A cruz serrada

A estória da cruz serrada foi tão difundida que, se fosse possível, enxertariam a narrativa no Canon sagrado. Muitos consideram a estória da cruz serrada uma ilustração do convite registrado nos evangelhos: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ).


A cruz serrada

“Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á” ( Mt 16:24 -25)

Era uma vez…

A estória da cruz serrada foi tão difundida que, se fosse possível, enxertariam a narrativa no Canon sagrado. Muitos consideram a estória da cruz serrada uma ilustração do convite registrado nos evangelhos: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ).

Apesar do grande número de variantes, resumidamente a estória da cruz serrada apresenta os seguintes pontos:

Certo moço foi convidado a fazer uma jornada até o paraíso. Para chegar ao paraíso era necessário carregar uma cruz que foi posta em seu ombro e seguir a seguinte recomendação: a) seguir por um caminho reto ascendente, e; b) nunca deixar a cruz à beira do caminho.

O moço iniciou a jornada e, após certo tempo, a cruz começou a incomodar e a ficar cada vez mais pesada. O jovem trocou a cruz de obro por diversas vezes e, por fim, resolveu cortar um pedaço da cruz. O moço prosseguiu na jornada e, como a cruz continuou a incomodar, repetiu a ação anterior por várias vezes: cortou pedaços da cruz. Por estar com a cruz mais leve, o jovem notou que começou a ultrapassar outros caminhantes que carregavam as suas cruzes intactas. Porém, em certo momento o jovem se deparou com um rio e o caminho continuava do outro lado e não havia como atravessar.

Quando os retardatários chegaram, cada indivíduo utilizava a cruz como ponte, e atravessaram o precipício. O moço, tardiamente percebeu que a cruz era o único meio de atravessar o rio, porém, ele havia reduzido em muito o seu tamanho. Ele buscou um lugar no qual a sua cruz alcançasse o outro lado, e após apoiá-la na beirada do precipício, tentou atravessar e caiu, sendo levado pela correnteza < http://www.dnadedeus.com.br/2014/03/a-cruz-cortada-medite-sua-vida-nunca.html > 07/04/14 ou < http://recife.blog.arautos.org/2013/09/a-cruz-serrada > Consulta realizada em 07/04/2014 ou < http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=7911&cod_canal=67 > Consulta realizada em 17/04/14.

Após narrar a estória, os pregadores concitam os seus ouvintes com os seguintes argumentos:

  • a ilustração corresponde perfeitamente com o que o Senhor Jesus disse, e cita Mateus 16, verso 24: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”;
  • que existe uma cruz a ser carregada, a mesma que Jesus carregou;
  • que Jesus não cortou a sua cruz, antes carregou uma cruz que não era feita de madeira, mas de pecados;
  • a cruz é a chave que abrirá as portas do maravilhoso reino prometido, e;
  • no final, se você conduziu a cruz, fará a grande travessia que te conduzirá a vida eterna.

A estória é narrada pausadamente, acompanhada de um fundo musical e busca um clímax. A música envolve o ouvinte que, em vez de analisar o narrado, se emociona e fica extasiado, deixando de considerar o que realmente é necessário para que o homem seja salvo.

Será que esta estória da cruz serrada realmente representa a ordem de Cristo estampada em Mateus 16, verso 24: – “… tome sua cruz e siga-me”? Será que há algum abismo a ser atravessado antes do salvo herdar a vida eterna?

 

O que é necessário para ser salvo?

O apóstolo Paulo fez uma breve exposição acerca do que é necessário:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:8 -13).

Ora, para ser salvo basta reconhecer que é pecador, admitir (confessar) que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus crendo que Deus o ressuscitou dentre os mortos. A confissão é necessária para salvação e o crer para a justiça, pois está estabelecido nas Escrituras que ao invocar o nome do Senhor o homem é salvo da ira vindoura.

É necessário que fique bem claro que, para ser salvo basta a qualquer pessoa crer e confessar Cristo conforme o apóstolo Pedro: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).

Esta mesma confissão foi feita por Marta, irmã de Lazaro: “Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” ( Jo 11:27 ).

Antes de ser batizado, o eunuco etíope, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, professou: “E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” ( At 8:37 ).

Jesus se apresentou ao povo como o caminho, a verdade e a vida “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ), e é Ele que conduz os homens a Deus “E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:14 ).

Não é ao final da existência que o homem será provado se é digno ou não de estar com Deus. O homem precisa compreender que está perdido, alienado de Deus, e que é necessário crer no evangelho para entrar pelo caminho que conduz o homem a Deus.

A Bíblia é clara dizendo que pela carne de Cristo foi consagrado um novo e vivo caminho que dá acesso a Deus, portanto, não há outro caminho “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

A crença de que a cruz do indivíduo é o ‘passaporte’ para o paraíso não é conforme o evangelho de Cristo, pois o que conduz à vida é Cristo, que a si mesmo se entregou para salvar a humanidade.

Jesus censurou muitos de seus ouvintes, pois acreditavam que Cristo era um dos profetas pelos sinais miraculosos que operava, pois para ser salvo é necessário crer e confessar Cristo conforme as Escrituras, de que o Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o Filho de Davi, que veio ao mundo sem pecado, foi morto e ressuscitou e que tira o pecado do mundo “Então muitos da multidão, ouvindo esta palavra, diziam: Verdadeiramente este é o Profeta” ( Jo 7:40 ); “E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas” ( Mt 16:13 -14).

Havia muitos que diziam crer em Cristo, porém, não queriam admitir que eram escravos do pecado e que necessitavam ser libertos por Cristo “Dizendo ele estas coisas, muitos creram nele. Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:30 -33).

Para ser salvo basta crer que Jesus é o Eu Sou “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ), o descendente prometido a Davi “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens” ( 2Sm 7:12 -14).

 

No que consiste a renúncia de si mesmo e o tomar a cruz?

A renúncia de si mesmo e o tomar a cruz é uma mensagem para os seguidores de Cristo, ou seja, para aqueles que creram na mensagem de salvação, e que, portanto, já deixaram o caminho de perdição.

É uma mensagem de aviso solene e alento para que os discípulos não desanimem quando chegar a angustia e a perseguição por causa da palavra. Sofrer por causa da mensagem do evangelho não é dado a quem ainda não entrou pela porta estreita, ou seja, renunciou a si mesmo “Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende” ( Mt 13:21 ).

Aquele que ‘nega a si mesmo’ e ‘toma a sua cruz’ é bem-aventurado, pois compreende que com relação ao evangelho não somente é concedido crer em Cristo, mas também padecer pela mensagem da cruz “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fl 1:29 ); “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:10 ).

A mensagem sobre a necessidade de tomar a cruz visa estabelecer paz no coração dos verdadeiros cristãos que sofrem perseguição no mundo “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ).

 

A renuncia de tudo

Jesus deixa claro que, para ser um seguidor d’Ele é necessário ‘renunciar a si mesmo’. Mas, como se dá a ‘renuncia de si mesmo’?

“Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:33 ).

Esta é uma exigência de Cristo que permeia o Novo Testamento:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 );

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me” ( Mc 10:21 );

“E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a” ( Mt 13:46 );

Jesus estava falando de doação de bens materiais? Não!

Primeiro temos que observar qual é o público alvo do ensinamento de Jesus: a multidão “Ora, ia com ele uma grande multidão; e, voltando-se, disse-lhe:” ( Lc 14:25 ).

Jesus estava falando a multidão, e devemos lembrar que Ele só fala à multidão por parábolas: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ); “E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado” ( Mt 13:10 -11).

Como Jesus só falava por parábolas à multidão, ao ler o convite: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ), é necessário questionarmos se Jesus falou abertamente à multidão ou se utilizou de uma parábola, conforme Deus sempre fez com a casa de Israel “Filho do homem, propõe um enigma, e profere uma parábola para com a casa de Israel” ( Ez 17:2 ; Sl 78:2 ).

A parábola é a forma que Deus utilizou para falar com a casa rebelde de Israel, homens que rejeitaram a aliança com Deus ( Sl 78:10 ; Ez 17:19 ).

A repreensão de Deus através do profeta Oséias nos auxilia compreender as parábolas de Jesus acerca de vender tudo que possuem:

“Tu, pois, converte-te a teu Deus; guarda a benevolência e o juízo, e em teu Deus espera sempre. É um mercador; tem nas mãos uma balança enganosa; ama a opressão. E diz Efraim: Contudo me tenho enriquecido, e tenho adquirido para mim grandes bens; em todo o meu trabalho não acharão em mim iniquidade alguma que seja pecado” ( Os 12:6 -8).

Há muito Deus requer de Israel conversão, ou seja, que guardasse a misericórdia e o juízo confiando em Deus sempre. Israel, por sua vez, é comparável a um negociante que traz uma balança enganosa na mão que rouba os seus clientes. Apesar de ser comparável a um negociante fraudulento, Israel se sente abastado, possuidor de grandes bens e sem pecado.

Esta era a condição do homem que possuía uma herdade que produziu muito:

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 ).

A acusação dos profetas era contra o povo de Israel, que confiavam nos bens que possuíam: “Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6); “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará, e no seu fim será um insensato” ( Jr 17:11 ); “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas” ( Sl 49:6 ); “Eis aqui o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes confiou na abundância das suas riquezas, e se fortaleceu na sua maldade” ( Sl 52:7 ); “Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” ( Sl 62:10 ); “Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas” ( Jr 9:23 ).

A mensagem de Mateus 10, verso 37 é diferente da mensagem em Lucas 14, verso 26 em função do público alvo. Em Mateus 10, o público alvo da mensagem são os doze discípulos, pessoas que Jesus dava o sentido das parábolas, apesar de muitas das vezes não compreenderem “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ); “Disseram-lhe os seus discípulos: Eis que agora falas abertamente, e não dizes parábola alguma” ( Jo 16:29 ).

Em Lucas, o público alvo é a multidão, portanto, Jesus lhes falou por parábola.

Considerando que a mensagem registada por Lucas tinha por alvo a multidão, quais eram os ‘bens’, ou ‘tudo o que tinham’ que a multidão foi concitada a dispor?

 

Ódio ao pai e a mãe

Jesus apresenta os familiares ou a própria vida dos seus ouvintes como um obstáculo a ser transposto para que pudessem ser os seus discípulos:

“Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ).

Jesus não disse que há um abismo entre o homem e o paraíso, antes que havia a necessidade de odiar pai e mãe para ser um seguidor d’Ele.

No que consiste odiar pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs?

Primeiramente é necessário deixar bem claro que Jesus não estava incitando o povo a desrespeitarem o primeiro mandamento com promessa “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” ( Ef 6:2 ; Lc 18:20 ; Mc 7:10 ; Ex 20:12 ; Dt 5:16 ). Se observarmos o contexto, percebemos que não é esta a ideia decorrente da mensagem: hostilizar entes queridos.

O termo grego traduzido por aborrecer é μισεω (miseo), e significa odiar, detestar, perseguir com ódio, ser odiado, detestado. O termo traz em seu bojo a ideia de perseguição, hostilidade permanente, como se os seguidores de Cristo devessem perseguir e permanentemente hostilizar os seus entes queridos.

“miseõ (a etimologia é incerta) é atestado de Homero em diante, e significa “odiar”, “aborrecer”, “rejeitar”. O vb. conota não somente a antipatia para com certas ações, como também uma hostilidade permanente e arraigada para com outros homens ou até para com Deus” Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Paulo ; Vida Nova, 2000, pág. 1027.

Para interpretar o verso, precisamos de outro texto, onde o termo ‘odiar’ é empregado: “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ).

O termo ‘odiar’ aparece contrapondo o termo ‘amar’ ao fazer referencia a dois senhores. Os termos ‘amor’ e ‘ódio’ são empregados para descrever a relação senhor e escravo, de modo que ‘amar’ é obedecer e ‘odiar’ é desobedecer. O elemento ‘afeição’ como sentimento é ausente nos dois termos.

Ora, quando Jesus utilizou o termo grego agapé (amor) em Lucas 16, verso 13, a essência do termo é ‘honrar’ “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” ( Ml 1:6 ).

Veja a definição original do termo agapé (amor):

“agapaõ, que originalmente significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção necessariamente nítida quanto ao significado” Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Pauio ; Vida Nova, 2000, pág. 113.

Ora, Jesus não esta reclamando aos seus ouvintes ‘entranháveis afetos’, o sentimento de afeto denominado amor. Ele está reivindicando a ‘honra’ devida, o agapaõ, que originalmente no grego clássico significava “honrar”.

Qual a extensão deste amor (agapaõ)?

Para compreender este ‘amor’, basta lembrarmos que uma mulher pecadora soube que Jesus estava à mesa com um fariseu, e ela levou um vaso de alabastro com unguento e, chorando aproximou-se dos seus pés por detrás, e regava os pés de Cristo com lágrimas e enxugava com os cabelos de sua cabeça e beijava os pés e ungia com o unguento ( Lc 7:37 -38).

O fariseu censurou o seu convidado ao pensar: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora” ( Lc 7:39 ).

Em seguida Jesus dirigiu a palavra ao fariseu e contou-lhe uma parábola dizendo: “Um certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinquenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?” ( Lc 7:41 -42).

O amor dos devedores é de cunho sentimental, ou conforme a raiz do termo grego ‘agapaõ’?

A descrição que Jesus faz logo após o fariseu responder que o devedor que mais devia é o que ‘amaria’ mais nos esclarece a questão: “E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e mos enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento” ( Lc 7:44 -46).

Jesus demonstra que o fariseu o convidou para jantar em sua casa, porém, não o ‘honrava’ como Mestre.

Em seguida Jesus anuncia à mulher que a fé que ela tinha a salvou, e perdoou os seus pecados: “Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama. E disse-lhe a ela: Os teus pecados te são perdoados. E os que estavam à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados? E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz” ( Lc 7:47 -48).

A ‘honra’ é que cobre multidão de pecados: “Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados” ( 1Pe 4:8 ); “Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados” ( Tg 5:20 ); “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todos os pecados” ( Pv 10:12 ).

Quem recebe (dá as boas vindas) a Cristo o ama, ou seja, honra. Quem recebe um discípulo de Cristo, recebe a Cristo e recebe aquele que o enviou, de modo que honrou tanto o Pai quanto o Filho “Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou. Quem recebe um profeta em qualidade de profeta, receberá galardão de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá galardão de justo. E qualquer que tiver dado só que seja um copo de água fria a um destes pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão” ( Mt 10:40 -42); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

O ‘renunciar-se a si mesmo’ em Mateus 16, verso 24 é o descrito no verso 37 de Mateus 10: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim”.

O ‘renunciar a si mesmo’ para seguir a Cristo é o mesmo que entregar o velho homem para ser crucificado com Cristo, de modo que o corpo que estava sob o domínio do pecado seja desfeito ( Rm 6:6 ). É na renuncia que se dá a morte com Cristo. É na renuncia que o crente é batizado na morte de Cristo ( Rm 6:3 ).

Ao ‘renunciar a si mesmo’ ocorre o arrependimento, a mudança completa de concepção acerca de como salvar-se. Antes de ouvir a mensagem do evangelho o homem possui uma concepção própria acerca de como ser salvo. Após ouvir o evangelho, o homem abandona a concepção que tinha e adota o posicionamento revelado no evangelho (metanoia).

A mudança completa de concepção (arrependimento) de um Judeu se dá quando ele deixa de confiar que sua herança genética lhe confere salvação e crê no coração que o Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o descendente prometido a Abraão em quem seriam benditas todas as famílias da terra e professa que Jesus é o Filho de Davi.

E qual é a mudança de concepção de um cristão convertido dentre os gentios que demonstra a ‘renuncia de si mesmo’? Abandonar dogmas que entendia ser o que proporcionava salvação.

O argumento: – “Nasci nesta religião e morro nela”, ou a concepção: – “Todas as religiões levam a Deus”, ou a filosofia: – “Basta ser uma pessoa boa”, etc., deve ser substituída pelo seguinte argumento:

“Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:10 -12).

Certa feita Jesus estava ensinando a multidão e os seus parentes segundo a carne (mãe e irmãos) estavam do lado de fora querendo falar com Jesus. Alguém trouxe um recado e disse: – “Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te” ( Mt 12:47 ). Foi quando Jesus respondeu: – “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:48 -50).

Quem Jesus ‘honrou’ (agapé) quando estendeu sua mão para os discípulos? Os seus familiares segundo a carne ou os que fizeram a vontade de Deus?

Ora, Jesus não abandonou a sua mãe, visto que até na cruz dispensou um cuidado para com ela “Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa” ( Jo 19:27 ). Ninguém deve abandonar os seus parentes ( 1Tm 5:4 à 8).

‘Odiar’ pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs, segundo a perspectiva do ensinamento de Jesus só se compreende quando se descobre que a família de Cristo é QUALQUER que faz a vontade de Deus, ou seja, QUALQUER um que crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Em segundo lugar é necessário entender que ter vínculo de sangue com Abraão não torna ninguém filho de Deus.

A multidão a quem o Senhor Jesus dirigia a palavra era formada por judeus, homens que se orgulhavam de possuir o sangue de Abraão. A multidão era uma grande família que consideravam a descendência segundo a carne de Abraão lhes conferia filiação divina, ou seja, salvação, o seu maior tesouro.

Qualquer um que fizer a vontade de Deus pertence à família de Cristo, no entanto, para pertencer à família de Israel era necessário ser descendente da carne de Abraão e circuncidado ao oitavo dia.

Para honrar a Deus era necessário a multidão crer em Cristo como o Filho de Deus ( Jo 5:23 ), e isto significa que deviam abrir mão do que lhes era mais caro: confiar que eram filhos de Deus por serem descendente de Abraão “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão (…) Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus” ( Jo 8:39 e 41).

Ser descendência de Abraão era o obstáculo que os judeus precisavam transpor para serem discípulos de Cristo e verdadeiramente livres. No entanto, honravam mais o vínculo familiar com Abraão do que a mensagem de Cristo. Isto significa que aquele que ‘honra’ o seu vínculo de sangue com Abraão em detrimento da vontade de Deus, não é digno de Cristo.

Não basta presumir e dizer: – “Temos por pai Abraão” ( Mt 3:9 ; Jo 8:39 ), é necessário crer em Cristo para fazer parte da família de Deus.

Quando Jesus diz para ‘odiar’, ‘hostilizar permanentemente’, etc., os membros da família, utilizou uma parábola para expor a necessidade de ‘odiarem’, ‘rejeitarem’ a doutrina dos escribas e fariseus que era segundo a tradição dos anciões. Era doutrina de homens que tinha por base a carne e a circuncisão de Abraão “Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo, procurais matar-me, porque a minha palavra não entra em vós” ( Jo 8:37 ).

Quando é dito: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ), Jesus está demonstrando a impossibilidade de a multidão servir a dois senhores, pois se quisessem servi-Lo, deveriam ‘obedecer’, ‘amar’, ou ‘honrar’ somente a Ele.

Não há como obedecer a Cristo e ao mesmo tempo considerar que se alcança a salvação pela carne e o sangue de Abraão, pois não há outro nome pela qual o homem é salvo. Quem serve a Deus, odeia a Mamom, e quem ama a Deus, não serve a Mamom, porém, aqueles que se gloriam na carne serve as ‘riquezas’ herdadas de seus pais.

Cristo foi desamparado por seus familiares segundo a carne, como se lê: “E, quando os seus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si” ( Mc 3:21 ); “Porque, quando meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me recolherá” ( Sl 27:10 ), pois Ele veio para os que eram seus, mas os seus não O receberam ( Jo 1:11 ).

Por que não obedecer (odiar) os familiares? A resposta é esta: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” ( Mt 6:21 ). Ser descendente da carne de Abraão era uma ‘riqueza’ que os filhos de Israel não abriam mão.

Quando Jesus interpelou algumas pessoas que criam n’Ele dizendo ser necessário permanecerem na doutrina de Cristo para serem livres, de pronto responderam que eram descendentes de Abraão, e que, portanto, nunca foram escravos de ninguém “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:33 ).

O apóstolo Pedro estava se enveredando pelo caminho de honrar ‘pai’ e ‘mãe’ quando foi repreendido pelo apóstolo Paulo:

“Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” ( Gl 2:12 -14).

A dissimulação do apóstolo Pedro fez com que outros judeus convertidos e até Barnabé se deixasse levar, se comportando de maneira que não era segundo a verdade do evangelho. Ao temer os da circuncisão (judeus), o apóstolo Pedro estava honrando os seus familiares em detrimento de Cristo e do seu corpo, que é a igreja.

 

Deixar tudo quanto tem

Como os judeus poderiam seguir a Cristo se continuavam apegados aos preceitos instituídos pelos anciões? Estes preceitos tornaram-se uma riqueza cultural que cegou o povo de Israel quando o reino de Deus se manifestou “Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas” ( Mc 7:8 ).

A tradição é uma espécie de ‘riqueza’ que os antepassados judeus legaram aos filhos. Ora, Deus deu uma lei aos pais para que transmitissem aos seus filhos, porém, em lugar de ensinarem os preceitos de Deus, substituíram por mandamentos de homens “Porquanto se rebelaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altíssimo” ( Sl 107:11 ).

Quando o povo de Israel estava para entrar na terra da promessa, Deus os avisou por intermédio de Moisés dizendo para não confiarem que entraram na terra por serem justos, mas que foi dada aquela benesse porque os povos daquela terra eram ímpios “Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o SENHOR teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” ( Dt 9:6 ).

Ora, Deus deu o alerta para que os filhos de Israel não considerassem que eram melhores que os outros povos, ou que possuíam a melhor religião, visto que eles não eram justos. No entanto, os filhos de Israel desprezaram a palavra do Senhor, pois em lugar de serem ensinados que foram introduzidos na terra por causa da promessa que Deus fez aos pais ( Dt 9:5 ), os anciões do povo prevaricaram na sua atribuição e assenhoram dos filhos de Israel ensinando mandamentos de homens.

Ao entrar na terra Deus deu a ordem: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Era para os filhos de Jacó gravarem estas palavras e ensinar aos seus filhos ( Dt 11:18 -19), porém, enfatizavam a circuncisão do prepúcio da carne e não enfatizavam a circuncisão do coração. Enfatizavam os sacrifícios e negligenciavam a obediência à palavra de Deus. Estabeleceram ritos, mas não guardaram a palavra de Deus no coração.

Os ensinamentos dos anciões tornaram-se tradição, e a tradição uma riqueza aos filhos de Israel. Dai a repreensão dos profetas contra os filhos de Israel, homens que se gloriavam em suas fazendas, na multidão de suas riquezas, uma gloria que não os tornava ricos para com Deus “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas (…) O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpétuas e as suas habitações de geração em geração; dão às suas terras os seus próprios nomes (…) Não temas, quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa se engrandece. Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará” ( Sl 49:6 , 11 e 16-17).

A exigência de Cristo à multidão é específica: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ), porque Ele sabia que abrir mão de conceitos como a filiação de Abraão, a circuncisão, as linhagens, as tribos, as festas, as luas, os sábados, etc., eram algo muito caro ao povo de Israel.

O apóstolo Paulo ciente de que não dava para seguir a Deus e as ‘tradições’ dos seus pais dá uma lição de como um judeu deixa pai, mãe e riquezas para ganhar a Cristo:

“Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:4 -8).

É necessário aborrecer, até mesmo, a sua própria vida, ou seja, era necessário considerar que a maneira de viver que herdaram por tradição dos pais não os salvava. Precisavam deixar as suas próprias concepções e tradições para servir a Deus.

“Se alguém vier a mim, e não aborrecer (…) ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 );

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” ( Jo 8:31 -32)

Aborrecer os familiares ou ainda a própria vida é abandonar a vã maneira de viver que por tradição o crente judeu recebeu dos seus pais “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais” ( 1Pd 1:18 ).

Mas, apesar de dizerem que criam, muitos ouvintes de Jesus não permaneceram no seu ensino, pois continuavam fiados que a condição de descendentes de Abraão os salvaria.

 

A cruz de Cristo

Ao crer em Cristo o homem é transportado do domínio das trevas para o reino do Filho do seu amor, onde permanece assentado nas regiões celestiais em Cristo Jesus “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ); “E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” ( Ef 2:6 ).

Se o crente está assentado, não há abismo a ser transposto. Ao ser transportado do domínio das trevas para o reino de Cristo, resta ao crente levar a sua cruz , mas a cruz do cristão não possui relação com a cruz da estória da cruz serrada.

A cruz que o crente tem que levar refere-se a ignominia, ao desprezo, a oposição, a perseguição por causa do evangelho “Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” ( Mt 10:25 ). O ódio do mundo é contra os discípulos de Jesus ( Mt 10:22 ; Mc 13:13 ; Lc 21:17 ; Jo 15:18 ; 1 Jo 3:13 ).

Os discípulos estarão expostos diariamente aos vitupérios da cruz “E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:27 ).

É neste sentido que o apóstolo Pedro disse: “Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus; quanto a eles, é ele, sim, blasfemado, mas quanto a vós, é glorificado” ( 1Pd 4:14 ); “Em parte fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações, e em parte fostes participantes com os que assim foram tratados” ( Hb 10:33 ); “Tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa” ( Hb 11:26 ); “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério” ( Hb 13:13 ).

Sobre tomar sobre si a cruz de Cristo disse o apóstolo Paulo: “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

O apóstolo Paulo preferiu ser perseguido a deixar de professar a mensagem da cruz, pois pela mensagem da cruz é que o apóstolo foi crucificado para o mundo, e o mundo para ele “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ).

Ora, o apóstolo se dispôs das suas riquezas para estar ‘em Cristo’, o que o torna justo diante de Deus ( Fl 3:9 ). Após se achar em Cristo (nova criatura), o apóstolo passou a ser um com Cristo (conhece-lo), sendo ressuscitado com Ele ( Cl 3:1 ); “Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte” ( Fl 3:10 ).

Só após conhecer a Cristo e a virtude da sua ressurreição, é que se dá a comunicação das aflições de Cristo, conformando-se em tudo com a morte de Cristo “E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” ( 2Co 1:7 ).

Sabendo que a perseguição por causa da palavra viria sobre os seus discípulos ( Mt 13:21 ; Mc 4:17 ), Jesus anuncia, à multidão que o seguia, a necessidade de calcularem bem o quanto estavam dispostos a ‘perder’ para seguir a Cristo. Além de abrirem mão de tudo (pai, mãe e riquezas), deveriam atentar que haveria perseguições e aflições por causa da palavra.

Após enfatizar que os seus seguidores sofrem perseguições e muitas aflições, Cristo conta à multidão duas parábolas: a do construtor, e a do rei em prenuncio de guerra.

“Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, Dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar” ( Lc 14:28- 30).

“Ou qual é o rei que, indo à guerra a pelejar contra outro rei, não se assenta primeiro a tomar conselho sobre se com dez mil pode sair ao encontro do que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, estando o outro ainda longe, manda embaixadores, e pede condições de paz” ( Lc 14:31 -32).

As duas parábolas envolve consideração e previsibilidade.

Jesus questiona a multidão sobre qual deles ali presente, ao desejar edificar uma torre, primeiro não se assentaria para verificar os gastos da obra e o montante que dispõe. Ora, é necessária a análise para que, após iniciada a obra, não falte o subsidio necessário para termina-la, e o construtor não seja alvo de escarnio.

Semelhantemente, qualquer rei que vai à peleja, primeiro analisa que tem condições de vencer a guerra com o número de homens que dispõe, comparando com o número de homens que o outro rei dispõe para a guerra. Por que é necessária esta atitude por parte do rei? Se estiver em desvantagem, melhor é verificar quais são as condições de paz imposta pelo outro rei.

Jesus contou estas duas parábolas para enfatizar que: “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:33 ).

É essencial ao discípulo estar consciente da sua nova condição em Cristo e conhecer as riquezas da graça. É este conhecimento (saber) que torna o cristão apto a levar os vitupérios (tomar a sua cruz) e seguir após o Mestre. Quando o cristão descobre a extensão da gloria que há de ser revelada em nós, suportará as aflições do tempo presente: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” ( Rm 8:18 ).

Esta mesma mensagem foi registrada por Lucas no capitulo 9, e ela foi anunciada por Cristo a todos os seus ouvintes: “E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará. Porque, que aproveita ao homem granjear o mundo todo, perdendo-se ou prejudicando-se a si mesmo? Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos” ( Lc 9:23 -26).

O evangelista Marcos registrou a mesma mensagem: “E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará. Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate da sua alma? Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos” ( Mc 8:34 -38).

O evangelista também deixou consignado: “Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me; Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma? Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras” ( Mt 16:24 -27).

Os evangelhos deixam estampado um convite amplo a todos os homens de todos os povos, línguas e nações: ‘Se alguém quiser vir após mim’. O verbo grego traduzido por querer é θελω, e significa querer, ter em mente, pretender. Ou seja, Jesus não obriga ninguém segui-Lo, antes o indivíduo de livre e espontânea vontade precisa ter o desejo de segui-Lo.

 

Eu vim trazer espada

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” ( Mt 10:34 )

Durante o discurso de preparação dos doze, Jesus anunciou que não veio trazer paz ao mundo, mas espada ( Mt 10:34 ). Como é possível o ‘príncipe da paz’ trazer espada?

Há muito o profeta Jeremias havia predito que não era para ninguém dentre os filhos de Israel confiar em seus entes queridos nas questões concernentes as coisas de Deus, pois ninguém em Israel falava a verdade ( Jr 9:3 -8; Sl 58:3 ), e há muito haviam deixado de ouvir a voz de Deus ( Jr 9:13 -14).

Os filhos de Israel se gloriavam em seus príncipes, gloriavam na força que a lei e Abraão representavam, de modo que se consideravam salvos, ou seja, abastados, ricos perante Deus ( Jr 9:23 ), e quando o Cristo veio trazendo salvação a todos os povos, ou seja, fazendo misericórdia, juízo e justiça na terra ( Jr 9:24 ), era inevitável a dissensão que haveria entre os filhos de Israel “Tornou, pois, a haver divisão entre os judeus por causa destas palavras. E muitos deles diziam: Tem demônio, e está fora de si; por que o ouvis? Diziam outros: Estas palavras não são de endemoninhado. Pode, porventura, um demônio abrir os olhos aos cegos?” ( Jo 10:19 -21).

O profeta Miquéias quando profetizou acerca da vinda de Cristo disse: – “Veio do dia dos seus vigias”, ou seja, o dia daqueles que esperavam a visitação de Deus! Mas, o dia da visitação do Messias, também é descrito como dia de confusão!

Na visitação seria semeada a desconfiança ( Mq 7:5 ), e a confusão seria enorme, pois o filho despreza o pai, a filha é contra a mãe e a nora e a sogra não entram em acordo, pois: “Os inimigos do homem são os da sua própria casa”.

Quando diz que veio trazer espada, significa que Ele é o valente que luta pela causa da verdade, da mansidão e da justiça ( Sl 45:3 -4). A espada que empunha é a sua doutrina “E fez a minha boca como uma espada aguda, com a sombra da sua mão me cobriu; e me pôs como uma flecha limpa, e me escondeu na sua aljava” ( Is 49:2 ), que traria confusão entre os filhos de Israel.

O texto de Miquéias é claro: O Messias não haveria de trazer paz, mas confusão e dissensão ( Mq 7:5 -6).

Como crer em atalaias e pastores nesta condição funesta: “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono. E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte” ( Is 56:10 -11).

Ora, o Cristo inteirado de que os líderes do seu povo eram atalaias que nada viam e que eram gananciosos, prevê que eles perseguiriam os seus próprios irmãos de sangue caso se convertessem ao Senhor: “E o irmão entregará à morte o irmão, e o pai o filho; e os filhos se levantarão contra os pais, e os matarão. E odiados de todos sereis por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” ( Mt 10:21 -22).

A perseguição aos profetas sempre foi uma constante em Israel “E ele disse: Eu tenho sido em extremo zeloso pelo SENHOR Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada, e só eu fiquei; e buscam a minha vida para ma tirarem” ( 1Re 19:14 ).

Ao dizer: – “Não vim trazer paz, mas espada”, Cristo estava anunciando que a profecia de Miqueias estava se cumprindo: “Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca. Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” ( Mq 7:5 -6).

 

Salvo em Cristo e discípulo

Por não compreender o significado da cruz de Cristo, muitos elegem para si uma cruz a ser levada. Muitos cristãos estabelecem que os problemas diários sejam a cruz.

Se o marido é um homem difícil de lidar, a mulher considera que aquela é a sua cruz. Se os filhos são desobedientes, assumem a condição de cruz. Se a mulher é rixosa, a cruz do homem é a mulher, etc.

As vicissitudes da vida não é a cruz que Cristo convocou os homens a carregarem. É imprescindível o cristão entender que a prosperidade e a adversidade foram estabelecidas por Deus, para que o homem não saiba o que há de ser do dia de amanhã, e que tudo ocorre igualmente ao justo e ao injusto “No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” ( Ec 7:14 ); “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento” ( Ec 9:2 ).

O que ocorre igualmente ao justo e ao injusto? O estabelecido na lei da semeadura: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” ( Gl 6:7 ); “Mas quem fizer agravo receberá o agravo que fizer; pois não há acepção de pessoas” ( Cl 3:25 ).

A cruz que Cristo mandou carregar refere-se à mensagem do evangelho. Não diz dos problemas e conflitos diários “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 ).

Quando o homem ouve a mensagem de que o Verbo eterno despiu-se da sua glória, se fez carne, revelou o Pai aos homens, foi crucificado, morto, sepultado e ressurgiu ao terceiro dia e está assentado à destra da majestade nas alturas e crê, é salvo.

Embora esta mensagem que anuncia que Cristo morreu pela humanidade seja o poder de Deus para salvação dos que creem, para muitos esta mensagem é loucura e escândalo “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:23 ).

Quando o homem crê, renuncia-se a si mesmo e é crucificado e morto com Cristo “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” ( Rm 6:6 ); “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ); “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Quando o crente passa a anunciar o evangelho de Cristo que é segundo as Escrituras será perseguido. A exemplo do apóstolo Paulo que pregava evangelho e era perseguido, mas se pregasse a circuncisão, não haveria perseguição, pois não estaria anunciando o escândalo da cruz “Eu, porém, irmãos, se prego ainda a circuncisão, por que sou, pois, perseguido? Logo o escândalo da cruz está aniquilado” ( Gl 5:11 ).

Havia aqueles que se diziam cristãos e ainda não haviam ‘odiado’ pai e mãe. Queriam participar do convívio dos cristãos e permanecerem sendo louvados na comunidade judaica por anunciarem a circuncisão. Estes não queriam levar a cruz de Cristo, ou seja, não queriam ser perseguidos por causa da mensagem do evangelho “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses os obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

Enquanto muitos se gloriavam por serem descendente da carne e do sangue de Abraão, da circuncisão, dos sábados, etc., o apóstolo Paulo gloriava-se na mensagem do evangelho. Considerou todas as coisas pertinentes ao judaísmo como escória para ganhar a Cristo “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ; Fl 3:8 ).

É dada a missão, aos que creem, de evangelizar, e quem evangeliza deve ter o cuidado de não apresentar um conhecimento próprio, desprezando a mensagem da cruz “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã” ( 1Co 1:17 ); “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” ( 1Co 2:2 ).

O apóstolo Pedro enfatizou que não anunciou a virtude daquele que nos tirou das trevas para a sua maravilhosa luz através de fábulas artificialmente compostas, antes anunciaram o que realmente viram “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” ( 2Pd 1:16 ).

Mas, nos que não vimos pessoalmente a majestade de Cristo, devemos pautar a nossa pregação na mensagem dos profetas e no que foi anunciado pelos santos apóstolos ( 2Pd 1:19 ).

Quando nos deparamos com estórias como a da cruz serrada, de que certo moço foi convidado para fazer uma jornada até o paraíso, encontramos diversas incongruências com a mensagem do evangelho, pois Cristo não convida ao paraíso, antes convida a Ele “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ).

Por que é necessário ao homem ‘vir’ a Cristo? Porque Ele é o caminho, a verdade e a vida que conduz o homem a Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ).

Como Cristo é o caminho que conduz o homem a Deus, certo é que n’Ele não há um abismo que seja necessário o homem transpor, ou que seja necessária uma cruz para transpor um obstáculo entre os homens e o paraíso.

A estória da cruz serrada diz que as pessoas faziam muito esforço para conduzir as suas cruzes e que tal cruz é chave que abre as portas do maravilhoso reino prometido. O evangelista João, por sua vez, orienta dizendo que os mandamentos de Deus não são pesados “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ).

Enquanto a mensagem da cruz é revelação de Deus por intermédio de Cristo, o mediador, a estória da cruz serrada reflete a elucubração do coração do homem, pois entender que o sofrimento desta vida concede a vida eterna é negar a eficácia da cruz de Cristo.

Não vemos na Bíblia Jesus carregado todos os dias uma cruz até ser crucificado. Nem mesmo a cruz de madeira na qual foi crucificado foi carregada por Cristo até o Calvário “E, quando saíam, encontraram um homem cireneu, chamado Simão, a quem constrangeram a levar a sua cruz” ( Mt 27:32 ).

A cruz que Cristo foi crucificado não era feita de pecados, pois quem carregou a cruz foi o cirineu, de nome Simão. O pecado da humanidade foi levado por Cristo em seu corpo, e não na cruz de madeira confeccionada pelos Romanos.

Somos informados pela Bíblia que Cristo levou sobre si as nossas enfermidades e dores, ou seja, o pecado de muitos “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido (…) Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores” ( Is 53:4 e 12); “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” ( 1Pd 2:24 ).

A cruz de madeira na qual Jesus foi morto representa a ignominia de ter sido contado entre os transgressores, apesar de nunca haver engano em sua boca “Quando também em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, o seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o SENHOR teu Deus te dá em herança” ( Dt 21:22 -23); “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” ( 1Pd 2:22 ).

A essência da ordem de Cristo para tomar a cruz refere-se às perseguições daqueles que querem viver segundo o evangelho de Cristo, o que demonstra que a cruz é dada para quem já passou da morte para a vida, ao contrário da estória cruz serrada que apresenta uma cruz para conduzir à vida “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” ( 2Tm 3:12 ).

O apóstolo Paulo ao escrever aos Tessalonicenses faz esta abordagem demonstrando que da mesma forma que mataram a Cristo e os profetas, os judaizantes perseguiam os que creram em Cristo “Os quais também mataram o SENHOR Jesus e os seus próprios profetas, e nos têm perseguido; e não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens” ( 1Ts 2:15 ).

O apóstolo se gloriava por causa da perseverança (paciência) dos cristãos no evangelho (fé) e por tudo que suportavam “De maneira que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa paciência e fé, e em todas as vossas perseguições e aflições que suportais” ( 2Ts 1:4 ), pois esta foi a abordagem de Cristo ao ordenar que cada um tome a sua cruz e siga-O “Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” ( Mt 10:25 ).




O que é Justificação?

A justificação não é forense e nem um ato judicial de Deus, pelo qual Ele perdoa, isenta ou trata o homem, que não é justo, como se justo fosse. Ora, se Deus tratasse um injusto como se justo fosse, na verdade estaria cometendo injustiça. Caso Deus declarasse um pecador como sendo justo, teríamos uma declaração fictícia, imaginária, pois Deus estaria declarando algo inverídico acerca do homem.


O que é Justificação?

“Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 )

Definições teológicas

É comum à teologia tratar da doutrina da justificação como uma questão de ordem forense, daí as expressões ‘ato judicial de Deus’, ‘ato de reconhecimento divino’, ‘anunciar a justiça’, etc., nas definições acerca do tema justificação.

Para Scofield, embora justificado, o crente ainda é pecador. Deus reconhece e trata o crente como sendo justo, porém, isto não significa que Deus torne alguém justo.

“O pecador crente é justificado, isto é, tratado como justo (…) A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa…” Bíblia de Scofield com Referências, Rm 3:28.

Para Charles C. Ryrie justificar significa:

“declarar que alguém é justo. Ambas as palavras em hebraico (sadaq) e em grego (dikaioõ) significam ‘anunciar’ ou ‘pronunciar’ um veredicto favorável, declarar alguém justo. Esse conceito não implica fazer que alguém seja justo, mas sim apenas anunciar a justiça”  Ryrie, Charles Caldwel, Teologia Básica – Ao alcance de todos, traduzido por Jarbas Aragão – São Paulo: Mundo cristão, 2004, pág. 345.

George Eldon Ladd entende a justificação a partir do termo grego dikaioõ, como sendo:

“‘declarar justo’, não transformar em justo’. Como veremos, a ideia principal, em justificação, é a declaração de Deus, o juiz justo, de que o homem que crê em Cristo, embora possa ser pecador, é justo – é visto como sendo justo, porque, em Cristo, ele chegou a um relacionamento justo com Deus”  Ladd, George Eldon, Teologia do Novo Testamento, tradução de Darci Dusilek e Jussara M. Pinto, 1. Ed – São Paulo: Exodus, 97, pág. 409.

A justificação não é forense e nem um ato judicial de Deus pelo qual Ele perdoa, isenta e trata o homem que não é justo como se justo fosse. Ora, se Deus tratasse um injusto como se justo fosse, na verdade estaria cometendo injustiça. Caso Deus declarasse um pecador como sendo justo, teríamos uma declaração fictícia, imaginária, pois Deus estaria declarando algo inverídico acerca do homem.

A essência da doutrina da justificação está no fato de que Deus cria um novo homem em verdadeira justiça e santidade e o declara justo porque efetivamente esse novo homem é justo. Deus não trabalha com uma justiça fictícia, imaginária, a ponto de tratar como justo aquele que de fato não é justo.

Para os teólogos da reforma a justificação é um ato judicial de Deus sem qualquer mudança em sua vida, ou seja, Deus não muda a condição do homem. Aí está o engano, pois Deus só justifica aqueles que nascem de novo ( Jo 3:3 ). Ora, se o homem é de novo gerado segundo Deus, isto significa que Deus mudou a condição do homem ( 1Pe 1:3 e 23).

A condição do crente é completamente distinta de quando não cria em Cristo. Antes de crer o homem esta sujeito à potestade das trevas e, após crer é transportado para o reino do Filho do seu amor “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ). Quando na potestade das trevas o homem estava vivo para o pecado, portanto, jamais será declarado justo, mas os mortos para o pecado estão justificados do pecado.

Ora, os ordenamentos jurídicos que encontramos nos tribunais tratam de questões e relações que possuem materialidade entre vivos, já a doutrina da justificação não envolve princípios forenses, pois só quem está morto para o pecado está justificado do pecado!

A Bíblia demonstra que tanto judeus quanto gentios são salvos pela graça de Deus revelada em Cristo Jesus. Ser salvo pela graça de Deus é o mesmo que ser salvo mediante a fé, pois Jesus é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). Jesus é o firme fundamento pelo qual o homem tem plena confiança em Deus e é justificado ( Hb 11:1 ; 2 Co 3:4 ; Cl 1:22 ).

Daniel B. Pecota afirmou que:

“A fé nunca é o fundamento da justificação. O Novo Testamento jamais afirma que a justificação é dia pistin (“em troca da fé”), mas sempre dia pisteos, (“mediante a fé”)”.

Ora, se entendermos que Cristo é a fé que havia de se manifestar, segue-se que Cristo (fé) foi, é e sempre será o fundamento da justificação. A confusão entre ‘dia pistin’ (confiança na verdade) e ‘dia pisteos’ (a própria verdade) se dá por má leitura das passagens bíblicas, visto que Cristo é o firme fundamento pelo qual os homens que creem tornam-se agradáveis a Deus, pois a justificação é mediante Cristo (dia pisteos).

O maior problema quanto à doutrina da justificação dos reformadores está em tentar dissociar a doutrina da justificação da doutrina da regeneração. Sem regeneração não há justificação e não há justificação à parte da regeneração. Quando o homem é gerado segundo a carne e o sangue tem-se o veredicto de Deus: culpado, pois esta é a condição do homem gerado segundo a carne ( Jo 1:12 ). Mas, quando o homem é gerado de novo (regenerado), o veredicto que Deus dá é: justificado, pois a pessoa efetivamente é justa.

Condenação em Adão

O primeiro passo para compreender a doutrina da justificação é entender que todos os homens pecaram e destituídos foram da glória de Deus ( Rm 3:23 ). Isto quer dizer que, por causa da ofensa de Adão, todos os homens juntamente, quando na ‘coxa’ de Adão, se fizeram imundos e mortos para Deus ( Sl 53:3 ; Sl 14:3 ). Após a ofensa de Adão todos os seus descendentes passaram a viver para o pecado e estavam mortos (alienados, separados) para Deus.

Ao falar desta condição herdada de Adão, o apóstolo Paulo disse que todos os homens (judeus e gentios) eram por natureza filhos da ira ( Ef 2:3 ). Por que filhos da ira? Porque eram filhos da desobediência de Adão “Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” ( Ef 5:6 ).

Por causa da ofensa de Adão o pecado entrou no mundo, e em função da desobediência dele todos os homens são pecadores “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ). Todos os homens nascidos segundo a carne são pecadores porque a condenação de Adão (morte) passou a todos os seus descendentes.

Muitos desconhecem que os homens são pecadores por causa da condenação herdada de Adão, e consideram que os homens são pecadores por causa de questões comportamentais oriundas do conhecimento do bem e do mal.

É necessário divisar bem a ofensa de Adão do conhecimento adquirido do fruto do conhecimento do bem e do mal. Enquanto o conhecimento do bem e do mal não foi o que separou o homem de Deus (pecado), pois Deus é conhecedor do bem e do mal ( Gn 3:22 ), a desobediência trouxe o pecado (divisão, separação, alienação) por causa da lei que disse: certamente morrerás ( Gn 2:17 ).

O pecado mostrou-se excessivamente maligno porque através da lei santa, justa e boa o pecado dominou e matou o homem ( Rm 7:13 ). Sem a penalidade da lei: ‘certamente morrerás’, o pecado não teria poder de dominar o homem, mas através do poder da lei (certamente morrerás) o pecado achou ocasião e matou o homem ( Rm 7:11 ). A lei dada no Éden era santa, justa e boa porque alertava o homem acerca das consequências da desobediência (dela não comerás, pois no dia que dela comeres, certamente morrerás).

Por causa da ofensa os homens são formados em iniquidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 ). Desde a madre (desde a origem) os homens desviam-se de Deus ( Sl 58:3 ), o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais reto a uma cerca feita de espinhos ( Mq 7:4 ). É por causa da ofensa de Adão que se ouviu o veredicto: culpados! ( Rm 3:23 )

Dai a pergunta de Jó: “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” ( Jó 14:4 ). Mas, aquilo que é impossível aos homens é possível a Deus, pois Ele tem o poder de fazer tudo novo:  “Jesus, porém, olhando para eles, disse: Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” ( Mc 10:27 ).

A justificação é a resposta de Deus a mais importante de todas as questões humanas: Como uma pessoa pode se tornar aceitável diante de Deus? A resposta está clara no Novo Testamento, especialmente na seguinte ordem de Jesus Cristo: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 ). É necessário nascer da água e do Espírito, pois o que é nascido da carne é carnal, mas os nascidos do Espírito, são espirituais ( Rm 8:1 ).

O problema da separação entre Deus e os homens (pecado) decorre do nascimento natural ( 1Co 15:22 ), e não do comportamento dos homens. O pecado está relacionado com a natureza decaída do homem, e não com o seu comportamento em sociedade.

A solução para a condenação que o homem alcança na justificação em Cristo é proveniente do poder de Deus, e não em um ato judicial. Primeiro, porque bastou o homem desobedecer ao Criador para que fosse estabelecido o juízo de condenação: a morte (separação) de todos os homens ( Rm 5:18 ). Segundo, porque quando Jesus convoca os homens a tomar a sua própria cruz, deixa claro que para haver conciliação entre Deus e os homens é necessário sofrer a pena imposta: morte. Na morte com Cristo a justiça é satisfeita, pois a pena não passa da pessoa do transgressor ( Mt 10:38 ; 1Co 15:36 ; 2Co 4:14 ).

Quando foi posto um homem paraplégico na frente de Jesus, Ele disse: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico), A ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa” ( Mc 2:10 -11). Esta fala de Jesus demonstra que a passagem clássica de Romanos 3, versos 21 à 25 sobre a justificação não envolve conceitos forenses.

Perdoar pecados não é demanda jurídica, é questão de poder! Só perdoa pecados aquele que tem poder sobre o barro para de uma mesma massa fazer vasos para honra ( Rm 9:21 ). É por isso que o apóstolo Paulo não se envergonhava do evangelho, pois o evangelho é o poder de Deus para salvação de todo que crê ( Rm 1:16 ).

Ao falar desta questão com Jó, Deus deixa claro que, para que o homem possa declarar a si mesmo justo, seria necessário ter braços como o de Deus e trovejar como o Altíssimo. Seria necessário enfeitar-se de glória e de esplendor e vestir-se de honra e majestade. Deveria ser capaz de derramar a sua ira esmagando o ímpio em seu lugar. Somente suprindo todos os requisito enumerados anteriormente seria possível ao homem salvar-se a si mesmo ( Jó 40:8 -14).

Mas, como o homem não tem esse poder descrito por Deus, jamais poderá declarar-se justo ou salvar a si mesmo. Já o Filho do homem, Jesus Cristo, Ele pode declarar o homem justo, porque Ele mesmo revestiu-se de glória e majestade ao tornar à glória junto ao Pai “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” ( Jo 17:5 ); “Cinge a tua espada à coxa, ó valente, com a tua glória e a tua majestade” ( Sl 45:3 ).

Justo juiz

O segundo passo para compreender a doutrina da justificação é entender que não há como Deus declarar livre de culpa aqueles que estão condenados. Deus justo não pode deixar que a pena imposta aos transgressores não lhes seja aplicada.

Deus jamais declara (justifica) justo aquele que é ímpio “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio ( Êx 23:7 ).  Deus jamais trata o ímpio como se justo fosse “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25). Deus jamais fará com que a pena imposta ao transgressor seja dada a outrem, como se lê: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” ( Ez 18:20 ).

Quando Jesus disse a Nicodemos que é necessário ao homem nascer de novo, todas as questões acima foram consideradas, pois Jesus bem sabia que Deus jamais declara os nascidos segundo a carne de Adão livres de culpa.

Quando do nascimento natural o homem foi feito pecador, um vaso para desora, portanto, filho da ira e da desobediência. Para declarar o homem livre de pecado, primeiro é necessário que ele morra, pois se não morrer jamais poderá viver para Deus “Porque aquele que está morto está justificado
do pecado” ( Rm 6:7 );
 “Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer” ( 1Co 15:36 ).

Cristo morreu pelos pecadores – o justo pelos injustos – mas qualquer que não comer a carne e beber o sangue de Cristo não terá vida em si mesmo, ou seja, é imprescindível ao homem ser participante da morte de Cristo “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito” ( 1Pe 3:18 ); “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos” ( Jo 6:53 ).

Comer a carne e beber o sangue de Cristo é o mesmo que crer n’Ele ( Jo 6:35 e 47 ). Crer em Cristo é o mesmo que ser crucificado com Ele. Qualquer que crê é sepultado com Ele e deixa de viver para o pecado e passa a viver para Deus “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ; Rm 6:4 ).

O homem que crê em Cristo admite que é réu de morte por causa da ofensa de Adão. Implicitamente admite que Deus é justo quando fala e é puro quando julga os descendentes de Adão como culpados ( Sl 51:4 ). Admite que somente Cristo tem o poder de criar um novo homem pela ressurreição dentre os mortos, de modo que aquele que é sepultado com Ele ressurge uma nova criatura.

Novo homem em Cristo

O último passo para compreender a justificação é entender que do novo nascimento surge uma nova criatura criada em verdadeira justiça e santidade “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ; Ef 4:24 ). Esta nova criatura é declarada justa porque efetivamente Deus a criou de novo justa e irrepreensível diante d’Ele.

O homem que crê em Cristo é criado de novo participante da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), pois o velho homem foi crucificado e o corpo que pertencia ao pecado desfeito. Após ter sido sepultado com Cristo na semelhança da sua morte, o homem ressurge uma nova criatura “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” ( Rm 6:6 ).

Através do evangelho, Deus não somente declara o homem justo, como também cria o novo homem essencialmente justo. Diferente do que o Dr. Scofield afirma, que Deus somente declara o pecador como sendo justo, mas não o torna justo.

A Bíblia afirma que Deus cria o novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ), portanto, a Justificação é proveniente de um ato criativo de Deus, mediante o qual o novo homem é criado participante da natureza divina. A justificação bíblica refere-se à condição daqueles que são gerados de novo mediante a verdade do evangelho (fé): livres de culpa ou de condenação.

Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo. Porque não há nenhuma condenação?  A resposta está no fato de o homem ‘estar em Cristo’, pois os que estão em Cristo são novas criaturas “PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” ( Rm 8:1 ); “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

A justificação decorre da nova condição daqueles que estão em Cristo, pois estar em Cristo é ser uma nova criatura “E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita” ( Rm 8:10 -11).

Dai a pergunta do apóstolo Paulo: “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl  2:17 ). Ora, Cristo é ministro da justiça, e de nenhum modo ministro do pecado, portanto, aquele que é justificado por Cristo não é achado pecador, pois está morto para o pecado “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ).

Quando o apóstolo Paulo afirma: é Deus quem os justifica! “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica” ( Rm 8:33 ), ele tinha plena certeza de que não era uma questão forense, pois num tribunal só declara o que é, visto que não possuem poder para mudarem a condição daqueles que comparecem perante os juízes.

Quando é dito que ‘é Deus quem justifica’, o apóstolo Paulo aponta o poder de Deus que cria um novo homem. Deus declara o homem justo porque não há condenação para aqueles que são novas criaturas. Deus não transferiu a condição do velho homem para Cristo, antes o velho homem foi crucificado e desfeito, de modo que, dentre os mortos ressurgiram novas criaturas que estão assentadas com Cristo para a glória de Deus Pai, e sobre elas não pesa condenação alguma.

Os cristãos são declarados justos porque foram transformados em justos (dikaioõ) pelo poder que há no evangelho, pelo qual o homem é participante do corpo de Cristo, pois morreu e ressurgiu juntamente com Cristo na condição de santo, irrepreensível e inculpável “No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” ( Cl 1:22 ; Ef 2:6 ; Cl 3:1 ).

Quando Paulo afirma: “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ), significa que o cristão está justificado do pecado, ou seja, morto para o pecado ( Rm 6:1 -11), e vivo para Deus “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” ( Rm 6:4 ).

Jesus foi entregue por Deus para morrer por causa do pecado da humanidade, pois é necessário aos homens morrerem para o pecado para que possam viver para Deus. É por isso que Cristo Jesus ressurgiu, para que os que ressurgem com Ele sejam declarados justos. Sem morrer não há ressurreição, sem ressurreição não há justificação “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ).




Gálatas 3 – Os filhos de Abraão

É Deus quem concede do Seu Espírito e faz maravilhas. É certo que na lei o homem somente encontra obrigações, mas, através da pregação, ou do que é anunciado acerca do evangelho (fé), a ação fica a cargo de Deus, que é poderoso para fazer abundar no homem a sua graça “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra” ( 2Co 9:8 ). Perceba que na lei o homem encontra uma determinação: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir, por eles viverá” ( Lv 18:5 ).


A Inconstância dos Gálatas

1 Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?

O outro evangelho apresentado aos Gálatas é classificado pelo apóstolo Paulo como sendo obra de um fascínio. A insensatez de alguns cristãos os deixou subjugados. Eles foram alvos de um ‘encantamento’, subjugados pelos olhos, visto que, apoiaram-se na ‘boa aparência’ daqueles que transtornavam o evangelho de Cristo ( Gl 5:12 ).

A inconstância dos Gálatas era proveniente de uma insensatez.

Paulo estava perplexo, e quis saber quem havia fascinado os cristãos a desviarem da verdade do evangelho, principalmente porque Cristo foi apresentado a eles como crucificado: o poder de Deus ( 1Co 1:18 ).

Cristo crucificado é motivo suficiente para que ninguém se estribe na ‘aparência’ de outrem. O poder de Deus encontra-se no Cristo crucificado, onde o crente deve fixar a atenção. Esta deve ser a fixação do cristão, e não a aparência, que perante Deus nada é ( Jo 12:32 ). Por isso, o apóstolo Paulo chamou-os de insensatos.

 

2 Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?

Paulo questiona: De que maneira eles haviam recebido o Espírito de Deus? Seria por acaso por meio da lei? Ou seria por meio da fé? Paulo anseia por uma resposta de seus leitores.

A resposta à pergunta de Paulo seria suficiente para elucidar o quanto os Gálatas estavam equivocados (Só quisera saber isso).

 

3 Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?

Paulo demonstra que, por causa da insensatez, os gálatas haviam regredido. Estavam perdendo aquilo que já haviam alcançado: começaram pelo Espírito e acabariam na carne.

Eles haviam sido agraciados com uma nova vida por meio do Espírito de Deus, e agora, estavam submetendo-se à escravidão da carne.

Observe que é factível o cristãos desviar-se da palavra da verdade quando dá ouvidos a palavra de engano ( Hb 2:1 )

 

4 Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão.

O apóstolo Paulo procura envolve-los sentimentalmente. Ele traz a lembrança dos cristãos o quanto haviam sofrido por causa do evangelho.

O sofrimento também foi em vão?

 

5 Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, fá-lo pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?

Aquele que concede o Espírito é Deus. Tal dádiva é concedida por meio da verdade do evangelho (fé), e não da lei.

É Deus quem concede do Seu Espírito e faz maravilhas. É certo que na lei o homem somente encontra obrigações, mas, através da pregação, ou do que é anunciado acerca do evangelho (fé), a ação fica a cargo de Deus, que é poderoso para fazer abundar no homem a sua graça “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra” ( 2Co 9:8 ).

Perceba que na lei o homem encontra uma determinação: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir, por eles viverá” ( Lv 18:5 ).

Na pregação da fé o homem depara-se com a promessa daquele que é fiel e poderoso em realizar. Enquanto o homem não consegue viver a altura da lei, através da oferta da graça, consegue abundar em toda a boa obra.

 

6 Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.

Paulo evoca a autoridade da Escritura. Se não davam ouvido ao apóstolo dos gentios, que pelo menos considerassem a Escritura.

Abraão foi justificado por meio da fé porque creu na promessa d’Aquele que é poderoso para cumprir.

 

7 Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.

Os leitores das cartas de Paulo citavam a Escritura de cor (A. T.), mas precisavam saber que, somente os que creem são feitos filhos de Deus.

Somente os que creem conforme o Pai Abraão é que recebem a filiação divina, ou seja, são contados como filhos de Abraão ( Jo 1:12 ).

Não podemos esquecer que, ser filho de Abraão, para os seguidores da lei, era o mesmo que ser filho de Deus ( Jo 8:39 -41).

João Batista ao verificar que os escribas e fariseus, que vinham ao batismo, continuavam se arrogando na condição de filho de Deus pelo fato de serem descendentes de Abraão, alertou: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por Pai a Abraão; porque eu digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Sobre este aspecto Jesus declarou que os fariseus eram filhos do diabo, visto que presumiam ser filhos de Deus em decorrência de serem descendente de Abraão (para eles a filiação decorre do sangue) ( Jo 8:44 ).

Eles eram descendentes de Abraão ( Jo 8:37 ), mas não eram filhos de Deus, visto que, ainda continuavam vendidos como escravos ao pecado por serem descendentes de Adão ( Jo 8:34 ). Sendo escravos do pecado, em decorrência da filiação em Adão, os fariseus eram de fato, filhos do diabo, e não de Deus ( Jo 8:44 ).

 

A Primeira Pregação da Fé

8 Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.

Paulo refere-se ao Antigo Testamento como sendo a Escritura.

Neste versículo ele faz referência ao livro de Gênesis, quando Deus diz: “…e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ). A promessa de Deus registrada no livro do Gênesis é uma profecia acerca da justificação pela fé que seria concedida aos gentios, e que agora, através da igreja estava se cumprindo.

Quem haveria de bendizer as ‘nações’ em Abraão? Deus prometeu que, através de Abraão, haveria de dar ‘bom’ testemunho aos homens provenientes de vários povos. Homens de todos os povos haveriam de ser declarados justos por Deus do mesmo modo que Abraão.

Por meio da fé, as famílias da terra haveriam de ser benditas do mesmo modo que os antigos alcançaram bom testemunho ( Hb 11:2 ).

O evangelho é:

a) Promessa de Deus;

b) Independe da circuncisão na carne;

c) Alcançada a promessa pela fé;

d) Todos morrem (despojar do corpo da carne) na fé, e passam a viver para Deus;

e) Decorre do poder e da fidelidade de Deus;

f) Abraão julgou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, trazer o seu descendente a vida.

O evangelho é promessa de Deus a todos que creem, sem distinção alguma de origem e condições sociais. Por meio da fé todos morrem com Cristo e ressurgem com base no poder e na fidelidade de Deus. O poder de Deus fez Cristo ressurgir dentre os mortos, e este mesmo poder opera nos cristãos ( Ef 2:19 -20).

Todas as nações são benditas em Abraão por causa do descendente, que é Cristo ( Gn 3:15 ), pois através de Cristo alcançam bom testemunho de que são agradáveis a Deus.

Se os judaizantes entendessem a ‘linguagem’ de Jesus e cressem somente no descendente, ai sim, seriam de fato livres e filhos de Abraão (filhos de Deus) ( Jo 8:43 ).

 

9 De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão.

Deus não faz acepção de pessoas: se Abraão foi justificado por meio da fé em Deus, todos aqueles que crerem na promessa divina, estarão debaixo da mesma bem-aventurança: serão benditos conforme o pai Abraão, ou seja, são igualmente justificados.

Ora, a justificação de Abraão foi posicional ou objetiva? Deus tratou Abraão como justo, mas não tornou Abraão justo? Como é possível? Observe a seguinte declaração de Scofield: “A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa (…) Ele declara justamente e trata como justo…” Bíblia Scofield de referências, Romanos 3:28, pág 1147.

Entendemos pelas Escrituras que Abraão foi efetivamente justificado por Deus, pois a palavra traduzida por ‘justificar’ e ‘justificação’ significa ‘tornar justo’, ‘declarar justo’, ‘declarar reto’, ou ‘declarar livre de culpa e de merecimento de castigo’.

Alguns teólogos entendem que Deus ‘não torna’ o homem justo, porém, sabemos que todos quantos creem em Cristo são de novo criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Por meio da fé em Cristo o homem recebe de Deus poder para ser feito (criado) filho de Deus ( Jo 1:12 ).

 

10 Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las.

Aqueles que se diziam cristãos, mas que estavam querendo transtornar o evangelho de Cristo ao buscarem elementos da lei como meio de se alcançar a salvação, permaneciam sob maldição.

Estes não atinavam que a natureza da lei é diversa da natureza humana sem Deus: a lei é espiritual e o homem sem Deus carnal. Esqueciam que é impossível cumprir a lei, uma vez que o não cumprimento de um único quesito da lei torna o homem culpado de toda a lei.

Para ser justificado por meio da lei, o homem necessariamente deveria cumprir todas as coisas estipuladas na lei. Os judaizantes esqueciam que na lei não há promessas de bênçãos, antes, faz referência à maldição para quem não cumpri-la.

Como já demonstramos anteriormente, na lei é necessário ao homem realizar. Na fé (promessa) é Deus que se propõe realizar, recomendando ao homem descansar n’Ele.

 

11 E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé.

Por que o apóstolo Paulo alega que é evidente que ninguém pode ser justificado pela lei? Por que o apóstolo cita uma declaração do profeta Habacuque?

“O justo viverá da fé” ( Hb 2:4 )

O verso retirado do Livro de Habacuque demonstra que é impossível ao homem ser justo à parte da vida que se alcança por meio da promessa de Deus (fé). A condição de justo é proveniente da nova natureza em comunhão com Deus.

O justo vive por meio da fé, ou seja, a existência de um justo só é possível através da fé. O homem natural existe por intermédio do nascimento natural, e o justo vem a existência por intermédio da palavra de Deus, que é esperança proposta (fé).

Observe que a condição de justo é invariável, conforme se lê: “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” ( Pr 4:18 ). O que sofre transformação é a vereda do justo, e não a sua condição. O que se compara à luz da aurora é o caminho do justo, e não a sua justiça (condição).

Segue-se que, para ser justo necessariamente o homem precisa nascer de novo. Por quê? Porque todos que creem na palavra do evangelho recebem de Deus poder para ser de novo criado ( Jo 1:12 ).

Após o novo nascimento (regeneração) o novo homem que surge em Cristo é justo e declarado justo por Deus, ou seja, é justificado!

A justificação fala da declaração que o homem recebe de Deus. Tal declaração só é concedida após a regeneração, sendo que, só o novo homem criado em Cristo recebe tal declaração (bom testemunho) ( Hb 11:2 ).

A justiça de Deus se alcança pela esperança proposta (fé), visto que, para ser justo, há a necessidade do novo nascimento, e a partir do novo nascimento o justo passa a viver para Deus ( Hb 6:18 ).

 

12 Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá.

A lei impõe obrigações, a fé promessa. Esta é só esperar que se alcança de Deus o prometido, enquanto aquela depende do homem cumprir todas as determinações prescritas na lei. Se o homem fizer o que a lei diz, pela lei terá vida – o que é impossível, visto que a carne tornou a lei enferma ( Rm 8:3 ).

Se o homem crer em Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos, passará a ter vida, ou seja, viverá por confiar (fé) n’Aquele que prometeu (fé).

 

13 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;

Ao morrer na cruz (pendurado no madeiro) o Senhor Jesus Cristo tomou sobre si a maldição que pesava sobre a humanidade, e se fez maldição.

O resgate da humanidade da lei, do pecado e da morte se deu através da entrega de Cristo.

Aquele que foi e é sem pecado cumpriu as exigências da lei e ao assumir a condição de maldito, estabeleceu um novo e vivo caminho de acesso dos homens a Deus: adquirimos em Cristo a bem-aventurança prometida a Abraão.

Qual a exigência da lei? Assim como o juízo e a ofensa veio de um homem, somente por outro homem perfeito e obediente veio a vida e justificação ( Rm 5:16 ). Assim como Adão morreu e toda a humanidade morreu, segue-se que, quando Cristo morreu, todos que creem também morrem com Ele para que possam ressurgir dentre os mortos ( 2Co 5:14 ).

Cristo nos resgatou com um único objetivo:

 

14 Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito.

A entrega de Cristo foi necessária para que a bênção de Deus prometida a Abraão pudesse chegar aos gentios. Da mesma forma que Abraão recebeu a promessa (fé) e descansou na esperança proposta (fé) recebendo a justificação, pela fé (mensagem do evangelho) o cristãos recebem a promessa do Espírito, que Deus prometeu a Abraão acerca do descendente.

Argumentos Fraternos

 

15 Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta.

Paulo demonstra que, segundo as leis humanas, não há como anular ou acrescentar o que foi estabelecido em um testamento. Paulo deixa a argumentação bíblica e passa a argumentar segundo o conhecimento que lhes era próprio (como homem falo): a aliança, o trato, o testamento.

O apóstolo Paulo deixa bem claro que a argumentação que estava apresentando tinha por base questões humanas, e não as Escrituras.

A aliança que um homem confirmou não pode ser anulada ou acrescentada, que se dirá da aliança estabelecida por Deus?

 

16 Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.

O apóstolo procura evidenciar qual a leitura correta a se fazer da Escritura, ou seja, quando se lê que a promessa foi feita a Abraão e à sua descendência, isto não quer dizer que todos os seus descendentes seriam benditos em Abraão ( Rm 9:7 ).

Eles precisavam observar que a Escritura não fala da descendência de Abraão como sendo muitos, mas de um descendente, alguém em específico “A tua descendência tomará posse das cidades dos teus inimigos, e em tua descendência serão benditas todas as nações…” ( Gn 22:17 -18).

A promessa de Deus a Abraão refere-se ao descendente, que é Cristo.

Para que o homem possa ser participante das bênçãos de Abraão é necessário ter a mesma fé que teve Abraão, pois através da fé, os que creem, passam a ser participantes de Cristo, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

Como ter a mesma fé de Abraão? Ora, Abraão creu na palavra de Deus acerca do Descendente e isto lhe foi imputado por justiça. Qualquer que queira ter a mesma fé do crente Abraão deve crer na mensagem do evangelho, que é a mensagem do Descendente.

Qualquer que crê em Cristo possui a mesma fé do crente Abraão.

O cristão é descendente de Abraão segundo a promessa porque está em Cristo, ou seja, porque é nova criatura. Ao crer no evangelho, o homem recebe de Deus poder para ser feito, criado filho de Deus ( Jo 1:12 ), recebendo de Deus através de Cristo a natureza divina ( Cl 2:10 ; 2Pe 1:4 ).

 

17 Mas digo isto: Que tendo sido a aliança anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a invalida, de forma a abolir a promessa.

O apóstolo Paulo demonstra que a aliança de Deus com os homens foi confirmada por Deus em Cristo (ou seja, no Descendente). Nem mesmo a lei, que foi concedida por Deus ao povo, teve força para abolir ou invalidar a aliança estabelecida por Deus com Abraão.

Todo evento posterior a aliança não pode invalidá-la, ou seja, sendo a lei posterior a promessa, de maneira alguma ela poderia invalidá-la.

Por que a lei não pode invalidar a promessa? Porque a promessa de Deus é irrevogável. Não depende do homem para ser levada a efeito, antes tem por base o poder e a imutabilidade de Deus.

 

18 Porque, se a herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão.

O raciocínio é simples! A lei e a promessa são excludentes: se a herança provém da lei, automaticamente a outra é excluída.

Todos deviam saber que a herança foi dada a Abraão gratuitamente, sem qualquer vinculo com a lei, por causa da promessa. A bênção deriva da promessa, e não da pessoa de Abraão.

 

19 Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro.

Em ultima instância: qual a razão de ser da lei?

A lei foi estabelecida até que Cristo viesse ao mundo, por quem a herança é concedida. Ele é o herdeiro da promessa.

Porém, a lei foi estabelecida para:

a) evidenciar a natureza de Deus;

b) servir de ‘aio’ para conduzir os homens a Cristo;

c) tornar evidente a na natureza pecaminosa do homem;

d) faz o homem perceber que é impossível salvar-se a si mesmo.

Através da lei o homem se dá conta que é pecador e da sua impossibilidade de escapar da condenação estabelecida em Adão. Somente por intermédio da cruz de Cristo o pecador passa a ter acesso a Deus por um novo e vivo caminho, que é o corpo de Cristo.

Através do corpo de Cristo que foi sepultado o homem sepulta a carne proveniente de Adão, e através do corpo de Cristo, a igreja, o homem passa a estar em comunhão com Deus.

Houve um evento na história do povo de Israel, logo após terem sido resgatados do Egito, que esclarece o motivo da lei.

Deus determinou a Moisés que o povo fosse reunido para que Ele falasse diretamente com o povo ( Ex 19:9 ). Quando o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o barulho das buzinas, e o monte fumegando, temeram, e se afastaram. Pediram a Moisés que ouvisse a voz de Deus e que repassasse a eles ( Ex 20:19 -20).

O povo não confiou em Deus, antes temeram, pensando que seriam mortos. Moisés, por sua vez, seguiu e adentrou nas densas trevas, onde Deus estava. Mesmo após serem salvos do Egito, ainda não confiavam em Deus. Que Deus seria este, que após resgatá-los da escravidão, os mataria em seguida?

A lei foi concedida ao povo para que aprendessem mais sobre a natureza divina. Elem precisavam aprender a confiar, e não temer. O temor (palavra) do Senhor é o principio da sabedoria, mas ter medo, demonstra falta de confiança n’Aquele que é amor eterno ( Ex 21:1 ).

O povo não confiava em Deus que lhes resgatara do Egito. Eles solicitaram a Moisés que intermediasse a conversa entre eles e Deus, e, por isso, pereceram, visto que não confiaram em Deus.

Solicitaram a Moisés que falasse com eles, e proibiram que Deus lhes falasse, com medo da morte. Moises demonstra que Deus veio ao povo não para matá-los, mas para prová-los. Se eles ouvissem a voz de Deus, viveriam ( Ex 20:19 ; Is 55:2 ).

Com medo dos raios e trovões, o povo se afastou de Deus e se puseram ao longe, demonstrando que não confiavam na palavra de Deus que anteriormente foi anunciada: “Faço misericórdia…” ( Ex 20:6 ), e nem mesmo consideram que, se Deus os havia resgatado do Egito, era para preservá-los em vida, e não para matá-los ( Hb 12:18 -28).

A lei foi dada até que viesse o Descendente (Cristo), a quem foi feita a promessa. Ela foi promulgada por causa das transgressões do povo, e entregue a Moisés por intermédio das mãos do mensageiro de Deus ( At 7:38 ).

A lei não foi entregue por anjos, antes, Moisés a recebeu do Anjo do Senhor, que falava com ele no monte Sinai e com os pais de Israel.

Não foram os anjos que entregaram a lei a Moisés, e sim, o Anjo do Senhor, que é Cristo. Somente o Anjo do Senhor tem a semelhança divina “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ). Somente o Anjo do Senhor é onipresente, e acampa ao redor dos que o temem e o livra “O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra” ( Sl 34:7 ).

A função de entrega da lei a Moisés coube ao Anjo do Senhor, e não aos seus santos anjos, que são ministros de Deus e não possuem a onipresença. É o Anjo do Senhor que se acampa ao redor dos que o temem. Somente Ele deve ser temido, e não os anjos, que são ministros de Deus.

Moisés foi constituído como Mediador no processo de entrega da lei ao povo, visto que o povo não confiou em Deus para ouvi-Lo ( Ex 19:9 ).

 

20 Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um.

O medianeiro não foi estabelecido a favor de uma só pessoa, antes de muitos, no entanto Deus é um só, tanto na Antiga como na Nova aliança.

Com a vinda de Cristo, mudou-se o mediador ( Hb 12:24 ). Enquanto Moisés “…foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar” ( Hb 3:5 ), (o que se havia de anunciar é o evangelho de Cristo), ele entregou ao povo a lei (aio), que teve a função de conduzir o povo a Cristo, porém, o povo estava assombrado com a visão do monte Sinai ardente, com as tempestades, com as trevas e o ressoar das buzinas ( Hb 12:18 -21).

Cristo é mediador entre Deus e os homens, e dá acesso ao Pai. Por meio d’Ele os homens chegam-se a Deus e tem entrada na Jerusalém Celestial com os seus milhares de anjos. O homem passa a fazer parte da universal assembléia e igreja dos primogênitos que ressurgiram com Cristo dentre os mortos e estão inscritos nos céus ( Hb 12:22 -28).

 

21 Logo, a lei é contra as promessas de Deus? De nenhuma sorte; porque, se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei.

O apóstolo Paulo espera que os leitores da sua carta respondam que a lei não invalida a promessa de Deus, visto que, a lei veio depois da promessa. A promessa é firme em Deus, e não depende do homem. A lei, sendo posterior a promessa, apenas evidencia que o homem não possui a natureza divina. Tudo o que a lei determina depende do homem realizar.

Observe que o objetivo da promessa está intimamente ligado à justiça e à vivificação em Deus ( Is 57:15 ). A lei nada pode fazer pelo homem, visto que o homem é quem precisava guardá-la.

De Deus os cristãos têm a promessa de que, por meio da fé (evangelho) Ele vivifica e justifica, pois o justo viverá da fé. Primeiro o homem alcança a vida que Deus lhe concede, e, em seguida, é declarado justo. O que remete à doutrina da justificação.

 

A Escritura, a Lei e a Fé

22 Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes.

A escritura aqui se refere ao Antigo Testamento, visto que, quando o apóstolo Paulo escreveu esta carta, os evangelhos e as cartas dos apóstolos ainda não pertenciam a Escritura, como hoje se vê.

Observe que não foi a lei que encerrou a humanidade debaixo do pecado, e sim, a Escritura. A lei somente evidencia qual é a natureza do homem.

Onde está escrito que a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado? Através da palavra que diz: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ), ou seja, se as ‘famílias’ seriam benditas, segue-se que a condição delas era de maldição diante de Deus.

Quando a Escritura diz que na descendência de Abraão as nações haveriam de ser benditas, demonstra que, antes do Descendente, todos eram malditos por causa do pecado.

Há vários versículos no Antigo Testamento que demonstram que todos os homens estão debaixo do pecado, como o apóstolo Paulo demonstra aos cristãos em Roma ( Rm 3:11 -18).

A promessa acerca do descendente, feita a Abraão, é concedida àqueles que creem. Todos os homens estavam presos ao pecado, e por isso, malditos. Os que têm fé em Cristo livram-se da maldição, tornando-se benditos como o crente Abraão, pois a promessa diz: “…em tua descendência serão benditas todas as nações da terra…” ( Gn 22:18 ).

 

23 Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.

Antes que Cristo se manifestasse, os homens de Israel estavam guardados pelo curador, ou tutor, que é a lei. Mas, não deviam confiar no tutor (lei), como se ele pudesse dar a herança (justificar), antes, deveriam crer na palavra de Deus, como o crente Abraão, e esperar o tempo determinado pelo Pai, confiando em Deus que prometeu o Descendente.

A promessa seria cumprida na plenitude dos tempos com a vinda do Descendente, que é Cristo, e não em função da lei, que tinha por objetivo conduzi-los a Cristo.

Agora, na plenitude dos tempos, Cristo foi manifesto aos homens, a graça de Deus concedida por intermédio do evangelho, de modo que o homem não pode permanecer debaixo da lei, antes deve tomar posse do que foi proposto pelo evangelho que foi anunciado ao crente Abraão.

Observe a relação entre a ‘fé que havia de vir’ e a ‘fé que havia de se manifestar’. A ‘fé que se manifestou’ é Cristo, o Descendente, em quem Abraão creu, e a ‘fé que havia de vir’, diz da verdade do evangelho ( Gl 3:23 ).

 

24 De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados.

O apóstolo Paulo demonstra a utilidade da lei: levar, conduzir os homens a Jesus, aquele que tem poder para justificar o homem.

Pela fé o homem é justificado, e a função da lei deixou de existir. Não é mais necessário guia-se pelo ‘aio’, uma vez que já alcançou pela fé o Descendente.

Através da lei que diz: ‘certamente morrerás’ o homem conheceu o pecado, ou seja, ‘conhecer’ diz de estar intimamente ligado a, e o homem ao pecar passou a estar ligado (unido) ao pecado ( Rm 3:23 ). Através da lei de Moisés o homem conheceu (ciência) a sua condição diante de Deus, pois ela encerrou todos debaixo do pecado ( Gl 3:22 ).

 

25 Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio.

Após a chegada da fé (evangelho de Cristo), não há lugar para a lei, visto que a (evangelho) promove a promessa, que é anterior à lei.

Observe que o evangelho foi anunciado primeiramente a Abraão ( Gl 3:8 ), e ao vir Cristo, o autor e consumador da fé, a graça de Deus se manifestou a todos os homens. Cristo se manifestou a todas as nações para obediência do evangelho (fé) “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ).

O apóstolo Paulo passa a tratar da nova condição dos cristãos, ao dizer: “… já não estamos debaixo de aio”. Tanto o apóstolo Paulo quanto os cristãos da Galácia não precisavam da lei.

 

26 Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.

Este verso complementa o anterior: “Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio, porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo” (v. 25). O verso 26 apresenta o motivo pelo qual os cristãos não mais estavam debaixo da lei.

Os judaizantes acreditavam ter alcançado a filiação divina por serem descendentes de Abraão, e que a entrega da lei tornava eles diferentes diante de Deus, ou que Deus tinha eles em preferência, em detrimento dos gentios.

O apóstolo Paulo enfatiza que a lei não tinha razão de ser na vida dos cristãos, uma vez que todos eram filhos de Deus, por estarem unidos ao Descendente (Cristo) de Abraão. Em Cristo os cristãos são idôneos para participar da herança dos santos, e não necessita de curador: a lei ( Cl 1:12 ).

Mesmo após Abraão ser justificado por Deus por intermédio da fé, os seus filhos segundo a carne não eram provenientes de Deus. Eles continuaram a ser gerados segundo a carne, da vontade do varão e da vontade da carne ( Jo 1:13 ), e, portanto, os descendentes de Abraão não eram e não são filhos de Deus.

A promessa de se tornar filho de Deus somente tornou-se possível através do Descendente, que é Cristo. Somente Ele pode levar muitos filhos a Deus. Por meio da fé o homem alcança a filiação divina.

 

27 Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.

O apóstolo Paulo demonstra que o batismo em Cristo é o mesmo que se revestir d’Ele.

Todos os cristãos já haviam sido batizados na morte de Cristo, e o apóstolo dos gentios faz com que eles lembrassem o significado do batismo ( Rm 6:3 ).

Como os cristãos batizado? Porque creu em Cristo, o cristão conforma-se com Cristo na sua morte, ou seja, é sepultado com Cristo. Por se tornar participante da carne e do sangue, o cristão ressurge com Cristo, para a gloria de Deus Pai.

Primeiro é necessário ao homem ser sepultado com Cristo (o batismo em águas representa esta verdade), para depois se revestir d’Ele, ou seja, adquirir a plenitude n’Ele ao ressurgir dentre os mortos ( Cl 2:10 ; Jo 1:16 ).

Como se alcança a filiação? Por meio da morte e ressurreição com Cristo. O cristão morre e ressurge com Cristo para a glória de Deus Pai.

Se o cristão foi batizado, é porque morreu para aquilo que estava retido: a lei. Ao morrer, o cristão não está mais preso ao que o retinha: o pecado ( Rm 7:6 ).

A força do pecado é a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), e por isso o homem precisa morrer com Cristo, porque aquele que está morto está justificado do pecado ( Rm 6:7 ). O pecado é o aguilhão da morte e, ao morrer com Cristo, o homem adquire nova vida, livrando se da condição do velho homem “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Ao se revestir de Cristo, o cristão não mais pertence ao pecado, agora pertence ao Senhor!

 

28 Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Quando se reveste de Cristo, o homem passa a fazer parte do corpo de Cristo, que é a igreja. Há um só corpo e um só Espírito ( Ef 4:4 ).

As distinções criadas na lei não se estabelecem diante da promessa, que é anterior a lei. Segue-se que, em Cristo, não há qualquer distinção entre macho e fêmea; escravo ou livre, judeu ou gentil, etc. Isto porque todos os cristãos são um corpo em Cristo.

Os Cristãos são:

  • Templo e morada do Espírito;
  • Um corpo;
  • Um só pão;
  • Filhos de Deus;
  • Herdeiros da Promessa;
  • Idôneos a participar da herança;
  • Luz;
  • Sacerdócio Real;
  • Pedras vivas;
  • Etc.

 

29 E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.

Enquanto os judeus pensavam ter alcançado a filiação divina por meio da carne e do sangue, por serem descendentes de Abraão, os cristãos alcançaram a filiação divina por meio da união com Cristo ( Rm 9:8 ; Gl 3:26 ).

Conforme a promessa, os cristãos são herdeiros de Deus. Por serem propriedade do Descendente, os cristãos passaram a ser filhos de Abraão (filhos de Deus), e conforme a promessa, herdeiros. O cristão é herança e possui uma herança ( Ef 1:11 e 14).

Observe estes três aspectos pertinentes aos Cristãos:

a) Pertencem a Cristo por serem propriedade exclusiva de Deus ( 1Pe 2:9 );

b) Cristo é o Descendente e os cristãos ao serem gerados de novo descendem de Abraão, ou seja, não são filhos segundo a carne e o sangue, mas da promessa, segundo a vontade de Deus, que os gerou para uma nova e viva esperança ( Jo 1:12 -13);

c) Em Cristo o cristão obteve herança (herdeiros) ( Cl 1:12 ).

Quando a Bíblia demonstra que os cristãos obtiveram herança, diz das garantias que Deus a todos aqueles que creem em Cristo.

O direito que o cristão obtém refere-se à herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ), e não a bens materiais. As bênçãos que os cristão receberam estão enumeradas em Efésios capítulo um ( Ef 1:3 ).

O apóstolo Paulo disse que os cristãos receberam ‘todas’ as bênçãos espirituais. Da mesma forma, Pedro reiterou: “O seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito a vida e à piedade” ( 2Pe 1:3 ).

Não é correta a ideia de que os cristãos podem e devem exigir bens materiais de Deus por se arrogarem a condição de filhos. As promessas de Deus apontam para bênçãos eternas, sem vínculo com bens terrenos.




Gálatas 2 – O apóstolo Pedro é repreendido

A dissimulação do apóstolo Pedro contagiou outros cristãos de origem judaica, de forma que até Barnabé se deixou levar e se afastou dos cristãos convertidos dentre os gentios.


Gálatas 2 – O apóstolo Pedro é repreendido

As Origens do Apóstolo

1 DEPOIS, passados catorze anos, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também comigo Tito.

Somente após quatorze anos de sua , o apóstolo Paulo deliberou ir a Jerusalém para novamente falar com os apóstolos que conviveram com Cristo.

Paulo foi a Jerusalém acompanhado de Barnabé e Tito.

 

2 E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios, e particularmente aos que estavam em estima; para que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão.

Paulo deixa claro que ‘subiu’ a Jerusalém motivado por uma revelação.

O apóstolo Paulo aproveitou a oportunidade, e fez uma exposição do evangelho que pregava aos gentios. A exposição foi direcionada àqueles que eram estimados pela igreja de Jerusalém.

Ele expôs o evangelho que estava sendo pregado aos gentios com o intuito de verificar se não havia nenhuma discrepância entre o evangelho que estava anunciando, comparando com o evangelho exposto pelos outros discípulos.

Paulo não queria correr em vão, e estava disposto até mesmo a corrigir qualquer desvio ou discrepância quanto ao que ele estava apregoando aos gentios. Esta exposição, ou verificação, foi realizada durante o concílio em Jerusalém.

A exposição de Paulo foi diante de alguns irmãos que ‘pareciam’ ter um maior destaque. Ele demonstra que ‘pareciam’ ser, porque diante do evangelho de Cristo, a aparência do homem não é levada em conta. O que tem valor diante de Deus, é a fé que opera pelo amor (v. 6).

 

3 Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se;

A atitude daqueles que ouviram a exposição do evangelho apregoado aos gentios, demonstrou que o anunciado por Paulo estava em conformidade com o evangelho apregoado pelos outros apóstolos de Cristo.

Aceitaram o apóstolo Paulo de bom grado, e nem mesmo recriminaram a Tito, seu companheiro grego a circuncidar-se. A atitude deles demonstrou de maneira clara que o evangelho proclamado por Paulo estava em conformidade com o evangelho anunciado pelos outros apóstolos e por Cristo.

A expressão ‘nem mesmo’ demonstra que, se algum cristão precisava cumprir com alguma determinação decorrente da lei, este alguém deveria ser Tito: ele era grego e incircunciso. Caso os apóstolos de Jerusalém estivessem apregoando a circuncisão, o primeiro a ser recriminado seria Tito, pois ele era grego e incircunciso.

 

4 E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão;

A exposição do evangelho que Paulo pregava entre os gentios se fez necessário porque havia em Jerusalém falsos irmãos.

Os ‘falsos irmãos’ são caracterizados por tentarem levar os servos de Cristo à servidão da lei. Eles observavam a liberdade dos cristãos concedida por Cristo (não observância da lei mosaica), para tentarem levar cativo os cristãos incautos.

O objetivo de Paulo ao demonstrar que expôs o evangelho de Cristo aos outros apóstolos, e que em nada foi contestado, era dirimir qualquer dúvida dos cristãos quanto as falsas doutrinas dos judaizantes, e defender o seu apostolado.

 

5 Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós.

Paulo não se submeteu as determinações judaizantes, nem mesmo por um instantes, por ser aquele um momento estratégico e decisivo para a continuidade da verdade do evangelho ( At 15:2 -5).

Estrategicamente, para a propagação do evangelho entre os judeus, Paulo fez com que Timóteo fosse submetido à circuncisão. Não foi circuncidado para salvação, e sim para que eles obtivessem uma melhor abertura quanto à proclamação do evangelho ( At 16:3 ). Porém, quanto da visita a Jerusalém, Paulo demonstra que não devemos nos curvar, nem por uma hora, a ensinamentos errôneos.

Não podemos ser condescendestes a erros que comprometam a verdade do Evangelho.

 

6 E, quanto àqueles que pareciam ser alguma coisa (quais tenham sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do homem), esses, digo, que pareciam ser alguma coisa, nada me comunicaram;

Ao interpretar as cartas de Paulo, o leitor deve ter em mente que várias vezes ele quebra a sequência da narração principal, faz uma pequena abordagem em um aspecto secundário a esclarecer, e em seguida, volta a discorrer sobre o tema central.

Exemplos típicos de quebra na narração encontra-se neste capítulo: o verso dois deste capítulo é uma continuação da narração histórica das viagens que Paulo realizou, sendo que o verso três foi inserido somente para demonstrar que o evangelho por ele anunciado, foi confirmado pelos outros apóstolos.

O verso três aparece isolado no texto, e somente torna-se compreensível por causa do contexto geral da carta. Já o verso quatro explica o porquê dele ter exposto o evangelho anunciado aos gentios, aos cristãos de Jerusalém.

O verso cinco demonstra qual a atitude e posicionamento de Paulo frente aos judaizantes, e neste verso, ele volta a explicar porque classificou algumas pessoas da igreja de ‘parecer ser alguma coisa’.

Paulo procurou, dentre os cristãos de Jerusalém, aqueles que aparentemente detinham maior destaque, e expôs o evangelho (v. 2). Porém, a aparência que era tida em destaque no seio da igreja de Jerusalém, nada acrescentou a Paulo (v. 6).

A aparência destes cristãos, que eram tidos em destaque, teve o seu valor a seu devido tempo. Paulo refere-se a este ‘outro’ tempo como se dele nem se lembrasse mais.

Noutro tempo refere-se ao tempo em que os cristãos ainda eram trevas, ao tempo em que os cristãos eram considerados incircuncisos pelos da circuncisão. Noutro tempo refere-se ao passado dos cristãos, quando andavam segundo o curso deste mundo ( Ef 2:11 ; Ef 5:8 e Cl 1:21 ).

Aqueles que pareciam ter destaque na igreja através da aparência que detinham (aparência do homem), não tiveram nada a acrescentar à pregação de Paulo.

 

7 Antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão

A mesma autoridade que Pedro teve entre os judeus ao pregar o evangelho, os cristãos em Jerusalém reconheceram que Paulo detinha ao comunicar a graça de Deus entre os gentios.

A autoridade de Paulo tornou-se evidente aos irmãos de Jerusalém através da exposição.

 

8 (Porque aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, esse operou também em mim com eficácia para com os gentios),

Os irmãos reconheceram o apostolado de Paulo, e que Deus operava por intermédio de Paulo da mesma forma que operava com Pedro.

O serviço de Paulo e Pedro em prol do evangelho não se apoiou em homens, mais em Deus.

Deus operou eficazmente tanto com Paulo quanto com Pedro. A intrepidez de Pedro ao falar do evangelho aos da circuncisão foi semelhante à de Paulo quando anunciava a mensagem do evangelho aos gentios.

 

9 E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão;

O relato de Paulo aos cristãos da Galácia demonstra que o evangelho que ele anunciava nunca esteve divorciado do que era apregoado pelos outros apóstolos.

Pedro, João e Tiago eram considerados como colunas da igreja, e quando se inteiraram do serviço desenvolvido por Paulo entre os gentios, não o recriminaram. Antes, estenderam-lhe a mão demonstrando que estavam e plena comunhão.

Com isso, estava claro que Tiago, Pedro e João também aceitaram o serviço de Barnabé, que trouxe o apóstolo Paulo aos outros apóstolos ( At 9:27 ). A comunhão foi estabelecida e definiram duas frentes de evangelismo: os de Jerusalém iriam aos judeus e Paulo e Barnabé aos gentios.

 

10 Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência.

A única recomendação a Paulo não se referia ao conteúdo do evangelho, mas a administração de alguns bens direcionados aos pobres. Com isso fica demonstrado que nenhum apóstolo de Jerusalém contestou o evangelho anunciado por Paulo.

Após receber a determinação dos pais da igreja com referência ao cuidado com os pobres, Paulo passou a cumpri-la a risca. Este cuidado fica demonstrado nas cartas aos Corintos, em que ele busca incessantemente a ‘sinceridade do amor’ dos irmãos ( 2Co 8:8 ).

Todas as vezes que Paulo vai tratar do cuidado que se deve ter com os pobres, ele interrompe a seqüência da narração e introduz o tema desta forma: “Ora, quanto a coleta para os santos…” ( 1Co 16:1 );“E agora, irmãos…” ( 2Co 8:1 ); “Ora, quanto a assistência…” ( 2Co 9:1 ).

Isto demonstra que as verdades do evangelho já havia sido anunciado pessoalmente, porém, havia a necessidade de se enfatizar em suas cartas a necessidade da contribuição para sustento dos pobres, conforme a recomendação que recebera.

 

11 E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível.

A chegada do apóstolo Pedro a Antioquia deveria confirmar o evangelho pregado pelo apóstolo Paulo, entretanto, o comportamento do apóstolo dos judeus não condizia com a verdade do evangelho.

Como o comportamento do apóstolo Pedro poderia influenciar negativamente o evangelho de Cristo, visto que ele era uma das colunas da igreja primitiva, o apóstolo Paulo não se conteve, e o resistiu, ou seja, repreendeu.

Paulo levantou-se contra a atitude de Pedro, mesmo ele sendo uma das colunas da igreja. Aquele comportamento de Pedro, embora fosse normal para ele, poderia por em risco a essência do evangelho.

Paulo se posicionou contra a atitude que poderia trazer um entrave ao evangelho, e não contra a pessoa de Pedro. Em momento algum houve uma disputa por posição.

 

12 Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão.

Aqui está o motivo da repreensão de Paulo a Pedro.

Pedro estava comendo com os gentios, e quando percebeu que Tiago estava chegando com outros irmãos, e que estes irmãos eram da circuncisão, um sentimento de temor tomou o coração de Pedro, que o fez se apartar dos gentios, para se acomodar junto aos da circuncisão.

De maneira explicita, Pedro se retirou do meio dos cristãos ‘gentios’ por temer os da circuncisão.

 

13 E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação.

A dissimulação de Pedro contagiou outros cristãos de origem judaica, de forma que até Barnabé se deixou levar.

Paulo toca em um assunto muito interessante: a questão comportamental. Não podemos assumir uma postura que vá contra os princípios bíblicos. Se Deus não faz acepção de pessoas, nós, como cristãos, devemos ter uma postura conforme os princípios da escritura.

Nada faz os homens diferentes diante de Deus, a não ser o novo nascimento.

 

14 Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?

Aqui há vários exemplos a se seguir. Exemplos da parte de Paulo e da parte de Pedro:

  • Paulo saiu em defesa do evangelho, sem buscar uma posição ‘melhor’, ou de destaque na igreja;
  • A repreensão foi na frente de todos. Paulo não fez um comentário de cunho faccioso. Ele não queria um ambiente de fofocas;
  • A repreensão foi na presença de todos, para que nenhum dos cristãos que presenciaram a dissimulação saíssem com a ideia de que havia um distinção entre judeus e gentios após a conversão;
  • A palavra foi dirigida a Pedro, o responsável por aquele clima de dissimulação;
  • Pedro, um dos principais da igreja, foi bastante humilde para aceitar a correção;
  • Pedro não utilizou o seu prestígio para desculpar-se ou agir arrogantemente;
  • O erro de Pedro fixa-se em uma pequena questão comportamental, porém, se não fosse repreendida a tempo, tornar-se-ia um problema que acabaria por afetar a sua vida espiritual.

Há várias lições nestes versículos, mas a abordagem do apóstolo dos gentios demonstra que jamais um cristãos deve aceitar passivamente pensamentos e comportamentos de outros cristãos que não condizem com o a verdade do evangelho.

Os líderes precisam aprender com o apóstolo Pedro humildade, como servos de Cristo, e não serem senhores de si mesmos.

O apóstolo Paulo argumenta: O que motiva alguém que vive como gentil, exigir que os gentios vivessem como judeus?

 

A fé em Cristo

15 Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios.

Paulo construiu aqui, uma frase que demonstra a falsa superioridade dos judeus.

Por natureza os da circuncisão eram judeus e pecadores. Sem contradição alguma, pois todos os homens pecaram em Adão.

A condição de judeu é determinada pela filiação em Abraão (natural), e não por Deus. Da mesma forma que a condição de pecadores não decorre de Deus, mas da natureza decaída herdada de Adão.

 

16 Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.

Paulo enfatiza um saber comum a todos cristãos: o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Cristo!

Todos os cristãos creram em Cristo para serem justificados, uma vez que era de conhecimento que pelas obras da lei ninguém é justificado.

Como a lei não pôde justificar, é Cristo quem justifica.

 

17 Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma.

Todos os cristãos professavam que eram salvos (justificados) pela fé em Cristo (v. 16), o que leva a concluir que todos buscaram a Cristo para serem justificados.

Os cristãos estavam professando uma verdade, mas demonstravam que não entendiam o que era ser justificado em Cristo.

Como os cristãos haviam procurado justificação em Cristo por meio da fé, e não por intermédio das obras da lei, é certo que eles haviam deixado de ser pecadores. Não é razoável ser justificado em Cristo, e ao mesmo tempo permanecer sendo pecador.

Um judeu por natureza é pecador, e se permanecer separado da vida que há em Deus, será achado pecador. Mas, qualquer homem que se refugiar em Cristo, for ainda achado pecador, é o mesmo que dizer que Cristo está sendo ministro do pecado. Que contradição!

O apóstolo não está falando de comportamento, de condutas errôneas, mas da cadeia, ou da natureza que prende todos os homens que não tem a Cristo como Senhor.

Paulo é bem claro: Se após estar em Cristo, o cristão ainda permanecer sendo pecador, ou seja, de posse da velha natureza herdada em Adão, Cristo haveria de ser ministro do pecado.

Só em expor este raciocínio, Paulo interpõe uma ressalva: De maneira nenhuma! Ou seja, o cristão deixa de ser pecador.

Este fato é atestado também pelo apóstolo João: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado. Porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” ( 1Jo 3:9 ). Por que o cristão não peca? Porque o homem que creu em Cristo compartilha da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

Se qualquer que é nascido de Deus não comete pecado, todos quantos não são nascidos de Deus cometem pecado.

Para ser nascido de Deus é preciso ter a semente de Deus, isto demonstra que aqueles que não tem a semente de Deus (a palavra do evangelho), são nascidos da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue ( Jo 1:13 ).

Paulo queria que os cristãos compreendessem que, se mesmo após serem justificados em Cristo, ainda estivessem necessitados da lei para serem justificados, ainda estavam em pecado, e Cristo estaria assumindo o papel de ministro do pecado.

É certo que Cristo morreu pelos cristãos, sendo eles (nós) ainda pecadores. Quando o homem aceita a Cristo, ainda está na condição de pecador. Depois de aceitá-lo, porém, vive um novo tempo de paz, amor e justiça, pois é uma nova criatura em Cristo Jesus.

‘Noutro tempo’ éramos pecadores, hoje, estamos assentados nas regiões celestiais em Cristo. A condição do Cristão hoje difere totalmente em essência, da condição de outrora.

 

18 Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor.

Este versículo é significativo para a compreensão da salvação.

Paulo estava alertando que, caso os cristãos voltassem a seguir a lei, estariam se constituindo transgressores.

Não era Cristo que estava lançando fora os cristãos, antes, eles mesmos estavam lançando mão de conceitos errôneos, que os levaria de volta a perdição.

O versículo evidencia que em momento algum a salvação de Deus deixa de ser efetiva na vida do crente. A salvação em Cristo é poderosa e eterna, e desde que permaneça em Cristo, o homem jamais se perderá. Porém, se este mesmo homem voltar a edificar o que antes havia destruído, voltará a ser transgressor diante de Deus.

O homem deve crer em Deus para ser salvo, porém, a fé tem uma obra: a perseverança, conforme disse Tiago.

Aqueles que estão perante o Pai, jamais serão lançados fora, mas se o homem recuar, há de trazer sobre si perdição.

Se a salvação fosse segundo a ideia da ‘predestinação’ anunciada pelos reformadores, ou decorresse de um destino previamente traçado, conforme a mentalidade humana atina, não haveria a necessidade de alertar os cristãos quanto aos possíveis desvios. Paulo não precisaria falar em perseverança na fé proposta, e nem mesmo haveria a necessidade de defender o evangelho.

O que foi destruído por meio da fé em Cristo, e que Paulo fala de sua reedificação? A carne do pecado por meio do corpo de Cristo. Como e quando ocorre a destruição da carne? Quando se morre com Cristo, conformando-se com o seu sofrimento, morte e sepultamento. Em outro lugar Paulo fala da circuncisão de Cristo, que é o despojar do corpo da carne. Que é o desfazer-se por completo da carne, e não só do prepúcio ( Cl 2:11 -13).

Paulo argumentou que, se torno a edificar o que destruí, acabo por tornar transgressor, ou seja, o homem volta a condição de antes, pecador e sob o domínio do pecado.

Quando se morre com Cristo e ressurge com ele, a inimizade com Deus é desfeita através da carne do seu corpo, isto é, pelo novo e vivo caminho ( Hb 10:20 ).

 

19 Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus.

Paulo demonstra que, perante a lei, ele estava morto, e que não possuía vínculo algum com ela, visto que o apóstolo já havia morrido com Cristo.

O objetivo de não mais cumprir a lei era o de viver para a Deus, e não para a lei.

Observe que a própria lei isentava o apóstolo quanto a sua submissão, visto que ele estava morto para a lei.

 

 

20 Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.

Paulo se considerava morto, uma vez que foi crucificado com Cristo. Observe que a nossa crucificação é com Cristo, ou seja, juntamente com ele, e não a parte dele.

Mesmo que milhares de pessoas morreram crucificados, a nossa morte não tem relação alguns com elas. Há argumentações que tentam demonstrar que a nossa morte é lenta, conforme a morte de algumas pessoas que foram crucificadas à época de Cristo. Outros tentam demonstrar que alguns cristãos ainda não morreram, devido ao fato de que alguns condenados pelo governo Romano eram tirados da cruz pelos seus familiares, permanecendo vivos, mas tidos como mortos.

Seja anátema tal ensinamento! Cristo diz: “…se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmo” ( Jo 6:53 ; 2Tm 2:11 ; 2Co 5:14 ; 1Co 15:36 ). É preciso ser participante da carne e do sangue, ou seja, morrer com Cristo, e não ‘aparte’ d’Ele.

Todos aqueles que creem que Cristo morreu em favor dos pecadores, tornam-se participantes da morte de Cristo e recebem poder para serem feitos filhos de Deus: nascidos não da vontade da carne, do sangue ou da vontade do varão, mas de Deus.

A ideia de que a morte do cristão se dá aos moldes da crucificação Romana não é consistente, visto que a nossa morte é conforme a morte do Santo Cristo: “Para conhecê-lo, e a virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme a sua morte” ( Fl 3:10 ).

 

“Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é por ventura Cristo ministro do pecado? De maneira alguma” v. 17.

 

“Se procuramos ser justificados por Cristo é para que não sejamos pecadores, mas se fomos achados pecadores mesmo após estarmos com Cristo, Ele tornar-se-ia ministro do pecado. Visto que Cristo não é ministro do pecado, nós não podemos ser mais tido por pecadores”

Se estamos em Cristo e ainda continuamos sendo pecadores e necessitados da lei, só resta desesperança.

O ‘Eu’ que Paulo utiliza nos versos 19 e 20 é figurativo, ou seja, representa o velho homem de Paulo. ‘Eu’ pela lei estou morto, ou, ‘eu’ estou crucificado com Cristo. Quando Paulo fala da sua pessoa, ele enfatiza com a palavra ‘mesmo’, ou seja: “Eu mesmo” ( 2Co 8:13 ; Rm 9:3 ).

Paulo (eu) estava morto, e não mais vivia, ou seja, agora, Cristo vivia nele. Por se uma nova criatura, o que é o mesmo que estar em Cristo, segue-se que Cristo vivia em Paulo.

A vida que Paulo passou a viver na carne, apoiava-se em Deus, diferente da vida de outrora, que se apoiava na lei e nas tradições de seus pais.

 

21 Não aniquilo a graça de Deus; porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde.

Deus é fiel e jamais retira a sua salvação de sobre os seus servos A graça de Deus, de maneira alguma será retirada, visto que ele é fiel e poderoso para suster os seus servos ( Rm 8:31 -39). Em Deus a salvação é eterna! Deus jamais encolherá a sua mão quanto ao propósito de salvar.

Mas esta passagem é peculiar: Deus é fiel e poderoso para cumpri o que prometeu, mas é possível ao homem aniquilar a graça de Deus?

Paulo argumenta que Ele não aniquilaria a graça recebida, visto que não mais se utilizava da lei para se justificar. Se Paulo não anula a graça, verifica-se que o homem pode rejeitar a graça de Deus quando lança mão da lei para se justificar “…da graça tendes caído” ( Gl 5:4 ).

Paulo vai além: se alguém considerar que a justiça vem da lei, está dizendo que a morte de Cristo foi em vão.

O verso 21 soma-se ao 18: Se torno a edificar aquilo que destruí, anulo a graça de Deus!




Efésios 3 – O mistério revelado

Os seres celestiais tinham consciência do poder de Deus e de que o Verbo de Deus participou da criação, visto que, em Cristo todas as coisas foram criadas. Porém, agora, pela igreja, estes seres celestiais passaram a conhecer a multiforme sabedoria de Deus. É interessante observar que os seres celestiais têm contato constante com o poder de Deus, que a tudo criou por meio de Cristo, mas nem mesmo eles conheciam a multiforme sabedoria ( Ef 1:9 -10).


Efésios 3 – O mistério revelado

A Missão entre os Gentios

1 Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios;

Qual causa? A missão que foi confiada ao apóstolo Paulo de demonstrar aos cristãos que a parede de separação entre gentios e judeus foi derrubada. O fato de ter sido criado um novo homem em Cristo Jesus a partir de dois povos (judeus e gentios) “…para criar em si mesmo dos dois um novo homem…” ( Ef 2:15 ), tornou-se o pivô das prisões de Paulo.

A missão que foi delegada a Paulo mantinha o apóstolo vinculado a Cristo através de uma lei interna, visto que ele era cativo (prisioneiro) no entendimento “…e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” ( 2Co 10:15 ).

A ideia que Paulo expôs sobre ser prisioneiro de Cristo é melhor explanada em ( 1Co 9:16 -19) “Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho! E por isso, se o faço de boa mente, terei prêmio; mas, se de má vontade, apenas uma dispensação me é confiada. Logo, que prêmio tenho? Que, evangelizando, proponha de graça o evangelho de Cristo para não abusar do meu poder no evangelho. Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais”.

Paulo não quis ser só um despenseiro, e sim, alguém que anunciava o evangelho de bom grado, com o intuito de receber um prêmio maior. Para tanto, ele quis se prender a causa.

A igreja de Cristo é um novo corpo que une ‘gentios’ e ‘judeus’, e ambos têm acesso ao Pai em um mesmo Espírito.

O remetente da carta se identifica novamente “…eu, Paulo…”; ( Ef 1:1 ).

Paulo tinha conhecimento pleno da sua condição em Cristo “…sou prisioneiro de Jesus Cristo…”, e da missão.

Paulo procurou conscientizar os cristãos gentios da sua luta através deste versículo.

Ele prossegue apresentando novos elementos no transcorrer da carta, porém, sempre faz referência a algo que já escreveu. Ex:

  • Apresentação pessoal ( Ef 1:1 e Ef 3:7 );
  • Louvor a Deus ( Ef 1:3 e Ef 3:20 -21);
  • Regiões celestiais ( Ef 1:3 e Ef 2:6 );
  • Mistério desvendado ( Ef 1:9 e Ef 3:6 );
  • O Espírito Santo ( Ef 1:13 e Ef 4:30 );
  • O poder de Deus ( Ef 1:19 ; Ef 3:7 e Ef 3:20 );
  • O passado ( Ef 2:1 e Ef 4:17 -19);
  • Vivificar com Cristo ( Ef 2:1 e Ef 2:5 );
  • Morada do Espírito ( Ef 2:22 e Ef 3:17 ), etc.

Esta peculiaridade da carta aos Efésios a torna auto-explicativa.

 

2 Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada;

A conscientização (entendimento) acerca da complexidade que havia por trás do ministério do apóstolo Paulo só é possível àqueles que já ouviram acerca da graça de Deus. Tal graça foi apresentada aos gentios por intermédio do apóstolo.

A mensagem que Paulo apregoava era desconhecida tanto para os judeus como para os gentios. Somado a isto, ele precisava apregoar o evangelho de maneira que convencesse os judeus a abandonarem a ideia de que a salvação era exclusiva ao povo de Israel, sem menosprezar os gentios.

Como conciliar homens que tinham a cruz de Cristo como escândalo e loucura? “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação. Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:21 -22).

Porém, Paulo pregava confiado em Cristo que concedeu a missão de proclamar o evangelho, que é poder de Deus e salvação para todo aquele que crê “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 ) compare com “E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder…” ( Ef 1:19 ).

 

3 Como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi;

A dispensação da graça de Deus era um mistério que foi manifesto ao apóstolo Paulo por revelação. Sobre este mistério, agora revelado, Paulo escreveu algumas coisas no próprio corpo da carta ( Ef 2:13 -22).

 

4 Por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo,

Paulo espera que os leitores percebam o quanto ele compreendia o evangelho, o mistério de Cristo que agora foi revelado aos homens.

O versículo 6 detalha a extensão da compreensão do apóstolo Paulo.

 

5 O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas;

O mistério acerca da pessoa de Cristo ainda não havia sido revelado aos homens, porém, agora, o Espírito Santo de Deus revelou tal segredo aos santos apóstolos e profetas.

É interessante observar que a revelação de Deus se deu aos apóstolos e aos profetas “Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João” ( Mt 11:13 ). É diferente a abordagem feita em Efésios da feita por Cristo em Mateus.

Quando Cristo falou acerca dos profetas, Ele disse que: “…os profetas e a lei profetizaram até João”. Ou seja, tanto os profetas quanto a lei apontavam para a vinda de Cristo em carne, e o profeta João Batista foi o último a profetizar acerca da vinda do Messias em carne ( Mt 3:11 ).

Os profetas, da qual Jesus fez referência, profetizavam acerca de algo que não lhes era plenamente compreensível. Da mesma maneira a lei, que é uma profecia acerca do Cristo, mas que não era plenamente compreendida pelo povo.

A abordagem de Paulo é diferente da abordagem feita por Jesus.

Paulo fala do mistério que foi revelado aos apóstolos e profetas. O mistério revelado é que os gentios também são herdeiros da promessa por meio do corpo de Cristo.

A revelação do mistério que estava oculto se deu aos apóstolos (como é o caso do apóstolo Paulo), e aos profetas (como é o caso de algumas pessoas que foram nomeadas como profetas) “E, demorando-nos ali por muitos dias, chegou da Judeia um profeta, por nome Agabo” ( At 21:10 ).

A lei e os profetas falavam da vinda do Messias em carne, mas não deixava claro que através de Cristo os gentios e judeus formariam um só corpo. Porém, agora, o mistério foi revelado, e os apóstolos e os profetas passaram a compreender a grandeza do evangelho.

Os profetas que profetizaram acerca da vinda do Messias duraram até João. Os profetas que Paulo faz referência profetizaram muitas coisas aos apóstolos e a igreja, e estes não estão inclusos no alerta de ( Mt 3:11 ); “E, achando discípulos, ficamos ali sete dias; e eles pelo Espírito diziam a Paulo que não subisse a Jerusalém” ( At 21:4 ).

 

6 A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho;

Este versículo demonstra a compreensão do apóstolo acerca do mistério que foi revelado.

O mistério que esteve oculto e que agora foi revelado aos apóstolos e profetas é que os gentios são co-herdeiros e membros de um mesmo corpo.

Por meio do evangelho os gentios tornaram-se participantes da promessa feitas a Abraão.

A promessa foi feita a Abraão, e por meio de Cristo os gentios tornam-se participantes da promessa “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

 

7 Do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder.

Este versículo complementa a apresentação inicial do apóstolo.

Paulo identificou-se como apóstolo de Cristo pela vontade de Deus ( Ef 1:1 ), e aqui ele complementa que foi feito ministro do evangelho, segundo o dom da graça de Deus que a ele foi dado, segundo a operação do seu poder.

Verifica-se que o contexto continua sendo o poder de Deus. No capítulo um, versículo dezenove, o apóstolo orou a Deus para que os irmãos se conscientizassem “da suprema grandeza do seu poder” ( Ef 1:19 ).

O poder de Deus foi manifesto em Cristo ao ressuscitá-lo dentre os mortos e em nós, ao nos vivificar dos mortos ( Ef 2:5 -6). E, pelo mesmo poder, Paulo foi feito ministro do evangelho, apóstolo dos gentios.

 

8 A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo,

Paulo demonstra conhecer a sua real condição perante Deus quando diz ser o mínimo de todos os santos.

A graça de Deus concedeu salvação ao apóstolo, porém, também lhe foi dada à incumbência de anunciar o evangelho aos gentios.

Mas, há algo neste versículo que nos chama atenção: o mínimo de todos os santos. Desde a apresentação inicial da carta, o apóstolo nomeia os destinatários de santos “…aos santos que estão em Éfeso…” ( Ef 1:1 ); “…para sermos santos e irrepreensíveis….” ( Ef 1:4 ); “…e o vosso amor para com todos os santos” ( Ef 1:15 ); “…quais as riquezas da glória da sua herança nos santos” ( Ef 1:18 ); “…mas concidadãos dos santos, e da família de Deus” ( Ef 2:19 ); “…como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas” ( Ef 3:5 ), etc.

Estes versículos apresentam uma condição dos cristãos perante Deus, e não somente um título de tratamento entre os irmãos.

 

9 E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo;

A missão do apóstolo era anunciar as riquezas insondáveis de Cristo e demonstrar a todos os homens a dispensação do mistério que esteve oculto ao longo dos séculos.

O contato que os homens têm é com a mensagem do evangelho, que contém o mistério revelado e que torna compreensíveis as riquezas de Cristo. Diferente é o aspecto deste mesmo evangelho para os seres celestiais.

 

10 Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus,

Os seres celestiais tinham consciência do poder de Deus e de que o Verbo de Deus participou da criação, visto que, em Cristo todas as coisas foram criadas.

Porém, agora, pela igreja, estes seres celestiais passaram a conhecer a multiforme sabedoria de Deus.

É interessante observar que os seres celestiais têm contato constante com o poder de Deus, que a tudo criou por meio de Cristo, mas nem mesmo eles conheciam a multiforme sabedoria ( Ef 1:9 -10).

 

11 Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor,

O eterno propósito de Deus de fazer convergir em Cristo todas às coisas tornou conhecido aos principados e potestades nos céus a multiforme sabedoria de Deus.

A nós, os homens, foi revelado o mistério e a possibilidade de compreendermos as riquezas de Cristo.

 

12 No qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele.

Em Cristo Jesus, os cristãos têm ousadia e acesso a Deus, pela confiança adquirida. Sobre a confiança a carta de Tiago é esclarecedora.

É pela fé em Cristo que se tem ousadia e confiança “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus” ( Hb 10:19 ).

 

13 Portanto, vos peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, que são a vossa glória.

Paulo era o prisioneiro de Cristo, mas não queira que os irmãos desfalecessem por causa dele. Antes, os cristãos deveriam reputar as tribulações de Paulo como sendo uma glória deles.

Os cristãos não deveriam desfalecer ante as tribulações do apóstolo, antes deveriam tê-las (as tribulações) como uma confirmação de que o perseguidor era quem anunciava o evangelho.

 

14 Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,

O apóstolo demonstra outro motivo pela qual orava constantemente ao Senhor: que as suas tribulações não se tornem em empecilho aos cristãos.

O primeiro momento de oração foi para que Deus concedesse aos cristãos sabedoria e revelação em seu conhecimento ( Ef 1:16 -19).

 

15 Do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome,

Todas as criaturas de Deus refugiam-se em seu nome ( Ef 1:10 ).

 

16 Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior;

Temos duas referências a riquezas da graça ( EF 1:7 ; Ef 2:7 ), e duas referências a riquezas da glória.

As duas últimas referências foram utilizadas em momento de oração. As riquezas incompreensíveis de Cristo dizem das riquezas da graça que é por meio do evangelho, loucura para os que perecem “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:23 ).




A palavra ‘Justificação’

Aquele que crê em Cristo vive esta nova realidade em verdade: após encontrar a cruz de Cristo, morreu para o pecado e está efetivamente justificado do pecado.


A palavra ‘Justificação’

Em Romanos 3, verso 7, o apóstolo Paulo estabelece uma relação entre as palavras ‘morto’ e ‘justificado’: “aquele que está morto” também “está justificado” do pecado! Ou seja, a primeira condição (morto) implica na segunda (justificado). Satisfeita a primeira condição (morto), a segunda é estabelecida (justificado).

A palavra justificação é de origem latina composta de ‘justus’ e ‘facere’ e significa ‘fazer justo’ em português.

As palavras ‘justificado’ e ‘justiça’ são traduções de palavras gregas semelhantes. Temos o verbo dikaiôun que é ‘declarar justo’, ‘justificar’. O substantivo dikaíosis que é ‘justificação‘, ‘justiça’, e o adjetivo dikaios, que qualifica que é ‘justo’.

Uma tradução precisa dos termos que fazem referência à justificação auxilia em muito a interpretação dos escritos de Paulo, porém, só os termos tomados de maneira isolada não revelam a grandeza das ideias centrais que compõe a doutrina da justificação.

Para entendermos a extensão das expressões supracitadas devemos atentar mais para o contexto nas quais elas foram citadas, do que para o significado denotativo da palavra.

Este estudo não se limita a apresentar um trabalho de conclusões. Antes, procuramos apresentar ao leitor o raciocínio que se deve percorrer para chegar às conclusões que apontaremos no decorrer deste estudo.

Aquele que está morto

Em Romanos 3, verso 7, o apóstolo Paulo estabelece uma relação entre as palavras ‘morto’ e ‘justificado‘: “aquele que está morto” também “está justificado” do pecado! Ou seja, a primeira condição (morto) implica na segunda (justificado). Satisfeita a primeira condição a segunda é estabelecida.

Antes de ser feita a declaração “… porque aquele que está morto está justificado do pecado”, o apóstolo Paulo enfatiza de maneira contundente a ‘morte’ daqueles que creem em Cristo (estão) conforme diz a escritura ( Rm 6:1 -6).

Para entendermos precisamente a declaração paulina devemos ter a resposta da seguinte pergunta: Quem está morto?

A resposta está no versículo dois do capítulo seis da carta aos Romanos: Nós, ou seja, Paulo e os cristãos!

Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 )

No versículo acima o apóstolo esclarece aos leitores da carta aos Romanos que todos eles estão mortos para o pecado, ou seja, nenhum crente em Cristo ‘vive’ para o pecado. Isto significa que efetivamente os cristãos estão mortos para o pecado.

Caso alguém argumentasse contra esta realidade (mortos para o pecado), o apóstolo Paulo contra argumenta de quatro maneiras diferentes para se fazer compreensível.

  1. Os que foram batizados foram batizados na morte de Cristo ( Rm 6:3 );
  2. Pelo batismo na morte todos foram sepultados com Cristo ( Rm 6:4 );
  3. Todos foram plantados juntamente com Cristo, e ( Rm 6:5 );
  4. Uma vez que, todos sabiam que haviam sido crucificados com Cristo.

“Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…” ( Rm 6:6 )

Diante dos elementos que foram apresentados restam as seguintes conclusões: vocês estão mortos! “Pois morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

“Ora, se já morremos com Cristo…” ( Rm 6:8 ).

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado…” ( Rm 6:11 ).

Quando o apóstolo Paulo diz: ‘considerai-vos’, não significa simplesmente imaginar como se estivessem mortos para o pecado, antes os cristãos deviam estar cônscios, vivendo esta nova realidade. Paulo não apregoou um ‘faz de conta’, antes ele anunciou verdades eternas.

Aquele que crê em Cristo vive esta nova realidade em verdade: após encontrar a cruz de Cristo, morreu para o pecado e está efetivamente justificado do pecado.

Observe que a palavra ‘considerai’ do versículo onze significa ‘contar com’, ‘descansar em’. Aliado ao significado da palavra, está o contexto, que demonstra que os cristãos efetivamente estão mortos para o pecado.

Está Justificado do Pecado

Já que os cristãos efetivamente morreram para o pecado como foi observado em ( Rm 6:2 ), conclui-se que quem está justificado perante Deus necessariamente já morreu para o pecado.

De outro modo: aquele que está vivo para o pecado não está justificado do pecado. Portanto, só é possível ser justificado do pecado quando se está morto para ele.

A condição ‘justificado do pecado’ é real e efetiva, pois decorre da primeira, que é estar morto para o pecado “… porque aquele que está morto está justificado do pecado”.

Dentro deste contexto de ‘morte para o pecado’ e ‘justificado do pecado’ torna-se possível determinarmos qual o real significado das palavras ‘justificação’ e ‘justificar’.

Qual a melhor tradução para as palavras dikaíôun e dikaíosis? Seria ‘fazer justo’? ‘criar justo’? Ou ‘declarar justo’?

O parágrafo seguinte nos auxiliará na escolha da tradução que melhor transmite à ideia apresentada pelo contexto.

Para que sejas justificado

Quando Paulo faz a citação de um versículo do salmista Davi, nos auxilia em muito na compreensão da extensão do significado da palavra justificado.

Neste salmo Davi demonstrou que reconhecer os próprios erros é a melhor maneira de declarar sem palavras que Deus é justo “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” ( Sl 51:4 ).

Ele assume os seus erros para que Deus seja justificado ao falar.

O que o contexto nos apresenta?

  • Davi assumiu os seus erros para ‘fazer’ Deus justo?
  • Davi assumiu os seus erros para ‘criar’ Deus justo?
  • Ou Davi assumiu os seus erros para ‘declarar’ que Deus é justo?

O contexto nos aponta a terceira opção. O homem declara a justiça de Deus quando reconhece os seus próprios erros.

O salmista reconhece sua condição em decorrência do seu pecado: “…contra ti, contra ti somente pequei…”, com um objetivo bem definido: declarar a justiça de Deus “… para que sejas justificado quando falares…”.

O apóstolo cita este salmo para declarar que Deus é verdadeiro, ou seja, ao citar este salmo, Paulo tem a intenção nítida de fazer uma declaração sobre um dos atributos de Deus: Deus é verdadeiro, ou: sempre seja Deus verdadeiro!

“De maneira nenhuma. Sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado”( Rm 3:4 )

O apóstolo Paulo ao declarar que Deus é verdadeiro cita o salmista para dar sustentabilidade à sua declaração. Paulo demonstra que a sua declaração é conforme as Escrituras.

Temos dois elementos no texto, que se somados, evidenciam a ideia que a palavra ‘justificado’ procura transmitir:

  • Davi reconhece os seus erros como forma de evidenciar que Deus é justo;
  • Paulo utiliza o salmo para dar peso a sua declaração: Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso.

Desta forma temos que, a palavra ‘justificado’ se traduz por ‘declarar’ justo.

Declarar: Dar a conhecer; expor; proclamar publicamente, anunciar solenemente; revelar, julgar, considerar, nomear, etc.

O apóstolo Paulo fez a citação de um salmo onde a palavra justificado engloba a mesma ideia que ele procura transmitir com os termos dikaíôun e dikaíosis.




O mistério em deixar pai e mãe

Do mesmo modo que é necessário ao homem deixar pai e mãe para unir-se a sua mulher, tornando-se uma só carne, Jesus anunciou que, para ter comunhão íntima (para conhecê-lo em verdade ( Jo 8:32 ), ser um com Ele e o Pai ( Jo 17:21 ), osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo) se faz necessário aos homens deixarem a geração segundo a carne, pois pai e mãe representam a semente corruptível, pela fé em Cristo, momento em que o homem é gerado de novo de uma semente incorruptível (água e Espírito), tornando-se um só corpo com Cristo.


“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” ( Gn 2:24 )

Este verso é utilizado em quase todas as cerimônias de casamento, porém, existe nele um mistério pouco explorado. Também existem nele princípios essenciais que regem as relações humanas após a união conjugal que são pouco conhecidos.

 

Adão e Eva

Muitas mulheres cristãs sentem repulsa quando ouvem a seguinte passagem bíblica: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” ( Ef 5:22- 24) .

Quantas vezes não ouvimos frases rancorosas quando algumas mulheres fazem referencia aos seus maridos? Será que a recomendação paulina não se encaixa no nosso tempo? O que ele recomendou com o verbo sujeitar?

A recomendação tem um público específico: as mulheres casadas.

A recomendação aplica-se a todas as mulheres casadas em todos os tempos, culturas e sociedades? Sim! A recomendação é para todas as mulheres.

Como as mulheres devem se sujeitar aos maridos? Devem se sujeitar aos maridos como se sujeitam ao Senhor, ou seja, voluntariamente. A sujeição não é algo imposto, antes a mulher deve, voluntariamente, sujeitar-se porque o marido é a cabeça da mulher.

O que significa o homem ser a cabeça da mulher? Significa que o homem está em posição de autoridade em relação à mulher. Para uma melhor compreensão, tem-se que visualizar que o papel da mulher é semelhante ao papel da igreja “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” ( Ef 5:24 ).

Como Cristo é o salvador do corpo, isto significa que Cristo é a cabeça da igreja, da mesma forma deve ser o relacionamento conjugal: o homem é a cabeça da mulher, sendo que ela deve ser sujeita em tudo ao marido.

Quando voluntariamente a mulher se sujeita ao marido, ao mesmo tempo prestigia o seu casamento, visto que ambos são um só corpo. Quando se sujeita ao marido, a mulher demonstra que a cabeça tem autonomia para conduzir o casamento. Quando a mulher voluntariamente se sujeita ao marido, os filhos aprendem o que significa autoridade sem demasiada frustrações, e não terão problemas quando chegar o momento de conviverem em sociedade.

Há muitas mulheres que amam os seus maridos, porém, não prestigiam a cabeça do lar. Esquece que, quando não se submete ao marido, ao mesmo tempo desonra a si mesma, principalmente quando a insurreição se dá com palavras depreciativas.

Mas, a recomendação paulina não tem em vista somente as esposas, como se lê: “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para santifica-la, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja; Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:25 -30 ).

O apóstolo ordena às mulheres que se sujeitem aos maridos, e aos maridos ordena que amem as suas esposas. Os maridos devem amar as suas esposas do mesmo modo que Cristo amou a igreja. A extensão do amor que o marido deve devotar à sua mulher é entregando-se por ela.

O exercício do cuidado para com a esposa é sacrificial, e o marido deve ter a consciência de que tal cuidado é para que ela se apresente diante dele agradável, ou seja, deve ama-la como a seu próprio corpo.

Quem ama a esposa ama a si mesmo, cuida de si mesmo e, segundo o apóstolo Paulo, seria sem sentido alguém odiar o seu próprio corpo.

Na união conjugal a mulher deve submeter-se ao marido voluntariamente porque ele cuida dela, ou seja, o cuidado do marido é o que o investe de autoridade. O conceito bíblico de autoridade é diferente do conceito que há no mundo de que, quem a exerce deve exigir cuidados em vista da posição que ocupa: o cuidado é característica da autoridade, ou melhor, o cuidado é a única expressão de autoridade.

Cristo é a cabeça da igreja porque exerce cuidado por ela. A igreja deve submeter-se a Ele porque todas as suas ações são motivadas pelo amor e cuidado para com o seu próprio corpo.

A submissão da mulher e o amor do marido deve ser a tônica de um relacionamento conjugal. Quando o casal chega a este entendimento e expressa voluntariamente, um ao outro o que é ordenado, há paz e harmonia sempre.

 

Cristo e a igreja

“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” ( Gn 2:24 )

Quando se ouve o verso acima, geralmente é considerado somente da perspectiva humana, nas relações que decorrem da vida conjugal, porém, o apóstolo Paulo, ao citar este verso aos cristãos em Éfeso, alerta que o ato do homem deixar o seu pai e a sua mãe e apegar-se à sua mulher, tipifica um grande mistério relacionado a Cristo e a igreja.

Após anunciar que há um mistério nesta passagem, o apóstolo Paulo retoma a ideia inicial concluindo que o homem deve imitar a Cristo, amando sua esposa, e a mulher deve imitar a igreja de Cristo, reverenciando o marido: “assim também vós…” ( Ef 5:33 ). Este é o modelo ideal de comportamento dos cônjuges. Ninguém está dizendo que seja fácil, mas é o comportamento certo para uma união feliz.

Que mistério pode existir relacionado a Cristo e a igreja, no fato do homem deixar pai e mãe?

A resposta depreende-se dos seguintes versículos: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ); “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” ( Mt 10:37 ).

O mistério, como o apóstolo Paulo disse, é revelado através do evangelho ( Ef 3:4 ).

O mistério estava no fato de:

  1. Assim como Deus concedeu ao primeiro Adão uma mulher, semelhantemente Deus concedeu ao último Adão, que é Cristo, a igreja ( 1Co 15:45 );
  2. Assim como Eva foi tirada da carne de Adão, semelhantemente a Igreja foi formada da carne de Cristo ( Gn 2:21 ; 1Co 11:24 );
  3. Assim como Deus fez cair um profundo sono sobre Adão para fazer-lhe uma adjuntora, semelhantemente Cristo desceu à sepultura, pois todos que ressurgem com Ele fazem parte da igreja ( Gn 2:21 ; );
  4. Assim como Adão disse: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne” ( Gn 2:23 ), semelhantemente a igreja é osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:30 );
  5. Assim como Deus disse: “Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne ( Gn 2:24 ; Mt 19:5 ; Mc 10:9 ), semelhantemente Jesus instituiu que: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ); “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” ( Mt 10:37 );
  6. Assim como Adão é terreno e a sua imagem é passada a todos os seus descendentes, semelhantemente, Cristo, o último Adão, é celestial e concede a sua imagem aos que d’Ele são gerados ( 1Co 15:46 -47), o que os tornam membros do seu corpo.

 

É por isso que, quando o apóstolo Paulo cita o verso 24, do capítulo 2 do livro de Gênesis: “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne” ( Ef 5:31 ), ele destaca haver um grande mistério.

Deixar pai e mãe para contrair matrimônio não implica em abandoná-los. Humanamente falando, no matrimônio ocorre a junção de duas pessoas em um só corpo, porém, após a união, ambos, marido e mulher devem deixar o domínio dos pais, pois eram os pais que exerciam cuidado sobre ambos.

Agora, neste novo corpo (união), a cabeça (marido) deve agir desvinculada do cuidado dos seus pais e, o corpo (mulher) deve agir em consonância com o seu novo papel social. Isto não significa que o cristão deva desprezar seus pais segundo a carne, antes significa que deve unir-se um ao outro perfazendo uma nova família com direção e estilo de vida singular.

Do mesmo modo que é necessário ao homem deixar pai e mãe para unir-se a sua mulher, tornando-se uma só carne, Jesus anunciou que, para ter comunhão íntima (para conhecê-lo em verdade ( Jo 8:32 ), ser um com Ele e o Pai ( Jo 17:21 ), osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo) se faz necessário aos homens deixarem a geração segundo a carne, pois pai e mãe representam a semente corruptível, pela fé em Cristo, momento em que o homem é gerado de novo de uma semente incorruptível (água e Espírito), tornando-se um só corpo com Cristo “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:5 -7).

 

A criação do homem e da mulher

Quando Adão e Eva foram criados, ambos estavam nus, e ambos não se envergonhavam ( Gn 2:25 ), semelhantemente Cristo não se envergonha de chamar os seus membros de irmãos ( Hb 2:11 e 11:16 ), e a igreja entra no santo dos santos com ousadia ( Ef 3:12 ; Hb 4:16 ).

O apóstolo Paulo demonstrou que Adão era figura de Cristo ( Rm 5:14 ), ou seja, quando Adão foi criado, foi a expressa imagem do Deus invisível que o criou “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” ( Gn 1:27 ; Hb 1:3 ; Cl 1:15 ). Aquele que havia de vir (Cristo) e, que criou todas as coisas ( Jo 1:3 ; Cl 1:16 ; Ef 3:9 ), foi quem teofanicamente modelou o homem do pó da terra com as suas mãos e soprou o fôlego de vida nas narinas de sua imagem terrena, tornado-o alma vivente.

Qual foi a imagem e semelhança que Cristo deu a Adão? A imagem que Cristo adquiriu após ressurgir dentre os mortos como primogênito ( Sl 17:15 ; Cl 1:18 ), ou a imagem que ele assumiria ao ser introduzido no mundo como unigênito do Pai? ( Jo 1:14 ; 1Jo 4:9 ).

Ora, a semelhança que a expressa imagem do Deus invisível concedeu a Adão no Éden foi a que Ele utilizou ao ser introduzido no mundo na condição de unigênito do Pai. Ele concedeu especificamente a imagem e semelhança de unigênito a Adão, visto que, ao ser introduzido no mundo necessitava ser feito menor que os anjos por causa da paixão da morte ( Hb 2:9 ), para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote ( Hb 2:17 ), participando das mesmas coisas: carne e sangue ( Hb 2:14 ).

O primeiro Adão não alcançou a imagem e semelhança do Altíssimo, visto que, tal imagem e semelhança só é concedida àqueles que se conformam com Cristo na sua morte e ressurgem pelo poder de Deus segundo a imagem daquele que os criou ( Cl 3:10 ), até porque, o próprio Cristo só alcançou tal semelhança ao ressurgir dentre os mortos, como atesta o versículo: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ).

Fazendo uma releitura do verso “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” ( Gn 1:27 ) entende-se que: criou Deus o homem à sua imagem. Que imagem? A imagem e semelhança que o unigênito seria introduzido no mundo, e não à imagem e semelhança que Cristo, na condição de cabeça da igreja, adquiriu após ressurgir dentre os mortos “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ). E como Deus criou o homem? A sua expressa imagem, que a tudo criou, também se encarregou de criar o homem: homem e mulher os criou.

Após Cristo criar todas as coisas ( Hb 1:10 -12 ; Sl 102:25 ), com as suas próprias mãos, fez Adão do pó da terra e soprou-lhe nas suas narinas o fôlego da vida ( Gn 2:7 ). Em seguida, Cristo plantou um jardim no Éden, fazendo brotar da terra toda espécie de árvores agradáveis ( Gn 2:9 ), inclusive a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal, que estavam no meio do jardim juntamente e, após, colocou o homem como lavrador e guarda do jardim ( Gn 2:15 ).

Para criar a mulher, Cristo fez cair sobre Adão um profundo sono e retirou uma das costelas de Adão e fechou a carne no seu lugar ( Gn 2:21 ).

Após ter fechado a carne de Adão, Jesus tomou em suas mãos a costela que foi retirada de Adão e formou a mulher ( Gn 2:22 ), e trouxe-a para o homem.

Depreende-se da leitura do Gênesis que as relações entre Cristo e o casal no jardim era perene, visto que, na viração do dia, ao ouvirem a voz de Deus ( Hb 1:8 -9 ; Sl 45:6 -7), se esconderam. Seria sem sentido o casal se esconder da divindade em sua majestade e glória, porém, como viam Deus teofanicamente, como sendo igual a eles, procuram se esconder ( Gn 3:8 ).

 

A Desobediência

Quando Adão ouviu a ordem divina: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que comerdes, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17), ouviu-a de alguém que era seu igual.

Ele não ouviu uma voz etérea que ecoou pelo jardim, dizendo: “Adãããão, Adão!”, como se tornou consenso. Não! Ele ouviu a ordem teofanicamente da boca do próprio Verbo de Deus que havia de ser encarnado na plenitude dos tempos. Ele desobedeceu a Cristo, a palavra que concede vida ( Dt 8:3 ; Jo 6:50 -51 ).

Naquele instante ergueu-se uma barreira de separação entre Deus e os homens. A ofensa de Adão trouxe de imediato o juízo e a condenação ( Rm 5:18 ). E qual foi a pena? A morte, ou seja, a barreira de separação.

Por que uma barreira de separação foi erguida? Porque Deus é vida e, a nova condição do homem destituído da vida que há em Deus, é morte. Deus é a verdade e, o homem naquele instante passou a ser mentira. Deus é luz, e naquele instante o homem passou a ser trevas.

 

O Descendente da mulher

Deus repreende a serpente, a mulher e o homem ( Gn 3:14 -19 ), e faz um promessa: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e o seu descendente; este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” ( Gn 3:15 ). Naquele instante foi instituída a humanidade de Cristo, o Verbo que se fez carne e passou a habitar entre os homens.

A promessa do descendente foi novamente anunciada ao gentio Abraão, que creu e foi justificado “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ). Por causa da promessa do descendente, Deus escolheu um povo para tal propósito, segundo a linhagem do patriarca ( Rm 9:5 ).

Na plenitude dos tempos, gerado pelo Espírito de Deus no ventre de mulher virgem, o Verbo se fez carne e Deus habitou em meio aos homens. O apóstolo João assim descreveu a vinda do Messias: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” ( Jo 1:1 -5 ).

A nação que foi instituída para preservar a linhagem e trazer Cristo ao mundo, rejeitou o Descendente prometido ao pai Abraão. Ele foi morto e ao terceiro dia ressurgiu pelo poder de Deus. Através da oferta do seu corpo foi desfeita a barreira de inimizade e separação que havia entre Deus e os homens.

Todos os salvos sob a Antiga aliança foram salvos, assim como o crente Abraão, pela fé no Descendente que havia de vir. Embora não compreendessem o mistério que envolvia a morte do Cristo e a glória que havia de segui-lo, foi revelado a eles que não profetizavam para si mesmos “Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 ).

Eles profetizavam acerca de uma esperança celestial, enquanto foi reservado a eles uma esperança terrena, visto que foi estabelecido por um decreto divino que o Messias regeria todas as nações da terra ( Sl 2:7 -8) e, para este mister, foi determinado que Cristo há de se assentar no trono de Davi ( Rm 1:3 ; Zc 12:8 ; Mt 12:23 ).

 

A noiva do Cordeiro

Do mesmo modo que a mulher de Adão foi tirada da sua carne e dos seus ossos ( Gn 2:22 -23 ), a noiva do Cordeiro foi tirada da carne e dos ossos de Cristo ( Ef 5:30 ). No que isto implica?

Ora, quando Deus tirou a mulher da carne e dos ossos de Adão, deu-se o início a geração terrena ( 1Co 15:47 ), de modo semelhante, quando Cristo foi sepultado e ressurgiu, a igreja foi criada a partir da sua carne e dos seus ossos, momento em que se deu início a uma nova geração de homens espirituais.

Quando Adão conheceu a sua mulher, trouxe a existência homens carnais e terrenos semelhantes a ele, e quando Cristo conheceu a igreja, trouxe a existência homens espirituais e celestiais semelhantes a Ele ( 1Co 15:47 -49).

Da geração de Adão, alguns homens foram escolhidos para fazerem parte da linhagem de Cristo e, um povo foi separado para preservar tal linhagem e conferir ao Descendente o direito legítimo de assentar-se sobre o trono de seu pai Davi. Ora, o povo de Israel foi escolhido para este propósito estabelecido em Cristo: fazê-lo rei “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” ( Sl 89:27 ; Is 52:13 -15).

Com relação a este propósito terreno, muitos em Israel foram eleitos, porém, não foram salvos, pois a salvação só é possível através da fé no Descendente, e não através da carne de Abraão.

Mas, como a igreja foi tirada da carne e dos ossos de Cristo, deu-se início a uma nova geração, a geração eleita segundo o propósito celestial ( 1Pe 2:9 ). Todos que são gerados de novo, segundo a geração eleita, foram predestinados a serem filhos de Deus. Todos que foram gerados de novo, foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus.

Diferente da eleição de Israel, todos que fazem parte do corpo de Cristo, necessariamente, primeiro foram salvos pela fé em Cristo “… do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ). Quando são salvos pelo poder de Deus contido no evangelho, os crentes são chamados segundo o propósito estabelecido em Cristo, que é Cristo preeminente em todas as coisas, posição que ele assumiu ao ser a cabeça da igreja.

Ou seja, através da igreja, que foi tirada da carne e ossos de Jesus, foi inaugurada uma nova geração de homens espirituais, semelhantes Àquele que os criou ( 1Jo 3:2 ; Cl 3:10 ).

 

Adão e Cristo – tipo e antítipo

Além de Adão ser a expressa figura da imagem terrena de Cristo ( Rm 5:14 ), ele é o primeiro tipo de Cristo, pois Adão é cabeça da geração humana e Cristo a cabeça da geração espiritual.

Diferentes dos demais tipos do Antigo Testamento, que apresentam semelhanças e comparações com o antítipo, entre Adão e Cristo têm semelhanças e contrastes que remontam um paralelismo sem igual.

Além das semelhanças que já apontamos entre Adão e sua mulher ‘versus’ Cristo e a igreja, temos outras figuras que apontam para Adão e Cristo, respectivamente:

  • Adão é a porta larga e Cristo é a porta estreita – a porta é figura do nascimento, sendo que Adão é a porta larga porque todos os homens quando vêm ao mundo tem que entrar por ele ( 1Co 15:46 ). Após o homem nascer segundo a carne de Adão, necessário é nascer de novo, da água e do Espírito, ou seja, da palavra de Deus que limpa e dá nova vida ( Jo 3:5 );
  • Adão é o caminho largo e Cristo é o caminho estreito – através destas duas figuras fica claro que não é o homem que vai à perdição ou à salvação, antes, nos dois casos os homens são conduzidos, ou seja, o caminho tem destino, não o viajante – através da ofensa de Adão os homens são conduzidos à perdição e através da obediência de Cristo os homens são conduzidos à salvação, como se lê: “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7;13 -14);
  • Adão é árvore má e Cristo é a árvore boa – Os homens são comparáveis a árvores, sendo que as árvores más têm origem na semente de Adão e as árvores boas têm origem na semente incorruptível, que é Cristo “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” ( Mt 12:33 );
  • Em Adão são feitos os vasos para desonra e em Cristo os vasos para honra ( Rm 9:22 -24);
  • Em Adão são gerados os homens carnais e em Cristo os homens espirituais ( 1C0 15:46 -47)
  • Adão é a semente corruptível e Cristo a semente incorruptível ( 1Pe 1:23 );
  • Adão gera filhos servos do pecado e Cristo gera filhos servos da justiça ( Rm 6:18 );
  • A geração de Adão é planta que o Pai não plantou, e a geração de Cristo são árvores de justiça ( Mt 15:13 ; Is 60:21 ; Is 61:3 ), etc.

Adão foi descrito por Miqueias como sendo o homem piedoso que pereceu ( Mq 7:2 ). Enquanto Adão, o homem piedoso, foi feito alma vivente, Cristo, o último Adão, foi feito espírito vivificante ( 1Co 15:45 ). A morte veio por Adão, e a ressurreição por Cristo. Todos os homens morreram em Adão, e todos são vivificados em Cristo ( 1Co 15:22 ). Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer, e Cristo é a porta estreita, por onde entraram todos os que nascem de novo ( Mt 7:13 ).

Quando vêm ao mundo, os homens entram pela porta larga (Adão), ou seja, desde a madre o homem é ímpio, desviado (alienado) de Deus “Desviam-se os ímpios desde a madre…” ( Sl 58:3 ). Após ser formado em iniquidade e concebido em pecado, trilham um caminho que o conduz à perdição, ou seja, andam errado desde que nascem “Andam errados desde que nascem, proferindo mentiras” ( Sl 58:3 ; Rm 3:4 ). Esta é a condição de todos os homens gerados de Adão.

Diferente dos descendentes de Adão, que são alienados desde a madre, Cristo foi gerado de Deus através da ação do Espírito Santo no ventre de Maria “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel” ( Is 7:14). Caso fosse gerado de Maria e José, Cristo nasceria sob a mesma condenação que pesa sobre a humanidade: alienado de Deus. Porém, Cristo foi ‘lançado’ da madre de modo diferenciado “Sobre Ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” ( Sl 22:10 ; Mt 1:18 ).

Ao introduzir o Primogênito de toda a criação no mundo, Deus agiu de modo miraculoso sobre o ventre de Maria ( Mt 1:20 ). Sobre a terra não havia um justo se quer, porém, por meio do Verbo de Deus encarnado, muitos justos são gerados para a glória de Deus ( Mt 1:21 ).

Deste modo, para atender a ordem de Cristo, que é aborrecer pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida, necessário se faz aborrecer a sua geração natural herdada de Adão. O que isto significa? Que o homem precisa morrer para a sua antiga condição. Precisa morrer para o pecado que mantém cativa a geração natural dos homens “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ; Mt 10:37 ).

E como se aborrece pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida? Tomando sobre si a maldição da cruz, pois é maldito qualquer que for pendurado no madeiro. Deste modo, o homem torna-se participante das aflições de Cristo, ou seja, toma a sua própria cruz e segue após Cristo “E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:27 ); “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” ( MT 10:38 -39).

Cristo se fez maldito em lugar dos homens ( Gl 3:13 ), e qualquer que toma a sua própria cruz e segue após ele, aborrece pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ); “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ).

O que é pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a própria vida? Diz da geração segundo a carne de Adão. O homem deve abandonar sua própria vida renunciando sua descendência que teve origem na semente corruptível de Adão, Eva.

Deixar pai e mãe é fazer parte de uma nova família. Deixar pai e mãe é desligar-se do pecado para uni-se a Cristo. Pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida representa a geração de Adão que é sujeita ao pecado, mas através da cruz de Cristo o homem é sepultado e ressurge uma nova criatura e passa a pertencer a uma nova geração para a glória de Deus Pai “Que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no século futuro a vida eterna” ( Mc 10:30 ).