A ceia do Senhor e a comunhão

O elementos que compõem a Ceia do Senhor, o pão e o vinho, são figuras, sendo que cada participante é a realidade! É comum as pessoas reverenciarem e atribuírem valor às figuras quem compõe a Ceia do Senhor, mas, negligenciarem a realidade.


A ceia do Senhor e a comunhão

“Porventura, o cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão.” (1 Coríntios 10:16-17)

Introdução

É comum, nas comunidades cristãs, reverência extrema para com os elementos utilizados na composição da mesa, nas reuniões da ceia do Senhor. Os participantes da mesa cuidam, com esmero, de cada pedacinho de pão, servido pelos diáconos,  para que não sobre e nem caia nenhuma migalha no chão. Quando é servido o cálice, o cuidado é maior, com medo de entornar, e quando se participa, se faz com receio e com certa suspeição, pelo cuidado com o líquido que está no copo.

O que se percebe, por trás de tal cuidado e suspeição, é que muitos cristãos desconhecem o real significado da comunhão do corpo e do sangue de Cristo! Na verdade, são muitos os que participam da mesa, mas, poucos os que discernem o corpo do Senhor, e por isso, são muitos os que participam, indignamente (1 Co 11:29).

 

Discernindo o corpo do Senhor

O que é ‘discernir’[1]? Discernir é compreender (conceito, situação, etc.), perceber, entender.

Mas, o que o crente precisa compreender? Precisa compreender (discernir) o corpo do Senhor! O que é o corpo do Senhor? O corpo do Senhor é a Sua igreja!

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que, em tudo, tenha a preeminência.” (Cl 1:18);

“Antes, seguindo a verdade, em amor, cresçamos, em tudo, naquele que é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para a sua edificação em amor.” (Ef 4:15-16);

“Porque nunca, ninguém, odiou a sua própria carne; antes a alimenta e a sustenta, como, também, o Senhor à igreja; Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos.” (Ef 5:29-30).

Para ser participante da mesa, ou seja, da ceia do Senhor, é imprescindível compreender o que é a igreja, ou seja, o corpo do Senhor.

O cuidado que muitos demonstram para com o pão, que é servido pelos diáconos, acolhendo e protegendo-o nas palmas das mãos, para que não caia uma só migalha, na verdade, deveria ser demonstrado para com o irmão. A reverência que se tem com o pão de farinha de trigo, antes de se tocar e, após se pegar, na verdade, deveria ser dispensado para com cada membro do corpo de Cristo que, muitas vezes está assentado ao lado do participante.

 

Figura e realidade

Os elementos que compõem a mesa do Senhor (pão e vinho) é figura, sendo que cada participante é a realidade! É comum as pessoas reverenciarem e atribuírem valor às figuras, mas, negligenciarem a realidade.

Os escribas e fariseus agiam dessa forma: valorizavam o que era superficial, em detrimento da essência:

“Ai de vós, condutores cegos! Pois, que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas, o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois, qual é maior: o ouro ou, o templo, que santifica o ouro? E aquele que jurar pelo altar, isso nada é; mas, aquele que jurar pela oferta, que está sobre o altar, esse é devedor. Insensatos e cegos! Pois, qual é maior: a oferta ou, o altar, que santifica a oferta? Portanto, o que jurar pelo altar, jura por ele e por tudo o que sobre ele está; E o que jurar pelo templo, jura por ele e por aquele que nele habita; E o que jurar pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que está assentado nele.” (Mt 23:16-22).

Qual o valor do ouro sem o templo? No entanto, os fariseus faziam as pessoas jurarem pelo ouro, o revestimento do templo de Herodes. Qual a serventia da oferta sem o altar? Os fariseus faziam as pessoas jurarem pela oferta.

Enquanto o participar da ceia do Senhor demonstra a comunhão do corpo de Cristo e o cuidado a ser dispensado para com o irmão, o que se apregoa é um cuidado consigo mesmo. Durante os sermões, que antecedem a ceia, geralmente, o que os preletores ensinam é que não se deve chegar atrasado para o culto da ceia ou, que é necessário se santificar, orar, jejuar, etc., para ser digno da mesa.

 

A comunhão entre os membros

No entanto, à luz das Escrituras, o que deveria ser ensinado, aos cristãos, é o cuidado para com o outro! Pela falta de cuidado para com os membros do corpo de Cristo, o apóstolo Paulo repreendeu os irmãos de Corinto que, ao se reunirem no culto de ceia, alguns comiam e se embriagavam e se esqueciam dos que nada tinham para comer.

Dai a reprimenda: ‘Não tendes casa para comer e beber’? A atitude de tais cristãos era de desprezo pela igreja (corpo de Cristo) e envergonhavam os membros do corpo que nada possuíam! (1 Co 11:22)

O ensinamento que o apóstolo Paulo passou aos irmãos de Corinto, foi o mesmo que ele aprendeu do Senhor Jesus que, na noite em que foi traído, pegou o pão e, após dar graças, partiu o pão e disse: ‘Isto é o meu corpo que é partido por vós’! (1 Co 11:24)

O pão que Cristo partiu tornou-se o seu corpo? Evidente que não! Ele estava estabelecendo o pão como figura, para fazer referência à unidade do seu corpo. Na verdade, cada um dos discípulos, que estava à mesa, tornou-se o corpo de Cristo, ou seja, a sua igreja.

Pelo fato de cada discípulo, em particular, comer do pão que Cristo repartiu, significa que eles gozavam de plena comunhão com Cristo: Cristo a cabeça e cada um dos discípulos, em particular, membros do seu corpo.

O pão que foi partido por Jesus significa a comunhão do corpo de Cristo, de modo que, existem muitos cristãos, porém, todos são um só pão e um só corpo em Cristo.

“O pão que partimos não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão.” (1 Co 10:16-17).

 

Diferenças socioeconômicas

O que os cristãos, à época do apóstolo Paulo, precisavam compreender? Que, apesar de cada um, na sociedade, pertencer a uma classe social, contudo, todos eram membros do corpo de Cristo.

As diferenças socioeconômicas, à época, eram gritantes, de modo que havia servos e livres, judeus e gregos, senhores e escravos, homens e mulheres, em uma única comunidade e cada membro, em particular, tinha que compreender que, cada um dos que ali estavam reunidos, eram filhos de Deus, pela fé em Cristo:

“Porque todos sois filhos de Deus, pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gl 3:26-28).

Um cristão, senhor de escravos, que não se acomodasse junto a um cristão escravo, sob o pretexto de que era senhor e jamais se ajuntaria a um escravo, era indigno de ser participante da mesa do Senhor Jesus, pois não discernia o corpo do Senhor.

Um cristão judeu, que dissimulasse para não se ajuntar com os cristãos convertidos dentre os gentios, na verdade, não andava segundo o evangelho de Cristo, portanto, não discernia o corpo de Cristo, visto que, após crer em Cristo, cada crente, não importando se judeu ou grego, em particular, se revestiu de Cristo, de modo que em Cristo não mais existe judeu ou, grego.

“Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem, não vivam mais para si, mas, para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim, que, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne e, ainda que, também, tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo, agora já não o conhecemos desse modo.” (2 Co 5:14-16).

 

A essência da ceia do Senhor

Compreendendo a verdade do evangelho, certo é que a ceia do Senhor não deve ser rotulada como sendo a experiência mais rica da vida cristã, mas, sim, o fato de o crente ter morrido com Cristo e ressurgido uma nova criatura, quando creu que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus.

Ao discernir o corpo do Senhor, o cristão tem plena consciência de que a expressão concreta do amor de Deus se deu quando Ele enviou o seu único Filho ao mundo, não no momento que participa da ceia. Do mesmo modo, compreende que, a partir do momento que creu em Cristo, é participante do corpo de Cristo e essa é a sua maior alegria,  não o fato de pertencer a uma denominação ou, a uma igreja local.

A ceia do Senhor não é o evento mais importante para o cristão, ou o culto de maior importância. Aquele que julga como entendido (1 Co 10:15), sabedor de que a ceia é um memorial para o cristão, não pode se esquecer da morte de Jesus (Lc 22:19), de que Ele morreu por todos os homens.

Só discerne o corpo de Cristo aquele que, aos se assentar à mesa com os demais componentes, que o foco central da reunião não são os elementos dispostos sobre a mesa, mas, os participantes da mesa. Os participantes da mesa são superiores à mesa, pois o cristão é o pão, cujo pão de farinha o representa. Quem é participante da aliança no sangue, é o cristão, cujo vinho presente na mesa, somente representa.

A ceia é um momento de ação de graças por algo que é perene na vida do crente: a comunhão com todos os santos no corpo de Cristo (1 Jo 1:3). A ceia do Senhor não representa renovação de aliança, preparação para vencer o mundo, renovação espiritual, perdão de pecados, etc.

Na verdade, os participantes da ceia  do Senhor já estão sob a proteção da nova aliança no sangue de Cristo, visto que escaparam da corrupção que há no mundo (2 Pe 1:4). O participante da mesa é mais que vencedor, por aquele que O amou e o maligno não lhe toca. (1 Jo 5:18; 1 Jo 2:13; Rm 8:37)

 

Má compreensão acerca da ceia

Quem participa da ceia esperando ser abençoado, na verdade, ainda não compreendeu, plenamente, o evangelho de Cristo, vez que o crente é quem abençoa o cálice de que irá participar:

“Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo?” (1 Co 10:16).

O cálice é de bênção, mas quem abençoa o cálice é o próprio crente. O cálice é simbolo da nova aliança no sangue de Jesus, que torna o crente abençoado, com todas as bênçãos espirituais (Ef 1:3). A comunhão do sangue de Cristo proporciona aos participantes a bem-aventurança prometida a Abraão!

A realidade da nova aliança efetivou-se na cruz, de modo que a comemoração, que é feita com os irmãos, somente é um memorial do que foi estabelecido na cruz, que cada cristão deve anunciar, até a volta de Cristo. (1 Co 11:25)

A reunião para cear à mesa do Senhor, visa anunciar a morte de Cristo até a sua volta, mas, quem come o pão e bebe o cálice sem discernir (compreender) que o corpo de Cristo é constituído de servos, livres, judeus, gregos, pobres, ricos, homens, mulheres, bárbaros, citas, etc., come e bebe para a sua própria condenação.

“Portanto, qualquer que comer este pão ou, beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do SENHOR.” (1 Co 11:27-29)

Um crente em Cristo é membro do corpo de Cristo, portanto, é equivocada a ideia de que o crente precisa se preparar para participar da ceia. A importância maior está em ser membro do corpo de Cristo, pois a mesa com pão e vinho é somente um memorial!

“Ora, vós sois o corpo de Cristo e seus membros, em particular.” (1 Co 12:27)

O pão representa o corpo de Cristo, para não esquecermos que somos o corpo de Cristo e seus membros, em particular. Não é o momento da ceia que deve ser levado a sério, mas, sim, a verdade de que cada cristão é membro do corpo de Cristo, portanto, se faz necessário considerar o outro, sempre em honra:

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas, por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.” (Fl 2:3).

Se o crente em Cristo, à época do apóstolo Paulo, compreendesse essa recomendação, certamente, que os cristãos, senhores de escravos, considerariam os cristãos que eram escravos, como superiores a si mesmo. Um cristão judeu, por sua vez, consideraria um cristão convertido dentre os gentios em alta conta. Um crente romano aceitaria o grego, o judeu, o bárbaro, como superior a si mesmo.

Geralmente, aqueles que exortam os cristãos a se concertarem ou, a se santificarem, para serem dignos da ceia, assim o fazem, com base no verso 28: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice” (1 Co 11:28). O auto exame que recomendam, refere-se à conduta do dia a dia, porém, o exame requerido é em relação ao outro, como membro do corpo de Cristo.

O crente precisa e deve fazer um auto-exame, se não despreza o outro, que Deus tomou por Seu servo, por questões socioeconômicas, partidarismo, fofocas, etc.

“Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio SENHOR ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar.” (Rm 14:4);

“E eu, irmãos, apliquei estas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro. Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebestes, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” (1 Co 4:6-7);

“Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão e julga a seu irmão, fala mal da lei e julga a lei; e, se tu julgas a lei, já não és observador da lei, mas juiz.” (Tg 4:11)

De nada adianta a chamada ‘organização’ ou, a ‘ordem’ no culto, com relação à preparação do pão, à arrumação do pão e do cálice sobre a mesa, à disposição dos utensílios, o tomar o cálice ao mesmo tempo em que o outro ou, comer o pão todos ao mesmo instante, sob a voz de comando do anjo da igreja, etc., porque essa não é a ideia da ordem ‘esperai[2] uns pelos outros’. (1 Co 11:33)

A ordem do apóstolo Paulo é para se aceitar um ao outro, receber um ao outro como irmão em Cristo, não importando as barreiras socioculturais ou econômicas, ou seja, evitar as divisões, dissensões (1 Co 11:18), o que é completamente diferente da ideia de esperar um ao outro. De que adiante esperar o outro, se ele nada tem para comer?

Quando é dito que, comendo, cada qual se ‘antecipava’[3], isto se dava pela segregação que havia no seio da igreja (não vou me ajuntar à ralé), a ponto de alguém que tinha posses, se antecipava a comer e beber até se embriagar e quem nada tinha, ficar com fome.

Daí a consideração:

“Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários; E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que, em nós, são menos decorosos, damos muito mais honra. Porque os que em nós são os mais nobres, não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela; Para que não haja divisão no corpo, mas, antes, tenham os membros igual cuidado uns dos outros”. (1 Co 12:22-25)

A ceia do Senhor visa conscientizar aqueles que não discernem o corpo do Senhor, de que não deve existir divisão no corpo. Que cada membro deve dispensar igual cuidado, uns para com os outros.

“Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas, cada qual, também, para o que é dos outros”. (Fl 2:4)

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “1252 διακρινω diakrino de 1223 e 2919; TDNT – 3:946,469; v 1) separar, fazer distinção, discriminar, preferir 2) aprender por meio da habilidade de ver diferenças, tentar, decidir 2a) determinar, julgar, decidir um disputa 3) fugir de alguém, desertar 4) separar-se em um espírito hostil, opor-se, lutar com disputa, contender 5) estar em divergência consigo mesmo, hesitar, duvidar.” Dicionário Bíblico Strong.

[2] “1551 εκδεχομαι ekdechomai de 1537 e 1209; TDNT – 2:56,146; v 1) receber, aceitar 2) procurar, esperar, aguardar”. Dicionário Bíblico Strong.

[3] “4301 προλαμβανω prolambano de 4253 e 2983; TDNT – 4:14,495; v 1) tomar antes 2) antecipar, prevenir 3) tomar alguém por prevenção (i.e., antes que possa fugir ou ocultar seu crime) 3a) surpreender, descobrir”. Dicionário Bíblico Strong.




Parasita

‘Pobre’, ‘humilde’, ‘abatido’, etc., não diz de pobreza financeira ou abatimento (humilhação) social! Qualquer que obedece a Deus, quer seja pobre quer seja rico financeiramente, se faz servo, portanto diante de Deus é pobre, humilde, abatido. Só é possível compreender o verso: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ) quando o leitor considera que os que ‘tremem’ da palavra de Deus são os que ‘obedecem’ a Deus.


Parasita

 “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 )

“O termo parasita descende do latim parasitus que, por sua vez, deriva do grego παράσιτος (parásitos), ou seja, “aquele que come na mesa de outrem”. O termo grego é composto de παρά (para), “junto a, ao lado” e σῖτος (sitos), “alimento”. O termo acabou por significar o comensal que adulava alguém de alta posição social para que pudesse comer gratuitamente em sua casa” Wikipédia

 

A crônica ‘O parasita’, do escritor Machado de Assis publicada no Jornal O Espelho em 18 de Setembro de 1859, bem como a continuação da crônica publicada em 09 de Outubro de 1859 é uma notável critica social que descreve acertadamente certa classe de indivíduos que ‘infestam’ a sociedade e se instalam principalmente em setores como imprensa, religião e governo.

O cronista trás à baila a existência de ‘ervas parasitas’ que não tiram os seus nutrientes da terra, antes retiram o que lhe é necessário das árvores, e estabelece um paralelo com certos indivíduos que se ‘alimentam’ de estruturas que há na sociedade como a política, a igreja e a literatura (leia-se governo, religião e imprensa).

Deixando de lado o trabalho impecável quanto à crítica social de “O Parasita”, a nossa abordagem tem por alvo somente a citação que o escritor Machado de Assis fez de uma passagem do Novo Testamento. Vejamos:

“(…)

Que gente!

Os tragos fisiológicos do parasita são especiais e característicos. Não podendo imitar os grandes homens pelo talento, copiam na postura e nas maneiras o que acham pelas gravuras e fotografias. Assumem um certo ar pedantesco, tomam um timbre dogmático nas palavras; e, ao contrário do fanqueiro, que tem a espinha dorsal mole e flexível, — ele não se curva nem se torce; a vaidade é o seu espartilho.

Mas, por compensação, há a modéstia nas palavras ou certo abatimento, que faz lembrar esse ninguém elogiado da comedia. Mas ainda assim vem a afetação; o parasita é o primeiro que está cônscio de que é alguma coisa, apesar da sinceridade com que procura pôr-se abaixo de zero.

Pobre gente!

Podiam ser homens de bem, fazer alguma coisa para a sociedade, honrar a musa nacional, contendo-se na sua esfera própria; mas nada, saem uma noite da sua nulidade e vão por aí matando a ferro frio…

É que têm o evangelho diante dos olhos…

Bem-aventurados os pobres de espírito.

O parasita ramifica-se e enrosca-se ainda por todas as vértebras da sociedade. Entra na Igreja, na política e na diplomacia; há laivos dele por toda a parte

(…) ” Obra Completa, Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994. Publicado originalmente em O Espelho, Rio de Janeiro, 11 e 18/09 e 9, 16 e 30/10/1859.< https://www.passeidireto.com/arquivo/36447602/aquarelas—machado-de-assis > Acesso realizado em 21/07/18.

Ora, que os ‘parasitas sociais’ são ‘pobre gente’, não devemos negar. Talvez esta seja a pior espécie de ‘pobreza’, que de longe não se compara à ‘pobreza’ caracterizada pela falta de recursos financeiros.

Os ‘parasitas sociais’ são indivíduos que, apesar de viverem regaladamente, somente agravam as diferenças socioeconômicas acentuando a percepção da miserabilidade dos que vivem à margem da sociedade.

Em um trabalho anterior, Machado de Assis fez alusão aos ‘mascates literários’ sob o título ‘Os fanqueiros literários’, espécie de indivíduos mais flexíveis que ‘os parasitas’, produzem textos (literatura) que visam somente o lucro, e serve para entorpecer o leitor desavisado. Machado d Assis crítica a este tipo de literatura que imita os ‘espíritos sérios’ dando o nome de ‘ópio encadernado’.

A crítica aos ‘fanqueiros literários’ decorre do que o escritor entendeu ser verdade, mas, a alegação que os ‘parasitas sociais’ são ‘pobre gente’ porque “… têm o evangelho diante dos olhos” é sarcasmo.

Vale esclarecer que o evangelho não promove ‘parasitas’, antes que alguém chegue a esta conclusão guiado pelo sarcasmo machadiano.

O Novo Testamento recomenda aos cristãos que sejam produtivos na sociedade em que estão inseridos. Para ser um cristão (discípulo de Cristo), não basta ter o evangelho diante dos olhos, antes o evangelho é conhecimento intrínseco ao discípulo.

A ociosidade ou o parasitismo não é a temática e nem é promovido pelo evangelho de Cristo conforme se verifica através da seguinte determinação paulina:

“Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão” ( 2Ts 3:10- 12)

O apóstolo Paulo observou que em meio aos cristãos havia alguns que não possuíam uma ocupação. Daí a ordem: – trabalhem com sossego para poder comer o seu próprio pão – ou seja, o evangelho não é conivente com quem se arvora no direito de buscar alimento na mesa alheia ( Pv 28:19 ).

A recomendação do apóstolo é objetiva pelo exemplo que ele apresenta:

“Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós” ( 2Ts 3:8 )

O apóstolo Paulo é contundente com relação àqueles que se propõe a seguir a doutrina de Cristo:

“Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade” ( Ef 4:28 )

Para Machado de Assis o ‘parasita’ é alguém sem talento, mas que imita posturas e maneiras. Para compensar a falta de talento, o parasita é modesto na fala, ou seja, possui tom humilde (abatimento). Sinceramente procura negar que é importante, mas é o primeiro a concluir que de fato é superior, daí a falsidade (afetação).

Ao dizer que as maneiras e a postura do ‘parasita’ se dá por terem o evangelho diante dos olhos, Machado de Assis sarcasticamente denuncia a hipocrisia deles. Daí a pergunta: Os parasitas, por terem o evangelho diante dos olhos, procuram imitar ‘maneiras’ e ‘posturas’ dos bem-aventurados anunciados por Cristo?

Se o leitor da obra de Machado de Assis não observar as nuances do texto, poderá entender que os ‘parasitas’ que sobrevivem à custa da sociedade são assim por procurarem seguir o evangelho, entretanto a abordagem sarcástica de Machado de Assis é desfavorável à hipocrisia dos parasitas que pensam ser alguma coisa.

A citação bíblica: ‘Bem-aventurados os pobres de espírito…’  foi introduzido na crônica somente para servir ao sarcasmo do escritor. A intertextualidade[1] da citação decorre da intencionalidade do escritor que, sem se importar com a significação da frase no contexto do evangelho de Cristo, deu uma nova significação à citação sem se preocupar com o fato de ter subvertido o seu significado.

Portanto, considerando que a afirmação de que os parasitas assim são por procurarem se ajustar à condição de bem-aventurado estabelecida por Cristo, não partiu de um teólogo e tem por finalidade servir ao sarcasmo do autor, a nossa abordagem será apenas de esclarecimento.

“O parasita ramifica-se e enrosca-se ainda por todas as vértebras da sociedade” Idem.

A partir desta frase faremos uma crítica pontual à crônica machadiana pela citação de um verso bíblico.

Segundo Machado de Assis há indivíduos que, como uma planta ‘parasita’ se ramifica e se enrosca por todas as vértebras da sociedade. Se há ‘laivos’ (vestígios) de parasitismo em todas as ‘vértebras da sociedade’, é certo que as estruturas religiosas não se elidem deste mal, quer sejam as religiões ditas cristãs ou as pagãs, mas é possível afirmar que o parasitismo social não surgiu dos ensinamentos de Cristo porque ser religioso não é o mesmo que ser um seguidor de Cristo.

Os ‘parasitas’ se alimentam de toda estrutura que dá sustentação à sociedade, quer sejam religiosas, cientificas, filosóficas, políticas, etc., no entanto, o Senhor Jesus não instituiu nenhuma estrutura religiosa como guardiã dos seus ensinos, e sim homens fiéis. Jesus não flertou com nenhum sistema filosófico, não se filiou a partidos político e nem buscou apoio de qualquer sistema de governo.

Jesus fez parte da cadeia produtiva da sociedade na qual estava inserido, pois exerceu a profissão de carpinteiro até os seus 30 anos de idade, sem falar que a sua nação como escrava era fazia parte da base produtiva de Roma. Todos os discípulos que Jesus escolheu para o seu ministério faziam parte da cadeia produtiva: alguns eram pescadores, outro médico, outro cobrador de impostos, etc.

A seguinte colocação de Machado de Assis: ‘E como não ser assim, se ele não tem outro cuidado nesta vida? e se os limites da mesa redonda são os horizontes das suas aspirações?’ Idem, é um convite à reflexão acerca da pessoa de Jesus e o seu comportamento ministerial.

Durante seu ministério Jesus aceitou vários convites para participar de refeições, porém, a sua postura na mesa não era a de um comensal. Jesus não elogiava e nem adulava os seus anfitriões. Pelo contrário, publicamente Jesus repreendia os religiosos e lideres de Israel pela compreensão equivocada que possuíam em relação ao reino dos céus ( Lc 7:36 -50).

Jesus não estava interessado em comida como os seus concidadãos ( Jo 6:27 ), seu interesse era anunciar as palavras de Deus ( Mt 4:4 ). Jesus também não veio estabelecer regras com relação ao que o homem coloca ou não em sua mesa, pois o reino dos céus não é comida nem bebida “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” ( Rm 14:17 ).

Jesus disse que tinha uma ‘comida a comer’, e em seguida deixou claro que essa comida era realizar a vontade do Pai. Jesus não esteve focado nas questões deste mundo, antes veio para cumprir tudo o que acerca d’Ele foi predito pelos profetas “Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis” ( Jo 4:32 ); “Em seguida, Jesus lhes explicou: São estas as palavras que Eu vos ensinei quando ainda estava entre vós: Era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos!” Lc 24:44 ).

Quando tentado a transformar pedras em pães, Jesus enfatizou o contido nas Escrituras, de que o homem tem vida através da palavra de Deus, demonstrando que está estabelecido nas Escrituras que o homem adquire alimento através do trabalho ( Mt 4:4 ; Gn 3:17 ).

A questão do alimento cotidiano era tão premente na cabeça de seus ouvintes, que Jesus teve que orientá-los a não ficarem preocupados com o que comer ou vestir ( Mt 6:25 ). A preocupação com a escassez de pão tolhia os sentidos, pois esperavam que Deus lhes enviasse um líder, ou um profeta que resolvesse o problema de pão ( Jo 6:14 ).

Assim como os profetas da antiguidade, Jesus utilizou o pão como figura para falar por enigmas ao povo e, até mesmo os seus discípulos concluíam que Jesus estava tratando do pão cotidiano “Entretanto, eles discutiam entre si, dizendo: “É porque não trouxemos pães” ( Mt 16:7 ); “Houve, então, grande discussão entre os judeus e esbravejavam uns com os outros: “Como pode este homem dar-nos a comer a sua própria carne?” ( Jo 6:52 ).

Conhecendo pelas Escrituras a natureza do homem ( Jo 2:25 ), de que todos são ‘mentirosos’ ( Sl 116:11 ; Rm 3:4 ), Jesus enfatizou que tudo o que sai da boca procede do coração, e o que há no coração é o que contamina o homem ( Mt 12:34 ; Mt 15:11 ), perspectiva que norteou o seu ministério, pois só a palavra de Deus concede nova natureza ao homem. Ora, o interesse de Cristo não estava no alimento cotidiano, e sim livrar os homens da condenação decorrente da ofensa de Adão.

Jesus não se utilizou das estruturas sociais estabelecidas para angariar prestigio político e religioso, antes reprovou publicamente os escribas e fariseus por seguirem preceitos religiosos que satisfazia somente o desejo de serem vistos pelos seus semelhantes: desejam os primeiros lugares nas refeições, as primeiras cadeiras nas sinagogas, etc. ( Mt 23:5 -6).Geralmente os judeus convidavam os seus amigos para cear com intuito de serem honrados posteriormente, mas Jesus orientou que convidassem aqueles que não tinham condição financeira de retribuir a honraria ( Lc 14:12 -14).

Jesus deixa claro que os seus seguidores, enquanto neste mundo, seriam perseguidos por causa da Sua doutrina, e sendo rei, Jesus deixou claro que o Seu reino não era deste mundo “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18:36). Cristo não buscou promover a si mesmo, antes buscou realizar a vontade de Deus “Eu não busco a minha glória; há quem a busque, e julgue” (Jo 8:50).

Quem tem o evangelho no coração não tem o apoio dos poderes deste mundo. Os cristãos apoiam-se única e exclusivamente no poder de Deus (evangelho), e não a ‘facilmente manipulável decência moral nos lábios’ Idem “Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu SENHOR. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo 15:20).

Os astuciosos religiosos à época, a contragosto admitiram que Cristo não aceitava ninguém segundo a aparência “E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus” (Lc 20:21).

O evangelho genuíno não possui qualquer elemento que os parasitas possam lançar mão, mas como a fisiologia dos parasitas é a imitação, no máximo o que copiam é a postura e as maneiras dos religiosos. As religiões decorrem de concepções humanas acerca do divino, já o evangelho de Cristo é revelação de um mistério oculto que não possui conexão com a religiosidade humana.

A religião estabelece posturas, maneiras conforme a moral vigente. É ela que concede o timbre dogmático às posturas e modos, o que inexoravelmente será campo fértil aos parasitas.

Machado de Assis apresenta as instituições como árvore onde os parasitas ramificam-se e enroscam-se, enquanto a Bíblia apresenta as pessoas como árvores e, para ter direito ao reino de Deus, é necessário que tal árvore pertença à lavoura de Deus ( Is 63:1 ). João Batista anunciou o veredito de Deus: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ); “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15:13).

Enquanto os ‘parasitas’ são ‘pobre gente’ pelo mal que causam à sociedade, os ‘pobres de espírito’ são descritos como herdeiros de um reino que não tem relação com as estruturas sociais deste mundo. Machado de Assis associa negativamente a ‘pobre gente’ aos ‘pobres de espírito’, enquanto Jesus ensina positivamente que os pobres de espíritos são eleitos de Deus!

A figura do ‘pobre bem-aventurado’ não tem vínculo com questões de ordem econômica, moral ou religiosa, antes se refere ao que foi anunciado pelo profeta Isaías:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” (Is 66:2).

Jesus utilizou os profetas para ensinar à multidão que só é possível alcançar a bem-aventurança obedecendo à palavra de Deus “Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2:5).

Aquele que guarda os mandamentos de Cristo é o que o ama, e a Palavra de Deus garante que quem obedece a Cristo é herdeiro do seu reino, portanto, assume a condição descrita pelos profetas como ‘pobre’: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

A lição de Tiago não tem relação com o evangelho humanista (teologia da libertação[2]) apregoado hoje, antes repete a formula do ensino de Cristo: “Bem-aventurado os pobres de espírito…”. A herança do reino é promessa aos que obedecem a Deus (amam), e que ouve a palavra de Deus, ou seja, são os que reconhecem que não dispõem de recursos para adquirir a vida eterna “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele. Pois a redenção da sua alma é caríssima, e seus recursos acabariam antes” ( Sl 49:7 -8).

Ao analisar a citação do profeta Isaías, devemos fazer e responder algumas perguntas: Para quem Deus ‘olhará’? Ou, seja, a quem Deus é favorável? Ao pobre! Ao abatido de espírito! A quem não tem dinheiro! E quem são os pobres e abatidos de espírito? Os que obedecem à palavra de Deus.

Quem obedece à palavra de Deus se fez servo da justiça, ou seja, abateu-se a si mesmo! ‘Abater-se’ é o mesmo que ‘humilhar-se’, ou seja, sujeitar-se ao senhorio de Deus, obedecendo-O ( Tg 4:7 ). Quem se humilha a si mesmo abriu mão de tudo o que possui ( Mt 19:21 ), portanto, é pobre, abatido ( Sl 51:17 ).

‘Pobre’, ‘humilde’, ‘abatido’, etc., não diz de pobreza financeira ou abatimento (humilhação) social! Qualquer que obedece a Deus, quer seja pobre quer seja rico financeiramente, se faz servo, portanto diante de Deus é pobre, humilde, abatido. Só é possível compreender o verso: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ) quando o leitor considera que os que ‘tremem’ da palavra de Deus são os que ‘obedecem’ a Deus.

A palavra ‘temor’ é figura de instrução, mandamento, e a palavra ‘tremor’ é figura de obediência, sujeição. O significado de ‘temor’ e ‘tremor’ se abstrai do paralelismo existente nas poesias hebraicas, que associa ‘temor’ a doutrina e ‘tremor’ a obediência ( Sl 34:11 ; Pv 1:9 ; Is 66:5 ).

O profeta Isaías faz referencia ao pobre através de um convite gracioso: “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” ( Is 55:1 ). Ter sede remete a figura do necessitado, e o que não tem recursos (dinheiro) ao pobre.

Deus convida os necessitados a beberem água, e aos pobres que adquiram e comam sem dinheiro e sem preço vinho e leite. Para os necessitados alcançarem água e os pobres vinho e leite, bastava inclinar os ouvidos que comeriam o que é bom, de modo que seriam felizes (deleite com o que é bom).

Enquanto é feito um convite aos necessitados e pobres, Isaías censura aqueles que têm posses (ricos), pois adquirem o que não podem satisfazer suas necessidades ( Is 55:2 ). Isaías estabelece um contraste entre os que não têm posses e aqueles que têm diante de Deus, de modo que aquele que inclina os ouvidos a voz de Deus são os ‘pobres’, e aqueles que rejeitam a voz de Deus os ‘ricos’.

A figura do ‘pobre’ e do ‘rico’ são enigmas utilizados para demonstrar como o homem alcança o dom de Deus. A palavra de Deus é água que dá refrigério (salvação) ao necessitado. A palavra de Deus é pão que dá vida (salvação) e alegria (vinho e leite). Esta é a bem-aventurança!

Que água Deus estava oferecendo a Israel através de Isaías: Cristo! Cristo é a firme beneficência prometida a Davi ( 2Sm7:13 -14), a fonte de água viva ( Jo 4:14 ).

O jovem rico foi concitado por Jesus a vender tudo o que possuía e, o que fosse arrecadado deveria ser dado aos pobres financeiramente ( Mc 10:21 ). Esta ordem de Cristo contém uma grande lição: é necessário obedecer a Cristo para alcançar o favor divino!

Embora o jovem rico possuísse muitos bens materiais, esses bens não o impediam de entrar no reino dos céus. A riqueza dele consistia em guardar alguns mandamentos desde a sua mocidade, mas não considerou que qualquer que tropeça em um quesito da lei é culpado de toda a lei ( Tg 2:10 ).

O mandamento foi dado: ‘Vende tudo e dá aos pobres’! Se o jovem obedecesse à ordem de Cristo, tornaria servo de Cristo, ou seja, seria abatido de espírito, pois humilhou-se a si mesmo ( 1Jo 5:1 ). Assim como Cristo o amou e deu um mandamento, o jovem deveria obedecer ao mandamento que Cristo deu, pois só ama quem obedece. Ora, o mandamento de Deus é especifico: que creiam no Filho de Deus! ( 1Jo 3:23 )

O jovem rico retirou-se triste. O problema do jovem rico não era as riquezas materiais, e sim não obedecer a Cristo. De modo semelhante, muitos judeus não obedeceram a Cristo, tanto os que possuíam muitos bens como os desprovidos deles, porque não abriam mão de dizer que tinham por pai Abraão, pois julgavam que já estavam ao abrigo da bem-aventurança prometida por Deus.

Os pobres descritos por Jesus como bem-aventurados são aqueles que reconhecem que não possuem recursos para se salvar e, através desta abordagem, fica implícito que qualquer (judeu ou gentio) que obedece ao mandamento de Deus é herdeiro da promessa, pois Deus não faz acepção de pessoas.

As bem-aventuranças anunciadas por Cristo depunha contra os seus ouvintes, uma multidão de judeus. É significativo o fato de a plateia de Cristo ser formada de homens judeus, pois após anunciar as bem-aventuranças, volta-se para os seus ouvintes e faz uma exigência: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

Os pobres são apresentados como herdeiros do reino dos céus, mas os ouvintes de Cristo são instados a realizarem obras que exceda a dos seus lideres e mestres religiosos para que possa alcançar a bem-aventurança! Através do anuncio das bem-aventuranças Jesus enfatizou que os judeus estavam em igual condição aos gentios se não obtivessem obras superiores aos escribas e fariseus ( Jo 3:3 ; Mt 5:20 ).

A obra que excede as dos escribas e fariseus é obediência ao mandado de Deus: crer no enviado de Deus. A obra de Deus é perfeita: Cristo! Cristo veio ao mundo revelar aos homens a vontade de Deus e realizar a sua obra! ( Jo 6:29 ) Não basta como os judeus dizer que crê em Deus, antes é necessário realizar o que Ele determina: crer no testemunho que Ele deu acerca do seu Filho Jesus Cristo “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” ( 1Jo 3:18; 1Jo 5:9 -11).

Os judeus diante da mensagem de Cristo não reconheciam que precisavam de salvação, pois entendiam que ser descendente da carne de Abraão era requisito suficiente e imprescindível para ser salvo “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão” ( Jo 8:32 ); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8).

Em lugar de confiarem em Deus, faziam da carne de Abraão o seu ‘braço’ (salvação). Ora, aquele que confia na carne (faz da carne o seu braço) é maldito, pois confia em si mesmo (homem que confia no homem) “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ; Fl 3:3 ).

Os judeus, por serem descendentes de Abraão, se consideravam bem-aventurados, ricos para com Deus. Não compreenderam que a bem-aventurança prometida por Deus só é concedida aos gerados por Deus participante da carne e do sangue do Descendente prometido a Abraão, que é Cristo.

Por não compreenderem as profecias, os judeus como povo prevaricam nas suas atribuições ( Is 43:27 ). As escrituras eram como um livro selado para eles, daí o porquê eram tidos por cegos, loucos, bêbados, etc. Em lugar de atenderem a voz de Deus que é vinho e leite, beberam dos cachos de uvas de Sodoma e Gomorra “Mas também estes erram por causa do vinho, e com a bebida forte se desencaminham; até o sacerdote e o profeta erram por causa da bebida forte; são absorvidos pelo vinho; desencaminham-se por causa da bebida forte; andam errados na visão e tropeçam no juízo” ( Is 28:7 ); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ; Dt 32:28 -32).

Citar o evangelho somente para destilar sarcasmo demonstra que o escritor é só mais um na grande massa de homens que não compreendem o evangelho de Cristo “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” ( 1Co 2:14).

A crítica aos parasitas que infestam as inúmeras estruturas religiosas, quer sejam elas pagãs ou dita cristãs, é válida. Uma análise da sociedade nos revela que os parasitas não poupam as religiões pagãs e nem os sistemas de governos laicos, pois todas as organizações humanas ‘sofrem’ com as ações dos parasitas. Tomando a Igreja Católica Apostólica Romana como exemplo, verifica-se que ela não foi instituída por Cristo como seu corpo e nem o estado do Vaticano como pertencente ao seu reino.

No quesito ‘igreja’, Cristo erigiu o seu próprio corpo: templo santo para habitação de Deus em espírito ( Ef 2:21 ). Após a morte de Cristo, o seu corpo está repartido por todos os cristãos. O corpo de Cristo, a sua igreja, não se trata de uma organização religiosa ou de um estado teocrático onde parasitas possam se instalar. A igreja de Cristo é formada por homens que igualmente confessam que Jesus é o Filho de Deus.

Mas, como Cristo sabia que surgiriam homens que imitariam os seus seguidores, copiando posturas e acrescendo tom dogmático as palavras, ele notificou os seus seguidores a terem cuidado com os falsos profetas, pois só é possível conhecê-los pelo fruto, e não pela aparência ( Mt 7:15 ).

Enquanto os seguidores de Cristo pensam nas coisas de cima, onde Cristo está assentado, os falsos mestres só atentam para as coisas terrenas. Os falsos mestres se infiltram nas comunidades a fim de banquetear-se com os cristãos, mas apascentam a si mesmos “Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fl 3:19); “Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas” ( Jd 1:12).

‘O parasita’ de Machado de Assis é crítica severa a certas figuras do seu tempo que sobrevivia à custa das instituições. Através do sarcasmo, Machado de Assis tentou driblar a sina de se tornar um ‘fanqueiro literário’, mas sucumbiu ao fado: muitos dos seus trabalhos são ramas que se enroscaram na Bíblia pelo prestigio que ela contém. Ex: Dom Casmurro, Adão e Eva, A Igreja do Diabo, O espelho, Esaú e Jacó, etc.

Reitero que as abordagens de Machado de Assis não são de todo mal do ponto de vista sociocultural, pois a sua produção literária é de grande valor cultural. O mal se instala quando um leitor dos textos de Machado de Assis desconhece a essência dos textos bíblicos que foram utilizados, pois poderá chegar a conclusão que Machado de Assis detinha conhecimento suficiente para interpretar as Escrituras.

 

 

[1] Intertextualidade – é uma referência explícita ou implícita de um texto em outro “Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto. Em lugar da noção de intersubjetividade, instala-se a de intertextualidade” KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974a, p.64,

[2] Teologia da Libertação é um movimento supra-denominacional, apartidário e inclusivista de teologia política, que engloba várias correntes de pensamento que interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo em termos de uma libertação de injustas condições econômicas, políticas ou sociais. Ela foi descrita, pelos seus proponentes como reinterpretação analítica e antropológica da fé cristã, em vista dos problemas sociais, mas outros a descrevem como marxismo, relativismo e materialismo cristianizado – Wikipédia<http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_Libertação> consulta realizada em 19/01/15




Salmo 23 – O Senhor é o meu pastor, nada me faltará

O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará! O ‘cálice transbordante’ é símbolo de alegria ou de ignominia? A ‘mesa preparada’ propõe reconciliação com o inimigo, ou aponta para a vítima da festa? O Salmo 23 é uma parábola que faz referência a um rebanho, ou é uma profecia acerca de uma ovelha específica? O Salmo 23 só ganha sentido quando analisado sob o prisma da vítima perfeita escolhida e preservada por Deus: o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo: “Mas Jesus disse a Pedro: Põe a tua espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” ( Jo 18:11 ).


Salmo 23 – O Senhor é o meu pastor, nada me faltará

Salmo 23

  1. O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.
  2. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.
  3. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.
  4. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.
  5. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.
  6. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias.

 

Leia também: Salmo 91

 

Introdução

À época de Jesus, os judeus liam diariamente as Escrituras porque entendiam que elas contêm vida eterna, porém, quando a vida eterna que estava junto ao Pai se manifestou, rejeitaram o Verbo da vida ( 1Jo 1:1 -2; Rm 2:20 ). É neste contexto que Jesus disse: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

Para analisar o Salmo 23, seguiremos a orientação de Jesus: “São elas (as Escrituras) que de mim testificam”, ou seja, os salmos, os profetas e a lei apresentam o testemunho de Cristo “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” ( Lc 24:44 ).

O salmista Davi era profeta e os seus cânticos são profecias acerca de Cristo em forma de poesia ( Mc 12:36 ; At 2:30 e 1Cr 25:1 ).

O Salmo 23 nos faz lembrar que todos os que creem em Cristo são ovelhas do Seu rebanho, porém, diferente do que muitos foram condicionados a pensar, o Salmo 23 não apresenta a expressão de um rebanho de ovelhas, antes é a expressão de confiança de uma ovelha específica: ‘O Senhor é o meu pastor…’, e não o Senhor é o ‘nosso’ pastor.

O segredo para interpretar as figuras e os enigmas do Salmo 23 está em descobrir quem é a pessoa que expressa tamanha confiança em Deus. Como o salmo 23 não foi composto da perspectiva de um rebanho, antes apresenta a perspectiva de uma única ovelha, devemos responder a pergunta feita pelo eunuco da rainha de Candace: “E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” ( At 8:34 ).

Através da exposição de Filipe fica claro que um profeta não profetiza acerca de si mesmo. Como profeta, Davi não foi diferente de Isaías, ambos profetizavam acerca do Messias. Para descobrir quem é a pessoa que assume a condição de ovelha confiante em Deus é essencial visualizar os salmos como profecias que apresentam aspectos da vida, morte e ressurreição de Cristo.

Há um aspecto essencialmente importante a se considerar antes de interpretar o Salmo 23: a vítima da festa. Para um cordeiro ser oferecido em holocausto, segundo a lei, devia ter um ano de idade e sem defeito algum, portanto, para a oferta ser agradável a Deus, o pastor devia dispensar um cuidado especial para com a vítima.

O cuidado do pastor era indispensável para que a ovelha chegasse à idade estabelecida sem qualquer defeito como cegueira, quebradura, aleijamento, verrugas, sarnas, impigens, etc. “O cordeiro, ou cabrito, será sem mácula, um macho de um ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras” ( Êx 12:5 ).

Diante da necessidade e do volume de oferendas pela expiação, as ovelhas para o sacrifício tinham que receber cuidados especiais para não faltar vítimas de um ano e sem defeito. O cuidado do pastor era indispensável para que a ovelha estivesse à altura da sua missão: posta como vítima da festa para expiação ( Nm 6:14 ).

Deus escolheu Cristo como a vítima da festa a ser atada sobre o altar ( Sl 118:27 ), concomitantemente, o Cordeiro de Deus recebeu um cuidado específico e efetivo para cumprir a missão do Sumo Pastor, que colocou a alma de Cristo por expiação dos pecados da humanidade ( Is 53:10 ).

O Salmo 23 apresenta o Cordeiro de Deus sob cuidado do Sumo Pastor, pois Ele foi enviado como a vítima para o sacrifício perfeito ( Is 53:7 ). Muitos, equivocadamente, buscam e pedem a proteção exarada no Salmo 23, porém, não atinam que a proteção nele descrita tem em vista um cálice “Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos” ( Mt 20:22 ).

O salmo 23 é uma parábola, e como parábola contém várias figuras que compõe um enigma. Primeiro desvendaremos as figuras que compõe o enigma e, ao final da releitura do Salmo 23, apresentaremos o significado da parábola.

 

O Senhor é Deus fiel

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará” (v. 1)

Temos neste verso uma expressão de confiança: O Senhor é o meu pastor, e, em seguida, uma conclusão: nada me faltará. Como poesia, há nesta frase do Salmo um paralelismo sintético construtivo ou formal, em que a segunda parte da frase amplia ou acrescenta nova ideia a asserção anterior.

Vale destacar algumas nuances linguísticas pertinentes à segunda assertiva da frase ‘… nada me faltará’.  Segundo os linguistas que trabalham o hebraico, o verso 1 do Salmo 23 pode ser traduzido por: “O Senhor é pastagem”, isto porque o termo ‘pastagem’ no hebraico assemelha-se ao possessivo ‘meu pastor’ por possuírem radicais idênticos com sutil diferença quanto aos pequenos sufixos e pontuações.

Para uma interpretação segura, vale lançar mão de outro salmo. O Salmo 16, verso 2 e 5, assim reza: “A minha alma disse ao SENHOR: Tu és o meu Senhor. Não tenho outro bem além de ti (…) O SENHOR é a porção da minha herança e do meu cálice” ( Sl 16:2 e 5; Sl 142:5 ). A ênfase dos versos está em Deus, que é ‘bem’, ‘herança’ e ‘cálice’, figuras que não têm conotação de bens materiais.

Neste diapasão, concordo com alguns linguistas que entendem que o termo traduzido por ‘nada’ é uma adaptação linguística dos tradutores, e quando sugerem ser mais conveniente traduzir o verso por: “O Senhor é o meu pastor, não faltará a mim” (v. 1 ; Sl 23:4 ). Deste modo o verso enfatiza o cuidado perene de Deus, e não o patrocínio de bens materiais ou status deste mundo.

 

Verdes pastos e águas tranquilas

“Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas” (v. 2)

Após declarar que o Senhor é pastor, o salmo 23 apresenta algumas figuras que representam o cuidado provedor de Deus para o homem que se posiciona confiante diante de Deus, como uma ovelha se sujeita ao cuidado de um pastor.

‘Pastos verdejantes’ e ‘águas tranquilas’ é tudo o que uma ovelha necessita, de modo que são figuras para retratar o cuidado de Deus.

A nação de Israel foi preparada para trazer o Cristo ao mundo, de modo que foi concedido a Israel a adoção de filhos, a glória, as alianças, a lei, o culto e as promessas ( Rm 9:4 ; Dt 4:8 ). Um retrato perfeito da missão dada a Israel vê-se na visão de João que consta no livro de Apocalipse, capítulo 12, onde é narrado através de um parábola o resumo da história do povo de Israel, demonstrando que uma mulher (Israel) prestes a dar a luz um varão que irá reger as nações com vara de ferro (o Filho do homem), é perseguida pelo dragão (Satanás) “E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono” ( Ap 12:1 -17 ).

Apesar da apostasia dos lideres e do povo de Israel, ao outorgar a lei e o testemunho dos profetas, Deus estabeleceu um pasto verdejante para o Cristo. A linhagem de Cristo recebeu proteção especial, sendo necessário a inclusão de duas mulheres gentílicas, Rute e Raabe, para que o Cristo viesse ao mundo. Por sua vez, a nação de Israel quase é exterminada, mas Deus a protegeu ( Et 3:13 ; Sl 22:9 -10).

O apóstolo Paulo ensinou que Deus não tem cuidado de bois, quando disse: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ), de modo que o Salmo 23 não faz referencia a animais de rebanho, como bois e ovelhas, antes diz de um homem que confia no cuidado que Deus dispensa a Ele.

A ênfase do Salmo 23 está no cuidado de Deus como Sumo Pastor, o homem que figura como ovelha é parte coadjuvante!

‘Pastos verdejantes’ e ‘águas tranquilas’ são figuras que rementem à vontade de Deus revelada na sua palavra, que é alimento, água e vida “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Alimentar-se de maná (pão) não trouxe vida ao povo de Israel, antes é o comer da palavra de Deus que dá vida ao homem “Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre” ( Jo 6:58 ).

Apesar de Israel abrigar a vinda do Messias ao mundo, estava como ovelha sem pastor, o que contrasta com a condição do homem do salmo 23, que tem Deus como pastor em função da sua total confiança na fidelidade de Deus.

O povo de Israel foi levado cativo por falta de entendimento, ou seja, não gozaram do cuidado de Deus, antes estavam famintos e sedentos. A falta de conhecimento de Deus resulta em sede e fome, o que demonstra que ter o Senhor como pastor é o mesmo que ser farto do conhecimento de Deus.

Estar em pastos verdejantes e com águas tranquilas é estar pleno de entendimento “Portanto o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; e os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede” ( Is 5:13 ); “Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR” ( Am 8:11 ; Ez 34:1 -15).

Enquanto era dito às ovelhas desgarradas que andavam sem pastor: “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ), a ovelha sob cuidado do Senhor tinha a certeza de que a sua alma seria restaurada ( Sl 62:1 ).

A ovelha sob cuidado do Senhor de nada tem falta, pois se alimenta da palavra de Deus, o que contrasta com a condição dos filhos dos leões (lideres de Israel que devoravam o povo como se fosse pão) que necessitam e passam fome “A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada” ( Sl 57:4 ;  Sl 34:10 ; Sl 53:4 ; Is 28:14 ).

Os lideres de Israel são nomeados ‘loucos’, ‘néscios’, ‘faltos de entendimento’ por rejeitarem a palavra de Deus, a comida que livra da destruição “Os loucos, por causa da sua transgressão, e por causa das suas iniquidades, são aflitos. A sua alma aborreceu toda a comida, e chegaram até às portas da morte. Então clamaram ao SENHOR na sua angústia, e ele os livrou das suas dificuldades. Enviou a sua palavra, e os sarou; e os livrou da sua destruição” ( Sl 107:17 -20).

O corpo depende de alimento cotidiano, e a alma da palavra de Deus, de sorte que quem ouve a palavra de Deus come o que é bom ( Is 55:2 ); “Pois fartou a alma sedenta, e encheu de bens a alma faminta” ( Sl 107:9 ).

No salmo 57 temos uma profecia acerca de Cristo quando abrigado sob a sombra das asas do Pai ( Sl 57:1 ; Sl 91:1 ). O salmo descreve que Deus envia a sua misericórdia e a sua verdade para livrar o Messias daqueles que procuravam matá-lo ( Sl 57:3 -4); “Ó Deus, quebra-lhes os dentes nas suas bocas; arranca, SENHOR, os queixais aos filhos dos leões” ( Sl 58:6 ; Sl 23:6 ).

Como Deus é apresentado como pastor, e a ovelha uma figura que representa um homem sob o cuidado de Deus, ‘pastagem’ e ‘águas tranquilas’ não diz de roupas, casas, carros, casamentos, alimento, antes diz da justiça de Deus proveniente da Sua palavra.

O pasto e as águas que Deus providencia tem por alvo os que têm sede e fome de justiça, ou seja, de ouvir a palavra de Deus “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” ( Mt 5:6 ); “Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR” ( Am 8:11 ); “Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura” ( Is 55:2 ).

O descanso e o refrigério só são possíveis quando se dá ouvido à palavra de Deus, que é doutrina e conhecimento “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ; Is 28:9 ).

Os mestres de Israel tropeçaram quando interpretavam os profetas e a lei considerando-se filhos de Abraão por serem descendentes da carne de Abraão. Não consideraram que só os crentes que detém a mesma fé que crente Abraão são filhos de Abraão, pois a Abraão foi anunciado o Cristo e ele creu. Quando Cristo veio esses mestres tropeçaram na pedra que Deus estabeleceu e a mesa (doutrina) deles se tornou em laço, de modo que perseguiram o aflito de Deus “Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha. Escureçam-se-lhes os seus olhos, para que não vejam, e faze com que os seus lombos tremam constantemente. Derrama sobre eles a tua indignação, e prenda-os o ardor da tua ira. Fique desolado o seu palácio; e não haja quem habite nas suas tendas. Pois perseguem àquele a quem feriste, e conversam sobre a dor daqueles a quem chagaste. Acrescenta iniquidade à iniquidade deles, e não entrem na tua justiça” ( Sl 69:22 -27 ; Is 28:8 ; Is 43:27 ).

É por isso que Jesus disse: “Adverti, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus” ( Mt 16:6 ), pois a mesa deles era um laço: “Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus” ( Mt 16:12 ).

Israel não se alimentou do pasto e das águas tranquilas providenciadas por Deus, antes se assentavam em uma mesa plenas de vômitos e imundícias, uma mesa que não continha o conhecimento de Deus “Porque todas as suas mesas estão cheias de vômitos e imundícia, e não há lugar limpo” ( Is 28:8 ; Is 65:11 ).

Embora os filhos de Jacó fossem os guardiões da lei e do testemunho dos profetas, eles não davam ouvidos à palavra de Deus “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ).

 

Refrigério

“Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome” (v. 3)

O verso 3 complementa a ideia do verso 2:

Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas” (v. 2)

Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome” (v. 3)

O alimento providenciado por Deus proporciona descanso, refrigério e restaura a alma aflita, pois é Ele quem guia as águas tranquilas, ou seja, pelas veredas da justiça A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do SENHOR é fiel, e dá sabedoria aos símplices” ( Sl 19:7 ).

O cuidado do Senhor está atrelado ao zelo do Seu nome, pois Ele é fiel “Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; assim, por amor do teu nome, guia-me e encaminha-me” ( Sl 31:3 ).

As vicissitudes do mundo fazem parte da existência do homem, quer seja salvo ou não ( Jo 16:33 ; Ec 7:14 ), pois foi Deus quem estabeleceu como consequência da ofensa de Adão que o homem se sustentaria (comerá) do suor do seu rosto até retornar ao pó ( Gn 3:19 ). É um erro pensar que os salmos possuem poderes místicos para livrar o homem dos problemas diários.

 

A sombra da morte

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam” (v. 4)

A confiança da ‘ovelha’ no Sumo Pastor pode ser dimensionada através da circunstância que o cerca: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum…”. O motivo de tamanha confiança vem expresso no Salmo 138: “Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos, e a tua destra me salvará” ( Sl 138:7 ).

A penalidade decorrente da ofensa de Adão impôs medo a todos os homens, mas a ‘ovelha’ em comento não teme mal algum ao percorrer as ‘regiões da morte’, pela certeza de que Deus, como Pastor, jamais faltará (v. 1; Hb 2:15 ). Deus é o Pastor da ‘ovelha’ porque ela não pertence ao pecado como os demais homens.

A ‘sombra da morte’ é uma figura para fazer referencia ao mundo dos homens que jazem separados de Deus, ou seja, estão mortos, alienados de Deus “Alguns se assentam nas trevas e nas sombras da morte, presos de aflição e em ferro, por se haverem rebelado contra as palavras de Deus, e desprezado o conselho do Altíssimo (…) Tirou-os das trevas e das sombras da morte e quebrou as suas cadeias” ( Sl 107:10 -11 e 14; Is 9:2 ).

Esta mesma figura é utilizada pelo profeta Isaías quando faz referencia a Cristo como a luz dos povos “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

A humanidade alienada de Deus habita na região da sombra da morte e estão presos por causa da lei que diz: ‘certamente morreras’ ( 1Co 15:56 ). Mas Cristo foi dado como luz dos que jazem em trevas, tirando-os da prisão “Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:7 ); “Para dizeres aos presos: Saí; e aos que estão em trevas: Aparecei. Eles pastarão nos caminhos, e em todos os lugares altos haverá o seu pasto” ( Is 49:9 ); “Venha perante a tua face o gemido dos presos; segundo a grandeza do teu braço preserva aqueles que estão sentenciados à morte” ( Sl 79:11 ); “Para ouvir o gemido dos presos, para soltar os sentenciados à morte” ( Sl 102:20 ).

‘Sombra’ é uma figura que pode representar proteção, abrigo, ou o que é efêmero, passageiro, ou uma imagem desfocada ( Gn 19:8 : Jz 9:15 ; Sl 17:8 ; Jó 8:9 ; Jó 14:2 ; Sl 102:11 ; Hb 10:1 ). O versículo 4 do Salmo 23 faz referencia à condição do homem que está no mundo apenado com a morte em decorrência da ofensa de Adão.

Por causa da ofensa de Adão toda a humanidade passou à condição de mortos para Deus, a retribuição decorrente da ofensa ( Rm 5:15 ).

Deus é vida, e o homem alienado de Deus está morto. Deus é luz, e o homem separado de Deus é trevas. Como a humanidade está morta em delitos e pecados (jaz no maligno), todos os homens residem à sombra da morte, visto estarem alienados de Deus.

Para resgatar a humanidade que estava em trevas, Cristo foi introduzido no mundo, à sombra da morte, de modo que Ele é o Sol nascente das alturas que brilhou sobre a humanidade “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” ( Jo 1:5 ) “Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” ( Lc 1:79 ).

Quando o homem crê em Cristo é arrancado do reino da morte e transportado para o reino do Filho do amor de Deus ( Cl 1:13 ); “Então clamaram ao SENHOR na sua angústia, e os livrou das suas dificuldades. Tirou-os das trevas e sombra da morte; e quebrou as suas prisões. Louvem ao SENHOR pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens. Pois quebrou as portas de bronze, e despedaçou os ferrolhos de ferro” ( Sl 107:13 -16).

Mas a profecia é mais especifica: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte…” (v. 4). A sombra da morte refere-se à humanidade alienada de Deus, o vale refere-se aos filhos de Jacó que não se deixam alcançar pela luz.

O profeta Jeremias nomeia os filhos de Jacó como a ‘moradora do vale’, ‘pedra da campina’ “Eis que eu sou contra ti, ó moradora do vale, ó rocha da campina, diz o SENHOR; contra vós que dizeis: Quem descerá contra nós? Ou quem entrará nas nossas moradas?” ( Jr 21:13 ); “Por isso farei de Samaria um montão de pedras do campo, uma terra de plantar vinhas, e farei rolar as suas pedras no vale, e descobrirei os seus fundamentos” ( Mq 1:6 ).

Quando João Batista passou a clamar no deserto da Judeia dizendo: – “Arrependei-vos”, buscava cumprir a sua missão: aplainar o caminho do Senhor. Era imprescindível uma mudança de concepção acerca de como ser salvos, abandonando as veredas não aplainadas por Deus ( Is 40:2 -3 ; Is Lc 1:76 ; “Contudo o meu povo se tem esquecido de mim, queimando incenso à vaidade, que os fez tropeçar nos seus caminhos, e nas veredas antigas, para que andassem por veredas afastadas, não aplainadas” ( Jr 18:15 ).

O ‘vale’ diz dos filhos de Jacó que se opuseram a Cristo, conforme descrevem os Salmos 69, 22, 64, etc. Por que o Cordeiro de Deus não haveria de temer quando no vale entre os leões? “A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada” ( Sl 57:4 ). Porque estaria abrigado à sombra das asas de Deus ( Sl 57:1 ; Sl 91:1 ).

Enquanto os que habitavam nas regiões da sombra da morte viram uma grande luz, os que estavam no vale da sombra da morte se opuseram à luz verdadeira, tornando-se opositores da luz “Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo” ( Jo 1:9 ; Jo 10:36 ).

Fazer a vontade de Deus é ser guiado em terra aplainada, o caminho preparado por Deus “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ). Cristo foi guiado por terra plana “Ensina-me a fazer a tua vontade, pois és o meu Deus. O teu Espírito é bom; guie-me por terra plana” ( Sl 143:10 ).

 

Uma mesa na presença dos inimigos

“Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda” (v. 5).

Do verso 4 para o verso 5 ocorre uma transição de cenário, onde havia pasto e águas, agora há uma mesa posta.

Enquanto os versos 1 a 4 enfatizam o cuidado do Senhor e a confiança do Servo, nos versos que se seguem, a ênfase está missão do Servo.

Os versos de 1 a 4 destacam que o Servo do Senhor estava sob o cuidado de Deus em virtude da missão que lhe foi confiada. Já os versos 5 a 6 destacam a finalidade do cuidado dispensado ao homem que se posiciona como ovelha.

O cenário do campo e das águas tranquilas é desfeito abruptamente e se volta para uma mesa posta em um ambiente de hostilidade. A parábola do Salmo 23 e as suas figuras ganham novo contorno: o cuidado de Deus tem em vista preservar a vítima da festa.

O quadro bucólico dos versos 1 a 4 (ovelha, campo, água) é substituído no verso 5 por uma ‘mesa preparada’ que representa tanto a vontade do Sumo Pastor quanto a satisfação do Servo eleito em realizar a vontade do seu Senhor. Através da mesa preparada demonstra-se o prazer do Servo do Senhor em atender a vontade de Deus.

O Servo do Senhor destaca que Deus (o Sumo Pastor) preparou uma mesa em uma ocasião nada favorável: na presença dos seus inimigos. Há uma mesa preparada, mas qual é o seu significado? “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos…” (v. 5).

A figura da ‘mesa preparada’ tem a conotação de proporcionar prazer a alguém. Como o prazer do Servo fiel é fazer a vontade de seu Senhor, a mesa preparada representa a vontade de Deus. A mesa posta na presença dos inimigos não guarda relação com o sustento cotidiano, antes reúne em uma mesma figura a vontade expressa de Deus e o prazer do seu Servo.

Quando lemos a declaração de Jesus, que diz: “… convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” ( Lc 24:44 ), e que a ‘comida’ de Cristo era fazer a vontade de Deus Pai, é possível saber o que foi posto sobre a mesa “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

O testemunho do Salmo 23 não diz do salmista Davi, ou de qualquer outra pessoa. O Salmo 23 é um testemunho específico acerca do Cristo, que se apresentou para fazer a vontade de Deus “Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” ( Sl 40:7 -8; Hb 10:9 ).

Tudo o que está escrito no rolo das Escrituras testificam de Cristo, pois Ele teve prazer em fazer a vontade de Deus. O deleite, o alimento de Cristo, era fazer o prescrito por Deus, pois a lei de Deus é refrigério “A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma” ( Sl 19:7 ; Sl 23:2 ).

Para identificarmos que tipo de alimento foi servido à mesa que o Senhor preparou para o Messias não podemos ter a mesma visão dos discípulos quando pediram ao Senhor Jesus que comesse: “E entretanto os seus discípulos lhe rogaram, dizendo: Rabi, come. Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis. Então os discípulos diziam uns aos outros: Trouxe-lhe, porventura, alguém algo de comer?” ( Jo 4:31 -33).

É necessário ver além! A comida de Cristo que os discípulos não conheciam refere-se a realizar a vontade de Deus. Quando lemos: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou ( Jo 5:30 ); “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ), percebe-se que a vida de Cristo era realizar a vontade Deus “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ), vemos que a vida do Messias foi alimentar-se à mesa de Deus.

Como Cristo veio ao mundo para cumprir a vontade do Pai, a lei, os salmos e os profetas era o alimento colocado à mesa. As escrituras é a mesa preparada que, para o Cristo teve peso de glória porque fez a vontade do Pai, enquanto para os filhos de Jacó a mesma mesa tornou-se ‘laço’ e ‘tropeço’ “Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha”( Sl 69:22 ). A mesa de Deus que estava diante dos filhos de Jacó diz da mesa mesa preparada perante o Cristo “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos…” ( Sl 23:5 ).

Enquanto a descrição da vida e ministério de Cristo nas Escrituras, ou o cumprimento das Escrituras na vida e no ministério de Cristo era a mesa preparada perante os opressores de Cristo, o cálice diz das agruras da cruz. Quando Jesus estava no Getsemani, começou a entristecer-se e a angustiar-se, foi quando Jesus por três vezes fez a seguinte oração ao Pai, dizendo: “E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” ( Mt 26:42 ); “A minha alma está cheia de tristeza até a morte” ( Mt 26:38 ).

O Messias saiu do Getsemani resoluto e certo de uma coisa: “Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores” ( Mt 26:45 ). Ele tinha plena certeza do que Deus havia reservado “Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora” ( Jo 12:27 ).

Quando Cristo se entregou aos homens segundo a vontade do Pai, ali estava fazendo a vontade de Deus na presença dos seus inimigos. Enquanto os homens contemplavam o Cristo ser crucificado, na verdade, Cristo estava à mesa, realizando (comendo) a vontade do Pai. Além de fazer a vontade de Deus, ao final da ‘refeição’, Jesus bebeu o cálice que Deus lhe deu “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Enquanto os inimigos injuriavam e se arremetiam contra o Ungido do Senhor, Cristo estava bebendo o cálice dado por Deus, pois era do agrado de Deus enfermá-Lo e moê-Lo “Mas Jesus disse a Pedro: Põe a tua espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” ( Jo 18:11 ); “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” ( Jo 10:18 ); “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” ( Is 53:10 ).

Cristo sabia que, após comer à mesa posta pelo Pai (fazendo a vontade de Deus), e, bebendo o cálice (sujeitando-se à ignomínia da cruz), receberia a recompensa “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).

Na cruz o Filho estava pagando o seu voto diante dos filhos do seu povo ( Sl 116:14 e 18). Dele estava escrito: “Eis aqui venho (…) Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu” ( Sl 40:7 -8). É por isso que Jesus declarava abertamente: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ).

 

A bondade e a misericórdia

“Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias” (v. 6)

Apesar de saber que Deus haveria de lhe dar um cálice a beber, a confiança do Cristo em Deus é imutável, pois confessa: a bondade e a misericórdia certamente me seguirão, por fim, após ser participante da mesa e do cálice tinha plena confiança que habitará eternamente junto ao Pai.

A certeza de que a bondade e a misericórdia de Deus e abundancia de dias decorre da obediência de Cristo “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:10 ). Deus havia estabelecido que teria misericórdia dos que O obedecem, e como a comida, o prazer de Cristo era executar a vontade de Deus, a bondade e a misericórdia de Deus era certa, de modo que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos ( Sl 56:13 ; Is 53:12 ; Pv 14:32 ; Sl 30:3 ; Sl 49:15 ; Sl 88:3 ).

 

O Servo do Senhor é cordeiro morto desde a fundação do mundo

Como homem, Jesus confiou inteiramente no Pai, de modo que nesta previsão escrita por Davi ( At 2:30 ; At 4:25 ), temos o Verbo encarnado expressando a sua confiança em Deus assim como uma ovelha entrega-se ao cuidado do Pastor.

O salmo apresenta uma figura própria ao servo do Senhor: o cordeiro de Deus “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca” ( Is 53:7 ). Neste salmo as figuras ‘servo’ e ‘cordeiro’ fundem-se “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” ( Is 42:19 ); “Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca. Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação” ( Sl 38:13 -14).

Na condição de ovelha o Cristo teve o Pai como pastor. O que isto significa? Que o descendente prometido a Davi assumiria a condição de servo ( Is 42:1 ; Is 49:5 ), e que os servos não fazem a sua própria vontade, antes esperam inteiramente em seu senhor “Assim como os olhos dos servos atentam para as mãos dos seus senhores, e os olhos da serva para as mãos de sua senhora, assim os nossos olhos atentam para o SENHOR nosso Deus, até que tenha piedade de nós” ( Sl 123:2 ).

No Salmo 23 a relação ‘Senhor’ e ‘servo’, ‘Pai’ e ‘Filho’ é apresentada através de uma nova figura: ‘pastor’ e ‘ovelha’. Lembremos que Deus veio em carne e habitou entre os homens “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ). Ao assumir um corpo à semelhança da carne do pecado ( Rm 8:3 ; HB 10:5 ), Cristo se sujeitou às mesmas paixões que os homens ( Lc 22:28 ; Hb 4:15 ; Hb 2:17 ).

Para cumprir a missão dada pelo Pai, o Verbo que habitava o esconderijo do Altíssimo foi introduzido no mundo e, quando no mundo dos homens (região da sombra da morte) esteve abrigado sob as asas do Onipotente porque em tudo foi obediente “AQUELE que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará” ( Sl 91:1 ; Is 9:2 ).

A promessa do Pai ao Filho enquanto na região da sombra da morte era de que o Cristo não seria deixado na morte e que nem um dos seus ossos seria quebrado ( Sl 16:10 ; Sl 49:9 ; Sl 34:20 ). As promessas de Deus são firmes, pois Ele zela do Seu nome ( Sl 138:2 ).

É em função do cordeiro que seria morto na plenitude dos tempos, mas que foi morto desde a fundação do mundo, que destacamos que o Salmo 23 não foi escrito na perspectiva de um rebanho de ovelhas, antes foi redigido na perspectiva de uma ovelha que necessitava de proteção para ser oferecida como vitima segundo a vontade de Deus.

 

Cristo – O Bom Pastor

O salmo 23 foi analisado na perspectiva da Ovelha escolhida por Deus para beber o cálice da ignomínia – Cristo – o Servo do Senhor ( Jo 8:15 ; Jo 12:47 ) “PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. E deleitar-se-á no temor do SENHOR; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos. Mas julgará com justiça aos pobres, e repreenderá com equidade aos mansos da terra; e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará ao ímpio, E a justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade o cinto dos seus rins” ( Is 11:1 -5; Is 4:2 ).

Cristo, o rebento do tronco de Jessé prometido por Deus é fonte de água que jorra para a vida eterna ( Jo 4:14 ). Ele é o pão vivo que desceu dos céus ( Jo 6:51 ). Quem crê em Cristo, o Verbo que se fez carne, passa a viver especificamente da palavra que sai da boca de Deus ( Jo 6:58 ).

O tronco de Jessé é Deus feito homem habitando com os homens (Deus conosco), e neste quesito, Ele é o Bom Pastor que deu a sua vida pelas ovelhas ( Jo 10:11 e 14; Is 9:6 ). Para as ovelhas, os verdes pastos e a água perene são os ensinos de Cristo ( Ef 1:3 ; 1Co 1:5 ; 2Pe 1:3 ; Mt 28:20 ).

Jesus é o Bom Pastor e por isso disse aos seus discípulos: “NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim” ( Jo 14:1 ); “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:36 ); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

No Salmo 110, Davi ‘em espírito’ chamou o Filho de Deus de ‘meu Senhor’, já no Salmo 23, em espírito temos o Filho de Deus, na condição de Cordeiro escolhido, chamando o Pai de pastor.

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará” ( Sl 23:1 );

“DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

Mas, na plenitude dos tempos, o Senhor Jesus Cristo anunciou ser o Bom Pastor: “Eu sou o bom Pastor… “ ( Jo 10:11 e Jo 10:14 ; Ef 1:10 ; Gl 4:4 ). Por quê? Porque o Jesus de Nazaré, que foi reputado por aflito de Deus, antes de ser introduzido no mundo, era o Verbo eterno que estava com Deus. Devemos enxergar o rebento de Jessé de dois modos: a) em ignomínia; b) glorioso.

Da mesma forma que os homens ficaram pasmos diante do Cristo crucificado, hão de ficar pasmos diante da sua glória ( Is 52:13 -15). Num primeiro momento o renovo justo não tinha parecer e nem formosura ( Is 53:2 ), em um tempo vindouro se apresentará cheio de beleza ( Is 4:2 ).

Por que Jesus utilizou o predicativo ‘bom’ ao identificar-se como Pastor? Porque Ele é o Verbo de Deus encarnado ( Jo 1:14 ), o Deus Altíssimo ( Is 57:15 ), o Senhor entronizado conforme prediz o Salmo 45: “O Teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a retidão e odeias a impiedade; portanto Deus, o teu Deus te ungiu com o óleo de alegria, mais do que a teus companheiros” ( Sl 45:6 -7).

Compare:

“DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

“O Teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo (…); portanto Deus, o teu Deus te ungiu com o óleo de alegria, mais do que a teus companheiros” ( Sl 45:6 -7).

No salmo 45 Jesus é apresentado pelo salmista no reino da sua glória, o Senhor Deus que reina com justiça e equidade, do mesmo modo que foi apresentado no salmo 110 em igualdade com o Pai. O escritor aos Hebreus destaca este fato: “Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino” ( Hb 1:8 ).

Sem sombras de dúvidas Jesus Cristo é o Bom Pastor, visto que, Ele e o Pai são um: “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ).

A relação ‘Pai’ e ‘Filho’ não existia na eternidade, pois as pessoas da divindade na eternidade são co-iguais e co-eternas. Somente quando o Verbo foi introduzido no mundo, passou a ter eficácia o acordo estabelecido na eternidade, como se lê: “Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho?” ( Hb 1:5 ).

Na eternidade não havia a relação Pai e Filho, mas ao ser introduzido o Unigênito no mundo, ficou estabelecido: ‘Eu lhe serei por pai, e tu me será por Filho’. O termo ‘hoje’ utilizado em algumas profecias refere-se a eventos pertinentes ao mundo dos homens.

Os que recebem a Cristo estão sob a proteção do Bom Pastor, de modo que em tudo os que creem em Cristo têm toda suficiência, ou seja, de ‘… nada têm falta’! “Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem” ( Sl 34:9 ; 2Co 9:8 ).

Há os que pensam que a promessa de que ‘nada faltará’ àqueles que têm a Cristo como Senhor lhes proporcionará farturas de bens materiais aqui neste mundo, porém, estão equivocados em suas mentes carnais. O apóstolo Paulo explica que Deus é poderoso para fazer abundar toda graça com o objetivo de que os cristãos tenham sempre, em tudo, toda suficiência.

Os cristãos terão fartura (abundeis) em toda boa obra, e não em riquezas materiais. Com relação aos bens materiais, será agraciado com suficiência em tudo. Mesmo no pouco, o cristão possui suficiência, contentamento ( 1Tm 6:6 ).

Aquele que tem Cristo como Pastor (meu), é ovelha do seu aprisco “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem” ( Jo 10:27 ). Entram no aprisco do Senhor e encontraram paz e descanso para a suas almas ( Mt 11:29 ), porém, as aflições deste mundo persistem ( Jo 16:33 ).

Jesus anunciou ser:

  • A Porta – ‘Eu sou a porta’ ( Jo 10:9 ) – Ou seja, Cristo é a porta das ovelhas, pela qual os homens que ouvirem a sua voz necessitam entrar para serem salvos ( Mt 7:13 );
  • O Bom Pastor ( Sl 10:11 ) – ‘Eu sou o bom Pastor’ ( Jo 10:11 ) – Aquele que dá a sua vida em prol das ovelhas.

Aqueles que entram por Cristo, a porta estreita, são comparados a ovelhas, visto que o Pastor é quem guia pelas veredas eternas. Ora, qualquer que entra pela porta estreita que é Cristo, está num caminho estreito que o conduz a vida eterna “Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida…” ( Mt 7:14 ), e encontra descanso para a alma ( Mt 11:29 ; Sl 118:20 ).

A figura do ‘caminho apertado’ quanto a o ‘Bom Pastor’ é Cristo, visto que:

  • ‘o caminho apertado’ conduz o homem a Vida, e;
  • O Bom Pastor conduz ‘as ovelhas’ as águas tranquilas.

Qualquer que crê em Cristo de nada tem falta e alcança o descanso prometido. Aquele que confia em Cristo encontra descanso, conforme o escritor aos Hebreus escreveu: “Ora, nós que temos crido, entramos no descanso…” ( Hb 4:3 ). Após crer no Bom Pastor, que é Cristo Jesus, as suas ‘ovelhas’ descansam, pois é Ele quem guia as ‘ovelhas’ em segurança à vida eterna “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ).

A confiança em Cristo como pastor proporciona aos seus seguidores descanso, segurança e refrigério. Tal condição é descrita pelo apóstolo Paulo como ‘estar assentado’ em Cristo Jesus nas regiões celestiais ( Ef 1:3 ).

Jesus, o Bom Pastor, é o caminho de Justiça que conduz os homens a Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ). Somente trilham o novo e vivo caminho aqueles que são nascidos da água (palavra) e do Espírito (Deus) ( Hb 10:20 ).

Todos quantos tem o Senhor Jesus como Pastor são crucificados, morrem e são sepultados com Cristo “Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será nosso guia até à morte” ( Sl 48:14 ; Rm 6:6 ), porém, ressurgem vitoriosos em Cristo, sendo criados de novo em verdadeira justiça e santidade ( Cl 3:1 ).

As palavras do Pastor, a verdade do evangelho, desempenham a função da vara e do cajado: guia, correção e consolo ( Jo 10:4 ; Jo 5:24 ). É o Senhor quem peleja em favor daqueles que creem no bom Pastor ( Ex 14:14 ). Quantos inimigos o Senhor Jesus derrotou na sua morte? O mundo, a carne, o pecado, satanás e as potestades, de modo que, os seus seguidores são mais que vendedores!

Por desconhecer que os salmos são profecias em forma de cânticos e poesias, e que tais profecias têm por tema o Cristo e a sua obra, muitos buscam proteção nas promessas contidas nos salmos. Se as pessoas buscassem nos salmos o conhecimento do Santo, encontrariam proteção e descanso para a alma, pois encontrariam a salvação de Deus em Cristo “E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, e de Hemã, e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos, e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério” ( 1Cr 25:1 ).

Se os leitores dos salmos compreenderem que as promessas dos salmos dizem do Messias, e que por Ele ser o ungido do Senhor, que Deus reservou para o Cristo um cálice a beber, não teriam uma visão superficial dos salmos.

Na sua maioria, os leitores dos salmos querem ‘se assentar à direita e a esquerda do Cristo em seu reino’, porém, desconhecem, como os filhos de Zebedeu, que o cálice que Cristo ia beber era derramar a sua alma na morte “Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos” ( Mt 20:22 ).

Para alcançar as promessas de Deus é essencial que o homem beba o cálice dado pelo Pai: crer em Cristo. Quando o homem crê em Cristo, significa que pegou a sua própria cruz e seguiu após Cristo até o calvário, foi morto, sepultado e ressurgiu segundo o poder de Deus. Aquele que crê que Cristo, o Jesus de Nazaré, é o Bom Pastor, bebeu o cálice de Cristo “E diz-lhes ele: Na verdade bebereis o meu cálice e sereis batizados com o batismo com que eu sou batizado, mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado” ( Mt 20:23 ).




Como não tomar a ceia do Senhor indignamente?

Demonstre que o cálice de bênção que eles abençoam representa a comunhão do corpo de Cristo, ou seja, embora haja muitos cristãos ali congregados, todos são um só pão e um só corpo ( 1Co 10:17 ). Enfatize que todos são um pão! Que todos são um só corpo, pois todos participam de um mesmo pão, o corpo de Cristo ( 1Co 10:17 ).


Como não tomar a ceia do Senhor indignamente?

Tempo mínimo de exposição da mensagem: 1 hora.

Este é um sermão expositivo e tem por objetivo fazer com que os seus ouvintes compreendam o que representa o cálice e o pão dos quais os cristãos fazem uso para comemorar a morte do Senhor até que Ele venha.

Como a abordagem é complexa você precisará utilizar textos ancoras para fazer a plateia compreenda a exposição. Como expositor da palavra, você deve estar cônscio de que a compreensão é essencial, conforme demonstrou o Mestre por excelência ( Mt 13:19 )

 

1° Parte – Você precisará de pelo menos 15 minutos.

Em uma abordagem inicial, explique aos seus ouvintes que a mensagem é complexa, mas que, com o auxilio deles a mensagem será inteligível. Esclareça que após ouvirem a mensagem, cada cristão presente na reunião será capaz de responder a seguintes questões:

  • O que representa o cálice?
  • O que representa o pão?
  • O que é tomar o cálice indignamente?

Convide os seus ouvintes para ler I Coríntios 3, verso 16, que diz: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ). Após pergunte a eles o que eles são. Todos vocês são….? Quem habita em vocês…..? A resposta deve ser enfatizada pelo expositor, que no caso é você!

Solicite que leiam Gálatas 3, verso 26: “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” ( Gl 3:26 ). Após a leitura, questione: Pelo evangelho (fé) todos vocês são…? Obtenha uma resposta de seus ouvintes!

Após, leia a primeira carta de João 3, verso 1: VEDE quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus. Por isso o mundo não nos conhece; porque não o conhece a ele” ( 1Jo 3:1 ). Agora pergunte a eles o que estão vendo. O que João pede aos seus leitores que vissem? Que todos são chamados filhos de Deus! Leia o verso seguinte é aponte a seriedade das palavras que você está apresentando: “Amados, agora somos filhos de Deus…” ( 1Jo 3:2 ). Aponte que todos são amados! Demonstre o tempo: Agora somos filhos! Não será amanhã! É agora, pois Deus é o Deus de já!

Leia Efésios 5, verso 8: “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR” ( Ef 5:8 ). Pergunte o que somos e aguarde que respondam!

Para finalizar a abordagem inicial, peça que o acompanhe na leitura de primeira Pedro 2, verso 4, 5 e 9: “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (…) Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:4 -5 e 9).

Faça os recordar enumerando a condição deles: – Todos vocês pela fé em Cristo são filhos, luz, templo, casa, sacerdotes, pedras vivas, nação santa, povo adquirido, etc.

 

2° Parte – Você precisará de 25 minutos.

Solicite que leiam juntamente com você a passagem de 1 Coríntios 10, verso 15 ao 17, e vá interpretando cada parte do verso a medida que você for evoluindo a leitura.

“Falo como a entendidos; julgai vós mesmos o que digo” ( 1Co 10:15 ) – Demonstre que o apóstolo Paulo havia escrito aos cristãos de Coríntios e que agora ele espera que analisem a questão como sábios. Que deveriam analisar (julgar) o que seria exposto.

“Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo?” ( 1Co 10:16 ) – Pergunte à plateia o que é o cálice segundo o versículo. Agora, pergunte quem é que abençoa o ‘cálice de bênção’. Talvez você não obtenha uma resposta, mas deve demonstrar que, da mesma forma que somos filhos, luz, casa, templo, etc., somos ‘nós’, ou seja, todos os seus ouvintes que abençoam o cálice.

Demonstre o quanto as pessoas são propensas a acreditar em promessas vazias, como que receberá uma casa, um emprego, visões de chaves de carros, etc., porém, quando a Bíblia diz que somos nós que abençoamos o cálice poucos creem.

O que representa o cálice de bênção que abençoamos? Após perguntar, demonstre que o cálice que abençoamos representa a comunhão do corpo de Cristo!

Para dirimir a dúvida deles quanto a saber se são eles mesmos que abençoam o cálice, solicite que leia Mateus 23, verso 16 à 19. Explique que os fariseus eram os mestres à época de Cristo, por isso são nomeados de condutores, porém, eram cegos. Todos que eram guiados por eles estavam perdidos! ( Mt 23:17 ).

Apresente o entreve que os fariseus apresentavam ao povo quanto ao que santifica o que. Para eles o ouro que revestia o templo era mais importante que o templo, porém é o templo que santifica o ouro, ou seja, demonstre que cada um deles são templo, casa, habitação do Deus vivo, e que, portanto, são eles que consagram as coisas exteriores. Se Eles são templo, eles são superiores a ouro.

Demonstre que, assim como o autor é mais importante que o sacrifício, cada cristão é mais importante que tudo que é oferecido a Deus, pois são luz, filhos, casa, templo, sacerdote, etc.

Demonstre que o cálice de bênção que eles abençoam representa a comunhão do corpo de Cristo, ou seja, embora haja muitos cristãos ali congregados, todos são um só pão e um só corpo ( 1Co 10:17 ). Enfatize que todos são um pão! Que todos são um só corpo, pois todos participam de um mesmo pão, o corpo de Cristo ( 1Co 10:17 ).

Agora você deve demonstrar qual a importância de cada um dos seus ouvintes se comparados ao cálice e ao pão que haverão de participar na comemoração da morte do Senhor.

Enfatize que o ser humano gosta de inverter o valor das coisas. Ex: Dá-se mais valor a bandeira do que as pessoas que a empunham; Dá-se mais valor ao estado, do que aos cidadãos; valoriza-se mais as instituições do que os seus associados, etc.

Demonstre que o cálice de vinho do qual todos serão participantes no cerimonial não possui valor maior do que os seus ouvintes. Demonstre que enquanto o cálice e o pão representa a comunhão do sangue e do corpo ( 1Co 10:16 ), cada um deles é o corpo de Cristo.

Demonstre que cada um ali presente não veio de suas casas para ser abençoado ou purificado pelo cálice e pelo pão, antes cada um são membros do corpo de Cristo, e por tanto, são aqueles que abençoam o cálice e o pão.

Relembre que tudo que o Antigo Testamento representa era sombra das coisas futuras, e que a realidade está em Cristo. Tudo que era feito e ofertado sob a velha aliança era somente sombra, mas agora somos filhos, templo, sacerdotes, luz, casa, etc. A mesa do qual todos participam somente representa aquilo que todos são: um só corpo, um só espírito, um só batismo ( Ef 4:4 ; Rm 6:3 ; Gl 3:27 ).

 

3° Parte – Você precisará de 20 minutos.

O texto base será primeiro Coríntios 11, verso 17.

Você precisará demonstrar que a igreja de corintos possuía uma diversidade cultural muito grande, pois havia ricos, pobres, servos, livres, judeus, gentios, homens e mulheres, etc. Enquanto cada um estava em suas casas as diferenças não apareciam, porém quando se reuniam as diferenças se evidenciavam, e muito se deixavam levar pelas aparências, pois se esqueciam que cada um eram um mesmo pão, membros de um mesmo corpo.

Demonstre que:

  • Não seriam elogiados quanto a reunião da ceia ( 1Co 11:17 );
  • A reunião não era para melhor, mas para pior ( 1Co 11:17 );
  • Havia divisões, o que não ocorre num corpo ou num pão ( 1Co 11:18 );
  • Quando se reuniam não era para cear ( 1Co 11:20 );
  • Antes cada um fazia a sua própria, mas não a do Senhor ( 1Co 11:21 );
  • Repreensão pelo comportamento contrário ao evangelho ( 1Co 11:22 );
  • Relembrando o que já foi ensinado ( 1Co 11:23 à 25);
  • Quando se bebe o cálice e come o pão, somente anuncia-se a morte do Senhor, ou seja, ninguém é abençoado por isso, antes todos são benção no Senhor porque são filhos, ou seja, herdeiros da promessa ( 1Co 11:26 );
  • Quem comer o pão e beber o cálice indignamente é culpado da carne e do sangue de cristo ( 1Co 11:27 );
  • Cada um deveria se auto examinar e comer, ou seja, não se deve abrir mão de ser participante da mesa ( 1Co 11:28 );
  • Embora muitos entendam que ser culpado, indigno de participar da mesa do Senhor tem relação com os possíveis comportamentos reprovável que podem ocorrer no dia-a-dia, a Bíblia demonstra que indigno é aquele que não discerne, não compreende o que é o corpo do Senhor. Se você não compreende que cada cristão é membro do mesmo corpo, você é indigno de ser participante da mesa que contém os elementos que representa todos ali reunidos “Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do SENHOR” ( 1Co 11:29 ).

 

“Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do SENHOR ( 1Co 11:29 ).

Explique o significado de comer e beber indignamente, ou seja, a condição de condenação. Qualquer que não discerne (grego – diakrino), ou seja, não compreende que judeus, gentios, pobres, ricos, livres, escravos, homens e mulheres são membros de um mesmo corpo ( Gl 3:28 ), são participantes da carne e do sangue de Cristo é indigno, pois todos que compreendem esta verdade é porque creu em Cristo segundo as escrituras.

Somente os filhos da luz, aqueles que são luz no Senhor são dignos do reino de Deus e de participarem da mesa “Prova clara do justo juízo de Deus, para que sejais havidos por dignos do reino de Deus, pelo qual também padeceis” ( 2Ts 1:5 ).

Se para aquele que está em Cristo não há nenhuma condenação, isso significa que o indigno é aquele que participa da mesa sem ser membro do corpo ( Rm 8:1 ; Rm 12:5 ).

Para concluir enfatize que todos se tornaram um só corpo, uma só carne com Cristo “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:30 ). Ou seja, Deus é a verdade e os seus ouvintes são um com a Verdade “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” ( Jo 17:11 ).

O grande mistério foi resolvido, ou seja, isto diz de Cristo e sua Igreja ( Ef 5:32 ). Quando nos unimos a Cristo como igreja, nos tornamos membros do seu corpo ( Ef 5:30 ). Ao tornar-se um só corpo com Cristo, a verdade que liberta, você ‘conheceu’ a Deus e és livre! ( Jo 8:32 ).

Só ‘conhece’ a ‘Verdade’ aquele que deixou pai e mãe e uniu-se ao esposo, que é Cristo. Este não é indigno de participar da mesa que anuncia a morte do Senhor até que Ele venha.