Salmo 70 – Apressa-te, ó Deus

Se os Salmos são profecias, certo é que quem intercede por livramento, no verso 1, do Salmo 70, não é Davi, mas, outra pessoa.


Salmo 70 – Apressa-te, ó Deus

Introdução

Encontramos na Web, inúmeras explicações para o Salmo 70. Para muitos, o Salmo 70 é a oração dos desesperados, que deve ser utilizada em momentos de dificuldade. Outra parcela de comentaristas entende que é um Salmo para superar humilhações, que visa proporcionar uma melhora na autoestima, ou dá suporte à confiança e força moral.

É comum as pessoas utilizarem o Salmo 70 para fazer anedotas, acerca daqueles que aguardam um pretendente para casar. Há quem imprime o Salmo 70 e o coloca na carteira, outros tatuam o corpo, como mantra para proteção de maldades. Emolduram em quadros para proteção de comércios ou, recitam antes de negociarem.

Mas, de todas as leituras equivocadas do Salmo 70, a mais perniciosa é aquela que aponta para o rei Davi, como aquele que rogou a Deus por livramento urgente, por estar em aperto por causa dos seus inimigos.  É desse equivoco que surgem as outras leituras equivocadas, principalmente, o titulo que colocam no Salmo. Exemplo: ‘Na sua aflição, Davi suplica a Deus que se apresse em livrá-lo’.

Antes de interpretarmos o Salmo 70, faz-se necessário considerar e/ou lembrar o leitor que o rei Davi era profeta e que os Salmos são profecias.

O historiador do Livro de Segundo Crônicas, nos informa que o rei Davi, juntamente com os capitães dos seus exércitos, separou os filhos de Asafe, Jedutum e Hemã, para profetizarem, utilizando instrumentos musicais (1 Cr 25:1-3).

O apóstolo Pedro afirma que o rei Davi era profeta e o que ele deixou registrado nos Salmos eram previsões acerca do Cristo (At 2:30-31). O apóstolo Pedro, também, afirmou que, nos Salmos, estava predito acerca de Judas Iscariotes, uma predição de Davi (At 1:16).

Jesus disse aos discípulos, no caminho de Emaus, que a Lei, os Profetas e os Salmos eram previsões acerca d’Ele (Lc 24:44). Essa mesma observação, acerca dos Salmos, foi feita por Jesus aos fariseus, quando não souberam responder-Lhe, porque os Salmos apresentavam Davi, chamando o seu próprio Filho de Senhor (Mt 22:42-46).

Enquanto os Salmos são profecias que apontavam para Cristo, para permitir aos homens que O identificassem na plenitude dos tempos, uma má leitura dá a falsa impressão de que os Salmos se tratam de canções poéticas, com o objetivo de aplacar os sentimentos e as emoções dos homens, frente às vicissitudes da vida.

É má leitura entender os Salmos como cânticos, para superar humilhações, que proporcionam autoestima, confiança e força moral, pois, na verdade, os Salmos são profecias que retratam o Cristo em seus vários aspectos:  homem, rei, Deus, servo, cordeiro, sacerdote, messias, salvador, mártir, filho, etc.

 

Salmo 70 – Apressa-te, ó Deus, em me livrar

1  APRESSA-TE, ó Deus, em me livrar; SENHOR, apressa-te, em ajudar-me.

2  Fiquem envergonhados e confundidos os que procuram a minha alma; voltem para trás e confundam-se os que me desejam mal.

3  Virem as costas, como recompensa da sua vergonha, os que dizem: Ah! Ah!

4  Folguem e alegrem-se em ti todos os que te buscam; e aqueles que amam a tua salvação digam, continuamente: Engrandecido seja Deus.

5  Eu, porém, estou aflito e necessitado; apressa-te por mim, ó Deus. Tu és o meu auxílio e o meu libertador; SENHOR, não te detenhas.

“APRESSA-TE, ó Deus, em me livrar; SENHOR, apressa-te em ajudar-me” (v. 1).

Caro leitor, se você tem lido os Salmos como canções ou, poemas compostos pelo rei Davi, como forma de extravasar as suas frustrações, medos, anseios, vitórias, etc., considere as seguintes perguntas: Se Davi era profeta, onde estão registradas as suas profecias?

Se o único legado que ele deixou registrado são os seus Salmos, conclui-se que os Salmos são, eminentemente, proféticos. Se os Salmos são profecias, certo é que quem intercede por livramento, no verso 1, do Salmo 70, não é Davi, mas, outra pessoa. Isso, depreendemos da pergunta que o etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, fez a Felipe:

“Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” (At 8:34).

Na condição de profeta, Davi estava rogando auxilio para si mesmo, ou, pelo espírito, estava anunciando o anseio por livramento da parte de Deus, que o seu Descendente prometido haveria de fazer?

“Disse-lhes ele: Como é, então, que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, Até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?” (Mt 22:43-45).

A oração: – “Apressa-te, ó Deus, em me livrar”, é do Descendente que Deus prometeu a Davi –Cristo – e não de Davi. Cristo, o Filho de Davi, é quem roga ao Pai que apresse em ajudá-Lo!

Salmos sabidamente messiânicos, como o Salmo 22, 40 e 69, repetem essa mesma oração:

“Mas tu, SENHOR, não te alongues de mim. Força minha, apressa-te em socorrer-me (Sl 22:19);

“Digna-te, SENHOR, livrar-me: SENHOR, apressa-te em meu auxílio(Sl 40:13);

“E não escondas o teu rosto do teu servo, porque estou angustiado; ouve-me depressa(Sl 69:17).

No Salmo 69, quando Cristo roga a Deus que o ouça depressa (Sl 69:17), Ele enumera aqueles que O odeiam sem causa, numerosos como o cabelo da sua cabeça (Sl 69:4; Jo 15:25). Quem são estes inimigos inúmeros, que odiaram a Cristo?

“Aquele que me odeia, odeia também a meu Pai. Se eu, entre eles, não fizesse tais obras, qual nenhum outro tem feito, não teriam pecado; mas agora, viram-nas e me odiaram, a mim e a meu Pai. Mas é para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: Odiaram-me sem causa” (Jo 15:23-25; Sl 69:4).

Ao fazer referência à previsão de que O odiariam sem causa, como registrado no Salmo 69, verso 4, Jesus aponta os Salmos com a lei de Deus!

 

Castigo para os desprezadores

“Fiquem envergonhados e confundidos os que procuram a minha alma; voltem para trás e confundam-se, os que me desejam mal. Virem as costas, como recompensa da sua vergonha, os que dizem: Ah! Ah!” (vs. 2 e 3).

A oração do Salmo 70 não foi feita por Davi, para se ver livre de Saul, Absalão ou das nações inimigas em redor! Essa oração diz do Cristo, em vista dos seus inimigos: os da sua própria casa, ou seja, os seus concidadãos, que O rejeitaram: “Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Mq 7:6); “E assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mt 10:36; Sl 69:8; Jo 1:11).

Quem foram os que menearam a cabeça e zombaram de Cristo, dizendo: – ‘Ah! Ah!’? Não foram os que o crucificaram? (At 2:23)

“E os que passavam, blasfemavam dele, meneando as cabeças e dizendo: Tu, que destróis o templo e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo. Se és Filho de Deus, desce da cruz. E da mesma maneira, também, os príncipes dos sacerdotes, com os escribas, anciãos e fariseus, escarnecendo, diziam: Salvou os outros e a si mesmo não pode salvar-se. Se és o Rei de Israel, desça, agora, da cruz e creremos em ti. Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus” (Mt 27:39-43).

Os filhos de Israel, por perseguirem e matarem o Cristo, seriam confundidos e envergonhados! Eles procuraram o Cristo para matá-Lo (procuram minha alma) (Jo 7:25; Jo 11:53). Que batessem em retirada (virem as costas), os que zombaram do Filho de Deus (Sl 71:13)!

O profeta Miqueias profetizou, acerca do dia da confusão dos filhos de Israel, quando disse:

“O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos; veio o dia dos teus vigias, veio o dia da tua punição; agora será a sua confusão. Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca. Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Mq 7:4-6).

Miqueias, nessa profecia, descreve os filhos de Israel classificando os melhores do povo como espinhos e os mais retos (religiosos) como uma sebe (cerca) de espinhos, dando a entender que nenhum deles era justo diante de Deus (Dt 9:4-6; Sl 53:1-4; Rm 3:9-20). Que o dia apregoado pelos profetas (vigias) havia chegado: dia de punição e de confusão (Jr 6:17).

Quando seria esse dia? Diz de um tempo que os filhos de Israel não deveriam crer no amigo e nem confiar nos seus lideres (guia). Não deveriam crer nos filhos (repousa no teu seio), guardando a porta da boca, ou seja, não deveriam se alimentar dos seus manjares (doutrinas de homens) de mentira (Pv 23:1-3).

O dia de confusão e vergonha para os filhos de Israel se deu na primeira vinda de Cristo em carne e sangue (Mt 10:34-36; Jr 9:4; Jr 12:6). Pois, apesar de os filhos de Israel, continuamente, falarem em Deus, na verdade, Deus não estava em seus corações (Jr 12:2; Mt 15:7-9; Ez 33:31; Is 29:13).

Quando vissem o Cristo, não deveriam perguntar para os seus familiares (pai, mãe, irmãos): – “É esse o Cristo?”, antes, deveriam verificar nas Escrituras se Ele era o Cristo, pois as Escrituras testificam do Cristo (Jo 5:39; Jo 7:17).

Os versos 2 a 4, do Salmo 70, são repetidos no Salmo 40 e alguns versos do Salmo 35 replicam o Salmo 70, isso nos versos 4, 21, 26 e 27.

“Digna-te, SENHOR, livrar-me: SENHOR, apressa-te em meu auxílio. Sejam à uma confundidos e envergonhados os que buscam a minha vida para destruí-la; tornem atrás e confundam-se os que me querem mal. Desolados sejam em pago da sua afronta os que me dizem: Ah! Ah! Folguem e alegrem-se em ti os que te buscam; digam constantemente os que amam a tua salvação: Magnificado seja o SENHOR” (Sl 40:13-16).

O escritor aos Hebreus aplica o Salmo 40 à pessoa de Cristo, como Aquele que se apresentou para fazer a vontade do Pai (Hb 10:5-10).

O Salmo 71 faz a mesma abordagem do Salmo 70, acrescendo detalhes:

“Porque os meus inimigos falam contra mim e os que espiam a minha alma, consultam juntos, dizendo: Deus o desamparou; persegui-o e tomai-o, pois não há quem o livre. Ó Deus, não te alongues de mim; meu Deus, apressa-te em ajudar-me. Sejam confundidos e consumidos os que são adversários da minha alma; cubram-se de opróbrio e de confusão aqueles que procuram o meu mal. Mas eu esperarei continuamente e te louvarei, cada vez mais. A minha boca manifestará a tua justiça e a tua salvação todo o dia, pois não conheço o número delas” (Sl 71:10-15).

 

Bem-aventurança aos que buscam

“Folguem e alegrem-se em ti todos os que te buscam; e aqueles que amam a tua salvação digam, continuamente: Engrandecido seja Deus” (v. 4)

Enquanto os que afrontam o Cristo recebem em paga a desolação, os que buscam a Cristo são plenos de alegria! Os que obedecem (amam) a Cristo, a salvação de Deus manifesta a todos os povos, continuamente bendirão a Deus (Jo 14:23-24).

“Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação, até à extremidade da terra” (Is 49:6).

A salvação que deve ser amada, no verso 4, do Salmo 70, diz de Cristo. Jesus Cristo é a salvação para todos os homens, a luz para os gentios. O Salmo 70 não trata de livramento de problemas pertinentes as vicissitudes desta vida, mas, da salvação da condenação eterna.

Qualquer que invoca a Cristo, o Senhor dos Exércitos, busca o Senhor em tempo oportuno (enquanto se pode achar), conforme o profetizado por Joel e Isaías:

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque, no monte Sião e em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR e entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jo 2:32; Rm 10:13);

“Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto” (Is 55:6).

O Senhor que está perto diz de Cristo, que foi dado por testemunha aos povos e líder e governador dos povos (Is 55:4), o Descendente (beneficência) prometido a Davi (Is 55:3; 2 Sm 7:11-14).

 

O aflito de Deus

“Eu, porém, estou aflito e necessitado; apressa-te por mim, ó Deus. Tu és o meu auxílio e o meu libertador; SENHOR, não te detenhas” (v. 5)

O aflito e necessitado do Salmo 70, não é o salmista e rei Davi. O aflito e necessitado do Salmo 70 é o Cristo, na condição de Filho do homem, como se lê:

“Cri, por isso falei. Estive muito aflito” (Sl 116:10)

Quem creu e confessou? Quem esteve muito aflito? O Filho de Davi é quem creu e falou, pois Ele esteve muito aflito, a ponto de ser considerado verme, por ser opróbrio dos homens e desprezado do povo (Sl 22:6).

O Cristo roga por socorro (Sl 22:19), por causa da aflição (angústia) do Aflito do Senhor (Sl 22:24).

Através do Salmo 116, somos informados que Cristo é o Filho de Davi, por intermédio de Maria, a serva do Senhor, vez que a linhagem de José estava amaldiçoada (Mt 1:23-25; Lc 1:28; Jr 22:30 e Jr 36:30). É Deus quem soltou as ataduras de Cristo, o Seu Filho, ao trazê-Lo dentre os mortos (Sl 22:10; Sl 71:6).

“Ó SENHOR, deveras sou teu servo; sou teu servo, filho da tua serva; soltaste as minhas ataduras” (Sl 116:16).

Cristo, ao ser introduzido no mundo, tornou-se servo do Senhor, o filho de Davi, por intermédio de Maria, a serva do Senhor e foi declarado Filho de Deus, com poder, pela ressurreição dentre os mortos (Rm 1:3-4).

O Salmo 116 apresenta no que o Filho de Davi creu: que a sua alma voltaria a Deus, o Seu repouso (Sl 116:7). Deus haveria de livrá-lo da morte, das lágrimas e da queda, quando Ele ressurgisse dentre os mortos (Sl 71:20; Sl 16:10).

Quando levava sobre si as enfermidades e as dores dos homens sobre si, Cristo foi reputado como aflito, ferido de Deus e oprimido: “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido” (Is 53:4).

Cristo esteve aflito e necessitado, pois foi do agrado do Senhor moê-Lo e faze-Lo enfermar (Is 53:10). A promessa de Deus para Ele não era livrá-lo da angústia, antes estar com Ele na angústia (Sl 91:15-16). Cristo, como aflito e necessitado, seria tirado da angústia e glorificado, herdando, assim, a eternidade (farto de dias).

O Salmo 109, ao fazer referência a Judas Iscariotes (At 1:20; Sl 109:8), faz referência a Cristo como pobre (aflito) e necessitado, pois os filhos de Jacó perseguiram a Cristo, para matá-Lo, o manso e humilde de coração (Sl 109:16; Mt 11:29).

Os Salmos que se seguem, fazem referência a Cristo, como o aflito (pobre) e necessitado:

“Os ímpios na sua arrogância perseguem furiosamente o pobre; sejam apanhados nas ciladas que maquinaram” (Sl 10:2);

Clamou este pobre, o SENHOR o ouviu e o salvou de todas as suas angústias” (Sl 34:6);

“Mas eu sou pobre e necessitado; contudo o Senhor cuida de mim. Tu és o meu auxílio e o meu libertador; não te detenhas, ó meu Deus” (Sl 40:17).

 

Conclui-se, após a breve exposição acima, que os Salmos de Davi não têm relação com a fuga de Davi de Saul, ou com nenhuma das vicissitudes que atingiram a sua vida. Neste sentido, o Salmo 70 não é um mantra, uma oração ou, uma reza, que deva ser utilizado para proteção de maldades ou de problemas nos negócios, mas representam a oração do filho de Deus a seu Pai.




Parasita

‘Pobre’, ‘humilde’, ‘abatido’, etc., não diz de pobreza financeira ou abatimento (humilhação) social! Qualquer que obedece a Deus, quer seja pobre quer seja rico financeiramente, se faz servo, portanto diante de Deus é pobre, humilde, abatido. Só é possível compreender o verso: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ) quando o leitor considera que os que ‘tremem’ da palavra de Deus são os que ‘obedecem’ a Deus.


Parasita

 “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 )

“O termo parasita descende do latim parasitus que, por sua vez, deriva do grego παράσιτος (parásitos), ou seja, “aquele que come na mesa de outrem”. O termo grego é composto de παρά (para), “junto a, ao lado” e σῖτος (sitos), “alimento”. O termo acabou por significar o comensal que adulava alguém de alta posição social para que pudesse comer gratuitamente em sua casa” Wikipédia

 

A crônica ‘O parasita’, do escritor Machado de Assis publicada no Jornal O Espelho em 18 de Setembro de 1859, bem como a continuação da crônica publicada em 09 de Outubro de 1859 é uma notável critica social que descreve acertadamente certa classe de indivíduos que ‘infestam’ a sociedade e se instalam principalmente em setores como imprensa, religião e governo.

O cronista trás à baila a existência de ‘ervas parasitas’ que não tiram os seus nutrientes da terra, antes retiram o que lhe é necessário das árvores, e estabelece um paralelo com certos indivíduos que se ‘alimentam’ de estruturas que há na sociedade como a política, a igreja e a literatura (leia-se governo, religião e imprensa).

Deixando de lado o trabalho impecável quanto à crítica social de “O Parasita”, a nossa abordagem tem por alvo somente a citação que o escritor Machado de Assis fez de uma passagem do Novo Testamento. Vejamos:

“(…)

Que gente!

Os tragos fisiológicos do parasita são especiais e característicos. Não podendo imitar os grandes homens pelo talento, copiam na postura e nas maneiras o que acham pelas gravuras e fotografias. Assumem um certo ar pedantesco, tomam um timbre dogmático nas palavras; e, ao contrário do fanqueiro, que tem a espinha dorsal mole e flexível, — ele não se curva nem se torce; a vaidade é o seu espartilho.

Mas, por compensação, há a modéstia nas palavras ou certo abatimento, que faz lembrar esse ninguém elogiado da comedia. Mas ainda assim vem a afetação; o parasita é o primeiro que está cônscio de que é alguma coisa, apesar da sinceridade com que procura pôr-se abaixo de zero.

Pobre gente!

Podiam ser homens de bem, fazer alguma coisa para a sociedade, honrar a musa nacional, contendo-se na sua esfera própria; mas nada, saem uma noite da sua nulidade e vão por aí matando a ferro frio…

É que têm o evangelho diante dos olhos…

Bem-aventurados os pobres de espírito.

O parasita ramifica-se e enrosca-se ainda por todas as vértebras da sociedade. Entra na Igreja, na política e na diplomacia; há laivos dele por toda a parte

(…) ” Obra Completa, Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994. Publicado originalmente em O Espelho, Rio de Janeiro, 11 e 18/09 e 9, 16 e 30/10/1859.< https://www.passeidireto.com/arquivo/36447602/aquarelas—machado-de-assis > Acesso realizado em 21/07/18.

Ora, que os ‘parasitas sociais’ são ‘pobre gente’, não devemos negar. Talvez esta seja a pior espécie de ‘pobreza’, que de longe não se compara à ‘pobreza’ caracterizada pela falta de recursos financeiros.

Os ‘parasitas sociais’ são indivíduos que, apesar de viverem regaladamente, somente agravam as diferenças socioeconômicas acentuando a percepção da miserabilidade dos que vivem à margem da sociedade.

Em um trabalho anterior, Machado de Assis fez alusão aos ‘mascates literários’ sob o título ‘Os fanqueiros literários’, espécie de indivíduos mais flexíveis que ‘os parasitas’, produzem textos (literatura) que visam somente o lucro, e serve para entorpecer o leitor desavisado. Machado d Assis crítica a este tipo de literatura que imita os ‘espíritos sérios’ dando o nome de ‘ópio encadernado’.

A crítica aos ‘fanqueiros literários’ decorre do que o escritor entendeu ser verdade, mas, a alegação que os ‘parasitas sociais’ são ‘pobre gente’ porque “… têm o evangelho diante dos olhos” é sarcasmo.

Vale esclarecer que o evangelho não promove ‘parasitas’, antes que alguém chegue a esta conclusão guiado pelo sarcasmo machadiano.

O Novo Testamento recomenda aos cristãos que sejam produtivos na sociedade em que estão inseridos. Para ser um cristão (discípulo de Cristo), não basta ter o evangelho diante dos olhos, antes o evangelho é conhecimento intrínseco ao discípulo.

A ociosidade ou o parasitismo não é a temática e nem é promovido pelo evangelho de Cristo conforme se verifica através da seguinte determinação paulina:

“Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão” ( 2Ts 3:10- 12)

O apóstolo Paulo observou que em meio aos cristãos havia alguns que não possuíam uma ocupação. Daí a ordem: – trabalhem com sossego para poder comer o seu próprio pão – ou seja, o evangelho não é conivente com quem se arvora no direito de buscar alimento na mesa alheia ( Pv 28:19 ).

A recomendação do apóstolo é objetiva pelo exemplo que ele apresenta:

“Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós” ( 2Ts 3:8 )

O apóstolo Paulo é contundente com relação àqueles que se propõe a seguir a doutrina de Cristo:

“Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade” ( Ef 4:28 )

Para Machado de Assis o ‘parasita’ é alguém sem talento, mas que imita posturas e maneiras. Para compensar a falta de talento, o parasita é modesto na fala, ou seja, possui tom humilde (abatimento). Sinceramente procura negar que é importante, mas é o primeiro a concluir que de fato é superior, daí a falsidade (afetação).

Ao dizer que as maneiras e a postura do ‘parasita’ se dá por terem o evangelho diante dos olhos, Machado de Assis sarcasticamente denuncia a hipocrisia deles. Daí a pergunta: Os parasitas, por terem o evangelho diante dos olhos, procuram imitar ‘maneiras’ e ‘posturas’ dos bem-aventurados anunciados por Cristo?

Se o leitor da obra de Machado de Assis não observar as nuances do texto, poderá entender que os ‘parasitas’ que sobrevivem à custa da sociedade são assim por procurarem seguir o evangelho, entretanto a abordagem sarcástica de Machado de Assis é desfavorável à hipocrisia dos parasitas que pensam ser alguma coisa.

A citação bíblica: ‘Bem-aventurados os pobres de espírito…’  foi introduzido na crônica somente para servir ao sarcasmo do escritor. A intertextualidade[1] da citação decorre da intencionalidade do escritor que, sem se importar com a significação da frase no contexto do evangelho de Cristo, deu uma nova significação à citação sem se preocupar com o fato de ter subvertido o seu significado.

Portanto, considerando que a afirmação de que os parasitas assim são por procurarem se ajustar à condição de bem-aventurado estabelecida por Cristo, não partiu de um teólogo e tem por finalidade servir ao sarcasmo do autor, a nossa abordagem será apenas de esclarecimento.

“O parasita ramifica-se e enrosca-se ainda por todas as vértebras da sociedade” Idem.

A partir desta frase faremos uma crítica pontual à crônica machadiana pela citação de um verso bíblico.

Segundo Machado de Assis há indivíduos que, como uma planta ‘parasita’ se ramifica e se enrosca por todas as vértebras da sociedade. Se há ‘laivos’ (vestígios) de parasitismo em todas as ‘vértebras da sociedade’, é certo que as estruturas religiosas não se elidem deste mal, quer sejam as religiões ditas cristãs ou as pagãs, mas é possível afirmar que o parasitismo social não surgiu dos ensinamentos de Cristo porque ser religioso não é o mesmo que ser um seguidor de Cristo.

Os ‘parasitas’ se alimentam de toda estrutura que dá sustentação à sociedade, quer sejam religiosas, cientificas, filosóficas, políticas, etc., no entanto, o Senhor Jesus não instituiu nenhuma estrutura religiosa como guardiã dos seus ensinos, e sim homens fiéis. Jesus não flertou com nenhum sistema filosófico, não se filiou a partidos político e nem buscou apoio de qualquer sistema de governo.

Jesus fez parte da cadeia produtiva da sociedade na qual estava inserido, pois exerceu a profissão de carpinteiro até os seus 30 anos de idade, sem falar que a sua nação como escrava era fazia parte da base produtiva de Roma. Todos os discípulos que Jesus escolheu para o seu ministério faziam parte da cadeia produtiva: alguns eram pescadores, outro médico, outro cobrador de impostos, etc.

A seguinte colocação de Machado de Assis: ‘E como não ser assim, se ele não tem outro cuidado nesta vida? e se os limites da mesa redonda são os horizontes das suas aspirações?’ Idem, é um convite à reflexão acerca da pessoa de Jesus e o seu comportamento ministerial.

Durante seu ministério Jesus aceitou vários convites para participar de refeições, porém, a sua postura na mesa não era a de um comensal. Jesus não elogiava e nem adulava os seus anfitriões. Pelo contrário, publicamente Jesus repreendia os religiosos e lideres de Israel pela compreensão equivocada que possuíam em relação ao reino dos céus ( Lc 7:36 -50).

Jesus não estava interessado em comida como os seus concidadãos ( Jo 6:27 ), seu interesse era anunciar as palavras de Deus ( Mt 4:4 ). Jesus também não veio estabelecer regras com relação ao que o homem coloca ou não em sua mesa, pois o reino dos céus não é comida nem bebida “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” ( Rm 14:17 ).

Jesus disse que tinha uma ‘comida a comer’, e em seguida deixou claro que essa comida era realizar a vontade do Pai. Jesus não esteve focado nas questões deste mundo, antes veio para cumprir tudo o que acerca d’Ele foi predito pelos profetas “Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis” ( Jo 4:32 ); “Em seguida, Jesus lhes explicou: São estas as palavras que Eu vos ensinei quando ainda estava entre vós: Era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos!” Lc 24:44 ).

Quando tentado a transformar pedras em pães, Jesus enfatizou o contido nas Escrituras, de que o homem tem vida através da palavra de Deus, demonstrando que está estabelecido nas Escrituras que o homem adquire alimento através do trabalho ( Mt 4:4 ; Gn 3:17 ).

A questão do alimento cotidiano era tão premente na cabeça de seus ouvintes, que Jesus teve que orientá-los a não ficarem preocupados com o que comer ou vestir ( Mt 6:25 ). A preocupação com a escassez de pão tolhia os sentidos, pois esperavam que Deus lhes enviasse um líder, ou um profeta que resolvesse o problema de pão ( Jo 6:14 ).

Assim como os profetas da antiguidade, Jesus utilizou o pão como figura para falar por enigmas ao povo e, até mesmo os seus discípulos concluíam que Jesus estava tratando do pão cotidiano “Entretanto, eles discutiam entre si, dizendo: “É porque não trouxemos pães” ( Mt 16:7 ); “Houve, então, grande discussão entre os judeus e esbravejavam uns com os outros: “Como pode este homem dar-nos a comer a sua própria carne?” ( Jo 6:52 ).

Conhecendo pelas Escrituras a natureza do homem ( Jo 2:25 ), de que todos são ‘mentirosos’ ( Sl 116:11 ; Rm 3:4 ), Jesus enfatizou que tudo o que sai da boca procede do coração, e o que há no coração é o que contamina o homem ( Mt 12:34 ; Mt 15:11 ), perspectiva que norteou o seu ministério, pois só a palavra de Deus concede nova natureza ao homem. Ora, o interesse de Cristo não estava no alimento cotidiano, e sim livrar os homens da condenação decorrente da ofensa de Adão.

Jesus não se utilizou das estruturas sociais estabelecidas para angariar prestigio político e religioso, antes reprovou publicamente os escribas e fariseus por seguirem preceitos religiosos que satisfazia somente o desejo de serem vistos pelos seus semelhantes: desejam os primeiros lugares nas refeições, as primeiras cadeiras nas sinagogas, etc. ( Mt 23:5 -6).Geralmente os judeus convidavam os seus amigos para cear com intuito de serem honrados posteriormente, mas Jesus orientou que convidassem aqueles que não tinham condição financeira de retribuir a honraria ( Lc 14:12 -14).

Jesus deixa claro que os seus seguidores, enquanto neste mundo, seriam perseguidos por causa da Sua doutrina, e sendo rei, Jesus deixou claro que o Seu reino não era deste mundo “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18:36). Cristo não buscou promover a si mesmo, antes buscou realizar a vontade de Deus “Eu não busco a minha glória; há quem a busque, e julgue” (Jo 8:50).

Quem tem o evangelho no coração não tem o apoio dos poderes deste mundo. Os cristãos apoiam-se única e exclusivamente no poder de Deus (evangelho), e não a ‘facilmente manipulável decência moral nos lábios’ Idem “Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu SENHOR. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo 15:20).

Os astuciosos religiosos à época, a contragosto admitiram que Cristo não aceitava ninguém segundo a aparência “E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus” (Lc 20:21).

O evangelho genuíno não possui qualquer elemento que os parasitas possam lançar mão, mas como a fisiologia dos parasitas é a imitação, no máximo o que copiam é a postura e as maneiras dos religiosos. As religiões decorrem de concepções humanas acerca do divino, já o evangelho de Cristo é revelação de um mistério oculto que não possui conexão com a religiosidade humana.

A religião estabelece posturas, maneiras conforme a moral vigente. É ela que concede o timbre dogmático às posturas e modos, o que inexoravelmente será campo fértil aos parasitas.

Machado de Assis apresenta as instituições como árvore onde os parasitas ramificam-se e enroscam-se, enquanto a Bíblia apresenta as pessoas como árvores e, para ter direito ao reino de Deus, é necessário que tal árvore pertença à lavoura de Deus ( Is 63:1 ). João Batista anunciou o veredito de Deus: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ); “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15:13).

Enquanto os ‘parasitas’ são ‘pobre gente’ pelo mal que causam à sociedade, os ‘pobres de espírito’ são descritos como herdeiros de um reino que não tem relação com as estruturas sociais deste mundo. Machado de Assis associa negativamente a ‘pobre gente’ aos ‘pobres de espírito’, enquanto Jesus ensina positivamente que os pobres de espíritos são eleitos de Deus!

A figura do ‘pobre bem-aventurado’ não tem vínculo com questões de ordem econômica, moral ou religiosa, antes se refere ao que foi anunciado pelo profeta Isaías:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” (Is 66:2).

Jesus utilizou os profetas para ensinar à multidão que só é possível alcançar a bem-aventurança obedecendo à palavra de Deus “Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2:5).

Aquele que guarda os mandamentos de Cristo é o que o ama, e a Palavra de Deus garante que quem obedece a Cristo é herdeiro do seu reino, portanto, assume a condição descrita pelos profetas como ‘pobre’: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

A lição de Tiago não tem relação com o evangelho humanista (teologia da libertação[2]) apregoado hoje, antes repete a formula do ensino de Cristo: “Bem-aventurado os pobres de espírito…”. A herança do reino é promessa aos que obedecem a Deus (amam), e que ouve a palavra de Deus, ou seja, são os que reconhecem que não dispõem de recursos para adquirir a vida eterna “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele. Pois a redenção da sua alma é caríssima, e seus recursos acabariam antes” ( Sl 49:7 -8).

Ao analisar a citação do profeta Isaías, devemos fazer e responder algumas perguntas: Para quem Deus ‘olhará’? Ou, seja, a quem Deus é favorável? Ao pobre! Ao abatido de espírito! A quem não tem dinheiro! E quem são os pobres e abatidos de espírito? Os que obedecem à palavra de Deus.

Quem obedece à palavra de Deus se fez servo da justiça, ou seja, abateu-se a si mesmo! ‘Abater-se’ é o mesmo que ‘humilhar-se’, ou seja, sujeitar-se ao senhorio de Deus, obedecendo-O ( Tg 4:7 ). Quem se humilha a si mesmo abriu mão de tudo o que possui ( Mt 19:21 ), portanto, é pobre, abatido ( Sl 51:17 ).

‘Pobre’, ‘humilde’, ‘abatido’, etc., não diz de pobreza financeira ou abatimento (humilhação) social! Qualquer que obedece a Deus, quer seja pobre quer seja rico financeiramente, se faz servo, portanto diante de Deus é pobre, humilde, abatido. Só é possível compreender o verso: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ) quando o leitor considera que os que ‘tremem’ da palavra de Deus são os que ‘obedecem’ a Deus.

A palavra ‘temor’ é figura de instrução, mandamento, e a palavra ‘tremor’ é figura de obediência, sujeição. O significado de ‘temor’ e ‘tremor’ se abstrai do paralelismo existente nas poesias hebraicas, que associa ‘temor’ a doutrina e ‘tremor’ a obediência ( Sl 34:11 ; Pv 1:9 ; Is 66:5 ).

O profeta Isaías faz referencia ao pobre através de um convite gracioso: “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” ( Is 55:1 ). Ter sede remete a figura do necessitado, e o que não tem recursos (dinheiro) ao pobre.

Deus convida os necessitados a beberem água, e aos pobres que adquiram e comam sem dinheiro e sem preço vinho e leite. Para os necessitados alcançarem água e os pobres vinho e leite, bastava inclinar os ouvidos que comeriam o que é bom, de modo que seriam felizes (deleite com o que é bom).

Enquanto é feito um convite aos necessitados e pobres, Isaías censura aqueles que têm posses (ricos), pois adquirem o que não podem satisfazer suas necessidades ( Is 55:2 ). Isaías estabelece um contraste entre os que não têm posses e aqueles que têm diante de Deus, de modo que aquele que inclina os ouvidos a voz de Deus são os ‘pobres’, e aqueles que rejeitam a voz de Deus os ‘ricos’.

A figura do ‘pobre’ e do ‘rico’ são enigmas utilizados para demonstrar como o homem alcança o dom de Deus. A palavra de Deus é água que dá refrigério (salvação) ao necessitado. A palavra de Deus é pão que dá vida (salvação) e alegria (vinho e leite). Esta é a bem-aventurança!

Que água Deus estava oferecendo a Israel através de Isaías: Cristo! Cristo é a firme beneficência prometida a Davi ( 2Sm7:13 -14), a fonte de água viva ( Jo 4:14 ).

O jovem rico foi concitado por Jesus a vender tudo o que possuía e, o que fosse arrecadado deveria ser dado aos pobres financeiramente ( Mc 10:21 ). Esta ordem de Cristo contém uma grande lição: é necessário obedecer a Cristo para alcançar o favor divino!

Embora o jovem rico possuísse muitos bens materiais, esses bens não o impediam de entrar no reino dos céus. A riqueza dele consistia em guardar alguns mandamentos desde a sua mocidade, mas não considerou que qualquer que tropeça em um quesito da lei é culpado de toda a lei ( Tg 2:10 ).

O mandamento foi dado: ‘Vende tudo e dá aos pobres’! Se o jovem obedecesse à ordem de Cristo, tornaria servo de Cristo, ou seja, seria abatido de espírito, pois humilhou-se a si mesmo ( 1Jo 5:1 ). Assim como Cristo o amou e deu um mandamento, o jovem deveria obedecer ao mandamento que Cristo deu, pois só ama quem obedece. Ora, o mandamento de Deus é especifico: que creiam no Filho de Deus! ( 1Jo 3:23 )

O jovem rico retirou-se triste. O problema do jovem rico não era as riquezas materiais, e sim não obedecer a Cristo. De modo semelhante, muitos judeus não obedeceram a Cristo, tanto os que possuíam muitos bens como os desprovidos deles, porque não abriam mão de dizer que tinham por pai Abraão, pois julgavam que já estavam ao abrigo da bem-aventurança prometida por Deus.

Os pobres descritos por Jesus como bem-aventurados são aqueles que reconhecem que não possuem recursos para se salvar e, através desta abordagem, fica implícito que qualquer (judeu ou gentio) que obedece ao mandamento de Deus é herdeiro da promessa, pois Deus não faz acepção de pessoas.

As bem-aventuranças anunciadas por Cristo depunha contra os seus ouvintes, uma multidão de judeus. É significativo o fato de a plateia de Cristo ser formada de homens judeus, pois após anunciar as bem-aventuranças, volta-se para os seus ouvintes e faz uma exigência: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

Os pobres são apresentados como herdeiros do reino dos céus, mas os ouvintes de Cristo são instados a realizarem obras que exceda a dos seus lideres e mestres religiosos para que possa alcançar a bem-aventurança! Através do anuncio das bem-aventuranças Jesus enfatizou que os judeus estavam em igual condição aos gentios se não obtivessem obras superiores aos escribas e fariseus ( Jo 3:3 ; Mt 5:20 ).

A obra que excede as dos escribas e fariseus é obediência ao mandado de Deus: crer no enviado de Deus. A obra de Deus é perfeita: Cristo! Cristo veio ao mundo revelar aos homens a vontade de Deus e realizar a sua obra! ( Jo 6:29 ) Não basta como os judeus dizer que crê em Deus, antes é necessário realizar o que Ele determina: crer no testemunho que Ele deu acerca do seu Filho Jesus Cristo “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” ( 1Jo 3:18; 1Jo 5:9 -11).

Os judeus diante da mensagem de Cristo não reconheciam que precisavam de salvação, pois entendiam que ser descendente da carne de Abraão era requisito suficiente e imprescindível para ser salvo “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão” ( Jo 8:32 ); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8).

Em lugar de confiarem em Deus, faziam da carne de Abraão o seu ‘braço’ (salvação). Ora, aquele que confia na carne (faz da carne o seu braço) é maldito, pois confia em si mesmo (homem que confia no homem) “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ; Fl 3:3 ).

Os judeus, por serem descendentes de Abraão, se consideravam bem-aventurados, ricos para com Deus. Não compreenderam que a bem-aventurança prometida por Deus só é concedida aos gerados por Deus participante da carne e do sangue do Descendente prometido a Abraão, que é Cristo.

Por não compreenderem as profecias, os judeus como povo prevaricam nas suas atribuições ( Is 43:27 ). As escrituras eram como um livro selado para eles, daí o porquê eram tidos por cegos, loucos, bêbados, etc. Em lugar de atenderem a voz de Deus que é vinho e leite, beberam dos cachos de uvas de Sodoma e Gomorra “Mas também estes erram por causa do vinho, e com a bebida forte se desencaminham; até o sacerdote e o profeta erram por causa da bebida forte; são absorvidos pelo vinho; desencaminham-se por causa da bebida forte; andam errados na visão e tropeçam no juízo” ( Is 28:7 ); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ; Dt 32:28 -32).

Citar o evangelho somente para destilar sarcasmo demonstra que o escritor é só mais um na grande massa de homens que não compreendem o evangelho de Cristo “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” ( 1Co 2:14).

A crítica aos parasitas que infestam as inúmeras estruturas religiosas, quer sejam elas pagãs ou dita cristãs, é válida. Uma análise da sociedade nos revela que os parasitas não poupam as religiões pagãs e nem os sistemas de governos laicos, pois todas as organizações humanas ‘sofrem’ com as ações dos parasitas. Tomando a Igreja Católica Apostólica Romana como exemplo, verifica-se que ela não foi instituída por Cristo como seu corpo e nem o estado do Vaticano como pertencente ao seu reino.

No quesito ‘igreja’, Cristo erigiu o seu próprio corpo: templo santo para habitação de Deus em espírito ( Ef 2:21 ). Após a morte de Cristo, o seu corpo está repartido por todos os cristãos. O corpo de Cristo, a sua igreja, não se trata de uma organização religiosa ou de um estado teocrático onde parasitas possam se instalar. A igreja de Cristo é formada por homens que igualmente confessam que Jesus é o Filho de Deus.

Mas, como Cristo sabia que surgiriam homens que imitariam os seus seguidores, copiando posturas e acrescendo tom dogmático as palavras, ele notificou os seus seguidores a terem cuidado com os falsos profetas, pois só é possível conhecê-los pelo fruto, e não pela aparência ( Mt 7:15 ).

Enquanto os seguidores de Cristo pensam nas coisas de cima, onde Cristo está assentado, os falsos mestres só atentam para as coisas terrenas. Os falsos mestres se infiltram nas comunidades a fim de banquetear-se com os cristãos, mas apascentam a si mesmos “Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fl 3:19); “Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas” ( Jd 1:12).

‘O parasita’ de Machado de Assis é crítica severa a certas figuras do seu tempo que sobrevivia à custa das instituições. Através do sarcasmo, Machado de Assis tentou driblar a sina de se tornar um ‘fanqueiro literário’, mas sucumbiu ao fado: muitos dos seus trabalhos são ramas que se enroscaram na Bíblia pelo prestigio que ela contém. Ex: Dom Casmurro, Adão e Eva, A Igreja do Diabo, O espelho, Esaú e Jacó, etc.

Reitero que as abordagens de Machado de Assis não são de todo mal do ponto de vista sociocultural, pois a sua produção literária é de grande valor cultural. O mal se instala quando um leitor dos textos de Machado de Assis desconhece a essência dos textos bíblicos que foram utilizados, pois poderá chegar a conclusão que Machado de Assis detinha conhecimento suficiente para interpretar as Escrituras.

 

 

[1] Intertextualidade – é uma referência explícita ou implícita de um texto em outro “Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto. Em lugar da noção de intersubjetividade, instala-se a de intertextualidade” KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974a, p.64,

[2] Teologia da Libertação é um movimento supra-denominacional, apartidário e inclusivista de teologia política, que engloba várias correntes de pensamento que interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo em termos de uma libertação de injustas condições econômicas, políticas ou sociais. Ela foi descrita, pelos seus proponentes como reinterpretação analítica e antropológica da fé cristã, em vista dos problemas sociais, mas outros a descrevem como marxismo, relativismo e materialismo cristianizado – Wikipédia<http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_Libertação> consulta realizada em 19/01/15




Salmo 1 – Bem-aventurança

Se o homem tem Cristo, o tal é conhecido de Deus, uma vez que é de novo criado na condição de filho de Deus. Não é o comportamento do homem que concede a filiação divina, mas sim o nascer da água e do Espírito.


Salmo 1 – Bem-aventurança

1- Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.
2 – Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.
3 – Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará.
4 – Não são assim os ímpios; mas são como a moinha que o vento espalha.
5 – Por isso os ímpios não subsistirão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos.
6 – Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá.

 

As profecias

Este salmo é a primeira profecia que compõe os salmos.

Antes de se lançar a recitar este cântico hebraico é bom considerar que os salmos são composições proféticas. Para analisa-lo e compreende-lo, se faz necessário considerar também que, quando o rei e profeta Davi separou alguns homens para o ministério dos cânticos, os designou para profetizarem ao som de instrumentos musicais ( 1Cr 25:1 -3).

O rei Davi era profeta ( At 2:30 ), e grande parte das suas previsões tinha por tema o Cristo ( At 2:31 ). As previsões de Davi e dos seus ministros abordaram vários aspectos da vida de Cristo. Os salmos apresentam Cristo em seus vários aspectos: o filho do homem, o filho de Davi, o Senhor que criou os céus e a terra, o servo do Senhor, o Grande Rei, etc.

A leitura dos salmos, se feita meticulosamente comparando coisas espirituais com as espirituais, nos leva a uma interpretação segura como a que os apóstolos apresentam em suas exposições em todo o Novo Testamento.

 

Salmo Primeiro

O Salmo primeiro é o salmo da bem-aventurança, da alegria, do regozijo, da felicidade, porém, chama-nos a atenção o fato de o rei Davi apresentar a bem-aventurança apontando para um único homem: “Bem-aventurado o homem…” (v. 1).

Por que o salmista não disse ‘bem-aventurados os homens’? Ora, nas escrituras temos várias passagens que enfatizam a bem-aventurança de todos quantos confiam em Deus. Ex:

“Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” ( Sl 2:12 );

“Bem-aventurados os que guardam os seus testemunhos, e que o buscam com todo o coração” ( Sl 119:2 ).

O que distingue o homem do Salmo primeiro, verso 1, dos homens do verso 12, do Salmo segundo? A distinção está no fato de o homem ditoso (bem-aventurado) não andar segundo o conselho dos ímpios.

Qual é o conselho dos ímpios? Ora, o conselho dos ímpios tem por base o engano, a mentira, a falsidade, e não a palavra de Deus, que é a verdade “Os pensamentos dos justos são retos, mas os conselhos dos ímpios, engano” ( Pv 12:5 ).

O conselho dos ímpios é formado pelos religiosos em Israel, que utilizavam a lei por pretexto, porém, seguiam os desvarios dos seus corações enganosos. Diz dos homens que honram a Deus com os lábios, mas que o coração está longe ( Is 29:13 ).

O salmo 12 apresenta a essência do conselho dos ímpios:

“Cada um fala com falsidade ao seu próximo; falam com lábios lisonjeiros e coração dobrado. O SENHOR cortará todos os lábios lisonjeiros e a língua que fala soberbamente. Pois dizem: Com a nossa língua prevaleceremos; são nossos os lábios; quem é SENHOR sobre nós?” ( Sl 12:2 -4).

Com coração enganoso, os fariseus falavam entre si e, diante do Cristo, o enviado de Deus, declaravam: Quem é o Senhor sobre nós? Ninguém entre os religiosos judeus falava a verdade, antes com a língua destilavam veneno semelhante ao da serpente (Sl 58:1 4).

Cristo não trilhou  pelo conselho dos ímpios porque obedeceu a palavra de Deus em verdade, e nunca houve engano em sua boca.

“Quanto ao trato dos homens, pela palavra dos teus lábios me guardei das veredas do destruidor” ( Sl 17:4 ).

A impiedade é condição que decorre de nascimento, e não de comportamento. Os homens alienam-se de Deus desde o ventre, e no ventre se tornam ímpios em função da condenação ocorrida no Éden ( Sl 58:3 ).

O Salmo 1 apresenta um conselho formado por ímpios, homens oriundos e um geração má e que nunca se lavaram da imundície herdade de Adão ( Pv 30:11 -12). Os ímpios falam mentiras desde que nascem, porém, há o conselho dos ímpios: homens que se organizam entorno de uma doutrina, um pensamento, uma religiosidade, e impõe-na aos outros.

A mentira do conselho dos ímpios procede do coração enganoso que receberam quando do nascimento natural ( Jr 17:9 ). É em função deste coração enganoso que Jesus alertou os escribas e fariseus, dizendo:

“Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca ( Mt 12:34 ).

É por causa desta ‘mentira’ que o apóstolo Paulo diz:

“De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ).

De todos os homens que vieram ao mundo, Cristo é o bem-aventurado de Deus, pois nunca se achou engano na sua boca, pois somente Ele não foi gerado segundo o sangue, a vontade da carne e a vontade do varão ( Jo 1:12 -13 ; 1Pe  2:22 ).

Dele, em espírito, disse Davi:

“JULGA-ME, SENHOR, pois tenho andado em minha sinceridade (…) Mas eu ando na minha sinceridade” ( Sl 26:1 e 11).

Ora, todos os outros homens quando nascem, alienam-se desde o ventre da mãe, andam errados e proferindo mentiras.

“Porque não há retidão na boca deles; as suas entranhas são verdadeiras maldades, a sua garganta é um sepulcro aberto; lisonjeiam com a sua língua” ( Sl 5:9 ; Sl 51:5 ; Sl 58:3 : Sl 53:3 ; Is 48:8 ).

Com Cristo não ocorreu o que ocorre com a humanidade, pois Ele foi lançado na madre por Deus, e não por um homem vendido ao pecado como escravo ( Sl 22:10 ).

No salmo 38, o salmista descreve a ação do conselho dos ímpios:

“Também os que buscam a minha vida me armam laços e os que procuram o meu mal falam coisas que danificam, e imaginam astúcias todo o dia. Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca. Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação” ( Sl 38:12 – 14).

Quando entrou no mundo, Cristo não seguiu o ‘conselho’ vão dos ímpios “Não me tenho assentado com homens vãos, nem converso com os homens dissimulados. Tenho odiado a congregação de malfeitores; nem me ajunto com os ímpios” ( Sl 26: 4- 5). Jesus não se assentou com os escribas e fariseus para compartilhar da doutrina (pão) que se alimentavam “Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus” ( Mt 16:12 ).

Cristo é o rebento do tronco de Jessé, o renovo justo prometido a Davi, a verdade que brotou: “PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará” ( Is 11:1 ); “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra” ( Jr 23:5 ); “A verdade brotará da terra, e a justiça olhará desde os céus” ( Sl 85:11 ).

O caminho dos pecadores é pertinente a todos os homens gerados da carne de Adão, porém, dentre os pecadores há os ímpios e os escarnecedores. Os ímpios são aqueles que tropeçam na pedra eleita e preciosa, que é Cristo “O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem sabem em que tropeçam” ( Pv  4:19 ). Os escarnecedores, por sua vez, são aqueles que, apesar do alerta das Escrituras, nem mesmo investigam a possibilidade o Cristo ser o servo do Senhor.

O caminho dos pecadores decorre da porta larga por onde todos os homens entram ao ‘abrir’ a madre. É na madre que todos os homens juntamente se desviam e alienam-se de Deus ( Sl 58:3 ; Sl 53:3 ). É na madre que todos os homens juntamente se desviam, aliena-se e tornam-se imundos!

Os ímpios que compõe o conselho do verso 1 são os loucos, os néscios, os filhos de Jacó, homens a que a palavra de Deus lhes foi confiado, que honram a Deus com a boca, porém, o coração está longe de Deus. Tudo o que dizem reflete impiedade e o desvairo de seus corações impenitentes. Os ímpios são aqueles que tomam o nome de Deus em vão, que o invocam, mas não em justiça e nem em verdade ( Rm 3:2 ; Rm 2:20 ; Is 48:1 ; Sl 139:19 -20).

Os ímpios são homens de violência, ou seja, que não confiam em Deus, antes confiam na força dos seus braços, confiam na carne, pois se declaram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão.

Os salmos geralmente vaticinam que os ímpios são homens maus, violentos, e o conselho deles continuamente são de guerra, pois haveriam de espreitar o Ungido de Deus com suas línguas afiadas e, continuamente, espreitariam o Cristo para verem se o pegavam nalguma contradição.

“Aguçaram as línguas como a serpente; o veneno das víboras está debaixo dos seus lábios. (Selá.) Guarda-me, ó SENHOR, das mãos do ímpio; guarda-me do homem violento; os quais se propuseram transtornar os meus passos. Os soberbos armaram-me laços e cordas; estenderam a rede ao lado do caminho; armaram-me laços corrediços” ( Sl 140:2- 5).

 

Deleite

O bem-aventurado tem o seu prazer na lei do Senhor! O único homem que assim se portou foi Cristo, pois Ele mesmo disse:

“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ).

O deleite, a comida, a satisfação de Cristo estava em fazer a vontade do Pai.

“Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Enquanto os homens se deleitam (fartam) com o engano proveniente dos seus corações enganosos (fruto dos seus ventres) , o prazer de Cristo estava em cumprir a lei do Senhor.

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” ( Pv 18:20 )

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ).

Sobre meditar de dia e de noite na lei do Senhor, o salmista Davi predisse:

“Louvarei ao SENHOR que me aconselhou; até os meus rins me ensinam de noite. Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei. Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” ( Sl 16:7 -10).

O profeta Isaías vaticinou que o Messias teria língua erudita e que teria os ouvidos despertos para ser instruído pelo Senhor ( Is 50:4 ). Ao realizar a vontade do Pai, Jesus voltou a sua atenção para as palavras das profecias e nela meditava de dia e de noite.

Como resultado, Cristo é comparável a uma árvore plantada junto a ribeiros e águas, pois deu o seu fruto ao seu tempo. Cristo é a videira verdadeira ( Jo 15:1 ), e os que creem são as varas ( Jo 15:5 ). As palavras de Cristo são fruto de vida, palavras de vida eterna ( Jo 6:68 ); “O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas é sábio” ( Pv 11:30 ).

Tudo quanto Cristo fez prosperou, pois Deus mesmo disse: “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ). Cristo é o Verbo encarnado que fez o que era aprazível a Deus. Tudo quanto fez prosperou, pois conduziu muitos filhos à glória de Deus.

“Eu, eu o tenho falado; também já o chamei, e o trarei, e farei próspero o seu caminho” ( Is 48:15 ).

O homem ditoso do Salmo primeiro é Cristo, o Servo do Senhor, o Justo.

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

 

Como alcançar a ditosa alegria (bem-aventurança)

Para entender plenamente os conceitos que este Salmo apresenta, necessário é analisar outros capítulos que compõe os livros dos Salmos, complementando a análise com o conhecimento que há no Evangelho de Cristo.

O evangelho demonstra que homem algum será salvo por intermédio de suas realizações e condutas pessoais, ou seja, a salvação de Deus é alcançada somente através de Cristo, a fé que se manifestou ( Gl 3:23 ).

O conhecimento prévio da verdade do evangelho e a analise de outras passagens dos salmos faz com que a leitura do Salmo Primeiro seja esclarecedora. Observe:

  • “Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto” ( Sl 32:1 );
  • “Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano” ( Sl 32:2 );
  • “…bem-aventurado o homem que nele confia” ( Sl 34:8 );
  • “Bem-aventurado o homem que põe no SENHOR a sua confiança, e que não respeita os soberbos nem os que se desviam para a mentira” ( Sl 40:4 );
  • “Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti, para que habite em teus átrios” ( Sl 65:4 );
  • “Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados” ( Sl 84:5 ).

Há um padrão de ideia específico nos versículos acima que torna o Salmo Primeiro diferente dos outros salmos. Enquanto o Salmo Primeiro demonstra que o bem-aventurado é aquele que não anda segundo o conselho dos ímpios, os outros salmos demonstram que só os que confiam em Deus são acolhidos por bem-aventurados.

É contra senso entender que o Salmo Primeiro destaca que a bem-aventurança decorre de questões comportamentais como:

a) não andar em uma mesma estrada com pessoas que não comungam de uma mesma religião;

b) não se assentar em uma mesa com homens que não possuem os mesmos costumes, e;

c) não parar em uma roda de pessoas que não pertencem a um mesmo povo.

Os judeus tinha um cuidado extremo com relação às questões da contaminação, pois se mantinham separados dos outros povos em tudo, pensando que através desta prática estavam cumprindo o estipulado no Salmo primeiro.

Mas, sobre este aspecto, o apóstolo Paulo assevera:

“Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo” ( 1Co 5:10 ).

Conforme Paulo demonstra, se a bem-aventurança é alcançada através de questões comportamentais, necessariamente o bem-aventurado não mais estaria no mundo. Porém, Jesus mesmo disse: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” ( Jo 17:15 ).

A bem-aventurança não é proveniente de questões comportamentais tais como não entrar na casa de pecadores; não andar com eles em um mesmo caminho ou, assentar-se com eles para comer. Os escribas e fariseus seguiram esta linha de interpretação comportamental e tropeçaram na pedra de esquina, pois não analisaram o Messias segundo as Escrituras, e sim com base em uma carnal compreensão.

Quem é bem-aventurado? A resposta sobre quem é bem-aventurado encontra-se no último versículo do Salmo Primeiro, a saber: somente é bem-aventurado aquele que tem o seu caminho conhecido pelo Senhor! (v. 6a).

 

“Pois o Senhor conhece o caminho dos justos” ( Sl 1:6 ).

O que realmente torna o caminho do homem conhecido de Deus? Quando é que os homens tornam-se bem-aventurados? Quando:

  • A transgressão é perdoada por Deus;
  • O pecado é encoberto por Deus;
  • Não é imputada a maldade;
  • Confia-se em Deus, etc.

Para ter o caminho ‘conhecido por Deus’, o homem não pode estar firmado em argumentos pobres e fracos tais como: “Não toques, não proves, não manuseies?” ( Cl 2:21 -23). Isto porque os princípios ou argumentos que decorrem de questões comportamentais são fracos e pobres diante de Deus “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Aquele que tem o caminho conhecido pelo Senhor, este é justo diante d’Ele, pois o caminho conhecido pelo Senhor é Cristo. Somente é justo perante Deus quem entra pela porta estreita. Quem entra pela porta estreita tem o seu caminho aplainado por Deus. Para alcançar tal bênção é preciso confiar em Deus. Só é justo quem obteve o perdão das transgressões. Somente aqueles que preenchem os quesitos anteriores são verdadeiramente ‘conhecidos’ do Senhor, ou seja, possuem comunhão plena.

As poesias hebraicas trabalham ideias, o que substitui o ritmo e a rima, características essenciais as poesias da nossa cultura. É por causa dessa construção do texto poético (paralelismo) que a última frase da poesia complementa a ideia da introdução do salmo.

A ideia que o salmo primeiro enfatiza é: o homem somente é bem-aventurado quando trilha o caminho conhecido pelo Senhor. Ora, para que o homem seja bem-aventurado é necessário nascer de novo, entrando por Cristo, que é o caminho pelo qual os justo entram ( Sl 118:20 ). Todos os que entram por Cristo passam a trilhar o caminho que o conduz a Deus. A semelhança de Cristo tal homem é feito santo e justo, portanto, bem-aventurado! Aleluia!

Já o caminho dos ímpios perecerá como consequência de Deus não ‘conhecer’ o caminho deles. Não há comunhão entre a luz e as trevas.

A ideia que a palavra ‘conhecer’ transmite neste verso é a ideia de união plena, de comunhão intima, é o mesmo que se tornar um só corpo. Transmite a ideia de que Deus uniu-se ao homem e o homem uniu-se a Deus ( IJo 4:15 -16). Somente aqueles que foram gerados de Deus por intermédio do evangelho, trilham o caminho conhecido pelo Senhor.

Os ímpios perecerão, mas não em consequência de terem se assentado em rodas de beberrões para contar anedotas. Não é porque frequentam lugares reprováveis pela moral humana que os ímpios estão perdidos. Eles perecerão porque Deus não conhece o caminho deles! Perecerão porque Deus não está neles, e vice-versa. Perecerão porque trilham um caminho errôneo desde que nascem. Perecerão porque entram pela porta larga, que é Adão e seguem por um caminho que os conduz à perdição.

Embora os fariseus e os escribas mantivessem uma vida regrada, frequentando as sinagogas e o templo, eram ímpios. Eles formavam o conselho dos ímpios, e juntamente estavam em um caminho que os conduziam à perdição.

Observe que o salmo faz referência a um caminho, e não a vários caminhos: “Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá” (v 6). Ora, sabemos que só há dois caminhos, o largo e o estreito ( Mt 7:13 ).

Os homens sem Cristo não subsistirão no juízo em decorrência do caminho que estão, e não por questões comportamentais e morais. Isto porque, antes mesmo de comparecerem perante o Tribunal do Grande Trono Branco, todos eles já estão condenados e as suas obras não lhes aproveitarão ( Jo 3:18 ).

O que levou a humanidade à condenação foi a queda de Adão ( Rm 5:19 ). Lá no Éden os homens juntamente se desviaram e tomaram um caminho ‘desconhecido’ por Deus ( Sl 53:3 ).

Haverá um dia em que os ímpios estarão excluídos do ajuntamento solene, visto que, os justos terão um lugar separado dos ímpios. Este trecho não se refere aos nossos dias! Acaso, hoje, não existem ímpios em nossas reuniões solenes?

Quando o homem crê em Cristo é criado de novo e passa a condição de filho de Deus, e tudo quanto se refere a Cristo torna-se válido aos que creem.

1º ) “Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará!” (v. 3) – Aquele que crê em Cristo passa a ser conhecido do Senhor, e é COMO uma árvore plantada junto a ribeiros de águas. É planta plantada pelo Pai ( Mt 15:13 ), árvore de justiça. Os que creem produzem seu fruto na estação certa porque está ligado à videira verdadeira, e é dela que vem o fruto. A união entre o homem e Cristo faz com que produzamos bons frutos à seu tempo ( Jo 15:2 ), pois tudo o que produzirmos será segundo a natureza de Cristo. Não há como uma árvore boa produzir frutos maus, assim como é impossível uma árvore má produzir bons frutos.

2º ) “Não são assim os ímpios; mas são como a moinha que o vento espalha” (v. 4). – Enquanto o justo está edificado sobre a pedra de esquina, os ímpios são comparados à moinha levada pelo vento. Não tem um local fixo.

Por fim, compare:

“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” ( Sl 1:1 -2).

“Porque o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá” (v. 6).

Observe os dois versículos acima e perceba que existem vários ímpios, mas só um ‘conselho’. Existem vários pecadores, mas só um ‘caminho’. Existem inúmeros escarnecedores, mas uma só ‘roda’.

Semelhantemente, existem vários justos, mas só um caminho é conhecido pelo Senhor. Muitos ímpios perecerão, mas o caminho deles é único, o caminho espaçoso que leva à perdição.

A diferença entre justos e ímpios está no caminho em que estão trilhando, e não em questões comportamentais. É por isso que Jesus disse que há dois caminhos: o caminho estreito e o caminho largo “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 ).

Alguém pode questionar: Por que não é o comportamento que faz diferença entre quem é justo ou ímpio?

Analise: há pessoas não crentes (pessoas que não conhecem a Cristo) que são sinceras, regradas e fiéis no trato, mas que não alcançam salvação. O comportamento destas pessoas interessa a elas e a sociedade em que convivem, mas para a salvação, o comportamento social delas não é de valor algum.

O apóstolo João evidencia esta verdade: “Quem tem o Filho tem a vida, mas quem não tem o Filho de Deus não tem vida” ( 1Jo 4:12 ). Para ser salvo é preciso ter a Cristo, pois boas ações não salva o homem. Como ter o Filho? Basta recebê-lo, ou seja, crendo n’Ele ( Jo 1:12 ). Quem tem bom comportamento e goza de uma boa moral na sociedade necessita de Cristo, visto que ainda não tem vida em si mesmo ( Ef 2:1 ).

Se o homem tem Cristo, o tal é conhecido de Deus, uma vez que é de novo criado na condição de filho de Deus. Não é o comportamento do homem que concede a filiação divina, mas sim o nascer da água e do Espírito.

“Não é aquilo que o homem faz, ou que deixa de fazer (ação ou omissão) que lhe dará direito à vida eterna, mas sim, ter o caminho conhecido pelo Senhor. Para ter o caminho conhecido pelo Senhor é necessário entrar pela porta estreita, que é Cristo. Este verdadeiramente é bem-aventurado, pois aprendeu com aquele que é humilde e manso de coração”

Os bem-aventurados são aqueles que têm o caminho ‘conhecido’ pelo Senhor, ou seja, que contemplam o Senhor na beleza da sua santidade. Os benditos do Senhor, além de serem agradáveis a Deus por Jesus Cristo, portam-se de modo a não dar escândalo aos judeus, aos gregos e à igreja de Deus, pois transformam o seu entendimento e gozam da liberdade concedida por Deus de modo diferenciado dos homens devassos deste mundo.

Porém, vale destacar que não é o comportamento diferenciado daqueles que alcançaram a bem-aventurança que lhes deu o direito à condição de alegria verdadeira e permanente em Deus. O que lhes garantiu tal condição é a fé (Cristo) que opera pelo amor (obediência).




Como Davi utilizou a palavra ‘justificação’

Através da citação do salmista Davi é possível dimensionar a extensão das expressões ‘justificar’ e ‘justificação’, resta que os cristãos deveriam considerar como sendo certa a morte deles com Cristo ( Rm 6:2 -3 e 7 e 11), e que, da mesma maneira é certa a justificação deles, visto que, aquele que está morto também está justificado.


Como Davi utilizou a palavra ‘justificação’

“Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares.” (Salmos 51:4)

A palavra ‘justificado’ é empregada pelo salmista Davi para dar a conhecer aos seus leitores que Deus é justo (justificado). Como o salmista sabe que Deus é justo, isto motiva o salmista a admitir a sua condição. Desta forma, verifica-se que a palavra ‘justificado’ (declarar justo) somente se aplica ao que é verdadeiro em essência.

Parece ser redundante, porém não é: Davi declara que Deus é justo porque Ele é verdadeiramente justo, e não por simplesmente o salmista entender que é deste modo.

O apóstolo Paulo ao declarar que ‘Deus é verdadeiro’ se fundamenta na declaração do rei Davi, ou seja, ao declararmos algo que diz respeito ao nosso Deus, temos plena consciência de que é a verdade, pois é o que a Escritura nos diz.

“Aquele que aceitou o seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro” ( Jo 3:33 )

Chegamos a um ponto crucial: se o apóstolo Paulo utiliza a palavra ‘justificado’ (declarar justo) para expressar algo a respeito dos cristãos, tal declaração também tem que ser verdadeira, ou seja, espelhar a realidade pertinente aos cristãos.

Não há como declarar que alguém está justificado sem que esta pessoa não é efetivamente justa, ou seja, os cristãos efetivamente morreram “Nós, que estamos mortos para o pecado…”, e foram declarados justos “… porque aquele que está morto está justificado do pecado”.

Quando o apóstolo Paulo escreve que os cristãos foram declarados justos, ele não faz referência a uma anistia, ou a uma absolvição, ou a uma concessão, ou a ter em conta ou a um faz de conta. Paulo faz referência a algo que é pleno de todo: aquele que está morto está justificado.

Quem não é cristão não faz jus a tal declaração, pois é certo que este não morreu para o pecado. É possível que alguma pessoa que não esteja inclusa no pronome da primeira pessoa do plural de Romanos seis, verso dois ‘Nós…’ ( Rm 6:2 ), receba a declaração de que é justa? Não! Por quê? Porque esta pessoa não esta morta para o pecado!

Quem não está morto para o pecado não pode ser justificado (declarado justo), pois tal afirmação não seria verdadeira.

Não há como aplicar a palavra ‘justificado’ a quem não morreu, visto que todo aquele que é nascido da carne, não é verdadeiro “… e todo o homem mentiroso como está escrito” ( Rm 3:4 ).

Todos os homens nascidos de Adão não são verdadeiros, porém Deus é verdadeiro.

A condição daquele que não esta em Cristo é mentira, em contrate com Deus, que é verdadeiro “Mas, se por causa da minha mentira sobressai a verdade de Deus para a sua glória…” ( Rm 3:7 ).

Ao citar o salmo 51, verso 4, o apóstolo Paulo estabelece o parâmetro necessário para compreendermos a extensão da palavra ‘justificar’ quando ela é empregada por ele.

O apóstolo Paulo só utiliza a palavra ‘justificar’ para algo que é categoricamente verdadeiro. Se houvesse uma sombra de dúvida, ou uma possibilidade daquele que está morto não estar justificado perante Deus, então Paulo não utilizaria a palavra ‘justificar’.

É certo que ‘justificar’ não se refere a uma conduta divina condescendente em declarar um injusto como sendo alguém justo.

É possível a Deus, que é verdadeiro, declarar justa uma pessoa não justa? Concluiremos de outro modo: Deus não justifica aquele que está vivo para o pecado.

Já que, através da citação do salmista Davi é possível dimensionar a extensão das expressões ‘justificar’ e ‘justificação’, resta que os cristãos deveriam considerar como sendo certa a morte deles com Cristo ( Rm 6:2 -3 e 7 e 11), e que, da mesma maneira é certa a justificação deles, visto que, aquele que está morto também está justificado.

Se Paulo recomenda aos cristãos que assumam efetivamente a condição de mortos para o pecado ( Rm 6:11 ), é porque precisavam estar cônscios de que estavam plenamente justificados perante Deus “Sendo, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ).

Os cristãos são justos perante Deus pelos seguintes motivos:

a) É Deus quem nos justifica “É Deus quem os justifica” ( Rm 8:32 );

b) Temos paz com Deus, evidência real de que fomos justificados pela fé “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” ( Rm 5:1 ), e;

c) Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, pois fomos plenamente justificados “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus…” ( Rm 8:1 ).

Não está justificado aquele que pesa sobre ele condenação. Não está justificado aquele que ainda está em inimizade com Deus. Não está justificado aquele que não confia em Deus, que pode justificá-lo.

Se uma pessoa não crê no que Deus já lhe providenciou salvação gratuita, resta que esta pessoa não crê em Cristo Jesus, pois todas estas bênçãos foram providenciadas na cruz.

O apóstolo demonstra que só é justificado aquele que está efetivamente morto para o pecado, e recomenda aos cristãos que se conscientizassem de tal condição ( Rm 6:11 ).

Só aqueles que foram crucificados com Cristo, plantados com Ele, sepultados pelo batismo na morte e que ressurgiram com Ele, é que são justificados.




Lendo a Bíblia

O leite RACIONAL é administrado aos salvos (idôneo), ou seja, não é dado aos cristãos para que possam ser salvos, antes é dado aos salvos para que compreendam a dimensão do amor de Deus. Quem não é experimentado na palavra da justiça, devem se alimentar do leite racional, para que possa ‘crescer’ na compreensão.


Lendo a Bíblia

Você é um dos filhos de Deus, logo, membro da família “E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso” ( 2Co 6:18 ).

Você aprendeu também que a palavra de Deus é semente incorruptível, semente que concede vida ao homem gerado segundo Adão, que passa a ser um novo homem gerado pelo Pai Celeste (Espírito). Do mesmo modo que, para nascer neste mundo você precisou ser participante da semente corruptível de Adão, agora em Cristo, participante do evangelho (semente incorruptível), você adquiriu a natureza divina. És filho da Luz, pois você deixou de ser homem carnal para ser homem espiritual ( 1Pe 1:23 ).

Assim como todos os homens morreram diante de Deus por causa de Adão, basta crer na mensagem do evangelho que passarão a ter vida, participantes de Cristo, o último Adão. Quem é gerado de novo segundo o Espírito Eterno passou da morte (alienação de Deus) para a vida, ‘conhece’ a Deus, ou antes, foi conhecido d’Ele (conhecer = união íntima).

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 )

Para aqueles que tem fome e sede de justiça Cristo é o pão e a água que faz jorrar uma fonte de água que salta para a vida eterna. Quem crê em Cristo como diz a Bíblia, nunca mais voltará a ter sede e nunca mais terá fome. Basta crer (descansar) na esperança que Deus propôs aos homens por intermédio do evangelho que jamais terá fome e sede (fome e sede = alienação de Deus).

A humanidade morreu diante de Deus porque Adão desobedeceu (uma vez), comendo do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Por outro lado, para ter vida proveniente de Deus basta ao homem crer na mensagem do evangelho (uma vez) que será participante da obediência de Cristo, que morreu uma única vez pelo pecado da humanidade ( Rm 6:10 ).

Quando você aceitou a Cristo como salvador, crendo na Sua pessoa através da mensagem do evangelho, bebeu da água que faz jorrar uma fonte para a vida eterna, a palavra de Deus, e é certo que você nunca mais voltará a ter sede.

Jesus disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” ( Jo 6:51 ). Ser participante de Cristo, ou seja, comer (união) do pão vivo que desceu do céu é o mesmo que crer na mensagem do evangelho, e você, ao crer n’Ele, passou a ser participante da vida que é proveniente de Deus.

Jesus disse à mulher samaritana que quem bebesse da água que ele desse, nunca mais voltaria a ter sede. Ora, isto por sí só demonstra que você não tem mais sede ou fome, pois já tem a vida eterna. Você já passou da morte para a vida. Deixou a condenação de Adão e se uniu a Cristo, o último Adão.

Você adquiriu uma nova vida por intermédio da fé na palavra de Deus tornando-se homem espiritual (o que é nascido do Espírito é espírito). Isto significa que você foi criado idôneo (apto) para participar da herança dos santos na luz, ou seja, você é um dos filhos com pleno direito a herança prometida, sendo co-herdeiros com Cristo “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

Como filho, pleno (cheio) do Espírito de Deus, herdeiro de Deus e idôneo a participar da herança de Deus, segue-se que, espiritualmente, você não necessita de desenvolvimento ou crescimento. Você não mais precisa de aio (tutor), pois já é idôneo ( Cl 1:12 ). A semente que te deu vida (evangelho), o pão da qual você é participante, a fonte da qual você bebeu, concedeu a posição de ‘pronto’, pois agora, em Cristo, você é homem espiritual, nascido (do) da água (palavra) e do Espírito (de Deus). Você alcançou de Deus um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

Agora, após ser inteirado da sua nova condição em Cristo (aquele que está em Cristo nova criatura é), por que é preciso ler a Bíblia? Ainda falta algum coisa, se você já é participante da natureza de Deus e herdeiro de Deus?

Paulo ao perceber que ainda faltava alguma coisa aos cristãos orou a Deus dizendo: “… o Pai da glória vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação. Oro também para que sejam iluminados os olhos do vosso entendimento…” ( Ef 1:16 -17).

Ora, depreende-se do versículo acima que, o ‘iluminar dos olhos’ não é o mesmo que ‘conhecimento de Deus’. Conhecer a Deus, ou antes ser conhecido d’Ele é o mesmo que união intima, conforme empregou-se a palavra ‘conhecer’ para designar a união conjugal. O conhecer a Deus é proveniente da mensagem do evangelho, que também é designado de fé. Já os ‘olhos do entendimento’ (saber, conhecimento) é proveniente da sabedoria e revelação de Deus, que Ele concede àqueles que estão unidos a Cristo, por intermédio da sua palavra.

Sabemos que a graça de Deus foi revelada aos homens através do evangelho de Cristo (A fé que foi dada aos santos) “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” ( Tt 2:11 ), e quando o apóstolo Pedro Pedro disse: “Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém” ( 2Pe 3:18 ). estava recomendando aos cristãos ‘crescerem’ em ‘entendimento’ (conhecer, saber) aquele que lhes trouxe salvação.

O ‘conhecer’ (estar unido a, intima comunhão) a Deus é que traz graça (salvação) e paz (justificação e santificação), a paz que excede todo entendimento “Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor” ( 2Pe 1:2 ); “E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” ( Ef 3:19 ).

Ora, só pode ser cheio de toda plenitude de Deus aqueles que conhecem (uniram-se) a Deus, ou antes, foram conhecido por Ele. Por isso o ‘conhecer’ a Deus não pode ser confundido com ‘entendimento’, ‘compreensão’, ‘saber’.

Quanto mais o cristão conhece (compreende) o amor de Deus (Cristo), maior o entendimento, e a paz que ele alcançou lhe é multiplicada ( Rm 5:8 -9). O amor lança fora o medo! Somente através das Escrituras (Bíblia) é possível ao cristão compreender qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade (dimensão) do amor de Cristo em conceder a plenitude de Deus aos homens.

Ler a Bíblia não faz o cristão crescer ou desenvolver a ‘espiritualidade’, como muitos afirmam. O evangelho de Cristo nem de longe se compara a concepção mundana de que o homem desenvolve a sua espiritualidade através de meditações, orações, leituras, isolamento, sacrifícios. Um cristão não pode confundir a ideia de ‘espiritualidade’ com ser ‘espiritual’ em Cristo. Enquanto este só é possível alcançar quando o homem nasce de novo, aquele posicionamento aponta para o homem como sendo o agente que dá impulso a sua espiritualidade.

O alimento de Deus é que dá vida ao homem (pão e água viva), e o homem passa a ser participante da vida eterna quando crê em Cristo (come do pão e bebe da água), idôneo a participar da herança dos santos na luz. Porém, o que faz o homem crescer no ‘entendimento’ (conhecimento) é o leite racional, proveniente da leitura e analise da Bíblia. Observe:

“Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis” ( 1Co 3:2 );

“Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento” ( Hb 5:12 );

“Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino” ( Hb 5:13 ).

Após provar que o Senhor é bom, ou seja, após provar da salvação, é de bom alvitre que o cristão anele ‘entendimento’ (conhecimento) de Deus, que somente é possível através da leitura e estudo da palavra de Deus “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para por ele crescerdes para a salvação” ( 1Pe 2:2 ).

O leite RACIONAL é administrado aos salvos (idôneo), ou seja, não é dado aos cristãos para que possam ser salvos, antes é dado aos salvos para que compreendam a dimensão do amor de Deus. Quem não é experimentado na palavra da justiça, devem se alimentar do leite racional, para que possa ‘crescer’ na compreensão, quando passará a ser alimentado com alimento sólido.

Observe que não são as ações do cristão que promove o ‘entendimento’ (conhecimento): “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” ( Cl 1:10 ). Só é possível andar, agradar, frutificar e compreender (crescendo no conhecimento) a Deus após ter sido gerado d’Ele por meio do evangelho.

O crescimento no ‘conhecimento’ (entendimento), segundo o profeta Oseias é o mesmo que ‘prosseguir em conhecer ao Senhor’. Porém, para ‘prosseguir em conhecer’, primeiramente é necessário ‘conhecer’ a Deus (ser participante da sua natureza), ou antes, ser conhecido d’Ele “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra” ( Os 6:3 ).

A ordem ‘conheçamos’ fala de união intima com o Criador, e ‘prosseguir em conhecer’ fala de entendimento, compreensão da sua palavra, para que se evite que o maligno venha e arrebate a semente que da vida “Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta” ( Mt 13:23 ; Lc 8:12 ).

O novo nascimento é ato criativo de Deus, mas o conhecimento (saber) é gradativo “E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3: 10). Deus criou o novo homem segundo a sua imagem, participante da sua natureza, e o cristão se veste do que é pertinente ao novo homem, despindo-se do que era próprio ao velho homem (más ações). Por meio da fé (descansar) no evangelho (fé) Deus criou (fez) o novo homem segundo o poder que operou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos ( Jo 1:12 ; 1Jo 4:17 ).

O que se renova no novo homem é o conhecimento (compreensão), pois o aumento da compreensão se dá de acordo com a medida da renovação do entendimento (despir-se do que é pertinente ao velho homem). Por conseguinte, o modo de agir do cristão será transformado perante a sociedade. A renovação no entendimento faz com que o cristão não ande conforme o mundo ( Rm 12:2 ), mas segundo Cristo.

 

Perguntas e respostas:

1) Após aceitar a Cristo como Senhor e salvador é possível ter sede novamente? Jo 4:14

R. Não! Você nunca mais terá sede.

2) Quantas vezes é preciso comer do pão para ter vida eterna? Jo 6:51

R. Uma única vez!

3) A graça de Deus se manifestou trazendo _salvação_ a todos os homens.

4) Por que é preciso crescer na graça e no conhecimento? O que é crescer na graça? O que é crescer no conhecimento?

R. O cristão precisa crescer em conhecer aquele que lhe trouxe salvação, pois aquele que não tem o caminho conhecido pelo Senhor perecerá. Ler a Bíblia não faz o cristão ‘crescer’ espiritualmente, antes faz o homem espiritual crescer no conhecimento. O que faz o homem crescer no conhecimento é o leite racional, proveniente do conhecimento da Bíblia.

5) Ler a Bíblia trás crescimento espiritual?

R. Não! Pois o novo homem (espiritual) é criado perfeito. Não existe crescimento espiritual, antes crescimento no conhecimento (entendimento).

6) O que o cristão ganha através da leitura e estudo da bíblica?

R. Crescimento no conhecimento. A palavra é o leite racional.

7) Quais as dimensões do amor de Deus que o cristão precisa conhecer?

R. Largura, comprimento, profundidade, altura, etc ( Ef 3:18 ).

8) Assistir televisão trás estagnação espiritual?

R. Não! Quem bebeu da água que faz jorrar uma fonte para a vida eterna nunca mais terá sede, pois todas estas coisas perecem pelo uso.

9) A leitura da Bíblia e o seu estudo trás conhecimento que renova o entendimento do cristão. Esta transformação no entendimento faz com que o cristão não se __conforme _ com o mundo.




Um inocente também é justo?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ). Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.


Um inocente também é justo?

“Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 )

O Problema

É comum a ideia de que uma pessoa ‘inocente’ também é ‘justa’, como se estas duas palavras ‘inocente’ e ‘justo’ fossem sinônimas, porém, do ponto de vista bíblico não é correta está correlação entre as duas palavras.

A Bíblia ensina que inocente é o mesmo que justo? Uma criança recém nascida é inocente e justa? Um inocente pode não ser justo? O ímpio pode ser inocente?

Analisemos algumas passagens bíblicas.

 

As Crianças de Sodoma e Gomorra

Observe este diálogo entre Deus e o patriarca Abraão: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o SENHOR: Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:25- 26 ).

Este diálogo é muito conhecido, porém, é comum não serem feitas as seguintes perguntas: havia inocentes nas cidades de Sodoma e Gomorra? As crianças das cidades de Sodoma e Gomorra não eram inocentes, e por que elas foram destruídas? Elas, apesar de serem inocentes, também eram ímpias, uma vez que foram destruídas?

Consideremos o que Deus disse a Abraão: “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles ( Gn 18:26 ). Deus garantiu a Abraão que, se houvesse dentro dos portões das cidades de Sodoma e Gomorra pelo menos dez justos, não destruiria as cidades! ( Gn 18:32 )

Como bem sabemos, as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas, pois os três justos que haviam na cidade foram resgatados de lá, ou seja, Deus demonstrou que jamais destrói o justo com o ímpio, e que o juiz de toda a terra efetivamente faz justiça, pois não trata os justos como trata os ímpios ( Gn 19:16 ).

Após observar as garantias que Deus concedeu a Abraão “Não a destruirei por causa dos dez” ( Gn 18:36 ), e o resultado final, a destruição de Sodoma e Gomorra ( Gn 19:25 ), chega-se a seguinte conclusão: diante de Deus, ser ‘inocente’ não é o mesmo que ser ‘justo’, pois, se os inocentes fossem justos, ambas as cidades não seriam subvertidas devido às inúmeras crianças que haviam naquelas cidades.

Neste mesmo diapasão, o que dizer de milhares de crianças ‘inocentes’ que foram mortas no dilúvio, sendo que somente Noé foi declarado justo por Deus ( Gn 6:9 ; Gn 7:1 ; Hb 11:7 ).

Que dizer dos filhos de Acã? Eles também eram ímpios, mesmo sendo inocentes? ( Js 7:24 ). Os primogênitos do Egito não eram inocentes? ( Ex 12:29 ).

Através destes eventos é possível determinar que, ser inocente não e o mesmo que ser justo, e que ser justo não é o mesmo que ser inocente.

 

Os inocentes

Geralmente a Bíblia utiliza a palavra ‘inocente’ para designar uma pessoa ingênua, ou desavisada, como se lê: “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” ( Ex 20:7 ), ou seja, após receber o alerta solene “Não tomarás o nome do Senhor em vão”, o homem deixa de ser inocente.

Qualquer que utilizasse o nome de Deus em vão não mais seria considerado inocente, pois foi alertado.

Ora, se qualquer que for avisado pelo Senhor deixa de ser inocente, temos que Adão nunca foi inocente, pois ele foi avisado por Deus do mau, mas resolveu por si mesmo passar, e como conseqüência sofreu a pena “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Por causa do alerta solene Adão deixou de ser inocente, porém, continuava sendo um homem justo e sem conhecer o bem e o mal. Após desobedecer, Adão deixou de ser justo e passou a ser como Deus, conhecedor do bem e do mal.

O alerta divino acerca das conseqüências em ser participante da árvore do conhecimento do bem e do mal arrancou a inocência de Adão. Adão deixou de ser justo após desobedecer e passou a ser como Deus: conhecedor do bem e do mal, em virtude de ser participante (comer) da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Ou seja, a inocência de Adão foi perdida muito antes de ele conhecer o bem e o mal. A inocência não se perdeu após a transgressão, ou seja, antes mesmo da ofensa Adão já não era inocente por causa do alerta solene de Deus.

Salomão alertou: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pv 27:12 ). Ou seja, o aviso torna o homem apto para ver o mal, e este, por sua vez, deve se esconder. Em contra partida, o simples, o desavisado, o inocente, passa e sofre a pena! Por quê?

É comum os homens atinarem que o inocente não deva sofrer a pena, mas a Bíblia demonstra que a pena não passa do simples (inocente) “O prudente prevê o mal, e esconde-se; mas os simples passam e acabam pagando” ( Pv 22:3 ).

Mesmo os inocentes são passíveis de punição, mesmo as criancinhas inocentes são tratadas como os adultos, pois ambos são ímpios diante de Deus, e sofrem a pena: destituídos da glória de Deus.

 

Uma Criança pode ser considerada justa?

Após esta abordagem inicial, sobrevêm inúmeras perguntas: como é possível uma criança não ser justa, se ela é inocente? A partir de que idade uma criança é considerada ímpia? Qual a base da justiça de Deus ao destruir crianças e adultos? Etc.

As alegações de Abraão são verdadeiras: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ), pois Deus mesmo diz: “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

  • O juiz de toda a terra faz justiça;
  • Ele faz distinção entre justos e ímpios;
  • Deus não mata o justo com o ímpio, e;
  • Deus não declara (justifica) o ímpio como sendo justo.

Quando Deus recomendou ao povo de Israel algumas questões de direito, Ele orientou para que guardassem da falsa acusação, e que a pena capital não devia ser aplicada ao inocente e ao justo “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

Este verso estabelece uma diferença significativa entre justo e inocente, pois se ‘justo’ e ‘inocente’ fossem maneiras distintas de fazer referência a uma mesma condição, Deus não estabeleceria a distinção: não matarás o inocente e o justo ( Ex 23:7 ).

Tudo começou com Adão, o primeiro pai da humanidade. Através dele a humanidade lançou mão de uma condição miserável. Por causa da ofensa dele todos os homens pecaram, e em um só evento, todos juntamente se desviaram de Deus ( Sl 14:3 ).

Adão foi criado por Deus santo, justo e bom, ou seja, ele compartilhava da natureza de Deus. Adão existia em comunhão com a Vida e compartilhava da glória de Deus.

Porém, Adão foi avisado por Deus que, no dia em que comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, que estava no meio do jardim, haveria de morrer ( Gn 2:17 ).

Embora santo, justo e bom, Adão nunca foi inocente (ingênuo), pois foi alertado quanto as conseqüências de sua decisão “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pr 27:12 ).

Adão foi avisado e não se escondeu do mal, ou seja, por ter sido avisado, ele já não era simples, ou seja, inocente.

Há diferença entre ‘inocência’, que é ingenuidade e pureza, e ‘inocência’, que é estado de quem não é culpado, significado que é próprio aos tribunais. Não podemos confundir os significados da designação ‘inocência’, pois é essencial para a interpretação bíblica.

Para o Dr. Scofield houve a dispensação da inocência, ou seja, ‘o homem foi criado em inocência, colocado em um ambiente perfeito (…) e advertido das conseqüências da desobediência’ Bíblia de Scofield com Referências, explicação a Gn 1:28 . Ora, como foi avisado por Deus, Adão já não era mais ‘simples’ (inocente, ingênuo), mas não era culpado, ou melhor, segundo a linguagem utilizada nos tribunais ‘inocente’.

Deus criou o homem do pó da terra ( Gn 2:7 ), colocou-o no Jardim do Éden para lavrá-lo e guardá-lo ( Gn 2:15 ), e foi alertado por Deus quanto a árvore que estava no meio do jardim ( Gn 2:17 ). Adão foi criado puro (inocente, inculpável), santo e bom, e alertado (não mais inocente) quanto ao perigo de se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Porém, apesar de avisado, tanto a mulher quanto o homem preferiram dar ouvidos à serpente: “Certamente não morrereis” ( Gn 3:4 ). Não dar ouvidos (credito) a palavra de Deus alienou (extraviou) o homem do seu Criador. Após atender a palavra de Satanás, o homem deixou de compartilhar da vida e da glória que há em Deus.

O Homem morreu conforme a palavra do Senhor ( Gn 2:17 )! A justiça divina não tardou: o homem foi julgado e apenado com a morte “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ).

A morte é alienação de Deus. Por causa da lei santa justa e boa que diz: ‘… certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), o pecado encontrou ocasião na força da lei estabelecida por Deus, e por ela aprisionou o homem ( 1Co 15:56 ). Sem a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), não existia para o homem a possibilidade de alienação de Deus, ou seja, o pecado estaria morto ( Rm 7:8 ).

 

Os ímpios

Mas, porque os infantes de Sodoma e Gomorra, mesmo sendo inocentes, mentalmente e fisicamente incapazes de fazer o bem ou o mal não foram poupados por Deus? Por que não foram tidos por justos?

É fato: Deus prometeu que se houvessem dez justos nas cidades de Sodoma e Gomorra não a destruiria, porém, apesar de inúmeros inocentes, a cidade foi completamente destruída, o que nos deixa uma mensagem clara: as crianças não são justas, apesar de serem inocentes!

As cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas porque todos os homens foram formados em iniquidade, todos foram concebidos em pecado ( Sl 51:5 ).

O salmista Davi profetizou dizendo que todos os homens se desviaram e que juntamente se fizeram imundos ( 1Cr 25:1 ; Sl 53:3 ). Mas, onde e quando ocorreu o desvio, ou seja, a alienação da humanidade de Deus? Qual a idade que o homem passa a estar alienado de Deus?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ).

Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.

Profeticamente o salmista Davi escreve uma oração ao Senhor que retrata o anseio do Messias: “Ó Senhor, com a tua mão, livra-me dos homens do mundo, cuja porção está nesta vida. Enche-lhes o ventre da tua ira entesourada. Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ).

Os ‘homens deste mundo’ referem-se aos filhos de Adão, e tudo que possuem restringe-se a este mundo. A ira de Deus está reservada aos homens deste mundo, conforme demonstra o apóstolo Paulo “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” ( Rm 1:18 ).

A informação acima é de conhecimento geral, porém, o mais interessante é a informação a seguir: “Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ). Os filhos dos homens deste mundo também se fartarão da ira de Deus, e mesmo os seus pequeninos sobejarão da ira entesourada por Deus.

 

Julgamento e Condenação

O apóstolo Paulo traz a lume que a humanidade foi julgada e está sob condenação “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:17 ), o que difere de qualquer sistema religioso, pois todas as religiões dão conta que o juízo de Deus ainda está por vir.

Através de uma única ofensa Adão trouxe o juízo de Deus sobre todos os homens para condenação, ou seja, em Adão todos os homens se desviaram de Deus e juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ).

Todos os homens, sem exceção: homens, mulheres, crianças e velhos tornaram-se imundos e sob condenação.

A ofensa de Adão foi não crer na palavra de Deus que lhe preservaria a vida, o que o levou comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, que o tornou como Deus, conhecendo o bem e o mal. A ofensa se deu antes do conhecimento do bem e do mal, portanto, a condenação não depende da consciência, ou da capacidade do homem em realizar o bem e o mal.

Quando a Bíblia afirma que o homem é escravo do pecado, ela demonstra que assim como os filhos de escravos eram escravos, todos os descendentes de Adão também são escravos. Não importa a idade ou condição social, se criança ou velho, uma vez descendente de Adão são escravos do pecado.

A escravidão é uma condição que se estabelecia sobre homens, mulheres, jovens e crianças, da mesma forma que o pecado. Não é porque as criancinhas de Sodoma e Gomorra não possuíam consciência e nem dispunham de condições para realizar bem ou mal, que eram justas. Embora inocentes, simples, sofreram a mesma pena que foi imposta aos adultos, pois já estavam condenados à perdição por serem descendentes de Adão, e, portanto, por serem servos do pecado (ímpios).

Que ação, que entendimento, que compreensão, do que era capaz um infante que o tornava escrava? Bastava simplesmente nascer de pais escravos para ser escravo. Não havia nenhuma ação ou omissão por parte da criança, e neste aspecto, todos os descendentes de Adão são escravos do pecado.

A condição é própria a todos os homens, e não se vincula a questões de méritos. O apóstolo Paulo ao falar da condição do homem em sujeição ao pecado utiliza o vocábulo ‘doulos’, indicando escravidão em oposição à condição do homem livre, que é ‘eleutheria’.

‘Doulos’ é um termo que não possui conotação moral ou ética, e que data de um período histórico anterior a Sócrates, e que, portanto, também já era de conhecimento do apóstolo. O apóstolo Paulo preferiu o vocábulo ‘Doulos’ em lugar de ‘eleutheria’, o que demonstra que a escravidão ao pecado não depende de questões morais ou comportamentais.

‘Doulos’ possui sentido diferente de ‘enkráteia’, que é um conceito socrático, que introduziu o conceito de liberdade ética. Este conceito estabelece a liberdade como possuidora de senhorio sobre a existência orgânica e psíquica do homem, indicando a virtude como sendo ‘conhecimento’ e fundamentando a liberdade do homem no conhecimento e na racionalidade: conhecer o bem implica praticá-lo.

Observe: “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” ( Rm 6:17 ). O homem é servo do pecado sem qualquer conotação moral, uma vez que o apóstolo dos gentios utiliza o vocábulo ‘doulos’ e despreza o termo ‘eleutheria’.

 

O Caminho Largo

Quando Jesus orientou os seus ouvintes a entrarem por Ele: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ), ou seja, que nascessem de novo ( Jo 3:3 ), Ele também alertou acerca da porta larga.

Jesus é o último Adão, sendo necessário ao homem nascer de novo para ser participante da natureza divina ( 1Pe 1:2 e 22 -23 ; 1Co 15:45 ).

Mas, como não é primeiro o espiritual, senão o animal (o terreno), pois primeiro os homens carnais são gerados através de Adão, que é a porta larga, por onde todos os homens entram ao nascer neste mundo, para depois entrarem pela porta estreita, segue-se que a porta larga é o primeiro Adão “… porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( MT 7:13 ).

Jesus alertou que a porta é larga e que o caminho que conduz a perdição é espaçoso. Ir à perdição não depende da vontade, da consciência, do conhecimento ou da volitividade do indivíduo. O que conduz à perdição é o caminho largo que o homem se encontra após ter nascido segundo a vontade da carne, do sangue e da vontade do varão ( Jo 1:12 ).

De modo semelhante, é Cristo, o caminho, que conduz o homem a Deus, e, portanto, é necessário nascer de novo para trilhar o novo e vivo caminho.

 

Conclusão

Deus destruiu Sodoma e Gomorra porque não havia dez justos em ambas as cidades, o que nos faz lembrar dos infantes que nelas habitavam.

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades se houvesse nela dez justos, e acabou subvertendo Sodoma e Gomorra, conclui-se que as crianças não eram justas, embora fossem inocentes.

Devemos ter em mente também que a palavra inocente no Antigo Testamento tem o sentido de alguém ‘simples’, ‘desavisado’, diferente do sentido que passou a predominar ao longo dos anos, devido aos tribunais.

A ação de Deus no Antigo Testamento reitera a declaração do Salmista Davi, que diz: “E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente” ( Sl 143:2 ). O apóstolo Paulo reitera: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer” ( Rm 3:10 ), nem os infantes.

Em nenhuma das referências bíblicas excetuam-se as crianças, que embora sejam inocentes, diante de Deus são ímpias.

Esta distinção entre justo e inocente se fez necessária porque muitos cristãos, embora admitam que a humanidade sem Cristo seja réu do inferno por causa da sua natureza pecaminosa, entendem que os infantes não se enquadram neste quesito, pois entendem que os infantes não são lúcidos e não possuem consciência para diferenciar o bem do mal, o que impede que exteriorizem uma ação ou omissão pecaminosa.

Ou seja, contraria totalmente a mensagem de Cristo: os homens são sujeitos do verbo ‘hamartia’ porque são escravos do pecado, e não o contrário: são pecadores por causa de suas ações e omissões.

Qual a condição dos inocentes de Sodoma e Gomorra? “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 ). Eram ímpias, pois Abraão argumenta: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ).




O pecado jaz à porta

Devido à estrutura gramatical de Gênesis 4, verso 7, este verso é considerado pelos tradutores bíblicos como sendo o mais difícil de traduzir do Antigo Testamento, e conseqüentemente, esta dificuldade influencia os interpretes na sua atribuição. Porém, como o verso transmite uma ideia, mesmo que nebulosa, analisemos isoladamente todas as proposições nele contido à luz das escrituras, para compreender a recomendação divina que foi dada a Caim.


“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )

Devido à estrutura gramatical de Gênesis 4, verso 7, ele é considerado pelos tradutores bíblicos como sendo o mais difícil de traduzir do Antigo Testamento, e conseqüentemente, esta dificuldade influencia os interpretes na sua atribuição.

Porém, como o verso transmite uma ideia, mesmo que nebulosa, analisemos isoladamente todas as proposições nele contido à luz das escrituras, para compreender a recomendação divina que foi dada a Caim.

 

Se bem fizeres, não é certo que serás aceito?

Qual a resposta para esta pergunta?

Se Caim tivesse ‘feito’ o bem, seria aceito? Ele fez o mal e por isso foi rejeitado?

O salmista Davi deixou claro que todos os homens, de uma única vez em um mesmo evento (juntamente), se desviaram e se fizeram imundos. Como conseqüência de terem se tornados imundos, não há quem faça o bem, nem se quer um só homem “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um” ( Sl 14:3 ).

Ora, se não há se quer um homem que faça o bem, isto implica que Caim também estava impedido de realizá-lo. A Bíblia demonstra que Adão desviou-se, tornando-se imundo, e com ele todos os seus descendentes também se desviaram e destituídos estão da glória de Deus. Ninguém pode realizar o bem!

Por que Deus exortou Caim a ‘fazer’ o ‘bem’, se não há quem faça? A pergunta ‘Se bem fizeres, não é certo que será aceito?’, induz o leitor a concluir que fazer o bem era possível, logo, haveria uma aparente contradição nas escrituras. Quando se entende que Caim tinha condição de realizar o bem, a exortação ‘Se bem fizeres’ é contraditória “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ).

Deus é claro: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ). A mesma impossibilidade do etíope, ou que qualquer homem possui com relação a mudar a cor da sua pele, é a mesma com relação a fazer o bem. Da mesma forma que o leopardo não pode desfazer-se das suas manchas, o homem não pode realizar bem.

Como Deus apresentaria a Caim a oportunidade de ser aceito fazendo o bem, se fazer o bem era impossível? Não encontramos nas escrituras apoio para o argumento de que Deus aceita os homens através do realizar o ‘bem’!

A Bíblia dá testemunho que o homem somente é aceito pela fé, sem as obras Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala” ( Hb 11:4 ), pois “… sem fé é impossível agradar-lhe” ( Hb 11:6 ).

Com base nestas premissas, é certo que Deus não estava incentivando Caim a fazer o bem para que fosse aceito, o que contraria o princípio da justificação pela fé somente.

 

E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…

Desconsiderando o livro de Jó, esta é a primeira vez que a palavra traduzida por pecado (taj’x) aparece nas Escrituras.

A proposição acima é condicional, ou seja, a frase demonstra que se Caim não fizesse o bem (o que era impossível fazer quando analisado à luz das escrituras), o pecado estaria em seu lugar: à porta.

Como entendemos que é impossível ao homem fazer o bem, segue-se que a proposição condicional ‘E se não fizeres bem’, não corresponde à ideia bíblica. Mesmo sendo possível aos homens darem boas dádivas aos seus semelhantes, são maus diante de Deus “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos …” ( Lc 11:13 ).

Fazer boas ações não torna o homem bom diante de Deus. Boas dádivas (boas ações) aos semelhantes (vossos filhos) não torna o homem bom (vós, sendo maus) “Porque cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos” ( Lc 6:44 ).

Apesar de ser impossível a Caim fazer o bem, segue-se a asserção: “… o pecado jaz à porta…”. O que Deus disse?

  • Que o pecado estava (jaz) morto;
  • Que Caim estava (jaz) para pecar, ou;
  • Que o pecado exerce domínio?

Que o pecado estava morto (jazia) é certo que não estava, pois o apóstolo Paulo demonstra que ele reinou desde Adão ( Rm 5:14 ).

Que Caim estava prestes (jaz) a pecar, também não é uma ideia aceitável, pois Caim foi concebido em pecado tal qual todos os homens ( Sl 51:5 ). Quem pecou e estabeleceu a parede de separação entre Deus e os homens foi Adão, e não Caim. O apóstolo Paulo demonstra que não há como os descendentes de Adão pecarem à semelhança da sua transgressão ( Rm 5:14 ).

Resta a terceira opção: que o pecado exercia domínio sobre Caim. Através do verso seguinte: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ), somos informados que:

  • A morte reinou desde Adão, e isto implica que o pecado também reinou sobre todos os homens desde Adão “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 );
  • Adão pecou por desobedecer a uma determinação específica, e Caim pecou porque a condenação de Adão passou a todos os seus descendentes, ou seja, Caim foi gerado em pecado ( 1Co 15:22 ).

Lembrando que ‘à porta’ diz do lugar em que se exercia na antiguidade o domínio político ou social de uma cidade, como se lê em Jó: “Quando eu saía para a porta da cidade, e na rua fazia preparar a minha cadeira. Os moços me viam, e se escondiam, e até os idosos se levantavam e se punham em pé; Os príncipes continham as suas palavras, e punham a mão sobre a sua boca” ( Jó 29:7 ). Ou seja, estar à porta diz do lugar onde se dá o exercício do poder, do domínio, e não da iminência de algo que está para acontecer.

Quando lemos nos Salmos: ‘levantai, ó portas, as vossas cabeças’, o salmista está convocando aqueles que estão assentados exercendo domínio a se postarem em pé para recepcionar reverentemente o rei da glória “Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória” ( Sl 24:9 ).

Há vasto repertório bíblico demonstrando que às portas refere-se ao local que se exerce domínio, ou ao domínio:

  • “Quando alguma coisa te for difícil demais em juízo, entre sangue e sangue, entre demanda e demanda, entre ferida e ferida, em questões de litígios nas tuas portas, então te levantarás, e subirás ao lugar que escolher o SENHOR teu Deus” ( Dt 17:8 );
  • “E será que, se te responder em paz, e te abrir as portas, todo o povo que se achar nela te será tributário e te servirá” ( Dt 20:11 );
  • “Donde se ouve o estrondo dos flecheiros, entre os lugares onde se tiram águas, ali falai das justiças do SENHOR, das justiças que fez às suas aldeias em Israel; então o povo do SENHOR descia às portas ( Jz 5:11 );
  • “Tem misericórdia de mim, SENHOR, olha para a minha aflição, causada por aqueles que me odeiam; tu que me levantas das portas da morte” ( Sl 9:13 );
  • “Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra” ( Pv 31:23 ).

Diante do exposto, Gênesis 4, verso 7 seria melhor traduzido trocando-se ‘jaz’ por ‘estar, permanecer’, ou seja, ‘o pecado está à porta’, significando que o pecado está exercendo o seu domínio sobre os homens.

A interpretação de ‘o pecado jaz à porta’ refere-se ao domínio que o pecado exerce sobre os homens alienados de Deus “A sabedoria é demasiadamente alta para o tolo, na porta não abrirá a sua boca” ( Pr 24:7 ). Porta é o mesmo que local de domínio, onde o exercício do poder político ou religioso se dá.

 

… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar

A quem pertence o desejo: pertence a Caim ou ao pecado? É possível ao homem caído dominar o pecado?

É confuso, pois quando Adão pecou, o pecado passou a exercer domínio sobre todos os homens, quer eles queiram ou não. A sujeição ao pecado é condição que se impôs ao homem quando foi gerado, independentemente de suas ações.

O homem piedoso Adão foi julgado e condenado à morte, depois disso não houve mais entre os homens ao menos um que fosse justo “Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com a rede” ( Mq 7:2 ).

Observe a tradução da Bíblia na linguagem de hoje: “Por que você está com raiva? Por que anda carrancudo? Se você tivesse feito o que é certo, estaria sorrindo; mas você agiu mal, e por isso o pecado está na porta, à sua espera. Ele quer dominá-lo, mas você precisa vencê-lo” Bíblia na Linguagem de Hoje.

Surgem algumas indagações:

  • Apesar de já exercer domínio sobre Caim por causa da queda de Adão, Deus procura alertar que o pecado ainda queria dominá-lo?
  • O pecado estava à espreita de Caim esperando que ele matasse o seu irmão para então dominá-lo?
  • Deus dá uma ordem impossível ao homem realizar: vencer o pecado?

Quantas indagações! Porém, já temos os elementos necessários para analisar o versículo.

 

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )

Considerando:

  • Que não há quem faça o bem, nem se quer um;
  • Que todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos;
  • Que a justiça é pela fé (evangelho, promessa);
  • Que os homens são maus, apesar de saberem dar boas dádivas;
  • Que o pecado exerce domínio sobre a humanidade;
  • Que o homem não domina o pecado;
  • Que ‘à porta’ diz de exercer domínio, senhorio;
  • Que fazer boas ações não faz o homem agradável a Deus, e;
  • Que fazer o mal não é o que afasta o homem de Deus, uma vez que o homem já está distante de Deus em conseqüência da desobediência de Adão.

Faz-se necessário uma releitura do verso.

Lembrando que estudiosos da língua hebraica apontam a possibilidade de se desconsiderar a famosa vocalização massorética, o que é o caso da Septuaginta, e teríamos a seguinte tradução: “Porventura não pecarias, se prudentemente o tivesses trazido, mas não o tivesses corretamente repartido? Calma ; para ti será sua submissão, e tu o dominarás”.

Porém, esta versão também não acrescenta nenhum elemento significativo à compreensão.

 

O pecado jaz à porta

Por Adão ter pecado, todos os seus descendentes pecaram. Quando o apóstolo Paulo diz que ‘a morte veio por um homem’ e que ‘todos morreram em Adão’ ( 1Co 15:21 -22), ele demonstra que o pecado entrou no mundo por Adão, e passou a todos os homens, assim também a condenação (morte) passou a todos.

Ou seja, se todos estão debaixo da mesma condenação (morte), isto significa que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus ( Rm 3:23 ).

Nenhum dos descendentes de Adão tem condição de pecar à semelhança da transgressão de d’Ele.

  • Adão pecou quando era santo, justo e bom;
  • Não era como Deus, conhecedor do bem e do mal;
  • Desobedeceu a uma ordem específica;
  • Seus descendentes não são justos, santos e bons, mas são como Deus, no quesito conhecedores do bem e do mal ( Gn 1:31 e Gn 3:22 );
  • A transgressão de Adão sujeitou-o ao pecado e a morte, e seus descendentes são gerados todos em pecado: sujeitos ao pecado e a morte.

Com base nestas premissas é possível concluir que a asserção ‘o pecado está à porta’ é um aviso solene acerca da atual condição de Caim: o pecado já exercia pleno domínio sobre ele.

A proposição: ‘o pecado está à porta’, ou ‘O pecado exerce domínio’ não contradiz nenhum princípio bíblico, antes confirma a ideia de que o pecado é senhor dos homens quando alienados de Deus, portanto, a proposição ‘o pecado jaz á porta’ é plenamente correta e aceita.

Ora, como temos uma sentença declarativa ‘o pecado está à porta’, a frase que a antecede (Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti?), deve conduzir o leitor à ideia de que ‘o pecado exerce domínio’. Qualquer construção que conduz o leitor a uma conclusão que desconstrói a ideia de que ‘o pecado exerce domínio’, não deve ser aceita como bíblica.

Que ideia a construção frasal: “Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti?” contém? A pergunta sugere que Deus estivesse dando a entender que Caim seria aceito ‘se’ fizesse o bem. Porém, a Bíblia demonstra que, após a queda, o homem ficou impossibilitado de fazer o bem, pois é impossível que a árvore má produza fruto bom.

O evento da oferta voluntária apresentada por Caim e Abel continha a lição necessária para compreenderem como seriam aceitáveis a Deus. Deveriam aprender que, o que torna o homem agradável a Deus é aproximar-se d’Ele crendo que será galardoado, sem confiar que a oferta é o que torna o homem aceito “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Abel ofereceu melhor sacrifício pela fé, e não por escolher o melhor animal do campo. A oferta voluntária podia ser tanto o melhor do campo quanto o melhor dos animais, pois tudo que provem da terra pertence ao Senhor “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ; Is 1:1 ).

O que tornou a oferta de Caim e Abel diferente foi como os ofertantes se aproximaram de Deus: Caim confiou que a sua oferta haveria de agradar a Deus, pois era o melhor fruto do seu trabalho, e Abel ofereceu o cordeiro pela fé, ou seja, crendo que Deus haveria de aceitá-lo por ser misericordioso ( Hb 11:4 ).

Observe a reclamação de Deus para com o seu povo: “Se eu tivesse fome, não te diria, pois meu é o mundo e tudo o que nele há. Como carne de touros, ou bebo sangue de bodes?” ( Sl 50:12 -13). Crer que Deus retribui com salvação àqueles que o buscam é o sacrifício que Ele aceita ( Sl 51:17 ; Is 57:15 ).

Se a confiança em Deus é o que torna o homem agradável a Ele, como é possível Ele exigir que Caim fizesse o bem para ser aceito? Se o pecado está à porta, ou seja, exercendo domínio sobre os pecadores, como é possível fazer o bem? É um contra senso Deus exigir algo que não satisfaz a Sua justiça.

Observe a parte inicial do verso que sugere fazer o bem para que o homem possa ser aceito, na imagem abaixo:

imagem de um texto em hebraico
Gênesis 4:7

As palavras que constroem a ideia original estão todas ali, o problema está em organizá-las de modo a evidenciar a ideia correta. A vocalização massorética auxilia a leitura das palavras, mas, não auxilia na alocação correta das palavras de modo a evidenciar a ideia correta.

Com apóio do Novo Testamento, compreendemos que não faz parte do evangelho de Cristo a ideia de que fazer o bem torna o homem agradável a Deus. Aceitar que Deus instruiu Caim a fazer o bem para que fosse aceito fere alguns atributos de Deus, como a sua santidade, imutabilidade e justiça.

É contraditório admitir que no Gênesis Deus instrua o homem a fazer o bem para que fosse aceito por Ele, e em Salmos profetizar por intermédio de Davi que é impossível alguém dar a Deus o resgate por sua alma “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre)” ( Sl 49:7 -8).

Aceitar que há uma interrogação neste verso sugestionando ao homem fazer o bem para ser aceito é admitir que Deus contraria a Sua própria palavra, o que não coaduna com a obra de Cristo, pois se fazer o bem resgata o homem, por qual motivo Deus enviou seu Filho para resgatar o homem?

A tradução para este verso não pode sugestionar que:

  • Fazer o bem é o que torna o homem agradável a Deus, ou que;
  • Fazer o mal é o que torna o homem alienado de Deus.

O verso a seguir: “Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…”, deveria ser lido assim:

“Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti, e se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…”, para depreendermos a seguinte ideia: “Se bem fizeres, e se não fizeres bem, não haverá aceitação para ti, (pois) o pecado jaz à porta…”.

A ênfase do enunciado está em ‘não haverá aceitação para ti’ em decorrência de ‘o pecado estar exercendo domínio’.

Deus alertou Caim que, se ele fizesse boas ações, ou não, continuaria não sendo aceito, isto por causa do pecado à porta. Caim ofereceu uma oferta ao Senhor, o que entendemos como algo promissor (bom), entretanto não foi aceito, por causa da sua sujeição ao pecado.

Caim não seria aceito se fizesse o mal, e nem se fizesse boas ações, porque o pecado estava exercendo o seu domínio. Isto leva a concluir que, o bem e o mal não tornam o homem aceitável diante de Deus, como foi demonstrado antes: o homem tornou-se desagradável por causa da desobediência de Adão.

O conhecimento do bem e do mal é uma das conseqüências da desobediência, que além de alienar o homem de Deus, também tornou o homem como Deus. O conhecimento tornou o homem como Deus, mas, continuou desagradável a Deus ( Gn 3:22 ).

A interrogação na frase sugere que fazer o bem torna o homem aceito por Deus, mas, basta excluir a interrogação que a verdade vem à tona: se Caim fizesse ou não o bem (boas e más ações), segundo o conhecimento que todos os homens adquiriram da árvore do conhecimento do bem e do mal, não havia diferença para ele perante Deus, pois o pecado exerce o seu domínio independentemente de suas ações.

Por estar sob domínio do pecado, todas as realizações de Caim era o mal diante de Deus, o que não o impedia de fazer boas e más ações. Ao falar com os fariseus Jesus demonstrou que eles eram maus, mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus semelhantes, o que demonstra que boas e más dádivas não é o que influencia a condição do homem diante de Deus ( Mt 7:11 ).

Após a ofensa de Adão todos os seus descendentes tornaram-se maus, e dentre eles não há quem faça o bem, nem se que um. Desde a madre se desviaram e proferem mentiras “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ). Com base neste verso é possível declarar: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Como o coração de Caim era mau, nada de bom podia produzir “O homem bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más” ( Mt 12:35 ), pois ninguém pode tirar o imundo o puro “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” ( Jó 14:4 ).

Caim foi concebido em pecado, e continuou rejeitado quando ofertou ao Senhor ( Gn 4:5 ). Como ele poderia oferecer uma oferta pura, se era imundo? Somente pela fé Deus atentaria para Caim, e depois para a sua oferta, pois somente após o homem ser aceito é que Deus aceita o que lhe é oferecido ( Hb 11:4 ).

Sem antes alcançar o testemunho de que é justo, como Abel alcançou, é impossível fazer o bem.

A ideia de que o homem é aceito se fizer boas ações, e se não as realizar, acaba pecando, decorre da proposta de um pseudo-evangelho de que a salvação ocorre através de boas ações.

Como já enunciamos, se o homem fizer boas ações, ou não, o pecado exerce o seu domínio. Se quiser ver-se livre do domínio do pecado, necessário é nascer de novo: alcançando um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:25 -27 ; Is 57:15 ).

Somente o aspergir de água pura pode purificar o homem da sua imundície, tornando possível oferecer o que é puro ( Lv 11:34 ).

Apesar de não ser possível ao homem fazer o bem quando sob o domínio do pecado, resta lhe mais uma instrução:

 

“… e para ti será o seu desejo, e sobre ele dominarás”

Caim não foi aceito por estar sob domínio do pecado e nada que fizesse podia livrá-lo desta condição. Por ver que seu irmão foi aceito, Caim ficou irado e com vontade de matá-lo.

Deus ‘viu’ o quanto Caim se irou ao ver que Abel foi aceito por Ele, e sabia qual era a intenção de Caim ( Gn 4:5 ). Foi quando Deus lhe disse: “Porque te iraste? E por que descaiu o seu semblante?” ( Gn 4:6 ).

Com relação a sua condição espiritual, alienado de Deus, Caim nada podia fazer. Se fizesse boas ou más ações, continuava sob o domínio do pecado, porém, o desejo de matar o seu irmão era um sentimento humano egoísta e mesquinho, e Deus avisa Caim de que ele podia reprimir tal desejo.

Apesar do ‘pecado estar no domínio’, a vontade pertence ao homem, e é através da vontade que o homem exerce o domínio que foi concedido no princípio ( Gn 1:26 ). O domínio que Deus concedeu em Gênesis 1, verso 26, não diz do domínio que o pecado exerce.

Deus podia impedir o intento de Caim, mas não o fez, uma vez que tiraria o que foi dado ao homem: o domínio sobre a face da terra “Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

Como já vimos, o domínio expresso no verso 7 de Gênesis 4 não diz de exercer domínio sobre o pecado, pois o pecado é quem figura como senhor dos homens quando alienados de Deus. Porém, por ter sido criado para viver em sociedade, mesmo sob o domínio do pecado, o homem deve controlar as suas emoções, agindo de modo equilibrado entre seus semelhantes.

Deus demonstrou a Caim que ele podia exercer domínio, pois a sua vontade lhe pertencia. Por que é necessário ter a vontade sob seu poder para poder exercer o domínio? Observe o que Deus disse a Eva ao declarar a sua penalidade: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará ( Gn 3:16 ).

Compare:

  • “… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )
  • “… e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” ( Gn 3:16 ).

Ao conceber a mulher sentiria dores, e o seu desejo estaria sob os cuidados do marido, que sobre ela exerceria domínio. O que isto quer dizer? Para compreendermos a proposta de Deus, temos que nos socorrer do que Paulo escreveu aos cristãos em Éfeso: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” ( Ef 5:22 – 25 ).

Quando lemos que o homem exercerá domínio sobre a mulher, muitos entendem que a mulher deve ser subjugada pelo homem, porém, não é isto que Deus ensina. Quando a Bíblia diz que o homem exerce domínio, ele diz do cuidado que lhe é outorgado.

Quando a Bíblia diz que o desejo da mulher será para o marido é o mesmo que ordenar à mulher que se sujeite ao marido, pois assim como Cristo é a cabeça da igreja, o marido é a cabeça da mulher. Qual o objetivo da comparação? Demonstrar que o papel do marido com relação à esposa é zelar, cuidar!

O domínio que Deus deu ao homem em Gênesis 1, verso 26, é para cuidar de tudo que há debaixo da terra. A mulher deve sujeitar-se ao marido porque é dever do marido cuidar da mulher, assim como Cristo cuida da igreja, ou seja, Jesus exerce domínio sobre a igreja porque zela da igreja, e entregou até sua vida por ela.

Qual o papel da cabeça? Dominar o corpo. Com que objetivo? Cuidar para que ele não definhe e venha a pereçer. Deste modo a mulher se sujeita ao marido, porque o marido tem o dever de cuidar do seu corpo “Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” ( Ef 5:28 ).

Quando Deus falou com Caim demonstrando que o seu desejo pertencia a ele, e que ele exerceria domínio, tinha o fito de demonstrar que competia a ele cuidar e zelar de tudo que diz respeito a sua existência neste mundo. Ninguém haveria de cuidar e zelar de Caim, de modo semelhante ao zelo que marido deve para com a esposa.

O desejo da mulher é para o marido porque compete ao marido cuidar da mulher, por outro lado, o desejo de Caim era para ele mesmo, ou seja, ele devia cuidar de si mesmo. Em resumo, o intento do Criador era alertar Caim para ter cuidado com o que desejava.

O pecado sujeitou o homem como escravo, mas não a sua vontade. Apenas sobre a sua própria vontade o homem é soberano, sendo assim, Caim era capaz de controlar as suas emoções e escolher não dar cabo da vida de seu irmão.

Caim levou a efeito o seu desejo, e matou Abel. Por não cuidar das suas próprias emoções, o seu desejo o dominou, e Caim passou a ser um fugitivo e errante sobre a face da terra.

O homem deve dominar seus desejos e não os desejos dominar o homem. Quando os desejos dominam o homem ele é prejudicado perante a sociedade.




Adoração

Se não professam a Cristo segundo o que diz a Bíblia, não há adoração verdadeira, antes, estas reuniões constitui-se em deleite segundo uma concepção carnal.


Introdução

Em nossos dias tem-se multiplicado nos templos ‘evangélicos/protestantes’ o número de espetáculos e cantores “cristãos” que embriagam os espectadores de emoções. Seriam estes ‘cultos/espetáculos’ a verdadeira adoração? O que a Bíblia ensina acerca da adoração?

 

Cânticos

A concepção de que Lúcifer foi regente do coral celestial propagou-se em meio ao cristianismo e tornou-se consenso. As pessoas não questionam as ideias consensuais e acabam incorrendo e divulgando erros grosseiros. Por causa da ideia equivoca de que Satanás era o regente das hostes angelicais, surgiram às concepções de que Satanás era um exímio músico, um conhecedor do poder da música e, que por meio da música leva muitos à perdição.

A Bíblia não ensina que Satanás era regente do um coral celestial, e nem que ele era versado em música. Observe:

  • Lúcifer nunca regeu o ‘coral celestial’ – A Bíblia demonstra que Satanás exercia especificamente a função de vigia (guarda) do monte santo de Deus “Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci; estavas no monte santo de Deus, andavas entre as pedras afogueadas” ( Ez 28:14 ). Ora, o querubim foi ungido para a função de vigia do monte santo de Deus, e o lugar que ele montava guarda era o Éden, o jardim de Deus, e não os céus “Estavas no Éden, jardim de Deus…” ( Ez 28:13 ). Como Lúcifer poderia reger o coral celestial se ele foi criado e ungido para guardar o monte santo de Deus que ficava nas bandas do norte do jardim do Éden?
  • Não é Satanás que conduz os homens à perdição – A Bíblia demonstra que todos os homens entram por uma porta larga (Adão) ao serem gerados segundo a semente corruptível de Adão e seguem por um caminho que conduz à perdição. Ora, é o caminho no qual os homens estão que os leva à perdição, e não Satanás. Satanás não tem a atribuição de conduzir os homens à perdição. A perdição é resultante da queda de Adão, onde todos os homens foram julgados e condenados.

A função de Satanás é promover a mentira, fazendo o homem permanecer na ignorância. Os homens sem Deus permanecem na condição de perdição por causa da ignorância e dureza de coração, e da ignorância dos homens surgem inúmeras mentiras. A mentira é algo nato do homem sem a revelação de Deus em Cristo.

“… separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza de coração…” ( Ef 4:18 );

“Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3).

Cristo é salvação poderosa para todos os homens, e basta crer na mensagem do evangelho que o homem entrará por Cristo (porta estreita), nascendo de novo (último Adão). Porém, a ação de Satanás é semear o joio, arrebatar a palavra semeada, estabelecer falsos mestres e falsos profetas para que os homens creiam na mentira, permanecendo no engodo do pecado “E com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem” ( 2Ts 2:10 ).

Um consenso acerca das atribuições de Satanás antes da queda levou muitos cristãos ao engano de que ele era responsável pela regência do coral celestial; que há um poder indescritível na música e que Satanás sabe usá-la para arregimentar os homens para o inferno; Se esta estória acerca da música virou consenso e ludibriou muitos, qual será o consenso acerca da adoração?

 

O que é adoração?

Um leproso prostrou-se diante de Cristo dizendo que somente Ele poderia curá-lo e O adorou dizendo: “Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo” (Mt 8:2) Ou seja, o simples fato de reconhecer que somente Jesus poderia curá-lo constitui-se adoração.

“E, eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo” ( Mt 8:2 ).

Uma mulher suplicou o auxilio de Jesus, e este fato constitui-se adoração:

“Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me!” ( Mt 15:25 ).

Por que pedir auxílio a Cristo constitui-se adoração? Qual o elemento comum a todos os pedidos? O Cristo-homem!

Cristo é a fé que se manifestou aos homem, por meio do qual o justo viverá (Gl 3:23). Cristo é o firme fundamento pelo qual os homens alcançam as firmes beneficências prometidas a Davi (Is 53:3). Cristo é o elemento essencial à adoração, pois todas as promessas de Deus tem n’Ele o sim, e por Ele o amém! (2Co 1:20)

Em ambos os casos temos um pedido, uma oração, a expressa da confiança do homem necessitado. Ao rogar a Cristo que resolva problemas impossíveis aos homens de resolver, temos a fé (crença) em exercício, um descasar na esperança proposta. Somente roga a Cristo quem crê que, por Ele Deus é propício as suas criaturas.

“Ele disse: Creio, Senhor. E o adorou” ( Jo 9:38 ).

O elemento essencial a adoração é Cristo, pois sem Cristo é impossível agradar a Deus! A crença do homem só é aceita por Deus quando depositada em Cristo, constituindo assim adoração.  Reconhecer que o homem de Nazaré é capaz de realizar o que é impossível aos homens é uma forma de reconhecer que Cristo é o Filho Unigênito de Deus “Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feito para contigo como tu desejas” ( Mt 15:28 ).

Através de várias passagens bíblicas é possível abstrair que o simples fato de o cristão dirigir a Deus um pedido, uma oração, já está adorando a Deus, visto que, somente ora ao Pai quem crê que será atendido “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

A adoração também pode ser um ato de reconhecimento, o que se depreende do texto a seguir:

“E, quando viu Jesus ao longe, correu e adorou-o. E, clamando com grande voz, disse: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te por Deus que não me atormentes” ( Mc 5:6 -7).

Os demônios adoraram a Jesus quando o reconheceram como o Cristo de Deus, porém, ao intentar revelar Cristo aos homens, pretendiam fazer o que é próprio as Escrituras. Os homens tem que reconhecer que Jesus é o Cristo pelo testemunho de Deus exarado nas Escrituras, e não por palavra de demônios, por isso a ordem para que se calassem “E curou muitos que se achavam enfermos de diversas enfermidades, e expulsou muitos demônios, porém não deixava falar os demônios, porque o conheciam” ( Mc 1:34 ).

Que relação tem a Luz com as trevas? Jesus proibia os demônios de anunciar que Ele era o Cristo porque o reino dos céus não depende do testemunho de demônio para ser estabelecido. Muitos pretensos adoradores em nossos dias dão mais credito ao que os possessos por demônios dizem, do que na verdade do evangelho. Observe a atitude de Paulo com a advinha que o seguia:

“Esta, seguindo a Paulo e a nós, clamava, dizendo: Estes homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo. E isto fez ela por muitos dias. Mas Paulo, perturbado, voltou-se e disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela. E na mesma hora saiu” ( At 16:17 -18).

A adoração a Deus é um reconhecimento somente?

A verdadeira adoração só ocorrer quando o homem é gerado de novo da semente incorruptível, ou seja, em espírito e em verdade, como lemos:

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem” ( Jo 4:23 ).

Somente aqueles que são nascidos do Espírito, ou seja, que nasceram de novo são espirituais e adoram a Deus verdadeiramente ( Jo 3:6 ), o que só é possível através da crença em Cristo ( Jo 1:12 -13; Ef 4:24 ; Rm 1:16 ).

Todos os descendentes de Adão são carnais e precisam nascer de novo da palavra de Deus para serem contados como filhos de Deus. Somente através da obediência a palavra do evangelho, a semente incorruptível, ou seja, o poder de Deus, que o homem é de novo gerado, e passa a adorar a Deus em espírito e em verdade.

Fazer odes, músicas, poesias, gravuras, quadros, etc., em reconhecimento a existência de Deus não e adorar em espírito e verdade. Outros, como é o caso dos judeus, tem zelo de Deus, porém, sem entendimento, pois não deixaram se iluminar pela luz do evangelho, e por isso, também não adoram a Deus ( Rm 10:2 ).

Não terão conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo, como se comessem pão, e não invocam ao SENHOR?” (Sl 14:4).

Vários artistas, religiosos ou não, compõem canções, mas nem por isso adoram a Deus em verdade. A mentira faz parte da natureza que herdaram de Adão. A separação de Deus fez surgir uma nova natureza segundo a mentira. Deus é luz, e os que não são nascidos de Deus, são trevas. Deus é verdade, e os que estão separados d’Ele, são ‘mentira’. As trevas ou a mentira só é dissipada através do novo nascimento ( Rm 3:7 ).

Fica a pergunta: será que os espetáculos e cultos que são realizados constituem-se em verdadeira adoração a Deus? Não são modismos e uma imitação barata dos cultos que são dedicados aos ídolos?

Se nestas reuniões estiverem falando a verdade do evangelho, ou seja, professando a Cristo segundo diz as escrituras, é certo que estariam adorando a Deus em espírito e em verdade. Porém, se não professam a Cristo segundo o que diz a Bíblia, não há adoração verdadeira, antes, estas reuniões constitui-se em deleite segundo uma concepção carnal, ou seja, são reuniões cheias de emocionalismo, mas desprovida do Espírito de Deus.

As pessoas que fazem shows bendizem a Deus, porém, o bendizer por si só não é a verdadeira adoração, pois não procede de lábios de verdadeiros adoradores (homens nascidos de novo). Acaso monges, padres e sacerdotes que reverenciam a Deus em suas reuniões adoram a Deus simplesmente por bendizê-lo? Dizer “Senhor, Senhor” não se constitui em adoração, antes, para ser ‘conhecido’ do Senhor é necessário crer conforme diz as Escrituras.

“E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7:23)

Os salmos 103 e 104 são exemplos típicos de adoração a Deus, pois o salmista Davi era um verdadeiro adorador, visto que recebeu um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Davi bendiz ao Senhor por tudo que Ele faz pelos homens que N’Ele esperam ( Sl 103:1 ), e em seguida bendiz a Deus pela sua magnificência ( Sl 104:1 ).

Não se esqueça que o salmo 51 também é adoração, pois se constitui em oração a Deus, onde temos o salmista esperando em Deus que venha conceder um novo coração e um novo espírito (novo nascimento).

 

Adoração em espírito e em verdade

Somente adora a Deus em espírito e em verdade aqueles que são agradáveis a Deus. Apesar de ser bonito ver uma pessoa que, quando diz o nome de Deus tira o chapéu de sobre a cabeça em sinal de reverência, não é este o modo pelo qual os homens se submetem ao Senhorio de Deus, antes só é possível tomar o jugo da justiça obedecendo à palavra de Deus, que é: Crede naquele que Ele enviou. Gesto e sinais de reverência não tornam os homens agradáveis a Deus. Entrar nos templos descalço não é reverência ao Altíssimo. Falar baixinho não se constitui em reverencia a Deus. Entrar em um templo não é o mesmo que se apresentar ante o trono da graça. Somente por meio da verdade do evangelho (a fé que foi dada aos santos) o homem tem acesso à presença de Deus.

Quando a adoração de certos seguimentos evangélico/protestante foca-se na ritualística, na forma, na legalidade, na moral, em costumes, na tradição, e outros quesitos, simplesmente seguem o curso natural de outros seguimentos religiosos pagãos. Todas as religiões baseiam-se em conceitos, cerimônias, liturgia, rito padronizado, organização, liderança e experiência emocional ou mística.

O evangelho de Cristo não segue padrões humanos, visto que é pela fé e por fé somente. A fé (evangelho) que uma vez foi dada aos santos é a ancora da alma, segura e firme, que penetra além do véu, onde os que creem se refugiam e descansam (fé) na esperança proposta ( Hb 6:13 -20; Jd 1:3 ; Fl 1:27 ).

Para muitos a adoração vincula-se aos templos, sacrifícios, campanhas, peregrinações e cânticos e por um determinado espaço de tempo. Este modelo de culto segue a concepção carnal dos cultos das religiões em geral, visto que acabou por fomentar a ideia de que a adoração depende do comprometimento do homem com a instituição que frequenta, com a contribuição, com sacrifícios, meditação, êxtase, transe, orações repetitivas, etc.

Mas, o que Jesus anunciou acerca da verdadeira adoração? Que ela não está atrelada a templos (igrejas, mesquitas ou sinagogas), lugares (Jerusalém, Samaria, Gilgal), tempo (dias de festas e sábados), nação (judeus ou gentios), antes se vincula a nova natureza concedida na regeneração (novo nascimento).

O que o Pai procura nos verdadeiros adoradores? A conversa de Jesus com a mulher samaritana trás um escopo geral do que é essencial à adoração.

Qual o lugar de adoração dos verdadeiros adoradores? Ora, sabemos que Deus é Espírito, e que os seus adoradores o adoram em espírito e em verdade. Onde o espírito de Deus está ai há liberdade, ou seja, não importa o lugar, ou antes, em todos os lugares há liberdade para o homem estar na presença de Deus.

Como? Ora, não é necessário templos feitos por mãos humanas, pois todos os que creem foram edificados templos e casas espirituais, são templos e morada do Espírito “No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:22 ). Não é necessário sacerdotes, pois todos que creram foram comissionados a sacerdócio real ( 2Pe 2:9 ). Aonde quer que o cristão vá, ali ele é templo e habitação do Altíssimo. Os verdadeiros adoradores adoram ao Pai em espírito e em verdade, para que de fato sejam livres.

Qualquer sistema religioso que aponta um determinado templo, cidade ou monte como sendo o lugar da manifestação da graça divina é um engodo. Você já ouviu do seu pastor que você é o templo onde Deus habita? Que você é a casa do Deus vivo? Que você adora o Pai em espírito e em verdade? Que não são as instituições e nem os homens que lhe conduziu a glória de Deus?

Se você é templo; Se você é sacerdote do Rei; Se você é o próprio sacrifício VIVO; se você é o ofertante, o que mais lhe falta para prestar o culto racional a Deus, onde, quando e com quem você estiver? Você é adorador em todos os momentos da sua nova vida em Cristo, e são estes adoradores que o Pai procura através da mensagem do evangelho. Se você crê em Cristo conforme as escrituras, você é um dos adoradores que o Pai ‘encontrou’ “E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida” ( Lc 15:6 ).

Em nossos dias muitas pessoas creem em promessas de prosperidade, em bênçãos materiais, em visões provenientes de mentes carnais, em profecias de homens corruptos de entendimento, porém, estas mesmas pessoas crédulas, diante da mensagem do evangelho que diz que todos os cristãos são pedras vivas, e que foram edificados casa espiritual sobre a Pedra Viva que foi rejeitada pelos homens, não creem. Rejeitam a palavra que diz que os cristãos são sacerdotes santos; rejeitam que os que creem oferecem sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus ( 1Pe 2:4 -5).

Não será cânticos gregorianos que fará os filhos da ira e da desobediência verdadeiros adoradores; cânticos e poesias sussurrados na penumbra de templos suntuosos não farão do homem natural um verdadeiro adorador. Não são os espetáculos de luzes e vozes em coro, acompanhado de instrumentos musicais, que servem somente para emocionar a platéia, que dará ao homem a alegria da salvação. Antes, necessário é nascer de novo, adquirindo um novo coração e um novo espírito.

Muitas pessoas pensam que o cântico é um modo do homem se aproximar de Deus e agradá-lo. Acham que nos hinos está o verdadeiro louvor. Enganoso é o coração dos homens. O povo de Israel em uma determinada guerra pensou deste modo, e a derrota na batalha foi maior! Pensaram que a vitória estaria na arca e cantaram com grande júbilo, que acabou por perturbar os inimigos. Porém, Deus não se sensibilizou com o espetáculo, com os cânticos e com as danças. O povo foi à guerra, foram derrotados e voltaram sem a arca da aliança, o ícone que elegeram para conduzi-los a vitória “E sucedeu que, vindo a arca da aliança do SENHOR ao arraial, todo o Israel gritou com grande júbilo, até que a terra estremeceu” ( 1Sm 4:5 ).

Na emoção não há vitória, antes a vitória está na obediência à palavra de Deus. Mas, como obedecer sem descansar (fé) naquele que prometeu? Não era melhor obedecer a Deus e não levar a arca da aliança para a guerra.

Davi deixou a emoção guiá-lo e trouxe sobre si o peso do Senhor:

“Davi e toda a casa de Israel alegravam-se perante o Senhor, com todo tipo de instrumento…” ( 2Sm 6:5 ).

Deus não exige cânticos, júbilos, músicas, poesias e danças, antes quer que O obedeçam segundo a sua palavra ( Dt 10:12 -13). O temor é o princípio da sabedoria, e ao temer, Davi foi à fonte da sabedoria para inteirar-se da vontade de Deus: “Temeu Davi ao Senhor naquele dia, e disse: Como virá a mim a arca do Senhor” ( 2Sm 6:9 ).

Muitos deixam de perguntar à sabedoria qual a verdadeira adoração e se deixam levar pelos grandes espetáculos e show de luzes, que na essência é um culto a Mamon. Tal ajuntamento simplesmente serve a interesses do capital. Tais cultos sevem aos interesses de homens movidos pela ganância e que busca o prêmio de Balaão ( Jd 1:11 ).

Porém, parece que nestes últimos dias o aviso solene que ecoa pela escrituras não sensibiliza as massas, e temos na Bíblia dois motivos como causa desta realidade:

  • Em nossos dias proliferaram os pastores que apascentam a si mesmos, que andam segundo a concupiscência dos olhos e consideram que o evangelho é fonte de lucro “Estes são murmuradores, queixosos, andando segundo as suas concupiscências…” ( Jd 1:12 -16);
  • O público que atraem não é outro, a não ser àqueles que têm comichão nos ouvidos e que não querem receber a sã doutrina do evangelho “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências” ( 2Tm 4:3 ).

Observe que a concupiscência é algo comum aos ‘pastores’ que apascentam a si mesmo e as ‘ovelhas’ que sofrem de comichão nos ouvidos e que buscam amontoar estes ‘pastores’.

Não sou contra o ajuntamento solene, pois a Bíblia demonstra que é imprescindível que os cristãos congreguem e se exercitem no amor; é nas reuniões que as escrituras são lidas, analisada e entoadas para que haja o consolo mútuo entre os cristãos através do que lhes é comum: a verdade do evangelho.

 

Cânticos e Salmos

Qual a função dos cânticos e salmos? Adoração? Ora, é de conhecimento geral que a maioria do povo não sabia ler. À época os livros eram caríssimos, e poucas pessoas possuíam um exemplar de algum livros das escrituras. Por causa desta carência de livros e de pessoas que soubessem ler os cânticos, os provérbios e os salmos foram instituídos para auxiliar o povo a gravar na memória o que aprenderam acerca da vontade de Deus.

Este era um dos motivos das escrituras ser lida nas sinagogas todos os sábados em voz alta. Tal rotina não constituía um ritual de per si, antes tina em vista uma carência do povo. Ora, a adoração não estava atrelada aos cânticos, salmos e provérbios, visto que a adoração verdadeira é proveniente do novo espírito e do novo coração concedidos por Deus ( Ez 18:31 ; Sl 51:10 ).

O objeto manipulado nas reuniões dos primeiros cristãos eram os salmos e cânticos espirituais, pois fixava na memória dos irmãos a verdade do evangelho “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao SENHOR com graça em vosso coração” ( Cl 3:16 ); “Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” ( Ef 5:19 ).

Perceba que ensinar, ou admoestar e falar uns com os outros não se constitui em adoração como muitos entendem em nossos dias. Ou seja, cânticos, hinos e salmos eram utilizados no processo de ensino, admoestação e comentários à palavra do evangelho, o que é diferente da ideia de adoração, que só é possível em espírito e em verdade.

Ou seja, os cristãos devem reunir-se periodicamente (congregar), porém, as reuniões não se constituíram adoração ou culto ao Senhor. As reuniões têm como objetivo o ensino da palavra, visto que o culto é racional e a adoração perene (nunca cessa).




Salmo 19 – O louvor da criação

A expressão da grandeza de Deus não necessita de um código de signos linguísticos para ser compreendido. A natureza demonstra a grandeza, a glória e a fidelidade de Deus, pois ela não falha na sequência dos eventos pré-estabelecidos por Deus.


1 OS céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
2 Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.
3 Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.
4 A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol,
5 O qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho.
6 A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até à outra extremidade, e nada se esconde ao seu calor.

A Natureza

Os céus expressam quão glorioso é Deus! O que se observa na natureza anunciam quão maravilhoso Ele é.

Como as obras de Deus são grandiosas e imensuráveis, isto indica que Ele é infinitamente grande e maravilhoso “Da parte do SENHOR se fez isto; maravilhoso é aos nossos olhos” ( Sl 118:23 ).

Os céus declaram a glória de Deus aquém? Aos homens! Todos os homens podem perceber a Sua glória e poder pois são inegáveis a grandeza das obras de suas mãos (v. 1).

A expressão da grandeza de Deus não necessita de um código de signos linguísticos para ser compreendido. A natureza demonstra por si só a grandeza, a glória e a fidelidade de Deus (v. 2).

A natureza não falha na sequencia dos eventos pré-estabelecidos por Deus, o que demonstra que Deus é firme e imutável. A abóbada celeste (firmamento) onde se pode presenciar os movimentos dos astros e dos corpos celestes anunciam que só podem ser obra de Deus. O salmista aponta que há uma linguagem implícita entre os dias que se sucedem, sendo que de igual modo há uma linguagem entre os dias que se sucedem, pois nisto não há confusão (v. 3).

O salmista destaca dentre todas as maravilhas que há no universo o sol e faz um comentário. Pelo ‘movimento’ constante, a morada que Deus preparou para o sol é descrita como ‘tenda’. O sol é comparado a um noivo que sai alegremente do seu leito nupcial a percorrer o seu caminho como se fosse um herói.

A ‘trajetória’ do sol faz com que nada se furte ao seu calor, pois o seu curso é de uma a outra extremidade do céu. Observe que a descrição que o salmista faz não tem por base questões científicas, antes se atem a descrever a funcionalidade e utilidade do astro amarelo, para demonstrar que as leis que regem a natureza são irrevogáveis, uma vez elas são uma expressão da natureza de Deus.

 

7 A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do SENHOR é fiel, e dá sabedoria aos símplices.
8 Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro, e ilumina os olhos.
9 O temor do SENHOR é limpo, e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente.
10 Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino; e mais doces do que o mel e o licor dos favos.
11 Também por eles é admoestado o teu servo; e em os guardar há grande recompensa.
12 Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos.
13 Também da soberba guarda o teu servo, para que se não assenhoreie de mim. Então serei sincero, e ficarei limpo de grande transgressão.
14 Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, SENHOR, Rocha minha e Redentor meu!

As Escrituras

Os versos 1 à 6 demonstram a grandeza e a perfeição de Deus através da natureza. Já os versos 7 à 14 dedicam-se a apontar a perfeição das Escrituras.

As Escrituras, a Lei, o Testemunho, os Preceitos, o Mandamento, o Temor, as Ordenanças são termos utilizados para fazer referência a palavra de Deus. Através da abordagem do salmista conclui-se que a palavra de Deus é perfeita, refrigera, é fiel, dá sabedoria, é reta, alegra, é pura, é luz, é limpa e permanecerá para sempre (v. 7 -9).

Somente através da palavra de Deus é dado ao homem conhecer que Deus trás descanso (refrigério) ao homem, ou que simples (inocente) alcança sabedoria. A retidão do Senhor torna o coração do homem alegre, pois a sua palavra é luz. A sabedoria de Deus é pura e permanecerá de eternidade a eternidade como expressão da justiça de Deus.

Ou seja, o salmista consegue estabelecer um contraste entre o que é revelado na natureza e o que é possível abstrair da sua palavra. Enquanto as conclusões pertinentes à natureza não redime o homem, a palavra de Deus é o meio de o homem andar à sua luz.

Conclui-se que, o que o homem não consegue perceber através da natureza, Deus revelou através da sua palavra.

Nada há que se compare ao conhecimento de Deus. Ouro? Favos de mel? Nada satisfaz o homem como os preceitos de Deus (v. 10), pois a palavra de Deus revela o cuidado de Deus para com os seus servos.

A palavra de Deus admoesta, ou seja, instrui, corrige e consola, pois ela estipula recompensa aqueles que se deixam instruir (v. 11).

Há alguém que consiga entender os seus erros sem a luz da palavra de Deus? Somente através da semente incorruptível o homem expurga os erros ocultos. Que ‘erros’ são estes? É o erro proveniente de Adão que o homem sem a revelação de Deus não consegue entender!

Como seria possível compreender que o primeiro Pai da humanidade, com a desobediência, alienou a humanidade de Deus? Como seria possível compreender que só Jesus, o último Adão, torna a dar acesso a Deus?

A palavra de Deus concede àqueles que por ela são exercitados a condição de sinceros e limpos. A recompensa de Deus aos que conhecem a sua palavra é a de se verem livres (limpos) da transgressão de Adão (v. 13). Todos os que se deixam instruir pela palavra da verdade estão livres da soberba.

O salmista espera que a meditação do seu coração seja agradável diante de Deus, pois do coração agradável procede as palavras agradáveis ( Mt 12:34 ).

Vemos através da Escritura que, a partir do momento que o homem tem o Senhor por Rocha e Redentor (crê), a sua adoração (canção) é aceita perante Deus. Por meio da fé o homem torna-se agradável a Deus (o que é nascido do Espírito é espírito), e passa a adorá-lo em espírito e em verdade. Somente quando o homem torna-se limpo de coração e sincero, Deus aceitará a meditação do homem.

 

O Verbo encarnado

Não podemos deixar de destacar que este Salmo faz referencia a pessoa de Cristo, pois Ele é o Verbo de Deus encarnado, a palavra fiel e verdadeira, que permanece para sempre ( Hb 13:8 ).

Portanto, ao ler este salmo, é necessário ter em mente que os céus declaram a glória de Cristo, pois foi Ele que criou todas as coisas ( Jo 1:3 ; Cl 1:16 ; Hb 1:8 -9).

Que ao fazer referência ao sol como noivo e herói, o salmista nesta previsão estava fazendo alusão a Cristo, o sol nascente das alturas que visitou os homens ( Lc 1:78 ). Enquanto o sol ilumina a humanidade nesta vida, Cristo é o sol que ilumina os que jazem nas regiões das trevas à sombra da morte ( Lc 1:79 ).

Cristo é a salvação poderosa levantada na casa de Davi e, ao visitar os homens tornou-se o noivo da igreja e a sua ação foi heroica, pois libertou os que jaziam em trevas ( Lc 1:69 ; Is 9:2 ; Jo 1:4 -5).

Portanto, ao falar do Verbo de Deus as palavras do salmistas eram agradáveis (v. 14), ou melhor, as penas de um destro escritor ( Sl 45:1 ), pois estava nesta previsão anunciando o mais formoso dos filhos dos homens: Cristo.