Sal da terra e luz do mundo

A parábola do sal da terra e da luz do mundo tem por objetivo demonstrar que, assim como o sal insípido perde o seu valor e função, tal é a condição daqueles que deixam de ser discípulos…


Sal da terra e luz do mundo

“Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” (Mateus 5:13 -14).

 

Introdução

Invariavelmente, os comentários acerca dessa passagem bíblica, procuram mensurar o valor do sal, quer seja à época de Jesus, como um produto de valor considerável, quer nos dias de hoje, que o sal, pela oferta do produto do mercado, parece ter um valor irrisório.

No decurso da análise, os comentaristas, geralmente, enfatizam que o sal e a luz referem-se ao caráter, à moral dos discípulos de Jesus ou, que os seguidores de Jesus têm de praticar boas ações, fazer ações caridosas, ajudar as pessoas carentes, influenciar a sociedade, etc.

Há aqueles que, a partir das funções essenciais do sal (dar gosto e conservação aos alimentos), enfatizam que os verdadeiros seguidores de Cristo devem lutar por questões humanitárias, envolver-se na luta por direitos iguais, abraçar a causa dos direitos sociais e garantias legais, etc.

Foram questões semelhantes a essas que Jesus buscou evidenciar no seu discurso? Qual a essência de um verdadeiro seguidor de Cristo?

 

O público da mensagem

Logo após escolher os doze apóstolos, dentre os seus discípulos (Lucas 6:13), Jesus desceu para um ponto plano na montanha, onde todos passaram a noite e grande número de seguidores e uma multidão de pessoas das cidades circunvizinhas se reuniram para ouvi-Lo (Lucas 6:17).

É nesse cenário que Jesus proferiu aos seus discípulos as bem-aventuranças:

“E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lucas 6:20).

Quando Jesus fitou os seus discípulos, identificou o público alvo das bem-aventuranças: os seus seguidores. Os seguidores de Jesus eram os ‘pobres’, os ‘famintos’, os ‘pranteadores’, etc. (Lucas 6:20-21; Mateus 5:3-9).

Aos discípulos temos uma mensagem de bem-aventurança, à multidão das cidades circunvizinhas, uma mensagem de arrependimento, pois estes necessitavam de justiça superior a dos escribas e fariseus, para ter direito ao reino dos céus (Mateus 5:20), enquanto aqueles já estavam de posse do reino dos céus (Mateus 5:3).

 

Os discípulos de Cristo

Jesus tinha muitos discípulos e dentre estes, tinha os apóstolos. Muitos discípulos se desviaram durante o ministério de Jesus, pois estavam tão somente interessados em pão e milagres, mas não aceitavam o seu discurso (João 6:60 e 66; 8:31; Mateus). Dentre os apóstolos, um se perdeu, conforme as Escrituras predisseram (Salmo 69:25).

Mas, antes de partir, Jesus deixou consignada a principal característica de um discípulo:

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35).

O que Jesus evidenciou ao dizer ‘se vos amardes uns aos outros’? Resposta: que seriam discípulos, se realmente obedecessem a Ele. A essência do discipulado está na obediência e em ser obediente ao seu Senhor e Mestre, o discípulo revela de quem é discípulo.

Por isso Jesus disse:

“Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós que, também, vós, uns aos outros, vos ameis” (João 13:34).

Só é possível conhecerem que alguém é discípulo de Cristo, quando esse alguém obedece a Cristo, amando uns aos outros. E esse ‘amor’ não deve ser conforme o entendimento do discípulo mas, sim, conforme o mandamento do seu Senhor. Observe:

“Se alguém diz: Eu amo a Deus e odeia a seu irmão é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão. TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido. Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (João 4:20-21 e 5:1-3).

Quem são os irmãos, de quem é discípulo de Cristo? Aqueles que fazem a vontade de Deus, conforme se lê: “Porquanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Marcos 3:35).

Se qualquer que fizer a vontade de Deus é irmão de Jesus, um nascido de Deus, o verdadeiro discípulo que verdadeiramente ama a Deus, não pode fazer acepção de pessoas, escolhendo amar segundo preferências pessoas, tais como: nação, língua, sexo, nacionalidade, tribo, etc.

Se todo que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus, segue-se que fazer a vontade de Deus é crer que Jesus é o Cristo (Marcos 3:35 com João 5:1). Um cristão de nacionalidade judaica não pode ‘odiar’ um gentio que fez a vontade de Deus e que, portanto, é irmão de Cristo.

Se o amor de Deus constitui em guardar os seus mandamentos, só ama a Deus quem crê que Jesus é o Cristo e ama a qualquer que fizer a vontade de Deus, sem se importar com qualquer outra questão circunstancial pois, todos, pela fé em Cristo, são filhos de Abraão.

A abordagem do Senhor Jesus e do evangelista João, que evidencia quem são os discípulos de Cristo, tem o seguinte escopo:

“Porque todos sois filhos de Deus, pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um, em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e herdeiros, conforme a promessa” (Gálatas 3:26-29).

A abordagem do apóstolo Paulo, acerca do mandamento de Jesus, é muito prática, pois ele evidencia que, no corpo de Cristo, não há diferença entre os membros.

“Porventura, o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Coríntios 10:16-17).

Se um crente em Cristo compreende a essência do corpo de Cristo e anda segundo essa verdade, é um discípulo verdadeiro, e nisto todos saberão que tal crente é um discípulo de Cristo.

 

Perseguidos

Uma das evidências dos verdadeiros discípulos de Cristo, está nas perseguições.

“Os quais, também, mataram o SENHOR Jesus e os seus próprios profetas e nos têm perseguido; não agradam a Deus e são contrários a todos os homens” (1 Ts 2:15);

“E, também, todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Tm 3:12).

As perseguições não decorrem dos negócios desta vida, mas, por causa da justiça (Mateus 5:10). Não se pode entender a ‘justiça’, da qual Jesus fala, com luta por causas sociais, sistemas políticos, placa de igreja, filosofias de vida, etc.

À época dos apóstolos, os judeus foram perseguidos, entretanto, isso se dava por que não se sujeitavam a nenhuma instituição humana, pois, queriam a independência politica de Israel. Sobre esses, disse o apóstolo Pedro:

“Mas, principalmente, aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades” (2 Pedro 2:10).

Quando veio a perseguição dos romanos sobre os judeus, isso se deu por questões políticas, não por causa da justiça. Por isso, o alerta: “Então, Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” (Mateus 26:52).

A ‘justiça’ em voga, diz da justiça de Deus, que se descobre no evangelho:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e, também, do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” (Romanos 1:16-17).

Jesus deixa claro que os seus discípulos seriam bem-aventurados, quando sofressem perseguições, por causa da justiça ou, quando fossem injuriados e perseguidos por causa de Cristo. A atitude de um discípulo, ao ser perseguido, por causa de Jesus, é exultar e se alegrar, por dois motivos: a) grande recompensa nos céus e; b) os profetas, também, foram perseguidos.

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque, assim, perseguiram os profetas que foram antes de vós” (Mateus 5:10-12).

 

Sal da terra e luz do mundo

“Vós sois o sal da terra e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador e dá luz a todos que estão na casa. Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:13-16).

Após as bem-aventuranças, Jesus declara que os seus discípulos eram sal da terra. Por que sal da terra? O que os discípulos fizeram para receberem esse predicativo? Percebe-se, pela leitura do texto bíblico, que os discípulos não tinham feito nada, porém, já eram sal e luz.

Isso significa que ser sal e luz do mundo está, intrinsicamente, ligado a ser discípulo de Cristo. Ser discípulo de Cristo é o suficiente para ser sal da terra e luz do mundo.

Enquanto o crente em Cristo estiver sendo perseguido, por causa da justiça, sendo injuriado e perseguido, por causa de Cristo, é sal da terra e luz do mundo. Se o crente não estiver amando a seus irmãos ou, se não permanecer nos ensinamentos de Cristo, deixou de ser discípulo, consequentemente, deixa de ser sal e luz.

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente, sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:31-32);

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35);

“Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e, assim, sereis meus discípulos” (João 15:8);

Como o crente produz fruto? Estando ligado à videira verdadeira (Joao 15:4-5). E qual é o fruto que o crente ligado à Cristo produz? O fruto dos lábios, que confessam o nome de Cristo, como Senhor e Mestre (Hebreus 13:15), pelo qual Deus é glorificado (Isaías 61:3).

É por isso que o apóstolo Paulo instruía os discípulos a permanecerem firmes na verdade do evangelho, a fé que foi dada aos santos:

“Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que, por muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (Atos 14:22).

A parábola do sal e da luz tem por objetivo demonstrar que, assim, como o sal insipido perde o seu valor e função, tal é a condição daqueles que deixam de ser discípulos; para o reino de Deus, deixam de ter valor e só servem para ser lançados fora e pisados pelos homens.

Qualquer que diz estar em Cristo e volta às questões da lei, deixa de ser sal da terra. Os cristãos das cidades da Galácia, por estarem passando para outro evangelho, estavam deixando de serem sal da terra. Por causa do nome, da doutrina de Cristo, o homem é sal da terra, mas, se voltar a lançar mão de rudimentos fracos e pobres como: guardar os Sábados, circuncidar-se, lavar as mãos, etc., torna-se insípido, para nada mais presta (Gálatas 4:9-10; Colossenses 2:20-22).

Um verdadeiro discípulo, aquele que permanece no ensino de Jesus, é liberto do Senhor, um filho da luz, portanto, é luz no Senhor (Efésios 5:8). É impossível a um discípulo de Jesus esconder a sua real condição dos que não creem, da mesma forma que é impossível esconder uma cidade edificada sobre um monte.

Mas, como não se acende uma lamparina para colocá-la em um lugar oculto (alqueire), mas, sim, num lugar que a luz preencha todo o ambiente (velador), iluminando quem está ao redor, semelhantemente, a condição de discípulos de Cristo deve ser patente a todos os homens.

Quais são as boas obras que, se os homens a observarem, torna possível aos homens glorificarem a Deus que está nos céus? Ações de caridade? Engajamento em alguma passeata em favor da natureza? Trabalho voluntário em algum hospital? Acolher crianças abandonadas? Mitigar o sofrimento dos pobres, através de doações de esmolas?

Se considerarmos a passagem bíblica, onde o apóstolo Paulo evidencia que estas questões não são o amor reclamado por Deus, vez que, de nada adianta distribuir toda fortuna ou, até mesmo o sacrifício da própria existência.

“E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres e, ainda, que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria” (1 Coríntios 13:3).

Sendo discípulo de Cristo, a luz do crente irradia diante dos homens e a boa obra realizada que os homens, ao verem, glorificarão a Deus, diz da própria crença em Cristo. A obra de Deus é crer em Cristo e a obra má é obedecer a mandamentos de homens.

Para compreender a essência da ‘obra’ destacada por Jesus, temos que analisar o termo, segundo a perspectiva do homem da antiguidade, onde predominava a relação senhor e servo. Aristóteles deixou registrado qual é essa relação:

“… existe uma obra, desde que haja comando de uma parte e de outra, obediência” (ARISTÓTELES, 2011, p. 25).

Existe boa obra, desde que haja mandamento por parte de Deus e obediência por parte dos discípulos de Cristo, pois, diante da obra que resulta do mandamento e da obediência, Deus é glorificado. Mas, se os mandamentos são de homens maus, a obra só pode ser má e não glorifica a Deus.

Se o crente em Cristo honra os seus irmãos em Cristo, considerando os outros superiores a si mesmo, nada deve a ninguém. Cumpriu o mandamento: a) creu em Cristo e; b) ama o outro, conforme Deus ordenou:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 João 3:23);

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo (Filipenses 2:3);

“Amai-vos, cordialmente, uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros (Romanos 12:10);

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor, com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei” (Romanos 13:8).

Desde que o crente em Cristo permaneça crendo que Jesus é o Senhor e considere o outro em honra, é discípulo de Cristo, liberto do Senhor, portanto, sal e luz do mundo.

“Por isso, ouvindo eu, também, a fé que entre vós há no Senhor Jesus e o vosso amor para com todos os santos” (Efésios 1:15).

Mas, enquanto houver cristãos que pensem que a missão da Igreja de Cristo é promover fraternidade entre as pessoas, respeito à natureza, justiça social, redistribuição de renda, etc., não são discípulos verdadeiros, pois, não deixam que os mortos enterrem os seus e se esquecem de que o Cristo não tinha onde reclinar a cabeça.

“E, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: Mestre, aonde quer que fores, eu te seguirei. E disse Jesus: As raposas têm covis e as aves do céu têm ninhos, mas, o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E outro de seus discípulos lhe disse: Senhor, permite-me que primeiramente vá sepultar meu pai. Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me e deixa os mortos sepultarem os seus mortos” (Mateus 8:19-22).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




Como amar os irmãos?

O evangelista João é enfático ao apresentar, de modo objetivo, como se percebe que alguém ama o seu irmão: quando ama a Deus, ou seja, quando guarda o Seu mandamento!


Como amar os irmãos?

“Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (1 João 5:2)

Introdução

Inúmeros pensamentos, sobre como amar os irmãos, são apresentados nos púlpitos, em seminários, em tratados, nos livros, porém, na sua grande maioria, tais recomendações decorrem de questões subjetivas.

Como amar o irmão, se o que entendemos por amor não pode ser mensurado, provado ou demonstrado por evidências físicas, visto estarem atreladas as questões de foro íntimo, como sentimentos e emoções? Como amar, se palavras, atitudes e ações não evidenciam, de maneira prática, inequívoca e irrefutável o que é o amor bíblico?

Quando pensamos o amor do ponto de vista sentimental, temos de considerar o amor como uma via de mão dupla pois, quem é amado, também, tem que se sentir amado.

Neste sentido, não basta quem ama deixar de fazer ao outro o que não deseja que outros lhe façam, se o outro não considerar ou sentir que está sendo amado. Não basta entender que amar é fazer o bem ao outro, se o outro não compreender que o que está sendo feito é o bem, consequentemente, não se sentirá amado.

O que seria o bem a ser feito para com o irmão? Dar uma esmola é fazer o bem? A esmola não seria o mal, quando se perpetua a mendicância e a miséria? O outro não se sentirá ofendido, caso lhe seja oferecido auxilio?

Geralmente, não gostamos de ser repreendidos. Dai, a pergunta: a repreensão não é o bem? Se alguém nos repreende, não estaria amando?

O maior problema de definirmos o amor ou, o bem que se deve ao outro, está no campo do subjetivismo, o que nos leva a questionarmos: como amar o irmão?

Vale destacar que doar bens materiais ou se deixar desgastar, até exaurir o fôlego de vida para melhorar as condições econômicas dos pobres, não é o amor exigido por Deus (1Co 13:3). Abraçar causas sociais assistencialistas, feministas, abolicionistas, sindicalistas, não é o amor exigido por Deus. Levantar bandeira contra o homossexualismo, o ateísmo, o liberalismo, o humanismo, não é o amor exigido por Deus!

Tudo quanto a nossa sociedade, na atualidade, considera como amor, geralmente depende de questões subjetivas. Mas, o mandamento “… deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13:34), possui um elemento objetivo e todos os cristãos devem obedecer.

“Portai-vos de modo que não deis escândalo, nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus. Como, também, eu, em tudo, agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar” (1Co 10:32-33).

 

Diferença entre amor e afeição

Antes de continuarmos a análise, o leitor precisa estar informado acerca de dois termos gregos:

  1. αγαπη (agapē), comumente, traduzido por amor, caridade, misericórdia e;
  2. σπλαγχνον (splagchnon), traduzido por entranhas, que aponta para a sede das afeições humanas, de onde procede a bondade, a benevolência, a compaixão, etc.

Os lexicógrafos, geralmente, entendem que o termo αγαπη[1] (agapē) não possui um significado específico e raramente era utilizado na literatura grega. A ideia que o termo transmitia, antes de ser utilizado pelos escritores do Novo Testamento, era para ‘expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso’. Daí a indefinição dos tradutores, que ora vertem o termo por amor, outras vezes por caridade e outras por misericórdia.

Mas, indefinições à parte, o termo era utilizado para indicar as honras devidas aos visitantes (hospitalidade) ou, para indicar a honra devida ao outro.

O termo grego σπλαγχνον[2] (splagchnon), que significa entranhas, foi utilizado pelos apóstolos para fazer referência aos sentimentos.

É cediço que as entranhas (coração, pulmão, fígado, etc.), eram consideradas pelos povos da antiguidade como a sede dos sentimentos, como amor e ódio. O povo Hebreu seguia essa mesma linha de pensamento, daí as afeições mais sensíveis, como bondade, benevolência, compaixão,  serem representadas pelas entranhas.

“Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus?” (1 Jo 3:17).

O apóstolo João deu um exemplo claro ao usar o termo traduzido por ‘entranhas’ (σπλαγχνον), no verso acima, ao instruir os cristãos a serem benevolentes, bondosos, caridosos, etc.

 

Amar a Deus

O evangelista João é enfático ao apresentar, de modo objetivo, como se percebe que alguém ama o seu irmão: quando ama a Deus, ou seja, quando guarda o Seu mandamento!

Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (1 João 5:2)

“ἐν τούτῷ γινώσκομεν ὅτι ἀγαπῶμεν τὰ τέκνα τοῦ θεοῦ. ὅταν τὸν θεὸν ἀγαπῶμεν καὶ τὰς ἐντολὰς αὐτοῦ ποιῶμεν” Westcott/Hort with Diacritics.

O evangelista não diz que quem ama a Deus é aquele que se propõe a perdoar o seu irmão, ou servir o outro, sem pedir nada em troca ou, fazer o bem, sem olhar a quem ou, não desejar o mal ao outro, etc. Amar a Deus é obedecer ao seu mandamento: crer em Cristo (1 Jo 3:23).

A abordagem de João é especifica: nisso conhecemos, ou seja, nisso sabemos. Só é possível saber que amamos os filhos de Deus (ao irmão ou, uns aos outros), quando amamos (obedecemos) a Deus.

Os filhos de Deus são todos os que creem em Cristo ou, seja, gerados de Deus, portanto, irmãos: “Todo o que crê que Jesus é o Cristo, nasceu de Deus” (1 Jo 5:1).

O amor de Deus é manifesto nisto: que guardemos seus mandamentos[3] (1 Jo 5:3). Só ama a Deus quem cumpre o seu mandamento, como se observa:

“Se me amais, guardais os meus mandamentos” (Jo 14:15);

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama” (Jo 14:21);

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará e viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama, não guarda as minhas palavras” (Jo 14:23-24).

Quem ama a Deus, deve amar por obra e em verdade ou, seja, não de palavra ou de língua (1 Jo 3:18). Isso significa que o verbo ἀγαπάω não aponta para o sentimento do homem, mas, para a disposição em honrar a quem ordena.

‘Honrar’ é o sentido que abstraímos da profecia de Isaías:

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13);

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 Jo 3:18).

O mandamento (temor) que os filhos de Israel obedeciam (honra) era somente temor (mandamento) de homens.

“E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim; Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas” (Mc 7:6-8).

Estes versos demonstram que o amor a Deus não consiste em sentimentos, mas, sim, em sujeitar-se a Ele, cumprindo o que foi ordenado[4]. O significado de amor transmutou-se ao longo do tempo, de sujeição de um servo ao seu senhor, passando a significar sentimento, afetividade.

“Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22);

“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6);

Por isso o alerta:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

O amor expresso por Jesus indica obra, serviço, sujeição a um senhor. Amor e ódio não se referem a sentimentos, mas à ideia de obedecer, de honrar ao seu senhor.

Após verificar que só ama a Deus quem obedece ao Seu mandamento, resta saber qual é o mandamento de Deus.

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele” (2 Jo 1:6).

O evangelista João, objetivamente, aponta qual é o mandamento de Deus:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23).

Crer em Cristo é o mandamento de Deus e aquele que crê em Cristo ama a Deus, ou seja, obedece a Deus. Com base no exposto pelo apóstolo João, só é possível verificarmos que amamos os irmãos quando efetivamente cremos em Cristo, ou seja, quando guardamos (amamos) o Seu mandamento.

“Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (1 João 5:2).

O mesmo princípio utilizado para verificarmos se o cristão está em comunhão com Deus é utilizado para verificarmos se o cristão ama os irmãos. Observe:

“E nisto sabemos que o conhecemos[5]: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade. Mas, qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele, verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele” (1 Jo 2:3-5).

Quando é dito que conhecemos a Deus, na verdade o termo traduzido por ‘conhecer’ expressa a ideia de comunhão, união. Quando é dito: γινώσκομεν ὅτι ἐγνώκαμεν (sabemos que o conhecemos), é utilizado os termos que são traduzidos por ‘saber’ e ‘conhecer’.

O termo γινώσκομεν é saber, conhecer, perceber e o termo ἐγνώκαμεν, além do significado de saber, conhecer, também significa ter comunhão intima, indicando a ideia de um corpo.

Só desfruta de comunhão intima com Deus aquele que obedece aos seus mandamentos (1 Jo 3:24). Ora, só é possível saber se alguém está n’Ele, quando esse alguém O obedece, ou seja, O ama. Só é possível identificar quem ama o irmão quando essa pessoa obedece a Deus, ou seja, se fez servo de Deus, crendo em Cristo.

É condição sine qua non ter comunhão com Deus para ser possível amar ao irmão!

“Aquele que diz que está na luz e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz e nele não há escândalo” (1 Jo 2:9-10).

 

Amar ao irmão

“E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão” (1 Jo 4:21)

Ama a Deus quem crê em Cristo e quem crê em Cristo, deve amar ao irmão, segundo o Seu mandamento (1 Jo 3:23). Mas, só ama os filhos de Deus (irmão) quem crê em Cristo, ou seja, quem ama o seu irmão segundo o mandamento de Deus (1Jo 5:2).

No entanto, além de obedecer ao mandamento de Deus (que é crer em Cristo), os que creem em Cristo receberam o mandamento de amarem aos seus irmãos, segundo o que foi ordenado.

Enquanto o cristão ‘servir’ ao seu irmão em Cristo demonstra amor a Deus (Hb 6:10). Em função do mandamento de Deus, o crente deve honrar aos outros cristãos (Rm 13:8).

“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis, então, da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor” (Gl 5:13);

“Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o SENHOR; e nós mesmos somos vossos servos, por amor de Jesus” (2 Co 4:5).

Os judaizantes instavam os cristãos a guardarem a lei para serem salvos, porém, basta ao cristão honrar ao outro irmão, para ser cumpridor da lei.

O apóstolo Paulo, juntamente com Barnabé, contendeu com alguns cristãos convertidos, dentre os judeus que vieram de Jerusalém, pois diziam que os gentios que se converteram a Cristo deveriam se circuncidar (At 15:1-5). A disposição do apóstolo Paulo em defender a verdade do evangelho, foi um cuidado dispensado aos irmãos, segundo o mandamento de Deus: amor segundo o evangelho.

Mas, objetivamente, como amar o irmão? Neste ponto se faz necessário diferenciar o sentimento humano que denominamos por ‘amor’ e o mandamento de Deus, que também é designado por ‘amor’.

Quando o apóstolo dos gentios faz referência ao ‘amor’ como sentimento, para expressar a ideia de ‘gostar de alguém ou, de algo’ (ter em alta conta), geralmente faz uso do termo grego σπλάγχνα, que também se refere aos órgãos internos, como as vísceras que, em nossos dias, remete ao coração, ou à sede das emoções humanas. Figurativamente, o termo é utilizado para apontar os sentimentos do homem, a capacidade para sentir empatia, compaixão, afeto, etc.

Quando falamos de sentimentos, falamos de algo subjetivo, que flui por uma via de mão dupla. Um exemplo, verifica-se no apóstolo Paulo, pois ele amava, afetuosamente, os cristãos de Corinto, porém, alguns deles não consideravam desta forma.

Alguns cristãos de Corinto não conseguiam aquilatar o sentimento que o apóstolo Paulo nutria por eles, por conseguinte, estavam ‘estreitados’ no sentimento para com o apóstolo: “Não estais estreitados em nós; mas estais estreitados nos vossos próprios afetos” (2 Co 6:12). O termo utilizado pelo apóstolo Paulo para fazer referência ao afeto dos cristãos de Corinto é σπλάγχνα, ou seja, entranhas, intestinos (coração, pulmão, fígado, etc.).

Ao escrever acerca de Onésimo a Filemom, o apóstolo Paulo faz uso do termo σπλάγχνα para descrever a sua amizade e apreço por Filemom. É patente, nesta epístola, que o apóstolo Paulo e Filemom possuíam uma boa amizade, pelo teor do pedido do apóstolo.

Na epístola a Filemom, inicialmente, o apóstolo dos gentios dá graças a Deus e enfatiza que sempre faz menção do irmão Filemom em suas orações (Fm 1:4), por ouvir acerca do amor e da fé de Filemom, em Cristo. A fé (crença) de Filemom é resultado do seu amor, ou seja, da obediência ao evangelho (fé). Em decorrência de Filemom ter crido em Cristo, o apóstolo sentiu grande gozo e consolação (Fm 1:7), e os sentimentos dos santos foram acalentados.

Pela sua posição, como apóstolo, Paulo podia ordenar a Filemom que o obedecesse, porém, pediu, um modo de honrá-lo (amor) (Fl 1:8-9). Ao enviar o irmão Onésimo, que pertencera a Filemom, como escravo, o apóstolo Paulo esperava que Filemom recebesse Onésimo, como se fosse as suas próprias entranhas, ou seja, o apóstolo dá destaque ao vínculo do sentimento de apreço, que havia entre eles (Fl 1:12, 17).

Hoje, em nossa língua, seria como se o apóstolo escrevesse que estava enviando o seu próprio coração, uma forma de expressar o seu sentimento. Esse cuidado do apóstolo, dispensado a Onésimo, também é amor, pois roga a Filemom que receba o seu escravo Onésimo através do seguinte prisma:

a) como seu irmão amado, e;

b) como filho do apóstolo (Fl 1:16).

O apóstolo destaca duas razões para Filemom recepcionar Onésimo:

a) sujeição ao Senhor, e;

b) por Filemom e Onésimo compartilharem a mesma nacionalidade.

O sentimento de saudade que o apóstolo Paulo expressa aos cristãos de Filipos foi registrado nos seguintes termos:

“Porque Deus me é testemunha das saudades que de todos vós tenho, em entranhável afeição de Jesus Cristo” (Fl 1:8).

A saudade do apóstolo é sentimento (afeição) que decorre dos laços afetivos, ou σπλάγχνοις (entranhável afeição), que surgiram por causa de compartilharem a mesma doutrina. O evangelho os uniu como irmãos e, em decorrência dessa união, surgiram os laços afetivos.

Após expressar o seu sentimento, o apóstolo Paulo faz um pedido aos cristãos de Filipos: que o amor deles se desenvolva em discernimento e em conhecimento! Esse amor, que demanda  ἐπίγνωσις e αἴσθησις, respectivamente ‘conhecimento’ e ‘discernimento’, não é sentimental, mas, objetivo: obediência a Deus (crer em Cristo) com o dever de honrar os irmãos.

O apóstolo Pedro enfatiza que os cristãos são purificados por Deus, através da obediência ao evangelho (verdade), que leva ao amor fraternal sincero, que procede de um coração puro. Daí a ordem: amai-vos uns aos outros!

“Purificando as vossas almas pelo Espírito, na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos, ardentemente, uns aos outros, com um coração puro” (1 Pe 1:22).

A obediência à verdade leva ao amor fraterno (φιλαδελφίαν/philadelphia), que é livre de fingimento, de malícia, de engano, de inveja e de murmurações (1 Pe 2:1). Daí a ordem: amai-vos, intensamente, uns aos outros (ἀγαπήσατε ἐκτενῶς). ‘Amor fervente’, diz de um cuidado intenso para com os outros, em virtude do mandamento.

O apóstolo Pedro faz essa recomendação, para que os cristãos convertidos, dentre os judeus, mudassem sua concepção (1 Pe 1:13), portando-se como filhos obedientes: não seguindo as concupiscências de antes (1 Pe 1:14). Se como cristãos invocavam por Pai a Deus, que não faz acepção de pessoas (1 Pe 1:17), deveriam amar a todos cristãos, quer fossem judeus ou gentios convertidos.

Se o amor é sem fingimento, sem engano, sem malícia, os cristãos da dispersão (judeus convertidos), deveriam ser  hospitaleiros e sem murmurações (1 Pe 1:1). O apóstolo Pedro sinaliza que é necessário cuidar (amar, honrar) dos irmãos, sem fazer acepção. Portanto, cada qual deveria servir uns aos outros, conforme o dom que cada um recebeu (1 Pe 4:9).

A hospitalidade era uma questão sociocultural imprescindível à época dos apóstolos e um dos cuidados indispensáveis que todos os cristãos deveriam dispensar a todos os irmãos.

“PERMANEÇA o amor fraternal. Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns, não o sabendo, hospedaram a anjos” (Hb 13:1-2).

O escritor aos Hebreus instrui para que o amor fraterno seja contínuo. Um dos aspectos do amor fraternal é a hospitalidade. De que adianta alguém que chama os membros da comunidade de irmãos em Cristo, mas se recusa a receber outro, calcado em questões econômicas, sociais, nacionais, etc.

O ‘ardente amor’ (ἀγάπην ἐκτενῆ), apontado pelo apóstolo Pedro, é superior ao amor fraternal, pois este deriva daquele, por ser mandamento: amai-vos ardentemente (1 Pe 1:22).

Ao falar da hospitalidade, o apóstolo Pedro recomenda o ‘amor fervente’, ou seja, o cuidado intenso, uns para com os outros. Na ‘hospitalidade’, está implícito o amor que desfaz as ofensas (1 Pe 4:9; Pv 10:12), porque o ‘ódio’, no sentido de ‘desonra’, suscita contendas, dissensões, mas o ‘amor’, no sentido de ‘honra’, encobre (dissipa) transgressões, erros.

Temos que compreender a citação do apóstolo Pedro, à luz do contexto do Livro dos Provérbios:

“O ódio excita contendas, mas o amor cobre todos os pecados” (Pv 10:12);

“Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá uma multidão de pecados” (1 Pe 4:8).

Um cristão judeu receber outro cristão, em sua residência, não importando a sua nacionalidade, é amar fraternalmente. Essa hospitalidade é o mesmo que andar, dignamente, diante de Cristo, agradando a Ele em tudo, pois se Cristo não fez acepção de pessoas e chama, a todos que creem, de irmãos (Hb 2:11), os seus seguidores não podem fazer diferente: “Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra e crescendo no conhecimento de Deus” (Cl 1:10).

Pensando na sociedade à época, a hospitalidade é pertinente a todos os cristãos. Cada qual deveria receber o outro, sem fazer comentários desairosos. De nada adiantava um cristão judeu recepcionar um cristão convertido, dentre os gentios, e, após despedi-lo, fazer gracejos, comentários e críticas sobre questões como: comidas, dias de festas, genealogias, jejuns, votos, etc. “Portanto recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu, para glória de Deus” (Rm 15:7).

Quando o apóstolo Pedro instrui a servir uns aos outros, a ideia é que cada cristão tivesse o outro em alta conta, ou seja, em honra. Além da hospitalidade, cada qual deveria servir o outro, segundo o dom que recebera de Deus, como bons despenseiros do evangelho (1 Pe 4:10).

Como despenseiros da multiforme graça de Deus, quem fala aos irmãos, para que instruam segundo as palavras de Deus; ou, para quem ministra, que ministre segundo o poder concedido por Deus (evangelho), de modo que Deus seja glorificado. Quem instrui ou, quem ministra uma palavra, que não é segundo a verdade do evangelho, não ama a seu irmão.

Que valor teria, alguém ministrar os irmãos com base em tradições e ordenanças de homens? Que valor teria alguém ensinar aos cristãos a hospitalidade, com base em preceitos de homens? Tal ensinamento promove dissensão e não o amor fraternal, segundo o evangelho! Esse ensinamento diz do ‘fermento’ dos fariseus, ou, do ‘vinho’ em que há contenda!

Falar a verdade é aspecto próprio ao fruto dos lábios, apontado pelo escritor aos Hebreus, pois, por ele, Deus é glorificado: “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz, nas vossas portas” (Zc 8:16; Ef 4:25; Hb 13:15; Jo 15:8).

Cristo é a verdade, e confessar a Cristo como Senhor, é dizer a verdade. Da mesma forma que o apóstolo Pedro, Paulo aponta qual é o modo pelo qual amamos os nossos irmãos:

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual, também, para o que é dos outros” (Fl 2:3-4).

Em poucas linhas, o apóstolo dos gentios apresenta como deve ser o amor dos cristãos, para com os irmãos. De tudo quanto o cristão vai fazer ou, deixar de fazer, que as suas ações ou omissões não sejam para promover contenda ou, para se autopromover.

Tudo quanto o cristão vai fazer ou, deixar de fazer, em relação ao seu irmão, deve ser por humildade (sujeição), ou seja, em obediência a Deus.

A ordem para se humilhar debaixo das potentes mãos de Deus, significa que é para o cristão se fazer servo de Deus (Tg 4:10; 1 Pe 5:6), assim como Cristo humilhou-se a si mesmo (se fez servo), sendo obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2:8).

Um homem livre era humilhado, se perdesse a sua condição de livre e fosse feito escravo. No evangelho, o homem deve humilhar-se a si mesmo, ou seja, se fazer escravo de Deus, crendo em Cristo (Rm 6:18).

Agora, em Cristo, o cristão recebe a ordem para amar o irmão, ou seja, tê-lo em honra. Como amar? Considerando o outro superior a si mesmo!

“… cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Fl 2:3).

– “Mas eu sou senhor de escravos”! O dever como servo de Cristo, é considerar o irmão que é escravo, superior a si mesmo! – “Mas eu sou cidadão Romano”! O dever é considerar todos os outros cristãos como superior a si mesmo! – “Mas eu sou Judeu”! O dever é não fazer acepção de pessoas!

O amor bíblico está acima de um sentimento para com o outro, pois é um mandamento! A afeição somente vai aflorar com o tempo e pela inteiração que surge das relações entre aqueles que amam a Deus!

Na comunidade de Filipos reuniam servos e livres, homens e mulheres, judeus e gregos, sábios e ignorantes, etc., mas cada um tinha que considerar o outro como superior a si mesmo, ou seja, em alta conta, em honra. Isto é amor, como mandamento, diferente do afeto entranhável, que é sentimento.

Se os membros daquela comunidade compreendiam a essência do evangelho, deveriam entender que, no corpo de Cristo “… não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3:28).

Assim como no corpo damos honra aos membros que possuem menos honra, assim, também, deve ser o comportamento do cristão para com o seu irmão:

“E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos, damos muito mais honra. Porque os que, em nós, são mais nobres, não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela; Para que não haja divisão no corpo, mas, antes, tenham os membros igual cuidado uns dos outros” (1 Co 12:23-25)

Quem faz por humildade, cumpre o que é ordenado:

“Sujeitando-vos uns aos outros, no temor de Deus” (Ef 5:21);

“Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor” (Ef 5:22);

“Vós, mulheres, estai sujeitas a vossos próprios maridos, como convém no Senhor” (Cl 3:18);

“Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana, por amor do Senhor; quer ao rei, como superior” (1 Pd 2:13);

“Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hb 13:17).

Sujeitar-se a Cristo (jugo), obriga o cristão a carregar o fardo de Jesus, que é leve. O jugo é tomado quando se crê em Cristo, já o fardo refere-se ao dever de honrar o irmão, suportando uns aos outros, em amor.

“ROGO-VOS, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros, em amor(Ef 4:1-2).

Suportar uns aos outros é um fardo decorrente do jugo, portanto, não é agradável, ou, decorrente de afeição, mas, por sujeição ao mandamento do Senhor: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:29-30).

É agradável um cristão, convertido dentre os judeus, receber em casa um grego? Como ser hospitaleiro, contrariando uma gama de tradições herdada dos pais? Como adentrar a casa de um gentio, se não for por amor (sujeição a Deus)? Como conceder a mão de uma filha a alguém que não é da minha nação? Etc.

“E foi-lhe dirigida uma voz: Levanta-te, Pedro, mata e come. Mas Pedro disse: De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda. E segunda vez lhe disse a voz: Não faças tu comum ao que Deus purificou” (At 10:13-15).

“E disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo. Por isso, sendo chamado, vim sem contradizer. Pergunto, pois, por que razão mandastes chamar-me?” (At 10:28-29).

Cada cristão deve aprender de Cristo, que é humilde e manso de coração, para poder, com longanimidade, em humildade e mansidão, suportar o outro em obediência (amor) a Deus!

Daí a ordem para os servos:

“E os que têm senhores crentes não os desprezem, por serem irmãos; antes, os sirvam melhor, porque eles, que participam do benefício, são crentes e amados. Isto ensina e exorta” (1 Tm 6:2).

Recomendação semelhante aos senhores:

“VÓS, senhores, fazei o que for de justiça e eqüidade a vossos servos, sabendo que também tendes um Senhor nos céus” (Cl 4:1);

“E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças, sabendo também que o SENHOR deles e vosso está no céu, e que para com ele não há acepção de pessoas” (Ef 6:9).

Observe:

“Ninguém oprima ou engane a seu irmão, em negócio algum, porque o SENHOR é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos. Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação. Portanto, quem despreza isto não despreza ao homem, mas, sim, a Deus, que nos deu também o seu Espírito Santo. Quanto, porém, ao amor fraternal, não necessitais de que vos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus, que vos ameis uns aos outros; Porque também já assim o fazeis, para com todos os irmãos, que estão por toda a Macedônia. Exortamo-vos, porém, a que ainda nisto aumenteis cada vez mais” (1 Ts 4:6-10).

O apóstolo Paulo instruiu aos cristãos que não oprimam ou enganem o outro, em negócio algum. De modo que, quem despreza a ordenança transmitida pelo apóstolo Paulo, na verdade despreza a Deus, que também concedeu a ele o Espírito Santo. Essa ordem alcança, tanto senhores, quanto servos, gentios ou judeus, homens ou mulheres.

Amar uns aos outros, é instrução dada por Deus, o que deve ser feito sem distinção (nacionalidade, língua, condição social, etc.) para com todos. Esse serviço deve aumentar cada vez mais (1 Ts 3:12; 1 Ts 4:1, 10). Como? Acrescentando à fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraternal e ao amor fraternal, o amor (2 Pd 1:5-7).

Se todos os elementos apontados pelo apóstolo Pedro forem acrescentados uns aos outros, o cristão não será ocioso e nem deixará de produzir (2 Pd 1:8). Daí a necessidade de oobediência ao mandamento: ter o outro em alta conta, ou seja, em consideração. “E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb 10:24). [6]

Se um judeu quiser viver como judeu, não há problema algum, mas, pelo dever de honrar a seu irmão, não pode impor aos outros, as suas práticas, herdadas por tradição, dos seus pais. Um cristão convertido, dentre os judeus, que se sujeita ao Senhor, deve reger as suas atitudes, em submissão ao Senhor: sem fazer acepção de pessoas.

Por essa razão, o apóstolo Paulo repreendeu o apóstolo Pedro:

“E, chegando Pedro a Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível. Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, foi se retirando e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus, também, dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não andavam bem e corretamente, conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro, na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (Gl 2:11-14).

Emquanto comia com os gentios, o apóstolo Pedro amava os gentios, segundo o mandamento de Deus. Mas, por causa da chegada de alguns cristãos convertidos dentre os judeus, juntamente com Tiago, o apóstolo Pedro separou-se dos cristãos convertidos dentre os gentios, deixando de honrá-los (cuidando, honrando): “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23).

O mandamento do amor não visa implantar ou promover filosofias, dogmas, ritos, legalismos, formalismos, e nem tem por base questões de ordem econômica ou, social. Assistência social não é o mesmo que amar.

O mandamento do amor deriva do evangelho, pois é um complemento que orna a doutrina do evangelho. Se for de valia para a edificação do corpo de Cristo, cada cristão deve agradar a seu irmão, no que é bom para crescimento do corpo de Cristo.

“Portanto, cada um de nós agrade ao seu próximo, no que é bom para edificação. Porque, também Cristo não agradou a si mesmo, mas, como está escrito: Sobre mim caíram as injúrias dos que te injuriavam” (Rm 15:1-2);

“Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros” (Rm 14:19).

A essência do mandamento do amor é para que os cristãos andem, segundo o evangelho de Cristo, que desfez a barreira de separação entre judeus e gentios (Ef 2:14). Se não há barreira entre judeus e gentios no corpo de Cristo, como um membro do corpo deve portar-se em relação ao seu irmão?

Embora a realidade em Cristo seja a reconciliação de judeus e gentios, pois de dois povos fez um, viver essa nova realidade demandava boa compreensão da verdade do evangelho, bem como abrir mão de convicções que eram tão caras aos cristãos, quando ainda na ignorância.

Os cristãos convertidos dentre os judeus não podiam julgar os cristãos convertidos dentre os gentios, e nem esses por tropeço ou escândalo àqueles e vice versa: “Assim que não nos julguemos mais uns aos outros; antes, seja o vosso propósito não por tropeço ou escândalo ao irmão” (Rm 14:13).

“Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece ou, se escandalize ou, se enfraqueça” (Rm 14:21).

 

Amor como mandamento

“Isto vos mando: Que vos ameis uns aos outros” (Jo 15:17).

Por que Jesus ordena aos seus discípulos que se amem uns aos outros? Essa capacidade não deveria ser nata do indivíduo nascido de novo?

“Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós, uns aos outros, vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13:35).

Além de ordenar aos seus discípulos, que amem uns aos outros, Jesus se interpôs como exemplo, pois Ele também havia amado todos eles. Os discípulos deveriam amar uns aos outros, para que os homens conhecessem que eles eram, verdadeiramente, discípulos de Jesus. Como entender isso?

Para compreender como as pessoas reconhecem os seguidores de Jesus, faz-se necessário lembrar que Jesus amou ao Pai, obedecendo a Ele em tudo! Ao obedecer ao Pai, Jesus amou o Pai e permaneceu ao abrigo do amor (cuidado) do Pai.

“Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15:9-10);

“Mas, é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Para permanecer sob o cuidado (amor) de Cristo, os cristãos devem guardar os seus mandamentos, pois foi assim que Jesus permaneceu sob o amor do Pai e tornou possível ao mundo saber que Ele amava o Pai.

E como o mundo soube que Jesus amava o Pai? Pelo fato de Jesus não se sujeitar às tradições dos anciãos e nem comungar da religião dos escribas, fariseus e saduceus.

O amor de Cristo para com o Pai se vê quando Ele, na forma de homem, se humilhou, fazendo-se servo, sendo obediente até a morte e morte de cruz (Fl 2:8).

O amor de Cristo para com os discípulos e para com a humanidade se vê em atitudes como:

  1. quando Jesus comia sem lavar as mãos (Mc 7:2 -5) ou;
  2. quando operava sinais e maravilhas nos sábados (Mc 2:24) ou;
  3. por não jejuar e nem ordenar tal aos seus discípulos (Mt 9:17) ou;
  4. quando se assentava para comer com os cobradores de impostos e os gentios (Mt 9:11) ou;
  5. quando deixou ser tocado por uma pecadora (Lc 7:37-39), etc.

Se Jesus seguisse as ordenanças dos anciões, não seria possível ver distinção entre o evangelho e o judaísmo. Mas, ao amar os seus discípulos, Jesus se santificou a Si mesmo, ou seja, se manteve separado das práticas dos seus concidadãos.

“Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:18-19).

O Senhor Jesus teve o cuidado de manter-se separado da doutrina e das práticas dos seus concidadãos, para que homens de todos os povos, nações e línguas soubessem que Ele, verdadeiramente, obedeceu a Deus.

Da mesma forma que Cristo veio ao mundo, como O enviado de Deus, enviou os seus seguidores e esses, por sua vez, foram santificados na verdade (em Cristo) e comissionados a amarem uns aos outros.

Após ser instruído por Deus, quão grande amor não demonstrou o apóstolo Pedro, ao entrar na casa da família de Cornélio? (At 10:27-28) Que cuidado demonstrou o apóstolo Pedro, ao recepcionar e ao hospedar os homens enviados por Cornélio! (At 10:23)

Mas, e se Deus não desse a visão de um vaso, que desceu dos céus, como um grande lençol, com toda a sorte de animais, incluindo os considerados imundos? E se Deus não instruísse, que não era para o apóstolo Pedro ter como imundo ou comum o que Deus purificou? (At 10:15)

Ao entrar na casa de Cornélio, o apóstolo Pedro estava dando um testemunho público de que era um seguidor de Cristo. No simples ato de hospedar estrangeiros em sua casa, o apóstolo Pedro estava amando, por obra e em verdade. Mas, quando dissimulou e foi repreendido pelo apóstolo Paulo, o apóstolo Pedro estava amando só de palavra e de língua! (1 Jo 3:18)

Ao abordarmos o amor como mandamento, fugimos do subjetivismo, decorrente do pensamento recente da humanidade, que é próprio ao humanismo[7]. O amor bíblico não é incondicional, nem baseado no comportamento para com os outros[8], como disse James C. Hunter, antes, deriva do mandamento de Deus: crer em Cristo e amar uns aos outros, segundo o que Ele ordenou.

No amor como mandamento não temos sensibilidade e nem afeição, pois como afirma Emery, o sentimento por si só não é amor, apesar da definição equivocada que ele apresenta de que ‘O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão’ [9].

O evangelista João narra que, antes da festa da páscoa, Jesus, sabendo que era a hora de partir desse mundo, por amar aos seus discípulos, os amou até o fim (Jo 13:1). O evangelista João descreveu um sentimento? Não! Ele narrou o cuidado que Jesus dispensou aos seus discípulos, ao instrui-los até o fim.

Durante a ceia, Jesus se levantou, tirou a vestimenta de cima e cingiu-se com uma toalha (Jo 13:4). Depois, colocou água em uma bacia e passou a lavar os pés aos discípulos. Após terminar de lavar os pés de todos os discípulos, retomou as suas vestes, voltou para a mesa e questionou:

“Entendeis o que eu fiz” (Jo 13:12).

Os discípulos chamavam Jesus de Mestre e Senhor e Jesus se declarou Mestre e Senhor, para demonstrar que, do mesmo modo que cuidou dos seus discípulos até o último dia, eles também deviam cuidar uns dos outros (Jo 13:14).

Jesus se interpôs como exemplo, para que os seus discípulos fizessem o mesmo: cuidassem uns dos outros. Ao amarem (cuidarem) uns aos outros, seriam bem-aventurados (Jo 13:17).

“Cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual, também, para o que é dos outros” (Fl 2:3-4).

Os cristãos judeus. para amarem, deveriam ter em honra os cristãos gentios; os senhores cristãos deveriam considerar os seus escravos cristãos em alta conta; os homens cristãos deveriam horar as mulheres cristãs; os cristãos romanos honrarem os cristãos pertencentes às outras nações, etc., pois, amar, decorre de honrar, a essência do termo grego αγαπη (agapē).

Sacrifício, como dar o corpo para ser queimado, não é amor ao mandamento de Deus. Desfazer-se de riquezas aos pobres, não é o amor exigido por Deus (1 Co 13:3). Alimentar os desvalidos, doar bens, assistencialismo, etc., não é o mandamento de Deus.

Isso não significa que esteja vetado aos cristãos fazer doações e caridades. Mas, o cristão deve ter o conhecimento necessário para compreender que causas sociais (feminismo, abolicionismo, sindicalismo, dignidade da pessoa, igualdade, etc.), não é a essência do mandamento de Deus.

Quando lemos o seguinte trecho da primeira epistola de João:

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade. Mas, qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele, verdadeiramente, aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele. Aquele que diz que está nele, também, deve andar como ele andou. Irmãos, não vos escrevo mandamento novo, mas o mandamento antigo, que desde o princípio tivestes. Este mandamento antigo é a palavra que desde o princípio ouvistes. Outra vez vos escrevo um mandamento novo, que é verdadeiro nele e em vós; porque vão passando as trevas e já a verdadeira luz ilumina. Aquele que diz que está na luz e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas e anda em trevas e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos” (1Jo 2:3 -11).

Temos que compreender que só sabemos que estamos em comunhão com Deus, quando cumprimos o seu mandamento (vs. 3-5). Mas, quem diz estar em comunhão com Deus, deve andar como Cristo andou, não fazendo acepção de pessoas e nem julgando os outros pela aparência (Tg 2:1).

Em razão disto, aquele que diz amar a Deus, mas não aceita o outro irmão por causa da sua nacionalidade, condição social, língua, etc., é homicida, pois odeia o seu irmão e permanece nas trevas.

Ora, os seguidores de Jesus têm que obedecê-lo quanto ao ide: Ide por todo mundo, ou seja, fazei discípulos de todos os povos (Mt 28:19; Cl 1:23).

Como um cristão judeu prega o evangelho se considera os gentios comuns ou imundos? Como evangelizá-los sem se assentar em uma mesa para comer?

O mundo só compreenderá que um judeu é seguidor de Cristo, se ele abrir mão dos seus costumes herdados dos seus pais.

A humanidade só sabe que Abraão creu em Deus porque ele, em obediência, apresentou a Deus o seu único filho, em holocausto. Só entendemos que Raabe obedeceu a Deus, por ter recebido os espias e colocado o cordão de cor vermelha na janela de sua casa (Tg 2:23, 25).

Quem ama o seu irmão não tem em si escândalo, pois, como chamará alguém de irmão e membro do corpo de Cristo, se recusar comungar de uma mesma mesa, ou rejeitar hospedá-lo?

Se o crente, pelo evangelho, chama a Deus por Pai, e entende que o seu irmão em Cristo, não importando nacionalidade, é coerdeiro com Cristo, que prove o seu amor, estendendo, também, a destra da comunhão, em todos os sentidos (Gl 4:6).

Aquele que ama a seu irmão que vê e desconsidera tudo o que a sua perspectiva humana desaprova, verdadeiramente, creu em Deus que não vê (1Jo 4:20-21).

“Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas, por causa da tua comida, aquele por quem Cristo morreu” (Rm 14:15).

 


[1] “Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701. “agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114. “Na LXX, agapaõ se emprega, de preferência, para traduzir o verbo heb. Ãhèb. O subs. agapè acha aqui a sua origem, ao representar o Heb. ’ah bâk. O vb. Ocorre, muito mais, frequentemente, do que o subs. ’ahèb e pode se referir, tanto a pessoas, como a coisas, e denota, em primeiro lugar, o relacionamento de seres humanos entre si, e, em segundo lugar, o relacionamento entre Deus e o homem (…) Na LXX (Septuaginta), surge diante de nós um quadro bem diferente’; phileõ, ocorre raras vezes, enquanto o vb. agapaõ, e o subs. agapè (doutra forma, quase, inteiramente, desconhecido no Gr.) se acham a cada passo. Não é possível discernir se se empregam conforme regras fixas, pois phileò (30 vezes), tal como agapaò (cerca de 263 vezes), geralmente traduz o Heb. ahèb (e.g. Gn 27:4 e segs.; 37:4 [cf. 37:3]; Is 56:10; Pv 8:17 [cf. 8:21]). Embora o Heb. tenha uma gama inteira de palavras para expressar o conceito contrário do ódio (enquanto a LXX só tem a palavra única miseõ – Inimigo, art. miseõ), tem, virtualmente, a única raiz .ahèb à sua disposição para a gama de sentimentos, que se associam com o amor. O Gr., de outro lado, tem várias raízes e palavras derivadas para expressar as várias matizes do amor: philia (38 vezes), que geralmente traduz ‘aheb, ’ahabâh, é comparativamente rara, embora philos (cerca de 181 vezes), que, geralmente, traduz rèa, embora, frequentemente, sem equivalente heb., seja mais comum na LXX” Idem. Págs. 114 e 121.

[2] “4698 σπλαγχνον splagchnon provavelmente fortalecido de splen (“baço”); TDNT – 7:548,1067; n n 1) entranhas, intestinos, (coração, pulmão, fígado, etc.) 1a) entranhas 1b) as entranhas eram consideradas como a sede das paixões mais extremas, tal como o ódio e o amor; para os hebreus, a sede das afeições mais sensíveis, esp. bondade, benevolência, compaixão; daí, nosso coração (misericórdia, afetos, etc.) 1c) coração no qual reside misericórdia” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “1785 εντολη entole de 1781; TDNT – 2:545,234; n f 1) ordem, comando, dever, preceito, injunção 1a) aquilo que é prescrito para alguém em razão de seu ofício 2) mandamento 2a) regra prescrita de acordo com o que um coisa é feita 2a1) preceito relacionado com a linhagem, do preceito mosaico a respeito do sacerdócio 2a2) eticamente usado dos mandamentos da lei mosaica ou da tradição judaica” Dicionário Bíblico Strong.

[4] “A obediência exigida por Deus, que aceita em todas as nossas ações a vontade pelos atos, é um esforço sério de lhe obedecer e é também denominada com todos aqueles nomes que significam esse esforço. E, portanto a obediência é umas vezes denominada com os nomes de caridade e amor, porque implicam a vontade de obedecer e, mesmo nosso Salvador, faz de nosso amor a Deus e ao próximo um cumprimento de toda a lei”. Hobbes de Malmesbury, Thomas, Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil, Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva.

[5] “1097 γινωσκω ginosko forma prolongada de um verbo primário; TDNT – 1:689,119; v 1) chegar a saber, vir a conhecer, obter conhecimento de, perceber, sentir 1a) tornar-se conhecido 2) conhecer, entender, perceber, ter conhecimento de 2a) entender 2b) saber 3) expressão idiomática judaica para relação sexual entre homem e mulher 4) tornar-se conhecido de, conhecer” Strong, James Dicionário Bíblico Strong, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong, Ed. Sociedade Bíblica do Brasil:2002.

[6] “2657 κατανοεω katanoeo de 2596 e 3539; TDNT – 4:973,636; v 1) perceber, notar, observar, entender 2) considerar atenciosamente, fixar os olhos ou a mente em alguém” Dicionário Bíblico Strong.

[7] “Humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como principais, numa escala de importância, no centro do mundo. É uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, às aspirações e às capacidades humanas, particularmente a racionalidade”, Wikipédia.

[8] “… os gregos usavam o substantivo ágape e o verbo correspondente agapaó para descrever um amor incondicional, baseado no comportamento com os outros, sem exigir nada em troca. E o amor da escolha deliberada. Quando Jesus fala de amor no Novo Testamento, usa a palavra ágape, um amor traduzido pelo comportamento e pela escolha, não o sentimento do amor”. HANTER, James C., O monge e o executivo. Tradução Maria da Conceição F. de Magalhães. Rio de Janeiro: Sextante, 2004. Pág. 76.

[9] “Assim como existe uma mente mais alta que a nossa, semelhantemente, existe um coração maior que o nosso. Deus não é, simplesmente, Aquele que ama; Ele é igualmente o Amor que é amado. Há uma infinita vida de sensibilidade e afeição em Deus. Deus tem sensibilidade em grau infinito. O sentimento, por si só, porém, ainda não é amor. O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão…” Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, Doutrinária e Conservadora, Editora Batista Regular, São Paulo, 2001, pág. 73.




Deus olha para você através de Cristo?

Deus é santo! Esta verdade é apresentada em várias passagens bíblicas. Deus é santo e imutável, ou seja, quer os homens acreditem ou não, Deus é santo. Quer bendigam a santidade de Deus ou não, Ele permanecerá Santo pela eternidade.


Deus olha para você através de Cristo?

“E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:18 ).

Introdução

Para enaltecer a santidade de Deus muitos pregadores ensinam que, para não ver o pecado, Deus olha para o crente através de Cristo. Argumentam que, apesar de crer em Cristo, o crente ainda é pecador.

Escritores renomados corroboram este pensamento e, dentre eles, destaco esta frase:

“Não entenda isto mal. O significado, não é que haja algo que cobre os nossos pecados ao ponto que Deus não os vê. Não é o caso de que eles realmente estão lá mas Deus não os vê porque eles estão encobertos. Coberto nem mesmo significa que os pecados de alguém estão escondidos sob Cristo, como se costuma dizer. O facto é que Deus olha através de Cristo” Fonte: Righteous by Faith Alone, Herman Hoeksema, Reformed Free Publishing Association, capítulo 21 (grifo nosso). Consulta realizada em 04/01/2012.

Analisando a asserção: “O facto é que Deus olha através de Cristo” à luz das Sagradas Escrituras, verifica-se que Hoeksema procurou evidenciar o mérito da obra de Cristo, contrastando-a com o demérito da condição do homem diante de Deus.

A premissa construída para evidenciar a santidade de Deus, afirmando que Deus é tão santo que, para olhar para o crente, precisa olhar através de Cristo para não ver pecado, carece de ser considerada à luz das Escrituras.

É bíblico este posicionamento? Quando olha através de Cristo Deus não vê pecado no crente porque eles estão encobertos?

 

Vós sois o templo de Deus

Para responder esta pergunta, utilizaremos como ponto de partida uma pergunta do apóstolo Paulo aos cristãos de Corintos: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ).

A verdade de que os cristãos são templos de Deus era tão evidente para o apóstolo dos gentios que a pergunta aos Corintos é uma reprimenda!

Está é uma verdade que permeia todo o Novo Testamento:

  • “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 );
  • “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 );
  • “E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” ( 2Co 6:16 );
  • “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” ( 1Co 3:17 );
  • “No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:22 ).

Verdade que deriva das promessas feitas no Antigo Testamento:

  • “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 );
  • “Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo” ( Sl 51:11 );
  • “E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:27 ).

Se para olhar para aquele que creu no evangelho é necessário Deus olhar através de Cristo, o que é necessário para que Deus venha habitar o crente? O que é mais profundo: ‘olhar’ ou ‘habitar’ o crente?

Em que a santidade de Deus não é maculada se Ele olhar através de Cristo para contemplar o crente, se na verdade, em primeira instância Ele habita o crente? “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada ( Jo 14:23 ).

Como conciliar o argumento de que, para não contemplar o pecado no crente Deus necessita olhar através de Cristo, se não há nenhum obstes na Bíblia com relação ao crente ser templo, morada de Deus.

Se aceitarmos a tese de Hoeksema que Deus olha para o crente através de Cristo apesar de haver pecado no crente, Cristo torna-se uma espécie de lente, prisma, etc., que possibilita Deus, que é santo, olhar para o crente; a lente cria uma ilusão de ótica de modo que Deus passa a contemplar o crente sem ver o pecado e, ao mesmo tempo Deus se guia pelo que passou a enxergar através de Cristo e ignora o fato de haver pecado no crente; no entanto, apesar do pecado, Deus habita o crente. Seria isto possível?

Existe também o testemunho de Deus de que Ele não habita em templo feito por mãos humanas ( At 17:24 ), e por isso mesmo, Se propôs construir o seu templo para habitá-lo através do seu próprio braço (Cristo) ( Ef 2:22 ; 1Pe 2:5 ; Hb 3:4 -6 ), no entanto, Hoeksema afirma que Deus vê pecado no templo que Ele mesmo está construindo e, que só é possível olhar o seu próprio templo através de Cristo?

“No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:22 )

O crente é templo de Deus, ou não é? Há pecado no crente, ou não há? O templo de Deus é santo, ou não é?

Deus exige do homem que o seu falar seja segundo a verdade, pois o que passa da verdade é de procedência maligna “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna” ( Mt 5:37 ).

Deus pode deixar de ver o pecado onde há pecado coberto? Haveria alguma coisa encoberta aos olhos de Deus? “E …antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar”  (Hebreus 4 : 13)

O apóstolo Paulo demonstra que efetivamente o templo de Deus, que são os cristãos, é santo: “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” ( 1Co 3:17 ). Ora, o templo de Deus é santo, portanto não pode haver no templo, que pertence e está sendo construído por Deus, pecado. Por fim, o templo de Deus que é santo diz dos crentes: ‘o templo de Deus, que sós vós, é santo’!

Neste mesmo sentido alertou o apóstolo: “Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” ( 1Co 6:19 ).

Não podemos esquecer que, cada cristão individualmente é membro uns dos outros, porém, apesar de haver muitos cristãos, todos são um só corpo em Cristo “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ).

Considerando que Cristo é santo e é a cabeça do seu corpo, segue-se que o corpo de Cristo, que é a igreja, por sua vez, também é santo. É inconcebível um corpo ter condição diversa da condição da cabeça, ou seja, a cabeça ser santa e o corpo imundo, pois deste modo não haveria unidade “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” ( Cl 2:10 ); “Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” ( Ef 5:27 ).

Cristo é a pedra angular preciosa que Deus estabeleceu como fundamento da igreja, e o templo é edificado por Deus com pedras vivas, ou seja, os cristãos Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pd 2:5 ); “Porque toda a casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus” ( Hb 3:4 ).

Mas, alguém pode protestar dizendo: nesta passagem o apóstolo Paulo está falando do corpo místico, e não de cada crente em particular. Ora, só há o corpo místico se considerarmos que cada cristão em particular é um só pão em Cristo. O templo santo só é erguido porque há um fundamento posto, que é Cristo, a pedra eleita e preciosa, e igualmente cada cristão é uma pedra viva “Do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor” ( Ef 4:16 ); “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 )

Antes de ser crucificado, Cristo rogou por sua igreja dizendo: “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós ( Jo 17:11 ); Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” ( Jo 17:21 ); “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um ( Jo 17:22 ).

Há unidade entre Cristo, o Pai e a igreja, e esta unidade não é somente de ‘olhar através de Cristo’, antes é unidade derivada de comunhão íntima em virtude de Cristo ter concedido aos que creem n’Ele a mesma glória que Deus deu a Cristo. Jesus concedeu a mesma glória que foi dada pelo Pai aos que creram para que os cristãos sejam um, como o Pai e o Filho são um. A unidade do Pai, o Filho e os cristãos diz de comunhão intima: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos ( Ef 5:30 ); “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” ( 1Co 12:27 ).

Não há nenhuma comunhão entre a Luz e as trevas, pois Jesus disse: “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ). Deus é luz e qualquer que está em Cristo, está em Deus e Deus está nele “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus ( 1Jo 4:15 ).

Confessar, admitir que Jesus é o Filho de Deus segundo as Escrituras, significa ter comunhão, adentrar na Luz que não tem trevas nenhuma, e que a Luz que não tem trevas entrou nele. Ora, se aquele que crê em Cristo está em Deus, segue-se que não há trevas nenhuma nele, pois se houvesse, seria impedido de estar em Deus, pois não há comunhão entre a Luz e as trevas.

A promessa de Deus é perfeita: qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está aperfeiçoado verdadeiramente nele. Qual é a palavra a ser guardada, obedecida? A palavra, o mandamento a ser obedecido é: crer em Cristo como o Filho do Deus vivo, assim como diversas pessoas confessaram nas Escrituras “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado” ( 1Jo 3:23 -24; Jo 6:69 ; Jo 11:27 ; Mt 16:16 ).

Qualquer que creu em Cristo obedeceu ao mandamento de Deus e passou a estar em Deus: “Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele ( 1Jo 2:5 ); “Nisto conhecemos que estamos nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito” ( 1Jo 4:13 ).

Ao crer, o homem passa a pertencer a Deus “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ); “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

Aquele que está em Cristo é uma nova criatura “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Ora, se o crente está em Cristo é nova criatura, de modo que Cristo também está no crente “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” ( 2Co 13:5 ).

Sendo o crente uma nova criatura, está em Cristo, e se está em Cristo, consequentemente, está em Deus “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” ( 1Jo 5:20 ).

Para estar em Deus através de Cristo, foi necessário Deus fazer tudo novo, de modo que, sem Cristo o homem é trevas, mas ao crer, o cristão torna-se luz no Senhor “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” ( 1Ts 5:5 ); “Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” ( Mt 5:14 ).

Deus não só tirou aqueles que creram da potestade das trevas e os transportou para o reino de Cristo, Ele também os fez luz “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ).

Ao crer o cristão recebeu poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ), portanto, é filho da luz. E se é filho da luz, agora é luz. Deus é a verdade, e se o crente esta em Cristo, que é a verdade, é verdadeiramente livre, pois tem comunhão com a verdade! Conheceu a verdade! “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” ( Jo 8:31 -32); “Portanto, o que desde o princípio ouvistes permaneça em vós. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis no Filho e no Pai” ( 1Jo 2:24 ).

Permanecer na palavra de Cristo é fazer a vontade de Deus, e aquele que crê na palavra do Evangelho permanece para sempre “E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” ( 1Jo 2:17 ); “Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pd 1:25 ); “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

O apóstolo João demonstra que os que creem em Cristo conhecem a Deus e Deus está nele “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor” ( 1Jo 4:12 ). Por ter dado da sua palavra (espírito) aos que creem é possível saber que todos quantos creem estão em Deus e Deus neles “Nisto conhecemos que estamos nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito” ( 1Jo 4:13 ).

Cristo é o amor de Deus demonstrado ao mundo, e quem está no amor de Deus está em Deus e Deus nele “E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo. Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus. E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele ( 1Jo 4:14- 16).

E o mais importante: Qual Cristo é, o cristão o é igualmente neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo ( 1Jo 4:17 ). Assim como os filhos de Adão são como o primeiro homem, de igual modo, os filhos de Deus são tal qual o último Adão: homens espirituais “Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais ( 1Co 15:48 ).

  • Jesus é o Filho de Deus, os que creem são filhos de Deus ( 1Jo 3:1- 2; Gl 3:26 );
  • Jesus é luz, os que creem são luz no Senhor ( Ef 5:8 );
  • Jesus é pedra viva, os cristãos são pedras vivas ( 1Pd 2:5 );
  • Jesus é o fundamento dos apóstolos e dos profetas, os cristãos são edificados casa espiritual sobre o fundamento de Deus que é firme ( Ef 2:20 -22);
  • Jesus é o pão que dá vida ao mundo, os cristãos são pão ( 1Co 10:17 );
  • Jesus é o sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, os que creem exercem sacerdócio real ( 1Pd 2:9 );
  • Jesus assentou-se a destra do Pai nas alturas, os cristãos estão assentados nas regiões celestiais ( Ef 13 e 2:6 ).

Os cristãos foram gerados de novo através da ressurreição de Jesus ( 1Pd 1:3 ; Cl 2:12 -13 ; Cl 3:1 ). Foram gerados de uma semente incorruptível ( 1Pd 1:23 ), e são participantes da natureza divina ( 2Pd 1:4 ; Cl 2:10 ).

Ora, após tudo o que Deus realizou naqueles que creem, sendo certo que Cristo foi manifesto como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo ( Jo 1:29 ), como é possível haver pecado no crente, se o crente está em Cristo? Como é possível haver pecado no crente se o crente é nova criatura? Se em Cristo não há pecado, como um pecador pode estar em Cristo? “E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado ( 1Jo 3:5).

Em Cristo não há pecado, assim como em Deus não há trevas nenhumas, portanto, qualquer que está em Cristo é luz e não tem pecado algum. Deste modo, Deus conhece o crente ( Gl 4:9 ), pois habita no crente. O termo ‘conhecer’ não é saber acerca de, ou ver através de Cristo, antes significa comunhão intima, um só corpo.

 

‘Santo’ versus ‘imundo’

“E que comunhão tem a luz com as trevas?” ( 2Co 6:14 )

Deus é santo! Esta verdade é apresentada em várias passagens bíblicas. Deus é santo e imutável, ou seja, quer os homens acreditem ou não, Deus é santo. Quer bendigam a santidade de Deus ou não, Ele permanecerá Santo pela eternidade.

As Escrituras também demonstram que o Santo não tem comunhão com o imundo. – “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ), está foi uma asserção que o evangelista João ouviu de Jesus e anunciou aos cristãos. Não há comunhão entre a Luz e as trevas, portanto, na luz não pode haver sequer uma mínima sombra!

O que faz separação entre o Santo e o imundo, entre a Luz e as trevas?

Deus disse ao povo de Israel: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” ( Is 59:2 ). O pecado é o que faz divisão entre os homens e Deus, de modo que toda a humanidade estava alienada de Deus, pois todos pecaram “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ).

Apesar de o povo de Israel pensar que havia alguma diferença entre gentios e judeus, que os judeus eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão e o gentios não, o protesto do profeta Isaías foi direcionado aos judeus: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” ( Is 59:2 ).

Em virtude da acusação das Escrituras que pesava contra os judeus é que o apóstolo Paulo argumenta: ‘porque não há diferença’ ( Rm 3:22 ), pois tudo o que a lei diz, diz aos que receberam a lei e estavam debaixo da lei, ou seja, aos judeus. Deste modo, todo o mundo é condenável diante de Deus: judeus e gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” ( Rm 3:19 -20).

Tudo o que o apóstolo Paulo escreveu contra os judeus foi segundo as Escrituras, conforme se lê: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” ( Rm 3:10 -18).

Mas, tanto judeus quanto gentios se tornaram imundos? Quando foi que isto ocorreu? Ora, toda a humanidade tornou-se imunda e alienada de Deus em um único evento: a ofensa de Adão no Éden. Quando Adão pecou, todos pecaram. Quando Adão recebeu a pena, todos foram apenados com a morte, ou seja, com a alienação de Deus “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ).

Certa feita os discípulos perguntaram a Jesus: – ‘Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?’ ( Jo 9:2 ). Jesus respondeu: – “Nem ele pecou nem seus pais” ( Jo 9:3 ). Ora, com relação a cegueira, o cego nasceu cego para que as obras de Deus fossem manifestas, porém, a pergunta persiste: Quem pecou? Pois todos pecaram ( Rm 3:23 )!

Ora, há um só que pecou: Adão “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores…” ( Rm 5:19 ). Por causa da ofensa de Adão, todos se extraviaram. A ofensa de Adão trouxe maldição, morte, trevas, alienação, para todos os homens, mesmo que os homens não tenha transgredido a semelhança da transgressão de Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão…” ( Rm 5:14 ).

O que o apóstolo Paulo disse com o verso acima? Que mesmo a humanidade não tendo comido do fruto do conhecimento do bem e do mal como Adão e Eva comeram lá no Éden, a morte passou a todos os seus descendentes: a humanidade, portanto, todos pecaram “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ); “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22).

Isto significa que o homem é concebido e gerado em pecado, ou seja, que desde a ofensa do homem no Éden, a humanidade separou-se de Deus ( Sl 51:5 e Sl 58:3 ). Ora, o homem é pecador em função da sua geração. A geração do homem segundo Adão é má, e todos os seus descendentes são maus. Não importa se saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, todos os homens nascidos segundo a semente de Adão são maus, são trevas, vasos de desonra, plantas que o pai não plantou, alienados de Deus, mortos em delitos e pecados, etc.

Agora podemos responder a pergunta: O que faz separação entre o Santo e o imundo, entre a Luz e as trevas? Como a humanidade tornou-se imunda e separada de Deus?

A resposta está no Éden! Lá todos pecaram e foram destituídos de terem comunhão com Deus. Deus é luz e a humanidade passou a condição de trevas por dar ouvidos à serpente (criatura) e não ao Criador. Lá no Éden o homem separou-se de Deus, tornou-se morte, tornou-se imundo. Foi em função de uma única ofensa que toda a humanidade (juntamente) tornou-se imunda “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

Quando desobedeceu ao Criador, Adão não somente se vendeu ao pecado, como também vendeu toda a sua descendência e, consequentemente, todos os descendentes de Adão são escravos do pecado. O pecado como senhor assalaria os seus servos com a morte, de modo que a humanidade é refém, cativa (aguilhão) do pecado por causa da morte “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

A força do pecado não advém do diabo, como muitos pensam, visto que o próprio diabo está retido sob o domínio do pecado. A força do pecado decorre da lei que disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17).

A palavra de Deus não volta vazia! Se Ele determinou, é irrevogável! Como o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal, às consequências vieram: a) alienação de Deus (morte), e; b) o conhecimento do bem e do mal (como Deus).

A separação de Deus (pecado) dos que não creem persiste por causa da lei que disse: certamente morrerás. Enquanto não crerem em Cristo para se conformarem com Cristo na sua morte, não tem acesso à maravilhosa graça que se dá na ressureição com Cristo ( Fl 3:10 ).

 

Remissão

“Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado” ( Hb 10:18 )

Outro ponto das consequências do pecado esta na seguinte premissa: “A alma que pecar, esta mesma morrerᔓA alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” ( Ez 18:20 ).

O salário do pecado é a morte! Não há como o pecador não receber o seu quinhão.

Mas, Cristo Jesus deu a si mesmo para remir o homem de toda a iniquidade, purificando um povo para si “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” ( Tt 2:14 ); “Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” ( Gl 4:5 ).

Por causa do pecado da humanidade, Cristo Jesus apresentou-se como sacrifício a Deus e, através da sua carne, abriu-se um novo e vivo caminho que conduz os homens a Deus “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

Por ser uma exigência da justiça que a morte do pecador, quando crê em Cristo, o homem morre com Cristo, passa a ser participante da carne e do sangue de Cristo. Quando o pecador crê em Cristo, toma sobre si a sua própria cruz e segue após Cristo até o calvário, é crucificado com Cristo, morto e sepultado. Neste ato a justiça de Deus é vindicada, pois Ele é justo e a transgressão não passa da pessoa do transgressor.

Para abrir um novo e vivo caminho, Jesus morreu pelos pecadores, pois somente Ele podia remir os seus irmãos ( Hb 2:11 ). Ou seja, não é necessário aos que creem subirem em um madeiro e serem crucificados com pregos e sofrer as ignominias que Cristo sofreu na cruz.

Como é possível um homem morrer em lugar de todos os homens, se a pena jamais pode passar da pessoa do transgressor? Um homem desobedeceu, e em consequência, a geração deste homem foi destituída de Deus. Mas, Cristo Jesus foi obediente até a morte, e morte de cruz, de modo que ao ressurgir dentre os mortos a sua geração é aceita por Deus.

Quando Jesus morreu houve substituição de ato: obediência pela desobediência. Em lugar da desobediência do Éden, Jesus bradou: Está consumado! “E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” ( Jo 19:30 ).

Neste brado não foi expressa a ideia que muitos divulgam de que uma dívida foi paga, antes que Cristo cumpriu cabalmente o que o Pai determinou, ou seja, consumei a obra que o Pai me deu a realizar! “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” ( Jo 17:4 ).

“Nenhum ser humano que tentasse pagar por seus próprios pecados poderia dizer finalmente, como exclamou Cristo em triunfo na Cruz: “Está consumado! A dívida foi paga”.  Mas o preço tinha que ser pago integralmente. De que outro modo os portões da justiça se abririam?” Hunt, Dave ‘O poder da ressurreição de Cristo’, The Berean Callhttp://www.chamada.com.br) – http://www.chamada.com.br/mensagens/ressurreicao_de_cristo.html Consulta realizada em 06/01/2012.

Substituição de ato foi o que ocorreu na cruz: a obediência de Cristo (último Adão) pela desobediência de Adão, pois Deus não busca sacrifício, antes a obediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ); “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade” ( Hb 10:5 -7 ).

Por estar em Cristo o cristão é uma nova criatura, igualmente é perfeito, pois está em Cristo, que é a cabeça de todo principado. Por estar em Cristo, o cristão lançou fora (despojou) a carne do pecado. Por estar em Cristo o cristão foi sepultado e ressurgiu ( Cl 2:10 -12).

Quando vivificado em Cristo, o cristão teve as suas ofensas perdoadas por Cristo, pois a cédula foi riscada, uma vez que não cumpríamos as ordenanças de Deus. Como Cristo veio cumprir e cumpriu plenamente a vontade de Deus, a obediência de Cristo anulou a divida das ordenanças. O que fixou na cruz as ordenanças que punha o homem em divida foi a obediência de Cristo, que nada ab-rogou da lei, não foi puro e simplesmente o seu sofrimento. O objetivo da cruz não era o sofrimento, antes a obediência plena, pois a obediência excluiu toda condenação para a nova criatura, que por estar em Cristo está morta para o pecado e para a lei.

Pois, para que o homem possa alcançar vida dentre os mortos é necessário cair na terra assim como o grão de trigo. Cristo caiu na terra e ressurgiu para a glória de Deus Pai, todos quanto creem n’Ele, também são plantados na semelhança da sua morte, para que possam ressurgir com Cristo. Neste quesito cada um deve tomar a sua própria cruz e morrer com Cristo “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” ( Jo 12:24 ).

Deus é fiel: “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

Sobre a morte dos que creem com Cristo escreveu o apóstolo Paulo:

“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:3 -8).

A carne de Cristo foi oferecida em oblação e é o novo e vivo caminho pelo qual o homem vem a Deus, pois quando o homem crê, torna-se participante da carne e do sangue de Cristo, ou seja, morre com Cristo. O batismo do cristão é na morte de Cristo, e o batismo em águas é um testemunho público, símbolo da morte com Cristo.

Quando o crente morre com Cristo fica demonstrada a justiça de Deus, visto que a pena estipulada pela lei: ‘certamente morrerá’, ou ‘a alma que pecar esta morrerá’, não passa da pessoa do transgressor. O pecador, quando se arrepende, morre com Cristo e o corpo do pecado herdado em Adão é desfeito.

Após estabelecer a sua justiça dando ao pecador a morte em função do pecado, Deus elimina o vínculo do servo com seu antigo senhor, o pecado. E é neste ponto que a maravilhosa graça de Deus opera eficazmente, visto que, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos para a glória de Deus Pai, todos quando foram sepultados com Cristo são ressuscitados juntamente com Cristo ( Cl 3:1 ).

Enquanto o pecador é morto com Cristo, Deus é justo, mas quando é gerada uma nova criatura em Cristo, Deus é declarado justificador “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 ).

Ora, se o homem não morre, não está justificado do pecado, pois enquanto vivo para o pecado é devedor e sujeito ao pecado. Mas, quando o homem morre com Cristo, a justiça de Deus é vindicada, pois: “… aquele que está morto está justificado do pecado” ( Rm 6:7 ).

Cristo ressurgiu dentre os mortos para a justificação dos que creem “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ). Ora, como Cristo ressurgiu, todos os que creem ressurgiram à semelhança da sua ressurreição, de modo que os que foram ressurretos dentre os mortos possuem uma nova vida, sendo declarados justos diante de Deus “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” ( Rm 3:24 ).

O velho homem gerado em Adão jamais seria declarado justo, portanto, pereceu ao ser crucificado com Cristo e o seu corpo foi desfeito com Cristo na cruz. Quando é gerado um novo homem através de Cristo (a semente incorruptível), tem-se uma nova criatura participante da natureza divina, que foi criada em verdadeira justiça e santidade, e que recebe de Deus a declaração de que é justa.

Quando gerado de Adão o homem é pecador, agora gerado de novo em Cristo Jesus, o homem é participante da natureza divina. Não é mais servo do pecado, escapou da corrupção que há no mundo, portanto é santo e justo “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 2Pe 1:4 ); “E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:18 ).

Quando Jesus se deu a si mesmo foi para adquirir para si um povo “O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” ( Tt 2:14 ). Ora, se Ele remiu o pecador tomando por seu servo, segue-se que não mais se nomeia os que creem de pecadores.

Há um contra senso na assertiva: ‘pecador remido’, pois se o homem é pecador é porque não foi remido, e se foi remido, resta que não é pecador, pois pertence a um novo senhor.

Este problema também ocorre com o termo naufrago. Quando alguém está a deriva em alto mar é nomeado ‘naufrago’, porém, quando é salvo do perigo e está a bordo de uma nova embarcação, já não faz jus ao nome ‘naufrago’, assim é aquele que crê em Cristo: era pecador, agora é remido.

A Bíblia é clara: não podeis servir a dois senhores, ou seja, é impossível prestar serviço a dois senhores. Quando Cristo remiu o pecador, não deixou o remido à disposição do pecado para servi-lo. No momento em que o homem é liberto do pecado é feito servo da justiça.

Há pecadores e há remidos, jamais haverá ‘pecadores remidos’, pois onde há remissão não há mais oferta pelo pecado “Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado” ( Hb 10:18 ).

O pecador é servo do pecado, portanto, comete pecado. Ora, se o homem comete pecado pertence ao diabo, portanto não é remido “Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo” ( 1Jo 3:8 ); “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ).

O que comente pecado é servo do pecado, porém, temos o apóstolo Paulo redarguindo os cristãos: tornastes-vos servos da justiça ( Rm 6:18 )

Não existe ‘pecador remido’, pois o apóstolo Paulo diz que, se os cristãos foram justificados em Cristo e ainda são pecadores, teria que admitir que Cristo é ministro do pecado. Como Cristo não é ministro do pecado, todos quanto estão n’Ele não são pecadores “Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” ( Gl 2:17 ).

 

Deus olha através de Cristo

Em um devocional intitulado “Um detalhe milagroso”, assinado pela Pra. Clarice Ziller, temos a seguinte frase:

‘Olhe que coisa fantástica é o Sangue de Jesus: quando Deus me olha através dele, eu sou pura como aquele sumo sacerdote!’.

Spurgeon também fez alusão à ideia de que Deus vê o crente através de Cristo:

“Se bem que Ele vê pecado em ti, em ti mesmo, agora, quando Ele olha para ti através de Cristo, Ele não vê pecado” C. H. Spurgeon, Evening’s Meditation, Meditações Vespertinas. Tradução de Carlos António da Rocha. consulta realizada em 13/09/2012.

Muitos esquecem, ou não sabem, que a promessa de Deus para aquele que guardam a palavra do evangelho crendo em Cristo é se tornar morada do Altíssimo “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” ( Jo 14:23 ).

Por esquecerem, ou não saberem que o crente é o templo de Deus, adotam o pensamento equivocado de que é necessário Deus olhar através de Cristo para poder ver o crente, haja vista, considerarem que o crente, apesar de estar em Cristo, é pecador “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ).

Mas, as Escrituras é a autoridade no assunto, e ela diz: “E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado” ( 1Jo 3:5). Além de Cristo ter vindo ao mundo tirar o pecado dos que creem, certo é que em Cristo não há pecado.

Se o crente admite que Jesus é o Cristo conforme as Escrituras, está em Cristo, é nova criatura, portanto não tem pecado, pois está em Cristo em quem não há pecado.

Se o crente está em Cristo, automaticamente está em Deus, que é luz e não há nele trevas nenhumas, portanto, a necessidade de Deus olhar para o crente através de Cristo é ilação de mentes carnais que não consideram que Cristo habita o crente.

Jesus é a garantia de que os que creem estão limpos diante de Deus e esta era a certeza do apóstolo Paulo “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” ( 1Co 6:11 ).

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 )

 




O que é adorar em espírito e em verdade?

Muitos entendem que para adorar a Deus é necessário estar em um templo cercado de pessoas em atitude reverente. Para elas é preciso um momento de concentração, reforçado com meditação, rezas e orações. É o que chamam de ambiente propício. Este ambiente geralmente surge de um envolvimento emocional promovido pela expectativa de milagres, profecias, manifestações, etc. ( Jo 4:24 )


O que é adorar em espírito e em verdade?

“Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” ( Jo 4:24 )

 

O que é a Verdade?

O que é a verdade? Do ponto de vista filosófico seria quase impossível dar uma resposta satisfatória a esta pergunta. Diante de Jesus Pilatos fez esta mesma pergunta com base em seu conhecimento filosófico de modo sarcástico ( Jo 18:38 ).

Porém, deixemos os problemas filosóficos de lado, uma vez que Jesus anunciou que veio dar testemunho da verdade, e que todos quantos deram crédito à sua palavra pertenciam à Verdade ( Jo 18:37 ).

O apóstolo Paulo, por sua vez, deixou registrado que Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado” ( Rm 3:4 ).

Sabemos que Deus é verdadeiro do mesmo modo que Ele é luz ( 1Jo 1:5 e 1Jo 5:20 ). Também sabemos que quem não está em Deus é trevas, ou seja, é mentiroso ( 1Jo 1:5 ). Através destes versículos percebemos que, quando Paulo disse que Deus é verdadeiro e todo homem mentiroso, ele estava fazendo referência à condição dos homens sem Deus ( Rm 3:10 à Rm 3:18 ).

Assim como os pecadores foram destituídos da glória de Deus e passaram à condição de trevas, todos os homens alienados de Deus igualmente tornaram-se mentirosos. Ao dizer que todos os homens são mentirosos, Paulo não estava se referindo a um tipo específico de conduta reprovável pela moral humana. Paulo fez referência à natureza humana decaída herdada de Adão!

Deus é luz, e todos quantos não estão em Deus são trevas. Deus é verdadeiro, e todos quantos não são participantes da sua natureza são mentirosos. Do mesmo modo que a injustiça dos homens contrasta com a justiça de Deus, a mentira dos homens contrasta com a verdade de Deus.

Paulo ao fazer referência ao seu antigo estado de alienação de Deus disse: “Mas, se por causa da minha mentira sobressai a verdade de Deus para sua glória, por que sou eu ainda julgado como pecador?” ( Rm 3:7 ). Ora, percebe-se que a condição de pecador é o mesmo que mentira.

Quando analisamos asserções como “Deus é luz”, ou “Deus é verdadeiro”, não devemos analisá-las do ponto de vista científico ou filosófico. Antes, é preciso compreender tais asserções como atributos de Deus. Quando a Bíblia estabelece o contraponto: “Deus é luz, e não há nele travas alguma”, a asserção “Deus é luz” demonstra que tudo que não está unido a Deus não tem relação nenhuma com Ele.

Jesus se apresentou como sendo o caminho, a verdade e a vida, ou seja, a única pessoa capaz de estabelecer comunhão entre Deus e os homens “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ). O apóstolo Paulo demonstrou aos cristãos em Roma que todos os homens pecaram e foram alienados da glória de Deus por causa da desobediência de Adão. Jesus, por sua vez, ao se apresentar como o caminho, a verdade e a vida, promove a união dos homens com Deus. O homem por intermédio de Cristo passa a ser participante da glória de Deus.

Jesus compartilhou da sua glória com os que creem para que possam voltar à comunhão com o Pai “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ), pois tal glória foi perdida quando o homem pecou ( Rm 3:23 ).

De posse da glória concedida por Cristo, o homem deixa a condição de mentira e passa a ser verdadeiro, pois está na verdade.

 

“Em Verdade”

“E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” ( 1Jo 5:20 )

O apóstolo João é claro ao demonstrar que Cristo é verdadeiro. Além dos cristãos terem ciência (saber) de que o Filho de Deus veio em carne, foi concedido também o entendimento (revelação) para que os cristãos passassem a estar unidos a Cristo (conhecermos).

A ideia da palavra ‘conhecer’ empregada pelo apóstolo João neste versículo é ‘estar unido a…’, ‘em comunhão com…’, ‘um só corpo’. Quando lemos que conhecemos a Deus, ou antes, que Ele nos conheceu, é o mesmo que dizer que estamos em plena comunhão com Ele ( Gl 4:9 ). Ex: Quando a Bíblia diz que ‘conheceu’ o homem a mulher, ela aponta comunhão íntima, um só corpo.

Quando o homem sem Deus (mentiroso) alcança o entendimento através da mensagem do evangelho, passa a conhecer (comunhão) o que é verdadeiro, ou seja, deixa a condição de mentira e passa a compartilhar da Verdade. João, ciente desta maravilhosa verdade, anuncia: “… no que é verdadeiro estamos…”, ou seja, estar ‘em Cristo’ é o mesmo que estar ‘em verdade’.

A condição ‘em verdade’ é proveniente de uma nova criação, como bem assevera o apóstolo Paulo: “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). O novo homem é criado por Deus ‘em verdadeira’ justiça e santidade. É por isso que todo aquele que está ‘em Cristo’ é uma nova criatura.

Muitos gramáticos são unânimes em reconhecer que a sintaxe e o estilo dos escritores do Novo Testamento possuem características que são próprias e exclusiva do evangelho. Vale salientar uma destas características, pois ela ajudará na composição da ideia ’em verdade’.

A frase preposicional ’em Cristo’ no grego é um uso específico do dativo. Como é sabido, antes dos escritores do Novo Testamento não há registro de que alguém dentre os gregos tenha utilizado o dativo preposicionado para expressar ideias como ’em Platão’, ’em Sócrates’, etc. Somente no Novo Testamento encontramos frases com este uso específico do dativo.

O capítulo 1 da carta aos Efésios aponta este uso do dativo em frase preposicional. O elemento gramatical mais repetido é a preposição grega ‘’, correspondente ao nosso “em”, seguida do dativo ‘Χριστ’. Ela vem com o pronome pessoal (“nele”), ou com um nome (“em Cristo”, “no Amado”).

A nova criatura resulta de uma nova criação de Deus. A nova criação é feita em verdadeira justiça e santidade. Cristo é a verdade, e todos que estão em Cristo são igualmente verdadeiros, porque no que é Verdadeiro os que creem estão ( 1Jo 5:20 ).

Com base no que analisamos, adorar ‘em verdade’ é o mesmo que estar em comunhão com Cristo. Ou seja, não se refere à atitude do adorador, ou ao ambiente que o adorador se encontra, antes diz da condição da nova criatura.

 

Como ser Verdadeiro?

A ideia da verdade, ou do que é verdadeiro que Jesus apresenta não tem relação com sentimento e práticas humanas cotidianas. A ideia de que ser verdadeiro é ser autêntico, ou seja, cercado de virtudes humanas, não se refere à verdade que Cristo estabeleceu.

Para que o homem seja verdadeiro é preciso estar unido a Cristo, em comunhão com Deus. Como? Ora, a comunhão com Deus é estabelecida através da mensagem do evangelho “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo” ( 1Jo 1:3 ). O que é que João ouviu e estava retransmitindo aos Cristãos para que tivessem comunhão com Deus? A mensagem do evangelho!

A mensagem do evangelho constitui-se no chamado de Deus para que os homens estejam unidos a Ele “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” ( 1Co 1:9 ).

Após ouvir a mensagem do evangelho e crer em Cristo como o enviado de Deus, conforme diz as escrituras, o homem passa a viver ’em verdade’. Passa a compartilhar da vida que há em Deus, como luzeiros no mundo que jaz em trevas.

O homem que crê na mensagem do evangelho é novamente criado ’em verdade’. É produto do milagre da regeneração. O novo nascimento é o acesso (porta) para a glória de Deus. Quem estava alienado, agora passa a ver a glória de Deus, como está escrito: “Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?” (João 11: 40).

Através do ouvir a mensagem do evangelho o homem passa a crer na esperança proposta, ou seja, a fé vem pelo ouvir. O evangelho é poder de Deus para os que creem, que faz dos homens que eram filhos de Adão filhos de Deus ( Jo 1:12 ; Jo 1:13; Rm 1:16 ). O poder regenerador da fé (evangelho) faz com que o homem passe a compartilhar a glória de Deus ( Jo 17:22 ; Jo 17:23 ).

 

Em espírito

“O que é nascido da carne, é carne, mas o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 )

Pelo fato de os homens serem descendentes de Adão são designados carnais. Além de possuírem um corpo constituído de carne, a natureza dos homens sem Deus é designada ‘carnal’.

O que é ser carnal? ‘Carnal’ refere-se à natureza decaída, alienada de Deus, que foi herdada de Adão. Quem é carnal, ou seja, descendente na carne de Adão não pode agradar a Deus. Esta é uma condição intrínseca a natureza herdada de Adão. Por mais que uma pessoa tenha intenção e vontade de adorar a Deus, e não é nascida de novo, conforme o que propõe a mensagem do evangelho, não poderá agradar a Deus ( Rm 8:8 ).

Por ser gerada de Adão a tendência nata da carne é a morte. Quando falamos da tendência da carne como sendo morte, não nos referimos à morte física do homem, antes à alienação (separação) de Deus ( Rm 8:7 ).

Porém, do mesmo modo que os nascidos de Adão são carnais, os nascidos segundo o último Adão são espirituais. Como? Ora, do mesmo modo que o Espírito Eterno, que fez ressurgir o Cristo dentre os mortos, ele fez ressurgir os que creem e habita neles ( Rm 8:9 ).

Pelo fato de os cristãos terem o Espírito de Cristo, isto indica que também são filhos de Deus, portanto, espirituais. Todos quantos são nascidos de Deus (Espírito) são filhos de Deus (espírito).

 

Adorar em espírito e em verdade

Muitos pensam que para adorar a Deus é necessário estar em um templo cercado de pessoas em atitude reverente. Para elas é preciso um momento de concentração, reforçado com meditação, rezas e orações. É o que chamam de ambiente propício. Este ambiente geralmente surge de um envolvimento emocional promovido pela expectativa de milagres, profecias, manifestações, etc.

Consideram que adorar a Deus em espírito e em verdade é fruto da emoção, da vontade e do intelecto do homem. Para Eles adoração sem emoção, ou sem intelecto não é adoração, e é possível adorar em verdade sem ter nascido do Espírito, ou adorar em espírito sem ter nascido da Verdade.

A Bíblia demonstra que, se o homem adora em espírito, concomitantemente ele está na Verdade, e se adora ’em verdade’ é porque vive em Espírito! Adoração não é um estilo de vida como apregoam. Adorar em espírito e em verdade só é possível quando se conhece a Deus, ou seja, quando Deus passa a habitar no homem “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós” ( Jo 14:17 ).

Quando é que o homem passa a estar em Deus e Deus no homem, fazendo morada? ( 1Co 3:16 ). Somente após crer na mensagem do evangelho “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ).

Muitos se escudam no legalismo, outros no formalismo, sem nos esquecermos dos tradicionalistas. Os emocionalistas acusam os racionalistas, e surgem inúmeras forma de fanatismos. Porém, todos se esquecem que somente os nascidos de novo podem adorar a Deus em espírito e em verdade.

Quando o homem nasce de novo através da mensagem do evangelho, não há um tempo ou lugar específico para adorar. Os verdadeiros adoradores adoram em todo tempo e em todos os lugares.

  • Um verdadeiro adorador não está vinculado a templos, pois é templo e morada do Espírito Santo ( 1Co 3:16 );
  • Um verdadeiro adorador não necessita de sacrifícios, pois é sacrifício vivo, santo e agradável a Deus ( Rm 12:1 );
  • Um verdadeiro adorador oferta a Deus sacrifício de louvor, ou seja, o fruto dos lábios que professam a Cristo ( Hb 13:15 );
  • Um verdadeiro adorador não precisa de intermediário, pois exerce sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais a Deus ( 1Pe 2:5 );
  • Um verdadeiro adorador não precisa de tempo específico, pois o momento da adoração foi estabelecido quando Cristo chegou entre os homens, em que os verdadeiros adoradores adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:23 ).

Em suma: para adorar em espírito e em verdade é preciso crer no que anunciou os profetas: “Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e criai em vós um coração novo e um espírito novo (…) Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 18:31 ; Ez 36:25 -27).

Somente o Espírito Eterno “Então (Deus) aspergirei…” (v. 31), pode purificar o homem através da palavra do evangelho (água pura). O ‘aspergir água pura’ é o mesmo que nascer da água. Somente Deus pode aspergir a água pura, ou seja, o nascer do Espírito. Somente Deus pode fazer do homem uma nova criatura, com novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Is 57:15 ).

A nova criatura, ou o novo homem em Cristo é gerado de Deus para a sua glória ( Jo 1:12 ). Deus cria, forma e faz o novo homem em verdadeira justiça e santidade para a sua própria glória “A todos os que são chamados pelo meu nome e os que criei para a minha glória, os formei, e também os fiz” ( Is 43:7 ). Somente os nascidos da água e do Espírito, ou seja, da verdade e do Espírito são capazes de adorar a Deus em espírito e em verdade, pois estes foram criados para louvor da glória de Deus, ou seja, adoração verdadeira ( Ef 1:6 ; Ef 1:12 e Ef 1:14 ).

O verdadeiro louvor e adoração são provenientes da obra criada por Deus (nova criatura), pois quem dentre as suas criaturas poderá acrescentar honra, glória e louvor a Deus? É por isso que Deus faz todas as coisas para louvor de sua glória!




Romanos 2 – Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus

Há um dia predeterminado para a ira de Deus “Pois é vindo o grande dia da ira deles, e quem poderá subsistir?” ( Ap 6:17 ). Neste dia os homens conhecerão (saber acerca de, entender, compreender) o juízo de Deus. O juízo de Deus foi estabelecido lá em Adão, mas os homens ignoram esta verdade. Quando do dia da ira será manifesto a eles que estão debaixo de condenação. Por serem filhos de Adão, ou filhos da desobediência, por conseguintes, também são filhos da ira ( Cl 3:6 ); “E éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” ( Ef 2:3 ).


Romanos 2 – Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus

Lógica

Antes de prosseguirmos, segue mais uma lição de interpretação bíblica. Utilizaremos nesta lição uma linguagem própria à lógica.

Conforme escreveu o apóstolo João, sabemos que: ‘Deus é luz’, e que: ‘não há nele trevas alguma’ ( 1Jo 1:5 ).

Considerando os elementos da lógica, a primeira oração é uma proposição simples declarativa: Deus é luz. Há valores lógicos às proposições: verdadeiro e falso. Conforme a ideia bíblica, temos que a proposição ‘Deus é luz’ tem o valor lógico verdadeiro.

Dentro da lógica há três princípios:

a) Princípio da identidade – se qualquer proposição é verdadeira, então, ela é verdadeira;
b) Princípio de não-contradição – nenhuma proposição pode ser verdadeira e falsa;
c) Princípio do terceiro excluído – uma proposição ou é verdadeira ou é falsa.

A proposição ‘Deus é luz’ é verdadeira, e por conseqüência não é falsa. Jamais esta proposição assumirá dois valores simultaneamente.

Dada uma proposição qualquer, se inserirmos o conectivo ‘não’, poderá formar a sua própria negação. Ex: ‘Deus não é luz’ – proposição simples declarativa com valor lógico falso.

A segunda oração ‘não há em Deus trevas alguma’, apesar de ter o conectivo ‘não’ tem o valor lógico verdadeiro, visto que reafirma a ideia da proposição ‘Deus é luz’.

As cartas bíblicas foram escritas essencialmente na linguagem lógica, sendo que definições e conceitos quase não são utilizados.

Definir: determinar a extensão ou os limites de; explicar o significado de; fixar, estabelecer; etc;
Conceituar: formulação de uma ideia por palavras, definição.

Já estudamos o seguinte versículo: “Do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça” ( Rm 1:18 ). Considerando que este versículo é uma proposição simples declarativa e verdadeira quanto ao valor lógico, é plenamente possível construímos uma nova proposição se substituirmos alguns elementos.

Da mesma forma que ‘do céu se manifesta a ira de Deus’, é certo que de lá também se manifesta a bondade de Deus. Como a bondade de Deus é certa, restam as perguntas: sobre quem a bondade se manifesta?

Durante o estudo do segundo capítulo da carta aos Romanos aplicaremos os elementos que apresentamos acima.

 

Romanos – Capítulo II

1 PORTANTO, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo.

O capítulo dois tem início com uma conjunção (portanto), o que indica uma relação de conclusão ao que foi dito anteriormente.

O que foi dito anteriormente (no capitulo 1)? Foi dito que:

a) Os homens que detém a verdade em injustiça são objetos da ira de Deus ( Rm 1:18 );
b) A natureza depõe contra os homens que detém a verdade em injustiça, deixando-os inescusáveis ( Rm 1:20 );
c) Há homens que detém a verdade em injustiça, e que, mesmo reconhecendo a existência de Deus, seus raciocínios tornarem-se fúteis e os corações insensatos se obscureceram, e criaram deuses para si ( Rm 1:21 ), e;
d) Há homens que detém a verdade em injustiça e que foram entregues às suas concupiscências ( Rm 1:24 ), as suas paixões infames ( Rm 1:26 e a uma disposição mental reprovável ( Rm 1:28 ), e passaram a praticar todos os tipos de ações reprováveis diante de Deus e dos homens ( Rm 1:29 -31).

O homem que Paulo evoca neste versículo “ó homem”, refere-se ao mesmo homem que ‘detém a verdade em injustiça’ do capitulo anterior ( Rm 1:18 ). Por que refere-se ao mesmo homem do capítulo anterior? Ao lermos o versículo “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais cousas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem” ( Rm 1:32 ), percebe-se que as conjunções ‘ora’ e ‘portanto’ são empregadas indicando uma relação de conclusão em relação ao que foi dito anteriormente.

Neste caso em específico, a conjunção ‘ora’ ou ‘portanto’ introduz uma conclusão. O versículo trinta e dois, do capítulo um, demonstra que, embora os homens que detêm a verdade em injustiça, conhecendo a justiça de Deus (de que são dignos de morte quem pratica as ações enumeradas anteriormente), praticam as ações reprováveis e consentem com quem as praticam. Com base nestas informações, qualquer que seja o homem, mesmo que ele se sinta em posição privilegiada por julgar outros homens, ele permanece inescusável diante de Deus.

Seja quem for o homem (a fala de Paulo é para pegar os judeus), se ele detém a verdade em injustiça, ele está na mesma condição de quem ele julga, e pratica o que ele mesmo condena.

Neste versículo o apóstolo Paulo desfaz toda e qualquer diferença entre os homens. Este versículo e o último do capítulo anterior são inseparáveis quando se faz uma interpretação.

 

2 E bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade sobre os que tais coisas fazem.

Paulo reitera que os cristãos estão cônscios de que o juízo de Deus é segundo a verdade. Observe que ele enfatiza: “Bem sabemos…”. A verdade da qual o apostolo faz referência é a verdade do evangelho.

Através desta afirmativa, o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos não julgam aqueles que estão fora da verdade, porém, é de conhecimento que o juízo de Deus é certo sobre quem pratica as ações descritas no capítulo primeiro, versos 29 a 31.

O conhecimento que o cristão dispõe é segundo a verdade do evangelho, enquanto que o ‘conhecimento’ dos homens que detêm a verdade em injustiça é proveniente da lei escrita em seus corações, ou da consciência ( Rm 2:15 ).

 

3 E tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, cuidas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus?

Paulo volta a questionar o ‘homem’ que detém a verdade em injustiça, e aponta o seu comportamento questionável: basta julgar aqueles que fazem as coisa descritas anteriormente para se ver livre do juízo de Deus?

Observe que o juízo segundo a verdade já está estabelecido e as atitudes dos homens visam escapar a tal juízo. O escritor ao Hebreus é claro: “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram” ( Hb 2:3 ).

Note que há uma diferença entre ser inescusável e escapar ao juízo de Deus. Este refere-se a condenação adquirida em Adão, enquanto aquele refere-se ao comportamento reprovável dos que foram condenados em Adão. O juízo de Deus é uma condição muito mais dura diante de Deus, pois afeta a natureza do homem. Do juízo de Deus surgiu a semente corruptível de Adão. Tal semente faz com que os frutos dos homens nascidos de Adão sejam maus ( Jo 3:19 -20). A árvore que tem origem na semente de Adão só produz o mal, visto que uma árvore não pode produzir dois tipos de frutos ( Mt 7:17 ).

 

4 Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento?

O versículo quatro depende do versículo três. No versículo três Paulo questiona a atitude do homem que pensa ser possível praticar as coisas reprováveis descritas anteriormente e escapar ao juízo de Deus. O homem que julga os que praticam as coisas reprováveis, ou pensa é possível escapar ao juízo de Deus, ou evidencia uma atitude mais grave ainda: desprezar a benignidade de Deus.

Paulo demonstra não entender a atitude daqueles que detêm a verdade em injustiça. Ou tal homem acha que é possível escapar ao juízo de Deus estabelecido lá em Adão, ou é uma atitude de desprezo a benignidade, paciência e longanimidade de Deus.

O desprezo à benignidade de Deus é por incredulidade, visto que, é a benignidade que leva o homem a arrepender-se de suas concepções errôneas.

 

Uma Figura Importante

Antes de perseguirmos no estudo faz-se necessário entendermos a seguinte colocação de Jesus:

“Entrai pela porta estreita. Pois larga e a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram” ( Mt 7:13 -14).

Jesus demonstra que há duas portas e dois caminhos. Há uma porta estreita e há uma porta larga. Há um caminho apertado e um caminho espaçoso.

O texto demonstra duas diferenças gritantes entre os dois caminhos e as duas portas, eles conduzem: a vida, ou a perdição.

O leitor deve perceber que há uma ordem clara: “Entrai pela porta estreita”, ou seja, Cristo alerta os seus ouvintes para que entrem pela porta estreita. É um convite que demanda uma decisão por parte de quem ouve. Para ter acesso a vida é preciso entrar pela porta sugerida por Cristo.

Por que é necessário entrar pela porta estreita? Jesus explica: porque ‘larga e a porta’, e ‘espaçoso é o caminho que conduz à perdição’. Através da explicação de Jesus, percebe-se que não é necessário ao homem tomar uma decisão para entrar na porta e percorrer o caminho que conduz a perdição. Por quê? O que isto quer dizer?

A explicação de Jesus demonstra implicitamente que todos os homens quando nascem, eles entram por uma porta larga; ou seja, a porta é larga que comporta todos quantos vêem ao mundo. O nascimento é a entrada por esta porta, e por isso não é necessário uma decisão de entrar por ela.

Todos os homens entraram por uma porta e percorrem um caminho que conduz a perdição. Para ter acesso ao caminho da vida, se faz necessário tomar a decisão de entrar pela porta estreita, e seguir o caminho apertado.

A figura das duas portas e dos dois caminhos são semelhantes à figura da árvore boa e da árvore má ( Mt 12:33 ); o bom tesouro e o mal tesouro ( Mt 12:35 ); as fontes de água doce e água amarga ( Tg 3:11 -12). Estas figuras são semelhantes quanto a ideia principal e cada uma apresenta um dos aspectos da salvação em Cristo.

A ideia principal destas figuras aponta para o evento da queda de Adão. Em Adão todos os homens foram julgados e condenados. A pena que pesa sobre a humanidade é a morte. Para Deus os homens nascidos de Adão estão mortos em delitos e pecados. A queda de Adão comprometeu a natureza do homem: Deus é vida, e a queda separou o homem de Deus. O homem perdeu a essência da natureza divina, deixando-o na condição de morto para Deus.

Todos os homens nascem sem ser participantes da natureza divina. A natureza do homem é segundo a natureza de Adão, visto que, nasceram da vontade da carne, da vontade do homem e do sangue ( Jo 1:13 ). Para o homem livrar-se da condenação que ocorreu em Adão, é preciso ao homem nascer de novo. Ele precisa nascer da vontade de Deus para tornar-se um dos filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Com base nestas informações, verifica-se que todos nascem sob condenação, e pesa sobre eles o juízo de Deus e por isso todos que vem ao mundo ‘são os que entram por ela’, a porta larga e o caminho espaçoso ( Mt 7:13 ). Todos entram pela porta ao nascer e no caminho que conduz à perdição, e esta figura evidência a necessidade do homem decidir-se pela oferta de salvação que há em Cristo.

Para entrar pela porta, que é Cristo, é necessário um novo nascimento. Observe que o nascimento é a ‘porta’ de entrada para a perdição eterna e para a vida eterna.

Todos descendem da semente de Adão (semente corruptível), e, portanto, são árvores más. Como pesa sobre eles a condenação de Adão, resta às árvores que tiveram origem na semente corruptível serem cortadas e lançadas no fogo. Como é próprio das árvores produzirem frutos segundo a sua espécie, as árvores que descendem da semente de Adão, só produzem frutos maus. Diferente da figura da porta e do caminho, a figura da árvore demonstra que é impossível aos homens nascidos de Adão produzirem o bem ( Mt 12:34 ).

Os corações dos homens nascidos sob a condenação de Adão são maus, e por mais que se esforcem, só pode tirar do coração o mau, do seu mau tesouro. Esta figura demonstra que o problema do homem pecador encontra-se em seu coração, na sua natureza. Para livrar-se desta condição é preciso circuncidá-lo por meio da circuncisão de Cristo.

Os homens nascidos de Adão têm uma vida restrita a este mundo. Vivem para si e para o pecado. Após aceitar a Cristo, o novo homem terá uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna, passando a viver para Deus ( 2Co 5:15 ; Rm 14:7 ).

A figura da árvore demonstra que os homens permanecem na condição herdada em Adão: serão ‘cortados’ e lançados no inferno por pesar sobre eles o juízo de Deus ( Rm 2:3 ; Mt 3:10 ). Como uma árvore produz um único tipo de fruto, os frutos das árvores que surgiram da semente corruptível de Adão são maus, ou seja, segundo a espécie da árvore. Por mais que o homem nascido de Adão procure fazer o bem, isto é impossível, visto que as suas obras não foram feitas em Deus, e não foram preparadas por Deus.

Por produzirem o mal, o homem entesoura ira para si. A condenação em Adão decorre da retidão e justiça de Deus, sem qualquer referência a ira. Já que o homem se deixou levar pela natureza corrompida, à prática de toda impiedade e injustiça, Deus trará a juízo todas as ações dos homens, e com relação a isto, não há acepção de pessoas.

As ações dos nascidos de novo serão julgadas e recompensadas no tribunal de Cristo, e as ações do velho homem serão julgadas e recompensadas no grande trono branco.

Depois desta pequena introdução estamos aptos a interpretar os versículos seguintes.

 

5 Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus;

A ‘dureza’ refere-se a ação de resistir à verdade em injustiça, e o ‘coração impenitente’, refere-se à natureza pecaminosa herdada em Adão.

Todos os homens quando vêm ao mundo, nascem com um coração impenitente. No Antigo Testamento, mesmo após a entrega da lei, Moisés recomenda ao povo de Israel a circuncisão do coração “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Observe que a circuncisão do prepúcio do coração refere-se ao coração impenitente, e o endurecimento da cerviz à dureza do homem.

No Novo Testamento é recomendado a circuncisão de Cristo, no despojar do corpo da carne. A circuncisão do A. T equivale a circuncisão do N. T., visto que, qualquer incisão no coração levará a morte. A morte em Cristo é o despojar do corpo da carne “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

A circuncisão de Cristo (N. T.), não é feita por mãos humanas, da mesma forma que a circuncisão do coração (A. T.), recomendada por Moisés;

A circuncisão de Cristo (N. T.), e a circuncisão do prepúcio do coração (A. T.), e pode ser realizado no homem e na mulher.

O homem que detém a verdade em injustiça, por manter-se insensível ao convite de salvação, simplesmente continua na empreitada de entesourar ira para si. Como compreender esta declaração de Paulo? Devemos ter em mente que:

a) Todos os homens estão condenados em Adão ( Rm 5:18 );
b) A condenação da humanidade em Adão decorre da justiça e retidão de Deus, sem qualquer referência a ira. Deus não se irou contra o homem quando da queda, antes fez justiça conforme a determinação dada a Adão ( Rm 3:23 );
c) A condenação afetou a natureza do homem, e todas as suas ações passaram a ser reprováveis diante de Deus ( Mt 12:34 );
d) Por não estarem em Deus, as ‘obras’ dos homens não são feitas em Deus, e por isso são reprováveis ( Jo 3:19 -21);
e) Todas as ações de todos os homens serão julgadas em juízo específico, e isso independe da condição de salvos ou perdidos ( Rm 2:11 );
f) Haverá o juízo do Trono Branco para os perdidos e o juízo do Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 e Ap 20:13 );
g) O homem que detém a verdade em injustiça continua na prática do mal, visto que as suas obras não são feitas em Deus e não foram preparadas por Deus ( Jo 3:21 e Ef 2:10 );
h) As obras más serão retribuídas por Deus com indignação e ira, e as obras feitas em Deus serão retribuídas com glória, honra e paz.

Há um dia predeterminado para a ira de Deus “Pois é vindo o grande dia da ira deles, e quem poderá subsistir?” ( Ap 6:17 ). Neste dia os homens conhecerão o juízo de Deus. O juízo de Deus foi estabelecido lá em Adão, mas os homens ignoram esta verdade. Quando do dia da ira será manifesto a eles que estão debaixo de condenação. Por serem filhos de Adão, ou filhos da desobediência, por conseguintes, também são filhos da ira ( Cl 3:6 ); “E éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” ( Ef 2:3 ).

 

6 O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: 7 A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; 8 Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade;

O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber:

a) Dará vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção;
b) Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade;

A vida eterna é prometida àqueles que procuram glória, honra e incorrupção, e não a quem faz boas ações, pois fazer boas ações não é fazer o bem. O homem só pode fazer o bem quando está em Cristo. Somente em Cristo o homem encontra glória, honra e incorrupção, e após encontrar estas bênçãos em Cristo, é preciso ao crente perseverar fazendo o bem. Boas ações não concederão vida eterna aos homens.

Em primeiro lugar é preciso ao homem buscar o reino de Deus e a sua justiça, que é Cristo; e como Deus há de recompensar a cada um segundo as suas obras, é de bom alvitre que se faça o bem. O bem que o cristão faz visa a recompensa futura, e não a salvação. A salvação só é possível através do evangelho de Cristo, que é poder de Deus.

Deus também recompensará as obras dos homens que detêm a verdade em injustiça. Observe que a ira e a indignação de Deus permanece sobre aqueles que são desobedientes à verdade. A indignação e a ira não decorre das más ações dos homens, antes decorre da desobediência à verdade e obediência à iniquidade. Enquanto o homem for obediente à iniquidade, jamais será filho de Deus. Permanecerá na condição de filho da ira e sujeito à ira de Deus.

O homem sem Cristo é desobediente à verdade, e acumula ira para si por ser faccioso, contencioso. As boas ações realizadas pelos homens obedientes à iniquidade não será tido por Deus como sendo boas obras. Essas ações Isaías nomeia ‘trapos de imundície’.

 

9 Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; 10 Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego;

Paulo demonstra que não há qualquer diferença entre judeus e gentios. Tanto os judeus quanto os gentios praticam o mal diante de Deus caso sejam desobedientes à verdade do evangelho. Lembre que uma árvore má não produz frutos bons. A natureza corrompida do homem, que é obediente à iniquidade, impede que o homem faça o bem.

Da mesma forma que o pecado escraviza judeus e gregos, também não há diferença entre judeu e grego quando se tornam escravos da justiça. Todos que aceitam a Cristo praticam o bem. Por terem adquirido um novo coração em Cristo tem um bom tesouro, e as suas ações são boas, pois são feitas estando em Deus.

Quem aceita a Cristo pode fazer o bem e o mal, mas suas ações não o levarão para o inferno, pois Deus já o recebeu por seu. Da mesma forma, os descrentes fazem o bem e o mal, mas para Deus as suas ações são más, pois eles não pertencem a Deus.

 

11 Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas.

Se um judeu e um grego praticam o bem (devemos entender a prática do bem vinculado à crença em Cristo), não há distinção entre eles perante Deus. Ele recompensará a cada um segundo as suas obras, pois em Deus não há acepção de pessoas.

Se um judeu e um grego praticam o mal (a prática do mal decorre da obediência à iniquidade), para Deus não há acepção: receberão a recompensa devida: indignação e ira.

 

 

Introdução

Na página quatro estudamos alguns elementos de lógica, e na página cinco algumas questões doutrinárias. Agora veremos como aplicar elementos da lógica durante uma leitura bíblica para não nos afastarmos das questões doutrinárias.

Lemos em uma publicação evangélica, no tópico ‘Falsos profetas’, ao citarem Mateus dez, versículo dezesseis, o seguinte:

“É possível ao homem de falso coração fazer certas coisas boas. Pode-se até receber edificação pela sua mensagem, porque Deus honra a sua Palavra. Mas a pregação não o salvará da sentença do Juiz: ‘Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade!'” Pearlman, Myer, Mateus, o Evangelho do Grande Rei, 1. edição, Rj, Ed. CPAD, pág. 44.

Considerando que fazer ‘coisas boas’ é possível a todos os homens, mas fazer ‘o bem’, só é possível aos nascidos de novo, visto que ‘não há quem faça o bem’ sem estar ligado em Cristo Rm 3: 12. Considerando que aos homens é pertinente limparem o exterior do copo e do prato, mas que é impossível limparem o seu interior “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade” ( Mt 23:25 ), segue-se que, ao tentar explicar que “Há maldade nos melhores, e bondade nos piores” Pág 39, Myer não faz distinção entre ‘fazer coisas boas’ e ‘fazer o bem’, e acaba por afirmar que o homem de coração ‘falso’ faz ‘certas coisas boas’.

Aos falsos profetas é pertinente fazem boas ações, pois somente com ações exteriores é que eles se dão a conhecer como ovelhas, porém, o interior deles é comparado a lobos. As religiões que negam a Cristo como Senhor geralmente se esmera em praticar boas ações aos seus semelhantes, mas a mensagem que apregoam não aproxima o homem de Deus.

Fazer o bem não é uma questão de vontade, e sim de natureza. Não basta querer fazer o bem, antes é necessário obter uma nova natureza, segundo a semente incorruptível que é a palavra de Deus, para que se torne possível ao homem produzir o bem ( 1Pe 1:23 ). Somente aqueles que são nascidos de Deus fazem bem ( Jo 3:21 ). As boas obras foram preparadas por Deus para que os vivificados em Cristo possam andar nelas ( Ef 2:9 ).

Fazer boas ações está ligado a vontade do homem. Se ele quiser fará boas ações aos seus semelhantes, e isto não diz da disposição do seu coração. Agora, fazer o bem só é possível quando se está em Deus, pois é algo vinculado a natureza do novo homem e não à vontade, como é o caso de boas ações ( Jo 3:21 ).

É plenamente possível a um falso profeta fazer certas coisas boas, mas é impossível a eles fazerem o bem. Primeiramente porque a Bíblia diz que ‘não há quem faça o bem’ ( Rm 3:12 ). Um falso profeta não pode fazer de modo algum o bem, pois eles não estão em Deus. Fazer ações humanitárias ou boas ações fará com que os homens acreditem que eles são ‘ovelhas’ ( 2Tm 4:1 -4).

Observe o que Jesus disse: “Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos bons” ( Mt 7:18 ). Se é impossível a árvore má produzir bons frutos, como é possível ao homem de coração falso (coração falso remete a falso profeta), produzir ‘certas coisas boas’ quando Myer faz a citação acima? A análise de Pearlman não está em consonância com o que Jesus ensinou ( Mt 7:18 e Mt 12:33 -35). Se ele quis dizer ‘certas coisas boas’ não utilizou a citação de Mt 7: 18 em seu contexto correto. Da mesma forma, se ele utilizou ‘certas coisas boas’ em lugar de ‘fazer o bem’, contrariou o que Jesus disse: “…nem a árvore má produzir bons frutos” ( Mt 7:18 ).

A segunda declaração que complementa a primeira é muito mais grave: É possível receber edificação por meio da mensagem de um falso profeta?

A premissa que foi utilizada para dar sustentação à argumentação é verdadeira, pois ‘Deus honra a sua palavra’, e condiz com a ideia bíblica: “E disse-me o SENHOR: Viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para cumpri-la” ( Jr 1:12 ), mas, dizer que é possível receber edificação através das palavras de um falso profeta corresponde a uma inverdade.

Há um erro na argumentação do Sr. Myer, visto que:

a) Se Deus vela sobre a palavra de um ‘falso profeta’, este falso profeta já não é falso, e passou à condição de profeta;
b) O cuidado que a Bíblia demonstra que devemos ter com os falsos profetas é com aquilo que dizem (doutrina) “E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição” ( 2Pe 2:1 );
c) Aspectos humanos como caráter, comportamento e moral não são fatores que determinam se alguém é ou não um falso profeta.

Não há como receber edificação por meio de uma mensagem de um falso profeta. Primeiro, porque a mensagem de um falso profeta não provém de Deus; segundo, a tal mensagem não é a semente incorruptível; o fruto que um falso profeta produz é segundo a sua natureza: é mal ( Mt 12:34 -35).

Elementos humanos como comportamento, moral, caráter, sacrifícios, orações, são utilizados pelos falsos profetas como vestimentas para se disfarçarem em ovelhas. Tais elementos são manipuláveis pelos homens, pois diz de aspectos externos, como o exterior do copo e dos sepulcros. O que não podem manipular é o interior, onde somente Deus tem acesso e pode mudar.

Paulo ao escrever a Timóteo alerta dizendo: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios, pela hipocrisia de homens que falam mentiras e tem cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento, e ordenam a abstinência de alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças…” ( 1Tm 4:1 -3).

Deus não honra a palavra de um falso profeta, pois a palavra de um falso profeta não é a palavra de Deus. A palavra é clara: Quem é que pratica a iniquidade? Os falsos profetas, que se apresentam disfarçados de ovelhas, porém são lobos devoradores.

Somente é possível identificar os falsos profetas pelos seus frutos. Quais são os frutos de um falso profeta? O que um falso profeta produz? Mensagens que não têm origem em Deus! Este é o fruto dos falsos profetas: mensagens que não são conforme a verdade do evangelho!

Da mesma forma, o fruto de alguém que é profeta de Deus, é o fruto dos lábios, que professam que Cristo é o Filho de Deus ( Hb 13:15 ) compare ( 1Jo 4:1 -3).

A mensagem de Cristo visa transformar a natureza do homem, e a conduta é transformada gradativamente por intermédio do Espírito de Deus. A mensagem do evangelho não tem a finalidade de transformar concepção de mundo, caráter, conduta, etc. Se assim fosse, Paulo não pediria aos cristãos que vivessem de modo digno do evangelho de Cristo ( Ef 4:1 ).

Myer Pearlman também registrou um argumento de Agostinho:

“O que faz com que o caminho seja estreito? perguntou Agostinho. Ele mesmo responde: ‘O caminho não é estreito por si mesmo, mas nós o fazemos assim, mediante o insuflar do nosso orgulho…” Pág. 42 (idem e grifo nosso).

A premissa “estreita é a porta, e apertado o caminho’ foi anunciada por Jesus. Esta premissa é verdadeira! Conforme Pearlman, Agostinho declara que ‘o caminho não é estreito’, o que torna a declaração de Agostinho uma premissa falsa. A premissa de Agostinho contraria completamente a ideia anunciada por Cristo.

Cristo disse ser o caminho e que o caminho é estreito. Quando se afirma que o caminho não é estreito por si mesmo, estamos negando que a declaração de Jesus seja verdade e que a sua natureza não é conforme o que foi dito por si mesmo.

A Bíblia demonstra que o caminho é apertado, mas Agostinho argumenta que o caminho é ‘feito’ estreito. A Bíblia demonstra que Jesus é o caminho, mas Agostinho declara que ‘nós o fazemos assim’. Observe que as alegações de Agostinho contrariam completamente as premissas bíblicas, pois o caminho é estreito, e não é o homem que o faz desta maneira. Cristo é o caminho, e não é pertinente aos homens determinar a largura do caminho.

Myer declara que Jesus disse que devemos optar por um dos caminhos “Cristo, no entanto, ensinou haver dois caminhos, que levam a direções opostas, e por um dos quais devemos optar” Pág. 40 (idem), mas o que diz a Bíblia? “Entrai pela porta estreita. Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram” ( Mt 7:13 -14).

Há alguma discrepância entre o que diz Myer e a Bíblia? Há sim!

Jesus ordenou aos seus ouvintes que entrassem pela porta estreita, ou seja, é uma premissa que não apresenta opções “Entrai pela porta estreita…”. Jesus não apresentou opções aos seus ouvintes como se eles estivessem em um ‘limbo’. Cristo ensinou haver dois caminhos, mas não apresentou duas opções.

Cristo se apresenta como única opção à condição em que os seus ouvintes estavam. Cristo é a única opção aos perdidos! Não há, portanto, a ideia de duas opções aos homens perdidos.

Estes erros que apontamos decorre da seguinte análise equivocada de Myer Pearlman: “…mas um exame mais profundo do caráter humano mostrará que a classificação de Cristo é verdadeira” Pág. 38 (idem). A mensagem de Cristo é a verdade, e independe de comprovação pautada em questões humanas. Não é uma análise do comportamento humano que fará compreendermos as declarações de Cristo.

Não é a filosofia, ou a sociologia que nos fará dimensionar as verdades do evangelho. Só é possível entendermos as declarações de Cristo “comparando as coisas espirituais com as espirituais” ( 1Co 2:13 -14).

 

12 Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados.

Paulo demonstra que não há acepção de pessoas em Deus, visto que não há diferenças entre judeus e gregos diante da retribuição divina: cada um será recompensado segundo as suas obras ( Rm 2:6 ).

Os gentios foram concebidos em pecado, e por isso, todos pecaram. Eles pecaram, não por falta de uma lei, mas por causa da condenação em Adão. Observe que o pecado aqui não decorre da transgressão da lei, visto que não havia lei para os gentios. Porém, mesmo não havendo lei para os gentios, eles pecaram. Mesmo sem lei, eles estão condenados.

Não é alívio para o judeu ser levado a julgamento. Todos os que pecaram, mesmo tendo uma lei, serão julgados pela lei que receberam. Da mesma forma que os gentios, os judeus, por terem pecado, estão sob condenação, visto que a alma que pecar, esta morrerá. Qualquer devedor que for a juízo perecerá, não importando quem seja: judeu ou grego.

 

13 Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.

Os pretensos seguidores da lei eram somente ouvintes. Os ouvintes da lei (os judeus) não eram justos diante de Deus, visto que não a praticavam. A lei é bem clara: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir por eles viverá” ( Lv 18:5 ; Rm 10:5 ).

Há como ser justificado pela lei? “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” ( Tg 2:10 ).

 

14 Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; 15 Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os;

Os judeus consideravam serem melhores que os gentios por terem uma lei. Paulo apresenta argumentos que desmistificam esta ideia. Os gentios não tinha um código específico, porém, faziam ‘coisas’ da lei Mosaica, mesmo não tendo a lei. Paulo demonstra que Deus trará a juízo as ações dos gentios, visto que eles tem uma lei interna, em seus corações. Aliado a lei interna, há a consciência e os seus pensamentos, quer acusando quer defendendo as suas ações.

Perceba que nem todos os homens são depravados e que muitos fazem naturalmente o que preceitua a lei. Observe que os homens constituem leis para as suas ações.

 

16 No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho.

Deus recompensará a cada um segundo as suas ações no dia que Ele se assentar para julgar os segredos de todos os homens.

Não podemos confundir as vicissitudes da vida com o juízo de Deus. Muitas pessoas consideram que Deus pune os homens no dia-a-dia, porém, esquecem que o que o homem colhe o que plantou, e esta lei natural não diz do juízo de Deus.

 

17 Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; 18 E sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei; 19 E confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, 20 Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei;

Após demonstrar que:

a) Deus não faz acepção de pessoas ( Rm 2:11 );
b) que Deus retribuirá a cada um (todos os homens) segundo as suas obras, tanto judeus quanto gregos ( Rm 2:6 -10);
c) que a lei não estabelece diferencias entre gentios e judeus diante de Deus ( Rm 2:12 ), visto que tanto judeus quanto gentios foram julgados em Adão e nasceram sob a égide do pecado, e;
d) que não há distinção entre judeus e gentios, visto que todos os homens serão julgados quanto as obras ( Rm 2:6 ).

Paulo passa a questionar os homens que se escudavam no sobrenome ‘judeu’. Observe que, apesar do sobrenome ‘judeu’, o primeiro nome ainda continua sendo ‘homem’. Quando Paulo faz referência aos Judeus, procura não fazer distinção, e continua a tratá-los como os outros homens, o que demonstra que não há distinção entre os homens, a não ser pelo sobrenome que adotaram.

Os quesitos abaixo não tornam os judeus melhores que os outros homens:

  • adotar o sobrenome judeu;
  • descansar na lei de Moisés nas questões relativas à salvação;
  • ter um sentimento de orgulho por terem sido escolhidos como povo de Deus;
  • saber a vontade de Deus, e não conhece- lá;
  • pensar que aprova o que é melhor;
  • ser uma pessoa instruída da lei;
  • confiar que está em melhor condição que os outros homens por reputar ser guia, instrutor, mestre, etc;
  • adotar a lei como ciência e verdade.

 

21 Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? 22 Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? 23 Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?

Paulo coloca em xeque o comportamento dos judeus. Muitos dos judeus ensinavam, mas pareciam não ter aprendido a matéria que ensinavam.

Eles pregavam que não se devia furtar, e acabavam furtando. Diziam que não podia adulterar, e adulteravam. Abominar os ídolos era a bandeira dos judeus, no entanto, cometiam sacrilégios. Os homens que se orgulhavam de ter recebido a lei, desonravam a Deus quando transgrediam a lei.

 

24 Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós.

Paulo apresenta a base para as suas argumentações: as Escrituras! “Agora, que farei eu aqui, diz o Senhor, visto ter sido o meu povo levado sem preço? Os seus tiranos sobre ele dão uivos, diz o Senhor; e o meu nome é blasfemado incessantemente todo dia” ( Is 52:5 ). Observe que Paulo não cita o versículo ‘ipses literes’, porém, ele fez uma citação aplicada: por causa dos judeus, o nome de Deus estava sendo blasfemado entre os outros povos.

Em toda citação que fizermos da Bíblia, devemos nos portar da mesma maneira que Paulo: preservar a ideia principal. Como Deus disse que o seu nome era blasfemado entre os gentios por causa dos judeus, qualquer citação que contrarie esta ideia deve ser tida por anátema.

Qual seria o argumento dos judeus para rebater a própria Escritura? Isaías demonstra que o próprio Deus disse que o nome d’Ele era blasfemado entre os gentios por causa dos judeus.

 

25 Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão.

A circuncisão foi um ritual instituído por Deus após ter anunciado a Abraão uma aliança. Deus apareceu a Abraão e lhe propôs uma aliança, onde Deus abençoaria sobre modo a Abraão e a sua descendência. Por Deus ter prometido abençoar Abraão e a sua descendência, os judeus acreditavam que eram salvos por serem descendentes de Abraão e por cumprirem o ritual da circuncisão ( Gn 17:10 -11).

Paulo contesta a crença dos judeus, demonstrando que a circuncisão só é proveitosa após o homem cumprir o determinado pela lei. A condição estabelecida para a validade da circuncisão é o cumprimento cabal da lei.

Após demonstrar a condição para a circuncisão ser válida diante de Deus, Paulo se reporta aos transgressores da lei. Aos transgressores da lei, a circuncisão não representa nada.

 

26 Se, pois, a incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura a incircuncisão não será reputada como circuncisão?

Paulo torna a lembrar que os gentios, quando cumprem com os preceitos da lei, são reputados como prosélitos (pessoas convertidas ao judaísmo) pelos próprios judeus, e por isso, circuncidadas. Se é válido reputar um prosélito que cumpre com os preceitos da lei um circunciso, que se dirá de um judeu que não cumpre a lei? Será tido por incircunciso, embora tenha feito a circuncisão na carne.

 

27 E a incircuncisão que por natureza o é, se cumpre a lei, não te julgará porventura a ti, que pela letra e circuncisão és transgressor da lei?

Paulo demonstra que ser judeu ou gentil é uma questão da natureza. A incircuncisão (gentios) é determinada pela natureza, da mesma forma que a circuncisão (judeu). Ser judeu, da forma que consideravam, não é uma condição proveniente de Deus, antes é uma condição determinada pela natureza.

Ser judeu ou gentil é uma condição determinada pelo nascimento e decorre de vínculos sanguíneos, o que demonstra não ter relação com a vontade e Deus.

Paulo destaca que, se os incircuncisos cumprem os quesitos da lei, eles estão em condição de julgar os circuncidados. Observe que os circuncidados de Israel tinham a lei de Moisés e a circuncisão, porém, mesmo com estes dois quesitos, eles eram transgressores da lei.

Os judeus eram transgressores da lei, visto que, ao tropeçarem em um único quesito da lei, tornavam-se culpados de toda a lei ( Tg 2:10 -11).

Já os incircuncisos não haviam recebido a circuncisão e nem mesmo uma lei, e o fato de cumprirem quesitos da lei, demonstra que a prática da lei compete a todos os homens, não importando quem quer que eles sejam. Este argumento demonstra que não há diferenças entre judeus e gentios perante Deus, pois todos são inescusáveis.

Enquanto os judeus reputavam que eram salvos por cumprirem com o rito da circuncisão e por terem recebido a lei, Paulo demonstra que a verdadeira condição de ‘judeu’ e a verdadeira ‘circuncisão’ não é possível determinarmos por questões externas como nascimento e regras exteriores.

 

28 Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. 29 Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.

Paulo apresenta os motivos da sua argumentação anterior. Devemos considerar que, neste versículo, Paulo está se referindo ao verdadeiro judeu, ou seja, ao homem que realmente é salvo por Deus.

Ele demonstra que tudo quanto os judeus consideravam ter recebido de Deus por serem descendentes de Abraão, somente se constituíam em aspectos externos, o que não condizia com a realidade interior.

Para o apóstolo, o verdadeiro judeu, ou seja, o homem que é salvo por Deus, é aquele que recebeu de Deus a circuncisão no coração. Enquanto os judeus se apegavam às questões externas da lei, Paulo procura demonstrar que a verdadeira circuncisão se dá no coração do homem.

Enquanto os judeus consideravam aspectos exteriores da lei e a circuncisão da carne como sendo os elementos essências a quem desejasse ser salvo, Paulo demonstra que o verdadeiro judeu precisa da circuncisão do coração. A mensagem do evangelho de Cristo apregoado por Paulo não difere em nada do que era apregoado pelos profetas: “Circuncidai-vos ao SENHOR, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitantes de Jerusalém, para que o meu furor não venha a sair como fogo, e arda de modo que não haja quem o apague, por causa da malícia das vossas obras” ( Jr 4:4 ).

Moisés apregoava a circuncisão do coração mesmo após ter entregue a lei ao povo de Israel: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

A circuncisão do coração remete ao despojar da velha natureza (velho homem), e somente através de Cristo é possível adquiri-la “Nele também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

A circuncisão de Cristo se dá no coração e não é feita por mão humanas. A circuncisão dos homens é exterior, no corpo, segundo os quesitos da lei, mas não é proveniente de Deus e nem recebe d’Ele louvor. O homem que é judeu interiormente, é aquele que recebeu a circuncisão no coração, no espírito, desvinculado dos elementos da lei (letra), que são exteriores.

Por intermédio de Jeremias Deus censura as obras do povo, mas por qual motivo? Por que as obras dos judeus, um povo religioso e cheio de regras morais e éticas é reputado ‘maliciosas’ por Deus? Eles não praticavam boas ações?

Os judeus sempre praticaram boas ações aos seus irmãos no intuito de conquistar a salvação, e em decorrência desta particularidade elas são ‘maliciosas’, visto que a salvação só é possível através da circuncisão do coração, que é uma ação exclusiva de Deus.




Efésios 2 – Vivificados com Cristo

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.


Introdução

Aqueles que já tiveram um contato com o comentário feito ao capítulo um de Efésios terão maior facilidade em assimilar os conceitos que aqui serão apresentados.

O capítulo um da carta de Paulo aos cristãos em Éfeso apresenta várias ideias que são detalhadas a partir do segundo capítulo.

Para início de nosso estudo, faremos um breve resumo do que já estudamos.

  • As cartas de Paulo possuem um público alvo pré-definido: os cristãos. Em decorrência destas características das Epístolas Paulo utiliza várias vezes o pronome “nós”;
  • Logo após a apresentação do remetente e saudações aos destinatários da carta, Paulo passa a agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas;
  • Para descrever a nova condição que os cristãos alcançaram em Cristo Jesus, Paulo utiliza a maioria dos verbos que fazem referência à ação divina no pretérito perfeito: abençoou, elegeu, predestinou, etc. Estes verbos no pretérito apontam para a nova condição dos cristãos no presente: Eles são abençoados, eleitos, predestinados, redimidos, etc “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas…” ( Ef 1:7 ); O verbo ter indica a nova condição dos cristãos no presente, e a desinência do verbo (-mos) indica que o apóstolo inclui-se entre os que alcançaram a redenção;
  • Após agradecer a Deus, Paulo procura conscientizar os Cristãos da nova condição que eles haviam adquiridos em Cristo “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa…” ( Ef 1:13 );
  • Por último, analisemos a oração de Paulo:

a) Paulo não cessava de agradecer a Deus pela vida dos novos cristãos;

b) Paulo passa a orar a Deus para que os olhos do entendimento dos cristãos fossem iluminados para que soubessem:

1. Qual a esperança da vocação divina;

2. Qual a riqueza da glória da herança divina nos santos, e;

3. Qual a suprema grandeza do poder de Deus para com todos.

Sobre o terceiro quesito que Paulo orou a Deus para que os cristãos conhecessem, ele demonstra que Deus manifestou a suprema grandeza do seu poder ressuscitando a Jesus Cristo.

“E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:19 -23).

A grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo. Sobre nós, os que cremos está a operação da força do mesmo poder que atuou sobre Cristo.

O capítulo dois de Efésios é uma continuação precisa dos versículos acima.

Observe:

A sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto naqueles que creem em seu nome “E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder…”, da mesma forma que a sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo Jesus, ressuscitando-o dentre os mortos “… que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus…”.

Deste ponto continua o nosso estudo.

Veremos o capitulo dois de Efésios sob o prisma da declaração de Paulo aos cristãos em Roma:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

Ele enfatiza que o evangelho é poder de Deus para os que creem. Estudaremos a transformação que ocorre naqueles que são agraciados com este poder.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 )

 

 

A Condição sob o Pecado

1 E VOS vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,

Paulo passa a demonstrar aos cristãos que todos foram vivificados por estarem em Cristo Jesus.

A sobre excelente grandeza do poder de Deus vivificou os cristãos “E vos vivificou…”. Antes de demonstrar os elementos pertinentes a operação do poder de Deus Paulo passa a falar da condição anterior a nova vida em Cristo “..estando vós mortos…”.

O que define o homem como morto ou vivo diante de Deus?

É impossível ao homem assumir as duas condições (vivo e morto) ao mesmo tempo diante de Deus. Ou se está morto ou se está vivo.

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.

Quando o homem está morto para Deus ele se encontra na condição de vivo para o mundo.

A condição de vivo para o mundo é em decorrência do pecado que herdamos de Adão e o salmista Davi assim diz: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Sl 51:5 ).

Para o homem passar a viver para Deus necessariamente ele precisa morrer para o mundo. Isto só é possível após o homem ter um encontro com a cruz de Cristo. Após o encontro com Cristo, o homem morre para o mundo e passa a viver para Deus.

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:11 );

“Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 );

“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

Desta forma devemos nos conscientizar que por estarmos vivos para Deus estamos mortos para o mundo. Aqueles que estão vivos para o mundo, estão mortos para Deus.

No passado, todos estavam mortos em ofensas e pecados, e hoje, os cristãos estão vivos em Cristo.

Há uma tênue diferença entre ofensa e pecado. Esta diferença é facilmente percebida ao lermos o capítulo cinco da carta aos Romanos.

Se observarmos as referências bíblicas, veremos que ofensa geralmente aponta para o pecado decorrente de Adão “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação” ( Rm 5:16 ).

A ofensa em Adão (um só que pecou) trouxe juízo e condenação sobre toda a humanidade. Já o dom gratuito de Deus veio de muitas ofensas para a justificação.

A ofensa de Adão deixou a humanidade diante de Deus na condição de mortos. Por quê? Por que a determinação divina a Adão foi clara: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Na determinação divina vem incluso a lei, o juízo e a condenação: Não comerás – a lei; No dia em que dela comerdes – o juízo foi estabelecido no momento que comeram do fruto proibido; certamente morrerás – a sentença é morte.

Em decorrência desta condenação Jesus declara: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ). Se aquele que não crê já está condenado é porquê este homem já passou pelo juízo e condenação divino.

A morte pertinente ao velho homem é em decorrência da queda de Adão e resulta da condenação adquirida no Éden.

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” ( Ef 1:7 );

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

Paulo coloca uma nota explicativa nas frases acima: A redenção pelo sangue é remissão das ofensas e dos pecados!

“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” ( Ef 2:5 ).

Geralmente a palavra ofensa vem em conexão com a condição de morto diante de Deus.

A palavra ‘pecado’ acaba por abranger duas perspectivas: a ofensa em Adão e a conduta do homem: “E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas” ( Cl 2:13 ).

A vivificação em Cristo ocorre quando as ofensas são perdoadas, quando o escrito de dívida que pesa sobre o homem é riscado.

“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” ( Cl 2:14 ).

Só é possível a vivificação em Cristo quando se tem um encontro com a cruz de Cristo. É necessário morrer com Cristo para que o homem possa ressurgir uma nova criatura, livre da ofensa e dos pecados.

“Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” ( 1Jo 1:7 ).

Andar em trevas é o mesmo que não praticar a verdade. A prática da verdade só é possível quando se anda, ou se comporta na luz.

Observe a exposição de João: Quando se diz que possui comunhão com Deus e não pratica a verdade, o homem anda em trevas, ou seja, é mentiroso ( Rm 3:7 ).

‘Mas…’, ou seja, se andar na luz, o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, segue-se que o sangue de Cristo purifica o homem de todo o pecado.

O pecado aqui está no singular. João não faz referência a conduta pecaminosa através da palavra pecado. A conduta pecaminosa é abordada através da expressão “andarmos em trevas”.

Quando se tem comunhão com Deus (se anda na luz), é porque o sangue de Jesus já purificou de todo o pecado (da morte decorrente das nossas ofensas).

Aquele que tem comunhão com Deus anda na luz; quem não tem comunhão, anda em trevas. Este princípio é semelhante ao da árvore: A árvore boa só produz bons frutos e a árvore má só produz frutos segundo a sua espécie: maus.

Se o homem disser que tem comunhão com Deus e anda em trevas, é mentiroso e não faz o que é verdadeiro. Por outro lado, se na luz andar, é o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, fato que leva a estar livre de pecado (nova condição).

Alguém pode pensar que o versículo compõe uma gradação para alcançar a libertação do pecado. Primeiro o homem teria que andar na luz, e; Segundo, ter comunhão com os irmãos, e, somente então, o sangue de Cristo haveria de purificar-lo dos pecados.

A ‘comunhão’ com os irmãos nunca livraria o homem do pecado, antes é a comunhão com Deus, por meio do sangue de Cristo, que torna o homem livre. A comunhão é um dos aspectos da nova vida com Deus, que demonstra efetivamente que o cristão prática a verdade. Para ter comunhão com os irmãos, primeiramente é necessário ter comunhão com Deus ( 1Jo 1:6 -7).

A ofensa de Adão é específica e nenhum outro homem teve ou terá a possibilidade de transgredir a mesma maneira de Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Não existe a possibilidade de alguém pecar à semelhança da transgressão de Adão: Adão antes de pecar era santo, justo e bom. Perfeito diante de Deus. A determinação de não comer da árvore do conhecimento só foi feita a Adão, e não aos seus descendentes; o ambiente onde Adão estava era perfeito, etc.

Pecado não envolve questões relativo a conduta. A ofensa refere-se ao pecado (desobediência) de Adão, e por ele todos os homens pecaram. O sangue de Cristo foi derramado para que a humanidade fosse redimida da ofensa herdada de Adão ( Ef 1:7 ).

Desta forma a palavra ‘pecado’ é genérica e abrange tanto as ofensas quanto o pecado de conduta: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

A remissão dos pecados refere-se a toda transgressão contra Deus. Ou seja, a remissão engloba tanto o pecado em Adão, que subjugou toda a humanidade, quanto às condutas errôneas dos homens que haverão de ser julgadas perante o Grande Trono Branco.

 

Mudou o Calendário para os Cristãos

2 Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência.

Paulo fala de outro tempo. Percebe-se que ele fala do passado dos cristãos pelo fato de o verbo ‘andar’ estar no passado (andastes).

Por que Paulo fala do passado desta maneira: “…noutro tempo…”? Porque os cristãos vivificados nunca viveram o tempo do pecado. Ou seja, os cristãos vivificados, regenerados, que foram criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade nunca viveram sob a égide do pecado.

Como? Noutro tempo existia o velho homem, escravo do pecado e sem Deus no mundo. Este velho homem ao ter um encontro com Cristo morreu. Foi crucificado com Cristo. Ao ressurgir, é criado por Deus um novo homem.

O novo homem vive num novo tempo: tempo de gozo, paz e amizade com Deus.

Observe que Paulo faz referência ao passado como se tal tempo não fosse o passado dos cristãos “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne…” ( Ef 2:11 ).

Da mesma forma que o nascimento de Cristo mudou a contagem do tempo, o nascimento da nova criatura estabelece um novo tempo de vida e paz no Espírito Santo para os que recebem um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

Compare este versículo com o versículo dez.

Os cristãos, quando ainda não eram cristãos, haviam andado segundo o curso deste mundo e segundo o maligno. O curso deste mundo é morte. O príncipe das potestades do ar é o diabo. O espírito que opera nos filhos da desobediência e o engano.

Andar refere-se a conduta. Observe o que Paulo escreveu na carta aos Gálatas: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:25 ). Paulo exorta a todos que nasceram de Deus, e que agora vivem em Deus, a também se comportarem como filhos de Deus.

Para se viver em Espírito, necessário é nascer do Espírito, conforme Jesus diz a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ).

O andar em Espírito diz da conduta da nova criatura: “Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências” ( Rm 13:13 -14).

‘Viver em Espírito’ não é o mesmo que ‘andar em Espírito’. Este não ocorre em consequência daquele. A ordem é dupla: revesti-vos do Senhor e não tenhais cuidado com a carne ( Rm 13:14 ).

Desta maneira podemos verificar que, se o homem viver em Cristo, também precisa andar em Espírito.

O viver em Espírito é o mesmo que ser revestido de Cristo, ou o despojar da carne ( Cl 2:11 ). O andar no Espírito refere-se ao cuidado diário que os cristãos precisam se aplicar para não praticar o que é pertinente à carne. Não é o cuidado que santifica o homem, porém, como o cristão foi santificado por estar em Cristo (nova criatura), esta é a vontade de Deus para a nova condição alcançada em Cristo.

“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 )

Há principados e potestades dos céus e principados e potestades do ar ( Ef 2:2 e Ef 3:10 ). Existem anjos e também existem demônios. Posteriormente aprofundaremos o estudo sobre os seres celestiais.

Os filhos da desobediência são atraídos e engodados pelo engano e este é o espírito que sobre eles opera. Mas, ‘nós’ (os cristãos), os que cremos em Cristo, temos a verdade do evangelho e o Espírito Santo de Deus.

 

3 Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.

Entre os filhos da desobediência, todos os cristãos, tanto judeus quanto gentios, antes andavam no desejo da carne.

Quando Paulo diz: ‘…todos nós também (…) como os outros também…’, ele esta fazendo referência a judeus e gentios. Está é uma das maneiras que Paulo utiliza para incluir os judeus na mesma condição dos gentios antes de terem um encontro com Cristo.

Os Judeus convertidos também andaram nos desejos da carne e eram também filhos da ira como os demais (gentios).

Paulo fala sobre o desejo da carne. Todos os homens antes de terem um encontro com Cristo andam nos desejos da carne. É possível ao homem desvencilhar-se do desejo da carne sem a cruz de Cristo? Não!

O desejo da carne refere-se à ofensa ocorrida em Adão. Só através do novo nascimento o homem torna-se livre do desejo pertinente à carne.

Qual é o desejo da carne? Paulo ao escrever aos Gálatas demonstrou que o desejo da carne é contrário ao desejo do Espírito de Deus “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” Ef 5. 17.

Em que o desejo da carne se opõe ao Espírito? A oposição entre a carne e o Espírito se resume em morte e vida “Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:6 ).

Desta maneira o apóstolo Paulo esclarece o que ocorre quando se está na carne: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ).

Quando se está no Espírito a inclinação do novo homem é amizade com Deus (vida), sendo certo que o novo homem produz exclusivamente fruto para Deus ( Rm 7:4 e Rm 8:7 ).

Só é possível andar no desejo da carne quando se está efetivamente na carne. Andar no desejo da carne só é possível àqueles que, por natureza, são filhos da ira, ou seja, é condição pertinente a todos aqueles que não tiveram um encontro com Cristo.

Todos os cristãos antes de terem um encontro com Cristo andavam no desejo da carne. Agora, em Cristo, não mais se anda no desejo da carne.

“… antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”

“… quando estávamos na carne” é o mesmo que dizer “antes andávamos nos desejos da carne”.

Por estar na carne o homem faz a vontade da carne e dos pensamentos.

Qual a diferença entre desejos da carne, vontade da carne e vontade do pensamento?

 

 

Os desejos da carne

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” ( Mt 7:18 )

Os fariseus faziam boas obras perante os olhos de seus semelhantes, entretanto, por rejeitarem a Cristo, continuavam sob o pecado de Adão e tudo o que produziam era segundo a natureza pecaminosa que possuíam.

Jesus ilustra a condição dos fariseus através da relação fruto – árvore. É pertinente à natureza das árvores boas produzirem frutos bons, e as árvores más produzirem frutos maus.

Por mais que os fariseus procurassem fazer as obras estipuladas na lei, não conseguiam realizar o bem, visto que a natureza deles era má. Eles não haviam nascido de novo, e, por tanto, eram filhos da ira, e tudo o que produziam eram frutos para a morte ( Rm 7:5 ).

Jesus dá o veredicto: “Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo” ( Mt 7:19 ). Não há exceção. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.

Quando Jesus falou a Nicodemos, ele demonstrou que para ver o reino dos céus necessariamente o homem precisa nascer de novo, e neste aspecto também não há exceção.

Os fariseus diziam: “Senhor, Senhor…”, mas, nem todos que assim dizem entrarão no reino dos céus, visto que estes não fazem a vontade de Deus.

Os fariseus não entrariam nos céus por não creem naquele que Deus enviou, pois esta é a vontade do Pai “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós” ( Jo 5:38 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

O que determina a qualidade do fruto é a natureza da árvore. Se alguém crê em Cristo, o seu fruto é bom. Como os fariseus não criam em Cristo, eles permaneciam em seus pecados, e por tanto, os seus frutos eram maus “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ).

João Batista disse aos fariseus que lhes era necessário produzirem frutos dignos de arrependimento. Frutos dignos de arrependimentos são boas obras? Não! As obras que os fariseus faziam eram ‘superiores’ as obras do povo, no entanto, eles não produziam frutos dignos de arrependimento “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ). Quem pensa que basta dizer que tem por pai Abraão que está salvo, não produz fruto digno de arrependimento ( Mt 3:9 ).

João Batista alerta: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ). Todas as árvores que não produzem bom fruto devem ser cortadas e destruídas.

Em contra partida, todos os que têm um encontro com Cristo também morrem para poderem ressurgir. Estes ressurgem e fazem parte da oliveira verdadeira e dão bom fruto “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ).

Os fariseus vieram ao mundo em pecado, e por tanto, andavam no desejo da carne. Eram filhos da ira, filhos da desobediência, filhos de Adão por natureza “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” ( Jo 8:44 ), ou se preferir, filhos do diabo.

Os fariseus por não nascerem de novo andavam segundo o curso deste mundo, ou seja, andavam nos desejos da carne “Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência” ( Ef 2:2 ).

Os fariseus eram árvores não plantadas pelo Pai, como Jesus disse: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

 

 

Fazendo a vontade da carne

“E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos ( 2Tm 2:26 )

As obras da carne são conhecidas: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia…” ( Gl 5:19 ).

A humanidade num todo andava segundo o desejo da carne: mortos em delitos e pecados. As obras da humanidade seguia o curso estipulado pela natureza perniciosa “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 b).

A pratica pecaminosa é uma constante na vida dos homens, pois fazem a vontade da carne. Fazem a vontade da carne, pois ela não é sujeita a lei de Deus “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” ( Rm 8:7 ).

 

Fazendo a vontade do pensamento

Qual era o pensamento dos escribas e fariseus? Eles pensavam que eram filhos de Abraão, e que, portanto, eram filhos de Deus.

E o que João Batista disse? “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Os homens sempre presumem de si mesmo que é preciso fazer algo para alcançar a salvação. O jovem rico é um exemplo: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” ( Mc 10:17 ). O homem sempre presume de si mesmo que para agradar a Deus é necessário fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Este é um dos maiores erros do pensamento humano.

Certa feita Jesus foi interpelado sobre o que deveriam fazer para fazer a obra de Deus: “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Os pensamentos do homem se estruturam na religião, na justiça própria, no conhecimento humano e na consciência.

“Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” ( Rm 2:15 )

Paulo ao escrever aos Romanos demonstrou que a obra que deriva da lei sempre esteve presente no coração dos homens. Os gentios, mesmo não tendo a lei de Moisés, sempre praticaram as obras da lei naturalmente.

Por quê? Porque os homens sempre se guiaram por meio de seus pensamentos tendo como parâmetro a consciência.

Desta maneira os homens seguem o que presumem “Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” ( Pv 14:12 ).

A vontade do homem é guiada pelas obras da lei. Muitos não se salvam por meio da crença em Cristo por se guiarem através da consciência e do pensamento. Estes se sentem seguros por estarem pautados na própria consciência (quer acusando ou defendendo), e continuam perdidos em decorrência da concupiscência do engano.

Aqueles que seguem a vontade do pensamento acabam por se sentirem ‘certinhos’ e com direito a salvação. Estes pensam que a salvação se dá por meio de boas obras e procuram respaldo e orientação em suas consciências. Ledo engano! Caem no engano do diabo.

O desejo da carne é que o homem faça a vontade da carne e do pensamento. Já a vontade do Espírito é que façamos a vontade do Espírito.

A luta entre carne e Espírito é para que não façamos a nossa vontade “…para que não façais o que quereis”, antes, devemos fazer a vontade de Deus, que é crer naquele que Ele enviou, e que nos amemos segundo o seu mandamento.

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ).

Quando o apóstolo Paulo diz: “… na minha carne, não habita bem algum…”, ele faz referência ao desejo da carne. Não há bem algum na natureza decorrente da queda e condenação de Adão. Através da queda de Adão os homens passaram a ser filho da ira, filho da desobediência, e não há bem algum nesta natureza.

Quando Paulo diz: “…com efeito o querer está em mim…”, ele faz referência a vontade do pensamento, o que é pertinente a todos os homens. Todos os homens querem e procuram fazer o bem, mas se não nascerem de novo é impossível fazerem o bem, visto que a carne não é sujeita a lei e Deus.

Quando Paulo diz que: “…não consigo realizar o bem”, ele faz referência a vontade da carne que decorre do desejo da carne.

O pecado de Adão tornou todos os homens escravos do pecado. Por mais que o homem queira realizar o bem, isto só fica na vontade. Por quê? Porque tudo aquilo que o escravo produz, produz para o seu senhor.

Há outra ilustração desta verdade: a árvore má não pode produzir bons frutos, isto porquê bons frutos não derivam de uma má árvore.

“… e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também”

A natureza de filhos da ira foi transmitida a todos os homens por meio da ofensa de Adão. Não podemos nos esquecer que filhos de Adão, filhos da desobediência e filhos da ira fazem referência a transgressão no Éden.

Faz-se necessário observarmos a estrutura de texto que Paulo construiu.

Paulo ora a Deus para que fosse dado aos cristãos: ‘…em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação’;

Segue-se que Deus iluminou os olhos do entendimento dos cristãos, para que:

  • Soubessem qual a esperança da vocação;
  • Quais as riquezas da glória da sua herança, e;
  • Qual a sobre-excelente grandeza do seu poder.

O poder de Deus foi manifesto em Cristo ( Ef 1:20 ), e este mesmo poder vivificou os cristãos ( Ef 2:1 ).

“E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar no lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( Ef 2:6 -7).

“… segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:19 -21).

No capítulo primeiro da carta, Paulo faz referência à operação do poder de Deus sobre aqueles que creram (v. 19). Em seguida Paulo demonstra que o poder de Deus foi manifesto em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos.

É característica própria às cartas de Paulo fazer um adendo contendo aspectos importantes acerca de Cristo.isto.

Na carta aos Efésios Paulo descreve a ação do poder de Deus em estabelecer a glória que Jesus tinha antes de haver mundo ( Ef 1:20 -23; Jo 17:5 ). Na carta aos Colossenses Paulo descreve a pessoa de Cristo, a imagem do Deus invisível ( Cl 1:15 -20).

Em seguida Paulo traz a lembrança dos leitores a condição passada ( Ef 2:1 ). Paulo demonstra que Deus vivificou os cristãos e a condição pecaminosa na qual se encontravam.

Do versículo quatro em diante Paulo passa a descrever o que o poder de Deus fez aos cristãos. Observe que a estrutura de texto que Paulo utiliza para descrever a ação divina na vivificação dos cristãos é semelhante ao que foi realizado em Cristo na ressurreição.

4 Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,

No capítulo anterior o apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus e que este mesmo poder foi manifesto ao ressuscitar Jesus dentre os mortos ( Ef 1:19 -23).

Quando Paulo fala do poder de Deus manifesto em Cristo, ele passa a descrever o que aconteceu com Cristo após a ressurreição.

Logo em seguida, Paulo passa a falar da ação de Deus sobre os cristãos: “Ele vos vivificou…”. Mas, antes de falar da vivificação Paulo faz um adendo e fala da condição do homem no pecado ( Ef 2:1 -3).

Agora, no versículo quatro Paulo volta ao tema que teve início no capítulo um, versículo dezenove: vivificou!

Apesar da condição pecaminosa do homem, Deus é riquíssimo em misericórdia. A expressão ‘riquíssimo em misericórdia’ se deve ao grande amor demonstrado aos homens.

5 Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo ( pela graça sois salvos ),

Observe que a morte decorre da ofensa.

O poder de Deus que foi manifesto em Cristo ressuscitando-o dentre os mortos e por meio deste poder os cristãos creram e foram vivificados juntamente com Cristo.

“E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” ( Ef 1:19 ).

6 E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;

Os cristãos foram ressuscitados (vivificados) juntamente com Cristo “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” ( 1Pe 1:3 ).

Cristo ao ressurgir assentou-se a destra de Deus nos céus e nos fez assentar nos lugares celestiais.

Os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo; é o mesmo que estar assentado nos lugares celestiais ( Ef 1:3 ; Ef 1:20 e Ef 2:6 ).

7 Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.

O objetivo dos cristãos terem ressurgido com Cristo é específico: “… mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( V. 7).

Cristo assentou-se a destra de Deus acima de todo principado, autoridade, poder, domínio e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas no vindouro.

Jesus, além de receber todo domínio e poder, também demonstrará nos séculos vindouros as abundantes riquezas da graça de Deus.

8 Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.

Pela graça somos salvos, por meio da fé.

Paulo retorna ao versículo dezenove do capítulo um: os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus “E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do teu poder” ( Ef 1:19 ).

A salvação é por meio da fé segundo a força do poder de Deus. Como? A salvação é por meio da fé segundo a pregação do evangelho:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

E novamente:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 )

Desta maneira conclui-se que: “A fé vem pelo ouvir…” .

A salvação é graça, pois foi dada aos homens por promessa. Deus prometeu salvação poderosa a todos os homens através do descendente de Abraão

“Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós…” ( Rm 4:16 ; Gl 3:16 ).

Primeiro Deus prometeu a Abraão o descendente e só após ouvir a promessa Abraão creu, sendo a sua fé em Deus imputada como justiça. Foi por graça a promessa. Abraão nada fiz e Deus lhe prometeu o descendente.

A promessa refere-se a graça de Deus dada aos homens por intermédio de Abraão e do descendente, que é Cristo.

“… mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão” ( Gl 3:18 ).

A promessa foi concedida por Deus. A promessa é dom de Deus. Não foi o homem que conquistou a salvação, mas Deus a deu gratuitamente.

9 Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

A salvação vem da promessa e não das obras. Caso a salvação fosse concedida por meio daquilo que produzimos, haveria motivo para alguém se posicionar de maneira altiva: “Eu conquistei a minha salvação. Fiz por merecer”.

10 Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

Não há como a salvação ser pelas obras. Por quê? Porque somos feituras de Deus.

Observe a grandeza da exposição de Paulo: antes de conhecermos a Cristo todas as nossas obras pertencia por direito ao pecado. Éramos escravos do pecado, e por tanto, tudo o que produzíamos pertencia ao pecado.

Por mais que o homem trabalhe e se esforce em fazer boas obras, elas não poderão salvá-lo, visto que tais obras não lhe pertencem.

Um escravo não adquire bens. Um escravo não ajunta fortuna. Como é possível a um escravo adquirir a própria liberdade se ele não possui recursos? Tudo o que se produz pertence ao seu senhor! O escravo é propriedade de seu senhor.

O trabalhador escravo do pecado só tem um salário estipulado: a morte!

A salvação não vem das obras porque há a necessidade de se nascer de novo. O novo homem é criado em Cristo, e só a partir de então é que se produz a boa obra.

A obra realizada por meio da antiga natureza não é contada como algo necessário para a existência da nova criatura. O salário que o pecador recebe é morte.

A vinda a existência da nova criatura fica na pendência única e exclusiva do poder de Deus. Primeiro há a regeneração e após as obras. Não há como inverter os fatores.

Não é por obras, visto que o novo homem é criado em Cristo; todos os que creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus com o objetivo de produzirmos boas obras.

São poucas as citações do antigo testamento, mas Paulo buscou em Isaías esta última declaração:

“SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ).

O profeta vaticinou o recebimento da paz que excede a todo entendimento. Há paz para aqueles que estão em Cristo Jesus, pois estes não necessitam realizar qualquer obra para alcançar a salvação.

Tudo que havia para ser feito foi realizado.

“Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo…” (v. 2);

“Não vem das obras (…) Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus…” (v. 10)

Por ser feitura de Deus, criado em Cristo, houve ‘um’ outro tempo em que o cristão não era feitura de Deus. Neste tempo a nova criatura (os cristãos) nunca existira.

Os versículos seguintes são conclusivos. Todo arcabouço doutrinário demonstrado nos versículos anteriores é utilizado como base para tocar o pensamento dos leitores.

Com base nos elementos doutrinários Paulo conclui: “Portanto…”

Gentios e Judeus

11 Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens;

O apóstolo reiterou aos seus leitores que eles haviam sido vivificados dentre os mortos.

Até o versículo anterior o apóstolo expõe questões de ordem doutrinária. Deste versículo em diante Paulo utiliza-se das questões doutrinárias para tratar do relacionamento entre gentios e judeus que se tornaram cristãos.

Os cristãos gentios não deveriam esquecer que ‘noutro tempo’ eles eram gentios na carne, ou seja, noutro tempo eles não pertenciam a Deus. Ser gentio na carne refere-se à descendência, a origem do indivíduo quando separado da comunidade de Israel.

Deus estabeleceu uma distinção entre gentio e judeu quando escolheu Abraão e lhe fez promessa. Esta distinção tinha a finalidade de preservar a linhagem que introduziria Cristo ao mundo.

Porém os judeus não entenderam este contexto e se achavam melhores que os outros povos simplesmente por terem o rito da circuncisão. Tinham na circuncisão um elemento de salvação, visto que, através dela, avocavam a filiação de Abraão com direito a promessa.

Por isso os judeus nomeavam os gentios de incircuncisos. Os judeus nomeavam os gentios de ‘incircuncisão’ e se auto-intitulavam de ‘circuncisão’.

Com a classificação feita por Paulo entendemos que os judeus são carnais, visto que eles não aceitaram a Cristo “… pelos que na carne …”.

A circuncisão dos judeus é caracterizada por Paulo de: “… feita pela mão dos homens”, para diferenciar da circuncisão realizada por Cristo ( Cl 2:11 ).

12 Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.

Paulo aponta cinco situações diferentes em que se encontravam os gentios:

a) Sem Cristo;

b) Separados da comunidade de Israel;

c) Estranhos às alianças da promessa;

d) Não tendo esperança, e;

e) Sem Deus no mundo.

Neste versículo Paulo refere-se ao ‘outro’ tempo através da afirmação: “naquele tempo”. A qual tempo o apóstolo se refere? A outro tempo, o que é diferente quando se refere ao passado.

Paulo enumera estas cinco situações de maneira peculiar: no tempo em destaque, os cristãos ainda eram incrédulos. As situações enumeradas por Paulo retroagem no tempo: os gentios estavam sem Cristo, condições sanadas quando creram na mensagem do evangelho.

Somado a situação de não terem Cristo, os gentios também estavam à parte da comunidade de Israel como conseqüência de não serem participantes das alianças.

Anterior a tudo isto, os gentios não tinham esperança, visto que a humanidade perdeu o vínculo com Deus em Adão.

13 Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto.

Porém, no tempo presente, o agora, os cristãos estavam em Cristo. O estar em Cristo remete a nova natureza, visto que aqueles que estão em Cristo, são novas criaturas “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

“…vós, que antes estáveis longe…” refere-se aos gentios.

O sangue de Cristo aboliu o pecado que fazia a separação entre Deus e os homens, e a lei, que fazia separação entre judeus e gentios. Desta maneira os gentios se achegaram a Deus.

14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio,

Cristo é a paz de Deus dada aos homens. Os que receberam a paz de Deus passam a fazer parte do grupo que Paulo intitula como sendo ‘nós’. Jesus é a nossa paz, visto que por meio da igreja ele uniu judeus e gentios em um único corpo ( Ef 3:6 ).

15 Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz,

Na carne de Cristo foi desfeita a inimizade entre os homens e Deus. Sabemos que a lei só pode disciplinar a carne, sem valor algum para o espiritual. Conforme esta verdade, Cristo ofereceu a sua carne na morte, e com ela desfez a lei dos mandamentos.

Todos quantos creem em Jesus também se desfazem da carne e tornam-se espirituais, pois se conformam com Cristo na as morte ( Cl 2:11 ), e não mais estão sujeitos a lei, pois ela só tem poder sobre aqueles que vivem na carne.

Ao destruir a barreira de inimizade, Cristo criou em si mesmo dos dois povos um novo homem, e estabeleceu a paz.

16 E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.

Reconciliar ambos, judeus e gentios, com Deus. É o mesmo que matar na cruz as inimizades. A cruz é o elemento reconciliador dos homens com Deus. Por quê? Porque por meio dela o homem morre para o mundo e é criado um novo homem que vive para Deus.

Quando Paulo aponta as inimizades, ele tem em mente a inimizade entre Deus e os homens pecadores, e a inimizade que existia entre judeus e gentios, visto que o véu do templo rasgou-se de alto a baixo.

17 E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto;

Paulo demonstra que Jesus não fez acepção de pessoas ao anunciar o evangelho da paz. Ele anunciou aos gentios e aos judeus a paz que excede todo entendimento.

18 Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.

Por que paz? Porque por Jesus, tanto judeu quanto gentio, tem acesso a Deus em um mesmo Espírito. Alguém poderia contestar onde estaria a paz evangelizada, e Paulo aponta a paz no acesso que ambos, judeus e gentios, têm acesso a Deus.

19 Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus;

Antes, os gentios eram estrangeiros e forasteiros. Em Cristo os gentios tomaram a posição de cidadãos e pertencentes à família de Deus.

20 Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;

O apóstolo aponta a solidez no qual os elementos que foram adquiridos em Cristo sustentam a condição anterior. Cristo é a pedra onde podemos construir um edifício a Deus “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina” ( At 4:11 ); “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

21 No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor.

Em Cristo, a Principal Pedra de Esquina, está sendo construído um só edifício, e o edifício cresce bem ajustado para habitação de Deus ( Is 57:15 ).

22 No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.

Paulo aponta para os gentios demonstrando que eles também estavam incluídos no edifício destinado à morada de Deus em Espírito “…vós juntamente sois edificados…” (judeus e gentios).

O elemento ‘comunhão’ é essencial para a construção deste edifício ( Jo 1:7 ).




Vitória sobre Satanás

Você obteve vitória sobre o mundo e sobre a velha natureza por fazer parte da família de Deus. Você é mais que vencedor por Aquele que te amou. Mas, como resistir ao diabo?


Vitória sobre Satanás

Quando você creu em Cristo, você nasceu de novo e tornou-se um dos filhos de Deus ( Gl 3:26 ). Você foi gerado de novo de uma semente incorruptível, a palavra de Deus ( 1Pe 1:3 e 23).

Deus é Luz, e não há nele trevas alguma, e você é filho da luz “Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” ( 1Ts 5:5 ).

Nada neste mundo pode afastá-lo da nova condição em Cristo “Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 8:38 -39).

Ou seja, nenhuma criatura (inclusive Satanás) tem o poder de afastar os cristãos de Deus. Em todas as coisas enumeradas pelo apóstolo (acusações, condenações, tribulações, angustias, perseguições, fome, nudez, perigo, espada, etc), os nascidos de novo são mais que vitoriosos em Deus ( Rm 8:33 -37).

Satanás não pode afastar o homem de Deus, porém, o homem pode afastar-se de Deus. Como?

No jardim do Éden Satanás tentou o homem, mas Ele não tinha poder sobre o homem para fazê-lo transgredir.

Foi o homem que, de livre e espontânea vontade, ao analisar os benefícios que poderia obter da árvore do conhecimento do bem e do mal, lançou mão da árvore e comeu “Vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento…” ( Gn 3:6 ). O homem esqueceu-se do alerta de Deus e guiou-se através dos seus sentidos.

O homem passou a confiar em seus sentidos e desprezou a palavra de Deus. Ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal o homem pecou contra o seu Criador. A relação de amizade entre Deus e a criatura foi comprometida.

A condição de inimizade com Deus (pecado) propagou-se a todos os seus descendentes, e é por isso que a Bíblia diz que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.

Ao tentar o homem Satanás sabia que não tinha poder para obrigar o homem a transgredir, porém, sabia que somente a criatura pode distanciar-se do seu Criador. Isto havia acontecido com ele. Não foi Deus quem rejeitou a Satanás, antes, Satanás lançou-se da presença de Deus.

Qual era a ação de Satanás antes de você conhecer a verdade do evangelho?

O trabalho de Satanás com os incrédulos é cegá-los “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” ( 2Co 4:4 ).

Embora Deus já tenha preparado salvação poderosa o bastante a todos os homens, eles permanecem na condição de inimigos de Deus pela ignorância que há neles “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

A ação de Satanás é voltada para comprometer o entendimento dos homens sem Deus, para que eles não sejam alcançados pela verdade do evangelho. Eles ignoram o amor de Deus, uma vez que ainda não lhes resplandeceu a luz do evangelho.

Como Satanás cega o entendimento dos homens sem Deus?

Satanás sabe que o homem guia-se pelos seus sentidos, uma vez que Adão e Eva portaram-se desta maneira no Éden. Satanás procura fazer com que os homens permaneçam guiados pelos seus sentidos, seguindo o coração perverso herdado em Adão.

Os homens são levados a não perceber que trilham um caminho de morte. Todos seguem o caminho espaçoso que conduz a perdição, porém, quando comparam a conduta uns dos outros, consideram que aqueles que buscam uma vida integra serão salvos, e que, os desregrados estão perdidos.

Os homens que vivem dissolutamente, cometendo toda sorte de torpezas, pensam que as suas condutas os faz inimigos (separados) de Deus. Já os que seguem todas as regras sociais e morais pensam que, por segui-las, poderão barganhar com Deus a salvação.

Satanás não lhes deixa chegar a luz do evangelho, para que permaneçam enlaçados no seu engano que ocorreu no Éden.

Não é o comportamento dos homens que os fez desagradáveis ou que os fará agradáveis a Deus.

O nascimento através da semente corruptível de Adão já os tornou desagradáveis, e somente através do novo nascimento o homem é agradável a Deus. Os homens nascem em pecado, e não importa o bem e o mal que façam, e isto não lhes melhorará a condição diante de Deus: estão mortos em delitos e pecados.

Quando você está em Cristo e alcança a condição de agradável a Deus, a luz do evangelho resplandece e desfaz a ignorância proveniente de Satanás. Você compreende que a única forma de o homem ter acesso a Deus é pelo novo e vivo caminho Hb 10: 20.

Depois disso, o nascido de Deus precisa conhecer quais são os ardis de Satanás, para que possa permanecer firme nos dias maus.

Ora, o ardil de Satanás está em falsificar a palavra de Deus, pois é através dela que você tem vida ( 2Co 2:17 ). Ele procura fazer com que o cristão não guarde o modelo das sãs palavras do evangelho “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus” ( 2Tm 1:13 ); “Ora, irmãos, desejo lembrar-vos o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual recebestes e no qual permaneceis, pelo qual também sois salvos se o retendes tal como vo-lo anunciei” ( 2Co 15:1 -2 ).

Lembrando: Você é nascido de Deus e já venceu o maligno, porém, não deve ignorar os ardis de Satanás “Porque não ignoramos os seus ardis” ( 2Co 2:11 ). Você deve observar com maior diligência aquilo que já ouviu, para que em tempo algum venha a desviar-se da palavra da verdade do evangelho ( Hb 2:1 ).

Nada pode separá-lo do amor de Deus, pois as portas do inferno não prevalecem contra o corpo de Cristo, e você faz parte deste corpo ( Mt 16:18 ). Maior é o que está conosco do que aquele que está no mundo ( 1Jo 4:4 ).

O seu cuidado deve estar em prosseguir em conhecer ao Senhor por meio da sua palavra “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo” ( Ef 6:11 ). O cristão deve estar fortalecido em Deus, e na força do seu poder, que é o evangelho ( Ef 6:10 com Rm 1:16 ; 1Co 1:18 ). É preciso reter a verdade do evangelho conforme anunciado na Escritura ( 2Co 15:1 -2).

A concepção de mundo do cristão deve ser conforme a verdade do evangelho, pois, se for de outro modo, é preciso o arrependimento (mudança de conceito) “Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade, E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que a vontade dele estão presos” ( 2Tm 2:25 -26).

A segurança do cristão está no poder de Deus, e não em si mesmo, pois do contrário poderá ensoberbecer-se contra o seu irmão em Cristo, pois este é o engano do diabo (soberba). Somente o conhecimento de Deus livra o homem da queda proveniente das astutas ciladas do inimigo.

Você é um novo homem, regenerado, e trilha um novo e vivo caminho. Mas, a astúcia do diabo está em tentar fazer com que você se guie novamente através dos seus sentidos, com base no conhecimento proveniente da árvore do conhecimento do bem e do mal, e não segundo o conhecimento de Deus, que é a luz do evangelho.

Cuidado quando apresentarem a você outro evangelho pautado em boas ações, pois elas não conduzem o homem a Deus Hb 10: 20. Cuidado com as mensagens que apontam os deslize do homem como elementos que afastam o homem de Deus. Este é um ardil de Satanás, e se você abandonar a simplicidade do evangelho estará trazendo sobre si repentina condenação ( 2Co 11:3 ).

Quais são os riscos que Satanás representa àqueles que estão em comunhão com Deus? Embora Satanás não possa roubar ou extinguir a vida de Deus em você, ele possui ‘ardis’ para que você novamente comprometa a sua relação com Deus.

E quais são estes ardis?

Mudar o foco da palavra de Deus – Deus disse ao homem que poderia comer de todas as árvores do jardim livremente (liberdade) “De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ), e Satanás enfatizou a proibição: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” ( Gn 3:1 );

Distorcer a ideia da palavra de Deus – Embora o Salmo 91 seja um salmo messiânico, Satanás propôs a Cristo tentar a Deus, a pretexto de provar a sua filiação divina ( Mt 4:6 );

Comprometer a compreensão da palavra de Deus – A compreensão da palavra de Deus é essencial à nova vida, e a ação de Satanás é arrebatar o que é anunciado ( Mt 13:19 );

A verdade do evangelho demonstra que todos os homens são pecadores por nascerem de Adão, e que é preciso nascer de novo através de Cristo, o último Adão, para livrar-se da semente corruptível de Adão, tornando-se filhos de Deus.

Adão e Cristo são cabeças de duas gerações de homens. Adão é o cabeça da raça humana que é constituída de homens carnais, e Jesus, o cabeça de uma geração de homens espirituais ( 1Co 15:45 e 49).

A Bíblia demonstra que o homem é pecador por ser descendente de Adão (filho da ira e da desobediência). O homem sem Cristo peca porque é servo do pecado, e não dispõe de meios para mudar está condição, a não ser que Deus o redima através do novo nascimento.

Enquanto Deus demonstra através da sua palavra que a morte, a condenação e a ira veio sobre todos os homens por causa da desobediência de Adão, o diabo utiliza o ardil de apontar a conduta do homem como a fonte de todos os males.

Enquanto Jesus demonstra que do coração dos homens é que procede toda sorte de males, ou seja, o coração do homem é corrupto segundo a natureza pecaminosa herdada de Adão, os fariseus e escribas focavam o comportamento dos homens como sendo a raiz da malignidade ( Mt 15:18 -20).

O diabo foi vencido por Cristo na cruz, e você é vencedor por Cristo. Permaneça de posse desta vitória retendo a verdade do evangelho tal qual é anunciado na Escritura ( 2Co 15:2 ). E para isso, ‘tomai toda a armadura de Deus’ ( Ef 6:13 ).

 

Perguntas e Respostas:

1) Alguém pode afastá-lo de Deus? ( Rm 8:35 )

R. Não!

2) Satanás pode afastar o homem nascido de novo de Deus? ( Rm 8:39 )

R. Não!

3) O que fez Adão e Eva afastarem-se de Deus? Gn 3: 6; Guiarem-se e confiarem em seus _instintos__.

4) Satanás não tem poder para fazer o homem que está em Cristo distanciar-se de Deus, mas procura fazer com que o cristão se _distancie__.

5) Quais são os ardis de Satanás?

R. Mudar o Foco da palavra de Deus; distorcer a ideia da palavra de Deus; comprometer a compreensão da palavra de Deus.

6) No que consiste a armadura de Deus?

R. A Verdade do Evangelho.

7) Por que veio a condenação e a morte sobre todos os homens?

R. Porque Adão e Eva deixaram de confiar na palavra de Deus.

8) É o comportamento dos homens que os faz agradáveis a Deus?

R. Não!

9) Como ter acesso a Deus? ( Hb 10:20 )

R. Através de Cristo Jesus, crendo em sua palavra.

10) O que Satanás procurou fazer na tentação de Jesus?

R. Distorcer a palavra de Deus.




A Obediência

Hoje, são muitas as mensagens que dizem que o cristão deve servir e obedecer a Cristo dando-lhe o primeiro lugar em suas vidas. Para uns, servir a Cristo é ter uma religião; outros entendem que precisam de uma filosofia de vida; outros entendem que servir a Cristo decorre do comportamento, da moral e da ética.


A Obediência

Quando falamos de obediência, geralmente vêm a nossa mente a ideia de regras, mandamentos, ordens, etc. Jesus disse: “Se me amais, guardai os meus mandamentos” ( Jo 14:15 ).

Quais são os mandamentos de Cristo? Jesus especificou qual o comportamento daqueles que o amam?

Jesus é enfático com relação aos seus mandamentos: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama” ( Jo 14:21 );“Se alguém me amar, guardará a minha palavra (…) Quem não me ama não guarda as minhas palavras” ( Jo 14:23 -24).

Mas, quais são os mandamentos? Ao falar deles, João disse: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ).

a) Os mandamentos de Deus revelam o seu amor?;

b) Os homens necessitam dos mandamentos, como sendo essenciais à vida? e;

c) Os mandamentos não são pesados, ou seja, não são penosos?

Por que os mandamentos revelam o amor de Deus? A resposta é: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ).

O apóstolo João demonstra que cumprir o mandamento de Deus é o mesmo que crer no nome do seu Filho, ou seja, a partir do momento que você ouviu a mensagem do evangelho e creu, cumpriu cabalmente o mandamento de Deus.

Crer em Cristo, ou cumprir o mandamento de Deus é designado também como obediência: “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

Por meio da obediência à verdade do evangelho (que apresenta o Filho de Deus aos homens) o homem deixa de ser filho da desobediência (Adão) “Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” ( Cl 3:6 ), e passa a ser filho de Deus, o que é essencial a nova vida. Segue-se que os homens precisam dos mandamentos de Deus para obter nova vida.

Por que os mandamentos não são penosos? Diferente daquilo que os homens imaginam, o mandamento de Deus é crer, o que não demanda esforços ou realizações. Se comparado as ordenanças humanas no intento de alcançar a salvação “Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los” ( Mt 23:4 ), os mandamentos de Deus são suaves e leves ( Mt 11:30 ).

Há aqueles que nomeiam a Cristo de Senhor, mas que não fazem a sua vontade “Por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu mando?” ( Lc 6:46 ). Somente aqueles que creem em Cristo como salvador são verdadeiramente seus servos e fazem a vontade Dele “Qualquer que vem a mim, ouve as minhas palavras, e as observa, eu vos mostrarei a quem é semelhante” ( Lc 6:47 ).

Você como cristão deve ter o cuidado para não ser enganado. Há muitos que apregoam que você deve fazer uma ‘pseudo’ vontade de Deus, ou fazer a ‘obra’ de Deus. Mas, como você já aprendeu, a vontade de Deus e a obra de Deus é que o homem creia naquele que Ele enviou.

Algumas pessoas perguntaram a Cristo sobre o que fazerem para executarem a obra de Deus, ou seja, o que deveriam realizar para serem servos de Deus, e a resposta de Jesus é clara: “A obra de Deus é esta: crede naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Hoje, são muitas as mensagens que dizem que o cristão deve servir e obedecer a Cristo dando-lhe o primeiro lugar em suas vidas. Para uns, servir a Cristo é ter uma religião; outros entendem que precisam de uma filosofia de vida; outros entendem que servir a Cristo decorre do comportamento, da moral e da ética.

Pelas suas ações os homens nunca alcançarão a salvação de Deus, porém, além de serem religiosos, moralistas, formalistas, legalistas, tradicionalista, etc, aplicam-se aos jejuns, celibatos, isolamentos, sacrifícios, meditações, orações, rezas, abstinências, etc, tudo na procura de salvação.

Mas, não é isto que Deus preparou para os seus filhos, àqueles que creem no nome do seu Filho. Em Cristo Jesus há liberdade. Aos seus filhos ele convida que vivamos o presente século de maneira sóbria e piamente “Ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente” ( Tt 2:12 ).

O apóstolo Paulo recomenda que os filhos da luz comportam-se como filhos da luz, porém, não é o comportamento dos filhos da luz que os tornam filhos “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ).

Há muitos lideres cristãos que aprisionam os seus seguidores através de ordenanças em nome da obediência ao evangelho de Cristo. Fica o alerta de Paulo: Que ninguém faça de você uma presa, pois já obedecestes de coração a forma de doutrina que lhe foi apresentada ( Cl 2:8 ; Rm 6:17 ).

Que ninguém prive você do prêmio tentando sujeitá-lo a ordenanças como não tocar, não provar ou não manusear ( Cl 2:18 ). Que ninguém te julgue pela comida, pela bebida, por dias, por festas, por vestes, pois já estais unidos à Cabaça, que é Cristo.

Após você ter obedecido a Deus por intermédio do evangelho, a única obra que deve realizar é a perseverança, pois a perseverança é a OBRA perfeita da fé Tg 1: 4, pois quem te guardará incontaminado do mal é Deus ( Jo 17:15 ); “Mas fiel é o SENHOR, que vos confirmará, e guardará do maligno” ( 2Ts 3:3 ).

É preciso diferenciar obediência a verdade, que é crer em Cristo, do dever de amar os irmãos. O amor aos irmãos não promove a salvação, mas a obediência à verdade promove. Porém, a obediência à verdade leva ao amor fraternal não fingido ( 1Pe 1:22 ; 1Jo 3:23 ).

 

Perguntas:

1) O que é obediência a Deus?

R. Crer no seu Filho, o enviado de Deus ( 1Jo 3:23 )

2) O que é crer?

R. É descansar na promessa de salvação em Cristo. Crer em Cristo, ou cumprir o mandamento de Deus também é designado como obediência: “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

3) Qual a relação entre obediência e os mandamentos do Senhor?

R. Cumprir os mandamentos de Deus é obedecer e obedecer é cumprir os seus mandamentos. Ora, quem obedece a Deus crê naquele que Ele enviou, e quem obedece crê no enviado de Deus.

4) Você é obediente a Deus?

R. Se você crê em Cristo como salvador conforme diz as escrituras, você é obediente.

5) O que Jesus exige daqueles que lhe chamam ‘Senhor, Senhor’?

R. Que façam a sua vontade, que é crer em Cristo conforme diz as Escrituras.

6) Qual é a obra perfeita da fé?

R. Perseverar na esperança proposta. A perseverança é a obra perfeita da fé (evangelho)!

7) O que fazer para executar as obras de Deus?

R. Que creiais naquele que ele enviou.




Crer para ser regenerado, ou ser regenerado para crer?

O homem crê para ser regenerado, ou é regenerado para crer? Há uma preocupação em definir qual a ordem correta dos eventos para a salvação, mas não há uma preocupação em analisar a palavra de Deus.


Crer para ser regenerado, ou ser regenerado para crer?

“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 )

A Ressurreição e a Vida

O pecador necessita ser regenerado para crer ou necessita crer para ser regenerado?

Está é uma pergunta que ecoa ao longo dos séculos, e ainda é possível ouvi-la reverberando em nossos dias! Qual a resposta correta? Como responder a pergunta?

Jesus foi categórico ao afirmar: “Eu sou a ressurreição e a vida” ( Jo 11:25 ) O que isto quer dizer?

O Senhor Jesus não definiu e nem teorizou sobre o que é a ressurreição e o que é a vida, porém, através do pronome pessoal na primeira pessoa do singular “Eu”, e do verbo ‘ser’ no presente do indicativo ‘sou’, ele demonstra ser a própria personificação da ressurreição e da vida.

Como Cristo é a ressurreição e é a vida, todos quantos querem ressurgir e viver necessitam tornarem-se um com Ele. Ele é de per si a ressurreição e a vida, e somente quando o homem torna-se participante da sua carne e do seu sangue, ressurge e vive por intermédio d’Ele.

Como? Quem come a carne e bebe o sangue de Cristo permanece em Cristo e Cristo nele ( Jo 6:56 ). A carne e o sangue de Cristo é comida e bebida, respectivamente ( Jo 6:55 ). Quem come e bebe da carne e do sangue torna-se participante de Cristo. É possuidor da vida eterna e será ressuscitado no último dia ( Jo 6:53 ; Jo 6:47 ).

A ressurreição e a vida são próprias à natureza de Cristo, e todos que querem ressurgir e viver tem que tornarem-se participantes da natureza de Cristo ( Jo 1:16 ; Cl 1:10 ). Neste sentido Jesus orou ao Pai: “Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em unidade…” ( Jo 17:22 -23).

Neste sentido disse o apóstolo Pedro: “Desse modo ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas vos torneis participantes da natureza divina…” ( 2Pe 1:4 ).

Jesus é enfático: “Quem come a minha carne, e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” ( Jo 6:56 ). Através deste anuncio o Senhor Jesus estabelece o seu mandamento, visto que, aquele que guarda o seu mandamento permanece em Deus, e Deus nele “E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 3:6 e 23-24).

Jesus é a personificação da ressurreição e da vida, e todos que queiram ressurgir e viver necessita conhecê-lo. Não é somente ter ciência, saber acerca do Messias, antes é necessário ter comunhão íntima. Assim como o marido ‘conhece’ a esposa, tornando-se dois numa só carne “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne” ( Ef 5:31 ), é necessário ao homem ‘conhecer’ a Cristo, ou antes, ser conhecido d’Ele ( Gl 4:9 ).

Sobre este assunto o apóstolo Paulo disse haver um grande mistério “Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” ( Ef 5:32 ), porque “… nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 ).

 

Fé e Crer

Para continuar analisando a declaração do Senhor Jesus faz-se necessário estabelecer o que é fé, e o que é crer.

Somos informados pelo apóstolo Paulo que o evangelho de Cristo é poder para salvação de todo que crer ( Rm 1:16 ), e que através do evangelho se descobre a justiça de Deus, que é de fé em fé.

Por que de fé em fé? O apóstolo dos gentios ainda indica que é de fé em fé conforme a citação que ele faz do profeta Habacuque. A profecia: “O justo viverá da fé”, é uma especificação de que a justiça de Deus é de fé em fé, e por isso, o apóstolo citou expressamente o profeta Habacuque “Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá” ( Hc 2:4 ).

Como compreender o que é de ‘fé em fé’, se as interpretações que encontramos da passagem ‘o justo viverá da fé’ são duvidosas?

Para compreendermos, necessitamos analisar o que Moisés ensinou “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Muitos entendem que ‘viver da fé’ é confiar que Deus há de sustentá-lo através da contribuição dos irmãos. Seria esta a interpretação acertada? Não! Moisés demonstra que Deus deixou o povo ter fome e que depois os alimentou com maná para ensinar-lhes uma lição: que o homem não viverá de pão, ou seja, que o reino de Deus não consiste em comida e bebida ( Rm 14:17 )!

Se alguém quer beber e comer, que vá trabalhar ( 2Ts 3:10 ), pois Deus determinou que o homem COMERÁ do suor do seu rosto “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:19 ). O homem não viverá do suor do seu rosto, antes comerá do suor.

‘Viver da fé’ não é o mesmo que comer à custa dos irmãos, visto que o apóstolo Paulo demonstrou que se deve trabalhar dia e noite para não ser pesado ao irmão ( 1Ts 2:9 ; 2Ts 3:8 ).

E como viverá o homem? De tudo que sai da boca do Senhor viverá o homem! E o que é proveniente da boca do Senhor? A sua palavra!

Temos através do ensinamento do profeta Moisés que o homem viverá através da palavra de Deus, ou seja, todo aquele que ouve a palavra de Deus e confia, alcança vida tornando-se justo, onde se conclui que o ‘justo viverá da fé’, a fé que uma vez foi dada aos santos ( Jd 1:3 ).

O verbo viverá no futuro demonstra que o homem está morto, e que necessita da palavra de Deus para ter vida (viverá). Com relação a este mundo o homem comerá do suor do seu rosto, com relação a vida eterna, o homem viverá por intermédio da palavra de Deus.

Habacuque anunciou a mesma mensagem que Moisés: o justo viverá pela palavra de Deus (fé), demonstrando também que é indissociável a condição de justo do novo ser que vem a existência.

  • “… mas o justo pela sua fé viverá” ( Hc 2:4 );
  • “… mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Surge a indagação: é justo porque viverá da fé, ou viverá da fé porque é justo? Por meio da fé o homem vive e é justo. Sem conhecer Cristo, a vida concedida aos homens, não há como ser justo ( Jo 1:4 ). Como ser justo sem ser participante da vida? É impossível! Aquele que tem a vida, ou seja, que vive pela palavra de Deus, também é justo “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Após compreender que em muitas passagens bíblicas ‘fé’ é o mesmo que ‘a palavra de Deus’, ou o mesmo que o ‘Verbo encarnado’, temos os elementos necessário para compreender o que significa ‘justiça de Deus de fé em fé’ “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

A fé é Cristo que se manifestou e todos quantos tem a Cristo (fé) e creem (fé) n’Ele são justificados.

Judas disse: “… senti a necessidade de vós escrever, exortando-vos a batalhar pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos” ( Jd 1:3 ). Quando o apóstolo Paulo escreveu que os cristãos eram salvos pela graça, por meio da fé, a palavra ‘fé’ designa a mensagem do evangelho “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” ( Ef 2:8 -9). Pela graça de Deus os cristãos são salvos mediante a verdade do evangelho (fé) que foi entregue (manifesto) aos santos, ou seja, a fé (evangelho) não vem dos homens, antes é dom de Deus.

A ‘fé’ é o mesmo que ‘evangelho’, visto que o apóstolo Paulo demonstra que a fé não vem das obras, demonstrando que ‘obras’ são proveniente dos homens, e a ‘fé’ manifesta por Deus.

Quando falava com a samaritana, Jesus argumentou: “Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ). Qual o dom de Deus? A sua palavra encarnada concedida aos homens: Jesus. Para conhecer o dom de Deus é necessário conhecer aquele que pediu: “Dá-me de beber”.

O evangelho também é nomeado de graça, salvação, fé, boas novas, esperança, poder de Deus, pregação, pão, vida, água, justiça, escândalo, espada, etc. Para saber quando estas palavras fazem referência ao evangelho, faz-se necessário analisar o contexto no qual foi empregada.

Se ‘fé’ é o mesmo que ‘evangelho’, o que é crer? Crer é descansar na esperança proposta “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

Analisando o verso, temos que, ‘pomos o nosso refúgio’ é o mesmo que crer, descansar, confiar. Mas, em que os cristãos creem, descansam, confiam? Na ‘esperança proposta’, ou seja, no evangelho de Cristo.

Deste modo, temos que: “… a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ). O que o apóstolo concluiu? Que crer em Deus só é possível quando se ouve a palavra de Deus, ou seja, de fé (evangelho) em fé (crer) ( Ex 19:9 compare com Ex 20:19 ).

 

O que vem primeiro?

O homem crê para ser regenerado, ou é regenerado para crer?

Há uma preocupação em definir qual a ordem correta dos eventos para a salvação, mas não há uma preocupação em analisar a palavra de Deus. Analisam o que disseram acerca da palavra de Deus, mas não estudam diretamente a palavra de Deus.

Para a salvação é necessário alguns fatores:

  • O salvador;
  • A mensagem do salvador
  • Que o homem ouça o que é anunciado;
  • Que descanse naquilo que foi anunciado, e por fim;
  • O agir de Deus.

O que ocorre primeiro? O apóstolo Paulo apresenta a ordem correta:

“Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:13 -17).

Deus se apresenta como o Salvador: “Eu, eu sou o SENHOR, e fora de mim não há Salvador” ( Is 43:11 ). Com relação à salvação, o Salvador tudo executou: “Eu anunciei, e eu salvei, e eu o fiz ouvir, e deus estranho não houve entre vós, pois vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR; eu sou Deus” ( Is 43:12 ).

Com base na mensagem anunciada por Joel, o apóstolo Paulo demonstra como alcançar salvação: invocando o nome do Senhor.

Mas, para invocar é necessário crer, e para crer é necessário ouvir, e para ouvir é necessário que alguém seja enviado, e que este alguém enviado esteja de posse de uma mensagem, e que a mensagem seja proveniente do Redentor.

Para que a humanidade fosse salva, a promessa de Deus efetivou-se antes mesmo dos tempos que se medem em séculos, ou seja, na eternidade a fé que um dia haveria de se manifestar já era a promessa de Deus “Em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos” ( Tt 1:2 ).

Cristo é a palavra eterna, o Verbo eterno, o autor da fé, ou seja, a fé é antes de todas as coisas. Cristo é o Verbo de Deus encarnado, ou seja, ele é a fé que haveria de se manifestar, porém, Ele é antes de todas as coisas ( Cl 1:17 ). Ou seja, a fé é antes do crer. Como o Autor da fé (evangelho) é antes de todas as coisas, o crer só é possível após a obra que o Autor Eterno realizou: a fé.

Acreditar na existência de Deus não promove a salvação, antes a salvação é proveniente da promessa de Deus. É da promessa que advém a salvação, e é na promessa de salvação que o homem deve crer. Para ser salvo o homem necessita crer na mensagem do evangelho, ou seja, a ‘fé’ que havia de se manifestar ( Gl 3:23 ). A ‘fé’ (esperança proposta) é a ancora da alma, segura e firme, que penetra além do véu para todos que nela se refugiam ( Hb 6:18 -19).

O apóstolo Paulo cita Isaías ‘Quem deu crédito a nossa pregação?’ ( Is 53:1 ), para demonstrar que a ‘fé’ é a mensagem do evangelho. Como as pessoas não têm ‘obedecido’ (ouvido, crido) ao evangelho, como se lê em Isaías, conclui-se que a fé (evangelho=boas novas=pregação) é pelo ouvir, e o ouvir (dar crédito=invocar=crer=fé=descasar) pela palavra de Deus “Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:16 -17).

Deus anunciou salvação e salvou, ou seja, cumpriu a sua palavra “Eu anunciei, e eu salvei, e eu o fiz ouvir, e deus estranho não houve entre vós, pois vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR; eu sou Deus” ( Is 43:12 ). Como é fiel aquele que anunciou salvação e salva, ele tem a virtude necessária (fidelidade) para que os homens lhe dêem credito (eu o fiz ouvir). De sorte que, o ouvir (dar crédito) é pela palavra de Deus, que é fiel e verdadeira.

Deus falou outrora de muitas vezes, e de muitas maneiras, e por último falou aos homens através do Filho, o Verbo encarnado ( Hb 1:1 ). A fé foi anunciada concitando os homens a ouvir, beber, comer, invocar, dar crédito, buscar, etc., porém, não deram crédito e rejeitaram os profetas, mas, por último, Deus enviou o seu Filho “E, por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito a meu filho” ( Mt 21:37 ).

Desde então, Deus tem enviado os seus servos ao mundo rogando que se reconciliem com Deus “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

Ora, se Deus roga através dos seus embaixadores, isto significa que Ele não impõe, ou determina quem será salvo, antes Ele espera que confiem em sua promessa. É impossível invocar, confiar, se não crer, mas como crer se não ouvirem? Resta que Deus, o salvador, anunciou salvação aos homens, e aqueles que dão crédito (ouvem), Ele salva.

Neste sentido, temos que, a fé é antes da salvação, pois ela (fé) foi manifesta para este objetivo: redenção. Mas, antes da salvação, é necessário que invoquem o Autor da fé, o que só foi possível (invocar) porque creu que Deus é poderoso para salvar,

  • O Autor da fé, Cristo, o Verbo eterno;
  • A fé (evangelho) é manifesta e anunciada;
  • Quem ouve e descansa (confia) naquele que se manifestou;
  • É salvo por Deus.

Quando lemos as Escrituras nos depararemos com passagens que apresentam a obra de Deus, como é o caso de Isaías 43, verso 12. Em outras passagens e apontado somente a necessidade do homem, que necessita invocar aquele que salva, como é o caso de Joel 2, verso 32.

A fé (evangelho anunciado) é o que promove a fé (crer), pois qualquer crença divorciada do evangelho, não salva. Há muitos que acreditam em milagres, outros que acreditam em Deus, e aqueles que querem acreditar em algo, mas nenhuma destas crendices pode salvar, pois não derivam do poder de Deus (evangelho) ( Rm 1:16 ).

 

Ainda que esteja morto

Após anunciar quem Ele é: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida” ( Jo 11:25 ), o Senhor Jesus apresenta uma oportunidade de salvação: “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ). Esta não foi a única vez que Cristo anunciou a necessidade de se crer n’Ele. Observe:

  • “Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12:46 );
  • “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” ( Jo 7:38 );
  • “E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” ( Jo 6:35 );
  • “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna” ( Jo 6:47 );
  • “E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?” ( Jo 11:26 ).
  • “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Jo 2:32 ).

Quem crer que Cristo é a ressurreição, a vida, a luz, o pão da vida, a água viva, o Verbo encarnado, o Senhor, ou seja, conforme as Escrituras, será salvo. Quem crê é salvo!

A mensagem anunciada é para os que necessitam de salvação: “Aquele que invocar será salvo” ( Jl 2:32 ). A mensagem tem por alvo os famintos e sedentos “Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai” ( Is 55:1 ). Cristo pregou as boas-novas aos pobres, tristes, escravos e presos “O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar as boas-novas aos pobres” ( Is 61:1 -2).

Ora, a mensagem do evangelho tem por alvo os mortos, pois são eles que precisam de vida ( Jo 11:25 ). Quem precisa ouvir, ou quem necessita de vida são os mortos, e não os vivos!

Muitos divulgam que só é possível crer aqueles que são regenerados, porém, este argumento contradiz a mensagem de Cristo que diz: ainda que esteja morto, viverá!

Jesus veio ao mundo por causa dos que jazem em trevas. Ou seja, se alguém que está em trevas (não regenerado) crer em Cristo, passa da morte para a vida (regeneração).

Quem não possui um rio de água viva no seu ventre, ou seja, que não é regenerado, se crer na mensagem anunciada, rios de água viva correrão do seu ventre. Os regenerados não têm sede, pois qualquer que bebe da água, nunca mais terá sede.

Dizer que, para crer, antes é necessário ser regenerado, contraria o que Cristo diz: “… mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede” ( Jo 4:14 ). Quando da regeneração o Senhor faz no homem uma fonte que jorra para a vida eterna, e nunca mais terá sede, ou seja, a regeneração não pode anteceder a sede de água viva.

Os famintos, os sedentos precisam ouvir para comer. Sem inclinar o ouvido (crer) é impossível vir a Cristo. Sem ouvir (dar crédito) é impossível a alma viver! ( Is 55:3 ). Qual o propósito de oferecer alimento depois que a fome ja foi saciada? Não dá para aceitar o argumento de que Deus primeiro concede vida, para depois oferecer vida. O homem que já recebeu o benefício da comida e da bebida necessita comer e beber novamente?

Os mortos podem ouvir! Os mortos podem ver, pois é isto que as escrituras diz, ou seja, que resplandceu a luz aos que habitavam na região da sombra da morte “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ). Somente após lhes resplandecer a luz do evangelho é que foram transportados para o reino do Filho do amor de Deus ( Cl 1:13 ).

A carne e o sangue de Cristo são para regeneração, e não a regeneração para ser participante da carne e sangue. O convite de Cristo é para que o homem pegue a sua cruz e siga-o, ou seja, os que vivem no pecado precisam tomar a cruz e seguirem após Cristo, quando será crucificado, morto, sepultado e ressurgirá com Cristo “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim” ( Mt 10:38 ).

Se a regeneração antecedesse o crer, somente os regenerados seriam capazes de tomar a cruz. Qual o objetivo de alguém que já vive para Deus tomar novamente a cruz? Aquele que morreu, de uma vez morreu para o pecado e passou a viver para Deus, não precisando mais morrer ( Rm 6:10 ).

Jesus se identificou como a luz que veio ao mundo, e todo que n’Ele crê, não permanece nas trevas, ou seja, aquele que creu estava em trevas, mas após crer, não permaneceu nas trevas “Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12:46 ).

Quem ainda não possui um rio de água viva, basta somente crer, que será feito uma fonte que jorra pra a vida eterna “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” ( Jo 7:38 );

Os pobres (carentes) de Deus, os famintos e sedentos (de justiça) que inclinarem os ouvidos nunca terão fome e sede “E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” ( Jo 6:35 ; Is 55:3 ). Para vir ao pão e a água basta inclinar o ouvido, ou seja, dar crédito a palavra de Deus.

Quem crê em Cristo possui a vida eterna, ou seja, quem possui a vida eterna não adquiriu uma capacidade de crer em Cristo, antes crê e nunca morrerá “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna” ( Jo 6:47 ); “E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?” ( Jo 11:26 ).

O apóstolo Pedro anunciou aos cristãos da dispersão que pela ressurreição de Cristo dentre os mortos Deus os gerou de novo (regeneração) ( 1Pe 1:3 ). Mas, como foram regenerados?

  • Através do precioso sangue de Cristo, cordeiro conhecido antes da fundação do mundo e manifesto nos últimos tempos ( 1Pe 1:19 -20);
  • Através do cordeiro manifesto (que é fé e esperança) os cristãos creram em Deus, pois Deus O ressuscitou dentre os mortos ( 1Pe 1:21 );
  • Quando creram na fé e esperança (obediência a verdade) que está em Deus, os cristãos foram regenerados. Foram regenerados de semente incorruptível, a palavra de Deus ( 1Pe 1:22 ).

Os regenerados são filhos de Deus, mas aqueles que não são filhos de Deus e que recebem a Cristo, crendo em seu nome, lhe é concedido por Deus poder para serem feitos (regenerados) filhos ( Jo 1:12 ).

Os filhos não têm fome e sede de justiça (necessidade de pão e água, pois nunca mais tem sede e fome), como é o caso dos filhos da ira e da desobediência. Agora, em Cristo, os cristãos necessitam do leite racional e de alimento sólido. O evangelho é pão e água que concede vida aos que estão mortos, mas aos que alcançaram vida é ministrado o leite racional para que cresçam, e os perfeitos, alimento sólido “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” ( 1Pe 2:2 ); “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ).

Quando fazem a ‘regeneração’ preceder o ‘crer’, é porque desconhecem que ‘fé’ é diferente de ‘crer’. A ‘fé’ (verdade do evangelho) precede o ‘crer’, que por sua vez, antecede o novo nascimento. A regeneração jamais precede a fé, pois a fé é a semente incorruptível, a qual vive e é permanente ( 1Pe 1:23 ).

Cristo é as boas-novas de salvação, o Verbo encarnado, a palavra de Deus, a semente incorruptível, aquele que vive e permanece para sempre. Ele é antes de todas as coisas.

É a fé que uma vez foi dada aos santos ( Jd 1:3 ), a fé que havia de se manifestar ( Gl 3:23 ), ou antes, a esperança proposta que conduz o homem a descansar ( Hb 6:18 ). O que é proposto? Tomai e aprendei, e encontrareis descanso “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ).

Na promessa há um juramento, e como ele é fiel e não mente (duas coisas imutáveis), o homem é firmemente consolado e refugia-se naquele que prometeu.

Crer não é capacidade, antes é relação interpessoal. Quando Deus estende as mãos para salvar, e o homem confia, uma relação se estabelece. Quando o faminto e sedento encontra aquele que oferece pão e água que é para a vida eterna, e aceita, viverá para sempre. Aceitar e comer não podem ser confundidos com obras ou participação humana na salvação, etc.

Assim como no deserto os picados pelas serpentes necessitavam olhar para a serpente de metal para viverem, os homens precisam olhar para Cristo. Em olhar não há obra ou participação do homem na salvação, antes é resultado da confiança na palavra que diz: “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” ( Nm 21:8 ).

Os picados pela serpente estavam mortos, mas aquele que olhasse, viveria. Quando Deus concita aos homens que olhem, que creiam, que invoquem, que comam, que beba, etc., nada mais é que um convite aos mortos para que vivam “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” ( Is 45:22 ).

Quem precisa olhar? Quem precisa de salvação? Os mortos, os não regenerados!

É um erro afirmar que a regeneração precede a fé, pois a fé é antes de todas as coisas, e aos homens foi manifesto para salvação ( 1Jo 1:2 ; Ef 3:5 ; Gl 3:23 ; Is 53:1 -2).

A mensagem de Deus aos mortos picados pela serpente demonstra que todos eles estavam aptos a atenderem a mensagem que diz: “e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” ( Nm 21:8 ), da mesma forma, todos os homens estão aptos a atenderem o chamado que diz: “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” ( Is 45:22 ).

A regeneração não é o que capacita o homem crer. Mortos e vivos precisam confiar em Deus, pois Adão vivia e não confiou em Deus. Se a regeneração é o que capacita o homem crer, segue-se que jamais Adão e Eva poderiam rejeitar a palavra de Deus.

Se Adão depois que pecou estava impossibilitado de crer, segue-se que antes de pecar teria de estar impossibilitado de rejeitar a palavra de Deus.

Crer em Cristo não advém de uma capacitação, antes decorre do homem considerar a palavra de Deus. Deus disse a Adão: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), para que ele preservasse a vida que possuía, mas preferiu ouvir a palavra de uma serpente.

O povo de Israel foi resgatado do Egito com mão forte, e Deus queria falar-lhes para que confiassem n’Ele. Mas, o povo quando foi provado, não consideram o cuidado do Senhor, e proibiram que Deus lhes falasse: morreram todos no deserto ( Ex 20:19 ).

Ou seja, crer é proveniente da palavra de Deus. Basta aos que creem considerarem em seu coração tudo que já tem ouvido, para que jamais se desviem assim como fez Adão. Basta aos homens que estão mortos em delitos e pecado considerarem o que lhes é ofertado, para que sejam participantes da promessa.

A quem o profeta anuncia a palavra do Senhor? Aos mortos para que tenham vida, conforme se lê: “Então me disse: Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do SENHOR” ( Ez 37:4 ). Toda a casa de Israel estava como os ossos secos: sem esperança. Mas, bastava ouvirem (dar credito) a palavra do Senhor para que Deus realiza-se a sua obra.




A maldade e a bondade dos homens maus – Ensaio sobre o Bem e o Mau

Por que os homens que não entraram pela porta estreita são classificados por Jesus como ‘maus’? Como é possível alguém ser ‘mau’ e fazer coisas boas? Como é possível não haver quem faça o bem, se é possível ao homem fazer ‘boas coisas’? Quando o homem passou a condição de mau? (…) A concepção dualística ‘bem’ versos ‘mal’ não corresponde a verdade das Escrituras, visto que Deus é bom, e o mau, por sua vez, não é co-eterno. Na eternidade o mau em oposição a Deus não existe, visto que é impossível algo existir à parte de Deus.


A maldade e a bondade dos homens maus

Ensaio sobre o Bem e o Mau

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” ( Mt 7:11 )

Por que Jesus classificou os homens que não entraram pela porta estreita como sendo ‘maus’? Como é possível alguém ser ‘mau’ e fazer coisas boas? Como é possível não haver quem faça o bem, se é possível ao homem fazer ‘boas coisas’? Quando o homem passou a ser mau?

 

Estas e outras perguntas serão respondidas ao longo deste artigo. Boa leitura.

 

Deus, o Bem e o Mau

  • Não há quem faça o bem;
  • O que determina se um Homem é Bom ou Mau;
  • A Árvore – Figura adequada para expor princípios espirituais;
  • Deus é Bom;
  • Deus e o Mau;
  • Deus e o Conhecimento do Bem e do Mal;
  • O Bem e o Mal;
  • O Pecado e o Conhecimento do Bem e do Mal;

 

Não há Quem faça o Bem

Antes de demonstrar aos cristãos em Roma que todos os homens pecaram e que todos foram destituídos da glória de Deus ( Rm 3:23 ), o apóstolo Paulo citou algumas passagens do Livro dos Salmos que dá sustentação a sua declaração, e dentre elas destacamos a seguinte: “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, nem um se quer” ( Sl 14:3 ; Rm 3:12 ).

O apóstolo Paulo chegou à conclusão que ‘todos os homens pecaram’ com base no exposto pelo salmista, visto que, ‘todos os homens se desviaram e juntamente tornaram-se imundos’. Ora, se a humanidade tornou-se imunda quando desviou do Criador, concomitantemente, todas as ações dos homens foram e estão ‘contaminadas’. Por torna-se imundo quando se desviou, não há um homem se quer que faça o bem, ou seja, as ações dos homens também se tornaram imundas.

Após demonstrar que todos os homens pecaram (desviaram), o apóstolo dos gentios apresenta as nuances de como todos os homens se fizeram imundos (pecaram). Ele demonstra que por um homem (Adão) entrou o pecado no mundo ( Rm 5:12 ), e que, ‘em Adão’ toda a humanidade pecou “Pois, como pela desobediência de um só, muitos foram feitos pecadores…” ( Rm 5:19 ).

A condição ‘em pecado’ além de comprometer a natureza, também comprometeu as ações dos homens. Do mesmo modo que a lei de Moisés estabelecia que tudo quanto um homem imundo tocasse tornava-se igualmente imundo, tudo quanto um pecador faz também é tido como sendo imundo, ou seja, proveniente do pecado ou do mau, portanto, conclui-se que não há quem faça o bem.

Ora, quando Jesus apontou para os seus ouvintes e disse que eles eram ‘maus’, Ele fez referência ao ‘mau’ que afetou todos os homens quando se desviaram: o pecado. Por causa da ofensa de Adão todos os homens passaram a compartilhar de uma natureza que é ‘oposta’ a natureza de Deus “A inclinação da carne é morte, mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:6 ).

Deus é luz, e os homens passaram à condição de trevas. Deus é vida, e os homens divorciados do Criador passaram à condição de mortos, ou seja, o homem passou a ter uma natureza alienada da vida que há em Deus. Portanto, Deus é vida e paz e a natureza herdada de Adão é morta e em inimizade com Deus.

Tal condição herdada de Adão é repassada de pai para filho, como bem declarou o salmista Davi: “Certamente em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu a minha mãe” ( Sl 51: 5 ). O pecado é o elemento intrínseco à natureza do homem sem Deus, e, por causa desta natureza sem Deus, Jesus nomeou os seus ouvintes, homens que ainda não haviam entrado pela porta estreita (nascido de novo), de serem efetivamente ‘maus’.

Por causa da desobediência de Adão toda a geração dele é designada má diante de Deus ( Nm 32:14 ; Mt 12:39 ). E não somente isto, tudo que proferem e todas as suas ações também são más “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Ao declarar que os seus ouvintes eram ‘maus’, Jesus queria que compreendessem que é impossível ao homem imundo, fruto de uma geração má, produzir o que é puro. Jesus estava respondendo uma questão que desde os primórdios persistia: Como é possível ao imundo produzir o que é puro? “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” ( Jó 14:4 ).

O imundo não consegue produzir o que é puro! Embora muitos homens saibam ‘dar boas dádivas aos seus filhos’, diante de Deus são ‘maus’, visto que, por serem gerados segundo Adão, foram criados imundos, ou seja, na condição de vasos para desonra. Mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus filhos, as suas ‘boas dádivas’ diante de Deus são comparáveis a trapos de imundície, visto que suas obras não são feitas em Deus ( Jo 3:19 ; Jo 3:20 e Jo 3:21 ).

Obs.: Somente fazem ‘boas obras em Deus’ aqueles que estão ‘em Cristo’, ou seja, que creem na mensagem do evangelho. A todos que não aceitaram a Cristo persiste a declaração do Salmista Davi: “Não há quem faça o bem”!

Por ser impossível ao imundo produzir o que é puro, conclui-se que ‘não há quem faça o bem’. Por mais que um pecador (homem mau) se aplique em fazer coisas boas (dar boas dádivas), todas as suas obras são más, pois elas não são feitas em Deus.

 

O que determina se um Homem é Bom ou Mau?

Conforme o que Jesus ensinou fica demonstrado que não são as ações dos homens que determinam quem é mau ou bom diante de Deus. Observe:

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” ( Mt 7:11 );

“Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 );

Uma geração má e adúltera pede um sinal, e nenhum sinal lhe será dado, senão o sinal do profeta Jonas. E, deixando-os, retirou-se” ( Mt 16:4 ).

Não são boas ações e nem bons discursos que determinam quem é bom ou mau diante de Deus, visto que, mesmo sendo maus, os homens sabem dar boas dádivas aos seus semelhantes. O que determina se um homem é bom ou mau é a sua geração ( Pv 30:12 ).

O evento que estabeleceu o ‘mau’ sobre a humanidade (separação entre Deus e os homens) foi a ofensa de Adão ( Rm 6:19 ). Em Adão a humanidade tornou-se imunda (má). Através do nascimento natural todos os homens entram pela porta larga (Adão) e seguem por um caminho que os conduz à perdição ( Mt 7:13 ). Quando a Bíblia diz que o homem é mau, é o mesmo que dizer que o homem é imundo, pecador, trevas, inimigo, em suma, todos esses adjetivos referem-se a uma única condição: o homem separado de Deus.

Do mesmo modo que toda árvore produz frutos segundo a sua espécie, assim também ocorre com os homens. É impossível que o homem separado de Deus produza o bem, do mesmo modo que é impossível que o homem unido a Deus por intermédio de Cristo produza o mau. Jesus disse: “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto” ( Lc 6:43 ).

Jesus também demonstrou que uma das funções do fruto é tornar possível identificar se uma árvore é boa ou má “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore ( Mt 12:33 ). Ora, é impossível mudar a natureza de uma árvore através do fruto, visto que através do fruto só é possível identificar se a árvore é boa ou má.

O que determina se uma árvore é boa ou má? A resposta é simples: a semente. Do mesmo modo que as espécies das árvores estão vinculadas à semente, assim também são os homens: através da semente corruptível de Adão surgem os homens maus, e através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, surgem os homens bons. Enquanto estes são árvores de justiça, plantação do Senhor, aqueles são plantas que o Pai não plantou, fadadas a serem arrancadas e lançadas no fogo ( Mt 15:13 ).

Por causa da transgressão de Adão pereceu da terra o homem piedoso. Desde a queda deixou de existir entre os homens quem fosse reto por serem todos gerados segundo a semente de Adão ( Mq 7:2 ; Pv 30:12 ). Porém, através do último Adão, que é Cristo, os homens piedosos, retos e bons surgiram sobre a terra.

O que determina a condição de pecado do homem (mau) não são as suas ações e nem as suas convicções, antes, ser gerado da semente corruptível, a semente de Adão. Não são os frutos que determinam as espécies das árvores, porém, através do fruto somente é possível verificar e conhecer se a árvore é boa ou má.

É por isso que Jesus apontou a necessidade dos homens nascerem de novo. Todos precisam ser gerados da semente incorruptível ( Jo 3:5 ; 1Pe 1:23 ), para que possam escapar da condenação proveniente da semente de Adão.

Sobre esta verdade profetizou o profeta Isaías: “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

Quando Jesus anunciou no Sermão do Monte que os que choram (tristes) são bem-aventurados, ele estava oferecendo aos seus ouvintes a Glória de Deus em lugar de destruição (cinza). Para tanto, eles precisariam receber a semente incorruptível (a palavra de Deus) para tornarem-se árvores de justiça, plantação do Senhor. Somente os nascidos de Deus não serão arrancados “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Fica demonstrado através dos versículos acima que todos que nasceram segundo Adão são maus e não fazem o bem. Porém, todos que nascerem de novo através da palavra (água) do Espírito Eterno são bons diante de Deus, e produzem o bem ( Jo 3:5 ; Ez 36:25 – 27) “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Em resumo: quando Jesus nomeou os homens de ‘maus’, ele estava fazendo referência à natureza pecaminosa herdada de Adão, visto que a sujeição ao pecado é proveniente da desobediência (ofensa) de Adão.

 

A Árvore: figura adequada para expor princípios espirituais

“Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 )

Durante a exposição no Sermão do Monte Jesus apresentou algumas figuras para ilustrar princípios espirituais.

Ao perguntar: “Colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?” ( Mt 7:16 ), Jesus evidencia aos seus ouvintes um princípio espiritual. Ora, que não se colhem uvas dos espinheiros e figos dos abrolhos é evidente, porém, muitos desconhecem que através desta pergunta Jesus tornou evidente que este princípio também rege a humanidade.

Assim como é próprio das árvores produzirem frutos, Jesus demonstra que toda a árvore boa, sem exceção, produz bons frutos, e que, toda árvore má, sem exceção, produz frutos maus. Produzir fruto não depende de esforço por parte da árvore, como se fosse meritório produzi-los. Produzir fruto conforme sua espécie é próprio à natureza da árvore, do mesmo modo que é próprio ao homem sem Deus produzir o mau, e ao homem que está em Deus produzir o bem ( Mt 7:17 ).

O princípio da impossibilidade aplica-se tanto a árvore boa quanto a árvore má: ambas não podem produzir algo diverso à sua natureza. É impossível a árvore má produzir bom fruto, assim como é impossível a árvore boa produzir maus frutos ( Mt 7:18 ). Como mensurar esta impossibilidade? Ora, através da declaração de Jesus: “Colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?” ( Mt 7:16 ). Não! Portanto, você pode receber boas ações ou dádivas dos homens sem Deus (maus), mas apesar das boas dádivas, os seus frutos não são bons.

Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo! ( Mt 7:19 ). Como produzir bom fruto não é algo meritório, antes é algo pertinente à natureza da árvore, conclui-se que o homem não será lançado no fogo eterno por se aplicar ou não as ‘boas dádivas’, antes será lançado no fogo eterno por não pertencer à plantação do Pai Eterno “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Is 61:13 ).

Quando Deus estabeleceu a sua plantação de árvores de justiça? Qual a semente que dá origem a plantação do Senhor? Como conhecer aqueles que são plantação de Deus?

Jesus é claro: pelo ‘fruto’ se conhece a árvore, ou seja, é possível conhecer os falsos profetas pelo fruto. É necessário reconhecer os falsos profetas (principalmente) porque eles vêm disfarçados de ovelhas ( Mt 7:15 – 16). Não basta ao homem clamar: “Senhor! Senhor!”, como faziam os escribas e fariseus, antes é preciso fazer a vontade de Deus. E qual é a vontade expressa de Deus? Que os homens creiam naquele que Ele enviou! ( Jo 6:29 ; Jo 20:31 ; 1Jo 3:23 ).

Somente após crer em Cristo como diz as escrituras, ou seja, após fazer a vontade de Deus, torna-se possível ao homem produzir bons frutos.

Qual é o fruto de um falso profeta? Professar a Cristo, porém, não segundo a verdade do evangelho! Operar milagres, expulsar demônios e profetizar em nome do Senhor é a pele de ovelha que os lobos devoradores utilizam para enganar os incautos.

Reiterando: nem todos que clamam, operam milagres e profetizam são falsos profetas, mas, o fruto do falso profeta surge dos seus lábios, pois não professam a Cristo conforme a verdade do evangelho.

Qual é o fruto bom que produz os que creem em Cristo? O fruto bom é proveniente dos lábios dos que creem em Cristo, onde está contida a semente da verdade do evangelho, ou seja, o fruto é professar a Cristo segundo as escrituras. É por isso que Jesus protestou contra os escribas e fariseus que era impossível eles dizerem boas coisas sendo maus, visto que, quem não é nascido da semente incorruptível (evangelho), não pode, ou melhor, não consegue professar a verdade do evangelho “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ). “Portanto, ofereçamos sempre por meio dele a Deus sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ).

Somente os nascidos da semente incorruptível possuem um novo coração. Somente os que creem são bons diante de Deus e produzem frutos bons que contém a semente incorruptível. Diferente são os falsos profetas, que mesmo clamando ‘Senhor, Senhor’, o fruto que produzem é mau e não contém no seu interior a semente incorruptível, ou seja, a verdade do evangelho.

Profetizar, expulsar demônios e fazer milagres não é o mesmo que fazer a vontade de Deus. Somente são ‘conhecidos do Senhor’ aqueles que fazem a sua vontade, ou antes, aqueles que têm o seu prazer na lei de Deus ( Sl 1:1 – 6).

É neste ponto em específico que a doutrina de Cristo difere da doutrina de todas as religiões existentes. Enquanto Jesus demonstra que é impossível aos homens que não aceitam a mensagem do evangelho fazer o bem, todas as religiões apontam que é possível ao homem ser salvo fazendo boas ações.

 

Deus é Bom

“Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus” ( Lc 18:19 )

O que motivou aquele homem rico chamar Jesus de ‘Bom Mestre’? Ele estava reconhecendo a divindade de Cristo? Como conhecedor da lei ( Lc 18:21 ), o homem de ‘posição’ bem sabia que somente Deus é ‘bom’. Se o homem cumpridor da lei estava querendo pegar Jesus nalguma questão para acusá-lo, o Mestre demonstrou estar atento sobre o real motivo daquele homem utilizar aquele qualificativo.

Se aquele homem houvesse alcançado a mesma revelação que teve o apóstolo Pedro ao professar que Cristo é o Filho do Deus Vivo, jamais seria questionado por Jesus por admitir a posição de Cristo “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ). Porém, a tristeza do homem em tela demonstra que ele não reconheceu Cristo como sendo o ‘Bom Mestre’, ou seja, ele não reconheceu Jesus como sendo enviado de Deus, caso contrário haveria de seguir a Cristo ( Jo 3:2 ).

Na Bíblia não encontramos uma definição de Deus, porém, há várias referências que apontam atributos pertinentes à divindade. Através de Cristo é possível o homem compreender Deus, visto que, o Verbo encarnado que está à mão direita de Deus foi quem O revelou aos homens ( Jo 1:18 ).

Encontramos na Bíblia que Deus é Luz, Amor, Vida, Justiça, Ira, Justo, Santo, Reto, Verdadeiro, Fiel, Imutável, Bom, etc.

De todos os atributos enumerados anteriormente, analisemos a imutabilidade de Deus. A palavra imutável é proveniente do latim ‘immutabile’ e refere-se aquilo que não muda.

Ora, quando a Bíblia diz que Deus é imutável, tal atributo vincula todos os outros, ou seja, jamais Deus deixará de ser amor, vida, justo, santo, etc. “Porque eu, o Senhor, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” ( Ml 3:6 ). Através da imutabilidade podemos destacar que Deus jamais há de pecar.

Também entendemos que o pecado refere-se à separação que se estabeleceu entre Deus e as suas criaturas “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” ( Is 59:2 ). De outra maneira podemos concluir que Deus não pode pecar porque não há como Deus estar à parte de si mesmo. Não há como se estabelecer uma separação na divindade.

Deus é uno e não há como surgir e inserir na divindade divisão. A unidade da divindade é algo singular, visto que o vinculo perfeito que une as pessoas da divindade é o amor ( Cl 3:14 ).

Quando o Verbo encarnado fez referência ao Pai, Ele disse: “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ), ou seja, mesmo quando Cristo estava em carne, a unidade com o Pai não se desfez.

Jesus também anunciou que os seus seguidores seriam inclusos nesta unidade, para que fossem um do mesmo modo que o Pai e o Filho ‘são’ um “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ).

Quando o apóstolo Paulo descreveu que todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus, ele enfatizou que o pecado fez com que o homem deixasse de estar unido a Deus ( Rm 3:23 ). Neste mesmo diapasão, Jesus orou dizendo que, ao dar aos seus seguidores a glória que lhe foi conferida pelo Pai, todos os seus seguidores igualmente passariam a ser um com o Pai e o Filho.

Através da análise anterior verifica-se que a glória de Deus concedida aos homens é o que os tornam unidos a Deus, e o fato de o homem ter sido destituído da glória de Deus, por causa da desobediência de Adão, ocasionou a separação entre Deus e os homens ( Is 59:2 ).

Como Deus não pode alienar-se da sua glória, pois a Ele pertence, segue-se que Deus jamais será sujeito do pecado. Através desta pequena análise conclui-se que o pecado é o mesmo que separação, alienação, destituição da glória de Deus.

Portanto, quando lemos que Deus é vida, qualquer ser que não esteja unido a Deus está morto; quando lemos que Deus é Luz, qualquer ser que não esteja unido a Deus está em trevas; quando lemos que Deus é paz, qualquer ser que não é participante da glória de Deus está em inimizade com Ele; como lemos que Deus é bom, qualquer ser que não está em comunhão com Deus é mau.

Deus é bom, e o diabo, por não estar unido a Deus, é mau. Deus é bom, e todos os anjos que foram destituídos da glória de Deus são maus. Deus é bom, e todos os homens gerados de Adão são maus porque foram destituídos da glória de Deus. Do mesmo modo que ser ‘bom’ é um atributo intrínseco à natureza de Deus, o ‘mau’ vincula-se a natureza destituída da glória de Deus, ou seja, o mau designa e é pertinente à natureza separada de Deus.

Quando a Bíblia diz que Deus é bom, ela apresenta o atributo ‘bom’ em pé de igualdade com o atributo ‘vida’. Do mesmo modo que Deus é ‘vida’, ‘paz’ e ‘luz’, Ele é ‘bom’. Portanto, temos que considerar o atributo ‘bom’ do mesmo modo que consideramos que Deus é ‘vida’. Como? Ora, não podemos considerar que o atributo ‘bom’ é algo pertinente a Sua ‘personalidade’, ou a um ‘caráter’ ou que Deus tenha uma ‘moral’, antes refere-se a natureza de Deus. O atributo ‘bom’ vincula-se diretamente à natureza de Deus, ou seja, por natureza Deus é bom do mesmo modo que Ele é luz, vida, santo, etc.

Deus é bom e retribuirá todos os homens segundo as suas obras. Não é porque Deus retribuirá os seus adversários com ira que Ele deixará de ser bom. A bondade é um atributo da divindade que não impede que Ele retribua os homens separados d’Ele (maus) com ignomínia, e os participantes da sua glória (bons) com alegria eterna “Jubilai, ó nações, o seu povo, porque ele vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários retribuirá a vingança, e terá misericórdia da sua terra e do seu povo” ( Dt 32:43 ).

Há muitos estudiosos que questiona a bondade de Deus por permitir que pessoas sofram com guerras, catástrofes, pestes, etc. Neste diapasão temos uma resposta dada pelo apóstolo Paulo aos que questionam a justiça de Deus do mesmo modo que muitos fazem questionando a bondade de Deus. Paulo reproduz a pergunta que faziam e demonstra que a questão está envolta em conceitos humanos de justiça “E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus, que diremos? Porventura será Deus injusto, trazendo ira sobre nós? (Falo como homem.)” ( Rm 3:4 ). Analisando do ponto de vista dos homens: se a injustiça dos homens dá ocasião à justiça Deus, será Ele injusto trazendo a recompensa merecida (ira) sobre os injustos? ( Rm 3:5 ). A resposta é clara e precisa: “De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?” ( Rm 3:6 ).

Ora, sabemos que a justiça dos homens é como trapo de imundícies diante de Deus, e que a justiça de Deus se estabelece em Cristo. A Bíblia nos informa que todo homem é mentiroso por causa de Adão, e que somente em Cristo o homem é verdadeiro ( Rm 3:4 ). Em Adão estabeleceu-se a injustiça, e em Cristo a justiça. Em Adão deu-se as trevas, em Cristo há luz. Em Adão todo homem é mentiroso, injusto, trevas e mau, em Cristo o homem é justo, verdadeiro, luz e bom.

Deus é injusto quando traz ira sobre os homens? O Apóstolo Paulo demonstra que não! Deus permanece fiel ante da incredulidade dos homens ( Rm 3:3 ). Do mesmo modo, Deus é bom quando permite ou retribui com o mal os homens, pois este é o modo justo de Deus tratar com os homens “De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?” ( Rm 3:6 ). A maldade dos homens aniquila a bondade de Deus quando Ele retribui com ira os maus? De maneira nenhuma! Deus é justo e bondoso, mesmo quando retribui com ira e mal os homens maus.

O homem foi criado à imagem e semelhança do Criador, e uma das semelhanças conferida pelo Criador à criatura foi a impossibilidade de alterar a sua natureza. Deus é Deus porque é bom, luz, vida, imutável, longanimidade, etc. Sabemos que Deus é único, em quem não há mudança e nem sombra de variação “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ). Diferente de todas as suas criaturas, que muitas vezes querem mudar a própria natureza. Exemplo: O querubim da guarda ungido desejou a semelhança do Altíssimo, porém, ao levar a efeito o seu intento, não guardou o seu principado e foi precipitado ( Is 14:14 ).

Os homens desejam voar como os pássaros, serem invencíveis, serem como os seres angelicais, porém, por mais que desejem, não podem alcançar. O Criador, perfeito em todos os seus caminhos, nem de longe cogitaria em deixar de ser o que é: Deus. Por quê? Porque ser bom, vida, paz, luz, onisciente, em suma: ser Deus é algo pertinente à sua natureza imutável.

Equívocos quanto a asserção: ‘Deus é bom’, geralmente ocorrem porque muitos não consideram a etimologia da palavra grega ‘aghatos’ (bom), que deve ser tomada, não no sentido moral, antes no sentido próprio à época, ou seja, ‘bom’ estava relacionado ao ‘nobre’, condição proveniente da aristocracia, que contrapõe o vil, a ralé, o de classe baixa com aquele que é nobre, bem nascido, o bom.

 

Deus e o Mau

“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas” ( Is 45:7 )

Sabemos que Deus é bom e que todos quantos não compartilham da glória de Deus são maus. Sabemos que Deus é bom porque Ele é o que é, ou seja, a bondade de Deus está atrelada a sua natureza. Qualquer que não compartilha da vida que há em Deus, também não é participante da sua bondade, e, portanto, é mau.

Perceba que o ‘mau’ é pertinente à natureza do homem caído, e não à sua moral, comportamento ou caráter ( Mt 16:4 ). É na geração que se determina quem é bom ou mau. Como? Quando se lê que os homens sendo maus sabem dar boas dádivas, temos que o ‘mau’ vincula-se a natureza herdada de Adão. Ora, o mau vinculado à natureza proveniente de Adão não submete a vontade do homem com relação a dar boas dádivas aos seus semelhantes, tanto que Jesus notificou os seus ouvintes da capacidade do homem fazer boas ações aos seus semelhantes.

Mesmo não tendo feito bem ou mal o homem é concebido e gerado em pecado ( Sl 51:5 ). Por causa da condenação estabelecida em Adão todos os homens desviaram-se e juntamente tornaram-se escusáveis diante de Deus. Ora, este mau que atingiu a humanidade não é proveniente de questões morais, comportamentais ou de caráter como muitos entendem.

Quando Miqueias anunciou que pereceu da terra o homem piedoso e que não havia um homem se quer entre os filhos dos homens que fosse reto, ele estava fazendo alusão à queda de Adão, onde pereceu da terra o homem piedoso e todos deixaram de ser retos perante Deus ( Mq 7:2 ).

Sabemos que o mau refere-se a natureza de todas as criaturas alienadas de Deus, e que Deus é bom em essência, ou seja, jamais Deus será mau, visto que Ele jamais vai alienar-se de si mesmo, segue-se que o mau é condição própria as criaturas de Deus que estão alienadas d’Ele.

Porém, há algumas perguntas que surgem da leitura de alguns versículos, principalmente daqueles versos que não são analisados dentro do seu contexto. Dentre eles destacamos o que Deus anunciou por intermédio de Isaías: “Eu faço a paz, e crio o mal”.

Para algumas pessoas este verso é utilizado como pretexto para dizer que o Deus do Antigo Testamento é moralmente maldoso e perverso se comparado a Cristo, o Deus bondoso do Novo Testamento. Para outros sistemas religiosos Deus é um ser equilibrado, bom e mau (dualismo); composto por forças opostas, o ‘yin-yang’.

Porém, quando lemos a mensagem transmitida por Deus por intermédio de Isaías na totalidade, a ideia que nos sobressalta é maravilhosa, e totalmente diversa do pensamento de alguns homens maus.

No capítulo 43 de Isaías Deus anuncia que é o único salvador de Israel, faz uma promessa maravilhosa aos descendentes de Abraão, Isaque e Jacó ( Is 43:1 – 6), anuncia que criou o povo de Israel para a sua própria glória “…aos quais formei e fiz” (v. 7); anuncia que estabeleceu Israel por testemunho, porém, eles eram um povo cego e mudo (v. 8 e 10); e reitera que, por causa da transgressão de Adão e pela desídia dos interpretes, Israel seria destruído (v. 28).

No capítulo 44 Ele reitera a condição de Israel: escolhidos ( Is 44:1 ), e aponta os Seus atributos como garantia de redenção (v. 6). Porém, os Israelitas estavam confiados em seus ídolos (v. 11- 20), e a repreensão divina persiste.

No capítulo 45 Deus anuncia que Ciro haveria de reinar sobre os reis da terra ( Is 45:1 ), e reedificar a cidade de Jerusalém, que havia sido entregue por Deus para ser destruída ( Is 43:28 ).

Dentro deste contexto é anunciado que Deus forma maravilhosamente a luz e as trevas, ou seja, Deus aponta o seu poder criativo ( Is 43:19 ; Is 45:7 ); Do mesmo modo que o poder de Deus fez os céus e a terra, o dia e a noite, Ele detém o poder de fazer nova todas as coisas. Ele reitera que através de Ciro seria restabelecida a paz sobre Israel ( Is 44:28 ), do mesmo modo que anteriormente Ele havia estabelecido o mal sobre Jerusalém ( Is 43:28 ). Deste contexto vem a fala: “eu faço a paz, e crio o mal”.

Quando o texto diz: “eu (Deus) crio o mal”, está mostrando que Deus trouxe punição à transgressão dos interpretes de Israel, ou seja, Deus faz justiça. O texto não está dizendo que Deus cria a malignidade dentro de suas criaturas. Deus cria o “mal”, o que é diferente de criar o “mau”. Deus jamais cria o mau, porém, o mau surgiu após algumas de suas criaturas distanciarem-se d’Ele.

A separação que surgiu entre Deus e algumas criaturas não foi criada por Deus, portanto, Deus não criou e nem estabeleceu o mau.

Deus trouxe calamidade, punição (mal) sobre Israel por causa da transgressão de Adão e pela falha dos interpretes de Israel ( Is 43:27 – 28).

Portanto, segue-se que Deus é Deus porque Ele é bom, vida, paz, amor, longânime, justo, reto, santo, etc. Jamais Deus será mau, visto que, somente o que está desvinculado, separado ou alienado de Deus é mau. Como é impossível Deus estar aparte d’Ele mesmo, segue-se que Ele jamais será mau, mesmo quando Ele cria o mal (punição).

 

 

Deus e o Conhecimento do Bem e do Mal

“Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” ( Mt 20:15 )

Até este ponto estávamos falando da natureza de Deus e dos seus atributos. Deus é bom, e todos os seres (angelicais e humanos) que existem à parte d’Ele são maus. Deus é bom, e todos os seres (angelicais e humanos) que conhecem a Deus são bons. Agora analisaremos como é possível Deus sendo bom conhecer o bem e o mal “Então disse o Senhor Deus: O homem agora se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal ( Gn 3:22 ).

Sabemos que o homem sem Deus é mau e conhecedor do bem e do mal, e que Deus é bom e conhecedor do bem e do mal. Quando o homem aceita a verdade do evangelho, ele passa a compartilhar da natureza divina, sendo bom em essência. Ora, na regeneração o homem torna-se livre do mau herdado de Adão, porém permanece conhecedor do bem e do mal.

A Bíblia aponta dois tipos de ‘conhecimento’:

a) “estar unido a”, ou;

b) “saber acerca de”.

Quando o homem conhece a Deus, ou antes, é conhecido D’Ele, a palavra ‘conhecer’ indica união intima com o criador ( Gl 4:9 ). Agora, ‘conhecer’ o bem e o mal vincular-se ao saber, ter ciência de algo, o que difere de união íntima, comunhão.

Como vimos anteriormente, é impossível Deus ‘conhecer’ (estar unido a) o mau, pois é impossível Deus pecar. Temos dois motivos:

a) Deus é imutável, e;

b) não pode estar a parte de si mesmo.

Porém, Ele nos informa que é conhecedor do bem e do mal, assim como os homens tornaram-se conhecedores do bem e do mal por causa do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal ( Gn 3:22 ).

Como Deus não pode estar unido (conhecer) ao mau, por exclusão, temos que Deus sabe acerca (conhece) do bem e do mal. No que consiste o conhecimento de Deus do bem e do mal? No que resulta tal conhecimento?

Novamente precisamos analisar os atributos de Deus. Por natureza Deus é bom, reto, santo, justo, imutável, onipresente, onisciente, onipotente, etc. Estes atributos são nomeados naturais.

Sabemos que Deus imutável relaciona-se com suas criaturas, e que o seu relacionamento com as suas criaturas não depõe contra a sua imutabilidade. Também sabemos que Deus é justo, e que ele relaciona-se com suas criaturas, sejam elas justas (participante da sua natureza) ou não.

Como bem sabemos, os homens sem Deus são injustos por não compartilharem da natureza divina, por causa da desobediência de Adão. Em Adão Deus exerceu juízo sobre os homens e todos foram destituídos de sua glória “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Cristo é a justiça de Deus concedida aos homens para que possam voltar a compartilhar da glória de Deus. Ou seja, em Adão estabeleceu-se a injustiça e em Cristo a justiça de Deus, porém, haverá também um julgamento com relação às obras de todos os homens. É neste julgamento e nas relações com as suas criaturas que o conhecimento de Deus do bem e do mal se aplica.

Observe: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus; O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade; Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego; Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego; Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” ( Rm 2:5 – 11).

Destes versículos temos:

  • Para Deus não há acepção de pessoas, ou seja, Deus não tem nenhuma das suas criaturas em preferência;
  • Ele recompensará todas as suas criaturas conforme as suas obras: tanto justos quanto injustos;
  • Serão dois tipos de recompensa, a saber: 1) tribulação e angustia para os desobedientes à verdade do evangelho, e; 2) glória, honra e paz para quem herdar a vida eterna;
  • Qualquer que procurar glória, honra e incorrupção herdará a vida, ou seja, só é possível herdar a vida eterna aqueles que nascerem de semente incorruptível, a palavra de Deus; por ser uma planta plantada pelo Pai, será como a árvore plantada junto a ribeiros, produzirá o bem segundo a sua espécie. Qualquer contencioso e desobediente à verdade do evangelho herdará indignação e ira, e, por serem más as suas obras, terá também tribulação e angustia;
  • Haverá dois tribunais, a saber: tribunal de Cristo, onde os salvos serão julgados quanto ao que houver feito por meio do corpo (obras), bem ou mal ( 2Co 5:10 ); Grande Trono Branco, onde os perdidos serão submetidos ao julgamento das obras, e elas não lhes aproveitarão, pois não foram feitas em Deus ( Ap 20:13 ; Jo 3:21 ).

Como vimos anteriormente, Deus não é injusto por trazer ira sobre os descrentes, do mesmo modo que Ele não é mau por retribuir os homens com bem e mal. As injustiças dos homens não torna Deus injusto ao trazer a sua ira e nem a sua bondade é aniquilada por ele trazer glória, honra e incorrupção sobre os bons e ira e indignação sobre os maus.

A pergunta do apóstolo Paulo persiste: “Doutro modo, como julgará Deus o mundo?” ( Rm 3:6 ). Doutro modo, como é possível Deus bom retribuir a cada um segundo as suas obras, se for mau conceder a uns bem e a outros o mal? ( Pv 13:21 ).

O homem natural, por não compreender as coisas de Deus, questiona a justiça de Deus do mesmo modo que os trabalhadores questionaram o pai de família que contratou trabalhadores para sua vinha ( Mt 20:1 – 16 ).

A parábola dos trabalhadores na vinha demonstra que:

  • O Pai de família ao contratar trabalhadores para sua vinha fixou o valor de um dia de trabalho em um denário ( Mt 20:2 );
  • Porém, durante o dia de trabalho contratou mais trabalhadores sem fixar valores, e disse que pagaria o que fosse justo ( Mt 20:4 );
  • Os trabalhadores que foram contratados e trabalharam desde a madrugada fizeram mal juízo do pai de família por pensarem que receberiam mais que os seus companheiros ( Mt 20:10 );
  • Para os trabalhadores, o pai de família estava sendo injusto por dar o mesmo valor a todos os que trabalharam em sua vinha;
  • Por sua vez o pai de família contra argumentou que:
    • Não era injusto, visto que estava pagando o combinado ( Mt 20:13 );
    • Ele estava agindo conforme a sua vontade e não conforme a vontade dos trabalhadores ( Mt 20:14 );
    • Ele agiu conforme a sua vontade porque tinha direito de fazer o que bem entendesse do que lhe pertencia, e por último, o problema não estava no pai de família, que é bom, antes, no olho do trabalhador, que era mau ( Mt 20:15 ).

Como compreender a última declaração do pai de família?

No Sermão do Monte Jesus demonstrou que, se o olho do homem é mau, todo o corpo estará em trevas ( Mt 6:22 ; Lc 11:34 ). Este é um princípio que remete a uma conclusão: “Portanto, se a luz que em ti há são trevas, quão grandes são essas trevas” ( Mt 6:23 ).

Ora, todos os descendentes de Adão são maus por natureza, pois não são participantes da natureza divina. Qualquer que não é nascido de Deus anda em trevas, pois tenta orientar-se através dos seus olhos maus.

Daí advém a necessidade do novo nascimento (nascer da água e do Espírito), pois só após o novo nascimento o homem passará a andar na luz, pois lhe é iluminado os olhos do entendimento ( Ef 1:18 ).

Ora, o fato de o pai de família ser bom não impede que ele faça o que quiser com o que lhe pertence. O fato de o pai de família dar um mesmo salário a todos os trabalhadores não depõe contra a sua bondade e justiça. O olho de quem observa a maneira de agir do pai de família é que é mau, o que não permite o observador compreender as leis pertinentes ao reino dos céus ( Mt 20:1 ).

Do ponto de vista do homem natural Deus é mau (falo como homem) por estabelecer o inferno como destino final aos pecadores, porém, Deus é bom mesmo estabelecendo o inferno para o diabo, seus anjos e todas as gentes que se esquecem d’Ele.

A pergunta persiste: – ‘É mau o teu olho porque Deus é bom’? Ora, aos homens maus é mau que Deus dê a cada um conforme as suas obras, porém, Deus é bom e justo ao contemplar a cada um conforme as suas obras.

Do que foi exposto e analisado conclui-se que Deus é bom e conhecedor do bem e do mal, visto que jamais a sua bondade será conspurcada enquanto Ele discerne o bem e o mal. Através do conhecimento do bem e do mal Deus discerne os seus anjos e neles acha loucura ( Jó 4:18 ).

A concepção dualística não corresponde a verdade, visto que Deus é bom (agathos), e o mau, por sua vez, não é co-eterno. Na eternidade o mau nunca existiu, visto que nada pode existir à parte de Deus. O mau só passou a existir quando Deus criou as suas criaturas, e elas de moto próprio se lançaram da presença do Criador, tornando-se más. Lembrando que o mau nesta abordagem refere-se a ausência de Deus, ou seja, o não compartilhar da natureza do Criador.

Na eternidade o mal era só um ‘conhecimento’, um conhecimento no qual o mal é intrínseco ao bem e vice versa. Deus declara no Gênesis que é conhecedor do bem e do mal: “Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” ( Gn 3:22 ). Como Deus é eterno e imutável, isto significa que na eternidade Deus bom é conhecedor do bem e do mal, elementos intrínsecos ao fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Não há como desvincular o conhecimento do bem e do mal que há em Deus, assim como não há como desvincular o sabor agridoce de uma laranja.

Deste modo temos que o mau não é eterno e nem co-existe com Deus, como apostam os dualistas. O que os dualista pensam equivocadamente refere-se ao conhecimento do bem  do mal, e não um mal que se oponha a Deus. Porém, como sabemos que as criaturas de Deus são imortais, segue-se que Deus não quer e não eliminará aqueles que existem à parte da sua natureza (o mau). Tais criaturas existirão para sempre num lugar estipulado por Deus ( Sl 9:16 ; Mt 25:41 ; Ap 12:9 ).

O fato de existir locais distintos para justos e ímpios não depõe contra a bondade de Deus, visto que nem a impiedade aniquilará a justiça de Deus e nem o mau aniquilará a bondade de Deus.

Apesar dos evangélicos e protestantes serem contrários ao pensamento dualista de que o bem e o mau co-existem em Deus, acabam por apregoar que a dualidade do bem e o mal é uma realidade intrínseca a cada ser humano. Tremendo engano, visto que, ou o homem é bom por ser nascido de Deus, ou é mau, por ser descendente de Adão.

Jesus foi claro quanto a este posicionamento: “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” ( Mt 12:33 ). Não há como fazer a árvore com duas naturezas: boa e má, ou seja, ou o homem é mau ou é bom.

Para defenderem o posicionamento da dualidade do bem e do mal no homem, muitos teólogos lançam mão até de pensamentos rabinos, que por sua vez pensavam que Deus teria dado a Adão dois desejos em conflito, exigindo que ele se apegasse a um e rejeitasse o outro.

Mas, o que diz as escrituras? Que a carne e o Espírito militam um contra o outro. Ou seja, carne e Espírito referem-se a dois reinos espirituais distintos e antagônicos, e não como interpretam alguns, de que o espírito e a carne dos homens estão em conflito constante.

Não há conflito algum entre o corpo (carne) e o espírito do homem. O conflito que existe, ocorre entre a carne ‘versus’ o Espírito de Deus.

A tradução literal do texto grego demonstra que um deseja contra o outro: carne x Espírito. Não diz do crente dividido entre duas tendências, antes diz do Espírito de Deus que é contrário à carne, como bem demonstra o apóstolo Paulo: “A inclinação da carne é morte, mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:6 ). A inclinação, a luta, o desejo, o conflito se estabelece entre a Vida e a morte, o Espírito e a carne, o pecado e a justiça.

Como co-existir a velha e a nova natureza no homem se só é possível a existência do novo homem quando o velho é crucificado e sepultado com Cristo?

 

O Bem e o Mal

O jugo do pecado é proveniente da desobediência de Adão, porém, além de ter sido destituído da glória de Deus, ou seja, tornar-se mau, o homem passou a ter conhecimento do bem e do mal, visto que o fruto da árvore proporcionou tal conhecimento “Ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 – 17).

A morte (destituição da glória de Deus, mau) foi a penalidade imposta à desobediência de Adão, porém, o homem adquiriu algo que antes não possuía ao tornar-se participante (comer) da árvore do conhecimento do bem e do mal. Sabemos que a desobediência de Adão sujeitou a humanidade ao jugo do pecado (mau), porém, além do mau (morte) estabelecido na ofensa, o homem comeu do fruto do conhecimento do bem e do mal.

Não podemos confundir a origem do mau com a origem do conhecimento do bem e do mal.

  • O conhecimento do bem e do mal foi proporcionado ao homem quando comeu do fruto da árvore, o que tornou o homem igual a Deus, conhecedor do bem e do mal ( Gn 3:22 );
  • O mau estabeleceu-se sobre o homem em decorrência da penalidade pela desobediência de Adão.

A desobediência de Adão sujeitou o homem a morte, ou seja, fez com que o homem fosse destituído da vida que há em Deus. O homem deixou de ser bom e passou a ser mau diante de Deus. Porém, além do mau que é pertinente a natureza do homem sem Deus, ele passou a ter conhecimento do bem e do mal, sendo como Deus.

De que modo o conhecimento do bem e do mal influenciou e continua a influenciar o homem?

É impossível ao homem por si só livrar-se do jugo do pecado, ou seja, da sua condição de mau. Sem a intervenção divina toda a humanidade estaria perdida pela eternidade, visto que, para ser salvo é preciso o homem nascer de novo, obra que só Deus pode realizar por meio da sua palavra.

Ou seja, o mau a quem o homem se sujeitou assumiu a condição de senhor. O homem é pecador, não porque comete pecado, antes é pecador porque é servo do pecado ( Jo 8: 34 ). A desobediência de Adão levou toda a humanidade a esta condição.

Podemos inferir das Escrituras que os efeitos dos frutos das duas árvores que Deus fez brotar da terra (árvore da vida e árvore do conhecimento do bem e do mal) e que estavam no meio do jardim do Éden eram permanentes, visto que, após a queda, foi vetado ao homem o acesso a árvore da vida ( Gn 2:9 e Gn 3:22 ), para que o homem não vivesse eternamente.

O homem foi feito conforme a imagem e semelhança Deus ( Gn 1:26 – 27), porém, após a queda (desobediência) o homem foi:

  • Destituído da glória de Deus, e;
  • Tornou-se conhecedor do bem e do mal, ou seja, como Deus ( Gn 3:22 ).

No que implica ser conhecedor do bem e do mal? Qual a diferença entre ser pecador (mau) e ter o conhecimento do ‘bem e do mal’ proveniente da árvore?

Para compreendermos faz-se necessário analisarmos todos os eventos antes, durante e após a queda de Adão.

  • A tentação estabeleceu a desconfiança – “Então a serpente disse a mulher: certamente não morrereis” ( Gn 3:4 ) – O pecado se estabeleceu sobre o homem por causa da falta de confiança. A falta de fé fez com que o homem deixasse de guiar-se pela palavra de Deus, passando a guiar-se pelos seus próprios instintos. Por não confiar em Deus o homem deixou de ser participante da vida que há em Deus;
  • Antes da queda a concupiscência já existia – “Vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento…” ( Gn 3:6 ) – Há uma grande diferença entre desejar e o pecado, conforme aponta o apóstolo Tiago “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 – 15);
  • Após a queda – “Então disse o Senhor Deus: O homem agora se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal…” ( Gn 3:22 ) – Além de ser destituído da glória de Deus (pecado), o homem passou a ser conhecedor do bem e do mal, algo que vai além da pena imposta pela desobediência de Adão. O homem preferiu o conhecimento do bem e do mal à ter vida eterna ( Gn 2:9 );
  • Apesar da condição de (em) pecado, o homem passou a ser como Deus – “O homem agora se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal…” ( Gn 3:22 ); Satanás era conhecedor do que haveria de acontecer com o homem, caso pecasse ( Gn 3:5 ), porém, o ‘pai da mentira’ fez o que lhe é próprio ao dizer que o homem não haveria de morrer, antes seria como Deus ( Gn 3:4 ); O Querubim da guarda ungido era participante da natureza divina, e após ‘querer’ lançar mão da ‘semelhança’ do Altíssimo, foi destituído da glória de Deus e perdeu o seu principado. Satanás foi destituído da vida que é proveniente de Deus (pecado), porém, não deixou de existir. Satanás continuou sendo anjo e de posse do conhecimento que possuía antes da queda, porém, sem compartilhar da vida que é proveniente de Deus (pecado);
  • Conhecimento do bem e do mal – O Conhecimento (saber) do bem e do mal é que torna o homem como Deus (um de nós). A Bíblia aponta dois tipos de conhecimento: “estar unido a” ou “saber acerca de”. Quando o homem conhece a Deus, ou antes, é conhecido D’Ele, a palavra conhecer indica união intima com o criador ( Gl 4:9 ). Agora, ‘conhecer’ o bem e o mal vincular-se ao saber, ter ciência de algo, o que difere de união;
  • O mau e o conhecimento do bem e do mal – após desobedecer ao Criador, Adão passou a ser mau diante de Deus, sem qualquer alusão as suas ações. O homem destituído de Deus sabe fazer boas ações e más ações, porém, não são as suas ações que estabelecem se ele é mau ou bom diante de Deus, antes a sua geração.

Após a queda, ‘conheceu’ (união intima, um só corpo) Adão a sua mulher, e Eva teve filhos: Caim e Abel. Ora, Caim e Abel, por serem descendentes de Adão eram pecadores, maus diante de Deus. Tal condição os atingiu, não porque fizeram algo de certo ou errado, antes, eram pecadores por serem descendentes de Adão. Já foram concebidos e gerados em pecado ( Sl 51:5 ).

Num determinado dia, Caim trouxe dos frutos da terra uma oferta a Deus ( Gn 4:3 ). Abel agiu de igual modo, e trouxe uma de suas ovelhas e ofertou ao Senhor ( Gn 4:4 ), porém, Deus atentou para Abel e não foi favorável a Caim, e este, por sua vez, ficou triste.

Em seguida veio o alerta divino para Caim “Então disse o Senhor: Por que te iraste? E por que descaiu o seu semblante? Se procederes bem, não serás aceito? E se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:6 – 7).

Analisando os versículos acima, temos que Deus fez duas perguntas: Qual o motivo da ira e da tristeza de Caim. Porém, as frases seguintes precisam de uma análise mais apurada, visto que, há discrepâncias entre a tradução do texto com a ideia que o Novo Testamento nos apresenta.

Observe:

1) Basta ao homem proceder bem (bom comportamento) que será aceito por Deus?
2) Deus aceita o homem pela fé ou pelas obras?
3) Quando Deus disse que o pecado jaz à porta, o que foi dito:

a) Que o pecado jaz (está morto)?
b) Que o pecado ainda não ocorreu, mas que estava prestes a ocorrer?
c) Ou, que o pecado exerce domínio sobre o homem (estar à porta = local onde se exerce domínio)? ( Jó 29:7 )

4) É possível o homem exercer domínio sobre o pecado (… mas sobre ele deves dominar.)?
5) O desejo do pecado será sobre o homem (… sobre ti será o seu desejo…)?
6) Mesmo sob domínio do pecado é possível o homem proceder bem e mal ( Se procederes bem, não serás aceito? E se não procederes bem…)?

Quantas perguntas retiradas de um pequeno trecho bíblico, porém, sem respondê-las é impossível progredir em nossa empreitada. Antes de prosseguir, devemos considerar as seguintes verdades bíblicas:

  • Quando Deus falou com Caim a humanidade já estava sob o jugo do pecado, pois por Adão o pecado entrou no mundo, e por ele a morte ( Rm 5:12 ), ou seja, Caim já havia sido julgado, condenado e apenado com a morte, destituído da vida que há em Deus ( Rm 5:18 );
  • A obediência e o pecado são senhores que exercem domínio sobre os homens ( Rm 6:16 ). Observa-se através deste versículo que é impossível aos homens exercerem domínio sobre o pecado ou sobre a justiça.

 

Respostas:

  • Sabemos que não basta ao homem proceder, ou comportar-se bem ou de modo honesto, que será aceito diante de Deus. Todos os homens precisam nascer de novo ( Jo 3:3 ), ou conforme a linguagem do Antigo Testamento, é necessário circuncidar o coração, obtendo um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:26 ), para que possam serem aceitos por Deus;
  • Todos que se aproximam de Deus precisam crer que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam ( Hb 11:6 ). Abel foi aceito por Deus por meio da fé ( Hb 11:4 ), e não por obras, sacrifícios ou pela oferta. Caim foi rejeitado e sua oferta também, por outro lado Abel foi aceito e a sua oferta aceita. A ordem não pode ser invertida: Deus aceita o ofertante que se aproximar dele pela fé (evangelho) e por fé (descansar na esperança proposta). Não é a oferta que torna o homem agradável a Deus;
  • Sabemos que o mundo jaz no maligno, ou seja, o mundo está morto no maligno. O mesmo não podemos dizer do pecado, pois através de Adão ele continua a exercer o seu domínio sobre os homens. Também sabemos que quando Deus conversou com Caim, o pecado não estava por acontecer (as portas, prestes a), antes já havia subjugado o homem, inclusive o próprio Caim. Sabemos também que, caso o homem proceda bem ou não, continuará sob a égide do pecado, e Caim e Abel estavam vinculados a este fato;
  • Sabemos que é impossível o homem exercer domínio sobre o pecado ou sobre a injustiça – Com base nesta verdade, como seria possível Deus orientar Caim a subjugar o pecado? ( Rm 6:16 );
  • Se a vontade do pecado na condição de senhor submete o homem, como seria possível o homem na condição de escravo subjugar o seu senhor (pecado)? ( Rm 6:18 );
  • Caim já era escravo do pecado, porém Deus o orientou a ‘proceder bem’, ou seja, quanto ao procedimento o homem tem autonomia para decidir entre o bem e o mal, porém, tais decisões não livram o homem (escravo) do seu senhor (pecado);
  • A desobediência de Adão trouxe conseqüências funestas para toda a sua descendência (morte), porém, além da separação que se estabeleceu entre Deus e os homens, o homem passou a ser como Deus, conhecendo o bem e o mal ( Gn 3:22 ).

Problemas de traduções e interpretações à parte, qualquer entendimento do texto em questão deve-se levar em conta o que analisamos anteriormente, porém, não me atrevo a apresentar aqui uma proposta de emenda à tradução em tela.

Logo após a ofensa que trouxe o juízo de Deus sobre todos os homens ( Rm 5:18 ), Adão conheceu (tomou ciência) que estava nu. Ora, na ofensa ele conheceu o pecado, ou seja, passou a estar unido ao pecado, e tomou ciência (conheceu) que estava nu.

Ora, após a queda Deus não estabeleceu nenhuma lei, porém, Adão de pronto reconheceu o seu estado e recriminou-se. De pronto procuraram um modo de cobrir a nudez, e só após serem interpelados por Deus esconderam-se.

Deste evento podemos destacar que:

  • O pecado sempre foi e será pecado, e se a nudez de ‘per si’ fosse pecado, o que separaria o homem de Deus, antes mesmo da queda a nudez teria sido recriminado por Deus;
  • Se a nudez fosse o ‘pecado’ que estava separando o homem de Deus, logo teria sido proibido por Deus o homem andar nu no Éden e fora do Éden, o que não ocorreu;
  • A desobediência estabeleceu o juízo de Deus (separação entre Deus e os homens), e o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal proporcionou conhecimento, entendimento, e o homem passou a se esconder de Deus; não por causa da desobediência (ofensa), antes, escondeu-se por ver, entender que estava nu ( Gn 3:10 ).

A ofensa do homem estava na desobediência, porém, após comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, o homem passou a guiar-se pelo entendimento adquirido. Deus não havia proibido a nudez de Adão e Eva, porém, para eles, a gravidade residia no fato de estarem nus, e não na desobediência.

Ora, após o homem crer em Cristo é criado um novo homem em verdadeira justiça e santidade, porém, mesmo após estar livre da condenação estabelecida em Adão, o crente ainda permanecerá conhecedor do bem e do mal. Quando o homem aceita a verdade do evangelho deixa de compartilhar do mau herdado da natureza de Adão, e passa a compartilhar da Luz, da Paz, do Bem, porém, jamais deixará de ser conhecedor do bem e do mal, visto que tal conhecimento é que o torna como Deus ( Gn 3:22 ).

Sobre este mister destacou o apóstolo aos Hebreus: “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ). O que é o mantimento sólido? A figura ‘alimento sólido’ equivale a verdade do evangelho em profundidade ( Ef 3:18 ), contrastando com os rudimentos (princípios) do evangelho.

Os perfeitos, neste caso específico, referem-se aos cristãos que possuem uma compreensão apurada do evangelho de Cristo. Após o cristão adquirir conhecimento maior que os ensinos elementares da doutrina de Cristo, tem em si a capacidade de discernir tanto o bem como o mal, porque os seus sentidos estão e são exercitados continuamente.

Percebe-se através da exposição do escritor aos Hebreus que:

  • O conhecimento do bem e do mal está atrelado aos sentidos dos homens;
  • Os sentidos podem e devem ser exercitados;
  • O exercício dos sentidos, discernimento, é individual;
  • O exercício dos sentidos tem por parâmetro o conhecimento do bem e do mal.

A capacidade de discernir tanto o bem como o mal equivale a conhecer o bem e o mal. O conhecimento adquirido quando o homem tornou-se participante da árvore do conhecimento do bem e do mal é o que lhe concede discernimento para identificar tanto o bem como o mal.

Ora, surge a pergunta: Tanto o justo quanto o injusto possuem esta capacidade? Sim! Esta capacidade, este discernimento é pertinente aos filhos de Adão e aos filhos de Deus, visto que a humanidade passou a ser como Deus, conhecedora do bem e do mal.

Cristo é um exemplo claro desta verdade! Observe esta profecia: “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel. Manteiga e mel comerá, quando ele souber rejeitar o mal e escolher o bem. Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis” ( Is 7:14 – 16). O Cristo haveria de ser concebido de uma virgem – concepção virginal. Ela traria ao mundo um filho (homem) e seria nomeado Emanuel, ou seja, ‘Deus Conosco’, o mesmo que, ‘Deus com os homens’.

A profecia destacada contrasta a dieta do Emanuel com a dieta de seu precursor, João Batista. Quando o menino souber (saber, conhecimento) rejeitar o mal e escolher o bem, a sua dieta será de manteiga (gordura) e mel (o melhor da terra), contrastando com o seu precursor, que comeu gafanhotos e mel silvestre ( Mt 11:19 ).

Diferente dos filhos de Adão, Cristo veio ao mundo participante da natureza divina – O Filho de Deus encarnado. O Emanuel, o Verbo de Deus, a Luz verdadeira, Santo, Verdadeiro, Bom, etc. Em Cristo não houve trevas nenhuma! Em resumo, Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente: Bom!

Mesmo sendo Bom, sem nunca ter se conspurcado com o mau, Cristo teve que escolher o bem e rejeitar o mal. Para tanto, o Bom menino Jesus cresceu e soube (conhecimento) rejeitar o mal e escolher o bem.

Há que se ter tal conhecimento, se não, não haveria o alerta solene: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem chamam mal, que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!” ( Is 5:20 ).

O fato de Jesus ter escolhido o bem e rejeitado o mal não é o que O tornou ‘Bom’, antes, o Cristo é Bom porque foi gerado de Deus.

É por estes motivos que o apóstolo Paulo faz o alerta solene: “Quanto à vossa obediência, é ela conhecida de todos. Comprazo-me, pois, em vós; e quero que sejais sábios no bem, mas simples no mal” ( Rm 16:19 ). A obediência dos cristãos, da qual o apóstolo faz referência, diz da obediência à verdade do evangelho, que é a fé anunciada a todo o mundo ( Rm 1:8 ). Ora, através da obediência à verdade do evangelho o homem torna-se agradável a Deus, perfeito para toda a boa obra, visto que, após crer em Cristo, as obras do cristão são feitas em Deus ( Jo 3:21 ).

Com relação à verdade do evangelho o apóstolo tinha satisfação em ver os cristãos, porém, Paulo desejava ardentemente que eles fossem perfeitos, capacitados, exercitados para saberem rejeitar o mal e escolher o bem, ou seja, sábios no bem e simples no mal.

Todos que creem em Cristo tornam-se perfeitos, visto que foram novamente criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ; Cl 2:10; 2Co 2:6 ), porém, aos gerados de novo falta-lhes alcançar a medida da estatura completa de Cristo ( Ef 4:13 ; 2Co 13:11 ).

Por que o cristão deve ser simples com relação ao mal e sábio quanto ao bem? Temos dois motivos:

  • Para que deixassem de serem meninos, aptos para alimento sólido e não fossem levados por ventos de doutrinas – “E EU, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo” ( 1Co 3:1 ).
  • O fato de haver entre os cristãos contendas e porfias depunha claramente contra eles, demonstrando que eram neófitos na fé. Por não crescerem na graça e conhecimento de Cristo, Paulo ainda não podia exortá-los como espirituais, antes como se eles ainda fossem carnais, o mesmo que meninos em Cristo.

Qual o problema em ser menino em Cristo? Estar sujeito a ser levados por ventos de doutrinas ( Ef 4:14 ). Na igreja de Corinto havia contendas e dissensões porque os cristãos ainda não eram exercitados em rejeitar o mal. Embora perfeitos em Cristo, não eram perfeitos para saber rejeitar o mal e promover o bem.

Paulo ensinou aos Cristãos em Roma como procederem quando ao discernimento do bem e do mal ( Rm 12:9 e Rm 12:21 ). É de bom alvitre os cristãos não tornar mal por mal, antes deve ater-se as coisas honestas, perante todos os homens ( Rm 12:17 ).

Se for possível, o cristão deve estar em paz com todos os homens, porém, deve desviar-se daqueles que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina do evangelho ( Rm 16:17 ).

Porque todos comparecerão ante o Tribunal de Cristo para serem recompensados quanto as suas ações: boas ou más – “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 ).

Quando escreveu aos cristãos de Corintos, Paulo expressa a sua esperança em Deus, certo de que haveria de deixar este mundo para habitar eternamente com Deus ( 2Co 5:8 ). Com relação à salvação em Cristo, a obra perfeita do evangelho (fé), ela é atribuída a Deus ( 2Co 5:5 ), porém, além da salvação, Paulo buscava ser agradável aos cristãos, visto que, tal renúncia haveria de ser retribuída no Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 ).

Por que ser agradável a todos e principalmente quanto aos irmãos? Porque todos comparecerão ante o mesmo Tribunal! Para que cada um receba o que houver feito por meio do corpo, ou seja, receberá de acordo com o bem e o mal que fizeram ( Rm 12:20 ).

 

O Pecado e o Conhecimento do Bem e do Mal

O homem desobedeceu e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal rejeitando o alerta divino e passou à condição de pecado (mau). Porém, além de pecar (destituído da glória de Deus por causa da desobediência), não podemos esquecer que Adão comeu do fruto da árvore que lhe concedeu o conhecimento do bem e do mal, algo diferente de pecado.

O conhecimento do bem e do mal não se vincula ao pecado, antes ao fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. O pecado adveio da desobediência de Adão e o conhecimento do bem e do mal adveio do fruto da árvore que foi posta no meio do jardim do Éden.

Não podemos confundir a origem do pecado com a origem do conhecimento do bem e do mal, visto que, Deus é conhecedor do bem e do mal, algo que não deriva do pecado (mau). O Filho do Homem aprendeu rejeitar o mal e escolher o bem, porém, sem pecado.

O conhecimento do bem e mal são provenientes do mesmo fruto e capacita o homem a discernir tanto o bem quanto o mal, porém, tal discernimento não capacita o homem para distinguir o que é bom e o que é mau. Porém, a Bíblia nos informa que Deus é bom e se for necessário conhecer quem é bom ou mau, basta verificar o fruto que os homens produzem.

Jesus liberta o homem do pecado (condição oriunda da desobediência de Adão), porém, ele não ‘liberta’ o homem do conhecimento do bem e do mal, visto que o homem após tornar-se participante do fruto da árvore que estava no meio do jardim do Éden tornou-se como Deus. O efeito do fruto é permanente sobre o homem do mesmo modo que seria se ele houvesse comido do fruto da árvore da vida.

O conhecimento do bem e do mal é algo proveniente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, e o pecado é proveniente da desobediência. Embora estivesse relacionado ao fruto, o pecado (mau) é totalmente distinto do conhecimento do bem e do mal.

Enquanto o homem não consegue dominar o pecado (antes é sujeito do pecado na condição de escravo), o conhecimento do bem e do mal está na alçada do homem dominar.

Ora, por mais que alguém se aplique a fazer o bem, dar boas dádivas, não estará livre do pecado. Não é porque alguém faz o mal contra o próximo que está condenado, antes é rejeitado por Deus por causa da desobediência de Adão. Só é aceito perante Deus aqueles que nascerem de novo. Perceba que os cristãos receberão no Tribunal de Cristo conforme as suas ações, boas ou más e os descrentes semelhantemente receberão conforme as suas ações boas ou más quando do Grande Tribunal do Trono Branco.