Três passos do verdadeiro arrependimento

A mudança de concepção (arrependimento) anunciada por Jesus só ocorre quando o homem tem contato com a verdade do evangelho. O arrependimento verdadeiro se dá quando o homem deixa de lado as suas crenças ao receber a luz do evangelho e crê que Jesus é o Filho de Deus, que veio em carne, morreu, ressurgiu e está assentado à destra de Deus nas alturas.


Analisando a definição de arrependimento de João Calvino

 

Penitência é arrependimento?

João Calvino dá ao arrependimento os seguintes termos:

“… a penitência poderia ser, assim, definida: é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, a qual procede de um sincero e sério temor de Deus, que consiste na mortificação da nossa carne e do homem velho e na vivificação do Espírito”. [1] Calvino, João, 1509-1564, A Instituição da Religião Cristã – tomo 2, volume 2, tradutora Elaine C. Sartorelli, São Paulo – Editora UNESP, 2009, pág. 72.

Faz-se necessário analisar a definição de João Calvino, assim, como, de qualquer outro que se apresente como mestre, devido ao alerta do apóstolo João, que recomendou julgar as palavras dos homens, se é de Deus, ou não, visto a quantidade de falsos profetas que se levantam no mundo: “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4:1).

Analisaremos a definição de arrependimento, dada por Calvino, através de outra exposição dele, que consta no texto ‘Três Passos do Verdadeiro Arrependimento’, que pode ser visto no link: < http://www.ocalvinista.com/2010/01/tres-passos-do-verdadeiro.html >, visto que, em nossos dias, há muitos que se dizem calvinistas, mas o que divulgam, às vezes, não reflete a ideia registrada por Calvino.

Penitência, arrependimento ou mudança de concepção?

Começaremos a análise da definição de arrependimento construída por João Calvino, primeiro analisando o termo grego traduzido por arrependimento.

Se analisarmos o termo grego ‘metanoia’, que comumente é traduzido por arrependimento, teremos o seguinte significado: mudança de pensamento, pensar diferente, reavaliar uma ideia, mudar de concepção, mudança de mentalidade, mudança de visão, mudança de opinião, mudança de propósito, etc.

Mas, quando o termo ‘metanoia’ foi traduzido para a vulgata latina, em lugar de mudança de pensamento, traduziram-na em latim por ‘paenitentia’. Onde deveria constar: ‘Mudem de concepção’, passou-se a ler: “Façam penitência” – ‘Pœnitentiam agite: appropinquavit enim regnum cælorum’.

Ora, verifica-se que o termo ‘paenitentia’ foi utilizado para refletir a concepção católica de que a salvação era obtida através de atos de caridade, doações, indulgências, etc.

Com o advento da reforma protestante, houve um interesse de se voltar à ideia bíblica, e alguns tradutores ingleses passaram a utilizar os verbos correspondentes ‘repent’ e o substantivo ‘repentance’, em lugar do ‘paenitentia’.

A tradução portuguesa da Bíblia de João Ferreira de Almeida, sob influência, passou a traduzir o termo ‘metanoia’ por ‘arrependimento’, porém, a concepção bíblica de arrependimento continua sendo conduzida ao bel sabor da religiosidade e deixa de refletir o ideário das Escrituras.

O que significa arrepender-se? Arrepender-se é lamento por erros cometidos? É tristeza profunda por causa do pecado? Um sentimento de remorso? Adotar uma religião? Deixar certas condutas? Adotar novas práticas?

Na exposição de Calvino, que data do século XV, a palavra que ele utilizou para tratar do tema arrependimento, era ‘penitência’, termo utilizado na vulgata latina para traduzir o termo grego ‘metanóia’, que, estritamente, significava mudar de pensamento, pensar diferente, reavaliar uma postura, mudar de ideia, o que implica em mudança de mentalidade, de visão, de opinião, de propósito.

Vê-se na exposição de João Calvino que ele conhecia o real significado do vocábulo grego ‘metanoia’, pois deixou registrado:

“O termo arrependimento foi, para os hebreus, derivado da palavra que significa expressamente conversão ou retorno; para os gregos, ele veio do vocábulo que quer dizer mudança da mente e de desígnio. À etimologia de um e outro desses dois termos não se enquadra mal o próprio fato, cuja síntese é que, emigrando de nós mesmos, nos voltemos para Deus; e, deposta a mente antiga, nos revistamos de uma nova.”  Idem, pág 74.

Agora, devemos analisar se ele compreendeu, de fato, o arrependimento bíblico ou, se reproduziu aspectos da ‘penitencia’, como se ‘penitencia’ fosse ‘arrependimento’.

“Por isso, usaram esses termos, indiscriminadamente, com o mesmo sentido: converter-se ou volver-se para o Senhor, arrepender-se e fazer penitência” Idem, pág. 74.

Jesus é o motivo da mudança de pensamento

Quando lemos: “Arrependi-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3:2), o que João Batista proclamava era uma mudança de concepção. A mudança de concepção ocorreu em função da chegada do Cristo, não em função dos erros e das condutas dos ouvintes de João Batista.

Abandonar erros, atitudes, comportamentos, pensamentos, sentimentos, emoções, etc., não é o arrependimento proposto por João Batista. João Batista propõe mudança radical de concepção, à vista do reino dos céus, em meio aos homens, não em função da percepção de erros.

João Batista foi o precursor anunciado pelo profeta Isaías: “Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas” (Mt 3:3), e a mensagem de João tinha o fito de preparar o coração do povo para a chegada do Messias.

Ora, a mudança de mentalidade não demandava remorso ou tristeza, por causa das ações de ordem moral e comportamental dos filhos de Israel. A mudança anunciada por João Batista, era em função da presença de Cristo, em meio aos homens.

A mudança de concepção anunciada só ocorre quando o homem tem contato com a verdade do evangelho. Quando o homem ouve a mensagem do evangelho e abandona sua antiga concepção acerca de como servir a Deus, ocorre o arrependimento. O arrependimento verdadeiro se dá quando o homem deixa de lado as suas crenças ao receber a luz do evangelho e crê que Jesus é o Filho de Deus, que veio em carne, morreu, ressurgiu e está assentado à destra de Deus nas alturas.

Se o homem mudar a sua concepção e abraçar qualquer outro evangelho que não for conforme o anunciado por Cristo e os apóstolos, não ocorreu o arrependimento de fato, pois o arrependimento para a salvação, é crer, especificamente, na doutrina de Cristo.

Ao ver que os escribas e fariseus vinham ao batismo e permaneciam de posse de suas convicções, acerca de como serem salvos (os escribas e fariseus após o batismo continuavam dizendo que tinham por pai Abraão), João Batista alertou, dizendo: “Não presumais de vós mesmos, dizendo: temos por pai a Abraão” (Mt 3:9).

O arrependimento não estava no batismo, mas na mudança de entendimento, diante da mensagem anunciada. A partir do momento em que os escribas e fariseus se dispuseram ao batismo, deviam deixar de considerar que eram salvos por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão, vez que a salvação de Deus foi manifesta em Cristo.

Observe o que o profeta Ezequiel, ao tratar do tema, diz:

“Pois que reconsidera, e se converte de todas as suas transgressões que cometeu; certamente viverá, não morrerá. Contudo, diz a casa de Israel: O caminho do Senhor não é direito. Porventura não são direitos os meus caminhos, ó casa de Israel? E não são tortuosos os vossos caminhos? Portanto, eu vos julgarei, cada um conforme os seus caminhos, ó casa de Israel, diz o Senhor DEUS. Tornai-vos e convertei-vos de todas as vossas transgressões, e a iniquidade não vos servirá de tropeço. Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei” (Ez 18:28-32).

O arrependimento tem inicio quando o homem ouve a mensagem de Deus e reconsidera o seu caminho. Após considerar a mensagem divina e mudar de concepção, dá-se o arrependimento (metanóia). O que é necessário ao desenvolvimento da vida cristã, após a mudança de concepção, não pode ser mais chamado de arrependimento, pois a mudança de mente (pensamento/concepção) encerra em si o arrependimento.

O povo de Israel não obedecia à palavra de Deus, antes, seguia preceitos de homens: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9). Por desobedecer a palavra de Deus, o povo de Israel estava dando a entender que os caminhos de Deus não são direitos e que os preceitos de homem que ele seguia, era o caminho direito.

O rei Saul encaixa-se nesse perfil, pois, quando lhe foi dito por Deus: “Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no caminho, quando subia do Egito. Vai, pois, agora, e fere a Amaleque; destrói, totalmente, a tudo o que tiver e não lhe perdoes; porém, matarás desde o homem, até à mulher, desde os meninos, até aos de peito, desde os bois até às ovelhas e desde os camelos, até aos jumentos”. (1 Sm 15:2-3). Esse era o caminho direito.

Mas, quando Saul resolveu poupar a vida de Agague e o melhor do interdito, implicitamente, estava dizendo que o caminho do Senhor não era direito, mas que a sua própria decisão, era o caminho direito: “Antes, dei ouvidos à voz do SENHOR e caminhei no caminho pelo qual o SENHOR me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque, e os amalequitas destruí totalmente; Mas, o povo tomou do despojo, ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao SENHOR, seu Deus, em Gilgal” (1 Sm 15:20-21).

Saul reconsiderou a sua atitude rebelde, displicente, idólatra e feiticeira? Não! Quem reconsiderou a atitude de Saul foi o profeta Samuel, que mandou trazer Agage e o despedaçou (2 Sm 15:33). Se Saul reconsiderasse a sua omissão, de pronto se arremeteria contra Agague, mas não o fez, pois visava somente o prestigio do povo (1 Sm 15:25).

Diferente de Saul, o rei Davi, quando viu que Uzias foi fulminado, de pronto reconsiderou a sua postura à luz das Escrituras. Qual foi o seu erro: “E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” (2 Sm 6:9). Deus estava mais preocupado que se obedecesse à sua palavra, que, com a arca, em si.  Deus não estava em busca de sacrifícios, mas de servos que obedecessem aos seus mandamentos.

O equívoco, com relação ao arrependimento, é entendê-lo como produto de afeto, medo ou cuidado para com Deus, apegando-se à ideia de que Deus necessita ser agradado, segundo a perspectiva e sentimentos humanos: “Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento” (Rm 10:2).

Pensamentos como: – ‘Há, se eu cuidar da arca de Deus, Ele se agradará de mim’!‘Há, se eu construir um templo para Deus, Ele se agradará de mim’! Grande engano, pois, Deus se agrada, única e exclusivamente, daquele que obedece à sua palavra.

Quando Moisés disse: “Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças e estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração” (Dt 6:4-6), o que está em voga não é um sentimento de afeto, devoção, medo ou cuidado, antes, que se ouça e se obedeça à palavra de Deus (Dt 6:5; 10:12; 30:2, 6 e 10).

Quem ama é o que obedece, ou seja, aquele que cumpre o mandamento, este é o que ama (Jo 14:21-24).

O que Deus pede ao homem é repetido, por diversas vezes, com as seguintes expressões: temor, andar, servir, guardar, obedecer, circuncidar, etc.: “Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas ao SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, o ames e sirvas ao SENHOR teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, que guardes os mandamentos do SENHOR e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt 30:16-17).

Quando o homem se converte ao Senhor, obedecendo ao seu mandamento, temos como consequência a “circuncisão do coração” (Dt 30:6). Quando o homem ouve a palavra de Deus e dá ouvido à sua voz, temos a obediência, que é o mesmo que conversão ou arrependimento, pois, antes de obedecer, teve de abandonar os seus conceitos (Dt 30:2 e 8).

O arrependimento é ordem mandamental: “Arrependei-vos!”. A mudança de concepção fica a cargo do homem, pois deve ouvir a verdade, considerar o seu caminho e mudar de concepção, crendo em Cristo.

Como consequência do amor, da obediência que o homem tem para com Deus, Deus circuncidará o coração do homem, para que viva (Dt 30:6). Se o objetivo da circuncisão é vida, isso significa que os filhos de Israel, assim como o restante da humanidade, estavam mortos em delitos e pecados, sendo necessário que Deus circuncidasse o coração deles, assim como um pai, quando circuncida o prepúcio de um filho, para que fosse participante da natureza divina, designados filhos e em comunhão com Deus.

Daí o clamor aos filhos de Jacó: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” (Is 55:3). Deus sempre instou contra o povo de Israel de que estavam mortos e de que necessitavam da palavra de Deus para terem vida: “E te humilhou e te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:3).

Para que o homem tenha vida, é necessário obedecer ao seu mandamento, pois Deus retirará (circuncisão) o coração de pedra herdado de Adão (velha natureza) e dará um novo coração de carne e um novo espírito (novo nascimento).

Quando o profeta Ezequiel ordena aos seus ouvintes para que façam para si um novo coração (Ez 18:31), significa que deveriam obedecer a palavra de Deus, pois é só Deus quem tem poder para dar um novo coração e um novo espírito: “E dar-vos-ei um coração novo, porei dentro de vós um espírito novo e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36:26-27).

O profeta Jeremias também faz alusão ao arrependimento, quando diz: “SE voltares, ó Israel, diz o SENHOR, volta para mim” (Jr 4:1). Como voltar-se para o Senhor? Obedecendo-O! Quando o homem obedece à palavra do Senhor, está declarando que Deus é verdadeiro, como se lê: “E jurarás: Vive o SENHOR na verdade, no juízo e na justiça; nele se bendirão as nações e nele se gloriarão” (Jr 4:2).

Davi obedece à palavra de Deus quando diz: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” (Sl 51:10). Como? Não é este o mandamento de Deus: “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” (Jl 2:32).

Quando Davi clama a Deus por um novo coração e por um novo espírito, está reconhecendo a sua condição herdada de Adão: pecador (Sl 51:5), e que somente quando Deus cria (bara) um novo coração e dá um novo espírito é que passa a existir verdade no seu intimo.

No Novo Testamento, o mandamento de Deus é crer em Cristo, o filho de Deus. Se alguém possuía qualquer concepção de como ser salvo, a exemplo dos judeus, que pensavam que, para serem salvos, era necessário serem descendentes da carne de Abraão, deveria mudar o seu conceito (arrepender-se) e obedecer ao mandamento de Deus.

A mensagem de João Batista era: “Mudem a concepção de vocês, porque é chegado o reino dos céus!”; “Quem ensinou vocês a se livrarem da ira futura, pois não basta dizer temos por pai a Abraão”. A palavra que define a mudança de concepção: – “Creio em Cristo para ser salvo”, em substituição à ideia; : – “Tenho por pai a Abraão”, é o termo grego ‘metanoia’.

Cristo é a fé que se manifestou na plenitude dos tempos, para obediência de todos os povos: “PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual, antes prometeu, pelos seus profetas, nas santas escrituras, Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor, Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Rm 1:1-6; Gl 3:23).

Através da obediência da fé (evangelho), Deus opera naqueles que creem na circuncisão de Cristo, ou seja, o despojar de toda a carne, conforme o prometido nos profetas: “No qual também estais circuncidados com a circuncisão, não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes, pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2:11-12).

Quando o homem crê, é crucificado com Cristo, morre e é sepultado. Entretanto, ressurge com Cristo, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos, pelo poder de Deus. Dessa forma, o crente passa a viver em verdadeira justiça e santidade, pois a impiedade que havia em seu coração, a que foi herdada de Adão, foi desarraigada (Sl 58:3).

 

O Fruto do arrependimento

O arrependido deixa de confessar o que professava, quando no pecado, como faziam os escribas e fariseus que, após serem batizados no batismo de João, continuavam dizendo que eram descendência de Abraão, ou que nunca foram escravos de ninguém (Mt 3:9; Jo 8:33).

O arrependido produz um novo fruto, o fruto dos lábios que confessam a Cristo (Hb 13:15). Um judeu arrependido produz uma nova confissão, um fruto diferente do fruto antigo que invocava Abraão por pai. O fruto digno de arrependimento é admitir que Cristo Jesus é o Verbo de Deus, que veio em carne como luz do mundo, viveu sem pecado, morreu por causa do pecado da humanidade e ressurgiu pelo poder de Deus, conforme as Escrituras.

O fruto digno de arrependimento é fruto dos lábios e não de ações. As ações e a aparência não são o ‘fruto’, que se identifica se a arvore é boa ou má, antes, o fruto é o dos lábios. Diz de um único fruto, pois há uma só fé, um só evangelho.

O fruto que a boca do arrependido produz demonstra que o seu coração não é dobre, maligno, mentiroso. Se o homem é gerado de novo em Cristo Jesus, nascido da semente incorruptível, que é o evangelho, o que sai da boca do arrependido será uma confissão segundo a mensagem do evangelho, pois a boca fala do que o coração está cheio.

Por exemplo: se alguém disser que é filho de Deus porque creu em Cristo, conforme a Escritura, confessa a verdade, não é maligno, mentiroso e dobre. Mas, se um judeu confessar que, por ser descendente de Abraão, é filho de Deus, é mentiroso, maligno e dobre (1 Jo 4:2).

É em função da falta do fruto dos lábios entre os judeus que o escritos aos Hebreus dizem que, sem fé, é impossível agradar a Deus, ou seja, sem a fé que se manifestou, que é Cristo, é impossível se aproximar ou agradar a Deus (Hb 11:6; Gl 3:23).

O fruto digno de mudança de concepção (fruto dos lábios), que o vinhateiro aguardou, por três anos, para que a figueira produzisse, mas não produziu, era crerem em Cristo e confessarem com a boca, que Ele é o Senhor: “E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, mas não o acho. Corta-a; por que ocupa ainda a terra inutilmente?” (Lc 13:7).

Nesses termos, Calvino tem razão, ao dizer que o arrependimento não precede a fé, antes, o arrependimento decorre da fé, porém, há um equivoco na ideia de que o homem precisa ‘aplicar-se retamente ao arrependimento’[2].

Quando entendemos ‘fé’, como a mensagem do evangelho, pela qual devemos batalhar (Jd 3), mas não como ‘acreditar’, verifica-se que a fé foi manifesta em Cristo e, ao crer em Cristo, o homem arrependeu-se, plenamente.

Um judeu que mudou a sua concepção, ou seja, que deixou de acreditar que era salvo por ser descendente da carne de Abraão, se arrependeu plenamente. Calvino faz  confusão entre arrependimento e penitência, pois a penitencia é doutrina católica e demanda do penitente uma vida de exercício de penitências. Percebe-se que a ideia de aplicar-se ao arrependimento decorre da ideia da penitencia, não da mudança de pensamento, que é próprio à ‘metanoia’.

Para Calvino, o arrependimento está mais para mudança comportamental e de caráter (se afaste dos erros da vida e tome a via reta), do que para a mudança de concepção frente à mensagem do evangelho. Para Ele, o arrependimento dá ‘frutos’ e não ‘fruto’, pois este diz da confissão de que Jesus é o Cristo, mas aquele, de ações comportamentais.

Observe:

“Quando até mesmo a História Sagrada diz que arrepender-se é ir após Deus, a saber, quando os homens, que não tinham a Deus em mínima conta, se esbaldavam em seus deleites, agora começam a obedecer-lhe à Palavra e se põem à disposição de seu Chefe para avançar, aonde quer que ele os haja de chamar. E João Batista e Paulo usaram da expressão produzir frutos dignos de arrependimento [Lc 3.8; At 26.20; Rm 6.4] em lugar de levar uma vida que demonstre e comprove, em todas as ações, arrependimento desta natureza”. Idem, pág. 74.

Enquanto Calvino entendeu que produzir ‘frutos’ dignos de arrependimento é levar uma vida que demonstre e comprove o arrependimento, o fruto do arrependimento proposto por João Batista e Cristo tinha em foco a confissão dos escribas e fariseus,  não as suas ações cotidianas.

Aos olhos dos homens, os escribas e fariseus pareciam justos, portanto, quem olhasse para eles tinha a impressão de que se arrependeram. Porém, quem olha para o fruto, o fruto dos lábios, não se deixa enganar pela aparência ou, pelo comportamento.

O fruto digno de arrependimento não provém dos homens, mas de Deus, que os criou:

“Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Is 57:19).

A salvação em Cristo não é mudança de hábitos cotidianos ou, de comportamentos de cunho moral, pois se assim fosse, os fariseus teriam sido aprovados por Cristo, visto que aos olhos dos homens eles pareciam justos. Devotos à vida monástica ou clausural, também, estariam aptos a entrarem no reino dos céus, por adotarem um estilo de vida de resignação que os diferencia dos demais homens: “Assim também vós, exteriormente, pareceis justos aos homens, mas, interiormente, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mt 23:28).

Não se deve conceber o arrependimento como prática cotidiana ou, como conduta, que o cristão deve se amoldar e seguir, metodicamente, pelo resto da sua existência neste mundo. O arrependimento não é prática diária, como ditava a concepção católica, ao traduzir o termo grego ‘metanoia’, pelo latim ‘paenitentia’, que é prática diária que se concretiza em rezas, indulgências e penitências.

Quando critica os anabatistas, João Calvino sinaliza que a sua concepção de arrependimento, também, dizia de uma prática que deveria ser adotada e desenvolvida durante toda a existência do crente, posicionamento este, semelhante ao dos católicos, que, com relação ao arrependimento, cunharam o termo ‘paenitentia’.

Muitos equívocos de Calvino decorrem da má leitura de uma passagem bíblica, mesmo em tratados que ele repreende outros pela má leitura. Por exemplo: ao citar o que foi registrado pelo médico Amado: “testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” [At 20.21; cf. At 10.42][3], Calvino conclui que a fé é distinta do arrependimento e recrimina aqueles que entendem que arrependimento e fé são a mesma coisa.

Se entendermos a fé (substantivo) como mensagem do evangelho, claro está que se distingue do arrependimento, pois, este é consequência daquele. Porém, se entendermos ‘fé’ como ‘crer’ em Cristo, certo é que crer resulta da fé, portanto, crer e arrepender-se são a mesma coisa.

Calvino não está errado ao distinguir ‘arrependimento’ de ‘fé’, porém, equivoca-se  quanto à leitura do versículo, pois o apóstolo Paulo estava evidenciando o conteúdo do que era anunciado aos judeus e aos gentios. Enquanto aos judeus era anunciado o arrependimento para com Deus, aos gentios era anunciada somente a fé em Cristo Jesus.

Os judeus, por acreditarem que eram salvos, por serem descendentes de Abraão, precisavam mudar de concepção para crer em Cristo: “Arrependei-vos (mudem de concepção), pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados…” (At 3:19); “E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos (mudem de concepção) e crede no evangelho” (Mc 1:15). Já, os gentios, precisavam ter contato com o evangelho, para exercer fé em Cristo. Quando Filipe pregou ao eunuco, nada disse acerca do arrependimento, pois através das Escrituras expôs quem era o Cristo (At 8:35). O apóstolo Pedro, na casa de Cornélio, não anunciou o arrependimento, antes expôs quem era o Cristo (At 10:42).

O apóstolo Paulo, por sua vez, ao discursar no Areópago, após observar o quanto eram idólatras, enfatizou que Deus não leva em conta o tempo da ignorância e, que, portanto, agora era anunciado o arrependimento (At 17:30). Ora, os atenienses precisavam abandonar as suas crenças e crerem em Cristo, por isso concitou-os ao arrependimento.

 

A definição de arrependimento de João Calvino

João Calvino, ao esclarecer a sua definição de arrependimento, apresentou três pontos e no, segundo, declara que o verdadeiro arrependimento decorre de um ‘real temor’ de Deus e por ‘real temor’, ele entendia um ‘despertamento’, que seria uma inclinação ao arrependimento, provocada pelo ‘senso do juízo divino’, que seria medo ante a possibilidade de comparecer diante do tribunal de Deus para ser julgado. Observe:

“O segundo ponto era que ensinamos que o arrependimento procede do real temor de Deus. Pois, antes que a mente do pecador se incline ao arrependimento, importa seja ela despertada pelo senso do juízo divino. Quando, porém, este senso se tenha fixado, profundamente, de que Deus um dia haverá de subir ao seu tribunal, a fim de exigir a razão de todas as palavras e feitos, não permitirá que o mísero ser humano descanse, nem que respire um instante, sem que o aguilhoe constantemente a meditar em outro modo de vida, em que possa postar-se em segurança diante desse Juízo (…) Por vezes a Escritura declara que Deus é Juiz mediante castigos já infligidos, para que os pecadores ponderem consigo mesmos que, a menos que se arrependam em tempo, coisas piores os ameaçam. Os capítulos 20 e 29 de Deuteronômio são ricos em exemplos”. Idem, pág. 75.

Ora, o ‘temor do Senhor’ não se constitui ‘medo’ do juízo ou do fogo do inferno. O temor que promove o arrependimento diz da palavra de Deus, o conhecimento que é o princípio da sabedoria. Apesar de Deus ser Todo-poderoso, a ninguém oprime: “Ao Todo-Poderoso, não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” (Jó 37:23).

A palavra ‘temor’, quando empregada nas Escrituras, na maioria das vezes, refere-se ao mandamento de Deus, que, quando obedecido, é o mesmo que ‘temer’. Deus deve ser honrado, obedecido, temido, porque Ele é perdão, e não porque Ele se impõe através do medo ou do castigo: “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido (obedecido)” (Sl 130:4).

É em função da palavra de Deus que Moisés disse ao povo:

“Não temais (não tenham medo), Deus veio para vos provar e para que o seu temor (mandamento, sabedoria, instrução) esteja diante de vós, afim de que não pequeis” (Êx 20:20).

Não era para o povo de Israel ter tido medo e se afastar de Deus quando viram os relâmpagos e ouviram os trovões no monte Sinai, pois o objetivo de Deus era que o seu temor (palavra) estivesse com o povo.

Quando Deus se apresentou ao povo de Israel no monte Sinai foi para que ouvissem a palavra de Deus, enquanto Ele falava com Moisés. Os raios e os trovões eram somente uma prova, testando a confiança do povo em Deus, e, em seguida, Deus haveria de anunciar a sua palavra, o seu ensinamento, o seu temor.

Somente a palavra de Deus, escondida no coração, evita que o homem não peque contra Deus: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119:11) e, por isso mesmo, Deus se apresentou aos filhos de Israel, para que o Seu temor, ou seja, as Suas palavras, estivessem perante eles, para que não pecassem.

O convite expresso pelo Salmista não é para impor ao aprendiz medo, antes, a palavra de Deus: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11). Cristo veio ao mundo ensinar aos homens o temor do Senhor, de modo que, quem se posta a ouvi-lo, aprende o temor do Senhor, não a ter medo do juízo ou da condenação ao inferno: “Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele” (Lc 18:17); “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:28-29).

Cristo é o Verbo de Deus, o temor que permanece para sempre: “O temor do SENHOR é limpo e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” (Sl 19:9); “Porquanto, odiaram o conhecimento; e não preferiram o temor do SENHOR:” (Pv 1:29); “Então, entenderás o temor do SENHOR e acharás o conhecimento de Deus” (Pv 2:5).

Percebe-se que a compreensão de Calvino foi prejudicada por não saber distinguir o verdadeiro significado do termo ‘temor’, quando empregado em algumas passagens bíblicas da conotação que, comumente, é atribuído ao termo: medo.

O temor do Senhor não consiste em ameaças de que ‘coisas piores acontecerão com o pecador’[4]. A conversão não tem início com o ‘horror’ ou  o ‘ódio’ ao pecado, como pensam mas, através da pregação do evangelho. Ora, o pecador é nascido em pecado, ou seja, é escravo do pecado, de modo que ‘odiar’ o pecado é impossível ao pecador.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Na Bíblia, os termos ‘amor’ e ‘ódio’, não possuem conotação sentimental, antes, amor se refere a serviço, dedicação, obediência e ódio significa desprezo, desobediência, desserviço. O pecador pode sentir ‘raiva’ do seu senhor, o pecado, porém, a única coisa que o livra do seu senhor é a morte.

Como pecador, o homem ama (serve) ao pecado, independentemente das condutas diárias. O pecador é gerado segundo a desobediência, por isso é filho da ira, desagradável, reprovável e alienado de Deus.

Sob a alegação de ódio ao pecado, muitos levantaram a flâmula do puritanismo e execraram muitas pessoas que tinham uma conduta inconveniente na sociedade. Julgaram os outros segundo a aparência e se carregam de ordenanças segundo os preceitos e doutrinas dos homens (Cl 2:20-22).

Em razão da visão distorcida do que é o evangelho, nem de longe tais pseudo seguidores de Cristo lembram o Mestre, pois Cristo foi claro: “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15); “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15).

A ideia de que o arrependimento demanda a ‘mortificação da carne’ e ‘a vivificação do Espírito’, não é verdadeira. Observe:

“Em terceiro lugar, resta explicar o que significa dizermos que o arrependimento consta de duas partes, a saber: da mortificação da carne e da vivificação do Espírito (…) Pois, quando mandam o homem retroceder da maldade, em seguida exigem a mortificação de toda a carne, a qual está saturada de maldade e de perversidade. Coisa mui difícil e árdua é despir-nos de nós mesmos e apartar-nos de nossa disposição natural. Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem.

Na verdade, o arrependimento demanda, por parte do homem, tão somente a mudança de concepção, acerca de como ser salvo, ou seja, o ouvinte abandona os seus conceitos antigos e abraça um novo. Já a ‘mortificação da carne’ e a ‘vivificação do Espírito’ são obras exclusivas de Deus.

Há uma má leitura no artigo de João Calvino, com relação ao verso: “Desiste do mal e faz o bem” (Sl 34:14; Sl 37:27). O desistir do mal e fazer o bem diz do arrependimento em si. O verso não trata de boas ações ou de comportamento, mas do que aprenderam: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal?” (Jr 13:23).

Desistir do mal é deixar de fazer o mal que foi instruído a fazer, o mesmo mal expresso pelo profeta Isaías: “Deixe o ímpio o seu caminho e o homem maligno os seus pensamentos e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar” (Is 55:7).

Como é possível ao homem guardar a língua do mal? Como guardar os lábios de não falar engano?

Falar engano é um problema de nascimento, pois desde que nascem os ímpios falam engano (Sl 58:3). Para resolvê-lo, é necessário fazer como o salmista Davi, que suplica a Deus um coração e um espírito novo. Quando a Bíblia apresenta um problema afeto aos lábios, a raiz do problema está no coração, não nas ações ou na moral humana: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34); “Mas, o que sai da boca, procede do coração e isso contamina o homem” (Mt 15:18).

Para reconhecer-se pecador, um judeu tinha que mudar a sua concepção de que era justo, por ter por pai a Abraão. Como enxergar que eram oprimidos e cansados e que necessitavam aprender de Jesus, se tinham em Abraão a ideia de salvação? “E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim” (Mc 7:6 ); “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5:8).

O Pregador apresenta como o homem se aparta do mal:

“Filho meu, atenta para as minhas palavras; às minhas razões inclina o teu ouvido. Não as deixes apartar-se dos teus olhos; guarda-as no íntimo do teu coração. Porque são vida para os que as acham, e saúde para todo o seu corpo. Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Desvia de ti a falsidade da boca, e afasta de ti a perversidade dos lábios” (Pv 4:20-24).

Quando lemos: “Lavai-vos, sede limpos, removei de meus olhos o mal de vossas obras. Cessai de agir perversamente, aprendei a fazer o bem, buscai o juízo, vinde em socorro do oprimido” ( Is 1:16 -17), não podemos esquecer que os profetas falavam ao povo por parábola e que se utilizavam de enigmas, símiles, adágios (Os 12:10).

Uma única ordem está embutida nos verbos: ‘lavai-vos’, ‘sede’, ‘removei’, ‘cessai’, ‘aprendei’, ‘buscai’, ‘vinde’. Todos são paradigmáticos de Isaías 1, verso10:

“Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10).

Se dessem ouvidos à palavra do Senhor, os filhos de Jacó seriam lavados e limpos, tornando-se brancos como a neve. Removeriam o mal de suas obras de diante do Senhor. Deixariam de fazer o mal, etc. Jesus mesmo disse: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3). Como resultado, disse o apóstolo Paulo: “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” (Cl 2:10).

Para deixar de fazer o mal, é necessário aprender o bem, mas o povo de Israel estava acostumado a fazer o mal, como foram ensinados (Jr 13:23).

Quando o homem crê em Cristo, livra-se da maldade. A ação seguinte é pertinente a Deus, que circuncida o crente com a circuncisão de Cristo. Na circuncisão, é despojado todo o corpo do pecado da carne (Cl 2:11), de modo que, os que creem, não estão mais na carne (Rm 8:9); “E os que são de Cristo, crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24).

Só há duas posições em que o homem pode estar:

a) em Cristo, uma nova criatura, ou;

b) na carne, uma velha criatura.

Através da fé (evangelho), o crente tornou-se agradável a Deus, de modo que a carne foi extinta através da cruz de Cristo pois, se o homem estiver na carne, está em inimizade com Deus. Já que o crente foi crucificado com Cristo, sepultado e ressurgiu com Ele, isso significa que a carne já foi abolida.

A renovação do Espírito decorre da semente incorruptível, que é a palavra de Deus: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3:5; 1 Pe 1:3 e 23). A semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é o que promove o novo nascimento, não o fruto:

“Em seguida, os profetas assinalam a renovação do Espírito em termos dos frutos que daí se produz, a saber: da justiça, do juízo e da misericórdia”. Idem, pág. 77.

O fruto do Espírito é proveniente do Espírito, de modo que, basta estar ligado à videira verdadeira, que é Cristo, para produzi-lo (Jo 15:4-5).

Calvino fez confusão entre ‘fruto do Espírito’ e a ‘ação do Espírito’. A ação do Espírito Santo é convencer o homem de que todos pecaram, por terem sidos gerados de Adão. Só pelo espírito, a mensagem de Cristo, o homem é inteirado de que a humanidade foi julgada e está condenada à morte em Adão e, que o juízo de Deus já foi estabelecido lá no Éden: “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16:8); “Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” (Rm 5:18).

O fruto do Espírito é produzido pelas varas que estão em Cristo e possui as seguintes características: “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” (Gl 5:22); “Porque o fruto do Espírito está em toda a bondade, justiça e verdade” (Ef 5:9).

O homem, por si só, não se despe do velho homem, pois o velho homem refere-se à sua condição herdada de Adão. Sem morrer com Cristo, quando o velho homem é crucificado, é impossível ao homem livrar-se do velho homem. O homem não se despe do velho homem, antes, o velho é crucificado e sepultado quando se crê em Cristo.

Quando a Bíblia faz referência ao despir, diz do que era pertinente ao velho homem e apresenta tal evento concluso (e no passado), como se lê: “Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3:9-10). Ora, os despidos do velho homem, já se revestiram de Cristo (Gl 3:27), de modo que o velho homem não mais vive, antes Cristo vive nos de novo gerados.

A ordem na Bíblia para que os crentes se desfaçam do que é pertinente ao velho homem, ou seja, despojar-se, é o despojar-se dos feitos, das ações, dos pensamentos, das emoções, etc., não do que foi realizado por Cristo nos que creem.

Ora, o velho homem morreu, porém, é necessário lançar fora as coisas que eram pertencentes ao velho homem e, dentre elas, o apóstolo Paulo destaca: “da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca” (Cl 3:8).

Há uma grande confusão entre ‘despir’ e ‘despojar’, visto que este verbo diz do comportamento do velho homem e aquele, da velha natureza herdada de Adão. Enquanto o ‘despir’ ocorre quando se crê em Cristo, o ‘despojar’ é gradual, contínuo, pois demanda a renovação do entendimento, quando o cristão vai aprendendo a se portar como filho de Deus (Rm 12:2).

Calvino, no terceiro ponto, confunde arrependimento, que é mudança de concepção, com a ação sobrenatural que Deus (regeneração) opera naqueles que mudaram a sua concepção (arrependeram), crendo em Cristo:

“Em terceiro lugar, resta explicar o que significa dizermos que o arrependimento consta de duas partes, a saber: da mortificação da carne e da vivificação do Espírito. (…) Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem, pág. 76.

“Portanto, interpreto o arrependimento com uma palavra: regeneração, cujo objetivo não é outro, senão que, em nós, seja restaurada a imagem de Deus, a qual fora empanada e quase apagada pela transgressão de Adão” Idem, pág. 77. Griffo nosso.

De tudo o que analisamos até agora, foi verificado que, primeiro é anunciado aos pecadores a fé, o dom de Deus, o evangelho de Cristo (Ef 2:8). Em seguida, os que creem na mensagem do evangelho, concomitantemente, mudaram de concepção, ou seja, se arrependeram. É através da mensagem do evangelho que o Espírito Santo convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8).

Depois que ouviu a palavra da verdade (fé), o evangelho que é o poder de Deus, para salvação, e crê (mudou de concepção e creu), o crente é selado com o Espírito Santo da promessa: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. (Ef 1:13, Rm 1:16-17, Mc 1:15).

No instante em que se muda de concepção (arrepende), crendo em Cristo, o homem é crucificado e morto com Cristo, ou seja, conforma-se na morte com Cristo (Rm 6:5, Fl 3:10). Em seguida, é sepultado com Cristo na sua morte e ressurge uma nova criatura, criada, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24). Ao crer em Cristo, o arrependido conformou-se com Cristo na sua morte, e por isso, é participante da sua ressurreição.

Todos esses eventos ocorrem com o arrependido, sem que ele perceba, pois, se trata de ação sobrenatural de Deus.  O apóstolo Pedro fala desse evento, utilizando a palavra αναγενναω[5] (anagenao, corolário de gene, com o prefixo ana, que significa de novo, novamente, outra vez), que significa, especificamente, regenerar, nascer de novo, renascer (1 Pd 1:3). O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utilizou o termo παλιγγενεσία[6] (paliguenesia), para descrever o mesmo evento.

Os termos referem-se a um novo gerar, remetem a uma nova semente e apontam para a vontade de Deus: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. (Jo 1:12-13).

Os que mudam de concepção, crendo em Cristo, recebem poder de serem feitos filhos de Deus, nascidos da vontade de Deus,  não da vontade da carne, da vontade do varão ou do sangue. Não diz de uma vida implantada, que habilite ao arrependimento e à fé, antes, diz de uma nova vida, por ter se extinguido a antiga, decorrente da fé (evangelho), que leva o homem à mudança de concepção (arrependimento).

Na regeneração, não há transformação do coração, antes ocorre uma incisão: a circuncisão de Cristo, quando o coração de pedra é arrancado e lançado fora. Não somente o coração herdado de Adão é arrancado e lançado fora, como também todo o corpo do pecado (Cl 2:11). É um equivoco conceber que Deus transforma coração, antes, Ele dá um novo (Sl 51:10).

A circuncisão no prepúcio da carne era feita por mãos de homens, por pais segundo a carne. A circuncisão de Cristo é operada por Deus, o Pai espiritual, que arranca o coração enganoso, lança fora e dá um novo coração: “E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19).

O homem no pecado não está morto, inerte, insensível, etc., antes está morto para Deus e vivo para o pecado. Quando morre com Cristo, o homem morre para o pecado e passa a viver para Deus. É equivoco inominável achar que o homem no pecado está espiritualmente morto, antes ele vive no pecado, portanto, está separado (morto) de Deus.

Quando o apóstolo Paulo faz referência ao passado dos cristãos e diz que todos estavam mortos em delitos e pecados (Ef 2:1 e 2:5), ele estava evidenciando que estávamos todos vivos (unidos) para o pecado e separados (mortos) para Deus.

As seguintes declarações resultam de má leitura e má interpretação bíblica:

“Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza”. Idem, pág. 76.

Como não se deve aceitar (julgar) que a carne está mortificada, quando se crê em Cristo? Se o velho homem foi com Cristo crucificado, como entender que a carne não foi mortificada?

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6:6).

O apóstolo Paulo, também, diz:

“Porque já estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus” (Cl 3:3).

E mais:

“E os que são de Cristo, crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24).

Quem creu em Cristo, crucificou o velho homem que vivia segundo a carne e, ao crucificar o velho homem, a carne, as paixões e as concupiscências, também, foram crucificadas para o indivíduo que creu.

Como principio norteador da existência dos descrentes, a carne continua a subsistir, mas, para aquele que creu em Cristo, liberto está da lei do pecado e da morte (Rm 8:2). Livres da lei e do pecado, por ter morrido com Cristo (Rm 7:6), agora os cristãos servem a Deus, em novidade de espírito, ou seja, segundo o evangelho, o conhecimento de Deus manifesto em Cristo. Após arrepender-se, o cristão serve a Deus com o conhecimento revelado em Cristo, diferente dos judeus que tinham zelo de Deus, mas sem entendimento (Rm 10:2).

Qualquer que quiser servir a Deus com a carne, estará sujeito à lei do pecado (Rm 7:25) pois, não está debaixo da graça, mas debaixo da lei. O apóstolo Paulo, após declarar que o seu ‘eu’ reconheceu a sua miserabilidade e questionou quem poderia livrá-lo do corpo da morte, decorrente da lei do pecado, deu graças a Deus, por Cristo Jesus, que, em seu conhecimento, livrou o apóstolo da lei do pecado e da morte (Rm 8:2).

Mas, o seu “eu”, quando na carne, por ter sido vendido como escravo ao pecado, pela ofensa de Adão (Rm 7:14), apesar de ter prazer na lei de Deus, conforme profetizado por Isaías (Rm 7:22), está preso à lei do pecado, pelo corpo herdado de Adão, segundo a carne: “CLAMA em alta voz, não te detenhas, levanta a tua voz como a trombeta e anuncia ao meu povo a sua transgressão e à casa de Jacó, os seus pecados. Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça e têm prazer em se chegarem a Deus” (Is 58:1 -2).

Não adianta buscar servir à lei de Deus, se a carne é escrava do pecado, pois esse era o entendimento dos judeus, que serviam a Deus por intermédio da lei, mas que estavam servindo à lei do pecado, por causa da carne herdada de seus pais: “Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas com a carne [sirvo] à lei do pecado” (Rm 7:25).

Quem creu em Cristo, além de ter sido com Ele crucificado, já ressurgiu com Cristo e está assentado com Ele nas regiões celestiais. Tanto a carne quanto as paixões e concupiscências foram crucificadas (Cl 3:1, Ef 1:3, Cl 2:12). A má leitura de Romano 8, verso 7, encobre o fato de que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8:1), ou seja, que são novas criaturas (2 Co 5:17).

Tudo do passado foi abolido, visto que nova se fizeram todas as coisas (2 Co 5:17). O escrito de dívida foi cravado na cruz: “Levando ele mesmo, em seu corpo, os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” (1 Pe 2:24; Cl 2:13-14).

Além de afirmar que a carne foi cravada na cruz e morta, o apóstolo Paulo enfatiza que, quem está em Cristo (nova criatura), não está mais na carne e nem anda segundo a carne: “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito (…) Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9).

‘Os que estão na carne’, refere-se aos que querem servir a Deus segundo a lei e, ‘os que estão no Espírito’, refere-se aos que estão em Cristo, por intermédio do evangelho. “Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gl 3:2-3). Não podemos esquecer que os cristãos são’ ministros do espírito’, ou seja, do evangelho (2Co 3:6).

‘Receber o Espírito’, é estar de posse da promessa e, pela promessa, poder dizer: – “Aba, Pai”! Os da carne foram gerados conforme Ismael, já os do Espirito, gerados segundo a promessa semelhante a Isaque, ou seja, segundo a palavra de Deus: “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gl 4:6, Gl 5:28-29); “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca, derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3); “E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19).

A natureza pecaminosa é renunciada quando o homem crê em Cristo e não mais é achado pecador, pois Cristo é ministro da justiça (1 Jo 3:8, Gl 2:17, Rm 6:14, 1 Jo 3:6, 9 e 5:18 e 1 Jo 4:17).

Quem busca preservar a sua própria concepção, por entender que nisto está a vida, perdê-la-á, mas quem se arrepende e crê no evangelho, salvar-se-á, pois ninguém pode servir (amar) a Deus e a si mesmo: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar a um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13); “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará” (Mc 8:35); “Quem ama a sua vida perdê-la-á e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” (Jo 12:25).

Assim como Ismael se opunha a Isaque, a carne se opõe ao Espírito. O apóstolo Paulo fala de dois senhores que querem ter o domínio sobre os homens, para que o homem não faça o que o seu próprio eu quer, antes se sujeite a eles: “Porque a carne cobiça contra o Espírito e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” (Gl 5:17).

Se o homem se lançar às obras da lei, apresentou-se como servo para obedecer à carne, mas se o homem permanecer no evangelho, na liberdade em que Cristo o libertou, apresenta-se como servo obediente à justiça: “Não sabeis vós que, a quem vos apresentardes por servos, para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” (Rm 6:16).

Calvino equivoca-se ao ‘interpretar o arrependimento com uma palavra: regeneração’. A imagem que Deus concedeu a Adão, no Éden, não foi empanada e nem ‘quase’ apagada pois, quando Cristo veio ao mundo, veio, segundo a imagem que Ele mesmo havia dado a Adão, pois este foi criado à imagem daquele que havia de vir (Cristo), não pela expressa imagem do Deus invisível “… Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5:14).

No Éden, Adão perdeu a comunhão com Deus e, pela condenação decorrente da sua ofensa (morte), vendeu todos os seus descendentes como escravos ao pecado. Mas, a imagem que recebeu, não perdeu e nem precisou ser restaurada, pois todos os seus descendentes, segundo a carne, se tornaram almas viventes e trouxeram a imagem do homem terreno, que era a figura dada a Adão, que o Cristo assumiria ao se fazer carne (1 Co 15:47-49).

Ao ser introduzido no mundo, em tudo, Cristo foi semelhante aos homens: carne, sangue e fraquezas (Hb 2:14 e 17) pois, como homem, herdou a imagem terrena que deu a Adão, mas através da pessoa de Maria, a semente da mulher.

Cristo, ao ser morto possuía a imagem da qual Adão foi feito figura mas, quando ressurgiu dentre os mortos, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível. O projeto anunciado por Deus, na primeira criação: – “Façamos o homem, conforme a nossa imagem e conforme a nossa semelhança”, foi levado a efeito quando Cristo ressurgiu dentre os mortos, quando herdou a semelhança do Deus invisível: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” (Sl 17:15).

A semelhança do Altíssimo foi um projeto que Deus estabeleceu em Si mesmo, na pessoa de Cristo (Ef 3:11), projeto esse que Satanás tentou usurpar, ao querer estar acima das estrelas de Deus, sendo semelhante ao Altíssimo: “Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14).

Ninguém, nascido segundo a carne de Adão, será restaurado à expressa imagem de Deus, antes, somente os que creem, após mortos com Cristo, ressurgem uma nova criatura que, desde a eternidade, foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, para que Cristo seja alçado à posição de primogênito, entre muitos irmãos.

Se entendermos a fé (πίστις = pistis), como mensagem do evangelho, certo é que o arrependimento nasce da fé, no entanto, os que se arrependeram, seguem de posse da fé, o que é diferente da ideia de que o arrependimento segue em continuidade à fé.

“Entretanto, deve estar fora de controvérsia que o arrependimento não apenas segue, de contínuo, a fé, mas, inclusive, nasce dela”. Idem, pág 70.

O crente mudou de concepção, ao aceitar a fé, ou seja, arrependeu-se, portanto, abandonou sua crença e abraçou a fé. O apóstolo Paulo declarou que guardou a fé, sem fazer referência ao arrependimento (2 Tm 4:7). O apóstolo não guardou uma crença (πιστεύω), antes, guardou, inconspurcado, a mensagem do evangelho, a fé. Somente três coisas permanecem e dentre elas não está o arrependimento: a fé, a esperança e o amor (1 Co 13:13).

A ideia que Calvino teve, acerca da ‘metanoia’, não é a mudança de mente, mas, a ‘paenitentia’, da igreja católica. Observe:

“… para que se exercitem no arrependimento toda a sua vida e saibam que não há nenhum fim para esta luta, senão na morte (…) Para que os fiéis cheguem a este ponto, Deus lhes assinala o caminho do arrependimento, pelo qual percorram, pela vida inteira” Idem, pág. 78.

“O termo e o próprio conceito de penitência são bastante complexos. Se a relacionarmos com a metánoia, a que se referem os Sinópticos, a penitência significa, então, a íntima mudança do coração, sob o influxo da Palavra de Deus e na perspectiva do Reino. Mas, penitência quer dizer, também, mudar de vida, em coerência com a mudança do coração; e, neste sentido, o fazer penitência completa-se com o produzir frutos condignos de arrependimento: é a existência toda que se torna penitencial, aplicada numa contínua caminhada, em tensão para o que é melhor. Fazer penitência, no entanto, só será algo de autêntico e eficaz se se traduzir em actos e gestos de penitência. Neste sentido, penitência significa, no vocabulário cristão teológico e espiritual, a ascese, isto é, o esforço concreto e quotidiano do homem, amparado pela graça de Deus, por perder a própria vida, por Cristo, como único modo de a ganhar:  esforço por se despojar do homem velho e revestir-se do novo; por superar, em si mesmo, o que é carnal, para que prevaleça o que é espiritual; e esforço por se elevar continuamente das coisas de cá de baixo para as lá do alto, onde está Cristo. A penitência, portanto, é a conversão que passa do coração às obras e, por conseguinte, à vida toda do cristão” Paulo II, João. Exortação apostólica pós-sinodal – Reconciliatio et paenitentia – Sobre a reconciliação e a penitência na missão da igreja hoje.

Se ‘metanoia’ é mudança de concepção, por que na definição de arrependimento de João Calvino, ele diz que é ‘conversão de vida’? “… o arrependimento é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus” Idem, pág. 74. Nisto, concorda João Paulo II, com João Calvino: “Mas, penitência, quer dizer, também, mudar de vida”.

É desses pensamentos que surge a primeira colocação de Calvino, acerca do arrependimento:

“Primeiro, quando o chamamos a volta da vida para Deus, requeremos uma transformação, não apenas nas obras exteriores, mas, inclusive, na própria alma, a qual, quando é despojada de sua velha natureza, então, afinal, em si, produz os frutos de obras que correspondam à sua renovação” Idem, pág. 74.

É certo que, após se arrepender, crendo em Cristo, o cristão precisa ter um bom porte na sociedade que está inserido, ou seja, precisa portar-se de modo digno, não dando escândalo a judeus, gregos e nem à igreja de Deus (1 Pe 3:16; 1 Co 10:32).

Entretanto, o arrependimento não diz do bom porte do cristão em Cristo, mas da sua mudança de concepção, ao aceitar a mensagem da cruz. O bom porte em Cristo se adquire com a renovação do entendimento, que resulta em transformação comportamental, de modo que os que se alimentam de mantimento sólido, em razão do costume, exercitaram os sentidos, estando aptos para discernir o bem e o mal, não se conformando com o mundo: “Mas, o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” (Hb 5:14, Rm 12:2).

É o mesmo que ‘cingir os lombos do entendimento’, quando o crente são se conforma com as concupiscências que antes tinha quando na ignorância (1 Pe 1:13-14).

O crente precisa se renovar quanto ao espirito do seu entendimento, despojando-se (lançando fora) do que era pertinente ao velho homem (mentira, ira, roubo, furto, palavras torpes, etc.), e revestindo-se do que é pertinente ao novo homem (benigno, compassivo, etc.).

Arrepender-se não é o mesmo que ‘fazer um coração novo’, pois só Deus pode dar um coração novo. Calvino fez má leitura de Ezequiel 18, verso 31:

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” (Ez 18:31).

O lançar de si as transgressões é o mesmo que arrepender-se, mas fazer um coração novo e um espírito novo é ação sobrenatural de Deus que, assim, faz naqueles que se arrependem.

Ao arrepender-se, o homem se socorre de Deus que faz o que prometeu, portanto, ao se arrepender, considera-se que está fazendo um coração puro e um espírito novo:

“E lhes darei um só coração e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11:19, Ez 36:25-27).

Quando Deus ordena aos homens que circuncidem o coração, na verdade espera que os homens se socorram d’Ele, pois aos homens é impossível circuncidarem o coração, assim como é impossível salvarem-se a si mesmos.

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt 30:6).

Como o homem circuncida o seu coração? Fazendo o que Deus requer:

“Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas ao SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos e o ames,  sirvas ao SENHOR teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, que guardes os mandamentos do SENHOR e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Dt 10:12 -13).

Se o homem temer a Deus, andar em seus caminhos, amar, servir, guardar os mandamentos e os estatutos, circuncidará o coração, pois Deus haverá de fazê-Lo.

Por fim, vale destacar que o apóstolo Paulo não trata dos frutos do arrependimento, quando escreve a sua segunda carta aos Coríntios.

“O Apóstolo, porém, na descrição do arrependimento [2 Co 7.11], enumera sete causas ou, efeitos ou, partes; isso ele o faz com mui excelente razão. Ora, são elas: diligência ou solicitude, exame, indignação, temor, anelo, zelo, vindicação” Idem, pág. 83.

Ao escrever a sua segunda carta aos Corintos, o apóstolo Paulo evidencia que eles estavam estreitados em seus próprios afetos, ou seja, não correspondiam ao afeto que o apóstolo lhes demonstrava (2 Co 6:11-12). Daí a recomendação: – “Recebei-nos em vossos corações”.

Após destacar que os cristãos de Corinto estavam presentes no coração do apóstolo para, juntamente, viverem ou morrerem (2 Co 7:3), deixou claro que não sentia remorso (μεταμέλομαι = metamelomai)[7] de tê-los contristados em outra carta (2 Co 7:8). Mas, mesmo que houvesse sentido remorso por um período de tempo, pela carta ter entristecido os cristãos de Corinto, agora, contudo, estava alegre.

Ele deixa claro que não estava alegre por tê-los deixado tristes, mas, porque foram contristados para arrependimento (μετάνοια = metanóia). Ora, o arrependimento da qual o apóstolo Paulo trata aqui, não se refere à mudança de mente (arrependimento) com relação ao evangelho, pois os cristãos eram a igreja de Deus em Corinto (2 Co 1:1, 2 Co 5:17), portanto, plenamente arrependidos por serem crentes em Cristo para a salvação.

Os cristãos foram contristados, para que alguns mudassem a concepção que tinham acerca do apóstolo Paulo, para que, em nada, sofressem dano, por causa do que pensavam acerca do apóstolo: “Esta é minha defesa para com os que me condenam” (1 Co 9:3).

O fato de terem sido contristados, segundo Deus, produziu nos cristãos solicitude (afã, diligência), mas, não somente isso, produziu, também, defesa, indignação, temor, saudade, zelo, vindita, em favor do apóstolo Paulo. Com isso, demonstraram que nada deviam quanto ao assunto em pauta, na carta anterior (2 Co 7:11).

O apóstolo Paulo demonstra que escreveu a carta anterior, não por ter sido ofendido e nem por causa de quem o ofendera, mas, antes, para tornar manifesta a solicitude dos cristãos de Corinto. (2 Co 7:12).

O arrependimento tratado no capítulo 7, da segunda epístola aos Coríntios, não diz do arrependimento anunciado por João Batista. O arrependimento de João Batista não decorre do sofrimento; mas, o arrependimento de que o apóstolo Paulo estava tratando, tinha em vista o sofrimento, decorrente dos abundantes sofrimentos de Cristo, para com os cristãos (2 Co 1:5).

O apóstolo tinha plena certeza de que, se era afligido, era para a consolação e salvação dos cristãos (2 Co 1:6), de modo que, a tristeza, segundo Deus, produz mudança de concepção, sem remorso (pesar) para a salvação. O apóstolo Paulo não sentia remorso por sofrer aflições, para que os cristãos fossem consolados, e os cristãos ao serem contristados, tampouco, ficaram com pesar, antes, saíram em defesa do apóstolo, o que produziu consolação e salvação.

As sete causas ou, efeitos ou, partes, que Calvino atribuiu ao arrependimento anunciado por João Batista e o Senhor Jesus Cristo: ‘diligência ou solicitude, exame, indignação, temor, anelo, zelo, vindicação’, na verdade se referem à resposta que os cristãos deram, em defesa do apóstolo Paulo, quando foram contristados com a carta que receberam.

Se há inúmeros equívocos e má interpretação de textos bíblicos na exposição de Calvino (alguém que se posicionou como mestre e crítico ferrenho de outras concepções), em um tema de relativa facilidade, que se dirá da exposição que Calvino fez de outras doutrinas bíblicas mais complexas e dos pontos de difícil interpretação, como asseverou o apóstolo Pedro?

 


[1] “Isto posto, pelo menos, em meu modo de julgar, não se poderá, assim, definir mal o arrependimento: é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, procedente de um sincero e real terror de Deus, que consiste da mortificação de nossa carne e do velho homem e da vivificação do Espírito”. Calvino, João. As Institutas ou, Tratado da Religião Cristã, vol. 3, edição clássica (latim), pág 74.

[2] “Mas, os que pensam que o arrependimento precede à fé e não é produzida por ela, como o fruto de sua árvore, estes jamais souberam no que consiste sua propriedade e natureza, e, ao pensar assim, se apoiam num fundamento sem consistência”. Idem, pág. 70 “… por certo que ninguém pode abraçar a graça do evangelho a não ser que se afaste dos erros da vida e tome a via reta, e aplique todo seu esforço à prática do arrependimento”. Idem, pág 70. “… ao contrário, queremos pôr à mostra que o homem não pode aplicar-se seriamente ao arrependimento, a não ser que reconheça ser de Deus”. Idem, pág 71. “Mas, carece de toda evidência de razão o desvario daqueles que, para começar do arrependimento, prescrevem a seus neófitos, certos dias, durante os quais se exercitem em penitência; passados, afinal, os quais os admitem à comunhão da graça do evangelho. Falo da maior parte dos anabatistas, especialmente daqueles que exultam, sobremaneira, em ser tidos como os espirituais, e de seus confrades, os jesuítas, e gentalha afim. Tais frutos, evidentemente, são produzidos por esse espírito de torvelinho que limita, a uns poucos dias, a penitência que, ao homem cristão, deve prorrogar-se por toda a vida”. Idem, pág 72.

[3] “Se bem que estas coisas todas são verdadeiras, contudo o termo arrependimento, em si, até onde posso alcançar das Escrituras, deve ser tomado em acepção diferente. Visto que querem confundir a fé com arrependimento, se põem em conflito com o que Paulo diz em Atos [20.21]: “Testificando a judeus e gentios o arrependimento para com Deus e a fé em Jesus Cristo”, onde enumera arrependimento e fé como duas coisas diversas. E então? Porventura pode o verdadeiro arrependimento subsistir à parte da fé? Absolutamente, não. Mas, embora não possam ser separados, devem, no entanto, ser distinguidos entre si. Da mesma forma que a fé não subsiste sem a esperança e, todavia, fé e esperança são coisas diferentes, assim o arrependimento e a fé, embora sejam entre si ligados por um vínculo perpétuo, no entanto, demandam que permaneçam unidos, mas não confundidos.” Idem, pág. 73.

[4] “Não obstante, uma vez que a conversão começa do horror e ódio ao pecado, por isso o Apóstolo faz a “tristeza que é segundo Deus” [2Co 7.10] a causa do arrependimento” Idem, Pág. 76.

[5] “313 αναγενναω (anagennao), de 303 e 1080; TDNT – 1:673,114; v 1) regenerar, renascer, nascer de novo 2) metáfora – ter passado por uma transformação da mente, que leva a uma nova vida, que procura conformar-se à vontade de Deus”. Dicionário Bíblico Strong.

[6] “3824 παλιγγενεσια (paliggenesia), de 3825 e 1078; TDNT – 1:686,117; n f 1) novo nascimento, reprodução, renovação, recreação, regeneração 1a) por isso, renovação, regeneração, produção de uma nova vida consagrada a Deus, mudança radical de mente para melhor. A palavra é frequentemente usada para denotar a restauração de algo ao seu estado primitivo, sua renovação, como a renovação ou restauração da vida depois da morte 1b) a renovação da terra após o dilúvio 1c) renovação do mundo que terá lugar após sua destruição pelo fogo, como os estoicos ensinavam 1d) o sinal e gloriosa mudança de todas as coisas (no céu e na terra) para melhor, aquela restauração da condição primitiva e perfeita das coisas que existiam, antes da queda de nossos primeiros pais, que os judeus esperavam em conexão com o advento do Messias e que os cristãos esperam, em conexão com a volta visível de Jesus do céu. 1e) outros usos 1e1) da restauração, de Cícero, à sua posição e fortuna na sua volta do exílio 1e2) da restauração da nação judaica, após o exílio 1e3) da recuperação do conhecimento pela recordação”. Dicionário Bíblico Strong.

[7] “3338 μεταμελομαι (metamelomai) de 3326 e a voz média de 3199; TDNT – 4:626,589; v 1) estar, posteriormente, preocupado com alguém ou, algo 1a) estar arrependido, arrepender-se. Sinônimos, ver verbete 5862”. Dicionário Bíblico Strong.




As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus.


As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Parte II

“E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.” (Lucas 6:20).

Introdução

Este texto é a segunda parte do artigo O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da Lei, disponível no Portal Estudos Bíblicos. Caso não tenha lido a primeira parte desse artigo, recomendamos a leitura da primeira parte, a fim de se ter compreensão plena da exposição a seguir.

Na primeira parte do artigo, foram analisadas as beatitudes, através do registro no Evangelho segundo Mateus e, agora, daremos continuidade à análise das beatitudes, por meio do registro efetuado pelo apóstolo Lucas, com especial destaque no público alvo do discurso de Jesus.

Vale salientar que a condição de ‘pobres bem-aventurados’ não tem relação com a condição financeira do indivíduo, pois, entre os apóstolos, havia um médico e um cobrador de impostos e, mesmo assim, Jesus classificou os seus discípulos como pobres.

Se a condição ‘pobre’ bem-aventurado fosse decorrente de questões socioeconômicas, no mínimo, Lucas e Mateus seriam exceções à regra. A bem-aventurança é uma espécie de hebraísmo[1], expressão linguística muito usual nas Escrituras, como encontramos no Salmo 32:

BEM-AVENTURADO aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade e, em cujo espírito, não há engano” (Sl 32:1-2).

Para um judeu da época de Jesus, falar no aramaico asheré ou no grego makários (bem-estar, abençoados, felizes, bem-aventurados,ditosos, venturosos), pelo contexto, teria o mesmo efeito: seriam remetidos às exclamações enfáticas que permeiam as Escrituras.

 

O evangelista Lucas e as beatitudes

“E, descendo com eles, parou num lugar plano e, também, um grande número de seus discípulos e grande multidão de povo de toda a Judeia, de Jerusalém e da costa marítima de Tiro e de Sidom; os quais tinham vindo para ouvi-lo e serem curados das suas enfermidades, como, também, os atormentados dos espíritos imundos; e eram curados. E toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele virtude e curava a todos. E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem e vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:17-23).

Enquanto o evangelista Mateus iniciou registrou o Sermão da Montanha focado na mensagem do discurso, o evangelista Lucas incluiu no registro da mensagem uma descrição do local onde o discurso foi feito, bem como dá detalhes pertinentes ao público que estava ouvindo o Mestre e quando Ele muda a abordagem, em função dos grupos de pessoas que compunham a multidão.

O evangelista Lucas narra que Jesus subiu em um monte para orar e que Ele passou a noite em oração (Lc 6:12). Quando amanheceu, chamou os seus discípulos (seguidores) e, dentre eles, escolheu doze e deu-lhes o nome ‘apóstolos’ (Lc 6:13).

Após a escolha dos doze, Jesus desceu do monte, juntamente com os apóstolos e seus discípulos, e parou em um lugar plano, onde encontrava-se uma outra grande quantidade de discípulos, juntamente com uma grande multidão de diversas regiões da Judéia, Jerusalém e da costa marítima de Tiro e Sidom (Lc 6:17).

Muitos da multidão vieram para ouvir e serem curados por Jesus, pois bastava tocá-Lo para serem livres do mal que lhes afligia (Lc 6:18-19).

O evangelista Mateus enfatiza que Jesus se assentou, ato que indicou à multidão que Ele ia falar, pois à época os mestres ensinavam assentados (Lc 4:20). O evangelista Lucas, por sua vez, evidencia que Jesus selecionou o público alvo da sua mensagem, através de um olhar: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Jesus olhou para os seus discípulos e enfatizou que eles eram bem-aventurados porque o tão almejado reino dos céus pertencia aos seus seguidores. Entretanto, Jesus não falou abertamente esta verdade, antes disse: “Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Se os discípulos eram ‘os pobres’ e aos pobres ‘pertence o reino dos céus’, certo é que os discípulos eram ditosos, venturosos, pois estavam de posse do reino dos céus – Cristo (Jo 1:12).

E o que dizia os profetas acerca do reino de Deus?

“Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7).

Os profetas anunciavam que o Messias seria firmado e fortificado com juízo e justiça sobre o trono de Davi. Como o reino é firmado e fortificado em juízo e justiça, e a essência do reino é o principado d’Aquele que se assenta sobre o trono de Davi, quem recebeu o rei está farto de justiça (Jo 1:12).

Os seguidores de Cristo que eram famintos, agora são ditosos, por serem fartos de justiça. A tristeza, o abatimento, foram substituídos por alegria, ou seja, eles foram consolados (Is 61:3).

Ao profetizar acerca do reino do Messias, o Salmista declarou que o rei se compadecerá do necessitado que clamar, como também do aflito e dos necessitados. O rei não fará acepção: atenderá o necessitado que clamar, de modo que todas as nações o servirão: “E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o servirão. Porque ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude. Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados” (Sl 72:11-13).

Quem são os pobres, aflitos e necessitados? Responde-se: – Aqueles que invocam o nome do Senhor!

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32);

“Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados (Sl 72:13).

O publicano, quando orou, de pé e ao longe, no templo, portou-se como necessitado, pois invocou a Deus, dizendo: – “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”  (Lc 18:13). O publicano invocou o Senhor como pobre, tradução do termo grego ‘ptojói’, que remete a alguém em absoluta miséria, penúria total. Reconheceu a sua condição miserável: – ‘Sou pecador’!

E os necessitados serão livres do que? Da opressão econômica? Do descaso social? Das políticas governamentais opressoras? Das lutas de classes? Da discriminação racial? Não! Ele libertará o homem que clamar – do engano, da violência (Sl 72:14).

Mais adiante, abordaremos essas duas figuras: ‘engano’ e ‘violência’, que compõem a parábola do Salmo de Salomão.

Cristo é a pedra de tropeço, a rocha de escândalo, colocada em Israel por Deus e todo aquele que n’Ele cresse, não seria confundido. Enquanto os filhos de Israel esperavam um rei que estabelecesse um governo, o rei veio para estabelecer um santuário. Antes de restaurar o reino de Israel, Ele veio edificar um templo – a Igreja – um santuário, uma casa de oração para todos os povos: “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço e rocha de escândalo às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Is 8:14); “Também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7).

Os discípulos creram em Cristo – a rocha de escândalo para as duas casas de Israel (Judá e Israel) – portanto, os discípulos não foram confundidos, daí o título de bem-aventurados. Ao crerem no enviado de Deus, os discípulos estavam de posse do reino dos céus, portanto, eram fartos de justiça e consolados por Deus. Por terem recebido o grande rei, o Filho de Davi, foram feitos filhos de Deus (Jo 1:12).

Jesus frisou que os discípulos eram bem-aventurados quando odiados e quando os homens buscassem separá-los, injuriando e rejeitando-os como maus, por causa d’Ele. Quando acontecesse de serem injuriados e rejeitados, era para os discípulos não se entristecerem, antes deveriam exultar, folgar, porque a recompensa do Pai celeste seria grande (Mt 6:19-20), visto que, os filhos de Israel, no passado, também haviam perseguido os profetas de Deus.

Diferente dos escribas e fariseus que ajuntavam tesouro na terra, os discípulos, quando perseguidos, estariam ajuntando tesouro nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e nem está ao alcance de ladrões (Mt 6:19, compare com Mt 5:12).

 

Peso sobre os ricos

O evangelista Lucas registrou alguns ‘ais’ anunciados por Jesus, durante a exposição do Sermão do monte e o evangelista Mateus, por sua vez, não faz esse registro. Somente no capítulo 23 o evangelista Mateus registra a censura do Senhor Jesus contra os líderes judaicos, porém, em outro contexto.

Após anunciar a venturosa alegria dos discípulos, o evangelista Lucas registra uma censura através de imprecações de ‘ais’, que Jesus fez, desfavorável a algumas pessoas que estavam ouvindo o discurso.

Seria contrassenso os discípulos serem congratulados e censurados no mesmo discurso. Os seguidores de Cristo não poderiam ser ‘pobres’ e ‘ricos’, portanto, a censura de Jesus torna evidente que o público alvo do Sermão mudou. Observe:

“Mas ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

A conjunção adversativa ‘mas’ e o peso ‘ai’, indicam que Jesus deixou de falar com os seus seguidores e que o juízo que estava sendo anunciado tinha por alvo um outro grupo de pessoas. Isto significa que Jesus deixou de olhar para os seus discípulos e direcionou o seu olhar para um outro público, em meio à multidão: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós…” (Lc 6:20).

Para censurar certo grupo de pessoas em meio à multidão, Jesus introduz a figura do ‘rico’. Jesus estava falando da condição social de algumas pessoas em meio à multidão? Não!

Qual o significado da figura dos ‘ricos’ no discurso de Jesus?

O salmista Asafe fez uma descrição das pessoas que se enquadram no perfil dos ‘ricos’:

“3 Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.

4 Porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força.

5 Não se acham em trabalhos como outros homens, nem são afligidos como outros homens.

6 Por isso a soberba os cerca como um colar; vestem-se de violência como de adorno.

7 Os olhos deles estão inchados de gordura; eles têm mais do que o coração podia desejar.

8 São corrompidos e tratam maliciosamente de opressão; falam arrogantemente.

9 Põem as suas bocas contra os céus e as suas línguas andam pela terra.

10 Por isso, o povo dele volta aqui e águas de copo cheio se lhes espremem.

11 E eles dizem: Como o sabe Deus? Há conhecimento no Altíssimo?

12 Eis que estes são ímpios e prosperam no mundo; aumentam em riquezas (Sl 73:3-12).

Para ler esse salmo e compreender as figuras utilizadas pelo salmista Asafe é necessário conhecimento básico de alguns recursos utilizados para a construção da poesia hebraica.

Os salmos, provérbios e a maioria das profecias são construídos através de um elemento formal denominado paralelismo. A poesia hebraica não possui rima, mas, sim, um encadeamento lógico que substitui a rima e o ritmo, que muitos chamam de “ritmo de sentido”.

O verso 3: “Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios”, foi construído através de um paralelismo sintético (ou: formal, construtivo), em que a segunda frase do verso amplia e acrescenta um conceito à primeira frase.

Asafe, profeticamente, diz que ‘tinha inveja dos néscios’, dos loucos e, em seguida, a justificativa: por causa da prosperidade dos ímpios! Se a inveja decorre da prosperidade, certo é que os ‘néscios’ são ‘ímpios’ e vice-versa.

Tudo o que é descrito nos versos seguintes rementem aos ímpios, por conseguinte, aos néscios e/ou loucos. Daí outra pergunta? Quem são os loucos? Ou, quem são os ímpios?

Considerando o que o apóstolo Paulo asseverou: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19), visto que os judeus se achavam excessão, e que o termo ‘lei’ empregado por ele engloba a lei, os profetas, os provérbios e os salmos (Escrituras), os ‘loucos’ em questão refere-se aos filhos de Israel, como foi dito por Moisés:

“Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6).

Quando é dito no Salmo 74: “Lembra-te disto: que o inimigo afrontou ao SENHOR e que um povo louco blasfemou o teu nome” (Sl 74:18). O inimigo que afrontou ao Senhor diz da Babilônia que derribou o tempo e ateou fogo ao santuário. Já o povo louco que ‘blasfemou’ o nome do Senhor diz dos filhos de Israel, como diz o profeta: “Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Rm 2:24).

A censura de Deus recai sobre o seu próprio povo:

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22);

“Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4);

“Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade, também haverá grande ódio” (Os 9:7).

Retornando ao Salmo 73, o salmista descreve os ‘loucos’, ou o povo de Israel com outras figuras: a ‘soberba’ os envolvem como um colar, vestidos de ‘violência’ (Sl 73:6), ‘prosperam’ no mundo e aumentam em ‘riqueza’ (Sl 73:12).

O salmista estaria falando do acumulo de riquezas materiais? Não! A figura possui outro significado.

O que seria a violência que usam como vestimenta? O profeta Isaías responde:

“As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade e obra de violência há nas suas mãos” (Is 59:6).

Em lugar de vestes de justiça produzidas por Deus, os ‘loucos’ se cobrem com obras de iniquidade, trapos de imundície que, diante de Deus, são obras de violência. Em lugar do espírito do Senhor (palavra), preferem a força: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4:6).

Por que violência? Porque a palavra do Senhor na boca dos ‘loucos’ é transtornada em ‘opressão’ e ‘engano’, como se lê: “Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8).

Um exemplo de violência é trocar a obediência pelo sacrifício. Enquanto Deus requer do homem a obediência, os sacerdotes incitavam o povo ao sacrifício. Deus requer que o homem seja pobre, abatido de espírito, ou seja, que obedeça (tremer) a sua palavra, porém, cada qual seguiam os desvarios dos seus próprios corações e acabavam praticando a ‘violência’ do sacrifício, como se lê:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra. Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos e a sua alma se deleita nas suas abominações” (Is 66:2-3).

A violência de quem mata um homem é comparável à violência de quem sacrificava um boi a Deus, mas que não se sujeita a Ele.

Por toda a Escritura é utilizada a figura do rico, do violento, do mentiroso, do perverso, do maligno, etc.

“Porque os seus ricos estão cheios de violência, e os seus habitantes falam mentiras e a sua língua é enganosa na sua boca” (Mq 6:12);

“Porque o dia do SENHOR dos Exércitos será contra todo o soberbo e altivo, e contra todo o que se exalta, para que seja abatido” (Is 2:12);

“Estas seis coisas o SENHOR odeia e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6:16-19).

Em função de outras passagens do Novo Testamento, verifica-se que a figura dos ‘ricos’, à época de Jesus e dos apóstolos, fazia referência aos escribas, aos fariseus e aos príncipes do povo de Israel. Os homens que condenaram e mataram a Cristo e arrastavam os seus seguidores aos tribunais eram ‘ricos’!

“Porventura, não vos oprimem os ricos e não vos arrastam aos tribunais? Porventura, não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” (Tg 2:6-7).

“EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente, vivestes sobre a terra e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:1-6).

Os textos de Lucas e de Tiago contra os ricos não possuem viés marxista, não abordam lutas de classes, não visam questões trabalhistas e sindicalistas e nem dão suporte à teologia da libertação.

Os ‘ricos’ como figura nas Escrituras não são decorrentes da ordem socioeconômica com base escravocrata, não deriva do capitalismo selvagem e nem decorre de ideologias de governo, etc.

‘Rico’ é uma figura empregada pelos profetas, para fazer referência àqueles que confiavam em si mesmos, que faziam da carne a sua força e o coração se apartava do Senhor (Jr 17:5).

Os profetas na Antiga Aliança descreveram tais homens como insensatos, loucos, que ajuntavam riquezas, mas não retamente (Jr 17:11; Sl 49:5-6 e 12-13; Sl 52:7).

O profeta Amós anunciou o peso do Senhor sobre homens ímpios que estavam em repouso na cidade de Jerusalém. Que, apesar da invasão inimiga iminente por causa da transgressão em Israel, continuavam deitados em camas de marfim, comiam cordeiros e bezerros cevados, cantavam ao som da lira, bebiam vinho e se ungiam com o mais excelente óleo, mas não se afligiam pela ruina da casa de Israel (Am 6:1-7).

Apesar da aparente segurança, os que viviam uma vida regalada em Jerusalém seriam conduzidos ao exílio (Am 6:7).

A figura do ‘rico’ foi utilizada pelos profetas para compor inúmeros símiles e diversas parábolas, e é com base no que foi anunciado na lei, profetas e nos salmos, etc., que Jesus apresentou a parábola do homem rico:

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas, Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus” (Lc 12:16 -21).

A quem Jesus propôs a parábola do homem rico? Para entendermos a parábola, primeiro temos que identificar quem era o público alvo da mensagem, pois pela quantidade de parábolas, até mesmo os discípulos ficaram confusos e perguntaram: “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos” (Lc 12:41).

Havia ajuntado milhares de pessoas ao redor de Jesus, tanto que empurravam uns aos outros (Lc 12:1). Inicialmente, Jesus fala com os seus discípulos, utilizando o fermento com figura para alertá-los da perniciosidade contida na doutrina dos fariseus (Lc 12:1).

Mas, enquanto falava aos seus discípulos, um homem O interrompeu, rogando: – “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12:13). Após repreender o homem, deixando claro que a sua função não era de juiz ou divisor de herança, ordenou aos seus ouvintes que se abstivessem da ‘avareza’.

Seria a ‘avareza’ abordada por Jesus um dos sete pecados capitais? Jesus estava falando de quem tem excessivo apego ao dinheiro?

Ora, anteriormente Jesus havia determinado cautela para com o ‘fermento’ dos fariseus, que era a hipocrisia (Lc 12:1; Mt 16:12). Jesus não estava falando de fermento biológico ou fermento químico ou de pão feito de trigo.

Jesus, também, não estava dizendo que a hipocrisia dos escribas e fariseus se resumia em fingirem ter crenças, virtudes, ideias ou sentimentos que não possuíam.

Na verdade, Jesus estava alertando quanto ao preceito de homens que era ensinado pelos escribas e fariseus. Substituir a palavra de Deus por preceitos de homens é o que os profetas declaravam como sendo ‘hipocrisia’. Mesmo que o homem creia piamente que o seu posicionamento seja correto, se não é conforme o mandamento de Deus, é hipocrisia: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9).

A ‘hipocrisia’ não diz da falsidade, dissimulação, fingimento, etc., nas relações interpessoais. Certo é que, do ponto de vista das relações humanas, a hipocrisia é perniciosa e reprovável, porém, a hipocrisia abordada por Cristo tem relação com o que foi anunciado pelos profetas:

“Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos. Por isso o Senhor não se regozija nos seus jovens e não se compadecerá dos seus órfãos e das suas viúvas, porque todos eles são hipócritas e malfazejos e toda a boca profere doidices; e nem com tudo isto cessou a sua ira, mas ainda está estendida a sua mão” (Is 9:16-17);

“O hipócrita com a boca destrói o seu próximo, mas os justos se libertam pelo conhecimento” (Pv 11:9).

O ‘hipócrita’ é o que diz ‘doidices’, que em lugar de anunciar a palavra do Senhor, que satisfaz o faminto e sacia o sedento, profere o engano, preceitos de homens que não satisfazem a alma faminta por justiça: “Porque o vil fala obscenidade e o seu coração pratica a iniquidade, para usar de hipocrisia e para proferir mentiras contra o SENHOR, para deixar vazia a alma do faminto e fazer com que o sedento venha a ter falta de bebida” (Is 32:6).

Se a ‘hipocrisia’ diz da doutrina de engano, certo é que a ‘avareza’ não diz daquele que está em busca do lucro econômico mas, sim, do que busca a falsidade, seguindo o devaneio do seu coração corrompido: “E eles vêm a ti, como o povo costumava vir e se assentam diante de ti, como meu povo e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ez 33:31); “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” (Jr 6:13).

Ter zelo de Deus, mas não ter entendimento, ou seja, o conhecimento, é o mesmo que hipocrisia e avareza (Rm 10:1-3; Pv 19:2). Não é possível servir a dois senhores, lisonjear um com a boca e o coração seguir a avareza, ou seja, servir a Deus e a Mamom: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Ninguém pode servir a Deus e seguir a sua avareza. Aquele que segue a sua ‘avareza’ elegeu o seu próprio ventre como deus. Lisonjeia a Deus com a boca, mas permanece sendo senhor de si mesmo, ou seja, não se humilha (se faz servo) debaixo das potentes mãos de Deus: “Porque, os tais, não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Rm 16:18).

Jesus destaca que a vida do homem não consiste na abundância de bens que possui (Lc 12:15), isso porque, as Escrituras evidenciam que a vida está em ser um abatido de espírito (Is 57:15), ou seja, alguém que se humilha a si mesmo para servir a Deus. A vida está na palavra de Deus e não no pão cotidiano (Dt 8:3).

Após Jesus anunciar que certo homem alcançou grande lucro e arrazoava consigo mesmo, que construiria celeiros maiores para poder dizer: – “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos. Descansa, come, bebe e folga” (Lc 12:19) e que Deus lhe disse: – “Louco, esta noite te pedirão a tua alma. Então, o que tens preparado, para quem será?”, Jesus compara ao homem louco qualquer que ajunta tesouro na terra e não é rico para com Deus (Lc 12:21).

O homem rico da parábola é louco por não ajuntar tesouro nos céus e não por ser abastado economicamente. A parábola introduz uma similitude entre aquele que ajunta bens materiais e não sabe quem desfrutará, com aqueles que ajuntam recompensa aqui, e não são ricos para com Deus (Mt 5:19-21).

A parábola do homem rico deriva do que escreveu o Salmista Davi: “Todo homem anda como uma sombra: em vão se inquieta; amontoa riquezas, sem saber quem as levará” (Sl 39:6). O homem rico foi nomeado ‘louco’ por causa do que foi anunciado por Jeremias: “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará e no seu fim será um insensato (Jr 17:11).

O homem rico era um insensato, um louco, pois o que estava ajuntando não o tornava rico para com Deus. O termo ‘louco’ é uma figura que se aplica aos filhos de Israel, desde Moisés: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” (Sl 94:8).

Como tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, ou seja, refere-se aos judeus, a figura do ‘louco’ aplica somente aos judeus, o que demonstra que a parábola do homem rico tinha como figurante um judeu (Rm 3:19). Quando é dito: “Todo homem anda como uma sombra”, o texto é inclusivo, demonstrando que os judeus não são exceção à regra, como equivocadamente achavam.

A parábola do homem rico era instrução para os discípulos, mas, como Jesus falava por parábolas ao povo e expôs um grande número de parábolas, isso trouxe um questionamento: – “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos?” (Lc 12:41).

Quando era anunciado algo à multidão, o evangelista Lucas deixou frisado: “Disse também à multidão: Quando vedes a nuvem que vem do ocidente, logo dizeis: Lá vem chuva e assim sucede” (Lc 12:54), o que evidencia a importância de se observar o público alvo da mensagem.

Retornemos às beatitudes anunciadas por Jesus aos seus discípulos, segundo o que foi registrado pelo evangelista Lucas:

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque, eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:20-23).

Após anunciar as bem-aventuranças, Jesus anuncia um peso contra algumas pessoas, em meio à multidão que estava ouvindo o discurso, ou seja, os ‘ais’ (peso) não eram em desfavor aos discípulos:

“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

Os escribas e fariseus deviam observar que, enquanto todos os homens diziam coisas boas acerca deles, assim também fizeram no passado os filhos de Israel aos falsos profetas. Os líderes da religião judaica eram os fartos que, em breve, sentiriam o quanto eram miseráveis. Agora estavam alegres, mas em breve haveriam de se lamentar e chorar.

Após anunciar o peso do Senhor através de ‘ais’ contra os líderes da religião, Jesus se dirige à multidão, mudando o público alvo da sua mensagem novamente, dizendo: “Mas a vós, que isto ouvis…” (Lc 6:27).

Após estabelecer um contraponto entre a condição dos Seus seguidores e os mestres da religião judaica através das beatitudes e dos ‘ais’, Jesus se volta à multidão para expor a sua doutrina.

Do capítulo 6 do evangelho de Lucas, dos versos 27 em diante, o público alvo da mensagem de Cristo é a multidão que os escribas e fariseus consideravam maldita: “Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” (Jo 7:49).

 

Cristo, a lei e os profetas

“17 Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir.

18 Porque, em verdade, vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mt 5:17 -18).

O evangelista Mateus não registrou a censura dos escribas e fariseus e o evangelista Lucas, por sua vez, não registrou a relação de Cristo com a lei e os profetas. Lucas não registrou a censura e a lembrança do que foi determinado nas Escrituras e vai direto para a ordem à multidão de amar os inimigos, o que foi feito por Mateus somente a partir do verso 44 do capítulo 5.

A transição do público alvo da mensagem de Cristo é mais perceptível através do registro do evangelista Lucas, como vemos no seguinte apelo: “Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai…” (Lc 6:27), no entanto, essa mesma transição de público ocorre no evangelho de Mateus, quando Jesus diz: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

O pronome na terceira pessoa do plural ‘vós’, e a referência ao que foi dito: beatitudes e censura, indica que Jesus passou a tratar com um outro público: a multidão, deixando de fora os seus discípulos e os líderes da religião judaica (escribas e fariseus).

O público alvo da mensagem de Cristo mudou, pois ele não está mais falando da condição dos seus discípulos (pobres, tristes, mansos, puros de coração, etc.), visto que é impossível ser bem-aventurado e ter grande galardão nos céus (Mt 5:12), quando não se compreende a relação de Cristo com a lei e os profetas.

Ele também não estava falando aos escribas e fariseus (ricos, fartos, etc.), uma vez que a mensagem de Cristo dá uma solução: entrem pela porta estreita (Mt 7:13), pois qualquer que ouvisse a sua doutrina e obedecesse, seria comparável ao homem prudente que constrói a sua casa sobre a rocha (Mt 7:24).

Do capítulo 5 do evangelho segundo Mateus, versos 17 em diante, o leitor terá um discurso voltado para a multidão que, em primeiro lugar, visa esclarecer a relação de Jesus com a lei e os profetas (não vim destruir a lei e os profetas) e, em seguida, alertar que o reino dos céus estava vetado à multidão, caso não adquirissem justiça superior à justiça dos escribas e fariseus (Mt 5:20).

Lembrando que a temática da mensagem de Jesus, desde quando João Batista foi preso, era revolucionar o modo de pensar dos seus concidadãos (Mt 4:12-17), o leitor do Sermão da Montanha precisa estar cônscio de que o sermão tem o escopo de operar uma mudança de compreensão (metanoia) nos judeus.

Mas, para entender o arrependimento (metanoia) exigido por Cristo, primeiro se faz necessário compreender quem eram os judeus e o entendimento que possuíam da lei, pessoas a quem, primeiramente, Jesus foi enviado (Jo 1:11; Mt 15:24; Jr 50:6).

Para o leitor ter noção de quem eram os judeus, basta ler o capítulo 7 do livro dos Atos dos apóstolos, onde o mártir Estêvão faz um resumo preciso da origem e crescimento do povo Judeu.

Os judeus são descendentes do patriarca Abraão, um gentio que veio da Mesopotâmia, antes de fixar residência em Harã. Quando em Harã, Deus apareceu a Abraão e disse-lhe: – “Sai desta terra e dentre a tua parentela para uma terra que Eu te mostrarei” (At 7:2-3).

Abraão deixou os seus parentes e passou a peregrinar nas terras de Canaã (Gn 12:1-5). Deus não deu herança a Abraão em Canaã (At 7:5), pois Abraão viveu como peregrino na terra da promessa (Hb 11:9). Abraão não herdou terras, antes era herdeiro da seguinte promessa: “À tua descendência darei esta terra” (Gn 12:7).

Abraão gerou Isaque, segundo a promessa e Isaque gerou a Jacó e Jacó os doze patriarcas. Os patriarcas cheios de inveja venderam José como escravo, porém Deus o fez governador do Egito e tudo o que foi revelado a Abraão cumpriu-se (At 7:6-7; Gn 15:13-14).

Os filhos de Israel foram feitos escravos no Egito e Deus levantou um profeta – Moisés – e o comissionou para resgatar o seu povo do jugo da servidão, como foi revelado a Abraão. O resgate do povo foi feito com poderosa mão, sendo realizado por Deus muitos prodígios e sinais memoráveis (At 7:34-35).

Moisés profetizou que, dentre os filhos de Israel, Deus levantaria um profeta como Moisés, e que o povo deveria ouvi-Lo (At 7:37). Mas, quando Moisés subiu ao monte Sinai para falar com Deus e ficou quarenta dias e quarenta noites. O povo achou que Moisés estava demorando e que poderia ter morrido e rebelou-se, pois intentou retornar ao Egito (At 7:39).

Por causa da rebeldia do povo, Deus se afastou e os abandonou à própria sorte. Em outras palavras, o Senhor que os seguia no deserto (a pedra) e que concedeu comida e bebida espiritual ‘escondeu’ o seu rosto: “Assim se acenderá a minha ira naquele dia contra ele e desampará-lo-ei, esconderei o meu rosto dele, para que seja devorado; e tantos males e angústias o alcancem, que dirá naquele dia: Não me alcançaram estes males, porque o meu Deus não está no meio de mim? Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:17-18; Dt 32:20; Is 64:7); “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1Co 10:4).

Onde há relato nas Escrituras de uma pedra que seguia os filhos de Israel no deserto e contra quem se rebelaram?

“Porque apregoarei o nome do SENHOR; engrandecei a nosso Deus. Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos são justos; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é” (Dt 32:3-4 e 15).

A mesma Rocha que serviu de tropeço às duas casas de Israel, visto que os edificadores a rejeitaram (1Pe 2:6-8; Is 8:14; Is 28:16; Sl 118:22). A Rocha que os seguia é o Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Israel, para que aprendessem a esperar n’Ele: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17), pois, só há salvação quando Deus manifesta a sua glória na face de Cristo: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2Co 4:6).

Manifestar o rosto é o mesmo que resplandecer, de modo que o resplendor da face de Deus é misericórdia e salvação: “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti” (Nm 6:25); “Faze-nos voltar, ó Deus e faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos” (Sl 80:3).

Embora os filhos de Israel oferecessem sacrifícios no deserto por quarenta anos, dizendo que serviam ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó, continuamente eram censurados e repreendidos como transgressores (At 7:42-43).

Deus não se agradou da MAIORIA deles quando percorriam o deserto por serem cobiçosos (torpe ganancia), idólatras, promíscuos (prostituiam), tentadores e murmuradores (1Co 10:5-10).

Havia em Israel aqueles que cobiçavam coisas materiais, reverenciavam outros deuses, que se prostituiam, etc., porém, havia os religiosos que diziam seguir a lei de Deus (como o fariseu que orava no templo agradecendo a Deus por não ser como os demais homens, pois não matava, não roubava, não se prostituía, etc.), e mesmo assim Deus os denominava cobiçosos, idolatras, promíscuos, etc.

Ora, todos esses comportamentos, perniciosos do ponto de vista da moral humana, foram utilizados como figuras para apontar uma realidade espiritual, assim como tudo o que sobreveio sobre Israel foi feito para a Igreja de Cristo como figura (1Co 10:6 e 11).

Moisés protestou contra Israel, dizendo:

“Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” (Dt 31:27).

O que é a rebelião? A rebelião não é o mesmo que feitiçaria? A mesma feitiçaria que os religiosos tanto apontavam como prática reprovável entre os gentios? Que são a iniquidade e a idolatria? A iniquidade e a idolatria não são o mesmo que persistir no erro (porfiar)? O mesmo julgamento que os filhos de Israel emitiam com relação aos povos vizinhos como iníquos e idólatras, arguia contra eles por rejeitarem a palavra de Deus (Rm 2:1-3).

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1Sm 15:23).

Ao chamar os filhos de Israel de rebeldes e de dura cerviz, Moisés estava chamando-os de feiticeiros, de iníquos e de idólatras. Por que? Ora, basta analisarmos a confissão de Neemias:

“E recusaram ouvir-te e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste, e endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em beneficência, tu não os desamparastes” (Ne 9:17).

Em outras palavras, os filhos de Israel, na sua ‘feitiçaria’ (rebelião), levantaram um líder tencionando voltar ao Egito. Queriam permanecer escravos, ou seja, porfiar, o mesmo que iniquidade e idolatria.

É em função da transgressão e da iniquidade que os filhos de Israel são denominados de ‘loucos’, como já vimos acima: “Os loucos, por causa da sua transgressão e por causa das suas iniquidades, são aflitos” (Sl 107:17).

Ora, a maioria das figuras utilizadas pelos profetas para censurarem os filhos de Israel, primeiramente, foram utilizadas por Moisés em seu cântico profético: loucos, dura cerviz, ignorantes, perversos, depravados, Sodoma, Gomorra, veneno, peçonha, víboras, etc. (Dt 32:5-6 e 28-29 e 32-33).

Isaías clamou contra Israel dizendo: “Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10). Semelhantemente, clamou Jeremias: “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer  o mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22). Ezequiel chamou os filhos de Israel de prostituta: “Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ez 16:35).

As figuras utilizadas pelos profetas para falar contra os filhos de Israel eram nomes que se davam aos comportamentos desregrados, do ponto de vista de convivência social, porém, essas figuras apontavam para uma realidade espiritual.

Equivocadamente, os filhos de Israel tornaram-se moralistas, legalistas e ritualistas, reprimindo comportamentos humanos desregrados (figuras) e se esqueciam da realidade: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt 23:23).

Dessa prevaricação surgiram judeus religiosos que percorriam o mar e a terra para tornar um gentio seguidor do judaísmo (prosélito), e, quando conseguiam, o estado do prosélito se tornava duas vezes pior do que os seus instrutores: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23:15).

Como mestres, os escribas e fariseus eram prevaricadores, ou seja, os interpretes não sabiam interpretar a lei e os profetas “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” (Is 43:27); “Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheciam, e os pastores prevaricavam contra mim, e os profetas profetizavam por Baal e andaram após o que é de nenhum proveito” (Jr 2:8); “Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores” (Is 46:8); “Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13).

Os escribas e fariseus achavam que eram salvos por terem Abraão por pai e não atinavam que, somente, os que tem a mesma fé que Abraão são filhos de Abraão: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3:9); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque, eu vos digo que, até destas pedras, pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (Jo 8:33); “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (Jo 8:39); “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gl 3:7).

O entendimento dos escribas e fariseus era de que bastava ser descendente da carne e do sangue de um judeu para ter direito à bem-aventurança prometida a Abraão, ou que um gentio se circuncidasse e guardasse as tradições dos anciões.

“1 E AJUNTARAM-SE a ele os fariseus e alguns dos escribas, que tinham vindo de Jerusalém.

2 E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam.

3 Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos muitas vezes;

4 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas.

5 Depois perguntaram-lhe os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos por lavar?

6 E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim;

7 Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens.

8 Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.

9 E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição.

10 Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá.

11 Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor;

12 Nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe,

13 Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7:1-13).

É em função da má leitura que se faz das Escrituras que muitos não conseguem compreender porque Saul foi rejeitado por Deus, e Davi, um homicida e adúltero, foi considerado um homem segundo o coração de Deus.

Aos olhos de Deus, Saul era feiticeiro, iniquo e idolatra, pois era um homem de torpe ganancia (queria a presença do profeta e sacerdote Samuel somente para ser honrado diante do povo), e hábil em mentir, desviar da palavra do Senhor e conceber e proferir do coração palavras falsas (1Sm 13:12; 1Sm 15:30; 1Sm 15:20 e 24-25).

Davi, por sua vez, portou-se de modo inconveniente e reprovável (2Sm 11:4 e 15), e recebendo a pena pelos seus crimes (2Sm 12:10-12). O comportamento de Davi deu azo aos inimigos de Deus blasfemarem, não só no seu tempo, pois onde a história de Davi tornar-se conhecida até hoje, questionam o Deus de Israel.

Mas, em que Davi é melhor que Saul? Errou, porque não foi instruído corretamente segundo a lei, mas quando Deus matou Uzá, de pronto buscou instrução nas Escrituras.

Certa feita os levitas receberam carros de bois, assim como os filhos de Israel receberam a arca da aliança dos filisteus sobre carros de bois, porém, à época de Moisés, somente os filhos de Coate nada receberam, pois o santuário estava a seu encargo e deveriam levá-lo sobre os ombros (2Sm 6:5-7; Nm 6:9).

Davi temeu ao Senhor e questionou como viria a ele a arca do Senhor (2Sm 6:9), e assim buscam ao Senhor segundo o que Deus prescrevera na lei (1Cr 15:2 e 12-15). No mesmo dia que trouxe a arca, Davi entregou pela primeira vez a Asafe e seus irmãos um Salmo de ações de graças ao Senhor onde ele instrui os filhos de Israel a jamais se esquecerem da aliança de Deus e das palavras que prescreveu (1Cr 16:7 e 15-17).

Ora, a multidão ao pé da montanha que estava ouvindo o discurso de Jesus era composta de judeus, descendentes do patriarca Abraão e que foram liderados por Moisés quando saíram do Egito. Desde sempre, aquela multidão foi instruída por prevaricadores que mentiam, pois concebiam e proferiam do coração palavras de falsidade dizendo que os filhos de Jacó efetivamente eram uma nação santa, um povo escolhido por Deus, pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão: “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e o proferir do coração, palavras de falsidade” (Is 59:13).

Entretanto, a Escritura que os mestres da lei liam para afirmar falsamente que os filhos de Israel eram possessão do Senhor, na verdade era condicional, pois dizia: se diligentemente ouvissem a voz de Deus e guardassem a aliança ENTÃO SERIAM propriedade peculiar: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar, dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5).

As pessoas que estavam ouvindo o discurso de Jesus pensavam que eram salvas por serem descendentes da carne de Abraão (Mt 3:9; Jo 8:39). Achavam que eram mais justas e melhores que os outros povos vizinhos, simplesmente porque os seus pais receberam a lei de Deus das mãos de Moisés (Dt 9:4; Rm 3:9). Embora os seus antecessores tivessem matado os profetas que anunciavam a vinda de Cristo, eles religiosamente edificavam e adornavam os túmulos dos profetas sob pretexto de serem melhores que os seus pais (At 7:51-53; Lc 11:47-48). Eles religiosamente ouviam a lei, mas não seguiam os preceitos de Deus (At 7:53; Jo 7:19; Ml 3:7; Rm 2:13), etc.

Os ouvintes de Jesus foram instruídos a cumprir mandamentos de homens e, ao ouvirem a doutrina de Cristo, haveria conflito de ideias, pois o que Jesus haveria de ensinar não era conforme estavam acostumados a ouvir, daí o alerta de Jesus à multidão: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

É nesse ponto que entra a questão do arrependimento, no seu sentido grego: ‘metanoia’. Quando Jesus apregoava ‘arrependei-vos’, não estava buscando uma reação emocional de pesar dos seus interlocutores por atos realizados ou não, quer fossem atos bons, por não terem sido realizados ou ruins, que foram realizados.

O arrependimento apregoado por Jesus diz da ‘metanoia’ dos gregos, ou seja, significa mudança de mente, mudança de concepção em vista de um novo conhecimento ou evento. Não é o arrependimento traduzido por ‘paenitentia’, que invoca sofrimento, fazer penitencia, pagar indulgência, etc.

A ordem era: arrependei-vos (mudem a concepção de vocês), porque é chegado o reino dos céus (a chegada do reino dos céus – Cristo – é o evento ou o conhecimento que deveriam mudar o modo de pensar dos judeus).

Como mudar a concepção de pessoas que eram acostumadas a ouvir que eram bem-aventuradas, por terem por Pai a Abraão? (Mt 3:9) Como mudar o pensamento de pessoas que estavam acostumadas a ouvir que eram filhos de Abraão e que nunca foram escravos de ninguém? (Jo 8:33) Como mudar o modo de pensar de pessoas acostumadas a ouvirem que era necessário fazer prosélitos, sob o argumento de que só assim os gentios seriam ditosos?

Jesus não podia dizer abertamente ao povo: – “Eu sou o Cristo”, por isso, Ele fez uso de parábolas, de modo que a multidão pudesse, pelas figuras utilizas no Sermão da Montanha, compreender pela Escrituras, que Ele era o Cristo: “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava (Mc 4:33-34).

Jesus não podia dizer abertamente que era o Cristo, porque quem testifica de si mesmo é mentiroso: “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” (Jo 5:31). Também era impossível os seus ouvintes reconhecerem o Cristo pela aparência, muito menos alguém iria indicá-lo: “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21).

Os sermões de Jesus visavam a mudança de concepção dos seus interlocutores, portanto, precisavam ser conduzidos genuinamente através da lei, dos profetas e dos salmos a Cristo. Para reconhecerem Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, assim como confessou o apóstolo Pedro (Mt 16:16), os discursos de Jesus apontavam através de parábolas e figuras o testemunho (revelação) de Deus nas Escrituras.

O apóstolo Pedro confessou que Jesus é o Filho de Deus, porque Deus revelou a ele. Como? Quando? A revelação de Deus se deu pela manifestação de Cristo aos homens, conforme o testemunho das Escrituras (1Jo 5:9-11).

Não foi carne e sangue que revelou ao apóstolo Pedro que Jesus é o Filho de Deus, ou seja, não foram os seus concidadãos, os seus parentes, os judeus que deram o conhecimento necessário para o apóstolo chegar àquela confissão que lhe concedeu a bem-aventurança. ‘Carne’ e ‘sangue’ neste contesto remete a parentesco, nacionalidade: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não to revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16:16-17).

Para os escribas e fariseus, a lei e os profetas estavam intimamente ligados à guarda da tradição dos anciões (Mc 7:5), consequentemente, não conseguiam entender como era possível Jesus ser um mestre judaico e comer com os publicanos e pecadores (Mt 9:11), muito menos entender como era possível os discípulos de Jesus não jejuarem (Mt 9:14). Como era possível um seguidor da lei não guardar o sábado? (Mt 12:2)

Por questões semelhantes a essas, facilmente o povo poderia entender que Jesus estava destruindo a lei e os profetas. É em função da falta de compreensão dos seus interlocutores que Jesus enfatiza qual o seu papel em relação à lei e os profetas: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Quando Jesus disse que veio para ‘cumprir’ a lei e os profetas, não estava enfatizando os ritos e cerimoniais da lei, antes destacou que Ele era o cumprimento da lei e dos profetas. Jesus deixou claro que nada do que constava na lei acerca d’Ele (nem um jota ou um til) deixaria de se cumprir.

Quando Jesus disse: “Vim para cumprir” (v. 17), temos que interpretar esse verso segundo essa perspectiva: “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lc 24:44), ou seja, nem um jota ou til deixaria de se cumprir “Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento” (Lc 22:37).

Jesus estava preparando o entendimento do povo para que pudessem compreender, que todas as promessas que constam das Escrituras, sem exceção, estavam vinculadas à pessoa de Cristo: “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” (2Co 1:20).

Jesus não veio cumprir os preceitos dos escribas e fariseus que, pela tradição oral, compõem a Mishnah ou o comentário posterior que deu origem ao Talmud. Por Ele ser a realidade, vez que a lei era sombra, não precisava guardar os sábados (dias de descansos), pois Ele é o descanso que Deus prometeu à humanidade, cujos sábados simbolizavam.

O objetivo da lei era o Cristo, pois através do nascimento, morte e ressurreição Ele é a propiciação para todo que crê “Porque o fim (objetivo) da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). A lei é santa, justa e boa, porém, através da lei era impossível o homem se justificar, pois a lei era sombra da realidade que se encontra em Cristo “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2:16-17); “PORQUE sendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, podem aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hb 10:1).

Certa feita, Jesus e os discípulos estavam caminhando em um dia de sábado, e passando por uma seara, os discípulos de Jesus colheram espigas. Os fariseus de ponto criticaram a atitude dos discípulos de Jesus, ao que Ele respondeu apontando para Davi que, quando esteve em aperto e com fome, entrou no templo e comeu os pães da propiciação juntamente com os seus homens.

Jesus deixa claro que o sábado foi instituído por causa dos homens e não o homem por causa do sábado. E ao final da exposição, Jesus deixa claro que Ele é o Senhor que instituiu o sábado (Mc 2:23-28).

Ora, o sábado foi instituído para que o povo soubesse que precisavam de descanso para a alma, assim como precisavam de descanso para o corpo físico. Os filhos de Israel só teriam descanso quando perguntassem pelas veredas antigas e andassem nela, mas se faziam de rogados e rejeitavam andar segundo a palavra de Deus: “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos,  vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Jesus veio revelar a vontade de Deus aos homens e orientou a todos dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

A instituição de sábados de festas tinha como foco a raiz de Jessé, ou seja, o Cristo – o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel – “E acontecerá naquele dia que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso” (Is 11:10); “E o efeito da justiça será paz, a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:17).

De que adiantava guardar sábados e dias de festas, se eles não entrariam no repouso estabelecido por Deus? “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira: Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo” (Hb 4:3).

O escritor ao Hebreus deixa claro que Josué não deu descanso aos filhos de Israel, embora eles tivessem entrado na terra prometida com ele:

“Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo. Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia. E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas novas não entraram por causa da desobediência, Determina outra vez um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações. Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria depois disso de outro dia. Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas. Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4:3-11)

Como poderia Josué ter dado repouso aos filhos de Israel, se Davi, muito tempo depois, profetiza acerca de um dia – hoje – quando haveria de ser dado o descanso? Como poderiam ter alcançado descanso, se Deus jurou que aquele povo não entraria no descanso de Deus?

Mas, se ouvissem a voz de Deus anunciada por Davi – hoje – e não endurecessem o coração, certamente entrariam no descanso do Senhor. Se é dito para dar ouvidos à voz de Deus, certo é que há um descanso.

Enquanto os escribas e fariseus ordenavam ao povo que se lavassem antes das refeições, Jesus deixa claro que todos os que o ouviam já estavam limpos pela palavra. Ele deixa claro que o que sai pela boca é o que contamina o homem e não o que entra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3).

Cristo é a água limpa providenciada por Deus que purifica o homem de toda imundície, portanto, não é a agua natural que purifica o homem, mas, sim, o Verbo de Deus: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

A lei e os profetas testificavam do Cristo e Jesus deixa claro essa função das Escrituras: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

A lei foi dada aos filhos de Israel para que reconhecessem que eram pecadores, porém, por causa da carne (sou filho de Abraão) a lei se tornou enferma, ou seja, não produzia o seu efeito, visto que os filhos de Israel se achavam justos, por serem descendentes da carne de Abraão (Rm 8:3).

Por mais que a lei arguisse os judeus como transgressores encerrando tanto judeus quanto gentios debaixo do pecado (Gl 3:22), pois essa era a função da lei, ela tornou-se inócua (enferma) frente ao argumento: ‘Temos por pai Abraão’ (carne).

A lei serviu de ‘aio’ para que os judeus fossem conduzidos a Cristo (Gl 3:24), os judeus, por sua vez, buscavam ser justificados por meio do que foi dado para preservá-los até a vinda do Cristo: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

 

Os deveres dos mestres

“19 Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus” (Mt 5:19).

Jesus evidencia a importância da lei e dos profetas, ao destacar que, qualquer que aviltar (transtornar) um dos mandamentos, por menor que fosse e ensinasse aos homens, será nomeado ‘menor’, ‘sem expressividade’ (ἐλάχιστος)[2] no reino dos céus. Porém, aquele que obedecer e ensinar, será chamado ‘grande’ no reino dos céus.

Torcer o mandamento de Deus é violentar a própria alma, pois o peso decorre de suas próprias palavras: “Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e sego o que não semeei”  (Lc 19:22); “Mas nunca mais vos lembrareis do peso do SENHOR; porque a cada um lhe servirá de peso a sua própria palavra; pois torceis as palavras do Deus vivo, do SENHOR dos Exércitos, o nosso Deus” (Jr 23:36; Ez 22:26; Pv 8:32-36).

O apóstolo Paulo é exemplo de alguém que é chamado ‘grande’ no reino dos céus, pois creu que Jesus é o Cristo (cumpriu o exigido na lei e nos profetas) e ensinava o evangelho de Cristo aos seus ouvintes, através da lei de Moisés e dos profetas: “E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele à pousada, aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus e procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” (At 28:23).

 

Justiça superior

“20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (Mt 5:20)

Do mesmo modo que era impossível Nicodemos ver o reino de Deus, apesar de ser juiz, príncipe e fariseu, se não nascesse de novo, também era impossível à multidão que ouvia Jesus entrar no reino dos céus.

O reino dos céus estava vetado ao povo, do mesmo modo que o reino dos céus estava vetado aos escribas e fariseus, ou seja, a justiça deles era equivalente. Daí a ordem: se a justiça do povo não excedesse a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrariam nos céus.

Através desta colocação, Jesus estava demonstrando que os líderes da religião judaica não podiam entrar no reino dos céus, apesar de parecerem justos aos olhos dos homens (Mt 23:28).

Levando-se em conta a seguinte parábola: “E dizia-lhes uma parábola: Pode porventura o cego guiar outro cego? Não cairão ambos na cova?” (Lc 6:39), certo é que a multidão estava em igual condição à dos seus líderes religiosos (Mt 15:12).

Qual a justiça superior à dos escribas e fariseus? A justiça pela qual os seguidores de Jesus haveriam de ser perseguidos e injuriados (Mt 5:10-12).

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).

A justiça da lei descrevia os seus ouvintes como mortos, pois o homem que fizesse o estipulado na lei haveria de viver pelo que cumprisse (Rm 10:5; Lv 18:5).

No evento das serpentes ardentes, temos uma alegoria que aponta para condição dos filhos de Israel, mortos em delitos e pecados, visto que qualquer que olhasse para a serpente de metal, viveria: “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” (Nm 21:8).

Para viver, era necessário cumprir a lei, que foi interposta com maldição: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém” (Dt 27:26). Para viverem, teriam que olhar para a serpente, segundo o que Deus ordenará ao povo, por intermédio de Moisés.

Os filhos de Israel desconheciam que a justiça superior foi dada gratuitamente a Abraão, quando Deus prometeu que, em seu Descendente, todas as famílias (judeus e gentios) da terra seriam benditas: “Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé” (Rm 4:13).

Apesar de os filhos de Israel horarem a Deus com os lábios, o coração deles estava longe de Deus (Mt 15:8), e justamente quem veio explicar tudo acerca da lei e dos profetas (Jo 5:25), não foi reconhecido por eles, porque a mensagem de Jesus era contrária a religiosidade judaica (formalismo, legalismo e ritualismo).

Os judeus não se consideravam transgressores da lei e nem atinavam que, qualquer que tentasse guardar a lei, mas tropeçasse em um único ponto dela, era transgressor de toda lei (Tg 2:11). Os descendentes de Jacó não analisavam o motivo pelo qual a lei protestava contra eles, como povo rebelde e fazia referência a eles como injustos, tanto que Moisés deixou claro que os judeus não eram melhores e nem mais justos que os povos vizinhos (Dt 9:4 e 6), principalmente, porque os judeus eram ouvintes da lei, mas nenhum deles a praticavam (Jo 7:19; Rm 2:13).

 

Continua: ‘Não matarás’ e o Sermão da Montanha

 


[1] Hebraísmos –  refere-se a termos ou expressões exclusivas da linguagem dos hebreus (algo semelhante as expressões idiomáticas) que, pela peculiaridade da língua ou do contexto, pode trazer certa dificuldade aos tradutores para verterem o texto em outra língua.

[2] “1646 ελαχιστος elachistos superlativo de elachus (curto); usado como equivalente a 3398; TDNT – 4:648,593; adj 1) o menor, o mínimo 1a) em tamanho 1b) em valor: de administração de negócios ​1c) em importância: que é o momento mínimo 1d) em autoridade: de mandamentos 1e) na avaliação de seres humanos: de pessoas 1f) em posição e excelência: de pessoas” Dicionário Bíblico Strong; “1. elachistos (ελαχιστος). “o mínimo, o menor”, o grau superlativo formado da palavra elachus, “pequeno”, de cujo lugar foi tirado por mikros (o grau comparativo de elassõn, “menos” ). É usado acerca de: (a) tamanho (Tg 3.4. “bem pequeno” ); (b ) quantidade, a administração dos negócios (Lc 16.10. duas vezes; Lc 19.17); (c) importância (1 Co 6.2); (d) autoridade, de mandamentos (Mt 5.19); (e) avaliação, sobre pessoas (Mt 5.19. segunda parte: Mt 25.40,45; 1 Co 15.9): sobre uma cidade (Mt 2.6); sobre atividades ou operações (Lc 12.26; 1 Co 4.3, “mui pouco” ). 2. eiachistoteros (éXaxicrrÓTepoç), grau comparativo formado do n° I , é usado em Ef 3.8. “o mínimo”. 3. mikros (piicpóç). “pequeno, pouco”, é usado em At 8.10 (“o mais pequeno” ) e Hb 8.11 (“o menor”). com referência a hierarquia ou influência. Veja PEQUENO (1), A. n° 1.” Dicionário VINE.




1 Corintios 7 – Tristeza para arrependimento

Porém, a despeito da disparidade comportamental existente no seio da comunidade cristã primitiva em decorrência das múltiplas questões de ordem sociocultural pertinentes à época, o apóstolo teve que dar um norte, apontando quais eram os princípios gerais a serem seguidos por todos: judeus, gentios, servos, livres, bárbaros, gregos, etc.


Os termos abatido: oprimidos, quebrantados, perturbados, cansados, tristes, aflito, necessitado, pobre, etc., são utilizados para fazer referencia aos homens que reconhecem as suas impossibilidades diante da condição de sujeição ao pecado “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Para analisar o capítulo 7 da segunda epístola do apóstolo Paulo aos Corintos se faz necessário lembrar algumas peculiaridades pertinentes a uma carta.

Normalmente, tanto os remetentes quanto os destinatários possuem um conhecimento comum, sendo que o conhecimento prévio que compartilham determinará a linguagem empregada na carta.

Uma carta surge da necessidade de comunicação entre pessoas que se conhecem, ou que no mínimo possuem afinidade acerca de um tema específico, portanto, a linguagem empregada na carta terá uma peculiaridade específica, o que torna uma carta completamente diferente de um livro quanto à linguagem.

A linguagem de quem escreve uma carta vai além dos linguísticos pertinente a gramática, visto que há uma carga de impressões ou emoções pessoais que realça a troca de informações entre destinatário e remetente.

Este fenômeno linguístico ocorre com as cartas paulinas, embora o apóstolo Paulo tenha utilizado vários recursos pertinentes à retórica nas suas argumentações. Os conhecimentos prévios que o apóstolo e seus destinatários possuíam acerca da matéria abordada, que é o evangelho de Cristo, possuem nuances que, se o leitor não prestar a devida atenção, não fará uma boa leitura do texto.

 

1 ORA, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.

Após fazer alusão às promessas de Deus exaradas no Antigo Testamento: “E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso”, o apóstolo Paulo reitera aos cristãos a necessidade de todos os cristãos, ele próprio não se exclui da necessidade, ‘purificarem-se’ de toda a imundícia da carne e do espírito.

Da declaração do apóstolo surgem as perguntas: quais são as imundícies da carne e do espírito? É possível ao homem purificar a si mesmo?

Jesus demonstra que a santificação ocorre por intermédio da palavra de Deus: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ), ou seja, pela crença em Cristo: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Ou seja, todos os cristãos, pela fé em Cristo, são remidos do pecado e recebem uma herança imarcescível nos céus, pois todos quantos morrem com Cristo estão justificados do pecado ( Rm 6:7 ), pois são gerados de novo em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Ou seja, a santificação é uma obra exclusiva de Deus, como se lê: “Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27).

É Deus quem promete e se encarrega de santificar o homem, pois somente Ele pode dar um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Quando se lê uma ordem para o homem santificar-se, certo é que o homem deve refugiar-se em Deus, que o santificará: “Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” ( Ez 18:31 ; Ez 11:19 ).

Porém, após o novo nascimento, há um único elemento que não é renovado na nova criatura que demanda sua volitividade : a mente. Daí advém as determinações: transformai-vos pela renovação do vosso entendimento.

Crer em Cristo concede salvação da condenação pertinente à transgressão de Adão, porém, com relação às questões conceituais e comportamentais existe a necessidade de ocorrer uma renovação na mente dos que foram gerados de novo “E vos renoveis no espírito da vossa mente” ( Ef 4:23 ; Rm 12:2 ).

É neste contexto que cabe ao homem regenerado purificar-se a si mesmo. Esta mesma recomendação foi passada a Timóteo pelo apóstolo Paulo, o que dá elementos suficientes para uma interpretação mais segura: “Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra” ( 2Tm 2:21 ).

Enquanto Deus santifica, purifica o homem do pecado (hamartia) de Adão, de onde adveio a condenação de toda a humanidade, a determinação do apóstolo Paulo refere-se a erros a que todos os cristãos estão sujeitos “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo” ( Tg 3:2 ).

Ou seja, deve ser o objetivo dos cristãos o portar-se honestamente em tudo, embora seja passível de erros conceituais e comportamentais “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ).

E qual é o objetivo do cristão? portar-se honestamente? O portar-se honestamente é um elemento humano e não visa a salvação, pois a salvação é providencia de Deus. A honestidade dos cristãos tem em vista os não crentes para que não haja qualquer entrave quanto ao anuncio da mensagem do evangelho “Para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa alguma” ( 1Ts 4:12 ).

Geralmente quando se lê a recomendação para se ‘purificar da imundície da carne e do espírito’, é comum que os leitores abstraiam a ideia que há tipos distintos de imundície e, que estas se subdividem em imundícies pertinentes a carne, e outras, pertinentes ao espírito, mas não é assim.

Carne e espírito são entes distintos na essência, porém, ambos são utilizados pelo apóstolo Paulo para fazer referência a completude humana que o torna indivíduo “Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus” ( 2Co 7:1 ). Compare: “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ).

Portanto, o cristão, como indivíduo, deve purificar-se de toda imundície. O que se entende por imundície na abordagem paulina?

Imundície é tudo o que foge de um viver sossegado, moderado; quem se intrometa no alheio, quem foge do trabalho “Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação (…) Porque também já assim o fazeis para com todos os irmãos que estão por toda a Macedônia. Exortamo-vos, porém, a que ainda nisto aumenteis cada vez mais. E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado” ( 2Ts 4:7- 12).

A imundice, ou mancha, está relacionado a comportamentos inconvenientes, o que é distinto do pecado, que é a própria existência separada de Deus por ter sido gerado segundo a carne de Adão.

A salvação do pecado é obra de Deus que, através de Cristo, concede ao homem um novo coração e um novo espírito, ou seja, é o resultado do novo nascimento, e a imundície diz de comportamento reprovável, inconveniente, no seio da comunidade cristã.

A salvação do pecado torna o homem membro do corpo de Cristo, por meio da fé, que é dom de Deus, ou seja, não se dá por questões morais ou comportamentais. Mas, concomitantemente com o surgimento da igreja (corpo de Cristo) surge a comunidade cristã, que é um misto de povos de todas as nações e línguas, cujo comportamento difere de indivíduo para indivíduo, o que demanda por parte dos seus integrantes o recomendado pelo apóstolo Pedro: “Mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus” ( 1Pe 3:4 ).

Não se pode confundir a aludida ‘carne’ e ‘espírito’ do verso 1 deste capítulo com a carne que é despojada através da circuncisão de Cristo e sepultada no batismo com Cristo, pois a carne despojada através da circuncisão diz da natureza pecaminosa herdada de Adão (natureza de filho da ira, filho da desobediência) e, a carne que trata este capítulo, refere-se ao comportamento reprovável dos homens sob domínio do pecado “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também“ ( Ef 2:3 ); “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:10 -11).

“A vontade do pensamento” de Efésios 2, verso 3 refere-se ao ‘espírito’ de 2 Coríntios 7, verso 1, ou seja, em ambos o sentido de espírito e pensamento remete apenas à psique do homem, e este elemento humano demanda ao próprio homem controlar “… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 ).

Observe que o apóstolo Paulo não se apresenta como legalista impondo ou delineando regras comportamentais, pois tudo é abordado do ponto de vista da recomendação e da exortação, como inicialmente foi acordado no primeiro concílio em Jerusalém “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” ( At 15:28 -29).

É necessário notar que em todas as cartas paulinas não é imposto lei, regras ou normas, pois o apóstolo tinha em vista a necessidade de se deixar claro que o evangelho de Cristo não se constituía e nem possuía elementos normatizadores, legalistas ou prescritivos de comportamento humano, seja em questões legais, éticas ou morais “ROGO-VOS, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados” ( Ef 4:1 ).

Porém, a despeito da disparidade comportamental existente no seio da comunidade cristã primitiva em decorrência das múltiplas questões de ordem sociocultural pertinentes à época, o apóstolo teve que dar um norte, apontando quais eram os princípios gerais a serem seguidos por todos: judeus, gentios, servos, livres, bárbaros, gregos, etc.

A palavra grega traduzida como ‘aperfeiçoar’ aqui, tem vários significados, destacando entre as principais a ideia de: a) ajustar e por em ordem; b) equipar ou habilitar algo para um propósito determinado. Portanto, a ideia do verso não é ‘aperfeiçoar’ a santificação, antes diz de algo acessório, de um ornamento, de se ‘equipar’ o que foi concedido por Deus “Não defraudando, antes mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador” ( Tt 2:10 ).

Ao escrever a Tito o apóstolo Paulo apresenta algumas questões comportamentais, e enfatiza que tais ações são um ‘ornamento da doutrina de Deus’, de igual modo, ao fazer a mesma abordagem com os cristãos de corintos, ele recomenda o ‘aperfeiçoamento’ (ornar) da santificação no temor do Senhor ( 2Co 6:3 ).

Como a ‘palavra de Deus’ é o mesmo que ‘o temor do Senhor’ “Confirma a tua palavra ao teu servo, que é dedicado ao teu temor” ( Sl 119:38 ), e a santificação decorre da palavra de Deus, segue-se que o que o apóstolo recomenda é um comportamento que sirva de ornamento ao temor (doutrina, palavra) do Senhor ( Jo 17:17 ; Sl 34:11 ; Sl 19:9 ).

 

2 Recebei-nos em vossos corações; a ninguém agravamos, a ninguém corrompemos, de ninguém buscamos o nosso proveito.

Neste verso ele retoma uma questão que estava tolhendo a relação de confiança que havia entre o apóstolo e os cristãos de corintos “Não estais estreitados em nós; mas estais estreitados nos vossos próprios afetos” ( 2Co 6:12 ).

O apóstolo roga que o aceitem, não somente por amizade, mas que aceitassem como verdadeiras as suas palavras em seus corações, e apresenta seus motivos: ele não tinha ofendido ninguém, não havia corrompido ninguém e, muito menos, buscava o seu próprio proveito ( 2Co 12:14 ).

 

3 Não digo isto para vossa condenação; pois já antes tinha dito que estais em nossos corações para juntamente morrer e viver.

O apóstolo deixa claro que, com o pedido anterior não estava emitindo um juízo de valor negativo acerca do sentimento dos corintos. Ele não estava censurando, antes buscava demonstrar o quanto os amava.

 

4 Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas tribulações.

Devido ser o pai quanto a fé que os cristãos de corintos professavam, o apóstolo dos gentios era ousado quando se dirigia àquela comunidade cristã “Porque ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo” ( 1Co 4:15 ).

O apóstolo dos gentios demonstra que, quando fazia qualquer alusão acerca dos cristãos de Corintos, o fazia com ousadia e, não tinha receio de se gabar, de se gloriar deles. A consolação do apóstolo resumia-se no fato de os cristãos de corintos suportarem as mesmas aflições que o ele “Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; ou, se somos consolados, para vossa consolação e salvação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos; E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” ( 2Co 1:6 -7).

O apóstolo tinha grande alegria pelo fato de dividirem as mesmas tribulações, visto que esta era uma prova de que estavam firmes no evangelho.

 

5 Porque, mesmo quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum; antes em tudo fomos atribulados: por fora combates, temores por dentro.

Embora a Macedônia parecesse representar um local de descanso, o apóstolo Paulo e os que com ele estavam não puderam descansar, visto que tiveram que defender o evangelho (combate), e suportar o receio e os temores quanto a não terem encontrado Tito em Trôade “Não tive descanso no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito; mas, despedindo-me deles, parti para a Macedônia” ( 2Co 2:13 ; 1Ts 2:2 ).

 

6 Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito. 7 E não somente com a sua vinda, mas também pela consolação com que foi consolado por vós, contando-nos as vossas saudades, o vosso choro, o vosso zelo por mim, de maneira que muito me regozijei.

Esta é a frase mais importante deste capítulo: “Mas Deus, que consola os abatidos (tristes)…”, pois nela está o supedâneo necessário para se interpretar o restante do capítulo.

Quem são os ‘abatidos’ que Deus consola e, que o apóstolo faz referência ?

Certo é que são os pobres de espírito e os tristes do qual Jesus também faz alusão no sermão do monte ( Mt 5:3 -4). Também é uma referência aos tristes e abatidos que Isaías profetizou: “A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” ( Is 61:2 ); “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

Com base nos versículos em destaques conclui-se que consolar os tristes, os que choram, ou os abatidos é ação exclusiva de Deus através da pessoa de Cristo “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

Os termos abatido: oprimidos, quebrantados, perturbados, cansados, tristes, aflito, necessitado, pobre, etc., são utilizados para fazer referencia aos homens que reconhecem as suas impossibilidades diante da condição de sujeição ao pecado “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Somente Deus sara os abatidos de espírito e, os abatidos são aqueles que se refugiam em Deus, que por sua vez serão consolados, instruídos, etc. “Sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas” ( Sl 147:3 ); “E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” ( Is 29:24 ).

Neste verso o apóstolo Paulo enfatiza que é Deus que consola os abatidos, ou seja, esta é a obra que Deus realiza: salvação, porém, ele atribui a Deus o consolo com a vinda de Tito, que era algo que, anteriormente, o deixou contristado.

E não somente isto, o apóstolo também considera um consolo saber que os irmãos sentiram saudades, que prantearam e que zelavam dele, o que o levou a estar regozijado.

Porém, o consolo com a vinda de Tito e com a alegria decorrente do apreço demonstrado pelos irmãos é totalmente diferente do consolo que só Deus opera, visto que este é concernente à salvação e aquele diz de relações interpessoais.

 

8 Porquanto, ainda que vos contristei com a minha carta, não me arrependo, embora já me tivesse arrependido por ver que aquela carta vos contristou, ainda que por pouco tempo.

Sem abordar as questões especulativas da existência de uma carta extraviada que não chegou em nossas mãos, ou sobre o tema que levou os cristãos de corintos a ficarem tristes, o certo é que apóstolo Paulo enfatiza que, com sua carta, havia entristecido os cristãos.

Quando o apóstolo Paulo soube que os cristãos de Corintos ficaram tristes com o conteúdo da carta que enviara, arrependeu-se de ter escrito aquela carta, mas ao verificar que a carta produziu nos cristãos uma mudança de concepção, de entendimento, mudou de postura.

 

9 Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma.

Mas, apesar de ter deixado os cristãos entristecidos (contristados) por causa do conteúdo da carta, naquele momento o apóstolo demonstra estar regozijado, pois todos eles foram contristados de modo que mudaram de concepção (metanóia) acerca da matéria abordada.

A palavra grega ‘metanoeo’ empregada pelo apóstolo Paulo e por outros apóstolos, significa ‘mudança de mente’, ‘mudança de concepção’, ‘mudança de ideia acerca de uma matéria’, o que difere da concepção que foi utilizada ao longo dos séculos, que inicialmente foi adotada na ‘vulgata latina’ por ‘penitencia’ e, até mesmo, difere do que se abstrai da palavra arrependimento em nossos dias, que muitos entendem como ‘abandono do pecado’, ‘tristeza em vista dos erros de conduta’, ‘remorso’, ou ‘mudança de comportamento’.

O apóstolo Paulo deixa claro que não havia ficado contente ao saber que os cristãos se entristeceram (metanoeo), mas que o seu contentamento se dera em função da mudança de pensamento que ocorreu. Ou seja, se a tristeza fosse elemento essencial ao arrependimento segundo Deus, certo é que, em momento algum o apóstolo teria demonstrado arrependimento pelo fato de tê-los contristado “Porque, se eu vos entristeço, quem é que me alegrará, senão aquele que por mim foi contristado?” ( 2Co 2:2 ).

Pelo fato de terem mudado de concepção, o apóstolo enfatiza: “… pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma” (v. 9). Este verso deve ser analisado com base no verso 6: “Mas Deus, que consola os abatidos…” (v. 6).

A tristeza ou a contrição aqui não é algo visível aos olhos dos homens, pois mesmo o apóstolo Paulo diante da tristeza dos cristãos não soube, inicialmente, discernir se a tristeza era segundo Deus ou segundo o mundo, como se observa no verso 10.

Ser contristado segundo Deus ocorre quando se tem contato com a sua palavra “Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos” ( Sl 119:71 e 81 -82). A contrição, a tristeza diz da conscientização que o homem adquire da condição que está após ter contato com o que é anunciado por Deus.

Ser contristado segundo Deus é garantia de que o homem será consolado por Ele, pois é Ele que consola os abatidos e rejeita os altivos “Isto é a minha consolação na minha aflição, porque a tua palavra me vivificou” ( Sl 119:50 ). A tristeza segundo Deus está intimamente ligada à salvação, sendo que o consolo de Deus é salvação.

Ora, se houve a mudança de pensamento após a carta que os contristou, certo é que foram contristados segundo Deus, pois ele corrige a quem recebe por filho “Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho (…) para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:6 -11).

Com este argumento o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos não haviam sofrido nenhum agravo por parte dele, antes que foram devidamente instruídos segundo Deus, o que promoveu a mudança de pensamento.

A tristeza segundo Deus não é promovida por decepção, desilusão, necessidades materiais, desgosto, etc. , ou seja, não deriva de um sentimento que é intrínseco ao homem. Antes possui conexão direta com o jejum estipulado por Deus: o afligir da alma, e não do corpo ( Is 58:5 ).

 

10 Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.

Se os cristãos foram entristecidos por causa da carta, como não sofreram agravo? A resposta esta no verso 10.

Qual é a tristeza segundo Deus que opera a mudança de concepção (metanoeo) para a salvação? É a tristeza abordada no verso 6: “Mas Deus, que consola os ‘abatidos’…” (v. 6).

A ‘tristeza’ segundo Deus que promove a mudança de concepção e produz salvação é uma referência específica acerca dos abatidos de espíritos, dos tristes, dos contritos, etc., que são apresentados nos Salmos, Profetas e na Lei, pois Deus só salva os contritos e abatidos de espírito “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Qualquer um que seja altivo, farto, abastado, rico, que segue seu coração enganoso, pois se estriba na carne, não será salvo por Deus “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:9 ).

A ‘tristeza’ provocada pela carta do apóstolo Paulo operou arrependimento nos cristãos, mas tal arrependimento não tinha em vista a salvação da condenação eterna. Eles foram contristados e se arrependeram de algo que não estava diretamente atrelado à salvação, mas que poderia comprometê-los.

O apóstolo deixa claro neste verso que a contrição, o espírito abatido, a tristeza segundo Deus opera uma mudança de concepção para que o homem possa ser salvo, mas da salvação ninguém se arrepende.

Enquanto a tristeza segundo Deus opera a salvação, a tristeza segundo o mundo opera a morte, pois tal tristeza diz de um sentimento promovido pelo ódio, inveja, contenda, porfia, etc.

 

11 Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio.

O fato de eles terem sido contristados em decorrência da carta, segundo a contrição proveniente de Deus, tornou-os cuidadosos, diligentes, atenciosos. A mudança de concepção fez com que propagassem a discussão. Ficaram inflamados. Temeram. Foram invadidos pelo sentimento saudosista. Defenderam o proposto.

Ou seja, a atitude deles demonstrou que, naquela questão abordada na carta não estavam envolvidos!

 

12 Portanto, ainda que vos escrevi, não foi por causa do que fez o agravo, nem por causa do que sofreu o agravo, mas para que o vosso grande cuidado por nós fosse manifesto diante de Deus. 13 Por isso fomos consolados pela vossa consolação, e muito mais nos alegramos pela alegria de Tito, porque o seu espírito foi recreado por vós todos.

O apóstolo Paulo destaca que fora mal compreendido, pois a carta não tinha em vista quem fez ou quem sofreu o dano. Ele corrige a distorção causada pela carta anterior demonstrando que o foco era evidenciar o cuidado que possuíam pelos apóstolos, especialmente pelo apóstolo Paulo e os que acompanhavam-no em seu ministério.

Que diante de Deus fosse manifesto e os irmãos pudessem visualizar o quanto tinham em conta os apóstolos de Cristo.

Em vista da apologia, indignação, temor, saudades, etc., o apóstolo sentiu-se revigorado, consolado, sem falar na alegria de Tito, que alem de contagiante, demonstrava o cuidado que tiveram por Ele.

 

14 Porque, se nalguma coisa me gloriei de vós para com ele, não fiquei envergonhado; mas, como vos dissemos tudo com verdade, também a nossa glória para com Tito se achou verdadeira. 15 E o seu entranhável afeto para convosco é mais abundante, lembrando-se da obediência de vós todos, e de como o recebestes com temor e tremor. 16 Regozijo-me de em tudo poder confiar em vós.

O apóstolo Paulo enfatiza que havia dito a Tito boas coisas a respeito dos corintos, e que eles, por sua vez, não o decepcionaram. De tudo que o apóstolo gloriou-se acerca deles, Tito confirmou ser verdadeiro, o que prendeu afetivamente Tito.

Tito destacou que os irmos eram obedientes e como o receberam, o que promoveu alegria e a satisfação do apóstolo dos gentios.




Arrependimento e fruto

A problemática entorno do que é ‘arrependimento’ está em determinar qual o conceito de ‘fruto do arrependimento’ que João Batista utilizou. O fruto não diz das ações dos homens, antes diz do fruto dos lábios, ou seja, o fruto do arrependimento é o que se professa através da boca.


Arrependimento e fruto

“Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas” ( Hb 6:1 )

O Arrependimento para salvação

A mensagem de João Batista, o homem comissionado para preparar o caminho do Senhor Jesus, foi o primeiro a anunciar a necessidade de arrependimento ( Mt 3:1 -8), e este também foi o ponto principal da mensagem de Cristo ( Mt 4:17 ).

A importância do arrependimento é tamanha que os apóstolos não deixaram de anunciá-lo ( Mc 6:7 -13 ; At 2:38 ; At 20:20 -21).

Ora, como a mensagem de João Batista tinha o fito de preparar (preparar) o caminho do Senhor, não podemos negar que a mensagem de arrependimento visa preparar a compreensão dos homens para a mensagem de Cristo ( Mt 3:3 ).

O apóstolo Paulo demonstra que Deus não leva em conta o tempo da ignorância, porém, com o advento do Messias, em tempo aceitável todos os homens, sem exceção, são notificados a se arrependerem ( At 17:30 ).

 

No que consiste o arrependimento

A palavra arrependimento é a tradução da palavra grega “metanoia” que significa “mudança de mente, mudança de pensamento ou de ponto de vista acerca de uma matéria”. Significa possuir outra atitude mental, outra concepção, que geralmente vem através de uma revolução no ponto de vista que o homem possui.

O arrependimento se dá por um motivo palpável, pois a palavra da qual ‘arrependimento’ é a tradução no Novo Testamento, tem como sentido primário ‘reflexão posterior’, e como sentido secundário ‘mudança de pensamento’, ou seja, arrepender-se é refletir e mudar de concepção.

Do ponto de vista humano, o homem se arrepende de algo que pretendia fazer ou de algo que já fez. Ora, para se arrepender de algo que já praticou ou que iria fazer, num primeiro instante é necessário um motivo que leve a reflexão e, posteriormente, a uma mudança de pensamento.

Do ponto de vista bíblico, o arrependimento não é diferente, visto que a necessidade de arrependimento é motiva pela chegada do reino dos céus “… porque está próximo o reino dos céus” ( Mt 3:2 ).

Cristo é o motivo apresentado por João Batista que haveria de trazer uma revolução no modo de pensar a salvação. A mensagem de Cristo é revolucionária, visto que desconstruía questões bem definidas pelos judeus de como alcançar a salvação, tais como: ser filho de Abraão, ser seguidor da lei.

A visão do Messias é revolucionária, visto que, qualquer homem que repousava no fato de ser descendente de Abraão precisava mudar radicalmente o seu conceito, deixando de presumir por si mesmo como se alcança a salvação, abraçando o que é proposto por Cristo ( Mt 3:9 ).

 

Frutos do arrependimento

De acordo a Bíblia, qual o fruto digno de arrependimento?

Esta resposta demanda uma análise mais aprofundada do texto de João Batista com um raciocínio critico.

Em nossos dias as pessoas procuram o fruto do arrependimento nas ações dos homens, mas não foi por questões comportamentais que João Batista protestou contra os escribas e fariseus que vieram ao batismo, visto que, posteriormente, o próprio Senhor Jesus disse que estes religiosos pareciam justos aos olhos dos demais homens.

A problemática entorno do que é ‘arrependimento’ está em determinar qual o conceito de ‘fruto do arrependimento’ que João Batista utilizou. O fruto não diz das ações dos homens, antes diz do fruto dos lábios, ou seja, o fruto do arrependimento é o que se professa através da boca.

Por exemplo: Os escribas e fariseus professavam que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão, porém, caso se arrependessem, deveriam professar que eram filhos de Deus pela fé no Descendente de Abraão, que é Cristo, o reino de Deus entre os homens.

No entanto, não foi isto que João Batista presenciou, visto que os escribas e fariseus que vinham e eram batizados, continuavam professando segundo as suas próprias presunções: Temos por Pai Abraão.

Quando há uma revolução no modo de pensar o homem deixa o que presumia e abraça um novo conceito. Deste modo, passa a professar uma nova doutrina, um novo pensamento, o que demonstra que se arrependeu de fato.

No que tange a salvação, os lábios de quem verdadeiramente arrependeu-se professa a Cristo ( Hb 13:15 ), pois este é o fruto dos lábios criado por Deus ( Is 57:19 ). Como a boca fala o que há em abundância no coração, certo é que, aqueles que receberam a semente do evangelho produzem a 30, 60 e 100, pois está ligado à oliveira verdadeira “Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta” ( Mt 3:23).

 

Obras mortas

Quando o homem se arrepende, ele muda sua concepção acerca de como se alcança a salvação em Deus. É neste momento que o homem torna-se discípulo e passa a ser um só corpo com Cristo, e a Verdade o torna livre do pecado ( Jo 8:31 -32). Através da união (conhecer) com Cristo, a verdade que liberta, o homem é de novo gerado e, nesta geração compartilha de uma nova natureza e, por conseguinte, passa a professar segundo o que aprendeu de Cristo: esse é o fruto genuíno, pois está ligado à oliveira verdadeira ( Mt 3:9 ).

Quando se professa a verdade do evangelho segundo as escrituras, o homem produz o fruto da mudança de pensamento, mas, em nossos dias, não se busca este fruto proveniente de Deus, antes os homens imersos na religiosidade buscam o fruto do arrependimento única e exclusivamente nas ações dos homens ( Is 57:19 ; Os 14:8 e Jo 15:5 ).

Muitos cristãos consideram que, se houver mudança de comportamento, houve arrependimento, porém, é bem certo que, se não houve mudança de concepção, surgiu somente mais um hipócrita no mundo, pois somente o exterior foi limpo, e o interior está cheio de rapina ( Mt 23:25 ).

Muitos judeus diziam ‘crer’ em Cristo, porém, quando lhes foi oferecido liberdade, rejeitaram-na, pois a mudança de compreensão (arrependimento) não ocorreu neles ( Jo 8:33 ). Rejeitaram a Cristo e continuaram a professar que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão ( Jo 8:38 ).

João Batista foi comissionado para preparar o caminho do Senhor, ou seja, tinha a missão de aplainar, tornar a mensagem de Cristo compreensível ao seu povo. Ele deixou bem claro em seu ministério que, não basta ao homem judeu dizer que tem por pai a Abraão, porém, os judeus não mudaram de concepção.

Qualquer mudança comportamental, qualquer transformação nas disposições internas do indivíduo, ou o simples fato de dizer que crê em Cristo ( Jo 8:31 ), mas permanecendo a confiança de que jamais foi escravo de ninguém (pecador), não passa de obras mortas.

Isto porque as boas ações dos homens só são aceitas por Deus quando se está unido a Ele. Fora d’Ele, as obras dos homens são mortas, visto que quem as produziu também está morto para Deus.

“Arrependei-vos e crede no evangelho” ( Mc 1:15)

A ordem é objetiva: arrependei-vos, ou seja, abandonem a concepção de vocês e descansem (crede) nas boas novas do evangelho. Deixem de dizer (fruto dos lábios) somos descendentes de Abraão, e crede no Descendente de Abraão.

Quando a Bíblia recomenda o arrependimento, não diz que os pecadores devam arrepender-se de suas ações, antes que os pecadores mudem de concepção (metanoia) em decorrência da chegada do reino dos céus.

Observe o que Jesus disse dos fariseus: não vim chamar os justos, ou seja, os religiosos que praticavam ações justas aos seus próprios olhos, mais sim os pecadores, aqueles que não se refugiavam em suas ações e origem carnal, ao arrependimento “E Jesus, tendo ouvido isto, disse-lhes: Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento ( Mc 2:17 ).

Ou seja, a mensagem de arrependimento não alcançam aqueles que se acham justos e que possuem práticas que os mantém separados dos demais homens. Antes, a mensagem de arrependimento é para os que sentem necessidade de Deus “Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao arrependimento” ( Lc 5:32 ); “Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” ( Lc 15:7; Mc 2:16 ).

Por que os fariseus rejeitavam a Cristo? Porque entendiam que eram justos em decorrência de suas obras, porém, por não estarem em Deus, as suas obras eram más. Como tinham obras que os faziam parecerem justos aos olhos dos homens, rejeitavam a Cristo “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” ( Mt 23:28 ).

Nos cristãos cumprem-se as palavras de Cristo: qualquer que vem a Cristo (luz) pratica a verdade e, consequentemente as suas obras são feitas em Deus, pois é gerado de Deus ( Jo 3:21 ; Ef 2:10 ).

 

A história

Segundo o que testificou Charles Haddon Spurgeon, à sua época havia cristãos excelentes, os quais ele criticou,pois testificavam que arrepender-se é mudança de mente.

“Conheço alguns irmãos bem excelentes — aprouvera a Deus que houvesse mais desses irmãos — que, em seu zelo por pregar a fé simples em Cristo, têm sentido um pouco de dificuldade no assunto do arrependimento. Conheço alguns deles que tentaram remover a dificuldade abrandando a aparente severidade da palavra arrependimento, expondo-a de acordo com o termo grego equivalente e mais usual, um termo que ocorre no original grego de meu versículo e significa ‘mudar a mente’” Spurgeon, Charles Haddon, Cristo ordenou o arrependimento, série de artigos Editora Fiel, disponibilizados pelo projeto Spurgeon.

Para Spurgeon o arrependimento deve ser mais severo, como se lê:

“O evangelho é um mandamento, é um mandamento que se explica em duas ordens: “arrependei-vos e crede no evangelho”. Conheço alguns irmãos bem excelentes — aprouvera a Deus que houvesse mais desses irmãos — que, em seu zelo por pregar a fé simples em Cristo, têm sentido um pouco de dificuldade no assunto do arrependimento (…) Aparentemente, eles interpretam o arrependimento como algo mais brando do que o concebemos, uma mudança simples na maneira de pensar. Ora, desejo sugerir a esses queridos irmãos que o Espírito Santo nunca prega o arrependimento como uma trivialidade. A mudança na maneira de pensar e no entendimento, sobre a qual o evangelho fala, é uma obra mais profunda e solene e não deve ser depreciada por motivo algum. Além disso, há outra palavra também usada no original grego que significa arrependimento; não é usada com frequência, eu admito. Ela significa “uma preocupação posterior”, aproximando-se mais do sentido de tristeza ou ansiedade do que aquela que significa mudar a maneira de pensar. No verdadeiro arrependimento, deve haver tristeza e ódio para com o pecado; do contrário, li a minha Bíblia sem qualquer propósito… O arrependimento significa realmente uma mudança na maneira de pensar. Mas é uma mudança completa do entendimento e de tudo que está na mente. Por isso, inclui iluminação, a iluminação do Espírito Santo. Acho que inclui uma descoberta da iniquidade e ódio para com o pecado, sem os quais não pode haver arrependimento autêntico. Penso que não devemos subestimar o arrependimento. É uma graça bendita de Deus, o Espírito Santo; é uma graça absolutamente necessária para a salvação” Spurgeon, Charles Haddon, Cristo ordenou o arrependimento, série de artigos Editora Fiel, disponibilizados pelo projeto Spurgeon (grifo nosso).

Observe que ao criticar alguns irmãos que diziam que o arrependimento é mudança de pensamento, de concepção acerca de uma matéria, que traduz o sentido mais usual da palavra do grego, Spurgeon acusa-os de abrandar a aparente severidade que há na palavra “Conheço alguns deles que tentaram remover a dificuldade abrandando a aparente severidade da palavra arrependimento…” Idem. Resta a pergunta: há severidade na palavra arrependimento, ou aparência de? Há como conceber o arrependimento de modo mais brando? O que seria arrependimento trivial? É possível depreciar o arrependimento?

Uma mudança na maneira de pensar dos judeus era algo simples de ocorrer? Não, porque mudança de pensamento não é algo simples.

A mudança na maneira de pensar e no entendimento proveniente do evangelho já é obra profunda e solene. Existe um modo de torná-la mais profunda?

Uma mudança incompleta de pensamento pode ser rotulada como arrependimento? Não!

Portanto, não há como tornar o arrependimento mais profundo, ou mais brando. Mudança é transformação radical, e neste conceito não há meio termo.

Apesar de enfatizar em seguida que arrependimento (realmente) é mudança na maneira de pensar, Spurgeon tenta acrescentar-lhe certa gravidade com a aplicação de alguns adjetivos: completa mudança de entendimento e de tudo que está na mente. E ele não para por ai, incluiu ao termo arrependimento, por conta e risco, iluminação, descoberta da iniquidade e ódio para com o pecado “Por isso, inclui iluminação, a iluminação do Espírito Santo. Acho que inclui uma descoberta da iniquidade e ódio para com o pecado…” (Idem), (ele não tinha certeza), pois sem estes aspectos, que ele incluiu, Spurgeon presumiu de si mesmo que seria subestimar o arrependimento.

Ora, este entendimento de Spurgeon deve-se à forte influência puritana e não-conformista que ele teve desde pequeno e da luta que travou com o liberalismo teológico e da investida da Alta critica no final da sua vida, porém, sabemos que a tradução da palavra arrependimento não tolera agregar a ideia de abrandamento ou gravidade, pois o arrependimento não pode ser fracionado.

O que Spurgeon buscava alcançar de seus ouvintes ao incluir descoberta do pecado e ódio contra o pecado ao termo ‘metanoia’? Buscava arrependimento de atos passados ou de intenções? O arrependimento se dá uma vez, ou é uma questão a ser renovada periodicamente? O que exigir dos ouvintes através do arrependimento? Contrição? Confissão? Remorso? Reconhecimento? Conduta? Serviço?

A palavra arrependimento não deve mudar de sentido em função de quem o anuncia, pois ela não significa remorso, lamentar, abandonar condutas reprováveis do ponto de vista moral e comportamental, unir-se a uma religião ou denominação, visto que comporta um sentido único e exclusivo: mudança de ideia.

Por que não se deve aplicar o arrependimento às questões morais? Porque quem o exige segundo as relações humanas, passa a classificá-lo a seu bel prazer, rotulando quem quiser de não ter se arrependido genuinamente. Passará a ditar que tipo de iluminação é necessária para se chegar ao arrependimento e que tipo de conduta deve ser reprimida.

Bem alerta o apóstolo Paulo ( Cl 2:20 -23), que todos os cristãos estão mortos com Cristo quanto aos princípios do mundo, e por este motivo, não é para se sobrecarregar de ordenanças, como se vivêsseis no mundo. Que as ordenanças tais como: não toques, não proves, não manuseies, perecem pelo uso, pois são preceitos de homens.

Geralmente tais ordenanças em nome do arrependimento firmam-se em aparência de sabedoria, devoção voluntária, humildade e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne.

Devemos ter o cuidado de não mudar a ideia do arrependimento conforme as nossas disposições internas, visto que o arrependimento do qual Jesus falou é: mudem de ideia, mudem de mentalidade, reavaliem os seus conceitos.

O que demandou a necessidade do arrependimento? As ações errôneas dos homens? O fato de os homens serem pecadores? Em função de que os homens deviam arrepender-se?

À época de João Batista as pessoas eram as mesmas, as atitudes e condutas eram as mesmas e a condição dos homens diante de Deus era a mesma. O único evento que trouxe mudança radical era a chegada do reino de Deus: Cristo entre os homens.

O motivo da mensagem não repousava na atitude ou nas ações dos ouvintes, antes na chegada do reino de Deus.

Qual era o assunto que demandava, por parte dos judeus, mudança de mentalidade, de visão, de opinião, que a palavra grega ‘metanoia’ prestou-se ao propósito de Cristo e de seus seguidores?

Deveriam deixar de pensar que eram justos em função de serem descendentes da carne de Abraão. Deveriam deixar de pensar que eram justos em função das ações que executavam segundo a lei. Deviam deixar de pensar que eram melhores e que estavam em posição privilegiada em relação aos outros homens ( Lc 13:2 ).

A mudança de pensamento deveria ocorrer a este nível: “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:8 ou 2 à 12 ). Este é o arrependimento esperado. Este arrependimento é completo e incluiu todas as nuances da mentalidade de um religioso fariseu, que foi o apóstolo Paulo.

Em nossos dias os homens devem abandonar todo e qualquer conceito que tiverem acerca da salvação que derive de questões morais ou comportamentais, ou que a salvação encontra-se em uma religião, denominação, em ações de ordem humanitária, meditação, sacrifício, ascetismo, etc.

E entender que sobre a humanidade pesa uma condenação em decorrência da desobediência de um só homem que pecou e, por causa dele, todos se tornaram pecadores. Mas, a misericórdia de Deus se revela graciosa, visto que, Jesus veio ao mundo salvar os que se haviam perdido e todos os homens sem exceção precisam de Cristo ( At 4:12 ).




A escravidão da vontade

Analisaremos se é possível escravizar a vontade de um indivíduo, pois na história da humanidade verifica-se que, os escravos eram livres quanto a vontade, mesmo legalmente impossibilitado de ser livre.


A escravidão da vontade

A questão

“Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Cristo para ser salvo de seus pecados”?

Há um problema quanto à formulação da questão acima. A pergunta, diante da verdade do evangelho, é descabida e não comporta uma resposta correta, pois, invariavelmente, todos quantos se propuser a respondê-la, seja com um sim ou um não, serão induzidos a erro.

 

Questão histórica

Diante desta pergunta, tanto a resposta de Lutero quanto a de Erasmo foram equivocadas, pois a pergunta contém um erro na sua formulação que não corresponde à verdade do evangelho.

Uma pergunta que ficou sem resposta da parte de Cristo foi: “O que é a verdade?”. Ora, Jesus havia dito a Pilatos que veio dar testemunho da verdade, e Pilatos, cheio de conhecimento filosófico, questionou de modo sarcástico: Que é a verdade?

Qualquer resposta que Cristo estabelecesse diante da pergunta, seria inócua, pois Cristo estava testemunhando de Deus e Pilatos estava focado em questões de ordem filosóficas. Portanto, a melhor resposta é o silêncio, pois aquele que responde ao tolo segundo a sua tolice é semelhante ao tolo “Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia; para que também não te faças semelhante a ele” ( Pv 26:4 ).

Se Jesus se detivesse e respondesse Pilatos segundo a filosofia, seria tão somente mais um filósofo, o que é diferente de dar testemunho da verdade. Pilatos não achou crime algum em Cristo, porém, a pergunta ‘Que é a verdade’ foi um modo de desprezar a pessoa de Cristo “Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade? E, dizendo isto, tornou a ir ter com os judeus, e disse-lhes: Não acho nele crime algum” ( Jo 18:38 ).

Certa feita Jesus foi abordado por um ‘doutor’ da lei que lhe perguntou: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei?” ( Mt 22:36 ). Jesus respondeu segundo a lei: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento” ( Mt 22:37 -38).

Como se verifica através do testemunho do evangelista Marcos, nada Jesus declarava aos homens a não ser por parábolas “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ), e a resposta de Jesus foi uma parábola, visto que o mestre da lei seguia tais ensinamento, porém, ainda não havia se achegado a Deus com entendimento. A resposta que Jesus deu ao mestre da lei era uma resposta ao ‘tolo’ segundo a sua estultícia “Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus próprios olhos” ( Pv 26:5 ).

Ao interrogar a Cristo, o doutor da lei queria experimentá-lo, porém, a resposta foi a altura da sua tentativa de experimentá-lo. A resposta de Cristo agradou o mestre da lei, o mestre legalista permaneceu em pecado, pois apesar de ‘ver’ não enxergava “Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados” ( Mc 4:12 ); “E um deles, doutor da lei, interrogou-o para o experimentar …” ( Mt 22:35 ).

Mas, analisemos a questão:

“Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Cristo, para ser salvo de seus pecados?”.

  • Observe que a humanidade estava alienada de Deus e que Cristo foi enviado para desfazer a barreira de separação que havia entre Deus e os homens. Observe também que Cristo é o caminho que conduz o homem a Deus ( Mt 7:13 ). Ele é o novo e vivo caminho ( Hb 10:20 ). Ele mesmo disse: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ).

Ou seja, a pergunta deveria ser a seguinte: Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Deus, para ser salvo de seus pecados? Neste caso a resposta é não, pois sem Cristo-homem, que é o medidor entre Deus e os homens, não há como o homem, mesmo que voluntariamente, alcançar, voltar-se para Deus.

Ou seja, o pecado é uma barreira de separação erguida entre Deus e os homens por causa da desobediência de Adão, e Cristo é o mediador entre Deus e os homens, portanto, o homem só pode achegar-se a Deus por intermédio de Cristo. Não é o homem que se achega a Cristo, antes é Ele que veio até os homens anunciando boas novas de salvação. Ele é o advogado, o mediador, a ajuda que o homem necessita para ‘voltar-se’ para Deus.

Um exemplo claro é o povo de Israel, que se escudavam na lei mosaica na tentativa de se voltarem para Deus, porém, não conseguiam, pois lhe faltava o entendimento necessário, que é Cristo ( Rm 10:2 ).

  • O povo de Israel é um exemplo claro de que o homem pode, voluntariamente e até mesmo com a ajuda de outros semelhantes e da lei voltar-se para Deus, mais isto não significa que, por meio da voluntariedade irá alcançá-lo.

Ou seja, a pergunta deveria ser específica, inquirindo se é possível a alguém que busque voltar-se para Deus sem a compreensão (boas novas do reino, evangelho, etc.) fornecida pelo mediador, que é Cristo, alcançar a Deus e ser salvo da condenação do pecado.

A descrição do salmo 49 aplica-se ao povo de Israel, pois eles confiavam em suas riquezas e que poderiam salvar aos seus semelhantes “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas, Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre)” ( Sl 49:6 -8).

Qual era a fazenda de Israel? A sua descendência segundo a carne de Abraão. Esta era a ‘riqueza’ na qual o povo de Israel estava confiado que haviam adquirido a salvação.

    • De que pecado a pergunta faz referência? A condição herdada de Adão, que alienou todos os homens de Deus? Ou diz de questões comportamentais provenientes da moral dogmática platonista e aristotélica introduzida no cristianismo por Santo Agostinho e São Tomas de Aquino? O pecado refere-se aos sete pecados capitais, ou a condição decorrente da queda de Adão?

Ora, se o homem for um seguidor da filosofia de Platão e de Aristóteles, pelo ascetismo conseguirá livrar-se dos ‘pecados’ que foram classificados em capitais, que inicialmente eram oitos. De igual modo, se for um seguidor do budismo, hinduísmo, judaísmo, ver-se-á salvo de tais práticas de cunho moral. Mas, seria isto salvação do pecado? Não! Salvação do pecado não se dá por ascese, antes se dá pelo lavar regenerador: novo nascimento.

A pergunta que cabe uma resposta é a seguinte: Pode um ser humano, voluntariamente e sem a mediação de Cristo, voltar-se para Deus, para ser salvo da condenação herdada de Adão? A resposta é não, pois não há outro nome pelo qual devamos ser salvos! “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ).

 

As bases do argumento de Lutero contra o livre-arbítrio

Lutero tomou como base o verso 18 do capítulo 1 de Romanos para introduzir o seu primeiro argumento: ‘A culpa universal da humanidade prova que o “livre-arbítrio” é falso’.

O que diz Romanos 1, verso 18? Para compreender a abordagem paulina faz-se necessário analisar o contexto onde foi inserido o verso 18 do capítulo 1.

O contexto mostra que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos em Roma, porém, devemos visualizar dois subgrupos de cristãos: os convertidos dentre os gentios e os convertidos dentre os judeus.

Após a apresentação inicial e louvor ao evangelho de Cristo ( Rm 1:1 ao 17), o apóstolo demonstra a condição reprovável dos gentios, exposição que os judeus plenamente acatavam ( Rm 1:18 à 32). Porém, no capítulo 2, verso 1 em diante, o apóstolo Paulo direciona as suas observações de modo a demonstrar que a condição dos judeus em nada é diferente da dos gentios, mesmo sendo descendentes da carne de Abraão e possuidores da lei mosaica.

Ou seja, a base de argumentação do apóstolo fixa-se em demonstrar que, embora os judeus tenham recebido a lei e a circuncisão da carne, em nada eram diferentes dos gentios, e que tudo o que a lei dizia, dizia aos que estavam sob a lei, com um único objetivo: demonstrar ao judeus que, ambos os povos, judeus e gentios, eram escusáveis diante de Deus “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Em suma, segue o exposto pelo apóstolo: “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Analisemos o exposto por Lutero:

“Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus (…) Se todos os homens possuem ‘livre-arbítrio’, ao mesmo tempo que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o ‘livre-arbítrio’ os está conduzindo a uma única direção — da ‘impiedade e da iniquidade’. Portanto, em que o poder do ‘livre-arbítrio’ os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o ‘livre-arbítrio’, ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus Lutero, Martinho, versão condensada e de fácil leitura do clássico de Martinho Lutero, A Escravidão da Vontade, publicada inicialmente em 1525. Preparado por Clifford Pond Editor Geral: J.K. Davies, B.D., Th.D. EDITORA FIEL da MISSÃO EVANGÉLICA LITERÁRIA (grifo nosso).

Há várias imprecisões no parágrafo acima que invalida a proposição inicial. Vejamos:

a) Todos os homens merecem ser castigados por Deus– A Bíblia demonstra que todos os homens estão destituídos da glória de Deus, ou seja, todos formam julgados e apenados com a morte. Todos foram julgados e apenados, e do julgamento e condenação adveio a pena: perdição “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” ( Rm 5:18 ). O castigo não será impingido no futuro, antes já houve um juízo e já foi atribuída uma pena: condenação, morte, alienação. A asserção ‘os homens (…) merecem ser castigados por Deus’ é descabida, pois um só pecou e todos pecaram. Um só morreu e todos morreram, ou seja independente de merecimento ou não, todos quanto nasceram segundo a carne de Adão já foram apenados com a separação de Deus: morte ( 1Co 15:21 – 22).

b) O ‘livre-arbítrio’ os está conduzindo a uma única direção – A Bíblia demonstra que todos os homens, exceto Cristo, entraram por uma porta larga (Adão), e estão em um caminho largo que os conduz à perdição, ou seja, não é o ‘livre-arbítrio’ que conduz os homens a perdição, antes é o caminho em que estão, após terem entrado pela porta larga, que os conduz à perdição ( Mt 7:13 -14);

c) Em que o poder do ‘livre-arbítrio’ os está ajudando a fazer o que é certo – Ora, a salvação não se vincula ao que é certo ou errado, antes em aceitar a verdade do evangelho. Tudo que o homem faz pode ser certo e errado, no entanto, seus erros e acertos não contribui para salvação ou contribuíram para a perdição, pois a perdição vincula-se ao caminho em que o homem está após ser gerado segundo a carne; os homens se perderam por nascerem segundo a carne de Adão, e não por fazerem coisas erradas;

d) O ‘livre-arbítrio’ não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação – Nada ajuda o homem a atingir a salvação, e o livre arbítrio também não. Primeiro porque o único que se perdeu em decorrência de exercer o livre-arbítrio foi Adão e, em segundo lugar, todos os seus descendentes foram condenados a perdição sem a necessidade de exercerem o livre-arbítrio. O único que conduz os homens a Deus é Cristo, a porta e o caminho estreito que conduz o homem a vida;

e) O ‘livre arbítrio’ (…) os deixa sob a ira de Deus – Estar ou não sob a ira de Deus não é uma questão de ‘livre-arbítrio’, antes uma questão de filiação. Todos os filhos da desobediência são filhos da ira, ou seja, os filhos da ofensa de Adão é o que estabeleceu a ira de Deus sobre os homens. Havia um livre-arbítrio capaz de livrar o homem da condenação, o que Adão possuía antes da ofensa. Após o julgamento e a condenação, livrar-se da ira não é uma questão de livre-arbítrio, mas de mediador.

Quando o apóstolo Paulo diz no verso 18, do capítulo um que a ira de Deus se manifesta sobre a impiedade e injustiça dos homens que detém a verdade em injustiça, ele faz referencia a todos os homens que não conhecem o evangelho de Cristo, sendo que os cristãos, já não estão sob a ira, visto que são um com a Verdade “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça ( Rm 1:18 ).

Porém, a ira de Deus ainda não é manifesta aos homens, pois os homens desconhecem que estão sob a condenação de Adão. Somente por meio do evangelho é possível o homem entender que o juízo já foi estabelecido por Deus no Éden. Mas, há um dia reservado para que se dê a conhecer aos homens o juízo de Deus, que será também o dia da ira, quando os homens descobrirão que estão sob condenação (morte) e, que cada um será retribuído segundo as suas obras “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” ( Rm 2:5 ).

Portanto, o julgamento que condenou Adão e todos os seus descendentes já ocorreu no Éden. Haverá um julgamento futuro, mas refere-se as obras dos homens ímpios, que de nada lhes aproveitarão, visto que estão condenados pela ofensa de Adão.

No capítulo um de Romanos, a partir do verso 18, o apóstolo Paulo demonstra que todos os homens estão sob condenação, tanto judeus quanto gentios. No verso 16 ele declara que o evangelho é poder de Deus, salvação a todos os que creem. Isso significa que, embora os judeus estivessem voltados a buscar a Deus, não teriam êxito, pois buscavam sem entendimento ( Rm 10:2 ).

Eles tinham forças, vontade, zelo, cuidado, etc., para voltar-se para Deus, porém, a despeito de tudo, em nada eram diferente dos gentios, ou seja, o apóstolo Paulo não condenava o ‘livre-arbítrio’ ou a falta de voluntariedade em buscarem a Deus, antes condenava a falta de ‘conhecimento’ ( Mc 12:24 ). Sobre este quesito, o apóstolo Paulo dá testemunho que, como judeu, o seu homem interior tinha prazer na lei de Deus ( Rm 7:22 ), e queria fazer o bem ( Rm 7:21 ), demonstrando a sua livre-vontade e voluntariedade, porém, embora a vontade fosse livre a escolha não é.

O próprio conceito de ‘livre-arbítrio’ que Lutero debate é descabido. Por quê? Porque em todos os tempos o homem teve somente livre-vontade, e a escolha nunca foi livre, pois se restringe ao que lhe é oferecido. Através da vontade é possível desejar tudo, até o impossível, porém, a escolha limita-se a um conjunto pré-definido.

Adão, antes da queda, possuía livre-vontade, pois podia desejar comer de todas as árvores do jardim, inclusive a do conhecimento do bem e do mal, porém, a escolha era restrita ao número de árvores disponíveis no jardim.

Com a ofensa, ele permaneceu com a livre-vontade, porém, a livre-escolha de permanecer livre da morte (condenação) foi-lhe retirada quando lhe foi imposta a pena: separação de Deus. A vontade de salvar-se surgiu, porém, foi posto um anjo com uma espada protegendo a entrada no jardim para que Adão não voltasse e comesse do fruto da árvore da vida. Isto indica que, apesar do pecado, a vontade de Adão era livre, o que motivou Deus colocar um anjo para proteger a árvore da vida “E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida” ( Gn 3:24 ).

Se considerarmos que ‘livre-arbítrio’ refere-se à vontade, temos que o homem possui livre-arbítrio. Se considerarmos que ‘livre-arbítrio’ refere-se à escolha, temos que o homem não possui livre-arbítrio. Mas, o que demonstra Gêneses três, verso vinte e quatro, é que o homem tinha o desejo livre para voltar e querer livrar-se da morte, porém, o caminho de acesso a Deus não era esse.

Portanto, para as considerações ulteriores, sempre falaremos de livre-vontade e de livre-escolha.

Quando se lê: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus” ( Rm 3:10 -11), temos que pensar nos judeus, que apesar de entenderem que buscavam a Deus, as Escrituras depunham contra eles, visto que ela diz que ‘não há um justo’ e que ‘não há ninguém que busque a Deus’, pois tudo o que a lei dizia, dizia aos que estavam sob ela, e não aos gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Vale salientar o contexto do Salmo 53 que o apóstolo Paulo cita aos judeus convertidos que estavam em Roma: “Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:4 ). Quem são os obreiros da iniquidade? Quem comia o povo de Deus como se fosse pão? Não é uma referência aos lideres de Israel? Claro que sim, pois o que lhes faltava era o conhecimento ( Rm 10:2 ), portanto, não invocavam a Deus, se invocassem, por certo que seriam salvos “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

A conversão de qualquer pessoa acontece quando Deus envia o ‘mediador’, que é Cristo-homem, para que tudo que ele revele acerca de Deus possa desfazer a ignorância. A ignorância só é debelada quando é revelada a verdade do evangelho, que é poder de Deus. Sem o Mediador (Cristo) e o conhecimento (evangelho) que Ele apresenta, ninguém jamais poderia ser salvo.

Ninguém, durante toda a história humana, conceberia por si mesmo a realidade da ira de Deus sobre os filhos da ira, conforme nos ensina nas Escrituras: de que todos os homens entraram por uma porta larga e que estão sendo conduzidos à perdição.

Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com Deus por intermédio da vida e da obra de um Salvador singular, o Mediador entre Deus e os homens, pois somente através de um mediador é que os homens são conduzidos a Deus através de um novo e vivo caminho.

O evangelho do mediador foi primeiramente anunciado a Abraão “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ), mas os descendentes da carne de Abraão passaram a confiar na carne de Abraão, e não tiveram a mesma confiança (fé) que o crente Abraão, que teve por base da confiança o evangelho que lhe foi anunciado.

Confiar o povo judeu confiava, porém, não confiava que a salvação viria do Descendente, antes confiava que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão. A confiança (fé) deles não lhes aproveitou, pois ela não repousava sobre o Descendente, antes na carne de Abraão. Portanto, a salvação é pela fé, mas a confiança (fé) na fé que havia de se manifestar “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Deus tomou a iniciativa de revelar-se aos homens, e assim o fez a Abraão. Ora, como o evangelho foi por revelação, segue-se que jamais o homem descobriria por si só como se salvar. E a revelação de Deus está no Mediador, o Descendente, alguém que o homem não poderia providenciar.

Aproximar-se de Deus não tem relação com o ‘livre-arbítrio’, pois os judeus procuravam aproximarem-se de Deus, o que indica que possuíam livre-vontade, porém, a escolha que fizeram em confiar da carne e na lei fez com que rejeitassem o Mediador estabelecido por Deus.

Por fim, a conclusão de Lutero não é acertada:

“Ora, se todos os homens são possuidores de ‘livre-arbítrio’, e todos os homens são culpados e estão condenados, então esse suposto ‘livre-arbítrio’ é impotente para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte, a vontade dos homens, afinal, não é livre” Idem.

A vontade do homem é livre, pois se assim não fosse, Deus não havia posto um querubim na entrada do jardim para impedi-lo de comer da árvore da vida. A vontade do homem é livre, pois os judeus buscavam a Deus, porém, sem conhecimento, e não alcançaram a salvação por rejeitarem a revelação de Deus. A vontade do homem é livre, porém, não há uma escolha de salvação fora da que Deus propôs em Cristo.

O segundo argumento de Lutero foi: “O domínio universal do pecado prova que o ‘livre-arbítrio’ é falso”.

A relação que Lutero procurou estabelecer entre ‘domínio universal do pecado’ e ‘livre-arbítrio’ não é prova.

O domínio universal do pecado prova, diferente do proposto por Lutero, que todos entraram neste mundo por Adão, evento que os sujeitou ao pecado, o que em nada depõe contra a livre-vontade daqueles que estão sendo conduzidos pelo caminho largo à perdição.

O que o apóstolo Paulo diz em Romanos 3, verso 9: “Que se conclui? Temos nós [os judeus] qualquer vantagem [sobre os gentios]? não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado”, tem o fito de demonstrar aos cristãos convertidos dentre os judeus que todos os homens, sem exceção, estão sob condenação.

A condenação da humanidade é uma condição semelhante à condição dos escravos: os escravos possuíam a ‘livre-vontade’ de serem livres, porém, a escolha não lhes era possível. A colocação de Lutero a seguir carece ser revista:

“Não somente são todos os homens, sem qualquer exceção, considerados culpados à vista de Deus, como também são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados” Idem.

Os homens não são ‘considerados’ culpados, como disse Lutero, antes já foram julgados e apenados e estão sob condenação. Estar sob condenação é totalmente diferente de ser considerado culpado. A concepção de que ser escravo do pecado é o que torna o homem culpado é distorcida, visto que, o homem está sob condenação, uma condição que é ilustrada como escravidão ao pecado.

O fato de ser evidente que sem Deus não há quem faça o bem “…torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem” (Idem), não guarda relação com a incapacidade de se livrar da servidão ao pecado. Primeiro porque não é a prática do bem que tornar o homem livre do pecado, antes a liberdade do pecado só é possível através do evangelho como poder de Deus, a fé manifesta aos homens. Em segundo lugar, a prática do bem só é possível aos que estão em Deus, portanto, se o homem não está em Deus não há o que se falar em ‘poder que o capacite’.

Fazer o bem é condição ‘sine qua non’ dos servos da justiça, assim como é condição dos servos do pecado fazer o mal. O fazer o bem e o mal decorre da natureza, e além do mais, o bem e o mau em tela não guarda relação com questões de ordem moral, antes decorre da essência do ser. Assim como a árvore boa produz fruto bom, os servos da justiça praticam a justiça e o que é bom.

A escravidão ao pecado é universal porque todos os homens foram gerados de Adão, não importando se são retos ou melhores que seus semelhantes. Como já dissemos, ao nascer o homem entrou por uma porta larga que deu acesso a um caminho largo que conduz a perdição. Neste caminho não importa a razão, a vontade, a bondade, pois o que conduz a perdição é o caminho e não as escolhas do homem.

Ao fazer referência à passagem de Romanos 3, verso 10 a 12, Lutero diz que o significado do texto é perfeitamente claro, porém, fez uma leitura equivocado. Ora, se Deus é conhecido através da razão e vontade do homem, por que a natureza do homem deve ser levada em conta?

“O significado dessas palavras é perfeitamente claro. Deus é conhecido através da razão e da vontade humanas. Porém, nenhum ser humano, somente por sua natureza, conhece a Deus. Precisamos concluir, por conseguinte, que a vontade humana está corrompida e que o homem é totalmente incapaz, por si mesmo, de conhecer a Deus ou de agradá-Lo” Idem.

Lutero parece amalgamar razão e vontade com natureza. A natureza humana é imutável do ponto de vista dos homens, pois jamais um homem pode deixar de ser homem para ser anjo, ou até mesmo ser outro homem. Mas, o mesmo não se pode dizer da razão e da vontade, que são entes maleáveis e moldáveis.

Quando Deus se revelou na pessoa de Cristo, o Verbo encarnado, Ele deu a conhecer a verdade do evangelho que, quando compreendido muda a razão e a vontade do homem. A esta mudança dá se o nome de ‘arrependimento’ (metanóia), mudança de concepção, mudança de pensamento. Porém, a mudança de natureza só se dá através da regeneração, que é algo que somente Deus pode realizar, momento em que o homem passa a ‘conhecer’ (ter comunhão intima) a Deus, pois tornam-se um só corpo.

A ‘metanóia’ é transformação da razão, porém, conhecer a Deus não se dá através da razão, antes só é possível conhecer a Deus quando o homem torna-se um só corpo com o Filho. Conhecer a Deus é tornar-se um com Ele, portanto, é ser participante da natureza divina ( Jo 17:21 ; 2Pe 1:4 ).

Continua…




Como obter vida?

A palavra que procede da boca de Deus é o que concede vida ao homem, portanto, a vida proveniente de Deus é concedida através da palavra d’Ele. É a palavra de Deus que possui o poder criativo (bara) e é por intermédio da palavra que o novo homem é gerado em verdadeira justiça e santidade com um novo coração e um novo espírito ( Ef 4:24 ; Is 51:10 ; Ez 36:26 e27 ; 1Pe 1:23 ).


Como obter vida?

“Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 )

 

Convite para viver

Através do convite: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim…” ( Is 55:3 ), Deus prometeu vida aos homens, visto que todos estavam mortos em delitos e pecados “… ouvi, e a vossa alma viverá ( Is 55:3 ).

A Bíblia demonstra que todos os homens pecaram e que foram destituídos da glória de Deus ( Rm 3:23 ; Sl 53:3 ), ou seja, o termo ‘morte’ é empregado para fazer alusão à condição pertinente à natureza dos homens herdada de Adão, ou seja, refere-se à separação de Deus.

Por intermédio do profeta Isaías é anunciado que basta dar ouvidos à palavra de Deus que o homem se aproximará d’Ele, ou seja, ‘inclinar’ os ouvidos é o mesmo que dar crédito (ouvir), e então, o homem passa da morte para a vida.

Esta mesma mensagem foi anunciada pelo profeta Moisés quando disse: “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná (…) para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

A análise destes dois versículos demonstra que a palavra que procede da boca de Deus é o que concede vida ao homem, portanto, a vida proveniente de Deus é concedida através da palavra d’Ele. É a palavra de Deus que possui o poder criativo (bara) e é por intermédio da palavra que o novo homem é gerado em verdadeira justiça e santidade com um novo coração e um novo espírito ( Ef 4:24 ; Is 51:10 ; Ez 36:26 e27 ; 1Pe 1:23 ).

 

A fidelidade de Deus

Enquanto Moisés descreveu a justiça da lei ( Rm 10:5 ), a justiça da fé falou por si mesma ensinando ao povo de Israel as seguintes questões: quem subirá ao céu? Ou, quem descerá ao Abismo “Mas a justiça decorrente da fé assim diz:…” ( Rm 10:5 ), pois o espírito de Cristo estava sobre Moisés alertando que os mandamentos segundo a promessa não são penosos ( Ap 19:10 ; 2Pe 1:21 ; 1Jo 5:3 e Dt 30:11 -14 ).

A mesma palavra que foi anunciada que estava perto dos ouvintes da lei, na boca e no coração, é a palavra da fé que o apóstolo Paulo pregou ( Rm 10:8 ), pois todo o que crê, ou antes, invoca a Deus, será salvo ( Rm 10:11 e 12). Basta aos ouvintes da lei darem crédito à palavra de Deus que cumpririam o ordenado por Deus “De novo darás ouvidos à voz do Senhor, e cumprirás todos os seus mandamentos que hoje te ordeno” ( Dt 30:8 ; Is 55:3 ).

O apóstolo Paulo resume esta verdade quando conclui: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ), pois para invocar é necessário crer, e para crer é necessário ouvir a mensagem daquele que é enviado de Deus ( Rm 10:14 ). O apóstolo evidencia que a mensagem da fé, cujo tema é Cristo, é essencial para que o homem creia, pois exclusivamente através do Verbo encarnado viverá o homem.

O que os profetas Moisés, Habacuque e Isaías, bem como o apóstolo Paulo evidenciaram? Que o querigma, a palavra, a mensagem, as boas novas do evangelho é a ‘fé’ pela qual o homem viverá. O que faz o homem ter vida perante Deus é o poder que há em sua palavra ( Jo 1:12 ), que é Cristo, o Verbo encarnado, tema central do evangelho e poder de Deus para salvação dos que creem ( Rm 1:16 ).

O apóstolo Paulo assim descreve a ‘fé’ pela qual o homem obtém vida: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar ( Gl 3:23 ). A ‘fé’ que havia de vir e que havia de ser manifesta não contempla outra interpretação: a fé é Cristo.

A ‘fé’ que havia de se manifestar é Cristo, pois todos os que jazem mortos em delitos e pecados, ao ouvirem a voz do Filho viverão por Ele.

 

Regeneração e fé

Esta verdade contraria muitos eruditos que dizem que a regeneração precede a fé sob o argumento de que os homens estão mortos espiritualmente e incapazes de ouvir e atender a voz de Deus “A menos que a regeneração ocorra primeiro, não há possibilidade de fé” Sproul, R. C., O Mistério do Espírito Santo, Tyndale House, 1990 – Disponível na Web sob o título ‘A regeneração precede a fé’ – Tradução de Felipe Sabino de Araújo Neto.

Jesus deixa claro que os mortos podem ouvir a sua voz, e muito mais, ainda que estejam mortos, se crerem, viverão “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ); “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão ( Jo 5:25 ).

Como aquiescer a declaração de Sproul, uma vez que a ‘fé’ que foi revelada na plenitude dos tempos, que é Cristo, é pré-existente.

Interpretar alguns textos bíblicos, em que o termo ‘fé’ é empregado como ‘querigma’, como se fizesse referencia à disposição interna do indivíduo em crer, trás distorções e um prejuízo incomensurável a compreensão do evangelho.

Quando lemos: “E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé” ( Gl 3:11 ), o apóstolo contrapôs a matéria do antigo testamento com a do novo:

a) o da lei, que resume-se em maldição para aqueles que não a cumprirem, e remete às obras “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” ( Gl 3:12 ; Dt 27:26 ), e;

b) o da fé, que resume-se na bênção proveniente do evangelho, e o homem descansa na esperança proposta ( Gn 12:3 ; Gl 3:8 -9).

O capítulo 3 de Gálatas consiste em uma análise quanto às implicações da lei e do evangelho. Embora o apóstolo aborde no verso 6 a crença de Abraão, contudo o capítulo foi redigido de modo a contrastar a lei e a ‘fé’ como querigma, e não como crença particular.

De igual modo, o escritor aos Hebreus cita a passagem de Habacuque enfatizando que os cristãos pertencem à fé para a conservação da alma (O termo conservação é utilizado como manutenção, contrastando com destruição) “Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos entretanto, da fé, para a conservação da alma” ( Hb 10:39 ) ARA – Texto equivalente ao do novo Testamento Interlinear Grego – Português.

Outras versões rezam: “Nós, porém, não somos daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que creem para a conservação da alma” ( Hb 10:39 ), enfatizando a crença do homem em lugar de destacar a mensagem que os apóstolos anunciaram, como acertadamente faz a versão ARA.

Se o leitor não for criterioso, fará uma má leitura dos versículos e cometerá um equivoco na interpretação, pois em um mesmo contexto o termo ‘fé’ pode assumir conotações distintas, como verificaremos nas passagens bíblicas a seguir: “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas” ( Rm 3:21 ).

É necessário fazer as seguintes indagações ao texto: O que se manifestou sem a lei? O que têm o testemunho da lei e dos profetas? A resposta decorre do expresso por Paulo aos Gálatas: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Cristo foi manifesto e, somente Ele tem o testemunho da lei e dos profetas, sendo Ele a ‘fé’ que foi manifesta e, somente Ele é o possuidor do testemunho da lei e dos profetas. Cristo é a justiça de Deus manifesta aos homens e, exclusivamente no evangelho o homem descobre Cristo como a justiça de Deus ( Rm 1:16 -17).

 

A justiça de Deus

Por causa da complexidade do que expôs no verso 21, do capítulo 3 de Romanos, o apóstolo faz um adendo explicativo no verso seguinte e, novamente expõe esta verdade: “Isto é, a justiça de Deus…” ( v. 22).

O Novo Testamento Interlinear Grego – Português, no verso 22 reza da seguinte maneira: “… justiça[2] e[1] de Deus mediante (a) fé de Jesus Cristo para todos os que creem” (v. 22). Observe que a ‘fé’ que o apóstolo faz referência é de Cristo, ou seja, pertence a Ele, pois Ele é o autor e consumador dela. Logo a seguir, tem-se o verbo ‘crer’, que se refere à disposição interna do homem em confiar.

A frase fica sem sentido quando se atribui ao termo ‘fé’ o mesmo sentido do verbo ‘crer’, como se lê a seguir: “… justiça[2] e[1] de Deus mediante (a) crença de Jesus Cristo para todos os que creem” (v. 22). Parafraseando o apóstolo Paulo, teríamos: “… a justiça de Deus mediante o evangelho (fé) de Jesus Cristo para todos os que creem”.

A justiça de Deus é mediante o evangelho, a ‘fé’ pela qual os cristãos são exortados a batalharem e que foi manifesta aos homens ( Jd 1:3 ; Gl 3:2 e Gl 3:23 ). Esta mesma ‘fé’ assegura justificação àqueles que creem, sejam eles judeus ou não.

Qual o objetivo desta análise? Buscar uma interpretação correta do verso 26, do capítulo 3 de Romanos:

“… para a demonstração da justiça dele em o presente tempo, para ser ele justo e o que justifica o (que é) de (a) fé de Jesus” ( Rm 3:26 ) – Novo Testamento Interlinear Grego – Português.

O verso destaca que Deus justifica os que são (pertencem a) da fé, o que contrasta com a condição daqueles que são da lei. Enquanto os que são da fé são justificados porque creem (descansam) na justiça que se manifestou, os que são da lei tropeçam porque se propuseram a trabalhar.

O apóstolo Paulo não tinha do que se envergonhar do evangelho, pois ele é anterior e superior a lei: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé( Rm 1:17 ).

A ênfase da fala do apóstolo consiste em demonstrar que o cristão obtém vida através do evangelho, ou seja, através da palavra de Deus, que é a ‘fé’ enquanto querigma, posicionamento que contraria a ideia de que a justificação é proveniente da disposição interna do indivíduo em crer “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:25 -26).

 

Boas novas de salvação

A ‘fé’ que foi entregue aos santos ( Jd 1:3 ), é descrita pelo apóstolo dos gentios como: a) Meu evangelho; b) A pregação de Jesus; c) A revelação do mistério que esteve oculto desde tempos eternos; d) Manifestou-se agora; e) Foi notificado pelas escrituras dos profetas; f) É segundo o mandamento de Deus, e; g) Foi revelado a todas as nações para obediência.

O apóstolo dos gentios demonstra que a pregação de Jesus não difere da mensagem contida no ‘seu’ evangelho, ou seja, a pregação de Jesus e o ‘evangelho’ do apóstolo diz do mesmo mistério que esteve oculto desde os tempos eternos. O que foi ‘notificado’ pelas escrituras (lei, salmos e profetas) e, que agora se manifestou, é o mesmo que: a) o mistério revelado; b) a pregação de Cristo, e; c) o evangelho de Paulo.

Cristo é a palavra encarnada manifesta aos homens na plenitude dos tempos, sendo ele mesmo o tema da pregação que foi confiada aos apóstolos. A pregação do apóstolo Paulo é conforme o mandamento de Deus, uma vez que somente é possível obedecer ao mandamento de Deus através da ‘fé’ (querigma), ou seja, através do evangelho de Cristo. Deus estabeleceu o único modo de o homem cumprir o exigido por Ele: obediência da fé “De novo darás ouvidos à voz do Senhor, e cumprirás todos os seus mandamentos que hoje te ordeno” ( Dt 3:8 ).

Qual o mandamento de Deus? Que os homens creiam naquele que Ele enviou ( 1Jo 3:23 ). É por isso que Cristo se manifestou, pois ao crer n’Ele, o homem também crê no Pai que o enviou “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” ( Jo 12:44 ). Cristo é a ‘fé’ que havia de se manifestar, o Verbo manifesto em carne, do qual o profeta Moisés disse que, de tudo o que procede da boca de Deus viverá o homem “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ).

Portanto, faz-se necessário observar que, na Bíblia, como em outras literaturas, há o emprego de figuras de linguagem, sendo o termo ‘fé’ empregado muitas vezes para fazer referência ao conteúdo da mensagem do evangelho. Tal figura de linguagem consiste em substituir um nome (evangelho) por outro (fé), em virtude de haver entre os termos forte associação de significado (fé e evangelho).

A figura de linguagem que ocorre com o terno ‘fé’ e ‘evangelho’ denomina-se metonímia e, refere-se ao recurso de substituir a causa (evangelho, fé, Cristo) pelo seu efeito (crer, salvação, redenção), ou vice-versa.

Quando o apóstolo dos gentios diz: ‘a fé que havia de se manifestar’, temos a substituição do nome do autor da obra pela obra do autor, pois sabemos que Cristo é o autor e consumador da fé.

A metonímia como recurso linguístico faz com que um mesmo termo passe a amalgamar significados distintos. Por exemplo, a palavra ‘fé’, dependendo do contexto, pode significar ‘acreditar’, ‘confiar’, ‘crer’, ou significar ‘evangelho’, ‘mensagem’, ‘pregação’, ‘boas novas’, etc.

É por isso que o apóstolo Paulo diz que a justiça de Deus se descobre no evangelho, que é de fé (evangelho) em fé (crença), ou seja: primeiro o querigma, depois a crença. Sem as garantias contidas e reveladas na mensagem do evangelho é impossível que o homem venha a confiar em Deus para salvação.

A mensagem do evangelho expressa a fidelidade de Deus e, sem Deus não há nada firme em que o homem possa crer para salvação. A crença do homem surte efeito para salvação somente quando repousa nas garantias estabelecidas na mensagem do evangelho ( Rm 10:14 ). Deus prometeu e, Ele é o garantidor da promessa. A promessa, por sua vez é firme, porque Deus é fiel e poderoso para cumpri-la.

O evangelho é a fé que havia de se manifestar. A fé consiste nas boas novas do reino, sendo Cristo o tema central, a palavra de Deus encarnada. Sem a fé manifesta é impossível ao homem ter fé (crer), pois o que torna a crença do homem viável para a salvação é a obra redentora de Cristo.

Neste sentido temos que Cristo, a fé manifesta, precede a regeneração, pois é o tema da mensagem que provoca a mudança de compreensão (metanóia) no homem. Sem a pregação da mensagem que diz que Cristo morreu e ressurgiu dentre os mortos, não há como crer para justiça e nem como confessar para salvação ( Rm 10:10 ), pois o homem só admite (confissão) que é pecador quando ouve a mensagem do evangelho e, só admite (confissão) que Cristo é o Filho do Deus vivo quando crê na mensagem do evangelho.

 

Equívocos acerca da fé

Não saber diferenciar quando o termo ‘fé’ refere-se ao querigma e quando o mesmo termo refere-se à confiança produzida no cristão, produz um entendimento distorcido da verdade do evangelho, como se verifica na colocação do Dr. Louis Berkhof :

“… Quer dizer que a fé nunca é apresentada como a base da nossa justificação. Se fosse, a fé teria que ser considerada como uma obra meritória do homem. E isto seria a introdução da doutrina da justificação pelas obras, à qual o apostolo coerente e consistentemente se opõe…” Berkhof, Louis, Teologia Sistemática, pág. 514-528, Editora Cultura Cristã – Grifo nosso.

O apóstolo Paulo afirma categórica e taxativamente que, Deus justifica a circuncisão e a incircuncisão mediante a fé “Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão” ( Rm 3:30 ), como o eminente doutor pode dizer que a ‘fé’ nunca é apresentada como a base da nossa justificação?

Quando o termo ‘fé’ significa querigma, certamente a fé é a base da justificação, pois Deus demonstrou a sua justiça no tempo presente, para que Ele seja justo e o que justifica os que pertencem à fé ( Rm 3:26 -27).

Cristo é a base da justificação, pois Ele é a fé pela qual viverá o homem. A não compreensão da natureza da fé como querigma e da fé como crença leva à afirmação descabida de que a fé nunca é a base da justificação e, o erro soma-se a outros, sendo um deles a ideia de que a fé como ‘confiança’, ‘crença’ teria que ser considerada como uma obra meritória.

Que mérito tem uma pessoa que acredita em alguém que é fidedigno? Que mérito há em clamar a Deus por salvação? Digna-te, SENHOR, livrar-me: SENHOR, apressa-te em meu auxílio” ( Sl 40:13 ).

Se existe uma obra realizada, esta pertence a quem prometeu, portanto, merecedor da confiança daquele que crê. Com relação ao evangelho de Cristo não há o que se falar em jactância por parte de quem crê “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” ( Rm 3:27 ). Só por estar no evangelho qualquer jactância é excluida, pois só na carne há jactância, pois no Espírito não sequer sombra de altivez.

Entender que a crença do cristão, que decorre da ‘fé’ (evangelho) teria a possibilidade de ser meritória, uma obra ou um modo de colaborar na salvação por parte de quem é alcançado pelo evangelho é transtornar a mensagem da fé, pois não há que se falar em mérito por parte de quem invoca a Deus segundo o evangelho do seu Filho, antes o mérito está n’Ele que é fiel e propôs salvar todos os que O invocam “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ; Jl 2:32 ).

Aquele que confia no evangelho não executa, não auxilia e nem concede nada a Deus que fez a promessa, visto que, quem prometeu é fiel e digno de toda confiança. Quando alguém crê em Deus, o mérito é d’Ele, por ser fiel e imutável, e não daquele que confia. Se alguém confia em Deus é porque Deus é digno desta confiança por sua própria virtude, poder “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” ( 1Pe 1:5 ).

Ou seja, mediante o querigma os cristãos estão seguros na virtude de Deus, que é fiel e imutável, portanto, não há mérito algum em quem deposita em Deus a sua confiança. Que virtude ou poder possui quem crê na salvação proposta em Cristo, a fé manifesta aos homens?

Quando temos o termo ‘fé’ associado à ideia de evangelho, ‘palavra da fé’, certo é que tal ‘fé’ á a base da justificação, pois somente após ouvi-la o homem crê ( Rm 10:10 ), porém, se o termo ‘fé’ fizer referência ao ‘ato’ de descansar, crer, tal disposição não é a base da justificação. Por outro lado, quando o homem crê, ouve, invoca ao Senhor, não há nem sombra de obra ou méritos por parte do homem.

Por não levar em conta o exposto acima, Berkhof diz:

“Na verdade se nos diz que a fé que Abraão tinha lhe foi imputada para justiça, Rm 4.3, 9, 22; Gl. 3.6, mas, em vista da argumentação completa, isto certamente não pode significar que, no caso dele, a fé propriamente dita, como obra, tomou o lugar da justiça de Deus em Cristo” Idem – grifo nosso.

Jamais podemos considerar a disposição de Abraão em crer como obra, pois a obra vincula-se à carne, e a certeza que Abraão possuía decorria da promessa e do poder de Deus ( Rm 4:20 -21), o que excluiu completamente a carne e as suas obras ( Rm 4:1 -2). Segundo a carne Sara era estéril e Abraão, mesmo podendo ter filhos, com relação a Isaque teve que recobrá-lo dentre os mortos, logo a jactância pertinente a carne foi excluída “Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar” ( Hb 11:18 ).

Não há distinção entre aqueles que pertencem à fé, pois são benditos como o crente Abraão ( Gl 3:9 ), pois vivem segundo a palavra de Deus e não confiam da carne ( Rm 8:4 ).

O evangelho que lhe foi anunciado primeiramente a Abraão: ‘Em ti serão benditas todas as nações’ ( Rm 3:8 ), é o mesmo evangelho, a pregação da fé, que tem como tema central o Descendente, que é Cristo, é a fé da qual todos os que creem são participantes ( Gl 3:2 e 4).

Abraão foi justificado porque creu na promessa que Deus lhe fez e ao seu Descendente, sendo que, mesmo que Abraão não permanecesse fiel, o seu Descendente, que é Cristo, em tudo foi fiel e digno da bem-aventurança prometida ( Gl 3:16 ). Abraão foi justificado quando creu porque ao crer tornou-se participante da promessa. O evangelho diz de Cristo e Ele é a base da justificação e o homem, por sua vez, torna-se participante de Cristo quando confia “Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim” ( Hb 3:14 ).

A obediência de Cristo foi a base da justificação de Abraão, pois ao crer na palavra de Deus acerca do seu Descendente, que é Cristo, Abraão tornou-se participante da bem-aventurança conquistada pelo seu Descendente. O Descendente de Abraão foi fiel em toda a sua casa como Filho e, quando o homem crê n’Ele, torna-se participante da sua vida e justiça ( Cl 2:9 -10).

Deus dá do seu Espírito e obra maravilhosamente para com o homem através da pregação da ‘fé’ ( Gl 3:5 ), e Abraão creu em Deus. Por crer em Deus segundo o evangelho que lhe foi anunciado, Abraão passou a viver para Deus, sendo declarado justo, segundo a palavra que diz: o justo viverá da fé ( Gl 3:11 ), pois a justificação é de vida “… por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Portanto, o justo vive em decorrência da ‘fé’ que se revelou, e não em função da sua crença, como alguns pensam. Embora o cristão receba o testemunho de que é justo por crer ( Hb 11:4 ), contudo só é possível agradar a Deus através de Cristo ( Hb 11:6 ).

As palavras pisteuo (crer) e pistis (fé) denotam originalmente o relacionamento de confiança entre duas partes num acordo, porém, elas são intercambiáveis dependendo do contexto. A ‘fé’ que Jesus faz referencia em Lucas 18, verso 8 aponta para a mensagem de Cristo “Quando vier o Filho do homem, achará fé na terra” ( Lc 18:8 ), assim como em Romanos 1, verso 5 e, em Gálatas 1, verso 23.

Quando o escritor aos Hebreus define a fé, por certo que não fala da disposição interna do homem, antes da palavra de Deus, visto que só em Deus as coisas esperadas são certas, mesmo quando não são visíveis e, é por intermédio desta fé que os antigos receberam testemunho.

 

Crer precede a regeneração

Portanto, a crença do homem é anterior à regeneração e decorre da mudança de concepção do homem quando alcançado pelo evangelho (metanóia), tendo em vista que o homem só crê para salvação após ouvir a mensagem da fé, que promove a mudança de concepção e a regeneração do homem “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre (…) Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada” ( 1Pe 1:23 -25).

A palavra que é evangelizada tem por alvo aqueles que jazem nas trevas em delitos pecados e, após crer, aquele que estava vivo (unido) para o pecado e morto (separado) para Deus é crucificado com Cristo, sepultado e ressurge juntamente com Cristo, instante em que este novo homem é declarado justo, contrastando com o velho homem que foi crucificado, pois aquele jamais seria justificado por Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ).

Não há qualquer mérito por parte do justificado, pois o que Deus declara acerca do novo homem não tem em vista ações, obras, comportamento ou moral, e sim a nova vida da qual é participante por Cristo. Deste modo não há contradição nenhuma em Deus ser justo e justificador, pois Deus não justifica o ímpio, antes abate-o juntamente com Cristo, cria um novo homem e declara justo o novo homem, pois a justificação é de vida ( Rm 5:18 ).

Portanto, o homem viverá da fé, que é Cristo, conforme os escritores do novo testamento interpretaram Habacuque: “Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” ( Rm 1:17 ); “Mas o justo viverá da fé; E, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele” ( Hb 10:38 ); “E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé” ( Gl 3:11 ).

Quando o profeta Habacuque disse que, pela sua fé o justo viverá, a ênfase está na condição do homem que é justo, portanto, vive pela fé que lhe foi dada, logo lhe pertence, e não por causa da sua própria confiança “Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá” ( Hb 2:4 ); “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim( Jo 6:57 ).

Enquanto os apóstolos destacaram a pessoa de Cristo, o profeta Habacuque destaca a condição do justo por estar unido a fé que havia de se manifestar “E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” ( Rm 13:11 ); “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ; Hb 3:14 ).

Após anunciar Cristo, o eunuco manifestou o desejo de ser batizado, e disse Felipe “É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” ( At 8:37 ). Sem a pregação da ‘fé’ segundo o que profetizou Isaías e foi explicado por Felipe ( At 8:35 ), jamais o eunuco responderia por si mesmo: “Creio que Jesus é o Filho de Deus”.




O que vem primeiro: o arrependimento ou a fé?

O dom de Deus foi manifesto e anunciado a todos os homens e é esta mensagem (fé) que concede poder a todos que nela confiam ( Jo 1:12 ). A palavra é viva e eficaz! Ela não volta vazia! Faz tudo que lhe apraz! Ou seja, o homem só passa a ‘ouvir’ quando dá credito a fé que lhe foi anunciado. É por isso que o ‘ouvir’ vem pela palavra de Deus, pois só dá credito (ouvem) a palavra de Deus aqueles que são de Deus ” Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; por isso vós não as escutais, porque não sois de Deus” ( Jo 8:47 ).


O que vem primeiro: a fé ou o arrependimento? A resposta a esta pergunta não afeta a doutrina do arrependimento e nem a verdade sobre a fé, porém, é imperioso afirmar que a ‘fé’ vem primeiro que o arrependimento e, após o arrependimento tem-se novamente a ‘fé’, pois o apóstolo Paulo deixa claro que a justiça de Deus é de ‘fé’ em ‘fé’ ( Rm 1:17 ).

A concepção de que não há anterioridade entre fé e arrependimento é errônea e decorre da não compreensão do que é ‘fé’.

Se o interprete se socorrer somente de um dicionário para abstrair o conceito de fé existente nas Escrituras, jamais fará uma boa leitura da Bíblia. Embora muitos afirmem que ‘fé’, do Latim ‘fides’ (fidelidade) e do grego ‘pistia’ significa firme opinião de que algo é verdade, sem a necessidade de qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, apoiado em uma absoluta confiança que se deposita em uma ideia, tal definição não reflete a verdade bíblica.

Portanto, se o leitor da Bíblia verificar que Cristo é a fé que havia de se manifestar ( Gl 3:23 ), e que Ele é preexistente ( Cl 1:17 ), temos que a ‘fé’ é a mesma ontem, hoje e será (é) eternamente, o que não podemos dizer do arrependimento ( Hb 13:8 ).

Na sua grande maioria os interpretes das Escrituras não se dão conta que a palavra ‘fé’ quando empregada nas escrituras (em muitos dos casos) é uma figura de linguagem denominada ‘metonímia’ ou ‘transnominação’, que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança ou a possibilidade de associação entre eles.

Quando Judas diz que o cristão deve batalhar pela ‘fé’ que uma vez foi dada aos santos, o termo ‘fé’ substituiu a ideia pertinente ao termo ‘evangelho’, dada a possibilidade de associação entre os termos, tendo em vista que o evangelho é a causa da crença (fé), e a fé (crença) consequência do evangelho ( Jd 1:3 ).

De modo similar, Cristo é a ‘fé’ que havia de se manifestar, visto que Cristo é o tema central da mensagem do evangelho e, concomitantemente, o autor e consumador da ‘fé’ (evangelho), ou seja, o recurso de estilo acaba substituindo a obra (fé) pelo autor (Cristo).

A ‘obediência da fé’ que consta em Romanos 1, verso 5 é um modo utilizado pelo apóstolo Paulo substituir o termo ‘evangelho’ pelo termo ‘fé’, ou seja, substitui-se a causa pelo efeito.

No verso 8 do mesmo capítulo, o apóstolo Paulo dá graças a Deus porque em todo o mundo é ‘anunciado o evangelho’, porém, ele substitui o termo ‘evangelho’ pelo termo ‘fé’, ou seja, em todo o mundo é anunciado a vossa fé ( Rm 1:8 ).

Estabelecendo a relação entre ‘fé’ e ‘mensagem do evangelho’, e ‘evangelho’ igual a ‘Cristo’, temos que Cristo é a palavra encarnada e, como o Verbo encarnado é pré-existente, temos que a ‘fé mutua’ (evangelho) é anterior ao arrependimento.

Porém, como a mensagem do evangelho (a ‘fé’ que foi dada aos santos), produz naqueles que ouvem ‘confiança’, o que comumente também denomina-se ‘fé’, neste sentido o termo ‘fé’ assume o valor de descansar (confiar) na esperança proposta (evangelho), ou seja, é o mesmo que crer ( Rm 10 : Hb 11:6 ).

Mesmo o apóstolo Paulo deixando claro que a justiça de Deus é de fé (evangelho) em fé (crer), poucos fazem distinção entre causa e efeito, ou entre o que é eterno (evangelho, Verbo que se fez carne) e o que um dia será tirado (fé como crer, acreditar, descansar, esperança) ( 1Co 13:13 ).

Deste modo é possível definir que ‘fé’ para a salvação é o mesmo que evangelho, pois assim o apóstolo Paulo define: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação…” ( Rm 1:16 ).

Neste sentido temos que, pelo evangelho (fé) os homens são salvos, ou seja, o evangelho é dom de Deus “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ). Cristo se identificou como o dom de Deus à samaritana, ou seja, a fé que havia de se manifestar ( Jo 4:10 ).

O dom de Deus foi manifesto e anunciado a todos os homens e é esta mensagem (fé) que concede poder a todos que nela confiam ( Jo 1:12 ). A palavra é viva e eficaz! Ela não volta vazia! Faz tudo que lhe apraz! Ou seja, o homem só passa a ‘ouvir’ quando dá credito a fé que lhe foi anunciado. É por isso que o ‘ouvir’ vem pela palavra de Deus, pois só dá credito (ouvem) a palavra de Deus aqueles que são de Deus ” Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; por isso vós não as escutais, porque não sois de Deus” ( Jo 8:47 ).

Crer só é possível através do ‘ouvir’ ( Rm 10:14 ; Mt 13:23 ), e o ‘ouvir’ (dar crédito, crer, ter fé) só é possível pela palavra de Deus, portanto, a justificação é de fé em fé. O verbo ‘ouvir’ deve ser compreendido como ‘dar crédito’, ‘descansar’, ‘crer’.

Quando se ‘ouve’ a palavra de Deus (fé) o homem tem elementos suficientes para ter uma mudança de mente, uma mudança de compreensão (metanóia). O arrependimento é mudança de compreensão “Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta” ( Mt 13:23 ).

Quando se ouve (evangelho) e compreende, a nova compreensão é o resultado do arrependimento (metanóia), que faz com que o homem descanse na promessa estabelecida em Cristo (crer).

Quando o homem crê em Cristo, tendo em vista a mudança de concepção (metanóia) operada pelo evangelho, que é poder de Deus e semente incorruptível, o homem é de novo gerado, segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Através do evangelho é enxertada no homem a semente de Deus. Através do evangelho ocorre o lavar regenerador do Espírito, momento em que Deus concede ao homem um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25 ; Sl 51:10 ).

A regeneração não é algo que Deus realiza na mente do homem, antes a regeneração diz da criação do novo homem, pois após a velha criatura ser morta e sepultada com Cristo, Deus faz tudo novo, momento que passa a existir uma nova criatura.

O arrependimento não é mudança de coração e vontade. A mudança de coração só Deus pode operar e se dá na regeneração através da circuncisão de Cristo, pois é através do espargir de água pura (evangelho) que Ele concede novo coração e novo espírito.

Já com relação à vontade, é algo pertinente ao cristão, tendo em vista que o apóstolo Paulo deixa bem claro: “Transformai-vos pela renovação do vosso entendimento…” ( Rm 12:2 ).

A regeneração não muda a mente, antes só muda o coração e o espírito, pois após regenerado o homem permanece de posse da sua memória. Embora o apóstolo Pedro já estivesse limpo pela palavra de Cristo, contudo a sua mente continuava embotada, ou seja, demandava por parte do apóstolo transformar o seu entendimento.

A mudança radical que ocorre no homem é pertinente à sua natureza, que antes era carnal e, agora, em Cristo, é participante da natureza divina. Antes estava em trevas e, agora, foi transportado para o reino da luz. Antes filhos da desobediência e da ira e, agora, filhos de Deus pela fé (crença) em Cristo (tema do evangelho).

Não se deve pensar o arrependimento como mudança da mente em referência a pecados de cunho moral, pois se assim fosse, a ideia que estabelecia ‘paenitentia’ como arrependimento (o que é completamente diverso de ‘metanóia’), seria plenamente válida, e os posicionamentos dela decorrente como os pecados veniais e capitais somados às indulgências.

Arrepender-se é mudar de concepção de como o homem se salva, o que o leva a crer na esperança proposta em Cristo.

Aliado ao tema arrependimento tem-se a ‘confissão’, que é ‘reconhecimento’ da condição sob o pecado: alienado de Deus.

A palavra traduzida do grego por ‘confessar’ significa ‘admitir’, ‘assumir’, ‘reconhecer’. Quando se confessa pecado é o mesmo que admitir a sua real condição sob domínio do pecado. De igual modo, quando se ‘confessa’ a Cristo é reconhecê-Lo, admitir que Cristo é o Filho de Deus e salvador do mundo.

Quando há o arrependimento (metanóia), o homem admite (confessa) que Cristo é salvador.

Portanto, o evangelho é a mensagem de que, pela graça o homem é salvo, o que opera a mudança de concepção (metanóia). Após ter contato com a mensagem do evangelho o homem admite (confessa) que é pecador e, em decorrência da mudança de pensamento acerca de como ser salvo, repousa em Cristo.

Quando Jesus, após a ressurreição, abriu o entendimento dos discípulos, para que entendessem as Escrituras, Ele lhes disse: “Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém” ( Lc 24:46 -47).

Jesus não exigiu ‘penitencia’ e nem ‘confissão’ de pecados de cunho moral junto a sacerdotes, antes ele ordena que se pregue a mudança de concepção (arrependimento), pois só em seu nome há a remissão de pecados.

Quando Pedro pregou à multidão, no Dia de Pentecostes, os ouvintes foram constrangidos a perguntar: “Que faremos, irmãos?”. Pedro respondeu: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados” ( At 2:37 -38). A mensagem era simples: mudem de concepção (metanóia) e, sejam batizados em Cristo para remissão de pecado.

O apóstolo Paulo testificou que “… tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus é a fé em nosso Senhor Jesus” ( At 20:21 ), ou seja, tanto judeus quanto gentios precisam mudar de concepção, ou seja, devem aceitar a mensagem do evangelho crendo em Cristo.

O cristão deve permanecer firme na fé (evangelho) ( 1Co 16:13 ), enquanto o não crente precisa abandonar a sua própria concepção e crer na esperança proposta, o que se denomina arrependimento (metanoia), que é mudança especifica de pensamento para que o homem aceite a Cristo como salvador ( Rm 21:2 ).

O evangelho (fé) vem primeiro que o arrependimento, pois a mudança de pensamento (metanóia) resulta do evangelho.