Guardei a fé

A ‘fé’ a qual o apóstolo Paulo faz referencia, diz da verdade do evangelho, ou seja, da fé que foi entregue aos santos (Jd 1:3).


Guardei a fé

“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Timóteo 4:7)

Neste esboço, reunimos os elementos indispensáveis em um sermão, que trate do tema ‘guardar a fé’.

Para expor o conteúdo desse versículo, o preletor necessitará, no mínimo, de sessenta (60) minutos.

Qual deve ser o objetivo do preletor ao abordar esse verso?

  1. Demonstrar qual é o bom combate dos cristãos;
  2. Que carreira tem fim, e;
  3. No que consiste guardar a ‘fé’.

 

Introdução

Após ler o versículo, que será a base para o tema da preleção (2 Tm 4:7), o expositor precisa deixar claro ao ouvinte em que situação o apóstolo Paulo fez essa declaração.

Para contextualizar o ouvinte, é necessário que o pregador explique, em linhas gerais, quem foi o apóstolo Paulo, antes de se converter a Cristo, e para isso, basta o testemunho do próprio apóstolo.

É imprescindível ao preletor, conhecer quem era Saulo, qual era a sua posição entre os judeus e romanos e a história da sua conversão.

“Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Fl 3:5 -6).

“A mim, que dantes fui blasfemo e perseguidor e injurioso; mas, alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade” (1 Tm 1:13).

“Quanto a mim, sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia e, nesta cidade, criado aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais, zeloso de Deus, como todos vós hoje sois. E persegui este caminho até à morte, prendendo e pondo em prisões, tanto homens, como mulheres, como também o sumo sacerdote me é testemunha e todo o conselho dos anciãos. E, recebendo destes cartas para os irmãos, fui a Damasco, para trazer manietados para Jerusalém, aqueles que ali estivessem, a fim de que fossem castigados” (At 22:3 -5; At 26:11).

“E respondeu o tribuno: Eu com grande soma de dinheiro alcancei este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu o sou de nascimento” (At 22:28).

Depois, se faz necessário explicar a importância do apóstolo Paulo para a igreja de Cristo, sendo suficiente o próprio testemunho do apóstolo Paulo:

“Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!” (1 Co 9:16).

“Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas” (2 Co 11:28).

Mesmo sendo apóstolo, Paulo se apresentava como sujeito a Cristo, na condição de servo (Ef 1:1 e 3:7) e, para isso, entendia que evangelizar era uma obrigação (1 Co 9:16). Além de exercer o ministério de evangelista, o apóstolo Paulo ainda cuidava das igrejas locais (2 Co 11:2).

Vale destacar quem foi Timóteo, aquele que o apóstolo Paulo teve por cooperador (Rm 16:21) e nomeou de ‘verdadeiro filho’ na fé (1 Tm 1:2) e a quem remeteu duas cartas pastorais, instruindo como cuidar das igrejas.

“E chegou a Derbe e Listra. E eis que estava ali um certo discípulo, por nome Timóteo, filho de uma judia que era crente, mas de pai grego; do qual davam bom testemunho os irmãos que estavam em Listra e em Icônio. Paulo quis que este fosse com ele; e tomando-o, o circuncidou, por causa dos judeus que estavam naqueles lugares; porque todos sabiam que seu pai era grego” (At 16:1-3).

“No mesmo instante, os irmãos mandaram a Paulo que fosse até ao mar, mas Silas e Timóteo ficaram ali. E os que acompanhavam Paulo o levaram até Atenas, e, recebendo ordem para que Silas e Timóteo fossem ter com ele o mais depressa possível, partiram. E, enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria” (At 17:14-16).

Timóteo acompanhou o apóstolo Paulo, desde a sua segunda viagem, até o cativeiro em Roma, cuidou da igreja em Éfeso (1 Tm 1:3) e subscreveu seis cartas do apóstolo do gentios.

Vale destacar que a segunda epístola a Timóteo foi escrita na prisão, na cidade de Roma, por volta do ano 67, após a morte de Cristo, pouco tempo antes do martírio do apóstolo dos gentios (2 Tm 1:8 e 16-17 e 2:9).

O verso que diz: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4:7) resume a trajetória da vida cristã do apóstolo Paulo.

 

Qual é o bom combate?

O bom combate refere-se à defesa da verdade, contida na doutrina do evangelho! Essa defesa é um dever, como aponta o irmão Judas:

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência, acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé, que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3).

Ao escrever aos Filipenses, o apóstolo Paulo deixa claro que foi posto para defender a mensagem do evangelho do ataque de homens réprobos de entendimento, que buscam transtornar em dissolução o evangelho:

“Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho” (Fl 1:16).

Defender o evangelho, ou combater o bom combate, é manter inalterada a essência da doutrina do evangelho do ataque dos falsos irmãos, que podem ser falsos profetas ou anticristos.

“Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus” (1 Tm 1:13).

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido” (2 Tm 3:14).

Compete ao crente em Cristo manter inalterada a palavra do evangelho, ou seja, conservar o modelo das sãs palavras que ouviu. Da mesma forma que Cristo, o crente não pode anunciar nada de si mesmo, ou seja, suas próprias conjecturas, impressões, sentimentos, achismos, etc., antes, deve anunciar o evangelho como anunciado pelos profetas e apóstolos (Ef 2:20).

“Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai me tem dito” (Jo 12:49-50).

A mensagem do evangelho (boas novas) é segundo o anunciado pelos profetas, de que através do Descendente de Abraão seriam benditas todas as famílias da terra, pois, qualquer que o invocar, santificando como Senhor em seu coração, será salvo da condenação estabelecida no Éden, através da ofensa de Adão.

Segundo as Escrituras, o Cristo é Filho de Davi, com direito a se assentar sobre o trono de Israel e, igualmente, Filho de Deus, pela ressurreição dos mortos.

“PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual antes prometeu pelos seus profetas, nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1:1-4, 2 Sm 7:14).

Os falsos irmãos são aqueles que negam a eficácia do evangelho de Cristo, pois transtornam a verdade do evangelho, quando propõem que, para ser salvo, além de crer que Jesus é o Cristo, é imprescindível outras ações, como o circuncidar-se segundo as ordenanças de Moises (At 15:1).

Os da circuncisão (judaizantes) eram falsos irmãos, pois diziam que haviam crido em Cristo, mas que era necessário aos gentios portar-se segundo a lei de Moises: “O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo” (Gl 1:7).

“Porquanto, ouvimos que alguns, que saíram dentre nós, vos perturbaram com palavras e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento” (At 15:24).

A proposta dos falsos irmãos tem aparência de evangelho, porém, nega a eficácia do sacrifício de Cristo, quando se ocupa de questões como alimentos, vestimentas, festas, genealogias, etc. Suas pregações têm por base visões, misticismos, culto voluntário, ascetismo, sob o argumento de humildade e reverência aos profetas (culto aos anjos): “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” (2 Tm 3:5, Cl 2:18).

A defesa do evangelho visa proteger aos cristãos do engano que há em filosofias e vãs sutilezas, decorrentes da tradição dos homens (2 Tm 4:4). O evangelho de Cristo não pode ser confundido com questões de ordem comportamental, como se fosse um código de conduta moral ou esperança para as questões socioeconômicas da humanidade. Dessas questões, surgem doutrinas várias e estranhas que podem envolver e prender o cristão (Hb 13:9).

O embate do cristão não é contra a carne e sangue, ou seja, não tem por alvo um povo ou, uma nação (Ef 6:12). Na verdade, o embate se dá contra doutrinas de homens alienados da verdade do evangelho (2Tm 3:8).

Em defesa do evangelho, há o embate contra o espírito do anticristo, homens que negam que Jesus veio em carne ou, que Ele é o Verbo de Deus ou, que ressuscitou dentre os mortos ou, que tenha morrido de fato. A mensagem do anticristo também contempla aqueles que afirmam que Jesus é um anjo ou, que Ele era somente um profeta, etc.

O ataque do anticristo não é sutil, porém, é ferrenho, pois ataca questões basilares da doutrina do evangelho e tais mensagens surgiram já à época dos apóstolos (1 Jo 4:1-3).

O preletor deve ter em mente que o evangelho de Cristo é um mandamento: crer que Jesus é o Cristo (1 Jo 3:23; Jo 12:50). Ora, cada qual não pode crer à sua própria maneira, antes deve crer, segundo o testemunho das Escrituras, para que, do interior do crente, flua rios de água viva.

“E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu interior” (Jo 7:37-38);

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

A disposição de um crente em Cristo deve ser portar-se de modo digno do evangelho, estar em um mesmo espírito (evangelho) e combatendo com o mesmo ânimo pela verdade (fé) do evangelho.

“Somente deveis portar-vos dignamente, conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós, que estais num mesmo espírito, combatendo, juntamente, com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” (Fl 1:27).

 

Acabei a carreira

Além do apóstolo Paulo, temos nas Escrituras o testemunho do mesmo apóstolo, registrado por Lucas, acerca do ministério de João Batista:

“Mas João, quando completava a carreira, disse: Quem pensais vós que eu sou? Eu não sou o Cristo; mas, eis que, após mim, vem aquele a quem não sou digno de desatar as alparcas dos pés” (At 13:25).

A carreira que o apóstolo Paulo dá por conclusa, refere-se ao seu ministério de evangelista, ou seja, de dar testemunho do evangelho da graça de Deus manifesta em Cristo:

“Mas, em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At 20:24).

O apóstolo Paulo anunciava tanto a judeus, quanto a gregos, que deviam se converter a Deus, ou seja, se arrependerem, crendo em Cristo (At 20:21) e, para cumprir o seu ministério, não fez caso da própria vida.

O apóstolo dos gentios tinha o cuidado de anunciar a Cristo somente, que era escândalo para os judeus e loucura para os gregos: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos” (1 Co 1:23).

“Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Co 2:2).

Em suas exposições, o apóstolo dos gentios não tinha cuidado de questões socioeconômicas como escravidão, direito das mulheres, submissão ao império romano, degradação moral, sustentabilidade, etc. Ele não esteve preocupado em arrematar bens para si; antes, trabalhou para se sustentar (At 20:33-34), para cortar ocasião aos falsos apóstolos, que se aproveitariam dos irmãos (2 Co 11:8 e 12).

Mas, a carreira do apóstolo dos gentios havia acabado, porque Ele estava preso em Roma e o que estava previsto para acontecer era inevitável:

“E agora, compelido pelo Espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer” (At 20:22).

O apóstolo tinha plena consciência de que o seu martírio estava preste a ocorrer, mas não teve a sua disposição em morrer pelo evangelho, como sendo um sacrifício, porque o único sacrifício foi realizado por Cristo e a disposição do apóstolo somente à aspersão, ou seja, à divulgação do que Cristo realizou, em favor da humanidade: “Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício e o tempo da minha partida está próximo” (2 Tm 4:6).

Jesus é mediador da nova aliança e, do Seu sangue, decorre a mensagem que é superior ao exigido pelo sangue de Abel. É em função disto que Jesus disse: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” (Jo 12:32).

“E a Jesus, o Mediador de uma nova aliança e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel” (Hb 12:24).

Embora, o apóstolo Paulo estivesse preso, a sua carreira foi vitoriosa, daí a recomendação do escritor aos Hebreus, para que imitemos a fé dos apóstolos, atentando para o êxito da carreira deles (Hb 13:7).

Cada cristão tem a missão de seguir com perseverança a carreira que foi proposta no evangelho de Cristo: “Portanto, nós, também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos com paciência a carreira que nos está proposta” (Hb 12:1).

 

Guardei a fé

O que é guardar a fé? Que fé é essa, que foi guardada pelo apóstolo Paulo?

A ‘fé’ a qual o apóstolo Paulo faz referencia, diz da verdade do evangelho, ou seja, da fé que foi entregue aos santos (Jd 1:3).

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência, acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3).

“Somente deveis portar-vos dignamente, conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós, que estais num mesmo espírito, combatendo, juntamente, com o mesmo ânimo pela fé do evangelho (Fl 1:27).

A ‘fé’ que o apóstolo dos gentios guardou, refere-se à ‘fé’ que estava sendo anunciada a todos os povos (Rm 1:8), ou seja, à fé que foi manifesta, que é pregada e por quem os homens são justificados (Gl 3:23; Gl 3:2; Rm 5:1).

Cristo é a pedra de esquiva, ou seja, o firme fundamento, a fé que veio e que torna possível aos homens agradarem a Deus (1 Pe 2:6 -7; Hb 11:1; Hb 11:6; Gl 3:25).

O preletor deve lembrar-se de que o termo grego traduzido por ‘fé’, tem em seu bojo o significado de ‘verdade’, ‘fidelidade’ e, por isso, o apóstolo Paulo fala da ‘fé que há em Cristo’, ou seja, da fidelidade, da verdade, da firmeza “… e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo” (2 Tm 3:15).

O apóstolo Paulo, ao falar da fé que há em Cristo, não diz de sua opinião acerca de algo que ele entendia ser verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério, antes, aponta para as Escrituras, o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho.

“Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos justos são; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é” (Dt 32:4).

“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14:6).

Guardar a fé, é ter cuidado de não se desviar da doutrina do evangelho e defendê-lo das heresias. É perseverar no fundamento dos profetas e apóstolos: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1Tm 4:16).

“Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” (2 Jo 1:9).

“Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

“Mas aquele que perseverar até ao fim, será salvo” (Mt 24:13; Ef 2:20).

Guardar a fé e reter firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina (Tt 1:9; 1Ts 2:15).

O apóstolo Pedro faz a mesma exortação: “Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados e descaiais da vossa firmeza” (2 Pe 3:17).

O escritor aos Hebreus faz alusão a guardar firmemente o princípio da confiança até o fim: “Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim” (Hb 3:14).

“Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim”  (Hb 3:6).

‘Guardar a fé’ é permanecer fundado e firme na fé, ou seja, não se demover da esperança do evangelho: “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23).

“Portanto, meus amados e mui queridos irmãos, minha alegria e coroa, estai assim firmes no Senhor, amados” (Fl 4:1).

Por fim, basta fazer uma revisão da exposição, lembrando aos cristãos acerca da carreira proposta pelo evangelho, o dever de combaterem contra as astutas ciladas do diabo e de permanecerem inamovíveis da doutrina do evangelho: “Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente e fortalecei-vos” (1 Co 16:13).

Se desejar acrescentar à exposição de como permanecer firme, basta fazer alusão à armadura de Deus:

A carreira proposta“Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo” (Ef 6:11).

O bom combate“Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes” (Ef 6:13).

Guardar a fé“Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade e vestida a couraça da justiça” (Ef 6:14).




Romanos 1 – O poder de Deus para salvação

Devemos ter em mente que a contextualização histórica e sociocultural auxilia em muito na compreensão da sociedade à época do apóstolo Paulo, porém, pouco auxilia na compreensão das nuances que firmam a ideia que o apóstolo procurou transmitir (…) Quando o profeta Habacuque afirma que: “O justo viverá da fé”, temos que verificar qual ‘fé’ ele estava abordando, visto que Jesus disse que “…está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” ( Mt 4:4 ).


Romanos 1 – O poder de Deus para salvação

 

Introdução

Há vários quesitos a serem observados quanto à interpretação das cartas bíblicas. No decorrer deste estudo sobre a carta aos Romanos destacaremos vários quesitos necessários a uma interpretação segura.

Em primeiro lugar faz-se necessário ler o texto da carta desconsiderando as divisões em capítulos e versículos. O leitor deve ter em mente que as divisões foram feitas somente para auxiliar na localização de frases nos textos, e que elas não guardam vínculos com a estrutura de ideias que a carta desenvolve.

Caso o leitor interprete o capítulo um da carta aos Romanos sem considerar os capítulos dois e três poderá incorrer em vários erros.

Em segundo lugar é necessário contextualizar a carta com aspectos pertinentes a vida do remetente. A contextualização não deve se ater a eventos históricos, onde se destacam somente elementos pertinentes a sociedade de então. Devemos ter em mente que a contextualização histórica e sociocultural auxilia em muito na compreensão da sociedade à época do apóstolo Paulo, porém, pouco auxilia na compreensão das nuances que firmam a ideia que o apóstolo procurou transmitir.

Devemos ler a carta como um texto uníssono, isto é, sem divisões, fazer uma interpretação deste texto e depreender aspectos importantes da mensagem que o escritor da carta é acostumado a desenvolver. Depois é preciso aplicá-la à ideia geral que a carta procura transmitir. Para compreendermos o capítulo um da carta aos Romanos seguimos o seguinte raciocínio:

a) O apóstolo Paulo geralmente enfatiza em suas cartas a liberdade do cristão decorrente do evangelho de Cristo ( 1Co 8:9 ; I Co 10:29 ; Gl 2:4 ; Gl 5:13 );
b) Pela postura do apóstolo em enfatizar a liberdade em Cristo, algumas pessoas passaram a considerar e a divulgar que Paulo andava segundo a carne, ou seja, que ele incentivava a libertinagem ( 2Co 10:2 ; Gl 5:13 );
c) A postura de algumas pessoas era a de que o apóstolo Paulo andava segundo a carne, e não consideravam que a mensagem do apóstolo Paulo e a do apóstolo Pedro são idênticas ( 1Pe 2:16 );
d) O apóstolo prevendo que tais pessoas já haviam se introduzido em meio aos cristãos de Roma, visto que, até aquele momento ele fora impedido de visitá-los, Paulo dá início a carta com um discurso incisivo demonstrando o quanto é condenável a humanidade sem Deus “Do céu se manifesta a ira de Deus sobre a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça” ( Rm 1:18 );
e) O discurso que o apóstolo apresenta no capitulo um da carta aos Romanos, do versículo dezoito aos trinta e dois, tem o objetivo de cativar as pessoas que consideravam o apóstolo propagador de uma vivencia desregrada, enlaçando-os em seus próprios argumentos. Porém, como é próprio ao apóstolo, o capítulo dois demonstra que não há diferença entre os homens, sejam eles quem forem ( Rm 2:1 ).

Observe que a ideia da carta é única, e não se restringe as divisões em capítulos.

Durante a interpretação não podemos perder de vista que:

a) a salvação é pela graça e por meio da fé somente ( Ef 2:8 );
b) a condenação da humanidade se deu em Adão “Pois assim como por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ), e;
c) a ira de Deus sobre a humanidade não é em decorrência da depravação ética e moral; a ira de Deus repousa sobre a humanidade porque estes são filhos da desobediência, filhos da ira e filhos de Adão ( Ef 2:2 -3).

Qualquer interpretação que destoe das proposições acima deve ser desconsiderada. Caso alguém interprete um texto e conclua que a salvação é por obras, deve rever a sua análise, pois esta não foi a ideia que o escritor procurou transmitir.

Os judaizantes, os legalistas, os moralistas e os formalistas sempre se empenharam em demonstrar o quanto a humanidade está perdida apontando as depravações dos pagãos. Paulo, por sua vez demonstra que a humanidade está perdida, não por questões comportamentais e morais, e sim, por todos estarem debaixo do pecado ( Rm 3:9 -19).

O homem é pecador porque foi concebido nesta condição ( Sl 51:4 ). O pecado está vinculado diretamente a natureza do homem, e não às suas ações. O homem é pecador por ter nascido da semente corruptível de Adão, vendido como escravo, e sob condenação “Pois como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores…” ( Rm 5:18 ).

Descobrir o que motivou o escritor da carta é o terceiro quesito que auxilia, em muito, a interpretação de uma carta.

Com esta análise prévia conseguimos evidenciar o objetivo primário do apóstolo quando descreve a depravação da humanidade: fazer calar a boca daqueles que diziam que Paulo apregoava ser necessário fazer o mal, para que venham bens “Façamos males, para que venham bens?” ( Rm 3:8 ).

 

 

Capítulo I – Carta de Paulo aos Romanos

Apresentação Pessoal e do Ministério

1 PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus,

O apóstolo Paulo dá inicio a sua carta aos cristãos em Roma com uma apresentação pessoal. Ele se considera servo de Cristo e utiliza um termo que deriva do verbo ‘deo’ que significa ligar, algemar, aprisionar. Paulo entendia ser prisioneiro de Cristo, ligado ao serviço do seu Senhor.

Paulo demonstra que foi chamado para ser apóstolo. Observe que a posição de apóstolo não foi imposta a Paulo, antes ele foi chamado para o apostolado. Não há como alguém ser chamado para o apostolado sem se submeter ao senhorio de Cristo. Um descrente não teria como ser chamado para desempenhar a missão de apóstolo.

O evangelho é um chamado aos descrentes, que se crerem, estarão habilitados para a salvação. Porém, o chamado do evangelho não habilita o crente para o apostolado. O chamado para o apostolado é distinto do chamado do evangelho. Este chamado é para o serviço no evangelho, e aquele para tornar-se possessão do Senhor.

Paulo estava cônscio da sua missão: foi separado para anunciar as boas novas do evangelho de Deus.

 

2 O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, 3 Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, 4 Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor,

O Velho Testamento é nomeado por Paulo de Sagradas Escrituras. Para ele o A. T. contém as promessas de Deus acerca do seu Filho, Jesus.

O evangelho é especificamente o que foi prometido por Deus por intermédio dos seus profetas.
Paulo concorda a uma só voz com o seu Mestre: As Santas Escrituras testemunham acerca de Cristo ( Jo 5:39 ).

O evangelho não é fruto da cabeça do apóstolo. Ele demonstra que a ele foi revelado os mistérios das Santas Escrituras “O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos” ( Cl 1:26 ).

O apóstolo Paulo disserta sobre o vínculo de Jesus com Deus e com o rei Davi. Paulo faz um pequeno adendo para explicar alguns aspectos acerca do Cristo prometido nas escrituras, a quem ele serviu por meio do evangelho.

Para entendermos quem é o Cristo de Deus prometido nas escrituras através dos profetas é necessário compreender que:

a) Na eternidade não havia a RELAÇÃO Pai e Filho entre as pessoas da divindade, ou seja, na eternidade a relação que hoje conhecemos nas pessoas da divindade (a relação Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo) não existiam. Quando o apóstolo João fez referência a Cristo na eternidade, ele O chama de Verbo Divino ( Jo 1:1 ). A palavra grega traduzida por ‘Verbo’ (grego=Logos, e aramaico=Memra, palavra que foi utilizada na tradução do Velho Testamento como uma designação de Deus), significa pensamento ou conceito, e João a utiliza para designar a pessoa da divindade que fez todas as coisas e estava no princípio com Deus, e que se fez carne e habitou entre os homens “Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” ( Jo 1:2 -3). Desta maneira o apóstolo João demonstrou que, em essência, o Cristo antes de se fazer carne possuía os mesmos atributos da divindade em plenitude “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” ( Jo 1:1 );

b) O dia que Cristo haveria de se fazer carne é descrito pelos profetas como sendo ‘hoje’ “Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:7 ). O Verbo de Deus ao ser introduzido no mundo passou a ser denominado de ‘Filho’, o único gerado de Deus, ou seja, quando Cristo foi gerado pelo Espírito Eterno no tempo predeterminado e denominado hoje, Deus o chamou de Filho por tê-lo gerado no mundo dos homens;

c) Este aspecto da filiação de Cristo foi revelado a Davi: quando o Espírito Eterno fez gerar uma criança no ventre de Maria, cumpriu-se o que foi predito pelo profeta Natã a Davi: “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ). Como na eternidade não havia a relação Pai & Filho entre as pessoas da divindade, estas pessoas acordaram entre si (Deus eterno e o Verbo eterno), e estabeleceram que quando Cristo fosse introduzido no mundo, a relação Pai e Filho haveria de ser efetivada entre eles: “Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho“. Ao ser introduzido Cristo no mundo, o primeiro homem gerado de Deus (primogênito), visto que Adão foi o primeiro homem criado, a relação Pai e Filho se estabeleceu. Prova disto é que, ao ser introduzido o primogênito no mundo foi dada a determinação aos seres celestiais: “Todos os anjos de Deus o adorem” ( Hb 1:6 );

d) Cristo despojou-se da sua glória e passou a condição de Filho na relação pré-estabelecida na eternidade e que foi prometida por Deus por intermédio de Natã. Antes de se fazer carne, o Verbo de Deus ‘era’ o resplendor da glória de Deus ( Hb 1:3 ); Mesmo após despojar-se da sua glória, Cristo, quando introduzido no mundo, continuou a receber adoração, tanto dos anjos, quanto dos homens ( Jo 1:14 ). Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo!

Através do livro dos Gênesis conhecemos que todos os homens, quando nascem, são filhos de Adão segundo a carne. Cristo, o Verbo de Deus, não nasceu na mesma condição dos homens, visto que ele não foi concebido em pecado da mesma forma que o foi o rei Davi ( Sl 51:5 ). O Espírito de Deus misteriosamente fez Maria conceber, o que tornou Cristo livre do pecado de Adão “Descerá sobre ti o Espírito santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” ( Lc 1:35 ).

Cristo nasceu com um corpo carnal, porém não foi gerado segundo a carne. Para ser gerado segundo a carne João demonstra em seu evangelho que é necessário nascer do sangue, da vontade da carne e da vontade do homem ( Jo 1:13 ). Ou seja, jamais Cristo teve qualquer relação com a semente corruptível de Adão.

A única relação de Cristo com a carne ficou por conta de Maria, uma descendente da linhagem de Davi, o que deu direito a seu descendente se assentar sobre o trono de Davi. Por meio de Maria, Cristo passou a ter direito sobre o trono de Davi, mas o pecado de Adão não o alcançou, visto que, Cristo não nasceu da vontade do varão “Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no SENHOR” ( 1Co 11:11 ). Observe que os nossos pais no Éden somente reconheceram que estavam nus após Adão comer do fruto, ou seja, a vontade do varão fala da união “homem e mulher”. Eva comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, e não ‘viu’ que estava nua. O estado pecaminoso se efetivou somente após Adão comer do que foi oferecido por Eva.

Quando Paulo diz que Jesus veio segundo a carne da descendência do rei Davi, demonstra que Cristo tornou-se homem como um de nós, e participou de todas as nossas ‘fraquezas’ , porém, com direitos plenos ao trono de Davi ( Hb 4:15 ).

Outro aspecto da filiação divina se deu na ressurreição dentre os mortos. A ressurreição é uma declaração de Deus que Cristo é o seu Filho.

Deus é Espírito de santificação. Pelo fato de Cristo ter sido gerado de Deus, ele permaneceu um ente santo “Por isso o ente santo que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” ( Lc 1:35 ; Jo 1:12 -13). O Cristo do qual o apóstolo Paulo tornou-se servo e fez referência aos cristãos em Roma, é aquele que ressurgiu dentre os mortos. A ressurreição, para Paulo, se constitui em evidência clara de que Cristo é o primogênito de Deus e Senhor de todos os cristãos ( 2Co 5:16 ).

 

5 Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, 6 Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo.

Por intermédio de Cristo, Paulo recebeu em primeiramente graça. Graça é o favor imerecido de Deus que dá ao homem salvação. O apostolado diz de certas pessoas que foram chamadas e ensinadas por Cristo pessoalmente. Estas pessoas foram ensinadas e comissionadas para continuar o ministério de Cristo, proclamando a verdade do evangelho com autoridade.

A mensagem do evangelho é recebida por fé, e por isso o apóstolo utiliza a palavra fé em lugar da palavra ‘evangelho’. A mensagem do evangelho é anunciada a todos, e quem recebe a mensagem, recebe-a por fé. Obedecemos a mensagem do evangelho, o que se constitui obediência da fé.

A mensagem do evangelho alcança a todas as gentes chamando-as para serem propriedade exclusiva de Cristo. O evangelho convoca dentre os povos, todos os homens para serem servos de Cristo, incluindo judeus e gregos. O evangelho de Cristo não exclui os Romanos, que eram a grande potência econômica e bélica daquela época “Entre as quais sois vós também chamados…”.

A mensagem do evangelho é um convite. Os chamados dentre os homens serão nomeados santos se, e tão somente se, aceitarem a mensagem do evangelho por meio da fé em Cristo.

Obs.: Quando Cristo disse que: “Muitos são chamados e poucos os escolhidos” ( Mt 20:16 ), devemos entender que nem todos os homens ouvirão a mensagem do evangelho. Nem todos serão chamados através da mensagem do evangelho, uma vez que, a mensagem do evangelho não alcançou e nem alçará todos os homens. O evangelho não foi e nem será anunciado a todos os homens, porém muitos ouviram e ouvirão o evangelho (estes são os chamados), porém, poucos são os que hão de aceitar o chamado do evangelho (estes que aceitarem o evangelho passam a condição de escolhidos).

 

 

Os Destinatários da Carta

7 A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

Paulo saúda todos os cristãos que estavam em Roma com graça e paz. Graça diz do favor imerecido de Deus que foi concedido aos homens.
Paz diz da reconciliação de Deus com os homens. É a paz que excede a todo entendimento.

Paulo demonstra que os cristãos são sujeitos do amor de Deus e estão em condição diferente daqueles que não aceitaram a mensagem do evangelho. Quem não crê em Cristo ainda é filho da ira, uma vez que pesa sobre eles a condenação de Adão ( Jo 3:18 ).
A condição de ‘Amados de Deus’ é pertinente a todos quantos crerem na mensagem do evangelho.

Todos os amados de Deus também são designados santos por Ele. Sabemos que Deus chama a existência as coisas que não são como se elas já fossem, ou seja, esta declaração de Paulo remete ao poder criativo de Deus ( Rm 4:17 ). Quando Deus nomeia alguém de santo não tem em vista questões posicionais, ou seja, Deus jamais nomeia alguém santo, se esta pessoa não for efetivamente santa. Deus não nomeia alguém que não é santo como se fosse santo.

Todos os cristãos são santos independentemente de questões morais e comportamentais. Eles são santos por terem aceitado o chamado de Deus através do evangelho. É o chamado de Deus que concede a condição de santo sem qualquer relação com esforços humanos; todos quantos aceitarem o chamado de Deus estão separados como propriedade e uso exclusivo de Deus ( Ef 1:1 ).

Ser santo é condição pertinente ao cristão por estar em Cristo. Os cristãos são novas criaturas, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade. Esta nova criatura é designada santa perante Deus, pois aquele que está ’em Cristo’ nova criatura é ( Ef 4:24 ).

 

Agradecimentos e os Motivos

8 Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.

Uma das características própria às cartas de Paulo é o momento de agradecimento a Deus logo após as saudações. As suas cartas seguem um padrão semelhante: Apresentação pessoal, saudação e agradecimento. Ex: ( 1Co 1:1 -4; 2Co 1:1 -3); etc.
O apóstolo agradece a Deus por intermédio de Cristo pela existência dos cristãos que estavam em Roma.

Paulo havia recebido noticias de que em Roma algumas pessoas também haviam recebido a mensagem do evangelho. Paulo estava contentíssimo, visto que o mundo conhecido de então estavam recebendo noticias de que também havia cristãos em Roma.
A notícia de que romanos também estavam seguindo ao evangelho de Cristo contribuiu em muito para a difusão da mensagem do evangelho.
Paulo sabia o quanto a notícia de que até os romanos estavam se rendendo ao evangelho poderia fazer propagar ainda mais a mensagem do evangelho “…porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé” (v. 8), e este tornou-se um dos motivos pelo qual o apóstolo rendeu graças a Deus.

 

9 Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, me é testemunha de como incessantemente faço menção de vós, 10 Pedindo sempre em minhas orações que nalgum tempo, pela vontade de Deus, se me ofereça boa ocasião de ir ter convosco.

O apóstolo evoca a Deus como testemunha de quantas vezes fez menção dos cristãos romanos quando em oração.
Paulo insere um aposto explicando que serve a Deus em seu espírito através do evangelho de Cristo “para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:6 ). O serviço do apóstolo não era através da lei de Moisés, e sim, por meio de um espírito novo, conforme o que profetizou o salmista: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). O evangelho de Cristo concede aos cristãos a condição indispensável para servir a Deus: novidade de espírito ( Ez 11:19 ). O que fora prometido por Deus por intermédio do profeta Ezequiel, o apóstolo Paulo recebeu através do evangelho de Cristo.

Diferente de outras cartas em que o apóstolo roga a Deus que conceda conhecimento aos cristãos, nesta carta Paulo ora pedindo que Deus conceda, segundo a sua vontade, uma oportunidade para visitar os cristãos em Roma. Diferente do que se apregoa no ‘evangelho da prosperidade’, o apóstolo não exige, antes pede que, segundo a sua vontade, Deus lhe conceda boa ocasião de ir ter com os cristãos.

 

11 Porque desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados; 12 Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha.

Paulo ora constantemente e louva a Deus pela existência dos cristãos em Roma, motivado pelo desejo de vê-los pessoalmente. Paulo desejava confortá-los anunciando as dádivas recebidas de Deus. O encontro serviria para conforto mútuo, onde Paulo teria contato com os cristãos e observaria a obediência deles no evangelho, e os cristãos teriam a oportunidade de observarem pessoalmente o zelo de Paulo no evangelho.

 

13 Não quero, porém, irmãos, que ignoreis que muitas vezes propus ir ter convosco (mas até agora tenho sido impedido) para também ter entre vós algum fruto, como também entre os demais gentios.

Do exposto, Paulo reitera que se propôs a ir a Roma por várias vezes, porém, foi impedido. Ele não apresenta os impedimentos que surgiram, e não devemos conjeturar a respeito. O desejo de Paulo era ter algum fruto entre os Romanos da mesma forma que ele obtivera entre os demais gentios.

Paulo não queria que os romanos tivessem uma ideia errônea a seu respeito, uma vez que poderiam alegar que ele estava com vergonha de encontrar os seus concidadãos em Roma, por ser a sua presença fraca em relação as suas cartas ( 2Co 10:10 ).

 

14 Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.

Paulo sentia-se devedor a todos os homens, não se importando com nacionalidades, origens ou etnias. A dívida que Paulo contraiu por causa do amor de Cristo se estendia aos bárbaros e gregos; ele queria alcançar tanto a sábios quanto a ignorantes. A disposição de Paulo não era somente para com os estrangeiros.

 

15 E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma.

Se dependesse tão somente do apóstolo, ele estava pronto a ir a Roma para anunciar as boas novas de Cristo.

 

 

A Motivação do apóstolo Paulo

Há um exercício muito útil na descoberta dos eventos que motivaram o escritor da carta. Durante a leitura é preciso se posicionar como sendo o próprio escritor da carta, questionando as alegações de Paulo da seguinte maneira:

  • Quais os motivos que levaram o apóstolo a afirmar que não se envergonhava do evangelho ( Rm 1:16 );
  • Por que Paulo procurou demonstrar aos cristãos que até aquele momento tinha sido impedido de ir a Roma ( Rm 1:13 );
  • Você deve se perguntar sobre os motivos que levou Paulo a enfatizar que era devedor tanto a gregos como a bárbaros ( Rm 1:14 ).

Estas perguntas são essências a compreensão, em certos momentos das cartas, onde não há uma exposição doutrinária, como é o caso de Romanos um, versículo oito a quinze.

Outro bom exercício é se posicionar como sendo um dos cristãos romanos que receberam a carta de Paulo. Durante a leitura devemos ter em mente quais eram as expectativas dos leitores, levando em consideração as condições dos cristãos como cidadãos romanos.

Quais seriam as expectativas acerca de alguém que serviu o governo Romano, perseguindo a igreja de Deus, e que, agora, era um dos cristãos que anunciavam o evangelho?

Em terceiro lugar devemos reler as outras cartas do apóstolo fazendo comparações entre elas.

Conhecer alguns subsídios históricos e geográficos ajudará na leitura, ainda que estes subsídios não são essenciais a compreensão do texto. É bom conhecer que a carta aos Romanos foi escrita em Corinto durante a terceira viagem missionária de Paulo; é bom saber que o escrevente da carta era Tárcio ( Rm 16:22 ), e que Paulo estava hospedado na casa de Gaio, um abastado irmão ( Rm 16:23 ). Porém, o leitor deve estar cônscio de que subsídios históricos e geográficos não auxiliarão na compreensão da doutrina de Cristo, e nem na compreensão de certas nuances do texto.

Ora, se sabemos que Paulo escreveu aos Romanos quando estava em Corinto, devemos ler e relacionar os problemas que ele mais abordou nas cartas aos Corinto e perceber certas nuance destes problemas nas abordagens e explanações que faz aos cristãos em Roma. Somente as cartas de Paulo contêm subsídios que fará o leitor entender as exposições que ele faz em uma carta em específico. Exemplos:

a) Qual a base utilizada para afirmarmos na página anterior que a santificação não é posicional? Em primeira aos Coríntios lemos que Paulo escreveu “… aos santificados em Cristo, chamados para serem santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo…” ( 1Co 1:2 ); Paulo também demonstra que aos cristãos foi dado graça, que em tudo foram enriquecidos em Cristo, que nenhum dom falta, e que Deus é fiel e cuidará para que os cristãos permanecessem irrepreensíveis até aquele dia ( 1Co 1:4 -9); “O mesmo Deus de paz vos santifique completamente. E todo o vosso espírito, alma e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” ( 1Ts 5:23 -24) (grifo nosso).

Note que é Deus quem nos santifica. Não cabe ao homem tal incumbência, pois esta é uma glória que pertence a Deus. Não é o homem que se separa como propriedade do Senhor, e sim Deus, que o separa para si.

Como considerar que aquele que crê em Cristo não é de fato santo, se Jesus é sabedoria, justiça, santificação e redenção ( Rm 1:31 )? Já deixamos de ser imundos, visto que já fomos lavados, santificados, justificados em nome de Cristo ( 1Co 6:11 ). Paulo é claro na sua exposição: “E tais fostes alguns de vós” ( 1Co 6:11 ). A imundície é algo do passado. Se alguém não entende a extensão da doutrina da santificação, não deve teorizar a respeito do que não entende.

Compare: ( 1Co 1:8 ; Fl 1:10 ; 1Pe 5:10 ; 1Ts 5:23 -24).

b) O evangelho é poder de Deus só para os Romanos? Para quem é salvo o evangelho é poder de Deus e sabedoria de Deus ( 1Co 1:18 e 24). É por intermédio do evangelho de Deus que o cristão passa a pertencer a Deus; em Cristo Jesus o homem passa a pertencer a Deus ( 1Co 1:30 ). Ou seja, todos os que creem em Cristo pertencem exclusivamente a Deus ( 1Co 6:19 );

c) Neste diapasão o apóstolo afirma a liberdade em Cristo: “…todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” ( 1Co 8:6 ).

1ª) Tudo pertence a Deus, principalmente os cristãos, visto que, através do evangelho passamos a viver para Deus.
2ª) Através do evangelho aceitamos a Cristo como Senhor e Ele concede nova vida. Por Cristo existem todas as coisas, inclusive os cristãos passam a ter vida por intermédio d’Ele, porque, por intermédio da Palavra todas as coisas foram e são criadas.

O evangelho é o tema das cartas de Paulo, e ao escrever aos Romanos não seria diferente, visto que ele sempre propôs aos irmãos conhecerem a Cristo ( 1Co 2:2 ). Estas pequenas comparações entre as cartas levará o leitor a perceber que, quando Paulo identificava um problema que havia se instalado em uma igreja, ele acabava por se antecipar e escrevia a outras igrejas antes que estes problemas acabasse por influenciar tais igrejas.

Como Paulo sempre enfatizou a liberdade em Cristo demonstrando o fim da lei em Cristo, muitos judaizantes questionavam a autoridade e as mensagens de Paulo. Estes diziam que Paulo era carnal ( 2Co 10:2 -3). Paulo por sua vez demonstra que não adianta ter zelo de Deus sem entendimento ( Rm 10:2 ), visto que, Cristo é o fim da lei para justiça de todos quantos crerem ( Rm 8:4 ). Por algumas pessoas dizerem que Paulo era carnal na igreja de Corinto, ele se antecipa e escreveu demonstrando aos cristãos em Roma que ele não andava segundo a carne.

Outro aspecto pertinente a uma carta está na construção de ideias. Uma carta não utiliza definições ou conceitos como é próprio dos livros. Diferente dos livros, onde o público alvo é indefinido, as cartas bíblicas tem um público alvo específico. As cartas eram direcionadas aos cristãos especificadamente.

Uma carta é construída através de desenvolvimento de ideias, de argumentações com bases nessas ideias e sentimentos comuns ao remetente e ao destinatário. Geralmente se escreve uma carta a alguém que mantém algum vínculo pessoal com o escritor, aspecto este que não existe entre um autor e os leitores de livros.

Em uma carta já existe uma linguagem que é comum ao escritor e aos destinatários. Já em um livro é necessário a construção de uma linguagem, principalmente por meio de conceitos e definições, e quase sempre amparado por signos linguísticos contemporâneos ao escritor e leitores.

Em uma carta o prefácio e a saudação devem ser analisados em aspectos absolutos. Entendemos que Paulo era ‘servo de Cristo’ e chamado para o ‘apostolado’ de modo absoluto, e isto implica que devemos considerar que Paulo escreveu a ‘santos’ e ‘amados de Deus’ em absoluto ( Rm 1:1 -7).

É um contra senso tomar as palavras do apóstolo Paulo em sentido absoluto quando ele declara ser servo de Cristo e apóstolo, e no mesmo contexto entender que os cristãos são santos em sentido relativo. Paulo em suas cartas escreve as igrejas de Deus, pessoas que foram chamadas para serem propriedades de Deus por meio de Cristo ( Rm 1:6 ). Não há como considerar estas declarações de Paulo em sentido relativo.

Os motivos da escrita de uma carta são inúmeros, e para determiná-los é preciso estudar os vários escritos do remetente e a sua relação com os destinatários. Já em um livro, temos a introdução ou o prefácio, onde os motivos e objetivos do escritos já vêm explicitados.

Considerando estes aspectos, estaremos aptos a estudar e compreender melhor as cartas bíblicas.

 

16 Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.

Paulo demonstra prontidão quanto a ir a Roma sem ter qualquer obstes quanto ao evangelho. Alguém poderia dar a entender que Paulo ainda não teria ido a Roma por ter vergonha de evangelizar entre os seus concidadãos. Paulo é enfático: “Não me envergonho do evangelho…”.
Paulo declara que o evangelho é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê. A declaração de Paulo é igual à de João: “Mas a todos os que o receberam, àqueles que creem no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” ( Jo 1:12 ).

O evangelho é a boas novas de Deus aos homens. Como boas novas do reino ele é anunciada na forma de convite, e a todos quantos ouvirem. Quem ainda não creu no nome de Cristo está na condição de chamados “… nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:23 -24). Após aceitar o convite do evangelho, o homem passa a condição de ‘eleito’, ou ‘vocacionado’. Quem crê passa a condição de ‘eleito’: “Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” ( 1Co 1:26 ).

Aqueles que creem no evangelho, ou seja, que creem no nome de Jesus, estes recebem poder para salvação. Estes são feitos (criados) novamente na condição de filhos de Deus.

Não há qualquer impedimento para a salvação daqueles que creem. Deus transforma tanto gregos como judeus em seus filhos através do poder que o evangelho de Cristo contém. Observe que esta abordagem Paulo faz em quase todas as suas cartas: a universalidade do evangelho.

 

17 Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.

No evangelho de Cristo a JUSTIÇA de Deus torna-se conhecida dos homens. A descoberta da justiça de Deus, ou o conhecimento da justiça de Deus não é um conhecimento vinculado à considerações filosóficas. Antes a justiça de Deus torna-se conhecida por se manifestar na vida daqueles que tem fé em Cristo. Paulo fala de um conhecimento experimental, e não da compreensão que satisfaça as indagações humanas.

Como entender que a justiça de Deus é de fé em fé? O parâmetro para entendermos a declaração de Paulo encontra-se no trecho que ele cita das escrituras: “Mas o justo viverá da fé” ( Hc 2:4 ). O livro de Habacuque contém os elementos necessários a compreensão do texto de Paulo.

No livro de Habacuque lemos que o profeta clama a Deus em oração preocupado em receber a resposta do Senhor: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?” ( Hc 1:2 ). O profeta destaca que, por Deus não agir, a lei havia se afrouxado e a justiça nunca se manifestava “Por isso a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta” ( Hc 1:4 ).

Paulo demonstra que a justiça de Deus já havia se manifestado através do evangelho, caso alguém em Roma ainda estivesse com as mesmas questões que o profeta Habacuque. O que Habacuque reclama no versículo quatro, tem resposta em Romanos um, versículo dezessete.

“… e a justiça nunca se manifesta” ( Hc 1:4 );
“Porque nele (no evangelho) se descobre a justiça de Deus…” ( Rm 1:17 ).

Quando o profeta Habacuque afirma que: “O justo viverá da fé, temos que verificar qual ‘fé’ ele estava abordando, visto que Jesus disse que “…está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus ( Mt 4:4 ); ou seja, sabemos que ambos, Jesus e Habacuque anunciaram a palavra de Deus, e que a palavra de Deus não se contradiz. Portanto, se o ‘justo vive da fé’, e o homem ‘vive da palavra que sai da boca de Deus’, conclui-se que a fé anunciada por Habacuque é o mesmo que a palavra de Deus. A fé anunciada por Habacuque não é algo místico, ou um sentimento que aflora no homem, antes ela surge da palavra que é segundo a fidelidade de Deus.

Neste sentido, temos no Novo Testamento os apóstolos exortando os cristãos a batalharem pela fé, ou seja, batalharem pela verdade do evangelho, que é a Palavra de Deus ( Jd 1:3 ).

A resposta de Deus é clara as questões do profeta Habacuque: “Vede entre as nações, e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos, porque realizo em vossos dias um obra, que vós não crereis quando for contada” ( Hc 1:5 ). Deus prometeu uma obra maravilhosa, porém o profeta não entende porque os caldeus estavam devorando o seu povo, se eles eram ‘mais pecadores’ do que os israelitas ( Hc 1:13 ). A obra prometida a Habacuque foi realizada nos dias de Cristo em meio ao povo de Israel, porém não creram ( Jo 1:11 ).

Porém, ainda que o profeta não havia compreendido a ação de Deus, demonstra confiança e se refugia em aguardar a resposta do Senhor “Sobre a minha torre de vigia estarei, e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que fala comigo, e o que eu responderei a esta queixa” ( Hc 2:1 ).

Enquanto o profeta pensava em questões amenas como: “O ímpio cerca o justo, e a justiça é pervertida” Hc 1: 4, Deus lhe dá resposta para questões eternas: “Eis o soberbo! A sua alma não e reta nele; mas o justo viverá pela sua fé” ( Hc 2:4 ).

Deus sempre cuidou do povo de Israel, mesmo quando eles estavam sendo perseguidos. As nações que oprimiam o povo do profeta faziam conforme o conselho do Senhor. Porém, estas questões não eram de maior importância. A ação de Deus sempre foi manifestar aos seus profetas como se da a sua justiça aos homens.

O soberbo, aquele que sente-se abastado e que não confia em Deus, a sua condição perante Deus não é reta. Outras traduções rezam: “Eis que a sua alma se incha, não é reta nele…” ( Hc 2:4 ). Estes são os ‘ricos’, os ‘abastados’, os ‘soberbos’, os cheios de ‘gordura’, que tem a alma inchada por confiarem em suas posses, e não reconhecem que necessitam de Deus. Enquanto o profeta entendia que o problema da humanidade residia na opressão dos ímpios e na perversão da justiça humana, Deus anuncia que o maior problema da humanidade esta na falta de confiança em Deus. Somente aqueles que em Deus confiam tem uma natureza justa. Estes são justos perante Deus e viverão diante de Deus pela sua fé.

Esta ideia do texto de Habacuque é retransmitida aos cristãos em Roma. Em conformidade com que Deus disse a Habacuque: “O justo vivera da fé”, Paulo demonstra que o evangelho é poder que concede vida aos homens, por intermédio do evangelho, que é Cristo, Deus cria filhos para Si ( Jo 1:12 ), revelando as bases da sua justiça “nele se descobre a justiça de Deus”:

a) o evangelho é para salvação;
b) é poder de Deus;
c) é por meio da fé;
d) não faz distinção entre os homens;
e) cria filhos de e para Deus ( Rm 1:16 ).

A justiça de Deus é de fé em fé, ou seja, todos quantos creem devem permanecer confiantes como Habacuque. A obra perfeita que a fé realiza é nomeada de perseverança. Quem crê em Deus, nele persevera.

A ideia que Paulo expõe nestes dois versículos será concluída depois de uma extensa argumentação. Perceba que Paulo concluirá esta exposição inicial acerca do evangelho lá no capítulo três, versículo vinte e um:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé (…) Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença” ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22).

O leitor da carta aos Romanos precisa estar atento as argumentações e a ideia principal que está sendo desenvolvida. Qual a ideia básica desenvolvida por Paulo? O evangelho é poder de Deus para salvação de todos quantos crerem! Esta ideia será mantida por toda carta. Paulo a apresenta no capítulo primeiro, versos 16 e 17, e continua no capítulo três, versos 21 e 22.

Porém, entre as exposições da ideia principal, há as argumentações que são as bases que dão sustentação a ideia principal.

O estudo que se segue é sobre uma das argumentações de Paulo que dá suporte a ideia da salvação por meio do evangelho de Cristo e que desmente a concepção de que Paulo era libertino (sensual, lascivo ou devasso).

 

 

A Depravação da Humanidade

Como entender a declaração dos versículos dezoito e dezenove? Em primeiro lugar é necessário ter em mente que as declarações de Paulo foram direcionadas aos cristãos. Somente os cristãos conhecem a verdade sobre a ira de Deus: há um dia específico para a ira de Deus e a manifestação do juízo de Deus ( Rm 2:5 ); somente os cristãos compreendem que a ira de Deus se manifesta contra a impiedade e injustiça.

Paulo reitera aos cristãos que a ira de Deus se manifesta contra a impiedade e injustiça, porém os descrentes não sabem desta realidade descrita no versículo dezoito. Os cristãos conhecem e entendem que a ira de Deus é a retribuição pelas injustiças e impiedades praticadas pelos homens; também compreendem que o juízo de Deus se deu em Adão, porém, no dia da ira também será dado a conhecer o juízo de Deus que se deu em Adão, e que os homens desconhecem ( Rm 2:5 ).

Aprendemos em Habacuque que o maior problema do homem está na falta de fé em Deus, e não nas impiedades e injustiça praticadas pelos homens; esta verdade é repetida por Paulo ao demonstrar que o maior problema do homem persiste quando ele detém a verdade pela injustiça.

Com base nestas informações iniciais a estrutura de ideia destes dois versículos fica assim:

“Do céu se manifesta a ira de de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça, visto que o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lhes manifestou” (v. 16 e 17).

Da mesma forma que os cristãos entendiam que o evangelho é poder de Deus para salvação, eles também entendiam que a ira de Deus se manifesta desde os céus sobre as impiedade dos homens que não creem em Deus (homens que detêm a verdade em injustiça).

A oração ‘visto que o que de Deus se pode conhecer’ na gramática portuguesa é uma Oração Subordinada Adverbial Causal, caracterizada pela conjunção ‘visto que’, pois funciona como uma adjunto adverbial de causa. A ideia que foi exposta na primeira oração é complementada pela oração seguinte que expõe o que deu causa à ideia. Ou seja, a ira de Deus se manifesta sobre os homens que detém a verdade em injustiça porque esta é a única coisa que eles podem conhecer de Deus.

Devemos ter em mente que todas as colocações de Paulo foram feitas a cristãos, e portanto, dentro da compreensão que era pertinente a todos eles.

 

18 Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.

O que aprendemos com a citação de Habacuque também se aplica deste versículo até o versículo trinta e dois: a depravação da humanidade é uma evidência da falta de fé em Deus, e não o pior problema da humanidade. A depravação que Paulo descreve em linhas gerais não é o pior mal da humanidade, antes indica algo de maior gravidade e que aprisiona a humanidade: o pecado da incredulidade!

Da mesma forma que Habacuque se ocupava em questionar a justiça de Deus por causa de questões sociais, éticas e morais, hoje muitos questionam a justiça de Deus por causa dos problemas da sociedade. Por que tantas injustiças? Por que tanta violência? Será que Deus não está vendo? ( Hc 1:3 -4).

Da mesma forma que a justiça de Deus se manifesta por meio da verdade do evangelho e os homens não conseguem ver, a ira de Deus se manifesta sobre a impiedade e injustiça dos homens, e eles também não conseguem ver.

Os homens que detém a verdade em injustiça são a peça chave na leitura deste capítulo. A fé é o elemento pelo qual o homem alcança a justiça de Deus, e a incredulidade é o elemento que detém a ação da verdade, permanecendo a injustiça. O evangelho de Cristo revela a justiça de Deus aos homens, e estes, quando não creem em Cristo, detêm a verdade em injustiça.

 

19 Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.

Somente aqueles que creem na mensagem do evangelho descobrem a justiça de Deus, pois é isto que o evangelho manifesta a todos quantos creem. Já aos incrédulos é dado conhecer a ira de Deus, pois mesmo eles não sabendo, a ira de Deus se manifesta neles. Deus manifestou a sua ira sobre os homens que detém a verdade de Deus em injustiça.

Visto que os homens vivem em impiedade e em injustiças, a eles compete a ira de Deus. Neles se manifesta a ira de Deus porque é a única coisa de Deus que eles ‘podem’ conhecer. Os justo não conhecerão a ira, antes terão gozo e paz no espírito Santo, pois não é pertinente a eles conhecer a ira.

Aqueles que não creem terão contato única e exclusivamente com a ira de Deus, pois é isto que eles tem entesourado para si. A ira de Deus se há manifestado entre eles, visto que Deus deixou todos eles entregues as concupiscências de seus corações impenitentes (v. 24). Compete a eles a ira de Deus por serem filhos da ira e vasos da ira, preparados para a perdição ( Rm 9:21 -23). Não podemos perder de vista que a culpabilidade dos homens é em decorrência da condenação em Adão, e não por questões morais e comportamentais (impiedade e injustiças).

Permanece a condenação e serão alvos da ira de Deus por não crerem na verdade, conforme o exposto por Cristo: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ).

 

A Natureza

Paulo expõe aos cristãos de Roma que os atributos de Deus, bem como o seu eterno poder e sua divindade são facilmente perceptíveis por tudo quanto está criado por Deus.

Ao analisarmos esta declaração de Paulo, devemos ter em mente que ele estava escrevendo a cristãos e que é próprio a eles ver os atributos de Deus na criação.

Paulo destaca que Deus ‘manifesta’ a sua ira sobre a impiedade e a injustiça, é que a ira é algo que somente os injustos podem conhecer. Porém, os ímpios à época de Paulo tinham ciência, ou melhor, sabiam que a ira de Deus se ‘manifestava’ neles? Os descrentes desconheciam esta verdade! Por que? Porque o texto é uma explanação do apóstolo que demonstra aos cristãos uma realidade pertinente aos injustos. Os injustos são sujeitos da ira de Deus (neles se manifesta a ira), porém, este não é um conhecimento pertinente aos incrédulos. Eles não sabem, ou melhor, não têm ciência de que são sujeitos da ira.

Lembre-se que há o conhecer de ‘ciência’, ou ‘estar informado a respeito de’, e o conhecer cristão, que é ‘Deus em nós e nós nele’. O conhecer do cristão refere-se a união com Cristo.

Quando Paulo fala que as evidências presentes na criação depõe contra os homens que detêm a verdade em injustiça, ele fala de um conhecimento (ciência) que não é de total domínio dos incrédulos. Os incrédulos não conseguem perceber que a natureza depõe contra eles quando revela a existência de Deus.

O papel da natureza é duplo:

a) revela a existência de Deus e desperta a curiosidade de conhecê-lo melhor, e;
b) depõe contra aqueles que souberam da existência de Deus e não se importaram de ter conhecimento de Deus (v. 28).

O conhecimento proveniente da natureza não condena o homem. A condenação é proveniente da queda em Adão, e o conhecimento da existência de Deus através da natureza somente depõe contra os homens, deixando-os sem qualquer desculpa pelo proceder inconveniente que adotaram neste mundo.

Os incrédulos, ao observarem a natureza, souberam da existência de Deus, ou seja, ‘pelas coisas que foram criadas’. Já o entendimento dos cristãos é mais amplo diante das mesmas coisas criadas; os cristãos conseguem ver claramente e entender ‘os atributos invisíveis de Deus, a criação do mundo, o eterno poder de Deus e a divindade’. Ver e entender claramente é algo pertinente aos cristãos, já os incrédulos tem contato com as coisas criadas, e por isso são inescusáveis quando agem em impiamente.

Ao olhar a natureza é possível ‘entender’ e ‘ver’ os atributos de Deus e o seu eterno poder? Observe que os atributos de Deus são invisíveis! É possível entender e ver a criação do mundo? É possível entender e ver que o poder de Deus é eterno? Não! Este conhecimento é restrito aos cristãos, que são informados destas verdades através das Escrituras.

Agora, o que os cristãos claramente viam e entendiam (a manifestação da ira, os atributos invisíveis de Deus, o eterno poder), os incrédulos também adquiriram ‘conhecimento’ de Deus por meio das coisas criadas. O conhecimento deles não equivale ao conhecimento dos cristãos: através da natureza somente é possível perceber a existência de Deus, o que não os livra da condenação em Adão! O conhecimento que os incrédulos adquiriram da natureza não os conduz a Deus, antes, os seus raciocínios tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram e não buscaram a Deus.

Os homens que detêm a verdade em injustiça já estão debaixo de condenação herdada de Adão, e se mantém inescusáveis quanto as suas ações, visto que souberam da existência de Deus por meio das coisas que foram criadas, mas não deram a devida importância a tal conhecimento e não buscando a Deus. Antes, as suas ações se diversificaram segundo os seus corações e pensamentos, e somente entesouram ira para si ( Rm 2:5 ).

A ira de Deus a se manifestar é quanto as ações dos homens, visto que o juízo já foi estabelecido quanto à queda de Adão. A queda trouxe o juízo de Deus, mas as ações dos homens trará a ira e a indignação de Deus.

Por que eles se mantém culpáveis diante de Deus? Porque a natureza evidencia que Deus existe, dando aos homens a primeira condição para que creiam em Deus, conforme foi demonstrado aos cristãos Hebreus: “…é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe…” ( Hb 11:6 ). A criação apresenta a primeira condição necessária para que o homem se aproxime de Deus: dá a conhecer a existência de Deus.

A criação nunca substituiu o evangelho e não tem condição de ‘revelar’ a plenitude de Deus aos homens. Somente Jesus, o unigênito de Deus, revelou e revela Deus aos homens ( Jo 1:18 ), dando as condições necessárias para que se creia que ‘Deus existe’, e é ‘galardoador dos que o buscam’ ( Hb 11:6 ).

Saber que Deus existe não livra ninguém da condenação eterna; saber que Deus existe não livra ninguém da condenação do pecado (vide o caso de Caim, que mesmo sabendo da existência de Deus, matou o seu irmão).

A natureza ‘revela’ que Deus existe, porém ela é limitada. A natureza não faz o homem se aproximar de Deus! Somente aqueles que aceitam a verdade do evangelho é que tem acesso a Deus, visto que Jesus é o caminho a verdade e a vida “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ). O conhecimento evidenciado pela natureza jamais conduzirá homem algum a Deus.

Entender que é possível alguém ser salvo através da ‘revelação’ da natureza é temerário, pois:

1ª) Os judeus tinham conhecimento impar de Deus através do que revelava o Antigo Testamento, e mesmo assim, muitos se desviaram após outros deuses;
2ª) Esta ideia não coaduna com o exposto por Paulo: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” ( Rm 9:22 ); muitos questionam a justiça de Deus, visto que nem todos os homens ouviram a mensagem do evangelho. Porém, estes esquecem que os vasos da ira foram preparados para a perdição. “Que diremos? Há injustiça da parte de Deus?” ( Rm 9:14 );
3ª) Alegar que Deus julgará o homem com relação as suas obras através do conhecimento recebido não é bíblico, visto que só o fato de ir a julgamento já demonstra a culpabilidade do homem ( Rm 2:12 ).

A ação dos homens, mesmo tendo conhecimento (‘ciência’) da existência de Deus, foi o de criarem deuses para si.

 

20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;

Os homens que detêm a verdade pela injustiça permanecem no estado de culpabilidade diante de Deus, mesmo quando é perfeitamente possível entender e ver por meio das coisas criadas, que existe um Deus. A culpabilidade da humanidade se deu em Adão, onde os homens passaram a ser filhos da desobediência e da ira.

Os homens que detém a verdade em injustiça permanecem na perdição (culpáveis). A incredulidade dos homens que detém a verdade em injustiça não depõe somente contra o evangelho de Cristo, que é a verdade. A incredulidade se opõe até em coisas por demais evidentes, como as que foram criadas por Deus.

O leitor deve perceber que a argumentação de Paulo é direcionada a cristãos. Dentro desta ideia, Paulo demonstra que observar a natureza e entender que Deus existe não absolve o homem de sua culpa. Constatar que Deus existe através das coisas criadas por Deus serve somente para que os homens que detém a verdade em injustiça fiquem inescusáveis.

O homem tornou-se culpável em Adão, e quando ele entende que Deus existe através da coisas criadas, torna-se indesculpável. Os elementos que a natureza apresenta, apresenta tão somente para que o homem permaneça inescusável diante de Deus.

 

21 Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. 22 Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. 23 E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.

Os homens poderiam inquirir a respeito de Deus quando em contato com as coisas criadas, porém, permaneceram inescusáveis, pois souberam da existência de Deus por meio de suas obras e não lhe renderam graças e nem a glória devida.
Este versículo deve ser analisado com a ideia que a carta aos Hebreus apresenta: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Ora, se é necessário crer que Deus existe para poder se aproximar dele, a natureza é uma grande aliada, pois o que ela apresenta declara que há um Deus. Apesar dos homens terem conhecimento da existência de Deus, acabaram criando discursos fúteis e seguiram o curso de um coração impenitente herdado em Adão. O ato de renderem adoração as imagens de escultura demonstra o quanto o homem se distanciou do Criador.

A natureza apresenta uma verdade, porém, ela não consegue aproximar o homem de Deus. Somente a verdade do evangelho pode reconciliar o homem com Deus.

A sabedoria do homem, as suas questões filosóficas os faz inculcar que são sábios, porém, a sabedoria dos homens é loucura perante Deus. As investigações dos homens se demonstram ineficazes, e só distancia o homem de Deus. Eles tornaram-se loucos por concluírem que não precisam de Deus, visto que criam deuses para si.

 

24 Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; 25 Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.

A ira de Deus começa a revelar-se nos homens que detém a verdade em injustiça pelo fato de estarem entregues as concupiscências de seus corações.

 

26 Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. 27 E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.

O apóstolo Paulo descreve o comportamento dos homens que rejeitaram a Deus e seguem as concupiscências de seus corações. As dissoluções, rebeldias e infâmias é resultado da entrega as concupiscências do coração e abandono às paixões infames.

 

28 E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; 29 Estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; 30 Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; 31 Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia;

O maior problema da humanidade reside em não se importar em ter conhecimento de Deus. Enquanto o homem não considera em seu coração que Deus existe e que é galardoador daqueles que o buscam, ficam entregues a um sentimento perverso. A disposição mental daqueles que desprezam o conhecimento de Deus é totalmente reprovável.

 

32 Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.

Mesmo não se importando em ter conhecimento de Deus os homens não podem negar o testemunho da consciência. Mesmo sabendo que são passíveis de morte quem pratica as ações descritas acima, quem não se importa em ter conhecimento de Deus não somente as fazem, como também consentem com quem as pratica.

Os homens cheios de malignidade conhecem a justiça de Deus através de uma lei interna e da consciência ( Rm 2:15 ). Eles sabem que as suas ações são reprováveis diante de Deus, porém permanecem na prática desenfreada da maldade.

Este trecho da carta aos Romanos (v. 18- 32) tem o objetivo de demonstrar que jamais Paulo apregoou que é necessário fazer o mal, para que o bem venha ( Rm 3:8 ). Este trecho depõe contra a malignidade da humanidade, demonstrando que quem pratica tais coisa são reprováveis perante Deus.

O capítulo seguinte apresenta homens que se escudam em acusar o semelhante, mas a condição deles é a mesma que os mais infames dos homens; eles também são reprováveis diante de Deus.




O espírito do anticristo

Qualquer mensagem que não aborda as riquezas que há no conhecimento de Cristo Jesus para se fixar em questões terrenas é sermão de perdição, produzida pelo ‘espírito do anticristo’. É mensagem que tem o fito de fomentar miseráveis sobre a face da terra “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” ( Fl 3:18 -19 ; 1Co 15:19 ; Cl 3:1 ).


Geralmente muitos cristãos ficam impressionados e se preocupam com a manifestação física do Anticristo, o chamado iníquo ( 2Ts 2:8 ), mas pouco se importam com a mensagem que o espírito do anticristo vem propagando ao longo dos séculos.

O apóstolo João nos assegura que já no seu tempo o espírito do anticristo operava e que muitos cristãos se desviaram da verdade do evangelho e se fizeram anticristos “… mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo” ( 1Jo 4:3 ); “Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos, por onde conhecemos que é já a última hora” ( 1Jo 2:18 ).

Percebe-se a gravidade quanto a operação do espírito do anticristo quando na abordagem do apóstolo João fica claro que o espírito do anticristo já estava e operava no mundo, que muitos anticristos haviam surgido e, pior ainda, que os que se fizeram anticristos saíram dentre os cristãos ( 1Jo 2:19 ).

O apóstolo Paulo ciente desta gravidade também alertou: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” ( Gl 1:8 ), pois ele estava ciente que o ‘ministério da injustiça’, ou o ‘espírito do anticristo’, já operava ( 2Ts 2:7 ).

Todos os cristãos devem se ocupar de batalhar em defesa da verdade do evangelho ( Jd 1:3 ), afim de que se evite que outras doutrinas sejam anunciadas em substituição ao evangelho ( 1Tm 1:3 -4), pois o ‘terreno’ mais fértil para o surgimento de heresias de perdição se dá no ajuntamento solene dos membros do corpo de Cristo ( Jd 1:12 ; 2Pe 2:13 ).

O maior perigo geralmente surge em um grupo específico de cristãos: aqueles que desejam a posição de mestres para promoverem os seus interesses mesquinhos e escusos! Geralmente estes pseudos mestres são astutos e falsificadores da palavra de Deus ( 2Co 4:2 ).

Os apóstolos Paulo, João, Pedro e Tiago deixaram registrado que havia entre os cristãos muitos que queriam ser mestres da lei ( 1Tm 1:7 ), e outros, levados por inveja e sentimento faccioso buscavam a primazia entre os cristãos, porém, em ambos os casos eles nada conheciam do evangelho de Cristo ( Tg 3:1 e 3:14 ).

Diante desta realidade que os apóstolos destacaram, como é possível um cristão se proteger da ação implacável do espírito do anticristo? Como combater o chamado ministério da injustiça?

O apóstolo João demonstrou que a ação do espírito do anticristo essencialmente é transtornar a verdade do evangelho, como:

a) Negar que Jesus de Nazaré é o Cristo, ou seja, o Filho de Deus ( 1Jo 2:22 ) – À época do apóstolo João muitos judaizantes propagavam a ideia de que Jesus não passava de um dos filhos do carpinteiro José, ou seja, não reconheciam o Cristo como o Filho do Deus vivo. Esta mensagem do anticristo facilmente se instalou entre os judeus, e chegou até a ser propagada entre os convertidos ao cristianismo, ideia que permanece até hoje entre os judeus;

b) Negar que Jesus veio em carne ( 1Jo 4:2 ; 2Jo 1:7 ) – Também surgiu à época dos apóstolos a ideia de que Cristo não veio em carne. O apóstolo João demonstra que tais pessoas não permaneceram no ensinamento de Cristo, antes foram além da doutrina de Cristo ( 2Jo 1:7- 9). Tais doutrinas equivocadas são facilmente identificáveis pela negação de questões essenciais ao evangelho, como se vê no posicionamento dos judaizantes ( Tt 1:11 -12), e na sua vertente gnóstica, e;

c) Negar a eficácia da obra vicária de Cristo ( 1Jo 2:25 e 4:6 e 4:9 ) – Este é o ramo mais perigoso promovido pelo espírito do anticristo, pois foca-se em negar alguns aspectos da obra redentora de Cristo, tais como: ressurreição, morte, vida, nascimento, divindade, etc. “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Quando analisamos as cartas dos apóstolos é possível determinar que o espírito do anticristo não é proveniente de uma possessão maligna, antes é um fascínio, uma insensatez promovida por alguns pseudos cristãos que se introduziram entre os cristãos movidos por torpe ganância, ignorância, desconhecimento, inveja, dissensão, partidarismo, filosofias, etc. ( Gl 1:7 ; 3:1 ).

Judas descreve tais homens como transtornares daquilo que não entendem, ou pior, até o que é natural, que deveriam compreender, também nisto se corrompem ( Jd 1:10 ), porém, se posicionam diante dos membros da igreja de Cristo como mestres, mas não passam de bajuladores interesseiros ( Jd 1:16 ).

E o que promovem tais homens? Após se introduzirem dissimuladamente transtornam a graça de Deus, ou seja, negam a Cristo como o único e soberano Senhor dos cristãos ( Jd 1:4 ), ou seja, os homens dos quais Judas fez referência são pessoas sobre as quais opera o espírito do anticristo ( Jd 1:4 compare com 1Jo 2:22 ).

  • “Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo ( Jd 1:4 );
  • “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho” ( 1Jo 2:22 );
  • “E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição” ( 2Pe 2:1 ).

Jesus deixou claro que as palavras que Ele proferia são espírito e vida “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida ( Jo 6:63 ), e o apóstolo João ordena que os cristãos provem os espíritos (as palavras proferidas pelos homens) se elas são provenientes de Cristo ou não ( 1Jo 4:1 ).

Para o cristão se proteger necessita de conhecimento para provar a doutrina (espírito) anunciada por qualquer que se diz enviado de Deus. Portanto, é essencial que os cristãos estejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder ( Ef 6:10 ; 1:18-19 ), ou seja, devem estar revestidos de toda a armadura de Deus, o mesmo que possuir pleno conhecimento da palavra de Deus.

Qualquer que maneja bem a palavra da verdade revestiu-se de toda a armadura de Deus ( 2Tm 2:15 ), é pleno (cheio) do espírito, ou seja, da palavra que é espírito e vida “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito( Ef 5:18 ); “… para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” ( Ef 3:18 -19).

O apóstolo Paulo apresentou vários desvios doutrinários e, dentre eles destacam-se os posicionamentos acerca da ressurreição, sendo que alguns apregoavam que a ressurreição já havia ocorrido ( 2Tm 2:16 -18), e outros, que não havia ressurreição dos mortos ( 1Co 15:12 ).

Tais mentiras parecem sem efeito nocivo, porém, o apóstolo demonstra que, se alguém diz que não há ressurreição dos mortos, como diziam os saduceus, segue-se que Cristo também não teria ressuscitado, doutrina que, por fim, invalidaria a eficácia do evangelho, pois se Cristo não ressuscitou, os que creram nele permanecem no pecado ( 1Co 15:17 ).

Observe a seguinte colocação de Cipriano (século III d.C) “A Esposa de Cristo não pode adulterar, é fiel e casta. Aquele que se separa dela saiba que se junta com uma adúltera, e que as promessas da Igreja já não o alcança. Aquele que abandona a Igreja não espere que Jesus Cristo o recompense, é um estranho, um proscrito, um inimigo. Não pode ter Deus por Pai no céu quem não tem a Igreja por mãe na terra” Frase atribuída a São Cipriano.

A mentira sempre aparece mesclada a uma parcela de verdade, ou melhor, a mentira sempre rouba da verdade parte da sua legitimidade, e esta frase do III século não foge à regra. Que a Igreja, a esposa de Cristo, a noiva do Cordeiro é fiel, isto é corretíssimo, porém, as considerações seguintes são estranhas à verdade do evangelho.

Enquanto as Escrituras demonstram que todos quantos creem em Cristo, ou seja, que fazem a vontade do Pai são seus irmãos, pai e mãe (família), Cipriano apresenta uma instituição humana (igreja), e não Cristo, como aquela que desfaz a barreira de pecado que há entre Deus e os homens “Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:48 -50 ; 1Jo 3:23 ).

A igreja jamais poderia ser rotulada de mãe, pois todos que fazem a vontade de Deus são membros da sua família na condição de irmão, irmã e mãe de Cristo. Se alguém admitir a ideia de que a igreja é mãe, segue-se que nenhum cristão é membro do corpo de Cristo, antes seriam entes autônomos e estranhos ao corpo de Cristo, porém, a Bíblia demonstra que, cada cristão em particular é membro do corpo de Cristo, a igreja.

Pensamentos tais como: “Onde está Cristo Jesus, está a Igreja católica” Santo Inácio de Antioquia (†107), Carta aos erminenses 8,2, evoluíram para o posicionamento de Cipriano, e deu azo a ideia de que uma instituição é superior aos membros do corpo de Cristo “Não te afaste da Igreja: Nada é mais forte do que ela. Ela é a tua esperança, o teu refúgio. Ela é mais alta que o céu e mais vasta que a terra. Ela nunca envelhece” São João Crisóstomo (350- 407).

Enquanto a Bíblia demonstra que: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ), qualquer instituição que se arrogue como ente salvador é anátema.

O apóstolo Paulo alerta acerca de tais apóstolos, bispos, pastores, cleros, etc.: “Porque, se alguém vem e vos prega outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, de boa mente o suportais (…) Pois os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, disfarçando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz. Não é muito, pois, que também os seus ministros se disfarcem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras” ( 2Co 11:4 e 13 -15).

Geralmente o engano se dá pela distorção ou substituição da palavra da verdade, e o gnosticismo é exemplo de distorção. Porém, há outros ramos não menos pernicioso se comparado ao ascetismo, como se verifica na abordagem do apóstolo Paulo ao Colossenses “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados (…) Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão ( Cl 2:16 e 18).

Em nossos dias o ascetismo é um ramo da apostasia que mais influencia a cristandade, pois muitos buscam servir a Deus através de sacrifícios e proibições, ou de elementos proibitivos decorrentes da lei mosaica, porém, tais serviços servem somente para que alguns lideres exerçam domínio sobre os incautos “MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; Proibindo o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças” ( 1Tm 4:1 -3).

A questão do cuidado com a filosofia é tão relevante do ponto de vista doutrinário, que o apóstolo Paulo alertou quanto ao risco das filosofias, porém, apesar do alerta, o que mais influenciou e tem influenciado os ditos mestres do cristianismo ao longo dos séculos foi e é a filosofia “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” ( Cl 2:8 ).

Muito do que se produziu ao longo dos séculos, e que possui o nome de teologia ou doutrina cristã, foi influenciado por correntes filosóficas tais como platonismo, aristotelismo, estoicismo, epicurismo, ceticismo, ecletismo, etc., a ponto de alguns críticos rotularem o cristianismo como um doce platonismo para o povo.

Desde os patrísticos até a reforma protestante a filosofia tem ditado vários posicionamentos doutrinários e teológicos, isto sem falar nas tendências teológicas modernas como a teologia da prosperidade, da libertação, liberal, etc.

Todos estes desvios foram produzidos pelo espírito do anticristo, pois os pseudo doutores do cristianismo não receberam a Cristo, o amor de Deus demonstrado aos homens, e creram na mentira “E com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade” ( 2Ts 2:11 -12).

Para se proteger do espírito do anticristo é necessário ao cristão que compreenda a mensagem do evangelho “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho” ( Mt 13:19 ), e é por este motivo que o apóstolo Paulo rogava a Deus pelos cristãos, para que pudessem compreender perfeitamente o amor de Deus, o que anula a ação do maligno “Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus” ( Ef 3:18 -19).

Compreender o evangelho de Cristo em todas as suas dimensões é estar cheio do Espírito, que é a palavra de Deus. Portanto, todos os cristãos devem se inteirar da verdade do evangelho, manejando bem a palavra da verdade e se ocupar de batalhar em defesa da verdade do evangelho ( Jd 1:3 ).

Somente se revestindo do poder de Deus, que é a palavra do evangelho, é possível evitar ser engendrado por doutrinas que surgem e tentam ofuscar o evangelho ( 1Tm 1:3 -4). O apóstolo Paulo lembra que a serpente enganou Eva com sua astucia, e alerta que os falsificadores da palavra podem com astucia corromper o entendimento dos cristãos ( 2Co 11:3 ).

Qualquer mensagem que não aborda as riquezas que há no conhecimento de Cristo Jesus para se fixar em questões terrenas é mensagem de perdição, produzida pelo espírito do anticristo “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas( Fl 3:18 -19).

Fazer do evangelho negócio é marca registrada dos anticristos, pois tal posicionamento não é conforme a mensagem de Cristo “Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade (…) cuidando que a piedade seja causa de ganho; aparta-te dos tais” ( 1Tm 6:3 -5).

Profeticamente o apóstolo Pedro alertou que, nos últimos dias muitos cristãos seguiriam o anunciado pelos anticristos, homens iníquos que fariam de seus seguidores negócios com palavras mentirosas “E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita” ( 2Pe 2:2 -3).

As propostas dos anticristos para os seus seguidores remonta aos princípios utilizados na tentação de Jesus no deserto ( Mt 4:3 -9), pois são cheios de luxuria, deleitam em suas mistificações e engodam as pessoas que não possuem firmeza na palavra da verdade para fazê-las questionar a filiação que alcançaram em função de coisas terrenas “Mas estes, como animais irracionais, que seguem a natureza, feitos para serem presos e mortos, blasfemando do que não entendem, perecerão na sua corrupção, Recebendo o galardão da injustiça; pois que tais homens têm prazer nos deleites quotidianos; nódoas são eles e máculas, deleitando-se em seus enganos, quando se banqueteiam convosco; Tendo os olhos cheios de adultério, e não cessando de pecar, engodando as almas inconstantes, tendo o coração exercitado na avareza, filhos de maldição; Os quais, deixando o caminho direito, erraram seguindo o caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça” ( 2Pe 2:12 -15 ; Jd 1:12 ).

Esta é uma ordem do apóstolo Paulo: “Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ; 1Tm 6:5 ).




A letra e o espírito

Este artigo é uma resposta a uma critica enviada por e-mail, e os tópicos são apresentados de modo a respondê-la pontualmente, o que nos servirá de lição bíblica de como interpretar o versículo que contém a seguinte frase: “A Letra mata mas o espírito vivifica”. Não postamos a crítica para poupar a pessoa que nos enviou o seu posicionamento.


A letra e o espírito

A Letra mata

Certa feita Jesus afirmou: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ). No mesmo diapasão, o apóstolo Paulo reiterou: “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder” ( 1Co 2:4 ).

Já na segunda epístola aos coríntios, o apóstolo Paulo disse que foi Deus quem o fez capaz de ser ministro “… de um novo testamento, não da letra, mas do espírito” ( 2Co 3:6 ).

Porque o apóstolo Paulo foi constituído ministro de um novo testamento? A resposta é clara: “Porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ).

Ora, se as palavras ditas por Cristo são ‘espírito e vida’, qual ‘letra’ mata? Se o ‘espírito que vivifica’ é o mesmo que as palavras de Cristo, como é possível a alguém que analisar tais palavras encontrar morte?

É evidente que a ‘letra’ que o apóstolo Paulo faz referência não diz do evangelho de Cristo. As palavras e a pregação do apóstolo Paulo não é o mesmo que a ‘letra’ que mata.

No verso: “Porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ), o apóstolo Paulo estava demonstrando aos cristãos de Corinto que ele era ministro de um novo testamento ( 2Co 3:8 ), ou seja, ministro do testamento do Espírito que vivifica “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45), o que contrasta com o velho testamento, que é o testamento da ‘letra’ “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” ( Gl 3:10 ).

A ‘letra’ é uma referência ‘polida’ que o apóstolo Paulo faz à lei que foi entregue ao povo por Moisés, e que não tinha poder de conceder vida, escrita com tinta em tábuas de pedras ( Gl 3:12 ), pois a própria tinta em pedras especificava os não cumpridores de malditos “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém” ( Dt 27:26 ).

Em seguida o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos eram a carta de Cristo ( 2Co 3:3 ), carta esta ministrada pelos apóstolos e escrita com o Espírito do Deus vivo. Ele destaca que os cristãos, na condição de cartas, não foram redigidos com tinta, antes, com o Espírito. Não em tabuas de pedras, mas no coração ( 2Co 3:3 ).

Vale destacar que, com as palavras tinta, tábuas, pedras, coração, etc., o apóstolo Paulo criou uma alegoria para demonstrar que o ministério da lei dada ao povo por intermédio de Moisés era transitório e da morte, uma vez que as letras foram gravadas com tinta em pedras, e não no coração dos homens ( 2Co 3:7 ).

Portanto, o que mata é a letra da lei gravada em pedras, e não a palavra ministrada pelo apóstolo Paulo e por Cristo, pois a palavra de ambos é espírito e vida, pois é gravada no coração daqueles que creem na palavra anunciada.

 

O Espírito Vivifica

O que vivifica o homem? As palavras que foram proferidas por Cristo, conforme se depreende de João 6, verso 63. Cristo é o Verbo de Deus, a palavra encarnada, o espírito que concede vida, o último Adão, o espírito vivificante, a semente incorruptível “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ).

Cristo é a palavra de Deus revelada aos homens, viva e que permanece para sempre, pois Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente ( Hb 13:8 ).

Quando deu início ao seu ministério, Jesus anunciou: “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração” ( Lc 4:18 ). Jesus foi ungido a evangelizar os necessitados de comunhão com Deus (pobres), e por isto, o Espírito de Deus estava sobre Ele.

Ciente destas considerações, as pregações do apóstolo Paulo sempre tiveram o intuito de apresentar aos homens o Pai e o Filho, respectivamente Espírito e poder “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder” ( 1Co 2:4 ).

Em suas pregações o apóstolo procurava demonstrar que Deus é o Espírito, e o que realmente importa aos homens “Deus é Espírito, e importa que …” ( Jo 4:24 ).

O apóstolo dos gentios exaustivamente demonstrou que a lei (que é transitória) não é o meio pelo qual o homem adora a Deus em espírito e em verdade, antes, que só é possível adorar através do poder de Deus, o que o motivava anunciar aos judeus e aos gregos: Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:24 ).

Mesmo na lei há testemunho vivo do ministério do espírito, pois Moisés alertou os seus ouvintes que seria levantado um profeta, e que Ele deveria ser ouvido pelos seus compatriotas “O SENHOR teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” ( Dt 18:15 ). Na lei também estava estipulado o que realmente concede vida aos homens: tudo o que procede da boca de Deus “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Mas, tudo que Deus realizou para que os ouvintes da lei entendessem, não entenderam, ou seja, que na sua palavra há vida, sabedoria e poder. Bastava crerem na palavra que lhes era anunciada, porém, rejeitaram ‘ouvir’ e se propuseram realizá-la “Então todo o povo respondeu a uma voz, e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos. E relatou Moisés ao SENHOR as palavras do povo” ( Ex 19:8 ); “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Ex 20:19 ).

O povo de Israel rejeitou ouvir o Senhor “… não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Ex 20:19 ), e como conseqüência não compreenderam o que Cristo anunciou a toda humanidade.

Quando Ele voltou ao Pai, enviou o Consolador, o Espírito de verdade, que haveria de guiar os seus seguidores em toda a verdade “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir” ( Jo 16:13 ).

A palavra de Deus foi revelada através dos profetas e personificada no Filho ( Hb 1:1 ), e a função do Espírito Santo é guiar os discípulos de Cristo em toda a verdade.

 

Revelações

Alardear que não é possível ao homem compreender a Bíblia, uma vez que o entendimento da palavra é revelado pelo Espírito Santo é temerário, principalmente quando utilizam a citação: ‘A letra mata e o espírito vivifica’, como sendo algo que lhes foi revelado pelo Espírito Santo.

A própria revelação que possuem apresenta um entendimento equivocado quanto a verdadeira interpretação do versículo, o que não é próprio ao Espírito da verdade.

É estratégico alegar que a palavra de Deus é revelada pelo Espírito Santo, pois através deste artifício é fácil distorcer a Bíblia com interpretações ‘particulares’, e, por fim, alegar que se está sendo supervisionado pelo Espírito Santo ( 2Pe 1:20 ).

A Bíblia é clara quanto à função do Espírito Santo: “Ele vos guiará em toda a verdade” ( Jo 16:13 ), porém, atribuir uma nova função ao Espírito, que seria atualizar o entendimento da palavra ‘dentro de um contexto profético’ é descabido.

Porém, levando-se em conta o que dizem, destacamos que:

  1. Desde o Antigo Testamento Deus procurou alcançar o entendimento dos homens ( Dt 8:3 ); Jesus alerta que a compreensão é essencial a salvação ( Mt 13:13 ; Mt 13:23 ); O apóstolo Paulo sempre orou a Deus para que os cristãos compreendessem o amor de Deus ( Ef 3:18 );
  2. Qualquer que compreende a palavra do Senhor está em comunhão com Deus, e qualquer que esteja em comunhão, compreendeu. Não há como desvincular a compreensão da comunhão. E no que consiste a comunhão com Deus? Ser gerado de novo tornando-se uma nova criatura, tornando-se participante da natureza divina, o que é possível somente através do lavar regenerador da palavra, que é semente incorruptível ( 1Pe 1:2 e 1Pe 1:22 e 23 ; 2Pe 1:4 );
  3. Cristo é o pão vivo que desceu do céu e que dá vida aos homens, o que contrasta com o maná no deserto, que todos comeram, mas morreram no deserto. O verdadeiro pão do céu é Cristo, que dá vida aos homens ( Jo 6:58 ); Felizmente não são as profecias que alimentam a alma do homem, antes é Cristo o verdadeiro alimento, o cumprimento das Escrituras;
  4. O que os cristãos entendem acerca das Escrituras não é o mesmo que ‘letra’, pois ‘letra’ refere-se aquilo que o povo de Israel entendia da lei. Para eles, as Escrituras tornaram-se em morte, porque em vez de ‘ouvirem’ e ‘crerem’ n’Aquele que realiza todas as coisas, se propuseram a fazer. Para os cristãos as Escrituras testificam de Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus, portanto, pão vivo que desceu dos céus e que dá vida aos homens;
  5. As opiniões e as práticas que há no mundo não é o que conduz o homem a morte. O que conduz o homem à perdição é o caminho largo que o homem acessou após ter entrado pela porta larga, que é ser gerado de Adão ( Mt 7:13 ). Há inúmeros caminhos, opiniões, práticas, filosofias, etc., porém, nenhum desses caminhos refere-se ao caminho largo que conduz a perdição. Apesar de haver caminhos que ao homem parece direito, ao cabo dá em morte, porque ele começou a trilhar o caminho que leva a perdição desde a madre ( Sl 58:3 ; Sl 51:5 );
  6. O mistério que esteve oculto pelos séculos não depende do serviço ou da fidelidade do homem a Deus; o mistério que foi revelado em Cristo refere-se a igreja, que é a união de dois povos: gentios e judeus ( Ef 2:14 e Ef 3:6 ; Cl 1:24 e Cl 1:26 );
  7. Cristo não veio resgatar os homens de uma existência temporal e da infelicidade; Jesus veio resgatar o que havia se extraviado: todos os homens! ( Rm 3:12 ). É por isso que Deus amou o mundo de tal maneira que Deus o seu Filho unigênito. Jesus não veio somente conceder uma existência eterna, antes Ele veio compartilhar da Sua natureza com aqueles que creem, que é vida em abundância, embora o homem compartilhará pela eternidade desta comunhão com o Pai e o Filho ( Jo 17:22 );
  8. Santificação não e o mesmo que arrependimento. É comum entender que arrependimento refere-se a uma mudança de atitude, de comportamento, porém, a palavra grega traduzida por arrependimento refere-se a uma mudança de concepção, de ponto de vista, ou de pensamento. Por exemplo: Qualquer judeu que deixe de acreditar que será salvo por causa da ‘letra’ da lei, ou porque é descendente da carne de Abraão, e crê em Cristo, arrependeu-se, ou seja, mudou de concepção, de pensamento, de ponto de vista. Arrependimento é deixar de pensar como se pensava “E não presumais (pensar), de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 );
  9. Como é estar em Cristo? É ser uma nova criatura! Como é ser uma nova criatura? É estar em Cristo! ( 2Co 5:17 ). É neste sentido que o Espírito vivifica: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ), pois Cristo, o último Adão é espírito vivificante. A ação do Espírito Santo não é falar de si mesmo, e sim guiar o homem em toda a verdade, ou seja, a Cristo, pois Ele é o caminho, a verdade e a vida.

Este verso: “Porque a letra mata e o espírito vivifica”, nem mesmo pode ser atribuída a uma pessoa que lê a Bíblia como sendo um livro comum ( 2Co 3:6 ), pois o sentido do texto estaria sendo alterado, uma vez que o apóstolo Paulo ao entregar esta mensagem a Igreja de Corinto estava demonstrando a impossibilidade da Lei (Mosaica) salvar alguém.

A lei apenas mostra ao homem a sua incapacidade de agradar a Deus, dessa forma a ‘letra’, o mesmo que ‘Lei’, mata, ou melhor, mesmo que se busque cumprir rigorosamente a lei, a exemplo de Nicodemos, para Deus o homem continua no mesmo estado que nasceu: morto.

Para cumprir a lei é necessário ao homem ouvir e crer na palavra de Deus “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos“ ( Ex 20:19 ), e não se propor em realizá-la, como fez o povo de Israel “Veio, pois, Moisés, e contou ao povo todas as palavras do SENHOR, e todos os estatutos; então o povo respondeu a uma voz, e disse: Todas as palavras, que o SENHOR tem falado, faremos” ( Ex 24:3 ).

Dentro do seu contexto, esta linha de 2 Coríntios 3, verso 6 expressa um contraste importante entre a impossibilidade do sistema do Velho Testamento e a suficiência de Cristo para salvar o homem do pecado, condição que a humanidade herdou em Adão.

A “letra” representa o “ministério da morte, gravado com letras em pedras” que foi dado aos israelitas através de Moisés ( 2Co 3:7 e 3:3). O “Espírito” representa a nova aliança de Cristo, revelada através do Espírito Santo e escrita em nossos corações ( 2Co 3:3 – 8).

O apóstolo Paulo procurou demonstrar que, mesmo que o homem conseguisse cumprir/guardar toda a letra (613 leis, mais os 10 Mandamentos), não alcançaria a salvação, ou seja, para Deus ele ainda estaria morto por ser filho de Adão, ou seja, por não ter sido gerado de Deus.

É salutar que se entenda que, em Adão, toda a humanidade nasce (é gerada) destituída da gloria de Deus ( Rm 3:23 ), e que para restabelecer a comunhão com Deus ( Jo 17:22 ), a exemplo de Nicodemos, é necessário nascer (ser gerado) de novo, da Água (palavra) e do Espírito (Deus).

Ao ouvir e aceitar o evangelho de Cristo rejeita-se qualquer outra doutrina (arrependimento). Quando se crê na mensagem anunciada o velho homem “morre” com Cristo e é sepultado, ou seja, o homem é batizado na morte de Cristo, no verdadeiro e único batismo para salvação ( Ef 4:5 ), cumprindo a lei de Deus: “A alma que pecar, essa morrerá” ( Ez 18:4 ).

Não podemos confundir arrependimento, que é mudança de conceito, ou mudança de entendimento acerca de alguma matéria, com arrependimento de obras mortas. Os homens por estarem mortos, o mesmo que imundos diante de Deus, praticam obras mortas, ou seja, imundas. A maioria dos homens se arrependesse dos seus erros, porém, não passa de arrependimento de obras mortas, o que não é o mesmo que arrepender-se (mudança de entendimento) porque é chegado o reino dos céus.

Quando o novo homem ressurge dentre os mortos para a glória de Deus, é justificado, ou seja, a nova criatura é declarada justa por Deus por ser participante da natureza divina.

O novo homem é justificado não por suas obras (guardar dia, fazer coisas boas, jejum, orações, caridade, descendência de Abraão, ser participante de uma denominação, etc.), antes, porque ao ser gerado por Deus em Cristo, torna-se participante do corpo e do sangue de Cristo ( Jo 6: 54 -56), e por ter sido criado em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24), compartilha da natureza divina. A nova criatura, ou o novo homem por ter sido criado JUSTO é declarado justo por Deus.

Tudo ocorre através da maravilhosa obra de Deus, a regeneração, através do Descendente, que é Cristo. Através do último Adão, que é Cristo são gerados os filhos de Deus. Filhos nascidos, não da carne, nem do sangue, e nem da vontade do varão, mas da vontade de Deus ( Jo 1:12 ).

Para que os filhos de Deus sejam gerados, há a necessidade de nascerem da palavra e do Espírito de Deus. Nascer de Deus só é possível por meio da pregação do evangelho que é semente incorruptível e poder de Deus pela fé em Cristo. Por isto que “o espírito vivifica”, por que ele dá vida a quem está morto.

No mesmo contexto de 2 Coríntios 3 o apóstolo Paulo enfatiza a importância da palavra revelada por Cristo contrastando-a com a ‘letra’. Ele destaca o valor da palavra de Deus ( 2Co 4:2 ), da verdade ( 2Co 4:2 ), do conhecimento da glória de Deus ( 2Co 4:6 ) e da liberdade em Cristo, pois a sua palavra é Espírito e poder ( 2Co 3:17 ).

A lei ainda vigora? NÃO, de maneira alguma, pois Cristo cumpriu a lei para que por intermédio d’Ele tenhamos vida ( 2Co 3:14 ).

É bom lembrar que, quando Jesus morreu na cruz o véu do templo se rasgou de alto a baixo. Isto estabeleceu o fim da lei, pois a partir daquele momento o templo de Deus passou a ser os nossos corpos, onde Deus habita através do Seu Espírito ( Jo 14:23 ; 1Co 3:17 ). O véu que foi rasgado significa que a lei foi abolida ( Rm 10:4 ).