O Sermão da montanha e algumas práticas religiosas dos judeus – esmola, oração e jejum

Considerando o que é ensinado no Sermão da Montanha na oração do Pai nosso, de que quem roga a Deus pelo perdão das ofensas espera que Deus o faça graciosamente (como perdoamos os nossos devedores), não se pode aquiescer de uma ideia prescritiva de comportamento, de que Jesus estava ensinando que Deus só perdoa aqueles que perdoam aos seus semelhantes.


O Sermão da montanha e a abordagem de Jesus, acerca da esmola, da oração e do jejum

 

Introdução

O capítulo 6 do evangelho, segundo Mateus, é continuação do Sermão da Montanha, portanto, para interpretá-lo e compreendê-lo, se faz necessário considerar os princípios que norteiam o discurso de Jesus.

Em primeiro lugar, é necessário considerar o público alvo do discurso, pois Jesus só falou, por parábolas, à multidão: “E sem parábolas nunca lhes falava.” (Mc 4:34; Mt 13:13)

Em segundo lugar, é necessário considerar que a justiça dos seus ouvintes deveria ser superior à de seus mestres (Mt 5:20),  portanto, as práticas dos ouvintes de Jesus não deveriam ser as mesmas práticas dos escribas e fariseus, vez que elas não concedem a justiça, que dá direito ao reino dos céus.

Em terceiro lugar, é necessário considerar as suas ações, sob o prisma da pergunta: ‘Que fazeis de mais?’, ou ‘Não fazem os publicanos e pecadores, também, o mesmo?’, visto que praticavam ações semelhantes àqueles que condenavam e achavam que tinham direito ao reino dos céus. (Mt 5:46-47)

Após redarguir a multidão, com base em questões da lei, o Senhor Jesus passa a questionar as práticas religiosas (esmola, oração e jejum) dos seus ouvintes. (Mt 5:21-48)

 

Esmolas

“GUARDAI-VOS de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.” (Mateus 6:1-4)

Após demonstrar a impossibilidade de seus interlocutores alcançarem justiça superior à dos seus líderes religiosos, através da lei, Jesus passa a abordar algumas práticas religiosas do judaísmo. A forma como a prática das esmolas era realizada é a primeira questão religiosa a ser analisada.

É importante notar que, logo após orientar os seus ouvintes a serem perfeitos, como o Pai celestial, Jesus instrui a multidão a não esmolar, com o fito de serem notados pelos religiosos, alertando que, quem dá esmola diante dos homens, não será recompensado por Deus. (Mt 5:48)

Jesus salienta que os hipócritas (líderes religiosos), tanto nas sinagogas, quanto nas ruas, procuravam dar esmolas diante de uma plateia, como quem toca uma trombeta, chamando a atenção para si, no momento que iam esmolar, somente para serem reverenciados pelos seus pares, pela prática. A atenção destes, já era recompensa bastante para os hipócritas.

Jesus não proibiu a prática religiosa de esmolar, mas orientou a multidão que, se fosse dar esmolas, que o fizesse em oculto, ou seja, sem chamar a atenção (não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita), pois, Deus é conhecedor de todas as coisas e é Ele que recompensará publicamente o doador.

Dar esmolas é uma prática humanitária adotada pelas religiões e por  seus seguidores. Jesus não condena quem dá donativos aos seus semelhantes, porém, qualquer que pensa que alcançará a salvação por meio dessa prática, precisa mudar a concepção (metanoia), pois o único caminho que conduz o homem a Deus é Cristo.

Segundo São Roberto Belarmino (1542-1621), teólogo católico e cardeal inquisidor, há cinco vantagens em se dar esmola:

  • É reparação por pecados cometidos;
  • Acumula-se méritos para a vida eterna;
  • Permite o perdão dos pecados;
  • Aumentam a confiança em Deus;
  • Inspira os pobres a rezarem por seus benfeitores.

Observe essa reprimenda feita a um fariseu:

“E, estando ele, ainda, falando, rogou-lhe um fariseu que fosse jantar com ele; e, entrando, assentou-se à mesa. Mas, o fariseu admirou-se, vendo que não se lavara antes de jantar. E o Senhor lhe disse: Agora vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade. Loucos! Quem fez o exterior não fez, também, o interior? Antes, dai esmola do que tiverdes e eis que tudo vos será limpo. Mas, ai de vós, fariseus, que dizimais a hortelã, a arruda e toda a sorte de hortaliças e desprezais o juízo e o amor de Deus. Importava fazer estas coisas e não deixar as outras.” (Lc 11:37-42).

Ao dizer:

Antes daí esmola do que tiverdes e eis que tudo vos será limpo.” (Lc 11:41), ou;

Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, onde não chega ladrão e a traça não rói”, Jesus não estava orientando os fariseus a adotarem a pratica de esmolarem, pois, isso, já faziam. (Lc 12:33)

A determinação de Jesus aos fariseus é a mesma dada ao jovem rico, para que eles fossem peefeitos, como, perfeito, é o Pai Celeste:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.” (Mt 19:21; Mt 5:48);

“Outrossim, o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a.” ( Mt 13:4 -46).

O apóstolo Paulo considerou tudo o que possuía como esterco, para ganhar a Cristo, ou seja, ele se desfez de tudo:

“E, na verdade, tenho, também, por perda, todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo.” (Fl 3:8)

Ora, a multidão precisava ser perfeita, como o Pai é perfeito (Mt 5:48) e aí, a necessidade de aprender, acerca da prática das ‘esmolas’.

Para os ouvintes de Jesus serem perfeitos como o Pai celeste, precisavam ser misericordiosos como o Pai celeste: “Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:26). O termo grego traduzido por esmola é ελεημοσυνη[1] (eleemosune) que, também, significa misericórdia, piedade.

A esmola exigida por Deus, não tinha em vista os pobres, pois Ele mesmo enfatizou:

“Porquanto, sempre tendes convosco os pobres, mas a mim não me haveis de ter sempre.” (Mt 26:11)

Por parábola, Jesus estava ensinando os ouvintes do Sermão do Monte, como se purificarem: entregando a alma a Cristo, seguindo-O como mestre, pois essa é a justiça de Deus, a misericórdia (esmola), que deviam aprender e exercer.

“Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não sacrifício. Porque eu não vim chamar os justos, mas, os pecadores ao arrependimento.” ( Mt 9:13);

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.” (Mt 5:10-11);

“Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.” (Rm 10:3-4; Rm 3:22 ; Fl 3:9; Is 42:21).

Cristo é a justiça, pela qual os seus discípulos seriam perseguidos, a justiça que excedia à justiça dos escribas e fariseus:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e dos fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” (Mt 5:20);

“Mas, buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6:33)

Os escribas e fariseus deviam por em prática o mais importante da lei: o juízo, a misericórdia e a fé e não deixarem de fazer doações aos pobres, pois o conceito de ‘justiça’ estabelecido por Deus é a obediência à sua palavra, o que, também, se designa por  ‘misericórdia’!

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, mas desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas e não omitir aquelas.” (Mt 23:23)

O que Deus estabeleceu na lei? O que era justiça para Israel? O cuidado em cumprir todos os mandamentos, como Deus ordenou.

“E o SENHOR nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos, que temêssemos ao SENHOR, nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje. E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR, nosso Deus, como nos tem ordenado.” (Dt 6:24-25)

Mas, passou-se o tempo e o profeta Isaías protestou contra Israel, dizendo:

“CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça e têm prazer em se chegarem a Deus…” (Is 58:1-2)

Se a justiça para Israel era cumprir o que Deus ordenou, por que perguntavam, a cada dia, pelos direitos da justiça? Respondo: Porque os filhos de Israel confundiam práticas religiosas, como distribuir dinheiro aos pobres (esmola), com o serem ‘misericordiosos’ de fato, ou seja, em Israel não havia quem entendesse: – ‘Misericórdia quero e não sacrifício’.

O registro da parábola do Sermão da Montanha pelo evangelista Lucas, assemelha-se, em muito, ao que Mateus registrou, com relação à ‘misericórdia’, o que nos fornece elementos para melhor compreensão da parábola do Sermão da Montanha, no que concerne às esmolas:

“E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também, os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também, os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também, os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno, até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:32-36)

Os versos 32 a 35, do capítulo 6, de Lucas, contém a mesma temática de Mateus 5, versos 46 a 48, exceto pela invocação do que os ouvintes ouviram, acerca da lei:

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-48)

Como já vimos, anteriormente, Jesus não estava instituindo novas praticas ou, novos princípios morais, antes, destacando o fato de que tudo o que faziam, a pretexto da lei, os pecadores faziam o mesmo: amam aos que os amam, fazem o bem aos que lhes querem bem, emprestam para receber com juros, etc.

Daí a necessidade de práticas superiores às dos escribas e fariseus, para serem perfeitos: serem misericordiosos, ou seja, deveriam vender tudo o que possuíam e dar aos pobres, ou seja, dar esmola de tudo o que tivessem! (Lc 11:41 e 12:33; Mt 19:21; Mt 5:48)

 

A oração

“E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar, em pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade, vos digo, que já receberam o seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes.” (Mt 6:5-8)

Assim como a prática de dar esmolas, a oração é prática comum aos diversos segmentos religiosos existentes no mundo e até à algumas correntes filosóficas, que adotam tal prática, a pretexto de meditação.

No judaísmo, cristianismo, islamismo, budismo, espiritismo, etc., a oração é tida por uma ação religioso que faz contato com o divino, através de uma ligação, conversa, pedido, agradecimento, reconhecimento, louvor, adoração ou, reverência, podendo ser individual ou, coletiva.

Daí a pergunta: o que diferencia a oração do cristão, da oração das outras religiões? Qual era o mote da oração dos judeus, que se fez necessário Jesus instrui-los, acerca da oração?

Não podemos esquecer que estamos analisando o Sermão da Montanha, uma grande parábola, pois tem, por público alvo, os judeus, povo religioso, mas que as Escrituras protestavam contra eles como sem compreensão: “Porque são gente com falta de conselhos e neles não há entendimento.” (Dt 32:28)

Considerando a necessidade premente dos ouvintes de Jesus obterem justiça superior à dos escribas e fariseus, para terem direito ao reino dos céus (Mt 5:20), Jesus destaca o comportamento dos lideres da religião judaica, que, continuamente, frequentavam as sinagogas, tinham prazer em fazer suas orações, em pé, nas sinagogas e nas esquinas das ruas, com o objetivo de serem notados pelos seus pares.

No mínimo, o comportamento dos ouvintes de Jesus deveria ser diferente dos seus líderes, caso quisessem justiça superior. Se os líderes judaicos já receberam a sua recompensa, ao se fazerem notar quando oram nas praças e nos templos, os ouvintes de Jesus deveriam entrar em seu local de repouso e fechar a porta para orar, sem que os outros percebam, pois é Deus quem ouve as petições e recompensa publicamente.

Semelhantemente, de nada adianta fechar a porta do quarto para orar, mas, quando for testemunhar, anunciar na tribuna, diante de todos, que é um homem ou, mulher de oração ou, exibir joelhos calejados, a pretexto de orar bastante. Muitos pregadores dão testemunho de si mesmos, de que são homens de oração, com o fito de serem reverenciados por seus expectadores!

Além de não se exibirem como os hipócritas, os ouvintes de Jesus são instruídos a não se utilizarem de vãs repetições, como os gentios, que acham que, por muito orar, de algum modo serão atendidos.  Através desse verso, torna-se evidente que o público alvo da mensagem do Sermão do Monte era composto por judeus.

Jesus deixa claro que, para Deus atender a uma oração, Ele não leva em conta o quanto a pessoa ora, como se o tempo em que a pessoa permanece em oração o sensibilizasse. Deus não se assemelha ao juiz iniquo da parábola sobre o dever de orar sempre, sem se desfalecer. (Lc 18:1-8)

Deus não é favorável a qualquer que acredita que será atendido por muito rogar, antes, Deus atende aquele que confia que Ele é misericordioso e galardoador daqueles que O obedecem.

Jesus enfatiza que Deus conhece aquilo que o homem há de pedir, antes, mesmo, de formular o pedido. O crente, quando ora a Deus, assim, o faz, porque confia na misericórdia divina,  não porque Deus desconhece os seus problemas ou, o que vai pedir.

Observe que Jesus só analisa a maneira que os escribas e fariseus oravam e recomenda a seus ouvintes que mudem a forma de fazê-lo. Ao apontar o jeito que os escribas e fariseus oravam e a maneira que os seus ouvintes deveriam orar, Jesus não estava estabelecendo que a condição para serem ouvidos por Deus era fechar a porta do aposento ou, que o quarto é um lugar especial para Deus.

A proposta de Jesus à multidão é para que, ao menos, a forma e o lugar onde orarem fosse alterada, caso buscassem alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus.

A resposta que um jovem, cego de nascença, deu aos escribas e fariseus, após ser curado por Jesus, é a melhor definição de quem Deus ouve a oração e de quem Deus não ouve:

“Ora, nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a esse ouve.” (Jo 9:31).

Isaías já havia profetizado, explicando o motivo pelo qual Deus não ouvia os filhos de Israel:

“Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e, ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue.” (Is 1:15).

Enquanto Deus exigia do povo obediência (1Sm 15:22; Os 6:6), os filhos de Jacó apresentavam-se no templo com sacrifícios, ou seja, com a mão manchada de sangue, pois, quem oferece um boi é como quem mata um homem. (Is 66:3).

 

A oração do ‘Pai nosso’

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, o poder e a glória, para sempre. Amém.” (Mateus 6:9-13).

Conhecendo os seus interlocutores, pois não sabiam o que pedir e nem como pedir, Jesus ensina a oração do Pai Nosso.

Esse problema, a respeito do que pedir e de  como convém pedir, não é afeita à Igreja de Cristo, pois o Espírito Santo intercede pelos que estão em Cristo e Jesus mesmo orou ao Pai, pelos que haveriam de crer n’Ele.

“E da mesma maneira, também, o Espírito ajuda nas nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir, como convém, mas, o mesmo Espírito, intercede por nós, com gemidos inexprimíveis.” (Rm 8:26; Jo 17:20).

A oração do Pai nosso, ao longo dos tempos, tornou-se uma reza e muitos a utilizam de modo repetitivo, como se fosse uma fórmula mágica. Diante de situações mil, as pessoas recitam o Pai nosso, como em velórios, perigos, tristezas, decepções, etc. Em nossos dias, as pessoas continuam se utilizando de vãs repetições em suas orações e, simplesmente, agregam as suas imprecações ao Pai Nosso.

A oração ‘modelo’, ensinada por Jesus, contém princípios que norteariam os judeus a saberem a quem pedir, o que pedir e como pedir. Os ouvintes de Jesus, ao pé do monte, não precisam iniciar as suas orações, dizendo: ‘Pai nosso que estais nos céus…’, como se nessas palavras houvesse um conteúdo mágico, uma fórmula, mas, antes, compreenderem que, quando orarem, devem confiar, inteiramente, em Deus, como Pai.

Aquele que roga: “Pai nosso que estás nos céus…”, é conduzido a considerar se, efetivamente, é um dos filhos de Deus, pois, se for uma mancha, geração perversa e distorcida, de nada adianta orar, pois não será atendido. (Dt 32:5)

“O filho honra o pai e o servo a seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou Senhor, onde está o meu temor?” (Ml 1:6)

A oração é fruto da confiança que o filho deposita na misericórdia e na fidelidade de Deus (Hb 11:6) e não o contrário, confiar que a oração é o elemento que concede o favor divino.

Quando orassem ‘… santificado seja o teu nome’, os ouvintes de Jesus deveriam considerar se santificam (separam) o nome de Deus, quando se obedecem à Sua palavra. Rogos, orações e imprecações, não diferenciam Deus de outros deuses, mas, sim, por honrá-lo como Pai e Senhor.

“Ao SENHOR dos Exércitos, a Ele santificai; seja Ele o vosso temor e seja Ele o vosso assombro.” (Is 8:13)

Deixar de pronunciar o nome de Deus ou, pronunciar o nome de Deus somente em aramaico ou hebraico, não é santificar o nome de Deus. Se a doutrina (temor) de quem ora é proveniente de Deus e, se o individuo, efetivamente, obedece (assombro, tremor), Deus é santificado (separado). Como santificar o nome do Senhor? Obedecendo-O! Ao dizer: santificado seja o teu nome, quem faz a oração deve ter a Deus como seu temor (regra de fé) e obediência.

Na Antiga Aliança, o homem santificava o nome do Senhor, quando obedecia aos seus mandamentos e, na Nova Aliança, com o advento de Cristo, santificar ao Senhor é crer que Jesus de Nazaré é o Cristo.

“Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”. (1 Pe 3:15)

Santificar o nome de Deus não é algo visível, mensurável aos olhos do próximo, antes, é próprio ao indivíduo que obedece a Deus em espírito e em verdade. Por isso, dar esmola para que todos vejam ou, orar nas praças, não significa que se está ‘santificando’ o nome de Deus.

Quando o homem santifica a Deus obedecendo, Deus também santifica o seu nome, realizando a sua maravilhosa obra redentora. Deus santificou o seu nome, ao levantar salvação poderosa na casa de Davi, seu servo, pois Ele havia prometido que o Cristo nasceria na casa de Davi. Deus santifica o seu nome, como fiel e verdadeiro, ao lembrar-se da sua santa aliança e juramento a Abraão. (Lc 1:69-73)

Jesus sabia que Deus era o seu Pai e que, verdadeiramente, ele era o Filho e que Deus sempre haveria de atendê-Lo. Mas, quando diante da multidão, Jesus rogava ao Pai para que soubessem que Ele é o enviado de Deus, como salvador do mundo.

“Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste”. (Jo 11:42)

Percebe-se, através da oração de Cristo, que a oração, também, possui um viés didático para aqueles que ouvem a oração.

O que os judeus deveriam pedir a Deus em oração? O reino de Deus! Por que o reino de Deus? Ora, o reino de Deus se estabelece pela presença do Cristo, o grande Rei, e só é inaugurado com a vinda do Cristo, o Filho de Davi.

Ao orar pela vinda do Messias, estariam orando segundo a vontade de Deus, e assim, não haveria como não serem atendidos.

“E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve.” (1 Jo 5:14)

Com a vinda do Cristo, a vontade de Deus se estabelece, tanto nos céus, quanto na terra:

  1. nos céus, a vontade de Deus é estabelecida, porque Cristo é constituído a cabeça do corpo, que é a Igreja, constituída de todas as famílias da terra (judeus e gentios);
  2. na terra, Deus faz a sua vontade, cumprindo a sua palavra a Abraão e a Davi, fazendo os filhos de Israel herdarem a terra prometida e assentando Cristo sobre o trono de Davi, seu pai.

Em Cristo, o Filho de Davi, o templo prometido a Davi está sendo erguido com pedras vivas: que é a igreja, portanto, a promessa feita a Davi está sendo cumprida, e Cristo é constituído o primogênito de Deus entre muitos irmãos (Rm 8:29).

Por meio de Cristo, Deus restaurará a nação de Israel, unificando as duas casas de Israel, e Ele se assentará sobre o trono de Davi, na condição de o mais elevado dos reis da terra (Sl 89:27) e exercerá o sacerdócio, segundo a ordem de Melquisedeque. (Sl 110:4)

Quando orassem, os Judeus tinham que se preocupar com o que comer?

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou, pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento e o corpo, mais do que o vestuário? (…) (Por todas estas coisas, os gentios procuram). De certo, vosso Pai celestial, bem sabe que necessitais de todas estas coisas. (Mt 6:25)

Em outra ocasião, Jesus ensinou aos judeus, que deviam trabalhar pela comida que permanece:

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou.” (Jo 6:27)

Devemos lembrar que o homem não vive de pão, mas, da palavra de Deus (Dt 8:3), e que Deus estabeleceu o trabalho, como meio de subsistência (Gn 3:19). A oração que Jesus ensinou, tinha o viés de fazer os seus interlocutores pensarem o que é conveniente pedirem a Deus, pois Deus não contraria a sua palavra, dando pão a comer, se é necessário trabalhar.

Ao pedirem pão, os ouvintes de Jesus deveriam repensar os seus conceitos, acerca do que estava estabelecido por Deus e, assim, ocorreria o arrependimento, pois, Cristo é o verdadeiro pão que dá vida:

“Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu” (Jo 6:32)

“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.” (Jo 6:51).

Quando Deus concedeu aos filhos de Israel pão no deserto, por mão de Moisés, era fornecida a matéria prima, todos os dias, para o consumo daquele dia. Assim, não deviam se preocupar com o que haveriam de comer amanhã, mas, sim, em preparar o que foi concedido por Deus, apenas, no dia de hoje.

Os ouvintes de Jesus deveriam pedir a Deus o perdão de suas ofensas, confiados na misericórdia de Deus e não se apresentarem diante d’Ele, confiando que eram justos. O favor divino só é concedido aos necessitados de espírito.

Somente o Cristo pode levantar as mãos aos céus e orar ao Pai, apresentando a sua retidão e justiça:

“O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça, e conforme a integridade que há em mim.” (Sl 7:8)

Quando alguém perdoa a dívida do seu próximo, assim, o faz, graciosamente (sem pedir nada em troca), portanto, os ouvintes de Jesus deveriam pedir a Deus que fossem perdoados, graciosamente.

O ensino de Jesus não estabelece uma barganha entre o homem e Deus: ‘Ó, Senhor, perdoa a minha dívida, pois eu perdoo aquele que me ofende’. Interpretar como imprescindível perdoar o outro, para ser perdoado por Deus, é pernicioso e torce a ideia do texto. Deus não é devedor de ninguém, mesmo quando esse alguém perdoa o seu semelhante.

“Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro, tal como tu e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem.” (Jó 35:7-8)

O ‘assim como’ da frase: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, é um comparativo que introduz a ideia de gratuidade, ou seja, que Deus os perdoaria, sem nada exigir.

O ensino de Jesus tinha o fito de orientar a multidão a não adotar o posicionamento descrito na parábola do fariseu e do publicano, em que o fariseu, confiado em si mesmo, na sinagoga, dá graças a Deus, por não ser como os demais homens.

“O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano.” (Lc 18:11)

Os ouvintes de Jesus deviam orar a Deus para livrá-los da tentação, livrando-os do mal. No que consiste a tentação? Tudo o que faz o homem desviar-se de cumprir os mandamentos de Deus! O mal se abate sobre todos os que se desviam de obedecer a Deus, portanto, qualquer que permanece obediente a Deus está livre do mal.

“Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados.” (2 Pe 2:9).

Ao final da oração, reconheça que a Deus pertence o reino, o poder e a glória para sempre, ou seja, que é plenamente possível a Deus conceder tudo o que foi pedido, anteriormente, pois essa é a vontade de Deus!

O crente em Cristo faz a oração do Pai nosso? Lembre-se que, quando ensinou o Pai nosso, Jesus estava ensinando judeus a orarem, não a convertidos ao evangelho!

Quem está em Cristo, não precisa orar pedindo ao Pai que santifique o seu nome, pois já santificou a Cristo como Senhor em seu coração, quando creu que Jesus é o Cristo. Já não é necessário pedir que venha o reino de Deus, pois crê que Cristo é o reino dos céus entre os homens, que trouxe salvação a todos os povos. Não precisa pedir pão, pois é participante de Cristo, ou seja, comeu do pão e bebeu da água concedida por Deus, de modo que não terá mais fome e nem sede. Já não precisa pedir perdão das ofensas, pois já não resta nenhuma condenação por estar em Cristo.

 

Perdão

“Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” (Mt 6:14 -15)

Para interpretar esses dois versos, devemos considerar:

a) denotação: sentido real, literal da frase, ou o estado de coisas que a frase afirma ser o caso;

b) conotação: a associação subjetiva, cultural e/ou emocional, que está para além do significado estrito ou, literal de uma palavra, frase ou, conceito ou, seja, diz dos sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor, e;

c) ênfase: refere-se ao grau de importância que o autor atribui aos diferentes elementos constitutivos da frase.

Portanto, a instrução de Jesus, com relação ao perdão às ofensas dos outros, deve ser analisado, segundo os princípios estampados nos versos 43 à 48, do capítulo 5, de Mateus ou, segundo os princípios de Lucas 6, versos 32 à 36. Observe:

“E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também, os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos e fazei bem e emprestai, sem nada esperardes e será grande o vosso galardão e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno, até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:32-36)

Analisando os versos acima, do ponto de vista denotativo, o que é ensinado? Que o perdão de Deus só é concedido àqueles que perdoam? Que o perdão de Deus está condicionado ao perdão que os homens dispensam aos seus semelhantes? Que os ouvintes de Jesus tinham que primeiramente perdoar as ofensas dos seus semelhantes para só, então, alcançarem o direito de serem perdoados por Deus?

Sabemos que o perdão que Deus dispensa aos homens tem por base a sua misericórdia e graça, manifesta em Cristo (Rm 4:7; Ef 4:32), o dom de Deus, portanto, é contrário interpretar os versos 14 e 15 de Mateus 6, como se o perdão de Deus estivesse atrelado ao perdão que o homem primeiro dispensa aos seus semelhantes.

Sendo assim, analisemos o seguinte verso bíblico, na língua grega:

“Ἐὰνγὰρἀφῆτετοῖςἀνθρώποις τὰ παραπτώματα αὐτῶν, ἀφήσει καὶ ὑμῖν ὁ πατὴρὑμῶν ὁ οὐράνιος·” Mt 6:14 [TextusReceptus (Elzevir) (1624)]

“se [2] Pois [1] perdoardes às pessoas as ofensas delas, perdoará também a vós o Pai [2] vosso [1] o celeste” (Mateus 6:14).

O mesmo verso, sem ponto e vírgula:

“Εαν γαρ αφηται τοις ανθρωποις τα παραπτωματα αυτων αφησει και ϋμιν ο ΠHΡ ϋμων ο ουρανιος” Mt 6:14 [Codex Washingtonianus (W or 032) (5th century)]

Nas nossas Bíblias, a oração do Pai nosso termina com um ‘amém’, porém, em muitos manuscritos do Novo Testamento não há o ‘assim seja’ encerrando o ensinamento acerca de como orar. Há que se considerar que os antigos manuscritos do Novo Testamento não possuíam sinais de pontuação como: vírgula, ponto final, interrogação, exclamação, etc., e, que esses sinais foram introduzidos muito mais tarde.

Considerando o que é ensinado na oração do Pai nosso, de que quem roga a Deus pelo perdão das ofensas, espera que Deus o faça graciosamente (como perdoamos os nossos devedores), não se pode aquiescer de uma ideia prescritiva de comportamento, de que Jesus estava ensinando que Deus só perdoa àqueles que perdoam aos seus semelhantes.

Já explicamos que, o ‘assim como’, estampado na oração do ‘Pai nosso’, com relação ao perdão (perdoamos os nossos devedores), introduz a ideia de gratuidade, não de dívida, pois se o homem perdoar ou não quem o ofende, Deus nada deve ao homem. (Jó 35:7-8)

“Ora, àquele que faz qualquer obra, não lhe é imputado o galardão, segundo a graça, mas, segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.” (Rm 4:4-5)

O ‘assim como perdoamos os nossos devedores’ não é elemento que torna o homem merecedor do perdão divino e nem estabelece uma dívida de Deus para com os homens, antes, indica a base do perdão divino: benevolência, gratuidade.

Antes de abordar as questões relacionadas à religiosidade dos judeus, como esmolas e orações, a ordem expressa de Cristo para os seus ouvintes era para que fossem ‘perfeitos’, ou seja, ‘misericordiosos’ como o Pai celeste, portanto, após questionar as práticas religiosas (esmolas e oração) dos líderes judaicos e ensinar o ‘Pai nosso’, o que se segue são perguntas que exigem dos ouvintes de Jesus respostas, segundo a perfeição divina (que faz que o sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos), e não uma ordem que estabeleça uma barganha pelo perdão divino.

O núcleo da indagação dos versos 14 e 15 de Mateus 6, ou seja, a ênfase, retoma a ideia abordada anteriormente: ‘Se vocês amam somente os que vos amam e cumprimentam somente os que vos cumprimentam, não fazem os publicanos e os gentios o mesmo?’, pois, se os ouvintes de Jesus desejavam entrar nos céus, não podiam se contentar com práticas semelhantes às dos escribas e fariseus; além do mais, não estavam fazendo nada de mais, se comparada as práticas dos ouvintes às práticas dos seus líderes, os publicanos e gentios!

A partícula ‘se’, no verso 14, de Mateus 6, introduz uma argumentação conclusiva, com base no que já foi exposto, não um mandamento a ser observado, que represente uma espécie de barganha com Deus, para alcançar o Seu perdão.

A ideia expressa é: Se os ouvintes de Jesus (homens falhos) perdoavam as ofensas dos seus semelhantes, o Pai celeste também haveria de perdoá-los!

“se [2] Pois [1] perdoardes às pessoas as ofensas delas, perdoará também a vós o Pai [2] vosso [1] o celeste”.

Esse argumento será repetido no capítulo 7, do seguinte modo:

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mt 7:11)

Se os ouvintes de Jesus, sendo maus, perdoavam as ofensas dos seus semelhantes, o Pai celeste, também, haveria de perdoá-los!

Como interpretar o verso 15?

“ἐὰνδὲμὴἀφῆτετοῖςἀνθρώποις, [τὰ παραπτώματα αὐτῶν] οὐδὲ ὁ πατὴρὑμῶνἀφήσειτὰ παραπτώματα ὑμῶν” Westcott/Hortwith Diacritics.

“se[2] mas[1] não perdoardes às pessoas, nem o Pai[2] vosso[1] perdoará as ofensas[2] vossa[1]” (Mateus 6:15).

Com base no verso 45, do capítulo 5 de Mateus: “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos”, se os ouvintes de Jesus não perdoassem as pessoas, considerando que Deus é perfeito, seria o caso de ‘nem mesmo’ (οὐδὲ) Deus perdoá-los?

Vale destacar que o ensinamento do apóstolo Paulo às igrejas, no quesito perdão, difere da temática do ensinamento de Jesus à multidão, visto que os públicos alvos das mensagens são diferentes: Cristo falava por parábolas ao povo, enquanto que o apóstolo Paulo falava abertamente aos cristãos.

O apóstolo Paulo exorta os cristãos a perdoarem uns aos outros, sendo benignos e misericordiosos. Entretanto, já estavam perdoados por Deus, através de Cristo e precisavam tomar Cristo como exemplo, perdoando os irmãos. Em momento algum é posta a condição de ser necessário perdoar o outro para ser perdoado.

“Suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.” (Cl 3:13)

“Antes, sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como, também, Deus vos perdoou em Cristo.” (Ef 4:32).

Os cristãos, também, são exortados a terem paz, uns com os outros, e com relação aos não cristãos, se depender do cristão, que tenham paz com todos os homens:

“Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Rm12:18);

“Tende paz entre vós.” (1 Ts 5:13)

Diferentemente, Jesus demonstra aos seus interlocutores que, se queriam ser perfeitos, ou seja, obterem justiça superior à dos escribas e fariseus, deveriam imitar a Deus como filhos, que faz vir chuva sobre bons e maus.

 

O jejum

“E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados, como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade, vos digo que já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará, publicamente” (Mt 6:16-18).

A questão do jejum é a última prática religiosa dos judeus que Jesus aborda e deve ser analisado, através das mesmas premissas que analisamos a esmola e a oração.

Devemos considerar a ordem para serem perfeitos e misericordiosos:

“Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:48), ou;

“Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso.” (Lc 6:36).

Em que os judeus eram diferentes dos gentios e publicanos, quando davam donativos, se os gentios e os publicanos faziam o mesmo? Em que os judeus eram diferentes dos gentios e publicanos, se os judeus, semelhantemente, aos gentios e publicamos, oravam se utilizando de vãs repetições? Como os jejuns dos judeus se diferenciavam dos jejuns dos publicanos, que eles consideravam pecadores?

Após informar aos seus ouvintes, que era impossível entrarem no reino dos céus se não alcançassem justiça superior à dos escribas e fariseus, e abordar a questão da esmola e da oração, Jesus faz uma observação, acerca do jejum praticado pelos escribas e fariseus.

Quando jejuavam, os escribas e fariseus, simplesmente, se ocupavam em desfigurar os seus rostos (fazer cara fechada), para que os outros percebessem que eles estavam em jejum; os escribas e fariseus, nem mesmo lavavam e ungiam a cabeça, segundo o costume, para demonstrarem a sua devoção e religiosidade.

Nesse sentido, Jesus alerta os seus ouvintes a não jejuarem para serem notados pelos homens, mas que não se mostrassem contristados, quando jejuassem, pois Deus tudo vê. Os ouvintes de Jesus deveriam se portar, naturalmente, quando jejuassem: lavar o rosto, ungir a cabeça, alegrar o semblante, etc.

O jejum era uma prática religiosa muito utilizada pelos escribas e fariseus, tanto que questionaram Jesus sobre o motivo dos seus discípulos não jejuarem, e inclusive, compararm os discípulos de Cristo, com os discípulos de João Batista.

“Disseram-lhe, então, eles: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes e fazem orações, como, também, os dos fariseus, mas os teus comem e bebem?” (Lc 5:33).

A resposta de Jesus foi surpreendente:

“Podeis vós fazer jejuar os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles?” (Lc 5:34).

O que é o jejum? O jejum é contristar-se diante de Deus e foi instituído por Deus, atrelado ao dia de descanso, ou seja, um sábado (dia aprazível ao Senhor Deus).

“É um sábado de descanso para vós e afligireis as vossas almas; isto é estatuto perpétuo.” (Lv16:31).

O ‘afligir’ da alma, ou seja, o jejum, não é uma prática que infligisse ao corpo a algum tipo de sofrimento, como flagelo, abstenção, ascetismo, etc. Por outro lado, as ervas amargas já tinham o viés de lembrá-los do sofrimento do Egito e que Deus, com mão forte, os resgatou da servidão.

Os filhos de Israel deveriam afligir a alma, não o corpo. O que seria afligir a alma? Reconhecer a sua real condição, diante de Deus, a partir do exposto em sua palavra, não a partir de convicções próprias.

Não encontramos no Pentateuco uma ordem expressa de Deus para que o povo jejuasse, antes, deveriam afligir a alma.

Um filho de Jacó afligiria a alma no momento que reconhecesse que não foi por causa de suas justiças que Deus resgatou os filhos de Israel do Egito, mas, sim, porque Deus cumpriu o prometido a Abraão (Dt 9:4-6). Reconhecer a sua real condição, diante do que Deus revela e passar a agir conforme a palavra de Deus, é afligir a alma.

Mas, com o passar do tempo, o que deveriam considerar segundo a palavra Deus, tornou-se um elemento de culto e, em vez de afligirem a alma, passaram a não comer, não lavar o rosto e nem a utilizar perfume, o que designaram por jejum.

Jejuar, ou melhor, afligir a alma não consiste em ficar cabisbaixo, moribundo, melancólico, etc., ou, sem lavar o rosto, sem ungir a cabeça ou, sem se alimentar.

“Seria este o jejum que eu escolheria, que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a sua cabeça como o junco e estenda debaixo de si saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aprazível ao SENHOR?” (Is 58:5)

Observe a repreensão de Deus, por intermédio do profeta Isaías, de que o verdadeiro jejum não consistia em ficar cabisbaixo, antes seria deixar de ser altivo, de dura cerviz. Jejuar, também, não consistia em deitar-se sobre pano de saco ou sobre cinzas, antes é humilhar-se a si mesmo, fazendo-se servo de Deus.

Deus nunca chamou o ato de andar cabisbaixo ou, de deitar-se sobre saco e cinza, como jejuar ou, como afligir a alma. O verdadeiro jejum se dá quando o homem considera a sua condição de dura servis e abaixa a cabeça, sujeitando-se ao jugo de Deus, ou seja, reconhecendo a sua condição e se fazendo servo, obedecendo à palavra de Deus.

Os filhos de Israel confundiam o ato de jejuar com o afligir a alma (Is 58:3). Reclamavam que jejuavam e Deus não atendia, porém, Deus nunca requereu que jejuassem, ficando sem comer, cabisbaixos, vestindo pano de saco ou, assentando-se em cinzas. (Is 58:5)

O verdadeiro Sábado (dia) de jejum, não visava chamar a atenção de Deus para as desventuras diárias daqueles que jejuassem,antes, o jejum demandava obediência a Deus, cuidando em soltar os cativos do pecado, as ataduras que prendem o homem ao jugo da servidão, que é a morte.

Deus ordena a quem jejua que distribua pão ao faminto. Jejuar é distribuir pão gratuitamente? Deus não estava falando de pão cotidiano, quando apontou o jejum verdadeiro. O pão dos verdadeiros israelitas diz da salvação, que há em Deus, que dá liberalmente aos pobres de espírito pão e vestes de justiça aos nus.

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos e despedaces todo o jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras e não te escondas da tua carne?” (Is 58:6-7);

“Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; A sua justiça permanece para sempre” (2 Co 9:9; Sl 102:9);

“Dizendo: Por que jejuamos nós e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas e tu não o sabes? Eis que no dia em que jejuais, achais o vosso próprio contentamento e requereis todo o vosso trabalho” (Is 58:3).

O verdadeiro jejum não era ficar com fome, mas abrir a alma ao faminto. Faminto de que? Ao faminto de justiça! O faminto se farta do pão providenciado do Deus que é dado a qualquer que tenha fome e sede de justiça.

“E se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita; então, a tua luz nascerá nas trevas e a tua escuridão será como o meio-dia.” (Is 58:10; Is 55:1-3).

Como se abre a alma ao faminto? Anunciando as palavras de Deus: que Ele fez uma aliança perpétua, ao prometer o Cristo a Davi. (Is 55:3)

O jejum, como o afligir da alma, assim, como todos os elementos instituídos pela lei, era sombra de uma realidade, que remete a Cristo. Cristo é Senhor do Sábado, a alegria do Senhor, portanto, em Cristo o homem já entrou no repouso (descanso) de Deus, que o sábado na Antiga Aliança representava.

“Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” (Hb 4:10);

“PORQUE tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem, cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam.” (Hb 10:1)

A festa anual de expiação, no dia dez do sétimo mês, era uma festa de jejum (Lv 16:29). Era um dia de descanso, ou seja, um sábado, que poderia ser qualquer dia da semana, pois era o décimo dia do sétimo mês (Lv 16:31). Como Deus ouve o aflito que clamar (Lv 22:23), quando foi dito para afligir a alma, Deus estava conclamando os filhos de Israel a clamarem ao Senhor, confiando em sua misericórdia (Jl 2:32), não para ficarem sem comer, pois era um dia de festa ao Senhor e nesses dias havia muita comida e bebida.

Ao instruir aos seus ouvintes para não se mostrarem contristados, quando jejuassem, Jesus estava dando elementos para que questionassem as práticas dos seus líderes religiosos e, concomitantemente, fazer uma releitura do que é o jejum exigido por Deus. (Mt 6:16)

Quando os ouvintes de Jesus jejuassem, deveriam lavar o rosto e ungir a cabeça com óleo, ou seja, manterem-se de semblante alegre. Se não parecia aos homens que jejuavam (Mt 6:18), mas a Deus, certo é que haveriam de compreender o exposto pelo profeta Isaías.

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” (Is 58:6-7)

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 


[1]“1654 ελεημοσυνη eleemosune de 1656; TDNT – 2:485, 222; n f 1) misericórdia, piedade 1a) esp. como exibido no dar esmola, caridade 2) o benefício em si mesmo, doação ao pobre, esmola”.  Dicionário Bíblico Strong.

ESMOLA – “eleémosuné (ἐλεημοσύνη), relacionado com eleemon, “misericordioso”, significa: (a) “misericórdia, piedade, particularmente em dar esmolas” (Mt 6.1,2,4; At 10.2; 24.17); (b) o próprio ato de caridade, as “esmolas” — o efeito pela causa (Lc 11.41; 12.33; At 3.2,3,10; 9.36; 10.2,4,31-‘H Nota: Em Mt 6.1, traduzindo dikaiosune, de acordo com os textos mais autênticos, temos “justiça” (ARA)” Dicionário VINE, pág. 613.

“A palavra “justiça”, também, engloba tudo o que Deus espera do Seu povo. Os verbos associados com “justiça” indicam a praticabilidade desse conceito. A pessoa julga, trata, sacrifica e fala com justiça: e a pessoa aprende, ensina e busca a justiça, fundamentado num relacionamento especial com Deus. O santo do Antigo Testamento pedia a Deus que o tratasse com justiça: “O Deus, dá ao rei os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei” (SI 72.1). A Septuaginta dá às seguintes traduções: dikaios (“aqueles que são retos, justos, íntegros, que se conformam com as leis de Deus”): dikaiosune (“justiça, retidão” ): e eleemosune (“escritura de terra, esmola, doação de caridade”). Dicionário VINE, pág. 163.




Isaías 58 – O jejum e o sábado verdadeiro

O apóstolo Paulo viu algumas pessoas cumprindo essas proibições que se baseiam em não toques, não proves e não manuseies sendo empregas como meio de se achegar a Deus e avisou que tais práticas eram princípios próprios ao mundo, preceitos de homem, visto que consistia somente em aparência de sabedoria, culto voluntário, humildade fingida, severidade com o corpo, mas não tinha valor algum para extirpar a natureza pecaminosa herdada de Adão ( Cl 2:20 -23).


 

O jejum e o sábado verdadeiro

por

Claudio F. Crispim

SMASHWORDS EDITION

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PUBLISHED BY:

Claudio F. Crispim on Smashwords

O jejum e o sábado verdadeiro

Copyright © 2010 by Claudio F. Crispim

 

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Esta obra constitui-se um comentário ao capítulo 58 do Livro do profeta Isaías, e aborda dois temas que merecem a consideração de qualquer estudante aplicado das Escrituras: o jejum e o sábado.

Pela abundancia de informações que contém, a presente obra pode ser considerada de importância impar aos cristãos, pois visa conscientizá-los a deixar para trás tudo o que é pertinente a ‘sombra dos bens futuros’, pois os sacrifícios que continuamente se ofereciam segundo a compreensão distorcida que os judeus possuíam da lei, jamais podem aperfeiçoar os que cultuam a Deus.

Que todos os cristãos possam prosseguir em conhecer o Senhor, pois Ele é a realidade dos bem futuros, e somente por intermédio d’Ele é possível ao homem oferecer em sacrifício o fruto dos lábios.

Claudio Crispim

Articulista do Portal Estudo Bíblico

 

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DEDICATÓRIA

À minha esposa Jussara Crispim, companheira fiel e amiga em todos os momentos, e o seu valor excede ao de muitos rubis.

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O JEJUM E O SÁBADO VERDADEIRO

 

Introdução

“E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” ( Lv 16:29 ).

Há uma determinação divina ao povo de Israel que se refere às práticas que denominamos jejum: um dia pré-determinado para que o povo afligisse (jejum) as suas almas e não podiam exercer nenhum ofício (trabalho).

Deus instituiu que o povo de Israel jejuaria (afligiria as suas almas) no dia dez do sétimo mês, e que este dia também deveria ser um dia reservado para descanso ( Lv 16:31 ; Nm 29:7 ).

Mas, como jejuar, ou melhor, como afligir a alma? Qual o verdadeiro jejum?

O povo de Israel sempre buscou cumprir a determinação divina, porém, juntamente com os seus interpretes entenderam que, para afligir a alma (jejuar) bastava ficar cabisbaixo, com o semblante triste, sem comer, sem beber, sem lavar o rosto, sem utilizar perfumes, utilizando sacos em lugar de vestes, e até mesmo deitar cinzas sobre a cabeça.

Por entenderem que Deus se agradava de quem afligia o corpo, as práticas acima elencadas tornaram-se freqüentes. Dentre elas, a abstinência de alimentos tornou-se uma das práticas mais utilizadas como meio de se achegar a Deus.

O apóstolo Paulo viu algumas pessoas cumprindo essas proibições que se baseiam em não toques, não proves e não manuseies sendo empregas como meio de se achegar a Deus e avisou que tais práticas eram princípios próprios ao mundo, preceitos de homem, visto que consistia somente em aparência de sabedoria, culto voluntário, humildade fingida, severidade com o corpo, mas não tinha valor algum para extirpar a natureza pecaminosa herdada de Adão ( Cl 2:20 -23).

A análise do capítulo 58 de Isaías esclarece qual é o verdadeiro jejum estabelecido e porque o jejum praticado pelo povo de Israel não era aceito por Deus.

 

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O pecado de Israel

 

“Clama em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão, e à casa de Jacó os seus pecados” ( Is 58:1 ).

O profeta Isaías foi comissionado por Deus a anunciar e demonstrar qual era a transgressão de Israel.

Isaías precisava anunciar em alta voz, a plenos pulmões, ou seja, como uma trombeta, quais eram os pecados da casa de Jacó. Os pecados de Israel precisavam ser anunciados como que por uma trombeta, pois apesar de escutarem não davam ouvidos.

Neste verso há um trocadilho aos moldes do verso 1 do capítulo 48 de Isaías: “Ouvi isto, casa de Jacó, que vos chamais do nome de Israel, e saístes das águas de Judá, que jurais pelo nome do SENHOR, e fazeis menção do Deus de Israel, mas não em verdade nem em justiça” ( Is 48:1 ).

O significado do nome Jacó é ‘suplantador’, porém, foi tido por ‘enganador’ pelo seu irmão Esaú ( Gn 27:36 ), ou seja, o povo se autonomeava o Israel de Deus, mas não passavam de casa do ‘engano’, isto porque faziam ‘…menção do nome do Deus de Israel, mas não em verdade nem em justiça’ ( Is 48:1 ).

Qual a transgressão do povo de Israel? Qual o pecado dos filhos de Jacó?

O pecado do povo de Israel decorre do pecado de Adão, o primeiro pai da humanidade, e os interpretes de Israel não compreenderam esta verdade “… porque eu sabia que procederias muito perfidamente, e que eras chamado transgressor desde o ventre” ( Is 48:8 compare com Sl 58:3 ).

Por serem descendentes da carne de Abraão, o povo de Israel entendia que eram filhos de Deus e, que, portanto, estavam livres da condenação de Adão “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

Não atinaram que todos os homens, inclusive os filhos de Jacó, desviaram-se e juntamente se fizeram imundos por causa da transgressão de Adão “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

Para se livrar do pecado de Adão não basta ao homem ser descendente da carne de Abraão, antes é necessário ter a mesma fé que o crente Abraão para alcançar a justificação divina “Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:7- 8).

A tarefa do profeta Isaías foi semelhante à de João Batista, uma vez que ambos precisavam dissuadir o seu povo de presumir por si mesmo que era salvo por ser descendente de Abraão “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

 

* * * * *

Coração distante

 

“Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça, e têm prazer em se chegarem a Deus” ( Is 58:2 ).

Apesar da necessidade de se apontar o pecado do povo de Israel, Deus chama a atenção do profeta para uma questão importante “Todavia…” (v. 2).

Apesar de continuarem sendo transgressores, todos os dias, os filhos de Jacó (filhos da desobediência, filhos da ira, ou filho do enganador) pareciam procurar a Deus. Apesar de serem pecadores, os filhos de Jacó pareciam sentir prazer em perscrutar qual seria o caminho do Senhor ( Is 48:1 ).

É de se estranhar, mas apesar de Deus anunciar os pecados dos filhos de Jacó, eles se portavam ‘como’ se praticassem a justiça exigida por Deus. Portavam-se ‘como’ se praticassem a lei de Deus, porém, eram pecadores e transgressores!

O povo de Israel se ocupava em perguntar pelas questões pertinentes à lei e demonstrava estar feliz por ir ao templo como se estivesse em plena comunhão com Deus. Eles possuíam zelo de Deus, porém, como disse o apóstolo Paulo, sem entendimento ( Rm 10:2 ).

Honravam a Deus somente com a boca, obedeciam somente aos homens, no entanto, permaneciam longe de Deus “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

 

* * * * *

Por que não responde?

 

“Dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o sabes? Eis que no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento, e requereis todo o vosso trabalho.

Quando questionavam por que Deus não atentava para eles quando afligiam as suas almas (jejuavam), isto demonstra que buscavam saber os caminhos de Deus “Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça (…) Dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o sabes?” (v. 2 -3)

Pelo fato de:

a)  Entenderem que procuravam a Deus continuamente;

b) Entenderem que tinham prazer em saber os caminhos de Deus;

c)  Por portarem-se como um povo que praticava a justiça;

d) Por não deixarem o direito (lei) de Deus;

e)  Por quererem saber pelos direitos da justiça, e;

f)  Por entenderem que tinham prazer em se achegarem a Deus.

O povo de Israel ficava apreensivo e questionavam porque Deus não os atendia. As perguntas deste verso surgiram porque o povo de Israel entendia que era fiel a Deus em tudo que foi prescrito na lei, mas que Deus não os atendia por capricho.

Estas eram as perguntas formuladas pelo povo:

a)  Por que Deus não atendia o jejum que faziam? e;

b) Por que Deus parecia desconhecer que jejuavam?

 

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Não jejuem como hoje

 

“Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” ( Is 58:4 ).

Esta é a resposta de Deus às perguntas formuladas pelo povo de Israel: “Eis que no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento ( Mt 6:16 ), e requereis todo o vosso trabalho. Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” (v. 3 e 4).

Por se absterem de comer, de beber, de trabalhar, etc., o povo de Israel entendiam que estavam realizando uma obra que Deus lhes havia comissionado, porém, tal obra pertencia somente a eles (vosso trabalho). Por jejuarem, entendiam que Deus lhes devia alguma coisas (v. 3).

Deus observa que eles jejuavam para satisfazer uma disposição interna que lhes era próprio: a voluntariedade, porém buscavam cumprir a lei segundo um entendimento carnal (buscavam um contentamento próprio), e queriam que Deus lhes retribuísse pelos jejuns realizados “As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” ( Cl 2:23 ).

Além do mais, eles jejuavam para contenderem entre si, com o fito de dar sustentação aos seus argumentos quando em debates, e com tais práticas obtinham armas com que ‘ferirem’ o próximo e ganhar a discussão, porém, Deus os alerta para que não procedessem desta forma.

Não deviam jejuar somente para tornar público a sua religiosidade, como continuaram fazendo os escribas e os fariseus à época de Cristo.

 

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O jejum escolhido

 5  “Seria este o jejum que eu escolheria, que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a sua cabeça como o junco, e estenda debaixo de si saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aprazível ao SENHOR?” ( Is 58:5 ).

Neste verso Deus questiona seus interlocutores acerca do jejum que ‘praticavam’ “Seria este o jejum que eu escolheria..?” (v. 5).

Deus demonstra através de perguntas que o jejum que ordenou ao seu povo não consistia em ficarem contristados e cabisbaixos. Jejuar não consistia em não utilizar perfumes, em não lavar o rosto, ou cobrir-se com saco e deitar-se sobre cinzas. Rasgar as vestimentas não era jejum e nem significava que o homem tinha se tornado agradável a Deus ( Jr 14:10 ). Tais práticas não promovem a aflição na alma que é exigida por Deus ( Lv 29:7 ).

O Senhor rejeitou os jejuns do povo de Israel, pois eles eram de duras servis, ou seja, eram insubordinados, gostavam de andar errantes, pois seguiam seus próprios pensamentos, e não a lei de Deus “Assim diz o SENHOR, acerca deste povo: Pois que tanto gostaram de andar errantes, e não retiveram os seus pés, por isso o SENHOR não se agrada deles, mas agora se lembrará da iniquidade deles, e visitará os seus pecados. Disse-me mais o SENHOR: Não rogues por este povo para seu bem. Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor, e quando oferecerem holocaustos e ofertas de alimentos, não me agradarei deles; antes eu os consumirei pela espada, e pela fome e pela peste” ( Jr 14:10 -12).

Observe que o profeta Jeremias também apregoou que o povo de Israel era iníquo. Por quê? Porque eram de ‘dura servis’, ou seja, não obedeciam ao Senhor, não deixavam ser guiados pelo Senhor ( Is 66:3 ).

Deus não se agradava dos filhos de Jacó e haveria de puni-los. Por quê? Por que ‘gostavam’ de andar errantes, ou seja, continuavam errantes uma vez que se extraviaram em Adão e permaneciam escolhendo os seus próprios caminhos ( Sl 53:3 ).

Desde a concepção se desviaram, e não retiraram os seus pés do caminho largo de perdição, e por isso, Deus não se agradava deles ( Sl 58:3 ). Eles não eram filhos de Abraão, ou seja, filhos de Deus, pois ainda permaneciam sendo filhos do primeiro pai da humanidade, Adão “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

Através deste verso fica claro que Deus não se agradava do que entendiam ser um jejum agradável a Deus. Deus aponta para o jejum que realizavam, e recrimina todos os filhos de Jacó, dizendo: “Seria este o jejum que Eu escolheria…?”. A resposta é: Não! (v. 5).

 

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Ligaduras da impiedade

 

“Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” ( Is 58:6 ).

Neste verso Deus apresenta o jejum que havia estipulado para o seu povo, e que haviam distorcido. Somente do modo descrito neste verso verdadeiramente afligiriam a alma! Somente deste modo ‘afligiriam’ a alma a ponto de serem vivificados pelo Senhor ( Is 57:15 ).

O verdadeiro jejum (que Deus estipulou para o seu povo) consiste em ‘soltar as ligaduras da impiedade’, o mesmo que ‘desfazer as ataduras do jugo’, o mesmo que ‘libertar os oprimidos’, o mesmo que ‘soltar os presos de suas prisões’ (v. 6).

O que seria as ‘ligaduras da impiedade’? À época do profeta Isaías havia muitos doentes que necessitavam que as suas feridas fossem tratadas. Seria esta a recomendação divina? Que o povo de Israel fosse caridoso e tratasse dos ferimentos dos necessitados? Deus estava estabelecendo uma sociedade mais justa e igualitária? Não!

Observe que a ligadura que se devia soltar é específica: a ligadura da ‘impiedade’. Todos em Israel deviam livrar-se deste ‘trapo’ de imundície posto sobre as chagas do pecado. Precisavam livrar-se dos curativos que cobriam as chagas do pecado, pois as chagas os tornavam imundos diante de Deus.

Qual é a ‘atadura do jugo’, ou ‘atadura da servidão’? De que jugo Deus estava protestando? Do jugo do pecado, da servidão ao pecado, conforme o exposto no verso 1. A ‘atadura’ diz do domínio que o pecado exerce sobre os filhos de Jacó e sobre todos os homens que não creem em Deus.

É certo que à época de Isaías havia escravos que serviam aos seus senhores em Israel. Seria o caso de Deus estar requerendo dos israelitas que tratassem melhor os seus servos, ou que fossem mais humanitários com aqueles que estavam presos em masmorras? Não!

Ao ler este verso, não se deve ignorar que os termos: jugo e ligadura estão relacionados com a palavra ‘impiedade’, ou seja, de acordo com as escrituras, ímpio é aquele que está distante de Deus.

Como podiam jejuar segundo a palavra do Senhor se o povo de Israel permanecia preso ao pecado e sobrecarregado de iniquidades? Como soltar as ligaduras da impiedade se o povo de Israel permanecia sendo transgressores diante de Deus?

Como soltar as ligaduras da impiedade? Como desfazer as ataduras do pecado? Como deixar os oprimidos (quebrantados) livres? Como ‘jejuar’ segundo o jejum estipulado pelo Senhor?

Soltar as ligaduras da ‘impiedade’ é algo possível somente a Deus ( Jr 2:20 ). Tornar os oprimidos livres não é obra de homens, é obra de Deus “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ). As ataduras do jugo do pecado somente Deus pode removê-las “Ó SENHOR, deveras sou teu servo; sou teu servo, filho da tua serva; soltaste as minhas ataduras” ( Sl 116:16 compare com v. 6).

Por que o verdadeiro jejum refere-se a algo que somente Deus pode realizar? Por que Deus determinou ao povo que afligisse a alma?

Ora, Deus estabeleceu o afligir da alma como estatuto para que o povo de Israel compreendesse que necessitavam confiar n’Ele. O afligir da alma exigido no dia dez do sétimo mês era para demonstrar que, mesmo após terem sido resgatados do Egito, ainda continuavam presos ao pecado.

Eles precisavam compreender que quando foram resgatados do Egito somente ocorreu uma libertação nacional, o que não poderia ser confundido com libertação do pecado.

Observe que Deus deixou o povo de Israel vagando pelo deserto, até mesmo deixou o povo ter fome, e depois o alimentou com o pão dos anjos, para dar-lhes a entender que não é de pão que o homem adquire vida, antes das palavras provenientes da boca de Deus “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Isto quer dizer que, mesmo após terem sido resgatados do Egito os filhos de Jacó ainda permaneciam mortos em delitos e pecados, e que necessitavam da palavra de Deus para adquirirem vida “Entre os quais todos nós (Judeus e gentios) também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” ( Ef 2:3 ); “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados” ( Ef 2:1 ); “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” ( 2Co 5:19 ).

Quando estavam sendo resgatados do Egito, Deus instituiu ao povo de Israel que deveriam comer ‘ervas amargas’ juntamente com o cordeiro sem mácula e mancha ( Ex 12:8 ).

E como deveriam comer o cordeiro juntamente com as ervas amargas? Com: “Os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a páscoa do SENHOR” ( Ex 12:11 ), o que se tornou um memorial da condição aflita que o povo estava antes de ser resgatado do Egito, e de como Deus trabalhou poderosamente para resgatá-los ( Ex 12:12 ; Ex 12:14 ).

Os filhos de Jacó estavam aflitos, cansados e sobrecarregados por causa da opressão do Egito, e Deus obrou poderosamente, provendo ao povo de Israel libertação das mãos dos egípcios.

Ao instituir que deviam afligir a alma, Deus estava dando a entender ao povo de Israel que só foram libertos da escravidão do Egito, porém, estavam sob a servidão do pecado.

E para serem livres do pecado precisavam confiar em Deus que haveria de libertá-los de modo semelhante quando estavam sob a servidão no Egito.

Do mesmo modo que as ervas amargas constituíram-se um tipo da aflição de quando o povo de Israel estava para ser resgatado do Egito, ao instituir o jejum, que é o afligir da alma (afligir a alma é figura do jugo da servidão), Deus estabeleceu elementos para dar a entender ao povo que permaneciam sob domínio do pecado e que necessitavam de Deus para resgatá-los.

As ‘ervas amargas’ foi Deus que instituiu, assim como o ‘afligir da alma’, dois tipos que representam a aflição física e espiritual do povo de Israel.

Ao instituir o jejum Deus estava demonstrando que os filhos de Jacó eram prisioneiros do pecado e que somente na presença do Senhor seriam purificados “Diante do Senhor sereis purificados… “ ( Lv 16:30 ), assim como o foi Abraão “… ande na minha presença, e sê perfeito” ( Gn 17:1 ; Dt 18:13 e Mt 5:48 ).

Para se tornarem filhos de Abraão o povo de Israel precisava da presença do Senhor, porém, entediam de modo equivocado que eram filhos por serem descendentes da carne de Abraão.

Mas, como o homem entra na presença do Senhor? Somente descansando na sua presença, ou seja, crendo na sua palavra “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” ( Sl 16:11).

Qualquer que ouve ‘toda a palavra de Deus’ Deus fará com que veja a vereda da vida ( Dt 8:3 compare com Sl 16:11 ). Na presença do Senhor há fartura de alegria, pois todos que entram na sua presença são bem-aventurados como o crente Abraão ( Dt 18:13 ). Cristo está à mão direita do Pai, sendo Ele o pão que da vida perpétua.

Ao instituir o jejum Deus estava dando a entender que somente Ele pode fazer justiça e juízo aos oprimidos. O salmista Davi compreendia o que era afligir a alma quando disse: “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ).

Somente Deus pode dar pão aos famintos e liberdade aos encarcerados, ou seja, aos verdadeiramente aflitos, aos contritos de espírito “Ó SENHOR, deveras sou teu servo; sou teu servo, filho da tua serva; soltaste as minhas ataduras” ( Sl 116:16 ; Sl 103:6 ; Sl 146:7 ; Is 57:15 ).

Com Deus instituiu que o homem deveria afligir a sua alma, Jesus faz um convite aos cansados e oprimidos, ou seja, aos que jejuavam verdadeiramente “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ). Somente os que afligem a alma segundo o exigido por Deus (v. 6), têm um encontro com Cristo, que alivia os cansados e sobrecarregados.

Quando se desfizessem das ligaduras da impiedade os filhos de Israel teriam jejuando de fato. Quando se desfizessem das ataduras do jugo do pecado, verdadeiramente teriam afligido a alma.

‘Ligadura’ é o mesmo que ligamento, atadura. ‘Atadura’, por sua vez, é o que serve para atar, amarrar (laço, correia etc.), que também pode ser uma tira comprida de gaze própria para curativos. Para compreender quando Deus diz que o jejum verdadeiro é soltar as ‘ligaduras da impiedade’, é necessário visualizar o pecado como uma chaga maligna.

Na antiguidade, por falta de remédios que curasse os enfermos de chaga maligna acabavam tornando-se verdadeiros escravos da doença, pois gastavam todo o fruto do trabalho com a doença. As ligaduras, espécie de atadura, utilizada para cobrir as chagas não resolvia o problema do enfermo.

O pecado é uma chaga e todas as ações dos homens para se livrar dele não passa de uma ligadura, um curativo feito com trapo de imundície “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” ( v. 6).

Sem soltar as ligaduras da impiedade é impossível oferecer sacrifício ao Senhor, pois o sacrifício dos ímpios é abominação “O sacrifício dos ímpios já é abominação…” ( Pr 21:27 ).

Mas, o afligir da alma (jejum) não termina quando se está livre do pecado, mas também que se dê (reparta) aos famintos o pão que os torna livres “Porventura não é também…” (v. 7). Somente quando se reparte o pão enviado dos céus (evangelho) com os famintos é que o cristão cumpre o prescrito pelo apóstolo Paulo: “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram” ( Rm 12:15 ).

 

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O Pão verdadeiro

 

“Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” ( Is 58:7 ).

O verdadeiro jejum também é repartir o pão que possuíam com o faminto. Que pão? Quem são os famintos?

Deus estava promovendo um movimento de resgate social? Deus estava instituindo um programa de distribuição de pão para os famintos em Israel? Buscava-se uma sociedade igualitária com uma melhor distribuição de renda?

Não! Este não é o verdadeiro jejum, pois o alerta de Deus é: “… o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ). Como só é possível ao homem viver da palavra de Deus, o verso em tela não trata de questões sociais e econômicas.

“… e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” (v. 7). O nu é alguém sem as vestimentas? Quando o povo de Israel se depararia com alguém nu? Como cobrir a nudez de quem vissem nu? Como vestir o nu sem se contaminar, ou seja, ficar imundo?

Ora, os versos 6 e 7 contém enigmas que não abarcam questões sociais ou econômicas. O pão que Deus requer que o povo de Israel repartisse com o faminto refere-se à palavra de Deus.

Aquele que ainda não se cobriu com a justiça proveniente de Deus é o nu que necessita de vestimenta. O faminto é aquele que não bebeu vinho e leite, ou seja, não saciou a fome com o que é bom, ou seja, com a palavra da vida. O oprimido é aquele que reconhece que não há como se salvar com seus próprios recursos (dinheiro) ( Is 55:1 ; Sl 49:7 -8 ).

Deus utiliza as questões referentes ao jejum que o povo utilizava em seus debates (v. 4), para demonstrar que o povo de Israel estava equivocado quanto ao modo de se achegar a Deus. O jejum foi utilizado como figura para demonstrar como o povo de Israel permanecia em pecado, pois nem mesmo compreendiam qual a natureza do jejum, que dirá compreender o caminho do Senhor.

Analisando a palavra do Senhor expressa nos versos 1 e 2, é certo que o povo de Israel eram transgressores, ou seja, pecadores. Apesar de irem continuamente ao templo, de demonstrar que tinham prazer no caminho do Senhor, como se efetivamente praticassem a justiça, permaneciam pecadores ( Is 1:1 -4).

Desde o capítulo 1 de Isaías a nação de Israel é descrita como sendo ‘… pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás’ ( Is 1:4 ).

Eles eram pecadores porque não deram ouvidos a palavra de Deus ( Is 1:10 ). Os sacrifícios que ofereciam não eram aceitos por Deus ( Is 1:11 ). Deus não havia exigido que fossem ao templo, porém, compareciam sempre, mas não ouviam a palavra do Senhor ( Is 1:12 ).

Deus ordenou ao povo que se lavasse, que se purificasse, porém, como seriam purificados se não davam ouvidos a palavra do Senhor? ( Is 1:16 ; Jo 15:3 ) Cumpriam inúmeros rituais, porém, não ouviam a palavra de Deus, que é vida.

Neste capítulo Deus expõe a condição do povo de Israel: eram pecadores. Ao mesmo tempo demonstrou que o povo sempre ia ao templo na intenção de se tornar agradável a Deus, porém, não ouvia a sua palavra.

Ao mesmo tempo em que rejeitava a palavra de Deus, o povo de Israel questionava porque jejuava e não era atendido. Daí é que surge a resposta divina: é este o jejum que Eu escolhi?

Qual o verdadeiro jejum? Para descobrir qual é o verdadeiro jejum, temos que fazer o mesmo exercício que fizeram os discípulos quando ouviram Jesus falar acerca do fermento dos fariseus “Como não compreendestes que não vos falei a respeito do pão, mas que vos guardásseis do fermento dos fariseus e saduceus? Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus” ( Mt 16:11 ).

Do mesmo modo, quando ouvimos acerca do jejum, devemos compreender que Deus não estava orientado o seu povo a abstinência de alimento, contristados, cabisbaixos e deitados em cinzas.

O verdadeiro jejum é abstinência dos seus próprios conceitos acerca de como servir a Deus. É abster-se do fermento (doutrina) que tornava levedado o pão oferecido pelos fariseus.

O povo de Israel deveria alimentar-se única e exclusivamente da palavra anunciada por Deus “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

 

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Luz como a alva

 

“Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do SENHOR será a tua retaguarda” ( Is 58:8 ).

Quando soltassem as ligaduras da impiedade deixando o jugo do pecado através da palavra de Deus, a luz deles haveria de surgir como surge a luz do sol. Haveriam de ser curados de todas as suas feridas, viveriam sem ataduras ( Is 1:6 ).

Este verso demonstra que a luz que romperá é comparável a alva. A cura seria repentina. Deus haveria de justificá-los, e seriam protegidos pelo Senhor.

O Senhor é a nossa justiça, e Ele garante que haveria de ir à frente deles. Caso não mais estivessem sob o jugo do pecado, o Senhor haveria de ser a sua retaguarda.

 

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Eis-me aqui!

 

“Então clamarás, e o SENHOR te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente” ( is 58:9 ).

Eles reclamavam que jejuavam e não eram atendidos, mas o Senhor garante que, caso jejuassem o jejum estipulado por Ele, quando clamassem haveriam de ser respondidos. Em momento de desespero Deus lhes diria: Eis-me aqui!

Ou seja, a promessa do Senhor haveria de ser cumprida se realmente ‘afligissem a alma’ do seguinte modo: “Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente” (v. 9). Este é o verdadeiro jejum.

O Senhor condiciona a sua resposta ao jejum do povo.

‘O jugo’ refere-se ao ‘domínio’ do pecado. Para tirar o jugo do pecado basta dar ouvidos à palavra de Deus que o homem passará da morte para a vida ( Is 55:3 ).

O ‘estender o dedo’ refere-se ao fato de apontarem somente os outros como sendo pecadores ( Is 65:5 ). Falar iniquamente é divulgar uma doutrina que não é conforme as palavras de Deus, é o mesmo que prevaricar na atribuição de interpretar a palavra de Deus, como os fariseus faziam.

O salmista Davi denunciou que os ímpios estão alienados de Deus desde a madre, ou seja, são concebidos em pecado. Por causa desta ‘alienação’ andam errantes e tudo que anunciam não corresponde à verdade “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ).

 

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Abrindo a alma

 

10  “E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia” ( Is 58:10 ).

O que foi estipulado no verso 7 é repetido neste verso, porém, lança luz ao que é necessário para alimentar o faminto: abrir a tua alma. Como se abre a alma? Abrindo a boca! Expondo a palavra do Senhor.

Quando se anuncia a palavra do Senhor, que livra o homem das ataduras do pecado, se esta ‘fartando’ a alma aflita, concedendo pão ao faminto.  É isto que Jesus fez, e espera que todos que o ouçam, façam: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ).

Observe que os saciados pelo Senhor podem ‘abrir a alma’ ao faminto para alimentá-los, e o faminto, ou a alma aflita refere-se àqueles que afligem a alma (jejuam), que desejam a palavra da verdade conforme Deus ordenou “E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita…” (v. 10).

Para aqueles (aflitos) que tirarem o jugo do pecado Deus anuncia que das trevas nascerá luz, ou seja, sem Deus o homem é trevas, mas através da sua palavra, que é poder de Deus, será criado tudo novo: haverá luz! ( Ef 5:8 ; Is 55:3 )

Do mesmo modo que o poder criativo contido na palavra de Deus fez luz quando somente havia trevas no Gênesis ( Gn 1:2 ), a mesma palavra que foi encarnada e habitou entre os homens cria (Bara) a nova criatura trazendo muitos filhos à glória de Deus ( Hb 2:10 ).

Qualquer homem, antes de ter um encontro com Deus é treva, mas após crer, agora é luz, porque Deus fez tudo novo. Das trevas do velho homem, Deus faz através de Cristo o novo homem, que é luz no Senhor ( 2Co 5:17 ; Gl 6:15 ).

Todos que ouvem a palavra de Deus, se crer, terão a sua escuridão transformada por Deus como se fosse a luz do meio-dia. Das trevas surgirá a luz!

O homem gerado segundo o primeiro Adão é treva, vaso para desonra, entrou pela porta larga e segue por um caminho que o conduz à perdição. Após o novo nascimento, que se dá através do último Adão, que é Cristo, o novo homem é luz, vaso para honra, plantação do Senhor, árvore de justiça, entrou pela porta estreita e segue por um caminho que o conduz a Deus.

 

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Fonte de água viva

 

11  “E o SENHOR te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam” ( Is 58:11 ).

O verso 11 demonstra que, os que verdadeiramente afligem as suas almas (jejuam) serão bem-aventurados, conforme o exposto no salmo primeiro.

O Senhor os guiará as águas tranqüilas. Terá pastos verdejantes. O salmo 1 e 23 lançam luz (esclarece) a este verso.

Este mesmo aspecto é anunciado pelo profeta Jeremias: “Bendito o homem que confia no SENHOR, e cuja confiança é o SENHOR. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto” ( Jr 17:8 ).

Bem-aventurados são aqueles que confiam em Deus ( Sl 2:12 ), ou seja, serão como árvores plantadas junto a ribeiros de águas, dará o seu fruto no seu tempo, as folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará ( Sl 1:3 ).

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Edificação do Senhor

 

12 .”E os que de ti procederem edificarão as antigas ruínas; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar” ( Is 58:12 ).

Qual a ideia contida na frase: ‘os que de ti procederem’? Ora, refere-se àqueles que foram gerados pelo Senhor, ou seja, que nasceram de novo por terem fartado a alma aflita na fonte que faz jorrar água para a vida eterna (v. 10).

Há os que procedem da carne e os que procedem do Espírito, assim como Jesus anunciou a Nicodemos ( Jo 3:6 ). Através da carne de Adão ‘procedem’ os carnais, e através do Espírito vivificante, que é Cristo, o último Adão, ‘procedem’ os homens espirituais ( 1Co 15:45 ).

Somente os que são gerados de Deus podem edificar as antigas ruínas. Que ruínas? O homem foi criado para que Deus habitasse neles, porém, com a queda de Adão, o homem tornou-se ruínas.

É Deus que ergue o seu santo templo de geração a geração. Os que procedem de Deus são constituídos pedras vivas, a ‘matéria prima’ empregada na casa espiritual edificada por Deus “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

“E os que de ti procederem edificarão as antigas ruínas; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar”

Por edificar as ‘antigas ruínas’ através daqueles que d’Ele procederem, Deus será nomeado como o ‘Reparados de roturas’, ou ‘Restaurador de veredas’, por torná-los local de sua habitação ( Is 57:15 ).

 

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O ‘descanso’ do Senhor

13  “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras” ( Is 58:13 ).

Deus protesta contra a atitude dos seus interlocutores: desprezavam o dia de descanso instituído para afligirem a alma “E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” ( Lv 16:29 ).

Devemos ter em mente dois tipos de dias de descanso:

a)  O descanso semanal, que se dava no sétimo dia da semana ( Mc 2:23 ; Mc 3:2 ), e;

b) O dia dez do sétimo mês, que poderia ser qualquer dia da semana, porém, seria um dia de descanso (sábado) do Senhor ( Lv 16:29 ; Nm 29:7 ).

Para os judeus qualquer dia da semana poderia um sábado desde que fosse um dia festivo instituído pelo Senhor. Qualquer dia da semana poderia ser sábado, ou véspera de sábado. Observe: “E, chegada a tarde, porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado” ( Mc 15:42 ).

O médico Lucas apresenta dois eventos que se dá em dias distintos, porém, ambos são nomeados sábados “E era o dia da preparação, e amanhecia o sábado. E as mulheres, que tinham vindo com ele da Galileia, seguiram também e viram o sepulcro, e como foi posto o seu corpo. E, voltando elas, prepararam especiarias e unguentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento” ( Lc 23:54 -56 ).

Com relação ao dia do descanso do sétimo dia da semana, Deus o instituiu como estatuto perpétuo ao povo de Israel com um objetivo bem definido:

a)  Seria um sinal entre Deus e o povo;

b) Deveriam lembrar e entender que somente Deus santifica, e;

c)  Memorial de que foram servos no Egito e que Deus os resgatou com mão poderosa ( Dt 5:15 ; Ex 31:13 ).

Por que precisavam deste sinal como memorial perpetuo? Porque apesar de terem sido resgatados da servidão no Egito, não significava que eram justos diante de Deus “Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o SENHOR teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” ( Dt 9:6 ).

Pelo fato de não terem sido resgatados do pecado, o santo dia deveria ser nomeado pelo povo de deleitoso e digno de honra. Por quê? Jesus responde: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” ( Mc 2:27 ), ou seja, o sábado foi instituído para que o homem possa compreender que só Deus pode libertá-lo das ligaduras do pecado.

Os escribas e fariseus entendiam que eram cumpridores do sábado e recriminaram a atitude de Cristo e dos seus discípulos “Os fariseus lhe disseram: Vês? Por que fazem no sábado o que não é lícito?” ( Mc 2:24 ).

Isto porque Jesus e os seus discípulos estavam caminhando e colhendo espigas de milho, e apesar dos escribas e fariseus dizerem que estavam descumprindo o sábado, Jesus demonstra que Ele e os discípulos não estavam descumprindo o sábado pelo fato de andarem e satisfazerem as suas necessidades pessoais ( Mc 2:25 -28).

Jesus demonstrou que o sábado não estava relacionado com o que o homem faz ou deixa de fazer, antes é um memorial daquilo que Deus pode fazer pelo homem “E, olhando para eles em redor com indignação, condoendo-se da dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu, e foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra” ( Mc 3:5 ).

Embora o povo de Israel fosse composto de homens ímpios ( Dt 9:6 ), Deus estabeleceu um memorial, o sétimo dia da semana como descanso, para lembrá-los que foram resgatados do Egito e que só Deus santifica ( Dt 5:15 ; Ex 31:13 ). Ou seja, o sábado foi instituído por causa do homem, para lembrá-lo que é Deus que santifica, e não suas próprias ações “… para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica” ( Ex 31:13 ).

Como o povo de Israel era de dura cerviz ( Dt 10:16 ), além de instituir os sábados ( Lv 23:3 ), a páscoa ( Lv 23:5 ), a festa dos pães asmos ( Lv 23:6 ), as primícias ( Lv 23:10 ), a festa dos pentecostes ( Lv 23:16 ), a festa das trombetas ( Lv 23:24 ), a festa dos tabernáculos ( Lv 23:34 ), todas instituídas sem revogar o descanso do sétimo dia ( Lv 23:38 ), foi instituído também o dia da expiação.

Dentre estas festas instituídas como santa convocação a única que não faz referência a ideia de festa é o dia da expiação, pois a santa convocação da expiação não era festiva, antes deveriam afligir a alma desde o dia nove à tarde, de uma tarde a outra tarde, no sétimo mês ( Lv 23:32 ). Seria um dia de descanso (sábado), porém, sem festividades, ou seja, deveriam afligir a alma.

Porém, apesar de não trabalharem nos dias estabelecidos, não comerem, não beberem, não utilizarem perfumes, não lavarem o rosto e muitas vezes cobrirem-se de saco e cinzas, os filhos de Jacó não tiravam os pés do sábado do Senhor (v. 13). Apesar de os fariseus não matarem, não roubarem, darem o dízimo de tudo e jejuarem muitas vezes, faziam somente a própria vontade.

Diferente das outras convocações, o dia da expiação não era festivo, o que fazia com que muitos em Israel reclamassem por ‘afligirem’ as suas almas, levando-os a formular as perguntas do verso 3.

Mas, Deus diz: “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR…” (v. 13 -14).

O sétimo dia da semana instituído pelo Senhor como dia do descanso, era um sinal para o homem de que na palavra de Deus há descanso. E o dia da expiação, além de demonstrar que na palavra de Deus há descanso por causa do sábado e do afligir da alma, demonstrava também qual era a condição do homem: escravo do pecado.

Mas os profetas e sacerdotes de Israel não compreendiam a palavra do Senhor, e vagavam pelos seus próprios caminhos ( Is 28:7 ), e a lei do Senhor não passava para eles de “… mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali” ( Is 28:10 ).

Enquanto Deus dizia através das festas solenes que N’Ele há descanso, os interpretes de Israel não dava ouvidos “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:13 ), o que tornava os dias festivos ‘penosos’ mandamentos “Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem e se enlacem, e sejam presos” ( Is 28:13 ).

Quando Jesus veio, novamente o Senhor falou aos homens escarnecedores “Ouvi, pois, a palavra do SENHOR, homens escarnecedores, que dominais este povo que está em Jerusalém” ( Is 28:14 ).

Como Cristo cumpriu o sábado? Cumpriu segundo a palavra de Deus, e não segundo os mandamentos e as regras dos homens, pois a palavra de Deus diz: “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras…” (v. 13).

Jesus efetivamente cumpriu o sábado e todas as festas instituídas na lei, pois:

a)  Jesus não falou as suas próprias palavras “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:49 -50);

b) Jesus não fez a sua própria vontade “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ; Jo 4:34 ; Jo 7:17 ), e;

c)  Jesus não seguiu outro caminho, pois ele foi gerado de Deus “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ; Sl 1:6 ).

Jesus verdadeiramente jejuou, pois se absteve do pão fermentado dos homens ( Mt 16:6 ), uma vez que se alimentava do Pai “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Jesus verdadeiramente jejuou, pois abriu a sua alma aos famintos “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ); “… se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita” ( Is 58:10 ).

Este foi o jejum estipulado pelo Senhor, e Jesus veio fazer a vontade do Pai “O SENHOR será também um alto refúgio para o oprimido; um alto refúgio em tempos de angústia” ( Sl 9:9 ); “Oh, não volte envergonhado o oprimido; louvem o teu nome o aflito e o necessitado” ( Sl 74:21 ); “O que faz justiça aos oprimidos, o que dá pão aos famintos. O SENHOR solta os encarcerados” ( Sl 146:7 ); “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo?” ( Is 58:6 ); “Cri, por isso falei. Estive muito aflito” ( Sl 116:10 ); “Os aflitos e necessitados buscam águas, e não há, e a sua língua se seca de sede; eu o SENHOR os ouvirei, eu, o Deus de Israel não os desampararei” ( Is 41:17 ); “O SENHOR abre os olhos aos cegos; o SENHOR levanta os abatidos; o SENHOR ama os justos” ( Sl 146:8 ); “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ); “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” ( Is 61:1 ), etc.

Ora, se os filhos de Jacó verdadeiramente jejuassem e honrassem o sábado como Jesus o fez, seriam dignos de honra, e seriam honrados pelo Senhor (v. 13).

Neste verso o Senhor trata especificamente do dia separado para que afligissem a alma (dia da expiação), dia em que cada um não deveria executar obra alguma “E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” ( Lv 16:29 ).

O dia separado para o Senhor consiste em honrar ao Senhor, ou seja, em obedecer a sua palavra (temor) “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” ( Ml 1:6 ).

Cristo é o Filho e o Servo do Senhor porque honrou o Pai, porém, os filhos de Jacó não honravam e nem temiam ao Senhor!

O caminho do homem é de perdição, pois ao entrar pela porta larga, que é Adão, segue um caminho que o conduz à perdição ( Mt 7:13 ). Somente honrando o sábado que é tremer da palavra do Senhor é que o homem deixa os seus caminhos ( Is 55:7 ).

Somente aquele que ouve a palavra de Deus deixa de fazer a sua própria vontade. Somente os que ouvem e compreendem deixam de falar segundo o seu conhecimento, e passa a falar as palavras do Senhor ( Mt 3:9 ).

 

 

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A alegria do Senhor

 

14  “Então te deleitarás no SENHOR, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse” ( Is 58:14 ).

Jesus cumpriu cabalmente o estipulado nos versos 12 e 13 do capítulo 58 de Isaías, e por isso o Salmo 16 contém uma profecia acerca do Messias: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” ( Sl 16:11 ; Sl 91:14 ).

Após o jejum exigido por Deus, o homem será bem-aventurado, ditoso, deleitará no Senhor. Deus garante que fará com que os que afligiram a sua alma sejam estabelecidos em posição de honra.

Ou melhor, Deus há de sustentá-los como a herança de Jacó. Tudo o que o Senhor prometeu a Jacó será, por direito, concedido aos que descansam (creem) no Senhor.

Tudo o que foi anunciado segue garantido por aquele que prometeu: “Porque a boca do Senhor o disse”!

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Conclusão

 

Abstinências físicas (jejuar) em lugar de ‘afligir a alma’ tornou-se uma prática comum em Israel, tanto que várias datas específicas foram instituídas para jejuarem “Assim diz o SENHOR dos Exércitos: O jejum do quarto, e o jejum do quinto, e o jejum do sétimo, e o jejum do décimo mês será para a casa de Judá gozo, alegria, e festividades solenes; amai, pois, a verdade e a paz” ( Zc 8:19 ).

Diante do mandamento, os judeus se apegavam as práticas e aos dias estipulados, porém, o mais importante, que é o amor à verdade e a paz, não compreenderam o que seria. O povo pensava somente em cumprir regras sociais, tal qual não brigar com o próximo e não mentir.

Ao lerem na lei a seguinte determinação: “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ; Ef 4:25 ), entenderam somente que era para estabelecer ou manter a paz com o próximo, e  não se aperceberam que lhes era necessário ter paz com Deus.

O profeta Zacarias demonstra que os dias de jejuns deveriam ser de festividade, gozo e alegria. Que contraditório! Há aqueles que nomeiam esta aparente contradição de paradoxo. O dia estipulado para afligir a alma devia ser um dia de alegria, gozo e festividades solenes. Mas, para que o dia do jejum se tornasse dia de alegria, precisavam amar a verdade e a paz ( Zc 8:19 ).

O apóstolo Paulo, ao fazer alusão à mensagem do profeta Zacarias, demonstra que ‘falar a verdade’ com o próximo possui uma conotação mais ampla do que não mentir, pois ao escrever aos cristãos em Éfeso faz a seguinte abordagem: “Mas vós não aprendestes assim a Cristo, se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus; Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; E vos renoveis no espírito da vossa mente; E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade. Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros” ( Ef 4:20 -25 ).

O apóstolo Paulo demonstra que a verdade anunciada por Zacarias está em Cristo, segundo o que ouviram e foram ensinados, ou seja, conforme o evangelho ( Ef 4:21 ). O que ouviram e lhes foi ensinado com relação à verdade (Cristo)?

a)  Que deveriam se despojar de tudo que era pertinente ao velho homem;

b) Que renovassem a compreensão, e;

c)  Que revestissem do que é pertinente ao novo homem.

Por isso deveriam ‘deixar a mentira’ (lançar fora a compreensão pertinente ao velho homem de como se adquire a salvação), e ‘falar a verdade’ com o companheiro, ou seja, deviam falar de Cristo (como está à verdade em Cristo), conforme o anunciado pelo profeta Zacarias.

O evangelho deve ser a temática da conversa dos cristãos porque é o evangelho que os torna membros uns dos outros, ou seja, o ‘juízo de verdade e de paz’ (mandamento) anunciado por Zacarias refere-se a Cristo, pois Cristo é a verdade e é a paz. Somente Ele faz juízo ao oprimido ( Sl 103:6 ; Ef 4:21; Ef 2:14 ; Zc 8:16 ).

Qualquer que ama a verdade e a paz, cumpre o mandamento do Senhor ( Zc 8:19 ), e será amado de Deus “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Por todos os homens serem gerados de Adão, o apóstolo Paulo afirma que todos são mentirosos ( Rm 3:4 ), isto conforme anunciou o salmista Davi, pois todos são concebidos em pecado e falam mentiras desde que nascem ( Sl 51:5 ; Sl 58:3 ). Ou seja, todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, pois se extraviaram juntamente e se fizeram imundos em Adão ( Rm 3:23 ; Sl 53:3 ).

O coração do homem é enganoso ( Jr 17:9 ), e a boca fala do que o coração está cheio ( Lc 6:45 ), portanto, todo homem é mentiroso e só fala engano. Para falar a verdade é necessário ao homem falar segundo a palavra de Deus, pois a palavra d’Ele é a verdade ( Jo 17:17 ).

Para falar a verdade cada um com o seu companheiro é necessário ao homem falar as ‘palavras de Deus’, e não as suas próprias palavras, como recomendou o profeta Isaías ( Is 58:13 ; Zc 8:16 ; Ef 4:20 ). O Senhor Jesus, assim como o apóstolo Paulo, o profeta Isaías e o profeta Zacarias abordaram o mesmo tema quando ordenaram: falai a verdade!

Para falar a verdade é necessário ao homem ouvir (alimentar-se) a palavra de Deus que concede vida ( Dt 8:3 ), ou seja, é necessário ao  homem nascer de novo, sendo gerado em verdadeira justiça e santidade da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Somente os gerados da palavra de Deus são amados de Deus, pois se tornaram um com a verdade (conhecer) no íntimo “Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria” ( Sl 51:6 ; Ef 4:24 ).

Jesus alertou aos seus ouvintes que o jejuar dos fariseus era hipócrita, pois se apresentavam aos homens com o rosto triste, e até desfiguravam o rosto para demonstrar que afligiam a alma (jejuavam).

O verdadeiro jejum não se produz com estômago vazio e aspectos físicos desfigurados, pois assim agiam os fariseus para parecer que jejuavam e Jesus os censurou “E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão” ( Mt 6:16 ).

Ora, se desfigurar o rosto não é o mesmo que o jejum exigido por Deus, como jejuar? Como já vimos, o verdadeiro jejum não se refere a aspectos físicos (rosto desfigurado) ou sensações físicas (fome), pois mesmo lavando e ungindo a cabeça era possível ao homem jejuar, pois o jejum é para Deus, e não para os homens ( Mt 6:18 ).

Por que Jesus recomenda não agirem como os hipócritas? Porque aquele era o modo pelo qual escribas e fariseus ajuntavam tesouro na terra “Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” ( Is 58:4 ; Mt 6:18 ).

Por entenderem que jejuavam segundo o estipulado na lei, os escribas e os fariseus buscaram contender com Jesus, buscando feri-lo com punho iníquo “Disseram-lhe, então, eles: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes, e fazem orações, como também os dos fariseus, mas os teus comem e bebem?” ( Lc 5:33 ).

A Bíblia demonstra que Jesus veio especificamente para cumprir a lei ( Mt 5:17 ), mas os fariseus e os escribas julgavam-no como alguém que queria acabar com a lei e com os profetas.

A Bíblia também demonstra que Jesus falava ao povo somente por parábolas, e o sermão do monte deve se analisado como sendo um conjunto de várias parábolas conexas entre si “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ).

A maioria dos leitores do sermão do monte entende que Jesus estava ordenando aos seus ouvintes o modo correto de como absterem-se do alimento quando recomendou que não deviam fazer como os hipócritas ( Mt 6:16 ). O que Jesus estava recomendando? Ora, Jesus estava apresentado aos seus ouvintes o suposto paradoxo apresentado pelo profeta Zacarias. O jejum não devia ser um dia de tristeza, antes um dia de alegria, de festa solene e gozo, pois o afligir da alma não possui relação com aspectos exteriores do corpo “Assim diz o SENHOR dos Exércitos: O jejum do quarto, e o jejum do quinto, e o jejum do sétimo, e o jejum do décimo mês será para a casa de Judá gozo, alegria, e festividades solenes; amai, pois, a verdade e a paz” ( Zc 8:19 ).

Jesus estava ordenando os ouvintes do sermão do monte a afligirem a alma diante de Deus e não diante dos homens, de modo que a tristeza proveniente do verdadeiro jejum se tornasse em alegria, como Deus havia determinado ( Sl 30:11 ; Zc 8:19 ). Ao ordenar que lavassem o rosto e não se mostrassem contristados quando ‘jejuavam’, Jesus queria que o povo compreendesse o verdadeiro significado da ordenança de se afligir a alma.

Ao alertar que não deveriam se mostrar contristados, que podiam lavar o rosto e ungir a cabeça ( Mt 6:17 ), Jesus queria dar a  entender à multidão qual era o verdadeiro jejum. Eles precisavam compreender que o verdadeiro jejum se dá quando o homem deixa de seguir os seus próprios conceitos “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” ( Is 65:2 compare com Is 58:13 ); “Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR…” ( Is 58:13-14).

Qualquer que anda segundo os seus próprios pensamentos segue um caminho que não é bom, e não se deleitará no Senhor conforme o profeta Zacarias recomenda que se faça.

Tudo que Jesus falava ao povo de Israel foi dito por parábolas, o que dá ao sermão do monte o título de uma grande parábola. Interpretar o capítulo 58 de Isaías também é resolver um grande enigma da antiguidade, pois este é o modo de o povo ouvir e ver, mas não compreender ( Sl 78:2 ; Mt 13:15 ; Jo 12:40 ; Lc 12:41 ).

Deus ordenou ao povo que ‘afligissem a alma’. Eles ouviram, mas não compreenderam o enigma, e neles se cumpriu a profecia ( Lc 8:10 ; Is 6:9 ). Deus ordenou que afligissem a alma, eles entenderam que afligir a alma seria o mesmo que afligir o corpo com abstinências diversas.

Davi foi um homem segundo o coração de Deus porque compreendeu que afligir a alma é o mesmo que um coração contrito, quebrantado. Ele compreendeu que o verdadeiro sacrifício é um espírito quebrantado ( Sl 51:17 ). Davi compreendeu que somente o abatido, o contrito de espírito alcança as benesses que ele havia rogado ao Senhor: um coração e um espírito vivificado e habitado pelo Senhor ( Sl 51:10 -11; Is 57:15 ).

Os escribas e fariseus não compreenderam o que é ‘afligir a alma’ do mesmo modo que desconheciam o significado da ordenança ‘misericórdia quero, e não sacrifício “Misericórdia quero, e não sacrifício” ( Mt 9:13 ; Os 6:6 ).

Antes de questionarem porque os discípulos não jejuavam, Jesus orientou-os a irem aprender o que significava ‘misericórdia quero’ “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Os escribas e os fariseus rebateram em pensamento a ordem de Cristo, uma vez que sabiam que a frase ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’ tratava-se de citações atribuídas aos profetas Oséias e Samuel. Não atinaram que tais passagens contêm um enigma que eles ainda não haviam decifrado.

O que eram as abstinências que os escribas e fariseus praticavam no intento de afligir a alma? Tais abstinências não se resumiam em meros sacrifícios?

O que significa ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’?

Para aprender o que significa ‘misericórdia quero’ se faz necessário compreender o que Deus exige do homem. Para compreender o significado de ‘misericórdia quero’ se faz necessário analisar a passagem bíblica de Oseias.

Certa feita o profeta Oseias anunciou ao povo o protesto de Deus, pois o amor que os filhos de Jacó demonstravam era volátil como o orvalho da madrugada “Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque o vosso amor é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa” ( Os 6:4 ).

O tema principal da passagem de Oseias, quando se lê ‘misericórdia quero’ é destacar o que Deus espera do homem: amor. Deus está demonstrando que não se interessa por sacrifícios, antes demonstra que deseja o amor do homem.

A exigência divina demonstra que o homem nada pode fazer para agradá-Lo, antes é Deus quem pode fazer algo em prol da humanidade. Quando Deus diz: ‘misericórdia quero’, significa que Ele quer exercer misericórdia para com os homens, e para tanto, basta ao homem amá-Lo de todo coração “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” ( Ex 20:6 ); “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” ( Dt 7:9 ).

Deus quer misericórdia, porque Ele é misericordioso. A qualquer que o ama Deus exerce misericórdia, o que não depende e nem demanda sacrifício. Sacrifício não é de valor algum diante de Deus ( Is 1:1 ).

Deus não exigiu do povo de Israel sacrifícios, antes exigiu que O amasse de todo coração “Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas o SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao SENHOR teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma…” ( Dt 10:12 ); “E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus” ( Gl 6:16 ).

Apesar de demonstrar que não desejava sacrifícios, por conhecer a disposição interna dos homens em sacrificar, Deus regulamentou como os voluntariosos em Israel deveriam sacrificar, o que não significa que Deus exigiu sacrifícios dos homens “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá a sua oferta de gado, isto é, de gado vacum e de ovelha” ( Lv 1:2 compare Sl 50:7 -23 ).

O profeta Samuel demonstra que Deus não se interessa em sacrifícios “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:21 -22).

Deus determinou o afligir da alma como sendo juízo de verdade porque este é o sacrifício aceitável “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ); “Fazer justiça e juízo é mais aceitável ao SENHOR do que sacrifício” ( Pv 21:3 ).

Abster-se de entrar na casa de ‘pecadores’, ou de comer com eles era um tipo de sacrifício que os escribas e fariseus praticavam, mas que Deus não aceitava, pois Ele quer misericórdia, e não sacrifícios ( Mt 9:13 ).

Como os jejuns era uma prática dos judeus, em especial dos fariseus, os discípulos de João Batista questionaram Jesus por que os seus discípulos não jejuavam, o que demonstra que os jejuns não passam de meros sacrifícios ( Mt 9:14 ).

Observe que os ímpios oferecem sacrifício, e nem por isso deixam de ser ímpios. Mesmo que tenha a mais nobre das intenções ao sacrificar, o ímpio oferecerá abominação. O que torna o sacrifício dos ímpios uma abominação é o fato de serem ímpios “O sacrifício dos ímpios já é abominação; quanto mais oferecendo-o com má intenção!” ( Pv 21:27 ).

Como os filhos de Jacó não buscavam a palavra do Senhor, conclui-se que eram ímpios “A salvação está longe dos ímpios, pois não buscam os teus estatutos” ( Sl 119:155 ), condição pertinente a todos os homens por causa de Adão ( Sl 53:2 -3 ; Sl 58:3 ).

Como as abstenções de qualquer natureza é um tipo de sacrifício, segue-se que, por não se apartarem da impiedade ( Is 58:1 e 6), quando os filhos de Jacó se aplicavam as abstenções (sacrifícios) ofereciam abominações, por mais nobre que fossem as suas intenções.

O salmista compreendeu que Deus não desejava sacrifícios, antes que se satisfazia com o coração contrito, com a alma afligida “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ).

Por intermédio do profeta e salmista Davi, Deus protesta ao povo de Israel, dizendo: “Ouve, povo meu, e eu falarei; ó Israel, e eu protestarei contra ti: Sou Deus, sou o teu Deus. Não te repreenderei pelos teus sacrifícios, ou holocaustos, que estão continuamente perante mim. Da tua casa não tirarei bezerro, nem bodes dos teus currais. Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas. Conheço todas as aves dos montes; e minhas são todas as feras do campo. Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e toda a sua plenitude. Comerei eu carne de touros? ou beberei sangue de bodes? Oferece a Deus sacrifício de louvor, e paga ao Altíssimo os teus votos. E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” ( Sl 50:7 -15).

Deus demonstra que o problema de Israel não era os sacrifícios que de contínuo traziam ao templo. Antes, Deus queria que eles O invocasse no dia da angústia, e não que se aplicassem aos sacrifícios. Qual é o dia da angustia? É o dia em que o homem verdadeiramente afligisse a sua alma, o dia que compreendesse que necessita da salvação de Deus.

Do mesmo modo que os filhos de Israel não compreenderam o que é ‘executar juízo de verdade’, ‘falar a verdade com o próximo’ e ‘misericórdia quero’, não compreenderam a determinação divina de afligir a alma “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ); “Fazer justiça e juízo é mais aceitável ao SENHOR do que sacrifício” ( Pv 21:3 ), e; “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos. Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:6 -7).

O maior erro dos judeus estava em não conhecerem as escrituras “Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” ( Mt 22:29 ). Os interpretes de Israel prevaricam quanto as suas atribuições ( Is 43:27 ). Eles se consideravam filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ), mas por não fazerem justiça e juízo, por sacrificarem em lugar de amarem a Deus, ou seja, por não falarem a verdade (palavra de Deus), etc., continuavam transgressores por causa do primeiro pai da humanidade, Adão.

Por não conhecerem as escrituras aplicavam-se as abstinências, e esqueciam que ainda eram transgressores por serem descendentes da carne de Adão, portanto, não eram filhos de Abraão “Eu quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus e não holocaustos. Em Adam eles quebraram a minha aliança, aí eles me traíram” ( Os 6:6 -7 – Bíblia da CNBB).

A tradução católica da Bíblia do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil expressa melhor as duas ideias analisadas acima: a) Deus quer amor, e; b) Em Adão os filhos de Jacó quebraram a aliança.

A tradução que reza que os judeus transgrediram a aliança como Adão não coaduna com o que o apóstolo Paulo diz aos cristãos em Roma: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Ou seja, Adão é o único homem por quem a morte entrou no mundo, separando toda a humanidade de Deus. Como todos estão mortos, separados de Deus, logo ninguém mais dentre os homens pode pecar como (semelhança) Adão.

A morte reinou sobre todos os homens, até mesmo sobre aqueles que não transgrediram à semelhança (como) da transgressão de Adão, pois em Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Desviaram-se e juntamente todos os homens tornaram se imundos, ou seja, em Adão se deu o evento em que a humanidade juntamente se extraviou de Deus ( Sl 14:3 ; Sl 53:3 ).

Os escribas e fariseus que foram ao batismo de João Batista, mesmo após serem batizados continuavam professando que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão ( Mt 3:9 ), o que indicava que não estavam produzindo frutos dignos de arrependimento. A mensagem de João Batista era: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” ( Mt 3:2 ), ou seja, arrepender-se é mudança de concepção acerca de alguma matéria, é mudança de pensamento.

Em função da chegada do reino dos céus, que é Cristo, os escribas e fariseus deviam abandonar os seus conceitos (arrependimento) para poder abraçar a Cristo, ou seja, precisavam deixar de presumir que eram filhos de Abraão por serem descendentes da carne de Abraão para serem filhos de Deus por intermédio do Descendente prometido a Abraão ( Rm 9:7 -8).

O que professavam quando vinham ao batismo, denunciava os escribas e fariseus, pois o fruto dos lábios deveria ser de mudança de conceito, mas continuavam professando que eram filhos de Abraão, o que os impedia de ter comunhão com a verdade, o caminho e a vida ( Jo 8:33 e 39).

O fariseu que subia ao templo para orar é exemplo de alguém que ajuntava tesouro na terra, pois era descendente da carne de Abraão, que em última instância era o mesmo que ser descendente de Adão.

Em decorrência da sua filiação e da sua religiosidade, se sentia abastado, rico, por não se comportar como os demais homens: não era roubador, promiscuo, injusto, etc., e além do mais, jejuava, dava o dizimo, orava, ia ao templo, etc. ( Lc 18:11 ). Tudo que o fariseu fazia na sua religiosidade é descrito pela Bíblia como sendo um modo de ajuntar ‘tesouro na terra’, ou seja, buscava o seu próprio contentamento pelo ‘trabalho’ realizado ( Is 58:3 ).

É importante que o leitor perceba que “ajuntar tesouro na terra” é uma figura, e esta figura complementa a ideia do jejum, sendo que a ordem para não ajuntar tesouro na terra remete a ideia de que, através das suas práticas para agradar a Deus, os homens somente adquirem e ajuntam o tesouro da impiedade.

Observe que tanto o trabalho (ajuntar tesouro na terra) quanto os sacrifícios dos ímpios não são aceitos por Deus. Do mesmo modo que os sacrifícios dos ímpios são abominação, o trabalho deles é o mesmo que violência “Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 ; Pv 21:27 ).

Observe que o profeta Isaías dá no verso 3 do capítulo 66 a interpretação das figuras empregadas nas escrituras quando estabelece a comparação. Violência diante de Deus é tudo que o homem faz para se salvar, ou seja, o sacrifício deles é como tirar a vida de um homem.

As ações dos judeus, na intenção de se salvarem, eram comparáveis a tudo que mais abominavam. Os constantes trabalhos e sacrifícios que realizavam era o que Deus nomeia de seguir seus próprios caminhos. Não eram o afligir da alma exigido por Deus ( Is 66:3 compare com Is 58:3 ). Quando praticavam suas abstinências, não jejuavam de fato, antes era o mesmo que se deleitar nas suas abominações.

Se eles afligissem a alma conforme o exigido no verso 13 do capítulo 58 de Isaías, deixariam as abstinências e os sacrifícios e se deleitariam no Senhor, em quem há paz e descanso para a alma.

“… quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 );

“Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, então te deleitarás no SENHOR” ( Is 58:13 ).

Quando o profeta Jeremias clama: “Violência, violência!”, está protestando contra os homens que intentam se salvar através de suas próprias forças, ou seja, com o fruto do seu trabalho, o tesouro da impiedade “Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” ( Jr 20:8 ); “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:6 ).

Do mesmo que Isaías aborda em primeiro lugar o jejum e depois as obras de violência, no sermão do monte Jesus adota a mesma sequência: o jejum e o guardar tesouro na terra. Ambos demonstraram que a retidão e as obras do povo não se aproveitam para salvação ( Is 57:12). Ambos, o Senhor Jesus e Isaías, buscavam tirar o tropeço de diante do povo, aplainando o caminho do Senhor ( Is 57:14 ).

Por não afligirem a alma segundo o estipulado no capítulo 58 de Isaías, retirando as ataduras da impiedade, continuavam falando mentiras “Porque as vossas mãos estão contaminadas de sangue, e os vossos dedos de iniquidade; os vossos lábios falam falsidade, a vossa língua pronuncia perversidade” ( Is 59:3 ), pois a boca fala o que o coração está cheio, ou seja, neste verso está descrito porque Jesus chama os fariseus de raça de víboras ( Mt 12:34 ; Is 59:4 -5 ).

O que Deus determinou por intermédio do profeta Zacarias e o apóstolo Paulo interpretou ao escrever aos cristãos em Éfeso “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ; Ef 4:25 ), Isaías anuncia demonstrando que ninguém obedecia a palavra de Deus “Ninguém há que clame pela justiça, nem ninguém que compareça em juízo pela verdade; confiam na vaidade, e falam mentiras; concebem o mal, e dão à luz a iniquidade” ( Is 59:4 compare com Zc 8:16 ).

Melhor é obedecer do que o sacrifício: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde então, e argüi-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” ( Is 1:11 -18).

As abstinências eram um tipo de sacrifício oferecido pelos filhos de Jacó, e por não se apartarem da impiedade ( Is 58:1 e 6), elas eram abominações, por mais nobre que fossem as suas intenções “Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer” ( Is 1:13 -14).

Quando não se busca a palavra (temor) do Senhor, o verdadeiro tesouro ( Is 33:6 ), o homem com todas as suas práticas religiosas e morais não passa de um pobre, cego e nu ( Is 33:6 ).

A determinação de Jesus no sermão do monte não é para que os seus ouvintes deixassem os seus ofícios diários e também não era para deixar de adquirirem bens materiais, antes que deixassem de se apegar a qualquer prática como se ela fosse o que promove salvação ( Pv 10:2 ).

A determinação de Cristo para que os seus ouvintes não ‘ajuntassem tesouro na terra’ é uma explanação, por meio de uma parábola repleta de enigmas, da figura do dia do descanso instituído com o fito de o homem afligir a alma.

Após demonstrar qual o sentido de afligir a alma ( Mt 6:17 ), Jesus passou a demonstrar através da ordem de não ajuntar tesouro na terra o sentido do verdadeiro descanso, pois através de Cristo e seus ensinamentos, cumpre-se o que diz as escrituras, de que se dê descanso ao cansado, mas ouviram e não compreenderam, pois tudo lhes era dito por parábolas “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ).

Desde a antiguidade não se estipulou preço para a salvação, pois quem não tem dinheiro (pobre, necessitado, aflito, viúva, órfão), quer seja judeu ou gentil, pode comer o que é bom. Basta que inclinem os seus ouvidos ( Is 55:2 ), ou seja, creia na palavra de Deus, que comerá o que é bom ( Is 1:17 ).

O afligir da alma aparece associado à tristeza por causa das figuras que representam o conceito do pobre de espírito, do necessitado de espírito e do aflito de espírito, ou seja, daqueles que necessitam e se socorrem de Deus. Observe: “E disse-lhes Jesus: Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão” ( Mt 9:15 ).

Os escribas e fariseus questionavam porque os discípulos de Jesus não se aplicavam as abstinências, ou às práticas que eles compreendiam ser o jejum. Em resposta Jesus demonstra que os seus discípulos não podiam andar tristes, apontando o verdadeiro significado do jejum.

Os filhos das bodas jamais poderiam ficar tristes, pois o noivo estava presente. Enquanto Cristo, o esposo, estava com os discípulos, não havia motivo para ficarem contristados, mas, quando o esposo fosse tirado, automaticamente ficariam tristes, ou seja, ficariam com a alma aflita.

Lucas é específico ao dizer que os discípulos jejuariam (tristeza) apontando especificamente para os dias em que Cristo permaneceria no seio da terra. Somente naqueles dias os discípulos jejuariam, o que indica que depois daqueles dias não mais jejuariam “Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então, naqueles dias, jejuarão” ( Mt 26:31 ; Lc 5:35 ).

Por que Jesus disse que os pobres e os tristes eram bem-aventurados? ( Mt 5:3 -4) Porque os pobres, tristes, aflitos, oprimidos são figuras bíblicas utilizadas para representar todos os homens que necessitam de Deus.

O profeta Isaías anunciou que o povo trabalhava em vão e gastava o fruto do seu trabalho naquilo que não satisfazia o exigido por Deus ( Is 55:2 ). Por trabalharem ofertando sacrifícios, jejuns, ritos, etc., não esperavam a salvação providenciada por Deus.

Se os pobres e os oprimidos são bem-aventurados, segue-se que são filhos de Abraão, crentes como o crente Abraão, pois ele foi bem-aventurado porque creu na palavra de Deus. O povo de Israel não era filho de Abraão, pois em lugar de descansarem, trabalhavam.

Deus não havia prometido que os pobres, abatidos, tristes, aflitos e oprimidos seriam vivificados pelo Senhor? ( Is 57:15 ) Deus já não havia dito que os aflitos e necessitado são os que buscam a Deus? “Os aflitos e necessitados buscam águas, e não há, e a sua língua se seca de sede; eu o SENHOR os ouvirei, eu, o Deus de Israel não os desampararei” ( Is 41:17 ; Sl 146:7 ).

Qualquer que ouve e aceita o convite de Cristo que diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ), é porque verdadeiramente afligiu a alma. Somente os aflitos e necessitados ouvem a palavra de Deus, ou seja, não diz de quem pratica abstinências de alimento, roupas, perfumes, banho, etc., pois o alimento ofertado por Deus é espiritual ( Jo 6:63 ).

Sendo o alimento de Deus espiritual, o verdadeiro jejum não se dá no estômago. O verdadeiro jejum é promovido por alguém que tem a alma aflita porque sente que necessita de água e de pão espiritual após abster-se dos conceitos humanos. Este, verdadeiramente entra no descanso prometido por Deus, pois vê em Cristo o descanso preparado por Deus “O que faz justiça aos oprimidos, o que dá pão aos famintos. O SENHOR solta os encarcerados” ( Sl 146:7 );

O que satisfaz o sedento, o oprimido, o aflito, o cansado, o faminto? O pão que Deus oferta a todos os homens, bastando para isso que o ouçam ( Is 55:3 ).

Quando se fala em comida e bebida é comum ao homem esquecer que a palavra de Deus é ‘comida’ espiritual que concede vida aos mortos espirituais “Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis” ( Jo 4:32 ; Dt 8:3 ).

Mas, para comer da comida que os homens não conhecem faz-se necessário abster-se (jejum) do fermento dos fariseus. Quando se deixa de comer do pão fermentado com a doutrina dos fariseus, o homem jejua verdadeiramente, momento que verá, por causa da aflição que lhe acometerá a alma, que necessita da água e do pão que somente Deus pode dar ( Mt 16:6 ; 1Co 5:6 -8).

Jesus ordenou aos seus ouvintes que ‘trabalhassem’ pela comida que permanece para a vida eterna, ou seja, pela comida que Cristo estava dando gratuitamente “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” ( Jo 6:27 ).

Os ouvintes de Jesus deviam buscar a palavra de Deus, que Cristo gratuitamente ofertava, porque a obra de Deus é que o homem creia no enviado de Deus. Há um desejo incessante nos homens em fazer a obra de Deus, mas a única obra que Deus tem a realizar é que creiam no enviado de Deus “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 26:28 -29).

Os ensinos do Senhor Jesus mostram que os cristãos devem estar cônscios de que a comida não torna ninguém agradável a Deus, isto porque, se o cristão comer nada terá a mais que seu irmão, e se não come, nada tem falta “Ora a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta” ( 1Co 8:8 ).

Ao observar que o reino dos céus não é comida nem bebida “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” ( Rm 14:17 ), tem-se a seguinte conclusão: “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados” ( Cl 2:16 ).

Ora, ninguém deve ser julgado por dias de festas ou sábados, sendo que alguns sábados eram específicos para o jejum. Neste ponto temos que: “O que come não despreze o que não come; e o que não come, não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu” ( Rm 14:3 ); “Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o SENHOR não come, e dá graças a Deus” ( Rm 14:6 ).

Deus já concedeu aos cristãos tudo que é concernente a vida e a piedade ( 2Pe 1:3 ), pois os abençoou com todas as benção espirituais nas regiões celestiais em Cristo ( Ef 1:3 ), ou seja, de nada têm falta “Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem” ( Sl 34:9 ).

Se os que temem ao Senhor de nada tem falta, segue-se que não podem, ou que não há como afligir a alma. Caso deixe de comer ou beber, terá fome, mas não acrescentará nada a sua vida espiritual.

Após verificar que o verdadeiro jejum é: a) Não seguir seus próprios caminhos; b) Não falar suas próprias palavras; c) Não fazer a sua própria vontade; d) Anunciar as boas novas do evangelho ( Is 58:10 e 13), e; e) Que Jesus e os seus discípulos não jejuavam e nem cumpriam o sábado aos moldes dos escribas e fariseus ( Mc 2:18 e Mc 2:24 ; Lc 5:33 ), temos elementos para concluir que um cristão pode até se abster da comida, pois tudo que é proveniente de fé não é pecado (desde que não se pretenda costurar remendo novo em vestido velho, e nem deitar vinho novo em odres velhos, ou seja, amalgamar questões legalistas ao evangelho de Cristo) ( Mc 2:21 -22), mas é um erro o cristão utilizar o jejum como ascetismo pessoal, uma vez que é Deus quem santifica “E guardai os meus estatutos, e cumpri-os. Eu sou o SENHOR que vos santifica” ( Lv 20:8 ).

Antes de ‘abster-se da comida e da bebida’ ou de guardar ‘dias’ o cristão deve ter em mente que, enquanto tiver consigo o esposo, não pode jejuar (afligir sua alma) “E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar” ( Mc 2:19 ).

O cristão pode até abster-se do alimento, porém, o jejum de afligir a sua alma é impossível fazer. Cristo disse que sempre está com os que creem, portanto não podem afligir a alma (jejuar) “… eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” ( Mt 28:20 ; Jo 14:23 ).

Se o crente crê que Cristo se faz presente todos os dias da sua vida, não pode jejuar! “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” ( Sl 16:11 ).

A aflição da alma e o sábado são figuras estabelecidas especificamente para os homens que necessitam de descanso, o que não é o caso de quem já bebeu da água que Cristo oferece, pois nunca voltará a ter sede “E Jesus, respondendo, disse: Ó geração incrédula e perversa! até quando estarei ainda convosco e vos sofrerei? Traze-me aqui o teu filho” ( Lc 9:41 ), pois os que creem já foram consolados e entraram para o descanso do Senhor ( Jo 14:16 e 18 ; Jo 15:26 e Jo 16:7 ; Hb 4:3 ).

Deixar de comer e beber não pode ser confundido com a ordenança de Deus para que o povo afligisse a alma. Do mesmo modo que os interpretes de Israel não compreenderam o que é ‘misericórdia quero’, ‘falai a verdade’, ‘executai juízo’, etc., não compreenderam a ordenança de ‘afligirem a alma’ sem fazerem obra alguma.

Deviam abster-se de realizar obras na intenção de salvarem-se, o que os tornariam pobres, necessitados, aflitos na alma, e se refugiariam em Deus. Após absterem-se de seus conceitos, ficariam famintos e sequiosos por beberem e alimentarem-se de Deus, a água e o pão que concede vida.

O povo de Israel e os seus sacerdotes eram contumazes em jejuar. Continuamente compareciam ao templo para prantear e jejuar ( Zc 7:2 ). Sarezer, Regem-Meleque e seus homens foram enviados de Betel à casa do Senhor para suplicarem o favor de Deus, e demonstraram o quanto estavam enfadados com aqueles ritos: “Chorarei eu no quinto mês, fazendo abstinência, como tenho feito por tantos anos?” ( Zc 7:3 ).

Qual foi a resposta de Deus através de Zacarias? “Fala a todo o povo desta terra, e aos sacerdotes, dizendo: Quando jejuastes, e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante estes setenta anos, porventura, foi mesmo para mim que jejuastes? Ou quando comestes, e quando bebestes, não foi para vós mesmos que comestes e bebestes?” ( Zc 7:5 -6).

Quando choravam, lamentavam e abstinham-se da comida e da bebida, somente estavam se deleitando em suas abominações. Em nada eram diferente os seus dias de abstinências dos dias festivos em que comiam e bebiam, pois ambos eram abominações “… quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” ( Is 66:3 ).

O que se observa neste verso? Que há pelo menos setenta anos o povo de Israel se lançava às abstinências, às comidas e às bebidas, porém, tudo foi realizado para eles mesmos. Através deste verso fica nítido que o jejuar estipulado no dia da expiação ( Lv 23:27 ), em nada diferia das determinações de festejarem pertinente as outras santas convocações, como o sábado, a páscoa, as primícias, o pentecostes, etc. ( Lv 23:6 ).

Perante a lei, aquele que comia e bebia para o Senhor festejava, e aquele que se lançavam as abstinências, para o Senhor jejuava ( Zc 7:5 -6 ; Rm 14:3 ). Porém, festejar e jejuar aos moldes dos israelitas não era conforme o que Deus estipulou.

Qual era o verdadeiro jejum a realizar? Deus responde novamente: “Assim falou o SENHOR dos Exércitos, dizendo: Executai juízo verdadeiro, mostrai piedade e misericórdia cada um para com seu irmão…” ( Zc 7:9 ). O juízo verdadeiro refere-se àquele ministrado pelos juízes e sacerdotes nos tribunais? Deus estava tratando de questões sociais? Não!

O juízo verdadeiro que deveriam executar refere-se à palavra de Deus que dá vida eterna aos homens ( Dt 8:11 compare com Dt 8:3 ). Somente sendo misericordioso, como é o Pai celeste, é possível ao homem mostrar piedade e misericórdia aos seus semelhantes “Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” ( Lc 6:36 ).

Quando Jesus se apresentou ao povo de Israel como pão vivo que desceu dos céus “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” ( Jo 6:51 ), estava sendo misericordioso como o Pai celeste ( Lc 6:36 ).

Ele estava executando juízo verdadeiro! “Julgou a causa do aflito e necessitado; então lhe sucedeu bem; porventura não é isto conhecer-me? diz o SENHOR” ( Jr 22:16 ); “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ; Jo 8:16 ).

Quando se conhece a Verdade, ou antes, se é conhecido de Deus ( Jo 8:32 compare com Gl 4:9 e 1Co 8:9 ), é porque se executou o juízo verdadeiro, julgando a causa do aflito e necessitado, a causa dos que jejuam de fato! ( Jr 22:16 compare com Zc 7:9 ).

Os quarenta dias e quarenta noites sem comer não foram previstos nas escrituras como sendo o jejum do Messias, mas a humilhação e as afrontas que ele sofreu foram previstas como jejum: “Pois o zelo da tua casa me devorou, e as afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim. Quando chorei, e castiguei (afligir) com jejum a minha alma, isto se me tornou em afrontas. Pus por vestido um saco, e me fiz um provérbio para eles. Aqueles que se assentam à porta falam contra mim; e fui o cântico dos bebedores de bebida forte” ( Sl 69:9 -12 compare com Sl 36:13 ).

Observe que o salmo 69 é messiânico, sendo que os versos 9 e 10 são citados respectivamente pelo apóstolo Paulo e pelo apóstolo João como referindo-se a Cristo ( Rm 15:3 ; Jo 2:17 ).

O salmo antevê que Cristo haveria de ser o aflito do Senhor (chorei), pois afligiria (castigar com jejum) a sua alma ( Is 53:4 ), tal ação tornar-se-ia em afronta. A afronta seria como usar como vestido uma saco, tornando-se um provérbio para aqueles que exerciam o domínio (as portas) entre o povo.

Por que Jesus foi escarnecido? Como ele tornou-se o aflito do Senhor? Como ele afligiu a sua alma? Porventura não foi porque afligiu a sua alma conforme o verso 13 do capítulo 58 de Isaías? Por Jesus não fazer a sua própria vontade, antes falou segundo as palavras do Pai, sofreu o escárnio dos homens ( Mt 27:43 ; Is 58:13 compare com Jo 6:38 e Jo 8:59 ) “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” ( Jo 5:30 ; Jo 8:16 ); “Julgou a causa do aflito e necessitado; então lhe sucedeu bem; porventura não é isto conhecer-me? diz o SENHOR” ( Jr 22:16 ).

Como Jesus ‘julgou’ a causa dos ‘aflitos’, a ressurreição dentre os mortos foi o bem que Deus lhe proporcionou. O bem prometido para aquele que esteve muito aflito, porém, creu e falou as ‘palavras’ do Pai “Volta, minha alma, para o teu repouso, pois o SENHOR te fez bem. Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda. Andarei perante a face do SENHOR na terra dos viventes. Cri, por isso falei. Estive muito aflito” ( Sl 116:7 -10).

Pergunta: Quando o profeta Joel proclama um jejum ao povo de Israel, recomendando que se vestissem de saco, estava recomendando que se abstivesse da comida e da bebida? “Cingi-vos (de saco) e lamentai-vos (afligir), sacerdotes (…) Santificai um jejum, convocai uma assembléia solene, congregai os anciãos, e todos os moradores desta terra, na casa do SENHOR vosso Deus, e clamai ao SENHOR” ( Jl 1:13 -14 ). Não!

O verdadeiro jejum é ‘rasgar’ o coração, e não as vestes. O verdadeiro jejum é converte-se ao Senhor, e não somente vestir-se de pano de saco e abster-se de comida e bebida “E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal” ( Jl 2:13 ).

Converte-se ao Senhor de todo o coração somente é possível quando o homem rasga o coração, ou seja, quando é circuncidado pelo Senhor “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Jl 2:32 ); “Então dali buscarás ao SENHOR teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma”  ( Dt 4:29 ); “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ); “Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto” ( Jl 2:12 compare com Dt 30:6 ).

Quando o povo de Israel estava em grande aflição no Egito por causa de questões socioeconômicas, clamava ao Senhor ( Ex 2:23 ), e era atendido, porém, nas questões espirituais, ou seja, com relação à servidão ao pecado, não clamava ao Senhor. Não tomaram o cálice da salvação ( Sl 116:13 ; Jl 2:32 ).

Todas as vezes que se viam em aperto os filhos de Jacó convocavam um jejum nacional que se resumia em lançar cinzas sobre a cabeça, rasgar as vestes, abster da comida e não ungir a cabeça ( Jz 20:26 ; Ed  8:21 ; Et 4:3 ; Jr 36:9 ), e muitas vezes foram atendidos, como foram atendidos ao serem arrancados do Egito.

Neemias resume a história de Israel demonstrando que Deus sempre via a aflição do povo de Jacó e sempre os livrou ( Ne 9:9 ). Demonstrou também que os filhos de Israel, como nação, sempre eram atendidos, pois quando estavam em aperto se aplicavam as abstinências, aflição física semelhante a impingida pelas ervas amargas antes de serem resgatados do Egito.

Quando comeram ervas amargas e o cordeiro pascal, os filhos de Jacó foram libertos do Egito, agora necessitavam afligir a alma para serem libertos do pecado por serem descendentes de Adão. Mas, o povo não compreendeu a diferença entre ‘afligir a alma’ e ‘afligir o corpo’ com ervas amargas ou jejuns.

Após a nação se ver em descanso, novamente era posta em aperto e se voltavam com jejuns e pano de saco ao Senhor, e muitas vezes foram atendidos como nação ( Ne 9:28 ), mas não aprendiam a lição de que lhes era necessário se voltarem para Deus ( Is 59:1 -4). Não atinavam que Deus também queria libertá-los do pecado, o que demandava o afligir da alma, o que é diferente de afligir o corpo com abstinências de alimentos.

Foi por causa destas questões que Deus instituiu o dia da expiação, ordenando a cada indivíduo em Israel que afligisse a alma em um dia de descanso, para que compreendessem que, além da libertação nacional, Deus queria livrá-los do pecado.

Quando Jesus veio, o povo continuou buscando uma libertação nacional ( Jo 6:15 ), no entanto, Jesus demonstrou que veio libertar os cativos, os contritos, os aflitos de coração, pois o seu reino não é deste mundo ( Is 61:1 ; Jo 18:36 ; Mt 11:28 ).

Os contritos, aflitos, pobres, tristes, cativos são todos os que se convertem a Deus de todo o seu coração, que afligem a alma, o jejum, o clamor e o pranto ( Jl 2:12 ).

Observe o alerta do apóstolo Paulo: “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; proibindo o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças” ( 1Tm 4:1 -3).

Para os cristãos resta o alerta paulino, pois qualquer que proíbe o casamento e que ordena abstinências, o que devem ser recebidos pelos homens com ação de graças, fala mentira, não fala segundo a verdade do evangelho.

Não se pode perder de vista que “… os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos”, e que Deus aniquilará tanto um como o outro ( 1Co 6:13; 1Tm 4:4 ).

Daniel ficou por três semanas sem comer manjar desejável, nem carne e nem vinho, e não ungiu a cabeça com óleo, pois a compreensão da visão o entristeceu muito ( Dn 10:2 -3). A tristeza de Daniel o fez abster-se de alimento, mas tal abstinência não diz do jejum estipulado por Deus, antes foi em conseqüência de ter entendido a visão de Deus.

Moisés não comeu pão e nem bebeu água por quarenta dias e quarenta noites ( Ex 34:28 ). Elias após comer o pão que o corvo lhe trouxe caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe com a força daquela comida ( 1Rs 19:8 ), e o Senhor Jesus foi guiado pelo Espírito até o deserto, e ficou quarenta dias e quarenta noites sem comer, e após, teve fome ( Lc 4:1 -2).

Moisés, Elias e Cristo jejuaram? Se tomarmos a palavra jejuar como sendo ficar sem comer e beber, pode-se ‘dizer’ que eles jejuaram.

Mas, como estavam na presença de Deus, e na presença de Deus há abundância de alegria, somente não comeram, pois lhes era impossível ‘afligir a alma’ diante da alegria verdadeira ( Sl 16:11 ).

Segundo a concepção humana de que jejuar é abster-se de alimento, Moisés e Cristo não jejuaram, mas se considerarmos o verdadeiro jejum descrito em Isaías 58, verso 13, segue-se que jejuaram. Jejuaram, mas não em decorrência de não terem comido ou bebido. Jejuaram por que: a) Não seguir seus próprios caminhos; b) Não falar suas próprias palavras; c) Não fazer a sua própria vontade, e; d) Anunciar as boas novas do evangelho ( Is 58:10 e 13).

Moisés ficou sem comer porque estava na presença de Deus. Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto e, somente após o período de quarenta dias e quarenta noites, teve fome.

O caso de Elias é peculiar, pois ficou sem comer porque o alimento entregue pelo corvo o susteve. A tristeza que Elias sentiu não pode ser confundida com a ordenança de se ‘afligir a alma’, pois a tristeza de Elias era decorrente de um sentimento humano de desilusão, enquanto o ‘afligir da alma’ decorre das questões elencadas acima.

Por não compreenderem o enigma na ordem divina de afligirem a alma em um dia de descanso os judeus faziam propósito de se absterem de alimentos, porém, os três personagens em tela foram atraídos e conduzidos por Deus por um motivo especial.

Os três personagens referenciados acima em momento algum se propuseram ficar sem se alimentar durante quarenta dias e quarenta noites contrariando ou testando as suas estruturas físicas. Nenhum deles tentou a Deus, ou seja, fez um propósito específico de ficar sem comer e beber por um período longo o bastante com o intuito de verificar se Deus estava com eles ou não.

Qualquer propósito no sentido de ficar sem se alimentar por quarenta dias e quarenta noites é o mesmo que tentar a Deus. Qualquer desafio neste sentido é contrário ao mandamento divino, pois o homem não vive de sacrifícios, mas da palavra que sai da boca de Deus “Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus” ( Mt 4:7 ; Dt 6:16 ; Ex 17:7 ).

Saulo, após ficar cego, ficou três dias sem comer e beber ( At 9:9 ), mas ficar sem se alimentar não foi o jejum exigido por Deus no capítulo 58 de Isaías. Após ser contatado pelo Senhor Jesus, Saulo se propôs a obedecê-lo “E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça?” ( At 9:6 ), e aguardou as instruções por três dias sem comer e beber “E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer” ( At 9:6 ).

Enquanto aguardava ser instruído, Saulo passou sem comer por três dias, mas o verdadeiro jejum estava ocorrendo na sua mente, pois o verdadeiro jejum é: a) Não seguir seus próprios caminhos; b) Não falar suas próprias palavras; c) Não fazer a sua própria vontade, e; d) Anunciar as boas novas do evangelho ( Is 58:10 e 13).

Quando lemos citações de jejuns na Bíblia, como o caso de Ana, que apesar de ter oitenta e quatro anos, não deixava o templo e fazia jejuns e orações, deve-se ter em mente as questões culturais própria ao povo de Israel.

Apesar das questões culturais, havia em Israel alguns homens que afligiam a alma, pois aguardavam a consolação de Israel “Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem era justo e temente a Deus, esperando a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele” ( Lc 2:25 ).

Quando se crê no que profetizou o profeta Simeão encontra-se paz e descanso para a alma aflita “Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; Pois já os meus olhos viram a tua salvação, a qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, e para glória de teu povo Israel” ( Lc 2:29 -32).

Como era comum a prática de abstenções de alimentos, votos, sacrifícios, etc., em Israel, e a influencia dos judeus convertidos sobre os demais cristãos foi grande, e tais costumes continuaram sendo aplicados em meio aos primeiros cristãos ( At 13:2 -3 ; At 18:18 ).

Embora tenha orientado os gentios no transcorrer do tempo que não lhes era necessário guardar os costumes dos judeus ( At 21:25 ), muitas práticas foram disseminadas por questões culturais, principalmente àqueles relacionadas a comida e aos dias de festas ( Gl 2:12 ).

Um exemplo claro encontra-se no comportamento do apóstolo Pedro, que apesar de estar comendo com os gentios, quando chegaram os da circuncisão, acabou se deixando envolver em questões culturais, e até Barnabé se deixou levar ( Gl 2:12 ). Tal dissimulação ocorreu quando comiam, que se dirá das abstenções impostas pelos judaizantes em seus dias de festas e jejuns ( Cl 2:11 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo alerta quanto aqueles que proíbem o casamento e que ordenam a abstinência de alimentos ( 1Tm 4:3 ), pois discursam que é possível ao homem render graças a Deus por intermédio destas privações.

O cristão não pode perder de vista que o sacrifício aceito por Deus é o de louvor, ofertado por intermédio de Cristo ( Hb 13:15 ; Rm 12:1 ; Sl 51:15 -17 ; Os 14:2 ).

A melhor recomendação aos que seguem a Cristo foi feita por Ele mesmo: “E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar” ( Mc 2:19 ), pois é certo que o cristão já entrou no descanso proposto, pois Cristo está com ele para todo o sempre. Amém! ( Hb 4:3 ; Mt 28:20 ).

 

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BIBLIOGRAFIA

 

ALMEIDA, João Ferreira de, Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, 4ª impressão, 1996, Editora Vida.

Novo Testamento interlinear grego-português. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004.

 

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1 Corintios 7 – Tristeza para arrependimento

Porém, a despeito da disparidade comportamental existente no seio da comunidade cristã primitiva em decorrência das múltiplas questões de ordem sociocultural pertinentes à época, o apóstolo teve que dar um norte, apontando quais eram os princípios gerais a serem seguidos por todos: judeus, gentios, servos, livres, bárbaros, gregos, etc.


Os termos abatido: oprimidos, quebrantados, perturbados, cansados, tristes, aflito, necessitado, pobre, etc., são utilizados para fazer referencia aos homens que reconhecem as suas impossibilidades diante da condição de sujeição ao pecado “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Para analisar o capítulo 7 da segunda epístola do apóstolo Paulo aos Corintos se faz necessário lembrar algumas peculiaridades pertinentes a uma carta.

Normalmente, tanto os remetentes quanto os destinatários possuem um conhecimento comum, sendo que o conhecimento prévio que compartilham determinará a linguagem empregada na carta.

Uma carta surge da necessidade de comunicação entre pessoas que se conhecem, ou que no mínimo possuem afinidade acerca de um tema específico, portanto, a linguagem empregada na carta terá uma peculiaridade específica, o que torna uma carta completamente diferente de um livro quanto à linguagem.

A linguagem de quem escreve uma carta vai além dos linguísticos pertinente a gramática, visto que há uma carga de impressões ou emoções pessoais que realça a troca de informações entre destinatário e remetente.

Este fenômeno linguístico ocorre com as cartas paulinas, embora o apóstolo Paulo tenha utilizado vários recursos pertinentes à retórica nas suas argumentações. Os conhecimentos prévios que o apóstolo e seus destinatários possuíam acerca da matéria abordada, que é o evangelho de Cristo, possuem nuances que, se o leitor não prestar a devida atenção, não fará uma boa leitura do texto.

 

1 ORA, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.

Após fazer alusão às promessas de Deus exaradas no Antigo Testamento: “E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso”, o apóstolo Paulo reitera aos cristãos a necessidade de todos os cristãos, ele próprio não se exclui da necessidade, ‘purificarem-se’ de toda a imundícia da carne e do espírito.

Da declaração do apóstolo surgem as perguntas: quais são as imundícies da carne e do espírito? É possível ao homem purificar a si mesmo?

Jesus demonstra que a santificação ocorre por intermédio da palavra de Deus: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ), ou seja, pela crença em Cristo: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Ou seja, todos os cristãos, pela fé em Cristo, são remidos do pecado e recebem uma herança imarcescível nos céus, pois todos quantos morrem com Cristo estão justificados do pecado ( Rm 6:7 ), pois são gerados de novo em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Ou seja, a santificação é uma obra exclusiva de Deus, como se lê: “Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27).

É Deus quem promete e se encarrega de santificar o homem, pois somente Ele pode dar um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Quando se lê uma ordem para o homem santificar-se, certo é que o homem deve refugiar-se em Deus, que o santificará: “Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” ( Ez 18:31 ; Ez 11:19 ).

Porém, após o novo nascimento, há um único elemento que não é renovado na nova criatura que demanda sua volitividade : a mente. Daí advém as determinações: transformai-vos pela renovação do vosso entendimento.

Crer em Cristo concede salvação da condenação pertinente à transgressão de Adão, porém, com relação às questões conceituais e comportamentais existe a necessidade de ocorrer uma renovação na mente dos que foram gerados de novo “E vos renoveis no espírito da vossa mente” ( Ef 4:23 ; Rm 12:2 ).

É neste contexto que cabe ao homem regenerado purificar-se a si mesmo. Esta mesma recomendação foi passada a Timóteo pelo apóstolo Paulo, o que dá elementos suficientes para uma interpretação mais segura: “Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra” ( 2Tm 2:21 ).

Enquanto Deus santifica, purifica o homem do pecado (hamartia) de Adão, de onde adveio a condenação de toda a humanidade, a determinação do apóstolo Paulo refere-se a erros a que todos os cristãos estão sujeitos “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo” ( Tg 3:2 ).

Ou seja, deve ser o objetivo dos cristãos o portar-se honestamente em tudo, embora seja passível de erros conceituais e comportamentais “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ).

E qual é o objetivo do cristão? portar-se honestamente? O portar-se honestamente é um elemento humano e não visa a salvação, pois a salvação é providencia de Deus. A honestidade dos cristãos tem em vista os não crentes para que não haja qualquer entrave quanto ao anuncio da mensagem do evangelho “Para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa alguma” ( 1Ts 4:12 ).

Geralmente quando se lê a recomendação para se ‘purificar da imundície da carne e do espírito’, é comum que os leitores abstraiam a ideia que há tipos distintos de imundície e, que estas se subdividem em imundícies pertinentes a carne, e outras, pertinentes ao espírito, mas não é assim.

Carne e espírito são entes distintos na essência, porém, ambos são utilizados pelo apóstolo Paulo para fazer referência a completude humana que o torna indivíduo “Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus” ( 2Co 7:1 ). Compare: “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ).

Portanto, o cristão, como indivíduo, deve purificar-se de toda imundície. O que se entende por imundície na abordagem paulina?

Imundície é tudo o que foge de um viver sossegado, moderado; quem se intrometa no alheio, quem foge do trabalho “Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação (…) Porque também já assim o fazeis para com todos os irmãos que estão por toda a Macedônia. Exortamo-vos, porém, a que ainda nisto aumenteis cada vez mais. E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado” ( 2Ts 4:7- 12).

A imundice, ou mancha, está relacionado a comportamentos inconvenientes, o que é distinto do pecado, que é a própria existência separada de Deus por ter sido gerado segundo a carne de Adão.

A salvação do pecado é obra de Deus que, através de Cristo, concede ao homem um novo coração e um novo espírito, ou seja, é o resultado do novo nascimento, e a imundície diz de comportamento reprovável, inconveniente, no seio da comunidade cristã.

A salvação do pecado torna o homem membro do corpo de Cristo, por meio da fé, que é dom de Deus, ou seja, não se dá por questões morais ou comportamentais. Mas, concomitantemente com o surgimento da igreja (corpo de Cristo) surge a comunidade cristã, que é um misto de povos de todas as nações e línguas, cujo comportamento difere de indivíduo para indivíduo, o que demanda por parte dos seus integrantes o recomendado pelo apóstolo Pedro: “Mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus” ( 1Pe 3:4 ).

Não se pode confundir a aludida ‘carne’ e ‘espírito’ do verso 1 deste capítulo com a carne que é despojada através da circuncisão de Cristo e sepultada no batismo com Cristo, pois a carne despojada através da circuncisão diz da natureza pecaminosa herdada de Adão (natureza de filho da ira, filho da desobediência) e, a carne que trata este capítulo, refere-se ao comportamento reprovável dos homens sob domínio do pecado “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também“ ( Ef 2:3 ); “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:10 -11).

“A vontade do pensamento” de Efésios 2, verso 3 refere-se ao ‘espírito’ de 2 Coríntios 7, verso 1, ou seja, em ambos o sentido de espírito e pensamento remete apenas à psique do homem, e este elemento humano demanda ao próprio homem controlar “… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 ).

Observe que o apóstolo Paulo não se apresenta como legalista impondo ou delineando regras comportamentais, pois tudo é abordado do ponto de vista da recomendação e da exortação, como inicialmente foi acordado no primeiro concílio em Jerusalém “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” ( At 15:28 -29).

É necessário notar que em todas as cartas paulinas não é imposto lei, regras ou normas, pois o apóstolo tinha em vista a necessidade de se deixar claro que o evangelho de Cristo não se constituía e nem possuía elementos normatizadores, legalistas ou prescritivos de comportamento humano, seja em questões legais, éticas ou morais “ROGO-VOS, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados” ( Ef 4:1 ).

Porém, a despeito da disparidade comportamental existente no seio da comunidade cristã primitiva em decorrência das múltiplas questões de ordem sociocultural pertinentes à época, o apóstolo teve que dar um norte, apontando quais eram os princípios gerais a serem seguidos por todos: judeus, gentios, servos, livres, bárbaros, gregos, etc.

A palavra grega traduzida como ‘aperfeiçoar’ aqui, tem vários significados, destacando entre as principais a ideia de: a) ajustar e por em ordem; b) equipar ou habilitar algo para um propósito determinado. Portanto, a ideia do verso não é ‘aperfeiçoar’ a santificação, antes diz de algo acessório, de um ornamento, de se ‘equipar’ o que foi concedido por Deus “Não defraudando, antes mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador” ( Tt 2:10 ).

Ao escrever a Tito o apóstolo Paulo apresenta algumas questões comportamentais, e enfatiza que tais ações são um ‘ornamento da doutrina de Deus’, de igual modo, ao fazer a mesma abordagem com os cristãos de corintos, ele recomenda o ‘aperfeiçoamento’ (ornar) da santificação no temor do Senhor ( 2Co 6:3 ).

Como a ‘palavra de Deus’ é o mesmo que ‘o temor do Senhor’ “Confirma a tua palavra ao teu servo, que é dedicado ao teu temor” ( Sl 119:38 ), e a santificação decorre da palavra de Deus, segue-se que o que o apóstolo recomenda é um comportamento que sirva de ornamento ao temor (doutrina, palavra) do Senhor ( Jo 17:17 ; Sl 34:11 ; Sl 19:9 ).

 

2 Recebei-nos em vossos corações; a ninguém agravamos, a ninguém corrompemos, de ninguém buscamos o nosso proveito.

Neste verso ele retoma uma questão que estava tolhendo a relação de confiança que havia entre o apóstolo e os cristãos de corintos “Não estais estreitados em nós; mas estais estreitados nos vossos próprios afetos” ( 2Co 6:12 ).

O apóstolo roga que o aceitem, não somente por amizade, mas que aceitassem como verdadeiras as suas palavras em seus corações, e apresenta seus motivos: ele não tinha ofendido ninguém, não havia corrompido ninguém e, muito menos, buscava o seu próprio proveito ( 2Co 12:14 ).

 

3 Não digo isto para vossa condenação; pois já antes tinha dito que estais em nossos corações para juntamente morrer e viver.

O apóstolo deixa claro que, com o pedido anterior não estava emitindo um juízo de valor negativo acerca do sentimento dos corintos. Ele não estava censurando, antes buscava demonstrar o quanto os amava.

 

4 Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas tribulações.

Devido ser o pai quanto a fé que os cristãos de corintos professavam, o apóstolo dos gentios era ousado quando se dirigia àquela comunidade cristã “Porque ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo” ( 1Co 4:15 ).

O apóstolo dos gentios demonstra que, quando fazia qualquer alusão acerca dos cristãos de Corintos, o fazia com ousadia e, não tinha receio de se gabar, de se gloriar deles. A consolação do apóstolo resumia-se no fato de os cristãos de corintos suportarem as mesmas aflições que o ele “Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; ou, se somos consolados, para vossa consolação e salvação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos; E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” ( 2Co 1:6 -7).

O apóstolo tinha grande alegria pelo fato de dividirem as mesmas tribulações, visto que esta era uma prova de que estavam firmes no evangelho.

 

5 Porque, mesmo quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum; antes em tudo fomos atribulados: por fora combates, temores por dentro.

Embora a Macedônia parecesse representar um local de descanso, o apóstolo Paulo e os que com ele estavam não puderam descansar, visto que tiveram que defender o evangelho (combate), e suportar o receio e os temores quanto a não terem encontrado Tito em Trôade “Não tive descanso no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito; mas, despedindo-me deles, parti para a Macedônia” ( 2Co 2:13 ; 1Ts 2:2 ).

 

6 Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito. 7 E não somente com a sua vinda, mas também pela consolação com que foi consolado por vós, contando-nos as vossas saudades, o vosso choro, o vosso zelo por mim, de maneira que muito me regozijei.

Esta é a frase mais importante deste capítulo: “Mas Deus, que consola os abatidos (tristes)…”, pois nela está o supedâneo necessário para se interpretar o restante do capítulo.

Quem são os ‘abatidos’ que Deus consola e, que o apóstolo faz referência ?

Certo é que são os pobres de espírito e os tristes do qual Jesus também faz alusão no sermão do monte ( Mt 5:3 -4). Também é uma referência aos tristes e abatidos que Isaías profetizou: “A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” ( Is 61:2 ); “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

Com base nos versículos em destaques conclui-se que consolar os tristes, os que choram, ou os abatidos é ação exclusiva de Deus através da pessoa de Cristo “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

Os termos abatido: oprimidos, quebrantados, perturbados, cansados, tristes, aflito, necessitado, pobre, etc., são utilizados para fazer referencia aos homens que reconhecem as suas impossibilidades diante da condição de sujeição ao pecado “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Somente Deus sara os abatidos de espírito e, os abatidos são aqueles que se refugiam em Deus, que por sua vez serão consolados, instruídos, etc. “Sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas” ( Sl 147:3 ); “E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” ( Is 29:24 ).

Neste verso o apóstolo Paulo enfatiza que é Deus que consola os abatidos, ou seja, esta é a obra que Deus realiza: salvação, porém, ele atribui a Deus o consolo com a vinda de Tito, que era algo que, anteriormente, o deixou contristado.

E não somente isto, o apóstolo também considera um consolo saber que os irmãos sentiram saudades, que prantearam e que zelavam dele, o que o levou a estar regozijado.

Porém, o consolo com a vinda de Tito e com a alegria decorrente do apreço demonstrado pelos irmãos é totalmente diferente do consolo que só Deus opera, visto que este é concernente à salvação e aquele diz de relações interpessoais.

 

8 Porquanto, ainda que vos contristei com a minha carta, não me arrependo, embora já me tivesse arrependido por ver que aquela carta vos contristou, ainda que por pouco tempo.

Sem abordar as questões especulativas da existência de uma carta extraviada que não chegou em nossas mãos, ou sobre o tema que levou os cristãos de corintos a ficarem tristes, o certo é que apóstolo Paulo enfatiza que, com sua carta, havia entristecido os cristãos.

Quando o apóstolo Paulo soube que os cristãos de Corintos ficaram tristes com o conteúdo da carta que enviara, arrependeu-se de ter escrito aquela carta, mas ao verificar que a carta produziu nos cristãos uma mudança de concepção, de entendimento, mudou de postura.

 

9 Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma.

Mas, apesar de ter deixado os cristãos entristecidos (contristados) por causa do conteúdo da carta, naquele momento o apóstolo demonstra estar regozijado, pois todos eles foram contristados de modo que mudaram de concepção (metanóia) acerca da matéria abordada.

A palavra grega ‘metanoeo’ empregada pelo apóstolo Paulo e por outros apóstolos, significa ‘mudança de mente’, ‘mudança de concepção’, ‘mudança de ideia acerca de uma matéria’, o que difere da concepção que foi utilizada ao longo dos séculos, que inicialmente foi adotada na ‘vulgata latina’ por ‘penitencia’ e, até mesmo, difere do que se abstrai da palavra arrependimento em nossos dias, que muitos entendem como ‘abandono do pecado’, ‘tristeza em vista dos erros de conduta’, ‘remorso’, ou ‘mudança de comportamento’.

O apóstolo Paulo deixa claro que não havia ficado contente ao saber que os cristãos se entristeceram (metanoeo), mas que o seu contentamento se dera em função da mudança de pensamento que ocorreu. Ou seja, se a tristeza fosse elemento essencial ao arrependimento segundo Deus, certo é que, em momento algum o apóstolo teria demonstrado arrependimento pelo fato de tê-los contristado “Porque, se eu vos entristeço, quem é que me alegrará, senão aquele que por mim foi contristado?” ( 2Co 2:2 ).

Pelo fato de terem mudado de concepção, o apóstolo enfatiza: “… pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma” (v. 9). Este verso deve ser analisado com base no verso 6: “Mas Deus, que consola os abatidos…” (v. 6).

A tristeza ou a contrição aqui não é algo visível aos olhos dos homens, pois mesmo o apóstolo Paulo diante da tristeza dos cristãos não soube, inicialmente, discernir se a tristeza era segundo Deus ou segundo o mundo, como se observa no verso 10.

Ser contristado segundo Deus ocorre quando se tem contato com a sua palavra “Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos” ( Sl 119:71 e 81 -82). A contrição, a tristeza diz da conscientização que o homem adquire da condição que está após ter contato com o que é anunciado por Deus.

Ser contristado segundo Deus é garantia de que o homem será consolado por Ele, pois é Ele que consola os abatidos e rejeita os altivos “Isto é a minha consolação na minha aflição, porque a tua palavra me vivificou” ( Sl 119:50 ). A tristeza segundo Deus está intimamente ligada à salvação, sendo que o consolo de Deus é salvação.

Ora, se houve a mudança de pensamento após a carta que os contristou, certo é que foram contristados segundo Deus, pois ele corrige a quem recebe por filho “Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho (…) para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:6 -11).

Com este argumento o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos não haviam sofrido nenhum agravo por parte dele, antes que foram devidamente instruídos segundo Deus, o que promoveu a mudança de pensamento.

A tristeza segundo Deus não é promovida por decepção, desilusão, necessidades materiais, desgosto, etc. , ou seja, não deriva de um sentimento que é intrínseco ao homem. Antes possui conexão direta com o jejum estipulado por Deus: o afligir da alma, e não do corpo ( Is 58:5 ).

 

10 Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.

Se os cristãos foram entristecidos por causa da carta, como não sofreram agravo? A resposta esta no verso 10.

Qual é a tristeza segundo Deus que opera a mudança de concepção (metanoeo) para a salvação? É a tristeza abordada no verso 6: “Mas Deus, que consola os ‘abatidos’…” (v. 6).

A ‘tristeza’ segundo Deus que promove a mudança de concepção e produz salvação é uma referência específica acerca dos abatidos de espíritos, dos tristes, dos contritos, etc., que são apresentados nos Salmos, Profetas e na Lei, pois Deus só salva os contritos e abatidos de espírito “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Qualquer um que seja altivo, farto, abastado, rico, que segue seu coração enganoso, pois se estriba na carne, não será salvo por Deus “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:9 ).

A ‘tristeza’ provocada pela carta do apóstolo Paulo operou arrependimento nos cristãos, mas tal arrependimento não tinha em vista a salvação da condenação eterna. Eles foram contristados e se arrependeram de algo que não estava diretamente atrelado à salvação, mas que poderia comprometê-los.

O apóstolo deixa claro neste verso que a contrição, o espírito abatido, a tristeza segundo Deus opera uma mudança de concepção para que o homem possa ser salvo, mas da salvação ninguém se arrepende.

Enquanto a tristeza segundo Deus opera a salvação, a tristeza segundo o mundo opera a morte, pois tal tristeza diz de um sentimento promovido pelo ódio, inveja, contenda, porfia, etc.

 

11 Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio.

O fato de eles terem sido contristados em decorrência da carta, segundo a contrição proveniente de Deus, tornou-os cuidadosos, diligentes, atenciosos. A mudança de concepção fez com que propagassem a discussão. Ficaram inflamados. Temeram. Foram invadidos pelo sentimento saudosista. Defenderam o proposto.

Ou seja, a atitude deles demonstrou que, naquela questão abordada na carta não estavam envolvidos!

 

12 Portanto, ainda que vos escrevi, não foi por causa do que fez o agravo, nem por causa do que sofreu o agravo, mas para que o vosso grande cuidado por nós fosse manifesto diante de Deus. 13 Por isso fomos consolados pela vossa consolação, e muito mais nos alegramos pela alegria de Tito, porque o seu espírito foi recreado por vós todos.

O apóstolo Paulo destaca que fora mal compreendido, pois a carta não tinha em vista quem fez ou quem sofreu o dano. Ele corrige a distorção causada pela carta anterior demonstrando que o foco era evidenciar o cuidado que possuíam pelos apóstolos, especialmente pelo apóstolo Paulo e os que acompanhavam-no em seu ministério.

Que diante de Deus fosse manifesto e os irmãos pudessem visualizar o quanto tinham em conta os apóstolos de Cristo.

Em vista da apologia, indignação, temor, saudades, etc., o apóstolo sentiu-se revigorado, consolado, sem falar na alegria de Tito, que alem de contagiante, demonstrava o cuidado que tiveram por Ele.

 

14 Porque, se nalguma coisa me gloriei de vós para com ele, não fiquei envergonhado; mas, como vos dissemos tudo com verdade, também a nossa glória para com Tito se achou verdadeira. 15 E o seu entranhável afeto para convosco é mais abundante, lembrando-se da obediência de vós todos, e de como o recebestes com temor e tremor. 16 Regozijo-me de em tudo poder confiar em vós.

O apóstolo Paulo enfatiza que havia dito a Tito boas coisas a respeito dos corintos, e que eles, por sua vez, não o decepcionaram. De tudo que o apóstolo gloriou-se acerca deles, Tito confirmou ser verdadeiro, o que prendeu afetivamente Tito.

Tito destacou que os irmos eram obedientes e como o receberam, o que promoveu alegria e a satisfação do apóstolo dos gentios.




Dar esmolas torna o homem limpo diante de Deus?

O entendimento de que Jesus recomendou dar esmola para se salvar possivelmente decorre de um posicionamento doutrinário equivocado do tradutor, pois o versículo não reflete a ideia bíblica. Não digo que o tradutor tenha se posicionado desta forma por dolo, antes por comungar de um ideal que acabou interferindo no seu julgamento no momento da tradução.

 


 “Antes daí esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo” ( Lc 11:41 )

Jesus recomendou os fariseus a darem esmolas? Dar esmolas torna o homem limpo diante de Deus?

Como interpretar o que Jesus disse? Fazendo como o apóstolo Paulo: comparando as coisas espirituais com as espirituais “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” ( 1Co 2:13 ).

Lucas 11, verso 41 não é o único verso bíblico que parece recomendar que se dê esmola para que o homem se torne limpo diante de Deus: “Vendei o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói” ( Lc 12:33 ).

Seria o ato de dar esmola um ato de penitência (arrependimento)?

A penitência segundo a Igreja Católica Apostólica Romana possui várias facetas com caraterísticas semelhantes a uma transação de ordem jurídica, pois propõe ‘reparar’ o mal praticado pelo homem através de ações como persistir em rezar, praticar boas ações, a leitura, a meditação, a vigília, autoflagelação, o jejum e a esmola.

Há um tempo a se praticar a esmola, como na Quaresma e no Advento? Através da esmola se dá testemunho de amor fraterno (caritas)? É uma pratica de justiça que agrada a Deus?

Segundo São Roberto Belarmino (1542-1621), teólogo católico e cardeal inquisidor, há cinco vantagens em se dar esmola:

  • É reparação por pecados cometidos;
  • Acumulasse méritos para a vida eterna;
  • Permite o perdão dos pecados;
  • Aumentam a confiança em Deus;
  • Inspira os pobres a rezarem por seus benfeitores.

Mas, o que diz a Bíblia sobre ficar limpo?

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 ).

Esta é a observação que Jesus Cristo fez aos seus discípulos quando declarou ser a videira verdadeira e os discípulos as varas. Ele afirmou categoricamente que os seus discípulos estavam limpos por causa da sua palavra, ou seja, Jesus não instituiu o ato dar esmolas como ato que torna o homem limpo diante de Deus.

No evento em que Jesus lava os pés dos discípulos, o apóstolo Pedro estava resoluto em não deixar que o Mestre lavasse os seus pés, mas em seguida Jesus alertou: “Se eu te não lavar, não tens parte comigo” ( Jo 13:8 ).

Só é possível ter comunhão com Cristo quando o homem é lavado por Ele por meio da sua palavra, como se lê: “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” ( 1Co 6:11 ); “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa” ( Hb 10:22 ).

Estava previsto pelos profetas que, somente quando Deus aspergisse água limpa sobre os homens é que ficariam limpos de todas as imundícies “Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” ( Ez 36:25 ).

As palavras de Cristo é espírito e vida ( Jo 6:63 ), semente incorruptível ( 1Pe 1:23 ), o que reforça a ideia de João 15, verso 3, conforme estipulado na lei como sombras dos bens futuros: “Porém a fonte ou cisterna, em que se recolhem águas, será limpa, mas quem tocar no seu cadáver será imundo. E, se dos seus cadáveres cair alguma coisa sobre alguma semente que se vai semear, será limpa” ( Lv 11:36 -37).

A semente e as fontes de águas são limpas, mesmo que algo imundo as tocasse. O evangelho de Cristo é semente e Cristo é a fonte de água viva. Se a palavra de Cristo é o que limpa o homem, segue-se que dar esmola não é o que torna o homem limpo diante de Deus.

Quando o Senhor Jesus deu determinação: “Antes daí esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo” ( Lc 11:41 ), era convidado de um fariseu em um jantar. Mas, ao entrar no recinto, Jesus se assentou à mesa para comer, e o fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não lavou as mãos antes de comer.

A censura do fariseu, por Jesus não ter lavado as mãos, é conforme o alerta que consta em Provérbios, pois como Jesus não agiu segundo o que agradava o fariseu, este desprezou o Mestre por excelência “O tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração ( Pv 18:2 ).

Jesus não se intimidou diante da admiração (censura), nem por ser convidado do fariseu, e passou a censurar todos os fariseus: “Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade. Loucos! O que fez o exterior não fez também o interior?” ( Lc 11:39 -40).

O que agradava o fariseu? Cumprir as tradições dos anciões “Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem pão” ( Mt 15:2 ). Jesus bem sabia que o temor dos fariseus consistia em cumprir prescrições dos homens “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

Quem eram os fariseus? Eram integrantes de uma Seita do judaísmo que provavelmente teve inicio depois do exílio. Alegavam seguir, além dos livros do Antigo Testamento, a tradição oral dos anciões. Observavam religiosamente ritos e formas como lavagens cerimoniais, jejuns, orações e esmolas. Mas, Jesus deixou claro que, apesar dos cerimoniais, jejuns, orações e esmolas, ninguém cumpria a lei: “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ).

Jesus demonstra que era inútil a limpeza externa do corpo, sendo que o interior dos fariseus estava imundo. Como o imundo pode limpar algo sem antes contaminá-lo? ( Jó 14:4 ) Segundo a lei, tudo que o imundo tocasse também ficava imundo.

Limpar copos e pratos, lavar as mãos, tomar banho, etc., não limpa o homem, pois o que contamina o homem está no interior “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade” ( Mt 23:25 ); “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem” ( Mt 15:18 ).

E o que Jesus recomenda? Que os fariseus limpassem primeiro o interior do homem, para que o exterior também fique limpo “Fariseu cego! limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo” ( Mt 23:26 ).

O copo e o prato que Jesus faz referência simbolizam o homem, pois são tipos de vaso. Quem fez o homem, fez o interior e o exterior, ou seja, os fariseus precisavam conhecer o ensinamento do apóstolo Paulo: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ).

Se Deus faz vasos para honra e vasos para desonra, não há nada que os homens façam para mudar sua condição diante de Deus.

É Deus que faz vasos, tanto para honra, quanto para desonra, de modo que o homem (vaso) precisa crer na palavra de Deus que o torna limpo, pois o homem será quebrado (morte com Cristo), e da mesma massa Deus fará um vaso novo (novo nascimento) para honra. Como os homens são vasos, segue-se que, os vasos (copos e pratos) para desonra são feitos segundo a semente de Adão, e os vasos para honra, através do último Adão, a semente incorruptível, que é Cristo ( 1Pe 1:22 -23).

Ao dizer: “Antes daí esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo” ( Lc 11:41 ); Vendei o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói” ( Lc 12:33 ), Jesus não estava orientando os fariseus a darem esmolas.

A determinação de Jesus é a mesma dada ao Jovem rico: “Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me ( Mt 19:21 ).

A vontade do jovem era ser perfeito, e segundo o que Deus disse a Abraão, para o homem ser perfeito é necessário andar na sua presença “SENDO, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” ( Gn 17:1 ); “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” ( Dt 18:13 ); “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” ( Mt 5:48 ); “O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre” ( Lc 6:40 ).

Como o jovem rico alcançaria a perfeição? No ato de vender os seus bens e dar aos pobres, ou em obedecer ao seu mestre seguindo as suas determinações?

Jesus certa feita orientou os fariseus a aprenderem o que significava: misericórdia quero! “Ide, porém, e aprendei o que significa: ‘Misericórdia quero, e não sacrifício’. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ); “Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes” ( Mt 12:7 ).

O que significa misericórdia segundo a Bíblia? Misericórdia é obediência, conforme se depreende da leitura desta passagem bíblica: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” ( Os 6:6 ); “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

Jesus não estava interessado nas riquezas materiais do jovem rico, e nem em acabar com a pobreza em Israel, pois Ele mesmo evidenciou o disposto na lei: “Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes” ( Jo 12:8 ; Dt 15:11 ), antes em que o jovem rico o obedecesse se fazendo servo de Cristo.

A determinação aos fariseus e ao jovem rico é a mesma contida na seguinte parábola: “Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo” ( Mt 13:44 ).

Para alcançar o reino dos céus é necessário aos homens se desfazerem de todo conceito que possuem em como se salvar. É necessário aprender com Cristo, o mediador entre Deus e os homens que trouxe o ‘conhecimento’ do que é exigido por Deus para o homem ser salvo ( Is 53:11 ).

O apóstolo Paulo foi alguém que vendeu tudo, ou que deu tudo aos pobres, como se lê: “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” ( Fl 3:7 -9).

Quais as riquezas que o apóstolo Paulo possuía? Ele descreveu anteriormente: “Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” ( Fl 3:4 -6).

Onde estiver o tesouro do homem, lá estará o seu coração. No caso dos fariseus e do apóstolo Paulo, o tesouro que possuíam era a tradição dos anciões, era a circuncisão do prepúcio, era ser descendente da carne de Abraão, etc. Este era o tesouro que retinha os corações dos fariseus incrédulos diante da mensagem de Cristo “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” ( Mt 6:21 ).

Os fariseus possuíam as mesmas riquezas que o apostolo abriu mão para aceitar a Cristo como o Filho de Davi, o Filho do Deus vivo que havia de vir ao mundo. Era necessário aos fariseus disporem (venderem) de todos os seus conceitos, abrirem mão de tudo o que entendiam e seguiam para poder abraçar a Cristo. É por isso que Jesus disse que é difícil àqueles que têm riquezas entrar no reino dos céus: “E os discípulos se admiraram destas suas palavras; mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!” ( Mc 10:24 ).

Uma riqueza que os filhos de Israel possuíam e que não queriam abrir mão era a concepção de que eram filhos de Abraão, e quando Jesus propôs liberdade aos seus seguidores, caso permanecessem no seu ensinamento, declararam que nunca foram escravos de ninguém “Responderam eles: Somos descendentes de Abraão, e jamais fomos escravos de ninguém. Como é que dizes que seremos livres?” ( Jo 8:33 ).

Observe na parábola a seguir qual deve ser a atitude de todo homem diante do tesouro que é cristo: “Outrossim, o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a” ( Mt 13:45 -46).

É de bom alvitre que o homem abra mão de seus bens para adquirir Cristo, o reino dos céus. É melhor perder tudo aqui para que o homem possa ganhar Cristo “Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?” ( Mt 16:25 -26).

Além de darem esmolas, os fariseus davam o dízimo de tudo, até das pequenas coisas como a hortelã, a arruda e todas as hortaliças, porém, continuavam imundos diante de Deus ( Lc 11:42 ).

O termo grego traduzido por esmola é:

“1654 ελεημοσυνη eleemosune de 1656; TDNT – 2:485, 222; n f 1) misericórdia, piedade 1a) esp. como exibido no dar esmola, caridade 2) o benefício em si mesmo, doação ao pobre, esmola” Dicionário Bíblico Strong.

Jesus recomendou dar donativos aos pobres neste versículo? Não!

“Antes dai esmola do que tiverdes, e eis que tudo vos será limpo. Mas ai de vós, fariseus, que dizimais a hortelã, e a arruda, e toda a hortaliça, e desprezais o juízo e o amor de Deus. Importava fazer estas coisas, e não deixar as outras” ( Lc 11:41 ).

Ora, o entendimento da exortação de Cristo foi comprometido no texto por causa da dinâmica da linguagem, visto que o hebraico rabínico verte o substantivo tsedagah (justiça) por ‘esmolas’, o mesmo que ‘demonstrar misericórdia’.

“No Antigo Testamento conhecemos o nome Melquisedeque (“rei da justica”). Significado mais limitado da raiz e encontrado no árabe (um idioma semítico do sul): “veracidade” (de proposições). No hebraico rabínico, o substantivo tsedaqah significa “esmolas” ou “demonstrações de misericórdia”” Dicionário VINE, pág. 162.

Após a instrução inicial: ‘Antes dai esmola do que tiverdes…’, Jesus observou que eles eram rigorosos em suas práticas religiosas, pois eram cuidadosos em dizimar até nas mínimas coisas. Porém, apesar do rigor até com as pequenas coisas, deixavam de exercer o principal: a misericórdia. Dai a reprimenda: importa fazer estas coisas (dizimais a hortelã, e a arruda, e toda a hortaliça), e não desprezar o juízo e o amor de Deus.

ESMOLA – “eleémosuné (ἐλεημοσύνη), relacionado com eleemon, “misericordioso”, significa: (a) “misericórdia, piedade, particularmente em dar esmolas” (Mt 6.1,2,4; At 10.2; 24.17); (b) o próprio ato de caridade, as “esmolas” — o efeito pela causa (Lc 11.41; 12.33; At 3.2,3,10; 9.36; 10.2,4,31-‘H Nota: Em Mt 6.1, traduzindo dikaiosune, de acordo com os textos mais autênticos, temos “justiça” (ARA)” Dicionário VINE, pág. 613.

O que os fariseus deviam por em prática era o juízo, e não fazer doações financeiras, pois o conceito de ‘justiça’ decorre da obediência a Deus, que é misericórdia “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” ( Mt 23:23 ).

“A palavra “justiça” também engloba tudo o que Deus espera do Seu povo. Os verbos associados com “justiça” indicam a praticabilidade deste conceito. A pessoa julga, trata, sacrifica e fala com justiça: e a pessoa aprende, ensina e busca a justiça. Fundamentado num relacionamento especial com Deus. O santo do Antigo Testamento pedia a Deus que o tratasse com justiça: “O Deus, da ao rei os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei” (SI 72.1). A Septuaginta dá às seguintes traduções: dikaios (“aqueles que são retos, justos, íntegros, que se conformam com as leis de Deus”): dikaiosune (“justiça, retidão” ): e eleemosune (“escritura de terra, esmola, doação de caridade”) Dicionário VINE, pág. 163.

O que Deus estabeleceu na lei? “E o SENHOR nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos, que temêssemos ao SENHOR nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje. E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” ( Dt 6:24 -25). O que era justiça para Israel? O cuidado em cumprir todos os mandamentos como Deus ordenou.

Mas, passou-se o tempo, e o profeta Isaías protestou contra Israel dizendo: “CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão, e à casa de Jacó os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça, e têm prazer em se chegarem a Deus…” ( Is 58:1 -2). Se a justiça para Israel era cumprir o que Deus ordenou, por que perguntava cada dia pelos direitos da justiça? Porque confundia ‘esmolas’ com serem ‘misericordiosos’. Não aprenderam a lição: misericórdia quero, e não sacrifício.

“O termo dikaiosune e encontrado nas declarações do Senhor Jesus, aludindo: {a) a tudo o que e direito ou justo em si mesmo, ao que quer que se conforme com a vontade revelada de Deus (Mt 5.6.10,20: Jo 16.8,10); (b) a tudo o que foi designado por Deus para ser reconhecido e obedecido pelo homem (Mt 3.15; 21.32); (c) a soma total das exigências de Deus (Mt 6.33); (d) aos deveres religiosos (Mt 6.1; em oposição a doação de esmolas, o dever do homem para com o próximo Mt 6.2-4; a oração, o seu dever para com Deus, Mt 6.5-15; ao jejum, o dever de autocontrole Mt 6.16-18)” Dicionário VINE, pág. 949.

Entender que Jesus recomendou aos homens fazer doações financeiras para se tornarem limpos diante de Deus, ou que ‘esmola’ é o mesmo que ‘paenitentia’ é desfocar-se da proposta de Cristo, que é o juízo, a misericórdia e a fé.

“πλὴν τὰ ἐνόντα δότε ἐλεημοσύνην καὶ ἰδοὺ πάντα καθαρὰ ὑμῖν ἐστιν” ( Lc 11:41 )

“Porém as coisas interiores dai (como) esmola, e eis todas as coisas puras para vós são” ( Lc 11:41 )

O sentido do verbo grego διδωμι (didomi) não deve ser entendido como ‘dar’, ‘conceder algo a alguém’, antes deve ser entendido como ‘dar-se a alguém’, ‘segui-lo como um líder ou mestre’, como foi a ordem que Jesus deu ao jovem rico: ‘vem, e segue-me’ ( Mt 19:21 ).

E quais são ‘as coisas interiores’ que se deve ‘dar’? O que está dentro, a alma.

“1751 ενειμι eneimi de 1772 e 1510; v 1) estar em, o que está dentro, i.e. a alma” Dicionário Bíblico Strong

Jesus estava ensinando aos fariseus como se purificarem: entregando a alma a Cristo, seguindo-O como mestre, pois esta é a justiça de Deus, a misericórdia que deviam aprender e exercer “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ); “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa” ( Mt 5:10 -11); “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” ( Rm 10:3 -4; Rm 3:22 ; Fl 3:9 ; Is 42:21 ).

Cristo é a justiça pela qual os seus discípulos seriam perseguidos, a justiça que excedia a dos fariseus “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ); “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” ( Mt 6:33 ).

Os fariseus com os seus rituais de purificação limpavam o exterior do ‘copo’ e do ‘prato’, mas o interior deles permanecia imundo “E o Senhor lhe disse: Agora vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade” ( Lc 11:39 ).

Como o interior era imundo, nada que ensinavam era bom, pois: “O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca” ( Lc 6:45 ); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Jesus identifica os fariseus pelo fruto dos seus lábios, pois diziam temer a Deus, mas o temor deles era somente mandamento de homens “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto. Porque cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos” ( Lc 6:43 -44); “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

Ora, o coração que se afasta para longe de Deus é mau, como se lê: “Um coração perverso se apartará de mim; não conhecerei o homem mau” ( Sl 101:4 ); “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” ( Hb 3:12 ). Os fariseus viam muitas coisas, mas não praticavam: “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves. O SENHOR se agradava dele por amor da sua justiça; engrandeceu-o pela lei, e o fez glorioso” ( Is 42:19 -21).

Jesus não estava maldizendo os fariseus ao chamá-los de ‘tolos’. Não!

Diante da atitude descabida dos fariseus, Jesus questiona: “Loucos! Quem fez o exterior não fez também o interior?“ ( Lc 11:40 ). Ora, o ‘louco’, o ‘néscio’ é aquele que não considera. Louco é um modo de fazer referencia aos filhos de Israel “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” ( Sl 94:8 ; Dt 32:6 ).

O que os fariseus precisavam compreender? Que era sem valor diante do Deus da Verdade parecerem justos aos olhos dos homens, visto que interiormente estavam plenos de falsidades e iniquidades “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” ( Mt 23:28 ). Eram verdadeiros sepulcros caiados (pintados) “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” ( Mt 23:27 ).

Mas, se os fariseus seguissem a Cristo com Senhor e Mestre pondo em prática o mais importante da lei: amar a Deus sobre todas as coisas, seriam limpos interiormente “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ).

“Aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes. E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele; E que amá-lo de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios. E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém ousava perguntar-lhe mais nada” ( Mc 12:28 -34).

O reino de Deus não está longe do homem que entende que amar a Deus de todo o coração é mais do que todos os holocaustos e sacrifício. Mas, aquele que crê que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, passou da morte para a vida, pois está em Deus e Deus n’Ele ( 1Jo 4:15 ), pois amou a Deus ( Jo 14:21 e 23-24; Os 6:6 ) cumprindo o seu mandamento ( 1Jo 3:23 ). Ficou purificado do pecado pela lavagem da regeneração ( 1Pd 1:2 -23).

 

“Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 );

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 );

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele (…) Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” ( Jo 14:21 e 23-24);

“Porque eu quero a misericórdia (amor), e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” ( Os 6:6 );

“Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:22 -23).