As mulheres não podem falar nas igrejas?

A ordem paulina, para que as mulheres ficassem caladas nas igrejas, não é de cunho machista, pois, ela não tem por base a premissa de que os homens são superiores às mulheres.


As mulheres não podem falar nas igrejas?

“As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei.” (1 Coríntios 14:34).

 

Introdução

É comum ouvir no meio cristão algumas perguntas, como: as mulheres podem ou, não, falar nas igrejas? Responda: Sim ou, não?

Há quem se dê por satisfeito com um sim ou, com um não, dependendo do seu interesse, em particular. Mas, se a resposta não agradar, algumas pessoas saem em busca de uma explicação que se amolde ao seu interesse, sem se importar com o que a Bíblia propõe.

Por isso, faz-se necessário evidenciar o seguinte alerta:

“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores, conforme as suas próprias concupiscências;” (2 Timóteo 4:3).

Como o objetivo deste artigo é esclarecer aos cristãos, de modo que não busquem ‘doutores’, conforme interesses outros, faz-se necessário analisar o motivo pelo qual o apóstolo Paulo deu essa ordem especifica às mulheres cristãs, levando-se em conta alguns princípios de interpretação das Escrituras.

 

Princípios bíblicos para a igreja

Para compreender a ordem para as mulheres ficarem caladas, temos de considerar que os apóstolos acordaram entre si em não impor encargo algum aos cristãos convertidos, dentre os gentios:

“Na verdade, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão, estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da prostituição, das quais coisas bem fazeis, se vos guardardes. Bem vos vá.” (Atos 15:28-29).

Temos de considerar que todas as coisas são lícitas aos cristãos, entretanto, se faz necessário verificar se tais coisas convêm ou, se edificam.

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.” (1 Coríntios 10:23).

Temos de considerar que todo cristão deve se portar, de modo a não causar escândalo a judeus, gentios e nem à igreja de Deus.

“Portai-vos de modo que não deis escândalo, nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus.” (1 Coríntios 10:32).

O bom porte do cristão visa não trazer entrave à divulgação do evangelho, de modo que as boas ações do crente servem de adorno à doutrina de Cristo.

“Não defraudando, antes, mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador.” (Tito 2:10);

“Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado;” (2 Coríntios 6:3).

Não podemos esquecer que todos os cristãos, em função de estarem em Cristo, são iguais, quer sejam macho ou, fêmea:

“Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há macho, nem fêmea; porque todos vós sois um, em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:27-28).

Temos de considerar que, embora os cristãos sejam livres no Senhor, tal liberdade não pode constituir escândalo para os fracos.

“Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos.” (1 Coríntios 8:9).

 

Machismo?

A sociedade de hoje possui valores, ideologias, filosofias, politicas, que inexistiam à época dos apóstolos; portanto, a análise bíblica não pode ser pautada em valores recentes, como é o caso de movimentos modernos, como o feminismo e o humanismo, por exemplo.

O homem de hoje, em função da grande transformação dos valores morais, e do surgimento de ideologias recentes, geralmente, analisa as questões comportamentais que constam na Bíblia, tendo por base a miopia que afeta a sociedade de hoje, com relação aos valores do homem da antiguidade.

Há quem diga: ‘o apóstolo Paulo foi machista’. Esse é um posicionamento equivocado de alguém que, por estar imerso em uma sociedade moderna, possui uma visão, com relação aos valores e costumes históricos, pois, o feminismo surgiu de movimentos políticos, sociais, ideológicos e filosóficos recentes, na história da humanidade.

A ordem paulina, para que as mulheres ficassem caladas nas igrejas, não é de cunho machista, pois, ela não tem por base a premissa de que os homens são superiores às mulheres e nem se baseia na supervalorização das características físicas e culturais, associadas com o sexo masculino, em detrimento daquelas associadas ao sexo feminino.

O leitor da Bíblia deve ter o cuidado de considerar as questões históricas, divorciado da visão que é própria ao homem moderno, e considerá-la segundo a perspectiva do homem da antiguidade.

 

Não é permitido às mulheres falarem

Analisemos a ordem paulina:

“As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas, estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja.” (1 Coríntios 14:34-35).

O apóstolo instrui os cristãos de Corinto para que as mulheres deles permanecessem caladas nas igrejas. É uma instrução para a igreja (judeus e gentios, homens e mulheres, senhores e servos), acerca do posicionamento das mulheres na igreja.

Qual o motivo para a proibição?

As mulheres eram inferiores aos homens? Não! Em Cristo, as mulheres são diferentes dos homens? Não! No corpo de Cristo se impõem encargos diferentes as mulheres? Não! As mulheres têm mais encargos que os homens? Não! As mulheres tem liberdade menor que a dos homens? Não!

A pergunta a se fazer é: as mulheres falarem nas reuniões é questão de licitude, de conveniência ou de edificação?

Observe que a recomendação paulina vem acompanhada de motivação: porque não lhes é permitido falar! O apóstolo não diz: eu proíbo as mulheres de falarem na igreja, antes: não é permitido a elas falarem.

Se fosse um mandamento do apóstolo Paulo, ele deixaria expresso:

“Mas aos outros digo eu, não o Senhor: Se algum irmão tem mulher descrente e ela consente em habitar com ele, não a deixe.” (1 Coríntios 7:12);

“Ora, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer, como quem tem alcançado misericórdia do Senhor para ser fiel.” (1 Coríntios 7:25).

Com relação à questão da mulher permanecer calada na igreja, a imposição não partiu do apóstolo, senão o apóstolo Paulo deixaria sublinhado de quem partiu a ordem.

Qual a extensão dessa proibição? Seria como um voto de silêncio às mulheres, enquanto permanecessem na reunião? Percebe-se, por outras passagens bíblicas, que não, pois era permitido às mulheres orarem e profetizarem, assim, como, fizeram Izabel, Maria, Ana, etc. (1 Coríntios 11:5).

O apóstolo Paulo deixa claro que não era permitido às mulheres falarem na igreja por ser vergonhoso e não que a liberdade da mulher necessitava de ser cerceada em relação aos homens, por serem mulheres. O termo grego traduzido por vergonhoso é αισκρος (aischros), cujo significado é ‘extremamente sujo’, ‘baixo’, ‘desonroso’.

Quem estabeleceu que era extremamente sujo, desonroso ou baixo uma mulher falar na igreja? Os apóstolos? Não! Tal concepção não teve origem entre os apóstolos e nem decorre de costumes dos judeus, antes, a determinação tem por base uma questão cultural dos gregos.

Aristóteles, no seu livro A Política, faz referência a uma frase atribuída a um dos poetas do seu povo, que diz:

“… um modesto silêncio é a honra da mulher Aristóteles, A Política[1].

Desse enunciado, percebe-se que o silêncio da mulher era uma questão cultural dos gregos, e não do apóstolo dos gentios. Tampouco, as mulheres permanecerem caladas em uma assembleia não se restringia a uma concepção do filósofo Aristóteles, antes, era questão retratada pelos poetas da Grécia, o que reflete um valor cultural intrínseco à sociedade grega, à época dos apóstolos.

O apóstolo Paulo recomenda que as mulheres dos cristãos da igreja de Corinto estivessem caladas nas assembleias (eclésia). A ordem não tem em vista todas as mulheres cristãs, antes, têm em vista as mulheres dos cristãos de Corinto.

As mulheres cristãs de Corinto deviam render-se à admoestação paulina, ou seja, obedecer, e não só isso, mas, levar em conta a regra estabelecida, que no caso em questão, pode ser uma lei, um costume, uma regra, um preceito, uma injunção, etc.

A questão em análise não se refere a presidir uma reunião, pois, à época, possivelmente nem se aventava tal questão. As mulheres deveriam permanecer caladas, mesmo se desejassem ser instruídas em alguma questão. Se quisessem alguma instrução, que perguntassem aos seus esposos em casa.

E as solteiras? Como aprenderiam? Por analogia, deveriam perguntar aos seus pais, ou seja, a quem elas estavam sujeitas.

Através do verso 35, fica sublinhado que uma mulher falar em público diante de uma plateia era indecoroso, quase que obsceno, ao passo que permanecer em silêncio lhe caia bem, quase como um adorno.

O que um cidadão grego, que ainda não havia se convertido ao evangelho, pensaria se visse uma mulher ensinando ou, perguntando em uma reunião? Tal pessoa ficaria escandalizada e reputaria que os cristãos estavam atentando contra as leis e os costumes dos gregos, estabelecendo, assim, entrave à propagação do evangelho.

O apóstolo Paulo bem sabia o entrave que surgiria, caso os cristãos fossem acusados de corromper costumes dos povos que evangelizavam:

“E, apresentando-os aos magistrados, disseram: Estes homens, sendo judeus, perturbaram a nossa cidade e nos expõem costumes que não nos é lícito receber, nem praticar, visto que somos romanos.” (Atos 16:20-21).

A mulher permanecer ou, não, calada na igreja, não era uma questão pertinente à salvação. Se a mulher falar ou, não, na igreja, mas crê em Cristo, será salva. A determinação paulina não visava questões relativas à salvação, mas, preservar a boa entrada dos cristãos entre os gregos, buscando a entrada quanto à evangelização.

Da mesma forma que, em razão da possibilidade de todos os membros do corpo de Cristo se reunirem em um único lugar e de adentrar ao recinto um indouto ou incrédulo, e todos estiverem falando em outros idiomas, de modo que a reunião se torne ininteligível para o indouto e ele reputar que todos estão loucos (1 Coríntios 14:23-25), segue-se que as mulheres dos cristãos de Corinto deveriam permanecer em silêncio nas reuniões, pois, poderia acontecer de um indouto ou, incrédulo, dentre os gregos, julgarem que estavam atentando contra a cultura grega.

“Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar e todos falarem em línguas e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos? Mas, se todos profetizarem e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Portanto, os segredos do seu coração ficarão manifestos e, assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós.” (1 Coríntios 14:23-25).

Da mesma forma que, caso não houvesse intérprete na igreja, era para o cristão que falasse em outro idioma permanecer calado (1 Coríntios 14:28) , as mulheres deveriam permanecer caladas, por ser vergonhoso falarem na igreja.

“Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja e fale consigo mesmo e com Deus.” (1 Coríntios 14:28).

Considerando que a questão pertinente às mulheres de Corinto permanecerem caladas na igreja, tinha como objetivo causar boa impressão nos indoutos e incrédulos que frequentassem as reuniões (1 Coríntios 14:26), porque era indecoroso para os gregos as mulheres falarem em uma assembleia.

Considerando que não foi dado encargo somente às mulheres, mas a qualquer que quisesse falar noutro idioma à igreja, sem ter quem interpretasse, também, estava vetado a esses falar à igreja (1 Coríntios 14:28).

Considerando que a determinação para as mulheres ficarem caladas na igreja não foi repassada a outras comunidades cristãs, como vemos nas cartas de Tiago, do evangelista João ou aos Hebreus, percebe-se que a questão é de ordem cultural local.

Considerando que a ordem dada a Timóteo, para que a mulher aprendesse em silêncio, visava um obreiro encarregado de igrejas em cidades gregas, conforme se verifica:

“Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina,” (1 Timóteo 1:3).

Considerando a ordem para a mulher aprender em silêncio e em sujeição, sendo vetado a elas o ensino e nem que usasse de autoridade sobre o marido, verifica-se que o apóstolo Paulo procurou evitar que as mulheres se utilizassem do método socrático[2] para ensinar, pois, através de perguntas simples e aparentemente ingênuas, a mulher poderia deixar de estar sujeita.

“A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas, que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.” (1 Timóteo 2:11-14).

Dai a determinação para que as mulheres interrogassem o marido em casa, caso quisessem ser instruídas.

“E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é vergonhoso que as mulheres falem na igreja.” (1 Coríntios 14:34-35).

De tudo o que analisamos, conclui-se que a determinação paulina decorre de uma demanda cultural e restringe-se a um determinado povo e a uma época específica.

 

Aplicação prática hoje

Em nossos dias está vetado que as mulheres falem ou, que ensinem em uma reunião de membros do corpo de Cristo? Não!

Por que não? Porque hoje não há o entrave que existia à época do apóstolo Paulo, com relação aos costumes dos gregos, de que a modéstia da mulher estava em ficar calada na igreja.

Hoje, caso um não crente compareça em uma reunião cristã e se depare com uma mulher falando na tribuna, ou, ensinando, não será caso de escândalo como o era para os gregos, e a regra de ouro para os cristãos não estaria sendo quebrada:

“Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus.” (1 Coríntios 10:32).

Quanto ao evangelismo, ensino, ministério, etc., as mulheres não devem ser preteridas em relação aos homens. O que é inadmissível é exercerem qualquer função sendo neófitas, ou seja, não sabendo manejar a palavra da verdade.

“E peço-te, também, a ti, meu verdadeiro companheiro, que ajudes essas mulheres que trabalharam comigo no evangelho, com Clemente e com os outros cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida.” (Filipenses 4:3).

Mesmo no passado, as mulheres desempenharam papel importante no período patriarcal, bem como no período dos juízes. Pela fé alcançaram bom testemunho das Escrituras, como foram Raabe, Rute e Tamar.

Ao escrever a Tito, o apóstolo Paulo recomenda às mulheres mais experientes que ensinem as mais novas e de todas as questões elencadas, a sujeição ao marido aparece em conexão com a necessidade de o evangelho não ser blasfemado.

“As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem, para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, a serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seu marido, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada” (Tito 2:3-5).

À época do apóstolo Paulo as mulheres possuíam no Senhor a mesma liberdade que os homens, pois foram libertas da lei do pecado e da morte, porém, apesar de livres, falar na igreja em uma comunidade grega, apesar de lícito, não era conveniente e nem edificaria, antes traria escândalo e entrave ao evangelho.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 

[1] “Se analisarmos o assunto em maiores detalhes, ele se tornará claro. Pois iludem a si mesmos aqueles que falam em generalidades e dizem que a virtude é ‘uma boa condição da alma’, ou ‘a conduta correta’. Melhores do que aqueles que procuram definições generalistas são os que, como Górgias, enumeram as diferentes virtudes. Assim, o poeta Sófocles preferiu dizer que ‘o silêncio é a gloria de uma mulher’, mas não do homem.” Aristóteles, A Politica, Os Pensadores, Editora Nova Cultural, 1999. pág. 167.

[2]O método socrático é uma técnica de investigação filosófica feita em diálogo, que consiste em o professor conduzir o aluno a um processo de reflexão e descoberta dos próprios valores. Para isso o professor faz uso de perguntas simples e quase ingênuas que têm por objetivo, em primeiro lugar, revelar as contradições presentes na atual forma de pensar do aluno” Wikipédia.




A mulher sábia edifica a sua casa…

Para as mulheres edificarem as suas casas, vimos ser imprescindível considerarem a palavra de Deus, assim como é imprescindível aos maridos, o conhecimento da palavra de Deus para bem instruírem os seus filhos.


A mulher sábia edifica a sua casa…

“A mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos” (Provérbios 14:1)

Para compreender a aplicabilidade deste provérbio, analisemos a atitude de algumas mulheres do Antigo Testamento que, como disse o apóstolo Pedro, esperavam em Deus (1Pd 3:5).

 

Entendendo o termo ‘casa

Quando Sará viu que Ismael, o filho da sua serva Agar zombava do seu filho Isaque, se socorreu de Abraão, dizendo: “Ponha fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com Isaque, meu filho” (Gn 21:10).

Abraão ficou contrariado com a proposta de Sara, visto que Ismael era seu filho. Entretanto, Deus falou a Abraão para atender ao pedido de Sara, visto que a promessa de Deus era chamar o ‘Descendente’ de Abraão – o Cristo – através de Isaque, que nasceu segundo a promessa, e não de Ismael, que nasceu segundo a carne (Gn 21:12).

O que Sará estava fazendo ao despedir Agar e Ismael? Edificando a sua casa[1], pois a rivalidade entre os meios- irmãos, Ismael e Isaque, poderia destruir a descendência de Abraão! (Gl 4:29) Não foi assim entre Caim e Abel?

Rebeca, quando soube que o seu marido Isaque iria abençoar Esaú (Gn 27:4), considerou a palavra que o Senhor lhe disse quando ainda estava grávida dos gêmeos Esaú e Jacó:

“Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor (Gn 25:23).

Rebeca deu ordem a Jacó, o jovem que saiu da madre por último, que buscasse dois cabritos do rebanho. Quando preparou o guisado para Jacó se fazer passar por Esaú, Rebeca sabiamente estava edificando a sua casa em conformidade com a palavra do Senhor, pois percebeu que o seu marido iria abençoar Esaú por tê-lo em preferência, por ser caçador, e não em função da palavra do Senhor, que foi anunciada a Rebeca (Gn 25:28).

Rebeca estava confiada na palavra de Deus, de que o maior serviria o menor, mesmo não sabendo que Esaú tinha vendido o direito de primogenitura a Jacó (Gn 25:34).

Quando pediu para Jacó ir à casa de seu pai Labão para tomar uma esposa (Gn 27:43), e declinou o seu desejo a Isaque (Gn 27:46), Rebeca estava edificando a sua casa. Agiu conforme Sara, sua sogra, pois enviou Jacó para longe de Esaú, preservando a linhagem de Abraão.

De Raquel e Lia, mulheres de Jacó, está registrado nas Escrituras que ambas edificaram a casa de Israel:

“E todo o povo que estava na porta, e os anciãos, disseram: Somos testemunhas; o SENHOR faça a esta mulher, que entra na tua casa, como a Raquel e como a Lia, que ambas edificaram a casa de Israel; e porta-te valorosamente em Efrata, e faze-te nome afamado em Belém” (Rt 4:11).

A forma como a estrangeira Tamar agiu para prover descendência ao seu marido Er, ao se passar por uma prostituta, deitando-se com o seu sogro Judá, foi o meio que ela encontrou de edificar a sua casa (Gn 38:26), pois o seu sogro estava negando o que lhe era de direito: o filho mais novo.

Como Judá não cumpriu o que prometera com relação a obrigação da lei do levirato (Gn 38:11), Tamar foi considerada pelo seu sogro como sendo mais justa que ele, pois ela buscou descendência para o seu marido.

A atitude da estrangeira Tamar foi tão importante que ela consta na linhagem de Cristo e é tida como referência de bem-aventurada por causa da casa de Perez: “E seja a tua casa como a casa de Perez (que Tamar deu à luz a Judá), pela descendência que o SENHOR te der desta moça” (Rt 4:12); “E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão” (Mt 1:3).

O fato de figurar na linhagem de Cristo, significa que Tamar soube edificar a sua casa, apesar da maldade do seu marido Er e do desprezo do seu cunhado Onã, que não queria suscitar linhagem ao irmão Er “Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão(Gn 38:9). Er era mal e foi morto por Deus, e Onã, por não considerarem a promessa que Deus fez a Abraão, Isaque e Jacó, também foi morto.

É por causa da atitude de Tamar, que hoje dizemos que Cristo é o Leão da Tribo de Judá “Visto ser manifesto que nosso Senhor procedeu de Judá, e concernente a essa tribo nunca Moisés falou de sacerdócio” (Hb 7:14); “Antes elegeu a tribo de Judá; o monte Sião, que ele amava” (Sl 78:68; Ap 5:5).

Quando a prostituta Raabe creu que o Deus de Israel é Deus nos céus e na terra (Js 2:11), e pediu proteção para a sua família, edificou a sua casa, pois através dela Salmom gerou Boaz “E Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé” (Mt 1:5).

Como soube edificar a sua descendência (casa), Raabe figura como uma das três mulheres ilustres que aparecem na linhagem de Cristo, pelos seus feitos de fé: Tamar, Raabe e Rute.

Quando Bate-Seba intercedeu com sabedoria por seu filho Salomão a Davi, estava edificando a sua casa (1Rs 1:17), diferente de Mical, filha de Saul, que, por si mesma derribou a sua casa, quando resolveu criticar Davi, na ocasião em que voltava para abençoar a sua casa (2Sm 6:20). Bate-Seba foi uma mulher sábia, já Mical, foi tola.

Observe que, dependendo do contexto, o termo ‘casa’ tem o sentido de descendência, linhagem, semente, como se lê:

“Sê, pois, agora servido de abençoar a casa de teu servo, para permanecer para sempre diante de ti, pois tu, ó Senhor DEUS, o disseste; e com a tua bênção será para sempre bendita a casa de teu servo” (2Sm 7:29).

 

Colocar a casa em ‘ordem’

No provérbio: ‘A mulher sábia edifica a sua casa…’, o termo ‘casa’ tem o sentido de descendência e não de um edifício destinado à habitação.

A mulher sábia edifica a sua casa, já o homem põe-na em ordem, como se lê:

“Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (Gn 18:19).

Como Abraão ordenou a sua casa? Instruindo os seus filhos a obedecerem o mandamento do Senhor “Com a sabedoria se edifica a casa, e com o entendimento ela se estabelece” (Pv 24:3).

Bem antes da lei mosaica, Abraão já cumpria o mandamento e as leis de Deus obedecendo-O, e quando instruía os seus filhos, Abraão estava ordenando a sua casa “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” (Gn 26:5).

Abraão instruiu os seus filhos quanto à promessa do descendente e os instou a guardarem o caminho do SENHOR, pois só obedecendo a Deus é possível ao homem agir com justiça e juízo. Ordenar a casa é ter e instruir os seus descendentes.

Com relação a Davi, Deus prometeu que faria casa a Davi: “E desde o dia em que mandei que houvesse juízes sobre o meu povo Israel; a ti, porém, te dei descanso de todos os teus inimigos; também o SENHOR te faz saber que te fará casa (2Sm 7:11); “Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será firme para sempre” (2Sm 7:16).

A casa de Davi refere-se à sua descendência e, em Cristo cumpriu-se a promessa, pois Cristo é o rebento de Jessé “Porque assim diz o SENHOR: Nunca faltará a Davi homem que se assente sobre o trono da casa de Israel” (Jr 33:17).

Apesar da promessa de Deus, de edificar casa a Davi, ficou a cargo de Davi ordenar a sua casa, constituindo Salomão, rei em seu lugar e instruí-lo acerca do caminho da justiça: “Então subireis após ele, e virá e se assentará no meu trono, e ele reinará em meu lugar; porque tenho ordenado que ele seja guia sobre Israel e sobre Judá” (1Rs 1:35); “E APROXIMARAM-SE os dias da morte de Davi; e deu ele ordem a Salomão, seu filho, dizendo: Eu vou pelo caminho de toda a terra; esforça-te, pois, e sê homem. E guarda a ordenança do SENHOR teu Deus, para andares nos seus caminhos, e para guardares os seus estatutos, e os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus testemunhos, como está escrito na lei de Moisés; para que prosperes em tudo quanto fizeres, e para onde quer que fores. Para que o SENHOR confirme a palavra, que falou de mim, dizendo: Se teus filhos guardarem o seu caminho, para andarem perante a minha face fielmente, com todo o seu coração e com toda a sua alma, nunca, disse, te faltará sucessor ao trono de Israel” (1Rs 2:1-4).

Quando Deus ordenou ao rei Ezequias para pôr ‘em ordem a sua casa’, o que ele devia fazer era cuidar das questões relacionadas à sua descendência, instrução dos seus filhos e sucessão do trono (2Rs 20:1).

Como foram acrescidos mais quinze anos ao rei Ezequias e seu filho Manasses reinou, muito jovem, em seu lugar, ainda com doze anos de idade, podemos inferir que Ezequias ainda não tinha filhos, quando Deus ordenou que colocasse a casa em ordem, ou seja, Deus estava instruindo Ezequias a constituir descendência.

Diferente da estrangeira Tamar, que estava preocupada com sua descendência, Ezequias pareceu não se importar. Se não fosse a instrução de Deus para que o rei Ezequias tivesse filhos, Ezequias e Manassés não figurariam na linhagem de Cristo “E Uzias gerou a Jotão; e Jotão gerou a Acaz; e Acaz gerou a Ezequias; E Ezequias gerou a Manassés; e Manassés gerou a Amom; e Amom gerou a Josias” (Mt 1:9-10).

Além de não ligar para a sua linhagem, Ezequias se preocupava somente consigo mesmo, pois ao ser informado que os seus filhos seriam levados cativos para a Babilônia, nada fez para instruir o seu filho ou a nação, pois considerou como sendo uma boa palavra o que foi predito pelo profeta, de que, enquanto vivesse, não haveria guerras (2Rs 20:19).

Por certo, Ezequias não tinha uma mulher sábia ao seu lado, pois o rei Ezequias só constituiu descendência, porque Deus prometeu a Davi que edificaria a casa de Davi. A intervenção divina, por intermédio do profeta Isaías, não foi por acaso, antes, foi devido à promessa feita a Davi “E desde o dia em que mandei que houvesse juízes sobre o meu povo Israel; a ti, porém, te dei descanso de todos os teus inimigos; também o SENHOR te faz saber que te fará casa” (2Sm 7:11).

Apesar de Deus edificar casa a Davi, por intermédio de Ezequias, competia a Ezequias bem ordena-la, porém, não o fez, pois seu filho Manassés foi um dos piores reis em Israel: “TINHA Manassés doze anos de idade quando começou a reinar, e cinquenta e cinco anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Hefzibá. E fez o que era mau aos olhos do SENHOR, conforme as abominações dos gentios que o SENHOR expulsara de suas possessões, de diante dos filhos de Israel (…) E até fez passar a seu filho pelo fogo, adivinhava pelas nuvens, era agoureiro e ordenou adivinhos e feiticeiros; e prosseguiu em fazer o que era mau aos olhos do SENHOR, para o provocar à ira” (2Rs 21:1-2 e 6).

Todas mulheres sábias que edificaram a sua casa aparecem na linhagem de Cristo, e os homens que souberam ordena-la também[2]. Daí a máxima:

“Com a sabedoria se edifica a casa[3], e com o entendimento ela se estabelece” (Pv 24:3).

 

Como ordenar e instruir uma casa em nossos dias

Com que tipo de sabedoria os patriarcas e as mulheres de fé do Antigo Testamento edificaram e ordenaram suas casas? Filosofias, mandamentos de homens, rudimentos do mundo, fábulas, etc? Não! Edificaram casa através da palavra de Deus, que é o mesmo que ‘temor do Senhor’, o princípio da sabedoria, que é limpa e permanece para sempre (Sl 19:9).

Se as mulheres sábias edificaram as suas linhagens com base na palavra de Deus que permanece para sempre, e os homens ordenaram suas casas através do ensino da palavra de Deus aos seus filhos, como homens e mulheres devem proceder em nossos dias com suas casas?

Para as mulheres edificarem as suas casas, vimos ser imprescindível considerarem a palavra de Deus, assim como é imprescindível aos maridos, o conhecimento da palavra de Deus para bem instruírem os seus filhos.

Sabemos que o Descendente prometido já veio – Cristo -, e que hoje não compete as mulheres edificarem as suas casas, segundo a promessa que havia na Antiga Aliança; porém, é imprescindível às mulheres compreenderem que, em nossos dias, se quiserem construir um lar, devem se sujeitar aos seus maridos, pois, é indispensável aos maridos, autoridade para ordenarem e instruírem os seus filhos “Os diáconos sejam maridos de uma só mulher, e governem bem a seus filhos e suas próprias casas” (1Tm 3:12).

 

A esposa edificando a família

Em nossos dias, a instrução de Deus para as mulheres que querem edificar a sua família é: sejam sujeitas, em tudo, aos seus maridos:

“De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos(Ef 5:24).

Se há dúvidas, o apóstolo Paulo reitera:

“A serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada” (Tt 2:5).

Alguém pode argumentar: – ‘Mas o que Deus exige é difícil!’. Na verdade, não é, pois o que Deus manda não é, e nunca será penoso (1Jo 5:3).

Se a mulher deseja que tudo concorra para o bem do seu lar, que obedeça a Deus, sujeitando-se ao seu marido, pois a Bíblia diz que tudo concorre para o bem daqueles que obedecem (amam) a Deus (Dn 9:4; Rm 8:28).

A sujeição da mulher ao marido é determinação divina e o apóstolo Pedro faz referência a sujeição da mulher ao marido como uma ferramenta útil, até para ganhar os maridos não crentes para o evangelho, vez que, observarão a conduta de suas mulheres como pura em obediência à ordem divina.

O apóstolo orienta que o adorno da mulher não seja exterior, como: os penteados exagerados, o uso de enfeites de ouro ou o vestir-se com pompa e luxo. O apóstolo instrui que o adorno da mulher esteja em um espírito manso e humilde (quieto) diante de Deus, pois a sujeição aos maridos era o enfeite das mulheres do Antigo Testamento que esperavam (confiavam) em Deus.

“SEMELHANTEMENTE, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos; para que também, se alguns não obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra; Considerando a vossa vida casta, em temor. O enfeite delas não seja o exterior, no frisado dos cabelos, no uso de joias de ouro, na compostura dos vestidos; Mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus. Porque assim se adornavam também antigamente as santas mulheres que esperavam em Deus, e estavam sujeitas aos seus próprios maridos; Como Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe senhor; da qual vós sois filhas, fazendo o bem, e não temendo nenhum espanto” (1Pe 3:1-6).

A sociedade contemporânea é dinâmica e possui características completamente diferente das sociedades do passado, porém, o ensinamento bíblico continua válido para os nossos dias, pois é do marido e dos filhos que a mulher deve esperar o verdadeiro louvor e não da sociedade, do patrão, dos amigos, etc. “Levantam-se seus filhos e chamam-na bem-aventurada; seu marido também, e ele a louva (…) Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao SENHOR, essa sim será louvada” (Pv 31:28 e 30).

O apelo dos interesses socioeconômicos é contrário as Escrituras, pois é apregoado que as esposas devem ser independentes dos seus maridos para que possam alcançar prestigio, reconhecimento, louvor, etc., no entanto, apesar de as mulheres, em nossos dias, seguirem tais recomendações sofrem inúmeras frustações.

Na relação conjugal, Deus estabeleceu o homem como cabeça da mulher, mas, muitas mulheres, guiadas pelo seu coração enganoso, pensam encontrar a felicidade, assumindo a posição de cabeça no lar, porém, cedo se desiludem, pois se veem casadas com um ‘banana’. O pior, é que nem conseguem notar que elas alcançaram o que desejaram: ser a cabeça.

Quando a Bíblia fala de submissão ao marido não está impondo subserviência, mas, sim, apontando o papel da mulher, na condição de adjutora. É a mulher que, no lar, atribui valor ao seu marido, quando submissa, pois, desta forma, constrói e fortalece a autoridade do marido perante os filhos “A mulher virtuosa é a coroa do seu marido, mas a que o envergonha é como podridão nos seus ossos” (Pv 12:4).

Não é a sociedade, a igreja, ou os familiares que constituem o marido como autoridade no lar, mas, a mulher. A sujeição da mulher ao marido, faz com que o marido tenha autoridade no lar, e a mulher dá exemplo aos filhos, o que resultará em filhos obedientes e submissos. Já, a mulher desobediente, descontrói a autoridade paterna, consequentemente, terá filhos rebeldes.

Para o homem governar a sua casa (mulher e filhos), a construção da autoridade do marido demanda tempo. A construção da figura paterna, como autoridade, demanda todo o período da infância da criança e o resultado desta construção, se verá na adolescência e início da fase adulta, construção decorrente da sujeição da mulher.

Construir a autoridade do pai de família é um papel que somente a esposa pode desempenhar, e isso só ocorre quando a mulher reverencia o seu marido como autoridade no lar. Não é o estado e nem as instituições que constroem a autoridade do marido.

Na infância a mulher faz patente a autoridade do marido aos filhos, mas se não construir a autoridade do marido nesta fase, na adolescência, a mulher não terá o controle dos filhos e muito menos, o marido. Se a autoridade do pai de família não for construída pela mulher, o pai não terá a autoridade para instruir os filhos, e ambos, marido e mulher sofrerão as consequências de não terem cumprido o seu papel, ao seu tempo.

A instrução deve ser dada às crianças, pois é na fase infantil que a ‘vara da correção’ livra o coração da criança da estultice “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” (Pv 22:15). Uma criança que não foi instruída, se torna um tolo quando adulto, condição que a instrução não consegue reverter “Ainda que repreendas o tolo como quem bate o trigo com a mão de gral entre grãos pilados, não se apartará dele a sua estultícia” (Pv 27:22)[4].

Geralmente as mulheres que não se sujeitam aos seus maridos, se justificam, apontando os erros do cônjuge. Entretanto, os erros do marido não anistiam a mulher do dever de obedecer. Na relação marido e mulher, ambos erram, porém, muitas mulheres se apoiam no erro do marido, para questionar-lhe a autoridade.

A condição de autoridade atende um princípio e os erros da autoridade não depõe a autoridade da sua posição “TODA a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus” (Rm 13:1); “Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior” (1Pd 2:13); “Admoesta-os a que se sujeitem aos principados e potestades, que lhes obedeçam, e estejam preparados para toda a boa obra” (Tt 3:1).

Deus estabeleceu o homem como autoridade sobre a sua mulher, por conseguinte, não estar sujeito ao marido é insurgir-se contra a ordenação de Deus e o desobediente sofrerá as consequências dos seus desatinos “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” Ef 5:22 -23).

Considerando o princípio evidenciado por Cristo, de que maior é quem serve, certo é que o papel da mulher como a que serve, é maior na construção de um lar, pois é ela quem serve, tanto ao marido, quanto aos filhos “Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve” (Lc 22:26).

Se a mulher se empenhar em construir a autoridade do seu marido, jamais a figura do marido se ausenta da sua casa, pois, na condição de quem serve, sempre evidenciará a autoridade do marido aos filhos, enquanto ele estiver ausente, como: – “Menino, olha o chinelo do seu pai”; – “Essa toalha não, ela pertence ao seu pai”; – “Esperaremos o pai para comer”; – “Esse lugar à mesa é do seu pai”; – “O controle da TV é do seu pai”, etc.

A mulher que assim age, mesmo quando o marido está trabalhando, sempre terá a figura do pai presente no lar e evidenciará a autoridade do marido.

Se o marido não consertou o chuveiro, jamais fará comentário depreciativo diante dos filhos, como: – “Seu pai é um banana”. A falha do marido não autoriza a mulher a depreciar a figura do marido, pois o marido possui a autoridade outorgada por Deus.

Quando instrui os filhos pequenos, a mulher jamais deve apontar a autoridade de pessoas externas à família como: – “Não faça isso porque a polícia vai te pegar”; – “Deus não gosta”; – “O padre, ou o pastor não deixa”, etc. Aponte para a autoridade do lar: – “O seu pai não quer, e se ele não quer, nós não faremos”.

Para ter filhos obedientes, a mulher precisa deixar claro aos seus filhos que também é sujeita ao marido. É imprescindível que seja incisiva, quando instrui os filhos, demonstrando qual a vontade do pai de família. A mãe jamais deve mentir para os filhos, dizendo que, atrás da porta tem um bicho, ou que o homem do saco vai pegar para fazer com que a criança obedeça.

Uma mãe não negocia com o filho para conseguir ser obedecida, pois, obediência é inegociável. A obediência não é conveniência, mas, obrigação. Neste quesito, a mulher deve dar o exemplo, pois se negocia com o marido o que obedecer, já não obedece, e essa lição os filhos aprendem.

A obediência dos filhos deve ser cultivada nas pequenas coisas, portanto, jamais dê várias alternativas à criança. Sempre aponte o que ela deve realizar ou aceitar. Ex: no café da manhã a mãe não pode dar várias alternativas de alimentação, antes escolha uma e apresente à criança.

Caso discorde da opinião ou da decisão do marido, nunca conteste o marido na frente dos filhos. Não discuta com o marido na frente dos filhos, antes chame o marido à parte e, como respeito e cumplicidade, exponha o seu ponto de vista. A mulher pode se dirigir ao marido para que ele reconsidere, porém, deve fazê-lo com palavras brandas e agradáveis “A RESPOSTA branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” (Pv 15:1).

 

O marido ordenando a sua casa

Na educação dos filhos é imprescindível a cumplicidade entre marido e mulher, pois a mulher deve obediência ao marido e o marido deve cuidar da sua esposa, como sendo o seu próprio corpo “Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja” (Ef 5:28 -29).

O marido tem o dever de suprir as necessidades da sua mulher, portanto, mulher, não pense que o marido deva suprir as suas vontades. Ninguém há no mundo que possa suprir os anseios e vontades de outrem. O marido tem que estar consciente da sua missão: as necessidades não são impossíveis de serem satisfeitas.

O maior erro em um casamento está em os cônjuges quererem agradar a si mesmos, pois no casamento, é imprescindível que cada um cuide em agradar o outro. Se não houver está cumplicidade, jamais haverá um lar para ambos “Mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher (…) porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido” (1Co 7:33-34).

Aos homens, resta exercerem autoridade sobre o seu lar, zelando, cuidando e instruindo, tanto a mulher, quanto aos filhos! Autoridade, do ponto de vista bíblico, é obrigação e não uma regalia. Quem exerce autoridade, não se serve dela, antes, presta um serviço.

Exercer autoridade é uma tarefa dificílima, pois a autoridade não deve se impor, antes evidenciar o seu cuidado. A autoridade tem o mesmo papel desempenhado por um médico que prescreve um receituário, e, mesmo que o remédio seja amargo, o paciente tem que se sujeitar à prescrição.

O marido é a cabeça da mulher, portanto, deve governa-la, senão sofrerá as consequências do seu desmando “Os diáconos sejam maridos de uma só mulher, e governem bem a seus filhos e suas próprias casas” (1Tm 3:12).

Adão tinha o dever de instruir a sua mulher e, quando ela apresentou o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, como cabeça, tinha dever de cuidar de si mesmo e da sua mulher.

Quando Eva comeu do fruto da árvore do conhecimento, o pecado não entrou no mundo, visto que ela não era a cabeça. Somente quando Adão assentiu e comeu o que lhe foi oferecido pela mulher, entrou o pecado no mundo. A responsabilidade pelo pecado que entrou no mundo recaiu sobre Adão, pois ele era a cabeça!

Neste sentido, cabe ao homem coabitar com sua mulher, com entendimento, honrando a mulher como vaso mais frágil, porém, a fragilidade da mulher não significa inferioridade, pois ambos, diante de Deus, possuem o mesmo valor “Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus co-herdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas orações” (1Pd 3:7).

A mulher deve ser honrada como vazo mais fraco por ela demanda um cuidado maior, se comparada com o cuidado que deve ser dispensado ao homem. A fragilidade da mulher engloba questões físicas e de ordem emocional.

O marido deve estar consciente quanto ao seu papel e qual a sua porção de tudo quanto fizer por sua mulher: “Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol” (Ec 9:9).

O marido tem o dever de apoiar a mulher quando ela corrige os filhos. Jamais o marido deve desautorizar a esposa diante dos filhos e, se a mulher cometer um equívoco, deve ser corrigida a parte, porém, jamais o marido deve fazê-lo quando está nervoso, agitado ou no calor do momento.

O marido sempre concede o melhor à sua esposa, honrando-a. Jamais deve ter o filho em honra, em detrimento da sua esposa. A posição do homem como autoridade é nobre, portanto, deve ser generoso para com a sua mulher no carinho, nas palavras brandas, na honra, no cuidado, etc.

O marido não compete com a esposa, nem nas questões do lar e nem nas questões da família. Como autoridade, deve honrar a sua adjutora, compartilhando as suas conquistas e decisões. É imprescindível que o marido ouça e considere o posicionamento da esposa e, ao final, apresente as razões de sua decisão.

O marido deve ter um comportamento estável, o que proporcionará confiabilidade à esposa e aos filhos. Só se consegue estabilidade quando se é justo, correto, autentico, moderado, constante. Mudanças bruscas de humor, falta de padrão de comportamento, injusto em suas decisões, bruto, agressivo, etc., torna os filhos e a mulher instáveis, desconfiados e receosos.

Um pai de família viciado não é bom, porém, uma família que convive com um pai que chega bêbado todos os dias, tem a possibilidade de ser mais estável do que uma família que convive com um ‘bêbado emocional’, ou seja, alguém instável: que hora é dócil, hora amargo, hora agressivo, hora cordial, etc.

Os filhos e a mulher precisam se relacionar com uma autoridade estável, o que permite uma relação duradoura, baseada na confiança mútua.

 

Eis um mistério

“A mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos” (Pv 14:1)

Até agora apontamos questões materiais através do provérbio em comento. Porém, este mesmo proverbio encerra uma questão espiritual.

Assim como o apóstolo Paulo evidenciou um mistério na Escritura que diz: “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne” (Ef 5:31), demonstrando que o mistério trata de Cristo e a igreja (Ef 5:32), o provérbio da mulher sábia e da mulher tola aponta respectivamente para a Igreja e Israel.

A igreja é a mulher sábia, que edificou a sua casa em Cristo. Já Israel é a mulher tola que a derribou com as próprias mãos. Mas este é um assunto para outro texto.

“E, engordando-se Jesurum, deu coices (engordaste-te, engrossaste-te, e de gordura te cobriste) e deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação. Com deuses estranhos o provocaram a zelos; com abominações o irritaram. Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; aos deuses que não conheceram, novos deuses que vieram há pouco, aos quais não temeram vossos pais. Esqueceste-te da Rocha que te gerou; e em esquecimento puseste o Deus que te formou” ( Dt 32:15-18);

 


[1] “01129 banah uma raiz primitiva; DITAT – 255; v 1) construir, reconstruir, estabelecer, fazer continuar 1a) (Qal) 1a1) construir, reconstruir 1a2) construir uma casa (i.e., estabelecer uma família) 1b) (Nifal) 1b1) ser construído 1b2) ser reconstruído 1b3) estabelecido (referindo-se a exilados restaurados) (fig.) 1b4) estabelecido (tornado permanente) 1b5) ser constituído (de esposa sem filhos tornando-se a mãe de uma família através dos filhos de uma concubina)” Dicionário Bíblico Strong.

[2] Até o rei Davi as mulheres sábias edificavam casa (descendência), mas com a promessa de que Deus edificaria casa a Davi e que não faltaria homem que se assentasse sobre o trono, o próprio Deus estava edificando casa a Davi, por isso reis como Ezequias e Manassés, apesar de não ordenarem a sua semente e instruírem seus filhos, acabam aparecendo na genealogia de Cristo “Porque assim diz o SENHOR: Nunca faltará a Davi homem que se assente sobre o trono da casa de Israel” (Jr 33:17).

[3] “01004 bayith provavelmente procedente de 1129 abreviado; DITAT – 241 n m 1) casa 1a) casa, moradia, habitação 1b) abrigo ou moradia de animais 1c) corpos humanos (fig.) 1d) referindo-se ao Sheol 1e) referindo-se ao lugar de luz e escuridão 1f) referindo-se á terra de Efraim 2) lugar 3) recipiente 4) lar, casa no sentido de lugar que abriga uma família 5) membros de uma casa, família 5a) aqueles que pertencem à mesma casa 5b) família de descendentes, descendentes como corpo organizado 6) negócios domésticos 7) interior (metáfora) 8) (DITAT) templo adv 9) no lado de dentro prep. 10) dentro de” Dicionário Bíblico Strong.

[4] “Ainda que você moa o insensato, como trigo no pilão, a insensatez não se afastará dele” Provérbios 27:22.




O ardil de Satanás

– Nosso Deus! Isso é muito ardiloso! – Comentei com os olhos arregalados, como se estivesse falando para mim mesma – Claro! Se acreditarmos que o Diabo teve a oportunidade de se insurgir contra Deus, o vemos muito mais poderoso do que ele é. Isso explica o medo e a luta de muitos crentes. Claro! Ao contrário de trabalhar para nos aproximarmos de Deus, lutamos para nos afastarmos de Satanás! Com isso ele ganha muito terreno.


O ardil de Satanás

Certa feita, meu marido e eu nos deparamos com um livro que fazia uma intrigante pergunta: “Porque o justo sofre?”

Para quem lê a Bíblia esta pergunta é fácil de responder, no entanto, como se tratava de um livro inteiro com a proposta de responder esta pergunta, consideramos que seria interessante conhecer seu conteúdo.

Não desejo falar de sofrimento, mas da pessoa que acreditamos causar o sofrimento dos justos. Isto porque o livro apresenta Satanás como causador do sofrimento dos justos quando aponta que este se apresentou diante de Deus para acusar o patriarca Jó.

Como é nosso costume verificar se as afirmações estão em conformidade com as Escrituras, obtivemos um deleitoso conhecimento quando compreendemos o modo de trabalhar do Diabo.

Essa atitude nos deu mais segurança em Deus e algumas razões para discordar do livro, além de descobrimos que, muito do que se ouve acerca de Satanás é MENTIRA.

– É certo que uma mentira dita muitas vezes vira consenso. E uma mentira que virou consenso entre os cristãos, foi que Satanás quis ser igual a Deus, – disse-me meu marido.

Parei o que estava fazendo, olhei para ele um tanto preocupada, e disse: – Como você pode dizer que isto é mentira?! Está escrito na Bíblia!

-Venha ler o que está escrito na Bíblia, disse ele com o dedo no trecho bíblico de Isaías ( Is 14:14 ). Então li em voz alta: -Subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.

– Ser igual e ser semelhante NÃO são a mesma coisa, minha Linda. O próprio versículo demonstra isto. Veja que o próprio Satanás, no seu coração, chama Deus de Altíssimo. Entre Criador e criatura existe um abismo intransponível. Ao nomear Deus de Altíssimo, Satanás o reconhece como inatingível e inigualável. Explicou-me ele com os olhos arregalados, como se tivesse descoberto um diamante enorme. E continuou: – O salmo 89 confirma esta verdade.

Folheou a Bíblia, ainda com entusiasmo e mostrou-me o verso 6 deste salmo: “Pois quem no céu se pode igualar ao SENHOR? Quem entre os filhos dos poderosos pode ser semelhante ao SENHOR?”

– Satanás foi criado por Deus como todos os outros seres do Universo. Ele foi criado e posto na posição mais elevada na ordem celestial, ele era querubim da guarda ungido, perfeito em seus caminhos e sábio. Na ordem celestial, ele estava no topo da hierarquia, mas ainda assim, uma criatura de Deus, é o que está escrito em Ezequiel ( Ez 28:12 ). A distância entre homens e Deus é a mesma que anjos e Deus!

Querida, o homem mais simples sabe que é impossível à criatura tomar ou alçar o lugar do Criador. Se é estranho ao homem, que possui conhecimento limitado, afirmar que é possível alguém tornar-se o Criador, imagine se não é absurdo que um ser criado cheio de sabedoria tenha intentado ser o próprio Criador. – Disparou ele a me explicar.

– Nosso Deus Querido! Tem toda razão, – eu lhe disse ainda atônita com tanta explicação. Mas você não considera a ousadia de Satanás? Vir à presença de Deus acusar Jó?

Ele diminuiu o ritmo e disse-me mais calmamente: – Você deve se esvaziar das ideias pré- concebidas quando lê a Bíblia… Escute isto, porque faz toda a diferença… “Viste o meu servo Jó?”, e mostrou-me o trecho bíblico “E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” ( Jó 1:8 ), enquanto falava: – Quem faz esta pergunta é Deus… Deus é quem evoca Jó na conversa. NÃO FOI SATANÁS… Isso porque, neste livro, o livro de Jó, Deus evidencia a diferença entre a justiça do homem e a Justiça de Deus. Qualquer outro personagem que não fosse íntegro e reto como Jó, somente evidenciaria a misericórdia de Deus.

Olhei para ele um tanto extasiada, ainda pela afirmação de que foi Deus quem trouxe Jó para a conversa. Sem poder e nem querer negar tal explicação, mas a impressão que ele teve foi que eu não aceitava esse entendimento.

Ora, para mim é muito bom saber que Deus está no controle da vida dos justos. Quanto menos poder Satanás tem, mais alegria e segurança sinto em meu Deus. Isso é ótimo para os justos.

Na tentativa de passar toda informação necessária a um bom entendimento, ele continuou: – A quem tal mentira favorece? ‘que Satanás quis ser igual a Deus’. Essa mentira deu à luz a dualidade: bem versus mal, Deus versus Satanás, ou seja, equivalência entre Deus, o Criador e o Diabo, a criatura.

– Nosso Deus! Isso é muito ardiloso! –Comentei com os olhos arregalados, como se estivesse falando para mim mesma – Claro! Se acreditarmos que o Diabo teve a oportunidade de se insurgir contra Deus, o vemos muito mais poderoso do que ele é. Isso explica o medo e a luta de muitos crentes. Claro! Ao contrário de trabalhar para nos aproximarmos de Deus, lutamos para nos afastarmos de Satanás! Com isso ele ganha muito terreno.

Voltei-me para meu marido dizendo-lhe: – Querido, isso deve ser esclarecido para o povo de Deus. Seremos muito mais produtivos de posse desse conhecimento.

Ao ouvir estas palavras seu semblante iluminou-se, e disse: – Depois quero falar pra você de Satanás, antes e depois da queda. CONFORME A BÍBLIA, tá?




Romanos 7 – Mortos para a lei

Quando os cristãos estavam na carne produziam frutos para a morte, agora, ’em Cristo’, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Só é ´possível servir a Deus após adquirir um novo espírito. O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 -19). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios (Is 57:19). É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ).


Epístola aos Romanos – Capítulo 7

Introdução e Conteúdo

Devido a complexidade do tema abordado nesta exposição, indico aos leitores e estudantes que façam um estudo sistemático e progressivo de alguns textos essenciais à compreensão deste capítulo, e que estão à disposição neste portal.

Leia atentamente os comentários aos capítulos anteriores, principalmente aqueles pontos que apresentam a metodologia de interpretação da carta paulina.

O leitor precisa conhecer e distinguir no que implica o caminho largo e o caminho estreito. Necessita conhecer quais são as plantas plantadas por Deus, e as que não são. É de suma importância saber quais são os vasos para honra e os vasos para desonra, etc. Todas estas questões foram abordadas neste portal e continua à disposição.

O estudo sobre Romanos 7 não passou por revisão ortográfica, e, desde já pedimos desculpar por possíveis erros de ortografia e gramática.

Agradeço a minha esposa (Jussara) por colaborar na elaboração deste estudo.

Tenha uma boa leitura, e que Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do nosso entendimento ( Ef 1:18 ).

 

Prefácio

Este é um dos capítulos de maior complexidade para se interpretar de toda a Bíblia. Ao longo dos séculos o capítulo sete da carta aos Romanos tem desafiado inúmeros teólogos e estudiosos quanto à sua real interpretação.

Uma correta interpretação deste capítulo é essencial à compreensão de toda carta, e, para interpretá-lo, precisaremos de todos os elementos que foram realçados através das análises feitas nos capítulos anteriores.

Antes de ler este capítulo, recomendo que seja feita uma leitura minuciosa de todos os comentários aos capítulos anterior da carta aos Romanos.

Além de observar os comentários versículo a versículo, é preciso observar também todas as introduções feitas aos capítulos, pois eles contêm elementos essenciais à interpretação deste capítulo em particular.

O primeiro ponto a se considerar na leitura deste capítulo é: Paulo escreveu uma carta, e ela originalmente não foi redigida em capítulos e versículos. Ao ler uma carta, o leitor não pode ater-se às divisões em versículos e capítulos, pois tal divisão interfere na interpretação do texto.

Para um maior proveito na leitura da carta que está sendo estudada, recomendo a quem tem um computador, que imprima a carta de Paulo aos Romanos sem as divisões em capítulos e versículos, pois a leitura do texto sem estes divisores será muito mais proveitosa para a interpretação.

Quem analisa qualquer texto bíblico precisa de algumas premissas centrais para não perder o foco durante a interpretação, uma vez que surgirão inúmeras perguntas, porém, dependendo da pergunta ela não vem ao caso no momento da análise.

Um exemplo claro de perca de foco, e que algumas pessoas incorrem ao ler a Bíblia, verifica-se na passagem acerca da vida de Caim. Há vários aspectos a serem analisados e compreendidos na vida de Caim, porém, muitos restringem a análise e não progridem por se fixarem em questionar quem foi a mulher de Caim.

Diante de um texto bíblico surgirão inúmeras questões, porém, é necessário estar resolvido somente levantar questões que focam o texto. Antes de prosseguir em certas questões é preciso ter em mente as seguintes questões: É pertinente tal pergunta? É necessária no momento? Tem relação direta com a ideia do texto em análise?

Estas são algumas perguntas que devem ser feitas durante a análise do texto bíblico para evitar divagações desnecessárias quando da interpretação de um texto complexo.

Exemplo: Questionar quem foi a mulher de Caim é plausível? Há na Bíblia qualquer referência à mulher de Caim? É possível encontrar uma resposta bíblica acerca da mulher de Caim que não seja mera especulação? Se não há nenhuma referência direta sobre a mulher de Caim, como descobrir quem foi sua mulher? De que adiantaria descobrir quem foi a mulher de Caim?

Paulo recomendou a Tito: “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ). Muitos há que procuram demonstrar conhecimento bíblico, e que, em qualquer conversa interpõe perguntas semelhantes: Quem foi a mulher de Caim? Quem eram os Nefilins? Qual o sexo dos anjos?

 

Convite ao Raciocínio

“NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” ( Rm 7:1 – 3).

1 NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?

Após demonstrar que todos os cristãos foram batizados em Cristo, ou seja, tornaram-se participantes da Sua morte, e que, por estarem mortos, não havia como viverem no pecado, Paulo convoca os seus interlocutores ao raciocínio.

Se os cristãos em Roma desconheciam que todos que foram batizados em Cristo ( Rm 6:3 ), destruíram de uma vez por todas o corpo do pecado ( Rm 6:6 ), e que não mais serviam ao pecado, este ponto em específico foi esclarecido no capítulo seis. Porém, caso alguém permanecesse agarrado à ignorância, Paulo propõe os mesmos argumentos aos seus leitores, só que agora, através de figuras.

Este modo de exposição foi utilizado anteriormente nesta mesma carta. Basta analisar os elementos do texto que Paulo escreveu após falar da justificação por meio da fé ( Rm 3:21 – 26), para compreendermos o modo e porque Paulo introduziu os argumentos que há no capítulo 7.

Para ilustrar a doutrina do evangelho no capítulo 3, que foi exposta em poucas linhas, Paulo apresentou Abraão, o homem que foi justificado por Deus pela fé na promessa divina ( Rm 4:1 – 5). Em seguida o apóstolo Paulo apresenta alguns versos do salmista Davi para dar sustentação aos seus argumentos ( Rm 4:6 – 8).

Novamente ele fala da justificação pela fé em Cristo ( Rm 5:1 ), e, somente então, Paulo apresenta a primeira figura na carta aos Romanos: a escravidão, para dirimir qualquer ignorância da parte dos cristãos acerca da justificação: “Ou, porventura, ignorais que (…) e não sirvamos o pecado como escravos” ( Rm 6:6 ).

Diante da ignorância dos cristãos “Porventura ignorais, irmãos…” ( Rm 7:1 ), Paulo apresenta uma nova figura: a mulher ligada ao marido pelo matrimônio ( Rm 7:1 – 3).

Paulo geralmente introduz uma figura ou uma alegoria através da expressão interrogativa: “… não sabeis…?”:

  1. “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis” ( 1Co 9:24 );
  2. “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” ( 1Co 5:6 ), e;
  3. “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” ( Rm 11:2 );

Paulo conhecia bem a sua ‘platéia’, o que é próprio à retórica (arte do bem falar), uma vez que ele estava escrevendo a quem conhecia à lei. A quem Paulo estava escrevendo? Ora, sabemos que ele escreveu aos cristãos em Roma, porém, a carta do capítulo dois ao doze tinha como público alvo um grupo mais específico: os cristãos judeus.

Como aos cristãos judeus? A resposta a esta pergunta encontra-se no início da carta, isto porque, ao registrar que estava falando a quem conhecia a lei, é possível demonstrar que Paulo estava tratando especificamente com os cristãos de origem judaica e que agora pertenciam à igreja que estava em Roma.

Por ser uma carta intitulada: ‘Epístola de Paulo aos Romanos’, muitos são levados a entender que Paulo escreveu especificamente aos cristãos chamados dentre os gentios que habitavam em Roma. Porém, ao observar alguns versos desde o início da carta, veremos que Paulo escreveu focado em dois grupos de cristãos: cristãos chamados dentre os judeus e cristãos chamados dentre os gentios. Observe:

  • “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso Pai segundo a carne?” ( Rm 4:1 ) – Com base neste versículo, Paulo estava escrevendo aos cristãos judeus ou aos cristãos gentios? De quem Abraão é pai segundo a carne? Dos Judeus ou dos gentios? Observe que Paulo está tratando especificamente com os judeus desde o capítulo 2;
  • “… mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é Pai de todos nós” ( Rm 4:16 ) – Através deste verso, Paulo procura convencer os filhos de Abraão segundo a carne (os judeus) que todos os cristãos, tanto gentios quanto judeus, efetivamente são filhos de Abraão segundo a fé. Ora, segundo a fé Abraão é pai de todos os que creem, sem distinção alguma, tanto de judeus quanto gregos;
  • “… porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” ( Rm 6:14 ) – Ora, quem esteve debaixo da lei a não ser os cristãos chamados dentre os judeus? Perceba que o público alvo da carta aos Romanos inicialmente eram os judeus convertidos, embora os cristãos gentios também pudessem se beneficiar da exposição de Paulo;
  • “Convosco falo, gentios” ( Rm 11:13 ) – Observe que, após tratar diretamente com os judeus, Paulo direciona o seu discurso aos cristãos chamados dentre os gentios, para que eles não se ensoberbecem contra os cristãos que foram chamados dentre os judeus.
  • “Mas tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ) – Paulo direcionou o seu discurso especificamente aos cristãos judeus a partir deste ponto em diante, embora, o alvo da mensagem do evangelho seja todos os homens sem distinção alguma ( Rm 2:3 ).

Quem eram os irmãos que conheciam a lei? Os cristãos judeus ou os gentios? É certo que Paulo diz dos cristãos judeus ( Rm 7:1 ).

O que os cristãos estavam aparentando desconhecer? Eles demonstravam desconhecer que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que viver ( Rm 7:1 ).

Paulo questiona os seus interlocutores se eles desconheciam que a lei só tem domínio enquanto o homem está vivo. Ora, se eles morreram com Cristo (foram batizados), como era possível questionarem a possibilidade de permanecerem no pecado para que a graça aumentasse ( Rm 6:1 ).

Ora, como é possível a alguém que morreu para o pecado estar sob o domínio do pecado? (Romanos 6: 2). Para quem não compreendeu que a lei não mais tinha domínio sobre os cristãos, visto que todos morreram com Cristo, Paulo apresenta a figura da mulher ligada à lei do marido, para ilustrar a verdade exposta no capítulo 6.

 

 

A Figura da Mulher ligada ao Marido

2 Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.

Um exemplo claro de que é impossível a alguém que morreu para o pecado permanecer no pecado é apresentado através da figura da mulher sujeita a lei do marido (lei estabelecida no matrimonio).

Enquanto o marido viver, a mulher estará ligada ao marido pela lei. Porém, morto o marido, qual o papel da lei? A viúva deveria continuar submissa à lei mesmo após a morte do marido?

É certo que, morto o marido, a lei continuará a existir, porém, a viúva não mais será alcançada pela lei, por mais que a mesma lei continue a submeter outras mulheres casadas a seus maridos, ela não submeterá a viúva.

Os leitores da carta de Paulo deviam construir um paralelo entre eles, que morreram para o pecado, e os não crentes, que permaneciam vivos para o pecado.

Quem não foi batizado (morreu) em Cristo, e que, portanto, não morreu com Cristo, permanece vivo para o pecado e sob a égide da lei. Quem não é batizado em Cristo, mesmo sem causa é transgressor “Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa” ( Sl 25:3 ).

Quem crê em Cristo, ou seja, quem espera na salvação providenciada por Deus (esperam em ti), jamais serão confundidos. Porém, todos os que não confiam em Deus serão confundidos, pois mesmo sem causa são transgressores ( Sl 25:3 ).

O que isto quer dizer? Ora, todos os nascidos em Adão são transgressores por natureza, sem qualquer relação direta com questões comportamentais ou morais. Mesmo quando não transgridem leis sociais, morais e comportamentais, são transgressores diante de Deus.

Quem confia no Senhor, morre para o pecado e ressurge uma nova criatura, que jamais será confundida, pois a salvação providenciada por Deus não advém das regras sociais, morais ou comportamentais, antes, é salvo por ter sido novamente criado na condição de filhos de Deus.

A lei do marido só tem razão de ser enquanto o marido estiver vivo, pois tal lei estabelece a sujeição da mulher ao marido, porém, após a morte do marido, a viúva está livre da lei do marido.

 

3 De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.

Paulo convida os seus interlocutores a pensarem e a chegarem a uma conclusão. Enquanto o marido viver, a mulher será chamada adúltera se for de outro homem, porém, após morrer o marido, a mulher estará livre da lei, e não mais será adultera se for de outro homem.

As figuras utilizadas por Paulo, tanto da escravidão quanto da mulher ligada ao marido pela lei são simples de entender.

Diante da lei jamais um escravo seria livre sem a aquiescência do seu senhor. Caso o senhor viesse a falecer, o escravo simplesmente fazia parte dos espólios do seu antigo senhor, porém, não seria livre.

Somente a morte do escravo é que o tornava livre do seu senhor, uma vez que a lei e o antigo senhor nada representavam para o escravo após a sua morte. Como é sabido, o pecado é um senhor tirano que não concede liberdade a seus escravos. Somente a morte deixa livre o pecador do seu tirano senhor, no entanto, seguirá para a eternidade sob condenação eterna.

O cristão efetivamente morre com Cristo, e é por isso que o pecado deixa de exercer domínio como senhor sobre ele.

Quem morre (a morte natural) como servo do pecado seguirá para a eternidade sob condenação, porém, aquele que morre com Cristo, é julgado em Cristo para não ser condenados com o mundo. Quem morre para o pecado em Cristo, ressurge uma nova criatura, e passa a viver para Deus.

O ponto principal que Paulo demonstra neste verso é que, após morrer o marido a mulher está livre da lei do marido. Do mesmo modo, após o escravo morrer, livre está do seu senhor.

Por certo, ao morrer para o pecado e para a lei, o cristão é livre da lei e do pecado. A figura da escravidão demonstra que o cristão é livre do pecado ( Rm 6:6 ), e a figura da mulher ligada ao marido pela lei, que o cristão é livre da lei ( Rm 7:4 ).

 

Argumentos Conclusivos

A figura da mulher ligada a lei do marido ( Rm 7:2 ) e a figura da escravidão ( Rm 6:18 ) que Paulo apresentou anteriormente conduz o leitor à conclusão que é apresentada nestes três versos a seguir.

Paulo novamente enfatiza que os cristãos estão mortos ( Rm 7:4 ), o que foi demonstrado nos capítulos anteriores exaustivamente “Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ). Todos cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

Paulo descreve de modo retroativo os eventos pertinentes àqueles que morreram em Cristo:

  • “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 ) – diz do agora (presente), diz da nova condição pertinente a vida dos cristãos. Para alcançar esta posição (mortos para o pecado), os cristãos ressurgiram com Cristo (vivos para Deus);
  • “…todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (v. 3) – Antes de ressurgir com Cristo, os cristãos foram sepultados pelo batismo na morte de Cristo, ou seja, o batismo que Paulo faz referência não é o batismo em águas, antes ao batismo na morte;
  • “…fomos sepultados com ele pelo batismo na morte…” (v. 4) – o sepultamento se dá efetivamente no batismo na morte, o que não dá vazão a doutrina da regeneração batismal;
  • “…fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte…” (v. 5) – a semelhança não é um faz de conta, antes a semelhança que os cristãos foram plantados é conforme a morte de Cristo;
  • “Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…” (v. 6) – antes de estar efetivamente morto, antes de ser batizado, ou seja, ser plantado com Cristo, em primeiro lugar o ‘velho homem’ foi crucificado com Cristo.

É pertinente ao modo literário do apóstolo Paulo, apresentar inicialmente a condição efetiva dos cristãos “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade,…” ( Ef 1:13 ), para depois demonstrar como alcançaram tal condição “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ). Geralmente o apóstolo dos gentios apresenta aos cristãos a nova condição em Cristo, para depois demonstrar como se alcançou tamanha graça. Para tanto, ele demonstra qual era a condição do homem sem Cristo.

Paulo faz alusão a um princípio doutrinário do evangelho nos versos três a cinco do capítulo 7, mas para compreendê-los é preciso relembrar o que Jesus disse aos discípulos através da figura da árvore e seus frutos: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Através da figura da árvore e seus frutos Jesus demonstrou que é impossível uma árvore boa produzir frutos maus, e que é impossível uma árvore má produzir frutos bons. Ora, este princípio é observável na natureza, porém, que aplicação há com relação às questões espirituais?

Jesus demonstrou que é impossível um falso profeta (lembre-se que eles têm aparência de ovelha), produzir frutos bons, ou seja, dizer o que é verdadeiro. Ora, nem todo o que diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus, porque produzem frutos maus, ou seja, não professam a Cristo segundo a verdade do evangelho (não produzem bons frutos).

Qual é o fruto bom? O fruto dos lábios que professam a Cristo! ( Hb 13:15 ). Quem professa a Cristo, conforme diz a Escritura, é porque nasceu da semente incorruptível. É plantação do Senhor, árvores de Justiça ( Is 61:3 ).

Os nascidos em Adão são árvores más, plantas que o Pai não plantou, e todos os seus frutos são maus. Porém, aqueles que creem na palavra da verdade são plantação do Senhor, árvores de Justiça, e produzem frutos bons, ou seja, professam a Cristo, pois este é o fruto que Deus criou Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

É preciso relacionar Rm 6:19 e Rm 6:22 com Rm 7:4 sem esquecer que, antes de serem libertos do pecado, os cristãos eram escravos do pecado, e, portanto, só podiam produzir para o seu senhor.

Lembrando que um servo não pode servir a dois senhores e esta mesma impossibilidade é encontrada na figura da árvore, pois do mesmo modo que um servo do pecado não pode servir à justiça, uma árvore má não pode produzir frutos bons.

Como pode um servo da justiça servir ao pecado, se é impossível servir a dois senhores? ( Rm 6:20 ). Ou melhor, como pode alguém que está morto para o pecado, viver ainda nele? ( Rm 6:2 ). Como é possível a uma árvore que germinou de uma semente incorruptível produzir frutos maus? ( 1Pe 1:23 ). Como ser achado ainda pecador, quem já se refugiou em Cristo? ( Gl 2:17 ).

O capítulo 7 da carta aos Romanos apresenta uma resposta a estas perguntas.

 

Os Frutos

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:4 – 6).

 

4 Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.

O comparativo é estabelecido entre os cristãos e a figura da mulher que estava ligada ao marido através da lei “Assim, meus irmãos, também vós…” (v. 4).

Observe a similaridade entre este verso e Efésios 1: 13:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” ( Ef 1:13 );

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo…” ( Rm 7:4 ).

‘Estar em Cristo’ e ‘estar morto para a lei’ aponta para uma mesma condição diante de Deus: uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘em Cristo’ é dizer que ele é uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘morto para a lei’ é o mesmo que dizer: você é uma nova criatura “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é…” ( 2Co 5:17 ).

Por que os cristãos estavam mortos para a lei pelo corpo de Cristo? Porque através do evangelho conclui-se que, se um morreu por todos, logo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Ora, foi através da oferta do corpo de Cristo que os cristãos deixaram a condição de velha criatura e passaram à condição de nova criatura ( Hb 10:10 ).

A oferta diz do corpo de Cristo, do corpo que o Verbo encarnou. Foi através do corpo humano que Deus preparou para o seu Filho ( Hb 10:5 ), que os cristãos passaram a estar mortos para a lei.

Quando Paulo faz referência ao corpo de Cristo, ele está fazendo referência à morte de Cristo, ou seja, ao corpo que foi apresentado imaculado como oferta a Deus. Deste modo, por causa do corpo de Cristo, que foi entregue aos pecadores, os cristãos estão mortos para a lei.

Como? Ao apresentar um paralelo entre a figura da mulher que estava ligada ao marido pela lei, e que após a morte do marido não mais estava sujeita à lei, Paulo demonstra que a lei só teve alcance sobre os cristãos pelo tempo que em que viveram na carne ( 2Co 5:15 ).

Uma vez que todos que creram em Cristo foram crucificados, mortos com Cristo, e sepultados com Cristo, que relação há entre a lei e o cristão?

Da morte com Cristo surge uma nova condição: livres da lei e do pecado.

Enquanto filhos de Adão, gerados da semente corruptível, o homem está sob o domínio da lei e da escravidão do pecado, através do corpo de Cristo, o homem efetivamente morre, e passa a compartilhar da natureza divina através da ressurreição com Cristo.

Antes de morrer com Cristo, a quem os cristãos pertenciam? Ao pecado, ao mundo, às trevas, à ira, à perdição e estavam debaixo da lei (certamente morrerás). Agora, por estarem em Cristo, os cristãos passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos.

Os cristãos não pertencem ao Cristo que veio em carne, antes pertencem àquele que ressurgiu dentre os mortos para louvor da glória e graça de Deus ( 2Co 5:16 ).

Por que os cristãos estão mortos para a lei? Por que eles passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos? A resposta é simples: “… a fim de darmos fruto para Deus”.

Como é possível dar fruto para Deus? Assim como é próprio a árvores produzir frutos segundo a sua espécie é próprio à natureza daqueles que estão mortos para a lei produzirem frutos para Deus! Não depende do esforço do homem.

Como os cristãos são árvores de justiça, plantação do Senhor é próprio da nova natureza produzir fruto para Deus.

Repassando:

  1. Os cristãos estão mortos para o pecado e não podem viver nele. Paulo não fez uma recomendação aos cristãos: – Vocês não devem viver no pecado! Antes, ele demonstrou que é impossível viver no pecado, quando se está morto para o pecado ( Rm 6:2 ). Paulo demonstra que é impossível viver no pecado, o que difere completamente da concepção de que ele tenha ordenado a que não vivessem em pecado. Ou o homem vive para a justiça ou vive para o pecado. É impossível o homem viver para ambos;
  2. Os cristãos andam em novidade de vida porque ressurgiram com Cristo, ou seja, só é possível ‘andar em novidade de vida’ quando se vive no Espírito, ou seja, após morrer e ressurgir com Cristo ( Rm 6:4 ; Gl 5:25 );
  3. Os cristãos foram plantados juntamente com Cristo, na semelhança da sua morte, e, portanto, são semelhantes a Ele na ressurreição: a morte não tem mais domínio ( Rm 6:5 e Rm 6:9 ; “…qual ele é, somos nós também aqui neste mundo” 1Jo 4:17 );
  4. O pecado não mais tem domínio sobre os cristãos, pois não estão debaixo da lei (morreram), ou seja, o pecado não reina sobre os cristãos de modo que venham a produzir frutos que tenham do que se envergonhar ( Rm 6:14 e Rm 6:21 ).

É próprio à natureza daqueles que foram gerados de novo produzirem frutos de justiça, e que o comportamento humano não se vincula ao fruto que Deus cria Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

Os frutos que os cristãos produzem para Deus são provenientes do próprio Deus sem qualquer relação com o esforço humano. Quem é nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ), é plantação do Senhor, ou melhor, plantas que o Pai plantou ( Mt 15:13 ). Ora, as plantas que o Pai plantou produzem frutos segundo a sua espécie: frutos bons.

É por isso que o profeta Isaías registrou: “Eu crio o fruto dos lábios…”. Por quê? Ora, se a boca fala do que o coração está cheio “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ), um coração mal só fala malignidade, mas de um coração novo, que é criado por Deus ( Sl 51:10 ), só é possível produzir fruto bom.

Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito. Tudo que é proveniente do novo coração foi criado por Deus, e, por isso mesmo, Ele criou o fruto dos lábios.

Quem vive de acordo com a verdade do evangelho é porque está em Cristo, de modo que todos podem ver claramente que as suas obras são feitas em Deus, pois quem vive em trevas e nela anda, não vem para Cristo, porque amam mais as trevas do que a luz para preservarem as suas próprias obras ( Jo 3:19 – 21 ).

 

A Carne e o seu Fruto

5 Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.

Paulo neste verso faz referência à antiga condição dos cristãos, quando estavam vivos para o pecado e mortos para Deus.

Naquele tempo específico, quando os cristãos estavam na carne, eles davam frutos para a morte. Hoje, em Cristo, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 e Is 57:19 ). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios ( Is 57:19 ).

É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ). Os cristãos estão livres do pecado e os seus frutos são para Deus e por fim herdarão a vida eterna ( Rm 6:22 ), porém, antes de aceitarem a Cristo eram servos do pecado, os seus frutos eram para o pecado, e por fim herdariam a morte eterna.

As paixões pertinentes ao corpo do pecado existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado. Quem morre com Cristo, crucifica o corpo do pecado e as suas paixões “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a natureza carnal que produz tal fruto, pois, a inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez às paixões e concupiscência da carne.

Analisando a seguinte tradução com base em outros versículos: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ), chega-se à seguinte conclusão: não são as paixões dos pecados que produzem fruto para a morte. Como? Ora, dizer que as paixões e as concupiscências produzem fruto para morte é o mesmo que dizer que o comportamento humano é que produz a morte (separação de Deus).

Porém, como é de conhecimento geral, a natureza pecaminosa herdada de Adão, designada carne, é que estabeleceu a morte (condenação) e produz para a morte (iniquidades). É por isso que quando os cristãos crucificam a carne, crucificam também as paixões e as concupiscências ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões e as concupiscências que se inclinam para a morte, antes é a carne. A carne é sujeita à lei, e a lei realça as paixões e as concupiscências nos membros (corpo) que pertencem à carne.

Assim sendo, o versículo é melhor traduzido quando evidencia a condição da carne (sujeição ao pecado), e para quem ela produz o seu fruto (para a morte). Ou seja: “… quando estávamos na carne (…), frutificávamos para a morte”. Com relação às paixões, Paulo somente evidenciou que elas são (realçadas) através da lei, e que efetivamente tais paixões operavam nos membros da carne.

Sugestão de emenda a tradução: “Porque, quando estávamos na carne (as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros) frutificávamos para a morte”.

Basta comparar os versos ( Rm 7:4 e Rm 7:5 com o verso 16: “… sóis servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça” ( Rm 6:16 ).

É possível o homem escolher não obedecer ao pecado sem ter obedecido a Cristo? É possível ao homem abandonar o pecado sem ser adquirido por Cristo? Não!

Ora, a humanidade sem Cristo (escravos) obedece ao pecado (senhor) porque foram introduzidos no mundo sob o domínio do pecado. Em Adão a humanidade ‘obedeceu’ ao pecado! Adão é a porta larga pela qual todos os homens entraram, e seguem por um caminho largo que os conduz à perdição.

Embora muitos procurem realizar boas ações, as suas obras não passam de trapos de imundície. Por serem servos do pecado todas as obras dos homens são más, ou seja, os servos do pecado frutificam para a morte.

Em Cristo, o último Adão, os homens são novamente criados segundo Deus, livre do poder do pecado, e sob o jugo da justiça. Ao entrar pela porta estreita, o homem deixa de produzir para a morte e passa a produzir para a justiça, pois se inclinam para a vida que há em Deus e para a paz que excede a todo entendimento.

 

Em Espírito e em Verdade

6 Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Paulo apresenta uma conclusão à sua exposição: agora, após serem libertos da lei, ou seja, mortos para aquilo que estavam retidos (a lei), os cristãos servem a Deus em novidade de espírito.

Por que em novidade de espírito? Porque após crer em Cristo o homem adquire um novo coração e um novo espírito, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Sl 51:10 ; Ef 4:24 ).

Paulo demonstra que os judeus não serviam a Deus, antes, só tinham zelo, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ). Por quê? Porque só é possível servir a Deus em espírito e em verdade, ou seja, quando o homem é gerado do Espírito, o mesmo que ser circuncidado no coração. Somente em Cristo é possível ao homem alcançar a condição de servir a Deus em espírito ( Jo 4:23 ).

A condição ‘em espírito’ só é possível quando o homem é gerado de Deus. É por isso que Jesus disse a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Somente após o homem ser gerado de novo através da fé em Cristo torna-se possível servir a Deus (o Espírito Eterno) em espírito.

Os judeus pensavam servir a Deus, porém, a qualquer homem nascido de Adão (nascido da carne) é impossível servir a Deus. Deus somente ‘conhece’ aqueles que o adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:24 ; Gl 4:9 ).

Paulo estava tratando diretamente com os judeus convertidos, como foi demonstrado anteriormente, e aqui temos outra evidência: somente os cristãos judeus tentaram servir a Deus através da velhice da letra (lei de Moisés), ponto abordado por Paulo que não tem relação com os gentios.

Só é possível servir a Deus em novidade de espírito, e, somente Ele, é quem ‘renova’ (cria) no homem um espírito reto ( Sl 51:10 ). Só é possível ter novo coração e um novo espírito quando o homem está livre da lei, ou melhor, quando morre para aquilo em que se estava retido.

Como é possível ao homem morrer para o que estava retido (lei)? Através da circuncisão do coração! Quando Moisés apregoou a circuncisão do coração ao povo de Israel, tal circuncisão só era possível através da fé em Deus, Aquele que tem o poder de circuncidar o coração, ou seja, Ele mata o homem gerado em Adão e concede um novo coração “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Somente após alcançar novo coração (novo nascimento) o homem compreende a palavra de Deus “Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” ( Dt 29:4 ).

Em resumo: Os cristãos morrerem com Cristo, portanto, estavam livres da lei. Qual o objetivo de os cristãos terem morrido para a lei, ou antes, morrido com Cristo? Para servirem a Deus com um novo espírito e um novo coração ( Ez 36:25 – 27 ). Ora, o novo coração e o novo espírito só são possíveis alcançar através da regeneração em Cristo.

A lei de Moisés (velhice da letra) não poderia proporcionar o novo nascimento. Somente o evangelho de Cristo, que é a água limpa aspergida pelo Espírito Eterno, faz nascer o novo homem para louvor de sua glória ( Jo 3:5 ; Ez 36:26 ). É através do evangelho que o homem recebe poder para ser criado em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

Após declarar que os cristãos eram livres da lei ( Rm 7:6 ), do mesmo modo que eram livres do pecado ( Rm 6:6 ), poderia surgir um entrave na mente de alguns cristãos: acharem que Paulo estava equiparando a lei ao pecado ( Rm 7:7 ).

 

Verbos, flexões e Interpretação

Como interpretar este versículo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ).

Quem crê em Cristo é (presente) salvo ou será salvo (futuro)? Por que Jesus disse: quem crer será salvo? Você é salvo ou ainda será salvo no futuro?

Há pessoas que dizem que ainda não estão salvas, mas que serão salvas. Ao serem indagadas, citam o seguinte versículo: “quem crer será salvo”, ou seja, porque o verbo salvar está no futuro essas pessoas entendem que somente estarão salvas no futuro.

O argumento anterior é válido? Não! Por quê?

Porque a frase: ‘quem crer será salvo’ está corretíssima, porém, ‘quem crê está salvo’, também é correta e não contradiz a afirmação anterior.

No verso 16, do capítulo 16, do evangelho de Marcos (Mc 16:16 ), o verbo ‘crer’ está no infinitivo, ou seja, neste caso o verbo conserva a forma não flexionada: ‘crer’.

A frase ‘Quem crer…’ é impessoal, ou seja, o verbo ‘crer’ não faz referência a nenhum sujeito específico. Qualquer homem que ouvir a mensagem do evangelho e crer assumirá a condição de salvo, ou seja, assumirá a condição de sujeito desta frase.

Como o verbo ‘crer’ está no infinitivo, e neste caso o infinitivo não é flexionado, o verbo ‘ser’ é conjugado no futuro simples. Porém, se colocarmos o verbo ‘crer’ no presente ‘crê’, o verbo ‘ser’ é posto no presente: ‘é’. Compare:

Quem crer será salvo;
Quem crê é (está) salvo.

É só substituir o pronome indefinido ‘Quem’ por um substantivo, que a frase apresenta os verbos em tempos flexionados: João crê, portanto, é salvo.

Por que o verbo ‘crer’ foi colocado no infinitivo? Porque a mensagem do evangelho destina-se a todas as pessoas em todos os tempos. A mesma mensagem apregoada por Cristo e os apóstolos continua atual, e destina-se a todos os homens, em todos os tempos e lugares.

Esta primeira análise é gramatical, porém, é possível analisar o mesmo versículo através de outros recursos.

Ao escrever aos cristãos de Coríntios, Paulo disse: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Paulo aponta a nova condição dos cristãos efetiva no presente. Ora, se alguém (sujeito indeterminado) está (presente) em Cristo é uma nova criatura, ou seja, a salvação é efetiva hoje: “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ).

Paulo utiliza neste verso todos os verbos no presente para falar de uma condição pertinente a todos quantos creem em Cristo.

João, ao falar da salvação, registrou: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ). João fala da salvação como sendo um evento do passado. Todos quantos creram no nome de Jesus receberam poder para serem feitos filhos de Deus. Quem creu, recebeu poder, o que nos leva a seguinte conclusão: quem crê está salvo.

Os tempos verbais podem causar muitos problemas na hora de interpretar um versículo específico ou uma carta. Erros podem surgir da má compreensão dos tempos verbais, principalmente quando há regras para se estabelecer a correta correlação verbal proveniente de questões gramaticais.

O capítulo 6 da carta aos Romanos contém alguns versículos que podem causar alguns problemas na hora da interpretação. Observe:

  • “Se formos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição?” ( Rm 6:5 ) – O versículo é argumentativo, ou seja, o apóstolo não fez uma afirmação. Por causa desta peculiaridade do argumento apresentado por Paulo é preciso estabelecer uma correlação verbal entre as orações, que é ‘a articulação temporal entre duas formas verbais’. No argumento apresentado por Paulo, ‘se formos plantados’ surge a correlação com o verbo ‘ser’ no futuro (seremos). Porém, é assente que os cristãos já morreram com Cristo ( Cl 3:3 ), e, portanto, são semelhantes a Cristo na sua ressurreição ( Cl 3:1 ; 1Jo 4:17 ), pois assim como Jesus é, são os cristãos aqui neste mundo;
  • “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:8 ) – Neste verso o apóstolo baseia-se na premissa de que os cristãos já morreram com Cristo (para morrer com Cristo é preciso crer), segue-se que os cristãos creram, morreram, ressurgiram, e que também esperam que viverão para sempre com Cristo. O fato de Paulo ter colocado o verbo ‘viver’ no futuro, o que dá uma ideia de algo que será alcançado, é proveniente do argumento introduzido pela partícula ‘se’. Caso o apóstolo tivesse apontado a morte efetiva dos cristãos, a conclusão seria: com ele vivemos.

 

É a Lei Pecado?

“Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Diante do que foi exposto, Paulo convoca os cristãos ao raciocínio: “Que diremos, pois?”.

Com base no que já foi demonstrado anteriormente, qual a conclusão que os cristãos deveriam abraçar? Que a lei é pecado? A resposta é clara: De modo nenhum! A lei não é pecado!

Embora o apóstolo não tenha afirmado no decurso da carta que a lei é pecado, alguns judaizantes poderiam distorcer os argumentos e afirmar que Paulo anunciou que a lei é pecado. Como Paulo anunciava que os cristãos eram livres do pecado e da lei, alguém mal intencionado poderia anunciar que Paulo estava equiparando a lei com o pecado, distorcendo o que o apóstolo dos gentios procurou evidenciar.

Paulo demonstra incisivamente que a lei não é pecado para desfazer qualquer conclusão diferente da verdade do evangelho. Ele apregoou a necessidade dos cristãos livrarem-se da lei, porém, nunca disse que a lei é pecado.

Este deve ser um dos cuidados de quem interpreta as escrituras: não concluir por si só algo que não foi afirmado categoricamente. É necessário saber diferenciar argumentação, asserção e conclusão. Uma argumentação é construída com premissas, porém, as premissas e as argumentações não podem ser consideradas como sendo uma asserção (afirmação).

Do mesmo modo, uma conclusão não tem o mesmo valor de uma asserção, pois a asserção deriva da conclusão ou da argumentação. Isto porque, as premissas utilizadas em uma argumentação que levará a uma conclusão geralmente foram retiradas de asserções. Exemplo:

  • Uma asserção: “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 );
  • Uma argumentação: “…como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 );
  • Uma conclusão: “Pois o pecado não terá domínio sobre vós…” ( Rm 6:14 );
  • Duas premissas: “…porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça ( Rm 6:14 ).

Observe que as duas premissas apresentadas em Romanos 6: 14b são excludentes ( Rm 6:14 ). Ora, quem está debaixo da graça não pode estar sob a lei, e vice-versa.

Deste ponto em diante, o leitor deve estar atento as peculiaridades apresentadas acima, sabendo divisar bem o que é argumento, premissa, asserção e conclusão.

Quando questionou os seus interlocutores acerca da lei (É a lei pecado?), Paulo esperava ter como resposta uma negativa (De modo nenhum!). Em seguida, ele apresenta argumentos que desfaz qualquer argumentação dos judaizantes que vincule a lei ao pecado (versos 7b a 11), para que seus leitores possam chegar à seguinte conclusão: “Portanto, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom” ( Rm 7:12 ).

Agora analisaremos os versos 7b a 11 de Romanos 7, para que possamos chegar à mesma conclusão que Paulo estabeleceu: a lei é santa e o mandamento também ( Rm 7:12 ). Qualquer conclusão que destoe da conclusão que Paulo apresenta no verso 12 de Romanos 7, demonstra que o interprete ‘prevaricou’ na sua atribuição.

Para chegar à conclusão de que ‘a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom’, é necessário analisar criteriosamente os cincos versículos ( Rm 7:7 -11) e algumas questões pertinentes à linguística.

 

Figuras de Linguagem

Durante a leitura da carta aos Romanos é fácil perceber que Paulo utiliza um recurso linguístico (figura de linguagem) ao falar do evangelho de Cristo. Observe:

  • “… para a obediência da fé entre todos os gentios…” ( Rm 1:5 );
  • “… porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé ( Rm 1:8 );
  • “… seja consolado pela fé mutua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ).

Tal figura de linguagem é denominada perífrase, onde temos a palavra ‘fé’ substituindo a palavra ‘evangelho’, assumindo a ideia da palavra substituída. O evangelho foi anunciado aos gentios para obediência. Do mesmo modo, em todo mundo era anunciado o evangelho, ou seja, a vossa fé. Paulo e os cristãos seriam consolados mutuamente através do evangelho (fé mutua).

Perceba que, para não repetir várias vezes a palavra ‘evangelho’ e dar maior graciosidade a escrita da carta, Paulo substitui alguns termos por outros, utilizando-se de alguns recursos pertinentes à linguagem.

Após descobrir este uso de uma figura semântica, faz-se necessário observar com acuidade toda a carta, visto que, algumas ‘figuras de linguagem’ ou ‘recurso de estilística’ pode interferir na interpretação do texto.

Desta forma, analisemos a seguinte afirmação de Paulo: Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 ). O que o ‘apóstolo dos gentios’ expõe neste verso era de conhecimento geral dos cristãos, uma vez que eles ‘bem sabiam’ do que Paulo estava tratando.

Percebe-se através do contexto que a palavra ‘verdade’ em Romanos 2: 2, substitui a palavra ‘evangelho’, como se verifica no verso 16.

  • “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 );
  • “Isto sucederá no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por meio de Jesus Cristo, segundo o meu evangelho” ( Rm 2:16 ).

Ora, se o julgamento de Deus é segundo a verdade do evangelho, fica claro que o julgamento de Deus não é segundo a lei. Perceba também que o juízo é segundo a verdade (presente), e que há um dia preordenado para ser manifesto este juízo ( Rm 2:5 ), o que indica que o juízo segundo a verdade já ocorreu e está estabelecido.

Porém, ‘segundo o evangelho (de Paulo)’, Deus também julgará os segredos dos homens. Isto demonstra que o juízo de Deus foi estabelecido no passado em Adão “O Juízo veio de uma ofensa (…) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo…” ( Rm 5:16 e Rm 5:18 ), e, que, Deus julgará todos os homens segundo as suas obras no futuro (Grande Trono Branco) ( Ap 20:11 ).

Procuramos demonstrar que é similar a ideia entre ‘evangelho’ e ‘verdade’, ‘fé’ e ‘evangelho’, porque recursos literários semelhantes a este foram utilizados diversas vezes pelos apóstolos.

 

 

Qual a relação entre Pecado, Lei e Conhecimento?

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Para compreender a declaração: “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei”, é necessário saber:

a) de qual lei o apóstolo estava falando;
b) o que é pecado, e;
c) o que é ‘conhecer’. Após responder as questões acima, será possível verificar de que ‘eu’ o apóstolo estava falando.

A primeira citação da palavra ‘lei’ Paulo fez na carta aos Romanos no capítulo 2, verso 12: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Já analisamos este verso, porém, faz-se necessário aprofundar a análise.

É possível inferir de Rm 2:12 que os que sob a lei pecaram são os judeus, do mesmo modo, que os gentios pecaram sem lei. Isto demonstra que Paulo estava escrevendo acerca da lei de Moisés, visto que, desde Adão até Moisés todos pecaram, mesmo não tendo uma lei específica.

Não é porque os gentios não possuíam uma lei que não estavam sob condenação. Do mesmo modo, não é porque os judeus possuíam uma lei, que não haveriam de perecer. Ou seja, todos pecaram e estavam debaixo de condenação, e seguiam para a perdição ( Rm 3:9 ).

Isto demonstra que a transgressão à lei mosaica não é o que subjugou a humanidade ao pecado. Porém, Paulo demonstra que o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a ter comunhão intima com o pecado através da lei ( Rm 7:7 ), o que indica que em Rm 7:7 ele não está se referindo a Lei de Moisés, antes fez referência a lei perfeita da liberdade concedida ao homem no Éden ( Gn 2:16 – 17).

Ora, Adão perdeu a comunhão com o criador quando desobedeceu a ordenança divina que foi dada no Éden, e por causa da ofensa dele, todos pecaram, tanto gentios quanto judeus. Todos ficaram alienados da glória de Deus, ou seja, ‘conheceram’ o pecado.

O pecado subjugou a humanidade por causa da desobediência à lei dada no Éden. Ora, tanto os que estavam sob a lei de Moisés quanto os gentios, ambos pecaram, o que demonstra que o pecado decorre da desobediência de Adão.

Desta análise é possível concluir que Paulo faz referência a dois tipos de lei na sua carta. Uma refere-se à lei de Moisés, e a outra à lei de Deus outorgada no Éden. Desta última decorre a penalidade eterna: ‘certamente morrerás’, ou seja, o homem ‘conheceu’ a separação da vida que há em Deus através da ofensa no Éden.

Ora, se o pecado decorre da desobediência à lei dada no Éden, logo, o ‘eu’ da qual o apóstolo faz alusão refere-se a algo proveniente de Adão, e que é comum a todos os homens destituídos da glória de Deus.

 

O que é pecado?

Se uma das definições de pecado é a transgressão da lei ( 1Jo 3:4 ), como é possível pecar sem lei? ( Rm 2:14 ) Qual lei transgredida é pecado: a lei de Moisés ou a lei dada no Éden?

Paulo afirma categoricamente que a lei não é pecado ( Rm 7:7 ). Também afirmou que os gentios pecaram mesmo sem lei. Estas afirmações levam-nos a concluir que, o pecado surgiu da transgressão à lei dada no Éden, e não da transgressão das prescrições de Moisés.

Uma das definições de pecado geralmente é extraída da I carta do apóstolo João, que diz: “Todo aquele que comente pecado, transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ) Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, Ed. Vida. Se adotarmos este verso da carta de João como sendo a definição de pecado, como é possível aos gentios pecarem, se eles não têm lei?

Observando a carta de João, perceba que apenas neste verso a palavra ‘lei’ foi utilizada. No decurso da carta de João a palavra que foi utilizada diversas vezes é ‘mandamento’, porém, 1Jo 3:4 destoa da carta. A palavra “lei” também não é utilizada nas outras cartas do apóstolo João.

Já a versão João Ferreira Corrigida não utiliza a palavra lei em I João 3: 4, observe: “Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade” ( 1Jo 3:4 ). Versão Corrigida e fiel.

Ora, surge a dúvida: o pecado é ‘iniquidade’ ou o pecado é a ‘transgressão da lei’?

Pois bem, dúvidas a parte, segue-se que, ao ler os versículos nestas traduções, faz-se necessário analisar o seu contexto para chegarmos a um entendimento acerca das palavras utilizadas pelos tradutores, e qual a ideia que os apóstolos procuram evidenciar.

Ora, inferimos de Rm 2:12 que é plenamente possível pecar mesmo sem lei. Bem antes da lei de Moisés a morte reinou sobre todos os homens ( Rm 5:13 ). Desde Adão até Moisés a morte reinou sobre os homens o que significa que todos pecaram ( Rm 5:14 ). Daí, vale destacar que, o pecado impera aparte da lei mosaica.

Como? Um homem pecou, todos pecaram ( Rm 5:18 ). Ora, se um só homem pecou e todos pecaram, segue-se que o pecado que subjugou a humanidade não decorre da desobediência à lei de Moisés, visto que, após a desobediência de Adão, Deus não instituiu de imediato leis, porém, mesmo assim, todos morreram, o que demonstra que todos estavam em pecado.

O homem peca porque foi vendido como escravo ao pecado, e isto através da ofensa de Adão. Jesus é claro ao afirmar: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). O homem peca porque é escravo do pecado, e não porque transgride a lei de Moisés.

Resta a pergunta: O que é pecado? ‘Pecado’ diz da condição da criatura quando divorciada do Criador.

Quando a criatura se distancia do Criador, a condição ‘em pecado’ se manifesta. Ou seja, pecado é o mesmo que estar destituído da glória de Deus (morto para Deus e vivo para o mundo).

Se pecado fosse a transgressão da lei de Moisés ( 1Jo 3:4 ), não haveria como o homem ser formado em iniquidade e nem gerado em pecado, pois como poderia alguém transgredir no ventre materno? ( Sl 51:5 ).

Verifica-se nas Escrituras que um homem transgrediu e que todos transgrediram. Um pecou e todos vêem ao mundo separados de Deus, destituído da Sua Glória, porque todos pecaram pelo simples fato de serem descendentes de Adão.

O que toda humanidade passou a compartilhar após a ofensa de Adão? A mesma condenação! Como o apóstolo Paulo demonstrou que através da lei o ‘eu’ ‘conheceu’ o pecado, isto demonstra que o ‘eu’ surgiu quando da ofensa de Adão, pois ninguém pode transgredir a semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).

Somente Adão poderia e vendeu a humanidade como escrava ao pecado. O ‘eu’ jamais poderia pecar a semelhança do pecado de Adão, antes o ‘eu’ surgiu do pecado de Adão.

A humanidade conheceu o pecado por causa da ofensa de Adão, visto que todos são gerados em iniquidade e concebidos em pecado. O ‘eu’ não possuía autonomia para ‘conhecer’ o pecado, antes ‘conheceu’ o pecado por ser descendente da carne de Adão.

Enquanto os judeus acreditavam que os homens eram pecadores por não serem descendentes de Abraão e transgressores da lei de Moisés, o salmista Davi demonstra que os pecadores diante de Deus são transgressores sem causa ( Sl 25:3 ).

Sem esquecer que Paulo estava tratando com cristãos judeus e que o seu discurso tinha como tema central o Cristo crucificado, é necessário considerar que ele procurava dissuadir os que continuavam apegados à lei, como se ela fosse essencial à justificação ( Gl 5:4 ).

A concepção humana aponta que a justiça divina é proveniente da lei, como é o caso da justiça humana. ‘Sem lei não há justiça’, está é a concepção dos homens, porém, a justiça de Deus tem por base o seu eterno poder, e não a lei.

Como Deus perdoa pecados? Com base na ‘lei’ ou no seu ‘poder’? Ao curar um paralítico Jesus demonstrou que o perdão dos pecados tem como base o seu eterno poder: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico)…” ( Mc 2:10 ). O versículo não esta dizendo que Deus tem ‘autonomia’ para perdoar pecado, antes que Ele detém o poder necessário para perdoar pecado.

É por isso que João disse: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ). Ora, é através do poder de Deus que a justiça de Deus se estabelece, diferente da justiça dos homens, que têm nas leis a sua maior expressão de justiça. O perdão do pecado só ocorre quando Deus cria (Bara) o novo homem.

Qual o poder necessário para perdoar pecado? O poder de transformar homens gerados segundo a carne em filhos de Deus! Ou seja, somente tem o pecado perdoado aqueles que são recebidos por Deus na condição de filhos. Para tanto é necessário nascer de novo, da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

Os homens procuram valer suas leis através de sanções, e a lei é invocada apenas quando alguém descumpre suas prescrições. Diante de suas leis os homens clamam por justiça, mas da mesma lei criada para se fazer justiça surgem inúmeras injustiças. Elas nunca podem reparar o dano, somente tem valor punitivo.

Da justiça de Deus é preciso considerar que:

  1. Ela não é tardia, pois é aplicada quando do nascimento dos homens;
  2. Ela alcança a todos os homens, sem distinção alguma;
  3. Ela não precisa de leis, antes se aplica à natureza dos homens;
  4. Todos os homens gerados segundo a natureza de Adão foram julgados e estão debaixo de condenação;
  5. Somente os homens gerados segundo o último Adão, que é Cristo, estão livres de condenação;
  6. Ela não se vincula à moral, ao comportamento ou ao caráter, antes alcança a natureza, que é permanente;
  7. Ela é reta, e não se prende às questões de mérito ou demérito proveniente das relações humanas.

O evangelho é poder de Deus que gera homens espirituais estabelecendo a justiça de Deus. É por isso que o evangelho é descrito como semente incorruptível e através desta semente os homens tornam-se árvores de justiça, plantação do Senhor. As árvores plantadas por Deus produzem frutos bons, já as plantas que Ele não plantou produzem frutos maus. Não há como o homem gerado em Adão ser aceito por Deus, e tão pouco suas obras. Aqueles que são gerados de Deus, não são rejeitado, e tão pouco as suas obras ( Mt 15:13 ).

 

O que é ‘conhecer’ o pecado?

A palavra ‘conhecer’ na Bíblia possui dois sentidos e só o contexto pode indicar o seu real significado. Em determinados contextos a palavra ‘conhecer’ indica ‘união intima’, ‘estar ligado intimamente’ ou ‘ser participante da mesma natureza’. Quando Paulo escreveu: “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ), ou “O Senhor conhece os que são seus” ( 2Tm 2:19 ), ele demonstra que o ‘conhecimento’ de Deus vai além da ‘ciência’ de algo, ou seja, neste contexto a palavra ‘conhecer’ indica comunhão intima com o Criador ( Jo 17:11 ; Jo 17:21 – 22).

O significado mais utilizado para a palavra ‘conhecer’ é ‘saber acerca de’, ‘ter ciência de’, diferente do significado apresentado nos versículos acima. Observe como a mesma palavra é empregada com sentidos diferentes na frase seguinte: “Só conhece (saber acerca de) a concupiscência aqueles que ‘conhecem’ (união intima) o pecado, ou antes, foram conhecidos dele”.

Antes de pecar (conhecer o pecado = união intima), jamais seria possível a Adão conhecer (saber) que estava nu “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” ( Gn 3:7 ).

Quando Adão conheceu que estava nu, não havia nenhuma lei estabelecida por Deus sobre a nudez, porém, por causa da corrupção do pecado, ele constatou haver uma lei escrita em seu coração, testificando a sua consciência e os seus pensamentos, que o acusou de estar nu.

Adão encontrou em si mesmo uma lei ao reconhecer que estava nu. Ele passou a fazer naturalmente as mesmas coisas que, no futuro, seriam pertinentes à lei de Moisés, ou seja, mesmo não tendo a lei de Moisés para norteá-lo, Adão seguiu uma lei impressa em seu coração, proveniente do fruto do conhecimento do bem e do mal ( Rm 2:14 – 15).

Como Adão pecou, ou seja, ‘conheceu’ o pecado? Pela lei! Como assim? Adão conheceu o pecado pela transgressão da lei perfeita que foi dada no Éden: “De todas as árvores comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 – 17).

Através da lei o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a estar destituído da glória de Deus, separado do Criador, ou ainda, em comunhão intima com o pecado por causa da desobediência de Adão.

Paulo é enfático: a lei não é pecado, porém, através dela o homem tornou-se ‘carnal’, ‘conhecendo’ (união intima) o pecado “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei” ( Rm 7:7 ). Quando escreveu aos cristãos em Roma, Paulo não mais ‘conhecia’ o pecado, visto que esta condição se deu noutro tempo, quando ele conheceu o pecado por intermédio da lei ( Ef 2:2 e Ef 2:3 ).

Observe que o verbo ‘conhecer’ está no passado, o que indica uma situação remota e diversa da nova vida que Paulo alcançou em Cristo. Observe também que a palavra ‘conhecer’ em Rm 7:7 indica ‘união intima’ com o pecado (estar em pecado).

Para os judaizantes e alguns cristãos judeus, era absurdo o pecado ser ‘conhecido’ (união íntima) através da lei. Para eles, através da lei Deus estabeleceria a sua justiça. Após apresentar argumentos que contradiz o pensamento dos judaizantes, Paulo apresentou outro argumento: “…porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 ).

Ora, do mesmo modo que o homem soube (conheceu) por intermédio da lei que é vetado cobiçar, por intermédio da lei dada no Éden que diz: ‘…dela não comerás…’ ( Gn 2:17) o homem passou a ‘conhecer’ (união intima) o pecado (separação de Deus).

Como já demonstramos anteriormente, a concupiscência não é o pecado, antes a concupiscência é o engodo da carne sujeita ao pecado.  É algo próprio do mundo, ou seja, a existência humana ( 1Jo 2:16 – 17). Ora, quando o cristão crucifica a carne, a concupiscência também é exposta ao vitupério ( Gl 5:24 ). Os cristãos não estão entregues a concupiscências, visto que a concupiscência é pertinente aos corações incircuncisos ( Rm 1:24 ), ou seja, que não aceitaram a circuncisão de Cristo, que é o despojar da carne ( Cl 2:11 ).

As paixões desordenadas pertinentes a carne existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado que é gerado segundo Adão ( Rm 7:5 ). Quem morreu com Cristo crucificou o corpo do pecado e as suas paixões, o que leva a concluir que Paulo não mais conhecia a concupiscência pertinente a carne “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as tentações ou paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a carne pertencente ao pecado que produz tal fruto. A inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez as paixões, tentações e concupiscência da carne.

A natureza pecaminosa herdada de Adão, representada pela carne de Paulo que foi crucificada com Cristo, é que produziu a morte (separação e condenação), e para a morte (iniquidades). Em Cristo, Paulo crucificou a carne, e desta forma, as concupiscências que foram ‘conhecidas’ (saber) através da lei, também foram crucificadas ( Gl 5:24 ).

Através da lei, Paulo tomou consciência de que cobiçar era algo pertinente ao pecado. Porém, a carne surgiu pelo pecado de Adão e não depende da cobiça para estar sob condenação, ou seja, mesmo sem qualquer transgressão aparente é imputada a morte (condenação) à carne por ela ser gerada de Adão ( Sl 25:3 ). Não é a cobiça a causa do pecado (separação entre Deus e os homens), antes a causa do pecado é a desobediência de Adão.

Pela lei dada a Adão ( Gn 2:17 ) todos os homens gerados segundo a carne conheceram (uniram-se) o pecado ( Sl 51:5 ). Diferente de Adão, vieram ao mundo sob o domínio do pecado, e a lei mosaica somente evidenciou o pecado ( Rm 7:5 ), trazendo a lume a concupiscência, quando diz: “não cobiçarás”.

Analise estes dois versículos:

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei. Pois eu não conheceria a concupiscência se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 );

“Quando estávamos na carne, as paixões do pecado, realçadas pela lei, operavam em nossos membros a fim de darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ).

Não podemos perder de vista que o objetivo da argumentação do apóstolo dos gentios é levar os cristãos judeus à conclusão do verso 12: “Portanto a lei é santa, e o mandamento, justo e bom” ( Rm 7:12 ), para que não concluíssem que Paulo estava declarando que a lei é o mesmo que pecado. Paulo estava simplesmente demonstrando que a lei serviu de ‘aio’, para conduzir todos os homens a Cristo. Dentre estes homens estão inclusos principalmente os judeus, que pensavam que a lei conduzia o homem a Deus.

Ao escrever: ‘Mas eu não conheci o pecado senão pela lei…’ ( Rm 7:7 ), Paulo fez referência ao tempo em que ele estava morto em delitos e pecados ( Ef 2:5 ). Por causa da lei instituída no Éden ocorreu a queda do homem, e todos passaram a ‘conhecer’ (estar unido) ao pecado.

Se a lei perfeita instituída no Éden deu ocasião à queda de toda a humanidade, outra lei não traria liberdade, no caso, a lei de Moisés. Através da lei o homem somente soube (conhecer) que não devia cobiçar: “…porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 ).

A lei dada no Éden enfatizava o cuidado e a liberdade que há em Deus. A lei que Adão transgrediu e que trouxe o ‘conhecimento’ (união intima) do pecado enfatizava plena liberdade em Deus “…de todas as árvores comerás livremente…”. Ela continha o conhecimento necessário para que o homem obedecesse, o que demonstra o cuidado de Deus.

A lei no Éden foi dada para que o homem não atentar contra a sua própria natureza, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus. Quando foi destituído da glória de Deus estabeleceu-se a separação (pecado). Do mesmo modo que Deus não pode mentir, foi concedido, por semelhança, uma restrição ao homem, que poderia afetar a sua natureza.

 

 

‘Quem’ outrora viveu sem Lei?

“Que diremos pois? É a lei pecado? Nunca seja assim! Mas eu não conheci o pecado senão através da lei; porque também eu não tinha sido consciente da (minha) concupiscência, se a lei não dizia: “Não cobiçarás”. Mas o pecado, havendo tomado ocasião através do mandamento, operou em mim todo tipo de concupiscência; porquanto sem a lei o pecado estava morto. E eu, outrora, vivia sem lei; mas, havendo vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri. E o mandamento, o qual foi ordenado para vida, este por mim foi achado ser para morte. Porque o pecado, havendo tomado ocasião através do mandamento, me enganou, e me matou através dele (do mandamento) ( Rm 7:7 – 11) – LTT – Bíblia Literal do Texto Tradicional.

 

Para continuarmos é necessário fazermos algumas perguntas:

  1. Outrora ‘eu’ vivia sem lei – Em que período da vida de Paulo ele viveu sem lei? Paulo escreveu aos Filipenses que nasceu sob a lei ( Fl 3:5 ), o que demonstra que jamais ele viveu sem estar sob a égide da lei;
  2. ‘Vivia’ sem lei – Antes de ter um encontro com Cristo era possível o apóstolo estar vivo para Deus? Paulo mesmo disse que todos os homens (ele estava incluso neste rol), eram por natureza filhos da ira ( Ef 2:3 ), ou seja, outrora o apóstolo nunca esteve vivo, visto que estava morto em delitos e pecados, sendo por natureza filho da ira e da desobediência ( Ef 2:5 );
  3. Outrora – “Outrora” diz de um tempo remoto, passado. Quando o apóstolo Paulo utilizou a palavra ‘outrora’, ou ‘noutro tempo’, geralmente a utilizou para designar o tempo em que os homens (mortos) viviam sem Deus ( Ef 2:2 ). O contraste é claro: outrora filhos da ira e da desobediência, agora, uma nova condição em um novo tempo ( Cl 1:21 ).

Ora, como Paulo nunca viveu sem lei, segue-se que o ‘eu’ do qual ele faz referência diz de todos os homens que potencialmente ‘viveram’ em Adão. Como? Se todos os homens morreram em Adão ( Rm 5:12 ), segue-se que todos ‘viveram’ em Adão. Ou seja, o ‘eu’ que Paulo utiliza é uma figura que engloba todos os homens, judeus e gregos, sem distinção alguma, pois se todos morreram ‘em Adão’, todos viveram ‘em Adão’.

Diante do que a Bíblia afirma sobre a vida de Paulo e sobre a natureza humana, não é possível afirmar que Paulo utiliza o ‘eu’ para falar literalmente de si mesmo, visto que, Paulo nunca viveu sem lei. O ‘eu’ também não se refere a sua infância (inocência), visto que ele foi formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Não saber discernir entre o bem e o mal não exime o homem da condenação estabelecida em Adão.

Também sabemos que o pecado nunca esteve morto ou que tenha tornado à vida “…reviveu o pecado…”. A palavra ‘reviver’ aqui empregada não significa tornar a ter vida, antes a ter animo, força, como se lê de Jacó ( Gn 45:27 ).

Quando ocorreu o evento em que o pecado ‘reviveu’, e conseqüentemente o ‘eu’ morreu? A época que Paulo era criança? Quando adulto? De que modo este evento ocorreu se, segundo a lei, Paulo era fariseu?

Percebe-se que o ‘eu’ que Paulo utiliza nestes versos refere-se a Adão, onde toda a humanidade existiu potencialmente. A figura utilizada é a mesma empregada pelo escritor aos Hebreus ao dizer que Levi, que recebe dízimo, por meio de Abraão, pagou dízimo ( Hb 7:9 ; Hb 7:10).

Ora, se um pecou e todos morreram, segue-se que todos viviam em Adão. Porém, ao ser dado o mandamento “…mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerá…”, o pecado achou ocasião e todos morreram. O pecado refere-se à divisão que se estabelece entre Deus e as suas criaturas.

Como sabemos, Satanás é a primeira criatura a experimentar (o pecado) uma existência alienada da vida que há em Deus ( 1Jo 3:8 ). Antes da queda do homem o pecado já existia, porém, com a vinda do mandamento, o pecado reviveu, tomou força e alcançou todos os homens.

O mandamento ordenado no Jardim do Éden era para vida “…dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), visto que, nele continha plena liberdade e o alerta quanto às conseqüências de se comer da árvore do bem e do mal. O mandamento foi dado especificamente para preservar a vida do homem, porém, o homem achou (entendeu) que era para morte.

Por que tal entendimento? Por causa do pecado, visto que, pelo mandamento o pecado achou ocasião, enganou o homem, e através dele, o matou. Como?

Na determinação divina dada no Éden temos três aspectos:

  1. Plena Liberdade – na primeira parte do mandamento temos plena liberdade;
  2. Preservação da vida – na segunda parte um alerta solene;
  3. Condenação – na terceira parte do mandamento temos a pena imposta: separação da vida que há em Deus.

O elemento que diferencia a lei do mandamento é a pena. No mandamento temos a ordenança: “Não cobiçaras”, sem uma pena previamente imposta. Já na lei, além do mandamento “…dela não comerás…”, temos uma pena estipulada “…certamente morrerás”.

O mandamento de Deus foi dado ao homem visando proteger a vida que possuía e compartilhava de Deus. Porém, através da tentação no Éden, o homem esqueceu-se da liberdade que possuía “De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ), e aquiesceu a palavra do tentador que enfatizou a proibição “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do Jardim?” ( Gn 3:1 ).

Pelo mandamento santo, justo e bom ( Gn 2:16 ), o pecado achou ocasião e matou o homem por causa da força da lei “…certamente morrerás”, que é santa ( Rm 7:12 ). Desta exposição paulina advém a conclusão do versículo 12.

Observe que o pecado só passou a exercer domínio sobre o homem por causa da força existente na lei que estipulava: certamente morrerás.




O mistério em deixar pai e mãe

Do mesmo modo que é necessário ao homem deixar pai e mãe para unir-se a sua mulher, tornando-se uma só carne, Jesus anunciou que, para ter comunhão íntima (para conhecê-lo em verdade ( Jo 8:32 ), ser um com Ele e o Pai ( Jo 17:21 ), osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo) se faz necessário aos homens deixarem a geração segundo a carne, pois pai e mãe representam a semente corruptível, pela fé em Cristo, momento em que o homem é gerado de novo de uma semente incorruptível (água e Espírito), tornando-se um só corpo com Cristo.


“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” ( Gn 2:24 )

Este verso é utilizado em quase todas as cerimônias de casamento, porém, existe nele um mistério pouco explorado. Também existem nele princípios essenciais que regem as relações humanas após a união conjugal que são pouco conhecidos.

 

Adão e Eva

Muitas mulheres cristãs sentem repulsa quando ouvem a seguinte passagem bíblica: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” ( Ef 5:22- 24) .

Quantas vezes não ouvimos frases rancorosas quando algumas mulheres fazem referencia aos seus maridos? Será que a recomendação paulina não se encaixa no nosso tempo? O que ele recomendou com o verbo sujeitar?

A recomendação tem um público específico: as mulheres casadas.

A recomendação aplica-se a todas as mulheres casadas em todos os tempos, culturas e sociedades? Sim! A recomendação é para todas as mulheres.

Como as mulheres devem se sujeitar aos maridos? Devem se sujeitar aos maridos como se sujeitam ao Senhor, ou seja, voluntariamente. A sujeição não é algo imposto, antes a mulher deve, voluntariamente, sujeitar-se porque o marido é a cabeça da mulher.

O que significa o homem ser a cabeça da mulher? Significa que o homem está em posição de autoridade em relação à mulher. Para uma melhor compreensão, tem-se que visualizar que o papel da mulher é semelhante ao papel da igreja “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” ( Ef 5:24 ).

Como Cristo é o salvador do corpo, isto significa que Cristo é a cabeça da igreja, da mesma forma deve ser o relacionamento conjugal: o homem é a cabeça da mulher, sendo que ela deve ser sujeita em tudo ao marido.

Quando voluntariamente a mulher se sujeita ao marido, ao mesmo tempo prestigia o seu casamento, visto que ambos são um só corpo. Quando se sujeita ao marido, a mulher demonstra que a cabeça tem autonomia para conduzir o casamento. Quando a mulher voluntariamente se sujeita ao marido, os filhos aprendem o que significa autoridade sem demasiada frustrações, e não terão problemas quando chegar o momento de conviverem em sociedade.

Há muitas mulheres que amam os seus maridos, porém, não prestigiam a cabeça do lar. Esquece que, quando não se submete ao marido, ao mesmo tempo desonra a si mesma, principalmente quando a insurreição se dá com palavras depreciativas.

Mas, a recomendação paulina não tem em vista somente as esposas, como se lê: “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para santifica-la, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja; Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:25 -30 ).

O apóstolo ordena às mulheres que se sujeitem aos maridos, e aos maridos ordena que amem as suas esposas. Os maridos devem amar as suas esposas do mesmo modo que Cristo amou a igreja. A extensão do amor que o marido deve devotar à sua mulher é entregando-se por ela.

O exercício do cuidado para com a esposa é sacrificial, e o marido deve ter a consciência de que tal cuidado é para que ela se apresente diante dele agradável, ou seja, deve ama-la como a seu próprio corpo.

Quem ama a esposa ama a si mesmo, cuida de si mesmo e, segundo o apóstolo Paulo, seria sem sentido alguém odiar o seu próprio corpo.

Na união conjugal a mulher deve submeter-se ao marido voluntariamente porque ele cuida dela, ou seja, o cuidado do marido é o que o investe de autoridade. O conceito bíblico de autoridade é diferente do conceito que há no mundo de que, quem a exerce deve exigir cuidados em vista da posição que ocupa: o cuidado é característica da autoridade, ou melhor, o cuidado é a única expressão de autoridade.

Cristo é a cabeça da igreja porque exerce cuidado por ela. A igreja deve submeter-se a Ele porque todas as suas ações são motivadas pelo amor e cuidado para com o seu próprio corpo.

A submissão da mulher e o amor do marido deve ser a tônica de um relacionamento conjugal. Quando o casal chega a este entendimento e expressa voluntariamente, um ao outro o que é ordenado, há paz e harmonia sempre.

 

Cristo e a igreja

“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” ( Gn 2:24 )

Quando se ouve o verso acima, geralmente é considerado somente da perspectiva humana, nas relações que decorrem da vida conjugal, porém, o apóstolo Paulo, ao citar este verso aos cristãos em Éfeso, alerta que o ato do homem deixar o seu pai e a sua mãe e apegar-se à sua mulher, tipifica um grande mistério relacionado a Cristo e a igreja.

Após anunciar que há um mistério nesta passagem, o apóstolo Paulo retoma a ideia inicial concluindo que o homem deve imitar a Cristo, amando sua esposa, e a mulher deve imitar a igreja de Cristo, reverenciando o marido: “assim também vós…” ( Ef 5:33 ). Este é o modelo ideal de comportamento dos cônjuges. Ninguém está dizendo que seja fácil, mas é o comportamento certo para uma união feliz.

Que mistério pode existir relacionado a Cristo e a igreja, no fato do homem deixar pai e mãe?

A resposta depreende-se dos seguintes versículos: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ); “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” ( Mt 10:37 ).

O mistério, como o apóstolo Paulo disse, é revelado através do evangelho ( Ef 3:4 ).

O mistério estava no fato de:

  1. Assim como Deus concedeu ao primeiro Adão uma mulher, semelhantemente Deus concedeu ao último Adão, que é Cristo, a igreja ( 1Co 15:45 );
  2. Assim como Eva foi tirada da carne de Adão, semelhantemente a Igreja foi formada da carne de Cristo ( Gn 2:21 ; 1Co 11:24 );
  3. Assim como Deus fez cair um profundo sono sobre Adão para fazer-lhe uma adjuntora, semelhantemente Cristo desceu à sepultura, pois todos que ressurgem com Ele fazem parte da igreja ( Gn 2:21 ; );
  4. Assim como Adão disse: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne” ( Gn 2:23 ), semelhantemente a igreja é osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:30 );
  5. Assim como Deus disse: “Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne ( Gn 2:24 ; Mt 19:5 ; Mc 10:9 ), semelhantemente Jesus instituiu que: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ); “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” ( Mt 10:37 );
  6. Assim como Adão é terreno e a sua imagem é passada a todos os seus descendentes, semelhantemente, Cristo, o último Adão, é celestial e concede a sua imagem aos que d’Ele são gerados ( 1Co 15:46 -47), o que os tornam membros do seu corpo.

 

É por isso que, quando o apóstolo Paulo cita o verso 24, do capítulo 2 do livro de Gênesis: “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne” ( Ef 5:31 ), ele destaca haver um grande mistério.

Deixar pai e mãe para contrair matrimônio não implica em abandoná-los. Humanamente falando, no matrimônio ocorre a junção de duas pessoas em um só corpo, porém, após a união, ambos, marido e mulher devem deixar o domínio dos pais, pois eram os pais que exerciam cuidado sobre ambos.

Agora, neste novo corpo (união), a cabeça (marido) deve agir desvinculada do cuidado dos seus pais e, o corpo (mulher) deve agir em consonância com o seu novo papel social. Isto não significa que o cristão deva desprezar seus pais segundo a carne, antes significa que deve unir-se um ao outro perfazendo uma nova família com direção e estilo de vida singular.

Do mesmo modo que é necessário ao homem deixar pai e mãe para unir-se a sua mulher, tornando-se uma só carne, Jesus anunciou que, para ter comunhão íntima (para conhecê-lo em verdade ( Jo 8:32 ), ser um com Ele e o Pai ( Jo 17:21 ), osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo) se faz necessário aos homens deixarem a geração segundo a carne, pois pai e mãe representam a semente corruptível, pela fé em Cristo, momento em que o homem é gerado de novo de uma semente incorruptível (água e Espírito), tornando-se um só corpo com Cristo “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:5 -7).

 

A criação do homem e da mulher

Quando Adão e Eva foram criados, ambos estavam nus, e ambos não se envergonhavam ( Gn 2:25 ), semelhantemente Cristo não se envergonha de chamar os seus membros de irmãos ( Hb 2:11 e 11:16 ), e a igreja entra no santo dos santos com ousadia ( Ef 3:12 ; Hb 4:16 ).

O apóstolo Paulo demonstrou que Adão era figura de Cristo ( Rm 5:14 ), ou seja, quando Adão foi criado, foi a expressa imagem do Deus invisível que o criou “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” ( Gn 1:27 ; Hb 1:3 ; Cl 1:15 ). Aquele que havia de vir (Cristo) e, que criou todas as coisas ( Jo 1:3 ; Cl 1:16 ; Ef 3:9 ), foi quem teofanicamente modelou o homem do pó da terra com as suas mãos e soprou o fôlego de vida nas narinas de sua imagem terrena, tornado-o alma vivente.

Qual foi a imagem e semelhança que Cristo deu a Adão? A imagem que Cristo adquiriu após ressurgir dentre os mortos como primogênito ( Sl 17:15 ; Cl 1:18 ), ou a imagem que ele assumiria ao ser introduzido no mundo como unigênito do Pai? ( Jo 1:14 ; 1Jo 4:9 ).

Ora, a semelhança que a expressa imagem do Deus invisível concedeu a Adão no Éden foi a que Ele utilizou ao ser introduzido no mundo na condição de unigênito do Pai. Ele concedeu especificamente a imagem e semelhança de unigênito a Adão, visto que, ao ser introduzido no mundo necessitava ser feito menor que os anjos por causa da paixão da morte ( Hb 2:9 ), para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote ( Hb 2:17 ), participando das mesmas coisas: carne e sangue ( Hb 2:14 ).

O primeiro Adão não alcançou a imagem e semelhança do Altíssimo, visto que, tal imagem e semelhança só é concedida àqueles que se conformam com Cristo na sua morte e ressurgem pelo poder de Deus segundo a imagem daquele que os criou ( Cl 3:10 ), até porque, o próprio Cristo só alcançou tal semelhança ao ressurgir dentre os mortos, como atesta o versículo: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ).

Fazendo uma releitura do verso “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” ( Gn 1:27 ) entende-se que: criou Deus o homem à sua imagem. Que imagem? A imagem e semelhança que o unigênito seria introduzido no mundo, e não à imagem e semelhança que Cristo, na condição de cabeça da igreja, adquiriu após ressurgir dentre os mortos “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ). E como Deus criou o homem? A sua expressa imagem, que a tudo criou, também se encarregou de criar o homem: homem e mulher os criou.

Após Cristo criar todas as coisas ( Hb 1:10 -12 ; Sl 102:25 ), com as suas próprias mãos, fez Adão do pó da terra e soprou-lhe nas suas narinas o fôlego da vida ( Gn 2:7 ). Em seguida, Cristo plantou um jardim no Éden, fazendo brotar da terra toda espécie de árvores agradáveis ( Gn 2:9 ), inclusive a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal, que estavam no meio do jardim juntamente e, após, colocou o homem como lavrador e guarda do jardim ( Gn 2:15 ).

Para criar a mulher, Cristo fez cair sobre Adão um profundo sono e retirou uma das costelas de Adão e fechou a carne no seu lugar ( Gn 2:21 ).

Após ter fechado a carne de Adão, Jesus tomou em suas mãos a costela que foi retirada de Adão e formou a mulher ( Gn 2:22 ), e trouxe-a para o homem.

Depreende-se da leitura do Gênesis que as relações entre Cristo e o casal no jardim era perene, visto que, na viração do dia, ao ouvirem a voz de Deus ( Hb 1:8 -9 ; Sl 45:6 -7), se esconderam. Seria sem sentido o casal se esconder da divindade em sua majestade e glória, porém, como viam Deus teofanicamente, como sendo igual a eles, procuram se esconder ( Gn 3:8 ).

 

A Desobediência

Quando Adão ouviu a ordem divina: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que comerdes, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17), ouviu-a de alguém que era seu igual.

Ele não ouviu uma voz etérea que ecoou pelo jardim, dizendo: “Adãããão, Adão!”, como se tornou consenso. Não! Ele ouviu a ordem teofanicamente da boca do próprio Verbo de Deus que havia de ser encarnado na plenitude dos tempos. Ele desobedeceu a Cristo, a palavra que concede vida ( Dt 8:3 ; Jo 6:50 -51 ).

Naquele instante ergueu-se uma barreira de separação entre Deus e os homens. A ofensa de Adão trouxe de imediato o juízo e a condenação ( Rm 5:18 ). E qual foi a pena? A morte, ou seja, a barreira de separação.

Por que uma barreira de separação foi erguida? Porque Deus é vida e, a nova condição do homem destituído da vida que há em Deus, é morte. Deus é a verdade e, o homem naquele instante passou a ser mentira. Deus é luz, e naquele instante o homem passou a ser trevas.

 

O Descendente da mulher

Deus repreende a serpente, a mulher e o homem ( Gn 3:14 -19 ), e faz um promessa: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e o seu descendente; este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” ( Gn 3:15 ). Naquele instante foi instituída a humanidade de Cristo, o Verbo que se fez carne e passou a habitar entre os homens.

A promessa do descendente foi novamente anunciada ao gentio Abraão, que creu e foi justificado “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ). Por causa da promessa do descendente, Deus escolheu um povo para tal propósito, segundo a linhagem do patriarca ( Rm 9:5 ).

Na plenitude dos tempos, gerado pelo Espírito de Deus no ventre de mulher virgem, o Verbo se fez carne e Deus habitou em meio aos homens. O apóstolo João assim descreveu a vinda do Messias: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” ( Jo 1:1 -5 ).

A nação que foi instituída para preservar a linhagem e trazer Cristo ao mundo, rejeitou o Descendente prometido ao pai Abraão. Ele foi morto e ao terceiro dia ressurgiu pelo poder de Deus. Através da oferta do seu corpo foi desfeita a barreira de inimizade e separação que havia entre Deus e os homens.

Todos os salvos sob a Antiga aliança foram salvos, assim como o crente Abraão, pela fé no Descendente que havia de vir. Embora não compreendessem o mistério que envolvia a morte do Cristo e a glória que havia de segui-lo, foi revelado a eles que não profetizavam para si mesmos “Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 ).

Eles profetizavam acerca de uma esperança celestial, enquanto foi reservado a eles uma esperança terrena, visto que foi estabelecido por um decreto divino que o Messias regeria todas as nações da terra ( Sl 2:7 -8) e, para este mister, foi determinado que Cristo há de se assentar no trono de Davi ( Rm 1:3 ; Zc 12:8 ; Mt 12:23 ).

 

A noiva do Cordeiro

Do mesmo modo que a mulher de Adão foi tirada da sua carne e dos seus ossos ( Gn 2:22 -23 ), a noiva do Cordeiro foi tirada da carne e dos ossos de Cristo ( Ef 5:30 ). No que isto implica?

Ora, quando Deus tirou a mulher da carne e dos ossos de Adão, deu-se o início a geração terrena ( 1Co 15:47 ), de modo semelhante, quando Cristo foi sepultado e ressurgiu, a igreja foi criada a partir da sua carne e dos seus ossos, momento em que se deu início a uma nova geração de homens espirituais.

Quando Adão conheceu a sua mulher, trouxe a existência homens carnais e terrenos semelhantes a ele, e quando Cristo conheceu a igreja, trouxe a existência homens espirituais e celestiais semelhantes a Ele ( 1Co 15:47 -49).

Da geração de Adão, alguns homens foram escolhidos para fazerem parte da linhagem de Cristo e, um povo foi separado para preservar tal linhagem e conferir ao Descendente o direito legítimo de assentar-se sobre o trono de seu pai Davi. Ora, o povo de Israel foi escolhido para este propósito estabelecido em Cristo: fazê-lo rei “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” ( Sl 89:27 ; Is 52:13 -15).

Com relação a este propósito terreno, muitos em Israel foram eleitos, porém, não foram salvos, pois a salvação só é possível através da fé no Descendente, e não através da carne de Abraão.

Mas, como a igreja foi tirada da carne e dos ossos de Cristo, deu-se início a uma nova geração, a geração eleita segundo o propósito celestial ( 1Pe 2:9 ). Todos que são gerados de novo, segundo a geração eleita, foram predestinados a serem filhos de Deus. Todos que foram gerados de novo, foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus.

Diferente da eleição de Israel, todos que fazem parte do corpo de Cristo, necessariamente, primeiro foram salvos pela fé em Cristo “… do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ). Quando são salvos pelo poder de Deus contido no evangelho, os crentes são chamados segundo o propósito estabelecido em Cristo, que é Cristo preeminente em todas as coisas, posição que ele assumiu ao ser a cabeça da igreja.

Ou seja, através da igreja, que foi tirada da carne e ossos de Jesus, foi inaugurada uma nova geração de homens espirituais, semelhantes Àquele que os criou ( 1Jo 3:2 ; Cl 3:10 ).

 

Adão e Cristo – tipo e antítipo

Além de Adão ser a expressa figura da imagem terrena de Cristo ( Rm 5:14 ), ele é o primeiro tipo de Cristo, pois Adão é cabeça da geração humana e Cristo a cabeça da geração espiritual.

Diferentes dos demais tipos do Antigo Testamento, que apresentam semelhanças e comparações com o antítipo, entre Adão e Cristo têm semelhanças e contrastes que remontam um paralelismo sem igual.

Além das semelhanças que já apontamos entre Adão e sua mulher ‘versus’ Cristo e a igreja, temos outras figuras que apontam para Adão e Cristo, respectivamente:

  • Adão é a porta larga e Cristo é a porta estreita – a porta é figura do nascimento, sendo que Adão é a porta larga porque todos os homens quando vêm ao mundo tem que entrar por ele ( 1Co 15:46 ). Após o homem nascer segundo a carne de Adão, necessário é nascer de novo, da água e do Espírito, ou seja, da palavra de Deus que limpa e dá nova vida ( Jo 3:5 );
  • Adão é o caminho largo e Cristo é o caminho estreito – através destas duas figuras fica claro que não é o homem que vai à perdição ou à salvação, antes, nos dois casos os homens são conduzidos, ou seja, o caminho tem destino, não o viajante – através da ofensa de Adão os homens são conduzidos à perdição e através da obediência de Cristo os homens são conduzidos à salvação, como se lê: “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7;13 -14);
  • Adão é árvore má e Cristo é a árvore boa – Os homens são comparáveis a árvores, sendo que as árvores más têm origem na semente de Adão e as árvores boas têm origem na semente incorruptível, que é Cristo “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” ( Mt 12:33 );
  • Em Adão são feitos os vasos para desonra e em Cristo os vasos para honra ( Rm 9:22 -24);
  • Em Adão são gerados os homens carnais e em Cristo os homens espirituais ( 1C0 15:46 -47)
  • Adão é a semente corruptível e Cristo a semente incorruptível ( 1Pe 1:23 );
  • Adão gera filhos servos do pecado e Cristo gera filhos servos da justiça ( Rm 6:18 );
  • A geração de Adão é planta que o Pai não plantou, e a geração de Cristo são árvores de justiça ( Mt 15:13 ; Is 60:21 ; Is 61:3 ), etc.

Adão foi descrito por Miqueias como sendo o homem piedoso que pereceu ( Mq 7:2 ). Enquanto Adão, o homem piedoso, foi feito alma vivente, Cristo, o último Adão, foi feito espírito vivificante ( 1Co 15:45 ). A morte veio por Adão, e a ressurreição por Cristo. Todos os homens morreram em Adão, e todos são vivificados em Cristo ( 1Co 15:22 ). Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer, e Cristo é a porta estreita, por onde entraram todos os que nascem de novo ( Mt 7:13 ).

Quando vêm ao mundo, os homens entram pela porta larga (Adão), ou seja, desde a madre o homem é ímpio, desviado (alienado) de Deus “Desviam-se os ímpios desde a madre…” ( Sl 58:3 ). Após ser formado em iniquidade e concebido em pecado, trilham um caminho que o conduz à perdição, ou seja, andam errado desde que nascem “Andam errados desde que nascem, proferindo mentiras” ( Sl 58:3 ; Rm 3:4 ). Esta é a condição de todos os homens gerados de Adão.

Diferente dos descendentes de Adão, que são alienados desde a madre, Cristo foi gerado de Deus através da ação do Espírito Santo no ventre de Maria “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel” ( Is 7:14). Caso fosse gerado de Maria e José, Cristo nasceria sob a mesma condenação que pesa sobre a humanidade: alienado de Deus. Porém, Cristo foi ‘lançado’ da madre de modo diferenciado “Sobre Ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” ( Sl 22:10 ; Mt 1:18 ).

Ao introduzir o Primogênito de toda a criação no mundo, Deus agiu de modo miraculoso sobre o ventre de Maria ( Mt 1:20 ). Sobre a terra não havia um justo se quer, porém, por meio do Verbo de Deus encarnado, muitos justos são gerados para a glória de Deus ( Mt 1:21 ).

Deste modo, para atender a ordem de Cristo, que é aborrecer pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida, necessário se faz aborrecer a sua geração natural herdada de Adão. O que isto significa? Que o homem precisa morrer para a sua antiga condição. Precisa morrer para o pecado que mantém cativa a geração natural dos homens “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ; Mt 10:37 ).

E como se aborrece pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida? Tomando sobre si a maldição da cruz, pois é maldito qualquer que for pendurado no madeiro. Deste modo, o homem torna-se participante das aflições de Cristo, ou seja, toma a sua própria cruz e segue após Cristo “E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:27 ); “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” ( MT 10:38 -39).

Cristo se fez maldito em lugar dos homens ( Gl 3:13 ), e qualquer que toma a sua própria cruz e segue após ele, aborrece pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ); “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ).

O que é pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a própria vida? Diz da geração segundo a carne de Adão. O homem deve abandonar sua própria vida renunciando sua descendência que teve origem na semente corruptível de Adão, Eva.

Deixar pai e mãe é fazer parte de uma nova família. Deixar pai e mãe é desligar-se do pecado para uni-se a Cristo. Pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida representa a geração de Adão que é sujeita ao pecado, mas através da cruz de Cristo o homem é sepultado e ressurge uma nova criatura e passa a pertencer a uma nova geração para a glória de Deus Pai “Que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no século futuro a vida eterna” ( Mc 10:30 ).




O pecado jaz à porta

Devido à estrutura gramatical de Gênesis 4, verso 7, este verso é considerado pelos tradutores bíblicos como sendo o mais difícil de traduzir do Antigo Testamento, e conseqüentemente, esta dificuldade influencia os interpretes na sua atribuição. Porém, como o verso transmite uma ideia, mesmo que nebulosa, analisemos isoladamente todas as proposições nele contido à luz das escrituras, para compreender a recomendação divina que foi dada a Caim.


“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )

Devido à estrutura gramatical de Gênesis 4, verso 7, ele é considerado pelos tradutores bíblicos como sendo o mais difícil de traduzir do Antigo Testamento, e conseqüentemente, esta dificuldade influencia os interpretes na sua atribuição.

Porém, como o verso transmite uma ideia, mesmo que nebulosa, analisemos isoladamente todas as proposições nele contido à luz das escrituras, para compreender a recomendação divina que foi dada a Caim.

 

Se bem fizeres, não é certo que serás aceito?

Qual a resposta para esta pergunta?

Se Caim tivesse ‘feito’ o bem, seria aceito? Ele fez o mal e por isso foi rejeitado?

O salmista Davi deixou claro que todos os homens, de uma única vez em um mesmo evento (juntamente), se desviaram e se fizeram imundos. Como conseqüência de terem se tornados imundos, não há quem faça o bem, nem se quer um só homem “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um” ( Sl 14:3 ).

Ora, se não há se quer um homem que faça o bem, isto implica que Caim também estava impedido de realizá-lo. A Bíblia demonstra que Adão desviou-se, tornando-se imundo, e com ele todos os seus descendentes também se desviaram e destituídos estão da glória de Deus. Ninguém pode realizar o bem!

Por que Deus exortou Caim a ‘fazer’ o ‘bem’, se não há quem faça? A pergunta ‘Se bem fizeres, não é certo que será aceito?’, induz o leitor a concluir que fazer o bem era possível, logo, haveria uma aparente contradição nas escrituras. Quando se entende que Caim tinha condição de realizar o bem, a exortação ‘Se bem fizeres’ é contraditória “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ).

Deus é claro: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ). A mesma impossibilidade do etíope, ou que qualquer homem possui com relação a mudar a cor da sua pele, é a mesma com relação a fazer o bem. Da mesma forma que o leopardo não pode desfazer-se das suas manchas, o homem não pode realizar bem.

Como Deus apresentaria a Caim a oportunidade de ser aceito fazendo o bem, se fazer o bem era impossível? Não encontramos nas escrituras apoio para o argumento de que Deus aceita os homens através do realizar o ‘bem’!

A Bíblia dá testemunho que o homem somente é aceito pela fé, sem as obras Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala” ( Hb 11:4 ), pois “… sem fé é impossível agradar-lhe” ( Hb 11:6 ).

Com base nestas premissas, é certo que Deus não estava incentivando Caim a fazer o bem para que fosse aceito, o que contraria o princípio da justificação pela fé somente.

 

E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…

Desconsiderando o livro de Jó, esta é a primeira vez que a palavra traduzida por pecado (taj’x) aparece nas Escrituras.

A proposição acima é condicional, ou seja, a frase demonstra que se Caim não fizesse o bem (o que era impossível fazer quando analisado à luz das escrituras), o pecado estaria em seu lugar: à porta.

Como entendemos que é impossível ao homem fazer o bem, segue-se que a proposição condicional ‘E se não fizeres bem’, não corresponde à ideia bíblica. Mesmo sendo possível aos homens darem boas dádivas aos seus semelhantes, são maus diante de Deus “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos …” ( Lc 11:13 ).

Fazer boas ações não torna o homem bom diante de Deus. Boas dádivas (boas ações) aos semelhantes (vossos filhos) não torna o homem bom (vós, sendo maus) “Porque cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos” ( Lc 6:44 ).

Apesar de ser impossível a Caim fazer o bem, segue-se a asserção: “… o pecado jaz à porta…”. O que Deus disse?

  • Que o pecado estava (jaz) morto;
  • Que Caim estava (jaz) para pecar, ou;
  • Que o pecado exerce domínio?

Que o pecado estava morto (jazia) é certo que não estava, pois o apóstolo Paulo demonstra que ele reinou desde Adão ( Rm 5:14 ).

Que Caim estava prestes (jaz) a pecar, também não é uma ideia aceitável, pois Caim foi concebido em pecado tal qual todos os homens ( Sl 51:5 ). Quem pecou e estabeleceu a parede de separação entre Deus e os homens foi Adão, e não Caim. O apóstolo Paulo demonstra que não há como os descendentes de Adão pecarem à semelhança da sua transgressão ( Rm 5:14 ).

Resta a terceira opção: que o pecado exercia domínio sobre Caim. Através do verso seguinte: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ), somos informados que:

  • A morte reinou desde Adão, e isto implica que o pecado também reinou sobre todos os homens desde Adão “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 );
  • Adão pecou por desobedecer a uma determinação específica, e Caim pecou porque a condenação de Adão passou a todos os seus descendentes, ou seja, Caim foi gerado em pecado ( 1Co 15:22 ).

Lembrando que ‘à porta’ diz do lugar em que se exercia na antiguidade o domínio político ou social de uma cidade, como se lê em Jó: “Quando eu saía para a porta da cidade, e na rua fazia preparar a minha cadeira. Os moços me viam, e se escondiam, e até os idosos se levantavam e se punham em pé; Os príncipes continham as suas palavras, e punham a mão sobre a sua boca” ( Jó 29:7 ). Ou seja, estar à porta diz do lugar onde se dá o exercício do poder, do domínio, e não da iminência de algo que está para acontecer.

Quando lemos nos Salmos: ‘levantai, ó portas, as vossas cabeças’, o salmista está convocando aqueles que estão assentados exercendo domínio a se postarem em pé para recepcionar reverentemente o rei da glória “Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória” ( Sl 24:9 ).

Há vasto repertório bíblico demonstrando que às portas refere-se ao local que se exerce domínio, ou ao domínio:

  • “Quando alguma coisa te for difícil demais em juízo, entre sangue e sangue, entre demanda e demanda, entre ferida e ferida, em questões de litígios nas tuas portas, então te levantarás, e subirás ao lugar que escolher o SENHOR teu Deus” ( Dt 17:8 );
  • “E será que, se te responder em paz, e te abrir as portas, todo o povo que se achar nela te será tributário e te servirá” ( Dt 20:11 );
  • “Donde se ouve o estrondo dos flecheiros, entre os lugares onde se tiram águas, ali falai das justiças do SENHOR, das justiças que fez às suas aldeias em Israel; então o povo do SENHOR descia às portas ( Jz 5:11 );
  • “Tem misericórdia de mim, SENHOR, olha para a minha aflição, causada por aqueles que me odeiam; tu que me levantas das portas da morte” ( Sl 9:13 );
  • “Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra” ( Pv 31:23 ).

Diante do exposto, Gênesis 4, verso 7 seria melhor traduzido trocando-se ‘jaz’ por ‘estar, permanecer’, ou seja, ‘o pecado está à porta’, significando que o pecado está exercendo o seu domínio sobre os homens.

A interpretação de ‘o pecado jaz à porta’ refere-se ao domínio que o pecado exerce sobre os homens alienados de Deus “A sabedoria é demasiadamente alta para o tolo, na porta não abrirá a sua boca” ( Pr 24:7 ). Porta é o mesmo que local de domínio, onde o exercício do poder político ou religioso se dá.

 

… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar

A quem pertence o desejo: pertence a Caim ou ao pecado? É possível ao homem caído dominar o pecado?

É confuso, pois quando Adão pecou, o pecado passou a exercer domínio sobre todos os homens, quer eles queiram ou não. A sujeição ao pecado é condição que se impôs ao homem quando foi gerado, independentemente de suas ações.

O homem piedoso Adão foi julgado e condenado à morte, depois disso não houve mais entre os homens ao menos um que fosse justo “Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com a rede” ( Mq 7:2 ).

Observe a tradução da Bíblia na linguagem de hoje: “Por que você está com raiva? Por que anda carrancudo? Se você tivesse feito o que é certo, estaria sorrindo; mas você agiu mal, e por isso o pecado está na porta, à sua espera. Ele quer dominá-lo, mas você precisa vencê-lo” Bíblia na Linguagem de Hoje.

Surgem algumas indagações:

  • Apesar de já exercer domínio sobre Caim por causa da queda de Adão, Deus procura alertar que o pecado ainda queria dominá-lo?
  • O pecado estava à espreita de Caim esperando que ele matasse o seu irmão para então dominá-lo?
  • Deus dá uma ordem impossível ao homem realizar: vencer o pecado?

Quantas indagações! Porém, já temos os elementos necessários para analisar o versículo.

 

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )

Considerando:

  • Que não há quem faça o bem, nem se quer um;
  • Que todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos;
  • Que a justiça é pela fé (evangelho, promessa);
  • Que os homens são maus, apesar de saberem dar boas dádivas;
  • Que o pecado exerce domínio sobre a humanidade;
  • Que o homem não domina o pecado;
  • Que ‘à porta’ diz de exercer domínio, senhorio;
  • Que fazer boas ações não faz o homem agradável a Deus, e;
  • Que fazer o mal não é o que afasta o homem de Deus, uma vez que o homem já está distante de Deus em conseqüência da desobediência de Adão.

Faz-se necessário uma releitura do verso.

Lembrando que estudiosos da língua hebraica apontam a possibilidade de se desconsiderar a famosa vocalização massorética, o que é o caso da Septuaginta, e teríamos a seguinte tradução: “Porventura não pecarias, se prudentemente o tivesses trazido, mas não o tivesses corretamente repartido? Calma ; para ti será sua submissão, e tu o dominarás”.

Porém, esta versão também não acrescenta nenhum elemento significativo à compreensão.

 

O pecado jaz à porta

Por Adão ter pecado, todos os seus descendentes pecaram. Quando o apóstolo Paulo diz que ‘a morte veio por um homem’ e que ‘todos morreram em Adão’ ( 1Co 15:21 -22), ele demonstra que o pecado entrou no mundo por Adão, e passou a todos os homens, assim também a condenação (morte) passou a todos.

Ou seja, se todos estão debaixo da mesma condenação (morte), isto significa que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus ( Rm 3:23 ).

Nenhum dos descendentes de Adão tem condição de pecar à semelhança da transgressão de d’Ele.

  • Adão pecou quando era santo, justo e bom;
  • Não era como Deus, conhecedor do bem e do mal;
  • Desobedeceu a uma ordem específica;
  • Seus descendentes não são justos, santos e bons, mas são como Deus, no quesito conhecedores do bem e do mal ( Gn 1:31 e Gn 3:22 );
  • A transgressão de Adão sujeitou-o ao pecado e a morte, e seus descendentes são gerados todos em pecado: sujeitos ao pecado e a morte.

Com base nestas premissas é possível concluir que a asserção ‘o pecado está à porta’ é um aviso solene acerca da atual condição de Caim: o pecado já exercia pleno domínio sobre ele.

A proposição: ‘o pecado está à porta’, ou ‘O pecado exerce domínio’ não contradiz nenhum princípio bíblico, antes confirma a ideia de que o pecado é senhor dos homens quando alienados de Deus, portanto, a proposição ‘o pecado jaz á porta’ é plenamente correta e aceita.

Ora, como temos uma sentença declarativa ‘o pecado está à porta’, a frase que a antecede (Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti?), deve conduzir o leitor à ideia de que ‘o pecado exerce domínio’. Qualquer construção que conduz o leitor a uma conclusão que desconstrói a ideia de que ‘o pecado exerce domínio’, não deve ser aceita como bíblica.

Que ideia a construção frasal: “Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti?” contém? A pergunta sugere que Deus estivesse dando a entender que Caim seria aceito ‘se’ fizesse o bem. Porém, a Bíblia demonstra que, após a queda, o homem ficou impossibilitado de fazer o bem, pois é impossível que a árvore má produza fruto bom.

O evento da oferta voluntária apresentada por Caim e Abel continha a lição necessária para compreenderem como seriam aceitáveis a Deus. Deveriam aprender que, o que torna o homem agradável a Deus é aproximar-se d’Ele crendo que será galardoado, sem confiar que a oferta é o que torna o homem aceito “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Abel ofereceu melhor sacrifício pela fé, e não por escolher o melhor animal do campo. A oferta voluntária podia ser tanto o melhor do campo quanto o melhor dos animais, pois tudo que provem da terra pertence ao Senhor “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ; Is 1:1 ).

O que tornou a oferta de Caim e Abel diferente foi como os ofertantes se aproximaram de Deus: Caim confiou que a sua oferta haveria de agradar a Deus, pois era o melhor fruto do seu trabalho, e Abel ofereceu o cordeiro pela fé, ou seja, crendo que Deus haveria de aceitá-lo por ser misericordioso ( Hb 11:4 ).

Observe a reclamação de Deus para com o seu povo: “Se eu tivesse fome, não te diria, pois meu é o mundo e tudo o que nele há. Como carne de touros, ou bebo sangue de bodes?” ( Sl 50:12 -13). Crer que Deus retribui com salvação àqueles que o buscam é o sacrifício que Ele aceita ( Sl 51:17 ; Is 57:15 ).

Se a confiança em Deus é o que torna o homem agradável a Ele, como é possível Ele exigir que Caim fizesse o bem para ser aceito? Se o pecado está à porta, ou seja, exercendo domínio sobre os pecadores, como é possível fazer o bem? É um contra senso Deus exigir algo que não satisfaz a Sua justiça.

Observe a parte inicial do verso que sugere fazer o bem para que o homem possa ser aceito, na imagem abaixo:

imagem de um texto em hebraico
Gênesis 4:7

As palavras que constroem a ideia original estão todas ali, o problema está em organizá-las de modo a evidenciar a ideia correta. A vocalização massorética auxilia a leitura das palavras, mas, não auxilia na alocação correta das palavras de modo a evidenciar a ideia correta.

Com apóio do Novo Testamento, compreendemos que não faz parte do evangelho de Cristo a ideia de que fazer o bem torna o homem agradável a Deus. Aceitar que Deus instruiu Caim a fazer o bem para que fosse aceito fere alguns atributos de Deus, como a sua santidade, imutabilidade e justiça.

É contraditório admitir que no Gênesis Deus instrua o homem a fazer o bem para que fosse aceito por Ele, e em Salmos profetizar por intermédio de Davi que é impossível alguém dar a Deus o resgate por sua alma “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre)” ( Sl 49:7 -8).

Aceitar que há uma interrogação neste verso sugestionando ao homem fazer o bem para ser aceito é admitir que Deus contraria a Sua própria palavra, o que não coaduna com a obra de Cristo, pois se fazer o bem resgata o homem, por qual motivo Deus enviou seu Filho para resgatar o homem?

A tradução para este verso não pode sugestionar que:

  • Fazer o bem é o que torna o homem agradável a Deus, ou que;
  • Fazer o mal é o que torna o homem alienado de Deus.

O verso a seguir: “Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…”, deveria ser lido assim:

“Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti, e se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…”, para depreendermos a seguinte ideia: “Se bem fizeres, e se não fizeres bem, não haverá aceitação para ti, (pois) o pecado jaz à porta…”.

A ênfase do enunciado está em ‘não haverá aceitação para ti’ em decorrência de ‘o pecado estar exercendo domínio’.

Deus alertou Caim que, se ele fizesse boas ações, ou não, continuaria não sendo aceito, isto por causa do pecado à porta. Caim ofereceu uma oferta ao Senhor, o que entendemos como algo promissor (bom), entretanto não foi aceito, por causa da sua sujeição ao pecado.

Caim não seria aceito se fizesse o mal, e nem se fizesse boas ações, porque o pecado estava exercendo o seu domínio. Isto leva a concluir que, o bem e o mal não tornam o homem aceitável diante de Deus, como foi demonstrado antes: o homem tornou-se desagradável por causa da desobediência de Adão.

O conhecimento do bem e do mal é uma das conseqüências da desobediência, que além de alienar o homem de Deus, também tornou o homem como Deus. O conhecimento tornou o homem como Deus, mas, continuou desagradável a Deus ( Gn 3:22 ).

A interrogação na frase sugere que fazer o bem torna o homem aceito por Deus, mas, basta excluir a interrogação que a verdade vem à tona: se Caim fizesse ou não o bem (boas e más ações), segundo o conhecimento que todos os homens adquiriram da árvore do conhecimento do bem e do mal, não havia diferença para ele perante Deus, pois o pecado exerce o seu domínio independentemente de suas ações.

Por estar sob domínio do pecado, todas as realizações de Caim era o mal diante de Deus, o que não o impedia de fazer boas e más ações. Ao falar com os fariseus Jesus demonstrou que eles eram maus, mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus semelhantes, o que demonstra que boas e más dádivas não é o que influencia a condição do homem diante de Deus ( Mt 7:11 ).

Após a ofensa de Adão todos os seus descendentes tornaram-se maus, e dentre eles não há quem faça o bem, nem se que um. Desde a madre se desviaram e proferem mentiras “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ). Com base neste verso é possível declarar: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Como o coração de Caim era mau, nada de bom podia produzir “O homem bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más” ( Mt 12:35 ), pois ninguém pode tirar o imundo o puro “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” ( Jó 14:4 ).

Caim foi concebido em pecado, e continuou rejeitado quando ofertou ao Senhor ( Gn 4:5 ). Como ele poderia oferecer uma oferta pura, se era imundo? Somente pela fé Deus atentaria para Caim, e depois para a sua oferta, pois somente após o homem ser aceito é que Deus aceita o que lhe é oferecido ( Hb 11:4 ).

Sem antes alcançar o testemunho de que é justo, como Abel alcançou, é impossível fazer o bem.

A ideia de que o homem é aceito se fizer boas ações, e se não as realizar, acaba pecando, decorre da proposta de um pseudo-evangelho de que a salvação ocorre através de boas ações.

Como já enunciamos, se o homem fizer boas ações, ou não, o pecado exerce o seu domínio. Se quiser ver-se livre do domínio do pecado, necessário é nascer de novo: alcançando um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:25 -27 ; Is 57:15 ).

Somente o aspergir de água pura pode purificar o homem da sua imundície, tornando possível oferecer o que é puro ( Lv 11:34 ).

Apesar de não ser possível ao homem fazer o bem quando sob o domínio do pecado, resta lhe mais uma instrução:

 

“… e para ti será o seu desejo, e sobre ele dominarás”

Caim não foi aceito por estar sob domínio do pecado e nada que fizesse podia livrá-lo desta condição. Por ver que seu irmão foi aceito, Caim ficou irado e com vontade de matá-lo.

Deus ‘viu’ o quanto Caim se irou ao ver que Abel foi aceito por Ele, e sabia qual era a intenção de Caim ( Gn 4:5 ). Foi quando Deus lhe disse: “Porque te iraste? E por que descaiu o seu semblante?” ( Gn 4:6 ).

Com relação a sua condição espiritual, alienado de Deus, Caim nada podia fazer. Se fizesse boas ou más ações, continuava sob o domínio do pecado, porém, o desejo de matar o seu irmão era um sentimento humano egoísta e mesquinho, e Deus avisa Caim de que ele podia reprimir tal desejo.

Apesar do ‘pecado estar no domínio’, a vontade pertence ao homem, e é através da vontade que o homem exerce o domínio que foi concedido no princípio ( Gn 1:26 ). O domínio que Deus concedeu em Gênesis 1, verso 26, não diz do domínio que o pecado exerce.

Deus podia impedir o intento de Caim, mas não o fez, uma vez que tiraria o que foi dado ao homem: o domínio sobre a face da terra “Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

Como já vimos, o domínio expresso no verso 7 de Gênesis 4 não diz de exercer domínio sobre o pecado, pois o pecado é quem figura como senhor dos homens quando alienados de Deus. Porém, por ter sido criado para viver em sociedade, mesmo sob o domínio do pecado, o homem deve controlar as suas emoções, agindo de modo equilibrado entre seus semelhantes.

Deus demonstrou a Caim que ele podia exercer domínio, pois a sua vontade lhe pertencia. Por que é necessário ter a vontade sob seu poder para poder exercer o domínio? Observe o que Deus disse a Eva ao declarar a sua penalidade: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará ( Gn 3:16 ).

Compare:

  • “… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )
  • “… e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” ( Gn 3:16 ).

Ao conceber a mulher sentiria dores, e o seu desejo estaria sob os cuidados do marido, que sobre ela exerceria domínio. O que isto quer dizer? Para compreendermos a proposta de Deus, temos que nos socorrer do que Paulo escreveu aos cristãos em Éfeso: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” ( Ef 5:22 – 25 ).

Quando lemos que o homem exercerá domínio sobre a mulher, muitos entendem que a mulher deve ser subjugada pelo homem, porém, não é isto que Deus ensina. Quando a Bíblia diz que o homem exerce domínio, ele diz do cuidado que lhe é outorgado.

Quando a Bíblia diz que o desejo da mulher será para o marido é o mesmo que ordenar à mulher que se sujeite ao marido, pois assim como Cristo é a cabeça da igreja, o marido é a cabeça da mulher. Qual o objetivo da comparação? Demonstrar que o papel do marido com relação à esposa é zelar, cuidar!

O domínio que Deus deu ao homem em Gênesis 1, verso 26, é para cuidar de tudo que há debaixo da terra. A mulher deve sujeitar-se ao marido porque é dever do marido cuidar da mulher, assim como Cristo cuida da igreja, ou seja, Jesus exerce domínio sobre a igreja porque zela da igreja, e entregou até sua vida por ela.

Qual o papel da cabeça? Dominar o corpo. Com que objetivo? Cuidar para que ele não definhe e venha a pereçer. Deste modo a mulher se sujeita ao marido, porque o marido tem o dever de cuidar do seu corpo “Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” ( Ef 5:28 ).

Quando Deus falou com Caim demonstrando que o seu desejo pertencia a ele, e que ele exerceria domínio, tinha o fito de demonstrar que competia a ele cuidar e zelar de tudo que diz respeito a sua existência neste mundo. Ninguém haveria de cuidar e zelar de Caim, de modo semelhante ao zelo que marido deve para com a esposa.

O desejo da mulher é para o marido porque compete ao marido cuidar da mulher, por outro lado, o desejo de Caim era para ele mesmo, ou seja, ele devia cuidar de si mesmo. Em resumo, o intento do Criador era alertar Caim para ter cuidado com o que desejava.

O pecado sujeitou o homem como escravo, mas não a sua vontade. Apenas sobre a sua própria vontade o homem é soberano, sendo assim, Caim era capaz de controlar as suas emoções e escolher não dar cabo da vida de seu irmão.

Caim levou a efeito o seu desejo, e matou Abel. Por não cuidar das suas próprias emoções, o seu desejo o dominou, e Caim passou a ser um fugitivo e errante sobre a face da terra.

O homem deve dominar seus desejos e não os desejos dominar o homem. Quando os desejos dominam o homem ele é prejudicado perante a sociedade.