Trocadilhos, enigmas e parábolas

Moisés correu em favor dos filhos de Israel porque queria que Deus perdoasse o pecado deles. Porém, a misericórdia de Deus não dependia da correria de Moisés e nem da sua vontade. O ponto nevrálgico da correria e da vontade de Moisés é verificável na sua oração: “Assim tornou-se Moisés ao SENHOR, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:31 -32).


Trocadilhos, enigmas e parábolas

Interpretação bíblica

Para interpretar um texto é essencial uma boa leitura. Com relação à Bíblia não é diferente, pois uma interpretação segura e fiel só é possível através de uma boa análise, e para isso é necessário observar algumas regras.

Para uma boa leitura da Bíblia é essencial analisar qual o público alvo dos ensinamentos de Cristo. Por exemplo: alguns ensinamentos de Jesus foram feitos em particular, com os seus discípulos, porém, em alguns momentos, o ensinamento tinha por publico os escribas e fariseus, e em outros momentos a multidão.

Após se inteirar qual é o publico alvo da mensagem, não podemos esquecer um alerta de Marcos: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ). Quando Jesus falava aos discípulos em particular, geralmente explicava o sentido das parábolas e dos enigmas propostos à multidão, porém, é imprescindível considerar que, à multidão Jesus só falava utilizando parábolas.

Além das parábolas, também é necessário considerar os enigmas. Cada parábola possui um enigma específico, que antes de ser interpretada, primeiro é necessário desvendar o enigma. Lembrando que os enigmas propostos nas parábolas, essencialmente, referem-se a algo já abordado pelos profetas, salmos e a lei “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ).

Observe que falar por enigmas ao povo já era uma prática antiga “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ).

 

Pedro e a pedra

Mas, além de observar o público alvo da mensagem, a parábola e os enigmas, a Bíblia também contém algumas frases construídas que remetem a uma verdade, porém, é um trocadilho.

O exemplo de um ‘trocadilho’ bíblico conhecido é: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ). O fato que deu origem a esta asserção de Jesus foi o evento em que o apóstolo Pedro fez uma confissão que é o cerne do cristianismo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).

Em seguida Jesus demonstra que aquele conhecimento que o apóstolo Pedro expôs, não lhe fora revelado por ser descendente da carne de Abraão, antes porque o Pai, através da pessoa de Cristo é quem anunciou e tornou compreensível aquela verdade ( Jo 1:18 ).

Em seguida vem a declaração maravilhosa de Cristo: “Pois também eu te digo que tu és Pedro…” ( Mt 16:16 ), ou seja, da mesma forma que Pedro admitiu (confessou) algo que era verdadeiro: Cristo é o Filho do Deus vivo, Jesus fez uma confissão segundo a verdade acerca do seu discípulo: – ‘Admito que você é Pedro’. Cristo fez uma confissão acerca de Pedro com base no mesmo princípio da confissão de ‘Pedro’: verdadeira.

Por admitir que Cristo é o Filho do Deus vivo, Pedro tornou-se uma pedra sobre a rocha, pois a igreja é edificada sobre esta verdade: Jesus é o Cristo, Filho do Deus vivo “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

Em seguida fez a seguinte declaração: “…, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja…”. Com este trocadilho surgiu um dos maiores celeumas: a igreja de Cristo é edificada sobre Jesus, o Filho do Deus vivo, ou é edificada sobre o apóstolo Pedro, como afirma a Igreja Apostólica Romana?

Para uma desambiguação, é necessário recorrer a outros textos bíblicos que demonstram que Cristo é a ‘pedra eleita’, a ‘pedra angular de esquina’ e é sobre Cristo que é erguida a sua igreja “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:20 -22).

Através de outros textos, fica demonstrado que o apóstolo Pedro é somente uma pedra como todos os outros cristãos que Deus utiliza para edificar o seu templo “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 ).

Mas, o correto quanto ao texto é considerar que Cristo é a pedra e sobre Ele é edificado a igreja, de modo que a confissão de Pedro é o cerne da admissão cristã, a admissão segura, firme, que tem fundamento, verdadeira, que torna os homens que creem verdadeiras ‘pedras vivas’ que promove a edificação da igreja.

 

Princípios de interpretação da Bíblia

Para compreender as Escrituras é essencial socorrer-nos do mesmo princípio utilizado por Jesus: “Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” ( Mt 4:7 ). Em nenhuma passagem do Antigo Testamento foi predito que um dos discípulos de Cristo seria a pedra, antes foi dito que a pedra angular seria o Messias ( Jó 38:6 ; Sl 118:22 ; Sl 144:12 ; Is 28:16 ; Zc 10:4 ; Lc 20:17 ; At 4:11 ).

A Bíblia apresenta outros trocadilhos, como: “AI de Ariel, Ariel, a cidade onde Davi acampou! Acrescentai ano a ano, e sucedam-se as festas” ( Is 29:1 ), ou “Ai da lareira de Deus…”. A palavra hebraica traduzida por lareira às vezes também era transliterada por Ariel. Tal trocadinho foi estabelecido para demonstrar que, a cidade de Jerusalém onde ocorria o sacrifício sacerdotal, por causa da infidelidade do povo, haveria de se tornar o próprio altar de sacrifício onde os habitantes de Jerusalém seriam mortos.

O verso primeiro do Salmo 23 é um trocadilho, porém, perceptível somente na língua original do texto, porque em decorrência dos radicais das palavras hebraicas traduzidas por ‘meu pastor’ e ‘pastagem’, tem-se a ideia: ‘O Senhor é meu Pastor’ que pode ser compreendido como: “O Senhor é o meu alimento”.

Há trocadilhos com a construção de provérbios, como: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ). Ou seja, o verso não semeia discórdia entre irmãos, visto que não está dizendo para que os homens não confiem em seus semelhantes nos relacionamentos diários, antes a lição dada anteriormente: “Dize-lhes, pois: Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Maldito o homem que não escutar as palavras desta aliança” ( Jr 11:3 ), é reeditada: a pessoa que não obedece as palavras da aliança divina é aquele que, para alcançar a salvação eterna, confiam em si mesmo, o mesmo que fazer da sua força o seu braço.

Há outros trocadilhos que complementa a ideia acima: “Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ). A ‘força’ e a ‘violência’ são figuras que representam a ‘carne’ e o ‘braço’ do homem que confia em si mesmo, e se esquece da palavra de Deus, que é espírito ( Jo 6:63 ).

A Bíblia contém construções mais complexas, como a que se segue: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ). Nesta construção não há um trocadilho, antes temos uma citação de um provérbio.

É um equivoco considerar que através desta citação o apóstolo Paulo estava pleiteando benefícios para receber uma contribuição da igreja de corinto, isto porque o contexto da sua carta demonstra que o apóstolo não buscava salário, antes anunciou aos cristãos de corinto o evangelho de graça para cortar ocasião aos obreiros fraudulentos ( 2Co 11:7 -12).

O texto de Deuteronômio não possui relação direta com salário ou prestigio, antes invoca a ideia do direito. Se alguém fosse condenado, devia pagar a pena, porém, não poderia ter o seu direito violado. Com base na ideia de direito contido no provérbio, o apóstolo Paulo cita a lei para defender o seu apostolado.

O apóstolo Paulo não estava pleiteando prestígio social através dos cristãos, ou um salário, antes que reconhecessem a sua autoridade como ministro de Cristo, pois sem ser reconhecido como autoridade apostólica, os cristãos ficariam vulneráveis as doutrinas dos falsos apóstolos. É por isso que na carta aos corintos o apóstolo cita o termo direito por três vezes ( 1Co 9:4 -6).

Através do alerta: ‘Deus não tem cuidado de bois’, o apóstolo Paulo destaca o objetivo da lei: cuidado para com os homens, e o provérbio foi utilizado porque ele encerrava uma ideia: direito. Por que o boi como figura? Porque na antiguidade o boi era como o escravo do pobre, e para ser efetivo no trabalho, precisava comer. O boi como figura, também transmite a ideia de impessoalidade, o que faria com que o verdugo deixasse suas emoções de lado no momento de aplicar a pena.

Era direito dos condenados serem chicoteados com, no máximo 40 açoites. O direito dos condenados vetava aos juízes aplicarem um número acima do estabelecido pela lei “E será que, se o injusto merecer açoites, o juiz o fará deitar-se, para que seja açoitado diante de si; segundo a sua culpa, será o número de açoites. Quarenta açoites lhe fará dar, não mais; para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos” ( Dt 25:2 -3).

Quando foi estabelecido este direito, o provérbio serviu para consolidar a ideia e o entendimento dos juízes do porquê não deveriam exceder o número de açoites estabelecido em lei: “Não atarás a boca ao boi, quando trilhar” ( Dt 25:4 ).

Mas, por que o apóstolo citou a lei? Ora, ele cita a lei com um objetivo específico: demonstrar aos seus opositores conhecimento da lei, o que reforçaria o seu pleito de ser reconhecido como apóstolo.

Por que pleitear o direito de apóstolo? O apóstolo Paulo havia posto como sábio construtor Cristo como fundamento da igreja, mas havia alguns homens que se intrometiam em meio aos cristãos se dizendo sábios, apóstolos, mestres, etc., porém, queriam substituir o fundamento “Não sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo SENHOR nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor? Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor” ( 1Co 9:1 -9; 1Co 3:11 ).

Havia alguns homens que se diziam apóstolos e que até faziam uso de direitos próprio aos apóstolos ( 1Co 9:12 ), o que é mais evidente na segunda carta aos corintos ( 2Co 11:13 ), enquanto o apóstolo Paulo tinha o cuidado de não se impor para não causar embaraço ao evangelho de Cristo.

O apóstolo dos gentios não estava buscando ser servido pelos cristãos ( 2Co 12:14 ), antes desejava servi-los, pois sabia qual era a condição de um apóstolo de Cristo ( 1Co 4:9 -12).

 

Erros de interpretação dos reformadores

Enquanto a declaração de Pedro foi enfatizada através de um trocadilho de Jesus, mas ao distorcerem a ideia, perpetua-se um erro na Igreja Católica Apostólica Romana até hoje, semelhantemente o trocadilho que o apóstolo Paulo fez, em função de uma má leitura dos Reformadores, em especial João Calvino, fomentaram outro erro que igualmente perpetua-se: “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” ( Rm 9:15 ).

No afã de evidenciar a soberania de Deus e a incapacidade do homem salvar-se por seus próprios meios, lançou mão de um trocadilho, e o erro decorrente desta má leitura tem persistido ao longo dos tempos.

Através deste trocadilho Calvino concluiu que Deus exerce a sua misericórdia com base na sua soberania, e que Ele determinou previamente quais seriam as pessoas a serem salvas através da sua misericórdia.

Mas, quando Deus disse a Moisés que teria misericórdia de quem Ele tivesse misericórdia, estava falando de sua soberania? O que Deus estava tratando com Moisés?

Devemos voltar no tempo, e ver o povo de Israel transgredindo o mandamento de Deus quando fizeram um bezerro de ouro no deserto ( Ex 32:8 ). Deus havia concedido os dez mandamentos, e entre os primeiros temos: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” ( Ex 32:3 -5).

Após determinar que não tivessem outro deus, e que não fizessem imagens de esculturas, Deus enfatizou que vingaria (visito) aqueles que não o obedecessem (odeiam), porém, aqueles que obedecessem (amasse), Deus teria misericórdia “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 32:6 ).

Os termos ‘amor’ e ‘ódio’ nos versos 5 e 6 de Êxodo 32 não se refere a sentimento, antes a ideia de obediência, serviço “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ); “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ).

Quando Deus falou que ia destruir o povo de Israel, Moisés intercedeu e Deus o atendeu ( Êx 32:11 -14). Ele desceu do monte, e ao ver o povo adorando o ídolo, arremessou a tábua que recebera das mãos de Deus e quebrou as tábuas escritas por Deus ( Ex 32:19 ). Por zelo, Moisés manda exterminar os idólatras e, em seguida, subiu ao monte para interceder pelo povo para que Deus fosse propício.

É importante observar que após interceder pelo povo, Moisés desceu o monte, quebrou a tábua dos dez mandamentos, destruiu o ídolo, destruiu os idólatras, e correu novamente ao Senhor para interceder. Em seguida expor o que queria: “Assim tornou-se Moisés ao SENHOR, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:31 -32).

Moisés correu em favor dos filhos de Israel porque queria que Deus perdoasse o pecado deles. Porém, a misericórdia de Deus não dependia da correria de Moises e nem da sua vontade. O ponto nevrálgico da correria e da vontade de Moisés é verificável na sua oração: – “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito”!

Um pedido descabido que não ficou sem resposta. Deus disse: – ‘Não’! Deus não é o homem para voltar a sua palavra atrás. A palavra de Deus é irrevogável. Deus não pratica injustiça. Deus jamais condenaria um justo como Moisés, em lugar dos pecadores. Daí a resposta divina: – “Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro”.

Observe o que Deus disse a Ezequiel: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles pela sua justiça livrariam apenas as suas almas, diz o Senhor DEUS” ( Ez 14:14 ). Observe que Moisés não livrou os idolatras com a sua justiça.

Quando Moisés foi comissionado para continuar guiando o povo em meio ao deserto, Moisés roga a presença de Deus ( Ex 33:12 -13). Moisés sabia que aquele povo receberia a justa retribuição pelo seu pecado, foi quando Deus lhe garantiu que iria em meio ao povo, para que Moisés ficasse em paz.

Foi quando Moisés rogou para ver a glória de Deus, e recebeu a seguinte resposta: “Então ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória. Porém ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:18 -19).

Deus demonstra que faria passar a sua bondade diante de Moisés, porém, o que estava estabelecido jamais seria mudado: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:19 ). O que Deus estava dizendo a Moisés? – Moisés, não adianta ‘correr’ ou ‘querer’, pois sou Deus zeloso (velo sobre a minha palavra para cumprir), que visito a iniquidade dos que me odeiam e faço misericórdia aos que me amam.

A oração de um justo pode muito em seus efeitos, até parar o sistema solar, mas não pode mudar o que Deus estabeleceu com a sua palavra. Moisés pediu para ver a ‘gloria de Deus’ e Deus atendeu, mas o pedido de perdão para aqueles incrédulos e desobedientes jamais seria atendido.

Com base na pró-atividade de Moisés em correr e querer que Deus demonstrasse favor para com o povo de Israel é que o apóstolo Paulo construiu a seguinte asserção: a misericórdia não é de quem quer ou de quem corre.

Semelhantemente, é com base no estabelecido nos dez mandamentos: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos ( Ex 32:3 -6), que Deus estabeleceu o seguinte trocadilho: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer” ( Ex 33:19 ).

Para compreendê-lo, é essencial que o leitor conheça a lei mosaica e o que Deus havia estabelecido. Diante do trocadilho, basta se perguntar: de quem Deus terá misericórdia? A resposta advém da lei: dos que me amam, aos que guardam os meus mandamentos.

De quem Deus quer ter misericórdia? A vontade de Deus é demonstrar misericórdia aos que o amam! Desde a eternidade Deus quis e estabeleceu que a sua misericórdia está reservada para os que o amam, segundo o seu mandamento.

É neste ponto que vemos a soberania e a justiça de Deus em harmonia.




O que entender por ‘jugo desigual’?

Embora o jugo seja termo utilizado para denominar a canga posta sobre animais de parelhas, o termo também foi utilizado para fazer alusão à condição de sujeição dos escravos aos seus senhores ( Jr 28:2 ) e, subsidiariamente, como figura, é utilizado para fazer referência à condição do homem sob a égide do pecado (Rm 7:14 ).


A servidão na antiguidade também era denominada de jugo. Vemos que Hesíodo, citado por Aristóteles, já dizia que uma família era formada de uma casa, uma mulher e um boi, visto que o boi (animal sobre o qual a canga é colocada) é o escravo do pobre (Aristóteles, A Política, Tradução Nestor Silveira Chaves, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, pág. 20, § 6).

“Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; E não toqueis nada imundo, E eu vos receberei; E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso”  ( 2Co 6:14 -18)

Certo dia minha esposa fez a seguinte pergunta: o jugo desigual que o apóstolo Paulo vetou aos cristãos de Corintos refere-se a casamento? Após a pergunta não pude descansar enquanto não analisei a questão.

É consenso entre os evangélicos, protestantes e católicos que o jugo desigual do qual o apóstolo Paulo fez referência na sua carta aos cristãos de Corintos refere-se a casamento, ou seja, que o apóstolo estaria orientando aos cristãos a não se casarem com pessoas não cristãs. Em função da má leitura deste verso o casamento entre crente e não crente tornou-se amplamente divulgado como jugo desigual!

Ao ler a segunda carta do apóstolo Paulo aos Corintos foi surpreendente verificar que o apóstolo dos gentios não trata de questões relativas a casamento.

Na primeira carta aos Corintos o apóstolo aborda questões matrimoniais, porém, quando ele analisa o assunto e passa aos cristãos, o apóstolo Paulo tem o cuidado de informar que não estava impondo mandamento algum, antes como por permissão, estava dando o seu parecer sobre a questão em pauta ( 1Co 7:6 e 40).

No versículo 14 de 2Co 6, a questão é de outra ordem, pois temos um mandamento específico: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis”, que se aplicado a casamento, contrariaria completamente o posicionamento inicial do apóstolo de expor somente o seu parecer, ou seja, o de não impor aos cristãos mandamento algum.

Outro aspecto do verso é que a mensagem tem como público alvo a igreja como um todo, ou seja, não visa somente os solteiros, pois o alerta para os casados foi específica na primeira carta ( 1Co 7:12 ). Também chama a atenção o fato de que, se fosse uma questão de matrimônio, porque o apóstolo faz alusão ao suposto pretendente utilizando se do plural? – infiéis -, se a regra social é ter um só cônjuge o correto seria: ‘não vos prendais a um jugo desigual com um infiel’ ( 1Tm 3:2 ; 3:12 ; 5:9 e Tt 1:6 ).

Caso o apóstolo estivesse determinando aos solteiros que não se casassem com descrentes (a ordem não incluiria os casados), ao menos o suposto pretendente seria descrito como infiel, e não como se apresenta: com os infiéis.

Por outro lado, faz-se necessário considerar se o instituto do casamento é tido por jugo ou prisão, pois a ordem é clara: “Não vos prendais a um jugo desigual…”.

O jugo diz de uma espécie de canga que se coloca em uma junta de animais que passam a andar conjugado um ao outro. Ou seja, para labutar com apenas um animal não é necessário o jugo.

A servidão na antiguidade também era denominada de jugo. Vemos que Hesíodo, citado por Aristóteles, já dizia que uma família era formada de uma casa, uma mulher e um boi, visto que o boi (animal sobre o qual a canga é colocada) é o escravo do pobre (Aristóteles, A Política, Tradução Nestor Silveira Chaves, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, pág. 20, § 6).

Seria o casamento uma espécie de jugo, de escravidão?

Analisando algumas passagens bíblicas do Antigo Testamento que abordam questões relativas a jugo (servidão), vê-se que em nenhuma delas o matrimônio é abordado.

Certa feita o apóstolo Paulo citou a lei ao defender o seu direito de apóstolo dizendo: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ; Dt 25:4 ). Ou seja, o adágio que consta na lei foi expresso de modo a indicar que Deus estava cuidando dos homens, mesmo dos transgressores, pois era vetado ao juiz lesar o culpado ( Dt 25:3 ), de modo que o provérbio que consta da lei visava proteger os homens, e não os animais (bois).

Tratando da honra devida aos presbíteros, o apóstolo escreve a Timóteo e, novamente cita a mesma passagem da lei que cita animais: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina; Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário” ( 1Tm 5:17 -18), de modo que as citações da Escritura aplicam-se estritamente às questões de honra e mérito, pois o apóstolo Paulo utiliza as passagem para defender o seu apostolado e a honra dos presbíteros “Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário do seu trabalho” ( Jr 22:13 ).

Quando foi dito: “Com boi e com jumento não lavrarás juntamente” ( Dt 22:10), a lei expressa um cuidado para com quem havia de utilizar os animais para realizar um trabalho e, subsidiariamente, os animais também eram beneficiados, porém, o cuidado não era específico para com os ‘bois’.

Tais textos do Antigo Testamento aplicam-se ao casamento? Não! Porque o instituto, ou o contrato de casamento, segundo a visão do homem da antiguidade, não comportava dois iguais, antes por causa da autoridade que possuía sobre a mulher, o homem exercia o cuidado e a mulher, por sua vez, lhe devia obediência.

Esta era a visão das sociedades antigas acerca do matrimônio:

“Cada um, senhor absoluto de seus filhos e de suas mulheres, distribui leis a todos…”  (Homero apud Aristóteles, A Política, 2011, pág. 21).

Na mesma obra, Aristóteles complementa:

“O pai de família governa sua mulher e seus filhos como a seres livres, mas cada um de um modo diferente: sua mulher como cidadã, seus filhos como súditos (…) Quanto ao sexo, a diferença é indelével: qualquer que seja a idade da mulher, o homem deve conservar sua superioridade”  (Idem).

Ora, se o marido é a cabeça da mulher, não há como considerar o casamento como jugo, pois no matrimônio as funções são distintas, e a condição de ambos na relação também. Assim como Cristo em relação à igreja é a cabeça por exercer o cuidado, o marido em relação à mulher é a cabeça, pois tem a função de cuidado do corpo “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” ( Ef 5:23 ).

Dentro deste mesmo aspecto, caso a mulher compartilhasse com o marido de um jugo, ser-lhe-ia impossível submeter-se ao cuidado de seu marido “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor” ( Ef 5:22 ).

Diante das objeções acima poderíamos continuar afirmando que a determinação do apóstolo em 2co 6.14 tem referência a casamento?

Se a determinação paulina da segunda carta aos Coríntios 6, verso 14 não possui relação com casamento, do que trata, então?

Embora o jugo seja termo utilizado para denominar a canga posta sobre animais de parelhas, o termo também foi utilizado para fazer alusão à condição de sujeição dos escravos aos seus senhores ( Jr 28:2 ) e, subsidiariamente, como figura, é utilizado para fazer referência à condição do homem sob a égide do pecado (Rm 7:14 ).

Todos os homens em função da transgressão e filiação de Adão tornaram-se pecadores, ou seja, passaram a ser servos, escravos do pecado ( Rm 3:23 ). Por descenderem de Adão, um escravo do pecado, todos os homens passaram a servir ao pecado de modo que estava posto sobre os ombros de todos os homens um jugo. O pecado exercia domínio sobre todos os homens, logo, ser pecador diz de uma condição semelhante à condição de escravo.

O domínio do pecado é um jugo de opressão e a humanidade sem Deus é descrita como oprimida, cansada, sobrecarregada, etc. Entretanto, os profetas anunciaram que haveria um tempo de refrigério. O profeta Isaías anunciou que: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz (…) Porque tu quebraste o jugo da sua carga, e o bordão do seu ombro, e a vara do seu opressor, como no dia dos midianitas” ( Is 9:2 -4).

Isaías profetizou acerca dos gentios que, apesar de andarem em trevas e habitarem nas regiões da morte, resplandeceu-lhes a luz, de modo que o jugo da carga, o bordão que estava sobre o ombro e a vara do opressor foi quebrado. Para quem vivia sem Deus e sem esperança no mundo ( Ef 2:12 ), raiou a luz da vida, de modo que, os que creem em Cristo, são transportados do domínio das trevas para o domínio da luz “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:12 ).

Quando Jesus oferece aos seus ouvintes o seu jugo e o seu fardo, ele se identificou como Senhor, e qualquer que O obedece se sujeita a um jugo suave e toma sobre si um fardo leve. Basta aos ouvintes de Jesus reconhecer que está cansado e oprimido em decorrência do jugo do pecado, que há de ser aliviado do cansaço e da opressão: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” ( Mt 11:28 -30).

A proposta de Cristo é conforme as promessas preditas pelos profetas: “Julgará os aflitos do povo, salvará os filhos do necessitado, e quebrantará o opressor” ( Sl 72:4 ), portanto, para ser alcançado pela promessa, os ouvintes de Cristo devem reconhecer a sua condição e confiar em Cristo como o Senhor que resgata o homem do pecado “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ).

Ao crer em Cristo, dá-se o explicado pelo apóstolo Paulo: “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça? Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:16 -18).

Ora, através da leitura, fica patente que há somente dois senhores, dois jugos. Há os servos da obediência e os servos do pecado. Os servos da obediência são aqueles que foram gerados de novo segundo a vontade de Deus segundo o último Adão, que é Cristo, e os servos do pecado, que vem ao mundo sob o jugo decorrente da desobediência de Adão ( 1Co 15:22 -23 e 1Co 15:45 ).

Aos homens só é possível estar em uma destas condições: ou se é servo da justiça ou se é servo do pecado, ou se está sob o jugo da justiça ou sob o jugo do pecado, conforme declarou Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Mt 6:24 ).

Há apenas dois senhores e o nascimento determina a quem o homem servirá. Se nascidos da carne de Adão são servos do pecado, se nascidos de novo, servem a justiça ( Sl 58:3 ; Sl 51:5 ).

Todos os homens estavam em igual condição diante de Deus por serem descendentes de Adão, mas os judeus consideravam que haviam deixado tal condição por serem descendentes da carne de Abraão. Não consideraram que para serem filhos de Abraão era essencial que tivessem a mesma fé que Abraão, pois ser gerado da carne de Abraão, em última instância era o mesmo que ser descendente de Adão “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ); “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:7 ).

O maior problema de Israel estava em não reconhecer que estavam sob a mesma maldição que todos os homens “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:2 -4).

Por ser descendente da carne de Abraão, Deus deu ao povo de Israel a lei como aio para conduzi-los a Cristo, porém, quando Cristo veio, os judeus se apegaram a letra da lei e rejeitaram a mensagem de Cristo. Era necessário que mudassem de concepção (metanóia=arrependimento), pois Cristo era o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra seriam benditas.

Por causa desta condição de Israel foi que o apóstolo Paulo escreveu: “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7 -8).

Tanto judeus quanto gentios estavam alienados de Deus em virtude de serem descendentes de Adão, portanto, filhos da ira e da desobediência. Ao desobedecer, Adão tornou-se escravo do pecado e todos os seus descendentes passaram a compartilhar de igual condição.

Com a vinda de Cristo, Ele obedeceu ao Pai em tudo, de modo que ao ser crucificado, morto e sepultado, ressurgiu dentre os mortos pelo poder de Deus. Ora, todos que creem em Cristo, tornam-se participantes da sua carne e sangue, ou seja, são crucificados, mortos, sepultados e, pelo poder de Deus ressurgem uma nova criatura.

Em virtude de estarem em uma nova condição diante de Deus: servos da justiça, é que o apóstolo Paulo ordena: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?” ( 2Co 6:14 -).

A mensagem à igreja em Corintos é a mesma anunciada aos Gálatas: “Cristo nos libertou para que sejamos de fato livres. Estai, pois, firmes e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da escravidão” ( Gl 5:1 ).

O jugo dos infiéis é o jugo do pecado, e o jugo dos fiéis é o jugo da justiça. Se o cristão é liberto do Senhor, deve permanecer livre, firme, e não mais retornar a submeter-se ao jugo da escravidão. Como é possível a um homem liberto do Senhor, conforme na carta aos gálatas, voltar a se sujeitar ao jugo da servidão? Buscar ser justificado pelas obras da lei, como o submeter-se à circuncisão do prepúcio da carne.

Antes de dar a determinação aos cristãos de Corintos, o apóstolo Paulo relembra que o ministério de Cristo é segundo a misericórdia ( 2Co 4:1 ) e que ele, o apóstolo, não era falsificador da palavra de Deus como alguns faziam ( 2Co 4:2; 2Co 2:12 ), para tanto, o apóstolo Paulo contrasta a lei com o evangelho ( 2Co 3:6 ), de modo similar ao que foi feito com os cristãos da Galácia.

Em razão de haver obreiros fraudulentos entre os Corintos e, que se impunham sobre os cristãos apresentando como base da autoridade deles o serem descendentes da carne de Abraão, o apóstolo Paulo replica demonstrando a inutilidade da base da autoridade que eles invocavam, porque em Cristo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Como Cristo morreu, segue-se que todos morreram e, se todos morreram e ressurgiram com Ele, certo é que ninguém mais deve ser conhecido ou honrado segundo a carne (descendência, nação, povo, sangue, etc), pois todos em Cristo são novas criaturas.

De modo que o alerta imperativo do verso 14 do capítulo 6 tem por foco alertá-los de jamais se submeterem as prescrições daqueles que se apresentavam como apóstolos de Cristo, porém, eram falsificadores da palavra ( 2Co 2:17 ). Compartilhar da doutrina e das práticas dos obreiros fraudulentos, que se louvavam a si mesmos, eram astuciosos e gloriavam-se da aparência, da carne 2Co 4:2 e 5; 2Co 5:12 e, 2Co 10:2 à 12 ).

Qualquer que aderisse à doutrina dos falsos apóstolos ( 2Co 11:11 -15), estava se prendendo a um ‘jugo desigual’, o jugo que é pertinente aos infiéis. Do mesmo modo que o apóstolo Paulo questiona aos Gálatas se eles não caíram da fé por se deixarem circuncidar, o apóstolo questiona aos Corintos se não havia caído da fé ( 2Co 13:5 ), em função de terem aderido ao ensinamento dos aproveitadores do evangelho, homens que não cuidava do rebanho, antes cuidava de arrematar os bens do rebanho para si ( 2Co 12:13 -15).

Da mesma forma que é descabido a um liberto do Senhor voltar às práticas da lei apregoadas pelos judaizantes, é descabido aos cristãos tolerarem os insensatos que os induzia a submeterem-se a um jugo para devorá-los “Porque, sendo vós sensatos, de boa mente tolerais os insensatos. Pois sois sofredores, se alguém vos põe em servidão, se alguém vos devora, se alguém vos apanha, se alguém se exalta, se alguém vos fere no rosto” ( 2Co 11:19 -20).

Se não há sociedade entre a justiça e a injustiça; Se não há sociedade entre a luz e as trevas; Se não há acordo entre Cristo e o inimigo; Se os fiéis não hão de herdar juntamente com os infiéis; Se o templo de Deus, que eram os cristãos, não possuía consenso com a rebelião ( 2Co 6:14 -), porque deveriam se prender ao jugo de apóstolos infiéis? Tal comunhão é proibida, vetado, ou seja, um jugo desigual.

O apóstolo não estava vetando os cristãos de negociarem, conviverem ou relacionarem com os infiéis, antes vetou que comungassem das mesmas práticas em virtude da divergência que há entre a doutrina e vaidade dos falsos apóstolos e o zelo do que é honesto e da doutrina do evangelho de Cristo ( 2Co 8:21 ).

O ensino do apóstolo Paulo visava o estipulado na primeira epístola: “Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” ( 1Co 5:7 -8).

De modo que, quando ele aponta que é jugo desigual (proibido) os fiéis prenderem-se aos infiéis, não tinha em vista os devassos do mundo, antes aos que se diziam irmãos, porém, eram falsificadores da palavra de Deus “Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” ( 1Co 5:10 -11).

Observe que o foco principal do alerta do apóstolo Paulo na primeira carta não é o comportamento moral desregrado (embora seja salutar um bom proceder social), antes a doutrina daquelas pessoas que estavam levedadas pelo fermento da maldade e da malícia, que contrasta com os asmos da sinceridade e da verdade ( 1Co 5:8 ).

Quando o apóstolo veta: não vos associeis com os que se prostituem, ele se refere às pessoas como aquelas que Tiago tratou: Adúlteros e adúlteras, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade com Deus ( Tg 4:4 ; 1Co 5:9 ). Enquanto o público de Tiago diz daqueles que faziam festas com o fermento velho (lei), o apóstolo trata de alguns que faziam festa com o fermento da maldade e da malícia, pois eram astuciosamente falsificadores da palavra de Deus.

Portanto, a determinação paulina não tem relação com casamento, união conjugal entre crentes e descrentes, pois ao tratar de casamento, o apostolo falou por permissão, não impondo mandamento.

Há equívocos nos seguintes pensamentos que têm por base 2Co 6:14:

“É impossível que a pureza do cristão e a contaminação do pagão sejam postas num mesmo jugo”, e ainda: “A passagem em sua totalidade é uma intimação para que não exista nenhum tipo de comunhão com os não crentes” (Barclay, William, Comentário do Novo Testamento, Tradução Carlos Biagini, 2 Coríntios 6:14-18—7:1), ou:

“A ordem pode ser traduzida assim; “parem de se ligar heterogeneamente com os incrédulos. O princípio reverte à legislação mosaica (cons. Lv. 19:19; Dt. 22:10). Os cristãos são “novas criaturas” (II Co. 5:17); não devem se ligar espiritualmente com os incrédulos mortos (cons. Ef. 2:1)” (Moody, Comentário Bíblico Moody, Moody Bible Institute of Chicago; 2Co 6:14-16).

O que o apóstolo Paulo trata no verso em comento não impôs aos cristãos abandonarem os seus empregos, sociedades, vida social, laços de família ou casamentos que tinham com descrentes, antes tratou de alertá-los dos falsos obreiros que queriam prende-los a um jugo que lhes desse ocasião para devorá-los ( 2Co 11:12 compare com 2Co 11:21).