Que ‘vara’ utilizar ao educar uma criança?

É comum, em nossos dias, os educadores questionarem a validade da Bíblia nas questões de ordem educacional sob o argumento de que a Bíblia é um livro anacrônico. Sera?


Que ‘vara’ utilizar ao educar uma criança?

“A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” ( Provérbios 22:15 )

Introdução

Em função do provérbio “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” ( Pv 22:15 ), muitos pais questionam se podem ou se devem corrigir os seus filhos utilizando–se de uma vara. Para respondê-los, primeiro analisaremos o versículo.

 

Um provérbio hebraico

Um provérbio ou dito popular de cunho secular, geralmente, é uma frase curta, de autoria desconhecida, e que é repetida sistematicamente em uma determinada cultura por sintetizar um senso comum.

Com relação aos provérbios contidos no Livro dos Provérbios, sabemos que, quem escreveu e organizou muitos deles foi o rei Salomão e, por sua inspiração e relevância, fazem parte das Escrituras.

Vale destacar que a composição dos provérbios hebraicos assemelha-se à poesia hebraica, pois muitos provérbios foram construídos através de repetições de ideias que denominamos paralelismo. Para compor um verso através de paralelismo, geralmente é necessário que o provérbio possua um antecedente e um consequente, o que estabelece um somatório de ideias que se complementam ou se excluem.

 

A estultícia e a criança

O provérbio estampado no verso 15, do capítulo 22 do livro dos Provérbios apresenta uma realidade fática:

‘A estultícia está ligada ao coração da criança…’.

Por estultícia entende-se estupidez, parvoíce, tolice, etc. Quando o versículo estabelece que a estultícia está vinculada ao coração da criança, ela faz referência a uma característica, uma peculiaridade que é própria a uma faixa etária da vida do homem, ou seja, do infante, que age sem pensar, ou que comportar-se de maneira tola.

O Pregador apresenta a estultícia como ente vinculado ao coração da criança, por conseguinte, a estultícia não deve fazer parte da sua essência, de modo que o coração da criança e a estultícia devem ser separados.

É em razão desta dissociação: criança e estultícia, que se faz necessário orientar, educar e corrigir a criança.

 

A vara da correção

Antes de prosseguirmos, vale destacar que o termo hebraico traduzido por ‘vara’ (shebet) procede de uma raiz não utilizada, e que possui diversos significados:

“1) vara, bordão, ramo, galho, clava, cetro, tribo; 1a) vara, bordão; 1b) cabo (referindo-se a espada, dardo); 1c) bordão (apetrecho de um pastor); 1d) bastão, cetro (sinal de autoridade); 1e) clã, tribo” Dicionário Strong.

Após apresentar uma realidade fática acerca da criança, o provérbio apresenta uma solução:

“… mas a vara da correção a afugentará dela” ( Pv 22:15 ).

Da solução que o provérbio apresenta, imediatamente surgem várias perguntas: que tipo de vara? Uma vara de marmelo? Uma vara pequena? Uma vara macia? A vara pode ser substituída por uma cinta? Um chinelo pode ser utilizado como vara? Surte o mesmo efeito utilizar a mão em lugar de uma vara?

As perguntas parecem pertinentes, porém, evidencia adultos ávidos por soluções fáceis, e a pressa em determinar o tipo de vara a ser utilizada conduz o leitor ao equivoco.

Para uma boa interpretação do texto, primeiro é imprescindível questionar qual é a ideia que se depreende do termo ‘vara’, pois o provérbio trata de uma vara específica: a vara da correção.

A vara que possui a capacidade de afugentar, dissociar, a parvoíce do coração da criança, assim como são expulsos os animais indesejáveis de um determinado recinto, diz da ‘vara da correção’, e não uma vara de ‘marmelo’, ou uma vara de ‘amora’, vara de ‘goiabeira’, etc.

Substituir a vara da correção por qualquer outro tipo de vara não afastará a parvoíce do coração da criança. Pode até afastar a criança de quem utiliza qualquer outra vara, mas a estultícia continuará no coração.

O texto instrui que se deve utilizar a vara da correção para afugentar a tolice, não que se deva simplemente fustigar a criança.

O provérbio em comento não estabelece que a ação de desferir varadas em uma criança separará a parvoíce do coração, antes é a vara da correção que expulsa a loucura do coração do infante.

 

A correção como vara

É comum, em nossos dias, os educadores questionarem a validade da Bíblia nas questões de ordem educacional sob o argumento de que a Bíblia é um livro anacrônico. Tal argumento deriva da leitura equivocada do Provérbio:

“A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” ( Pv 22:15 ).

Ora, o provérbio em comento não apresenta as varas que produzem folhagens e frutos nas árvores como instrumento de educação, mas a fala equivocada de alguns propala o pensamento de que, para educar, basta aplicar varadas na criança.

Um provérbio é utilizado para evidenciar uma ideia de modo rápido e sucinto, e, para cumprir o seu propósito, os provérbios são construídos através de figuras. As figuras que compõem um provérbio não devem ser interpretadas de modo literal, antes as figuras são utilizadas para evidenciar um princípio.

Por exemplo, quando se lê o provérbio: “Onde há fumaça, há fogo”, a construção do provérbio através dos elementos ‘fumaça’ e ‘fogo’ tem o fito de evidenciar a lei da física da causa e efeito. Ora, a fumaça é o resultado da queima de algo, de modo que, se há fumaça, presume-se que há fogo.

O provérbio acima pode ser utilizado em qualquer diálogo para evidenciar a relação de causa e efeito, de modo que, quando realmente há a combustão de qualquer material que produz fumaça, o provérbio geralmente não é utilizado.

Portanto, quando lemos o provérbio acerca da ‘vara da correção’ é imprescindível considerar que a ‘vara’ é uma figura utilizada para tornar compreensível o conceito de educar, instruir e corrigir. O provérbio não evidencia uma vara colhida de uma árvore.

O Pregador evidencia o valor da instrução, da correção, utilizando-se da vara como figura. Assim como a vara é utilizada por um pastor de ovelhas como instrumento de condução do rebanho, a vara da correção é o instrumento que os pais devem utilizar para conduzir a criança à sabedoria. Deste modo, fica evidente que o versículo bíblico institui através da figura ‘vara da correção’ um conjunto de medidas a serem adotadas que afugentará a tolice do coração do infante: o ensinar, o redarguir, o exemplo, a exortação, a admoestação e a punição.

É um equivoco considerar que somente através de castigos físicos se afugentará a estultícia do coração do infante, pois a correção depende da combinação das medidas elencadas acima.

 

O tolo e o aprendizado

A ‘correção’ é um instrumento aplicável à criança, e não ao adulto. Quanto ao adulto, a correção deixa de ser um instrumento efetivo, pois a realidade do adulto que não adquiriu sabedoria é expressa no seguinte provérbio:

“Ainda que repreendas o tolo como quem bate o trigo com a mão de gral entre grãos pilados, não se apartará dele a sua estultícia” ( Pv 27:22 ).

A repreensão é efetiva quando aplicada à criança, pois a tolice nesta fase da existência do homem é apresentada dissociável do coração.  No caso do adulto, ou seja, do tolo, a repreensão não é um instrumento efetivo, pois a tolice já não é dissociável.

Mesmo que o educador aumente em intensidade a instrução, com intensidade comparável à força que com o pilão se aplica sobre o grão de trigo para apartar a casca do grão, a estultice não se apartará dele. Observe que o provérbio não estabelece que, para repreender o tolo é necessário agressões físicas, antes que, mesmo que a instrução seja intensa, não haverá resultado.

A correção é como um instrumento, uma ferramenta, para lidar com o homem na sua tenra idade, ou seja, a educação é uma ferramenta para tratar especificamente com crianças, pois no homem formado a correção perde sua eficácia.

A má leitura dos versos bíblicos compromete a educação que os pais dispensam aos seus filhos, que em vez de educar as crianças, simplesmente lançam mão de uma vara e se restringem a aplicar castigos físicos.

Vale destacar que, da mesma forma que não se utiliza a ‘mão de gral’ para educar um tolo, não se utiliza apenas vara para instruir uma criança ( Pv 27:22 ).

 

Quem são os que aprendem o temor do Senhor

Até aqui abordamos o provérbio segundo uma perspectiva secular, no entanto, faz-se necessário abordarmos uma questão de ordem espiritual.

A Bíblia apresenta a instrução, o ensino, a orientação, a correção, como instrumento efetivo de educação, conforme-se lê: “Ensina o menino no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele” ( Pv 22:6 ).

Até mesmo com relação à salvação, o ensino é o instrumento fundamental para que o homem possa se inteirar da vontade de Deus para que possa realiza-la “E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te” ( Dt 6:7 ).

A ordem que consta do verso 6 do Provérbio 22 é para instruir o menino, a criança, dando lhe o exemplo a seguir (caminho). Uma vez no caminho, mesmo que a criança cresça e se torne homem feito, jamais se desviará.

Observe que o Provérbio está em consonância com a ordem divina que consta em Deuteronômio: “E as ensinarás a teus filhos…”, e o convite exarado nos salmos: “Vinde, meninos, e aprendei o temor do Senhor”.

O povo de Israel, quando recebeu o mandamento de Deus ( Dt 6:1 ), eram homens formados, adultos, e a instrução divina não lhes surtiu efeito, pois pereceram no deserto. Somente dois escaparam: Josué e Calebe.

Por não se deixarem instruir, o povo de Israel era tido por loucos, tolos, homens de ‘dura cerviz’ (desobedientes) “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” ( Jr 4:22 ), mas, os homens que se deixam instruir são comparáveis a meninos, daí o convite de Deus: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ).

Sabendo que o adulto é arredio à instrução, Jesus disse aos seus interlocutores: “E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” ( Mt 18:3 ); “Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como menino, de maneira nenhuma entrará nele” ( Mc 10:15 ).

A conversão demanda mudança de concepção (metanoia=arrependimento), pois é necessário ao homem abandonar seus conceitos e submeter-se a uma nova matéria. ‘Fazer-se como menino’ é dar ouvidos à instrução de Jesus, pois é Ele que veio ensinar o temor do Senhor aos homens.

Fazer-se menino não é o mesmo que ser inocente, desavisado, simples, visto que o desavisado é penalizado assim como o tolo ( Pv 27:12 ). Na verdade o simples (inocente), o louco e o escarnecedor estão no mesmo bojo ( Pv 1:22 ). Fazer-se menino é deixar ser instruído pelo Senhor, por isso a abordagem espiritual do provérbio: “Ensina o menino no caminho em que deve andar”.

O convite de Cristo é efetivo para aqueles que se deixarem instruir, ou seja, para aqueles que se fizerem como meninos: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ). Como tomar sobre si o jugo de Jesus? Obedecendo-O. Aquele que se submete ao jugo de Cristo é humilde, pois se fez servo, ou seja, humilhou-se a si mesmo.

Aquele que se faz servo, humilhou-se a si mesmo, pois diminuiu (reduziu-se à servidão), se fazendo como menino. Aquele que toma sobre si o jugo está apto a aprender de Cristo, pois ao sujeitar-se a Cristo reduziu-se à servidão, tornou-se como menino.

Quando o Salmista profetizou dizendo: “Vinde, meninos, ouvi-me”, em espirito estava instruído o povo de Israel a estarem, como meninos, abertos ao conhecimento que o Messias traria, pois os ‘meninos’ são os quebrantados, os contritos, os pobres, os humildes que recebem o reino “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Mas, os filhos de Israel não se deixaram instruir pelo Filho de Deus, porque confiavam que eram guias dos cegos, luz dos que estão em trevas, instrutores dos néscios e mestres de crianças. Não se fizeram como meninos, não submeteram ao temor do Senhor “E confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:19 -20).

O objetivo do evangelho é a salvação. O evangelho é comparável à semente, e o coração do homem à terra. Aquele que ouve a palavra de Deus e a compreende produzirá muito fruto, de modo que, a compreensão do evangelho se traduz em obediência ( Mt 13:23 ). O evangelista tem a missão de semear a semente de modo que submeta o entendimento do ouvinte ao senhorio de Cristo, que é crer que Jesus é o enviado de Deus “Levando cativo todo o entendimento à obediência…” ( 2Co 10:5 ).

 

Corrigindo uma criança

A correção (vara) é o elemento de maior importância na educação de uma criança. A correção parte do pressuposto de que a criança de per si procurará guiar-se através do seu conhecimento rudimentar, porém, ela necessita de um cuidado especial, pois o seu entendimento deve ser ajustado, corrigido.

Há duas áreas do saber a ser trabalhado com uma criança: a) conhecimento, e; b) sabedoria. Portanto, é imprescindível que os pais saibam distinguir entre educar e transmitir informações. Educar é abrangente e vai muito além do processo de transmissão de conhecimento, pois envolve a formação do caráter e a personalidade do indivíduo.

A aquisição de conhecimento é um processo natural de desenvolvimento do ser humano, que tem inicio após o nascimento, se estende por toda a vida, e se dá através da inteiração com o mundo. Inicialmente, muito do que a criança aprende decorre da experimentação entre conforto e desconforto.

O cuidado dos pais vai além de alimentação e vestimenta, pois o maior desafio dos pais é a construção do caráter do futuro homem.

Em nossos dias o maior investimento que os pais fazem para com os seus filhos se dá na área da transmissão do conhecimento e, para isso contam com altos investimentos do governo. Subsidiariamente temos a televisão, a internet, os jogos eletrônicos, eletroeletrônicos, etc., que aceleram o processo de assimilação de conhecimento.

Na antiguidade a transmissão de conhecimento, maciçamente, ficava a cargo dos pais e restringia-se ao conhecimento pertinente a profissão do pai. Poucos dispunham do privilégio de frequentar os bancos escolares para aprender a ler e escrever e optar por uma profissão.

A instrução é um oficio delegável, de modo que as crianças são instruídas por professores e mentores, e as matérias lecionadas são inúmeras. Aprender a ler, escrever, calcular, etc., é conhecimento que pode ser ensinado a qualquer tempo, e não há idade limite.

Apesar do investimento na área do conhecimento hoje, pouco se investe no campo da sabedoria. Cada vez mais cedo as crianças são encaminhadas para adquirir conhecimento, são encaminhadas a frequentar as escolas. Mas o ensino nas escolas visa o mercado de trabalho, e pouco se dedica ao ensino da convivência harmoniosa. Os pais não devem apreciar demais aquisição de conhecimento em detrimento de adquirir sabedoria.

Instruir em sabedoria é função de quem detém o pátrio poder e acompanha todo o processo de desenvolvimento da criança. A vara da correção é ferramenta disponível aos pais, pois eles são detentores do poder/dever de ensinar o contentamento, a discrição, a camaradagem, a parcimônia, etc.

A estultícia ligada ao coração da criança só é afastada quando há correção no campo do juízo, da justiça e da prudência (sabedoria).

A correção que os pais devem impor aos filhos visa desenvolver um senso de justiça, equidade, retidão, juízo, pois através destes elementos o infante tornar-se-á prudente, sábio.

O pai que não instrui o seu filho não o ama. O termo amor aqui não deve ser interpretado como um sentimento de afabilidade para com a prole, antes diz de cuidado. O amor traduz-se em cuidado dos pais para com os filhos, e o amor dos filhos para com os pais em obediência.

Se o pai não instrui, não repreende, não corrige e nem disciplina, não está cuidando do seu filho, portanto, não o ama. É neste sentido que o termo vara é empregado no provérbio que se segue: “O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o ama, desde cedo o castiga” ( Pv 13:24 ).

O pai que não corrige (vara) o seu filho não exerce a sua função, em outras palavras, não ama o filho. Por outro lado, o que ama faz uso da vara (correção) desde a mais tenra idade. O termo ‘amor’ possui um veio funcional, e não emocional, como entendemos em nossos dias.

O escritor aos Hebreus, ao falar do amor de Deus para com aqueles que Ele recebe por filhos, disse: “Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” ( Hb 12:6 ). A correção e o amor estão intimamente ligados, assim como a paternidade e o dever de disciplinar (açoite): “Filho meu, não rejeites a correção do SENHOR, nem te enojes da sua repreensão” ( Pv 3:11 ; Hb 12:5 ).

Deixar de disciplinar e corrigir é prova velada da falta de amor dos pais para com os filhos. A criança conduzida com correção, disciplina, não terá amalgamada ao coração a tolice, a parvoíce, de modo que será prudente, sábia e permeável a repreensão sempre, diferente do tolo “A repreensão penetra mais profundamente no prudente do que cem açoites no tolo” ( Pv 17:10 ).

A criança instruída e corrigida através da vara da correção tornar-se um adulto que não despreza instrução, por outro lado, a criança largada a mercê da parvoíce tornar-se um adulto tolo, e por mais que sofra as punições proveniente de suas ações, dificilmente corrigirá a sua maneira de ser.

O provérbio demonstra que a repreensão, quando aplicada sobre o sábio é efetiva, de modo que o sábio se conduzirá de maneira a evitar ações que o leve a ser punido “O tolo despreza a instrução de seu pai, mas o que observa a repreensão se haverá prudentemente” ( Pv 15:5 ); já o tolo não sofre a correção, mesmo que ele seja repreendido cem vezes mais que o sábio, nada mudará em seu ser “Na boca do tolo está a punição da soberba, mas os sábios se conservam pelos próprios lábios ( Pv 14:3 ).

Isto indica que a criança é moldável como a argila, maleável, elástica, característica que não se aplica ao adulto. Daí a ordem: “Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá. Tu a fustigarás com a vara, e livrarás a sua alma do inferno” ( Pv 23:13 -14).

Alguém poderá inferir da passagem acima: – ‘Há! É necessário açoitar meu filho com vara de marmelo, pois fustiga-lo com vara de marmelo não o matará’. É obvio que fustigar uma criança com uma vara não leva a morte física, porém, não é este pressuposto que o provérbio enfatiza.

O objetivo do proverbio é destacar a funcionalidade da disciplina, pois a disciplina é a vara da correção que afasta a parvoíce e não causa a morte física.

O que o pregador determina? Ele determina de modo objetivo que a disciplina não pode ser afastada da criança. Ponto! O que é a disciplina? A disciplina é a ‘vara da correção’. A criança deve ser estimulada constantemente com instrução, ensino, orientação, correção e, na desobediência, que seja aplicada a punição.

O leitor deve lembrar que os provérbios são construídos com elementos que são próprios à poesia hebraica: paralelismo. Temos neste provérbio uma variante do paralelismo sinônimo, o paralelismo emblemático, pois o provérbio expressa um pensamento utilizando-se de um misto de literalidade e metáfora. A metáfora complementa o que é literal, e vice-versa.

Literalidade: “Não retires a disciplina da criança…”;

Metáfora: “… pois se a fustigares com a vara (da correção ou da disciplina),…”

Literalidade: “… nem por isso morrerá”.

Pensamento completo expresso por metáforas, o que é próprio ao provérbio: “Tu a fustigarás com a vara, e livrarás a sua alma do inferno”, ou seja, se o infante for disciplinado com a vara da correção, na verdade será livre da sepultura, pois a morte (sepultura) é a pena dada aos tolos.

Quantos males uma criança adequadamente corrigida evitará em sua vida adulta?

A disciplina é imperativa: “Tu a fustigarás com a vara…”, o que demonstra que educar não é uma faculdade, antes um dever, é imperativo, e compete aos pais ministra-la, pois assim como há uma promessa para os filhos que honram (obediência) os pais, há uma maldição de morte para os filhos que são desobedientes “Honra a teu pai e a tua mãe, como o SENHOR teu Deus te ordenou, para que se prolonguem os teus dias, e para que te vá bem na terra que te dá o SENHOR teu Deus” ( Dt 5:16 ; Pv 1:32 ).

Quando a criança é instruída em retidão, justiça, juízo, equidade, prudência, bom siso, saberá gerir os seus sentimentos e controlar as suas emoções. Não se desviará da rota que os seus pais traçaram e viverá bem “O caminho para a vida é de quem guarda a disciplina (instrução), mas o que abandona a correção (repreensão) erra” ( Pv 10:17 ).

Este provérbio apresenta a visão do filho com relação à instrução do pai: “E ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos, e vive” ( Pv 4:4 e 10).

Quando não é instruída, a criança fica entregue ao seu coração, porém, o coração está unido à parvoíce. O louco perece por não dar crédito aos avisos. Não dar ouvidos aos avisos é loucura em excesso “Ele morrerá, porque desavisadamente andou, e pelo excesso da sua loucura se perderá” ( Pv 5:23 ).

Vale destacar que os provérbios que estamos analisando abordam questões humanas e espirituais, visto que quem guarda a instrução do Pai celeste herdará a vida eterna, mas também há promessa para quem guarda a instrução dos seus pais terrenos, pois terá os seus dias multiplicados na face da terra “Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:7 -11).

A ‘disciplina’, o ‘temor’, a ‘correção’ do Senhor, do ponto de vista celestial, diz do evangelho de Cristo, do qual todos são participantes para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Qualquer que se sujeitar (condição de servo, menino) ao Pai dos espíritos obedecendo ao evangelho terá vida eterna. Aquele que se sujeita (suporta) à correção, Deus o recebe por filho, mas se alguém está sem disciplina (evangelho) é bastardo: “Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim” ( Hb 3:14 ); “A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho” ( Ef 3:6 ).

Não podemos esquecer que o escritor aos Hebreus estava escrevendo a hebreus, homens que possuíam uma doutrina recebida dos seus pais por tradição, que diante da doutrina (disciplina) de Cristo sentiam tristeza quando corrigidos. Mas, para serem recebido por filhos, necessário lhe era sujeitarem-se à correção do Senhor: crer em Cristo.

Os pais não podem retirar a disciplina da criança, pois a disciplina é a vara da correção que afasta a tolice do coração da criança “A vara da correção dá sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe” ( Pv 29:15 ). A correção produz sabedoria, mas uma vara de marmelo ou qualquer outra não produz instrução.

Há traduções que rezam que a ‘vara’ e a ‘correção’ dão sabedoria, porém, a tradução acertada é a que reza ‘vara da correção’.

A correção está ligada à instrução, por isso assevera o Pregador: “Filho meu, ouve a instrução do teu pai, e não deixes a doutrina da tua mãe” ( Pv 1:8 ). O pegador não orienta os filhos a lembrarem das surras, antes da instrução, da doutrina.

O que esperar quando da repreensão? Conversão, mudança de pensamento, como está escrito: “Convertei-vos pela minha repreensão…” ( Pv 1:23 ), o que muitas vezes é confundido com punição. Punição, por si só não converte. A conversão não se dá pela punição. A mudança de pensamento da criança não decorre de surra!

 

Posso punir o meu filho?

Por ‘castigo’ temos as seguintes definições:

“1.pena imposta a quem cometeu delito ou falta 2.repreensão, admoestação, correção 3. (Taur.) ato de meter os ferros no toiro”.

Por ‘punição’ temos as seguintes definições:

“1.ato ou efeito de punir 2.qualquer tipo de castigo imposto a alguém por falta cometida 3.(Direito) pena a quem fez um crime ou delito, determinada por julgamento 4.(Figurado) situação embaraçosa e/ou penosa que alguém é obrigado a suportar”.

Quando lemos o versículo: “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” ( Pv 22:15 ), qual é o sentido do termo correção? É o mesmo que castigo, ou é o mesmo que punição?

Ora, o provérbio em comento não trata de delitos, de crimes ou das faltas cometias contra a sociedade, antes o provérbio trata da parvoíce, da estultice, portanto, a vara que afugenta a estultícia do coração da criança diz da vara da correção que tem como elemento principal a instrução, a admoestação, a repreensão e a correção.

Através das definições dos termos ‘punição’ e ‘castigo’ que consta nos dicionários, verifica-se que os termos são intercambiáveis, o que demanda do leitor maior acuidade na análise da frase onde os termos estão inseridos.

Por que a necessidade de maior acuidade? Porque os termos são empregados tanto para eventos nos seio familiar quanto no seio da sociedade, de modo que, por intermédio dos termos é impossível determinar se os termos ‘punição’ e ‘castigo’ referem-se a delitos gravosos contra a sociedade, ou se trata de desobediência no seio familiar.

Do ponto de vista espiritual, quando alguém se converte a Cristo é o mesmo que ser levado cativo, ou seja, que a pessoa foi convencida a obedecer à verdade do evangelho. O novo cristão foi conduzido à servidão de Cristo, humilhou-se (altives abatida), visto que se fez servo espontaneamente.

O processo de levar cativo o entendimento de alguém à obediência de Cristo somente se dá por meio da admoestação, repreensão, correção “Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo; E estando prontos para vingar toda a desobediência, quando for cumprida a vossa obediência” ( 2Co 10:5 -6).

O pecado cativa o corpo, a justiça o entendimento, pois este é um servo livre e aquele subjugado contra a própria vontade. O que é levado cativo a Cristo é o entendimento, demonstrando que a obediência é voluntária.

É possível cativar o corpo sem cativar a mente, mas é impossível cativar a mente e o corpo não obedecer.

Parece contraditório os termos ‘cativo’ e ‘obediência’, porém, faz-se necessário lembrar dos escravos voluntários, servos que após libertos pelos seus senhores, tinham as orelhas furadas como sinal de servidão voluntaria “Então tomarás uma sovela, e lhe furarás a orelha à porta, e teu servo será para sempre; e também assim farás à tua serva” ( Dt 15:17 ).

Quando se lê: “E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do SENHOR, E não desmaies quando por ele fores repreendido; Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija?” ( Hb 12:5 -7), por ‘correção’ e ‘açoite’ deve-se compreender ‘castigo’: 2.repreensão, admoestação, correção, conforme se lê em Provérbios: “Filho meu, não rejeites a correção do SENHOR, nem te enojes da sua repreensão. Porque o SENHOR repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem” ( Pv 3:11 -12).

O termo traduzido por ‘correção’ em Provérbios 3, verso 11 é:

“(muwcar) 1) disciplina, castigo, correção; 1a) disciplina, correção; 1b) castigo”, e o termo traduzido por ‘repreensão’ é: “(towkechah e towkachath) 1) repreensão, correção, censura, punição, castigo; 2) argumento, reprimenda; 2a) argumento, contestação; 2b) reprimenda, desaprovação; 2c) correção, repreensão”.

O Senhor reprende (corrige) aquele que Ele ama assim como o pai ao filho a quem quer bem, ou seja, ‘castiga’, pois o ‘castigo’ faz parte da repreensão, da admoestação e da correção etc. A reprimenda que ocorre no seio familiar tem por base a autoridade do pai e a submissão do filho “Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei abundantemente do meu espírito e vos farei saber as minhas palavras (…) Antes rejeitastes todo o meu conselho, e não quisestes a minha repreensão” ( Pv 1:23 e 24).

A repreensão, o castigo, o açoite diz da instrução que há nas Escrituras ( Pv 1:23 -24 ); “Não obedeceu à sua voz, não aceitou o castigo; não confiou no SENHOR; nem se aproximou do seu Deus” ( Sf 3:2 ); “Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos” ( Hb 12:8 ).

Leia atentamente estes dois versos:

  • “Então visitarei a sua transgressão com a vara, e a sua iniquidade com açoites” ( Sl 89:32 );
  • “Antes de ser afligido andava errado; mas agora tenho guardado a tua palavra” ( Sl 119:67 ).

Os filhos de Israel foram ‘punidos’ por diversas vezes, porém, quanto mais eram punidos, mais se rebelavam ( Is 1:5 ). Para punir a nação, Deus enviava os povos vizinhos para oprimi-los, um modo especial de Deus corrigi-los.

Como? Através da punição advinda das perseguições das nações vizinhas a nação de Israel deveria reconhecer as suas transgressões, visto que tais situações estavam previstas nas Escrituras, ou seja, a punição tinha um fim didático: observarem as Escrituras “Em vão castiguei os vossos filhos; eles não aceitaram a correção; a vossa espada devorou os vossos profetas como um leão destruidor” ( Jr 2:30 ).

Deus não utilizou a punição pela punição, antes a punição foi estabelecida para que compreendessem que a palavra de Deus é fiel e não volta vazia.

Este foi o alerta de Deus: “Quando, pois, gerardes filhos, e filhos de filhos, e vos envelhecerdes na terra, e vos corromperdes, e fizerdes alguma escultura, semelhança de alguma coisa, e fizerdes o que é mau aos olhos do SENHOR teu Deus, para o provocar à ira; Hoje tomo por testemunhas contra vós o céu e a terra, que certamente logo perecereis da terra, a qual passais o Jordão para a possuir; não prolongareis os vossos dias nela, antes sereis de todo destruídos” ( Dt 4:25 -26).

A correção que Deus impunha sobre os filhos de Israel estava nas palavras que os profetas anunciavam, pois eles anunciavam que as doenças, improdutividade, exilio, etc., sobrevieram em decorrência de terem desobedecido ao mandamento de Deus.

A punição é um meio de fazê-los entender a gravidade da desobediência “Castiga o teu filho, e te dará descanso; e dará delícias à tua alma” ( Pv 29:17 ).

Com relação ao adulto que foi avesso a instrução dos pais, será um homem soberbo e sujeito às consequência da sua soberba, diferente dos filhos que se deixaram instruir.

A relação que Deus estabelece com os seus servos é funcional, como se lê: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pv 8:17 ), pois Ele tem misericórdia de quem guarda os seus mandamentos “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:10 ).

A relação pai/filho prioritariamente deve ser funcional, e não emoção. Quando a relação é funcional, ambos possuem deveres: o pai deve cuidado ao filho e o filho obediência ao pai. Ora, o pai cuida do filho dando lhe mandamento, e o filho honra o pai obedecendo.

A punição tem em vista o crime, o delito, e também destaca a reprimenda necessária quando da desobediência do filho. Punição diz de justa retribuição que os pais dão ao filho recalcitrante.

A desobediência é a causa, a punição consequência. A punição se enquadra na correção severa, pois a desobediência viola dois valores distintos:

a) a segurança do próprio desobediente;

b) ofende a autoridade dos pais “Correção severa há para o que deixa a vereda, e o que odeia a repreensão morrerá” ( Pv 15:10 ).

Quando há desobediência, a punição é necessária: “E estando prontos para vingar toda a desobediência,…” ( 2Co 10:6 ).

A criança deve ser instruída acerca das consequências de suas ações. As consequências das ações das crianças são facilmente demonstráveis por meio da interação que elas fazem com as leis naturais que há no mundo. Toda ação gera consequências e muitas delas são imediatas. Ex: colocar o dedo na tomada com corrente elétrica, consequência: choque elétrico; pular de uma altura considerável, consequência: machucar gravemente ou morrer; entrar na água sem saber nadar, consequência: afogamento.

Quando o pai instrui para não colocar o dedo em uma tomada, temos a expressão do seu cuidado. Mas, quando a criança viola a determinação e desobedece, ele se afasta desse cuidado, e diante da desobediência é função do pai repreender e punir.

No infante a parvoíce é recorrente por causa do instinto de exploração, e para evitar que o instinto de exploração traga prejuízos irreparáveis à criança, o pai deve cerca-lo de cuidado.

Há certas ações que não possuem consequências imediatas e que tem por base a índole, o caráter do indivíduo. Ex: a mentira. O mentiroso consegue driblar algumas circunstâncias da vida, porém, mais cedo ou mais tarde sofrerá as consequências.

A criança deve ser instruída de que há leis que regem o mundo físico e leis que regem o mundo das relações humanas. Um pai deve instruir o seu filho e demonstrar que tudo quanto o homem plantar, isto mesmo ceifará, e que neste quesito não há acepção de pessoas “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” ( Gl 6:7 ).

Se semear uma porção de feijão colherá uma saca de feijão, mas se semear ‘vento’, colherá ‘tempestade’. Há leis que regem a plantação do feijão e leis que regem as relações humanas.

É neste ponto que entra a punição: retribuição pela desobediência, pela quebra das regras que há entre pai e filho. Um filho deve aprender que as relações humanas tem por base a autoridade, a hierarquia. O filho que é exercitado nestas questões não terá dificuldade de relacionar-se na sociedade.

A punição deve ser justa, portanto, os pais devem estabelecê-la previamente( Dt 25:3 ) para que não extrapolem na reprimenda “Castiga o teu filho enquanto há esperança, mas não deixes que o teu ânimo se exalte até o matar” ( Pv 19:18 ).

A punição não deve ser sem medida, e nem aplicada em momentos que os pais estão fragilizados emocionalmente, porque em ambos os casos os pais não promoverão uma punição justa.

A exemplo do que Deus fez com Adão no Éden, o primeiro homem foi instruído sobre a liberdade que possuía (de todas as árvores comerás livremente), do mandamento (não comerás da árvore do conhecimento do bem e do mal), das consequências das suas ações (certamente morrerás), e a punição estabelecida (morte).

Um pai deve agir da mesma forma: instruir, dar uma ordem direta, demonstrar as consequências da desobediência. Quando as consequências da ação de um filho pode provocar um dano muito grave, se faz necessário o pai antecipar-se e intervir.

Exemplo: se uma criança demonstra que irá colocar o dedo em uma tomada de alta voltagem, mesmo tendo sido advertido, o pai deve intervir e aplicar a punição. Por que punir? Porque se não fosse a intervensão direta do pai, a criança sofreria as consequências. Neste caso a punição substitui os danos que a descarga elétrica poderia ocasionar.

É dever do pai demonstrar ao filho qual é o comportamento adequado, enfatizar que não deve se portar de maneira inconveniente, demonstrar qual será as consequências e, por fim, estabelecer a pena. Alguns pais não instruem e, quando a criança erra, em vez de instruir e corrigir, aplicam a punição, que só deveria ser aplicada caso houvesse a desobediência.

Os pais devem estar prontos a punir a desobediência, e prontos para instruir quando ocorre um erro. O erro faz parte do processo de aprendizagem, já a desobediência não. A desobediência é ofensa contra a autoridade dos pais. Os filhos que desobedecem devem ser punidos como consequência da ação ou da omissão. Os pais devem diferenciar equívocos, erros, acidentes, das ações que são produzidas por despeita, arrogância, nervosismo, que por sua vez, geram desobediência “Até a criança se dará a conhecer pelas suas ações, se a sua obra é pura e reta” ( Pv 20:11 ).

Um acidente com um copo pode se dar por erro, descuido, o que é passível de orientação. Na orientação o pai deve demonstrar cuidado com o filho e não com o objeto. Ex: – “Filho, tenha atenção quando manuseia um copo de vidro, pois se cair você pode se machucar”; – “Não ande sem o chinelo, pois você pode se cortar com os cacos de vidro”.

Mas, há pais que punem os filhos em caso de acidentes demonstrando que o objeto possui mais valor que o filho.

De nada adianta os pais comprarem brinquedos caros, colocar os filhos nas melhores escolas, não deixar faltar vestes e alimento, se não instruem o seu filho. Ter uma foto na carteira, idolatrar o filho, sem discipliná-lo, na realidade não é amar seu filho “O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o ama, desde cedo o castiga” ( Pv 13:24 ).

O amor do pai para com o filho consiste em cuidado, estabelecer regras, dar mandamentos.

 

Frustrações na infância

Os pais devem permitir que os filhos sofram frustações, pois nas frustações os pais efetivamente conhecerão se ainda há parvoíce no coração de seus rebentos. Mesmo que os pais tenham condições financeiras de comprar tudo o que a criança deseja, alguns desejos devem ser frustrados. Por quê? Porque muitas coisas que trás felicidade não se compra com dinheiro, é conquistada. Porque a existência neste mundo é repleta de frustrações. A terra produzirá constantemente espinhos e cardos, portanto, se o infante não experimentar frustrações, não suportará as frustrações quando adulto. É através das frustrações e perdas na infância que os pais preparam a índole do adulto.

Os maiores desajustados psíquicos foram os príncipes da antiguidade, crianças e jovens criadas sem sofrerem frustações. Tudo o que desejavam era providenciado. Tornaram-se déspotas, homens insuportáveis, iracundos, odiáveis.

O provérbio quando fala do amor do pai para com o filho e do filho para com o pai estabelece uma relação entre quem manda e quem obedece. Esta é uma relação própria às sociedades da antiguidade “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” ( Jo 14:23 -24).

O homem louco pela sua loucura não instrui o seu filho. Deixa a criança entregue a si mesma, e no dia de amanhã terá dissabores “A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe (…) Castiga o teu filho, e te dará descanso; e dará delícias à tua alma” ( Pv 29:15 e 17).

Através da punição, que é retributiva, a criança desde cedo aprenderá que todas as suas ações geram consequências. Uma das retribuições pela desobediência pode ser a reprimenda verbal, palmada, a vara no seu sentido literal.

Quando uma criança lida com fogo está sujeita a se queimar. Sofrer a queimadura é a retribuição por não ter a habilidade necessária para mexer com um material perigoso. Semelhantemente, a palmada, a varada, é consequência pela desobediência a uma determinação prévia: – “Não mexa com fogo”.

O pai deve orientar a criança demonstrando que a punição aplicada é um ato amoroso (cuidado), pois se houver desajuste nas relações sociais, a punição imposta pela sociedade não será branda, e nem em amor. Desde cedo é imprescindível aprender que: “Eis que o justo recebe na terra a retribuição; quanto mais o ímpio e o pecador!” ( Pv 11:31 ).

Os versículos que demonstram contrastes entre o entendido e o falto de entendimento tem por base a retribuição: a vara é para a costa do louco, assim como os lábios do entendido destilam sabedoria “Pobreza e afronta virão ao que rejeita a instrução, mas o que guarda a repreensão será honrado” ( Pv 13:18 ); “Nos lábios do entendido se acha a sabedoria, mas a vara é para as costas do falto de entendimento” ( Pv 10:13 ; Pv 19:23 ; Pv 26:3  ).

Quando a criança desobedecer deve receber justa punição. Em erros sem ligação com a desobediência não se deve fazer uso da punição. Equívocos como ser intolerante quando está nervoso e permissivo quando se está calmo, ou nunca aplicar a punição frente a desobediência é inaceitável.

Há o equivoco de pais que revolvem punir os filhos, mas o fazem pelo motivo errado. Muitos punem os seus filhos em momento de estresse, desavença com o cônjuge, desavença com o chefe, frustações do dia a dia, etc. Os pais, em vista dos problemas e desajustes do dia a dia, acaba descontando na criança suas frustrações, sendo que compete ao pai e a mãe corrigir.

A punição deve ter uma medida e os pais devem pactuar qual será esta medida e qual punição aplicar. As diferenças de opiniões acerca da educação da criança devem ser resolvidas longe das crianças, e os cônjuges devem apoiar um ao outro na presença da criança.

Posicionamento no lar tais como: ‘Não corrija a minha filha’, ou ‘Não chame a atenção do meu filho’ é pernicioso, pois a criança, quando repreendida ou punida por uma das partes dissidentes, se portará de modo a fazer com que os pais entrem em conflito, o que levará ambos a se digladiarem e esquecerão a reprimenda que cabia à criança.

Pais omissos no momento de aplicar a punição geralmente fogem da dor de ver o filho chorando. É um sentimento egoísta, que visa o bem estar dos pais, e não o interesse do filho, que deve sofrer frustações ou receber a justa punição em virtude da desobediência.

Lembrando que utilizar a criança como escudo ou objeto de barganha nas discussões familiares é pernicioso e afetará o comportamento da criança. Este é outro comportamento mesquinho dos pais, que pensam defender os seus interesses, mas se esquecem que prejudicam o desenvolvimento da sua prole.

Mas, como punir o meu filho diante da desobediência? Por exemplo: crianças com até dois pode ser punida. Como? Os pais devem fazer valer a sua palavra. Se o pai disse para a criança não fazer certa coisa, e a criança desobedecer (o que ocorrerá por diversas vezes por causa do instinto de exploração), os pais devem impedir fisicamente. Se o pai disse: – ‘Não mexa no cachorro Junior’!, e a criança se direciona para o cachorro, o pai deve pegar a criança no colo e não permitir.

Neste instante a ordem deve ser repetida: – ‘Não mexa no cachorro’!, isto porque crianças até dois anos ainda não sabem o que significa ‘NÃO’ com perfeição. A atitude do pai ajuda a criança assimilar o significado da palavra!

Não manifeste qualquer demonstração de apreciação quando disser não e a criança desobedecer.

Não deprecie seu cônjuge através de gestos ou palavras diante de seu filho.

Maiores de dois anos podem ser punidos com uma palmada nas nádegas de modo a causar um desconforto. A punição deve ser aplicada não importando se a desobediência foi molhar as mãos (algo sem valor) ou quebrar um vaso chinês (algo valioso).

Não faça promessas de premiar a obediência, pois a obediência não é negociável. O maior beneficiado pela obediência é a própria criança.

Não faça ameaças, o mais indicado é a advertência verbal instrutiva.

Não faça chantagens, pois na chantagem não há justiça e compromete o caráter da criança.

A punição faz parte da disciplina, mas por si só a punição não instrui. O que instrui é a orientação.

O exemplo é o elemento mais efetivo no ensino. Os pais só conseguem ensinar os filhos a falarem a verdade se falarem a verdade. O pai só ensina o dever de cuidar aos filhos se cuidar da esposa e dos filhos. A mãe só ensinará aos filhos o valor da obediência se obedecer ao marido.




Um inocente também é justo?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ). Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.


Um inocente também é justo?

“Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 )

O Problema

É comum a ideia de que uma pessoa ‘inocente’ também é ‘justa’, como se estas duas palavras ‘inocente’ e ‘justo’ fossem sinônimas, porém, do ponto de vista bíblico não é correta está correlação entre as duas palavras.

A Bíblia ensina que inocente é o mesmo que justo? Uma criança recém nascida é inocente e justa? Um inocente pode não ser justo? O ímpio pode ser inocente?

Analisemos algumas passagens bíblicas.

 

As Crianças de Sodoma e Gomorra

Observe este diálogo entre Deus e o patriarca Abraão: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o SENHOR: Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:25- 26 ).

Este diálogo é muito conhecido, porém, é comum não serem feitas as seguintes perguntas: havia inocentes nas cidades de Sodoma e Gomorra? As crianças das cidades de Sodoma e Gomorra não eram inocentes, e por que elas foram destruídas? Elas, apesar de serem inocentes, também eram ímpias, uma vez que foram destruídas?

Consideremos o que Deus disse a Abraão: “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles ( Gn 18:26 ). Deus garantiu a Abraão que, se houvesse dentro dos portões das cidades de Sodoma e Gomorra pelo menos dez justos, não destruiria as cidades! ( Gn 18:32 )

Como bem sabemos, as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas, pois os três justos que haviam na cidade foram resgatados de lá, ou seja, Deus demonstrou que jamais destrói o justo com o ímpio, e que o juiz de toda a terra efetivamente faz justiça, pois não trata os justos como trata os ímpios ( Gn 19:16 ).

Após observar as garantias que Deus concedeu a Abraão “Não a destruirei por causa dos dez” ( Gn 18:36 ), e o resultado final, a destruição de Sodoma e Gomorra ( Gn 19:25 ), chega-se a seguinte conclusão: diante de Deus, ser ‘inocente’ não é o mesmo que ser ‘justo’, pois, se os inocentes fossem justos, ambas as cidades não seriam subvertidas devido às inúmeras crianças que haviam naquelas cidades.

Neste mesmo diapasão, o que dizer de milhares de crianças ‘inocentes’ que foram mortas no dilúvio, sendo que somente Noé foi declarado justo por Deus ( Gn 6:9 ; Gn 7:1 ; Hb 11:7 ).

Que dizer dos filhos de Acã? Eles também eram ímpios, mesmo sendo inocentes? ( Js 7:24 ). Os primogênitos do Egito não eram inocentes? ( Ex 12:29 ).

Através destes eventos é possível determinar que, ser inocente não e o mesmo que ser justo, e que ser justo não é o mesmo que ser inocente.

 

Os inocentes

Geralmente a Bíblia utiliza a palavra ‘inocente’ para designar uma pessoa ingênua, ou desavisada, como se lê: “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” ( Ex 20:7 ), ou seja, após receber o alerta solene “Não tomarás o nome do Senhor em vão”, o homem deixa de ser inocente.

Qualquer que utilizasse o nome de Deus em vão não mais seria considerado inocente, pois foi alertado.

Ora, se qualquer que for avisado pelo Senhor deixa de ser inocente, temos que Adão nunca foi inocente, pois ele foi avisado por Deus do mau, mas resolveu por si mesmo passar, e como conseqüência sofreu a pena “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Por causa do alerta solene Adão deixou de ser inocente, porém, continuava sendo um homem justo e sem conhecer o bem e o mal. Após desobedecer, Adão deixou de ser justo e passou a ser como Deus, conhecedor do bem e do mal.

O alerta divino acerca das conseqüências em ser participante da árvore do conhecimento do bem e do mal arrancou a inocência de Adão. Adão deixou de ser justo após desobedecer e passou a ser como Deus: conhecedor do bem e do mal, em virtude de ser participante (comer) da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Ou seja, a inocência de Adão foi perdida muito antes de ele conhecer o bem e o mal. A inocência não se perdeu após a transgressão, ou seja, antes mesmo da ofensa Adão já não era inocente por causa do alerta solene de Deus.

Salomão alertou: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pv 27:12 ). Ou seja, o aviso torna o homem apto para ver o mal, e este, por sua vez, deve se esconder. Em contra partida, o simples, o desavisado, o inocente, passa e sofre a pena! Por quê?

É comum os homens atinarem que o inocente não deva sofrer a pena, mas a Bíblia demonstra que a pena não passa do simples (inocente) “O prudente prevê o mal, e esconde-se; mas os simples passam e acabam pagando” ( Pv 22:3 ).

Mesmo os inocentes são passíveis de punição, mesmo as criancinhas inocentes são tratadas como os adultos, pois ambos são ímpios diante de Deus, e sofrem a pena: destituídos da glória de Deus.

 

Uma Criança pode ser considerada justa?

Após esta abordagem inicial, sobrevêm inúmeras perguntas: como é possível uma criança não ser justa, se ela é inocente? A partir de que idade uma criança é considerada ímpia? Qual a base da justiça de Deus ao destruir crianças e adultos? Etc.

As alegações de Abraão são verdadeiras: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ), pois Deus mesmo diz: “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

  • O juiz de toda a terra faz justiça;
  • Ele faz distinção entre justos e ímpios;
  • Deus não mata o justo com o ímpio, e;
  • Deus não declara (justifica) o ímpio como sendo justo.

Quando Deus recomendou ao povo de Israel algumas questões de direito, Ele orientou para que guardassem da falsa acusação, e que a pena capital não devia ser aplicada ao inocente e ao justo “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

Este verso estabelece uma diferença significativa entre justo e inocente, pois se ‘justo’ e ‘inocente’ fossem maneiras distintas de fazer referência a uma mesma condição, Deus não estabeleceria a distinção: não matarás o inocente e o justo ( Ex 23:7 ).

Tudo começou com Adão, o primeiro pai da humanidade. Através dele a humanidade lançou mão de uma condição miserável. Por causa da ofensa dele todos os homens pecaram, e em um só evento, todos juntamente se desviaram de Deus ( Sl 14:3 ).

Adão foi criado por Deus santo, justo e bom, ou seja, ele compartilhava da natureza de Deus. Adão existia em comunhão com a Vida e compartilhava da glória de Deus.

Porém, Adão foi avisado por Deus que, no dia em que comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, que estava no meio do jardim, haveria de morrer ( Gn 2:17 ).

Embora santo, justo e bom, Adão nunca foi inocente (ingênuo), pois foi alertado quanto as conseqüências de sua decisão “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pr 27:12 ).

Adão foi avisado e não se escondeu do mal, ou seja, por ter sido avisado, ele já não era simples, ou seja, inocente.

Há diferença entre ‘inocência’, que é ingenuidade e pureza, e ‘inocência’, que é estado de quem não é culpado, significado que é próprio aos tribunais. Não podemos confundir os significados da designação ‘inocência’, pois é essencial para a interpretação bíblica.

Para o Dr. Scofield houve a dispensação da inocência, ou seja, ‘o homem foi criado em inocência, colocado em um ambiente perfeito (…) e advertido das conseqüências da desobediência’ Bíblia de Scofield com Referências, explicação a Gn 1:28 . Ora, como foi avisado por Deus, Adão já não era mais ‘simples’ (inocente, ingênuo), mas não era culpado, ou melhor, segundo a linguagem utilizada nos tribunais ‘inocente’.

Deus criou o homem do pó da terra ( Gn 2:7 ), colocou-o no Jardim do Éden para lavrá-lo e guardá-lo ( Gn 2:15 ), e foi alertado por Deus quanto a árvore que estava no meio do jardim ( Gn 2:17 ). Adão foi criado puro (inocente, inculpável), santo e bom, e alertado (não mais inocente) quanto ao perigo de se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Porém, apesar de avisado, tanto a mulher quanto o homem preferiram dar ouvidos à serpente: “Certamente não morrereis” ( Gn 3:4 ). Não dar ouvidos (credito) a palavra de Deus alienou (extraviou) o homem do seu Criador. Após atender a palavra de Satanás, o homem deixou de compartilhar da vida e da glória que há em Deus.

O Homem morreu conforme a palavra do Senhor ( Gn 2:17 )! A justiça divina não tardou: o homem foi julgado e apenado com a morte “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ).

A morte é alienação de Deus. Por causa da lei santa justa e boa que diz: ‘… certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), o pecado encontrou ocasião na força da lei estabelecida por Deus, e por ela aprisionou o homem ( 1Co 15:56 ). Sem a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), não existia para o homem a possibilidade de alienação de Deus, ou seja, o pecado estaria morto ( Rm 7:8 ).

 

Os ímpios

Mas, porque os infantes de Sodoma e Gomorra, mesmo sendo inocentes, mentalmente e fisicamente incapazes de fazer o bem ou o mal não foram poupados por Deus? Por que não foram tidos por justos?

É fato: Deus prometeu que se houvessem dez justos nas cidades de Sodoma e Gomorra não a destruiria, porém, apesar de inúmeros inocentes, a cidade foi completamente destruída, o que nos deixa uma mensagem clara: as crianças não são justas, apesar de serem inocentes!

As cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas porque todos os homens foram formados em iniquidade, todos foram concebidos em pecado ( Sl 51:5 ).

O salmista Davi profetizou dizendo que todos os homens se desviaram e que juntamente se fizeram imundos ( 1Cr 25:1 ; Sl 53:3 ). Mas, onde e quando ocorreu o desvio, ou seja, a alienação da humanidade de Deus? Qual a idade que o homem passa a estar alienado de Deus?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ).

Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.

Profeticamente o salmista Davi escreve uma oração ao Senhor que retrata o anseio do Messias: “Ó Senhor, com a tua mão, livra-me dos homens do mundo, cuja porção está nesta vida. Enche-lhes o ventre da tua ira entesourada. Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ).

Os ‘homens deste mundo’ referem-se aos filhos de Adão, e tudo que possuem restringe-se a este mundo. A ira de Deus está reservada aos homens deste mundo, conforme demonstra o apóstolo Paulo “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” ( Rm 1:18 ).

A informação acima é de conhecimento geral, porém, o mais interessante é a informação a seguir: “Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ). Os filhos dos homens deste mundo também se fartarão da ira de Deus, e mesmo os seus pequeninos sobejarão da ira entesourada por Deus.

 

Julgamento e Condenação

O apóstolo Paulo traz a lume que a humanidade foi julgada e está sob condenação “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:17 ), o que difere de qualquer sistema religioso, pois todas as religiões dão conta que o juízo de Deus ainda está por vir.

Através de uma única ofensa Adão trouxe o juízo de Deus sobre todos os homens para condenação, ou seja, em Adão todos os homens se desviaram de Deus e juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ).

Todos os homens, sem exceção: homens, mulheres, crianças e velhos tornaram-se imundos e sob condenação.

A ofensa de Adão foi não crer na palavra de Deus que lhe preservaria a vida, o que o levou comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, que o tornou como Deus, conhecendo o bem e o mal. A ofensa se deu antes do conhecimento do bem e do mal, portanto, a condenação não depende da consciência, ou da capacidade do homem em realizar o bem e o mal.

Quando a Bíblia afirma que o homem é escravo do pecado, ela demonstra que assim como os filhos de escravos eram escravos, todos os descendentes de Adão também são escravos. Não importa a idade ou condição social, se criança ou velho, uma vez descendente de Adão são escravos do pecado.

A escravidão é uma condição que se estabelecia sobre homens, mulheres, jovens e crianças, da mesma forma que o pecado. Não é porque as criancinhas de Sodoma e Gomorra não possuíam consciência e nem dispunham de condições para realizar bem ou mal, que eram justas. Embora inocentes, simples, sofreram a mesma pena que foi imposta aos adultos, pois já estavam condenados à perdição por serem descendentes de Adão, e, portanto, por serem servos do pecado (ímpios).

Que ação, que entendimento, que compreensão, do que era capaz um infante que o tornava escrava? Bastava simplesmente nascer de pais escravos para ser escravo. Não havia nenhuma ação ou omissão por parte da criança, e neste aspecto, todos os descendentes de Adão são escravos do pecado.

A condição é própria a todos os homens, e não se vincula a questões de méritos. O apóstolo Paulo ao falar da condição do homem em sujeição ao pecado utiliza o vocábulo ‘doulos’, indicando escravidão em oposição à condição do homem livre, que é ‘eleutheria’.

‘Doulos’ é um termo que não possui conotação moral ou ética, e que data de um período histórico anterior a Sócrates, e que, portanto, também já era de conhecimento do apóstolo. O apóstolo Paulo preferiu o vocábulo ‘Doulos’ em lugar de ‘eleutheria’, o que demonstra que a escravidão ao pecado não depende de questões morais ou comportamentais.

‘Doulos’ possui sentido diferente de ‘enkráteia’, que é um conceito socrático, que introduziu o conceito de liberdade ética. Este conceito estabelece a liberdade como possuidora de senhorio sobre a existência orgânica e psíquica do homem, indicando a virtude como sendo ‘conhecimento’ e fundamentando a liberdade do homem no conhecimento e na racionalidade: conhecer o bem implica praticá-lo.

Observe: “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” ( Rm 6:17 ). O homem é servo do pecado sem qualquer conotação moral, uma vez que o apóstolo dos gentios utiliza o vocábulo ‘doulos’ e despreza o termo ‘eleutheria’.

 

O Caminho Largo

Quando Jesus orientou os seus ouvintes a entrarem por Ele: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ), ou seja, que nascessem de novo ( Jo 3:3 ), Ele também alertou acerca da porta larga.

Jesus é o último Adão, sendo necessário ao homem nascer de novo para ser participante da natureza divina ( 1Pe 1:2 e 22 -23 ; 1Co 15:45 ).

Mas, como não é primeiro o espiritual, senão o animal (o terreno), pois primeiro os homens carnais são gerados através de Adão, que é a porta larga, por onde todos os homens entram ao nascer neste mundo, para depois entrarem pela porta estreita, segue-se que a porta larga é o primeiro Adão “… porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( MT 7:13 ).

Jesus alertou que a porta é larga e que o caminho que conduz a perdição é espaçoso. Ir à perdição não depende da vontade, da consciência, do conhecimento ou da volitividade do indivíduo. O que conduz à perdição é o caminho largo que o homem se encontra após ter nascido segundo a vontade da carne, do sangue e da vontade do varão ( Jo 1:12 ).

De modo semelhante, é Cristo, o caminho, que conduz o homem a Deus, e, portanto, é necessário nascer de novo para trilhar o novo e vivo caminho.

 

Conclusão

Deus destruiu Sodoma e Gomorra porque não havia dez justos em ambas as cidades, o que nos faz lembrar dos infantes que nelas habitavam.

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades se houvesse nela dez justos, e acabou subvertendo Sodoma e Gomorra, conclui-se que as crianças não eram justas, embora fossem inocentes.

Devemos ter em mente também que a palavra inocente no Antigo Testamento tem o sentido de alguém ‘simples’, ‘desavisado’, diferente do sentido que passou a predominar ao longo dos anos, devido aos tribunais.

A ação de Deus no Antigo Testamento reitera a declaração do Salmista Davi, que diz: “E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente” ( Sl 143:2 ). O apóstolo Paulo reitera: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer” ( Rm 3:10 ), nem os infantes.

Em nenhuma das referências bíblicas excetuam-se as crianças, que embora sejam inocentes, diante de Deus são ímpias.

Esta distinção entre justo e inocente se fez necessária porque muitos cristãos, embora admitam que a humanidade sem Cristo seja réu do inferno por causa da sua natureza pecaminosa, entendem que os infantes não se enquadram neste quesito, pois entendem que os infantes não são lúcidos e não possuem consciência para diferenciar o bem do mal, o que impede que exteriorizem uma ação ou omissão pecaminosa.

Ou seja, contraria totalmente a mensagem de Cristo: os homens são sujeitos do verbo ‘hamartia’ porque são escravos do pecado, e não o contrário: são pecadores por causa de suas ações e omissões.

Qual a condição dos inocentes de Sodoma e Gomorra? “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 ). Eram ímpias, pois Abraão argumenta: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ).