 – E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos ventos, de seus ministros labareda de fogo.

Os anjos são comissionados para tarefas específicas, ou para realizar uma missão, muito diferente da determinada para o Filho. Eles somente foram designados para adoração e trabalho em prol dos santos.

8 – Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de eqüidade é o cetro do teu reino. 9 – Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.

O salmista ao profetizar acerca do Filho, chama-o de Deus, com um reino que perdurará pela eternidade, em consonância com o texto de Isaías que o proclama Deus Forte e Pai da Eternidade.

O reino de Cristo tem por base a eqüidade, o amor e a justiça. É evidenciado no seu reino o repúdio ao pecado e à transgressão. Em decorrência destes atributos Deus unge a Cristo com óleos de alegria.

O escritor da carta aos Hebreus cita o ( Sl 102:25 -26) para demonstrar o poder criativo inerente à pessoa de Cristo, de10 – E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. 11 – Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 – E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.monstrando que, Ele lançou os fundamentos da terra e as colunas que sustem os céus. A terra envelhece e há um tempo determinado para o seu fim, porém, de Jesus, o mesmo Salmo diz que Ele permanecerá, será o mesmo sempre, com existência que não se extinguirá.

A terra terá o seu fim, e vemos que Jesus terá participação efetiva na criação do novo céu e da nova terra ( Ap 21:1 -8).

13 – E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?

Não há um anjo se quer que o Senhor tenha convidado para se assentar juntamente com Ele no trono.

Dentre as inúmeras seitas que conhecemos, não há uma que se insurja contra os anjos. Geralmente elas surgem de alguma declaração em particular de supostos ‘anjos’ que lhes apareceram.

É certo que muitas seitas surgiram com o fito de negar a divindade de Jesus.

14 – Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?

Os anjos são espíritos que agem sob ordem e são enviados de Deus para servir os que herdarão a salvação. São todos eles espíritos ministradores, para servir aqueles que herdarão a salvação: Os que creem no nome do Filho.

 




Tiago 3 – Os perfeitos

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito a salvação, uma vez que foi alcançado pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através de comportamento. A salvação é pela fé (salvação) e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.


A Língua

1 Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo.

 

Tiago dá um conselho a alguns irmãos: não sejam muitos de vós mestres. Por que ele dá esse conselho? Alguns queriam ser mestre, porém não tinham recebido tal capacitação ( Ef 4:10 -11).

As pessoas que aspiravam a posição de mestre não atinavam que os mestres receberão juízo na condição de mestre e nem da necessidade de estar enquadrado em alguns quesitos que Tiago discorre neste capítulo.

O juízo que Tiago faz referência será estabelecido no Tribunal de Cristo ( Rm 14:10 ; 2Co 5:10 ), visto que ele se inclui entre aqueles que receberão maior juízo (implicitamente Tiago se posiciona como mestre), e por ser certo que ele tinha certeza de sua salvação. O juízo do Grande Trono Branco não é destinado à igreja “Meus irmãos…” (v. 1).

Os versículos que se seguem apresentam os motivos pelas quais os irmãos não deveriam aspirar a posição de mestres com o único fito de se vã gloriar.

 

2 Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo.

 

O apóstolo chama a atenção para algo que não devemos ignorar: todos tropeçam em muitas coisas! Tiago não exclui nenhum dos irmãos. Todos nós tropeçamos em muitas coisas.

O tropeçar deste versículo difere da ideia que Paulo apresenta em Romanos “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ). Isto porque o que Paulo apresenta diz respeito a todos que ainda não tiveram um encontro com Cristo.

A carta aos Hebreus demonstra o desejo do escritor em não tropeçar em coisa alguma, e para isso solicita aos cristãos que orem em seu favor “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ). O portar-se honestamente em tudo deve ser o desejo de todo cristão, porém, ele deve ter consciência de que falhará em muitas coisas.

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito à salvação, uma vez que a salvação é alcançada pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo, aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através do comportamento.

A salvação é pela fé (evangelho), e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.

“Se alguém não tropeça (em+a) palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo”

Após demonstrar que todos os cristãos estão sujeitos a erros, tanto comportamentais quanto conceituais, o apóstolo Tiago estipula uma condição para alguém ser perfeito: se não tropeçar em palavra, o homem é perfeito.

Tropeçar ‘em palavra’ não é falar palavras torpes, fofocar, mal dizer, mentir, etc. O ‘tropeçar em palavra’ não tem relação com o que é abordado no verso 5 ( Tg 3:5 ).

Se ‘tropeçar em palavra’ fosse falar palavras torpes, fofocar, mentir, amaldiçoar, o apóstolo não teria colocado o substantivo ‘palavra’ no singular “Se alguém não tropeça em palavra(s) …”. Quando alguém mente, fofoca ou amaldiçoa, profere várias palavras, diferente de tropeçar ‘em’ a ‘palavra’. Sobre qual ‘palavra’ o apóstolo fez referência?

 

A palavra do verso 2 do capítulo 3 diz da palavra da verdade, o que foi abordado desde o início da epístola:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 );

“Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:21 );

“E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” ( Tg 1:22 );

“Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural” ( Tg 1:23 );

 

Ou seja, desde o início da epístola o apóstolo demonstrou que os cristãos foram gerados pela palavra da verdade com o objetivo de serem primícias das criaturas de Deus (perfeitos). Ele também demonstra que é necessário rejeitar toda a imundície e malícia, recebendo com mansidão a palavra enxertada que salva o homem. O cristão é aquele que cumpre a palavra, e não somente ouvinte, ou seja, o ouvinte diz de quem se envolve em falsos discursos ( Tg 1:23 ).

A palavra da verdade é poder para criar filhos de Deus ( Jo 1:12 ), porém, não tem efeito sobre aqueles que não se exercitam nela “Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz” ( Tg 3:18 ). Ou seja, da mesma forma que o espelho não tem poder para mudar o homem que se utiliza do seu reflexo para contemplar o seu rosto natural, não terá nova vida aqueles que não atentam bem para a lei perfeita, e nela perseveram ( Tg 1:25 ).

Todos que creem na palavra tornam-se perfeitos, pois alcançou a salvação em Cristo ( 1Co 2:6 ; 2Co 13:11 ). Ou seja, Tiago estava demonstrando que quem não tropeça na (em+a) palavra alcançou a perfeição, isto porque muitos desejavam serem mestres, porém não compreendiam a palavra que concede a perfeição em Cristo “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ); “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

Muitos buscavam somente a posição de mestre por vã-gloria, o que promoveria somente a inveja, o sentimento faccioso, a confusão e toda má obra ( Tg 3:16 ). Quem quisesse ser sábio e entendido, condição essencial para ser mestre, bastava ter um bom procedimento ( Tg 3:13 ).

Os perfeitos manejam bem a palavra da verdade (poder de Deus), estão plenos (cheios) do poder de Deus ( Rm 1:16 ). Quem é perfeito se revestiu de toda a armadura de Deus ( Ef 6:10 , 13 -17), e não mais vive guiado pelas paixões humanas ( Gl 5:24 ; 2Tm 2:22 ), não tem falta de coisa alguma. Perfeito: maduro e completo ( Tg 1:4 ).

 

3 Ora, nós pomos freio nas bocas dos cavalos, para que nos obedeçam; e conseguimos dirigir todo o seu corpo.

O apóstolo passa a exemplos figurativos. Os exemplos apontam o contraste entre o tamanho e força do cavalo e a pequenez dos freios que os controlam.

 

4 Vede também as naus que, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme para onde quer a vontade daquele que as governa.

 

Ele apresenta o contraste entre o tamanho das embarcações e o leme que as orienta.

 

5 Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia.

 

“Assim também…”, ou seja, alguns dos elementos (leme e freio) que foram apresentados nas ilustrações anteriores se comparam proporcionalmente a língua e o efeito devastador que ela pode causar. O apóstolo evidencia o quanto é importante ter a língua sob controle.

Tiago apresenta uma grande verdade: a língua é um pequeno membro que se gloria de grandes coisas! Ou seja, muitos dentro da igreja se gabavam de serem mestres, mesmo quando não tinham esse dom. Porém, é difícil que alguém venha a se gabar das funções que aparentemente são pequenas.

Um bom exemplo de controle sobre a língua é observável em Paulo: “Se convém gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza. O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é eternamente bendito, sabe que não minto. Em Damasco, o que governava sob o rei Aretas pós guardas às portas da cidade dos damascenos, para me prenderem. E fui descido num cesto por uma janela da muralha; e assim escapei das suas mãos” ( 2Co 11:30 -33).

Paulo não se gabou de grandes coisas, antes, sentia-se lisonjeado por ter fugido do rei Aretas em um cesto.

Muitos em nossos dias se gabam de grandes feitos, grandes ajuntamentos, grandes mensagens. Porém, este é um feito próprio da língua quando sobre ela não se tem domínio.

Paulo bem que podia gabar-se do livramento que Deus concedeu a ele e a Silas, mas preferiu gloriar-se (como que em um ato de loucura) das suas fraquezas “E, perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam. E de repente sobreveio um tão grande terremoto, que os alicerces do cárcere se moveram, e logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos” ( At 16:25 -26).

Apenas uma fagulha de fogo pode incendiar um bosque inteiro.

 

Iniquidade

 

6 A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno.

 

A língua é comparada a uma fagulha que incendeia um bosque. Por vir especificada ‘um fogo’, demonstra que ela não é fogo, mas é comparável ao fogo por ter a capacidade de inflamar.

Embora esta carta traga muitos conselhos, não devemos ler e analisar seus textos como se lê e analisa o livro de provérbios. Primeiro porque provérbios é um livro, e o texto de Tiago é uma epístola.

As diferenças entre carta e livro acabam por influenciar a escrita e a linguagem utilizada pelo autor, visto que a linguagem deve ser própria ao público alvo.

O público que se destina um livro é abrangente, universal, enquanto que uma carta destina-se a um público restrito (os destinatários). Ou seja, uma carta tem o cunho pessoal, enquanto um livro se guia pela impessoalidade e universalidade.

O livro de provérbios destina-se a humanidade e a carta de Tiago aos cristãos.

O tema ‘língua’ não tem início neste capítulo. Este tema vem sendo desenvolvido desde o primeiro capítulo, o que diferencia a abordagem de Tiago da abordagem feita em Provérbios. Em Provérbios geralmente uma ideia se conclui em apenas um versículo.

Como a língua é um pequeno membro que se gaba de grandes coisas, todos os cristãos devem ter o cuidado de gloriar-se apenas em Deus ( Jr 9:24 ; 1Co 1:31 ; 2Co 10:17 ), pois no Senhor não há diferenças sócio-econômicas. Ou seja, o irmão de condição humilde deve gloriar-se na sua alta posição no Senhor e o rico na sua insignificância ( Ef 1:9 -10).

Porém, ao ingressar na igreja, tanto o pobre quanto o rico buscam o que entendem ser a melhor posição: querem ser mestre, doutores, pastores, etc. Esquecem que para ser algo diante do Senhor, devem deixar tudo, principalmente os conceitos e conhecimentos do mundo “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo…” ( Fl 3:8 ).

Aquele que procura ser mestre somente como meio para se gabar, sem ter a chamada para tal ministério, poderia causar um grande prejuízo a igreja de Deus, visto que poderia introduzir algum erro conceitual e a devastação seria semelhante ao pequeno fogo em uma floresta.

Observe que o homem é atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Por desejar ardentemente gabar-se de grandes feitos, aplica-se em alcançar grandes posições. Aquele que é guiado pela concupiscência, quando alcança uma posição de destaque, os deslizes com as palavras e os erros conceituais são inevitáveis (isto porque, todos nós tropeçamos em muitas coisas, e quem não tropeça em palavras é perfeito e capaz de refrear todo o corpo); e o que este homem estará propagando com a sua língua será como o fogo em uma floresta: devastador. A posição de mestre a alguém que não foi comissionado para ensinar potencializa o efeito destruidor do erro.

Para evitar tão grande mal, todo homem deve estar pronto a ouvir e ser tardio em falar, a exemplo daqueles que, diante da tentação, diziam de maneira equivocada que estavam sendo tentados pelo Senhor ( Tg 1:13 -17). Qual não seria o estrago no seio da igreja se alguém com este erro conceitual viesse a alcançar a posição de mestre?

Aquele que é enganado pelo seu próprio coração acredita que é religioso. Estes geralmente não controlam a língua, estão prontos a falar, são tardios em ouvir, e acabam lançando mão da ira ( Tg 1:16 ).

“…como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno”

O versículo acima é um exemplo prático do exposto no capítulo um, versículo quatorze e quinze. Compare:

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Cada pessoa é tentada pela sua própria concupiscência, ou seja, primeiro ela é atraída e engodada pelos seus próprios desejos. Quando estes desejos são levados a efeito, dá-se à luz o pecado, e o fim dele é a morte.

Da mesma maneira, o homem que não cumpre com o disposto no versículo dezenove do capitulo um, acaba por se gabar de grandes coisas ( Tg 3;5 ). Para fazer jus ao que foi propalado através da língua incontida, este homem vai se sentir atraído e desejar as ‘melhores’ posições na igreja.

Como todos tropeçam em muitas coisas, aquele que se gaba e alcança uma posição de destaque, irá tropeçar em palavras. Desta forma, a língua deste incauto será como fogo. Será como mundo de iniquidade situada entre os seus membros.

Como o que contamina o homem é o que procede do seu coração “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem” ( Mt 15:18 ); “Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem” ( Mc 7:15 ), a língua é o veículo que evidencia o que está no coração, o que contamina todo o corpo.

Tiago e Jesus falam do mesmo problema que afeta o coração da humanidade. Este fala do princípio pernicioso que contamina o homem (o pecado que tem domínio sob o coração do homem sem Deus), enquanto aquele fala da língua, membro que torna evidente o princípio pernicioso que está no coração do homem.

Tiago dá mais um alerta: a língua pode acelerar o processo de destruição do homem, que sem a intervenção da língua, seria natural, ou seja, seria conforme o curso próprio da natureza. Isto porque o curso da natureza do homem é a morte, e a língua tem a capacidade de inflamar; ela acelera o curso da natureza. Um exemplo desta verdade é o recomendado por Paulo: “Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo” ( 1Tm 3:6 ).

A soberba leva a queda, uma entrada súbita na condenação do diabo. E, o que resta a quem teve inflamado o curso da natureza pela língua? Ser inflamada pelo inferno!

Onde há pecado, há morte e a justiça de Deus não opera, o que resta é o fogo do inferno ( Tg 1:20 e Tg 3:6 ).

 

 

Fonte Doce, Água Doce

7 Porque toda a natureza, tanto de bestas feras como de aves, tanto de répteis como de animais do mar, se amansa e foi domada pela natureza humana;

 

Toda a natureza é dominada pelo homem porque Deus lhe deu o domínio “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

 

8 Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal.

 

Apesar da condição anterior (v. 7), o homem não pode domar a língua. Observe que Tiago aponta uma impossibilidade: nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode controlar; está cheia de peçonha mortal.

Se pensarmos somente na língua, é difícil explicarmos este verso. Porém, quando verificamos que o coração do homem e enganoso “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ); e que, o que procede do coração do homem é que contamina “E dizia: O que sai do homem isso contamina o homem” ( Mc 7:20 ), percebemos que a abordagem de Tiago refere-se ao posicionamento de Jesus: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

É impossível ao homem por si só mudar a natureza do seu coração “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ). Mas, o que é impossível aos homens é possível a Deus! Através da regeneração Deus cria um novo coração e um novo homem e lhe dá uma nova vida.

A ordem divina sempre foi: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Mas, como fazer tal circuncisão? É possível ao homem fazer tal incisão?

Ora, o é que impossível aos homens, é possível a Deus. A circuncisão do coração só é possível quando se está em Cristo “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

Tal circuncisão é pela fé “Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:6 -10).

Seria impossível a boca (língua) fazer a confissão verdadeira para a salvação caso não houvesse a circuncisão de Cristo. Só em Cristo é que o homem recebe um novo coração “E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” ( Ez 11:19 ).

 

9 Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus.

 

Tiago evidência a incoerência de alguns: bendizem a Deus e amaldiçoam a sua criatura.

 

10 De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim.

 

Isto quer dizer que de uma mesma boca, através de uma mesma língua, um coração deita benção e maldição.

Não é conveniente a cristãos que procedam desta maneira. Caso alguém questionasse o fato de não ser próprio aos irmãos falarem mal uns dos outros Tiago passa aos exemplos e motiva a sua argumentação.

 

11 Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa?

 

As perguntas de respostas prontas: Não! Cada fonte deita a água que lhe é própria. Mas, uma fonte de um mesmo manancial só pode produzir um único tipo de água.

 

12 Meus irmãos, pode também a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce.

 

O que é impossível às plantas é impossível às fontes de um mesmo manancial “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto” ( Lc 6:43 ).

O apóstolo segue fazendo uma aplicação prática do seu ensino.

 

13 Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria.

 

Esta pergunta é uma ‘pegadinha’. Aquele que responder: “Eu”, é o mesmo que queria ser mestre, e que Tiago procura dissuadir do seu intento ( Tg 3:1 ). Aquele que desejava ser mestre, ao menos se considerava sábio e entendido.

Pois bem, se houvesse alguém que se considerava sábio e entendido deveria demonstrar através de um bom trato (procedimento), as suas obras em mansidão de sabedoria.

Ou seja, aquele que não tivesse as suas obras demonstradas em bom procedimento, tinha em si amarga inveja e um sentimento faccioso.

É necessário observar os três elementos que compõe o versículo: “Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria”.

  • Mostre pelo seu bom trato – (trato: tratamento; ajuste, pacto, tratado; convivência; passadio, alimentação; procedimento, modos, etc). Aquele que se sentisse sábio e entendido deveria ter uma boa convivência, bons modos e procedimento;
  • As suas obras – ‘as obras’ constituem o motivo pela qual alguém se gaba; observe que ‘bom trato’ não é ‘boas obras’ (aquelas que são feitas em Deus), e que ‘boas obras’ também não é ‘as suas obras’, que o versículo faz referência; a pessoa que estivesse se gloriando deveria mostrar a sua realização (suas obras);
  • Em mansidão de sabedoria – Porém, deveria demonstrar as suas obras segundo a sabedoria descrita no versículo dezessete: em mansidão de sabedoria que do alto vem.

 

A Inveja: Obra da Carne

 

14 Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.

 

O problema encontra-se no coração do homem e a língua torna evidente este mal “…sentimento faccioso em vosso coração…”.

Este versículo demanda um exercício de interpretação de texto para uma melhor compreensão. Observe:

  • Uma pergunta“Quem entre vós é sábio e entendido?”. O contexto nos mostra que só quem quer ser mestre se considera sábio e entendido;
  • Uma determinação a quem respondesse afirmativamente que é sábio e entendido“Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” A determinação do apóstolo só é cabível a quem presume ser sábio e entendido; porém, a determinação é impossível de ser cumprida por quem se arroga na condição de sábio e entendido;
  • Uma conclusão“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração…”. Este versículo é uma conclusão do apóstolo, e aponta os elementos que consta do coração daqueles que se acham sábios e entendidos. Observe que o argumento fica inconsistente quando se tenta combinar a primeira e a segunda parte do versículo ao se enfatizar a partícula ‘se’: “Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso…”, e; “…não vos glorieis, nem mintais contra a verdade”. O indivíduo pode se gloriar de uma alta posição, porém, jamais alguém vai querer se gloriar de ser invejoso e faccioso. A Bíblia Vida Nova da Editora Vida Nova reza o seguinte: “Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade”. Para enfatizar a partícula ‘se’, trocam o ‘não’ pelo ‘nem’, o que dá a entender que alguém se gloria em ser invejo e faccioso (‘glorieis disso’, disso o quê?).

 

A ênfase deve estar no verbo ‘ter’, o que demonstra que aqueles que se sentiam entendidos e sábios só estavam cheios de inveja e contenda “Porém se tendes inveja amarga, e contenda em vosso coração…”.

A pergunta persiste: quem é sábio e entendido? Um sábio e entendido deve mostrar através do seu bom comportamento suas obras em mansidão de sabedoria. Quando alguém que se diz sábio e entendido não consegue cumprir com a determinação anterior, só pode estar acometido de amarga inveja e um sentimento faccioso no coração.

A determinação é clara e precisa: “…não vos glorieis nem mintais contra a verdade”.

  • Não vos glorieis – Com relação a gloriar-se, a primeira determinação do apóstolo é oposta: “Glorie-se o irmão de condição humilde (…) o rico, porém, glorie-se na sua insignificância…”; O apóstolo Tiago dá um bom motivo para os irmãos se gloriarem ( Tg 1:9 -10), e reitera que todos devem estar prontos a ouvir, tardios em falar ( Tg 1:19 ). Se alguém estava procurando a posição de mestre com a intenção de gloriar-se, a determinação é clara: não vos glorieis; pois os mestre receberão maior juízo ( Tg 3:1 ); a língua se gaba de grandes coisas ( Tg 3:5 ); e, quem entre eles era sábio e entendido, a ponto de gloriar-se? ( Tg 3:13 );
  • Nem mintais contra a verdade – o verbo no grego sugere que não deveriam alegar ‘falsas reivindicações de estarem na verdade’, ou seja, eles na verdade não eram mestres, antes tinham amarga inveja no coração e um sentimento faccioso.

 

15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.

 

Muitos dentre os cristãos se sentiam mestres, sábios e entendidos, porém a sabedoria que neles estava não vinha de Deus ( Tg 3:1 e 13).

A pretensa sabedoria que alguns possuíam não era a sabedoria que vem do alto.

A sabedoria terrena, animal e diabólica é a que está vinculada à velha natureza. Eles ainda eram carnais ( 1Co 3:3 ).

 

16 Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.

 

O apóstolo dá os motivos que compromete a sabedoria que alguns possuíam: inveja, espírito faccioso, perturbação e obra perversa “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” ( Gl 5:19 -21); “Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” ( 1Co 3:3 ).

 

17 Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.

 

O apóstolo Tiago descreve a sabedoria que vem de Deus. Esta é a sabedoria que Deus dá liberalmente a todos “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” ( Tg 1:5 ).

 

18 Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

 

O apóstolo Tiago chega a uma conclusão: o fruto da justiça semeia-se na paz! O que ele quis dizer?

Não se semeia o fruto, e sim a semente, pois devemos ter em mente que a semente dará o seu fruto no devido tempo. Ou seja, para se obter o fruto da justiça devemos lançar a semente na paz. Mas, qual é a semente que produz o fruto da justiça? Para se obter o fruto da justiça faz-se necessário semear a semente apropriada, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ).

Sabemos que Cristo é a nossa paz e que o fruto da justiça só é possível por meio dele ( Ef 2:14 ). Sobre este assunto o apóstolo Tiago já havia feito uma abordagem anteriormente:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas. Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus. Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:18 -21).

  • Gerou pela palavra da verdade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ) – a palavra do evangelho é semente que pode salvar as nossas almas e nos deixa na posição de primícias das criaturas de Deus;
  • Pronto para ouvir: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ) – a semente só germina quando ouvimos. Por isso a recomendação do apóstolo: “…recebei com mansidão a palavra…”;
  • Não opera a justiça de Deus: “Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” ( 2Co 5:21 ) – a justiça que surge é em Cristo (nele) e é resultado de uma obra divina (feitos);
  • Rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia: “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ) – o ato do cristão em rejeitar a imundícia e a superfluidade de malícia é o mesmo que se exercitar na paz.

 

Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

Passemos a explicar novamente o versículo dentro do contexto que o apóstolo vinha discorrendo.

Aqueles que desejavam ser mestre simplesmente para se gabar, foram avisados de que a sabedoria que vem do alto é pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia. Após informar qual a sabedoria que deveriam buscar, Tiago conclui: “Ora…”.

Ou seja, só é possível semear o fruto da paz, levar a semente do evangelho, aqueles que dela são nascidos e que exercitam a paz. Os que promovem a paz, ou aqueles que a exercitam, não devem ter amarga inveja e nem sentimento faccioso. Estes são requisitos essenciais a quem deseja ser mestre.

A Bíblia nos apresenta o fruto da justiça e o fruto do Espírito. Qual a relação entre eles?

“Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz”

“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança…”

 

Tiago fala como se semeia o fruto da justiça e Paulo aponta o que é o fruto do Espírito.

  • O fruto do Espírito“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:23 -24) – O fruto do Espírito só é possível àqueles que crucificaram a carne e nasceram do Espírito Eterno. Estes deixaram de viver segundo a carne e passaram a viver segundo o Espírito. Ou seja, cumpre-se o que foi dito por Cristo: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Aqueles que são nascidos do Espírito através do lavar regenerador da palavra do evangelho, estes são espirituais, e produzem em Deus amor, gozo, paz, longanimidade, etc. “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim” ( Jo 15:4 );
  • O fruto da justiça“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” ( 1Pe 2:24 ) – O fruto da justiça só é possível àqueles que tiveram os seus pecados levados pelo corpo de Cristo e crucificaram a carne, estando mortos para o pecado. Estes deixaram de viver para o pecado e passaram a viver segundo a Justiça. Ou seja, para pudéssemos ser: “Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” ( Fl 1:11 ).

 

Observe que o ‘fruto da justiça’ e o ‘fruto do Espírito’ só são possíveis por meio de Jesus. Observe também que os dois frutos estão no singular: o fruto. Ou seja, o fruto do Espírito é o mesmo que o fruto da justiça.

E o mais interessante: Paulo e Tiago falam do fruto do Espírito, e ou Fruto da Justiça, para dissuadir os seus leitores de comportamento semelhantes:

“Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” ( Gl 5:26 );

“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade (…) Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa” ( Tg 3:14 -16).




A fé

A fé (confiança, crença) surge da constatação de verdades contidas no mundo, e o homem passa a agir conforme estas verdades ou a esperar com confiança nas leis naturais que constatou com os seus sentidos e perspectivas. Ex: a lei da gravidade, a chuva, dia e noite, etc.

 


“Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do SENHOR nosso Deus” ( Sl 20:7 )

Este tema reveste-se de complexidade dada a importância que ele tem para a compreensão de como ocorre a salvação em Cristo. Para ser salvo em Cristo basta a fé, porém, diante dos questionamentos que se avolumam no decorrer dos tempos, faz-se necessário saber o que é a fé verdadeira, como adquiri-la e como exercê-la.

 

Classificação

Antes de abordarmos este tema do ponto de vista bíblico, devemos verificar sobre qual tipo de fé estaremos falando. Para a análise, classificamos a fé em dois grupos:

a) fé natural, e;

b) fé salvadora.

A definição de fé natural é facilmente extraída dos dicionários, como se lê:

“fé sf. 1. crença religiosa. 2. Conjunto de dogmas e doutrinas que constituem um culto. 3. Rel. A primeira das virtudes teológicas: adesão e anuência pessoal a Deus. 4. Firmeza na execução de uma promessa ou compromisso. 5. Crença, confiança. 6. Testemunho autêntico, escrito, de certos funcionários, que tem força em juízo”.

Da definição dos dicionários subentende-se que até mesmo os ateus possuem algo em que acreditar. Se eles professam que não creem em Deus, ao menos creem nas leis da natureza e em suas próprias ideologias.

A fé natural refere-se à certeza que o homem tem das coisas concernentes ao seu dia-a-dia. Todos os homens possuem a certeza de um amanhã. Todos têm certeza das conseqüências dos seus atos. Todos têm certeza quanto às leis da física, da matemática, da natureza, etc.

Esta confiança não é algo nato do homem. A fé surge através da interação do homem com o mundo. Ao nascer, o homem não tem certeza ou fé, e nem mesmo acredita em coisa alguma. Porém, no decorrer do tempo, o homem passa a interagir com o mundo, e dessa interação surge as certezas e as crenças.

A fé natural surge da experimentação, do ensino, da constatação. O que leva a concluir que a fé não é proveniente do homem, antes, a fé é proveniente do mundo que o cerca. A realidade é que concede elementos por demais convincentes e dignos de confiabilidade ao homem.

Isto é verificável de duas formas:

(1) a certeza que o homem possui não torna a realidade verdadeira ou certa, ou seja, a certeza do homem não muda a essência real das coisas;

(2) antes de o homem vir à existência, certas verdades já existiam.

“A verdade produz certeza (confiança, fé), mas a certeza não produz verdade”

O que nos leva a concluir que a fé não é proveniente do homem, mas sim, das coisas que estão há muito estabelecidas.

Não é a confiança do homem que promove a infalibilidade das leis naturais, antes a certeza de que tais leis são irrevogáveis, é que promove a confiança do homem.

A fé, ou a confiança, surge da constatação de verdades contidas no mundo, e o homem passa a agir conforme estas verdades ou a esperar com confiança nas leis naturais que constatou com os seus sentidos e perspectivas. Ex: a lei da gravidade, a chuva, dia e noite, etc.

A fé natural surge no homem quando ele consegue ‘mapear’ os eventos que o cercam durante o seu desenvolvimento. Com base nos elementos que o meio fornece, e através daquilo que conseguiu constatar, surge a ‘fé’, e este homem passa a agir de modo seguro e confiante.

A ‘crença’ do homem não garante os eventos que ocorrem ao seu redor, porém, os eventos certos e previsíveis produzem confiança, fazendo o homem agir com segurança.

A certeza que o homem tem quanto à lei da gravidade não é o que a torna real, antes é a ação da gravidade ao influenciar a realidade que o cerca que lhe dá a certeza da existência desta lei. Esta certeza foi adquirida gradualmente, aprendida e internalizada de forma experimental e teórica.

O atrito dá certeza a um motorista que o carro não derrapará. O semeador semeia na certeza de que a terra produzirá e que as sementes germinarão segundo a sua espécie. A fé no amanhã dá ao o homem a condição necessária para desenvolver projetos, etc.

 

“A fé natural e a fé salvadora possuem os mesmos princípios quanto à sua inserção no homem, porém, elas diferem quanto à finalidade”

 

A fé salvadora é semelhante à fé natural, pois ambas são alcançadas de fora para dentro. Enquanto esta advém da inteiração do homem com o mundo, aquela advém da inteiração do homem com a palavra de Deus.

A diferença principal entre fé salvadora e fé natural está no objetivo, ou na finalidade a que ambas propõe. Em última instância, tanto a fé natural, quanto a fé salvadora são provenientes de Deus.

A fidelidade de Deus é onde a confiança de todos os homens fundamenta-se.

Para uns, a confiança é algo imperceptível, uma vez que não se dão conta que a infalibilidade das leis naturais é que dá segurança e equilíbrio à existência dos homens. Outros, além de desfrutarem da segurança e equilíbrio que as leis naturais conferem ao seu dia-a-dia, ao saberem que Deus providenciou salvação poderosa a todos os homens, descansam e esperam na fidelidade de Deus, que prometeu e é poderoso para cumprir.

A fé salvadora apresenta as características seguintes:

1. A fé salvadora não é proveniente do homem – É Deus quem concede fé aos homens, ou antes, Deus é à base da fé;

2. A salvação é pré-estabelecida – antes que o homem viesse a existir, Deus providenciou salvação a todos os homens;

3. O homem é o recipiente da fé – o homem não produz fé, porém, é quem usufrui de seus benefícios;

4. A fé é a prova coisas que não se vêem – não é a fé que torna real o mundo vindouro, antes, é a realidade do mundo vindouro que proporciona fé;

5. A confiança do homem não é o que garante a salvação, antes, é Deus que se interpõe como garantia, o que da segurança ao cristão confiante.

Todos os homens de alguma maneira exercem confiança. O crente é aquele que faz menção do nome do Senhor, pois crê na informação de que Deus salva o homem ( Sl 20:6 -7). O descrente, por sua vez, confia em suas forças e possessões, pois através destes elementos ele consegue influenciar e interagir com o mundo.

Nesta vida não há diferença visível entre crentes e descrentes, mas a Bíblia alerta:

“Então voltareis e vereis a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que não o serve” (…) “PORQUE eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da estrebaria” ( Ml 3:18 ; Ml 4:1 -2).




Como fazer a obra de Deus?

A Bíblia demonstra que somente a palavra de Deus pode executar a sua obra, pois tudo que foi criado, obras visíveis e invisíveis, existem por intermédio da palavra de Deus ( Hb 11:3 ). Toda e qualquer obra realizada por Deus, criativa ou redentora, só pode ser executada por meio da sua palavra “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ).


Como fazer a obra de Deus?

“Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 )

Introdução

Há no coração dos homens uma disposição interna em realizar algo para Deus. Deste desejo têm surgido inúmeras religiões com inúmeros serviços e sacrifícios com intuito de agradar a Deus, porém, esquecem que o serviço não torna o homem agradável a Deus.

A pergunta que persiste pelos séculos e incomoda os homens acaba ecoando também entre muitos cristãos: – Qual é a obra de Deus? Como posso executá-la?

Esta mesma pergunta foi feita pelos judeus que seguiam a Cristo quando lhes prometeu alimento que concede vida eterna “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Ora, se o alimento para a vida eterna estava sendo oferecido por Cristo, sem dinheiro e sem preço, por que inquiriram sobre o que fazer para executar as obras de Deus?

Observamos neles uma grande inversão de valores. A ordem divina é que o homem coma do suor do seu rosto, e neste quesito os judeus buscavam um dádiva de Deus. Com relação a salvação, que é uma dádiva, queriam trabalhar pelo alimento celestial.

A multidão seguia a Cristo porque se fartaram com pães e peixes. Foram voluntariosos, destemidos, empreendedores e obstinados em seguir a Jesus, porém, estavam enfatuados quanto ao que estava sendo oferecido: buscavam somente sustento para o corpo.

Jesus estava ciente que o povo estava em seu encalço somente por causa dos pães e que não haviam considerado a sua pessoa, que é o pão que dá vida ao mundo. Seguiam a Cristo em busca de um milagre, pura e simplesmente, ou seja, trabalhavam por uma comida perecível.

Jesus estava oferecendo ‘comida’ que é para a vida eterna, gratuitamente, conforme o que foi anunciado por Isaías, mas não ouviram de bom grado “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura. Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:1 -3).

Do mesmo modo que Isaías orienta os trabalhadores a não gastarem o produto do trabalho naquilo que não podia satisfazer, Jesus orienta os seus seguidores a trabalharem pela comida que permanece “Jesus respondeu-lhes, e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” ( Jo 6:26 -27).

E o que é necessário ‘fazer’ para conseguir o alimento prometido? Basta ter fome e sede! Não precisa ter dinheiro! Não depende do produto de qualquer labuta! Basta inclinar os ouvidos e ouvir que a aliança se estabelece, sendo concedidas as firmes beneficências.

 

A Obra de Deus

Os idealizadores da pergunta: “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ), eram homens carnais, pois ainda não haviam crido em Cristo. Buscavam-no somente porque comeram pães e peixes a fartar, mas não estavam dispostos a considerar a doutrina de Cristo.

Jesus alertou-os para que deixassem de labutar pela comida que perece (pães e peixes), pois estavam seguindo o Mestre somente porque comeram pão a fartar. Ou seja, estas coisas seriam acrescentadas naturalmente, porém, aquele era o momento de buscar o reino dos céus e a sua justiça “Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” ( Lc 12:31 ).

Eles não compreendiam as coisas espirituais ( 1Co 2:14 ). Após uma breve análise da pergunta é possível demonstrar que estavam equivocados em quererem executar as obras de Deus.

O primeiro erro embutido na pergunta deles consiste na ideia de que é possível ao homem executar a obra de Deus. Seguiam o mesmo erro dos seus pais que foram resgatados do Egito, visto que eles também propuseram fazer a obra de Deus, como se lê: “E tomou o livro da aliança e o leu aos ouvidos do povo, e eles disseram: Tudo o que o SENHOR tem falado faremos, e obedeceremos” ( Êx 24:7 ).

Uma mente carnal entende que Deus quer que o homem execute a sua obra, pois não compreendem que ao homem compete somente descansar na promessa d’Ele. Basta qualquer homem dar ouvido à palavra do Senhor para que Deus realize a sua obra, que é: “Creia naquele que ele enviou”.

Observe a resposta e como Jesus corrige o foco da pergunta dos seus inquiridores: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Jesus demonstra que:

a) a obra é de Deus, e;

b) a obra é específica, ou seja, não compete ao homem realizá-la.

A obra de Deus consiste em que os homens ‘creiam n’Aquele que Ele enviou’, o Verbo encarnado. É por isso que a palavra do Senhor é anunciada em todos os tempos, para que creiam n’Ele, pois a obra de Deus (fé) vem somente pelo ouvir, ‘… e o ouvir pela palavra de Deus’ ( Rm 10:17 ).

A Bíblia demonstra que somente a palavra de Deus pode executar a sua obra, pois tudo que foi criado, obras visíveis e invisíveis, existem por intermédio da palavra de Deus ( Hb 11:3 ). Toda e qualquer obra realizada por Deus, criativa ou redentora, só pode ser executada por meio da sua palavra “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ).

Quando Moisés pegou o livro da aliança e leu aos ouvidos do povo era para que confiassem em Deus, pois por intermédio da palavra de Deus teriam vida “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Quando Jesus multiplicou os cinco pães e os dois peixes, Ele tinha o fito de dar a entender ao povo que o homem não terá vida por intermédio do pão material, antes só terá vida por intermédio da palavra de Deus.

Desde Moisés o povo andava atrás de alimento para sustento do corpo físico, pois ainda não haviam compreendido que a vida que Deus quer conceder aos homens é proveniente da palavra que sai da boca do Senhor.

Por labutarem por coisas pertinentes a esta vida o povo de Israel ficavam focados somente no que viam e não confiavam em Deus: rejeitaram ouvir a sua palavra, depois rejeitaram o Verbo encarnado “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Ex 20:19 ). O que era para vida entenderam que lhes traria morte! Que falta de confiança! Enquanto Deus oferece vida em abundância através da sua palavra, buscavam somente alimento para sustento da carne.

Como não creram na palavra que saiu da boca de Deus, Deus enviou o seu Filho Unigênito, o Verbo de Deus encarnado para que, por intermédio d’Ele os homens obtivessem vida “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ; Jo 1:4 ).

Cristo foi enviado por Deus na condição de pão vivo para que os homens obtivessem vida ( Jo 6:51 ), e Jesus levou a efeito este objetivo, anunciando a palavra de Deus “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ); “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” ( Jo 6:40 ; Jo 5:24 ).

Após a multiplicação dos pães Jesus concita os seus seguidores a deixarem de trabalhar pelo alimento que perece, antes deviam trabalhar pela comida que permanece, e que tal comida haveria de ser concedida de graça “… a qual o Filho do homem vos dará” ( Jo 6:27 ). Cristo anunciou ser o pão da vida, entregue para que os homens obtivessem vida.

Enquanto Jesus é o alimento que concede vida aos homens, o seu sustento era fazer especificamente a vontade do Pai e realizar a sua obra “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Somente Cristo pode realizar a obra de Deus! Por quê? Porque Ele é a palavra encarnada que faz o que é aprazível ao Pai ( IS 55:11 ). Jesus veio para que os homens cressem nos escritos do Pai, a obra de Deus por excelência, e para isso, anunciou aos homens as palavras de Deus: fez a sua vontade e obra “Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” ( Jo 5:47 ); “Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida” ( Jo 3:34 ).

Após esta análise, conclui-se que a obra de Deus é específica, e consiste em que os homens creiam no Verbo de Deus “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 8:29 ).

Neste sentido profetizou Isaías, demonstrando que Deus haveria de conceder aos homens a paz, ou seja, aquela que excede a todo entendimento, uma vez que Deus haveria de realizar nos homens (em nós) todas as suas obras “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Fl 4:7 ; Is 26:12 ).

Deus estabeleceu a paz em Cristo. É Deus que realiza a obra redentora, pois os que creem são obras d’Ele, ‘… feitura Sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas’ ( Ef 2:10 ).

Conclui-se através do que o apóstolo Paulo escreveu que, tanto ‘a obra de Deus’ quanto às ‘boas obras’ são proveniente de Deus, por intermédio de Cristo.

Após regenerado, compete aos cristãos andarem nas boas obras certos de que Deus já as preparou para este objetivo. Em Cristo toda a jactância é excluída! ( Rm 3:27 )

O cristão é obra de Deus conforme se lê: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

E como os cristãos foram criados? O apóstolo Tiago responde: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ). Deus gerou de novo os que creem por intermédio da sua palavra, pois toda obra de Deus só existe e se sustêm pela sua palavra.

A obra de Deus decorre da sua vontade concretizada através da sua palavra! Ele assim o fez para constituir as suas novas criaturas em louvor da sua glória e graça ( Ef 1:6 e 12 ).

Qualquer que ouve a palavra da verdade, o evangelho da salvação que é poder de Deus para todos que creem, recebe de Deus poder para ser feito filhos de Deus, deixando de ser filho de Adão ( Jo 1:12 ; Rm 1:16 ), e é selado com o Espírito Santo da promessa.

Tudo é por graça somente, pois o cristão é salvo por meio da fé (evangelho) que uma vez foi dada aos santos ( Jd 1:3 ; Ef 2:8 ). A verdade do evangelho, também denominada fé, é dom de Deus, o que dispensa as obras e a jactância ( Ef 2:9 ).

Se alguém convocar para fazer a ‘obra de Deus’, muito cuidado, pois é bem provável que quem faz este convite não compreenda ainda qual é a obra de Deus.




O cristão frente ao movimento Ateísta

É razoável aos cristãos ficarem preocupados com a nova empreitada dos humanistas e ateístas? Com base no que expõe a Bíblia, os ateus não podem ser classificados como falsos profetas, visto que os falsos profetas se apresentam como se estivessem a serviço de Deus, e, para tanto, afirmam crer em Deus ( Mt 7:15 ). É impossível ser falso profeta negando a existência de Deus.

 


O movimento ateísta tem preocupado alguns cristãos, pois acreditam que tais acontecimentos referem-se à predição de Cristo, que diz: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará” ( Mt 24:12 ).

Outros entendem que tal ‘ataque’ ateísta refere-se à seguinte pergunta do Senhor Jesus: “Quando, porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” ( Lc 18:8 ).

Será que o posicionamento de intelectuais ateístas promove um ‘esfriamento’ do amor segundo a predição de Mateus 24, verso 12? O movimento ateísta europeu possui alguma relação com a pergunta de Cristo em Lucas 18, verso 8? O que pensar do ateísmo?

 

Iniquidade ‘versus’ Amor

Quando Jesus declarou que, em decorrência da iniquidade o amor de muitos esfriaria, Ele o fez em particular com os seus discípulos no monte das Oliveiras ( Mt 24:3 ), pois eles queriam saber:

  • Quando o templo seria derribado;
  • Quais os sinais da vinda do Senhor, e;
  • O fim de todas as coisas.

Jesus alertou que muitos haveriam de ser enganados ( Mt 24:4 ; Lc 21:8 ), pois muitos falsos profetas viriam em nome de Cristo e enganariam a muitos ( Mt 24:5 ; Mt 24:24 ).

Foi predito também que haverá rumores de guerras, nação contra nação, reino contra reino, fome, pestes e terremotos, porém, estas coisas não eram o fim, antes era um prenúncio do tempo denominado de ‘princípios de dores’.

Neste tempo os filhos do povo do Messias (judeus) serão atormentados e mortos. Serão odiados por todas as nações por causa de Cristo. Neste tempo muitos dos judeus se escandalizarão, trairão uns aos outros e odiarão uns aos outros.

Falsos profetas enganarão a muitos e a iniquidade fará com que o amor de uns para com os outros diminua, ou seja, a traição e o ódio aumentam e o amor esfria (amor e ódio tornam-se grandezas inversamente proporcionais).

O tempo em que ‘o amor de muitos esfriará’ se dará somente após o período da ‘plenitude dos gentios’, ou seja, após o arrebatamento da igreja ( Mt 24:21 ). A instrução de Cristo aos discípulos tem em vista os judeus como nação, e não diz de um alerta específico para com a sua igreja.

Observe o que é predito em Mateus 24, versos 15 a 21. A igreja não tem que se preocupar com o inverno ou o sábado. A igreja não restringe a Judeia. A igreja não diz de uma nação. Portanto, a predição de Cristo em Mateus 24 e 25 têm em vista os judeus após a entrada do tempo dos gentios.

 

A Fé e a volta do Messias

É importante salientar que a fé que muitos dizem possuir quando tiram o chapéu para reverenciar a Deus não é a fé que salva. A fé que a religiosidade fomenta não é a fé que conduz o homem a Deus!

A única fé que salva é a que foi manifesta em Cristo Jesus “…aquela fé que havia de se manifestar” ( Gl 3:23 ), portanto, quando Jesus questiona se haverá ‘fé’ na terra quando da sua volta, ele inquiriu acerca da fé que foi manifesta aos homens, e não das crendices e misticismos que é próprio ao homem natural.

Jesus não afirma através deste versículo que o número de pessoas que não acreditam em Deus aumentará, ou que o número de religiões ao longo dos séculos reduzirá significativamente. A ênfase da pergunta de Cristo está na mensagem que Ele proclamava, ou seja, a fé (evangelho) que uma vez foi dada aos santos ( Jd 1:3 ).

A questão levantada por Cristo tem em vista os que creem, para que reflitam se a mensagem do evangelho continuará sendo difundida da mesma forma que Ele ensinou. Será que até a volta de Cristo o evangelho continuará sendo anunciado aos homens assim como foi ensinado por Ele?

Dentro desta perspectiva, Judas, o servo de Jesus, conclama os cristãos a batalharem pela fé (evangelho) que foi entregue aos santos ( Jd 1:3 ; Fl 1:27 ). Se os cristãos não estiverem envolvidos nesta batalha, há de ser que, quando Jesus voltar, não mais haverá fé (evangelho genuíno) na terra.

 

 

O Ateísmo e a Doutrina de Cristo

O ateísmo é uma corrente filosófica que afirma não existir deuses, ou que rejeita a ideia de que Deus existe. Tal corrente filosófica encontrou terreno fértil na Europa e na Ásia com a disseminação de conceitos como a liberdade de pensamento, do ceticismo científico e através de críticas acida contra as religiões.

Esta onda ateísta que inundou a Europa fez com que aumentasse o número de publicações de livros ateus, e por último, fomentou o surgimento de campanhas publicitárias na mídia, sendo utilizados até mesmo outdoors com frases e slogans negando a existência de Deus.

É razoável aos cristãos ficarem preocupados com a nova empreitada dos humanistas e ateístas?

Com base no que expõe a Bíblia, os ateus não podem ser classificados como falsos profetas, visto que os falsos profetas se apresentam como se estivessem a serviço de Deus, e, para tanto, afirmam crer em Deus ( Mt 7:15 ). É impossível ser falso profeta negando a existência de Deus.

Poderíamos classificá-los como sendo anti-Cristo ou anti-Deus, porém, o espírito do anti-Cristo, que desde o princípio age no mundo, nega que Jesus é o Cristo e/ou que Ele tenha vindo em carne ( 1Jo 2:23 ; 1Jo 4:2 ), porém, não se aplica em negar a existência de Deus.

Por outro lado, devemos considerar que os ateus não são mais e nem menos perniciosos que as seitas e religiões que se proliferam no mundo. Há alarde quando uma pessoa nega a existência de Deus, e certo conformismo quando alguém, que distorce a verdade do evangelho, diz crer em Deus.

Há aqueles que até promovem o sincretismo religioso por causa de uma bandeira em defesa da existência de Deus. Não podemos descartar que a crescente onda ateísta tenha como plano de fundo uma estratégia demoníaca para se promover o ecumenismo.

Mesmo dizendo crer em Deus os falsos profetas são mais perigosos que os ateístas, visto que os falsos profetas vêm até os cristãos ‘vestidos’ de ovelhas e introduzem encobertamente heresias de perdição ( 2Pe 2:1 ).

A incredulidade dos ateus nem de longe ameaça a verdade do evangelho de Cristo ou a existência de Deus, porém, os falsos profetas, aqueles que dizem ‘Senhor’, ‘Senhor’, são a verdadeira ameaça, pois transtornam a mensagem do evangelho.

Diante do evangelho os ateístas não são melhores ou piores que os demais pecadores ( Mq 7:4 ), pois Deus amou o mundo sem acepção de pessoas. Deus ama o cético, o ateu e o religioso de igual modo, pois deseja que todos venham ao conhecimento desta fé (verdade) maravilhosa ( 1Tm 2:4 ).

Jesus não condena os ateus, da mesma forma que não condenou a mulher adultera, visto que a sua missão não é condenar o mundo, antes salvá-lo “E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” ( Jo 12:47 ). Seria um contra sendo Jesus condenar o mundo que já estava sob condenação ( Jo 3:18 ; Rm 5:18 ).

Como bem sabemos, a verdade (fé) produz fé (confiança), mas a fé (confiança) não produz verdade (fé). Por mais que alguém confie em algo que não é verdadeiro, jamais tal confiança tornará a ‘mentira’ em ‘verdade’.

Se os homens acreditam em Deus ou não, tal crença não influenciará o destino deles. Se o maior ateu passar a acreditar na existência de Deus, por observar e considerar a natureza, nada mudará para a humanidade ou para ele.

Agora, caso um ateu passe a crer em Deus, como diz as Escrituras, rios de água viva correrão do seu ventre ( Jo 7:38 ), pois esta é a promessa de Deus para os que creem em seu nome segundo o que preceitua a Bíblia.

Se Voltaire, o pensador Frances, que é tido por muitos como sendo o maior ateu, passasse a acreditar na existência de Deus, nada alcançaria de Deus, pois nenhuma promessa d’Ele há para os que acreditam em sua existência.

A mensagem do cristianismo deixa bem claro que ninguém é ou será punido por Deus por não acreditar em sua existência, visto que, sobre todos os homens já pesa, sejam ateus ou não, uma condenação.

Como qualquer descendente de Adão os ateus estão igualmente condenados diante de Deus ( Rm 5:19 ).

A condenação não foi estabelecida somente para os ateus, antes veio para todos os homens, visto que todos pecaram. Não é o entendimento filosófico que certos homens seguem que os condenam, antes a condenação foi estabelecida através da ofensa de Adão ( Rm 5:18 ).

É a incredulidade (ofensa) de Adão que trouxe condenação sobre todos os homens, pois através dele o pecado entrou no mundo, e por ele, todos pecaram ( 1Co 15:22 ).

A Bíblia demonstra que todos os homens sem Cristo estão debaixo do pecado. Não importa as correntes filosóficas, religiosas e morais que adotarem, se não crerem no Filho, já estão condenados ( Rm 3:23 e Rm 5:12 ).

A Bíblia também demonstra que o melhor homem é comparável a um espinho e o mais reto a uma sebe de espinhos “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos” ( Mq 7:4 ).

Este verso demonstra que os religiosos podem ser mais perniciosos que os ateus, pois o mais ‘reto’ dentre os homens, diante de Deus está em pior condição. Por que em pior condição? Porque os publicanos e meretrizes entram adiante dos religiosos no reino de Deus “Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer” ( Mt 21:31 -32).

A mensagem de Cristo pra todos os homens é a mesma: ‘necessário vos é nascer de novo’, não importando se são religiosos, juízes, ateus, cientistas, ricos, pobres, reis ou plebeus ( Jo 3:3 ).

 

Os cristãos e o ateísmo

Qual deve ser a atitude de um cristão frente ao posicionamento ateísta?

Em primeiro lugar os cristãos devem estar “… preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” ( 1Pe 3:15 ).

Em segundo lugar, o apóstolo Paulo alertou os cristãos a não lutarem contra a carne e o sangue, antes deveriam lutar contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais ( Ef 6:12 ).

Com base nestas duas premissas, conclui-se que um verdadeiro cristão não deve promover um embate contra qualquer homem ou contra suas vãs filosofias. Um verdadeiro cristão jamais deve estabelecer uma cruzada contra qualquer credo ou sistema filosófico. Jamais deve estabelecer um sistema inquisitório contra qualquer pessoa ou nação.

O mundo jaz no maligno por causa da queda no Éden, sem qualquer relação com filosofias, nações ou credos. Um enfrentamento contra qualquer ordem ou sistema humano não mudará a realidade da condenação herdada em Adão. Cruzadas e inquisições não salvam ninguém da condenação eterna.

Qual a batalha do cristão? Há uma única ordem para os cristãos se engajarem em uma batalha: “Amados, enquanto eu empregava toda diligência para vos escrever acerca da salvação que nos é comum, senti a necessidade de vos escrever, exortando-vos a batalhar pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos” ( Jd 1:3 ).

Neste mesmo diapasão conclamou o apóstolo Paulo: “O que é mais importante, deveis porta-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo. Então, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais firmes em um mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho sem serdes intimidados pelos adversários” ( Fl 1:27 ).

Ele destacou o que é mais importante para os Cristãos:

  • Portarem-se dignamente conforme o evangelho de Cristo;
  • Que combatam juntamente pela fé do evangelho.

Para batalhar pelo evangelho, a fé dada aos homens, é necessário aos que creem estarem fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Qual a força do poder de Deus? Ora, o evangelho é o poder de Deus ( Rm 3:16 ), e os cristão tem que estar revestidos com o evangelho, que é a armadura de Deus para os seus servos ( Ef 6:13 ).

Após estar revestido, o cristão estará cônscio de que a ação de satanás neste mundo consiste em manter os homens entenebrecidos no entendimento, separados de Deus pela ignorância que há neles. Satanás luta para que não resplandeça aos homens ‘ignorantes’ a luz do evangelho “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” ( 2Co 4:4 ; Ef 4:18 ).

 

Conclusão

A incredulidade que condena o homem não está em dizer que não há Deus, pois a salvação não advém de afirmar que Deus existe.

Cartazes e outdoors negando ou afirmando a existência de Deus não mudam a realidade do pecado, pois um movimento pró-existência de Deus não salvará os homens.

O reino dos céus não depende de disputa publicitária em outdoors. Anúncios publicitários em transportes coletivos não têm poder para derrubar a barreira de separação que há entre Deus e os homens.

O poder de Deus é o evangelho, e o evangelho é poder de Deus. A ordem de Deus para os cristãos verdadeiros é anunciar o evangelho tal qual foi anunciado por Cristo. Slogan publicitário não promove a mudança de conceito (arrependimento) que só é possível através das boas novas do evangelho de Cristo.

Atacar os ateístas rotulando-os de burros, mentes fechadas, vazios, imorais, amoral, anarquistas, etc., não é o que ensina o evangelho de Cristo. Além do mais, a falta de moral, de conhecimento, de amor para com o próximo, de carinho, etc., é algo próprio a todos os homens, quer sejam ateus ou não.

Aliar-se a sistemas religiosos diversos tão somente para fazer tremular uma bandeira pró-existência de Deus também não é o que preceitua o evangelho de Cristo, pois não basta acreditar que Deus existe, antes é necessário crer naquele que Ele enviou para que possa alcançar salvação.




Porque sou cristão

O que define o conceito de cristão é a forma, ou seja, o modelo de doutrina estabelecido por Cristo. O apóstolo Paulo, um dos principais seguidores de Cristo, preocupava-se com a conservação do modelo das sãs palavras (ideias) proferidas por Cristo “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus” ( 2Tm 1:13 ). Concordo com Russell quando ele disse: “Não considero cristã qualquer pessoa que tente viver decentemente de acordo com a sua razão” *, pois cristão, em ‘stricto sensus’, é aquele que obedece de coração à forma de doutrina do evangelho de Cristo.


Porque sou cristão

“Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” ( Rm 6:17 )

Sou cristão porque obedeci de coração à forma de doutrina proveniente do evangelho de Cristo. Graças a Deus!

Esta é a minha resposta ao palestrante Bertrand Russell, ateu, que em 6 de março de 1927, na prefeitura de Battersea, da Secção do Sul de Londres da National Secular Society, expôs as suas razões no ensaio “Why I Am Not a Christian*” (Porque Não Sou Cristão).

Concordo com Russell quando ele disse: “Não considero cristã qualquer pessoa que tente viver decentemente de acordo com a sua razão” *, pois cristão em ‘stricto sensus’ é aquele que obedece de coração à forma de doutrina do evangelho de Cristo.

Isto posto, é correto afirmar que existem inúmeras pessoas que se intitulam cristãs, mas que não são. Há inúmeras religiões e religiosos que professam serem seguidores de Cristo, mas que não são cristãos. Isto porque não aceitaram e nem entendem a ‘forma’ de doutrina que decorre do evangelho.

O que define o conceito de cristão é a forma, ou seja, o modelo de doutrina estabelecido por Cristo. O apóstolo Paulo, um dos principais seguidores de Cristo, preocupava-se com a conservação do modelo das sãs palavras (ideias) proferidas por Cristo “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus” ( 2Tm 1:13 ).

Não basta alguém reconhecer que Cristo foi o melhor e mais sábio dos homens, ou um espírito iluminado, ou um dos profetas enviados, ou que Jesus era um dos anjos mais sublimes, etc.

Para ser cristão não basta seguir dogmas ou acreditar na existência de Deus, imortalidade, inferno, vida após a morte, etc.

O verdadeiro cristão é aquele que crê em Cristo conforme diz a Escritura “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” ( Jo 7:38 ). A Escritura que Jesus fez referência é definida como sendo o conjunto de livros do Antigo Testamento, onde temos o Pentateuco, os Livros Proféticos e os Livros Poéticos.

 

No que difere a doutrina do evangelho de Cristo de outras concepções religiosas existentes no mundo?

 

  • Difere quanto ao Julgamento da Humanidade;
  • Difere quanto à Justiça de Deus;
  • Difere quanto as considerações sobre a moral;
  • Difere quanto aos Caminhos;
  • Difere da concepção de Justiça dos homens;
  • Difere quanto as considerações sobre Deus;
  • Difere quanto as considerações sobre a Religião;
  • O Melhor e mais Sábios dos Homens;

 

Difere quanto ao Julgamento da Humanidade

Enquanto as religiões** acreditam que o julgamento da humanidade ocorrerá no futuro, quando os seus deuses trarão a juízo cada homem individualmente, Jesus demonstrou através de seus ensinamentos que a humanidade já foi julgada e está sob condenação.

O julgamento da humanidade se deu no passado e todos os homens já estão condenados em Adão.

Os ensinamentos de Jesus e dos apóstolos demonstram que todos os homens foram e estão condenados. Da mesma forma, o Antigo Testamento demonstra que houve um julgamento, e que todos os homens estão condenados.

“Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus (…) E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” ( Jo 3:19 ).

O julgamento da humanidade foi simples: Deus justo e verdadeiro colocou o homem puro em um lugar perfeito. Concedeu ao homem plena liberdade com uma única ressalva. A ressalva era quanto à preservação da natureza do próprio homem. O homem precisava zelar da sua própria natureza que Deus lhe havia concedido obedecendo ao seu Criador.

Isto porque, tudo que há na natureza de Deus (domínio, soberania, justiça, santidade, liberdade) foi dado por semelhança ao homem: livre arbítrio, domínio sobre a terra, soberania sobre a sua própria vontade, garantias quanto ao exercício do seu domínio e soberania, capacidade de procriar, etc.

Porém, da mesma forma que é da natureza de Deus o não realizar certas coisas, ao homem também foi vetado uma coisa.

Da mesma forma que Deus sendo todo-poderoso, justo, verdadeiro, mas não pode mentir, por semelhança, o homem podia comer de todas as árvores do jardim (liberdade), mas não podia comer de uma delas, sob pena de atentar contra a sua própria natureza.

O homem desobedeceu, deixando de confiar na orientação do se Criador, e perdeu a sua essência (natureza). Conforme o estipulado na liberdade da lei, o homem foi julgado, sentenciado, condenado e apenado com a morte “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ) .

Ou seja, o homem foi julgado e condenado à morte por não seguir a orientação de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (certamente morrerás). Foi concedido ao homem livre-arbítrio de escolher comer de todas as árvores quando Deus introduziu a ressalva de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Foi permitido comer de todas as árvores, e garantido o acesso a todas elas. Neste ponto foi concedido ao homem o livre-arbítrio, ou a liberdade em escolher comer ou não, sem qualquer pressão externa. Havia liberdade, visto que foi concedida a informação necessária ara orientar a decisão do homem: bastava confiar no seu Criador.

Para o homem exercer a sua liberdade foi garantido o livre acesso a todas as árvores, e após comer, a sua vontade não foi invalidada, visto que o tempo mantém a vontade do homem soberana neste mundo.

Paulo retrata muito bem o julgamento da humanidade, e na sua exposição perceba as diferenças da doutrina cristã com as doutrinas das religiões do mundo “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Efetivamente a Bíblia demonstra que a humanidade está julgada e condenada, porém, as religiões apostam em um julgamento final.

Este é um dos primeiros aspectos sobre porque sou cristão, visto que, a doutrina cristã difere nitidamente de todas as outras religiões neste e em todos os outros quesitos.

 

Difere quanto à Justiça de Deus

Os religiosos e a humanidade acreditam que a justiça de Deus ‘tarda mas não falha’, porém, o evangelho de Cristo demonstra que desde o primeiro homem Deus estabeleceu a sua justiça.

Ao observarem as maldades e a crueldade dos homens questionam: onde está Deus que não vê estas injustiças?

Porém, desconhecem que todos os homens estão debaixo de condenação, que o juízo de Deus não foi estabelecido com base nas ações dos homens, e que Deus não interfere nas ações daqueles aquém foi dado o domínio.

À época de Jesus, Pilatos havia misturado o sangue de alguns galileus em seus próprios sacrifícios. As pessoas acreditavam que alguns dos galileus haviam padecido daquela forma porque eram mais pecadores que todos os outros homens.

Jesus demonstrou que não era assim. Que todos os homens, caso não se arrependam (mudem os seus conceitos), de igual modo haveriam de perecer.

Houve uma catástrofe, e uma torre da cidade de Siloé caiu, matando dezoito pessoas. As pessoas acreditavam que os homens que morreram eram mais culpados diante de Deus do que todos os habitantes de Jerusalém. Jesus novamente demonstrou que, caso todos os homens não mudem os seus conceitos, de igual modo perecerão.

As religiões procuram mudar a conduta de seus seguidores como forma de alcançarem o favor de Deus, mas não importa o que façam, de igual modo estão debaixo de condenação.

As recentes catástrofes naturais que atingiram a Indonésia são atribuídas aos pecados de um povo mergulhado no paganismo. Da mesma forma, atribuem as catástrofes que atingiram os E.U.A. a opressão da política econômica daquele país sobre os demais países menos favorecidos economicamente. Acreditam que Deus faz justiça através das catástrofes, ou dos eventos da natureza.

Porém, Jesus demonstra que todos os homens estão condenados diante de Deus, e caso não se arrependam de igual modo perecerão. Estarão perdidos para sempre.

Deus não leva em conta a culpa, o dolo ou a conduta dos homens, visto que, todos os homens nasceram sob condenação.

A questão levantada por Russell sobre o argumento da prova teológica da existência de Deus, onde ele destaca: “Vós todos conheceis tal argumento: tudo no mundo é feito justamente de modo a que possamos nele viver, e se ele fosse, algum dia, um pouco diferente, não conseguiríamos viver nele” *. Estranho, pois não encontro na Bíblia tal argumento.

Paulo argumentou que: “Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós; Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração” ( At 17:27 -28).

Paulo não estava demonstrando a existência de Deus, antes, ele afirmou que Deus não está longe dos homens, pois todos vivem nele, movem-se nele e existem em Deus.

Achar que a Ku-Klux-Klan, o Nazismo, ou o Fascismo depõe contra a justiça de Deus, ou que, as maldades de sistemas políticos, partidários e de organizações são provas de que Deus não existe é fruto de uma falsa argumentação.

A Bíblia demonstra que, como os homens não se importaram em conhecer a Deus, eles foram entregues a um sentimento pervertido ( Rm 1:28 ). Porém, não são as ações reprováveis dos homens que os mantém sob condenação.

Diante de Deus, tanto Hitler quanto os maiores lideres religiosos da humanidade estão em igual condição: caso não se arrependam (mudem os seus conceitos acerca da salvação em Deus), de igual modo perecerão ( Lc 13:1 -5).

Eles perecem (estão condenados) por serem nascidos de Adão! Eles foram julgados em Adão e estão debaixo de condenação, não importando o que faça.

Sobre esta verdade Jesus demonstrou que, através do nascimento natural proveniente do pai Adão todos os homens ao nascerem entram pela porta larga, que dá acesso ao caminho largo que conduz a perdição.

Para ser salvo é necessário ao homem arrepender-se, ou seja, abandonando os seus conceitos de como agradar a Deus, crer em Cristo para nascer de novo de Cristo, o último Adão, para alcançar o direto a vida eterna ( Mt 7:13 -14).

 

Difere quanto às considerações sobre a moral

Diferente de todas as religiões, o evangelho de Cristo demonstra que não é através da moral e do comportamento que o homem é considerado justo ou injusto diante de Deus.

As religiões do mundo procuram ditar regras para que os seus seguidores vivam uma vida virtuosa. As virtudes humanas são louvadas em todas as religiões. Fazer boas ações confere salvação àqueles que se aplicam em realizá-las em outras religiões.

Como ser justo diante de Deus? O evangelho demonstra que somente Deus pode justificar o homem condenado à perdição.

Enquanto as religiões apresentam a salvação e a perdição como resultante de uma escolha do homem, o evangelho demonstra que, por estarem perdidos, resta ao homem decidir-se (necessidade) por Cristo para ser salvo.

O evangelho demonstra que tanto o homem de moral elevada, quanto o homem de moral reprovável é o mesmo diante de Deus. Ambos, por serem nascidos de Adão, estão condenados e trilham um caminho de perdição.

Jesus demonstrou a Nicodemos, um dos religiosos de conduta impecável, que, apesar dele ser mestres, juiz e fariseu, era preciso nascer de novo.

A mulher samaritana que tinha um dos comportamentos mais reprováveis à época (ela teve 5 maridos e o que agora ela tinha não era dela), de igual modo precisava nascer de novo.

Ou seja, para Jesus, Nicodemos e a samaritana eram reprováveis diante de Deus. Ambos necessitavam nascer de novo para alcançar salvação sem qualquer referência à conduta e a moral de ambos.

Para as religiões basta uma melhora na condição moral do homem que ele estará próximo de Deus. Para algumas delas, o homem precisa aperfeiçoar o seu comportamento para alcançar a perfeição e a salvação.

Para alguns homens nem é necessário a religião para se portarem segundo a moral e os bons costumes.

Para o evangelho, não é a melhora ou a piora moral que torna o homem melhor ou pior diante de Deus.

Da mesma forma que o homem tornou-se culpável e condenável por ser nascido de Adão, para ser justo e inculpável diante de Deus é preciso nascer de novo, de Cristo, o último Adão.

Para as religiões basta ao homem arrepender-se de erros passados e não mais cometê-los no futuro que será salvo. Acerca desse tipo de arrependimento o apóstolo Paulo alerta, pois são arrependimento de obras mortas.

Jesus, ao chamar ao arrependimento, diz de uma mudança de concepção, ou seja, que os homens abandonassem os velhos conceitos de como agradarem a Deus e aceitassem a verdade do evangelho.

 

Difere quanto aos Caminhos

O evangelho de Cristo demonstra que há somente dois caminhos: o caminho de perdição e o de salvação.

As religiões apontam que existem vários caminhos ou formas de o homem achegar-se a Deus. A humanidade percorre caminhos diversos na sua busca pelo divino.

Alguns entendem que a moral é o melhor caminho; outros tentam o sacrifício; outros buscam o ostracismo ou o isolamento. Há quem busca a Deus pelos seus sentidos através das meditações, orações, etc.

A Bíblia demonstra que há caminhos que ao homem parece perfeito, ou seja, que é possível chegar a Deus por meio deles. Mas, ao final, é um caminho de perdição, pois continuam sob a condenação de Adão.

Enquanto o homem segue vários caminhos segundo o seu coração, não consideram que de nada adianta, visto que os seus corações foram concebidos segundo o mal proveniente da natureza decaída de Adão.

Cristo demonstrou que há um único caminho pelo qual os homens são salvos: a fé na mensagem do evangelho.

Jesus também demonstrou que há um único caminho que conduz a perdição, e que muitos são os que entram por ele. Embora os homens procurem seguir vários caminhos segundo a sua concepção, ao final, seguem o caminho de perdição.

É comum ouvirmos que todas as religiões conduzem a Deus. Jesus não era adepto desta concepção. Ele mesmo demonstrou que há dois caminhos: um para a condenação, e outro para a vida eterna.

Não é o sofrimento que aproxima o homem de Deus, visto que, bons e maus sofrem e tem alegrias.

Não é reparando as injustiças sociais, ou fazendo coisas consideradas justas pela concepção humana que fará o homem salvo diante de Deus.

 

Difere da concepção de Justiça dos homens

As religiões consideram que a justiça de Deus é idêntica a concepção humana de justiça.

Para os homens o justo decorre da moral, do bom comportamento, do bom caráter, da lei, das regras, etc. As injustiças decorrem da opressão, da maldade, do desregramento, da falsidade, etc.

As religiões pautam a sua concepção do que é justo diante de Deus através do bem e do mal.

Porém, a justiça de Deus não decorre da concepção do bem e do mal, visto que, este entendimento acerca do bem e do mal é proveniente da árvore do conhecimento pela qual o homem provou a morte.

O evangelho demonstra que a justiça de Deus é proveniente da sua natureza. Deus é justo, e tudo que é nascido dele é justo. A natureza do homem proveniente de Adão é segundo a impiedade, não por causa de suas ações, antes por causa da natureza de quem o homem foi gerado.

A justiça de Deus decorre da natureza, diferente da concepção de justiça dos homens, que é proveniente da concepção acerca do bem e do mal.

Deus estabelece a sua justiça através da nova natureza concedida aos homens que creem em Cristo. Todos quantos de Deus são gerados são justos perante Ele. Todos quantos são gerados da carne (Adão), da vontade do varão, e da vontade do homem, são ímpios e vivem impiamente.

 

Difere quanto às considerações sobre Deus

É bem verdade que Bertrand Russell não era cristão. Primeiro porque ser cristão não é viver decentemente de acordo com suas razões. Segundo, ser cristão não decorre de questões dogmáticas ou de uma mera crença na existência de Deus.

Ser cristão não é ter alguma espécie de crença acerca de Cristo, antes é preciso crer especificamente na forma de doutrina que foi entregue por Cristo.

Quando digo forma, não é a concepção formalista, antes especificamente de toda doutrina do evangelho.

Não é porque alguém é religioso que é cristão, antes somente os que creem na mensagem de Cristo, conforme diz as Escrituras, são verdadeiramente seguidores de Cristo.

Russell declarou que: “A ideia de que as coisas devem ter um começo é devida, realmente, à pobreza de imaginação”, quando falou contra o argumento da causa primária. Concordo plenamente com Russell, pois a pergunta: – “De onde veio Deus?” também é descabida, isto devido a pobreza de análise de alguns.

A lei de causa e efeito não se aplica a Deus, pois ela foi estabelecida por Deus. É certo que a ideia de que tudo precisa ter um começo também é ‘pobreza’ de imaginação.

Diferente de outras religiões, o mundo que a Bíblia descreve não se apoiam em criaturas como elefantes, tartarugas, etc.

Para ser Cristão é preciso acreditar na Escritura que diz: “Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, e os céus são obras de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles como roupa envelhecerão” ( Sl 45:6 -7; Hb 1:10 -11).

Um cristão crê que Jesus Cristo criou todas as coisas, pois Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente! Hb 13: 8. Já quem não é cristão, como é o caso de Russell, basta acreditar que Cristo foi somente um homem com ‘um grau muito elevado de bondade moral’ ou coisa semelhante.

Para Russell as leis naturais são simplesmente ‘médias estatísticas’: “São médias estatísticas como as que surgiram das leis do acaso” , e que elas não podem revelar Deus.

Sabemos e experimentamos no dia-a-dia que as leis naturais não são médias estatísticas, isto porque leis como a gravitacional são absolutas. Comprovadamente não há um único caso em que a lei da gravidade falhou, portanto, é descabido o argumento de que as leis naturais regem-se por ‘médias estatísticas’.

Há alguma lei proveniente do acaso? A mesma lei que regula a gravidade também não regula o ‘aparente’ acaso dos resultados dos dados quando lançada a sorte?

Da mesma forma que o homem sabe que, se lançar os dados o resultado sempre será aleatório, ele sempre lançará a semente no solo certo de que ela irá nascer. Por acaso há algum ‘acaso’ nas leis que regulam o que é aleatório?

Todos os que semeiam creem que irão colher, pois está é a lei na natureza! Quem lança a semente acreditando que não irá colher? Quem fará um sorteio certo de que todos irão ser sorteados? Observe que tanto os resultados dos dados quanto a lei gravitacional partem de um mesmo pressuposto: a certeza do ‘sempre’!

Estas leis são absolutas por natureza, uma vez que o homem não pode influenciá-las ou alterá-las. Como alterar a lei gravitacional? Como alterar o que é aleatório sem viciar os dados?

Para quem se propõe negar a existência de Deus, como foi o caso de Russell, e não compreende que as leis são absolutas por natureza, só resta à pergunta descabida: “Por que Deus lançou justamente essas leis naturais e não outras?”.

Será porque Deus é Deus que estabeleceu justamente as eis que conhecemos? Que parâmetro Russell utilizou para levantar tal questão? A Bíblia diz que Deus fez tudo segundo o conselho de sua própria vontade ( Ef 1:11 ).

Não é porque os argumentos dos homens mudam que as leis naturais sofrerão mutações. Não é porque os argumentos dos religiosos mudam que Deus sofrerá mudança. Tanto Deus quanto as leis naturais permanecem imutáveis independentemente das concepções dos homens.

Os argumentos humanos são falhos da mesma forma que os argumentos de Russell são falhos. Porém, a ‘fabilidade’ das argumentações humanas não depõe contra e nem a favor da existência de Deus.

Se Immanuel Kant e Bertrand Russell conhecessem a origem do bem e do mal conforme ensina a Bíblia, jamais teorizariam a respeito na tentativa de contrariar a existência de Deus ou não.

Quem disse que ações boas e más fazem o homem diferente diante de Deus? Se assim fosse, Nicodemos seria aceito por Deus e a mulher samaritana rechaçada.

Responda: Quando os pecadores vinham a presença de Cristo eram condenados por suas práticas? O que Jesus disse a Maria Madalena? O que Ele disse a Zaqueu?

Os pecadores tinham medo de Cristo? Talvez o medo seja a base de alguma religião, porém, todos os pecadores que encontram com Cristo não foram amedrontados. A mensagem do evangelho alerta aos pecadores que precisão de salvação, livrando-os do medo da morte.

Por que as religiões que alegam serem cristãs se fixam tanto nas questões morais e comportamentais se Cristo as deixou em segundo plano? Como contestar os ensinamentos de Cristo se eles não se apoiam em questões comportamentais e morais?

Quem disse a Russell que o mundo é governado por Deus? A Bíblia é clara: Deus deu aos homens o domínio sobre a terra. Como os dons de Deus são irrevogáveis, não lemos que Ele tenha tomado o domínio da terra das mãos dos homens “Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra, e sujeitai-a; Dominai sobre os peixes do mar, sobre todas as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra” ( Gn 1:28 ).

Quem disse que Deus há de reparar as injustiças humanas? Perceba que as informações de Russell foram colhidas de fontes pouco confiáveis, pois as religiões que se dizem cristãs, na verdade não são.

A Bíblia demonstra que a humanidade foi julgada em Adão, e que todos nascem condenados à perdição. Para estar condenado não depende do que o homem faça. Basta nascer conforme disse o salmista Davi: “Certamente em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Sl 51:5 ).

O que Davi fez antes de nascer para ser concebido em pecado? Este é um dos grandes diferenciais entre a doutrina do cristianismo autêntico e os pensamentos de outras religiões.

A Bíblia demonstra também que, além da condenação em Adão, todos os homens serão conduzidos a um tribunal antes de seguirem para a eternidade. Todos os homens serão julgados por causa de suas ações.

Os salvos terão um tribunal próprio e serão julgados pelas suas condutas após decidirem-se por Cristo. Serão retribuídos segundo as suas ações, conforme o bem e o mal que fizerem.

Os perdidos terão um tribunal chamado ‘O Grande Trono Branco’, e serão julgados pelas suas condutas no decurso da sua vida. Serão retribuídos segundo as suas ações, pois no quesito comportamento Deus não faz acepção de pessoas.

 

Difere quanto às considerações sobre a Religião

É bem verdade que as Religiões é uma das práticas da humanidade ao longo dos tempos. Além de procurar definir qual o propósito para a existência dos homens através da religião, os que aderem a certas práticas religiosas acabam influenciando o seu estilo de vida em sociedade.

As religiões adotam um conjunto de crenças, preces, sacrifícios, comportamentos, etc, na busca pelo sagrado ou divino.

Por outro lado, a Bíblia demonstra que a verdadeira religião resume-se em uma resignação em cuidados para com o próximo, e isto, quando já livre da condenação pertinente ao mundo: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” ( Tg 1:27 ).

Primeiro é preciso estar livre da condenação do mundo, que é proveniente de Adão, e, então, o homem poderá aplicar-se à caridade. Sobre esta mesma questão disse João: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Visitar os órfãos e as viúvas equivale a ‘amar uns aos outros’, e o guardar-se da corrupção do mundo equivale a ‘crer no nome de seu Filho Jesus Cristo’.

É correto dizer que os homens consideram que a religião é um freio moral à sociedade, e na verdade o é. Porém, o evangelho de Cristo não foi estabelecido visando a moralidade.

O evangelho de Cristo não se baseia em emoções humanas!

O evangelho de Cristo demonstra que todos os homens são maus diante de Deus. O melhor dos homens diante de Deus é como um espinho, e o pior, uma sebe de espinhos “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos; veio o dia dos teus vigias, veio o dia da tua punição; agora será a sua confusão” ( Mq 7:4 ).

Para a doutrina cristã, todos os que ainda não creram em Cristo, ou todos os homens nascidos de Adão são maus perante Deus. Não é o apego a regras consideradas de ordem cristã que fará o homem bom diante de Deus.

Quando se olha para as organizações que se dizem cristã, é fácil ver a crueldade praticada por elas. Porém, tais organizações não refletem a verdade do evangelho de Cristo.

As maldades de homens que se dizem cristãos nada tem a ver com o evangelho de Cristo, uma vez que, os maus para Deus são os homens em pecado, e os bons, aqueles que creem em Cristo como salvador.

As regras que muitas igrejas impõem aos seus membros, muitas não decorre do ensino de Cristo. Isto, porque a doutrina de Cristo não se apóia sobre a moralidade humana, que varia de época para época, de povo para povo, etc.

Pensar que a doutrina cristã tem as suas bases no medo é fruto do desconhecimento do evangelho.

Com relação aos esforços do homem, para viver melhor neste mundo é preciso que se esforce. O homem depende quase que exclusivamente dos seus esforços para viver neste mundo, aliado com a “sorte” que é deitada ao regaço de todos os homens igualmente.

Deus justamente manda chuva sobre justos e injustos, e a ninguém oprime.

O evangelho trata única e exclusivamente da salvação do homem, revelando o futuro e a liberdade da nova vida em Cristo. A sorte do homem neste mundo nada tem a ver com a vida no mundo vindouro.

O que Russell propõe a final do seu discurso soa mais que um sistema religioso que se apega a elementos como bondade, coragem, sabedoria, etc. Porém, aponta o homem como elemento de devoção, enquanto as religiões apontam a ideia do divino e da moral.

 

O que propõe o evangelho de Cristo ?

Cristo propõe aos homens que abandonem as suas concepções acerca de como salvarem-se da condenação. Para isso, somente é necessário crer em Cristo conforme a Escritura.

Com relação ao comportamento, o que se pede é que os que seguem a Cristo vivam uma vida pia e honesta, não dando escândalo a gregos ou a judeus.

Jesus não instruiu os seus discípulos a viver uma vida de abstinência, de reclusão, ou celibato para alcançar a vida eterna.

A vida de quem crê na mensagem do evangelho deve ser pautada pela moderação. Não que a vida eterna dependa da moderação, antes, através da moderação, o cristão não trará escândalo a doutrina de Cristo.

 

 

O Melhor e mais Sábios dos Homens

O Dr. Russell não concorda que Cristo tenha sido o melhor e mais sábios dos homens, e para isso cita algumas passagens bíblicas.

Quando Cristo disse: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses” ( Lc 6:29 ), ele não estava impondo aos seus seguidores este comportamento.

Observe que Jesus estava argumentando com os filhos dos homens que ornavam os túmulos dos profetas ( Lc 6:26 ). Estes religiosos acreditavam que seriam salvos por seguirem as regras decorrentes da lei, e Jesus demonstra que as suas ações não eram melhores do que as dos pecadores por serem moralistas “E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam” ( Lc 6:32 ).

Se os pecadores praticavam as mesmas ações dos que se diziam religiosos, eles também, segundo a regra que os religiosos judeus seguiam, seriam salvos. Desta forma, Jesus demonstra que seria necessário aos judaizantes seguirem preceitos mais rígidos, como o dar a face a quem acintosamente os agredisse.

A fala de Cristo apresenta um gral de raciocínio que as vezes escapa aos mais sábios dos homens. Tal vez este seja o caso de Russell. Ele precisava compreender que, diante da mensagem de Cristo, tanto os judeus, ferrenhos religiosos, quanto os homens que eram designados pecadores, estavam perdidos por tentarem alcançar a salvação por intermédio de sua boas ações.

A mensagem de Cristo nem de longe é semelhante a de Lao-Tse ou de Buda. Dar a outra face a quem faz uma injuria real não torna ninguém cristão, antes, somente pela fé é possível ser cristão.

De igual modo, Russell não entendeu a reprimenda de Jesus aos conceitos errôneos dos judeus, quando disse: “Não julgueis, para que não sejais julgados”, ou “Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes”.

Estas as ações eram as mesma que os judeus praticavam, e que pensavam de todos os homens, que eram tidos pelos judeus pecadores. Ao apresentar estas questões, Jesus estava demonstrando que não havia diferença nenhuma entre os judeus e os gentios: todos estavam longe de Deus.

Ao incorporar algumas citações bíblicas ao seu discurso, comparando-as com o comportamento de países e políticos que se dizem cristão, e que na realidade não são (isto, dentro da colocação inicial de Russell de que cristão não é qualquer pessoa), Russell não espera que alguém acredite que os políticos, países e tribunais são, na verdade, seguidores de Cristo conforme apregoa o evangelho:

“Eis ai uma máxima excelente, mas, como digo, não é muito praticada. Todas estas, penso, são boas máximas, embora seja um pouco difícil viver-se de acordo com elas” Russell.

Quando Jesus disse para o Jovem rico que vendesse o que possuía, e que doasse aos pobres, ele estava dando uma resposta a altura da necessidade do jovem. Ele queria fazer algo para ter direito a vida eterna.

O que concederia o direito à vida ao jovem Rico, seria seguir a Cristo, porém, como ele estava focado em seus bens, a riqueza era um empecilho. Porém, é certo que doar os bens não concede salvação, e nem é esta a ideia que o evangelho apresenta.

O Dr. Russell, apesar de confessar que toma ‘a narrativa bíblica tal como ela se nos apresenta’, ou seja, que ele não analisou e nem procurou interpretá-la, procura de pronto desqualificar a pessoa de Cristo.

Por que Jesus disse:

“Quando pois vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel sem que venha o Filho do homem” ( Mt 10:23 )?

Para alguém que lança dúvidas a integridade dos argumentos de outra pessoa, o mínimo que se espera é um esforço de entendê-la em seu contexto.

Se ele tivesse observado que os discípulos não haveriam de ir aos gentios ( Mt 10:5 ), e que o versículo 23 diz do tratamento que teriam em meio aos gentios (v. 18), veria que o texto é de cunho profético, e que tal evento se daria especificamente naquele momento.

Não é porque se conhece pessoas que se dizem cristãs, que elas são verdadeiramente cristãs. Há pessoas que se dizem cristãs, e que nem mesmo compreendem a mensagem do evangelho.

Uma das das doutrinas do evangelho é o inferno de fogo e enxofre. Para alguns, tal ideia é descabida e cruenta.

Porém, a mensagem de Cristo também difere das religiões, visto que, quem irá para o fogo eterno não será os homens de moral reprovável. Antes, ele demonstra que, todos os nascidos de mulher, que não creem na mensagem do evangelho, haverão de seguir o caminho que dará no inferno. Tanto os amorais, quanto os moralistas.

Pensou Russell que Cristo foi indelicado quando disse: “Raça de víboras!”, porém, ele desconhece que tal fala é uma citação de certo trecho dos profetas, e que os seus ouvintes bem entenderam a argumentação de Cristo ( Is 59:5 ).

As pessoas que pensavam que seriam salvas por causa de suas boas ações, estavam na verdade de posse de trapos de imundície. Estavam a chocar ovos de basilisco, que traia morte a quem comesse do ovo.

As queixas dos homens é produto dos seus pecados, e não do alerta acerca do destino daqueles que estão afastados de Deus.

O que se percebe nas argumentações de Russell, é que ele leu algumas declarações acerca de Cristo e que procurou entende-las com base na concepção humana de justiça.

 

*Clique no link para ver o ensaio original de Russell.

** Religião – Não há uma definição precisa sobre a palavra ‘religião’, porém, como prática é uma ‘atividade’ inerente a todas as culturas ao longo dos tempos. Através da ‘religião’ as pessoas procuram honrar ou influenciar os seus deuses com preces, sacrifícios ou comportamento.




Salmo 91 – Aquele que Habita no esconderijo do Altíssimo

Estudo bíblico completo do Salmo 91, uma das profecias com várias promessas de proteção e livramento para o Cristo. O Salmo 91 faz referência a encarnação, sofrimento, morte e ressurreição de Jesus.


Salmo 91 – Aquele que Habita no esconderijo do Altíssimo

Obs.: O Salmo 91 evangélico é idêntico ao Salmo 90 da Bíblia católica.

  1. AQUELE que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.
  2. Direi do SENHOR: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.
  3. Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.
  4. Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel.
  5. Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia,
  6. Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.
  7. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti.
  8. Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios.
  9. Porque tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação.
  10. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.
  11. Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.
  12. Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.
  13. Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.
  14. Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome.
  15. Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.
  16. Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Leia também: Salmo 23

 

Introdução

É comum nas casas, nas empresas e escolas encontrarmos uma Bíblia aberta no Salmo 91. Às vezes, pela ação do tempo, as páginas até ficam empoeiradas e amareladas. Outros penduram na porta de suas residências quadros que estampam uma cópia do Salmo 91.

Muitos utilizam o Salmo 91 para rezar, enquanto outros citam trechos do Salmo 91 em suas orações, mas será que compreendem o seu significado? E ainda existem aqueles que, nem mesmo leram o Salmo 91 por completo, mas por recomendação, fazem dele um amuleto.

Desde longa data o Salmo 91 é utilizado como amuleto. Os adeptos das religiões espiritualistas entendem que o Salmo 91 é poderoso e que deve ser utilizado nas horas de necessidades para pedir e agradecer a proteção divina para tudo e todos, mas, a despeito destas concepções místicas, surge a pergunta: como entender e interpretar o Salmo 91?

 

Salmos são cânticos proféticos

O salmista e rei Davi era profeta e separou os levitas para profetizarem com toda a sorte de instrumentos musicais:

“E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, e de Hemã, e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos, e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério:” ( 1Cr 25:1 ).

O livro das Crônicas de Israel deixa bem claro que a função precípua de um salmista era profetizar. O rei Davi comissionou os músicos a redigirem o que profetizavam em forma de poesia, de modo que fosse possível cantá-los ao som de instrumentos musicais.

Esta proposta de Davi visava suprir a deficiência de leitura da população, que na sua maioria não sabiam ler e escrever. Apenas escrever as profecias em textos formais não facilitava o processo de memorização do povo, enquanto que, a poesia e a música atendem muito bem a este propósito.

Portanto, ao analisar um salmo, deve-se ter em mente que eles são composições de cunho profético, e não somente expressões da alma, produto da psique humana. Em uma análise dos salmos deve-se priorizar o conteúdo da mensagem, visando desvendar seu conteúdo profético. As questões poéticas e musicais ficam em segundo plano.

Certa feita o Senhor Jesus questionou os fariseus acerca do Salmo 110, e eles não puderam respondê-lo de quem o Messias era filho:

“Dizendo: Que pensais vós do Cristo? De quem é filho? Eles disseram-lhe: De Davi. Disse-lhes ele: Como é então que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, Até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho? E ninguém podia responder-lhe uma palavra; nem desde aquele dia ousou mais alguém interrogá-lo” ( Mt 22:42 -46).

Através da abordagem que Jesus fez, verifica-se que os Salmos, como parte das Escrituras, tem por objetivo dar testemunho do Cristo. O Salmo 110 demonstra que o Messias não seria somente filho de Davi, antes era Senhor de Davi, indicando a sua divindade.

Vale salientar que, na sua grande maioria, os Salmos fazem referência ao Messias, porém, cada um deles se atém a uma característica da vida do Messias, tais como: reino, humanidade, divindade, missão, morte, ressurreição, etc.

Alguns Salmos até fazem referência às relações estabelecidas na eternidade entre as pessoas da divindade ( Hb 1:5 ; Sl 2:7 ). O escritor aos Hebreus demonstra, através dos Salmos, que os acordos firmados na eternidade foram levados a efeito quando o Primogênito de Deus foi introduzido no mundo.

O Salmo 110, verso 1 diz: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ), temos aqui o ‘Senhor’ estabelecendo um prazo para que o ‘Senhor’ do salmista permanecesse assentado à Sua mão direita. O salmista estava profetizando acerca de si mesmo, ou do Cristo? ( At 8:34 ). O que pensar acerca do Cristo neste texto? ( Mt 22:42 ).

Antes de prosseguirmos, leia atentamente os Salmos 56 e 57, pois eles contêm elementos essências para interpretarmos o Salmo 91. Observe que o Salmo 56 e 57 descrevem profeticamente uma realidade que não era a do salmista Davi ou de seus cantores e, que os eventos descritos podem fazer referência à outra pessoa.

Outro ponto a se observar nos salmos, que na sua grande maioria são composições proféticas com vários enigmas, parábolas, figuras, adágios, provérbios, etc. Antes de interpretar qualquer frase, desvende o enigma da parábola. Por exemplo: por que Jesus chama os escribas e fariseus de raça de víboras? Primeiro é necessário compreender de onde Jesus tirou tal figura para fazer referencia aos escribas e fariseus como ‘raça de víboras’, e no que consiste tal figura.

Não é possível afirmar categoricamente quem é o autor deste Salmo. Alguns apontam o profeta Moisés como o escritor do Salmo 91 por causa de certas evidências internas (expressões idiomáticas). Outros apontam como autor o salmista e rei Davi, mas não há como precisar quem redigiu o Salmo 91.

 

O esconderijo do Altíssimo

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará” (Salmo 91:1)

O primeiro passo para interpretar Salmo 91 é responder a seguinte pergunta ( Sl 91:1 ): Quem habita no esconderijo do Altíssimo? É possível aos homens mortais residirem no recôndito do Altíssimo? A resposta está no decurso do próprio Salmo: “Porque tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação” ( Sl 91:9 ).

Quando escreveu esta profecia, o salmista fez referência a alguém que, naquele exato momento estava residindo no esconderijo (lugar oculto) do Altíssimo, e que, no futuro, haveria de deixar a habitação do Altíssimo. Quando deixasse o esconderijo do Altíssimo, seria necessário refugiar-se à sombra do Onipotente ( Jo 16:28 ).

Analisando a primeira questão: “Quem é Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo?”; “Onde fica o esconderijo do Altíssimo?”.

“Os pecadores de Sião se assombraram, o tremor surpreendeu os hipócritas. Quem dentre nós habitará com o fogo consumidor? Quem dentre nós habitará com as labaredas eternas?” (Isaías 33:14).

O ‘esconderijo de Altíssimo’ não fica na Terra, pois tal esconderijo diz de um ‘lugar’ inacessível aos homens, na eternidade.

“Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos.” (Isaías 57:15).

“Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” ( 1Tm 6:16 );

“Para o entendido, o caminho da vida leva para cima, para que se desvie do inferno em baixo” ( Pv 15:24 );

“Trovejou desde os céus o SENHOR; e o Altíssimo fez soar a sua voz” ( 2Sm 22:14 );

“Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu” ( Jo 3:13 ).

Considerando que o esconderijo do Altíssimo é o céu e, que ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que de lá desceu ( Jo 3:13 ), conclui-se que Jesus é aquele que habitava no esconderijo do Altíssimo antes de ser introduzido no mundo.

Jesus habitava o céu quando o Salmo 91 foi escrito e o salmista prediz que Aquele que habita no céu haveria de descansar sobre a proteção do Onipotente, ou seja, o Salmo diz de Cristo quando se esvaziasse da Sua glória e fosse introduzido no mundo como o Unigênito de Deus.

Não há registro nas Escrituras de alguém que tenha habitado no esconderijo do Altíssimo, mas Aquele que havia de vir, o Filho do homem, d’Ele as Escrituras dá testemunho que na eternidade habitou o recôndito da divindade ( Sl 45:6 ; Is 7:14 ; Is 8:17 ; Pv 30:3 ). Jesus mesmo falou acerca da sua glória: “E agora me glorifica tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse ( Jo 17:5 ). Os santos apóstolos de Cristo também falaram da glória de Cristo ( Jo 1:1 e 1Jo 1:1- 3; Hb 1:5 e 8), de modo que Jesus é aquele que habitava no esconderijo de Deus, pois Ele é o Verbo Eterno que estava com Deus ( Jo 1:1 ).

A sombra do Onipotente refere-se à proteção que Deus estabeleceu sobre o Messias:

“O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita” ( Sl 121:5 );

“Guarda-me como à menina do olho; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas” ( Sl 17:8 );

“Porque foste a fortaleza do pobre, e a fortaleza do necessitado, na sua angústia; refúgio contra a tempestade, e sombra contra o calor; porque o sopro dos opressores é como a tempestade contra o muro” ( Is 25:4 ).

Analisando a segunda questão do primeiro verso: Como Jesus descansou à sombra do Onipotente? Obedecendo a palavra de Deus. Obedecer a palavra de Deus é descansar à sombra do Onipotente. Confiar na palavra de Deus é descansar, o que se demonstra na obediência. Quando Jesus resignou-se a fazer a vontade de Deus entregando a sua alma na morte, estava descansado, pois confiou na salvação do Onipotente.

É em função desta verdade que Jesus diz: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ). A satisfação, o desejo, a alegria de Cristo estava em obedecer à palavra de Deus, de modo que Isaías profetizou dizendo que a palavra de Deus estava na boca do Cristo. Mas, a boca fala da abundância do que há no coração, de modo que a palavra de Deus é a essência do Cristo.

“Porque tu tens sido o meu auxílio; então, à sombra das tuas asas me regozijarei” ( Sl 63:7 );

“E ponho as minhas palavras na tua boca, e te cubro com a sombra da minha mão; para plantar os céus, e para fundar a terra, e para dizer a Sião: Tu és o meu povo” ( Is 51:16 );

“E fez a minha boca como uma espada aguda, com a sombra da sua mão me cobriu; e me pôs como uma flecha limpa, e me escondeu na sua aljava” ( Is 49:2 ).

Há um enigma a ser desvendado na profecia de Isaías quando Ele diz que o Messias seria como uma flecha limpa escondida na aljava do Todo-poderoso. A flecha refere-se à filiação divina do Messias, pois flecha na aljava diz da descendência de um homem “Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade” ( Sl 127:4 ). O Messias, por sua vez, tornou-se proteção para os que n’Ele confiam:

“E será aquele homem como um esconderijo contra o vento, e um refúgio contra a tempestade, como ribeiros de águas em lugares secos, e como a sombra de uma grande rocha em terra sedenta” ( Is 32: 2)

Ou seja, Aquele que habitava na eternidade, por ser o Altíssimo ( Is 57:15 ), ao ser introduzido no mundo na condição de Servo do Senhor, viveu o predito pelo salmista: confiou inteiramente no Pai “Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste” ( Jo 11:42 ); “Confiou no SENHOR, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer” ( Sl 22:8 ) compare com “Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus” ( Mt 27:43 ; Is 42:1 ).

O Salmo 91 é profético e messiânico. O salmista registra algumas promessas para o Verbo de Deus que haveria de se fazer homem. O Altíssimo, sendo Senhor de tudo, deixa a sua glória e assume a condição de Filho sobre a sua própria casa ( Sl 47:2 ; Hb 3:6 ). Este foi o acordo estabelecido entre as pessoas da divindade na eternidade, como se lê:

“Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho?” ( Hb 1:5 ).

Na eternidade as pessoas da divindade acordaram entre si e uma delas assumiu a condição de Filho quando introduzido no mundo dos homens. É por isso que as Escrituras refere-se a Cristo como sendo aquele que tudo criou “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 ; Jo 1:3 ; Cl 1:16 ).

No Salmo 110, outra profecia sobre Jesus, o Cristo é descrito como Senhor do salmista e é visto assentado à destra da Majestade nas alturas. No Salmo 110 temos o Cristo ressurreto voltando ao seu lugar por direito, enquanto no Salmo 91 temos uma predição apontando que o Cristo deixaria a sua glória.

Os fariseus relutavam em admitir que o Pai celeste tivesse um Filho, isto porque não observavam as Escrituras:

“Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas numa roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu Filho, se é que o sabes? ( Pv 30:4 ).

O Salmo 91 complementa outros salmos. O Salmo 15 diz: “Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte?” ( Sl 15:1 ). Como já analisamos em outros Salmos, somente Jesus andou em sinceridade, praticou a justiça e falou a verdade segundo o seu coração ( Sl 15:3 ). Somente o Cristo de Deus tem olhos capazes de desprezar o réprobo. Somente Ele pode honrar os que temem ao Senhor ( Sl 15:4 ).

O Salmo 24 diz: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem estará no seu tabernáculo?” ( Sl 24:3 ). A resposta é clara e aponta para alguém em específico: “Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente. Este receberá do Senhor a bênção e a justiça do Deus da sua salvação” ( Sl 24:4 -5; Isaías 33:14 -16). Somente Jesus dentre os filhos dos homens foi limpo de mãos e puro de coração, cumpriu toda a lei, recebeu a benção e a justiça.

Por falar especificamente do Messias, o salmista não diz ‘qualquer que’, antes utiliza o pronome demonstrativo ‘aquele’ nos Salmos 15, 24 e 91, isto porque somente o Cristo de Deus nunca foi abalado ( Sl 15:5 ).

O convite do evangelho é universal, visto que ‘todo aquele que crê’ ou ‘qualquer que crer’ receberá vida eterna por Jesus, porém, os Salmos são profecias que apresentam o Cristo de Deus aos homens.

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam;” (João 5:39)

Como parte das Escrituras, os salmos anunciam o Cristo, tornando possível reconhece-lo mesmos com a vinda de muitos outros cristos, e pois somente por Cristo é possível aos homens o ‘conhecimento’ (união intima) de Deus, ou seja, que os homens venham a ser participantes da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

Qualquer homem que queira habitar com o Altíssimo necessita crer em Cristo conforme diz as Escrituras para receber de Deus poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ). Todos quantos forem criados de novo, em verdadeira justiça e santidade, serão, ainda aqui neste mundo, tal qual Cristo é ( 1Jo 4:17 ; 1Co 15:48 ). Ora, se os que creem são tal qual Ele é neste mundo, habitarão onde Ele habita, visto que, onde Ele estiver ali também estarão.

“E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” ( Jo 14:3 ).

Através da desobediência de Adão a geração dos ímpios estabeleceu-se e, através de Cristo, que é o último Adão, a geração dos justos é estabelecida ( Sl 24:6 ). Todos quantos são gerados de novo em Cristo Jesus são limpos de mãos e puros de coração. Estão aptos a residir no lugar santo, visto que os irmãos conduzidos à glória são como o Primogênito, co-herdeiros de Deus ( Rm 8:29 ; Hb 2:10 ).

O Salmo 91 é uma profecia que apresenta dois ‘momentos’ distintos pertinentes ao Verbo de Deus. À ‘época’ que o salmista profetizou, o Verbo de Deus estava habitando no esconderijo do Altíssimo, porém, quando o Verbo se fez carne precisou abrigar-se sob a sombra do Onipotente por estar despido de sua glória.

 

O refúgio do Messias

“Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei” (Salmo 91:2)

Aquele que reside no lugar secreto do Altíssimo haveria de anunciar o nome de Deus aos homens, dizendo: “Ele é o meu Deus, o meu refugio, a minha fortaleza, e n’Ele confiarei” ( Sl 91:2 ). O escritor aos Hebreus cita o Salmo 18 para demonstrar que o próprio Filho disse por intermédio do salmista que colocaria em Deus a sua confiança “E outra vez: Porei n’Ele a minha confiança” ( Hb 2:13 ; Sl 18:1 -2 ; Sl 56:4 ).

Nos Salmos 103 e 104, o salmista demonstra a sua confiança em Deus e o bendiz pela sua grandeza e por tudo o que realizou em prol dos homens, mas o Salmo 91 utiliza o verbo ‘confiar’ no futuro (nele confiarei), o que nos faz questionar se o salmista ainda não confiava em Deus quando escreveu este Salmo.

Na glória, o Verbo eterno não precisava confiar, mas ao ser introduzido no mundo participante da carne e do sangue e sujeito às mesmas paixões que os homens, porém, sem pecado, também precisaria confiar inteiramente em Deus ( Hb 4:15 ).

O verso 2 do Salmo 91 é equivalente à introdução do Salmo 31, quando o salmista deixa registrado as últimas palavras do Messias:

“Em ti, ó Senhor, me refugio; nunca seja eu envergonhado; livra-me pela tua retidão (…) Nas tuas mãos encomendo o meu espírito… ( Sl 31:1 -5).

O Verbo de Deus encarnado, o Filho de Davi haveria de dizer do Senhor: “Ele é meu Deus, o meu refugio, a minha fortaleza”. O salmista predisse que o Messias haveria de confiar plenamente em Deus, até mesmo no momento mais cruento da existência dele entre os homens haveria de se refugiar, abrigar-se em Deus, encomendando o seu espírito.

Se o próprio salmista estivesse bendizendo ao Senhor, não haveria necessidade de utilizar o verbo ‘dizer’ no futuro (direi). Geralmente, os salmistas, quando fazem referência a eventos que lhes são pertinentes dizem: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor” ( Sl 103:1 ). O cântico do salmista Davi é: “No SENHOR confio; como dizeis à minha alma: Fugi para a vossa montanha como pássaro?” ( Sl 11:1 ).

Jesus Cristo homem ao ouvir desde menino a leitura das Escrituras nas sinagogas e no seio da sua família, aliado ao testemunho de sinais e maravilhas que cercaram o evento do seu nascimento, compreendeu pelas Escrituras que Ele era o Messias, o Filho de Deus encarnado. Jesus precisou crer no testemunho que Deus estabeleceu nas Escrituras e descobrir por si mesmo que era o Cristo.

Diante das promessas que o Pai deixou registrado nas Escrituras, Ele creu, para que se tornasse o Autor e Consumador da fé “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ); “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” ( Hb 5:8 ).

 

Laços e pestilencias

“Porque Ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com as Suas penas, e debaixo das Suas asas te confiarás; a Sua verdade será o teu escudo e broquel. Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará próximo de ti. Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios” (Salmo 91:3 -8)

Nestes versos estão elencados alguns eventos que não atingiria o Primogênito de Deus quando fosse introduzido no mundo. As promessas de Deus elencadas nestes versos são específicas para o seu Filho.

  • “Porque Ele te livrará do laço do passarinheiro…” – O Filho do homem ‘certamente’ não seria pego nas armadilhas (palavras) dos homens ímpios, por mais engenhosas que fossem. Quando inquiriram o Messias se era lícito pagar tributo a Cesar ( Mt 22:17 ), ou quando apresentaram a mulher pega em ato de adultério ( Jo 8:5 ), tais armadilhas não o enlaçaram “Armaram uma rede aos meus passos; a minha alma está abatida. Cavaram uma cova diante de mim, porém eles mesmos caíram no meio dela” ( Sl 57:6 ; Sl 56:5 ). O profeta Jeremias descreve quem são os ‘passarinheiros’: “Porque ímpios se acham entre o meu povo; andam espiando, como quem arma laços; põem armadilhas, com que prendem os homens. Como uma gaiola está cheia de pássaros, assim as suas casas estão cheias de engano; por isso se engrandeceram, e enriqueceram” (Jr 5:26 -27).
  • “…e da peste perniciosa” – O Filho de Davi era livre do pecado (a peste perniciosa), visto que Ele foi gerado de Deus ( Sl 2:7; 2Sm 7:14 ). Todos os descendentes da carne de Adão, ou seja, que entraram pela porta larga, foram contaminados pelo pecado (ou, vendidos ao pecado como escravos), porém, Jesus, o último Adão, é a porta estreita pela qual todos os homens que querem ser livres do pecado precisam entrar.
  • “Ele te cobrirá com as Suas penas, e debaixo das Suas asas te confiarás” – O Messias haveria de ser protegido, abrigado em segurança na palavra Deus. “TEM misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia de mim, porque a minha alma confia em ti; e à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades” ( Sl 57:1 ).
  • “a Sua verdade será o teu escudo e broquel” – Em todos os ataques dos adversários, a Palavra de Deus (verdade) haveria de ser a defesa de Cristo. Diante dos escribas, fariseus e saduceus Jesus citou as Escrituras. Quando da tentação pelo diabo no deserto, Cristo utilizou a verdade das Escrituras como escudo e broquel (defesa).
  • “Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia” – O ‘terror de noite’, a ‘seta lançada durante o dia’, a ‘peste que se move na escuridão’ e a ‘mortandade que acomete ao meio-dia’ não amedrontou o Messias.

Estes versos possuem alguns enigmas como: noite, escuridão e mortandade.

Quando o homem anda segundo a palavra de Deus, anda na luz, pois a palavra de Deus é lâmpada para os pés e luz para o caminho. A escuridão refere-se à ausência da palavra da verdade ( Is 9:2 ). Diz da palavra de engano que faz com que o homem permaneça na morte “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

Jesus despojou-se de sua glória e majestade e em tudo se tornou semelhante aos seus irmãos ( Hb 2:17 ), porém, o medo que os homens detinham da morte e do pecado não o acometeu, visto que Ele nunca esteve sujeito a escravidão do pecado, e não se deixou levar pela doutrina de engano ( Hb 2:15 ).

As palavras dos escribas e fariseus constituem-se em laço, armadilhas ( Sl 119:110 ), pois tinha o objetivo de desviar o Cristo de fazer a vontade do Pai. O ‘laço do passarinheiro’ são palavras cheias de engano e malícia que fazem o homem desviar-se do mandamento de Deus “Também os que buscam a minha vida me armam laços e os que procuram o meu mal falam coisas que danificam, e imaginam astúcias todo o dia” ( Sl 38:12 ); “Firmam-se em mau intento; falam de armar laços secretamente, e dizem: Quem os verá?” ( Sl 64:5 ; Pv 13:14 ).

Desde o Éden a ‘peste perniciosa’ assola a humanidade, pois um pecou e todos pecaram. Um morreu e todos morreram ( 1Co 15:21 -22), e passaram a falar segundo os seus corações mentirosos ( Sl 58:3 ). A peste perniciosa não se assemelha a peste negra que dizimou a Europa. Nem tão pouco diz de agentes químicos ou de armas biológicas.

Os filhos do povo do Messias armaram diversas armadilhas com o fito de ‘pegar’ o Cristo nalguma contradição, porém, somente eles permaneceram enlaçados.

“Armaram uma rede aos meus passos; a minha alma está abatida. Cavaram uma cova diante de mim, porém eles mesmos caíram no meio dela” ( Sl 57:6 ; Sl 56:5 ; Mt 22:17 ; Jo 8:5 );

“Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina, E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados” ( 1Pe 2:6 -8; Rm 9:33 ).

O Filho de Davi desde o ventre de Maria era livre do pecado (a peste perniciosa), visto que Ele foi lançado na madre por Deus ( Sl 22:10 ) e gerado pelo Espírito Eterno ( Sl 2:7; 2Sm 7:14 ). Todos os descendentes da carne de Adão, a porta larga por quem todos os homens entram ao virem ao mundo, foram contaminados pelo pecado (o mesmo que ser vendidos ao pecado como escravos), porém, Jesus, o último Adão, é a porta estreita pela qual todos os homens que creem torna-se livres do pecado.

A proteção de Deus dispensada ao Messias era específica: “Ele te cobrirá com as Suas penas, e debaixo das Suas asas te confiarás” (v. 4). Da mesma forma que a galinha protege os seus pintainhos debaixo de suas asas, o Cristo estava seguro debaixo das asas do Onipotente “TEM misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia de mim, porque a minha alma confia em ti; e à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades” ( Sl 57:1 ; Sl 63:7 e Sl 61:4 ).

A verdade ou a fidelidade de Deus foi constituída como escudo e broquel do Messias. Todos os adversários vieram contra Ele utilizando-se de palavras de engano, mas na Palavra de Deus (verdade e fidelidade) estava a defesa de Cristo. Diante dos religiosos Judeus, Jesus apresentou as Escrituras em sua defesa. Quando tentado pelo diabo no deserto, Cristo fez uso das Escrituras.

Há pessoas que ficam até arrepiadas quando leem o verso seguinte por falta de compreensão: “Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia” (v. 5 ). Este verso é resumo do exposto profeticamente pelo Salmo 64:

“OUVE, ó Deus, a minha voz na minha oração; guarda a minha vida do temor do inimigo. Esconde-me do secreto conselho dos maus, e do tumulto dos que praticam a iniquidade. Que afiaram as suas línguas como espadas; e armaram por suas flechas palavras amargas, A fim de atirarem em lugar oculto ao que é íntegro; disparam sobre ele repentinamente, e não temem. Firmam-se em mau intento; falam de armar laços secretamente, e dizem: Quem os verá? Andam inquirindo malícias, inquirem tudo o que se pode inquirir; e ambos, o íntimo pensamento de cada um deles, e o coração, são profundos” ( Sl 64:1 -6).

Os soldados geralmente são atormentados pelo medo do inimigo quando no campo de batalha. Durante a noite a possibilidade do ataque sorrateiro do inimigo é um tormento, e durante o dia, os perigos que as flechas inimigas representam também atemorizam. O inimigo ataca nas trevas, ou seja, quando lhe falta a luz do entendimento da palavra de Deus. A setas são ataques deferidos contra o Messias enquanto ele se fazia presente entre os homens ( Jo 12:35 -36).

Mas, por confiar no Pai é que a confiança do Messias é expressa no Salmo 64: – “Guarda a minha alma do temor do inimigo!” (v. 1) Quais seriam as armas dos inimigos dos Messias? A resposta é: a língua!

“A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada ( Sl 57:4 );

Aguçaram as línguas como a serpente; o veneno das víboras está debaixo dos seus lábios” ( Sl 140:3 ).

Os inimigos de Davi possuíam espadas afiadas, mas o Filho de Davi, o Messias, enfrentaria homens que possuíam as línguas afiadas como se fossem espadas. As setas deles constituíam-se em palavras amargas! Secretamente engendravam planos para dar cabo do Messias ( Jo 11:53 ), mas sendo a Palavra de Deus escudo e broquel, o Messias não seria atingido.

Por se desviarem da palavra do Senhor, os filhos de Israel tornaram-se uma vinha que produzia vinho venenoso “O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” ( Dt 32:33 ). Este veneno estava na língua dos filhos do povo de Jacó “Aguçaram as línguas como a serpente; o veneno das víboras está debaixo dos seus lábios. (Selá.)” ( Sl 140:3 ). Mas, Jesus sabia desta peculiaridade:

“Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

 

Mil à direita e dez mil à esquerda

“Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará próximo de ti. Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios” (Salmo 91:7 -8)

Para evitar a queda de muitos, o precursor do Messias foi enviado para que fosse arrancado os tropeços do caminho do povo para que não rejeitassem a Cristo “E dir-se-á: Aplanai, aplanai a estrada, preparai o caminho; tirai os tropeços do caminho do meu povo” ( Is 57:14 ).

Há muito o profeta Isaías predisse que os moradores das duas casas de Israel haveriam de tropeçar por se escandalizar do Cristo “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” ( Is 8:14 ).

A queda de milhares estava prevista, pois tropeçariam na pedra de esquina “E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados” ( 1Pe 2:8 ).

O Cristo não precisaria fazer nada com relação aos ímpios, antes só olhar a recompensa deles ( Sl 56:7 ). Por quê? Porque Cristo escolheu o Senhor como refúgio, o Deus que tudo executa para o Messias ( Sl 57:2 –3); “E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” ( Jo 12:47 ).

Jesus não veio para condenar, antes para salvar, portanto, ele não emitia juízo acerca das pessoas ( Jo 8:15 ; Jo 12:47 ).

 

Deus é refúgio

“Porque Tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a Tua habitação” (Salmo 91:9)

Todas as promessas seriam levadas a efeito porque o Messias fez do Altíssimo o seu lugar de refugio. Este verso remete ao pensamento do verso 1: O Verbo habitava o lugar oculto do Altíssimo, porém, após ser introduzido no mundo como Primogênito de Deus, o Verbo encarnado passou a descansar na sombra do Onipotente ( Sl 57:1 ).

Aquele que fez a sua habitação (refugiou-se) no Altíssimo (v. 9) é quem reside no esconderijo do Altíssimo (v. 1). Quem fez a sua morada no Altíssimo? O único homem que fez a sua morada no Altíssimo foi o Descendente prometido a Davi, o Senhor que o salmista viu à mão direita de Deus.

 

Proteção perene

“Nenhum mal Te sucederá, nem praga alguma chegará próximo da Tua tenda. Porque aos Seus anjos dará ordem a Teu respeito, para Te guardarem em todos os Teus caminhos. Eles Te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o Teu pé contra uma pedra. Pisarás sobre o leão e a cobra; calcarás aos pés o leão jovem e o dragão” (Salmo 91:10 -13)

Quando Jesus nasceu, muitas crianças foram mortas, porém, mal algum O atingiu. A sua família mudou-se para o Egito, e nenhuma praga acometeu a sua família terrena ( Mt 2:16 ). Aos anjos foi dado ordem acerca do Messias para guardá-lo em todos os seus caminhos. Eles haveriam de amparar o Cristo para livrá-lo de todo mal ( Sl 57:3 ; Sl 56:13 ).

O diabo ciente de que as promessas da profecia deste Salmo faziam referência a Cristo, lançou mão do Salmo 91 para tentá-Lo. E o diabo disse:

“Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo. Pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e eles te tomarão nas mãos, para que não tropeces nalguma pedra” ( Mt 4:6 ).

Observe que:

  • O diabo conhece as Escrituras;
  • Lançou dúvidas acerca da filiação do Messias;
  • Estabeleceu um teste para por à prova a filiação divina de Cristo;
  • Deu uma ordem com falso embasamento nas Escrituras;
  • Ele sabia que o cuidado de Deus estipulado no Salmo 91 para o Messias visava protegê-Lo de ataques direto dos anjos decaídos e dos homens maus ( Sl 56:5 ; Mt 2:12 e Mt 2:13 );

O diabo sabia que Deus não interfere nas decisões dos homens, e que, se Cristo decidisse pular, não seria socorrido, antes sofreria as consequências da sua decisão, assim como sofreu o primeiro Adão.

Através da verdade (v. 4) que é escudo e broquel, Jesus respondeu: “Também está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus” ( Mt 4:7 ). A confiança deriva do amor e da fidelidade de Deus ( Sl 57:3 b), atributos imutáveis, visto que ao prometer, Ele se interpôs com juramento, segundo o seu conselho. Duas coisas imutáveis ( Hb 6:18 ).

O Messias estava descansado à sombra do Onipotente, ou seja, ciente da proteção divina em todos os seus caminhos e que não haveria de ‘tropeçar’, porém, tal proteção não englobava forçar Deus agir.

Foi dado poder ao Filho do homem para andar entre o leão e a cobra. Acerca da serpente temos uma profecia no Gênesis: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e o seu descendente; este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” ( Gn 3:15 ).

Além de ter ferido a cabeça da serpente, o Salmo 57 demonstra que os filhos do povo do Messias são comparáveis às bestas famintas, ou seja, aos leões “A minha alma está entre leões; estou deitado entre bestas famintas, homens cujos dentes são lança e flechas, e cuja língua é espada afiada” ( Sl 57:4 ).

As ações destes homens resumem-se em atacar o Cristo com palavras, mentiras forjadas em seus conselhos malignos com o intento de matar o enviado de Deus ( Sl 1:1 ). Porém, mesmo entre leões e áspides, o Messias permaneceu descansado (deitado), pois confiava em Deus.

 

Vida eterna ao Filho

“Porquanto tão encarecidamente Me amou, também Eu O livrarei; pô-Lo-ei num alto retiro, porque conheceu o Meu nome. Ele Me invocará, e Eu Lhe responderei; estarei com Ele na angústia; dela O retirarei, e O glorificarei. Fartá-lo-ei com longura de dias, e Lhe mostrarei a Minha salvação” (Salmo 91:14 -16)

Até o verso 13 do Salmo 91 o salmista profetiza, do verso 14 ao 16, ele transcreve o que o Senhor diz, ou seja, mudou a pessoa do discurso.

Como o Messias descansou (confiança), o Pai Eterno O livrou “Pois tu livraste a minha alma da morte, como também os meus pés de tropeçarem, para que eu ande diante de Deus na luz da vida” ( Sl 56:13 ). Enquanto no Salmo 91 temos uma profecia em que o Senhor protocola uma promessa de livramento que seria concedido ao Messias, no Salmo 56 temos o Messias declarando que havia sido resgatado da morte.

Por ‘conhecer’ (união intima) o Pai, Cristo foi posto num alto retiro, ou seja, à destra de Deus nas alturas ( Sl 110:1 ; Jo 10:30 ). A palavra ‘conhecer’ tem dois significados na Bíblia. Um dos significados é ‘ter ciência de algo’, ‘saber acerca de’, porém, o significado que o termo ‘conhecer’ tem neste Salmo é o de comunhão íntima.

Do mesmo modo que o Pai e o Filho são pessoas distintas, e, no entanto, são um ( Jo 10:30 ), todos quantos crerem no Filho são um com o Pai e o Filho ( Jo 17:21 -23).

Cristo haveria de invocar o Senhor ( Sl 56:1 ; Sl 57:1 ), e Deus haveria de respondê-lo. E como Deus haveria de respondê-lo? Não deixando o Cristo à mercê da angustia? Não! Deus não prometeu livrá-lo da angustia, antes prometeu estar com Ele durante o período da angustia. Para que Deus estivesse presente na angustia, necessariamente o Cristo deveria ser e foi angustiado “E tomou consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, e começou a ter pavor, e a angustiar-se” (Mc 14:33 ).

Cristo não foi abandonado na cruz, antes o Pai o ouviu e o atendeu ( Sl 22:24 ). Pelo fato de ter citado as Escrituras quando estava na cruz, muitos reputam que Cristo foi abandonado, mas esta má leitura ocorre quando as pessoas não conseguem ver que os salmos são profecias ( Sl 22:1 ; Mt 27:46 ).

Como lemos nos evangelhos, Jesus clamou ao Pai no Getsêmani, porém, Ele foi angustiado até a morte, e morte de cruz “Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar” ( Mt 26:36 ). O Messias foi glorificado quando entregou ao Pai o seu espírito, momento em que o Pai O retirou da angustia “Em ti, ó Senhor, me refugio; nunca seja eu envergonhado; livra-me pela tua retidão (…) Nas tuas mãos encomendo o meu espírito…” ( Sl 31:1 -5).

O Cristo de Deus foi glorificado com a glória que Ele tinha antes de ser introduzido no mundo, e entrou no descanso do Pai até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés.

“E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” ( Jo 17:5 ).

A promessa do Pai para o Filho é abundância de dias, longura, ou seja, vida eterna “Vida te pediu, e lha deste, mesmo longura de dias para sempre e eternamente” ( Sl 21:4 ). O Filho do homem viu a salvação de Deus:

“Tu és o mais formoso dos filhos dos homens e os lábios foram ungidos com a graça, por isso Deus te abençoou para sempre. Cinge a tua espada à coxa, ó valente; cinge-te de glória e majestade” ( Sl 45:2 -3).

A cerca do Verbo Eterno que assumiu a condição de Filho, o Salmo 45 declara: “O teu trono , ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a retidão e odeias a impiedade; portanto Deus, o teu Deus te ungiu com o óleo de alegria, mais do que a teus companheiros” ( Sl 45: 6 -7 ; Hb 1:8 ).

Agora que você sabe que estas promessas foram feitas para o Filho do homem e, que elas dizem do Cristo, creia no enviado de Deus, Jesus Cristo homem, que foi morto e glorificado ( 1Tm 3:16 ; Rm 1:2 -4), para que você possa receber de Deus poder para ser feito um dos seus filhos ( Jo 1:12 ). Através da fé em Cristo você passará a ser co-herdeiro de Deus e participante das promessas “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” ( 2Co 1:20 ; 2Pe 1:4 ).

Você que creu em Cristo conforme diz as Escrituras ( Jo 7:38 ), e que é, portanto, uma nova criatura ( 2Co 5:17 ), não pode se deixar levar por crendices várias, tais como rezas e orações com trechos de Salmos, ou de qualquer outra parte das Escrituras.

Não se deixe levar por supostos ‘desafios de fé’, onde certas pessoas incitam os seus ouvintes a doarem seus bens ou que se lance em certas promessas, que muitas das vezes são vazias. Dizeres como: “Se você não for abençoado rasgo a minha Bíblia!”; “Se você tem fé doe o melhor, ou doe tudo”.

A Bíblia garante que todos os que creem já receberam de Deus todas as bênçãos espirituais ( Ef 1:3 ; 2Pe 1:3 ). Se alguém promete bênçãos que não estejam elencadas no capítulo 1 da carta de Paulo aos Efésios, ou às que estão enumeradas no Salmo 103, desconfie.

Da mesma forma que o Pai prometeu ao Filho estar com Ele na angustia, Jesus também prometeu aos que creem estar com eles todos os dias ( Mt 28:20 ). Para que tivessem paz, alertou que, no mundo os cristãos terão aflições ( Jo 16:33 ). Qualquer que prometa livrá-lo das aflições diárias, não fala conforme a verdade do evangelho, visto que o próprio Cristo não prometeu livrar os cristãos das aflições, antes avisou que seriam suscetíveis as aflições.

Os cristãos devem estar certos que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus e que em todas as coisas são mais que vencedores “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” ( Rm 8:28 ); “Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou” ( Rm 8:37 ).

 

Claudio Crispim