O que é ‘tomar o nome de Deus em vão’?

O verbo hebraico נשא utilizado para proibir a utilização do nome de Deus em vão traz no seu bojo a ideia de ‘levar’, ‘carregar’, ‘suportar’, ‘sustentar’, ‘aguentar’.


O que é ‘tomar o nome de Deus em vão’?

“Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão” (Salmos 139:20);

“Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êxodo 20:7).

 

Introdução

Quanta celeuma surgiu da má leitura e interpretação desse verso!

Das inúmeras questões entorno do nome de Deus, todas tiveram origem no medo que os judeus nutriram quanto a transgredirem o terceiro mandamento que consta do Decálogo.

Por causa do terceiro mandamento, o termo hebraico [1]יהוה deixou de ser pronunciado entre os filhos de Israel, sendo substituindo por outros termos, como: ‘Senhor’, ‘Adonai’, ‘Eterno’, etc., e a pronuncia acabou se perdendo ao longo do tempo.

Como a forma da expressão do termo hebraico יהוה deixou de ser utilizada há milhares de anos pelos judeus e, a pronúncia correta da língua dos Cananeus (que deu origem ao hebraico original), em nossos dias é uma língua quase que extinta, perdeu-se a forma correta ou a mais satisfatória de dicção do termo hebraico יהוה, visto que durante a pronúncia de qualquer palavra há inúmeras combinações que dá origem a um som único, o que depende do posicionamento da língua, lábios, entonação, expiração, etc.

Mas, questões de dicção à parte, no que consiste utilizar[2] o nome de Deus em vão?

 

O nome de Deus

O cuidado de Deus ao estabelecer: ‘Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão’ (Êxodo 20:7), era com a dicção do seu nome?  Se os filhos de Israel não articulassem com uma entonação especifica e não pronunciassem de forma clara e precisa o nome de Deus estariam tropeçando nesse mandamento? Os gagos não conseguiriam viver a altura desse mandamento? Os mudos seriam os únicos capazes de cumprir tal mandamento? Este mandamento visava um cuidado para com um único terno hebraico יהוה, ou tinha em vista um cuidado de Deus para com o homem?

O objetivo deste artigo não é menosprezas as questões linguísticas, pois nas questões seculares e acadêmicas, a dicção e a escrita são de importância ímpar. Das regras linguísticas dependem a transmissão, o entendimento e a preservação do pensamento humano.

Por atribuirmos valor sentimental a nomes, William Shakespeare escreveu em uma de suas famosas peças, o seguinte: “O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem.” William Shakespeare, Romeu e Julieta.

Embora o nome que se nomeia pessoas e coisas tenha importância no convívio social, não é de tais valores que Deus estava cuidando ao estabelecer o terceiro mandamento aos filhos de Israel. Para compreender o mandamento de Deus, não podemos nos socorrer de pensamentos e valores humanos, e sim da própria Escritura.

Se fosse possível utilizarmos a pronuncia correta do termo hebraico יהוה, na língua dos Cananeus, ou no aramaico, ou no hebraico original, a natureza da divindade não sofreria alteração alguma, assim como se a rosa tive outro nome não teria alteração alguma no seu perfume. Deus é Deus, ou seja, onipresente, onisciente, onipotente e imutável, se o homem souber ou não a pronuncia do termo יהוה.

Devemos entender que, ao estabelecer o terceiro mandamento, Deus não estava estabelecendo um mantra, ou uma palavra de conteúdo mágico que  fosse imprescindível uma correta dicção para se efetuar um encantamento.

Quando Deus se apresenta aos filhos de Israel, não deu ênfase ao termo יהוה, e sim a sua condição imutável: ‘Sou o que Sou’, o que, na essência, denota a fidelidade de Deus. Os filhos de Israel poderiam confiar n’Ele, pois Ele é o mesmo eternamente, pois eternamente é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, e de todos quantos O obedecem.

“E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós; E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome ETERNAMENTE, e este é meu memorial de geração em geração” (Êxodo 3:14 -15);

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Deuteronômio 7:9);

“Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2 Timóteo 2:13).

Deus não estava dando um mandamento que preservasse a grafia e a dicção do seu nome, como se depreende da tradição religiosa dos judeus, especialmente a sua tradição esotérica e mística. Se esse era o objetivo do mandamento, não foi alcançado, pois por medo de transgredirem o terceiro mandamento, a correta pronuncia perdeu-se, consequentemente, tais elementos não eram imprescindíveis.

 

Não tomarás o nome de Deus em vão

“Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão” (Salmos 139:20).

‘Tomar’ o nome de Deus em vão vai muito além de pronunciá-Lo desavisadamente em interjeições.  O verbo hebraico נשא utilizado para proibir a utilização do nome de Deus em vão traz no seu bojo a ideia de ‘levar’, ‘carregar’, ‘suportar’, ‘sustentar’, ‘aguentar’.

Esse mandamento não era um cuidado a ser observado somente no momento de uma fala, antes era um mandamento para ser vivido de modo pleno e perene pelos filhos de Israel. Como? Quando dissessem: “Somos o povo de Deus”, nessa fala havia um encargo a ser suportado, levado, sustentado, etc., ou seja, deveriam obedecer a Deus de fato.

Verifica-se que há duas naturezas de mandamentos, de modo que é possível resumi-los em dois:

“E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mateus 22:37 -40).

Deus é o Deus que havia arrancado os filhos de Israel do Egito, da casa da servidão (Ex 20:2), portanto: a) não podiam ter outros deuses (Ex 20:3); b) não podiam confeccionar imagens de esculturas, e c) nem reverenciar ou servir a outros deuses, e em seguida é dado o motivo.

“ENTÃO falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.

Não terás outros deuses diante de mim.

Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.

Não te encurvarás a elas nem as servirás;

porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Ex 20:1 -6).

Após as proibições estabelecidas por Aquele que tirou os filhos de Israel do Egito, o motivo pelo qual não podiam ter, fazer, reverenciar ou servir outros deuses é patente: Deus é Deus zeloso, vez que visita a iniquidade daqueles que O odeiam, ou seja, que não obedecem ao seu mandamento (Ex 20:5).

A extensão do zelo de Deus ao visitar a iniquidade dos que O odeiam pode ser mensurado no fato de Deus não esquecer a iniquidade do transgressor, visitando-a indefinidamente (até a terceira e quarta geração).

Deus também se apresenta como Aquele que exerce misericórdia abundante (até mil gerações) para com aqueles que O amam, ou seja, que guardam a seu mandamento (Ex 20:6).

Através do contexto, percebesse que os termos traduzido por ‘amor’ e ‘ódio’ não se referem a sentimentos, e sim, atos frente ao mandamento de Deus: obediência e desobediência. Observe:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mateus 6:24).

Após enfatizar o primeiro e grande mandamento, vem máxima e o seu motivo:

“Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Ex: 20:7).

Embora Deus tivesse tirado os filhos de Israel do Egito como que sobre asas de águia (Ex 19:4), os filhos de Israel ainda não eram o povo de Deus, pois só seriam propriedade peculiar, um reino sacerdotal e povo santo se diligentemente ouvissem a voz de Deus e guardassem a sua aliança.

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel” (Ex 19:5- 6).

De nada adiantava dizer: – “Sou descendência de Abraão”, e não obedecer a Deus como fez Abraão. Dizer: ‘Sou descendência de Abraão’ e não ter a fé de Abraão é tomar o nome de Deus em vão, pois Deus é Deus de quem tem a fé de Abraão.

De nada adianta dizer: – “Somos povo de Deus”, e não cumprir o juramente solene que fizeram perante Deus, dizendo: “Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos” (Ex 19:8), pois alegar ‘somos povo de Deus’ sem obedecer à aliança é tomar o nome de Deus em vão.

“OUVI isto, casa de Jacó, que vos chamais do nome de Israel, e saístes das águas de Judá, que jurais pelo nome do SENHOR, e fazeis menção do Deus de Israel, mas não em verdade nem em justiça. E até da santa cidade tomam o nome e se firmam sobre o Deus de Israel; o SENHOR dos Exércitos é o seu nome” (Isaías 48:1 -2).

Tomar o nome de Deus em vão é nomear a si mesmo do nome de Israel. É fazer menção do Deus de Israel, mas não em verdade e nem em justiça. É tomar o nome da cidade santa Jerusalém e firma-se sobre o Deus de Israel, mas sem obedece-Lo de fato. É firmar-se em palavras falsas, e apontar para o templo de Salomão como garantia, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor.

“Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do SENHOR, templo do SENHOR, templo do SENHOR é este” (Jeremias 7:4).

Ao se autodenominarem povo de Deus, os filhos de Israel tomavam o nome de Deus em vão, pois por causa deles o nome de Deus era blasfemado entre os gentios. Os gentios desconheciam o fato de que os filhos de Israel foram levados cativos por causa de suas transgressões, e assim, os judeus deram aso para que os gentios blasfemassem de Deus aos vê-los sendo punidos.

“E agora, que tenho eu que fazer aqui, diz o SENHOR, pois o meu povo foi tomado sem nenhuma razão? Os que dominam sobre ele dão uivos, diz o SENHOR; e o meu nome é blasfemado incessantemente o dia todo” (Isaías 52:5; Romanos 2:24).

As Escrituras dá testemunho de Abraão de que Ele foi amigo de Deus (2 Cr 20:7), isto porque Ele era obediente a Deus.

“Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” (Gênesis 26:5);

“Porventura, ó nosso Deus, não lançaste fora os moradores desta terra de diante do teu povo Israel, e não a deste para sempre à descendência de Abraão, teu amigo?” (2 Crônicas 20:7);

“Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” (João 15:14).

Mas, qualquer que não obedece a Deus, constitui-se inimigo de Deus, portanto, toma o nome de Deus em vão.

“Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão” (Salmos 139:20).

Os filhos de Israel, ao rejeitarem o Cristo, se fizeram inimigos de Deus, de modo que se cumpriu a palavra que diz:

“Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Miqueias 7:6).

A pretexto de uma lei, julgaram e condenaram o inocente, pois falaram malvadamente contra Deus:

“Porventura o trono de iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei? Eles se ajuntam contra a alma do justo, e condenam o sangue inocente (Salmo 94:20 -21).

Embora os filhos de Israel não pronunciassem o nome de Deus, toda via tomavam o nome de Deus em vão, pois eram contados como transgressores e pecadores, como se lê:

“CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão, e à casa de Jacó os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça, e têm prazer em se chegarem a Deus” (Isaías 58 :1 -2).

Embora Deus determinasse aos profetas que clamassem em alta voz a transgressão dos filhos de Israel, nada parecia adiantar, pois rotineiramente a cada dia procuravam por Deus, e em saber os seus mandamentos como se fosse um povo que praticasse a justiça.

“E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ezequiel 33:31);

Mas, se esqueciam de que não são justos os que ouvem a lei, e sim quem pratica!

“Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados” (Romanos 2:13);

“Ora Moisés descreve a justiça que é pela lei, dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas” (Romanos 10:5).

‘Tomar o nome de Deus em vão’ é aproximar-se de Deus com a boca, honrando-O somente com os lábios, mas o coração se afasta de Deus, pois o que seguem são preceitos de homens!

“Todavia lisonjeavam-no com a boca, e com a língua lhe mentiam. Porque o seu coração não era reto para com ele, nem foram fiéis na sua aliança” (Salmo 78:36 -37);

“Plantaste-os, e eles se arraigaram; crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém longe dos seus rins” (Jeremias 12:2);

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Ao dar mandamentos para que os filhos de Israel não ter, fazer, reverenciar ou servir outros deuses, Deus estava cuidando para que não se contaminassem com os deuses de outras nações, mas ao exortar para não tomarem o nome de Deus em vão, Deus estava instruindo para que não fossem idolatras e feiticeiros como foi Saul, que diante do mandamento de Deus preferiu fazer a sua própria vontade.

“Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1 Samuel 15:22 -23);

“Mas não ouviram, nem inclinaram os seus ouvidos, antes andaram cada um conforme o propósito do seu coração malvado” (Jeremias 11:8);

“Antes andaram após o propósito do seu próprio coração, e após os baalins, como lhes ensinaram os seus pais” (Jeremias 9:14);

“Este povo maligno, que recusa ouvir as minhas palavras, que caminha segundo a dureza do seu coração, e anda após deuses alheios, para servi-los, e inclinar-se diante deles, será tal como este cinto, que para nada presta” (Jeremias 13:10);

“Porque rejeitaram os meus juízos, e não andaram nos meus estatutos, e profanaram os meus sábados; porque o seu coração andava após os seus ídolos” (Ezequiel 20:16).

Há um perigo em o homem ter, fazer, reverenciar ou servir a outros deuses, mas o mandamento para não tomar o nome de Deus em vão visa guardar o homem de um risco maior: se colocar a serviço do seu próprio ventre!

“Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:18 -19).

Enquanto os mestres de Israel proibiam que se pronunciasse o nome de Deus a pretexto de não transgredirem um mandamento, pela falta de conhecimento praticavam a iniquidade e não invocavam a Deus, ou seja, tomavam o nome de Deus em vão.

“Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” (Salmo 58:4).

A falta de conhecimento foi denunciada por Moisés, quando nomeou os filhos de Israel de ‘loucos’ e ‘ignorantes’:

“Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu? (…) Porque são gente falta de conselhos, e neles não há entendimento. Quem dera eles fossem sábios! Que isto entendessem, e atentassem para o seu fim!” (Deuteronômio 32:6 e 28 -29).

Ter zelo de Deus, mas sem entendimento é tomar o nome de Deus em vão (Romanos 10:2). Os escribas, por zelo, todas às vezes que se deparava com o nome de Deus durante a transcrição dos textos bíblicos, faziam rituais de purificação, etc., mas tudo isso era em vão.

Diante de Deus os filhos de Israel já não eram filhos, mas uma mancha, geração perversa.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é (Deuteronômio 32:5);

“E não fossem como seus pais, geração contumaz e rebelde, geração que não regeu o seu coração, e cujo espírito não foi fiel a Deus” (Salmos 78:8);

“AI dos filhos rebeldes, diz o SENHOR, que tomam conselho, mas não de mim; e que se cobrem, com uma cobertura, mas não do meu espírito, para acrescentarem pecado sobre pecado” (Isaías 30:1);

“Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Isaías 30:9);

“Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Isaías 65:2);

“Mas este povo é de coração rebelde e pertinaz: rebelaram-se e foram-se” (Jeremias 5:23).

É por isso que, com tristeza, o apóstolo Paulo disse que gostaria de ser separado de Cristo por amor aos seus concidadãos (Rm 9:3), pois apesar de serem israelitas segundo a carne, deles ser a adoção de filhos, a glória, as alianças, a lei, o culto e as promessas, contudo, nem todos os que são de Israel são israelitas (Rm 9:4 -6).

Embora muitos em Israel tomassem o nome de Deus dizendo ser descendência de Abraão, contudo se esqueciam de que as Escrituras diziam que, em Isaque seria chamada a descendência de Abraão, e não que a descendência decorria de Abraão, portanto, tomavam o nome de Deus em vão.

“Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” (Romanos 9:7 -8).

Diante do que já foi demonstrado, certo está que os judeus não detinham o conhecimento necessário para tomar o nome de Deus em verdade, pois esse conhecimento foi manifesto em Cristo, nosso Senhor (Is 53:11), portanto, com relação a não tomar o nome de Deus em vão, os cristãos não têm o que aprender com os judeus.

 

Senhor, Senhor!

Ao instruir a multidão acerca dos falsos profetas, Jesus alertou que:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 7:21).

Observe que tomar o nome do Senhor, ou fazer milagre, expulsar demônios ou profetizar em nome do Senhor não é garantia de salvação, pois só é salvo aquele que faz a vontade de Deus.

O nome Senhor, Adonai, Javé, Jeová, YHVH, etc., não possuem poder salvífico como se fosse uma fórmula, e sim, ser participante da família de Jesus, o que só é possível quando se faz a vontade de Deus:

“E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” (Mateus 12:49 -50).

Ao crer que Jesus é o Filho de Deus, o homem faz a vontade de Deus e tem a vida eterna. Como nenhuma condenação há para os que estão em Cristo, certo é que não tomou o nome de Deus em vão, antes passou da morte para a vida.

“Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êxodo 20:7);

“Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6:40);

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24).

 

 

[1] “יהוה 03068 Y êhovah procedente de 1961; DITAT – 484a; n pr de divindade Javé = “Aquele que existe” 1) o nome próprio do único Deus verdadeiro 1a) nome impronunciável, a não ser com a vocalização de 136” Dicionário Bíblico Strong; “יהוה 03069 Y êhovih uma variação de 3068 [usado depois de 136, e pronunciado pelos judeus como 430, para prevenir a repetição do mesmo som, assim como em outros lugares 3068 é pronunciado como 136]; n pr de divindade 1) Javé – usado basicamente na combinação ‘Senhor Javé’ 1a) igual a 3068 mas pontuado com as vogais de 430” Dicionário Bíblico Strong.

[2]“05375 נשא nasa’ ou נסה nacah (Sl 4.6) uma raiz primitiva; DITAT – 1421; v 1) levantar, erguer, carregar, tomar 1a) (Qal) 1a1) levantar, erguer 1a2) levar, carregar, suportar, sustentar, aguentar 1a3) tomar, levar embora, carregar embora, perdoar 1b) (Nifal) 1b1) ser levantado, ser exaltado 1b2) levantar-se, erguer-se 1b3) ser levado, ser carregado 1b4) ser levado embora, ser carregado, ser arrastado 1c) (Piel) 1c1) levantar, exaltar, suportar, ajudar, auxiliar 1c2) desejar, anelar (fig.) 1c3) carregar, suportar continuamente 1c4) tomar, levar embora 1d) (Hitpael) levantar-se, exaltar-se 1e) (Hifil) 1e1) fazer carregar (iniquidade) 1e2) fazer trazer, ter trazido” Dicionário Bíblico Strong.




Os Sábados foram instituídos como sinal para Israel

Antes de instituir os Sábados, Deus deu maná para dois dias consecutivos. A provisão de Deus era essencial aos filhos de Israel para cumprirem a guarda do Sábado.


Os Sábados foram instituídos como sinal para Israel

“Guardarão, pois, o sábado os filhos de Israel, celebrando-o nas suas gerações por aliança perpétua.” (Êxodo 31:16).

Para responder a pergunta: ‘Os cristãos devem guardar os sábados instituídos por Deus na lei?’, primeiro temos que analisar o motivo pelo qual Deus estabeleceu os sábados.

 

A prova do Maná e o sábado

Deus instituiu, na lei, a celebração dos sábados para os filhos de Israel. As celebrações eram dias festivos, que deveriam ser comemorados pelos judeus, de geração em geração. A determinação para guardar os sábados recai, única e exclusivamente, à descendência segundo a carne de Abraão, Isaque e Jacó, ou seja, aos judeus.

Mas, por qual motivo Deus estabeleceu os sábados ao povo de Israel? Resposta: estabelecer um sinal! Ao determinar que os filhos de Israel guardassem os sábados, Deus estabeleceu um memorial (sinal), para que soubessem (e não se esquecessem), de que é Deus que santifica o seu povo.

“Tu, pois, fala aos filhos de Israel, dizendo: Certamente, guardareis meus sábados; porquanto, isso é um sinal entre mim e vós, nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica (Ex 31:13).

O objetivo de Deus ter instituído os sábados é cristalino: ‘para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica’!

Guardar os sábados ‘santificava’ os filhos de Israel? Não! Guardar os sábados era obedecer a determinação d’Aquele que já havia santificado a descendência de Abraão. Ao guardá-los, os filhos de Israel demonstrariam que estavam cônscios de que Deus santifica o homem, evidenciando que ninguém pode santificar a si mesmo.

Qualquer que acredita que os sábados tornam o homem santo diante de Deus se engana. Quem santifica é Deus e para os filhos de Israel não se esquecerem de tal verdade, foi instituído os sábados como sinal (memorial perpétuo).

“E também lhes dei os meus sábados, para que servissem de sinal entre mim e eles; para que soubessem que eu sou o SENHOR, que os santifica.” (Ezequiel 20:12);

Enquanto os dias dos sábados eram sem importância para as outras nações, para os filhos de Israel, em razão do mandamento, era importante, pois manteria na memória a mensagem de que é Deus que santifica (Êx 31:14).

O que distinguia os filhos de Israel dos povos em redor, era a promessa que Deus fez a Abraão, e não os dias sabáticos. A promessa de Deus a Abraão santificou o povo de Israel, de modo que foram escolhidos dentre todos os povos e todo bem que sobreveio sobre eles, apesar da rebeldia, era para guardar o juramento feito a Abraão, Isaque e Jacó.

“Porque povo santo és ao SENHOR teu Deus; o SENHOR teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra. O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos;  Mas, porque o SENHOR vos amava e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” (Dt 7:6-8; 8:18 e 9:5).

Guardar o mandamento do Senhor é confiar n’Aquele que é fiel e não muda.

Abraão creu em Deus, quando lhe foi dada a promessa de que teria descendência numerosa como as estrelas dos céus, embora não tivesse filho e isto lhe foi imputado como justiça (Gn 15:5 -6). Quando Deus pediu o único filho de Abraão, em holocausto, Abraão não desfaleceu da sua crença, pois considerou que Deus era poderoso para recobrar o seu filho dentre os mortos, assim como, miraculosamente, sendo Sara estéril e de avançada idade, alcançou um varão.

Assim como cuidou do patriarca Abraão, Deus conduziu o povo de Israel pelo deserto para fazê-los se submeterem (humilharem) aos seus mandamentos, provando-os, assim, como fez com Abraão (Dt 8:3 e 16). Em lugar de requerer algo que lhes fosse caríssimo, como o era Isaque para Abraão, Deus deu o maná no deserto para prová-los, se obedeceriam aos Seus mandamentos e foram reprovados.

“Então, disse o SENHOR a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não (Ex 15:4).

Deus ordenou que ninguém deixasse para o outro dia o maná preparado, mas alguns do povo desobedeceram e, no outro dia, o que armazenaram criou bichos e apodreceu (Ex 16:20).

No sexto dia, aconteceu algo inusitado: todos colheram em dobro, o que chamou a atenção dos príncipes do povo. Por causa desse evento, todos foram a Moisés que lhes disse a palavra do Senhor:

“E aconteceu que ao sexto dia colheram pão em dobro, dois ômeres para cada um; e todos os príncipes da congregação vieram e contaram-no a Moisés. E ele disse-lhes: Isto é o que o SENHOR tem dito: Amanhã é repouso, o santo sábado do SENHOR; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o, e o que quiserdes cozer em água, cozei-o em água; e tudo o que sobejar, guardai para vós até amanhã” (Êx 16:22-23).

Como Deus estava provendo alimento para os filhos de Israel, deles exigiu que repousassem no sábado. No entanto, mesmo tendo alimento para o sábado, alguns dos filhos de Israel saíram no sábado de manhã para buscar maná e não encontraram (Ex 16:27), ao que Deus protestou:

Até quando recusareis guardar os meus mandamentos e as minhas leis? Vede, porquanto o SENHOR vos deu o sábado, portanto, Ele, no sexto dia, vos dá pão para dois dias; cada um fique no seu lugar, ninguém saia do seu lugar no sétimo dia” (Ex 16:28-29).

Como foi o Senhor que deu provisão para dois dias, foi instituído o sábados, pois a provisão de Deus possibilitava aos filhos de Israel cumprir o mandamento de Deus. Mas, por causa da incredulidade, mesmo tendo o necessário para cumprirem a palavra do Senhor, se recusaram a dar ouvidos.

Perceba que o sábado foi dado em função dos filhos de Israel serem reprovados no deserto, na prova do maná. Deus queria ensiná-los que nem só de pão vive o homem, mas, de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8:3).

 

O sábado

Devemos lembrar que o Sábado foi dado por causa da desobediência dos filhos de Israel. Assim, o sábado foi dado por causa do homem e não o homem por causa do sábados (Mc 2:27).

Apesar de terem sido reprovados, quando guardaram maná para o outro dia, Deus evidenciou o seu cuidado ao povo, quando deu pão em dobro. Mas, como os filhos de Israel eram esquecidos, Deus sublinhou o seu cuidado com um sinal, através de um mandamento de não fazer, para que compreendessem que, em descansar em Deus, está a salvação do homem.

Observe que, quando Deus separou os filhos de Israel para si, como propriedade peculiar, não lhes era necessário guardar os sábados. Antes mesmo de entrar no Egito, o povo de Israel já era propriedade de Deus, o que demonstra que o sábado não santifica (Lv 20:26).

No mês que foram resgatados do Egito, que se tornou o primeiro mês do calendário judaico, Deus instituiu a páscoa, que deveria se preparada, desde o décimo dia, com a separação do cordeiro de um ano sem mancha, devendo ser sacrificado ao décimo quarto dia (Ex 12:1-13).

Consecutivo ao memorial da páscoa, que deveria ser celebrado como festa ao Senhor, pelas gerações subsequentes (Ex 12:14), foi instituída a festa dos pães ázimos, de modo que, do décimo quarto dia à tarde ao vigésimo primeiro dia à tarde, não podiam cozer pão com fermento em Israel.

Tanto no primeiro, quanto no sétimo dia da festa dos pães ázimos, não podiam realizar nenhum trabalho em Israel (Êx 12:16). Como nada fizeram, quando o Senhor os tirou da terra do Egito, e a única provisão foram masseiras de pão sem levedar que levaram, a tira colo, por saírem apressadamente do Egito, Deus instituiu a festa dos pães ázimos como memorial (Ex 12:34).

Assim como a páscoa e a festa dos pães ázimos eram memoriais de que o povo de Israel foi resgatado do Egito, o sábado foi um memorial instituído, quando do tropeço do povo de Israel na prova do maná. Por cinco dias Deus deu maná no deserto, mas ao saírem no sexto dia, o povo colheu em dobro, ao que todos os príncipes da congregação vieram e contaram a novidade a Moisés, sendo, então, instituído o sábado de descanso:

“E ele disse-lhes: Isto é o que o SENHOR tem dito: Amanhã é repouso, o santo sábado do SENHOR; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o, e o que quiserdes cozer em água, cozei-o em água; e tudo o que sobejar, guardai para vós até amanhã. E guardaram-no até o dia seguinte, como Moisés tinha ordenado; e não cheirou mal nem nele houve algum bicho. Então disse Moisés: Comei-o hoje, porquanto hoje é o sábado do SENHOR; hoje não o achareis no campo. Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele não haverá” (Ex 16:23-26).

Carne e pão dos céus foi um sinal dado para que os filhos de Israel confiassem em Deus. No fato de Deus dar pão para dois dias é que se baseiam os sábados, de modo que a provisão de pão, para cada dia, demonstra o cuidado de Deus para com o seu povo.

Para quem entende o maná como um fenômeno natural que ocorreu aos filhos de Israel, através da providência em dobro do sexto dia, a ideia de coincidência ou, de fenômeno natural, é descartada.

“Vede, porquanto o SENHOR vos deu o sábado, portanto, Ele, no sexto dia, vos dá pão para dois dias; cada um fique no seu lugar, ninguém saia do seu lugar no sétimo dia” (Êx 16:29).

Ao prover as condições necessárias para cumprirem o mandamento do sábado, Deus estava dando a entender ao povo de Israel que os seus mandamentos não são penosos.

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é difícil demais e tampouco está longe de ti” (Dt 30:11; 1 Jo 5:3).

 

Os judeus pedem sinal

O que se sabe acerca de sinais?

O salmista, pelo espirito, falou, acerca do seu descendente prometido – Cristo – como Aquele que pediu de Deus um sinal, mas que os seus acusadores veriam e seriam confundidos.

“Mostra-me um sinal para bem, para que o vejam aqueles que me odeiam e se confundam; porque tu, SENHOR, me ajudaste e me consolaste” (Sl 86:17).

Segundo o apóstolo Paulo, sinais são dados aos incrédulos e não aos crentes:

“De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis.” (I Coríntios 14:22).

Rogar por sinal é próprio dos judeus:

“Porque os judeus pedem sinal e os gregos buscam sabedoria;” (I Coríntios 1:22).

Certa feita, após a multiplicação dos pães, os judeus pediram um sinal para, então, acreditarem em Cristo, alegando que Moisés deu pão dos céus:

“Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos e creiamos em ti? Que operas tu? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu.” (João 6:30-31).

Os escribas e fariseus, em outro momento, rogaram por um sinal e obtiveram a seguinte resposta de Jesus:

“Uma geração má e adúltera pede um sinal, porém, não se lhe dará outro sinal senão o do profeta Jonas;” (Mateus 12:39);

“E saíram os fariseus e começaram a disputar com ele, pedindo-lhe, para o tentarem, um sinal do céu. E, suspirando, profundamente, em seu espírito, disse: Por que pede esta geração um sinal? Em verdade, vos digo, que a esta geração não se dará sinal algum” (Mc 8:11-12).

Os sinais operados por Cristo, representaram somente condenação para as cidades impenitentes:

“E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti” (Mt 11:23-24).

Quando Jesus diz que os seus interlocutores são geração má e adultera, fez referência às Escrituras, que, por intermédio de Moisés, foi dito aos filhos de Israel que eram geração perversa e não filhos.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5).

Após serem reprovados na prova do maná, ao dar os sábados como sinal por aliança perpétua, Deus está declarando, implicitamente, que os filhos de Israel eram incrédulos, o que foi dito, abertamente, antes de adentrarem a terra de Canaã.

Geração má e adúltera é o mesmo que geração ‘perversa’ e ‘distorcida’, que, apesar de terem como sinais carne e pão a fartar, não estavam dispostos a obedecerem a Deus. Os judeus procuravam mais e mais sinais, sob o pretexto de que, só assim creriam.

“Entre mim e os filhos de Israel será um sinal para sempre; porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra e ao sétimo dia descansou e restaurou-se” (Êx 31:17).

Se Deus estabeleceu os sábados como sinal, tendo em vista que Deus, em seis dias, fez os céus e a terra e descansou no sétimo dia, os filhos de Israel deveriam entender que o Senhor, que criou todas as coisas, é quem dá descanso, provendo pão em dobro no sexto dia. No estarem quietos, estava a salvação.

“Porque o Egito os ajudará em vão e para nenhum fim; por isso, clamei acerca disto: No estarem quietos será a sua força.” (Isaías 30:7).

Aos filhos de Israel foi dada a ordenança dos sábados como memorial, para que entendessem que é Deus que santifica, no entanto, tomaram o sinal como elemento santificador e se esqueceram de se sujeitarem Àquele que santifica.

Os sábados eram ordenanças semelhantes às dadas a Abraão, que, ao receber a ordem divina, saiu do meio de sua parentela e ofereceu o seu único filho, em holocausto. Ao obedecer às ordenanças, Deus declarou Abraão justificado. Se os filhos de Isael queriam ser tido como descendência de Abraão, teriam que ter a mesma fé que o crente Abraão, que acatou a ordem divina.

Sair do meio da parentela ou, oferecer um filho em holocausto, não justifica ou, não santifica ninguém, mas, sim, obedecer à ordenança divina, faz com que Deus conceda o seu favor ao homem. Sem o mandamento, não há obediência, e sem a obediência não há justificação, de modo que o homem é justificado através do mandamento de Deus.

Sair do meio da parentela e oferecer o filho em holocausto foi um mandamento dado, especificamente, a Abraão. Qualquer que queira ser abençoado, fazendo as mesmas coisas que Abraão fez, não será justificado.

A ordem que Jesus deu ao jovem rico tinha por objetivo fazê-lo perfeito como o crente Abraão, no entanto, o jovem rico se retirou entristecido, pois não teve a mesma disposição que Abraão teve, em obedecer.

Semelhantemente, as ordenanças dos sábados foram dadas por Deus à nação de Israel, portanto, ninguém que busque guardar os sábados, pertencer à comunidade de Israel, alcançará o favor do Senhor.

Lembrando que os sábados não santificam, antes, que são um memorial, para lembrar os filhos de Israel que é Deus que santifica. Um sinal não santifica, antes, é Deus quem santifica. Daí, a premissa anunciada por Cristo, que, em resposta aos escribas e fariseus, que condenaram a atitude dos discípulos em colherem espigas de milho em um sábado para comerem, alertou que o sábado foi estabelecido por causa do homem e não o homem por causa do sábado.

“E aconteceu que, passando ele num sábado pelas searas, os seus discípulos, caminhando, começaram a colher espigas. E os fariseus lhe disseram: Vês? Por que fazem no sábado o que não é lícito? Mas ele disse-lhes: Nunca lestes o que fez Davi, quando estava em necessidade e teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na casa de Deus, no tempo de Abiatar, sumo sacerdote, e comeu os pães da proposição, dos quais não era lícito comer, senão aos sacerdotes, dando também aos que com ele estavam? E disse-lhes: O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado. Assim, o Filho do homem, até do sábado é Senhor” (Marcos 2:23-28).

Ora, Jesus demonstrou que o homem é mais importante para Deus, que o dia de sábado, pois este foi instituído como sinal, por causa daquele. O sábado, como memorial, tem a relevância de lembrar ao homem que é Deus que santifica, sendo que, para preservar a vida do homem, o sábado poderia ser violado, sem o homem ser tido por culpado diante de Deus.

O sábado foi feito por causa do homem e o homem é mais importante, por ter sido em função do propósito eterno de Deus, que é tornar o Cristo o mais sublime dos reis da terra e o cabeça da Igreja, portanto, Cristo é superior ao sábado.

 

O crente deve guardar os dias de Sábado?

Categoricamente, não! Os sábados foram instituídos somente para os descendentes de Abraão, que, por sua vez, são aqueles que têm a circuncisão no prepúcio da carne, por sinal da aliança entre Deus e a descendência da carne de Abraão.

“E circuncidareis a carne do vosso prepúcio; e isto será por sinal da aliança entre mim e vós” (Gn 17:11).

A aliança dos crentes em Cristo não foi firmada no prepúcio da carne, mas, no sangue de Cristo, portanto, não compete ao crente a circuncisão do prepúcio da carne e nem a guarda dos sábados: “E a Jesus, o Mediador de uma nova aliança e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel” (Hb 12:24).

Guardar dias, luas e sábados, são rudimentos pobres e fracos, para aqueles que vivem no mundo. Já, os crentes em Cristo, não mais estão sujeitos ao rudimento do mundo (Cl 2:20) e precisam ter cuidado para com aqueles que julgam pelo comer, beber, dias de festas, luas e sábados, pois seguiam pela sombra dos bens que se alcança em Cristo (Cl 2:16-17).

“Mas, agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir? Guardais dias, meses, tempos e anos. Receio de vós, que não haja trabalhado em vão para convosco” (Gl 4:9-11).

Os filhos de Israel guardavam os sábados porque, a seu tempo, não entraram no descanso prometido pelo Senhor (Sl 95:10; Hb 4:3-9), diferentemente dos crentes em Cristo, que estão assentados nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1:3; Ef 2:6), o que significa que já adentraram no descanso prometido.

“Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo” (Hb 4:3).

Enquanto Deus estabelecia o sinal dos sábados, anunciando as suas palavras a Moisés (Êx 31:13-14), os filhos de Israel confeccionavam um bezerro de ouro (Êx 312:1-6). Pela dureza do coração deles, em não se sujeitarem ao Senhor, Deus não se agradava das festas solenes e dos sábados.

“Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação e as luas novas, os sábados e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer” (Is 1:13-14).

Os sábados, assim como as muitas outras ordenanças da lei, eram um jugo que os cristãos convertidos dentre os judeus queriam impor aos cristãos convertidos dentre os gentios, ao que ordenaram os apóstolos:

“Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais, nem nós, pudemos suportar? Mas, cremos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo, como eles também” (Atos 15:10-11).

Basta ao discípulo ser igual ao Mestre. Se Cristo quebrava o sábado, que dirá os seus seguidores, que estão à beira do caminho:

“E aconteceu que, passando ele num sábado pelas searas, os seus discípulos, caminhando, começaram a colher espigas. E os fariseus lhe disseram: Vês? Por que fazem no sábado o que não é lícito?” (Mc 2:23);

“Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas, também, dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo 5:18);

“Respondeu Jesus e disse-lhes: Fiz uma só obra e todos vos maravilhais. Pelo motivo de que Moisés vos deu a circuncisão (não que fosse de Moisés, mas dos pais), no sábado circuncidais um homem. Se o homem recebe a circuncisão no sábado, para que a lei de Moisés não seja quebrantada, indignais-vos contra mim, porque no sábado curei de todo um homem?” (Jo 7:21-23);

“E, tomando a palavra o príncipe da sinagoga, indignado porque Jesus curava no sábado, disse à multidão: Seis dias há em que é mister trabalhar; nestes, pois, vinde para serdes curados, não no dia de sábado. Respondeu-lhe, porém, o Senhor, e disse: Hipócrita, no sábado não desprende da manjedoura cada um de vós o seu boi, ou jumento e não o leva a beber? E não convinha soltar desta prisão, no dia de sábado, esta filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás tinha presa? E, dizendo ele isto, todos os seus adversários ficaram envergonhados, e todo o povo se alegrava por todas as coisas gloriosas que eram feitas por ele” (Lc 13:14-17).

À época dos apóstolos, muitos cristãos convertidos, dentre os judeus, prosseguiam nas práticas dos seus pais, entretanto, o apóstolo Paulo orienta que, caso algum faça diferença entre dia e dia, ou entre comidas, que faça para o Senhor, e não que emita julgamento, acerca dos que não observam tais solenidades.

“Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio SENHOR ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz. O que come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come, para o SENHOR não come e dá graças a Deus” (Rm 14:4-6);

“Portanto, ninguém vos julgue pelo comer ou, pelo beber ou, por causa dos dias de festa ou, da lua nova ou, dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas, o corpo é de Cristo” (Cl 2:16-17).

Os sábados, assim, como a circuncisão, pertencem ao fermento velho ou, vinho velho, que os cristãos, por serem uma nova massa e odres novos, não devem ser participantes.

“Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” (1 Co 5:6-8).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




A luta entre a carne e o espírito

Não há  uma luta no interior do homem entre a ‘carne’ e o ‘espírito’ ou, entre a ‘alma’ e o ‘espírito’! As necessidades do corpo físico e os anseios da alma são próprios à humanidade e não possuem relação com a oposição ‘carne’ versus ‘espírito’ apresentada na Bíblia.


Carne versus Espírito

“Que não foi feito segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível.” (Hebreus 7.16)

Introdução

É comum, em nossos dias, ouvirmos nos púlpitos cristãos que, no interior de cada cristão, há uma luta entre a ‘carne’ e o ‘espírito’. Embora citem passagens das cartas do apóstolo Paulo para falar de uma luta entre a ‘carne’ e o ‘espírito’, o pensamento que os pregadores reproduzem, na verdade, é conforme a filosofia de Platão, um filósofo grego que viveu em Atenas, em 348 a 347 a.C., e não segundo a Bíblia

Platão, patrono da doutrina espírita, representa, em seu diálogo Fedro, o homem como cocheiro de um carro conduzindo uma parelha de cavalos:

“Com efeito, todos os corpos movidos por um agente exterior são inanimados, enquanto o corpo movido de dentro é animado, pois que ele é o movimento e natureza da alma. O que se move a si mesmo não pode ser outra coisa senão a alma, logo a alma é simultaneamente incriada e imortal. (…) a alma pode comparar-se a não sei que força activa e natural que unisse um carro a uma parelha de cavalos alados conduzidos por um cocheiro. Os cavalos dos deuses são de boa raça, mas os dos outros seres são mestiços. Quanto a nós, somos os cocheiros de uma atrelagem puxada por dois cavalos, sendo um belo e bom, de boa raça, e o outro precisamente o contrário, de natureza oposta, de onde vem a dificuldade de conduzirmos o nosso próprio carro.” – Cf. Platão, Fedro, Lisboa, Guimarães Editores, 1994, 5ª ed., ps. 58-59. (grifo nosso).

Agostinho, por sua vez, reproduziu esse pensamento em suas confissões:

“[…] da lodosa concupiscência da minha carne e do borbulhar da juventude, exalavam-se vapores que me enevoavam e ofuscavam o coração, a ponto de não se distinguir o amor sereno do prazer tenebroso.” (AGOSTINHO, 2010, p. 36 [II, 2]).

“O inimigo [ou seja, o demônio] dominava o meu querer e dele me forjava uma cadeia com que me apertava. […]. Assim, duas vontades, uma concupiscente […] e outra espiritual, batalhavam mutuamente em mim. Discordando, dilaceravam-me a alma(AGOSTINHO, 2010, p. 113 [VIII, 5]). (grifo nosso).

Billy Graham, em seu livro ‘O poder do Espírito Santo’, através da parábola dos dois cachorros, ilustrou o que chamava de ‘luta da carne contra o espírito’, abordagem semelhante à de Platão:

“Um pescador esquimó vinha, a cada sábado, à tarde, à cidade. Sempre trazia consigo seus dois cachorros, um branco e um preto. Ele os tinha ensinado a lutar, quando ele ordenasse. Cada sábado, na praça da cidade, o povo se ajuntava e o pescador fazia apostas, enquanto os dois cachorros brigavam. Às vezes ganhava o cachorro branco, às vezes, o preto, mas o pescador sempre ganhava as apostas! Seus amigos começaram a lhe perguntar como ele fazia isso. Ele disse: – Deixo um passar fome durante a semana e só dou comida para o que eu quero que ganhe. O cachorro que está bem alimentado ganha, porque está mais forte.”

É comum os pregadores dizerem que, em todos os homens, a carne luta contra o espírito, mas, que no cristão, esta luta é mais renhida e acentuada, pois o verdadeiro crente reluta em não satisfazer os desejos do seu corpo.

Seria esse o posicionamento das Escrituras, fazer com que os homens reneguem os seus desejos?

 

‘Viver na carne’ versus ‘viver no espírito’

O que entender dos versos seguintes:

“Digo, porém: Andai em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” (Gálatas 5.16-17).

“Porque os que são segundo a carne, inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz” (Romanos 8.5).

A luta que o apóstolo Paulo apresenta e descreve nesses versos não é a mesma luta que Platão, Agostinho e Billy Graham descreveram. Definitivamente, não! O apóstolo está contrapondo a lei do mandamento carnal com a lei do mandamento espiritual!

“Que não foi feito, segundo a lei do mandamento carnal, mas, segundo a virtude da vida incorruptível” (Hebreus 7.16).

O poder da vida incorruptível advém do evangelho, que é espírito vivificante, diferentemente, da lei do mandamento carnal, que é fraco e inútil, que sujeita os que pertencem à carne. (Hebreus 7.18)

A lei do mandamento carnal diz das muitas ordenanças segundo a lei, como: ‘não toques, não proves, não manuseies’. Diz dos preceitos e doutrinas dos homens que se impõe aos incautos com aparência de sabedoria, devoção, humildade, disciplina do corpo, etc., mas, que não são de valor algum, diante de Deus.

“Porque, em Jesus Cristo, nem a circuncisão, nem a incircuncisão, tem valor algum; mas, sim, a fé que opera pelo amor” (Gálatas 5.6).

A fé que opera pelo amor é o poder da vida incorruptível, diz da verdade do evangelho (fé), que é poder de Deus para salvação dos que creem, de modo que através da fé, o poder de Deus, se efetua a salvação pela obediência (amor), ou seja, a obediência da fé!

“Mas, que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé (Romanos 16.26).

A satisfação da carne se dá por obediência a preceitos e doutrinas dos homens, diferentemente, da satisfação do espírito, que se dá em obediência ao evangelho: o mandamento de Deus.

Ao dizer que a carne inclina-se para as coisas da carne, o apóstolo Paulo está citando as Escrituras, como se lê no Livro de Provérbios:

“Para te afastar da mulher estranha, sim da estranha que lisonjeia com suas palavras; Que deixa o guia da sua mocidade e se esquece da aliança do seu Deus; Porque a sua casa se inclina para a morte e as suas veredas para os mortos” (Provérbios 2.16-18).

A mulher estranha é uma figura que remete a casa de Israel. Ao alertar os simples acerca das prostituições dos filhos de Israel, os profetas faziam uso de figuras, de modo que a ‘casa’ da mulher adúltera, os descendentes de Jacó, se inclina para a morte! Quem é essa mulher adúltera? A mulher é descrita como aquela que deixou o guia da sua mocidade e se esqueceu da aliança de seu Deus, ou seja, a mulher adúltera é uma alegoria para fazer referência aos filhos de Israel, cuja casa (descendência) inclina-se para a morte!

Israel é a nação que deixou o guia da sua mocidade e se esqueceu da aliança de seu Deus, portanto, em Provérbios, Israel é a mulher adúltera.

“E, engordando-se Jesurum, deu coices (engordaste-te, engrossaste-te e de gordura te cobriste) e deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação” (Deuteronômio 32.15);

“Como, vendo isto, te perdoaria? Teus filhos me deixam a mim e juram pelos que não são deuses; quando os fartei, então adulteraram e, em casa de meretrizes, se ajuntaram em bandos” (Jeremias 5.7);

“Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ezequiel 16.35).

‘Casa’ é outra figura, que, por sua vez, remete à linhagem, à descendência. A descendência, a linhagem de Israel, inclina-se para morte, pois não são filhos de Deus. Os filhos de Deus são gerados segundo a promessa do Descendente prometido a Abraão, e os filhos da carne são gerados segundo a carne de Abraão, como se deu com Ismael.

Se os descendentes de Abraão nascidos segundo a carne de Abraão e Isaque fossem filhos de Deus, a palavra da promessa não teria sido dada a Rebeca, que diz: “O maior servirá o menor”.

“Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque, nosso pai; Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor.” (Romanos 9.9-12).

A casa de Israel achavam que eram a descendência de Abraão por causa da promessa de que Sara teria um filho, Isaque, e se esqueceram que ao disciplinar a linhagem do descendente prometido, foi dada nova palavra à mulher de Isaque, Rebeca, demonstrando que a promessa ainda estava por se cumprida.

É por isso que Deus protesta contra Israel, dizendo:

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Deuteronômio 32.4).

O termo ‘carne’, quando empregado nos versos acima, pelo apóstolo Paulo, não tem o sentido de corpo físico, antes, indica a origem dos filhos de Israel, que é igual aos demais homens: que existem (são) segundo a carne (Romanos 8.5). Quem são (existem) os segundo a carne? Os nascidos do sangue, da vontade da carne e da vontade do varão!

“Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas, de Deus” (João 1.13).

Todos os homens, quando vêm à existência, entram no mundo, através do sangue, da vontade da carne e da vontade do varão, e os judeus não são exceção. No entanto, por causa da promessa feita a Abraão: ‘Em ti serão benditas todas as famílias da terra’, e ‘Por este tempo virei, e Sara terá um filho’, os filhos de Israel entenderam que a promessa fazia referência somente a eles, o que, na verdade, não era (Romanos 4.13).

A promessa foi feita a Abraão e ao seu Descendente, que é Cristo, não aos muitos descendentes de Abraão (Gálatas 3.16). Embora, os filhos de Israel fossem descendência de Abraão, não eram seus filhos, porque não são os filhos da carne que são contados como filhos de Abraão, mas, sim, os filhos da promessa (Romanos 9.7-8).

Deus havia prometido a Abraão que, ’em Isaque seria chamada a sua descendência’ (Romanos 9.7), e não que Isaque já era a descendência. O Descendente de Abraão veio pela linhagem de Isaque, e não de Ismael, que nasceu segundo a carne. Como em Isaque seria chamado o Descendente, novamente a palavra da promessa foi dada a Rebeca: ‘O maior servirá ao menor’, dando a entender que a promessa do Descendente ainda estava para se cumprir (Romanos 9.12).

Com a vinda de Cristo, conforme as palavras dos profetas (Atos 10.43; Romanos 3.21), todos quantos crerem n’Ele são de novo gerados, segundo o espírito. Os que são gerados do espírito são espirituais (João 3.5-6), nascidos de novo pela palavra de Cristo, a semente incorruptível (1 Pedro 1.23), que é espírito e vida (João 6.63).

Os nascidos segundo a carne são carnais (João 3.6), não importando se judeus ou gentios, todos se inclinam para a morte, pois todos, juntamente, se desviaram e se tornaram imundos em Adão (Salmos 53.3). A diferença entre os gentios e os judeus está no fato de que estes fizeram da carne (de Abraão) o seu braço e se esqueceram de Deus (Jeremias 17:5), enquanto aqueles sempre estiveram sem esperança e sem Deus no mundo (Efésios 2.12).

O termo carne, além de indicar a origem de todos os homens em Adão (Deuteronômio 32.2; Isaías 40.5-6; Lucas 3.6), passou a ser utilizada para designar os descendentes da carne de Abraão, especificamente, pela confiança que depositavam no sinal da circuncisão dada a Abraão, e que é feito no prepúcio da carne.

Nesse sentido, o termo ‘carne’ passou a representar a doutrina dos judeus, contrapondo à doutrina de Cristo, o espírito:

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus, em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne. Ainda que, também, podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu” (Filipenses 3.3-5).

Os que existem (são) segundo a carne, inclinam-se para as coisas da carne, pois só pensam nas coisas terrenas, como: quando se dará a restauração do reino a Israel, circuncisão do prepúcio da carne, linhagem, tribo, herança terrena, fábulas, genealogias, etc. A inclinação da carne é morte, perdição, pois não se sujeita à lei de Deus, mas, sim, a mandamentos de homens, portanto, não podem agradar a Deus.

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Isaías 29.13; Tito 1.14);

“Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fl 3:19).

Como os filhos de Israel não se sujeitaram a Deus, antes pretenderam voltar ao Egito, Deus jurou que não entrariam na terra prometida (Números 14.30). Deus já havia provado o povo em Refidim, que significa ‘refrigério’. Por causa da contenda em Refidim, o nome do lugar foi mudado para Meribá, que significa ‘contenda’, ‘murmuração’, lugar onde foram provados e onde tentaram ao Senhor.

“Clamaste na angústia e te livrei; respondi-te no lugar oculto dos trovões; provei-te nas águas de Meribá” (Salmos 81.7);

“E recusaram ouvir-te, não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste,  endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em beneficência, tu não os desamparaste” (Neemias 9.17; Nm 14.4).

Por causa das transgressões dos filhos de Israel, como as descritas acima, a lei foi dada (Romanos 5.20), até que viesse o Descendente prometido a Abraão (Gálatas 3.19).

“Mas o meu povo não quis ouvir a minha voz e Israel não me quis. Portanto, eu os entreguei aos desejos dos seus corações e andaram nos seus próprios conselhos” (Salmos 81.11-12).

No entanto, em lugar de atentarem para o fato de que, ao ser dada a lei, os filhos de Israel estavam sendo contados como transgressores (1 Timóteo 1.9), passaram a se gloriar na lei e continuaram a desonrar a Deus, desobedecendo a lei: “Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus, pela transgressão da lei?” (Romanos 2.23 e 3:19).

Embora Abraão nada tenha alcançado de Deus, segundo a sua carne (Romanos 4.1), os descendentes de Abraão se gloriavam da carne, de modo que, a lei se mostrou impotente para o seu propósito (Romanos 8.3). A lei acusava os filhos de Israel de transgressores, e eles se auto justificavam, dizendo que eram filhos de Abraão, por descenderem da carne do patriarca.

A lei dada por Deus, por intermédio de Moisés, disciplinava os carnais, oriundos da carne de Abraão, e, por isso mesmo, a lei é declarada ‘lei do mandamento carnal’, diferente do evangelho, que é poder que concede vida incorruptível: “Que não foi feito segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível” (Hebreus 7.16).

Os que existem (são) segundo a carne, buscavam servir a Deus segundo a velhice da letra, mas eram faltos de entendimento, que só é revelado em Cristo (Romanos 10.2; Deuteronômio 32.28; Isaías 53.11).

“Mas, agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra” (Romanos 7.6).

Quando o homem crê em Cristo, morre para a lei, portanto, é liberto do Senhor. Em Cristo serve a Deus, em novidade de espírito! É em função desta verdade que o apóstolo Paulo agradece a Deus por Jesus Cristo, pois com entendimento (conhecimento) agora servia (eu mesmo) o mandamento (à lei) de Deus: crendo em Cristo. Mas, se buscasse servir a Deus na velhice da letra, ou seja, com a carne, estaria sujeito à lei do pecado!

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado” (Romanos 7.25).

Daí, o contra ponto ‘carne’, versus ‘espírito’ e a máxima: os que são (existem) segundo o espírito, inclinam-se para as coisas do espírito, que é vida e paz com Deus (Romanos 5.1), visto que a parede de inimizade é desfeita (Efésios 2.14). ‘Espirito’ em Romanos 8 versos 5 e 6, não diz do elemento imaterial do homem que procede de Deus, antes diz do evangelho.

Como ‘evangelho’ e ‘espírito’ são termos intercambiáveis, nestes versos o apóstolo Paulo empregou o termo ‘espírito’, em lugar do termo ‘evangelho’. É por isso que o apóstolo Paulo se apresenta como ministro do espírito, que em última análise, é ministro do evangelho, ministro de Cristo.

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica (2 Coríntios 3.6);

“Assim está, também, escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante (1 Coríntios 15.45);

Quando o apóstolo Paulo conclui no verso 1 de Romanos 8, que não há condenação alguma para aqueles que são novas criaturas (pois quem está em Cristo Jesus nova criatura é), isto se deve ao fato de que foram gerados de novo pelo evangelho e agora vivem (andam) segundo o evangelho (espírito).

O mandamento do evangelho, ou seja, a lei do espírito de vida (1 João 3.23; Tiago 1.25; Hebreus 5.9; Romanos 6.17), é o que livra o homem da lei do pecado e da condenação herdada de Adão (morte), de modo que a justiça da lei cumpriu-se naqueles que andam (vivem) segundo o evangelho (Romanos 8.4).

“E seja achado nele, não tendo a minha justiça, que vem da lei, mas a que vem, pela fé, em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé” (Filipenses 3.9).

O espírito de Deus que habita os cristãos, no contexto de Romanos 8, verso 9, refere-se à palavra de Deus:

“A palavra de Cristo habite em vós, abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao SENHOR, com graça em vosso coração” (Colossenses 3.16).

O espírito que guia os filhos de Deus diz do evangelho:

“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gálatas 3.26; 4.6; Romanos 8.14-16).

Nesse sentido, os cristãos da Galácia haviam começado a vida cristã pelo espírito, ou seja, pelo evangelho (Gálatas 3.2), que é a pregação da fé. Por intermédio do evangelho, os cristãos da Galácia foram libertos por Cristo (Gálatas 5.1), mas, agora, estavam voltando à servidão, ou seja, aos preceitos da lei (Gálatas 5.2-3).

 

Platonismo disfarçado de evangelho

O que se ensina em muitos púlpitos cristãos, em nossos dias, acerca da santificação, não é outra coisa a não ser doutrina espírita ou, como queiram, filosofia platônica.

Agostinho não soube ler os Evangelhos e, como acadêmico que foi, se imiscuiu nas questões filosóficas. Leu o evangelho de Cristo como doutrina moralizante e apresentou os ideais ascéticos, como ideário cristão.

Observe a seguinte leitura que Agostinho fez de uma carta paulina:

“Tinha ouvido que Antão, assistindo por acaso a uma leitura evangélica, sentiu um chamado, como se a passagem lida fosse, pessoalmente, dirigida a ele: ‘Vai, vende os teus bens e dá aos pobres e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me’. E logo, voltei ao lugar onde Alípio ficara sentado, pois, ao levantar-me, havia deixado ai o livro do Apóstolo. Peguei-o, abri e li em silêncio o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar: ‘Não em orgias nem bebedeiras, nem a devastação e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne’. Não quis ler mais, nem era necessário. Mal terminara a leitura dessa frase dissiparam-se em mim todas as trevas da dúvida, como se penetrasse no meu coração uma luz de certeza” (Confissões, VIII, 12, ps. 28-29).

O que o apóstolo Paulo tratou no presente texto?

“Andemos, honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não tenhais cuidado da carne, em suas concupiscências” (Romanos 13.13-14).

Ele falou da incontinência? De questões sexuais? Evidente que não!

Observando o contexto, verifica-se que o apóstolo Paulo estava instruindo os cristãos a se sujeitarem às autoridades constituídas, ordem que os judeus não aceitavam, a pretexto de serem filhos de Abraão (Romanos 13.1; 1 Pedro 2.11-15), tanto que sofreram revezes de Roma, através do general Tito.

Este é o contexto da abordagem paulina:

“Mas, principalmente, aqueles que, segundo a carne, andam em concupiscências de imundícia e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades” (2 Pedro 2.10).

Quem são os que, segundo a carne, andam em concupiscência e imundícia? Os judaizantes! As concupiscências de imundícia não eram de ordem sexual, mas, sim, de não sujeição às autoridades.

A desonestidade, a bebedeira e a glutonaria das quais o apóstolo Paulo estava alertando os cristãos, constam lá em Deuteronômio:

“E aconteça que, alguém ouvindo as palavras desta maldição, se abençoe no seu coração, dizendo: Terei paz, ainda que ande conforme o parecer do meu coração; para acrescentar à sede, a bebedeira (Deuteronômio 29.19).

A questão comportamental já havia sido abordada, anteriormente:

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor, com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros, cumpriu a lei. Com efeito: não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: amarás ao teu próximo, como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Romanos 13.8-10).

Os judaizantes acusavam os cristãos de não serem cumpridores da lei, ou seja, libertinos, mas, o apóstolo Paulo demonstra que, se os cristãos, em obediência a Deus, cuidassem uns dos outros, cumpririam a lei: pois o amor é o cumprimento da lei. Já, os filhos de Israel estavam bêbados, mas não de vinho. “Tardai e maravilhai-vos, folgai e clamai; bêbados estão, mas, não de vinho, andam titubeando, mas não de bebida forte” (Isaías 29.9; Malaquias 3.5).

Antes de fazer a abordagem, a qual Agostinho leu e, que ele julgou não ser mais necessário continuar lendo, pois, como por mágica, as trevas da dúvida se dissiparam, o apóstolo Paulo destacou que a noite já passou e o dia é chegado e que, em face, dessa nova realidade, os cristãos deviam rejeitar as obras das trevas e se vestir das obras da luz (Romanos 13.11-12).

‘Noite’ e ‘dia’ são figuras que contrapõem os judaizantes e os cristãos. Os judaizantes eram da noite e das trevas, pois estavam dormindo e se embebedando. Já os cristãos, como filhos da luz e do dia, portanto, devem permanecer vigilantes e sóbrios, vestindo-se da couraça da fé e do amor (1 Tessalonicenses 5.5-8).

Desse modo, os cristãos não deveriam se comunicar (comunhão) com as obras infrutuosas das trevas, ou seja, com as obras dos judaizantes. Tudo o que os judaizantes faziam são condenadas pela luz, pois a luz a tudo manifesta e, por isso, é dito: “Desperta, tu que dormes” (Efésios 5.11-14), conforme profetizado por Isaías no capítulo 60, verso 1.

Os cristãos deviam rejeitar as obras das trevas, ou seja, os ensinamentos e práticas dos judaizantes e se vestirem das armas da luz, que é bondade, justiça e verdade, descobrindo o que é agradável ao Senhor (Romanos 12.1-2). Deveriam se conduzir apropriadamente, como de dia, ou seja, não em glutonarias, uma figura que remete à rebeldia e recalcitrância, tanto que nomearam Jesus de comilão e beberrão (Números 11.4 e 33; Isaías 22.13; Deuteronômio 21:20; Mateus 11.19).

O termo grego κωμος (komos), traduzido por ‘orgia’, ‘farra’, não deve ser visto no contexto grego, que remete às procissões noturnas de bêbados, galhofeiros, que desfilavam pelas ruas das cidades em honra ao deus Baco. O termo deve ser visto, através do exemplo de desobediência, deixado pelos filhos de Israel (1 Coríntios 10.7) que, por serem desobedientes, se assentaram a comer e a beber, diante do bezerro de ouro (Êxodo 32.6).

O termo μεθη (methe), traduzido por ‘bebedeira’, não pode ser visto como ‘alcoolismo’, ‘esbornia[1]’, como era próprio das sociedades gentílicas da antiguidade: os gregos, bárbaros, etc., e nem como os vícios que assaltam a nossa sociedade, como cerveja, vinho, pinga, whisky, etc.

A bebedeira em questão, diz do vinho da contenda, ou seja, do vinho dos campos de Sodoma e Gomorra (Deuteronômio 32.33). As práticas religiosas dos judeus visava tão somente a contenda, a divisão. “Eis que para contendas e debates jejuais e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” (Isaías 58.4).

“Ai dos que se levantam pela manhã e seguem a bebedice; e continuam até à noite, até que o vinho os esquente! Harpas e alaúdes, tamboris, gaitas e vinho há nos seus banquetes; e não olham para a obra do SENHOR, nem consideram as obras das suas mãos” (Isaías 5.11-12);

“Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” (Efésios 5.17-18).

Quem se desvia do evangelho, entrega-se à contenda, que é produzida pelo vinho dos judaizantes. “Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas” (1 Timóteo 1.6; 1 Timóteo 6.4-5; 2 Timóteo 2.23; Tito 3.9). As dissensões excitadas pelo vinho da contenda traz a rivalidade, que em grego é ζηλος (zelos) e contendas, disputa, discussão, que, em grego, é ερις (eris).

O termo grego κοιτη (koite), comumente traduzido por adultério, coabitação ilícita e relação sexual, bem como ασελγεια (aselgeia), traduzido por luxúria desenfreada, excesso, licenciosidade, lascívia, libertinagem, caráter ultrajante, etc., na abordagem paulina, remete a quem persiste no erro e engoda os inconstantes.

“Porquanto, fizeram loucura em Israel e cometeram adultério com as mulheres dos seus vizinhos e anunciaram falsamente, em meu nome, uma palavra que não lhes mandei, eu o sei e sou testemunha disso, diz o SENHOR” (Jeremias 29.23);

“Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tiago 4:4).

Os cristãos não poderiam ter cuidado da carne, em suas concupiscências, que eram questões típicas dos judeus, como genealogias, fábulas, contendas acerca da lei, comidas, festas, luas, sábados, circuncisão, etc., antes, deveriam se revestir do Senhor Jesus Cristo, tomando toda a armadura.

 

Platonismo hoje

Watchman Nee, no seu Livro ‘O homem espiritual’ faz uma citação de G. H. Pember (1837-1910):

“Em seu estado anterior à queda, Adão nada sabia dessas incessantes lutas entre espírito e carne, que, para nós, são experiências diárias. Suas três naturezas se uniam perfeitamente, formando uma só. A alma, como fator de unidade, tornou-se a base de sua individualidade, de sua existência como ser distinto” (Pember’s Eatth’s Earliest Age)

Por fim, Watchman Nee arremata:

“Porque aquilo que o homem é, depende de como é sua alma. Esta o representa e expressa sua individualidade. É a sede do livre-arbítrio do homem, o lugar onde o espírito e o corpo se unem de maneira perfeita. Se a alma do homem quiser obedecer a Deus, permitirá que o espírito o governe, conforme ordenado por Deus. Se ela preferir, poderá, também, na condição de dominadora do homem, reprimir o espírito e deleitar-se fora do Senhor” Nee, Watchman, O homem espiritual, tradução de Delcio de Oliveira Meireles, Belo Horizonte, Ed. Betânia, 2002, p. 32.

Ao final do seu Livro, Nee anuncia um remendo da doutrina de Platão:

“Essa guerra entre a alma e o espírito é travada em secreto, no interior dos filhos de Deus e não tem fim. A alma procura manter sua autoridade e agir, independentemente, enquanto o espírito luta para possuir e dominar tudo, no sentido de manter a autoridade de Deus em nossa vida. A alma sempre tende a assumir a liderança em tudo, antes de o espírito conquistar essa ascendência (…) Nossa vida natural é um tremendo obstáculo à espiritual (Enquanto o ego não é tocado, os filhos de Deus vivem guiados por estímulos e sensações que variam bastante (…) Se a mente estiver excessivamente ativa, pode influenciar e perturbar a tranquilidade do espírito” Idem. ps. 238 e 239.

Além de apresentar uma concepção platônica em seu livro, Watchman Nee equivoca-se ao interpretar o seguinte versículo:

“O qual nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2 Coríntios 3.6).

Neste verso, o apóstolo Paulo contrapõe ‘lei’ e ‘evangelho’, através dos seus resultados: ‘mata’ e ‘vivifica’, de modo que a lei, é a ‘letra’ que mata e o evangelho, o ‘espírito’ que vivifica. Esse mesmo contraponto é feito com os termos ‘carne’ e ‘espírito’, como já vimos.

Nee interpreta que, quem busca o conhecimento e ultrapassa os limites espirituais, terá somente ‘letra’ e não ‘espírito’:

“É bom admirar o conhecimento espiritual, mas, se ultrapassarmos os limites espirituais, o resultado será, simplesmente, ‘letra’ e não, ‘espírito’. Isto explica porque vários obreiros, embora preguem a pura verdade bíblica, são tão frios e mortos”. Idem, p. 239.

Ora, se alguém prega a pura verdade bíblica é perfeito, pois não tropeça na palavra da verdade, mesmo que tropece em muitas coisas (Tg 3:2). Como pode alguém perfeito estar frio e morto?

Destacamos aqui, que inexiste no interior do homem uma luta entre a carne e o espírito ou, entre a alma e o espírito! As necessidades do corpo físico e os anseios da alma, são próprios à humanidade e não possuem relação com a ideia bíblica da ‘carne’ versus ‘espírito’.

Negar as necessidades do organismo ou, os anseios da alma, não foi proposto por Cristo como caminho para se chegar a Deus. Cristo se interpôs como o caminho, sendo Ele suficiente para conduzir o homem a Deus.

Cristo não estabeleceu nenhuma prática ascética, oriunda do ascetismo, filosofia de vida, em que se devam refrear os anseios da alma e as necessidades básicas do corpo. Cristo comia e bebia livremente, em companhia de diversos seguimentos da sociedade.

O apóstolo Paulo esclarece que a comida ou, a privação dela, não faz os homens agradáveis a Deus. “Ora, a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta” (1 Coríntios 8.8).

Em linhas gerais, essa é a recomendação do apóstolo Paulo para os cristãos:

“Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; o que resta é que, também, os que têm mulheres, sejam como se não as tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que folgam, como se não folgassem; os que compram, como se não possuíssem; E os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” (1 Coríntios 7.29-31).

É um tremendo engano, alegar que o crente precisa ter consciência de uma luta interior, se deseja servir a Deus, pois tal luta inexiste, pois, para servir a Deus, basta sujeitar-se a Ele, crendo que Jesus é o Filho de Deus.

A Bíblia demonstra que todos os homens são sujeitos aos mesmos sentimentos ou, afeições (paixões), e elas não constituem entrave à comunhão com Deus.

“E dizendo: Senhores, por que fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo quanto há neles” (Atos 14.15);

“Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra” (Tiago 5.17).

Satisfazer os desejos do corpo ou, os anseios da alma, não é o mesmo que satisfazer os desejos da carne. Dormir, comer, beber, trabalhar, descansar, ou, mesmo fazer sexo, são atividades não relacionadas aos desejos da carne, nem mesmo sonhar, desejar, planejar, gostar, apaixonar, amar, etc.

O maior problema de muitos cristãos, com relação às questões do corpo e da alma, surge da má leitura das Escrituras. Quando o apóstolo Paulo relata que tinha um espinho na carne, alguns entendem que o apóstolo estava lutando contra o pecado. Na verdade, ele estava sendo protegido por Deus para não se ensoberbecer, pois a soberba precede a queda (2 Coríntios 12.7; Gálatas 4.14). E tal espinho (dificuldade), especula-se que poderia decorrer de uma deficiência visual, que o impedia de ler ou, de escrever (Gálatas 6.11), ou alguma secreção decorrente de alguma inflamação como renite, sinusite, etc., que fomentava certa rejeição entre os judeus, ou perseguições impostas pelos judaizantes, mas, ninguém sabe!

Não há como alguém fortalecer o seu espírito, para vencer a vontade do seu corpo ou, a da alma. O homem é corpo, alma e espírito e não há como dissociá-los! Não há como o homem fortalecer o espírito ou, alimentá-lo, independentemente do corpo, pois o homem é espírito.

“Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim, também, ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2:11).

O corpo, inundado pelas emoções e pelos sentimentos, guiado pela consciência e pelas decisões, é parte constituinte do homem. O corpo é elemento material e o espírito é a vida existencial, concedida por Deus, que, unidos, fizeram surgir a alma, que constitui a identidade do espírito, da qual, jamais, será dissociado.

Todos os homens possuem corpos, constituídos de matéria que, em suma, são idênticos na sua funcionalidade. Todos os homens possuem um elemento imaterial que procede de Deus, denominado espírito. Todos os espíritos concedem, igualmente, o fôlego de vida aos homens e procederam de Deus, sem identidade e individualidade. Quando o corpo passa a ser animado pelo espírito, que procede de Deus, surge a alma, a identidade do espírito, que o individualiza dos outros.

Se alguém lutar contra o sono, por exemplo, para debilitar o corpo, tencionando tornar o espírito mais forte, somente prejudicará o corpo, mas, o espírito, continua o mesmo: sabendo as mesmas coisas. A ideia de que existe luta da ‘carne’, versus ‘espírito’, na existência do cristão, advém do fato dele tentar reprimir seus instintos naturais. Se o homem ficar sem dormir, o corpo humano, por preservação, será vencido pelo sono. Se se abstiver do sexo, o homem ou, a mulher, somente tornar-se-ão incontinentes e suscetíveis à tentação (1 Co 7:5).

Muitos cristãos acham que há uma luta entre o corpo e o espírito ou, entre  a alma e o espírito, a pretexto de vencerem as paixões da carne, por privarem o seu corpo de necessidades essenciais, como o sono, a comida, a bebida, o sexo, etc.

“Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; proibindo o casamento e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças” (1 Timóteo 4.2-3).

Ora, os que pertencem a Cristo, crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências, de modo que é impossível, àqueles que pertencem a Cristo, satisfazerem os desejos da carne, porque o apóstolo Paulo pontua a carne como os preceitos segundo a lei e o espírito, como doutrina do evangelho, não como repressão às necessidades do corpo:

“E os que são de Cristo, crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5.24).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] Esbórnia – festa ou encontro festivo, em que predominam o hedonismo e o desregramento; farra, pândega.




O que é a circuncisão?

Por causa do sinal que Deus deu, equivocaram-se, pois passaram a entender que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne de Abraão. Passaram a acreditar que a justiça de Deus só era dada aos descendentes da carne de Abraão, esquecendo-se de que Abraão foi justificado quando, ainda, na incircuncisão.


O que é a circuncisão?

A circuncisão é um sinal estabelecido por Deus na carne dos descendentes de Abraão, em função da aliança deste com Deus. Esse sinal consistia em uma incisão cirúrgica na carne do prepúcio (remoção da pele que cobre a glande do órgão genital) de todas as crianças do sexo masculino, devendo ser realizada ao oitavo dia de nascimento (Gn 17:11-12).

A aliança de Deus com Abraão consistiu em estabelecê-lo como pai de muitas nações, de modo que Deus é o Deus de Abraão e dos seus descendentes (Gn 17:7) e eles, herdeiros das terras das peregrinações do patriarca (Gn 17:8).

Em função do sinal que Deus estabeleceu, Abraão circuncidou toda a sua casa e a si mesmo:

“Então tomou Abraão a seu filho Ismael, a todos os nascidos na sua casa e a todos os comprados por seu dinheiro, todo o homem, entre os da casa de Abraão, e circuncidou a carne do seu prepúcio, naquele mesmo dia, como Deus falara com ele” (Gn 17:23).

O sinal na carne dos homens em Israel servia para lembrá-los de que eram descendentes de Abraão e da promessa que Deus havia feito ao pai da fé. O sinal da circuncisão, também, seria para distingui-los das nações em redor.

No entanto, por causa do sinal que Deus deu, equivocaram-se, pois passaram a entender que eram filhos de Deus, por serem descendentes da carne de Abraão. Passaram a acreditar que a justiça de Deus só era dada aos descendentes da carne de Abraão, esquecendo-se de que Abraão foi justificado quando, ainda, na incircuncisão.

“E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que, também, a justiça lhes seja imputada” (Rm 4:11).

Em lugar de confiarem em Deus, os descendentes da carne de Abraão passaram a confiar na carne, fazendo dela a sua ‘força’, e deste modo, se esqueceram de confiar em Deus.

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5).

Em função do desvio dos filhos de Israel, que consideravam que eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão, Deus passou a protestar contra eles, dizendo:

Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt 10:16; Jr 4:4).

Por intermédio de Moisés, Deus falou, abertamente, que eles não eram justos, antes povo rebelde (Dt 9:4-6). Que eles não eram filhos de Deus, mas, uma mancha, geração perversa e depravada (Dt 32:5).

Por serem transgressores, Deus deu-lhes a lei para que compreendessem que não eram melhores do que os gentios e, igualmente, condenáveis diante de Deus: “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que castigarei a todo o circuncidado com o incircunciso” (Jr 9:25; Rm 3:9 e 19).

“Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro” (Gl 3:19; 1 Tm 1:9).

Com o passar do tempo, o termo ‘circuncisão’ acabou sendo utilizado para designar os judeus e o termo incircuncisão para designar os gentios. Em função disso, Pedro, por evangelizar os judeus, passou a ser denominado apóstolo da circuncisão e Paulo, de apóstolo da incircuncisão ou, apóstolo dos gentios.

“Antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão (porque aquele que operou, eficazmente, em Pedro para o apostolado da circuncisão, esse operou, também, em mim com eficácia para com os gentios) e conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos a destra, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios e eles, à circuncisão” (Gl 2:7-9).

A circuncisão era venerada entre os judeus, tanto que alguns se convenceram de que eram cristãos e passaram a anunciar aos irmãos que, para se salvarem tinham de se circuncidar, segundo o rito de Moisés (At 15:1).

Por causa da doutrina que anunciavam, que era contrária à verdade do evangelho, o apóstolo Paulo os denominava de desordenados, faladores, enganadores, vãos (Tt 1:10). As discussões dos judaizantes eram em torno de questões como alimentos, dias, festas, purificação, linhagem, circuncisão, genealogias, etc., tudo questões segundo mandamentos de homens.

Na Antiga Aliança, Deus havia instruído os filhos de Israel a se purificarem, lavando-se com água limpa. Ora, a água limpa simbolizava a palavra de Deus, de modo que ao se lavarem com água limpa, deveriam confiar que é Deus quem os purificava, através da sua palavra, porém, eles passaram a confiar que a purificação estava nas questões rituais e formais de se lavarem.

Os filhos de Israel, para serem filhos de Deus, deveriam ser circuncidados por Deus, não por seus pais, segundo a carne e o sangue. Quando Deus deu a ordem: ‘circuncidai, pois, os vossos corações’, era uma incisão impossível para os homens realizá-la, por isso, deveriam se sujeitar a Deus, obedecendo ao seu mandamento, pois aí Deus haveria de circuncidá-los:

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus, com todo o coração e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30:6).

Os filhos de Israel estavam todos mortos em delitos e pecados, assim como todos os gentios, por serem descendentes da carne de Abraão, e não da mesma fé que teve Abraão. Para viverem, precisavam ser circuncidados por Deus, isto é, serem participantes da palavra que sai da boca de Deus (Dt 30:6; Dt 8:3).

Da mesma forma que os pais circuncidam os filhos, é Deus quem circuncida os seus filhos, aqueles nascidos não da carne, nem do sangue e nem da vontade do homem, mas da vontade de Deus (Jo 1:12).

Na Nova Aliança, o crente em Cristo é verdadeiramente circuncidado, a circuncisão não feita por mão dos homens, mas pela circuncisão que lança fora o corpo da carne, a circuncisão de Cristo (Cl 2:11). A circuncisão em Cristo se dá através da crucificação do corpo da carne na cruz, onde o velho homem é crucificado com Cristo, morto e sepultado (Cl 2:12).

A circuncisão do coração é a verdadeira circuncisão, pois é feita pelo espírito, ou seja, pela Palavra de Deus, que é mais penetrante que qualquer espada de dois gumes. A circuncisão, segundo a letra, ou seja, segundo a lei do mandamento carnal (homens) é louvada pelos homens, porque é feita por eles mesmos no prepúcio da carne, mas a circuncisão pelo evangelho é louvada por Deus, pois é Deus quem realiza a circuncisão do coração.

“Mas é judeu o que o é no interior e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2:29).

O apóstolo Paulo enfatiza que a circuncisão são os cristãos, por servirem a Deus segundo a sua palavra (espírito), diferentemente dos judeus, que confiavam na carne.

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne” (Fl 3:3).

Por isso, o apóstolo Paulo disse:

“A circuncisão de nada vale e a incircuncisão de nada vale, o que importa é a observância dos mandamentos de Deus (1 Co 7:19).

A circuncisão, como sinal da aliança feita com Abraão, é sem valor, diante do mandamento da Nova Aliança, que é crer em Cristo (1 Jo 3:23).

Abraão era incircunciso, quando Deus lhe anunciou a palavra da promessa e ele creu nessa promessa, sendo concedido, em seguida, o sinal da circuncisão, como um selo da justiça da fé (Rm 4:11). O selo da circuncisão servia para evidenciar que, de fato, Abraão se fez servo de Deus (humilhou-se), crendo na promessa.

“Eu, também, andei para com eles, contrariamente, e os fiz entrar na terra dos seus inimigos; se, então, o seu coração incircunciso se humilhar e tomarem por bem o castigo da sua iniquidade” (Lv 26:41).

O que levou Abraão a receber o selo da circuncisão foi a obediência à promessa de Deus. Na promessa, não há um mandamento explicito, mas, implicitamente, se faz necessário descansar n’Aquele que prometeu.

O que Abraão poderia fazer diante da seguinte palavra?

“E eis que veio a palavra do SENHOR a ele dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que de tuas entranhas sair, este será o teu herdeiro. Então, o levou fora e disse: Olha, agora, para os céus e conta as estrelas, se as puderes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência” (Gn 15:4-5).

Nada!

Diante da palavra de Deus, mesmo com o seu corpo amortecido pela idade (cem anos) e Sara, também, de idade avançada, Abraão estava plenamente convicto de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera (Rm 4:20-21). Ao crer, Abraão se humilhou, ou seja, se fez servo, tornando-se circunciso de coração!

Os filhos de Israel, por sua vez, apesar de terem votado que fariam tudo o que o Senhor Deus havia ordenado, por intermédio de Moisés (Êx 19:8), não obedeceram, sendo declarados, portanto, homens de dura cerviz, incircuncisos de coração e de ouvidos.

“Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais” (At 7:51).

A verdadeira circuncisão se alcança através da obediência aos mandamentos de Deus!

“A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” (1Co 7:19).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




O Sermão do monte e o adultério

A ênfase do discurso do Sermão da Montanha não é moralizante, antes uma repreensão aos filhos de Israel por entenderem que eram melhores que os gentios por descenderem de Abraão, e que não precisavam de arrependimento (metanoia). A ênfase do discurso é sublinhada pelo público alvo da mensagem, que no caso do Sermão da Montanha eram os filhos de Israel, e não os membros do Corpo de Cristo, a Igreja, ou os gentios não convertidos.


O Sermão do monte e o adultério

Introdução

Sabemos que Jesus não veio ao mundo para revogar a lei, mas, sim, para cumpri-la. Nesse sentido, é inadmissível a ideia de acrescer ou diminuir qualquer mandamento à lei:

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2);

“Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” (Pv 30:6).

Se a multidão entendesse que, no Sermão do Monte, Jesus estivesse acrescentando à lei um novo mandamento, por menor que fosse o mandamento ou, proposta de alteração, não sofreriam o discurso passivamente.

Por que a multidão não se enfureceu e se arremeteu contra Cristo, ao ouvir o Sermão da Montanha? Jesus estava apresentando ao povo um novo código moral e de condutas, em substituição à lei?

Que ênfase considerar, ao ler o discurso de Jesus?

 

Adultério

“Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mateus 5:27-28)

Jesus aponta outro ponto da lei: “Ouvistes o que foi dito: Não adulterarás” (Mt 5:27), em seguida, alerta que não bastava aos seus ouvintes absterem-se das relações sexuais ilícitas, pois, qualquer que atentar para uma mulher para cobiçá-la, em seu coração já adulterou!

“Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para cobiçá-la, já, em seu coração, cometeu adultério com ela” (Mt 5:28).

Por que Jesus cita a lei e, em seguida, apresenta regras próprias mais rígidas que a lei?

“Eu, porém, vos digo…”

O ensinamento de Jesus era totalmente diferente dos seus antecessores. Os escribas e fariseus enfatizavam a lei, Cristo enfatiza os seus ouvintes, perante a lei.

Para compreender a proposta de Jesus, em relação ao adultério, temos de considerar o seu alerta, no início do discurso à multidão, que eles precisavam de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de terem direito a entrar no reino dos céus.

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder à dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20).

Como alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, se tudo o que faziam, segundo a lei, os publicanos faziam exatamente o mesmo?

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-47).

O motivo de Jesus ter apresentado a lei e, em seguida, apresentado a sua determinação, visava alcançar a compreensão dos seus ouvintes, que se achavam  justos, por ouvirem a lei, porém, os publicanos que eles consideram pecadores faziam exatamente o mesmo!

Os judeus amavam aqueles que os amavam, saudavam aqueles que os saudavam, e se achavam justos diante de Deus, por causa da lei. O que os ouvintes de Jesus faziam a mais que os seus concidadãos cobradores de impostos?

O pensamento do fariseu – da parábola – que foi ao templo orar e deu graças por não ser como os demais homens: roubadores, injustos e adúlteros e nem mesmo como o publicano, além de jejuar duas vezes na semana e dar os dízimos de tudo quanto possuía (Lc 18:11-12), era a tônica dos ouvintes de Jesus.

O fariseu da parábola não roubava, não era ‘injusto’ e não adulterava, etc., e mesmo assim, não voltou para casa justificado. Por quê? Porque o fariseu não tinha a justiça superior que o permitiria entrar no reino dos céus (Lc 18:11).

Se os ouvintes de Jesus desejavam justiça superior à dos escribas e fariseus, não deveriam fazer tão somente o que os fariseus faziam: não adulterar. Em face da necessidade dos seus ouvintes, é que entra a proposta de Jesus: nem mesmo poderiam atentar para uma mulher para a cobiçar, pois já teriam cometido adultério no coração (Mt 5:28).

Se fossem capazes de fazer o que Jesus estava ordenando, adotando uma regra de conduta superior à dos escribas, fariseus e publicanos, em relação ao adultério, quiçá alcançassem a justiça superior à dos seus líderes religiosos, que os permitisse entrar no reino dos céus.

 

Arranque o olho que escandaliza

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca, do que seja todo o teu corpo lançado no inferno” (Mt 5:29-30).

Jesus apresenta uma solução aos que se deixassem levar pela concupiscência dos olhos:

“Arranca-o e atira-o para longe de ti”!

Se o olho dos ouvintes de Jesus os fizesse tropeçar, de modo que atentassem para uma mulher e a cobiçasse, a proposta de Jesus é: arranca-o e atira-o para longe de ti! Quem dentre os ouvintes de Jesus, a pretexto de não ir para o inferno, teria coragem de arrancar um dos seus olhos?

Arrancar o olho, após incorrer no erro de atentar para uma mulher, para cobiçá-la, é uma proposta diferente à prática proposta pelos escribas e fariseus! Para alguém que necessita de justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de ter direito a entrar no reino dos céus, é melhor que se perca um dos seus membros, do que ser lançado todo o corpo no inferno.

Satisfazer qualquer exigência necessária, para se alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, a fim de entrar nos céus, deve ser a meta do homem e se alguma coisa o faz tropeçar (escandalizar), que seja removido. Se a mão direita é causa de tropeço, que seja cortada e lançada para longe! É melhor perder um membro, do que ter o corpo inteiro lançado no inferno.

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti” (Mt 5:29).

A proposta de Jesus é prescritiva de comportamento, visando estabelecer uma moral superior à dos escribas e fariseus ou, visa provocar nos seus ouvintes uma mudança de pensamento (arrependimento/metanoia)?

 

O divorcio

“Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério e qualquer que casar com a repudiada, comete adultério” (Mateus 5:31 -32).

Os judeus tinham ouvido que, aquele que deixasse a sua esposa, que lhe desse carta de divórcio. Mas, para produzir uma mudança de concepção nos seus ouvintes, acerca da justiça de Deus, Jesus alerta que, qualquer que se divorcia de sua mulher, a não ser por imoralidade por parte dela, faria com que tanto a mulher repudiada, quanto quem se casasse com ela, cometessem adultério.

Jesus estava ab-rogando a lei dada por Moisés? O que Jesus intentava, ao anunciar que, o que estava estabelecido na lei, era pouco? Sabemos que qualquer alteração em uma lei estabelece uma nova, revogando a antiga, mas esse não era o objetivo de Jesus, pois Ele mesmo disse:

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Considerando que Jesus estava falando ao povo e que ele nunca falava ao povo sem parábolas (Mc 4:34), certo é que a proposta de Jesus não era impor novas regras sociais acerca da união conjugal aos seus ouvintes, antes, a proposta é apresentar uma grande parábola, que conduzisse os seus ouvintes a compreenderem a necessidade de se buscar o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6:33), pois, somente a justiça de Cristo, o reino de Deus, é superior à justiça dos escribas e fariseus.

Devemos considerar que Jesus não veio anular, omitir ou acrescentar o estabelecido pelos profetas, portanto, é contra senso entender o anunciado no Sermão da Montanha, como sendo uma ‘nova moral’, pertinente ao reino de Deus.

“Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4:2).

Embora o Senhor Jesus fosse o Verbo eterno encarnado, na condição de Filho, não tinha autonomia para alterar o estabelecido por Deus pois, na sua primeira vinda, se fez servo.

 

Juramentos

“Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR. Eu, porém, vos digo que, de maneira nenhuma, jureis; nem pelo céu, porque é o trono de Deus; Nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque, o que passa disso, é de procedência maligna” (Mateus 5:33– 37).

Em seguida, Jesus aborda a questão dos juramentos, destacando o que dizia a lei: “Outrossim, ouvistes o que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR” (Mt 5:33) para, em seguida, proibi-los de jurar, visto que não pertenciam aos ouvintes de Jesus as coisas sagradas que eles evocavam nos juramentos.

Como jurar por algo que não lhe pertence, como os céus, o trono de Deus? Como jurar pela terra, se ela pertence a Deus? Como jurar pela cidade santa, se ela pertence ao Messias? Como jurar por algo que o homem tem por seu, que é o cabelo da sua cabeça, se nem poder tem para mudar a cor do seu cabelo?

Deus já havia salientado na lei que a terra lhe pertencia e o povo havia votado que fariam o que Deus ordenara:

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel. E veio Moisés, chamou os anciãos do povo, e expôs diante deles todas estas palavras, que o SENHOR lhe tinha ordenado. Então todo o povo respondeu a uma só voz e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos. E relatou Moisés ao SENHOR as palavras do povo” (Ex 19:5-8).

Deus não está interessado em que o homem faça votos, mas,  que cumpra o que já havia votado, que é obedecer à Sua palavra.

“Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade” (Tg 2:12).

Jesus orienta os seus ouvintes a terem uma palavra firme e segura, pois os profetas já haviam alertado que a palavra deles era ‘sim’, mas que não punham por obra o que diziam.

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Quem honra com a boca, mas não obedece a Deus, é de procedência maligna: “Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás”  (Is 1:4).

 

Talião

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes” (Mt 5:38-42).

Jesus continua o seu discurso, evidenciando um princípio da lei: “Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé…” (Ex 21:24) e ordena aos seus ouvintes que não resistam aos homens violentos. Que, caso fossem agredidos em uma das faces, que oferecessem a outra.

Nesse mesmo diapasão, se alguém reclamasse aos ouvintes de Jesus a túnica (vestido) litigiosamente, que deixassem o adversário levar a capa também. Ou, se alguém exigisse dos ouvintes de Jesus que se andasse uma milha, que se dispusessem a acompanhá-lo, também, por duas. Ou, se alguém pedisse algo, que dessem o que foi pedido e, jamais deixassem de emprestar a qualquer que lhe pedisse.

O que Jesus pretendia com esse discurso? Mudar as regras que disciplinavam as relações sociais? Dar a outra face ou, entregar a capa a quem quer a túnica, para obter salvação? Dar a quem pede e não negar a quem pede emprestado, para obter direito à salvação? É certo que não!

Jesus pretendia mudar a lei de Moisés, que é prescritiva de comportamento e disciplina as relações sociais em seus vários aspectos: casamento, divórcio, empréstimo, penhor, guerra, etc.? (Ex 24:1-22) O que foi estabelecido por Deus como preceito em Israel não era justo? A lei não disciplinava o princípio expresso na máxima da lei do talião: paridade entre ofensa e retribuição? É certo que sim!

No seu discurso Jesus busca provocar no povo uma mudança de concepção, pois, ao apresentar a necessidade de uma justiça maior que a dos escribas e fariseus, deixa claro que é impossível alcançar tal justiça através da total abnegação.

Se os fariseus e os escribas, pelas obras da lei não tinham direito a ver o reino dos céus, que ações meritórias o povo deveria praticar, de modo que fosse possível suplantar a justiça dos seus líderes religiosos?

“Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça” (Rm 9:31).

Muitos veem na sugestão de ‘dar a outra face a quem ferir’, o pináculo da sabedoria contida na doutrina de Jesus. No entanto, Jesus estava somente apresentando várias situações que colocam em xeque a religião judaica, visto que os publicanos e os gentios tinham o mesmo comportamento que os escribas e fariseus e eram tidos por pecadores.

A sabedoria de Jesus está, não em dar a outra face a quem agredir mas,  na pergunta que produz a metanoia (arrependimento):

“Que fazeis demais?”

 

O amor ao próximo

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E, se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:43-48).

É cediço que o amor ao próximo é o cumprimento da lei:

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor, com que vos ameis uns aos outros; porque, quem ama aos outros, cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13:8-10).

Mas, qual o objetivo de Jesus em lembrar ao povo o que constava na lei?

“Amará o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Mt 5:43).

Por que Ele dá a ordem:

“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44)?

Basta alguém amar o seu inimigo, que alcançará a filiação divina? Uma oração em favor dos que perseguem, é suficiente para a pessoa ser declarada um dos filhos de Deus? Absolutamente, não!

As ações que Jesus recomenda à multidão tinham por objetivo mudar a concepção dos seus ouvintes, não impor-lhe, novas regras sociais. Para os ouvintes de Jesus entrarem no reino dos céus, o exigido por Deus era justiça superior à dos escribas e fariseus e, por isso, Ele ordena a amar os inimigos, pois, só amando ao próximo, a justiça alcançada não suplantaria a dos escribas e fariseus.

Somente praticando ações superiores às praticadas pelos escribas e fariseus, é que os ouvintes de Jesus seriam tidos por filhos de Deus, visto que a lei deixa claro que os filhos de Israel não eram filhos, mas, uma mancha.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5; Is 30:9).

Se os ouvintes de Jesus queriam alcançar a filiação divina, ou seja, terem justiça maior que a dos escribas e fariseus, as suas ações deveriam ser da mesma natureza do Pai celeste, que não faz acepção de pessoas: faz nascer o sol sobre grandes e pequenos e faz vir chuva sobre justos e injustos.

Partindo do pressuposto de que quem faz somente o que é ordenado não passa de servo inútil, que recompensa alguém teria ao fazer somente o estabelecido na lei?

“Assim, também, vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lc 17:10).

Tudo o que foi exposto por Jesus, desde o verso 21, deve ser considerado segundo o prisma dessa pergunta fundamental:

“Pois, se amais os que amam a vós, que recompensa tendes? Não é assim que os publicanos também fazem?”, ou:

“E se saudais apenas os seus irmãos, o que a mais fazeis? Não é assim que os gentios também fazem?” (Mt 5:47).

Conforme apontado pelo apóstolo Paulo, os filhos de Israel se achavam melhores que os gentios (Rm 3:9), e Jesus apresenta várias ações ao povo que, caso quisessem ser diferentes dos publicanos e gentios, deveriam considerar praticar.

Os filhos de Israel queriam ser recompensados com o reino dos céus somente amando àqueles que os amavam, dai a sugestão: amai os vossos inimigos! A proposta de Jesus ante a má compreensão dos judeus, acerca das coisas de Deus, foi apresentar um comportamento diferente da dos publicanos e gentios: dê a outra face, a qualquer que ferir a sua face!

Ir à sinagoga com os concidadãos e saudá-los nas praças não era algo que pudesse diferenciá-los dos gentios, pois os gentios também se portavam dessa forma. Através dessa abordagem, Jesus queria que considerassem que, somente ouvir a lei, não torna ninguém justo (Rm 2:13) e que os gentios, apesar de não terem a lei de Moisés, naturalmente, faziam as mesmas coisas que constavam da lei (Rm 2:14).

Ora, só é justificado quem pratica a lei (Rm 2:13) e como nenhum dos ouvintes de Jesus cumpriam, totalmente, a lei (Jo 7:19), nenhum deles era melhor que os gentios, portanto, também, não podiam herdar o reino dos céus. Devemos considerar que, se o homem tropeça em um só quesito da lei, é transgressor de toda a lei.

“Porque qualquer que guardar toda a lei e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tg 2:10).

Para os ouvintes de Jesus alcançar justiça superior à dos escribas e fariseus, precisavam ser perfeitos, como o pai Abraão:

“Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5:48).

Como ser perfeito diante de Deus? Basta andar na presença de Deus, assim como Deus ordenou a Abraão:

“Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” (Gn 17:1; Dt 18:13).

O homem jamais será perfeito, de modo a ser possível andar com Deus, antes, por andar com Deus é que o homem alcança a perfeição, assim como aconteceu com Enoque, Noé e Abraão (Gn 5:24; Gn 6:9).

A mensagem de Jesus no Sermão da Montanha estava preparando o povo para a seguinte ordem:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me” (Mt 19:21).

Só os que estão em Cristo são perfeitos, verdadeiros filhos do crente Abraão:

“E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Cl 2:10; Gl 3:7).

Através dessa releitura do Sermão da Montanha, percebe-se que a proposta de Jesus visava causar nos seus ouvintes uma mudança de concepção, o tão apregoado ‘arrependimento’!

A mensagem de Jesus não visava mudança de comportamento, mas, uma mudança de compreensão à vista do Cristo, o reino de Deus.

“Desde então, começou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 4:17).

A ênfase do discurso do Sermão da Montanha não é moralizante, antes uma repreensão aos filhos de Israel por entenderem que eram melhores que os gentios por descenderem de Abraão, e que não precisavam de arrependimento (metanoia). A ênfase do discurso é sublinhada pelo publico alvo da mensagem, que no caso do Sermão da Montanha tinha por alvo os filhos de Israel, e não os membros do Corpo de Cristo, a Igreja ou os gentios não convertidos.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




Não matarás e o Sermão da Montanha

No Sermão do Monte Jesus agrava as exigências da lei para que os seus ouvintes entendessem que nada faziam que os diferenciava dos pecadores, se tão somente fossem ouvintes do que estava nas Escrituras (Rm 2:13).


Não matarás e o Sermão da Montanha

“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar, será réu de juízo” (Mateus 5:21).

Introdução

O Sermão do Monte foi anunciado, especificamente, com a finalidade de demover os filhos de Israel dos conceitos que, por tradição, herdaram de seus antepassados. A mensagem de Jesus contém elementos que possibilitaria à multidão reconhecer, através das Escrituras, a pessoa de Jesus de Nazaré como o Filho de Deus, o Filho de Davi (Sl 2:7; 2Sm 7:14).

Discursar para uma multidão composta por judeus não era uma tarefa fácil. Antes do Sermão do Monte, Jesus já havia discursado aos seus compatriotas e, quando abordou duas passagens bíblicas, de uma perspectivava diferente da que os seus concidadãos estavam acostumados a ouvir – as passagens bíblicas da viúva de Sarepta, de Sidom, e de Naamã, o chefe do exército sírio, leproso – quiseram lançá-lo do alto de um precipício: “E todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira” (Lc 4:28-29).

Como mudar a concepção de um público que possuía entendimento equivocado acerca da lei, sem que ficassem irados? Como destacar a santidade da lei e apontar a necessidade dos seus ouvintes utilizarem a lei, legitimamente? Como destacar que a lei não cumpriu o seu papel (enferma), por causa do argumento que utilizavam (pela carne): – “Temos por pai a Abraão”.

Estas são algumas das censuras paulinas em desfavor dos judeus:

“Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” (Rm 2:20).

“Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa, legitimamente; sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas” (1Tm 1:8-9).

“Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho, em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne” (Rm 8:3).

O público alvo de Jesus tinha a lei como a plenitude do conhecimento, da sabedoria, da doutrina insofismável, no entanto, o orador à frente da plateia era a própria Verdade encarnada, em quem todos os tesouros da sabedoria e da ciência estavam ocultos, mas não O receberam: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14:6). “Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2:3).

A lei, que era tão preciosa aos olhos da multidão, na verdade, tinha por objetivo conduzir os judeus a Cristo. Como seriam conduzidos? Quando informados pela lei que todos os homens pecaram – os judeus não eram exceção – consequentemente, precisariam de um Mediador: Jesus Cristo-homem: “Porque, o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). “Por isso, nenhuma carne será justificada diante dele, pelas obras da lei, porque pela lei, vem o conhecimento do pecado” (Rm 3:20).

Através do Sermão da Montanha, Jesus destaca que a lei não cumpria a sua função por estar débil (enferma), uma vez que os judeus faziam da ‘carne o seu braço’, ou seja, se diziam salvos por serem descendência de Abraão (Jr 17:5).

A lei foi feita para os ímpios, mas como os filhos de Israel não utilizavam a lei, legitimamente, não compreenderam qual era a real condição deles, diante de Deus: pecadores!

O fato de os filhos de Jacó serem descendentes da carne de Abraão, tornou-se um empecilho para reconhecerem que eram pecadores, tal qual os gentios.

Após a leitura deste comentário ao Sermão do Monte, você terá os elementos necessários para compreender como Jesus, através de símiles, parábolas e enigmas, evidenciou aos seus ouvintes as bem-aventuranças dos seus seguidores, sem abrir mão de demonstrar a mensagem dos profetas e censurar os escribas e fariseus:

“Desde os dias de vossos pais, vos desviastes dos meus estatutos e não os guardastes” (Ml 3:7);

“Mas, vós vos desviastes do caminho, a muitos fizestes tropeçar na lei e corrompestes a aliança de Levi, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ml 2:8).

No Sermão do Monte, Jesus não podia falar, abertamente, aos seus ouvintes que, ninguém, exceto os seus discípulos, observava a lei: “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei! Por que procurais matar-me?” (Jo 7:19).

Jesus, também, não podia dizer, abertamente, que ele era o Cristo, o Filho unigênito de Deus, por isso anunciou a bem-aventuranças dos pobres, dos que choravam, dos mansos, dos sedentos, etc., para que seus ouvintes entendessem, pelas Escrituras, que quem lhes falava era o prometido Rebento do troco de Jessé (Is 11:1-4; Is 61:1-3)

 

Introduzindo mudança de concepção em relação à lei

Antes de apontar o que estava escrito na lei, Jesus deixou claro, aos seus ouvintes, uma impossibilidade:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder à dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:21).

O que entender por ‘de modo nenhum entrareis no reino dos céus’? Que o reino dos céus estaria vetado (fechado), justamente, para aquelas pessoas que, desde tenra idade, eram ensinadas todos os sábados, nas sinagogas, que eram ditosas, especificamente, por terem, por pai, o patriarca Abraão.

Em outras palavras Jesus, disse à multidão: – ‘Vocês não entrarão no reino dos céus…’. A assertiva de Jesus foi abrandada pela condição estabelecida, antes da negativa: ‘…se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus” (v. 21). A multidão não se assustou com a impossibilidade, em função da condição estabelecida por Cristo, uma vez que, ainda, seria possível entrar no reino dos céus, se alcançassem justiça superior à dos escribas e fariseus.

Os filhos de Israel estavam acostumados com o surgimento de intermináveis normas e regulamentos, elaboradas pelos escribas – que, por tradição, passavam de pais para filhos, inicialmente, de forma oral (Mishnah), e, posteriormente, de maneira escrita (Talmud) – que não protestaram, quando lhes foi anunciado, que não era possível entrarem no reino dos céus.

Os ouvintes de Jesus, possivelmente, aguardavam mais regras, nos moldes das anunciadas pelos escribas: – Que ações e omissões serão recomendadas, que darão direito a entrar no reino dos céus?

As intermináveis regras, que por tradição os judeus se sujeitavam, foram previstas pelo profeta Isaías:

“Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento,  regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão e caiam para trás, se quebrantem, se enlacem e sejam presos” (Is 28:13).

De modo que o povo se aproximava de Deus, somente com a boca, mas o coração estava longe de Deus, pois os mandamentos que cumpriam eram mandamentos de homens, aprendidos de forma rotineira (Is 29:13; Jr 12:2).

Apesar da ordem divina, para contemplarem a pedra preciosa de esquina, assentada em Sião (Is 28:16), as visões tornaram-se, para os filhos de Israel, como as palavras de um livro proibido, para aquele que sabe ler ou como um livro entregue nas mãos de quem não sabe ler (Is 29:11-12).

Diante desse quadro funesto, sete versículos nos chamam a atenção, pois são imprescindíveis para compreendermos a continuação do Sermão da Montanha:

“E naquele dia, os surdos ouvirão as palavras do livro e, dentre a escuridão, e dentre as trevas, os olhos dos cegos as verão. E os mansos terão gozo sobre gozo no Senhor; e os necessitados entre os homens se alegrarão no Santo de Israel. Porque o tirano é reduzido a nada e se consome o escarnecedor e todos os que se dão à iniquidade são desarraigados; Os que fazem culpado ao homem por uma palavra e armam laços ao que repreende na porta e os que, sem motivo, põem de parte o justo” (Is 29:18-21).

 

O cumprimento de várias profecias

O profeta Isaías predisse acerca de um dia, no qual os surdos haveriam de ouvir as palavras do livro e os olhos dos cegos haveriam de contemplá-las. ‘Surdez’ e ‘cegueira’ são figuras utilizadas pelos profetas para fazerem referência aos filhos de Israel, como nação: “Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” (Is 43:8; Is 42:18 e 20; Is 32:3).

O dia que Isaías previu, diz do dia sobremodo oportuno (Is 25:9), pois a salvação em Cristo seria manifesta por Deus e Cristo seria dado por aliança do povo de Israel e luz para os gentios (Is 42:6; Is 49:5-9).

Mas, por que os filhos de Israel (surdos e cegos) ouviriam e veriam as palavras do livro, somente no dia aprazado? Porque os filhos de Israel estavam como bêbados, porém, não era de vinho, nem de bebida forte. Sobre os filhos de Israel pesava um espírito de profundo sono, torpor que se assemelha aos que estão bêbados, de modo que os olhos deles estavam como que, vedados, e os ouvidos como que, agravados (Is 29:10).

O dia aprazado por Deus diz do evento em que Jesus anunciaria bem-aventuranças (regozijo e alegria) aos mansos e necessitados (Is 29:19), quando Cristo, o Santo de Israel, julgaria e repreenderia os mansos e pobres, segundo a reta justiça, diferente dos líderes de Israel, que julgavam segundo o ouvir dos seus ouvidos e segundo a vista dos seus olhos, ou seja, segundo a aparência: “Mas julgará com justiça aos pobres e repreenderá, com equidade, aos mansos da terra; e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará ao ímpio” (Is 11:4).

Enquanto Jesus anunciava as bem-aventuranças do Sermão do monte, as profecias registradas nos capítulos 11 e 29, de Isaías, se cumpriam. Jesus é o rebento que brotou do tronco de Jessé, sobre quem o espírito do Senhor repousava e, que se apresentou aos filhos de Israel, anunciando boas novas aos pobres: “Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7:22; Is 61:1).

Embora Jesus estivesse se apresentando ao povo como a fortaleza do pobre e do necessitado e preparando uma festa para que todos os povos pudessem ser participantes, destruindo a morte e enxugando a lágrimas, ao retirar o opróbrio do seu povo de toda a terra (Is 25:4 -8), os filhos de Israel não O reconheceram como o Senhor, anunciado pelos profetas (Is 25:9).

É em função de rejeitarem a Cristo que o profeta anunciou: – ‘Quando eu vim, por que ninguém apareceu? Quando chamei, por que ninguém respondeu?’ (Is 50:2). Quem é o Senhor que, quando chamou ninguém respondeu? O mesmo Senhor que, quando veio, se fez servo e deu as suas costas aos que O feriam (Is 50:6). O mesmo servo do Senhor, o rebento da raiz de Jessé, que o espírito do Senhor estava sobre Ele, e que, portanto, tinha a língua instruída para dar descanso ao cansado (Is 50:4).

O leitor do Sermão do Monte não pode perder de vista que os eventos registrados por Isaías, pois alguns aspectos dessas profecias estavam se cumprindo enquanto Jesus falava aos filhos de Israel.

Enquanto Jesus anunciava o reino, a obra de Deus estava sendo executada, em meio ao povo de Israel e a sabedoria dos líderes de Israel destruída (Is 29:14). Os líderes de Israel (tiranos), homens escarnecedores e dados à iniquidade, estavam sendo reduzidos a nada (Is 29:20). “Porque os estranhos se levantam contra mim e tiranos procuram a minha vida; não têm posto Deus perante os seus olhos. (Selá)” (Sl 54:3). “Ó Deus, os soberbos se levantaram contra mim e as assembleias dos tiranos procuraram a minha alma e não te puseram perante os seus olhos” (Sl 86:14).

Os líderes de Israel, a pretexto de uma lei, forjaram o mal contra o justo, condenando quem não tinha culpa alguma (Sl 94:19-20). A profecia do Salmo 94 é a mesma anunciada pelo profeta Isaías, pois fala de tiranos, escarnecedores e iníquos que fariam o Cristo culpado; que armariam laços para Ele, por repreender na ‘porta’, e que, por fim, negariam justiça ao inocente (Is 29:21).

‘Porta’ é referência ao local onde os juízes, príncipes e anciões se reuniam: “Seu marido é conhecido nas portas e assenta-se entre os anciãos da terra” (Pv 31:23). Quando é dito: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças” (Sl 24:7), é uma previsão referente ao futuro, quando todos reunidos em uma assembleia serão convocados a se postarem de pé, visto que o rei da glória estará adentrando ao recinto.

Os lideres de Israel, homens que se assentavam à porta e que armariam laços, se opuseram a Cristo durante o Seu ministério e negaram-lhe justiça, quando O condenaram à morte, o Filho de Deus que tinha zelo da casa do Pai e os seus irmãos se tornaram estranhos: “Aqueles que se assentam à porta, falam contra mim; e fui o cântico dos bebedores de bebida forte” (Sl 69:12; Sl 69:8-9; Jo 2:17).

Cristo tinha uma causa: obediência ao Pai (Jo 4:34). Por causa da obra do Pai, Jesus ‘repreendia na porta’ e os líderes de Israel se opunham (Sl 69:12). O Filho de Deus se fez servo, obedecendo ao Pai até a morte e morte de cruz (Fl 2:8), mas os seus negaram-lhe justiça e o mataram (At 3:13; Is 53:8; At 8:33).

Sabedor dos eventos previstos nas Escrituras, Jesus instrui os seus ouvintes sobre o homicídio!

“Não vos deu Moisés a lei? E nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” (Jo 7:19; Jo 8:37 e 40)

 

Não matarás

“21 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar, será réu de juízo” (Mt 5:21).

Após afirmar, categoricamente, que, caso a justiça dos seus ouvintes – uma multidão composta de judeus – não fosse superior à justiça dos escribas e fariseus, de maneira nenhuma herdariam o reino dos céus, Jesus chamou a atenção dos seus ouvintes, ao lembrá-los do que ouviram, acerca do que foi anunciado aos antigos:

“Não matarás; mas, qualquer que matar, será réu de juízo” (v. 21).

Como Jesus falava à multidão, não afirmou: ‘Está escrito’, e nem questionou: ‘Nunca lestes?’, ou ‘O que está escrito?’, ou ‘Como lês?’, etc., antes, fez referência ao que ouviram, pois mais de 97% dos que ali estavam eram analfabetos[1]: Ouvistes que foi dito aos antigos: …’ (v. 21). “Nós temos ouvido da lei, que o Cristo permanece para sempre” (Jo 12:34; Jo 10:34; Jo 8:17; Lc 19:46; Lc 10:26; Mc 7:6).

A multidão, rotineiramente, ouvia, aos sábados, os mandamentos, conforme o que está escrito no Êxodo: “Não matarás” (Êx 20:13) e suas consequências legais: ‘E quem matar a alguém, certamente, morrerá’ (Lv 24:17; Lv 24:21; Nm 35:30).

Como os judeus passaram à condição de escravos das nações vizinhas, desde a conquista dos Babilônicos, por volta do século V a.C., a autonomia para aplicarem a pena capital inexistia, restando somente submeterem os seus réus, nos casos de homicídios, aos tribunais estrangeiros.

A morte de Jesus, a cargo dos Romanos, deixa claro que os judeus não podiam praticar a pena capital pois, apelaram para Pôncio Pilatos, procurador da Judéia, e tiveram que pressioná-lo para condenar Cristo à morte: “Desde, então, Pilatos procurava soltá-lo; mas os judeus clamavam, dizendo: Se soltas a este, não és amigo de César; qualquer que se faz rei é contra César” (Jo 19:12).

Embora, julgado no Sinédrio (Mt 26:57), corte judaica composta por príncipes, sacerdotes, rabinos, escribas, fariseus, Jesus foi conduzido ao pretório, perante Pilatos (Mt 1:1 -2; Lc 23:1), seguido de grande multidão, para pressionar o governo local a condená-Lo à morte (Jo 19:12 e 15).

Por fim, a pena capital não foi aplicada por apedrejamento, mas, por crucificação, que, segundo a lei mosaica, qualquer que fosse pendurado no madeiro, seria maldito de Deus: “Responderam e disseram-lhe: Se este não fosse malfeitor, não to entregaríamos. Disse-lhes, pois, Pilatos: Levai-o vós e julgai-o segundo a vossa lei. Disseram-lhe então os judeus: A nós não nos é lícito matar pessoa alguma. (Para que se cumprisse a palavra que Jesus tinha dito, significando de que morte havia de morrer)” (Jo 18:30-32). “Quando, também, em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, o seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas, certamente, o enterrarás, no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim, não contaminarás a tua terra, que o SENHOR teu Deus te dá em herança” (Dt 21:22-23).

Decorrente do mandamento ‘Não matarás’, havia, ainda, a obrigação dos filhos de Israel, de se afastarem do falso testemunho, bem como, de não matarem o inocente e o justo: “De palavras de falsidade te afastarás e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” (Êx 23:7).

Os filhos de Israel tinham o dever de testemunhar, verazmente, segundo o que viram e ouviram, pois, pela palavra de duas pessoas, uma outra podia ser morta: “Todo aquele que matar alguma pessoa, conforme depoimento de testemunhas, será morto; mas, uma só testemunha, não testemunhará contra alguém, para que morra” (Nm 35:30). “Por boca de duas testemunhas, ou três testemunhas, será morto o que houver de morrer; por boca de uma só testemunha não morrerá” (Dt 17:6; Jo 8:17).

Os filhos de Israel foram alertados para não seguirem a maioria, tomando parte com a maioria, para torcer o direito, o que fizeram quando condenaram a Jesus: “Não seguirás a multidão, para fazeres o mal; nem, numa demanda falarás, tomando parte com a maioria para torcer o direito” (Êx 23:2).

Segundo a lei, a pena capital não podia passar da pessoa do transgressor, ou seja, a alma que pecasse, essa mesma, morreria: “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado” (Dt 24:16; Ez 18:4). E, se a pena fosse açoites, a quantidade de açoites não poderia ultrapassar uma quarentena, para o condenado não ser aviltado: “Quarenta açoites lhe fará dar, não mais; para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos” (Dt 25:3).

Tudo o que estava estabelecido na lei servia para preservar os filhos de Israel como povo e de aviso para não participarem da morte de Cristo, no entanto, acabaram torcendo o direito, ao se deixarem guiar por homens inescrupulosos, que se utilizaram de testemunhas mentirosas e entregaram Jesus para ser morto: “Ora, os príncipes dos sacerdotes, os anciãos e todo o conselho, buscavam falso testemunho contra Jesus, para o conduzirem à morte; E não o achavam; apesar de se apresentarem muitas testemunhas falsas, não o achavam. Mas, por fim, chegaram duas testemunhas falsas, e disseram: Este disse: Eu posso derrubar o templo de Deus e reedificá-lo em três dias” (Mt 26:59-61); “E os principais dos sacerdotes e todo o concílio buscavam algum testemunho contra Jesus, para o matar, mas não o achavam. Porque muitos testificavam falsamente contra ele, mas os testemunhos não eram coerentes. E, levantando-se alguns, testificaram falsamente contra ele, dizendo: Nós o ouvimos dizer: Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens e, em três dias, edificarei outro, não feito por mãos de homens” (Mc 14:55-58); “E, LEVANTANDO-SE toda a multidão deles, o levaram a Pilatos.  E começaram a acusá-lo, dizendo: Havemos achado este pervertendo a nossa nação, proibindo dar o tributo a César e dizendo que ele mesmo é Cristo, o rei” (Lc 23:1-2).

Portanto, os filhos de Israel feriram o Justo (Jo 18:22-23), deixaram que fosse açoitado por estrangeiros (Jo 19:1) e, por fim, entregaram-no para ser morto (Jo 19:16; Jo 19:23).

Os escribas e fariseus faziam o que bem entendiam com a lei, como se lê:

“Responderam-lhe os judeus: Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei,  ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus” (Jo 19:7);

“Disse-lhes, pois, Pilatos: Levai-o vós e julgai-o, segundo a vossa lei. Disseram-lhe, então, os judeus: A nós não nos é lícito matar pessoa alguma (Jo 18:31).

Assim, se cumpriram as Escrituras, que dizem:

“Pode acaso associar-se contigo o trono da iniquidade, que forja o mal, tendo por pretexto uma lei? Eles se ajuntam contra a alma do justo e condenam o sangue inocente” (Sl 94:20 -21).

Não há sociedade entre a justiça e a injustiça e nem entre a luz e as trevas (2Co 6:14), portanto, os homens que exerciam domínio politico e religioso em Israel, tendo por base a lei, se uniram contra o Justo e o condenaram.

Vale destacar que, quando Davi estava no deserto de Parã com os seus homens, conviveram com os servos de Nabal, no Carmelo. Os homens de Davi não tomaram nada do rebanho de Nabal e ainda protegeram os servos de Nabal de toda sorte de ataques (1 Sm 25:15-16).

Quando Davi soube que o rico Nabal tosquiava as suas ovelhas, enviou seus servos a Nabal para pedirem, em nome de Davi, que ele concedesse alguma dádiva do que estava à mão. Nabal não mediu as palavras e disse aos servos de Davi: – “Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos servos há hoje, que fogem ao seu senhor. Tomaria eu, pois, o meu pão, a minha água e a carne das minhas reses, que degolei, para os meus tosquiadores e o daria a homens que eu não sei donde vêm?” (1 Sm 25:10-11).

Quando soube do agravo de Nabal, Davi ordenou aos seus homens que cingissem a espada, deixou duzentos homens cuidando da bagagem e subiram em quatrocentos homens com o propósito de por fim a Nabal e à sua casa: “E disse Davi: Na verdade que, em vão, tenho guardado tudo quanto este tem no deserto e nada lhe faltou de tudo quanto tem e ele me pagou mal por bem. Assim, faça Deus aos inimigos de Davi, e outro tanto, se eu deixar até amanhã de tudo o que tem, até mesmo um menino” (1 Sm 25:21-22).

Abigail, mulher de Nabal, quando soube do agravo que o seu marido fez a Davi, rapidamente tomou consigo presentes e foi ao encontro de Davi. Quando viu a comitiva de Davi, de imediato prostrou-se em terra e avocou para si a transgressão do seu marido.

Apesar de Davi ser um homem de guerra, Abigail foi enviada, por Deus, para que Davi não derramasse sangue e as suas próprias mãos lhe servissem de salvação (1 Sm 25:26). Por Deus, Abigail acentuou a Davi, que ele não foi posto para fazer suas próprias guerras e nem para defender a sua própria honra (1 Sm 25:31).

Embora fosse um homem de guerra, Davi não podia matar para defender a sua honra, assim como qualquer um em Israel não podia. Nabal era um louco, tanto no nome, quanto nas atitudes, conforme o testemunho de Abigail, porém, Davi não tinha o direito de lançar mão da vida de Nabal, da mesma forma que não podia lançar mão de Saul (1 Sm 24:6).

O mandamento: “Não matarás”, não comportava exceções! Não podia matar um ungido, bem como, não podia matar qualquer do povo. Os filhos de Israel não podiam matar quem pagasse mal por bem, quanto mais, por inveja: “Porque sabia que por inveja o haviam entregado” (Mt 27:18).

 

Metanoia

Ao lembrar a multidão, acerca do que ouviram da lei (não matarás, não adulterarás,…), Jesus estabeleceu um ponto de apoio à sua exposição, que terá o seu clímax nas questões dos versos 46 e 47: “Não fazem os cobradores de impostos o mesmo?”; “Não fazem os gentios também assim?”.

Sabedor de que o único argumento que os filhos de Israel escutavam, ao seu próprio modo, era a lei, Jesus lembra aos seus ouvintes alguns mandamentos da lei para poder evidenciar a impossibilidade de alcançarem justiça superior à dos seus líderes, por meio das práticas que, por tradição, receberam dos seus pais.

Jesus precisava operar nos seus ouvintes, uma revolução no modo de interpretar (metanoia) a Lei, os Profetas e os Salmos, entretanto, não podia dizer a sua mensagem abertamente, assim como o apóstolo Paulo, quando escreveu aos Gálatas: “E é evidente que, pela lei, ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé” (Gl 3:11).

O apóstolo Paulo disse, abertamente, aos da sinagoga de Antioquia da Pisídia, que, pela lei de Moisés, não podiam ser justificados: “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39). Jesus Cristo, por sua vez, tinha que evidenciar essa verdade, por meio de parábolas e enigmas.

Lembrando Jesus não podia dizer abertamente: – “Eu sou o Cristo”, e por isso mesmo proibia aos seus discípulos que anunciassem que Ele era o Cristo (Mt 16:20), isto porque os filhos de Israel deviam identifica-Lo como o Cristo por intermédio da sua doutrina (Jo 7:16 -17).

Quando Jesus apresenta a necessidade de adquirir justiça superior à dos escribas e fariseus, na verdade, evidencia a fraqueza e a inutilidade da lei, para aquilo que os filhos de Israel pretendiam: direito a entrar no reino dos céus (Hb 7:18; Gl 4:9).

A lei é proveitosa, porque evidencia a condição dos homens e anuncia bem-aventurança a todas as famílias da terra, através do descendente de Abraão, não pelos rudimentos fracos e pobres que os seus seguidores abstraíram, como ’guardar dias,  meses, tempos e anos’, ou ordenanças, que tem por base ‘não toques, não proves, não manuseies’ (Cl 2:21).

O que a multidão ouviu, acerca do que foi dito por Deus aos antigos (Êx 20:1 e 22), somado ao que Jesus estava propondo, compunha os elementos necessários para que os seus ouvintes considerassem que tudo o que faziam, tendo por pretexto a lei de Moisés, os gentios e os publicanos, igualmente, faziam o mesmo. Como os filhos de Israel faziam o mesmo que os gentios e publicanos, Jesus introduz algumas questões para considerarem: – “Eu, porém, vos digo…” (Mt 5:22).

Os ouvintes de Jesus estavam acostumados com o ensinamento de que não poderiam ser (roubadores, injustos e adúlteros) como os demais homens (gentios), nem mesmo como os publicanos (judeus, cobradores de impostos para Roma). Também não bastava ser judeu ou prosélito, antes eram necessárias as práticas de jejuns, dízimos, etc. “O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo” (Lc 18:11-12).

As observações: ‘Que recompensa tereis? Que fazeis de mais? Não fazem os publicanos o mesmo? Não fazem os gentios, também, assim?’ remontam ao que foi dito pelo apóstolo Paulo aos cristãos em Roma:

“PORTANTO, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo (Rm 2:1).

Jesus frisou à multidão: – Ouvistes o que foi dito aos antigos…’, em vez de: – Praticais o que foi dito aos antigos’, o que remete à observação paulina:

“Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados” (Rm 2:13).

Como obteriam justiça superior aos escribas e fariseus, se eram somente ouvintes da lei? Como teriam direito a entrar no reino dos céus, se praticavam as mesmas ações que os gentios (demais homens) e cobradores de impostos? Apesar de os gentios não terem lei, naturalmente, faziam as mesmas coisas que eram da lei!

”Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem, naturalmente, as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando, juntamente, a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Rm 2:13-15).

Jesus precisava fazer a multidão entender que eram transgressores da lei, tanto eles, quanto os seus mestres, pois o ensinamento dos seus mestres resumia-se em proibir matar, roubar, furtar, adulterar, etc. “Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus, pela transgressão da lei? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios, por causa de vós” (Rm 2:21-24); “E testificaste contra eles, para que voltassem para a tua lei; porém eles se houveram soberbamente e não deram ouvidos aos teus mandamentos, mas pecaram contra os teus juízos, pelos quais o homem que os cumprir viverá; viraram o ombro, endureceram a sua cerviz e não quiseram ouvir” (Ne 9:29).

Observe que o Sermão tem por alvo a multidão composta por judeus, pessoas que precisavam compreender que o reino de Deus estava no meio deles e, que, portanto, a argumentação de que tinham por pai a Abraão, não era válida. Que a vantagem, em relação aos gentios, de ser confiada, primeiramente, a palavra de Deus aos judeus (circuncisão), de modo algum tornava os da circuncisão melhores que os gentios, pois a lei que os judeus tinham como forma da ciência e da verdade, realizava um papel inclusivo, demonstrando que os judeus também eram pecadores (Rm 3:1-31).

O maior dos equívocos, acerca do Sermão do Monte, é entender que Jesus estabeleceu um novo código moral ou um novo padrão de conduta que os seus discípulos deveriam seguir.

Observe esta colocação, que consta do Novo Comentário Bíblico do Novo Testamento:

“Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus. Esse foi o clamor de Jesus, ao iniciar Seu ministério público na Galileia (Mt 4.17). Sua mensagem rapidamente se espalhou e grandes multidões vieram ouvi-lo da Galileia, de toda Síria e de Decápolis e, também, de Jerusalém, da Judéia e dalém do rio Jordão (Mt 4.24,25). Todos iam a Ele para ouvir sobre o Reino; Jesus, em vez disso, falava sobre o estilo de vida daqueles que queriam viver no Reino. 0 Sermão do Monte contém a essência do ensinamento moral e ético de Jesus”. O Novo Comentário Bíblico do Novo Testamento, com Recursos Adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010,  pág. 27.

Os editores do ‘O Novo Comentário Bíblico do Novo Testamento’, inicialmente, destacaram a mensagem de Jesus, no início do seu ministério: ‘Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus’. Em seguida, destacam que a mensagem de Jesus se espalhou, rapidamente, e grandes multidões o procuravam. Até esse ponto, a abordagem dos editores do comentário bíblico, em questão, está correta.

O problema está na assertiva de que todos queriam ouvir Jesus sobre o Reino, pois o texto bíblico não diz assim. Observe:

“E percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo. E a sua fama correu por toda a Síria e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos e ele os curava. E seguia-o uma grande multidão da Galileia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia e de além do Jordão” (Mt 4:23-25).

O interesse das multidões estava nas curas que Jesus operava e os editores do ‘O Novo Comentário’ inferiram que as multidões estavam interessadas em ouvir sobre o reino. Em seguida, afirmam que Jesus ‘falava sobre o estilo de vida daqueles que queriam viver no Reino’, o que não condiz com o exposto nos Evangelhos.

No Sermão do Monte, Jesus não estava propondo um estilo de vida aos seus ouvintes e nem abordando questões de cunho moral e ético. Até porque, o que foi dito no Sermão do Monte não se constitui uma regra de conduta para a igreja de Cristo, antes, são argumentos que visavam mudar a concepção dos judeus, para que cressem em Cristo.

Não encontramos nos Evangelhos Jesus orientando os seus discípulos acerca de questões éticas e morais, até porque, para os cristãos, tudo é licito, ressalvado o que não é conveniente e o que não edifica: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam” (1 Co 10:23).

No Novo Testamento, não temos ordenanças e mandamentos, mas, recomendações, orientações, como se lê:

“Porquanto, ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento” (At 15:24); “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência” (Gl 2:10).

‘Estilo de vida’ é uma expressão moderna que se refere à forma pela qual uma pessoa ou, um grupo de pessoas, se porta no mundo e, em consequência, faz suas escolhas. O evangelho de Cristo não trata do comportamento ou das escolhas que as pessoas fazem no seu cotidiano, antes, se restringe em revelar Deus ao mundo: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (Jo 1:18).

Questões éticas e morais decorrem de julgamentos segundo o que é aparente e Jesus não julgava segundo as aparências: “E deleitar-se-á no temor do SENHOR; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos” (Is 11:3).

“O ensino de Jesus era de que o ser humano não será julgado, apenas, por suas ações, mas sim, e ainda mais, por seus desejos, embora jamais tenham chegado a transformar-se em ação. Segundo as pautas morais do mundo, uma pessoa é boa se não cometer ações proibidas; o mundo não tem interesse em julgar os pensamentos. Segundo a pauta moral que Jesus propõe, ninguém pode ser considerado bom, a menos que jamais deseje fazer o proibido; Jesus Se interessa, profundamente, pelos pensamentos humanos. Disto surgem três coisas”. Barclay, William. Comentário do Novo Testamento.

Barclay afirma que a pauta moral de Jesus é proibir pensamentos e desejos, acerca do que era vetado na lei. Ora, Jesus não impôs proibições à multidão, antes, Ele veio salvar o que se havia perdido, tanto que Ele não julgava os seus interlocutores: “E se alguém ouvir as minhas palavras e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” (Jo 12:47); “Vós julgais segundo a carne; eu, a ninguém julgo” (Jo 8:15).

Seria um contrassenso impor restrições comportamentais a quem já foi julgado e está sob condenação – condição própria a todos os homens – pois nenhuma conduta adotada por um condenado pode livrá-lo da pena: “Pois, assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” (Rm 5:19).

Os ouvintes de Jesus foram ensinados que não eram pecadores por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão. No entanto, como os da promessa é que são contados como descendência de Abraão (Rm 9:8-9), os ouvintes de Jesus eram pecadores, por serem descendentes da carne e do sangue de Adão, assim como Ismael, o filho da escrava Agar.

O julgamento e a condenação da humanidade ocorreram no Éden e lá todos foram apenados com a morte: destituição da glória de Deus. Dessa penalidade não há o que o homem faça ou deixe de fazer, pense ou deixe de pensar, queira ou deixe de querer que o absolva da condenação (Jo 3:18).

O julgamento das obras no Tribunal do Grande Trono Branco visa às ações dos homens, não pensamentos e desejos, assim como o julgamento dos salvos no Tribunal de Cristo: “E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras (Ap 20:12).

Na verdade, quando Jesus evoca o que a multidão ouvia acerca dos assassinatos, adultérios, perjúrios, etc., simplesmente, era para destacar que os escribas e fariseus nada faziam de extraordinário, pois os publicanos, que eram tidos por eles como pecadores, igualmente não matavam, não adulteravam, não cometiam perjúrio, etc.

Zaqueu é um exemplo, pois como chefe dos publicanos e sendo rico, demonstrou ser integro, pois propôs devolver quadruplicado qualquer ganho ilícito, caso houvesse defraudado alguém sem perceber, segundo o que estabelecia a lei, além das contribuições que fazia aos pobres.

Isto demonstra que Zaqueu não era corrupto, pois se os seus bens fossem oriundos de corrupção, não teria como devolver o que defraudou quadruplicado: “E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado(Lc 19:8).

Os versos 21 a 45, do capítulo 5, de Mateus, devem ser vistos sob o argumento que  segue:

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E, se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-47).

Esse princípio também foi abordado pelo evangelista Lucas, pois é uma espécie de ‘alavanca’ que visa promover a mudança de concepção (metanoia) dos judeus que ouviam o discurso de Jesus.

“E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também, os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também, os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também, os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto” (Lc 6:32-34).

Quem eram os publicanos? Eram judeus a serviço de Roma que exerciam o ofício de cobrar impostos dos seus patrícios. Aos olhos da multidão, os publicanos eram pecadores e Jesus utilizou a figura, justamente, dos publicanos, para ilustrar algumas parábolas, como a ‘Parábola do Fariseu e do Publicano’, a ‘Parábola dos dois filhos’ e a ‘Parábola da Ovelha Perdida’.

Como é possível às meretrizes e aos publicanos terem direito ao reino dos céus e os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, não?

“Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade, vos digo, que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus” (Mt 21:31).

A mensagem do Sermão do Monte possui o seguinte viés: mudar a concepção dos seus ouvintes, para que façam a vontade de Deus, pois somente os que fazem a vontade de Deus são irmãos e mãe de Jesus: “Mas, respondendo ele, disse-lhes: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a executam” (Lc 8:21).

 

Irmão

“22 Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.

23 Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,

24 Deixa ali, diante do altar, a tua oferta e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta.

25 Concilia-te, depressa, com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão.

26 Em verdade te digo que, de maneira nenhuma, sairás dali, enquanto não pagares o último ceitil” (Mt 5:22-26).

 

Antes de prosseguir, o leitor precisa lembrar-se de uma passagem profética de Deuteronômio:

“O SENHOR teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” (Dt 18:15).

Vale destacar que o apóstolo Pedro aplica a passagem de Deuteronômio à pessoa de Cristo, o irmão ‘escolhido’, dentre os filhos de Israel:

“Porque Moisés disse aos pais: O Senhor vosso Deus levantará de entre vossos irmãos um profeta semelhante a mim; a ele ouvireis em tudo quanto vos disser” (At 3:22).

Faz-se necessário lembrar que os métodos de ensino, ou a didática, na antiguidade, difere muito da didática dos nossos dias, que é carregada de definições e conceitos. Um método de ensino da antiguidade era a dialética, no qual o papel do instrutor consistia mais em perguntar e inquirir, do que responder ou, contestar, o aprendiz. Outro, o método maiêutico, era baseado na ironia e no diálogo, etc.

Na matemática, por causa dos ‘operadores lógicos’ ou, ‘conectivos lógicos’, é possível estabelecer uma prova por ‘contradição’ ou ‘redução ao absurdo’, do latim ‘reductio ad absurdum’[2].

Como operar uma mudança de concepção em um povo que se julgava superior aos gentios, por tere uma lei? Negando a lei? Não! Como a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom (Rm 7:12), seria necessário enfatizá-la, pois, ela foi introduzida para mudar a concepção dos judeus, para que eles viessem a Cristo. Mas, como a lei se tornou frágil, enferma por causa da carne (Gl 3:24; Rm 8:3), que método de ensino utilizar para operar essa mudança de concepção?

Um método de ensino é lançar mão do absurdo, de uma situação inusitada, ou, do impossível, estabelecendo como base para evidenciar a contradição do pensamento dos recalcitrantes.

Comparando o que Jesus disse aos seus ouvintes: “Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo…” (Mt 5:22), com o que foi prescrito aos antigos: “Não matarás e, quem matar, estará sujeito a julgamento” (Mt 5:21), percebe-se, pela penalidade, que Cristo equiparou o ato de matar alguém, ao sentimento de ira contra um irmão.

A proporcionalidade da pena, em relação às ações, matar e encolerizar, deixa evidente que a proposta de Cristo não era normatizar comportamentos e nem estabelecer princípios éticos e morais. A discrepância entre as penalidades e as ações, tem por objetivo evidenciar uma verdade, como a que foi exposta por Isaías:

“Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial, é como o que bendiz a um ídolo; também, estes, escolhem os seus próprios caminhos e a sua alma se deleita nas suas abominações” (Is 66:3).

O que Isaías estava evidenciando? Um novo princípio moral? Uma nova lei? Não! Ele estava destacando o absurdo de alguém que se propõe a oferecer um sacrifício, mas rejeita a palavra de Deus.

Ao comparar quem mata um boi a quem tira a vida de um homem, o profeta Isaías estava evidenciando a gravidade das ações de quem não obedece a Deus, para seguir os seus próprios desígnios: “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2); “Contudo o meu povo se tem esquecido de mim, queimando incenso à vaidade, que o fez tropeçar nos seus caminhos e nas veredas antigas, para que andasse por veredas afastadas, não aplainadas” (Jr 18:15).

Um exemplo de absurdo, vemos em Saul, que não obedeceu à ordem de Deus, sob o argumento de que iria sacrificar ao Senhor (1 Sm 15:15). Ao escolher seguir o seu próprio conselho, Saul estava se portando como quem mata um homem ou como quem ofereceu um porco sobre o altar.

Os gentios e os publicanos – considerados pecadores, pela multidão – não matavam, para não serem réus de juízo, e os ouvintes do Sermão da Montanha, por sua vez, não matavam, para não serem, igualmente, réus de juízo e, com isso, esperavam ser recompensados por Deus.

Dessa falta de coerência no pensamento dos judeus, decorre a argumentação de Jesus, no final do capítulo: que recompensa tereis, se os pecadores, também, não matam, para não serem réus de juízo? Que fazeis, demais?

Como os ouvintes de Jesus não estavam utilizando a lei de forma legítima, a proposta de Jesus visava ‘abrir os ouvidos’ dos seus ouvintes, para que pudessem entender qual o objetivo da lei de Deus: “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9).

Quando Jesus anunciou: “Eu, porém, vos digo que qualquer que…”, propõe ações à multidão que superasse o que os gentios e publicanos faziam e muitas dessas ações propostas soam como absurdo. Quem, em sã consciência, arrancaria os olhos para não ser réu do fogo do inferno?

Se os filhos de Israel pensavam que eram melhores que os gentios e publicanos, a pretexto da lei, no mínimo, teriam que temer, serem conduzidos ao tribunal, quando ficassem zangados com o irmão, diferentemente, dos gentios e publicanos, que temiam ser conduzidos ao tribunal, em caso de homicídio.

Jesus introduz essa proposta, porque havia acabado de exigir dos seus ouvintes uma justiça que suplantasse à dos seus líderes religiosos e, ao lembrar o que fora dito aos antigos, através da lei, propõe um comportamento que suplantasse o exigido pela letra da lei, como sugestão, para alcançarem justiça superior à dos escribas e fariseus.

Seria contraproducente intentar alcançar uma justiça que excedesse à dos escribas e fariseus, fazendo somente o que fora dito aos antigos, ou fazendo o que os gentios também faziam, principalmente, porque os gentios faziam as mesmas coisas que os judeus, mesmo não tendo lei.

A proposta de Jesus visava a uma mudança de concepção, demonstrando à multidão a impossibilidade de se justificar, através das exigências da lei: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei; porquanto, pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).

Jesus agravou as exigências da lei, para que os seus ouvintes entendessem que nada faziam que fosse superior ao que era feito pelos pecadores, se tão somente fossem ouvintes do que foi dito aos antigos (Rm 2:13).

Seguem as propostas de Jesus:

  • qualquer que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo;
  • qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio;
  • qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.

Algumas Bíblias contém uma interpolação: ‘sem motivo’, na proposta de Jesus: ‘qualquer que [sem motivo], se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo’, que não há nos melhores manuscritos, tentando suavizar a exigência de Jesus, pois leem o texto como se fosse uma prescrição de comportamento, mas, a abordagem de Jesus é mais profunda ainda.

Primeiro, Jesus evidencia o que ouviram acerca do que foi dito aos antigos: “Não matarás. Mas, qualquer que matar, será réu de juízo”. Em segundo lugar, Ele enfatiza que: “Qualquer que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo”.

Por que Jesus insere a figura do ‘irmão’ na sua abordagem? Por que Jesus chama a atenção dos seus ouvintes para o elemento ‘carne’ e ‘sangue’, que estabelecem os laços fraternos?

Ao trazer à memoria o que foi dito aos antigos, Jesus estava apontando para os escritos de Moisés, onde também está registrado que Deus haveria de levantar um profeta do meio dos filhos de Israel, assim como Moisés, a quem deveriam ouvir:

“Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18:18);

Historicamente, os filhos de Jacó não aceitavam bem o fato de um dos seus irmãos ser profeta ou sonhador de sonhos, como ocorreu com José do Egito, um tipo de Cristo: “Vendo, pois, seus irmãos que seu pai o amava mais do que a todos eles, odiaram-no, e não podiam falar com ele, pacificamente. Teve José um sonho, que contou a seus irmãos; por isso o odiaram ainda mais” (Gn 37:4-5; Mt 2:15).

Qualquer dos ouvintes de Jesus que quisesse justiça superior à dos escribas e fariseus, deveria aceitar a doutrina de Cristo, portanto, não podia temer os escribas e fariseus, não ser afeito à glória de homens e nem se escandalizar com a doutrina de Jesus “Apesar de tudo, até muitos dos principais creram nele; mas não o confessavam por causa dos fariseus, para não serem expulsos da sinagoga. Porque amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (Jo 12:42-43).

Neste diapasão, os ouvintes de Jesus deveriam confessar a Cristo, o ‘irmão’ anunciado por Moisés – Aquele a quem deviam ouvir -, ou então, estariam se posicionando como opositores (adversários) de Cristo: “Eis que lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18:18); “Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Mq 7:6); “Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei, também, diante de meu Pai, que está nos céus. Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mt 10:32-36).

A exigência de Jesus, com relação à ira, parece ser muito alta, porém, os seus irmãos não suportavam a abordagem que Cristo fazia das Escrituras e, várias vezes, foram tomados pela ira: “E todos, na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira” (Lc 4:28).

E a ordem: “Irai-vos e não pequeis” (Ef 4:26), não é contrária ao posicionamento de Jesus?

O Salmo 4, verso 4, diz: “Perturbai-vos e não pequeis; falai com o vosso coração sobre a vossa cama e calai-vos”. Algumas traduções vertem: Irai-vos e não pequeis. O termo hebraico רָגַז, transliterado ragaz, comumente vertido por ‘irai’ ou, ‘perturbai’, na verdade, deveria ser vertido por ‘tremei’, significando ‘obedeça’.

O sentido do termo é semelhante ao empregado nestes versos: “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” (Is 66:5); “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” (Sl 2:11); “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11).

Após recomendar que se deixe a mentira e que se fale a verdade, cada qual com o seu próximo, conforme expresso pelo profeta Zacarias (Ef 4:25; Zc 8:16), o apóstolo Paulo ordena aos cristãos que obedeçam (tremei), pois estas eram as coisas a serem observadas para não pecarem.

Como a pessoa poderia ser réu do Sinédrio, somente por nomear o seu irmão de ‘raca’? O termo ‘raca’ pode ser entendido como imprestável, desprezível, vil, baixo, etc., termo de origem semita, transliterado para o grego.

Ora, a profecia apontava para o Cristo como ‘desprezado e o mais indigno dos homens’ (Is 53:3), portanto, era de se ter cuidado, pois ao desprezar algum irmão, chamando-o de ‘raca’, pois, poderia estar desprezando o ‘Servo’ do Senhor – o profeta anunciado por Moisés, que seria levantado, dentre os filhos de Jacó, do qual estava escrito que os filhos de Israel não fariam caso algum: “QUEM deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR? Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza, nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado e não fizemos dele caso algum” (Is 53:1-3).

Jesus enfatiza que, qualquer que chamasse o irmão de ‘louco’, seria réu do fogo do inferno. Como entender o fato de Jesus orientar os seus ouvintes, para não chamarem a um irmão de louco, para não estarem sujeitos ao fogo do inferno, mas, Jesus, por sua vez, chama os escribas e fariseus de ‘insensatos’, em outras palavras, de ‘loucos’?

Há uma diferença gritante entre os escribas e Cristo. Cristo julgava segundo a reta justiça, enquanto que os escribas e fariseus julgavam segundo a aparência e a carne: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24).

Segundo o estabelecido nas Escrituras, Jesus a ninguém julgava (Jo 8:15; Is 11:3). Quando Jesus chamou os escribas e fariseus de ‘loucos’, simplesmente, apontou para as Escrituras, que nomeavam de loucos e néscios, àqueles que se alimentavam do povo de Israel, como se fosse pão (Sl 53:1-4). Como os escribas e fariseus eram obreiros da iniquidade, ‘néscios’, era a condição deles diante de Deus e, por isso, Jesus os denominava ‘loucos’, como o fez Moisés (Dt 32:6).

O povo de Israel era louco e ignorante, um julgamento que consta nas Escrituras, portanto, nomeá-los de ‘loucos’, em função das Escrituras, é julgar segundo a reta justiça, não segundo a aparência: “Deveras, o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22).

Ora, se, alguém dentre os filhos de Jacó, fosse levantado como profeta e deveria ser ouvido, cada membro da nação deveria ter o seu irmão em honra, pois qualquer um deles poderia ser o Cristo. Se observassem as profecias, não rejeitariam àquele que era desprezado do povo e opróbrio dos homens: “Mas, eu sou verme e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo” (Sl 22:6; Is 53:3).

Mas, caso os ouvintes de Jesus tivessem essa disposição de nunca ficarem irados, de esbravejarem ou, de falarem mal do próprio irmão, quando, em particular, fossem ofertar e se lembrassem, junto ao altar, que o ‘irmão’ tinha algo em seu desfavor, que deixassem a oferta junto ao altar e fossem se reconciliar com o seu irmão.

“Mas ao ímpio, diz Deus: Que fazes tu, em recitar os meus estatutos, e em tomar a minha aliança na tua boca? Visto que odeias a correção e lanças as minhas palavras para detrás de ti. Quando vês o ladrão, consentes com ele e tens a tua parte com adúlteros. Soltas a tua boca para o mal e a tua língua compõe o engano. Assentas-te a falar contra teu irmão; falas mal contra o filho de tua mãe!” (Sl 50:16-20).

Perceba que não é o ofertante que tem algo contra o irmão, antes, o irmão que tem algo contra o ofertante e, mesmo assim, o ofertante deveria ter a capacidade magnânima de buscar a reconciliação, mesmo que não tivesse algo contra o irmão.

Jesus propõe que o ônus da reconciliação não fique a cargo de quem ofendeu, mas, que compete ao ‘ofendido’ se retratar, portanto, essa seria uma atitude mais nobre e diferente da atitude dos gentios e pecadores ou, o significado do termo ‘ofendido’, deve ser revisto.

O termo grego traduzido por ‘reconciliar’ é διαλλάσσομαι, transliterado diallassómai, possui o sentido de ‘mudar a mente de qualquer pessoa’, ‘mudar completamente (mentalmente) para conciliar’, o que remete ao arrependimento, a mesma ideia do termo grego μετανοέω, transliterado metanoeó.

Devemos questionar: Por que Jesus não impôs a obrigação de o irmão, que tinha algo desfavorável, vir se retratar? Ora, Jesus queria dar a entender aos seus ouvintes que Ele era o irmão levantado dentre os filhos de Israel como profeta, segundo o que foi dito a Moisés, para mudar a mente dos seus irmãos.

Não era o Servo do Senhor, o opróbrio dos homens e desprezado do povo, que deveria se ‘reconciliar’ com os filhos de Israel, mas, sim, os filhos de Israel que deveriam se reconciliar com Ele. É certo que o profeta anunciado por Moisés, o irmão levantado dentre os filhos de Israel, estaria corretíssimo na sua colocação, portanto, cabe aos irmãos ofertantes, se ‘retratarem’, ou seja, mudarem de concepção, completamente, aceitando o proposto por Ele: “Eis, lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18:18).

O termo grego μνάομαι[3], transliterado mnaomai, comumente traduzido por ‘recordar’, ‘lembrar’, também possui a forma prolongada μιμνησκω, transliterada mimnesko. O termo μναομαι não tem o sentido de ‘recordar de algo que se esqueceu’, antes, de ‘recordar de’, de ‘fazer-se lembrar’, de ‘ter na lembrança’, de ‘fixo na mente’.

Quando o ofertante chegasse junto ao altar e, aquilo que ouviu do Cristo estivesse fixo na mente, ter na lembrança, não conseguisse esquecer, que deixasse a oferta no altar e retornasse e se ‘conciliasse’ com o irmão (Mt 5:23).

O que o irmão tem que é expresso pelo termo διαλλάσσομαι não é resultado de uma briga, desavença, inimizade, antes é algo que pode mudar a mente, a compreensão. Na verdade, quando o ofertante estivesse diante do altar e viesse à mente a compreensão do ensino dado pelo irmão, que deixasse a oferta no altar e se reconciliasse depressa com Ele.

Caso os ouvintes de Jesus não percebessem a nuance do discurso, com relação à possibilidade de estarem contrariando aquele irmão que seria levantado por Deus, em meio aos filhos de Israel, conforme predito por Moisés, o argumento a seguir deveria se considerado:

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes, unicamente, os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos, também, assim?” (Mt 5:46-47).

Jesus encerra a abordagem, acerca do que ouviram que foi dito aos antigos, de modo a levá-los a considerar o seguinte:

“Pois, se reconciliardes com quem buscou a reconciliação, que galardão tereis? Não fazem os publicanos, também, o mesmo? E, se esperardes quem vos ofendeu, que venha a se reconciliar, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?”

Devemos ter em mente que, em relação à carne e ao sangue, os judeus eram irmãos de Jesus, mas, com relação à doutrina, eram ‘adversários’. Com relação à carne e ao sangue, Jesus veio para o que era Seu, mas, com relação à doutrina, os seus irmãos se escandalizaram (não O recebera): “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1:11); “E assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mt 10:36; Mq 7:6).

Para compreender a afirmação acima, vale destacar o evento em que Jesus entrou no templo e expulsou todos os que vendiam e compravam e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Em seguida, Jesus operou sinais e maravilhas, curando cegos e coxos e as crianças que ali estavam, passaram a dizer: – ‘Hosana ao Filho de Davi’ (Mt 21:12-16).

Os escribas e fariseus, ao ouvirem a confissão das crianças, dentro do templo, indignaram-se. Foi quando questionaram Jesus, dizendo: – “Ouves o que estes dizem?”. Eles não aceitavam que o Jesus de Nazaré fosse o Filho de Davi, portanto, Filho de Deus, sacerdote e rei de Israel.

Os escribas e fariseus queriam que Jesus repreendesse as criancinhas para que parassem de dizer ‘Hosana ao filho de Davi’. Eles não suportavam ouvir as criancinhas clamando por misericórdia ao Filho de Davi.

Do mesmo modo que queriam que os cegos, à beira do caminho, se calassem por gritarem por misericórdia ao Filho de Davi, os escribas e fariseus estavam indignados por ouvirem as crianças dizerem: “Salva-nos agora, ó Tu que habitas nas maiores alturas”, “Salva-nos, te imploramos”, ou seja, as crianças estavam apontando para Cristo, como sendo o Senhor do Salmo 118, verso 25.

“Salva-nos, agora, te pedimos, ó SENHOR; ó SENHOR, te pedimos, prospera-nos. Bendito aquele que vem em nome do SENHOR; nós vos bendizemos desde a casa do SENHOR” (Sl 118:25-26).

Foi quando Jesus respondeu, utilizando o Salmo 8, verso 2:

“E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito, tiraste o perfeito louvor?” (Mt 21:16).

Nesta previsão, o salmista registra que as crianças estavam clamando ao Filho de Davi misericórdia, para calarem os adversários de Cristo, ou seja, os inimigos que, nesse evento, tratavam-se dos escribas e dos fariseus.

“Tu ordenaste força, da boca das crianças e dos que mamam, por causa dos teus inimigos, para fazer calar ao inimigo e ao vingador” (Sl 8:2).

O termo grego ἀντίδικος[4] transliterado antidikos, traduzido por adversário, possui o significado de oponente, inimigo, adversário. Já no Antigo Testamento, o termo צָרַר transliterado tsarar, pode se referir a um inimigo pessoal, como expresso na lei: “Se encontrares o boi do teu inimigo ou o seu jumento, desgarrado, sem falta lhe reconduzirás” (Êx 23:4), mas, também, foi utilizado pelos profetas para descrever os opositores de Cristo.

Os adversários, os inimigos do Filho do homem, eram os seus próprios familiares, pois não O compreendiam e com Ele se escandalizavam: “Sabendo, pois, Jesus, em si mesmo, que os seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: Isto escandaliza-vos?” (Jo 6:61).

Alcançar justiça superior à dos escribas e dos fariseus, por meio das obras da lei, é impossível, ao que Jesus propõe, por parábola, a qualquer que se opusesse a Ele, rejeitando a sua doutrina, o que se segue:

“Sê disposto para com o teu adversário…”, ou “Concilia-te, depressa, com o teu adversário…” (Mt 5:25).

Enquanto a proposta comportamental do cristão é de ter paz com todos os homens, se possível, Jesus orienta a multidão, através do Sermão da Montanha, que fossem dispostos para com o adversário, ou seja, que, urgentemente, se conciliassem com aquele que se opunham a eles, enquanto estavam no caminho: “Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12:18).

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão. Em verdade, te digo que, de maneira nenhuma, sairás dali, enquanto não pagares o último ceitil” (Mt 5:25-26).

Daí vale questionar: É só se reconciliar com os inimigos, que se adquire direito de entrar no reino dos céus? É certo que não, pois o homem é salvo, somente pela fé em Cristo!

Vale destacar que o ‘adversário’ com quem Jesus ordena aos judeus se reconciliarem, possui maior autoridade que eles, pois é capaz de entregá-los ao juiz. Quem é o ‘adversário’, que os ouvintes de Jesus deveriam conciliar? Por que o adversário que deveriam conciliar está no singular e não no plural?

Uma multidão de ouvintes e só um adversário, com quem deviam estar dispostos, pois ninguém consegue pagar uma dívida com Deus! (Sl 49:7-9; Mt 5:26).

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão” (Mt 5:25).

Continua:

O Sermão do Monte e o adultério

 


 

[1] “5.21 — Ouvistes que foi dito. Refere-se aos ensinamentos de vários rabinos, não aos de Moisés. Jesus estava questionando a interpretação dos mestres judeus, não o Antigo Testamento”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 25.

[2] Reductio ad absurdum (latim para “redução ao absurdo”[1] , provavelmente, originário do grego ἡ εις άτοπον απαγωγη, transl. “e eis átopon apagoge”, que significaria algo próximo a “redução ao impossível”, expressão, frequentemente, usada por Aristóteles, também, conhecida como um argumento apagógico, “Reductio ad impossibile ou, ainda, prova por contradição, é um tipo de argumento lógico, no qual, alguém, assume uma ou mais hipóteses e, a partir destas, deriva uma consequência absurda ou ridícula e, então, conclui que a suposição original deve estar errada. O argumento se vale do princípio da não-contradição (uma proposição não pode ser, ao mesmo tempo, verdadeira e falsa) e do princípio do terceiro excluído (uma proposição é verdadeira ou é falsa, não existindo uma terceira possibilidade)”, Wikipédia.

[3] “3415 μναομαι (mnaomai), voz média, derivado de 3306 ou, talvez, da raiz de 3145 (da ideia de fixação na mente ou, de posse mental); v 1) fazer lembrar, 1a) relembrar ou, voltar à mente, fazer-se lembrar de, lembrar, 1b) ser trazido à memória, ser lembrado, ter em mente, 1c) lembrar algo, 1d) estar atento a”, Dicionário Bíblico Strong; “3403 μιμνησκω (mimnesko), forma prolongada de 3415 (do qual algo dos tempos são emprestados); v 1) fazer lembrar, 1a) recordar, voltar à mente, lembrar-se de, lembrar, 1b) ser trazido à mente, ser lembrado, ter na lembrança, 1c) lembrar algo, 1d) estar atento a”, Dicionário Bíblico Strong.

[4] “476 αντιδικος (antidikos), de 473 e 1349; TDNT – 1:373,62; n m 1) oponente, 1a) um oponente em um caso de lei, 1b) adversário, inimigo”. Dicionário Bíblico Strong.




Iniquidade é transgressão de qual lei?

Havia alguma lei a ser guarda pelo gentio Abrão? Não, pois nada havia sido ordenado aos homens! Mas, quando foi dito a Abraão que ele teria uma descendência numerosa sobre a face da terra, mesmo não tendo filhos, Abraão creu, e isto lhe foi imputado por justiça. Observe que não havia lei e nem mesmo a circuncisão.


Iniquidade é transgressão de qual lei?

A primeira atitude de muitos quando procuram definir o que é ‘iniquidade’ centra-se em buscar o significado do termo na língua grega. Primeiro demonstram que o termo vem do Grego ‘ανομια’ [anomia] (Substantivo feminino), e que, dependendo da frase, assume a conotação de ‘negação da lei’, ‘ilegalidade’, ‘falta de conformidade com a lei’, ‘violação da lei’, ‘desacato à lei’, ‘iniquidade’, ‘impiedade’, ‘pecado’, etc.

O termo ανομος [anomos] traduzido por iniquidade é composto por um prefixo ‘α’ [a] que desempenha a ideia de ausência, falta, exclusão e o termo νομος [nomos] “lei”. Dai a construção “sem lei”, “ausência de lei”.

O próximo passo restringe-se a determinar quantas vezes o termo é utilizado no Novo Testamento. Contabilizando, chega-se ao consenso de que a palavra ανομια [anomia] aparece 15 vezes no Novo Testamento.

Tudo o que foi visto acima é verdadeiro, mas, a análise não dá base para afirmar que a lei de Moisés, como faziam os judaizantes, é o meio pelo qual o homem alcança a salvação, é recalcitrar contra a verdade do evangelho.

Pelo fato de ‘iniquidade’ ser o mesmo que ‘negação da lei’, interpretar o versículo que diz: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de quase todos se esfriará” ( Mt 24:12 ), como sendo ‘negação da lei’ (iniquidade) o não guardar a lei mosaica é desconsiderar o contexto do versículo.

No verso anterior Jesus alerta que surgiriam muitos falsos profetas, e que enganariam a muitos ( Mt 24:11 ). Qual a ação dos falsos profetas? Trazer uma mensagem adversa da ordenada por Deus, ou seja, uma mensagem que transtorna o mandamento de Deus. No contexto do Novo Testamento qual é o mandamento de Deus? A resposta é: crer no enviado de Deus! “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ).

Com a vinda do Messias, o mandamento de Deus resume-se na seguinte ‘obra’: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Quem faz a obra determinada por Deus, que é crer em Cristo, se fez servo, portanto, cumpriu o mandamento de Deus como o fez Abraão que, mesmo antes de ser dada a lei de Moisés cumpriu todos os preceitos de Deus “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” ( Gn 26:5 ).

A lei mosaica só foi dada 430 anos após Abraão ter obedecido à voz de Deus, e Deus deu testemunho de Abraão, um gentios da cidade de Ur dos Caldeus, de que guardou todas as suas leis.

Havia alguma lei a ser guarda pelo gentio Abrão? Não, pois nada havia sido ordenado aos homens! Mas, quando foi dito a Abraão que ele teria uma descendência numerosa sobre a face da terra, mesmo não tendo filhos, Abraão creu, e isto lhe foi imputado por justiça. Observe que não havia lei e nem mesmo a circuncisão.

Somente após Abraão crer é que Deus instituiu a circuncisão do prepúcio da carne, como símbolo da aliança firmada entre Deus e Abraão, e que os descendentes da carne de Abraão deveriam guardar ( Gn 17:9 ). A circuncisão não era a aliança, antes a circuncisão era símbolo da aliança estabelecida entre Deus e Abraão.

Quando Abraão fez a circuncisão do prepúcio da carne era gentio e justo diante de Deus. Dai a pergunta do apóstolo Paulo: “Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou também sobre a incircuncisão?” ( Rm 4:9 ).

Para um judaizante, a bem-aventurança prometida Abraão só é possível quando o homem circuncida o prepúcio da carne, mas se observarmos Abraão, verifica-se que o selo da circuncisão só foi determinado após Abraão ter tido o testemunho das Escrituras de que era justo diante de Deus ( Gn 15:6 ; Gn 17:24 ; “ENTÃO alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos” At 15:1 ).

Deus não fez promessa a Abraão por intermédio da lei de Moisés, antes por meio da palavra da fé, ou seja, da promessa ( Rm 4:13 ). Abraão vivia sem lei quando lhe foi feita a seguinte promessa: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

Se observarmos a mensagem dos judaizantes: – ‘Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos’, tem-se nesta determinação a fala de um falso profeta, pois diz algo que Deus não falou. Daí a necessidade de observarmos oque disse o apóstolo Paulo: “Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” ( Gl 5:2 -4).

Quando Jesus disse que surgiriam muitos falsos profetas, Ele tinha em vista as inúmeras pessoas que surgiriam anunciando mensagens utilizando o nome de Deus, porém, negando obra realizada por Cristo. Sobre este assunto asseverou o apóstolo Paulo: “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Qual o significado de piedade neste verso? Seria: “amor e respeito às coisas religiosas; religiosidade; devoção; Pena dos males alheios; compaixão, dó, comiseração”? Não! Piedade neste verso é o mesmo que ‘evangelho’. Tem aparência de evangelho, porém, negam a eficácia.

Tal sentido do termo piedade depreende-se da seguinte passagem bíblica: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ). O mistério da piedade diz do evangelho de Cristo ( ), portanto, todos quantos quiserem viver segundo a palavra do evangelho, sofrerão perseguições ( 2Tm 3:12 ).

Mensagens como: É necessário circuncidar-se; É necessário guardar os sábados; É necessário abster-se de alimentos; É necessário abster-se de casar-se, são todas falsas profecias. Qualquer que dar ouvidos a tais mensagens, da graça de Cristo caiu.

Ora, tais mensagens são negações do mandamento de Deus (iniquidade), pois o seu mandamento é: “Quem crer e for batizado será salvo…” ( Mc 16:16 ). Foi Deus que estabeleceu uma Pedra preciosa em Jerusalém, Jesus, o Cristo “Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido” ( 1Pd 2:6 ).

Ora, por se multiplicar as mensagens de engano, as mensagens dos falsos profetas, a obediência de muitos seria anulada. Ora, o verso: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos” ( Mt 24:12 ), foi dito por enigmas, portanto, é uma parábola.

Como é possível aumentar a iniquidade? O que se multiplica é a mensagem de engano, pois surgiriam muitos falsos profetas e anticristos “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1Jo 4:1 ). Com o surgimento de muitos falsos profetas a mensagem de engano aumenta, consequentemente, o mandamento contido no evangelho de Cristo deixa de ser anunciado.

Se a necessidade de crer em Cristo não é anunciada, antes outra mensagem é divulgada, tem-se a iniquidade, ou seja, ausência da lei, do mandamento. Sem o mandamento não há amor, pois ama aquele que cumpre o mandamento “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Ou seja, quando Jesus aponta que o amor se esfriará, Ele estava demonstrando que, em virtude da ausência do mandamento verdadeiro (iniquidade), a obediência (amor) diminui, esfria.

É neste sentido que Jesus pergunta: Quando, porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra? O termo fé deve ser compreendido como a mensagem do Filho do homem. Cristo é a Fé, a fé que havia de se manifestar, portanto, sem a sua mensagem não há fé, pois a Fé que a Bíblia faz alusão tem a capacidade de residir nos homens ( Gl 3:23 ; 2Tm 1:5 ). A Fé que Jesus faz menção refere-se ao fundamento de Deus, que é firme e faz o homem agradável a Deus ( 2Tm 2:19 : Hb 11:1 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo alerta quanto às falsas doutrinas “Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora” ( 1Tm 1:3 -4 ).

Quando se ensina outra doutrina, instala-se a iniquidade, pois transtorna o mandamento de Deus. A edificação em Deus consiste na fé, no firme fundamento estabelecido por Ele, que é firme e permanente.

Ora, sabemos que hoje estamos mais próximo do fim ( Rm 13:11 ), porém, o que se observa é que as pessoas tem-se tornado mais crédulas, visto que muitos dizem acreditar em Deus, no impossível, em milagres, no impossível, etc. Mas, a questão é: quando o Filho do homem voltar, a sua mensagem, a palavra da fé estará sendo anunciada ao mundo?

O que foi manifesto aos homens? Cristo foi manifesto, portanto, foi manifesto a palavra, ou seja, a fé: “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ); “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Dai a explicação: “Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas; Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:5 -7).

Neste verso o apóstolo aponta qual é o objetivo do mandamento de Deus: a obediência de um coração puro que abraça uma fé genuína. O mandamento neste verso diz do evangelho de Cristo, e não da lei mosaica. Quando se ensina a doutrina de Cristo, temos um mandamento que demanda obediência, ou seja, é preciso crer no enviado de Deus.

O objetivo, a finalidade do mandamento de Cristo é a obediência de coração, o que trás uma boa consciência e uma crença genuína. Mas, quando há a distorção, o desvio da verdade, surge a ‘contenda’. É o que o apóstolo Paulo nomeia de ‘vinho da contenda’, do qual o cristão deve se abster, ou seja, do ensinamento dos judaizantes “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ).

Perceba que ‘contenda’ é uma FIGURA utilizada para fazer referência à doutrina dos judaizantes “Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas” ( 1Tm 1:6 ). A doutrina dos judaizantes é o ardente vinho de serpentes “O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” ( Dt 32:33 ; Ef 5:18 ).

O mandamento de Deus é: creiam no nome do meu Filho ( 1Jo 3:23 ). Qualquer que não crê nunca conheceu o Pai e nem o Filho, de modo que naquele dia ouvirá: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” ( Mt 7:23 ). Ora, os judaizantes confessam com a boca que amam a Deus, porém, negam-No com as suas obras. Estes verdadeiramente negam a lei de Deus! “Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” ( Jo 14:24 ).

Os judaizantes estão em iniquidade porque dizem amar a Deus, mas se negam obedecer ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo. Ora, quem confessa que Jesus é o Cristo, está em Deus e Deus nele ( 1Jo 4:15 ), de modo que conheceu a Deus ( 1Jo 4:7 ), pois para ser nascido de Deus é necessário receber poder ( Jo 1:12 ), o que é concedido aos que creem em Cristo.

Mas, a qualquer que conhece a Deus, ou seja, que creu em Cristo, jamais deve voltar aos argumentos fracos da lei que tem por base questões de ordem moral e severidade com o corpo “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Os judaizantes dos nossos dias geralmente lançam mão do seguinte verso para expor a ideia de que é necessário guardar a lei: “Qualquer que comete pecado transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ).

O termo ‘mandamento’ é utilizado por diversas vezes na epístola joanina, porém, somente neste verso o tradutor sentiu-se à vontade para traduzir o mesmo termo por ‘lei’, o que constrói a ideia de que se trata de um código escrito.

No inicio da carta o apóstolo diz: “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos o seu mandamento” ( 1Jo 2:3 ). Já no verso 23 de 1João 3, temos: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo …”. O correto é traduzir o verso 4 do capítulo 3 da epístola utilizando o termo mandamento: “Qualquer que comente pecado transgride o mandamento, pois o pecado é a transgressão do mandamento” ( 1Jo 3:4 ).

Dai a pergunta: que ‘mandamento’ quando transgredido, ou ‘lei’ quando transgredida é pecado? Seria a lei de Moisés? É certo que não, pois antes de ser entregue a lei mosaica já havia pecadores no mundo “Porque até à lei estava o pecado no mundo…” ( Rm 5:13 ).

Ora, os fariseus cumpriam o que entendiam da lei, porém, Jesus Lhes disse: “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ). Os fariseus achavam que cumpriam a lei, porém, Jesus lhes disse: “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ).

Ora, crer em Cristo é a lei da liberdade. Crer em Cristo é o mandamento, e qualquer que n’Ele não crê, transgrede a lei. A lei que transgredida é pecado e que o evangelista João faz referência não tem por base regras tais como: “Não toques, não proves, não manuseies?” ( Cl 2:21 ).

Entender que a lei de Moisés é eterna e perfeita é desconsiderar o que disse o escritor aos Hebreus: “Dizendo Nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar” ( Hb 8:13 ).

A lei foi dada para conduzir os descendentes de Jacó a Cristo, demonstrando que eles eram pecadores, apesar de serem descendentes da carne de Abraão. A lei foi dada aos descendentes da carne de Abraão para demonstrar que todos os homens estavam em igual condição diante de Deus “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” ( Rm 3:19 -20 ).

Antes de chegar a esta conclusão, o apóstolo cita várias passagens da lei e dos salmos que protestavam contras os judeus “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:2 -4).

Observe que o salmista aponta que não há um justo se quer, e que ninguém buscava a Deus, embora houvesse o povo de Israel na terra. Em um dos salmos citados pelo apóstolo, o salmista faz um protesto contra os obreiros fraudulentos, que se alimentavam de Israel como se fosse pão, porém, não lhes dava a palavra que alimenta “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Tais obreiros eram obreiros da iniquidade, ou seja, obreiros que violavam a lei. Eram semelhantes ao juiz iníquo, que apesar de existir um código de leis a serem seguidas, era avesso ao seu dever. Por que ele era um juiz iníquo? Porque não existia lei? Não! Antes, o iníquo é aquele que não observa o prescrito.

Outro equivoco dos judaizantes está em considerar que Cristo veio cumprir a lei aos moldes daquilo que os judeus executavam, e isto pela seguinte passagem: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ).

A multidão enquanto ouvia o discurso de Jesus poderia pensar que Ele estava destruindo o que constava na lei e nos profetas. Antes que chegassem a tal entendimento, Jesus se antecipa e afirma categoricamente que não veio anular o que estava posto, antes que Ele era o próprio cumprimento do que os profetas anunciaram. Em outras palavras, Cristo estava demonstrando que tudo o que estava previsto na lei e nos profetas estava cumprindo-se n’Ele.

Enquanto a lei era sombra, Cristo é a realidade, de modo que Ele não viveu segundo os rudimentos frágeis e pobres dos filhos de Jacó. Tudo o que foi predito acerca de Cristo foi cumprido, de modo que não foi omitido ‘nem um jota ou um til’, pois Cristo é o cumprimento da lei.

Diferente dos demais, Jesus entrava na casa dos pecadores e dos cobradores de impostos para comer ( Lc 5:30 ). Não jejuava aos moldes dos fariseus e escribas, antes praticava o verdadeiro jejum apregoado por Isaías ( Is 58:6 ; Mt 9:14 ). Jesus não guardava o sábado aos moldes dos seus acusadores “E alguns dos fariseus lhes disseram: Por que fazeis o que não é lícito fazer nos sábados?” ( Lc 6:2 ). Foi tido por comilão e beberão “Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos” ( Mt 11:19 ).

Quando lemos que o apóstolo Paulo utilizava a lei e os profetas para persuadir os seus ouvintes ao evangelho, isto não quer dizer que ele estava impondo aos seus ouvintes os preceitos da lei mosaica. Ele se utilizava da lei e dos profetas para demonstrar que, o Jesus de Nazaré que crucificaram a pretexto de um a lei, na verdade era o Cristo de Deus “…procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” ( At 28:23 ); “Porventura o trono de iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei?” ( Sl 94:20 ).

Esta também foi a tônica da mensagem do apóstolo Pedro, que lanço mão dos salmos para demonstrar que seus compatriotas haviam crucificado o Autor da vida ( At 2:36 ). O apóstolo Pedro não expôs aos seus irmãos segundo a carne a lei mosaica, antes apresentou-lhes o Cristo, que é a justiça eterna, ou seja, o caminho, a verdade e a vida “A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade” ( Sl 119:142 ).

É temerário utilizar um termo e o seu significado isolado para emitir opinião acerca de uma verdade. Lançar mão do termo ανομος [anomos] para argumentar que a não observância da lei mosaica é iniquidade é argumento frágil, pois ‘ler’ Moisés não é cumprir a lei “E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará” ( 2Co 3:15 -16).

Semelhantemente, cumprir um quesito da lei, não é guardar a lei mosaica, pois qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, é culpado “E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei” ( Gl 5:3 ); “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

Portanto, quando lemos que: “A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” ( 1Co 7:19 ), não podemos concluir que os mandamentos de Deus refere-se a lei de Moisés, antes se faz necessário comparar a passagem com outros versos, e aí teremos o seguinte quadro: “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ).

A fé que opera pelo amor é o mesmo que observância dos mandamentos, de modo que ‘fé’ diz do mandamento em Cristo: crer naquele que Deus enviou, e o ‘amor’ diz da obediência exigida. Em outras palavras, o mandamento de Deus é a obediência da fé “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ; Rm 1:5 ).

Daí a advertência: “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão” ( Tt 1:10 ).




Deus virou as costas para o seu Filho quando na cruz?

A resposta para a pergunta: “Deus virou as costas para o seu Filho quando na cruz?”, encontra-se no Salmo 22, verso 24: Deus não desprezou e nem abominou a aflição do aflito!


Deus virou as costas para o seu Filho quando na cruz?

Recentemente li o artigo “Dois paradoxos na morte de Cristo”, do pastor, conferencista e escritor americano John Piper e fiquei perplexo com a disposição dos argumentos e a conclusão dele acerca de algumas nuances pertinente à morte de Cristo.

A asserção de que Cristo experimentou a maldição do Pai como sendo o ensino evangélico mais comum é até compreensível, porém, fazer uso da passagem da carta de Paulo aos Gálatas: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” ( Gl 3:13 ), para justificar tal consenso é assustador.

O argumento de que Deus amaldiçoou o seu Filho porque Ele é o autor da lei é pensamento espúrio do ponto de vista bíblico. Os argumentos expostos no artigo “Dois paradoxos na morte de Cristo” não refletem o posicionamento das Escrituras. No entanto, de toda a argumentação do proeminente escritor no artigo em análise, a aberração maior coube à seguinte declaração:

“Portanto, a morte de Cristo pelo nosso pecado e por nossa transgressão da lei foi a experiência da maldição do Pai. É por essa razão que Jesus disse, ‘E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’ (Mt 27:46) (…) Na morte de Cristo, Deus lançou sobre ele os pecados do seu povo (Isaías 53.6), os quais odiava. E em ódio por esse pecado, Deus deu as costas a seu Filho carregado de pecados, e o entregou para sofrer todo o poder da morte e da maldiçãoPiper, John, Artigo: Dois paradoxos na morte de Cristo – grifo nosso (amplamente divulgado na web).

O texto possui imprecisões quanto à interpretação bíblica e reflete um consenso distorcido e divorciado da verdade, pois uma releitura das últimas palavras de Cristo na Cruz deixa nítido que não há paradoxo algum na morte de Cristo e que Deus não amaldiçoou o Seu Filho.

 

Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

O evangelista Lucas relata que, após Cristo ter rendido o espírito, o centurião que estava ao pé da cruz fez a seguinte confissão: “Na verdade, este homem era justo” ( Lc 23:47 ), e a multidão que assistiu a crucificação voltou batendo no peito ( Lc 23:48 ).

Ora, Cristo era mestre por excelência, e o evento da crucificação foi cenário de uma aula magna de interpretação das Escrituras, além de constituir-se a vitória da humanidade sobre a maldição do pecado.

É de conhecimento que Jesus ao falar às multidões fazia uso do grego ‘koine’, língua comum ao povo. Porém, quando da crucificação, Jesus falou uma única frase em aramaico, o que chamou a atenção dos evangelistas, que registraram tal fato tão significativo. Quando Ele disse: – Eli, Eli, lamá sabactâni, muitos não compreenderam o que fora dito, a ponto de interpretarem que Cristo clamava por Elias ( Mt 27:47 ).

Os evangelistas, por sua vez, ao fazer menção da frase pronunciada por Cristo, de pronto providenciaram a tradução do que foi dito, que se resume na seguinte frase: – Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?

Naquele instante cruento Jesus não estava lamentando que fora abandonado, antes Ele citou as Escrituras, de modo que, quem o ouviu, posteriormente poderia relacionar o evento da crucificação com o que vaticinara o salmista Davi no salmo 22.

Ao citar as Escrituras, Jesus estava anunciando abertamente a todos que assistiam a crucificação que, naquele instante, cumpria-se o predito no salmo 22. Quando Jesus leu o trecho do profeta Isaías no templo, afirmou categoricamente: – Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos ( Lc 4:21 ), quando bradou na cruz: – Eli, Eli, lamá sabactâni, foi o mesmo que anunciar: – Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos.

O salmo 22 é composto de 31 versos. Jesus citou o primeiro verso em aramaico, o que remeteria os ouvintes a considerarem todo o contexto do salmo.

Sabemos que os salmos, na sua grande maioria, constituem-se em profecias messiânicas, pois os salmistas não falavam de si mesmos, mas do Cristo ( 1Cr 25:1 ). Neste salmo é evidenciada a mesma verdade anunciada por Isaías:

“…não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos (…) e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido” ( Is 53:2 ).

Qualquer homem que olhasse para Cristo teria a impressão de que ele era aflito, ferido e oprimido por Deus, e o salmo 22, versos 1 à 8 descreve o final da existência do Cristo entre os homens e o desprezo dos seus algozes.

A expressão: – ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’, demonstra quão efetivamente as pessoas que assistiram a crucificação tiveram a impressão de que Cristo era o aflito, ferido e oprimido por Deus.

Era evidente o contraste entre Cristo e os demais homens. Nestes oito versos é profetizado a visão que os homens teriam de Cristo: verme e opróbrio dos homens “A ti clamaram e escaparam; em ti confiaram, e não foram confundidos. Mas eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo” ( Sl 22:5 -6).

Cristo clamou ao Pai no Getsêmani para que, segundo a vontade do Pai, passasse dele o cálice. Aparentemente Cristo não foi atendido, uma vez que Ele bebeu o cálice que o Pai deu a beber e, na hora da crucificação as pessoas diziam em tom de deboche: “Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus” ( Mt 27:43 ), porém, o livramento do Pai estava além túmulo, algo que os homens não compreendiam: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” ( Sl 16:10 ); “Para que viva para sempre, e não veja corrupção” ( Sl 49:9 ).

Os versos seguintes do salmo 22 demonstram a confiança de Cristo no Pai, pois Ele sabia que fora lançado do ventre materno por Deus ( Sl 22:9 -10). Qualquer que compreende as Escrituras sabe que na morte de Cristo estava a vitória d’Ele e, concomitantemente, a vitória da humanidade. A crucificação é a pedra de toque para se identificar quem crê ou não na salvação providenciada por Deus ( 1Co 1:23 ).

A petição do verso 1 do salmo 22 fica esclarecida à luz do verso 11. A profecia revela as nuances da aflição através dos seguintes rogos: – Deus meu, Deus meu! “E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás” ( Sl 50:15 ). Ou seja, o salmo 22 prescreve o modo como Cristo na angustia deveria clamar ao Pai, pois deste modo haveria de glorificar o Pai “Os quais pronunciaram os meus lábios, e falou a minha boca, quando estava na angústia (…) A ele clamei com a minha boca, e ele foi exaltado pela minha língua ( Sl 66:14 e 17).

A profecia revela a confiança do Filho no Pai, de modo que, mesmo na aflição sabia que o Pai seria com Ele “Não te alongues de mim” é expressão de confiança em quem poderia auxiliá-Lo na angustia, pois aquele era o momento de passar pelo vale da sombra da morte, e só Deus poderia auxiliá-Lo “Não te alongues de mim, pois a angústia está perto, e não há quem ajude” ( Sl 22:11 ).

Assim como o profeta anuncia que o Pai haveria de responder e estar com o Filho na aflição “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” (Sl 91:15 ), de igual modo o profeta deixa registrado que o Filho haveria de invocar o Pai ( Sl 22: 1 e 11).

Do verso 12 ao 21 são descritos vários eventos pertinentes à crucificação, porém, do verso 23 em diante, o salmista descreve profeticamente uma sobre-excelente vitória em meio ao sofrimento, e apresenta o motivo:

“Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ).

O verso deixa claro que Deus não desprezou e nem abominou a aflição de Cristo. De igual modo deixa claro que Deus não escondeu d’Ele o seu rosto, ou seja, Deus nunca deu as costas para o seu Filho. É mentira tal ideia que se anuncia em muitos púlpitos evangélicos! Deus não abandonou e nem deu as costa para o seu Filho como divulgam, pois o salmo é claro: “Quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ); “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ; Sl 56:13 ; Sl 20:6 ).

Cristo não foi desprezado e nem tido por abominação diante de Deus apesar da aflição e de ser o aflito de Deus, d’Ele não escondeu o seu rosto, o que contraria a ideia de que Deus voltou as costas para o seu Filho em decorrência do pecado da humanidade “E não escondas o teu rosto do teu servo, porque estou angustiado; ouve-me depressa (…) Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre” ( Sl 69:17 -21).

Como Deus poderia esconder o seu rosto do sacrifício perfeito? Cristo é o cordeiro morto desde a fundação do mundo. Cordeiro sem mancha e sem mácula! Foi oferecido segundo a vontade de Deus, portanto o sacrifício de Cristo subiu como cheiro suave às narinas do Pai “E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” ( Ef 5:2 ).

Ao citar o verso primeiro do salmo 22, Cristo despertou entre os que assistiam a crucificação, a curiosidade de aprenderem porque Ele foi descrito pelos profetas como verme e opróbrio da humanidade. Quando questionassem o fato de Ele ter dito em aramaico aqueles palavras, veriam que Ele citava as Escrituras. Quando consultassem as Escrituras, veriam que o salmo cumpriu-se cabalmente naquele evento cruento. Deste modo Cristo glorificou o Pai “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” ( Jo 17:4 ).

A maldição da lei

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” ( Gl 3:13 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que Cristo nos resgatou da maldição da lei, porém, buscando estabelecer um paradoxo, Piper faz a seguinte pergunta: – A maldição de quem? Em seguida ele arremata a pergunta com o seguinte argumento:

“Mas a lei não é uma pessoa para que possa amaldiçoar. Uma maldição só é uma maldição de fato se houver alguém que amaldiçoe. A pessoa que amaldiçoa por meio da lei é Deus, que escreveu a lei. Portanto, a morte de Cristo pelo nosso pecado e por nossa transgressão da lei foi a experiência da maldição do Pai” Idem.

Para Piper só há maldição quando há alguém que amaldiçoa, porém ele erra por não discernir que quem amaldiçoa é o transgressor. A Bíblia deixa claro que a maldição é consequência dos atos do transgressor “Como ao pássaro o vaguear, como à andorinha o voar, assim a maldição sem causa não virá” ( Pr 26:2 ). A maldição nunca advém da lei, visto que a lei é santa, justa, e boa. A maldição decorre do primeiro homem que transgrediu a lei, pois Deus a ninguém tenta “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ; Tg 1:13 ).

A mesma argumentação que Piper utiliza ao interpretar o verso em tela é utilizada por alguns ateus quando analisam a determinação que Deus deu a Adão no Éden. Porém, como expressa as Escrituras, não foi Deus quem amaldiçoou Adão, porque a determinação do Éden era expressão do cuidado de Deus, que avisou do risco que havia em se tornar participante do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Não foi Deus quem amaldiçoou Adão, antes foi Adão que buscou e lançou maldição sobre si e sobre toda a sua descendência em virtude da força da penalidade que havia na transgressão do mandamento: certamente morrerás. O que Deus deu a Adão foi uma lei santa, justa e boa, pois foi instituída para preservar-lhe a vida, porém, na lei estava explícita uma maldição ao transgressor e, quando Adão comeu do fruto, o pecado que é excessivamente maligno achou ocasião na força da lei santa, justa e boa que dizia: dela não comerás.

Quando o apóstolo Paulo diz que Cristo nos resgatou da maldição da lei, pois se fez maldição por nós, apresentou a base legal: ‘Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro’. A maldição que Cristo veio dar liberdade ao homem diz da maldição do Éden em decorrência da transgressão do mandamento dado a Adão, e não da maldição da lei mosaica, visto que a lei mosaica foi dada para conduzir os judeus a Cristo, uma vez que os gentios não tinham lei ( Gl 3:24 ; Rm 2:14 ; Ef 2:12 ). Se Cristo morresse para livrar os homens da maldição da lei mosaica, os gentios não seriam contemplados com a salvação, pois a lei foi escrita e dada especificamente aos judeus, ou seja, a maldição que Cristo levou sobre si diz da maldição que decorre da desobediência à lei dada no Éden ( Rm 2:14 ).

Na lei mosaica foi estipulado que, caso alguém houvesse transgredido a ponto de ser condenado ao madeiro, que o transgressor não permaneceria pendurado no madeiro de um dia para o outro ( Dt 21:22 -23).

Por que tal determinação? Porque assim como a serpente foi levantada no deserto, assim importava que o Filho do homem também fosse levantado ( Jo 3:14 ; Jo 12:32 -33 ). Porém, era necessário o Filho do homem descer ao seio da terra no mesmo dia da sua morte, pois estava determinado três dias para que Ele permanecesse no seio da terra e ressurgisse dentre os mortos ( Mt 12:40 ).

Ou seja, a determinação na lei visava impedir que o corpo de Cristo permanecesse na cruz de um dia para o outro, visto que, se assim fosse, o Cristo não passaria três dias no seio da Terra conforme o predito “Quando também em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, O seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o SENHOR teu Deus te dá em herança” ( Dt 22:22 -33).

Ora, a lei foi dada por causa dos transgressores, porém, Cristo não transgrediu, antes foi somente contado entre os transgressores para que pudesse levar sobre si a maldição deles. A maldição não advém de Deus, antes decorre da transgressão, pois Deus a ninguém amaldiçoa.

Cristo ter sido crucificado não significa que Deus amaldiçoou o seu Filho, antes que Ele estava sendo crucificado em decorrência da transgressão da humanidade. É a transgressão que impõe maldição, porém, Cristo foi crucificaram sem transgredir “Mas é para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: Odiaram-me sem causa” ( Jo 15:25 ).

Mas, porque Cristo foi parar no madeiro? A resposta advém do salmo 22: Porque como servo do Senhor, Jesus se tornou verme, opróbrio dos homens, ferido de Deus.

Todos os homens estavam sob a maldição do Éden, até mesmo os que receberam a lei. Pois a Lei determinava que quem cumprisse todas as suas determinações viveria por ela, mas ninguém conseguiu cumprir toda a lei. Como ninguém cumpriu a lei, permanecia a maldição; “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” ( Gl 3:10 )

Quando Cristo veio em cumprimento da lei ( Mt 5:17 ), veio na condição de Filho amado, em quem Deus tinha prazer. Ele não era merecedor de morte, pois foi introduzido no mundo livre de pecado, livre da condenação e da maldição que pesava sobre os homens. Quando Cristo se sujeitou à morte, e morte de cruz, não foi na condição de transgressor que foi suspenso como maldito “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ).

Ele assumiu a condição de maldito não como transgressor, pois quando foi pendurado no madeiro, deixou ser pendurado em obediência à determinação do Pai. Ele sujeitou-se à condição de maldito, deixando ser colocado no madeiro, porém, não como transgressor, mas em obediência àquele que tinha poder de livrá-Lo ( Hb 10:9 -12); “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” ( Gl 3:13 ).

Na desobediência de um homem (Adão) muitos foram feitos malditos, mas na obediência do Filho do homem, que se sujeitou à morte de cruz (cálice), humilhando-se a si mesmo, muitos foram feitos justos ( Rm 5:19 ).

Os transgressores eram conduzidos ao madeiro em decorrência dos seus crimes e, permaneciam sob a maldição da transgressão de Adão, mas quando um obediente sem pecado sujeitou-se a tomar a cruz e seguir ao calvário, reuniu os elementos necessários para o resgate da humanidade (de todo que n’Ele crer).

Cristo foi tido como maldito pelos homens em decorrência da cruz, mas na verdade, na cruz estava o Cordeiro que pertencia a Deus. O que os homens reputavam por maldito, aflito, ferido por Deus, na verdade pertencia a Deus, por isso chamado de ‘maldito de Deus’ ( Dt 22:22 -33), o que é muito diferente de ser o amaldiçoado por Deus, pois a maldição só vem em função da transgressão. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias ( 1Co 1:27 ).

Devemos lembrar também que todos os homens que vem ao mundo entram por Adão, que é a porta larga que dá acesso a um caminho largo que conduz à perdição. Por causa de Adão todos os homens são filhos da ira e da desobediência, ou seja, destinados à separação eterna de Deus. Morrer sem Cristo, ou seja, sem nascer de novo pela fé no Descendente prometido a Abraão é perdição eterna. Em vista desta verdade, qualquer que fosse pendurado no madeiro, o que significava morte física, era maldito, pois seguia para a eternidade alienado de Deus.

Cristo, ao ser pendurado no madeiro, se fez maldição em prol da humanidade, porém, Ele era sem pecado pois, não foi gerado segundo a carne, o sangue e a vontade do varão, antes foi gerado pelo Espírito de Deus no ventre de Maria “Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” ( Sl 22:10 ). Apesar de morrer morte de madeiro, o pecado não possuía domínio sobre o Filho de Deus, pois Ele não foi gerado da semente do pecado, antes foi formado por Deus no ventre de Maria.

Por não ser pecador, a morte não teve domínio sobre Cristo, pois a morte só tem domínio sobre aqueles a quem a lei disse: certamente morreras. Somente sobre esses a lei possui força, ou seja, sobre os descendentes da carne de Adão. Aquela lei santa, justa e boa deu ocasião à separação de Deus em função da desobediência de Adão.

O pecado não possuía força, antes a buscou na lei que diz: ‘- Certamente morrerás’, a força necessária para aprisionar o homem. Por causa da morte proveniente da força da lei, o pecado escraviza os homens, o que foi impossível com Cristo. A morte não pode resistir! Soltas as ânsias da morte, Jesus ressuscitou para gloria de Deus Pai.

Ou seja, ao se oferecer sobre o madeiro, Jesus estava estabelecendo um novo e vivo caminho, através do sacrifício do seu corpo, de modo que a humanidade voltasse a ter acesso a Deus. E qual o acesso a Deus? Que os homens tomem cada um a sua própria cruz sigam após Cristo, sejam crucificados, mortos, sepultados no batismo da morte de Cristo, quando são de novo gerados uma nova criatura em verdadeira justiça e santidade em comunhão com Deus.

Portanto, a morte de Cristo foi substitutiva, visto que qualquer homem que experimentasse a morte física estaria perdido por toda a eternidade. Mas, como Cristo morreu em lugar da humanidade, ninguém que n’Ele crê precisa ficar com medo do pecado e da morte. Ninguém deve temer o madeiro e os sofrimentos dele decorrente! Antes, deve tomar cada um sobre si a sua cruz e seguir após Cristo até o calvário. Deve morrer com Cristo, pois a lei que diz: A alma que pecar esta mesma morrerá, não foi invalidada com a morte de Cristo. Antes ele providenciou o meio de o homem morrer sem provar a morte física e ser glorificado sem descer à sepultura ( Rm 6:3 -8; Cl 3:1 ).

A pena imposta pela lei no Éden não passa da pessoa do transgressor. Como todos pecaram todos devem morrer, porém, se morrer a morte física sem Cristo é condenação, mas se morrer com Cristo conforme Ele conclama a todos para que tomem sobre si a sua própria cruz, quando morrer fisicamente, a morte não mais tem domínio sobre tal pessoa, pois já ressurgiu com Cristo e é uma nova criatura.

Cristo derramou a sua alma na morte e foi contado entre os homens (transgressores), para levar sobre si o pecado de muitos ( Hb 2:9 e 14). Assim Ele fez pelo prêmio que lhe estava proposto: “Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores” ( Is 53:12 ; Hb 12:2 ).

Substitutivamente Jesus morreu pelos pecadores ( Is 53:6 ), mas para ser digno d’Ele é necessário ao homem tomar sobre si a sua cruz, chegar ao calvário, morrer com Cristo, ser sepultado na morte pelo batismo na morte de Cristo ( Rm 6:3 ), e ressurgir dentre os mortos na condição de irmão do Primogênito dentre os mortos “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim” ( Mt 10:38 ).

Hoje o crente se gloria na ressurreição! Quando não crente, foi necessário aproximar-se de Cristo na morte, agora exultamos na ressurreição, pois fomos plantados à semelhança da sua morte e ressurgimos na semelhança da ressurreição de Cristo.

 

A morte de Cristo não é a morte de Deus

Por definição Deus é eterno ( Hb 1:12 ), enquanto do homem, por possuir um corpo de matéria é mortal “Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites?” ( Sl 8:4 ); “Eu, eu sou aquele que vos consola; quem, pois, és tu para que temas o homem que é mortal, ou o filho do homem, que se tornará em erva?” ( Is 51:12 ).

Deus é eterno. Não há que se falar em morte com relação à divindade. Em primeiro lugar, porque Deus não pode alienar-se de si mesmo, ou seja, pecar, o que entendemos por morte, separação, alienação “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ). Em segundo lugar, Deus não é passível de morte física, porque Ele é Espírito.

Como Deus é Espírito e Vida, não há que se falar que Deus morreu quando contemplamos a cruz de Cristo.

Sabemos que só os homens são passiveis de morrer fisicamente, contudo, os homens possuem uma parte imaterial que é imortal: o espírito.

Lançar mão da doutrina dos Calcedônios, por mais ortodoxa que se entenda ser, para forjar um paradoxo, é leviano. Observe o primeiro exemplo de Piper:

‘… sendo que Jesus Cristo é homem e Deus em uma única pessoa, sua morte foi a morte de Deus?’ ( Idem).

Ora, através das Escrituras concebemos Deus em três pessoas distintas, porém, coeternas unidas pelo vínculo da perfeição. Através das Escrituras sabemos também que uma das pessoas da divindade resignou-se a deixar a sua condição de divindade, de modo que efetivamente despiu-se da sua glória e tornou-se efetivamente homem.

É por causa desta verdade exarada nas Escrituras que sabemos e compreendemos que Cristo era homem e Deus “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel” ( Is 7:14 ). Ou seja, na eternidade, a segunda pessoa da divindade, o Verbo, despiu o seu Espírito da glória que lhe pertencia e foi encarnado no ventre de Maria.

Sobre essa verdade comentou o apóstolo Paulo: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:6 -8).

Ou seja, embora Cristo fosse Deus, conforme atesta o testemunho das Escrituras, na condição de homem Jesus foi 100% homem, ou seja, Ele esvaziou 100% a si mesmo dos seus atributos divinos.

Cristo era Deus antes de ser encarnado, ou seja, era onisciente, onipresente e onipotente ( Jo 1:30 ), de modo que Ele criou todas as coisas e nada do que foi feito se fez ( Jo 1:3 ). Mas, para ser homem, Cristo teve que se despir completamente da sua divindade. Para que Cristo em tudo fosse semelhante aos homens e, inclusive sujeito à morte, teve que despir-se completamente, totalmente dos seus atributos “Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” ( Hb 2:17 ); “… fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” ( Hb 2:9 ).

Portanto, antes de ser encarnado, Cristo possuía todos os atributos da divindade, porém, na condição de homem, Cristo não possuía nenhum atributo da divindade. Ele tornou-se homem, despido dos atributos da divindade, de modo que Ele tornou-se participante da carne e do sangue e sujeitos as mesmas fraquezas de todos os homens, inclusive, sujeito à morte, porém, sem pecado ( Hb 4:15 ).

Portanto, Cristo despiu-se 100% da sua glória e assumiu a natureza humana. Ele morreu por ser 100% homem, e ressurgiu dentre os mortos glorificado com 100% do poder que possuía antes de ser encarnado “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” ( Jo 17:5 ).

Falando na linguagem bíblica, Deus fez o homem à sua imagem: “E criou Deus o homem à sua imagem” ( Gn 1:27 ), portanto, ao esvaziar-se dos seus atributos, Deus assumiu a figura da sua imagem. Deus esvaziado de seus atributos não assumiu a condição de anjo, ou de qualquer outra criatura, antes assumiu a figura da sua imagem que concedera a Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir ( Rm 5:14 ), pois a expressa imagem do Deus invisível foi a nova condição que Cristo assumiu ao ressurgir dentre os mortos ( Hb 1:3 ), condição que passou a compartilhar com a igreja “Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” ( 2Co 3:18 ; 1Jo 3:2 ).

Ora, a divindade de Cristo não foi perdida quando da encarnação, pois o escritor aos Hebreus é claro quanto à adoração de Cristo: “E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 ), mas as propriedades próprias à divindade Ele despiu-se, de modo que Jesus roga ao Pai que se lhe dê a glória que possuía anteriormente.

Embora despido da sua glória, Cristo não abriu mão de que os homens o reconhecessem como Deus e da adoração que lhe era devida, visto que o Pai, nas Escrituras, não lhe vetou tal prerrogativa. Entre os homens Jesus identificou-se como o ‘Eu Sou’ e foi adorado “Ele disse: Creio, Senhor. E o adorou” ( Jo 9:38 ; Jo 8:58 ).

Se considerarmos de modo diferente da exposição das Escrituras, incorreremos em imprecisões:

“O mistério da união entre a natureza humana e a divina na experiência da morte não nos é revelado. O que sabemos é que Cristo morreu, e que no mesmo dia ele foi ao paraíso (“Hoje estarás comigo no paraíso,” Lucas 23.43). Sendo assim, parece ter havido consciência na morte, de modo que a união contínua entre a natureza humana e a divina não precisasse ser interrompida, ainda que Cristo tenha morrido somente em sua natureza humana (Idem) grifo nosso.

  1. Assim como os homens são sujeitos à morte física, Cristo sujeitou-se à condição humana de modo que efetivamente morreu; Cristo morreu porque sofreu o término das suas funções vitais, porém, o seu espírito seguiu no pós-morte o mesmo caminho que é comum a todos os homens “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” ( Ec 12:7 ); Ele despiu-se da sua glória e tornou-se homem, ou seja, participante da carne e do sangue. A Bíblia é clara: Cristo morreu, foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia. A diferença entre Cristo e a humanidade após descer à sepultura está no fato de que o corpo de Cristo não viu corrupção, pois ressurgiu dentre os mortos;
  2. Assim como os homens possuem um corpo físico mortal, Cristo possuía um corpo mortal; assim como todos os homens possuem um espírito imortal, Cristo na eternidade era o Espírito imortal que, ao despir de sua glória, foi encarnado; já na encarnação Cristo passou a depender exclusivamente do Pai, pois da sua concepção no ventre de Maria Jesus já estava despido de sua glória e poder; é por isso que o salmista registra: ‘Sobre ti fui lançado desde a madre’ (v. 10); da mesma forma que Deus não pode morrer, o espírito dos homens não podem morrer; por proceder de Deus jamais os espíritos dos homens deixarão de existir;
  3. Deus na sua glória não morre, ou seja, é eterno, imortal. Mas, quando Cristo despiu-se da sua glória, assim o fez de modo que pudesse provar a morte física, de modo que ele veio em semelhança da carne do pecado. Quando Cristo morreu foi o seu corpo físico que morreu; quando falamos de morte, devemos considerar que a morte do homem se dá quando o espírito do homem deixa de habitar o corpo; quando Cristo morreu o seu espírito que fora despido da glória que possuía separou-se do corpo, de modo que o espírito foi entregue nas não de Deus, e o seu corpo sepultado;
  4. Quando Cristo morreu, permaneceu consciente na morte assim como todos os homens permanecem conscientes, pois não é o corpo que dá consciência, antes é o espírito do homem que lhe dá entendimento “Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso o faz entendido” ( Jó 32:8 );
  5. Compartilhar da natureza divina é factível a todos os homens, desde que creiam em Cristo ( 2Pe 1:4 ). Quando a Bíblia fala de Cristo, ela apresenta o conceito de ‘despir-se de sua glória’; ao despir-se da sua glória, a comunhão de Cristo com o Pai não foi interrompida, e nem perdeu a prerrogativa de ser adorado por suas criaturas; o que foi interrompido foi a prerrogativa de Cristo utilizar da Sua glória, do seu poder; quando na semelhança da carne do pecado, Cristo era homem e em comunhão com o Pai, porém, despido da sua glória; quando foi morto, Jesus despiu-se da carne do pecado e passou a estar em espírito por um período de três dias; após ressurreto, Jesus passou a estar de posse de todo o poder que possuía antes;
  6. Portanto, à luz das Escrituras, Jesus realmente morreu, assim como todos os homens morrem. Embora em comunhão com o Pai, teve que entregar o espírito ao Pai quando morreu, assim como o faz todos os homens; os homens são naturalmente homens, ou seja, menores que os anjos, porém, podem ser carnais (gerados de Adão) ou espirituais (gerados de novo em Cristo); deste modo é impossível ao homem possuir duas naturezas: uma carnal e outra espiritual; Cristo, por sua vez, apesar de ser participante de um corpo semelhante à carne do pecado, contudo, por ter sido gerado por Deus no vente de Maria nunca foi carnal, ou seja, desde o seu nascimento Jesus era espiritual, embora possuísse um corpo carnal ( 1Co 15:45 -47).

Cristo, sendo Deus esvaziou-se da sua glória e se fez homem, o que possibilitou que Cristo estivesse sujeito à morte, sujeito a que o espírito se separe do corpo, pois a morte física é uma faculdade pertinente somente aos homens “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, seja honra e glória para todo o sempre. Amém” ( 1Tm 1:17 e 6:16); “Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” ( Hb 2:9 ).

Portanto, podemos dizer que Cristo é Rei dos séculos, imortal, invisível e, a Sabedoria de Deus, e a Ele seja a honra e a glória para todo o sempre, pois como homem, ao ser gerado no ventre de Maria, Cristo nasceu, cresceu e, quando adulto, na plenitude dos seus dias, Jesus foi cortado da terra dos viventes “Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido” ( Is 53:8 ).

As agruras e o terror da morte assombraram o Cristo do mesmo modo que aterroriza todo e qualquer mortal ( Sl 56:3 ), pois após despir-se da sua glória Cristo se fez homem, conforme foi prometido a Abraão, segundo a linhagem de Davi ( Mt 26:36 -37; Lc 22:44 ).




Gálatas 3 – Os filhos de Abraão

É Deus quem concede do Seu Espírito e faz maravilhas. É certo que na lei o homem somente encontra obrigações, mas, através da pregação, ou do que é anunciado acerca do evangelho (fé), a ação fica a cargo de Deus, que é poderoso para fazer abundar no homem a sua graça “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra” ( 2Co 9:8 ). Perceba que na lei o homem encontra uma determinação: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir, por eles viverá” ( Lv 18:5 ).


A Inconstância dos Gálatas

1 Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?

O outro evangelho apresentado aos Gálatas é classificado pelo apóstolo Paulo como sendo obra de um fascínio. A insensatez de alguns cristãos os deixou subjugados. Eles foram alvos de um ‘encantamento’, subjugados pelos olhos, visto que, apoiaram-se na ‘boa aparência’ daqueles que transtornavam o evangelho de Cristo ( Gl 5:12 ).

A inconstância dos Gálatas era proveniente de uma insensatez.

Paulo estava perplexo, e quis saber quem havia fascinado os cristãos a desviarem da verdade do evangelho, principalmente porque Cristo foi apresentado a eles como crucificado: o poder de Deus ( 1Co 1:18 ).

Cristo crucificado é motivo suficiente para que ninguém se estribe na ‘aparência’ de outrem. O poder de Deus encontra-se no Cristo crucificado, onde o crente deve fixar a atenção. Esta deve ser a fixação do cristão, e não a aparência, que perante Deus nada é ( Jo 12:32 ). Por isso, o apóstolo Paulo chamou-os de insensatos.

 

2 Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?

Paulo questiona: De que maneira eles haviam recebido o Espírito de Deus? Seria por acaso por meio da lei? Ou seria por meio da fé? Paulo anseia por uma resposta de seus leitores.

A resposta à pergunta de Paulo seria suficiente para elucidar o quanto os Gálatas estavam equivocados (Só quisera saber isso).

 

3 Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?

Paulo demonstra que, por causa da insensatez, os gálatas haviam regredido. Estavam perdendo aquilo que já haviam alcançado: começaram pelo Espírito e acabariam na carne.

Eles haviam sido agraciados com uma nova vida por meio do Espírito de Deus, e agora, estavam submetendo-se à escravidão da carne.

Observe que é factível o cristãos desviar-se da palavra da verdade quando dá ouvidos a palavra de engano ( Hb 2:1 )

 

4 Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão.

O apóstolo Paulo procura envolve-los sentimentalmente. Ele traz a lembrança dos cristãos o quanto haviam sofrido por causa do evangelho.

O sofrimento também foi em vão?

 

5 Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, fá-lo pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?

Aquele que concede o Espírito é Deus. Tal dádiva é concedida por meio da verdade do evangelho (fé), e não da lei.

É Deus quem concede do Seu Espírito e faz maravilhas. É certo que na lei o homem somente encontra obrigações, mas, através da pregação, ou do que é anunciado acerca do evangelho (fé), a ação fica a cargo de Deus, que é poderoso para fazer abundar no homem a sua graça “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra” ( 2Co 9:8 ).

Perceba que na lei o homem encontra uma determinação: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir, por eles viverá” ( Lv 18:5 ).

Na pregação da fé o homem depara-se com a promessa daquele que é fiel e poderoso em realizar. Enquanto o homem não consegue viver a altura da lei, através da oferta da graça, consegue abundar em toda a boa obra.

 

6 Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.

Paulo evoca a autoridade da Escritura. Se não davam ouvido ao apóstolo dos gentios, que pelo menos considerassem a Escritura.

Abraão foi justificado por meio da fé porque creu na promessa d’Aquele que é poderoso para cumprir.

 

7 Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.

Os leitores das cartas de Paulo citavam a Escritura de cor (A. T.), mas precisavam saber que, somente os que creem são feitos filhos de Deus.

Somente os que creem conforme o Pai Abraão é que recebem a filiação divina, ou seja, são contados como filhos de Abraão ( Jo 1:12 ).

Não podemos esquecer que, ser filho de Abraão, para os seguidores da lei, era o mesmo que ser filho de Deus ( Jo 8:39 -41).

João Batista ao verificar que os escribas e fariseus, que vinham ao batismo, continuavam se arrogando na condição de filho de Deus pelo fato de serem descendentes de Abraão, alertou: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por Pai a Abraão; porque eu digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Sobre este aspecto Jesus declarou que os fariseus eram filhos do diabo, visto que presumiam ser filhos de Deus em decorrência de serem descendente de Abraão (para eles a filiação decorre do sangue) ( Jo 8:44 ).

Eles eram descendentes de Abraão ( Jo 8:37 ), mas não eram filhos de Deus, visto que, ainda continuavam vendidos como escravos ao pecado por serem descendentes de Adão ( Jo 8:34 ). Sendo escravos do pecado, em decorrência da filiação em Adão, os fariseus eram de fato, filhos do diabo, e não de Deus ( Jo 8:44 ).

 

A Primeira Pregação da Fé

8 Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.

Paulo refere-se ao Antigo Testamento como sendo a Escritura.

Neste versículo ele faz referência ao livro de Gênesis, quando Deus diz: “…e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ). A promessa de Deus registrada no livro do Gênesis é uma profecia acerca da justificação pela fé que seria concedida aos gentios, e que agora, através da igreja estava se cumprindo.

Quem haveria de bendizer as ‘nações’ em Abraão? Deus prometeu que, através de Abraão, haveria de dar ‘bom’ testemunho aos homens provenientes de vários povos. Homens de todos os povos haveriam de ser declarados justos por Deus do mesmo modo que Abraão.

Por meio da fé, as famílias da terra haveriam de ser benditas do mesmo modo que os antigos alcançaram bom testemunho ( Hb 11:2 ).

O evangelho é:

a) Promessa de Deus;

b) Independe da circuncisão na carne;

c) Alcançada a promessa pela fé;

d) Todos morrem (despojar do corpo da carne) na fé, e passam a viver para Deus;

e) Decorre do poder e da fidelidade de Deus;

f) Abraão julgou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, trazer o seu descendente a vida.

O evangelho é promessa de Deus a todos que creem, sem distinção alguma de origem e condições sociais. Por meio da fé todos morrem com Cristo e ressurgem com base no poder e na fidelidade de Deus. O poder de Deus fez Cristo ressurgir dentre os mortos, e este mesmo poder opera nos cristãos ( Ef 2:19 -20).

Todas as nações são benditas em Abraão por causa do descendente, que é Cristo ( Gn 3:15 ), pois através de Cristo alcançam bom testemunho de que são agradáveis a Deus.

Se os judaizantes entendessem a ‘linguagem’ de Jesus e cressem somente no descendente, ai sim, seriam de fato livres e filhos de Abraão (filhos de Deus) ( Jo 8:43 ).

 

9 De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão.

Deus não faz acepção de pessoas: se Abraão foi justificado por meio da fé em Deus, todos aqueles que crerem na promessa divina, estarão debaixo da mesma bem-aventurança: serão benditos conforme o pai Abraão, ou seja, são igualmente justificados.

Ora, a justificação de Abraão foi posicional ou objetiva? Deus tratou Abraão como justo, mas não tornou Abraão justo? Como é possível? Observe a seguinte declaração de Scofield: “A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa (…) Ele declara justamente e trata como justo…” Bíblia Scofield de referências, Romanos 3:28, pág 1147.

Entendemos pelas Escrituras que Abraão foi efetivamente justificado por Deus, pois a palavra traduzida por ‘justificar’ e ‘justificação’ significa ‘tornar justo’, ‘declarar justo’, ‘declarar reto’, ou ‘declarar livre de culpa e de merecimento de castigo’.

Alguns teólogos entendem que Deus ‘não torna’ o homem justo, porém, sabemos que todos quantos creem em Cristo são de novo criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Por meio da fé em Cristo o homem recebe de Deus poder para ser feito (criado) filho de Deus ( Jo 1:12 ).

 

10 Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las.

Aqueles que se diziam cristãos, mas que estavam querendo transtornar o evangelho de Cristo ao buscarem elementos da lei como meio de se alcançar a salvação, permaneciam sob maldição.

Estes não atinavam que a natureza da lei é diversa da natureza humana sem Deus: a lei é espiritual e o homem sem Deus carnal. Esqueciam que é impossível cumprir a lei, uma vez que o não cumprimento de um único quesito da lei torna o homem culpado de toda a lei.

Para ser justificado por meio da lei, o homem necessariamente deveria cumprir todas as coisas estipuladas na lei. Os judaizantes esqueciam que na lei não há promessas de bênçãos, antes, faz referência à maldição para quem não cumpri-la.

Como já demonstramos anteriormente, na lei é necessário ao homem realizar. Na fé (promessa) é Deus que se propõe realizar, recomendando ao homem descansar n’Ele.

 

11 E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé.

Por que o apóstolo Paulo alega que é evidente que ninguém pode ser justificado pela lei? Por que o apóstolo cita uma declaração do profeta Habacuque?

“O justo viverá da fé” ( Hb 2:4 )

O verso retirado do Livro de Habacuque demonstra que é impossível ao homem ser justo à parte da vida que se alcança por meio da promessa de Deus (fé). A condição de justo é proveniente da nova natureza em comunhão com Deus.

O justo vive por meio da fé, ou seja, a existência de um justo só é possível através da fé. O homem natural existe por intermédio do nascimento natural, e o justo vem a existência por intermédio da palavra de Deus, que é esperança proposta (fé).

Observe que a condição de justo é invariável, conforme se lê: “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” ( Pr 4:18 ). O que sofre transformação é a vereda do justo, e não a sua condição. O que se compara à luz da aurora é o caminho do justo, e não a sua justiça (condição).

Segue-se que, para ser justo necessariamente o homem precisa nascer de novo. Por quê? Porque todos que creem na palavra do evangelho recebem de Deus poder para ser de novo criado ( Jo 1:12 ).

Após o novo nascimento (regeneração) o novo homem que surge em Cristo é justo e declarado justo por Deus, ou seja, é justificado!

A justificação fala da declaração que o homem recebe de Deus. Tal declaração só é concedida após a regeneração, sendo que, só o novo homem criado em Cristo recebe tal declaração (bom testemunho) ( Hb 11:2 ).

A justiça de Deus se alcança pela esperança proposta (fé), visto que, para ser justo, há a necessidade do novo nascimento, e a partir do novo nascimento o justo passa a viver para Deus ( Hb 6:18 ).

 

12 Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá.

A lei impõe obrigações, a fé promessa. Esta é só esperar que se alcança de Deus o prometido, enquanto aquela depende do homem cumprir todas as determinações prescritas na lei. Se o homem fizer o que a lei diz, pela lei terá vida – o que é impossível, visto que a carne tornou a lei enferma ( Rm 8:3 ).

Se o homem crer em Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos, passará a ter vida, ou seja, viverá por confiar (fé) n’Aquele que prometeu (fé).

 

13 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;

Ao morrer na cruz (pendurado no madeiro) o Senhor Jesus Cristo tomou sobre si a maldição que pesava sobre a humanidade, e se fez maldição.

O resgate da humanidade da lei, do pecado e da morte se deu através da entrega de Cristo.

Aquele que foi e é sem pecado cumpriu as exigências da lei e ao assumir a condição de maldito, estabeleceu um novo e vivo caminho de acesso dos homens a Deus: adquirimos em Cristo a bem-aventurança prometida a Abraão.

Qual a exigência da lei? Assim como o juízo e a ofensa veio de um homem, somente por outro homem perfeito e obediente veio a vida e justificação ( Rm 5:16 ). Assim como Adão morreu e toda a humanidade morreu, segue-se que, quando Cristo morreu, todos que creem também morrem com Ele para que possam ressurgir dentre os mortos ( 2Co 5:14 ).

Cristo nos resgatou com um único objetivo:

 

14 Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito.

A entrega de Cristo foi necessária para que a bênção de Deus prometida a Abraão pudesse chegar aos gentios. Da mesma forma que Abraão recebeu a promessa (fé) e descansou na esperança proposta (fé) recebendo a justificação, pela fé (mensagem do evangelho) o cristãos recebem a promessa do Espírito, que Deus prometeu a Abraão acerca do descendente.

Argumentos Fraternos

 

15 Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta.

Paulo demonstra que, segundo as leis humanas, não há como anular ou acrescentar o que foi estabelecido em um testamento. Paulo deixa a argumentação bíblica e passa a argumentar segundo o conhecimento que lhes era próprio (como homem falo): a aliança, o trato, o testamento.

O apóstolo Paulo deixa bem claro que a argumentação que estava apresentando tinha por base questões humanas, e não as Escrituras.

A aliança que um homem confirmou não pode ser anulada ou acrescentada, que se dirá da aliança estabelecida por Deus?

 

16 Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.

O apóstolo procura evidenciar qual a leitura correta a se fazer da Escritura, ou seja, quando se lê que a promessa foi feita a Abraão e à sua descendência, isto não quer dizer que todos os seus descendentes seriam benditos em Abraão ( Rm 9:7 ).

Eles precisavam observar que a Escritura não fala da descendência de Abraão como sendo muitos, mas de um descendente, alguém em específico “A tua descendência tomará posse das cidades dos teus inimigos, e em tua descendência serão benditas todas as nações…” ( Gn 22:17 -18).

A promessa de Deus a Abraão refere-se ao descendente, que é Cristo.

Para que o homem possa ser participante das bênçãos de Abraão é necessário ter a mesma fé que teve Abraão, pois através da fé, os que creem, passam a ser participantes de Cristo, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

Como ter a mesma fé de Abraão? Ora, Abraão creu na palavra de Deus acerca do Descendente e isto lhe foi imputado por justiça. Qualquer que queira ter a mesma fé do crente Abraão deve crer na mensagem do evangelho, que é a mensagem do Descendente.

Qualquer que crê em Cristo possui a mesma fé do crente Abraão.

O cristão é descendente de Abraão segundo a promessa porque está em Cristo, ou seja, porque é nova criatura. Ao crer no evangelho, o homem recebe de Deus poder para ser feito, criado filho de Deus ( Jo 1:12 ), recebendo de Deus através de Cristo a natureza divina ( Cl 2:10 ; 2Pe 1:4 ).

 

17 Mas digo isto: Que tendo sido a aliança anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a invalida, de forma a abolir a promessa.

O apóstolo Paulo demonstra que a aliança de Deus com os homens foi confirmada por Deus em Cristo (ou seja, no Descendente). Nem mesmo a lei, que foi concedida por Deus ao povo, teve força para abolir ou invalidar a aliança estabelecida por Deus com Abraão.

Todo evento posterior a aliança não pode invalidá-la, ou seja, sendo a lei posterior a promessa, de maneira alguma ela poderia invalidá-la.

Por que a lei não pode invalidar a promessa? Porque a promessa de Deus é irrevogável. Não depende do homem para ser levada a efeito, antes tem por base o poder e a imutabilidade de Deus.

 

18 Porque, se a herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão.

O raciocínio é simples! A lei e a promessa são excludentes: se a herança provém da lei, automaticamente a outra é excluída.

Todos deviam saber que a herança foi dada a Abraão gratuitamente, sem qualquer vinculo com a lei, por causa da promessa. A bênção deriva da promessa, e não da pessoa de Abraão.

 

19 Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro.

Em ultima instância: qual a razão de ser da lei?

A lei foi estabelecida até que Cristo viesse ao mundo, por quem a herança é concedida. Ele é o herdeiro da promessa.

Porém, a lei foi estabelecida para:

a) evidenciar a natureza de Deus;

b) servir de ‘aio’ para conduzir os homens a Cristo;

c) tornar evidente a na natureza pecaminosa do homem;

d) faz o homem perceber que é impossível salvar-se a si mesmo.

Através da lei o homem se dá conta que é pecador e da sua impossibilidade de escapar da condenação estabelecida em Adão. Somente por intermédio da cruz de Cristo o pecador passa a ter acesso a Deus por um novo e vivo caminho, que é o corpo de Cristo.

Através do corpo de Cristo que foi sepultado o homem sepulta a carne proveniente de Adão, e através do corpo de Cristo, a igreja, o homem passa a estar em comunhão com Deus.

Houve um evento na história do povo de Israel, logo após terem sido resgatados do Egito, que esclarece o motivo da lei.

Deus determinou a Moisés que o povo fosse reunido para que Ele falasse diretamente com o povo ( Ex 19:9 ). Quando o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o barulho das buzinas, e o monte fumegando, temeram, e se afastaram. Pediram a Moisés que ouvisse a voz de Deus e que repassasse a eles ( Ex 20:19 -20).

O povo não confiou em Deus, antes temeram, pensando que seriam mortos. Moisés, por sua vez, seguiu e adentrou nas densas trevas, onde Deus estava. Mesmo após serem salvos do Egito, ainda não confiavam em Deus. Que Deus seria este, que após resgatá-los da escravidão, os mataria em seguida?

A lei foi concedida ao povo para que aprendessem mais sobre a natureza divina. Elem precisavam aprender a confiar, e não temer. O temor (palavra) do Senhor é o principio da sabedoria, mas ter medo, demonstra falta de confiança n’Aquele que é amor eterno ( Ex 21:1 ).

O povo não confiava em Deus que lhes resgatara do Egito. Eles solicitaram a Moisés que intermediasse a conversa entre eles e Deus, e, por isso, pereceram, visto que não confiaram em Deus.

Solicitaram a Moisés que falasse com eles, e proibiram que Deus lhes falasse, com medo da morte. Moises demonstra que Deus veio ao povo não para matá-los, mas para prová-los. Se eles ouvissem a voz de Deus, viveriam ( Ex 20:19 ; Is 55:2 ).

Com medo dos raios e trovões, o povo se afastou de Deus e se puseram ao longe, demonstrando que não confiavam na palavra de Deus que anteriormente foi anunciada: “Faço misericórdia…” ( Ex 20:6 ), e nem mesmo consideram que, se Deus os havia resgatado do Egito, era para preservá-los em vida, e não para matá-los ( Hb 12:18 -28).

A lei foi dada até que viesse o Descendente (Cristo), a quem foi feita a promessa. Ela foi promulgada por causa das transgressões do povo, e entregue a Moisés por intermédio das mãos do mensageiro de Deus ( At 7:38 ).

A lei não foi entregue por anjos, antes, Moisés a recebeu do Anjo do Senhor, que falava com ele no monte Sinai e com os pais de Israel.

Não foram os anjos que entregaram a lei a Moisés, e sim, o Anjo do Senhor, que é Cristo. Somente o Anjo do Senhor tem a semelhança divina “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ). Somente o Anjo do Senhor é onipresente, e acampa ao redor dos que o temem e o livra “O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra” ( Sl 34:7 ).

A função de entrega da lei a Moisés coube ao Anjo do Senhor, e não aos seus santos anjos, que são ministros de Deus e não possuem a onipresença. É o Anjo do Senhor que se acampa ao redor dos que o temem. Somente Ele deve ser temido, e não os anjos, que são ministros de Deus.

Moisés foi constituído como Mediador no processo de entrega da lei ao povo, visto que o povo não confiou em Deus para ouvi-Lo ( Ex 19:9 ).

 

20 Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um.

O medianeiro não foi estabelecido a favor de uma só pessoa, antes de muitos, no entanto Deus é um só, tanto na Antiga como na Nova aliança.

Com a vinda de Cristo, mudou-se o mediador ( Hb 12:24 ). Enquanto Moisés “…foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar” ( Hb 3:5 ), (o que se havia de anunciar é o evangelho de Cristo), ele entregou ao povo a lei (aio), que teve a função de conduzir o povo a Cristo, porém, o povo estava assombrado com a visão do monte Sinai ardente, com as tempestades, com as trevas e o ressoar das buzinas ( Hb 12:18 -21).

Cristo é mediador entre Deus e os homens, e dá acesso ao Pai. Por meio d’Ele os homens chegam-se a Deus e tem entrada na Jerusalém Celestial com os seus milhares de anjos. O homem passa a fazer parte da universal assembléia e igreja dos primogênitos que ressurgiram com Cristo dentre os mortos e estão inscritos nos céus ( Hb 12:22 -28).

 

21 Logo, a lei é contra as promessas de Deus? De nenhuma sorte; porque, se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei.

O apóstolo Paulo espera que os leitores da sua carta respondam que a lei não invalida a promessa de Deus, visto que, a lei veio depois da promessa. A promessa é firme em Deus, e não depende do homem. A lei, sendo posterior a promessa, apenas evidencia que o homem não possui a natureza divina. Tudo o que a lei determina depende do homem realizar.

Observe que o objetivo da promessa está intimamente ligado à justiça e à vivificação em Deus ( Is 57:15 ). A lei nada pode fazer pelo homem, visto que o homem é quem precisava guardá-la.

De Deus os cristãos têm a promessa de que, por meio da fé (evangelho) Ele vivifica e justifica, pois o justo viverá da fé. Primeiro o homem alcança a vida que Deus lhe concede, e, em seguida, é declarado justo. O que remete à doutrina da justificação.

 

A Escritura, a Lei e a Fé

22 Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes.

A escritura aqui se refere ao Antigo Testamento, visto que, quando o apóstolo Paulo escreveu esta carta, os evangelhos e as cartas dos apóstolos ainda não pertenciam a Escritura, como hoje se vê.

Observe que não foi a lei que encerrou a humanidade debaixo do pecado, e sim, a Escritura. A lei somente evidencia qual é a natureza do homem.

Onde está escrito que a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado? Através da palavra que diz: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ), ou seja, se as ‘famílias’ seriam benditas, segue-se que a condição delas era de maldição diante de Deus.

Quando a Escritura diz que na descendência de Abraão as nações haveriam de ser benditas, demonstra que, antes do Descendente, todos eram malditos por causa do pecado.

Há vários versículos no Antigo Testamento que demonstram que todos os homens estão debaixo do pecado, como o apóstolo Paulo demonstra aos cristãos em Roma ( Rm 3:11 -18).

A promessa acerca do descendente, feita a Abraão, é concedida àqueles que creem. Todos os homens estavam presos ao pecado, e por isso, malditos. Os que têm fé em Cristo livram-se da maldição, tornando-se benditos como o crente Abraão, pois a promessa diz: “…em tua descendência serão benditas todas as nações da terra…” ( Gn 22:18 ).

 

23 Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.

Antes que Cristo se manifestasse, os homens de Israel estavam guardados pelo curador, ou tutor, que é a lei. Mas, não deviam confiar no tutor (lei), como se ele pudesse dar a herança (justificar), antes, deveriam crer na palavra de Deus, como o crente Abraão, e esperar o tempo determinado pelo Pai, confiando em Deus que prometeu o Descendente.

A promessa seria cumprida na plenitude dos tempos com a vinda do Descendente, que é Cristo, e não em função da lei, que tinha por objetivo conduzi-los a Cristo.

Agora, na plenitude dos tempos, Cristo foi manifesto aos homens, a graça de Deus concedida por intermédio do evangelho, de modo que o homem não pode permanecer debaixo da lei, antes deve tomar posse do que foi proposto pelo evangelho que foi anunciado ao crente Abraão.

Observe a relação entre a ‘fé que havia de vir’ e a ‘fé que havia de se manifestar’. A ‘fé que se manifestou’ é Cristo, o Descendente, em quem Abraão creu, e a ‘fé que havia de vir’, diz da verdade do evangelho ( Gl 3:23 ).

 

24 De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados.

O apóstolo Paulo demonstra a utilidade da lei: levar, conduzir os homens a Jesus, aquele que tem poder para justificar o homem.

Pela fé o homem é justificado, e a função da lei deixou de existir. Não é mais necessário guia-se pelo ‘aio’, uma vez que já alcançou pela fé o Descendente.

Através da lei que diz: ‘certamente morrerás’ o homem conheceu o pecado, ou seja, ‘conhecer’ diz de estar intimamente ligado a, e o homem ao pecar passou a estar ligado (unido) ao pecado ( Rm 3:23 ). Através da lei de Moisés o homem conheceu (ciência) a sua condição diante de Deus, pois ela encerrou todos debaixo do pecado ( Gl 3:22 ).

 

25 Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio.

Após a chegada da fé (evangelho de Cristo), não há lugar para a lei, visto que a (evangelho) promove a promessa, que é anterior à lei.

Observe que o evangelho foi anunciado primeiramente a Abraão ( Gl 3:8 ), e ao vir Cristo, o autor e consumador da fé, a graça de Deus se manifestou a todos os homens. Cristo se manifestou a todas as nações para obediência do evangelho (fé) “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ).

O apóstolo Paulo passa a tratar da nova condição dos cristãos, ao dizer: “… já não estamos debaixo de aio”. Tanto o apóstolo Paulo quanto os cristãos da Galácia não precisavam da lei.

 

26 Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.

Este verso complementa o anterior: “Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio, porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo” (v. 25). O verso 26 apresenta o motivo pelo qual os cristãos não mais estavam debaixo da lei.

Os judaizantes acreditavam ter alcançado a filiação divina por serem descendentes de Abraão, e que a entrega da lei tornava eles diferentes diante de Deus, ou que Deus tinha eles em preferência, em detrimento dos gentios.

O apóstolo Paulo enfatiza que a lei não tinha razão de ser na vida dos cristãos, uma vez que todos eram filhos de Deus, por estarem unidos ao Descendente (Cristo) de Abraão. Em Cristo os cristãos são idôneos para participar da herança dos santos, e não necessita de curador: a lei ( Cl 1:12 ).

Mesmo após Abraão ser justificado por Deus por intermédio da fé, os seus filhos segundo a carne não eram provenientes de Deus. Eles continuaram a ser gerados segundo a carne, da vontade do varão e da vontade da carne ( Jo 1:13 ), e, portanto, os descendentes de Abraão não eram e não são filhos de Deus.

A promessa de se tornar filho de Deus somente tornou-se possível através do Descendente, que é Cristo. Somente Ele pode levar muitos filhos a Deus. Por meio da fé o homem alcança a filiação divina.

 

27 Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.

O apóstolo Paulo demonstra que o batismo em Cristo é o mesmo que se revestir d’Ele.

Todos os cristãos já haviam sido batizados na morte de Cristo, e o apóstolo dos gentios faz com que eles lembrassem o significado do batismo ( Rm 6:3 ).

Como os cristãos batizado? Porque creu em Cristo, o cristão conforma-se com Cristo na sua morte, ou seja, é sepultado com Cristo. Por se tornar participante da carne e do sangue, o cristão ressurge com Cristo, para a gloria de Deus Pai.

Primeiro é necessário ao homem ser sepultado com Cristo (o batismo em águas representa esta verdade), para depois se revestir d’Ele, ou seja, adquirir a plenitude n’Ele ao ressurgir dentre os mortos ( Cl 2:10 ; Jo 1:16 ).

Como se alcança a filiação? Por meio da morte e ressurreição com Cristo. O cristão morre e ressurge com Cristo para a glória de Deus Pai.

Se o cristão foi batizado, é porque morreu para aquilo que estava retido: a lei. Ao morrer, o cristão não está mais preso ao que o retinha: o pecado ( Rm 7:6 ).

A força do pecado é a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), e por isso o homem precisa morrer com Cristo, porque aquele que está morto está justificado do pecado ( Rm 6:7 ). O pecado é o aguilhão da morte e, ao morrer com Cristo, o homem adquire nova vida, livrando se da condição do velho homem “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Ao se revestir de Cristo, o cristão não mais pertence ao pecado, agora pertence ao Senhor!

 

28 Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Quando se reveste de Cristo, o homem passa a fazer parte do corpo de Cristo, que é a igreja. Há um só corpo e um só Espírito ( Ef 4:4 ).

As distinções criadas na lei não se estabelecem diante da promessa, que é anterior a lei. Segue-se que, em Cristo, não há qualquer distinção entre macho e fêmea; escravo ou livre, judeu ou gentil, etc. Isto porque todos os cristãos são um corpo em Cristo.

Os Cristãos são:

  • Templo e morada do Espírito;
  • Um corpo;
  • Um só pão;
  • Filhos de Deus;
  • Herdeiros da Promessa;
  • Idôneos a participar da herança;
  • Luz;
  • Sacerdócio Real;
  • Pedras vivas;
  • Etc.

 

29 E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.

Enquanto os judeus pensavam ter alcançado a filiação divina por meio da carne e do sangue, por serem descendentes de Abraão, os cristãos alcançaram a filiação divina por meio da união com Cristo ( Rm 9:8 ; Gl 3:26 ).

Conforme a promessa, os cristãos são herdeiros de Deus. Por serem propriedade do Descendente, os cristãos passaram a ser filhos de Abraão (filhos de Deus), e conforme a promessa, herdeiros. O cristão é herança e possui uma herança ( Ef 1:11 e 14).

Observe estes três aspectos pertinentes aos Cristãos:

a) Pertencem a Cristo por serem propriedade exclusiva de Deus ( 1Pe 2:9 );

b) Cristo é o Descendente e os cristãos ao serem gerados de novo descendem de Abraão, ou seja, não são filhos segundo a carne e o sangue, mas da promessa, segundo a vontade de Deus, que os gerou para uma nova e viva esperança ( Jo 1:12 -13);

c) Em Cristo o cristão obteve herança (herdeiros) ( Cl 1:12 ).

Quando a Bíblia demonstra que os cristãos obtiveram herança, diz das garantias que Deus a todos aqueles que creem em Cristo.

O direito que o cristão obtém refere-se à herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ), e não a bens materiais. As bênçãos que os cristão receberam estão enumeradas em Efésios capítulo um ( Ef 1:3 ).

O apóstolo Paulo disse que os cristãos receberam ‘todas’ as bênçãos espirituais. Da mesma forma, Pedro reiterou: “O seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito a vida e à piedade” ( 2Pe 1:3 ).

Não é correta a ideia de que os cristãos podem e devem exigir bens materiais de Deus por se arrogarem a condição de filhos. As promessas de Deus apontam para bênçãos eternas, sem vínculo com bens terrenos.




Romanos 7 – Mortos para a lei

Quando os cristãos estavam na carne produziam frutos para a morte, agora, ’em Cristo’, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Só é ´possível servir a Deus após adquirir um novo espírito. O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 -19). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios (Is 57:19). É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ).


Epístola aos Romanos – Capítulo 7

Introdução e Conteúdo

Devido a complexidade do tema abordado nesta exposição, indico aos leitores e estudantes que façam um estudo sistemático e progressivo de alguns textos essenciais à compreensão deste capítulo, e que estão à disposição neste portal.

Leia atentamente os comentários aos capítulos anteriores, principalmente aqueles pontos que apresentam a metodologia de interpretação da carta paulina.

O leitor precisa conhecer e distinguir no que implica o caminho largo e o caminho estreito. Necessita conhecer quais são as plantas plantadas por Deus, e as que não são. É de suma importância saber quais são os vasos para honra e os vasos para desonra, etc. Todas estas questões foram abordadas neste portal e continua à disposição.

O estudo sobre Romanos 7 não passou por revisão ortográfica, e, desde já pedimos desculpar por possíveis erros de ortografia e gramática.

Agradeço a minha esposa (Jussara) por colaborar na elaboração deste estudo.

Tenha uma boa leitura, e que Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do nosso entendimento ( Ef 1:18 ).

 

Prefácio

Este é um dos capítulos de maior complexidade para se interpretar de toda a Bíblia. Ao longo dos séculos o capítulo sete da carta aos Romanos tem desafiado inúmeros teólogos e estudiosos quanto à sua real interpretação.

Uma correta interpretação deste capítulo é essencial à compreensão de toda carta, e, para interpretá-lo, precisaremos de todos os elementos que foram realçados através das análises feitas nos capítulos anteriores.

Antes de ler este capítulo, recomendo que seja feita uma leitura minuciosa de todos os comentários aos capítulos anterior da carta aos Romanos.

Além de observar os comentários versículo a versículo, é preciso observar também todas as introduções feitas aos capítulos, pois eles contêm elementos essenciais à interpretação deste capítulo em particular.

O primeiro ponto a se considerar na leitura deste capítulo é: Paulo escreveu uma carta, e ela originalmente não foi redigida em capítulos e versículos. Ao ler uma carta, o leitor não pode ater-se às divisões em versículos e capítulos, pois tal divisão interfere na interpretação do texto.

Para um maior proveito na leitura da carta que está sendo estudada, recomendo a quem tem um computador, que imprima a carta de Paulo aos Romanos sem as divisões em capítulos e versículos, pois a leitura do texto sem estes divisores será muito mais proveitosa para a interpretação.

Quem analisa qualquer texto bíblico precisa de algumas premissas centrais para não perder o foco durante a interpretação, uma vez que surgirão inúmeras perguntas, porém, dependendo da pergunta ela não vem ao caso no momento da análise.

Um exemplo claro de perca de foco, e que algumas pessoas incorrem ao ler a Bíblia, verifica-se na passagem acerca da vida de Caim. Há vários aspectos a serem analisados e compreendidos na vida de Caim, porém, muitos restringem a análise e não progridem por se fixarem em questionar quem foi a mulher de Caim.

Diante de um texto bíblico surgirão inúmeras questões, porém, é necessário estar resolvido somente levantar questões que focam o texto. Antes de prosseguir em certas questões é preciso ter em mente as seguintes questões: É pertinente tal pergunta? É necessária no momento? Tem relação direta com a ideia do texto em análise?

Estas são algumas perguntas que devem ser feitas durante a análise do texto bíblico para evitar divagações desnecessárias quando da interpretação de um texto complexo.

Exemplo: Questionar quem foi a mulher de Caim é plausível? Há na Bíblia qualquer referência à mulher de Caim? É possível encontrar uma resposta bíblica acerca da mulher de Caim que não seja mera especulação? Se não há nenhuma referência direta sobre a mulher de Caim, como descobrir quem foi sua mulher? De que adiantaria descobrir quem foi a mulher de Caim?

Paulo recomendou a Tito: “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ). Muitos há que procuram demonstrar conhecimento bíblico, e que, em qualquer conversa interpõe perguntas semelhantes: Quem foi a mulher de Caim? Quem eram os Nefilins? Qual o sexo dos anjos?

 

Convite ao Raciocínio

“NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” ( Rm 7:1 – 3).

1 NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?

Após demonstrar que todos os cristãos foram batizados em Cristo, ou seja, tornaram-se participantes da Sua morte, e que, por estarem mortos, não havia como viverem no pecado, Paulo convoca os seus interlocutores ao raciocínio.

Se os cristãos em Roma desconheciam que todos que foram batizados em Cristo ( Rm 6:3 ), destruíram de uma vez por todas o corpo do pecado ( Rm 6:6 ), e que não mais serviam ao pecado, este ponto em específico foi esclarecido no capítulo seis. Porém, caso alguém permanecesse agarrado à ignorância, Paulo propõe os mesmos argumentos aos seus leitores, só que agora, através de figuras.

Este modo de exposição foi utilizado anteriormente nesta mesma carta. Basta analisar os elementos do texto que Paulo escreveu após falar da justificação por meio da fé ( Rm 3:21 – 26), para compreendermos o modo e porque Paulo introduziu os argumentos que há no capítulo 7.

Para ilustrar a doutrina do evangelho no capítulo 3, que foi exposta em poucas linhas, Paulo apresentou Abraão, o homem que foi justificado por Deus pela fé na promessa divina ( Rm 4:1 – 5). Em seguida o apóstolo Paulo apresenta alguns versos do salmista Davi para dar sustentação aos seus argumentos ( Rm 4:6 – 8).

Novamente ele fala da justificação pela fé em Cristo ( Rm 5:1 ), e, somente então, Paulo apresenta a primeira figura na carta aos Romanos: a escravidão, para dirimir qualquer ignorância da parte dos cristãos acerca da justificação: “Ou, porventura, ignorais que (…) e não sirvamos o pecado como escravos” ( Rm 6:6 ).

Diante da ignorância dos cristãos “Porventura ignorais, irmãos…” ( Rm 7:1 ), Paulo apresenta uma nova figura: a mulher ligada ao marido pelo matrimônio ( Rm 7:1 – 3).

Paulo geralmente introduz uma figura ou uma alegoria através da expressão interrogativa: “… não sabeis…?”:

  1. “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis” ( 1Co 9:24 );
  2. “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” ( 1Co 5:6 ), e;
  3. “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” ( Rm 11:2 );

Paulo conhecia bem a sua ‘platéia’, o que é próprio à retórica (arte do bem falar), uma vez que ele estava escrevendo a quem conhecia à lei. A quem Paulo estava escrevendo? Ora, sabemos que ele escreveu aos cristãos em Roma, porém, a carta do capítulo dois ao doze tinha como público alvo um grupo mais específico: os cristãos judeus.

Como aos cristãos judeus? A resposta a esta pergunta encontra-se no início da carta, isto porque, ao registrar que estava falando a quem conhecia a lei, é possível demonstrar que Paulo estava tratando especificamente com os cristãos de origem judaica e que agora pertenciam à igreja que estava em Roma.

Por ser uma carta intitulada: ‘Epístola de Paulo aos Romanos’, muitos são levados a entender que Paulo escreveu especificamente aos cristãos chamados dentre os gentios que habitavam em Roma. Porém, ao observar alguns versos desde o início da carta, veremos que Paulo escreveu focado em dois grupos de cristãos: cristãos chamados dentre os judeus e cristãos chamados dentre os gentios. Observe:

  • “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso Pai segundo a carne?” ( Rm 4:1 ) – Com base neste versículo, Paulo estava escrevendo aos cristãos judeus ou aos cristãos gentios? De quem Abraão é pai segundo a carne? Dos Judeus ou dos gentios? Observe que Paulo está tratando especificamente com os judeus desde o capítulo 2;
  • “… mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é Pai de todos nós” ( Rm 4:16 ) – Através deste verso, Paulo procura convencer os filhos de Abraão segundo a carne (os judeus) que todos os cristãos, tanto gentios quanto judeus, efetivamente são filhos de Abraão segundo a fé. Ora, segundo a fé Abraão é pai de todos os que creem, sem distinção alguma, tanto de judeus quanto gregos;
  • “… porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” ( Rm 6:14 ) – Ora, quem esteve debaixo da lei a não ser os cristãos chamados dentre os judeus? Perceba que o público alvo da carta aos Romanos inicialmente eram os judeus convertidos, embora os cristãos gentios também pudessem se beneficiar da exposição de Paulo;
  • “Convosco falo, gentios” ( Rm 11:13 ) – Observe que, após tratar diretamente com os judeus, Paulo direciona o seu discurso aos cristãos chamados dentre os gentios, para que eles não se ensoberbecem contra os cristãos que foram chamados dentre os judeus.
  • “Mas tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ) – Paulo direcionou o seu discurso especificamente aos cristãos judeus a partir deste ponto em diante, embora, o alvo da mensagem do evangelho seja todos os homens sem distinção alguma ( Rm 2:3 ).

Quem eram os irmãos que conheciam a lei? Os cristãos judeus ou os gentios? É certo que Paulo diz dos cristãos judeus ( Rm 7:1 ).

O que os cristãos estavam aparentando desconhecer? Eles demonstravam desconhecer que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que viver ( Rm 7:1 ).

Paulo questiona os seus interlocutores se eles desconheciam que a lei só tem domínio enquanto o homem está vivo. Ora, se eles morreram com Cristo (foram batizados), como era possível questionarem a possibilidade de permanecerem no pecado para que a graça aumentasse ( Rm 6:1 ).

Ora, como é possível a alguém que morreu para o pecado estar sob o domínio do pecado? (Romanos 6: 2). Para quem não compreendeu que a lei não mais tinha domínio sobre os cristãos, visto que todos morreram com Cristo, Paulo apresenta a figura da mulher ligada à lei do marido, para ilustrar a verdade exposta no capítulo 6.

 

 

A Figura da Mulher ligada ao Marido

2 Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.

Um exemplo claro de que é impossível a alguém que morreu para o pecado permanecer no pecado é apresentado através da figura da mulher sujeita a lei do marido (lei estabelecida no matrimonio).

Enquanto o marido viver, a mulher estará ligada ao marido pela lei. Porém, morto o marido, qual o papel da lei? A viúva deveria continuar submissa à lei mesmo após a morte do marido?

É certo que, morto o marido, a lei continuará a existir, porém, a viúva não mais será alcançada pela lei, por mais que a mesma lei continue a submeter outras mulheres casadas a seus maridos, ela não submeterá a viúva.

Os leitores da carta de Paulo deviam construir um paralelo entre eles, que morreram para o pecado, e os não crentes, que permaneciam vivos para o pecado.

Quem não foi batizado (morreu) em Cristo, e que, portanto, não morreu com Cristo, permanece vivo para o pecado e sob a égide da lei. Quem não é batizado em Cristo, mesmo sem causa é transgressor “Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa” ( Sl 25:3 ).

Quem crê em Cristo, ou seja, quem espera na salvação providenciada por Deus (esperam em ti), jamais serão confundidos. Porém, todos os que não confiam em Deus serão confundidos, pois mesmo sem causa são transgressores ( Sl 25:3 ).

O que isto quer dizer? Ora, todos os nascidos em Adão são transgressores por natureza, sem qualquer relação direta com questões comportamentais ou morais. Mesmo quando não transgridem leis sociais, morais e comportamentais, são transgressores diante de Deus.

Quem confia no Senhor, morre para o pecado e ressurge uma nova criatura, que jamais será confundida, pois a salvação providenciada por Deus não advém das regras sociais, morais ou comportamentais, antes, é salvo por ter sido novamente criado na condição de filhos de Deus.

A lei do marido só tem razão de ser enquanto o marido estiver vivo, pois tal lei estabelece a sujeição da mulher ao marido, porém, após a morte do marido, a viúva está livre da lei do marido.

 

3 De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.

Paulo convida os seus interlocutores a pensarem e a chegarem a uma conclusão. Enquanto o marido viver, a mulher será chamada adúltera se for de outro homem, porém, após morrer o marido, a mulher estará livre da lei, e não mais será adultera se for de outro homem.

As figuras utilizadas por Paulo, tanto da escravidão quanto da mulher ligada ao marido pela lei são simples de entender.

Diante da lei jamais um escravo seria livre sem a aquiescência do seu senhor. Caso o senhor viesse a falecer, o escravo simplesmente fazia parte dos espólios do seu antigo senhor, porém, não seria livre.

Somente a morte do escravo é que o tornava livre do seu senhor, uma vez que a lei e o antigo senhor nada representavam para o escravo após a sua morte. Como é sabido, o pecado é um senhor tirano que não concede liberdade a seus escravos. Somente a morte deixa livre o pecador do seu tirano senhor, no entanto, seguirá para a eternidade sob condenação eterna.

O cristão efetivamente morre com Cristo, e é por isso que o pecado deixa de exercer domínio como senhor sobre ele.

Quem morre (a morte natural) como servo do pecado seguirá para a eternidade sob condenação, porém, aquele que morre com Cristo, é julgado em Cristo para não ser condenados com o mundo. Quem morre para o pecado em Cristo, ressurge uma nova criatura, e passa a viver para Deus.

O ponto principal que Paulo demonstra neste verso é que, após morrer o marido a mulher está livre da lei do marido. Do mesmo modo, após o escravo morrer, livre está do seu senhor.

Por certo, ao morrer para o pecado e para a lei, o cristão é livre da lei e do pecado. A figura da escravidão demonstra que o cristão é livre do pecado ( Rm 6:6 ), e a figura da mulher ligada ao marido pela lei, que o cristão é livre da lei ( Rm 7:4 ).

 

Argumentos Conclusivos

A figura da mulher ligada a lei do marido ( Rm 7:2 ) e a figura da escravidão ( Rm 6:18 ) que Paulo apresentou anteriormente conduz o leitor à conclusão que é apresentada nestes três versos a seguir.

Paulo novamente enfatiza que os cristãos estão mortos ( Rm 7:4 ), o que foi demonstrado nos capítulos anteriores exaustivamente “Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ). Todos cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

Paulo descreve de modo retroativo os eventos pertinentes àqueles que morreram em Cristo:

  • “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 ) – diz do agora (presente), diz da nova condição pertinente a vida dos cristãos. Para alcançar esta posição (mortos para o pecado), os cristãos ressurgiram com Cristo (vivos para Deus);
  • “…todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (v. 3) – Antes de ressurgir com Cristo, os cristãos foram sepultados pelo batismo na morte de Cristo, ou seja, o batismo que Paulo faz referência não é o batismo em águas, antes ao batismo na morte;
  • “…fomos sepultados com ele pelo batismo na morte…” (v. 4) – o sepultamento se dá efetivamente no batismo na morte, o que não dá vazão a doutrina da regeneração batismal;
  • “…fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte…” (v. 5) – a semelhança não é um faz de conta, antes a semelhança que os cristãos foram plantados é conforme a morte de Cristo;
  • “Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…” (v. 6) – antes de estar efetivamente morto, antes de ser batizado, ou seja, ser plantado com Cristo, em primeiro lugar o ‘velho homem’ foi crucificado com Cristo.

É pertinente ao modo literário do apóstolo Paulo, apresentar inicialmente a condição efetiva dos cristãos “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade,…” ( Ef 1:13 ), para depois demonstrar como alcançaram tal condição “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ). Geralmente o apóstolo dos gentios apresenta aos cristãos a nova condição em Cristo, para depois demonstrar como se alcançou tamanha graça. Para tanto, ele demonstra qual era a condição do homem sem Cristo.

Paulo faz alusão a um princípio doutrinário do evangelho nos versos três a cinco do capítulo 7, mas para compreendê-los é preciso relembrar o que Jesus disse aos discípulos através da figura da árvore e seus frutos: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Através da figura da árvore e seus frutos Jesus demonstrou que é impossível uma árvore boa produzir frutos maus, e que é impossível uma árvore má produzir frutos bons. Ora, este princípio é observável na natureza, porém, que aplicação há com relação às questões espirituais?

Jesus demonstrou que é impossível um falso profeta (lembre-se que eles têm aparência de ovelha), produzir frutos bons, ou seja, dizer o que é verdadeiro. Ora, nem todo o que diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus, porque produzem frutos maus, ou seja, não professam a Cristo segundo a verdade do evangelho (não produzem bons frutos).

Qual é o fruto bom? O fruto dos lábios que professam a Cristo! ( Hb 13:15 ). Quem professa a Cristo, conforme diz a Escritura, é porque nasceu da semente incorruptível. É plantação do Senhor, árvores de Justiça ( Is 61:3 ).

Os nascidos em Adão são árvores más, plantas que o Pai não plantou, e todos os seus frutos são maus. Porém, aqueles que creem na palavra da verdade são plantação do Senhor, árvores de Justiça, e produzem frutos bons, ou seja, professam a Cristo, pois este é o fruto que Deus criou Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

É preciso relacionar Rm 6:19 e Rm 6:22 com Rm 7:4 sem esquecer que, antes de serem libertos do pecado, os cristãos eram escravos do pecado, e, portanto, só podiam produzir para o seu senhor.

Lembrando que um servo não pode servir a dois senhores e esta mesma impossibilidade é encontrada na figura da árvore, pois do mesmo modo que um servo do pecado não pode servir à justiça, uma árvore má não pode produzir frutos bons.

Como pode um servo da justiça servir ao pecado, se é impossível servir a dois senhores? ( Rm 6:20 ). Ou melhor, como pode alguém que está morto para o pecado, viver ainda nele? ( Rm 6:2 ). Como é possível a uma árvore que germinou de uma semente incorruptível produzir frutos maus? ( 1Pe 1:23 ). Como ser achado ainda pecador, quem já se refugiou em Cristo? ( Gl 2:17 ).

O capítulo 7 da carta aos Romanos apresenta uma resposta a estas perguntas.

 

Os Frutos

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:4 – 6).

 

4 Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.

O comparativo é estabelecido entre os cristãos e a figura da mulher que estava ligada ao marido através da lei “Assim, meus irmãos, também vós…” (v. 4).

Observe a similaridade entre este verso e Efésios 1: 13:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” ( Ef 1:13 );

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo…” ( Rm 7:4 ).

‘Estar em Cristo’ e ‘estar morto para a lei’ aponta para uma mesma condição diante de Deus: uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘em Cristo’ é dizer que ele é uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘morto para a lei’ é o mesmo que dizer: você é uma nova criatura “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é…” ( 2Co 5:17 ).

Por que os cristãos estavam mortos para a lei pelo corpo de Cristo? Porque através do evangelho conclui-se que, se um morreu por todos, logo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Ora, foi através da oferta do corpo de Cristo que os cristãos deixaram a condição de velha criatura e passaram à condição de nova criatura ( Hb 10:10 ).

A oferta diz do corpo de Cristo, do corpo que o Verbo encarnou. Foi através do corpo humano que Deus preparou para o seu Filho ( Hb 10:5 ), que os cristãos passaram a estar mortos para a lei.

Quando Paulo faz referência ao corpo de Cristo, ele está fazendo referência à morte de Cristo, ou seja, ao corpo que foi apresentado imaculado como oferta a Deus. Deste modo, por causa do corpo de Cristo, que foi entregue aos pecadores, os cristãos estão mortos para a lei.

Como? Ao apresentar um paralelo entre a figura da mulher que estava ligada ao marido pela lei, e que após a morte do marido não mais estava sujeita à lei, Paulo demonstra que a lei só teve alcance sobre os cristãos pelo tempo que em que viveram na carne ( 2Co 5:15 ).

Uma vez que todos que creram em Cristo foram crucificados, mortos com Cristo, e sepultados com Cristo, que relação há entre a lei e o cristão?

Da morte com Cristo surge uma nova condição: livres da lei e do pecado.

Enquanto filhos de Adão, gerados da semente corruptível, o homem está sob o domínio da lei e da escravidão do pecado, através do corpo de Cristo, o homem efetivamente morre, e passa a compartilhar da natureza divina através da ressurreição com Cristo.

Antes de morrer com Cristo, a quem os cristãos pertenciam? Ao pecado, ao mundo, às trevas, à ira, à perdição e estavam debaixo da lei (certamente morrerás). Agora, por estarem em Cristo, os cristãos passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos.

Os cristãos não pertencem ao Cristo que veio em carne, antes pertencem àquele que ressurgiu dentre os mortos para louvor da glória e graça de Deus ( 2Co 5:16 ).

Por que os cristãos estão mortos para a lei? Por que eles passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos? A resposta é simples: “… a fim de darmos fruto para Deus”.

Como é possível dar fruto para Deus? Assim como é próprio a árvores produzir frutos segundo a sua espécie é próprio à natureza daqueles que estão mortos para a lei produzirem frutos para Deus! Não depende do esforço do homem.

Como os cristãos são árvores de justiça, plantação do Senhor é próprio da nova natureza produzir fruto para Deus.

Repassando:

  1. Os cristãos estão mortos para o pecado e não podem viver nele. Paulo não fez uma recomendação aos cristãos: – Vocês não devem viver no pecado! Antes, ele demonstrou que é impossível viver no pecado, quando se está morto para o pecado ( Rm 6:2 ). Paulo demonstra que é impossível viver no pecado, o que difere completamente da concepção de que ele tenha ordenado a que não vivessem em pecado. Ou o homem vive para a justiça ou vive para o pecado. É impossível o homem viver para ambos;
  2. Os cristãos andam em novidade de vida porque ressurgiram com Cristo, ou seja, só é possível ‘andar em novidade de vida’ quando se vive no Espírito, ou seja, após morrer e ressurgir com Cristo ( Rm 6:4 ; Gl 5:25 );
  3. Os cristãos foram plantados juntamente com Cristo, na semelhança da sua morte, e, portanto, são semelhantes a Ele na ressurreição: a morte não tem mais domínio ( Rm 6:5 e Rm 6:9 ; “…qual ele é, somos nós também aqui neste mundo” 1Jo 4:17 );
  4. O pecado não mais tem domínio sobre os cristãos, pois não estão debaixo da lei (morreram), ou seja, o pecado não reina sobre os cristãos de modo que venham a produzir frutos que tenham do que se envergonhar ( Rm 6:14 e Rm 6:21 ).

É próprio à natureza daqueles que foram gerados de novo produzirem frutos de justiça, e que o comportamento humano não se vincula ao fruto que Deus cria Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

Os frutos que os cristãos produzem para Deus são provenientes do próprio Deus sem qualquer relação com o esforço humano. Quem é nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ), é plantação do Senhor, ou melhor, plantas que o Pai plantou ( Mt 15:13 ). Ora, as plantas que o Pai plantou produzem frutos segundo a sua espécie: frutos bons.

É por isso que o profeta Isaías registrou: “Eu crio o fruto dos lábios…”. Por quê? Ora, se a boca fala do que o coração está cheio “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ), um coração mal só fala malignidade, mas de um coração novo, que é criado por Deus ( Sl 51:10 ), só é possível produzir fruto bom.

Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito. Tudo que é proveniente do novo coração foi criado por Deus, e, por isso mesmo, Ele criou o fruto dos lábios.

Quem vive de acordo com a verdade do evangelho é porque está em Cristo, de modo que todos podem ver claramente que as suas obras são feitas em Deus, pois quem vive em trevas e nela anda, não vem para Cristo, porque amam mais as trevas do que a luz para preservarem as suas próprias obras ( Jo 3:19 – 21 ).

 

A Carne e o seu Fruto

5 Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.

Paulo neste verso faz referência à antiga condição dos cristãos, quando estavam vivos para o pecado e mortos para Deus.

Naquele tempo específico, quando os cristãos estavam na carne, eles davam frutos para a morte. Hoje, em Cristo, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 e Is 57:19 ). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios ( Is 57:19 ).

É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ). Os cristãos estão livres do pecado e os seus frutos são para Deus e por fim herdarão a vida eterna ( Rm 6:22 ), porém, antes de aceitarem a Cristo eram servos do pecado, os seus frutos eram para o pecado, e por fim herdariam a morte eterna.

As paixões pertinentes ao corpo do pecado existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado. Quem morre com Cristo, crucifica o corpo do pecado e as suas paixões “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a natureza carnal que produz tal fruto, pois, a inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez às paixões e concupiscência da carne.

Analisando a seguinte tradução com base em outros versículos: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ), chega-se à seguinte conclusão: não são as paixões dos pecados que produzem fruto para a morte. Como? Ora, dizer que as paixões e as concupiscências produzem fruto para morte é o mesmo que dizer que o comportamento humano é que produz a morte (separação de Deus).

Porém, como é de conhecimento geral, a natureza pecaminosa herdada de Adão, designada carne, é que estabeleceu a morte (condenação) e produz para a morte (iniquidades). É por isso que quando os cristãos crucificam a carne, crucificam também as paixões e as concupiscências ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões e as concupiscências que se inclinam para a morte, antes é a carne. A carne é sujeita à lei, e a lei realça as paixões e as concupiscências nos membros (corpo) que pertencem à carne.

Assim sendo, o versículo é melhor traduzido quando evidencia a condição da carne (sujeição ao pecado), e para quem ela produz o seu fruto (para a morte). Ou seja: “… quando estávamos na carne (…), frutificávamos para a morte”. Com relação às paixões, Paulo somente evidenciou que elas são (realçadas) através da lei, e que efetivamente tais paixões operavam nos membros da carne.

Sugestão de emenda a tradução: “Porque, quando estávamos na carne (as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros) frutificávamos para a morte”.

Basta comparar os versos ( Rm 7:4 e Rm 7:5 com o verso 16: “… sóis servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça” ( Rm 6:16 ).

É possível o homem escolher não obedecer ao pecado sem ter obedecido a Cristo? É possível ao homem abandonar o pecado sem ser adquirido por Cristo? Não!

Ora, a humanidade sem Cristo (escravos) obedece ao pecado (senhor) porque foram introduzidos no mundo sob o domínio do pecado. Em Adão a humanidade ‘obedeceu’ ao pecado! Adão é a porta larga pela qual todos os homens entraram, e seguem por um caminho largo que os conduz à perdição.

Embora muitos procurem realizar boas ações, as suas obras não passam de trapos de imundície. Por serem servos do pecado todas as obras dos homens são más, ou seja, os servos do pecado frutificam para a morte.

Em Cristo, o último Adão, os homens são novamente criados segundo Deus, livre do poder do pecado, e sob o jugo da justiça. Ao entrar pela porta estreita, o homem deixa de produzir para a morte e passa a produzir para a justiça, pois se inclinam para a vida que há em Deus e para a paz que excede a todo entendimento.

 

Em Espírito e em Verdade

6 Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Paulo apresenta uma conclusão à sua exposição: agora, após serem libertos da lei, ou seja, mortos para aquilo que estavam retidos (a lei), os cristãos servem a Deus em novidade de espírito.

Por que em novidade de espírito? Porque após crer em Cristo o homem adquire um novo coração e um novo espírito, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Sl 51:10 ; Ef 4:24 ).

Paulo demonstra que os judeus não serviam a Deus, antes, só tinham zelo, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ). Por quê? Porque só é possível servir a Deus em espírito e em verdade, ou seja, quando o homem é gerado do Espírito, o mesmo que ser circuncidado no coração. Somente em Cristo é possível ao homem alcançar a condição de servir a Deus em espírito ( Jo 4:23 ).

A condição ‘em espírito’ só é possível quando o homem é gerado de Deus. É por isso que Jesus disse a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Somente após o homem ser gerado de novo através da fé em Cristo torna-se possível servir a Deus (o Espírito Eterno) em espírito.

Os judeus pensavam servir a Deus, porém, a qualquer homem nascido de Adão (nascido da carne) é impossível servir a Deus. Deus somente ‘conhece’ aqueles que o adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:24 ; Gl 4:9 ).

Paulo estava tratando diretamente com os judeus convertidos, como foi demonstrado anteriormente, e aqui temos outra evidência: somente os cristãos judeus tentaram servir a Deus através da velhice da letra (lei de Moisés), ponto abordado por Paulo que não tem relação com os gentios.

Só é possível servir a Deus em novidade de espírito, e, somente Ele, é quem ‘renova’ (cria) no homem um espírito reto ( Sl 51:10 ). Só é possível ter novo coração e um novo espírito quando o homem está livre da lei, ou melhor, quando morre para aquilo em que se estava retido.

Como é possível ao homem morrer para o que estava retido (lei)? Através da circuncisão do coração! Quando Moisés apregoou a circuncisão do coração ao povo de Israel, tal circuncisão só era possível através da fé em Deus, Aquele que tem o poder de circuncidar o coração, ou seja, Ele mata o homem gerado em Adão e concede um novo coração “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Somente após alcançar novo coração (novo nascimento) o homem compreende a palavra de Deus “Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” ( Dt 29:4 ).

Em resumo: Os cristãos morrerem com Cristo, portanto, estavam livres da lei. Qual o objetivo de os cristãos terem morrido para a lei, ou antes, morrido com Cristo? Para servirem a Deus com um novo espírito e um novo coração ( Ez 36:25 – 27 ). Ora, o novo coração e o novo espírito só são possíveis alcançar através da regeneração em Cristo.

A lei de Moisés (velhice da letra) não poderia proporcionar o novo nascimento. Somente o evangelho de Cristo, que é a água limpa aspergida pelo Espírito Eterno, faz nascer o novo homem para louvor de sua glória ( Jo 3:5 ; Ez 36:26 ). É através do evangelho que o homem recebe poder para ser criado em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

Após declarar que os cristãos eram livres da lei ( Rm 7:6 ), do mesmo modo que eram livres do pecado ( Rm 6:6 ), poderia surgir um entrave na mente de alguns cristãos: acharem que Paulo estava equiparando a lei ao pecado ( Rm 7:7 ).

 

Verbos, flexões e Interpretação

Como interpretar este versículo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ).

Quem crê em Cristo é (presente) salvo ou será salvo (futuro)? Por que Jesus disse: quem crer será salvo? Você é salvo ou ainda será salvo no futuro?

Há pessoas que dizem que ainda não estão salvas, mas que serão salvas. Ao serem indagadas, citam o seguinte versículo: “quem crer será salvo”, ou seja, porque o verbo salvar está no futuro essas pessoas entendem que somente estarão salvas no futuro.

O argumento anterior é válido? Não! Por quê?

Porque a frase: ‘quem crer será salvo’ está corretíssima, porém, ‘quem crê está salvo’, também é correta e não contradiz a afirmação anterior.

No verso 16, do capítulo 16, do evangelho de Marcos (Mc 16:16 ), o verbo ‘crer’ está no infinitivo, ou seja, neste caso o verbo conserva a forma não flexionada: ‘crer’.

A frase ‘Quem crer…’ é impessoal, ou seja, o verbo ‘crer’ não faz referência a nenhum sujeito específico. Qualquer homem que ouvir a mensagem do evangelho e crer assumirá a condição de salvo, ou seja, assumirá a condição de sujeito desta frase.

Como o verbo ‘crer’ está no infinitivo, e neste caso o infinitivo não é flexionado, o verbo ‘ser’ é conjugado no futuro simples. Porém, se colocarmos o verbo ‘crer’ no presente ‘crê’, o verbo ‘ser’ é posto no presente: ‘é’. Compare:

Quem crer será salvo;
Quem crê é (está) salvo.

É só substituir o pronome indefinido ‘Quem’ por um substantivo, que a frase apresenta os verbos em tempos flexionados: João crê, portanto, é salvo.

Por que o verbo ‘crer’ foi colocado no infinitivo? Porque a mensagem do evangelho destina-se a todas as pessoas em todos os tempos. A mesma mensagem apregoada por Cristo e os apóstolos continua atual, e destina-se a todos os homens, em todos os tempos e lugares.

Esta primeira análise é gramatical, porém, é possível analisar o mesmo versículo através de outros recursos.

Ao escrever aos cristãos de Coríntios, Paulo disse: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Paulo aponta a nova condição dos cristãos efetiva no presente. Ora, se alguém (sujeito indeterminado) está (presente) em Cristo é uma nova criatura, ou seja, a salvação é efetiva hoje: “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ).

Paulo utiliza neste verso todos os verbos no presente para falar de uma condição pertinente a todos quantos creem em Cristo.

João, ao falar da salvação, registrou: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ). João fala da salvação como sendo um evento do passado. Todos quantos creram no nome de Jesus receberam poder para serem feitos filhos de Deus. Quem creu, recebeu poder, o que nos leva a seguinte conclusão: quem crê está salvo.

Os tempos verbais podem causar muitos problemas na hora de interpretar um versículo específico ou uma carta. Erros podem surgir da má compreensão dos tempos verbais, principalmente quando há regras para se estabelecer a correta correlação verbal proveniente de questões gramaticais.

O capítulo 6 da carta aos Romanos contém alguns versículos que podem causar alguns problemas na hora da interpretação. Observe:

  • “Se formos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição?” ( Rm 6:5 ) – O versículo é argumentativo, ou seja, o apóstolo não fez uma afirmação. Por causa desta peculiaridade do argumento apresentado por Paulo é preciso estabelecer uma correlação verbal entre as orações, que é ‘a articulação temporal entre duas formas verbais’. No argumento apresentado por Paulo, ‘se formos plantados’ surge a correlação com o verbo ‘ser’ no futuro (seremos). Porém, é assente que os cristãos já morreram com Cristo ( Cl 3:3 ), e, portanto, são semelhantes a Cristo na sua ressurreição ( Cl 3:1 ; 1Jo 4:17 ), pois assim como Jesus é, são os cristãos aqui neste mundo;
  • “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:8 ) – Neste verso o apóstolo baseia-se na premissa de que os cristãos já morreram com Cristo (para morrer com Cristo é preciso crer), segue-se que os cristãos creram, morreram, ressurgiram, e que também esperam que viverão para sempre com Cristo. O fato de Paulo ter colocado o verbo ‘viver’ no futuro, o que dá uma ideia de algo que será alcançado, é proveniente do argumento introduzido pela partícula ‘se’. Caso o apóstolo tivesse apontado a morte efetiva dos cristãos, a conclusão seria: com ele vivemos.

 

É a Lei Pecado?

“Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Diante do que foi exposto, Paulo convoca os cristãos ao raciocínio: “Que diremos, pois?”.

Com base no que já foi demonstrado anteriormente, qual a conclusão que os cristãos deveriam abraçar? Que a lei é pecado? A resposta é clara: De modo nenhum! A lei não é pecado!

Embora o apóstolo não tenha afirmado no decurso da carta que a lei é pecado, alguns judaizantes poderiam distorcer os argumentos e afirmar que Paulo anunciou que a lei é pecado. Como Paulo anunciava que os cristãos eram livres do pecado e da lei, alguém mal intencionado poderia anunciar que Paulo estava equiparando a lei com o pecado, distorcendo o que o apóstolo dos gentios procurou evidenciar.

Paulo demonstra incisivamente que a lei não é pecado para desfazer qualquer conclusão diferente da verdade do evangelho. Ele apregoou a necessidade dos cristãos livrarem-se da lei, porém, nunca disse que a lei é pecado.

Este deve ser um dos cuidados de quem interpreta as escrituras: não concluir por si só algo que não foi afirmado categoricamente. É necessário saber diferenciar argumentação, asserção e conclusão. Uma argumentação é construída com premissas, porém, as premissas e as argumentações não podem ser consideradas como sendo uma asserção (afirmação).

Do mesmo modo, uma conclusão não tem o mesmo valor de uma asserção, pois a asserção deriva da conclusão ou da argumentação. Isto porque, as premissas utilizadas em uma argumentação que levará a uma conclusão geralmente foram retiradas de asserções. Exemplo:

  • Uma asserção: “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 );
  • Uma argumentação: “…como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 );
  • Uma conclusão: “Pois o pecado não terá domínio sobre vós…” ( Rm 6:14 );
  • Duas premissas: “…porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça ( Rm 6:14 ).

Observe que as duas premissas apresentadas em Romanos 6: 14b são excludentes ( Rm 6:14 ). Ora, quem está debaixo da graça não pode estar sob a lei, e vice-versa.

Deste ponto em diante, o leitor deve estar atento as peculiaridades apresentadas acima, sabendo divisar bem o que é argumento, premissa, asserção e conclusão.

Quando questionou os seus interlocutores acerca da lei (É a lei pecado?), Paulo esperava ter como resposta uma negativa (De modo nenhum!). Em seguida, ele apresenta argumentos que desfaz qualquer argumentação dos judaizantes que vincule a lei ao pecado (versos 7b a 11), para que seus leitores possam chegar à seguinte conclusão: “Portanto, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom” ( Rm 7:12 ).

Agora analisaremos os versos 7b a 11 de Romanos 7, para que possamos chegar à mesma conclusão que Paulo estabeleceu: a lei é santa e o mandamento também ( Rm 7:12 ). Qualquer conclusão que destoe da conclusão que Paulo apresenta no verso 12 de Romanos 7, demonstra que o interprete ‘prevaricou’ na sua atribuição.

Para chegar à conclusão de que ‘a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom’, é necessário analisar criteriosamente os cincos versículos ( Rm 7:7 -11) e algumas questões pertinentes à linguística.

 

Figuras de Linguagem

Durante a leitura da carta aos Romanos é fácil perceber que Paulo utiliza um recurso linguístico (figura de linguagem) ao falar do evangelho de Cristo. Observe:

  • “… para a obediência da fé entre todos os gentios…” ( Rm 1:5 );
  • “… porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé ( Rm 1:8 );
  • “… seja consolado pela fé mutua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ).

Tal figura de linguagem é denominada perífrase, onde temos a palavra ‘fé’ substituindo a palavra ‘evangelho’, assumindo a ideia da palavra substituída. O evangelho foi anunciado aos gentios para obediência. Do mesmo modo, em todo mundo era anunciado o evangelho, ou seja, a vossa fé. Paulo e os cristãos seriam consolados mutuamente através do evangelho (fé mutua).

Perceba que, para não repetir várias vezes a palavra ‘evangelho’ e dar maior graciosidade a escrita da carta, Paulo substitui alguns termos por outros, utilizando-se de alguns recursos pertinentes à linguagem.

Após descobrir este uso de uma figura semântica, faz-se necessário observar com acuidade toda a carta, visto que, algumas ‘figuras de linguagem’ ou ‘recurso de estilística’ pode interferir na interpretação do texto.

Desta forma, analisemos a seguinte afirmação de Paulo: Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 ). O que o ‘apóstolo dos gentios’ expõe neste verso era de conhecimento geral dos cristãos, uma vez que eles ‘bem sabiam’ do que Paulo estava tratando.

Percebe-se através do contexto que a palavra ‘verdade’ em Romanos 2: 2, substitui a palavra ‘evangelho’, como se verifica no verso 16.

  • “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 );
  • “Isto sucederá no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por meio de Jesus Cristo, segundo o meu evangelho” ( Rm 2:16 ).

Ora, se o julgamento de Deus é segundo a verdade do evangelho, fica claro que o julgamento de Deus não é segundo a lei. Perceba também que o juízo é segundo a verdade (presente), e que há um dia preordenado para ser manifesto este juízo ( Rm 2:5 ), o que indica que o juízo segundo a verdade já ocorreu e está estabelecido.

Porém, ‘segundo o evangelho (de Paulo)’, Deus também julgará os segredos dos homens. Isto demonstra que o juízo de Deus foi estabelecido no passado em Adão “O Juízo veio de uma ofensa (…) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo…” ( Rm 5:16 e Rm 5:18 ), e, que, Deus julgará todos os homens segundo as suas obras no futuro (Grande Trono Branco) ( Ap 20:11 ).

Procuramos demonstrar que é similar a ideia entre ‘evangelho’ e ‘verdade’, ‘fé’ e ‘evangelho’, porque recursos literários semelhantes a este foram utilizados diversas vezes pelos apóstolos.

 

 

Qual a relação entre Pecado, Lei e Conhecimento?

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Para compreender a declaração: “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei”, é necessário saber:

a) de qual lei o apóstolo estava falando;
b) o que é pecado, e;
c) o que é ‘conhecer’. Após responder as questões acima, será possível verificar de que ‘eu’ o apóstolo estava falando.

A primeira citação da palavra ‘lei’ Paulo fez na carta aos Romanos no capítulo 2, verso 12: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Já analisamos este verso, porém, faz-se necessário aprofundar a análise.

É possível inferir de Rm 2:12 que os que sob a lei pecaram são os judeus, do mesmo modo, que os gentios pecaram sem lei. Isto demonstra que Paulo estava escrevendo acerca da lei de Moisés, visto que, desde Adão até Moisés todos pecaram, mesmo não tendo uma lei específica.

Não é porque os gentios não possuíam uma lei que não estavam sob condenação. Do mesmo modo, não é porque os judeus possuíam uma lei, que não haveriam de perecer. Ou seja, todos pecaram e estavam debaixo de condenação, e seguiam para a perdição ( Rm 3:9 ).

Isto demonstra que a transgressão à lei mosaica não é o que subjugou a humanidade ao pecado. Porém, Paulo demonstra que o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a ter comunhão intima com o pecado através da lei ( Rm 7:7 ), o que indica que em Rm 7:7 ele não está se referindo a Lei de Moisés, antes fez referência a lei perfeita da liberdade concedida ao homem no Éden ( Gn 2:16 – 17).

Ora, Adão perdeu a comunhão com o criador quando desobedeceu a ordenança divina que foi dada no Éden, e por causa da ofensa dele, todos pecaram, tanto gentios quanto judeus. Todos ficaram alienados da glória de Deus, ou seja, ‘conheceram’ o pecado.

O pecado subjugou a humanidade por causa da desobediência à lei dada no Éden. Ora, tanto os que estavam sob a lei de Moisés quanto os gentios, ambos pecaram, o que demonstra que o pecado decorre da desobediência de Adão.

Desta análise é possível concluir que Paulo faz referência a dois tipos de lei na sua carta. Uma refere-se à lei de Moisés, e a outra à lei de Deus outorgada no Éden. Desta última decorre a penalidade eterna: ‘certamente morrerás’, ou seja, o homem ‘conheceu’ a separação da vida que há em Deus através da ofensa no Éden.

Ora, se o pecado decorre da desobediência à lei dada no Éden, logo, o ‘eu’ da qual o apóstolo faz alusão refere-se a algo proveniente de Adão, e que é comum a todos os homens destituídos da glória de Deus.

 

O que é pecado?

Se uma das definições de pecado é a transgressão da lei ( 1Jo 3:4 ), como é possível pecar sem lei? ( Rm 2:14 ) Qual lei transgredida é pecado: a lei de Moisés ou a lei dada no Éden?

Paulo afirma categoricamente que a lei não é pecado ( Rm 7:7 ). Também afirmou que os gentios pecaram mesmo sem lei. Estas afirmações levam-nos a concluir que, o pecado surgiu da transgressão à lei dada no Éden, e não da transgressão das prescrições de Moisés.

Uma das definições de pecado geralmente é extraída da I carta do apóstolo João, que diz: “Todo aquele que comente pecado, transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ) Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, Ed. Vida. Se adotarmos este verso da carta de João como sendo a definição de pecado, como é possível aos gentios pecarem, se eles não têm lei?

Observando a carta de João, perceba que apenas neste verso a palavra ‘lei’ foi utilizada. No decurso da carta de João a palavra que foi utilizada diversas vezes é ‘mandamento’, porém, 1Jo 3:4 destoa da carta. A palavra “lei” também não é utilizada nas outras cartas do apóstolo João.

Já a versão João Ferreira Corrigida não utiliza a palavra lei em I João 3: 4, observe: “Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade” ( 1Jo 3:4 ). Versão Corrigida e fiel.

Ora, surge a dúvida: o pecado é ‘iniquidade’ ou o pecado é a ‘transgressão da lei’?

Pois bem, dúvidas a parte, segue-se que, ao ler os versículos nestas traduções, faz-se necessário analisar o seu contexto para chegarmos a um entendimento acerca das palavras utilizadas pelos tradutores, e qual a ideia que os apóstolos procuram evidenciar.

Ora, inferimos de Rm 2:12 que é plenamente possível pecar mesmo sem lei. Bem antes da lei de Moisés a morte reinou sobre todos os homens ( Rm 5:13 ). Desde Adão até Moisés a morte reinou sobre os homens o que significa que todos pecaram ( Rm 5:14 ). Daí, vale destacar que, o pecado impera aparte da lei mosaica.

Como? Um homem pecou, todos pecaram ( Rm 5:18 ). Ora, se um só homem pecou e todos pecaram, segue-se que o pecado que subjugou a humanidade não decorre da desobediência à lei de Moisés, visto que, após a desobediência de Adão, Deus não instituiu de imediato leis, porém, mesmo assim, todos morreram, o que demonstra que todos estavam em pecado.

O homem peca porque foi vendido como escravo ao pecado, e isto através da ofensa de Adão. Jesus é claro ao afirmar: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). O homem peca porque é escravo do pecado, e não porque transgride a lei de Moisés.

Resta a pergunta: O que é pecado? ‘Pecado’ diz da condição da criatura quando divorciada do Criador.

Quando a criatura se distancia do Criador, a condição ‘em pecado’ se manifesta. Ou seja, pecado é o mesmo que estar destituído da glória de Deus (morto para Deus e vivo para o mundo).

Se pecado fosse a transgressão da lei de Moisés ( 1Jo 3:4 ), não haveria como o homem ser formado em iniquidade e nem gerado em pecado, pois como poderia alguém transgredir no ventre materno? ( Sl 51:5 ).

Verifica-se nas Escrituras que um homem transgrediu e que todos transgrediram. Um pecou e todos vêem ao mundo separados de Deus, destituído da Sua Glória, porque todos pecaram pelo simples fato de serem descendentes de Adão.

O que toda humanidade passou a compartilhar após a ofensa de Adão? A mesma condenação! Como o apóstolo Paulo demonstrou que através da lei o ‘eu’ ‘conheceu’ o pecado, isto demonstra que o ‘eu’ surgiu quando da ofensa de Adão, pois ninguém pode transgredir a semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).

Somente Adão poderia e vendeu a humanidade como escrava ao pecado. O ‘eu’ jamais poderia pecar a semelhança do pecado de Adão, antes o ‘eu’ surgiu do pecado de Adão.

A humanidade conheceu o pecado por causa da ofensa de Adão, visto que todos são gerados em iniquidade e concebidos em pecado. O ‘eu’ não possuía autonomia para ‘conhecer’ o pecado, antes ‘conheceu’ o pecado por ser descendente da carne de Adão.

Enquanto os judeus acreditavam que os homens eram pecadores por não serem descendentes de Abraão e transgressores da lei de Moisés, o salmista Davi demonstra que os pecadores diante de Deus são transgressores sem causa ( Sl 25:3 ).

Sem esquecer que Paulo estava tratando com cristãos judeus e que o seu discurso tinha como tema central o Cristo crucificado, é necessário considerar que ele procurava dissuadir os que continuavam apegados à lei, como se ela fosse essencial à justificação ( Gl 5:4 ).

A concepção humana aponta que a justiça divina é proveniente da lei, como é o caso da justiça humana. ‘Sem lei não há justiça’, está é a concepção dos homens, porém, a justiça de Deus tem por base o seu eterno poder, e não a lei.

Como Deus perdoa pecados? Com base na ‘lei’ ou no seu ‘poder’? Ao curar um paralítico Jesus demonstrou que o perdão dos pecados tem como base o seu eterno poder: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico)…” ( Mc 2:10 ). O versículo não esta dizendo que Deus tem ‘autonomia’ para perdoar pecado, antes que Ele detém o poder necessário para perdoar pecado.

É por isso que João disse: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ). Ora, é através do poder de Deus que a justiça de Deus se estabelece, diferente da justiça dos homens, que têm nas leis a sua maior expressão de justiça. O perdão do pecado só ocorre quando Deus cria (Bara) o novo homem.

Qual o poder necessário para perdoar pecado? O poder de transformar homens gerados segundo a carne em filhos de Deus! Ou seja, somente tem o pecado perdoado aqueles que são recebidos por Deus na condição de filhos. Para tanto é necessário nascer de novo, da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

Os homens procuram valer suas leis através de sanções, e a lei é invocada apenas quando alguém descumpre suas prescrições. Diante de suas leis os homens clamam por justiça, mas da mesma lei criada para se fazer justiça surgem inúmeras injustiças. Elas nunca podem reparar o dano, somente tem valor punitivo.

Da justiça de Deus é preciso considerar que:

  1. Ela não é tardia, pois é aplicada quando do nascimento dos homens;
  2. Ela alcança a todos os homens, sem distinção alguma;
  3. Ela não precisa de leis, antes se aplica à natureza dos homens;
  4. Todos os homens gerados segundo a natureza de Adão foram julgados e estão debaixo de condenação;
  5. Somente os homens gerados segundo o último Adão, que é Cristo, estão livres de condenação;
  6. Ela não se vincula à moral, ao comportamento ou ao caráter, antes alcança a natureza, que é permanente;
  7. Ela é reta, e não se prende às questões de mérito ou demérito proveniente das relações humanas.

O evangelho é poder de Deus que gera homens espirituais estabelecendo a justiça de Deus. É por isso que o evangelho é descrito como semente incorruptível e através desta semente os homens tornam-se árvores de justiça, plantação do Senhor. As árvores plantadas por Deus produzem frutos bons, já as plantas que Ele não plantou produzem frutos maus. Não há como o homem gerado em Adão ser aceito por Deus, e tão pouco suas obras. Aqueles que são gerados de Deus, não são rejeitado, e tão pouco as suas obras ( Mt 15:13 ).

 

O que é ‘conhecer’ o pecado?

A palavra ‘conhecer’ na Bíblia possui dois sentidos e só o contexto pode indicar o seu real significado. Em determinados contextos a palavra ‘conhecer’ indica ‘união intima’, ‘estar ligado intimamente’ ou ‘ser participante da mesma natureza’. Quando Paulo escreveu: “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ), ou “O Senhor conhece os que são seus” ( 2Tm 2:19 ), ele demonstra que o ‘conhecimento’ de Deus vai além da ‘ciência’ de algo, ou seja, neste contexto a palavra ‘conhecer’ indica comunhão intima com o Criador ( Jo 17:11 ; Jo 17:21 – 22).

O significado mais utilizado para a palavra ‘conhecer’ é ‘saber acerca de’, ‘ter ciência de’, diferente do significado apresentado nos versículos acima. Observe como a mesma palavra é empregada com sentidos diferentes na frase seguinte: “Só conhece (saber acerca de) a concupiscência aqueles que ‘conhecem’ (união intima) o pecado, ou antes, foram conhecidos dele”.

Antes de pecar (conhecer o pecado = união intima), jamais seria possível a Adão conhecer (saber) que estava nu “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” ( Gn 3:7 ).

Quando Adão conheceu que estava nu, não havia nenhuma lei estabelecida por Deus sobre a nudez, porém, por causa da corrupção do pecado, ele constatou haver uma lei escrita em seu coração, testificando a sua consciência e os seus pensamentos, que o acusou de estar nu.

Adão encontrou em si mesmo uma lei ao reconhecer que estava nu. Ele passou a fazer naturalmente as mesmas coisas que, no futuro, seriam pertinentes à lei de Moisés, ou seja, mesmo não tendo a lei de Moisés para norteá-lo, Adão seguiu uma lei impressa em seu coração, proveniente do fruto do conhecimento do bem e do mal ( Rm 2:14 – 15).

Como Adão pecou, ou seja, ‘conheceu’ o pecado? Pela lei! Como assim? Adão conheceu o pecado pela transgressão da lei perfeita que foi dada no Éden: “De todas as árvores comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 – 17).

Através da lei o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a estar destituído da glória de Deus, separado do Criador, ou ainda, em comunhão intima com o pecado por causa da desobediência de Adão.

Paulo é enfático: a lei não é pecado, porém, através dela o homem tornou-se ‘carnal’, ‘conhecendo’ (união intima) o pecado “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei” ( Rm 7:7 ). Quando escreveu aos cristãos em Roma, Paulo não mais ‘conhecia’ o pecado, visto que esta condição se deu noutro tempo, quando ele conheceu o pecado por intermédio da lei ( Ef 2:2 e Ef 2:3 ).

Observe que o verbo ‘conhecer’ está no passado, o que indica uma situação remota e diversa da nova vida que Paulo alcançou em Cristo. Observe também que a palavra ‘conhecer’ em Rm 7:7 indica ‘união intima’ com o pecado (estar em pecado).

Para os judaizantes e alguns cristãos judeus, era absurdo o pecado ser ‘conhecido’ (união íntima) através da lei. Para eles, através da lei Deus estabeleceria a sua justiça. Após apresentar argumentos que contradiz o pensamento dos judaizantes, Paulo apresentou outro argumento: “…porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 ).

Ora, do mesmo modo que o homem soube (conheceu) por intermédio da lei que é vetado cobiçar, por intermédio da lei dada no Éden que diz: ‘…dela não comerás…’ ( Gn 2:17) o homem passou a ‘conhecer’ (união intima) o pecado (separação de Deus).

Como já demonstramos anteriormente, a concupiscência não é o pecado, antes a concupiscência é o engodo da carne sujeita ao pecado.  É algo próprio do mundo, ou seja, a existência humana ( 1Jo 2:16 – 17). Ora, quando o cristão crucifica a carne, a concupiscência também é exposta ao vitupério ( Gl 5:24 ). Os cristãos não estão entregues a concupiscências, visto que a concupiscência é pertinente aos corações incircuncisos ( Rm 1:24 ), ou seja, que não aceitaram a circuncisão de Cristo, que é o despojar da carne ( Cl 2:11 ).

As paixões desordenadas pertinentes a carne existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado que é gerado segundo Adão ( Rm 7:5 ). Quem morreu com Cristo crucificou o corpo do pecado e as suas paixões, o que leva a concluir que Paulo não mais conhecia a concupiscência pertinente a carne “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as tentações ou paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a carne pertencente ao pecado que produz tal fruto. A inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez as paixões, tentações e concupiscência da carne.

A natureza pecaminosa herdada de Adão, representada pela carne de Paulo que foi crucificada com Cristo, é que produziu a morte (separação e condenação), e para a morte (iniquidades). Em Cristo, Paulo crucificou a carne, e desta forma, as concupiscências que foram ‘conhecidas’ (saber) através da lei, também foram crucificadas ( Gl 5:24 ).

Através da lei, Paulo tomou consciência de que cobiçar era algo pertinente ao pecado. Porém, a carne surgiu pelo pecado de Adão e não depende da cobiça para estar sob condenação, ou seja, mesmo sem qualquer transgressão aparente é imputada a morte (condenação) à carne por ela ser gerada de Adão ( Sl 25:3 ). Não é a cobiça a causa do pecado (separação entre Deus e os homens), antes a causa do pecado é a desobediência de Adão.

Pela lei dada a Adão ( Gn 2:17 ) todos os homens gerados segundo a carne conheceram (uniram-se) o pecado ( Sl 51:5 ). Diferente de Adão, vieram ao mundo sob o domínio do pecado, e a lei mosaica somente evidenciou o pecado ( Rm 7:5 ), trazendo a lume a concupiscência, quando diz: “não cobiçarás”.

Analise estes dois versículos:

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei. Pois eu não conheceria a concupiscência se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 );

“Quando estávamos na carne, as paixões do pecado, realçadas pela lei, operavam em nossos membros a fim de darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ).

Não podemos perder de vista que o objetivo da argumentação do apóstolo dos gentios é levar os cristãos judeus à conclusão do verso 12: “Portanto a lei é santa, e o mandamento, justo e bom” ( Rm 7:12 ), para que não concluíssem que Paulo estava declarando que a lei é o mesmo que pecado. Paulo estava simplesmente demonstrando que a lei serviu de ‘aio’, para conduzir todos os homens a Cristo. Dentre estes homens estão inclusos principalmente os judeus, que pensavam que a lei conduzia o homem a Deus.

Ao escrever: ‘Mas eu não conheci o pecado senão pela lei…’ ( Rm 7:7 ), Paulo fez referência ao tempo em que ele estava morto em delitos e pecados ( Ef 2:5 ). Por causa da lei instituída no Éden ocorreu a queda do homem, e todos passaram a ‘conhecer’ (estar unido) ao pecado.

Se a lei perfeita instituída no Éden deu ocasião à queda de toda a humanidade, outra lei não traria liberdade, no caso, a lei de Moisés. Através da lei o homem somente soube (conhecer) que não devia cobiçar: “…porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 ).

A lei dada no Éden enfatizava o cuidado e a liberdade que há em Deus. A lei que Adão transgrediu e que trouxe o ‘conhecimento’ (união intima) do pecado enfatizava plena liberdade em Deus “…de todas as árvores comerás livremente…”. Ela continha o conhecimento necessário para que o homem obedecesse, o que demonstra o cuidado de Deus.

A lei no Éden foi dada para que o homem não atentar contra a sua própria natureza, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus. Quando foi destituído da glória de Deus estabeleceu-se a separação (pecado). Do mesmo modo que Deus não pode mentir, foi concedido, por semelhança, uma restrição ao homem, que poderia afetar a sua natureza.

 

 

‘Quem’ outrora viveu sem Lei?

“Que diremos pois? É a lei pecado? Nunca seja assim! Mas eu não conheci o pecado senão através da lei; porque também eu não tinha sido consciente da (minha) concupiscência, se a lei não dizia: “Não cobiçarás”. Mas o pecado, havendo tomado ocasião através do mandamento, operou em mim todo tipo de concupiscência; porquanto sem a lei o pecado estava morto. E eu, outrora, vivia sem lei; mas, havendo vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri. E o mandamento, o qual foi ordenado para vida, este por mim foi achado ser para morte. Porque o pecado, havendo tomado ocasião através do mandamento, me enganou, e me matou através dele (do mandamento) ( Rm 7:7 – 11) – LTT – Bíblia Literal do Texto Tradicional.

 

Para continuarmos é necessário fazermos algumas perguntas:

  1. Outrora ‘eu’ vivia sem lei – Em que período da vida de Paulo ele viveu sem lei? Paulo escreveu aos Filipenses que nasceu sob a lei ( Fl 3:5 ), o que demonstra que jamais ele viveu sem estar sob a égide da lei;
  2. ‘Vivia’ sem lei – Antes de ter um encontro com Cristo era possível o apóstolo estar vivo para Deus? Paulo mesmo disse que todos os homens (ele estava incluso neste rol), eram por natureza filhos da ira ( Ef 2:3 ), ou seja, outrora o apóstolo nunca esteve vivo, visto que estava morto em delitos e pecados, sendo por natureza filho da ira e da desobediência ( Ef 2:5 );
  3. Outrora – “Outrora” diz de um tempo remoto, passado. Quando o apóstolo Paulo utilizou a palavra ‘outrora’, ou ‘noutro tempo’, geralmente a utilizou para designar o tempo em que os homens (mortos) viviam sem Deus ( Ef 2:2 ). O contraste é claro: outrora filhos da ira e da desobediência, agora, uma nova condição em um novo tempo ( Cl 1:21 ).

Ora, como Paulo nunca viveu sem lei, segue-se que o ‘eu’ do qual ele faz referência diz de todos os homens que potencialmente ‘viveram’ em Adão. Como? Se todos os homens morreram em Adão ( Rm 5:12 ), segue-se que todos ‘viveram’ em Adão. Ou seja, o ‘eu’ que Paulo utiliza é uma figura que engloba todos os homens, judeus e gregos, sem distinção alguma, pois se todos morreram ‘em Adão’, todos viveram ‘em Adão’.

Diante do que a Bíblia afirma sobre a vida de Paulo e sobre a natureza humana, não é possível afirmar que Paulo utiliza o ‘eu’ para falar literalmente de si mesmo, visto que, Paulo nunca viveu sem lei. O ‘eu’ também não se refere a sua infância (inocência), visto que ele foi formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Não saber discernir entre o bem e o mal não exime o homem da condenação estabelecida em Adão.

Também sabemos que o pecado nunca esteve morto ou que tenha tornado à vida “…reviveu o pecado…”. A palavra ‘reviver’ aqui empregada não significa tornar a ter vida, antes a ter animo, força, como se lê de Jacó ( Gn 45:27 ).

Quando ocorreu o evento em que o pecado ‘reviveu’, e conseqüentemente o ‘eu’ morreu? A época que Paulo era criança? Quando adulto? De que modo este evento ocorreu se, segundo a lei, Paulo era fariseu?

Percebe-se que o ‘eu’ que Paulo utiliza nestes versos refere-se a Adão, onde toda a humanidade existiu potencialmente. A figura utilizada é a mesma empregada pelo escritor aos Hebreus ao dizer que Levi, que recebe dízimo, por meio de Abraão, pagou dízimo ( Hb 7:9 ; Hb 7:10).

Ora, se um pecou e todos morreram, segue-se que todos viviam em Adão. Porém, ao ser dado o mandamento “…mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerá…”, o pecado achou ocasião e todos morreram. O pecado refere-se à divisão que se estabelece entre Deus e as suas criaturas.

Como sabemos, Satanás é a primeira criatura a experimentar (o pecado) uma existência alienada da vida que há em Deus ( 1Jo 3:8 ). Antes da queda do homem o pecado já existia, porém, com a vinda do mandamento, o pecado reviveu, tomou força e alcançou todos os homens.

O mandamento ordenado no Jardim do Éden era para vida “…dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), visto que, nele continha plena liberdade e o alerta quanto às conseqüências de se comer da árvore do bem e do mal. O mandamento foi dado especificamente para preservar a vida do homem, porém, o homem achou (entendeu) que era para morte.

Por que tal entendimento? Por causa do pecado, visto que, pelo mandamento o pecado achou ocasião, enganou o homem, e através dele, o matou. Como?

Na determinação divina dada no Éden temos três aspectos:

  1. Plena Liberdade – na primeira parte do mandamento temos plena liberdade;
  2. Preservação da vida – na segunda parte um alerta solene;
  3. Condenação – na terceira parte do mandamento temos a pena imposta: separação da vida que há em Deus.

O elemento que diferencia a lei do mandamento é a pena. No mandamento temos a ordenança: “Não cobiçaras”, sem uma pena previamente imposta. Já na lei, além do mandamento “…dela não comerás…”, temos uma pena estipulada “…certamente morrerás”.

O mandamento de Deus foi dado ao homem visando proteger a vida que possuía e compartilhava de Deus. Porém, através da tentação no Éden, o homem esqueceu-se da liberdade que possuía “De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ), e aquiesceu a palavra do tentador que enfatizou a proibição “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do Jardim?” ( Gn 3:1 ).

Pelo mandamento santo, justo e bom ( Gn 2:16 ), o pecado achou ocasião e matou o homem por causa da força da lei “…certamente morrerás”, que é santa ( Rm 7:12 ). Desta exposição paulina advém a conclusão do versículo 12.

Observe que o pecado só passou a exercer domínio sobre o homem por causa da força existente na lei que estipulava: certamente morrerás.