O Sermão da montanha e algumas práticas religiosas dos judeus – esmola, oração e jejum

Considerando o que é ensinado no Sermão da Montanha na oração do Pai nosso, de que quem roga a Deus pelo perdão das ofensas espera que Deus o faça graciosamente (como perdoamos os nossos devedores), não se pode aquiescer de uma ideia prescritiva de comportamento, de que Jesus estava ensinando que Deus só perdoa aqueles que perdoam aos seus semelhantes.


O Sermão da montanha e a abordagem de Jesus, acerca da esmola, da oração e do jejum

 

Introdução

O capítulo 6 do evangelho, segundo Mateus, é continuação do Sermão da Montanha, portanto, para interpretá-lo e compreendê-lo, se faz necessário considerar os princípios que norteiam o discurso de Jesus.

Em primeiro lugar, é necessário considerar o público alvo do discurso, pois Jesus só falou, por parábolas, à multidão: “E sem parábolas nunca lhes falava.” (Mc 4:34; Mt 13:13)

Em segundo lugar, é necessário considerar que a justiça dos seus ouvintes deveria ser superior à de seus mestres (Mt 5:20),  portanto, as práticas dos ouvintes de Jesus não deveriam ser as mesmas práticas dos escribas e fariseus, vez que elas não concedem a justiça, que dá direito ao reino dos céus.

Em terceiro lugar, é necessário considerar as suas ações, sob o prisma da pergunta: ‘Que fazeis de mais?’, ou ‘Não fazem os publicanos e pecadores, também, o mesmo?’, visto que praticavam ações semelhantes àqueles que condenavam e achavam que tinham direito ao reino dos céus. (Mt 5:46-47)

Após redarguir a multidão, com base em questões da lei, o Senhor Jesus passa a questionar as práticas religiosas (esmola, oração e jejum) dos seus ouvintes. (Mt 5:21-48)

 

Esmolas

“GUARDAI-VOS de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.” (Mateus 6:1-4)

Após demonstrar a impossibilidade de seus interlocutores alcançarem justiça superior à dos seus líderes religiosos, através da lei, Jesus passa a abordar algumas práticas religiosas do judaísmo. A forma como a prática das esmolas era realizada é a primeira questão religiosa a ser analisada.

É importante notar que, logo após orientar os seus ouvintes a serem perfeitos, como o Pai celestial, Jesus instrui a multidão a não esmolar, com o fito de serem notados pelos religiosos, alertando que, quem dá esmola diante dos homens, não será recompensado por Deus. (Mt 5:48)

Jesus salienta que os hipócritas (líderes religiosos), tanto nas sinagogas, quanto nas ruas, procuravam dar esmolas diante de uma plateia, como quem toca uma trombeta, chamando a atenção para si, no momento que iam esmolar, somente para serem reverenciados pelos seus pares, pela prática. A atenção destes, já era recompensa bastante para os hipócritas.

Jesus não proibiu a prática religiosa de esmolar, mas orientou a multidão que, se fosse dar esmolas, que o fizesse em oculto, ou seja, sem chamar a atenção (não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita), pois, Deus é conhecedor de todas as coisas e é Ele que recompensará publicamente o doador.

Dar esmolas é uma prática humanitária adotada pelas religiões e por  seus seguidores. Jesus não condena quem dá donativos aos seus semelhantes, porém, qualquer que pensa que alcançará a salvação por meio dessa prática, precisa mudar a concepção (metanoia), pois o único caminho que conduz o homem a Deus é Cristo.

Segundo São Roberto Belarmino (1542-1621), teólogo católico e cardeal inquisidor, há cinco vantagens em se dar esmola:

  • É reparação por pecados cometidos;
  • Acumula-se méritos para a vida eterna;
  • Permite o perdão dos pecados;
  • Aumentam a confiança em Deus;
  • Inspira os pobres a rezarem por seus benfeitores.

Observe essa reprimenda feita a um fariseu:

“E, estando ele, ainda, falando, rogou-lhe um fariseu que fosse jantar com ele; e, entrando, assentou-se à mesa. Mas, o fariseu admirou-se, vendo que não se lavara antes de jantar. E o Senhor lhe disse: Agora vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade. Loucos! Quem fez o exterior não fez, também, o interior? Antes, dai esmola do que tiverdes e eis que tudo vos será limpo. Mas, ai de vós, fariseus, que dizimais a hortelã, a arruda e toda a sorte de hortaliças e desprezais o juízo e o amor de Deus. Importava fazer estas coisas e não deixar as outras.” (Lc 11:37-42).

Ao dizer:

Antes daí esmola do que tiverdes e eis que tudo vos será limpo.” (Lc 11:41), ou;

Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, onde não chega ladrão e a traça não rói”, Jesus não estava orientando os fariseus a adotarem a pratica de esmolarem, pois, isso, já faziam. (Lc 12:33)

A determinação de Jesus aos fariseus é a mesma dada ao jovem rico, para que eles fossem peefeitos, como, perfeito, é o Pai Celeste:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.” (Mt 19:21; Mt 5:48);

“Outrossim, o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a.” ( Mt 13:4 -46).

O apóstolo Paulo considerou tudo o que possuía como esterco, para ganhar a Cristo, ou seja, ele se desfez de tudo:

“E, na verdade, tenho, também, por perda, todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo.” (Fl 3:8)

Ora, a multidão precisava ser perfeita, como o Pai é perfeito (Mt 5:48) e aí, a necessidade de aprender, acerca da prática das ‘esmolas’.

Para os ouvintes de Jesus serem perfeitos como o Pai celeste, precisavam ser misericordiosos como o Pai celeste: “Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:26). O termo grego traduzido por esmola é ελεημοσυνη[1] (eleemosune) que, também, significa misericórdia, piedade.

A esmola exigida por Deus, não tinha em vista os pobres, pois Ele mesmo enfatizou:

“Porquanto, sempre tendes convosco os pobres, mas a mim não me haveis de ter sempre.” (Mt 26:11)

Por parábola, Jesus estava ensinando os ouvintes do Sermão do Monte, como se purificarem: entregando a alma a Cristo, seguindo-O como mestre, pois essa é a justiça de Deus, a misericórdia (esmola), que deviam aprender e exercer.

“Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não sacrifício. Porque eu não vim chamar os justos, mas, os pecadores ao arrependimento.” ( Mt 9:13);

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.” (Mt 5:10-11);

“Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.” (Rm 10:3-4; Rm 3:22 ; Fl 3:9; Is 42:21).

Cristo é a justiça, pela qual os seus discípulos seriam perseguidos, a justiça que excedia à justiça dos escribas e fariseus:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e dos fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” (Mt 5:20);

“Mas, buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6:33)

Os escribas e fariseus deviam por em prática o mais importante da lei: o juízo, a misericórdia e a fé e não deixarem de fazer doações aos pobres, pois o conceito de ‘justiça’ estabelecido por Deus é a obediência à sua palavra, o que, também, se designa por  ‘misericórdia’!

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, mas desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas e não omitir aquelas.” (Mt 23:23)

O que Deus estabeleceu na lei? O que era justiça para Israel? O cuidado em cumprir todos os mandamentos, como Deus ordenou.

“E o SENHOR nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos, que temêssemos ao SENHOR, nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje. E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR, nosso Deus, como nos tem ordenado.” (Dt 6:24-25)

Mas, passou-se o tempo e o profeta Isaías protestou contra Israel, dizendo:

“CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça e têm prazer em se chegarem a Deus…” (Is 58:1-2)

Se a justiça para Israel era cumprir o que Deus ordenou, por que perguntavam, a cada dia, pelos direitos da justiça? Respondo: Porque os filhos de Israel confundiam práticas religiosas, como distribuir dinheiro aos pobres (esmola), com o serem ‘misericordiosos’ de fato, ou seja, em Israel não havia quem entendesse: – ‘Misericórdia quero e não sacrifício’.

O registro da parábola do Sermão da Montanha pelo evangelista Lucas, assemelha-se, em muito, ao que Mateus registrou, com relação à ‘misericórdia’, o que nos fornece elementos para melhor compreensão da parábola do Sermão da Montanha, no que concerne às esmolas:

“E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também, os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também, os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também, os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno, até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:32-36)

Os versos 32 a 35, do capítulo 6, de Lucas, contém a mesma temática de Mateus 5, versos 46 a 48, exceto pela invocação do que os ouvintes ouviram, acerca da lei:

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-48)

Como já vimos, anteriormente, Jesus não estava instituindo novas praticas ou, novos princípios morais, antes, destacando o fato de que tudo o que faziam, a pretexto da lei, os pecadores faziam o mesmo: amam aos que os amam, fazem o bem aos que lhes querem bem, emprestam para receber com juros, etc.

Daí a necessidade de práticas superiores às dos escribas e fariseus, para serem perfeitos: serem misericordiosos, ou seja, deveriam vender tudo o que possuíam e dar aos pobres, ou seja, dar esmola de tudo o que tivessem! (Lc 11:41 e 12:33; Mt 19:21; Mt 5:48)

 

A oração

“E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar, em pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo, que já receberam o seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes.” (Mt 6:5-8)

Assim como a prática de dar esmolas, a oração é prática comum aos diversos segmentos religiosos existentes no mundo e até à algumas correntes filosóficas, que adotam tal prática, a pretexto de meditação.

No judaísmo, cristianismo, islamismo, budismo, espiritismo, etc., a oração é tida por uma ação religioso que faz contato com o divino, através de uma ligação, conversa, pedido, agradecimento, reconhecimento, louvor, adoração ou, reverência, podendo ser individual ou, coletiva.

Daí a pergunta: o que diferencia a oração do cristão, da oração das outras religiões? Qual era o mote da oração dos judeus, que se fez necessário Jesus instrui-los, acerca da oração?

Não podemos esquecer que estamos analisando o Sermão da Montanha, uma grande parábola, pois tem, por público alvo, os judeus, povo religioso, mas que as Escrituras protestavam contra eles como sem compreensão: “Porque são gente com falta de conselhos e neles não há entendimento.” (Dt 32:28)

Considerando a necessidade premente dos ouvintes de Jesus obterem justiça superior à dos escribas e fariseus, para terem direito ao reino dos céus (Mt 5:20), Jesus destaca o comportamento dos lideres da religião judaica, que, continuamente, frequentavam as sinagogas, tinham prazer em fazer suas orações, em pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, com o objetivo de serem notados pelos seus pares.

No mínimo, o comportamento dos ouvintes de Jesus deveria ser diferente dos seus líderes, caso quisessem justiça superior. Se os líderes judaicos já receberam a sua recompensa, ao se fazerem notar quando oram nas praças e nos templos, os ouvintes de Jesus deveriam entrar em seu local de repouso e fechar a porta para orar, sem que os outros percebam, pois é Deus quem ouve as petições e recompensa publicamente.

Semelhantemente, de nada adianta fechar a porta do quarto para orar, mas, quando for testemunhar, anunciar na tribuna, diante de todos, que é um homem ou, mulher de oração ou, exibir joelhos calejados, a pretexto de orar bastante. Muitos pregadores dão testemunho de si mesmos, de que são homens de oração, com o fito de serem reverenciados por seus expectadores!

Além de não se exibirem como os hipócritas, os ouvintes de Jesus são instruídos a não se utilizarem de vãs repetições, como os gentios, que acham que, por muito orar, de algum modo serão atendidos.  Através desse verso, torna-se evidente que o público alvo da mensagem do Sermão do Monte era composto por judeus.

Jesus deixa claro que, para Deus atender a uma oração, Ele não leva em conta o quanto a pessoa ora, como se o tempo em que a pessoa permanece em oração o sensibilizasse. Deus não se assemelha ao juiz iniquo da parábola sobre o dever de orar sempre, sem se desfalecer. (Lc 18:1-8)

Deus não é favorável a qualquer que acredita que será atendido por muito rogar, antes, Deus atende aquele que confia que Ele é misericordioso e galardoador daqueles que O obedecem.

Jesus enfatiza que Deus conhece aquilo que o homem há de pedir, antes, mesmo, de formular o pedido. O crente, quando ora a Deus, assim, o faz, porque confia na misericórdia divina,  não porque Deus desconhece os seus problemas ou, o que vai pedir.

Observe que Jesus só analisa a maneira que os escribas e fariseus oravam e recomenda a seus ouvintes que mudem a forma de fazê-lo. Ao apontar o jeito que os escribas e fariseus oravam e a maneira que os seus ouvintes deveriam orar, Jesus não estava estabelecendo que a condição para serem ouvidos por Deus era fechar a porta do aposento ou, que o quarto é um lugar especial para Deus.

A proposta de Jesus à multidão é para que, ao menos, a forma e o lugar onde orarem fosse alterada, caso buscassem alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus.

A resposta que um jovem, cego de nascença, deu aos escribas e fariseus, após ser curado por Jesus, é a melhor definição de quem Deus ouve a oração e de quem Deus não ouve:

“Ora, nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a esse ouve.” (Jo 9:31).

Isaías já havia profetizado, explicando o motivo pelo qual Deus não ouvia os filhos de Israel:

“Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e, ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.” (Is 1:15).

Enquanto Deus exigia do povo obediência (1Sm 15:22; Os 6:6), os filhos de Jacó apresentavam-se no templo com sacrifícios, ou seja, com a mão manchada de sangue, pois, quem oferece um boi é como quem mata um homem. (Is 66:3).

 

A oração do ‘Pai nosso’

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, o poder e a glória, para sempre. Amém.” (Mateus 6:9-13).

Conhecendo os seus interlocutores, pois não sabiam o que pedir e nem como pedir, Jesus ensina a oração do Pai Nosso.

Esse problema, a respeito do que pedir e de  como convém pedir, não é afeita à Igreja de Cristo, pois o Espírito Santo intercede pelos que estão em Cristo e Jesus mesmo orou ao Pai, pelos que haveriam de crer n’Ele.

“E da mesma maneira, também, o Espírito ajuda nas nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir, como convém, mas, o mesmo Espírito, intercede por nós, com gemidos inexprimíveis.” (Rm 8:26; Jo 17:20).

A oração do Pai nosso, ao longo dos tempos, tornou-se uma reza e muitos a utilizam de modo repetitivo, como se fosse uma fórmula mágica. Diante de situações mil, as pessoas recitam o Pai nosso, como em velórios, perigos, tristezas, decepções, etc. Em nossos dias, as pessoas continuam se utilizando de vãs repetições em suas orações e, simplesmente, agregam as suas imprecações ao Pai Nosso.

A oração ‘modelo’, ensinada por Jesus, contém princípios que norteariam os judeus a saberem a quem pedir, o que pedir e como pedir. Os ouvintes de Jesus, ao pé do monte, não precisam iniciar as suas orações, dizendo: ‘Pai nosso que estais nos céus…’, como se nessas palavras houvesse um conteúdo mágico, uma fórmula, mas, antes, compreenderem que, quando orarem, devem confiar, inteiramente, em Deus, como Pai.

Aquele que roga: “Pai nosso que estás nos céus…”, é conduzido a considerar se, efetivamente, é um dos filhos de Deus, pois, se for uma mancha, geração perversa e distorcida, de nada adianta orar, pois não será atendido. (Dt 32:5)

“O filho honra o pai e o servo a seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou Senhor, onde está o meu temor?” (Ml 1:6)

A oração é fruto da confiança que o filho deposita na misericórdia e na fidelidade de Deus (Hb 11:6) e não o contrário, confiar que a oração é o elemento que concede o favor divino.

Quando orassem ‘… santificado seja o teu nome’, os ouvintes de Jesus deveriam considerar se santificam (separam) o nome de Deus, quando se obedecem à Sua palavra. Rogos, orações e imprecações, não diferenciam Deus de outros deuses, mas, sim, por honrá-lo como Pai e Senhor.

“Ao SENHOR dos Exércitos, a Ele santificai; seja Ele o vosso temor e seja Ele o vosso assombro.” (Is 8:13)

Deixar de pronunciar o nome de Deus ou, pronunciar o nome de Deus somente em aramaico ou hebraico, não é santificar o nome de Deus. Se a doutrina (temor) de quem ora é proveniente de Deus e, se o individuo, efetivamente, obedece (assombro, tremor), Deus é santificado (separado). Como santificar o nome do Senhor? Obedecendo-O! Ao dizer: santificado seja o teu nome, quem faz a oração deve ter a Deus como seu temor (regra de fé) e obediência.

Na Antiga Aliança, o homem santificava o nome do Senhor, quando obedecia aos seus mandamentos e, na Nova Aliança, com o advento de Cristo, santificar ao Senhor é crer que Jesus de Nazaré é o Cristo.

“Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”. (1 Pe 3:15)

Santificar o nome de Deus não é algo visível, mensurável aos olhos do próximo, antes, é próprio ao indivíduo que obedece a Deus em espírito e em verdade. Por isso, dar esmola para que todos vejam ou, orar nas praças, não significa que se está ‘santificando’ o nome de Deus.

Quando o homem santifica a Deus obedecendo, Deus também santifica o seu nome, realizando a sua maravilhosa obra redentora. Deus santificou o seu nome, ao levantar salvação poderosa na casa de Davi, seu servo, pois Ele havia prometido que o Cristo nasceria na casa de Davi. Deus santifica o seu nome, como fiel e verdadeiro, ao lembrar-se da sua santa aliança e juramento a Abraão. (Lc 1:69-73)

Jesus sabia que Deus era o seu Pai e que, verdadeiramente, ele era o Filho e que Deus sempre haveria de atendê-Lo. Mas, quando diante da multidão, Jesus rogava ao Pai para que soubessem que Ele é o enviado de Deus, como salvador do mundo.

“Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste”. (Jo 11:42)

Percebe-se, através da oração de Cristo, que a oração, também, possui um viés didático para aqueles que ouvem a oração.

O que os judeus deveriam pedir a Deus em oração? O reino de Deus! Por que o reino de Deus? Ora, o reino de Deus se estabelece pela presença do Cristo, o grande Rei, e só é inaugurado com a vinda do Cristo, o Filho de Davi.

Ao orar pela vinda do Messias, estariam orando segundo a vontade de Deus, e assim, não haveria como não serem atendidos.

“E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve.” (1 Jo 5:14)

Com a vinda do Cristo, a vontade de Deus se estabelece, tanto nos céus, quanto na terra:

  1. nos céus, a vontade de Deus é estabelecida, porque Cristo é constituído a cabeça do corpo, que é a Igreja, constituída de todas as famílias da terra (judeus e gentios);
  2. na terra, Deus faz a sua vontade, cumprindo a sua palavra a Abraão e a Davi, fazendo os filhos de Israel herdarem a terra prometida e assentando Cristo sobre o trono de Davi, seu pai.

Em Cristo, o Filho de Davi, o templo prometido a Davi está sendo erguido com pedras vivas: que é a igreja, portanto, a promessa feita a Davi está sendo cumprida, e Cristo é constituído o primogênito de Deus entre muitos irmãos (Rm 8:29).

Por meio de Cristo, Deus restaurará a nação de Israel, unificando as duas casas de Israel, e Ele se assentará sobre o trono de Davi, na condição de o mais elevado dos reis da terra (Sl 89:27) e exercerá o sacerdócio, segundo a ordem de Melquisedeque. (Sl 110:4)

Quando orassem, os Judeus tinham que se preocupar com o que comer?

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou, pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento e o corpo, mais do que o vestuário? (…) (Por todas estas coisas, os gentios procuram). De certo, vosso Pai celestial, bem sabe que necessitais de todas estas coisas. (Mt 6:25)

Em outra ocasião, Jesus ensinou aos judeus, que deviam trabalhar pela comida que permanece:

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou.” (Jo 6:27)

Devemos lembrar que o homem não vive de pão, mas, da palavra de Deus (Dt 8:3), e que Deus estabeleceu o trabalho, como meio de subsistência (Gn 3:19). A oração que Jesus ensinou, tinha o viés de fazer os seus interlocutores pensarem o que é conveniente pedirem a Deus, pois Deus não contraria a sua palavra, dando pão a comer, se é necessário trabalhar.

Ao pedirem pão, os ouvintes de Jesus deveriam repensar os seus conceitos, acerca do que estava estabelecido por Deus e, assim, ocorreria o arrependimento, pois, Cristo é o verdadeiro pão que dá vida:

“Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu” (Jo 6:32)

“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.” (Jo 6:51).

Quando Deus concedeu aos filhos de Israel pão no deserto, por mão de Moisés, era fornecida a matéria prima, todos os dias, para o consumo daquele dia. Assim, não deviam se preocupar com o que haveriam de comer amanhã, mas, sim, em preparar o que foi concedido por Deus, apenas, no dia de hoje.

Os ouvintes de Jesus deveriam pedir a Deus o perdão de suas ofensas, confiados na misericórdia de Deus e não se apresentarem diante d’Ele, confiando que eram justos. O favor divino só é concedido aos necessitados de espírito.

Somente o Cristo pode levantar as mãos aos céus e orar ao Pai, apresentando a sua retidão e justiça:

“O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça, e conforme a integridade que há em mim.” (Sl 7:8)

Quando alguém perdoa a dívida do seu próximo, assim, o faz, graciosamente (sem pedir nada em troca), portanto, os ouvintes de Jesus deveriam pedir a Deus que fossem perdoados, graciosamente.

O ensino de Jesus não estabelece uma barganha entre o homem e Deus: ‘Ó, Senhor, perdoa a minha dívida, pois eu perdoo aquele que me ofende’. Interpretar como imprescindível perdoar o outro, para ser perdoado por Deus, é pernicioso e torce a ideia do texto. Deus não é devedor de ninguém, mesmo quando esse alguém perdoa o seu semelhante.

“Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro, tal como tu e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem.” (Jó 35:7-8)

O ‘assim como’ da frase: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, é um comparativo que introduz a ideia de gratuidade, ou seja, que Deus os perdoaria, sem nada exigir.

O ensino de Jesus tinha o fito de orientar a multidão a não adotar o posicionamento descrito na parábola do fariseu e do publicano, em que o fariseu, confiado em si mesmo, na sinagoga, dá graças a Deus, por não ser como os demais homens.

“O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano.” (Lc 18:11)

Os ouvintes de Jesus deviam orar a Deus para livrá-los da tentação, livrando-os do mal. No que consiste a tentação? Tudo o que faz o homem desviar-se de cumprir os mandamentos de Deus! O mal se abate sobre todos os que se desviam de obedecer a Deus, portanto, qualquer que permanece obediente a Deus está livre do mal.

“Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados.” (2 Pe 2:9).

Ao final da oração, reconheça que a Deus pertence o reino, o poder e a glória para sempre, ou seja, que é plenamente possível a Deus conceder tudo o que foi pedido, anteriormente, pois essa é a vontade de Deus!

O crente em Cristo faz a oração do Pai nosso? Lembre-se que, quando ensinou o Pai nosso, Jesus estava ensinando judeus a orarem, não a convertidos ao evangelho!

Quem está em Cristo, não precisa orar pedindo ao Pai que santifique o seu nome, pois já santificou a Cristo como Senhor em seu coração, quando creu que Jesus é o Cristo. Já não é necessário pedir que venha o reino de Deus, pois crê que Cristo é o reino dos céus entre os homens, que trouxe salvação a todos os povos. Não precisa pedir pão, pois é participante de Cristo, ou seja, comeu do pão e bebeu da água concedida por Deus, de modo que não terá mais fome e nem sede. Já não precisa pedir perdão das ofensas, pois já não resta nenhuma condenação por estar em Cristo.

 

Perdão

“Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” (Mt 6:14 -15)

Para interpretar esses dois versos, devemos considerar:

a) denotação: sentido real, literal da frase, ou o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;

b) conotação: a associação subjetiva, cultural e/ou emocional, que está para além do significado estrito ou, literal de uma palavra, frase ou, conceito ou, seja, diz dos sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;

c) ênfase: refere-se ao grau de importância que o autor atribui aos diferentes elementos constitutivos da frase.

Portanto, a instrução de Jesus, com relação ao perdão às ofensas dos outros, deve ser analisado, segundo os princípios estampados nos versos 43 à 48, do capítulo 5, de Mateus ou, segundo os princípios de Lucas 6, versos 32 à 36. Observe:

“E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também, os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos e fazei bem e emprestai, sem nada esperardes e será grande o vosso galardão e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno, até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:32-36)

Analisando os versos acima, do ponto de vista denotativo, o que é ensinado? Que o perdão de Deus só é concedido àqueles que perdoam? Que o perdão de Deus está condicionado ao perdão que os homens dispensam aos seus semelhantes? Que os ouvintes de Jesus tinham que primeiramente perdoar as ofensas dos seus semelhantes para só, então, alcançarem o direito de serem perdoados por Deus?

Sabemos que o perdão que Deus dispensa aos homens tem por base a sua misericórdia e graça, manifesta em Cristo (Rm 4:7; Ef 4:32), o dom de Deus, portanto, é contrário interpretar os versos 14 e 15 de Mateus 6, como se o perdão de Deus estivesse atrelado ao perdão que o homem primeiro dispensa aos seus semelhantes.

Sendo assim, analisemos o seguinte verso bíblico, na língua grega:

“Ἐὰνγὰρἀφῆτετοῖςἀνθρώποις τὰ παραπτώματα αὐτῶν, ἀφήσει καὶ ὑμῖν ὁ πατὴρὑμῶν ὁ οὐράνιος·” Mt 6:14 [TextusReceptus (Elzevir) (1624)]

“se [2] Pois [1] perdoardes às pessoas as ofensas delas, perdoará também a vós o Pai [2] vosso [1] o celeste” (Mateus 6:14).

O mesmo verso, sem ponto e vírgula:

“Εαν γαρ αφηται τοις ανθρωποις τα παραπτωματα αυτων αφησει και ϋμιν ο ΠHΡ ϋμων ο ουρανιος” Mt 6:14 [Codex Washingtonianus (W or 032) (5th century)]

Nas nossas Bíblias, a oração do Pai nosso termina com um ‘amém’, porém, em muitos manuscritos do Novo Testamento não há o ‘assim seja’ encerrando o ensinamento acerca de como orar. Há que se considerar que os antigos manuscritos do Novo Testamento não possuíam sinais de pontuação como: vírgula, ponto final, interrogação, exclamação, etc., e, que esses sinais foram introduzidos muito mais tarde.

Considerando o que é ensinado na oração do Pai nosso, de que quem roga a Deus pelo perdão das ofensas, espera que Deus o faça graciosamente (como perdoamos os nossos devedores), não se pode aquiescer de uma ideia prescritiva de comportamento, de que Jesus estava ensinando que Deus só perdoa àqueles que perdoam aos seus semelhantes.

Já explicamos que, o ‘assim como’, estampado na oração do ‘Pai nosso’, com relação ao perdão (perdoamos os nossos devedores), introduz a ideia de gratuidade, não de dívida, pois se o homem perdoar ou não quem o ofende, Deus nada deve ao homem. (Jó 35:7-8)

“Ora, àquele que faz qualquer obra, não lhe é imputado o galardão, segundo a graça, mas, segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.” (Rm 4:4-5)

O ‘assim como perdoamos os nossos devedores’ não é elemento que torna o homem merecedor do perdão divino e nem estabelece uma dívida de Deus para com os homens, antes, indica a base do perdão divino: benevolência, gratuidade.

Antes de abordar as questões relacionadas à religiosidade dos judeus, como esmolas e orações, a ordem expressa de Cristo para os seus ouvintes era para que fossem ‘perfeitos’, ou seja, ‘misericordiosos’ como o Pai celeste, portanto, após questionar as práticas religiosas (esmolas e oração) dos líderes judaicos e ensinar o ‘Pai nosso’, o que se segue são perguntas que exigem dos ouvintes de Jesus respostas, segundo a perfeição divina (que faz que o sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos), e não uma ordem que estabeleça uma barganha pelo perdão divino.

O núcleo da indagação dos versos 14 e 15 de Mateus 6, ou seja, a ênfase, retoma a ideia abordada anteriormente: ‘Se vocês amam somente os que vos amam e cumprimentam somente os que vos cumprimentam, não fazem os publicanos e os gentios o mesmo?’, pois, se os ouvintes de Jesus desejavam entrar nos céus, não podiam se contentar com práticas semelhantes às dos escribas e fariseus; além do mais, não estavam fazendo nada de mais, se comparada as práticas dos ouvintes às práticas dos seus líderes, os publicanos e gentios!

A partícula ‘se’, no verso 14, de Mateus 6, introduz uma argumentação conclusiva, com base no que já foi exposto, não um mandamento a ser observado, que represente uma espécie de barganha com Deus, para alcançar o Seu perdão.

A ideia expressa é: Se os ouvintes de Jesus (homens falhos) perdoavam as ofensas dos seus semelhantes, o Pai celeste também haveria de perdoá-los!

“se [2] Pois [1] perdoardes às pessoas as ofensas delas, perdoará também a vós o Pai [2] vosso [1] o celeste”.

Esse argumento será repetido no capítulo 7, do seguinte modo:

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mt 7:11)

Se os ouvintes de Jesus, sendo maus, perdoavam as ofensas dos seus semelhantes, o Pai celeste, também, haveria de perdoá-los!

Como interpretar o verso 15?

“ἐὰνδὲμὴἀφῆτετοῖςἀνθρώποις, [τὰ παραπτώματα αὐτῶν] οὐδὲ ὁ πατὴρὑμῶνἀφήσειτὰ παραπτώματα ὑμῶν” Westcott/Hortwith Diacritics.

“se[2] mas[1] não perdoardes às pessoas, nem o Pai[2] vosso[1] perdoará as ofensas[2] vossa[1]” (Mateus 6:15).

Com base no verso 45, do capítulo 5 de Mateus: “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos”, se os ouvintes de Jesus não perdoassem as pessoas, considerando que Deus é perfeito, seria o caso de ‘nem mesmo’ (οὐδὲ) Deus perdoá-los?

Vale destacar que o ensinamento do apóstolo Paulo às igrejas, no quesito perdão, difere da temática do ensinamento de Jesus à multidão, visto que os públicos alvos das mensagens são diferentes: Cristo falava por parábolas ao povo, enquanto que o apóstolo Paulo falava abertamente aos cristãos.

O apóstolo Paulo exorta os cristãos a perdoarem uns aos outros, sendo benignos e misericordiosos. Entretanto, já estavam perdoados por Deus, através de Cristo e precisavam tomar Cristo como exemplo, perdoando os irmãos. Em momento algum é posta a condição de ser necessário perdoar o outro para ser perdoado.

“Suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.” (Cl 3:13)

“Antes, sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como, também, Deus vos perdoou em Cristo.” (Ef 4:32).

Os cristãos, também, são exortados a terem paz, uns com os outros, e com relação aos não cristãos, se depender do cristão, que tenham paz com todos os homens:

“Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Rm12:18);

“Tende paz entre vós.” (1 Ts 5:13)

Diferentemente, Jesus demonstra aos seus interlocutores que, se queriam ser perfeitos, ou seja, obterem justiça superior à dos escribas e fariseus, deveriam imitar a Deus como filhos, que faz vir chuva sobre bons e maus.

 

O jejum

“E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados, como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade, vos digo que já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará, publicamente” (Mt 6:16-18).

A questão do jejum é a última prática religiosa dos judeus que Jesus aborda e deve ser analisado, através das mesmas premissas que analisamos a esmola e a oração.

Devemos considerar a ordem para serem perfeitos e misericordiosos:

“Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:48), ou;

“Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:36).

Em que os judeus eram diferentes dos gentios e publicanos, quando davam donativos, se os gentios e os publicanos faziam o mesmo? Em que os judeus eram diferentes dos gentios e publicanos, se os judeus, semelhantemente, aos gentios e publicamos, oravam se utilizando de vãs repetições? Como os jejuns dos judeus se diferenciavam dos jejuns dos publicanos, que eles consideravam pecadores?

Após informar aos seus ouvintes, que era impossível entrarem no reino dos céus se não alcançassem justiça superior à dos escribas e fariseus, e abordar a questão da esmola e da oração, Jesus faz uma observação, acerca do jejum praticado pelos escribas e fariseus.

Quando jejuavam, os escribas e fariseus, simplesmente, se ocupavam em desfigurar os seus rostos (fazer cara fechada), para que os outros percebessem que eles estavam em jejum; os escribas e fariseus, nem mesmo lavavam e ungiam a cabeça, segundo o costume, para demonstrarem a sua devoção e religiosidade.

Nesse sentido, Jesus alerta os seus ouvintes a não jejuarem para serem notados pelos homens, mas que não se mostrassem contristados, quando jejuassem, pois Deus tudo vê. Os ouvintes de Jesus deveriam se portar, naturalmente, quando jejuassem: lavar o rosto, ungir a cabeça, alegrar o semblante, etc.

O jejum era uma prática religiosa muito utilizada pelos escribas e fariseus, tanto que questionaram Jesus sobre o motivo dos seus discípulos não jejuarem, e inclusive, compararm os discípulos de Cristo, com os discípulos de João Batista.

“Disseram-lhe, então, eles: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes e fazem orações, como, também, os dos fariseus, mas os teus comem e bebem?” (Lc 5:33).

A resposta de Jesus foi surpreendente:

“Podeis vós fazer jejuar os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles?” (Lc 5:34).

O que é o jejum? O jejum é contristar-se diante de Deus e foi instituído por Deus, atrelado ao dia de descanso, ou seja, um sábado (dia aprazível ao Senhor Deus).

“É um sábado de descanso para vós e afligireis as vossas almas; isto é estatuto perpétuo.” (Lv16:31).

O ‘afligir’ da alma, ou seja, o jejum, não é uma prática que infligisse ao corpo a algum tipo de sofrimento, como flagelo, abstenção, ascetismo, etc. Por outro lado, as ervas amargas já tinham o viés de lembrá-los do sofrimento do Egito e que Deus, com mão forte, os resgatou da servidão.

Os filhos de Israel deveriam afligir a alma, não o corpo. O que seria afligir a alma? Reconhecer a sua real condição, diante de Deus, a partir do exposto em sua palavra, não a partir de convicções próprias.

Não encontramos no Pentateuco uma ordem expressa de Deus para que o povo jejuasse, antes, deveriam afligir a alma.

Um filho de Jacó afligiria a alma no momento que reconhecesse que não foi por causa de suas justiças que Deus resgatou os filhos de Israel do Egito, mas, sim, porque Deus cumpriu o prometido a Abraão (Dt 9:4-6). Reconhecer a sua real condição, diante do que Deus revela e passar a agir conforme a palavra de Deus, é afligir a alma.

Mas, com o passar do tempo, o que deveriam considerar segundo a palavra Deus, tornou-se um elemento de culto e, em vez de afligirem a alma, passaram a não comer, não lavar o rosto e nem a utilizar perfume, o que designaram por jejum.

Jejuar, ou melhor, afligir a alma não consiste em ficar cabisbaixo, moribundo, melancólico, etc., ou, sem lavar o rosto, sem ungir a cabeça ou, sem se alimentar.

“Seria este o jejum que eu escolheria, que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aprazível ao SENHOR?” (Is 58:5)

Observe a repreensão de Deus, por intermédio do profeta Isaías, de que o verdadeiro jejum não consistia em ficar cabisbaixo, antes seria deixar de ser altivo, de dura cerviz. Jejuar, também, não consistia em deitar-se sobre pano de saco ou sobre cinzas, antes é humilhar-se a si mesmo, fazendo-se servo de Deus.

Deus nunca chamou o ato de andar cabisbaixo ou, de deitar-se sobre saco e cinza, como jejuar ou, como afligir a alma. O verdadeiro jejum se dá quando o homem considera a sua condição de dura servis e abaixa a cabeça, sujeitando-se ao jugo de Deus, ou seja, reconhecendo a sua condição e se fazendo servo, obedecendo à palavra de Deus.

Os filhos de Israel confundiam o ato de jejuar com o afligir a alma (Is 58:3). Reclamavam que jejuavam e Deus não atendia, porém, Deus nunca requereu que jejuassem, ficando sem comer, cabisbaixos, vestindo pano de saco ou, assentando-se em cinzas. (Is 58:5)

O verdadeiro Sábado (dia) de jejum, não visava chamar a atenção de Deus para as desventuras diárias daqueles que jejuassem,antes, o jejum demandava obediência a Deus, cuidando em soltar os cativos do pecado, as ataduras que prendem o homem ao jugo da servidão, que é a morte.

Deus ordena a quem jejua que distribua pão ao faminto. Jejuar é distribuir pão gratuitamente? Deus não estava falando de pão cotidiano, quando apontou o jejum verdadeiro. O pão dos verdadeiros israelitas diz da salvação, que há em Deus, que dá liberalmente aos pobres de espírito pão e vestes de justiça aos nus.

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos e despedaces todo o jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras e não te escondas da tua carne?” (Is 58:6-7);

“Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; A sua justiça permanece para sempre” (2 Co 9:9; Sl 102:9);

“Dizendo: Por que jejuamos nós e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas e tu não o sabes? Eis que no dia em que jejuais, achais o vosso próprio contentamento e requereis todo o vosso trabalho” (Is 58:3).

O verdadeiro jejum não era ficar com fome, mas abrir a alma ao faminto. Faminto de que? Ao faminto de justiça! O faminto se farta do pão providenciado do Deus que é dado a qualquer que tenha fome e sede de justiça.

“E se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita; então, a tua luz nascerá nas trevas e a tua escuridão será como o meio-dia.” (Is 58:10; Is 55:1-3).

Como se abre a alma ao faminto? Anunciando as palavras de Deus: que Ele fez uma aliança perpétua, ao prometer o Cristo a Davi. (Is 55:3)

O jejum, como o afligir da alma, assim, como todos os elementos instituídos pela lei, era sombra de uma realidade, que remete a Cristo. Cristo é Senhor do Sábado, a alegria do Senhor, portanto, em Cristo o homem já entrou no repouso (descanso) de Deus, que o sábado na Antiga Aliança representava.

“Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” (Hb 4:10);

“PORQUE tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem, cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam.” (Hb 10:1)

A festa anual de expiação, no dia dez do sétimo mês, era uma festa de jejum (Lv 16:29). Era um dia de descanso, ou seja, um sábado, que poderia ser qualquer dia da semana, pois era o décimo dia do sétimo mês (Lv 16:31). Como Deus ouve o aflito que clamar (Lv 22:23), quando foi dito para afligir a alma, Deus estava conclamando os filhos de Israel a clamarem ao Senhor, confiando em sua misericórdia (Jl 2:32), não para ficarem sem comer, pois era um dia de festa ao Senhor e nesses dias havia muita comida e bebida.

Ao instruir aos seus ouvintes para não se mostrarem contristados, quando jejuassem, Jesus estava dando elementos para que questionassem as práticas dos seus líderes religiosos e, concomitantemente, fazer uma releitura do que é o jejum exigido por Deus. (Mt 6:16)

Quando os ouvintes de Jesus jejuassem, deveriam lavar o rosto e ungir a cabeça com óleo, ou seja, manterem-se de semblante alegre. Se não parecia aos homens que jejuavam (Mt 6:18), mas a Deus, certo é que haveriam de compreender o exposto pelo profeta Isaías.

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” (Is 58:6-7)

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“1654 ελεημοσυνη eleemosune de 1656; TDNT – 2:485, 222; n f 1) misericórdia, piedade 1a) esp. como exibido no dar esmola, caridade 2) o benefício em si mesmo, doação ao pobre, esmola”.  Dicionário Bíblico Strong.

ESMOLA – “eleémosuné (ἐλεημοσύνη), relacionado com eleemon, “misericordioso”, significa: (a) “misericórdia, piedade, particularmente em dar esmolas” (Mt 6.1,2,4; At 10.2; 24.17); (b) o próprio ato de caridade, as “esmolas” — o efeito pela causa (Lc 11.41; 12.33; At 3.2,3,10; 9.36; 10.2,4,31-‘H Nota: Em Mt 6.1, traduzindo dikaiosune, de acordo com os textos mais autênticos, temos “justiça” (ARA)” Dicionário VINE, pág. 613.

“A palavra “justiça”, também, engloba tudo o que Deus espera do Seu povo. Os verbos associados com “justiça” indicam a praticabilidade desse conceito. A pessoa julga, trata, sacrifica e fala com justiça: e a pessoa aprende, ensina e busca a justiça, fundamentado num relacionamento especial com Deus. O santo do Antigo Testamento pedia a Deus que o tratasse com justiça: “O Deus, dá ao rei os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei” (SI 72.1). A Septuaginta dá às seguintes traduções: dikaios (“aqueles que são retos, justos, íntegros, que se conformam com as leis de Deus”): dikaiosune (“justiça, retidão” ): e eleemosune (“escritura de terra, esmola, doação de caridade”). Dicionário VINE, pág. 163.




Os cristãos e as ‘boas obras’

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo demonstra que os homens que dão ouvidos às fábulas judaicas e a mandamentos de homens são reprováveis para toda boa obra, pois são desobedientes e abomináveis diante de Deus, pois não creem em Cristo ( Tt 1:14 -15).


Os cristãos e as ‘boas obras’

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 )

 

Introdução

Recentemente ouvi em um ensinamento bíblico que muitos cristãos se esquivam de praticarem ‘boas obras’ para fugirem da ideia da salvação pelas obras, ao passo que, os espíritas e católicos praticam ‘boas obras’, e os evangélicos em geral tem ignorado a importância espiritual delas. O pregador enfatizou de diversas formas que é necessário aos cristãos praticarem ‘boas obras’ e apresentou como argumento suficiente para embasar e concluir sua exposição o verso 10 de Efésios 2: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”.

Num primeiro momento a exposição de que os cristãos têm o dever de praticar as boas obras parece fazer sentido, porém, quando ele afirma que os cristãos negligenciam as ‘boas obras’ enquanto os espíritas e os católicos sobressaem nesta área, deixa claro que a argumentação do pregador deriva de uma lógica simplista, o que me levou a questionar: será que o ensinamento deste pregador é correto? O versículo citado foi interpretado corretamente?

 

Interpretação de texto

É imprescindível ao interprete da Bíblia analisar todo e qualquer versículo à luz de todos os pontos das Escrituras que fazem referência ao tema para ter segurança quanto à interpretação do texto. Antes de iniciar a análise do verso: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ), faz-se necessário ao interprete se esvaziar de seus próprios conceitos, pois eles influenciam diretamente a interpretação.

Em segundo lugar, vale salientar que a tradução bíblica que utilizamos, João Ferreira de Almeida, que apesar da maravilhosa tradução que produziu, estava à mercê de uma concepção doutrinária que louvava a filantropia. Portanto, há pontos específicos na tradução que utilizamos que merecem um cuidado maior quando analisado, pois uma concepção de que a filantropia é um meio de se alcançar a salvação, ou que esmolar aproxima o homem de Deus demonstra certa influencia na tradução, e o tema boas obras merecem uma atenção específica.

“Antes dai esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo ( Lc 11:41 )

Basta esmolar que o interior e o exterior do copo ficam limpos? O que limpa o homem do pecado é o sangue de Jesus ou o ato de dar esmolas? “Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” ( 1Jo 1:7 ); “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro” ( 1Pd 1:22 ); “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

Analisando os termos traduzidos por ‘obra’, temos:

έργον, ου, το trabalho—1. ato, ação Lc 24.19; Cl 3.17; 2 Ts 2.17; Hb 4.3, 4, 10; Tg 2.14ss. Manifestação, prova prática Rm 2.15; Ef 4.12; 1 Ts 1.3; 2 Ts 1.11; Tg 1.4. Ato, realização Mt 11.2; Mc 14.6; Lc 11.48; Jo 3.19, 20s; 6.28s; 7.3, 21; 10.25, 37s.; At 9.36; Rm 3.20, 28; Cl 1.10; Hb 6.1; Tg 3.13; Ap 15.3.— 2. trabalho, tarefa, ocupação Mc 13.34; Jo 17.4; At 14.26; 5.38; 1 Co 15.58; 2 Tm 4.5.—3. trabalho, no sentido passivo, indicando o produto do trabalho At 7.41; 1 Co 3.13, 14, 15; Hb 1.10; 2 Pe 3.10; 1 Jo 3.8.—4. coisa, matéria At 5.38; talvez 1 Tm 3.1. [ergometria] 

ένεργέω—1. trabalhar, estar trabalhando,operar, ser efetivo at Mc 6.14; Gl 2.8; Ef 2.2. το θέλειν και το έ. α vontade e acão Fp 2.13b. Méd. trabalhar Rm 7.5; 2 Co 4.12; Ef 3.20; 1 Ts 2.13; tornar-se efetivo 2 Co 1.6. δέησις έ. poder efetivo Tg 5.16.—2. trabalhar, produzir, efetuar 1 Co 12.6; Ef 1.11; 2.2; Fp 2.13a. Léxico do Novo Testamento Grego / Português, F. Wilbur Gingrich, Revisado por Frederick W. Danker, Tradução de Júlio Ρ. Τ. Zabatiero.

É suficiente socorrer-nos de um dicionário para compreendermos a proposta de Cristo e dos seus apóstolos? É plenamente compreensível quando o termo ‘obra’ é empregado como ocupação,  por exemplo: Marcos 13, verso 34. Mas, como compreender o termo ‘obra’ quando ele é utilizado para demonstrar que a paciência é uma ‘obra’ que a fé realiza? “Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

O mesmo termo empregado pelo apóstolo Paulo na carta aos Efésios, verso 10, capitulo 2, é empregado na carta aos Colossenses capítulo primeiro, verso 10. Compare:

“Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” ( Cl 1:10 ).

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 )

Enquanto na carta aos Efésios os cristãos são apresentados como novas criaturas que Deus criou em função das boas obras, na carta aos Colossenses o cristão é alertado a produzir boas obras. Qual abordagem é correta?

Considerando que a palavra de Deus é única e imutável, não podemos aquiescer que a abordagem de um tema possua duas interpretações distintas. Seria catastrófico analisar as Escrituras se deparássemos com frases ambíguas (sugere dois sentidos) ou vagas (não há um sentido definido) por falta de clareza ou precisão na abordagem de um tema.

Há um ramo da filosofia que analisa erros de construções de textos seculares decorrentes da ambiguidade, o que resulta em uma falácia. Os principais erros de construção de um texto são: Equívoco (A mesma palavra pode ser usada com dois significados diferentes), Anfibologia (uma frase permite atribuir-lhe diferentes significados) e a Ênfase (sugere uma proposição diferente daquela que, de facto, é expressa).

Um dos maiores problemas da humanidade surgiu com a ênfase. Enquanto Deus disse ao homem que poderia comer de todas as árvores do jardim do Éden livremente, com a ressalva de haver consequências caso comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, o diabo, ao falar com a mulher enfatizou a ideia de proibição quando disse: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” ( Gn 3:1 ), contrariando a liberdade plena que o homem possuía.

Na Bíblia, apesar de uma mesma palavra poder ser utilizada com dois significados diferentes, o contexto deixa claro qual é o significado utilizado. As proposições bíblicas não comportam dois significados diferentes na uma mesma frase.

Não há erros de construção frasal na Bíblia, antes o erro se dá no interprete que, quando analisa um texto bíblico, por causa da sua concepção, dá ênfase a um determinado elemento fazendo surgir uma nova proposição completamente distinta do que o escritor postulou.

Daí a necessidade de fazermos algumas perguntas às afirmações simplistas sobre boa obras: o cristão deve frutificar e crescer na ‘boa obra’, ou frutificar e crescer no ‘conhecimento de Deus’? Qual a ênfase do capítulo primeiro de Colossenses, verso 10: frutificar e crescer na ‘boa obra’ ou frutificar e crescer no ‘evangelho’, que é ‘conhecimento de Deus’?

O apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos são feituras de Deus ( Ef 4:24 ), criados em Cristo Jesus para as boas obras, sendo que as boas obras foram preparadas por Deus para que os cristãos estivessem nelas: “dele [2] Pois [1] somos feitura, criados em Cristo Jesus para obras boas as quais previamente preparou [2] Deus [1]” Novo Testamento Interlinear Grego / Português por Vilson Scholz, Barueri, SP: SBB, 2004.

Este versículo da carta aos cristãos em Éfeso tem por base o que predisse o profeta Isaías: “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras ( Is 26:12 ; Ef 2:17 ). É Deus que concedeu gratuitamente aos homens a paz através de Cristo, o Príncipe da Paz, de modo que, o próprio Deus reconciliou os homens através da oferta do corpo de Cristo concedendo aos que creem a paz que excede todo entendimento ( Ef 2:16 ). Foi Deus quem realizou para os que creem todas as obras, colocação que o apóstolo Paulo buscou no livro de Isaías.

No verso de Colossenses é feito alusão ao ‘Senhor’, à ‘boa obra’ e ao ‘conhecimento de Deus’, e quatro processos nos quais os cristãos figuram como parte ativa: andar, agradar, frutificar e crescer. O cristão deve andar dignamente diante de Deus, agradando-O em tudo.

Mas como andar agradando a Deus? Primeiro é necessário ser criado em Cristo Jesus, pois sem Cristo é impossível agradar a Deus.

 

Frutificar

Consequentemente, a nova criatura estará nas boas obras que Deus preparou, o que é essencial para que o cristão possa frutificar e crescer no conhecimento de Deus “… para andardes dignamente do Senhor para todo agrado, em toda obra boa frutificando e crescendo no conhecimento de Deus…” Novo Testamento Interlinear Grego / Português por Vilson Scholz, Barueri, SP: SBB, 2004.

Só é possível frutificar quando se está ligado à videira verdadeira, ou seja, quando se é uma nova criatura “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ); “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

A ênfase de Colossenses 1, verso 10 é Cristo, o Príncipe da paz, visto que aquele que está em Cristo foi criado em função da boa obra, apto a frutificar e crescer no conhecimento de Deus “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” ( Cl 1:10 ).

Sem Cristo não há quem faça o bem. Todos juntamente se desviaram e tornaram-se imundos, de modo que não havia um justo se quer ( Sl 53:3 ; Sl 14:3 ; Rm 3:12 ; Mq 7:2 ). Como é possível o homem sem Cristo fazer boa obra se não há quem faça o bem? Antes de Cristo se manifestar nunca houve entre os homens quem atendesse um necessitado, ou que não houvesse dado esmolas e nem oferecido alimento ao faminto e cobertura a um peregrino?

Jesus mesmo disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ), o que demonstra que dar boas coisas aos semelhantes não é ser bom (nobre), e nem é o mesmo que fazer o bem. Cristo vai além ao demonstrar que, aos maus é impossível dizer boas coisas, que se dirá de realizar boas obras “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Considerando que é através de Cristo que Deus concedeu aos que creem estarem nas boas obras tornando possível frutificarem, e que, sem Cristo não há quem faça o bem, como é possível a alguém que não crê em Cristo como diz as Escrituras ter em si as ‘obras’ realizadas por Deus? É Deus quem preparou os cristãos para as boas obras, ou qualquer pessoa está apta a produzi-las?

O Senhor Jesus fez um alerta sobre as obras que contém a resposta para as pergunta acima:

“Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus ( Jo 3:18 -21).

Após demonstrar a Nicodemos que quem crê no Unigênito Filho de Deus é livre da condenação que há no mundo, e que quem não crê permanece na condenação, Jesus destacou que os homens amaram mais as trevas do que a Luz que veio ao mundo pelo fato das obras deles serem más.

Jesus destaca que aqueles que vêm a Ele (vem para luz), são os que praticam a verdade, e é manifesto que as suas obras são feitas em Deus. Compete ao homem ‘praticar’ a verdade para ‘estar’ na luz e, somente aqueles que praticam a verdade são descritos como aqueles que realizam as suas obras em Deus.

Devemos interpretar Efésios 2, verso 10 considerando o ensinamento de Jesus e a profecia de Isaías, portanto fazer ‘boas obras’ não é o mesmo que praticar filantropia.

Aos escrever aos Filipenses, o apóstolo Paulo deixa claro que a ‘boa obra’ é realizada por Deus nos que creem, pois Deus começou e Ele mesmo aperfeiçoará a sua ‘boa obra’ até a vinda de Cristo “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” ( Fl 1:6 ).

Qual a boa obra que Deus ‘começou’ nos que creem? A resposta está no seguinte ensinamento de Jesus: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

E como Deus ‘aperfeiçoa’ a sua obra? Através dos seus apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores, como se lê: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” ( Ef 4:11 -12).

Quando o homem crê em Cristo ‘fez’ a obra de Deus, porém, necessita de perseverança, ou seja, não pode se demover da verdade do evangelho. É neste ponto que entram os apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores: eles estão incumbidos de defenderem a verdade do evangelho para que os cristãos não se demovam da obra realizada por Deus, deixando de crer em Cristo.

Edificar o corpo de Cristo é a boa obra de Deus, e só possível estar na ‘boa obra’ quando o homem crê em Cristo. A edificação do corpo de Cristo é a obra que Deus está realizando no tempo presente, pois se refere a obra do templo prometido ao rei Davi ( 2Sm 7:11 -13).

Deus prometeu a Davi que edificaria uma casa ao Seu Nome e, que o Descendente prometido seria o homem que edificaria uma casa a Deus. Quando nasceu o Cristo na casa de Davi, Deus deu inicio a sua obra segundo a sua palavra, pois Deus não habita em casa feita por mãos de homens ( At 17:24 ).

Cristo foi gerado segundo o que fora prometido a Davi: ‘Eu lhe serei por Pai, e Ele me será por Filho’, e como pedra angular do edifício de Deus foi preparado para as boas obras. Cristo é a base da boa obra como pedra angular do templo de Deus ( 2Sm 7:14 ). Cristo é a pedra angular da obra de Deus e os que creem tornam-se feituras de Deus, criados em Cristo como pedras vivas, preparados para comporem o templo santo que foi prometido a Davi ( 1Pe 2:4 -5); “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ); “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ).

O verso 10 de Efésios 2 é melhor compreendido quando entendemos que na antiguidade as pedras eram preparadas com exclusividade para compor uma determinada obra, de modo que os cristãos são feituras de Deus em Cristo para comporem a boa obra. Daí a colocação paulina: Deus estabeleceu de antemão que os que cressem em Cristo comporiam a obra do templo que Deus prometera a Davi na condição de pedras vivas ( Ef 2:20 -22).

E como Deus aperfeiçoa a Sua boa obra? Através dos ensinamentos dos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores. O objetivo é que cada pedra viva chegue à medida da estatura completa de Cristo “Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo…” ( Ef 4:13 ; Fl 1:6 ).

Neste aspecto, Tiago recomendou aos cristãos que regozijassem quando se deparassem com várias provações, pois a prova da fé dos cristãos redunda em paciência, sendo que a paciência é a obra perfeita que a fé opera “Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações; Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

Nestes versos Tiago não estava tratando da confiança dos cristãos, antes da Fé que foi manifesta trazendo salvação a todos os homens, sem a qual o justo não vive e que sem ela é impossível agradar a Deus ( Gl 3:23 ). A perseverança ou paciência é a obra completa de Cristo “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” ( Mt 24:13 ); “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” ( Tg 1:25 ).

Que obra o homem deve realizar que promove a bem-aventurança? Crer em Cristo, pois está é a lei perfeita da liberdade. Quem cuida dos que creem para que permaneçam na verdade do evangelho é obreiro de Deus nesta obra.

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo descreveu o perfil de um presbítero. Após apontar algumas características de cunho pessoal ( Tt 1:6 -8), destaca que os bispos devem guardar firme a palavra fiel sem dar ouvidos aos pensamentos judaicos, pois os judaizantes diziam conhecer a Deus, porém, eram réprobos para a boa obra “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” ( Tt 1:16 ).

Como era possível dizerem conhecer a Deus e negá-lo com as obras? Negavam a Deus pelo fato de não crerem em Cristo Jesus como Filho de Deus, pois aquele que nega o Filho, nega também o Pai. Embora dissessem que obedeciam a Deus, não realizavam a obra exigida por Deus: crer em Cristo “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” ( Jo 12:44 ); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

Como rejeitaram a Cristo, a pedra de esquina, os construtores de Israel eram réprobos para a boa obra, pois a obra de Deus é crer em Cristo.

Sobre este aspecto disse o apóstolo João: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” ( 1Jo 3:18 ). Dizer que ‘conhece a Deus’ ou ‘que ama a Deus’ sem crer em Cristo é o mesmo que não realizar a obra exigida por Deus “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Observe que Jesus é especifico: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ). Sem obedecer a Cristo é impossível amá-Lo ou conhecê-Lo, pois Jesus se manifesta, ou melhor, conhece ou é conhecido daqueles que O obedecem.

Por que os judaizantes eram reprováveis para a boa obra? Porque não retinham a sã doutrina do evangelho e o que ensinavam não promovia a edificação do templo de Deus prometido a Davi “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes. Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão, Aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância” ( Tt 1:9 -11).

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo queria que estabelecessem presbíteros, pois a intenção do apóstolo era o aperfeiçoamento dos santos, a obra do ministério, a edificação do corpo de Cristo “Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” ( Ef 4:12 ).

É comum o equivoco de relacionar ‘boas obras’ com questões de cunho comportamental, ou com questões de ordem filantrópica. O bom comportamento é salutar à vida do cristão, porém, o ‘exemplo’ de ‘boas obras’ decorre única e exclusivamente de uma exposição sadia da doutrina de Cristo. Ser ‘exemplo de boas obras’ refere-se a conservar intocado o modelo da doutrina do evangelho, ou seja, livre de mistura, mancha “Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra incorrupção, gravidade, sinceridade” ( Tt 2:7 ).

A ideia de ‘exemplo’ em Tito 2, verso 7 expressa a mesma ideia do termo ‘modelo’ em segunda Timóteo: “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus” ( 2Tm 1:13 ); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” ( Fl 1:27 ).

Ao escrever aos filipenses, o apóstolo Paulo rogou que vivessem dignos do evangelho de Cristo. Um bom comportamento é necessário? Sim! Entretanto, a preocupação maior do apóstolo para com os seus interlocutores era que permanecessem firmes no espírito, que é o mesmo que permanecer firme na palavra, evangelho, fé, conhecimento. “Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” ( 2Ts 2:15 ); “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” ( Tt 1:9 ); “Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos” ( 1Co 16:13 ); “Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza” ( 2Pd 3:17 ); “Por Silvano, vosso fiel irmão, como cuido, escrevi abreviadamente, exortando e testificando que esta é a verdadeira graça de Deus, na qual estais firmes” ( 1Pd 5:12 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo dos gentios preocupou-se em apresentar o que é conveniente a um ministro do evangelho (como convém andar na casa de Deus). Timóteo deveria demonstrar o que expressamente a palavra diz: que nos últimos dias alguns apostatariam da fé, e enfatizou qual seria o ensinamento dos réprobos quanto ao evangelho. Mas, se Timóteo expusesse tais enganadores, seria um bom ministro de Cristo ( 1Tm 4:1 -10); “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” ( 1Tm 3:15 ).

Os obreiros de Deus foram comissionados para uma obra específica: “Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério” ( 2Tm 4:5 ). Aquele que maneja bem a palavra da verdade, que evita falatórios profanos e permanece firmado no fundamento de Deus ( 2Tm 2:14 -19), está preparado para a boa obra  “De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra” ( 2Tm 2:21 ); “Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” ( 2Tm 3:17 ).

Nesta abordagem feita aos Tessalonicenses: “Por isso exortai-vos uns aos outros, e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis. E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; E que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra. Tende paz entre vós” ( Ts 5:11 -13), o apóstolo Paulo recomenda honra aos que presidiam, por causa da obra de ‘edificar’ uns aos outros por meio da palavra (exortação).

O apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos de corintos eram a sua ‘obra’ no Senhor “NÃO sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo SENHOR nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor?” ( 1Co 9:1 ). O que compreender desta declaração? Que como sábio arquiteto o apóstolo Paulo havia posto Cristo como fundamento e, cada cristão em particular estava sobre edificado em Cristo “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele” ( 1Co 3:10 ).

Lembrando que é através dos seus apóstolos que Deus ‘aperfeiçoa’ a sua obra: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” ( Ef 4:11 -12).

Ao escrever aos corintos, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos creram em Cristo  conforme o que Deus deu a cada um dos seus ministros: “Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o SENHOR deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho. Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus” ( 1Co 3:5 -9).

Observe que a lavoura ou o edifício pertence a Deus, ou seja, a obra é d’Ele. O fundamento foi estabelecido por Deus, que é Cristo, de modo que ninguém pode por outro fundamento ( 2Ts 2:19 ). O que compete aos cooperadores é trabalhar no edifício, sendo que o justo juiz é quem apreciará a obra de cada um “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:11 -15).

 

O fundamento da obra de Deus

A palavra de Deus é a base da Sua obra, pois Ele diz: “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ). Cristo é o Verbo do Deus vivo, fundamento da obra do Pai “Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, Obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” ( At 13:41 ).

Isaías profetizou contra os ‘desprezadores’, os líderes do povo de Israel, alertando-os de que Deus assentaria na cidade de Davi a pedra provada, de modo que aquele que n’Ele cresse, não pereceria ( Is 28:14 e 16). Semelhantemente, Habacuque profetizou que Deus realizaria uma obra em meio ao povo de Israel que, quando contada, o povo não creria ( Hc 1:4 ).

A obra do Pai é realizada por sua palavra, de modo que, quando Jesus, na condição de servo, anunciou as palavras do Pai, Deus estava em Cristo realizando a sua obra. A palavra de Deus diz de Cristo, e quando o Verbo encarnado apregoou o ano aceitável do Senhor, demonstrando aos homens ser o firme fundamento, estabeleceu e realizou a obra do Pai “Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras” ( Jo 14:11 ).

Qualquer que anuncia Cristo às nações realiza as obras que Cristo fez “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai” ( Jo 14:12 ).

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo demonstra que os homens que dão ouvidos às fábulas judaicas e a mandamentos de homens são reprováveis para toda boa obra, pois são desobedientes e abomináveis diante de Deus, pois não creem em Cristo ( Tt 1:14 -15).

Em seguida o apóstolo Paulo orienta Tito a exortar os velhos a serem temperantes, respeitáveis, cordatos, sadios na fé, no amor e na constância; as mulheres são exortadas a serem sérias no seu viver; os moços moderados; os servos a serem obedientes aos seus senhores. Tais comportamentos são pertinentes a quem é pedra viva no templo de Deus, porém, a obra não se fundamenta no comportamento, e sim, na palavra, pois o comportamento segundo a moral dos homens constitui-se somente ornamento à doutrina do evangelho ( Tt 2:10 ).

Semelhantemente, o cristão deve se submeter às questões de governo, estado etc., para não haver entrave quanto ao anuncio do evangelho.

Qual deve ser o zelo de um cristão? O apóstolo Paulo responde: “Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” ( 2Co 11:2 ). Como o apóstolo zelaria dos cristãos com zelo de Deus? Preservando intocado o evangelho, pois o evangelho é a simplicidade de Cristo, que os falsos apóstolos e obreiros fraudulentos queriam transtornar ( 2Co 11:3 -4); “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” ( Tt 2:14 ).

Jesus demonstrou que as palavras que dizia aos seus discípulos não era dele, antes do Pai, que o enviou, de modo que é Deus quem faz a sua obra por intermédio de Cristo “Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras” ( Jo 14:10 ).

As ‘boas obras’ só é possível àqueles que estão em Deus, ou seja, que creram em Cristo. Sem Cristo o homem é mau e só realiza obras más, visto que ‘boas obras’ são feitas única e exclusivamente por aqueles que creem em Cristo “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 ).

 

‘Boas ações’ diferem de ‘boas obras’

Ora, qualquer que não confessa que Cristo é o Filho do Deus vivo não pratica e não pode praticar boas obras, pois não está em Deus. Portanto, quando referirmos as práticas louváveis do ponto de vista dos homens, como as ações de ordem filantrópicas, ou de bom trato, nomearemos de ‘boas ações’, e não ‘boas obras’, pois as ‘boas obras’ só são realizadas por aqueles que confessam que Jesus é o Filho de Deus.

Mas, para o homem estar em Deus, primeiro tem que crer em Cristo ( 1Jo 4:15 ), o que o habilita para a boa obra. Para os cristãos à época do apóstolo Paulo, o preparar-se para a boa obra era diverso de se sujeitarem as autoridades constituídas, vez que a boa obra não diz de luta política ou de classes “Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra” ( Tt 3:1 ).

Quando o apóstolo Paulo diz a Tito: “E os nossos aprendam também a aplicar-se às boas obras, nas coisas necessárias, para que não sejam infrutuosos” ( Tt 3:14 ), estava fazendo alusão a palavra do evangelho, e não as ações de cunho social que tanto é apregoada em nossos dias.

Quando o apóstolo Paulo diz que Epafrodito esteve próximo da morte pela obra, temos que entender que, para que a palavra sem fermento fosse anunciada pelo apóstolo dos gentios, Epafrodito não fez caso de sua própria existência para suprir as necessidades de Paulo “Porque pela obra de Cristo chegou até bem próximo da morte, não fazendo caso da vida para suprir para comigo a falta do vosso serviço” ( Fl 2:30 ).

Epafrodito se dispôs a dar a vida trabalhando para sustentar o apóstolo Paulo para que a Palavra da verdade fosse pregada. Epafrodito sabia que era necessário que Paulo continuasse ensinando a verdade do evangelho para que os crentes pudessem conservar o modelo das sãs palavras de Cristo, pois só por intermédio dela é que Deus realiza a sua obra “As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras” ( Jo 14:10 ).

A obra de Deus está vinculada à palavra de Deus. Sem a palavra de Deus não há obra boa. Quando se anuncia as palavras de Deus conforme as Escrituras, a obra e realizada por Deus.

Quando lemos: “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém” ( Hb 13:21 ), a ênfase do escritor aos Hebreus repousa no fato de os cristãos serem criados para a boa obra e, que por sua vez, Deus os aperfeiçoará para fazerem a vontade de Deus: “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” ( Jo 6:40 ).

Todos quantos falam conforme o mandamento que Cristo recebeu do Pai são perfeito para a boa obra: “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ), pois quem não diz nada de si mesmo ou conforme a sua carnal compreensão é porque sabe que é Deus quem faz a Sua obra ( Jo 14:10 ).

Conhecer o Pai por intermédio do Filho é a obra que Deus realiza “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” ( Jo 17:3 ).

 




Dar esmolas torna o homem limpo diante de Deus?

O entendimento de que Jesus recomendou dar esmola para se salvar possivelmente decorre de um posicionamento doutrinário equivocado do tradutor, pois o versículo não reflete a ideia bíblica. Não digo que o tradutor tenha se posicionado desta forma por dolo, antes por comungar de um ideal que acabou interferindo no seu julgamento no momento da tradução.

 


 “Antes daí esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo” ( Lc 11:41 )

Jesus recomendou os fariseus a darem esmolas? Dar esmolas torna o homem limpo diante de Deus?

Como interpretar o que Jesus disse? Fazendo como o apóstolo Paulo: comparando as coisas espirituais com as espirituais “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” ( 1Co 2:13 ).

Lucas 11, verso 41 não é o único verso bíblico que parece recomendar que se dê esmola para que o homem se torne limpo diante de Deus: “Vendei o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói” ( Lc 12:33 ).

Seria o ato de dar esmola um ato de penitência (arrependimento)?

A penitência segundo a Igreja Católica Apostólica Romana possui várias facetas com caraterísticas semelhantes a uma transação de ordem jurídica, pois propõe ‘reparar’ o mal praticado pelo homem através de ações como persistir em rezar, praticar boas ações, a leitura, a meditação, a vigília, autoflagelação, o jejum e a esmola.

Há um tempo a se praticar a esmola, como na Quaresma e no Advento? Através da esmola se dá testemunho de amor fraterno (caritas)? É uma pratica de justiça que agrada a Deus?

Segundo São Roberto Belarmino (1542-1621), teólogo católico e cardeal inquisidor, há cinco vantagens em se dar esmola:

  • É reparação por pecados cometidos;
  • Acumulasse méritos para a vida eterna;
  • Permite o perdão dos pecados;
  • Aumentam a confiança em Deus;
  • Inspira os pobres a rezarem por seus benfeitores.

Mas, o que diz a Bíblia sobre ficar limpo?

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 ).

Esta é a observação que Jesus Cristo fez aos seus discípulos quando declarou ser a videira verdadeira e os discípulos as varas. Ele afirmou categoricamente que os seus discípulos estavam limpos por causa da sua palavra, ou seja, Jesus não instituiu o ato dar esmolas como ato que torna o homem limpo diante de Deus.

No evento em que Jesus lava os pés dos discípulos, o apóstolo Pedro estava resoluto em não deixar que o Mestre lavasse os seus pés, mas em seguida Jesus alertou: “Se eu te não lavar, não tens parte comigo” ( Jo 13:8 ).

Só é possível ter comunhão com Cristo quando o homem é lavado por Ele por meio da sua palavra, como se lê: “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” ( 1Co 6:11 ); “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa” ( Hb 10:22 ).

Estava previsto pelos profetas que, somente quando Deus aspergisse água limpa sobre os homens é que ficariam limpos de todas as imundícies “Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” ( Ez 36:25 ).

As palavras de Cristo é espírito e vida ( Jo 6:63 ), semente incorruptível ( 1Pe 1:23 ), o que reforça a ideia de João 15, verso 3, conforme estipulado na lei como sombras dos bens futuros: “Porém a fonte ou cisterna, em que se recolhem águas, será limpa, mas quem tocar no seu cadáver será imundo. E, se dos seus cadáveres cair alguma coisa sobre alguma semente que se vai semear, será limpa” ( Lv 11:36 -37).

A semente e as fontes de águas são limpas, mesmo que algo imundo as tocasse. O evangelho de Cristo é semente e Cristo é a fonte de água viva. Se a palavra de Cristo é o que limpa o homem, segue-se que dar esmola não é o que torna o homem limpo diante de Deus.

Quando o Senhor Jesus deu determinação: “Antes daí esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo” ( Lc 11:41 ), era convidado de um fariseu em um jantar. Mas, ao entrar no recinto, Jesus se assentou à mesa para comer, e o fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não lavou as mãos antes de comer.

A censura do fariseu, por Jesus não ter lavado as mãos, é conforme o alerta que consta em Provérbios, pois como Jesus não agiu segundo o que agradava o fariseu, este desprezou o Mestre por excelência “O tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração ( Pv 18:2 ).

Jesus não se intimidou diante da admiração (censura), nem por ser convidado do fariseu, e passou a censurar todos os fariseus: “Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade. Loucos! O que fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:39 -40).

O que agradava o fariseu? Cumprir as tradições dos anciões “Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem pão” ( Mt 15:2 ). Jesus bem sabia que o temor dos fariseus consistia em cumprir prescrições dos homens “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

Quem eram os fariseus? Eram integrantes de uma Seita do judaísmo que provavelmente teve inicio depois do exílio. Alegavam seguir, além dos livros do Antigo Testamento, a tradição oral dos anciões. Observavam religiosamente ritos e formas como lavagens cerimoniais, jejuns, orações e esmolas. Mas, Jesus deixou claro que, apesar dos cerimoniais, jejuns, orações e esmolas, ninguém cumpria a lei: “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ).

Jesus demonstra que era inútil a limpeza externa do corpo, sendo que o interior dos fariseus estava imundo. Como o imundo pode limpar algo sem antes contaminá-lo? ( Jó 14:4 ) Segundo a lei, tudo que o imundo tocasse também ficava imundo.

Limpar copos e pratos, lavar as mãos, tomar banho, etc., não limpa o homem, pois o que contamina o homem está no interior “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade” ( Mt 23:25 ); “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem” ( Mt 15:18 ).

E o que Jesus recomenda? Que os fariseus limpassem primeiro o interior do homem, para que o exterior também fique limpo “Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo” ( Mt 23:26 ).

O copo e o prato que Jesus faz referência simbolizam o homem, pois são tipos de vaso. Quem fez o homem, fez o interior e o exterior, ou seja, os fariseus precisavam conhecer o ensinamento do apóstolo Paulo: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

Se Deus faz vasos para honra e vasos para desonra, não há nada que os homens façam para mudar sua condição diante de Deus.

É Deus que faz vasos, tanto para honra, quanto para desonra, de modo que o homem (vaso) precisa crer na palavra de Deus que o torna limpo, pois o homem será quebrado (morte com Cristo), e da mesma massa Deus fará um vaso novo (novo nascimento) para honra. Como os homens são vasos, segue-se que, os vasos (copos e pratos) para desonra são feitos segundo a semente de Adão, e os vasos para honra, através do último Adão, a semente incorruptível, que é Cristo ( 1Pe 1:22 -23).

Ao dizer: “Antes daí esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo” ( Lc 11:41 ); Vendei o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói” ( Lc 12:33 ), Jesus não estava orientando os fariseus a darem esmolas.

A determinação de Jesus é a mesma dada ao Jovem rico: “Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me ( Mt 19:21 ).

A vontade do jovem era ser perfeito, e segundo o que Deus disse a Abraão, para o homem ser perfeito é necessário andar na sua presença “SENDO, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” ( Gn 17:1 ); “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” ( Dt 18:13 ); “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” ( Mt 5:48 ); “O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre” ( Lc 6:40 ).

Como o jovem rico alcançaria a perfeição? No ato de vender os seus bens e dar aos pobres, ou em obedecer ao seu mestre seguindo as suas determinações?

Jesus certa feita orientou os fariseus a aprenderem o que significava: misericórdia quero! “Ide, porém, e aprendei o que significa: ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ); “Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes” ( Mt 12:7 ).

O que significa misericórdia segundo a Bíblia? Misericórdia é obediência, conforme se depreende da leitura desta passagem bíblica: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” ( Os 6:6 ); “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

Jesus não estava interessado nas riquezas materiais do jovem rico, e nem em acabar com a pobreza em Israel, pois Ele mesmo evidenciou o disposto na lei: “Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes” ( Jo 12:8 ; Dt 15:11 ), antes em que o jovem rico o obedecesse se fazendo servo de Cristo.

A determinação aos fariseus e ao jovem rico é a mesma contida na seguinte parábola: “Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo” ( Mt 13:44 ).

Para alcançar o reino dos céus é necessário aos homens se desfazerem de todo conceito que possuem em como se salvar. É necessário aprender com Cristo, o mediador entre Deus e os homens que trouxe o ‘conhecimento’ do que é exigido por Deus para o homem ser salvo ( Is 53:11 ).

O apóstolo Paulo foi alguém que vendeu tudo, ou que deu tudo aos pobres, como se lê: “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” ( Fl 3:7 -9).

Quais as riquezas que o apóstolo Paulo possuía? Ele descreveu anteriormente: “Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” ( Fl 3:4 -6).

Onde estiver o tesouro do homem, lá estará o seu coração. No caso dos fariseus e do apóstolo Paulo, o tesouro que possuíam era a tradição dos anciões, era a circuncisão do prepúcio, era ser descendente da carne de Abraão, etc. Este era o tesouro que retinha os corações dos fariseus incrédulos diante da mensagem de Cristo “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” ( Mt 6:21 ).

Os fariseus possuíam as mesmas riquezas que o apostolo abriu mão para aceitar a Cristo como o Filho de Davi, o Filho do Deus vivo que havia de vir ao mundo. Era necessário aos fariseus disporem (venderem) de todos os seus conceitos, abrirem mão de tudo o que entendiam e seguiam para poder abraçar a Cristo. É por isso que Jesus disse que é difícil àqueles que têm riquezas entrar no reino dos céus: “E os discípulos se admiraram destas suas palavras; mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!” ( Mc 10:24 ).

Uma riqueza que os filhos de Israel possuíam e que não queriam abrir mão era a concepção de que eram filhos de Abraão, e quando Jesus propôs liberdade aos seus seguidores, caso permanecessem no seu ensinamento, declararam que nunca foram escravos de ninguém “Responderam eles: Somos descendentes de Abraão, e jamais fomos escravos de ninguém. Como é que dizes que seremos livres?” ( Jo 8:33 ).

Observe na parábola a seguir qual deve ser a atitude de todo homem diante do tesouro que é cristo: “Outrossim, o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a” ( Mt 13:45 -46).

É de bom alvitre que o homem abra mão de seus bens para adquirir Cristo, o reino dos céus. É melhor perder tudo aqui para que o homem possa ganhar Cristo “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?” ( Mt 16:25 -26).

Além de darem esmolas, os fariseus davam o dízimo de tudo, até das pequenas coisas como a hortelã, a arruda e todas as hortaliças, porém, continuavam imundos diante de Deus ( Lc 11:42 ).

O termo grego traduzido por esmola é:

“1654 ελεημοσυνη eleemosune de 1656; TDNT – 2:485, 222; n f 1) misericórdia, piedade 1a) esp. como exibido no dar esmola, caridade 2) o benefício em si mesmo, doação ao pobre, esmola” Dicionário Bíblico Strong.

Jesus recomendou dar donativos aos pobres neste versículo? Não!

“Antes dai esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo. Mas ai de vós, fariseus, que dizimais a hortelã, e a arruda, e toda a hortaliça, e desprezais o juízo e o amor de Deus. Importava fazer estas coisas, e não deixar as outras” ( Lc 11:41 ).

Ora, o entendimento da exortação de Cristo foi comprometido no texto por causa da dinâmica da linguagem, visto que o hebraico rabínico verte o substantivo tsedagah (justiça) por ‘esmolas’, o mesmo que ‘demonstrar misericórdia’.

“No Antigo Testamento conhecemos o nome Melquisedeque (“rei da justica”). Significado mais limitado da raiz e encontrado no árabe (um idioma semítico do sul): “veracidade” (de proposições). No hebraico rabínico, o substantivo tsedaqah significa “esmolas” ou “demonstrações de misericórdia”” Dicionário VINE, pág. 162.

Após a instrução inicial: ‘Antes dai esmola do que tiverdes…’, Jesus observou que eles eram rigorosos em suas práticas religiosas, pois eram cuidadosos em dizimar até nas mínimas coisas. Porém, apesar do rigor até com as pequenas coisas, deixavam de exercer o principal: a misericórdia. Dai a reprimenda: importa fazer estas coisas (dizimais a hortelã, e a arruda, e toda a hortaliça), e não desprezar o juízo e o amor de Deus.

ESMOLA – “eleémosuné (ἐλεημοσύνη), relacionado com eleemon, “misericordioso”, significa: (a) “misericórdia, piedade, particularmente em dar esmolas” (Mt 6.1,2,4; At 10.2; 24.17); (b) o próprio ato de caridade, as “esmolas” — o efeito pela causa (Lc 11.41; 12.33; At 3.2,3,10; 9.36; 10.2,4,31-‘H Nota: Em Mt 6.1, traduzindo dikaiosune, de acordo com os textos mais autênticos, temos “justiça” (ARA)” Dicionário VINE, pág. 613.

O que os fariseus deviam por em prática era o juízo, e não fazer doações financeiras, pois o conceito de ‘justiça’ decorre da obediência a Deus, que é misericórdia “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” ( Mt 23:23 ).

“A palavra “justiça” também engloba tudo o que Deus espera do Seu povo. Os verbos associados com “justiça” indicam a praticabilidade deste conceito. A pessoa julga, trata, sacrifica e fala com justiça: e a pessoa aprende, ensina e busca a justiça. Fundamentado num relacionamento especial com Deus. O santo do Antigo Testamento pedia a Deus que o tratasse com justiça: “O Deus, da ao rei os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei” (SI 72.1). A Septuaginta dá às seguintes traduções: dikaios (“aqueles que são retos, justos, íntegros, que se conformam com as leis de Deus”): dikaiosune (“justiça, retidão” ): e eleemosune (“escritura de terra, esmola, doação de caridade”) Dicionário VINE, pág. 163.

O que Deus estabeleceu na lei? “E o SENHOR nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos, que temêssemos ao SENHOR nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje. E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” ( Dt 6:24 -25). O que era justiça para Israel? O cuidado em cumprir todos os mandamentos como Deus ordenou.

Mas, passou-se o tempo, e o profeta Isaías protestou contra Israel dizendo: “CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão, e à casa de Jacó os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça, e têm prazer em se chegarem a Deus…” ( Is 58:1 -2). Se a justiça para Israel era cumprir o que Deus ordenou, por que perguntava cada dia pelos direitos da justiça? Porque confundia ‘esmolas’ com serem ‘misericordiosos’. Não aprenderam a lição: misericórdia quero, e não sacrifício.

“O termo dikaiosune e encontrado nas declarações do Senhor Jesus, aludindo: {a) a tudo o que e direito ou justo em si mesmo, ao que quer que se conforme com a vontade revelada de Deus (Mt 5.6.10,20: Jo 16.8,10); (b) a tudo o que foi designado por Deus para ser reconhecido e obedecido pelo homem (Mt 3.15; 21.32); (c) a soma total das exigências de Deus (Mt 6.33); (d) aos deveres religiosos (Mt 6.1; em oposição a doação de esmolas, o dever do homem para com o próximo Mt 6.2-4; a oração, o seu dever para com Deus, Mt 6.5-15; ao jejum, o dever de autocontrole Mt 6.16-18)” Dicionário VINE, pág. 949.

Entender que Jesus recomendou aos homens fazer doações financeiras para se tornarem limpos diante de Deus, ou que ‘esmola’ é o mesmo que ‘paenitentia’ é desfocar-se da proposta de Cristo, que é o juízo, a misericórdia e a fé.

“πλὴν τὰ ἐνόντα δότε ἐλεημοσύνην καὶ ἰδοὺ πάντα καθαρὰ ὑμῖν ἐστιν” ( Lc 11:41 )

“Porém as coisas interiores dai (como) esmola, e eis todas as coisas puras para vós são” ( Lc 11:41 )

O sentido do verbo grego διδωμι (didomi) não deve ser entendido como ‘dar’, ‘conceder algo a alguém’, antes deve ser entendido como ‘dar-se a alguém’, ‘segui-lo como um líder ou mestre’, como foi a ordem que Jesus deu ao jovem rico: ‘vem, e segue-me’ ( Mt 19:21 ).

E quais são ‘as coisas interiores’ que se deve ‘dar’? O que está dentro, a alma.

“1751 ενειμι eneimi de 1772 e 1510; v 1) estar em, o que está dentro, i.e. a alma” Dicionário Bíblico Strong

Jesus estava ensinando aos fariseus como se purificarem: entregando a alma a Cristo, seguindo-O como mestre, pois esta é a justiça de Deus, a misericórdia que deviam aprender e exercer “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ); “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa” ( Mt 5:10 -11); “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” ( Rm 10:3 -4; Rm 3:22 ; Fl 3:9 ; Is 42:21 ).

Cristo é a justiça pela qual os seus discípulos seriam perseguidos, a justiça que excedia a dos fariseus “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ); “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” ( Mt 6:33 ).

Os fariseus com os seus rituais de purificação limpavam o exterior do ‘copo’ e do ‘prato’, mas o interior deles permanecia imundo “E o Senhor lhe disse: Agora vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade” ( Lc 11:39 ).

Como o interior era imundo, nada que ensinavam era bom, pois: “O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca” ( Lc 6:45 ); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Jesus identifica os fariseus pelo fruto dos seus lábios, pois diziam temer a Deus, mas o temor deles era somente mandamento de homens “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto. Porque cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos” ( Lc 6:43 -44); “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

Ora, o coração que se afasta para longe de Deus é mau, como se lê: “Um coração perverso se apartará de mim; não conhecerei o homem mau” ( Sl 101:4 ); “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” ( Hb 3:12 ). Os fariseus viam muitas coisas, mas não praticavam: “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves. O SENHOR se agradava dele por amor da sua justiça; engrandeceu-o pela lei, e o fez glorioso” ( Is 42:19 -21).

Jesus não estava maldizendo os fariseus ao chamá-los de ‘tolos’. Não!

Diante da atitude descabida dos fariseus, Jesus questiona: “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?“ ( Lc 11:40 ). Ora, o ‘louco’, o ‘néscio’ é aquele que não considera. Louco é um modo de fazer referencia aos filhos de Israel “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” ( Sl 94:8 ; Dt 32:6 ).

O que os fariseus precisavam compreender? Que era sem valor diante do Deus da Verdade parecerem justos aos olhos dos homens, visto que interiormente estavam plenos de falsidades e iniquidades “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” ( Mt 23:28 ). Eram verdadeiros sepulcros caiados (pintados) “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” ( Mt 23:27 ).

Mas, se os fariseus seguissem a Cristo com Senhor e Mestre pondo em prática o mais importante da lei: amar a Deus sobre todas as coisas, seriam limpos interiormente “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ).

“Aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes. E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele; E que amá-lo de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios. E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém ousava perguntar-lhe mais nada” ( Mc 12:28 -34).

O reino de Deus não está longe do homem que entende que amar a Deus de todo o coração é mais do que todos os holocaustos e sacrifício. Mas, aquele que crê que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, passou da morte para a vida, pois está em Deus e Deus n’Ele ( 1Jo 4:15 ), pois amou a Deus ( Jo 14:21 e 23-24; Os 6:6 ) cumprindo o seu mandamento ( 1Jo 3:23 ). Ficou purificado do pecado pela lavagem da regeneração ( 1Pd 1:2 -23).

 

“Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 );

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 );

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele (…) Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” ( Jo 14:21 e 23-24);

“Porque eu quero a misericórdia (amor), e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” ( Os 6:6 );

“Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:22 -23).