Jesus morreu por nossos pecados

Basta ensinar a verdade do evangelho, de que Jesus morreu pelos nossos pecados, e que a morte de Cristo se deu em obediência ao Pai, que jamais alguém sentirá culpa alguma pelos sofrimentos suportados por Jesus.


Jesus morreu por nossos pecados

A vontade de Deus

Em época de comemoração religiosa sempre aparece estudiosos com teorias e divagações acerca de questões bíblicas, mas, tem ideias que, pelo absurdo da proposta, carece ser comentado.

Na chamada sexta-feira da paixão, me deparei com um artigo na internet sob o título “Jesus não morreu por ‘nossos pecados’ e sim por enfrentar o interesse, a conveniência e a cobiça”[1], texto assinado por um frade da Ordem dos Servos de Maria, Alberto Maggi, rotulado biblista italiano, traduzido por Francisco Cornélio.

O frade Maggi fez uma rápida releitura do funcionamento do templo de Herodes, à época de Jesus, e chega a seguinte conclusão:

“Jesus não morreu pelos nossos pecados, e muito menos por ser essa a vontade de Deus, mas pela ganância da instituição religiosa, capaz de eliminar qualquer um que interfira em seus interesses, até mesmo o Filho de Deus: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38). O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado, que o Senhor em sua misericórdia sempre consegue apagar, mas o interesse, a conveniência e a cobiça que tornam os homens completamente refratários à ação divina.” Alberto Maggi, Jesus não morreu por ‘nossos pecados’ e sim por enfrentar o interesse, a conveniência e a cobiça, artigo disponível na Web.

Nesta conclusão, o frade Maggi, nas duas primeiras frases do parágrafo contraria duas questões essenciais ao evangelho de Cristo:

  1. Jesus morreu pelos nossos pecados – O apóstolo dos gentios é contundente: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,” (1 Coríntios 15:3). Se o apóstolo Paulo afirmou categoricamente que Jesus morreu pelos nossos pecados, qual é a pessoa que detém autoridade, por mais que possua formação acadêmica, para falar que Jesus não morreu pelos nossos pecados? Cristo, a seu tempo, morreu pelos pecadores, ou seja, pelos ímpios “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” (Romanos 5:6).
  2. A morte de Cristo era a vontade de Deus – O apóstolo dos judeus, ao fazer a sua primeira exposição foi taxativo: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos;” (Atos 2:23). Cristo foi entregue segundo a vontade (conselho) de Deus e conforme o previsto nas Escrituras (presciência). O escritor aos Hebreus deixa evidente que os cristãos são santificados pela oferta do corpo de Cristo (Hebreus 10:10), e, Cristo mesmo, tem a vontade de Deus como um cálice a beber (Mateus 20:22; Marcos 14:36).

 

A parábola do herdeiro

Após negar duas questões essenciais ao evangelho de Cristo, o frade Maggi enfatiza a ideia de que Jesus morreu por causa da ganancia de uma instituição religiosa, e cita trecho de uma parábola contada por Jesus; “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mateus 21:38).

A parábola não expõe nenhuma instituição, antes homens que, apesar de serem leitores das Escrituras, não atinaram que, conforme predito nos Salmos, rejeitariam o Cristo, que por sua vez, seria anunciado aos gentios:

“Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, Essa foi posta por cabeça do ângulo; Pelo Senhor foi feito isto, E é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos.” (Mateus 21:42 -43).

Ora, os evangelistas Mateus e Marcos registraram que Pilatos sabia que, por inveja, os líderes judaicos entregaram o Cristo para ser morto.

“Porque sabia que por inveja o haviam entregado.” (Mateus 27:18; Marcos 15:10).

Mas, o fato de os principais dos judeus invejarem o ministério de Jesus e O entregarem para morrer, não depõem contra a verdade de que Jesus morreu pelos nossos pecados e que essa era a vontade de Deus.

Pela abordagem do frade Maggi, percebe-se uma crítica velada as instituições religiosas. Mas, não é somente as instituições religiosas que sofrem deste mal, pois, na essência, todas as instituições humanas são potencialmente capazes, em razão de interesses da liderança, tentar eliminar quem interfira em seus interesses.

Mas, esta questão última, nem de longe depõe contra a verdade de que Jesus morreu pelos pecadores, e segundo a vontade do Pai.

Outra questão a ser analisada é a ideia de que os ‘interesses’, as ‘conveniências’ ou a ‘cobiça’ humana é o que torna o homem refratário à ação divina, pois o frade parece desconhecer que a ação divina não é tolhida por questões humanas. A ação divina, apesar da oposição dos escribas e fariseus, foi dar o seu Filho Unigênito ao mundo para que todo aquele que nele crê não pereça, mas alcance a vida eterna (João 3:15 -16).

Quando alguém pergunta por que o Filho de Deus morreu crucificado, certo é que a resposta imediata somente apresenta um dos aspectos, que é: Cristo morreu pelos nossos pecados. No entanto, a morte de Cristo na cruz decorre de outra questão, e que possibilitou o perdão dos nossos pecados.

Cristo morreu crucificado em obediência ao Pai, pois apesar de ser o Filho, no mundo Ele teve que se fazer servo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz (Filipenses 2:8), pois como o pecado entrou no mundo pela desobediência de um homem, somente por um ato de justiça de outro homem (e o ato é a obediência), muitos são feitos justos (Romanos 5:19).

Morrer por morrer muitos morreram e morrem, e  cada qual com um determinado grau de sofrimento. Muitos morreram ao longo da história por suas causas, como mártir, como heróis, etc., outros como covardes, massacrados,  guerras, etc.

Mas, com relação a Cristo, Ele morreu não porque desejava a morte para ser um mártir e inspirar outras pessoas, antes morreu em obediência. Na morte de Cristo a questão maior é a obediência, pois Deus mesmo enfatizou: obediência quero e não sacrifício! (Oseias 6:6; Salmo 40:6 -8)

Cristo, na condição de servo de Deus, devia obediência ao Pai, e só foi morto porque Ele também era o cordeiro de Deus. Se não compreendermos a questão da obediência, não compreendemos como se dá a justificação do homem, pois necessariamente para Deus ser justo e ser possível Ele justificar o homem, teve que haver substituição de ato: obediência pela desobediência (Romanos 5:18).

Que é inevitável que quem tenha conhecimento de como foi o sofrimento e a crucificação de Cristo acabe recordando e, de certa forma, trazendo à memoria alguma imagem cruenta do evento, isto é fato. Mas, querer dizer que, quem se lembra da morte de Cristo, poderá ser acometido por um sentimento de culpa pelo fato de que a doutrina cristã estabelece que Jesus morreu pelos nossos pecados é inferência vazia.

 

A psique humana

No dia a dia são inúmeras as pessoas que frequentam psicólogos e psiquiatras por questões mil. No entanto, inferir que, por causa da doutrina que evidencia que Jesus morreu pelos nossos pecados, corre-se o risco de se infiltrarem sentimentos de culpa nas profundezas da psique humana, sob o argumento de ‘como bem sabem psicólogos e psiquiatras’, é leviano, pois nesse dito ‘saber’ dos profissionais de saúde mental não há nenhum dado cientifico.

Pelo artigo do frade, parece que os psiquiatras e psicólogos atendem somente pessoas religiosas, e mais, em razão de culpa por Cristo ter morrido pelos nossos pecados, e que somente as pessoa religiosas são acometida de medos e distúrbios.

O que se percebe através do artigo frade Maggi, que na tentativa de evitar que as pessoas se sintam culpas pelo fato de Jesus ter morrido pelos nossos pecados, lançou mão da ideia de que Jesus morreu por causa de interesses institucionais.

Há pessoas que sentem culpa sim em função de questões religiosas, porém, a culpa advém justamente de ensinamentos refratário as Escrituras em função dos interesse de líderes de instituições religiosas que querem manter o controle sobre os seus adeptos através de elementos como: não toques, não manuseies e não proves (Colossenses 2:21), e que não ensinam a verdade do evangelho.

Basta ensinar a verdade do evangelho, de que Jesus morreu pelos nossos pecados, e que a morte de Cristo se deu em obediência ao Pai, que jamais alguém sentirá culpa alguma pelos sofrimentos suportados por Jesus.

Que seja ensinado segundo a verdade qual é o pecado pelo qual Jesus Cristo morreu: a morte (separação) em decorrência da ofensa de Adão, que ergueu a barreira de separação entre Deus e os homens, e não conceitos humanos como os ‘sete pecados capitais’.

É imprescindível a quem anuncia o evangelho deixar bem claro as pessoas que somente um homem pecou, no sentido de transgredir um mandamento (Gênesis 2:16 -17), o que o apóstolo Paulo chamou de ‘ofensa’ (Romanos 5:12 -19). O pecado que afetou todos os descendentes de Adão diz de uma condição herdada de berço, isto por causa da ‘morte’ ter entrado no mundo pela ofensa de Adão e, essa condição ter passado a todos os homens.

Como a condenação de Adão passou a todos os homens, é dito que todos os homens pecaram, não em um sentido moral, comportamental ou de caráter, antes ‘pecaram’ no sentido do uso camponês do termo, quando é dito que um fruto de uma árvore ‘pecou’ ao não estar dentro dos parâmetros estabelecidos para consumo.

Jesus não diz que os escribas e fariseus eram pecadores por questões próprias aos sete pecados capitais, como moral, comportamento e caráter. Eles eram pecadores por não admitirem que o testemunho das Escrituras é verdadeiro, de que eles eram de fato cegos.

“Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver.” (Isaías 42:18);

“Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece.” (João 9:41).

 

[1] <https://www.diariodocentrodomundo.com.br/jesus-nao-morreu-por-nossos-pecados-e-sim-por-enfrentar-o-interesse-a-conveniencia-e-a-cobica/ >  Consulta em 30/03/18.




Sal da terra e luz do mundo

A parábola do sal da terra e da luz do mundo tem por objetivo demonstrar que, assim como o sal insípido perde o seu valor e função, tal é a condição daqueles que deixam de ser discípulos…


Sal da terra e luz do mundo

“Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” (Mateus 5:13 -14).

 

Introdução

Invariavelmente, os comentários acerca dessa passagem bíblica, procuram mensurar o valor do sal, quer seja à época de Jesus, como um produto de valor considerável, quer nos dias de hoje, que o sal, pela oferta do produto do mercado, parece ter um valor irrisório.

No decurso da análise, os comentaristas, geralmente, enfatizam que o sal e a luz referem-se ao caráter, à moral dos discípulos de Jesus ou, que os seguidores de Jesus têm de praticar boas ações, fazer ações caridosas, ajudar as pessoas carentes, influenciar a sociedade, etc.

Há aqueles que, a partir das funções essenciais do sal (dar gosto e conservação aos alimentos), enfatizam que os verdadeiros seguidores de Cristo devem lutar por questões humanitárias, envolver-se na luta por direitos iguais, abraçar a causa dos direitos sociais e garantias legais, etc.

Foram questões semelhantes a essas que Jesus buscou evidenciar no seu discurso? Qual a essência de um verdadeiro seguidor de Cristo?

 

O público da mensagem

Logo após escolher os doze apóstolos, dentre os seus discípulos (Lucas 6:13), Jesus desceu para um ponto plano na montanha, onde todos passaram a noite e grande número de seguidores e uma multidão de pessoas das cidades circunvizinhas se reuniram para ouvi-Lo (Lucas 6:17).

É nesse cenário que Jesus proferiu aos seus discípulos as bem-aventuranças:

“E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lucas 6:20).

Quando Jesus fitou os seus discípulos, identificou o público alvo das bem-aventuranças: os seus seguidores. Os seguidores de Jesus eram os ‘pobres’, os ‘famintos’, os ‘pranteadores’, etc. (Lucas 6:20-21; Mateus 5:3-9).

Aos discípulos temos uma mensagem de bem-aventurança, à multidão das cidades circunvizinhas, uma mensagem de arrependimento, pois estes necessitavam de justiça superior a dos escribas e fariseus, para ter direito ao reino dos céus (Mateus 5:20), enquanto aqueles já estavam de posse do reino dos céus (Mateus 5:3).

 

Os discípulos de Cristo

Jesus tinha muitos discípulos e dentre estes, tinha os apóstolos. Muitos discípulos se desviaram durante o ministério de Jesus, pois estavam tão somente interessados em pão e milagres, mas não aceitavam o seu discurso (João 6:60 e 66; 8:31; Mateus). Dentre os apóstolos, um se perdeu, conforme as Escrituras predisseram (Salmo 69:25).

Mas, antes de partir, Jesus deixou consignada a principal característica de um discípulo:

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35).

O que Jesus evidenciou ao dizer ‘se vos amardes uns aos outros’? Resposta: que seriam discípulos, se realmente obedecessem a Ele. A essência do discipulado está na obediência e em ser obediente ao seu Senhor e Mestre, o discípulo revela de quem é discípulo.

Por isso Jesus disse:

“Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós que, também, vós, uns aos outros, vos ameis” (João 13:34).

Só é possível conhecerem que alguém é discípulo de Cristo, quando esse alguém obedece a Cristo, amando uns aos outros. E esse ‘amor’ não deve ser conforme o entendimento do discípulo mas, sim, conforme o mandamento do seu Senhor. Observe:

“Se alguém diz: Eu amo a Deus e odeia a seu irmão é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão. TODO aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou, também, ama ao que dele é nascido. Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (João 4:20-21 e 5:1-3).

Quem são os irmãos, de quem é discípulo de Cristo? Aqueles que fazem a vontade de Deus, conforme se lê: “Porquanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Marcos 3:35).

Se qualquer que fizer a vontade de Deus é irmão de Jesus, um nascido de Deus, o verdadeiro discípulo que verdadeiramente ama a Deus, não pode fazer acepção de pessoas, escolhendo amar segundo preferências pessoas, tais como: nação, língua, sexo, nacionalidade, tribo, etc.

Se todo que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus, segue-se que fazer a vontade de Deus é crer que Jesus é o Cristo (Marcos 3:35 com João 5:1). Um cristão de nacionalidade judaica não pode ‘odiar’ um gentio que fez a vontade de Deus e que, portanto, é irmão de Cristo.

Se o amor de Deus constitui em guardar os seus mandamentos, só ama a Deus quem crê que Jesus é o Cristo e ama a qualquer que fizer a vontade de Deus, sem se importar com qualquer outra questão circunstancial pois, todos, pela fé em Cristo, são filhos de Abraão.

A abordagem do Senhor Jesus e do evangelista João, que evidencia quem são os discípulos de Cristo, tem o seguinte escopo:

“Porque todos sois filhos de Deus, pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um, em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então, sois descendência de Abraão e herdeiros, conforme a promessa” (Gálatas 3:26-29).

A abordagem do apóstolo Paulo, acerca do mandamento de Jesus, é muito prática, pois ele evidencia que, no corpo de Cristo, não há diferença entre os membros.

“Porventura, o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Coríntios 10:16-17).

Se um crente em Cristo compreende a essência do corpo de Cristo e anda segundo essa verdade, é um discípulo verdadeiro, e nisto todos saberão que tal crente é um discípulo de Cristo.

 

Perseguidos

Uma das evidências dos verdadeiros discípulos de Cristo, está nas perseguições.

“Os quais, também, mataram o SENHOR Jesus e os seus próprios profetas e nos têm perseguido; não agradam a Deus e são contrários a todos os homens” (1 Ts 2:15);

“E, também, todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Tm 3:12).

As perseguições não decorrem dos negócios desta vida, mas, por causa da justiça (Mateus 5:10). Não se pode entender a ‘justiça’, da qual Jesus fala, com luta por causas sociais, sistemas políticos, placa de igreja, filosofias de vida, etc.

À época dos apóstolos, os judeus foram perseguidos, entretanto, isso se dava por que não se sujeitavam a nenhuma instituição humana, pois, queriam a independência politica de Israel. Sobre esses, disse o apóstolo Pedro:

“Mas, principalmente, aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades” (2 Pedro 2:10).

Quando veio a perseguição dos romanos sobre os judeus, isso se deu por questões políticas, não por causa da justiça. Por isso, o alerta: “Então, Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” (Mateus 26:52).

A ‘justiça’ em voga, diz da justiça de Deus, que se descobre no evangelho:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e, também, do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” (Romanos 1:16-17).

Jesus deixa claro que os seus discípulos seriam bem-aventurados, quando sofressem perseguições, por causa da justiça ou, quando fossem injuriados e perseguidos por causa de Cristo. A atitude de um discípulo, ao ser perseguido, por causa de Jesus, é exultar e se alegrar, por dois motivos: a) grande recompensa nos céus e; b) os profetas, também, foram perseguidos.

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque, assim, perseguiram os profetas que foram antes de vós” (Mateus 5:10-12).

 

Sal da terra e luz do mundo

“Vós sois o sal da terra e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador e dá luz a todos que estão na casa. Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:13-16).

Após as bem-aventuranças, Jesus declara que os seus discípulos eram sal da terra. Por que sal da terra? O que os discípulos fizeram para receberem esse predicativo? Percebe-se, pela leitura do texto bíblico, que os discípulos não tinham feito nada, porém, já eram sal e luz.

Isso significa que ser sal e luz do mundo está, intrinsicamente, ligado a ser discípulo de Cristo. Ser discípulo de Cristo é o suficiente para ser sal da terra e luz do mundo.

Enquanto o crente em Cristo estiver sendo perseguido, por causa da justiça, sendo injuriado e perseguido, por causa de Cristo, é sal da terra e luz do mundo. Se o crente não estiver amando a seus irmãos ou, se não permanecer nos ensinamentos de Cristo, deixou de ser discípulo, consequentemente, deixa de ser sal e luz.

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente, sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:31-32);

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35);

“Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e, assim, sereis meus discípulos” (João 15:8);

Como o crente produz fruto? Estando ligado à videira verdadeira (Joao 15:4-5). E qual é o fruto que o crente ligado à Cristo produz? O fruto dos lábios, que confessam o nome de Cristo, como Senhor e Mestre (Hebreus 13:15), pelo qual Deus é glorificado (Isaías 61:3).

É por isso que o apóstolo Paulo instruía os discípulos a permanecerem firmes na verdade do evangelho, a fé que foi dada aos santos:

“Confirmando os ânimos dos discípulos, exortando-os a permanecer na fé, pois que, por muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (Atos 14:22).

A parábola do sal e da luz tem por objetivo demonstrar que, assim, como o sal insipido perde o seu valor e função, tal é a condição daqueles que deixam de ser discípulos; para o reino de Deus, deixam de ter valor e só servem para ser lançados fora e pisados pelos homens.

Qualquer que diz estar em Cristo e volta às questões da lei, deixa de ser sal da terra. Os cristãos das cidades da Galácia, por estarem passando para outro evangelho, estavam deixando de serem sal da terra. Por causa do nome, da doutrina de Cristo, o homem é sal da terra, mas, se voltar a lançar mão de rudimentos fracos e pobres como: guardar os Sábados, circuncidar-se, lavar as mãos, etc., torna-se insípido, para nada mais presta (Gálatas 4:9-10; Colossenses 2:20-22).

Um verdadeiro discípulo, aquele que permanece no ensino de Jesus, é liberto do Senhor, um filho da luz, portanto, é luz no Senhor (Efésios 5:8). É impossível a um discípulo de Jesus esconder a sua real condição dos que não creem, da mesma forma que é impossível esconder uma cidade edificada sobre um monte.

Mas, como não se acende uma lamparina para colocá-la em um lugar oculto (alqueire), mas, sim, num lugar que a luz preencha todo o ambiente (velador), iluminando quem está ao redor, semelhantemente, a condição de discípulos de Cristo deve ser patente a todos os homens.

Quais são as boas obras que, se os homens a observarem, torna possível aos homens glorificarem a Deus que está nos céus? Ações de caridade? Engajamento em alguma passeata em favor da natureza? Trabalho voluntário em algum hospital? Acolher crianças abandonadas? Mitigar o sofrimento dos pobres, através de doações de esmolas?

Se considerarmos a passagem bíblica, onde o apóstolo Paulo evidencia que estas questões não são o amor reclamado por Deus, vez que, de nada adianta distribuir toda fortuna ou, até mesmo o sacrifício da própria existência.

“E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres e, ainda, que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria” (1 Coríntios 13:3).

Sendo discípulo de Cristo, a luz do crente irradia diante dos homens e a boa obra realizada que os homens, ao verem, glorificarão a Deus, diz da própria crença em Cristo. A obra de Deus é crer em Cristo e a obra má é obedecer a mandamentos de homens.

Para compreender a essência da ‘obra’ destacada por Jesus, temos que analisar o termo, segundo a perspectiva do homem da antiguidade, onde predominava a relação senhor e servo. Aristóteles deixou registrado qual é essa relação:

“… existe uma obra, desde que haja comando de uma parte e de outra, obediência” (ARISTÓTELES, 2011, p. 25).

Existe boa obra, desde que haja mandamento por parte de Deus e obediência por parte dos discípulos de Cristo, pois, diante da obra que resulta do mandamento e da obediência, Deus é glorificado. Mas, se os mandamentos são de homens maus, a obra só pode ser má e não glorifica a Deus.

Se o crente em Cristo honra os seus irmãos em Cristo, considerando os outros superiores a si mesmo, nada deve a ninguém. Cumpriu o mandamento: a) creu em Cristo e; b) ama o outro, conforme Deus ordenou:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 João 3:23);

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo (Filipenses 2:3);

“Amai-vos, cordialmente, uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros (Romanos 12:10);

“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor, com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei” (Romanos 13:8).

Desde que o crente em Cristo permaneça crendo que Jesus é o Senhor e considere o outro em honra, é discípulo de Cristo, liberto do Senhor, portanto, sal e luz do mundo.

“Por isso, ouvindo eu, também, a fé que entre vós há no Senhor Jesus e o vosso amor para com todos os santos” (Efésios 1:15).

Mas, enquanto houver cristãos que pensem que a missão da Igreja de Cristo é promover fraternidade entre as pessoas, respeito à natureza, justiça social, redistribuição de renda, etc., não são discípulos verdadeiros, pois, não deixam que os mortos enterrem os seus e se esquecem de que o Cristo não tinha onde reclinar a cabeça.

“E, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: Mestre, aonde quer que fores, eu te seguirei. E disse Jesus: As raposas têm covis e as aves do céu têm ninhos, mas, o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E outro de seus discípulos lhe disse: Senhor, permite-me que primeiramente vá sepultar meu pai. Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me e deixa os mortos sepultarem os seus mortos” (Mateus 8:19-22).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




Como entender o termo ‘obra’ na Bíblia?

Jamais alguém poderá jactar-se de obedecer, pois sem o mandamento não há obra a realizar. É em virtude da necessidade de sujeição do servo ao mandamento que, no ‘ágape’, descrito pelo apóstolo dos gentios, não há vanglória (1 Co 13:4).


Como entender o termo ‘obra’ na Bíblia?

“E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza.” (Ez 33:31)

 

Mandamento e obediência

Para compreender o termo ‘obra’, no contexto bíblico, basta utilizar um dicionário da língua portuguesa? Ex:

“Obra – o.bra ˈɔbrɐ nome feminino 1. resultado de uma ação ou de um trabalho; produto, efeito 2. Edifício 3. edifício em construção 4. ação, feito 5. trabalho literário, científico ou artístico 6. Malícia 7. Trapaça 8. Dificuldade 9. plural ações, trabalhos 10. plural construções, tais como pontes, viadutos, túneis e muros de suporte, necessárias ao estabelecimento de uma via de comunicação.” Obra, in Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa, com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-08-02 16:54:06]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/obra

Um dicionário bíblico auxiliaria o entendimento? Observe a definição que consta do Dicionário Bíblico Strong, tanto no hebraico, quanto no grego:

“04399 m êlakah procedente da mesma raiz que 4397; DITAT – 1068b; n f 1) ocupação, trabalho, negócio 1a) ocupação, negócio 1b) propriedade 1c) trabalho (algo feito) 1d) obra 1e) serviço, uso 1f) negócio público 1f1) político 1f2) religioso”

“2041 εργον ergon de uma palavra primária (mas obsoleta) ergo (trabalhar); TDNT – 2:635,251; n n 1) negócio, serviço, aquilo com o que alguém está ocupado. 1a) aquilo que alguém se compromete de fazer, empreendimento, tarefa 2) qualquer produto, qualquer coisa efetuada pela mão, arte, indústria, ou mente 3) ato, ação, algo feito: a ideia de trabalhar é enfatizada em oposição àquilo que é menos que trabalho.” Dicionário Bíblico Strong.

Essas definições servem para que o leitor das Escrituras compreenda o seguinte versículo:

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 Jo 3:18).

Considerando que o termo grego ‘ágape’, utilizado para compor a oração ‘não amemos de palavra’, tem o sentido de obedecer, honrar e/ou servir e que o apóstolo amado, implicitamente, fez referência aos profetas, conforme depreendemos dos versos abaixo:

“Pois que este povo se aproxima de mim com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas, o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

“E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ez 33:31; Sl 5:9; Mt 15:7-9; Jo 7:19; Rm 3:13; Rm 10:2).

Percebe-se que, dentro do contexto das Escrituras, o termo ‘obra’ possui uma denotação diferente da ideia que estamos acostumados a utilizar e que consta nos dicionários, pois, através de associações, nos remete a um conceito antigo quase esquecido. Nas Escrituras, vê-se incrustrado no termo, um significado que é próprio à época em que o termo foi utilizado pelos profetas.

A observação: ‘mas não as põem por obra’, que consta em Ezequiel, é o mesmo que não obedecer, não executar, não observar, não praticar, etc. A linguagem utilizada pelos profetas e pelos apóstolos está embebida nos valores próprios às sociedades da antiguidade.

A nossa sociedade, pelos seus valores, só consegue indicar através do termo ‘obra’ a de ocupação, trabalho, negócio, construção, etc., porém, nas sociedades antigas, o termo ‘obra’ compreendia o resultado de uma ação, em decorrência da obediência a um mando.

“… existe uma obra, desde que haja comando de uma parte e de outra, obediência” (ARISTÓTELES, 2011, p. 25);

“… um ser que ordena e um ser que obedece” (ARISTÓTELES, op. cit., p. 20);

“Ora, o escravo faz parte do seu senhor, como um membro vivo faz parte do corpo – apenas essa parte é separada” (ARISTÓTELES, op. cit., p. 29).

A visão das civilizações da antiguidade clássica, acerca do termo ‘obra’, e como devemos compreender o termo no contexto das Escrituras, não consta dos dicionários, mas, podemos abstrair o seu significado de textos antigos, que descrevem a sociedade à época.

O mandamento, invariavelmente, precede a obediência, pois esta depende daquele. Não há como um servo realizar uma obra, sem que haja um mandamento, e a obra é produto da obediência a um mando.

“Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Jamais alguém poderá jactar-se de obedecer, pois sem o mandamento não há obra a realizar. É em virtude da necessidade de sujeição do servo ao mandamento que, no ‘ágape’, descrito pelo apóstolo dos gentios, não há vanglória (1 Co 13:4).

Considerando a observação do apóstolo Paulo sobre o amor, certo é que distribuir toda fortuna para o sustento dos pobres não é amor, entretanto, quando Jesus determina ao jovem rico distribuir todos os seus bens aos pobres, caso o jovem obedecesse, tal ação seria ágape.

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21);

“E, ainda, que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres e, ainda, que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria” (1 Co 13:3).

A voluntariedade em doar os bens não é amor, e sim, acatar o mandamento do seu senhor. O segredo do amor está no mandamento, assim como a obra decorre do mandamento.

“… um mandamento que me salve, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3; 1 Tm 2:4; 1 Jo 4:16; Rm 5:5).

É por isso que, através de uma linguagem aristocrática, Jesus apresenta, de modo imperioso, a obra de Deus: – ‘Que creiais naquele que Ele enviou’ (Jo 6:29), quando os seus ouvintes indagaram como ser servo de Deus: – ‘Que faremos para executarmos as obras de Deus?’ (Jo 6:28).

Deus – mandamento – Obra – “Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29);

Homem – obediência – Obra – “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” (Jo 6:28).

Nesse sentido, o crente em Cristo é um homem de obra, um contraponto a quem é de palavra e de língua:

“E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tg 1:22);

“Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25);

“Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” (Jo 3:21);

“Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem, tanto ao Pai. como ao Filho” (2 Jo 1:9).

Segundo o profeta Ezequiel, era sem valor os filhos de Israel se apresentarem, rotineiramente, no templo para ouvir as Escrituras, como se, de fato, fossem povo de Deus, se eles não obedeciam a Deus. A atitude dos filhos de Israel não passava de lisonjas, pois, na verdade, seguiam a avareza dos seus corações.

A avareza remete ao lucro, às riquezas, evidenciando que ninguém pode servir a dois senhores, pois, é impossível servir a Deus e seguir a avareza do coração:

“E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ez 33:31; Is 29:13; Jr 12:2);

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou, há de odiar um e amar o outro ou, se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

 

Mandamento de Deus e mandamento de homem

O termo ‘obra’ é muito utilizado para levantar a seguinte questão: ‘O homem é salvo pela ‘fé’ ou, é ‘salvo pelas obras’?’, o que invariavelmente desembocará na aparente contradição entre o exposto pelo apóstolo Paulo e Tiago.

Aqui se faz necessário destacar que, além de compreendermos a essência dos termos utilizados pelos apóstolos, isto, considerando o uso que faziam dentro da sociedade à época, temos que considerar o público alvo da mensagem.

Apesar de o público alvo das epístolas do apóstolo Paulo e do irmão Tiago serem cristãos, este escreveu a cristãos convertidos, dentre os judeus e aquele a cristãos, dentre os gentios.

Devemos lembrar que os destinatários das cartas do Novo Testamento eram conhecedores do evangelho e a função precípua das cartas era trazer à lembrança dos cristãos o que eles já conheciam.

“Porque nenhumas outras coisas vos escrevemos, senão as que já sabeis ou, também, que já reconheceis; e espero que até o fim as reconhecereis…” (2 Co 1:13; Gl 1:8; 1 Co 15:1; 2 Ts 2:5).

Através desse verso, constata-se que o objetivo do apóstolo Paulo era fazer com que os cristãos de Corinto não esquecessem o que aprenderam, ou seja, das cartas do N. T., que não são evangelísticas, antes, foram escritas com o fito de relembrar a doutrina que haviam aprendido.

Embora a mensagem anunciada pelo apóstolo dos gentios é a mesma mensagem anunciada por Tiago, irmão biológico de Jesus,  o público alvo da mensagem distingue-se um do outro, em função da nacionalidade.

Analisando as epístolas paulinas, verifica-se que, na maioria das vezes, ele utiliza o substantivo grego πιστις (pistis), traduzido por ‘fé’, com o significado de evangelho, doutrina, querigma, mandamento, etc. Daí, as proposições objetivas: pregação da fé (Gl 3:2 e 5), obediência da fé (Rm 1:5; Rm 16:26), anunciada a vossa fé (Rm 1:8), lei da fé (Rm 3:27), aceitamos a fé (Rm 13:11), palavra da fé, que pregamos (Rm 10:8), fé do evangelho (Fl 1:27), etc.

“Mas, que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” (Rm 16:26);

“Em quem, também, vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação…” (Ef 1:13);

“Não sabeis vós que, a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis ou, do pecado para a morte, ou, da obediência para a justiça?” (Rm 6:16).

Se entendermos que o evangelho é mandamento de Deus que demanda obediência por parte do homem, pois Ele é Senhor, e os homens servos, onde há mandamento que demanda obediência, há uma obra: a obra da fé (1 Ts 1:3; 2 Ts 1:11).

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Ts 1:8);

“Mas, nem todos têm obedecido ao evangelho; pois, Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16).

Poucas vezes o apóstolo dos gentios utiliza o substantivo πιστις (pistis) no seu aspecto subjetivo (no sentido de crer), se comparado ao aspecto objetivo. No sentido de crer, acreditar, o apóstolo Paulo utiliza a forma verbal πιστευω (pisteuo), como encontramos em Romanos 1, verso 16:

“Não me envergonho do evangelho, pois é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16).

Isto posto, vale destacar que, quando o apóstolo Paulo utiliza o termo grego πιστις (pistis), para dizer que, pela graça somos salvos,por meio da ‘‘” (Ef 2:8), ele está destacando que somos salvos por meio do evangelho. Se o homem é salvo por meio do evangelho, certo é que é imprescindível obedecer ao mandamento de Deus, que é crer naquele que Ele enviou.

 “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” (1 Jo 3:23).

Como a fé apresentada pelo apóstolo Paulo é mandamento que exige obediência, temos, então, a obra de Deus:

“Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29).

Na exposição de Jesus, temos um mandamento que demanda obediência, daí resulta a obra!

Considerando a exposição do irmão Tiago, observamos que ele utiliza o substantivo grego πιστις (pistis) no sentido subjetivo, apontando para a confiança, a crença do indivíduo, diferentemente do uso que o apóstolo dos gentios fez.

“Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência” (Tg 1:3);

“Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando” (Tg 1:6);

No verso 1, do capítulo 2, quando Tiago exorta os cristãos a equidade, o substantivo grego πιστις (pistis) novamente é utilizado no sentido de crer. Os cristãos são orientados a não terem a fé de Cristo em acepção de pessoas, ou seja, na qualidade de crentes em Cristo não podiam fazer acepção de pessoas. Ocorre quase que uma adjetivação do substantivo πιστις (pistis).

Já no verso 5, do capítulo 2, o substantivo πιστις (pistis) é utilizado no sentido objetivo, significando evangelho, verdade. Ser rico na fé é o mesmo que ser herdeiro de Deus, e coerdeiro com Cristo (Rm 8:17), pois Cristo é o autor e consumador da fé, e, portanto, a fé manifesta (Gl 3:23; Hb 12:2).

Quando Tiago questiona se há proveito em alguém dizer que tem fé, novamente, é utilizado o substantivo πιστις (pistis), porém, do ponto de vista subjetivo, significado ‘crer’. De que adianta alguém dizer que crê, se não tem obras? Aqui cabe a observação de Cristo: ‘Credes em Deus, crede, também, em mim’ (Jo 14:1), pois, de que adianta crer em Deus e não realizar a sua obra, se o mandamento de Deus é crer naquele que Ele enviou?

Quando Tiago questiona se tal fé pode salvar, ele, assim, o faz, apontando para a disposição interna do indivíduo, no sentido de ser possível o ‘acreditar’, salvar. Diferentemente, o apóstolo Paulo utiliza o termo fé, no sentido de evangelho, portanto, o evangelho pode salvar, pois é poder de Deus para a salvação. Já, o irmão Tiago, utiliza o termo no sentido de ‘crer’ e acreditar é poder de Deus para a salvação.

Tiago só utiliza a forma verbal πιστευω (pisteuo), traduzido por ‘crer’, nos versos 19 e 23 do capítulo 2, de sua epístola. Se alguém acredita que Deus é um só, faz bem, mas os demônios também creem. Abraão, diferentemente, creu em Deus, porém, em obediência à ordem de Deus, ofereceu o seu único filho sobre o altar (Tg 2:21-22).

Daí o desafio: mostre que você acredita em Deus, sem realizar o que Ele determina, pois, só é possível demonstrar que se acredita nele, quando se obedece ao seu mandamento (Tg 2:18).

Tiago demonstra que crer sem obedecer é inócuo. Dizer que crê em Deus ou, que acredita que Ele é único, sem realizar a sua obra, é comparável a um corpo sem espírito (Tg 2:26). Dizer que tem fé (crê) sem obedecer, é o mesmo que ouvir a palavra de Deus e não executar a obra:

“E eis que tu és para eles como uma canção de amores, de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra” (Ez 33:32).

O ouvinte não cumpridor, é semelhante ao homem que se contempla no espelho e, após contemplar o seu rosto natural, vai-se e logo se esquece de como era (Tg 1:23). Daí a ordem para que fossem cumpridores da palavra, não somente ouvintes (Tg 1:22), pois, ouvir a lei não torna ninguém justo diante de Deus, mas os que praticam, hão de ser justificados (Rm 2:13).

“Buscai ao SENHOR, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão; pode ser que sejais escondidos no dia da ira do SENHOR” (Sf 2:3).

O crente em Cristo é um homem de obra, pois é o executor da obra da fé, que é crer em Cristo. A obra que o crente executa não diz das obras da lei, pois, pela lei ninguém é justificado (Rm 3:20; Gl 2:16), mas, sim, pela obra da fé, que é crer em Cristo.

Por isso, a necessidade de rejeitar toda imundície e malicia dos judaizantes e por obra à palavra enxertada, pois é a palavra do evangelho que salva.

“Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas (…) Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:21 e 25).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




O emprego do termo ‘ágape’ na Bíblia

Dentre todos os termos gregos utilizados na Bíblia para ‘amor’, o termo ‘ágape’ foi escolhido e utilizado pelos apóstolos para enfatizar a obediência a Deus.


O emprego do termo ‘ágape’ na Bíblia

Introdução

Qual definição do termo ‘ágape’ utilizar ao ler as Escrituras? Os termos amor, caridade, compaixão, etc., serve para traduzir o termo ‘ágape’?

 

Definições acerca do amor

Uma consulta nos buscadores da rede mundial de computadores é suficiente para seremos inundados por diversos conceitos e definições acerca do termo ‘amor’. Mas, é seguro adotarmos qualquer definição?

Podemos nos socorrer da definição de Camões?

“Amor é fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer” Luís Vaz de Camões.

Seriam seguras algumas das seguintes definições de Shakespeare?

“O amor é como a criança: deseja tudo o que vê”;

“O verdadeiro nome do amor é cativeiro”;

“O amor só é amor, se não se dobra a obstáculos e não se curva às vicissitudes… é uma marca eterna… que sofre tempestades sem nunca se abalar”.

Uma das definições de Platão?

“O amor é a busca do todo”;

“O amor é uma força, uma energia, que se manifesta na alma como um sentimento de lembrança de algo que a alma já teve, mas perdeu”;

“O amor é filho da pobreza e da riqueza: da pobreza, porque constantemente pede, e da riqueza porque constantemente se dá”.

Aristóteles pode auxiliar na compreensão do amor bíblico?

“O amor é o sentimento dos seres imperfeitos, posto que a função do amor é levar o ser humano à perfeição”;

“O amor só acontece entre pessoas virtuosas”.

Basta uma das definições que constam dos dicionários?

“amor ô/ substantivo masculino 1. forte afeição por outra pessoa, nascida de laços de consanguinidade ou de relações sociais. 2. atração baseada no desejo sexual”.

As definições acima estão embebidas no subjetivismo, ou seja, uma tendência para se considerar e avaliar o ‘amor’ de um ponto de vista meramente pessoal.

O ‘amor’ bíblico pode ser subjetivista? De modo algum. O ‘amor’ bíblico não pode ser subjetivo, vez que cada indivíduo poderia considerar o amor e/ou ‘amar’ a sua própria maneira!

Mas, onde encontrar uma definição objetiva para o termo traduzido por amor quando empregado na Bíblia. Como encontrar uma definição segundo o contexto das Escrituras que seja de validade geral e que fundamente a compreensão das Escrituras de modo comum a todos os homens?

Exemplo: a lei da gravidade é objetiva e de validade geral, ou seja, não depende dos sentimentos, da vontade, da moral, das emoções, etc., dos indivíduos, antes todos igualmente sucumbem à força da gravidade.

Um dicionário bíblico auxiliaria na compreensão do amor bíblico?

“amar, ter afeição por, gostar—1. de pessoas: Deus Jo 3.16; Jesus, Mc 10.21; pessoas humanas 2 Co 12.15. Amar, querer bem “adorar”, mostrar-se solícito, a mais típica e excelente virtude cristã (mais frequente e tipicamente cristã do que φιλέω, mas, prov., equivalente a ele em Jo 21.15-17). Provar ou mostrar amor Jo 13.1; 1 Jo3.18.—2. do amor a coisas: amar, ansiar, valorizar, ter em alta estima Lc 11.43; Jo 12.43; 2 Tm 4.8.” (GINGRICH, 1982, p. 10), e;

“I . amor, afeição, estima a mais sublime virtude cristã 1 Co 13.13; Gl 5.22—1. mútuo entre Deus e Cristo, Jo 15.10; 17.26, de Deus ou Cristo aos homens Rm 5.8, etc. A essência de Deus 1 Jo 4.8, 16.—2. de homens, a Deus ou Cristo, Jo 5.42; ou a outras pessoas 2 Co 8.7. —3. como uma qualidade abstrata Rm 13.10; 1 Co 8.1; 13.1-3 (sendo o sentido determinado mais amplamente pelo contexto da passagem).—II. uma festa de amor, uma refeição comunitária da Igreja Primitiva, Jd 12; 2 Pe 2. 13, v.l.” (GINGRICH, op. cit., p. 10).

O dicionário bíblico VINE da editora CPAD contem as seguintes definições:

“(’ãhab (bh-a=) ou ’ãheb (bh2a=): “amar, gostar”. Este verbo aparece no moabita e no ugarítico. Ocorre em todos os períodos do hebraico e ao redor de 250 vezes na Bíblia. Basicamente, este verbo é equivalente a “amar” no sentido de ter um forte afeto emocional e desejo ou de possuir ou de estar na presença do objeto”;

“(‘ahabãh (rçns): “amor”. Esta palavra aparece por cerca de 55 vezes e representa vários tipos de “amor”. A primeira ocorrência bíblica de ‘ahabãh está em Gn 29.20, onde a palavra trata do “amor” entre homem e mulher como conceito geral. Em Os 3.1, a palavra e usada para aludir ao “amor” como atividade sexual. Em 1 Sm 18.3, ‘ahabãh quer dizer “amor” entre amigos:”.

Seria apropriada a definição do escritor do livro ‘O monge e o executivo’?

“O amor é o que o amor faz”;

“Definição de amor serviu à liderança: “O ato de ser pôr a disposição dos outros, identificando e atendendo suas reais necessidades, sempre procurando o bem maior.” James C. Hunter

Estaria a releitura de Hunter conforme a perspectiva do apóstolo Paulo?

“Em essência, que o amor é paciente, bom, não se gaba nem é arrogante, não se comporta inconvenientemente, não quer tudo só para si, não condena por causa de um erro cometido, não se regozija com a maldade, mas com a verdade, suporta todas as coisas, aguenta tudo. O amor nunca falha” James C. Hunter.

Cabe a definição de Paul Tillich:

“O primeiro dever do amor é ouvir”.

Ou a ideia de que o segrego do amor é a caridade?

“Caridade, no sentido teológico, isto é, na busca de uma relação verdadeira com Deus, é o amor humano vivido do jeito de Deus. Seria como dizer que Deus entra na pessoa e a faz capaz de amar como ele ama. Caridade é o amor de Deus realizado pelo amor humano. Jesus é o exemplo humano desse amor divino” Caderno Mística e Espiritualidade Cáritas Brasileira, pág. 17.

“É somente pelo devotamento ao próximo que a alma pode elevar-se a regiões espirituais superiores. Ela apenas encontrará a felicidade e consolação na prática da caridade”. (…) “A caridade é a virtude fundamental que deve sustentar todas as virtudes terrenas, pois sem ela as outras não existem”. (…) “A caridade é a ancora eterna da salvação em todos os mundos. É a mais pura emanação do próprio Criador. É a virtude mais elevada de Ele nos oferece” O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIII, item 12.

Seria o amor bíblico definido pelo termo grego ‘ágape’, pelo fato de no Novo Testamento Jesus e os apóstolo terem utilizado essa palavra?

 

O amor na Bíblia

Mil vezes não, pois é a própria Bíblia que define os termos que foram empregados, como se lê:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3);

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele” (2 Jo 1:6).

Dai o alerta de Jesus:

“Se me amais, guardais os meus mandamentos” (Jo 14:15);

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama” (Jo 14:21);

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará e viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama, não guarda as minhas palavras” (Jo 14:23-24).

De todos os termos gregos utilizados para ‘amor’, como ‘érōs’, ‘storgé’, ‘philos’, ‘ágape’, o termo ‘ágape’ foi escolhido e utilizado pelos apóstolos por ser um termo sem um significado preciso, para que os cristãos não confundissem sentimentos e paixões como sendo o dever de se obedecer ao mandamento de Deus.

“Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.

“agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114.

Para compreender o significado do termo ‘amor’ na Bíblia, temos que pensar nas estruturas e organização das sociedades aristocratas da antiguidade, principalmente nas leis que regiam a relação senhor e servo.

Tomas Hobbes, em 1651, na sua obra ‘O Leviatã’, fez as seguintes considerações sobre os termos: obediência, amor, honra e caridade:

“A obediência exigida por Deus, que aceita em todas as nossas ações a vontade pelos atos, é um esforço sério de lhe obedecer e é também denominada com todos aqueles nomes que significam esse esforço. E, portanto a obediência é umas vezes denominada com os nomes de caridade e amor, porque implicam a vontade de obedecer e, mesmo nosso Salvador, faz de nosso amor a Deus e ao próximo um cumprimento de toda a lei”. Hobbes de Malmesbury, Thomas, Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil, Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva.

“Obedecer é honrar, porque ninguém obedece a quem não julga capaz de ajudá-lo ou prejudicá-lo. Consequentemente, desobedecer é desonrar (…) Louvar, exaltar ou felicitar é honrar, pois nada é mais prezado do que a bondade, o poder e a felicidade. Depreciar, troçar ou compadecer-se é desonrar” Idem, pág. 78.

O amor estabelecido por Jesus indica sujeição a um senhor. O amor que Jesus exige é serviçal, sujeito ao seu senhorio, conforme expresso no seu convite:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:28-30).

“E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Os termos traduzidos por ‘amor’ e ‘ódio’, dependendo do contexto, não se referem a sentimentos, mas à ideia de sujeição, quando se obedece, ou seja, honra um senhor.

“Ninguém pode servir a dois senhores;

porque ou há de odiar um e amar ao outro,

ou se dedicará a um e desprezará ao outro.

Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

A definição do amor bíblico foi dada por Deus ao povo de Israel, por intermédio de Moisés, conforme expresso no livro do Êxodo:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Ex 20:6).

Assim, decorre de Êxodo 20, verso 6, a declaração:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

O amor bíblico é objetivo e condicional:

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30);

“O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” (Ml 1:6);

“Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Mc 7:7).

Os termos ‘honra’, ‘amor’, ‘obediência’, etc., são intercambiáveis:

“Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (Jo 5:23);

“Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará” (Jo 12:26).

O vínculo da perfeição: obediência!

“E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3:14).

Obediência é amor:

“Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele” (1Jo 2:5);

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” (1Jo 4:18).

A definição paulina de amor cabe só ao obediente:

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha” (1Co 13:4 -8).

Quem se sujeita em obediência ao seu senhor não é invejoso, não suspeita mal, não se ensoberbece, etc.

A melhor definição do termo amor na Bíblia, dependendo do contexto, é:

Com relação ao homem obediência, com relação a Deus, cuidado!

Quando se lê:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

No enunciado joanino temos implícito um mandamento de Deus: crer em Cristo, que por outro lado demanda obediência!

No dicionário bíblico VINE, em uma das últimas definições do termo hebraico traduzido por amor, temos a seguinte observação:

“Às vezes, ‘ãhab (ou ‘ãheb) descreve um forte afeto especial que um escravo tem por seu senhor sob cujo domínio ele deseja permanecer: “Mas, se aquele servo expressamente disser: Eu amo a meu senhor, e a minha mulher, e a meus filhos, não quero sair forro” (Êx 21.5). Talvez aqui haja uma implicação de amor familiar; ele “ama” seu senhor como um filho “ama” seu pai (cf. Dt 15.16). Esta ênfase pode estar em 1 Sm 16.21, onde lemos que Saul “amou muito” Davi. Israel veio a “amar” e admirar profundamente Davi, de forma que eles observavam todos os seus movimentos com admiração (1 Sm 18.16) (…) Uso especial desta palavra diz respeito a um afeto especialmente íntimo entre amigos: “A alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1 Sm 18.1). (…) Este verbo é usado politicamente para descrever a lealdade de um vassalo ou subordinado ao seu senhor. Hirão, rei de Tiro, “amou” Davi no sentido de que este lhe era completamente leal (1 Rs 5.1)” Dicionário Bíblico VINE, CPAD.

O dicionário apresenta o termo hebraico conforme o estabelecido no Êxodo como sendo um forte afeto (sentimento), porém, o que o texto quer destacar é a total submissão do servo ao seu senhor, o que sobressai sobre o sentimento de afeição.

Nesse mesmo diapasão, temos o amor de Jonatas para com Davi, que em essência é honra, semelhante ao amor de Hirão.

Essa nuance do termo hebraico passam implicitamente para o termo grego ‘ágape’ quando é expresso o dever de amar o próximo, como se lê:

“Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor(Ef 4:2);

“Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros (Rm 12:10).

Aquele que prefere o outro em honra, segundo o mandamento de Cristo, é o que ama a Cristo. Aquele que suporta o outro, na verdade ama cordialmente com amor fraternal.




Manso e humilde de coração

No mesmo discurso em que se declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai  “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai…” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.


Manso e humilde de coração

Introdução

Deparei-me com a seguinte máxima estampada em uma rede social atribuída a um pastor: “Humildade é aquela virtude que, quando você percebe que a tem, já a perdeu”  Andrew Murray. A frase parece resumir uma ideia grandiosa e completa em si mesma, mas a ideia se sustenta à luz das Escrituras?

Andrew Murray foi um pastor que teve o seu ministério eclesiástico influenciado pelo pai, um pastor vinculado à Igreja Presbiteriana da Escócia, que, por sua vez, mantinha estreita relação com a Igreja Reformada da Holanda. Como pastor, Murray é caracterizado no meio cristão como alguém que possuía uma profunda e ardente espiritualidade. Pelos idos de 1877, Murray fez inúmeras conferências acerca do tema santidade. Ele era adepto de uma teologia conservadora, opondo-se ao liberalismo, enfatizando em seus escritos a necessidade de uma consagração integral e absoluta a Deus através da oração e da santidade.

Como a frase foi proferida pelo Pr. Murray e sintetiza uma espécie de louvor à humildade, muitos cristãos abraçam o conteúdo da frase como verdade, porém, vejo a necessidade de analisa-la à luz das Escrituras.

Considerando que o Senhor Jesus apresentou-se como ‘manso’ e ‘humilde’ de coração, e comparando com a ideia exposta na frase do Pr. Murray, temos a seguinte interrogação: Jesus deixou de ser humilde quando afirmou ser manso e humilde?

Se ‘humildade é uma virtude que, quando se percebe que se tem, já perdeu’, o que dizer de Cristo quando afirmou ser manso e humilde de coração? Considerando a frase do Pr. Murray como verdadeira, teríamos que concluir que Jesus perdeu a humildade por entender e declarar ser humilde.

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 )

Se admitirmos que o pastor Andrew foi verdadeiro em sua asserção, teremos que admitir que, naquele instante o Senhor Jesus deixou de ser humilde, por conseguinte, também faltou com a verdade.

Se admitirmos que Cristo falou a verdade, ou seja, que o seu coração realmente era manso e humilde, temos que admitir que o Pr. Murray se expressou de modo equivocado.

Cristo é a verdade, e as Escrituras dão testemunho de que nunca houve engano em sua boca, portanto, não dá para aceitar que seja uma expressão verdadeira a frase atribuída ao Pr. Andrew Murray.

“E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” ( Is 53:9 );

“O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” ( 1Pe 2:22 ).

A comparação acima evidencia o perigo em aceitar como verdadeiras frases de efeito, sem analisar a ideia à luz das Escrituras.

Para analisar a frase, ou o pensamento à luz das Escrituras, você precisa dispor de conhecimento bíblico. Existe a necessidade de você estar alimentado com sólido alimento, pois o sólido alimento é o que torna o cristão apto a distinguir tanto o bem quanto o mal, como se lê: “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ).

 

Humildade

Quando Jesus se apresentou dizendo: – ‘Sou manso e humilde de coração’, o termo grego traduzido por humilde é ‘ταπεινος’, transliterado ‘tapeinos’.

Humilde –“5011 ταπεινος tapeinos de derivação incerta; TDNT – :1,1152; adj 1) que não se levanta muito do chão 2) metáf. 2a) como uma condição, humilde, de grau baixo 2b) abatido pela tristeza, rebaixado, deprimido 2c) humilde de espírito, humilde 2d) num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão” Dicionário Bíblico de Strong.

“ταπεινος (tapeinos), primariamente “aquilo que é baixo e não sobe muito do chão”, como na Septuaginta em Ez 17.24. daí, metaforicamente, significa “humildemente, de nenhum grau” (2 Co 10.1; cf. Lc 1.52; Tg 1.9). Contraste com os termos tapeinophrosune, “humildade de mente”, e tapeinoõ, “humilhar”” Dicionário VINE

Um dicionário secular apresenta as seguintes definições:

Humilde – “adj. Que tem ou aparenta humildade, que se diminui voluntariamente: uma criatura humilde. Que denota respeito, deferência. Medíocre, baixo, obscuro: exercer funções humildes. (Usa-se como expressão de modéstia e civilidade: sou seu humilde criado.) S.m. Pessoa humilde: sempre protegeu os humildes” Dicionário online de português <http://www.dicio.com.br/humilde/>.

Naquele momento Jesus não estava falando da sua aparência física, não estava se diminuindo voluntariamente e nem estava falando das mazelas decorrentes da sua condição social ou econômica como carpinteiro. Não! Ele foi específico: – “Sou manso e humilde de coração”.

Quando Jesus declarou ser manso e humilde não estava se apresentando como alguém respeitoso, nem estava emocionalmente triste ou exercendo uma função medíocre. Não!

Quando Jesus disse ser manso e humilde estava exigindo que os homens se sujeitassem a Ele na condição de servos.

As definições de humilde que constam no dicionário online de português não se encaixam na exposição de Cristo, até porque Ele não esta se diminuindo, ou sendo respeitoso, antes estava exigindo sujeição (diminuíssem) a Ele.

Considerando o exposto no Dicionário Bíblico de Strong, vale destacar que Jesus não estava falando de suas emoções e sentimentos, como se estivesse triste, abatido, deprimido, etc., ou de sua condição socioeconômica: pobre, oprimido, etc. Ele também não está se apresentando como alguém que ‘não se levanta muito do chão’, no sentido de condição modesta e nem como alguém que foi abatido, humilhado.

Na verdade, ao se apresentar como ‘manso e humilde de coração’, Cristo reivindicou seu senhorio, dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim…” ( Mt 11:29 ). Jesus enfatiza que é necessário tomar sobre si o seu jugo e carregar o seu fardo ( Mt 11:30 ).

No mesmo discurso em que se declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai  “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai…” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.

Quando Jesus diz: ‘todas as coisas me foram entregues por meu Pai’, estava se apresentado como o Filho de Deus prometido a Davi, o rebento da raiz de Jessé ( Is 11:1 -4 ; 2Sm 7:14 ).

Resta considerar um último sentido do termo apontado por Strong: ‘num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão’. Ora, Jesus não era alguém que se comportava de modo humilhante, subserviente. Não encontramos nas Escrituras Jesus se submetendo aos homens, quem quer que eles fossem ( Mc 12:14 ; Lc 13:32 ).

Para Strong humilhar-se no mau sentido é ‘submeter-se à servidão’, mas, se olharmos para as profecias acerca do Cristo, veremos que Ele foi escolhido por Deus para ser o servo do Senhor ( Is 49:1 -6). Cristo foi nomeado ‘o Sevo do Senhor’ quando foi dito: – “Tu és o meu servo” ( Sl 49:3 ). Cristo foi formado desde o ventre para ser servo, com a missão de trazer a casa rebelde (Jacó) a Deus e ajuntar a nação escolhida (Israel). Mas, Deus não restringiu a missão de Cristo, pois ela não se limitou à casa de Israel: Cristo também foi dado por Deus como Luz para os gentios ( Is 49:6 -7).

Analisando o termo ‘humilde’ com a visão do homem do nosso tempo, é compreensível a concepção de que há um mau sentido no termo ‘humilde’ por estar associada à escravidão, à crueldade do ser humano, porém, é possível considerar que há um ‘mau sentido’ quando o termo é utilizado para indicar que o homem submeteu-se a Deus?

Vale destacar que consta nos profetas que Deus fez menção do Cristo desde a fundação do mundo. Cristo foi colocado na aljava de Deus como uma flecha limpa e fez a boca d’Ele como uma espada aguda. Flecha na aljava aponta para a filiação divina do Cristo ( Sl 127:4 -5).

Deus concede apenas aos filhos o privilégio de servirem a Ele. Ser servo de Deus é honroso, de modo que não cabe ao termo ‘humildade’ um mau sentido quanto a ser servo de Deus. O mau sentido de ‘humildade’ decorre dos eventos recentes na historia da humanidade “Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus” ( 1Pd 2:16 ).

Acerca de Cristo, profetizou Davi:

“Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” ( Sl 40:6 -8; Hb 10:5 -10).

Apesar das variantes nas traduções: a) ‘os meus ouvidos abriste’, e; b) ‘corpo me preparaste’, o Salmo descreve a submissão voluntária do servo do Senhor à vontade de Deus. Cristo é o servo eleito de Deus, e o Salmista descreve esta sujeição através de uma prescrição na lei de Moisés, pois o escravo que ganhava a liberdade e que quisesse continuar sujeito ao seu senhor teria a ‘orelha furada’ pelo seu senhor diante dos lideres do povo (à porta). Temos aí a figura do servo voluntário, que se sujeita ao seu senhor porque o ama e se sente bem “Então tomarás uma sovela, e lhe furarás a orelha à porta, e teu servo será para sempre; e também assim farás à tua serva” ( Dt 15:17 ).

Ao apresentar-se como manso e humilde, Jesus não estava falando acerca do que estava sentido, antes estava apontando para a sua condição. Quando Ele disse: Sou manso e humilde de coração, estava dizendo, eu sou o Servo do Senhor enviado de Deus conforme a predito nas Escrituras.

Jesus foi comissionado a ensinar aos homens as coisas de Deus, e como servo resignou-se a falar somente o que o Pai estabeleceu nas Escrituras sem nada acrescentar ou diminuir “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ); “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada” ( Jo 8:28 -29).

O termo ‘humilde’ na fala de Jesus aponta para a condição dele como servo, no sentido de quem ‘se submete à servidão’. Segundo a visão do homem da antiguidade não há como considerar um mau sentido em ser ‘humilde’, ou seja, ser ‘servo’ de Deus. Sujeitar-se a Deus é uma honra, e estar a serviço de Deus é uma honra que ninguém toma para si se não for chamado “E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão” ( Hb 5:4 ; Is 49:3 ).

A missão do servo do Senhor era proclamar a mensagem que dá descanso e refrigério a alma “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ); “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ).

Por intermédio de quem Deus daria descanso. Por intermédio de Cristo, a pedra provada, bem firme e fundada. Por intermédio de Cristo, o servo eleito, a paz foi concedida a todos os homens “Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:6 -7); “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” ( Is 28:16 ).

Cristo é o servo do Senhor por sujeitar-se de coração à vontade do Pai: “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ); “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ); “Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo” ( Hb 10:9 ).

Cristo é o servo do Senhor no qual Deus teve prazer ( Is 42:1 ; Mt 3:17 ), porque Ele se resignou a fazer a vontade de Deus em todo o tempo “Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” ( Lc 22:42 ).

O termo ‘humilde’ não se refere a uma questão de foro íntimo, pessoal, subjetivo, antes aponta para algo objetivo. A humildade decorre da sujeição a um mandamento, o mesmo que submissão, obediência, fidelidade. Sem a ordem, sem o mandamento, sem a figura do senhor que ordena, não há humildade “Sendo fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés em toda a sua casa” ( Hb 3:2 ).

A exortação para dar o seu melhor para Deus não contempla a humildade de Jesus, antes exalta a voluntariedade dos homens. O voluntarioso é altivo, é aquele que anula a vontade do Senhor expressa no mandamento e que realiza a própria vontade sob o argumento de que está servindo, como foi o caso do rei Uzias, que ousou entrar no templo e oferecer holocausto a Deus. Agiu guiado por intuição (carnal compreensão).

Obstinado – “authades (aúôriòriç), “que agrada a si mesmo” (formado de autos, “mesmo, próprio”, e hedomai, “agradar”), denota aquele que, dominado por interesse pessoal e em desconsideração de outros, afirma arrogantemente a própria vontade, “obstinado, rebelde, voluntarioso” Dicionário VINE.

Os filhos de Arão, Nadabe e  Abiú experimentaram as consequências da altives quando ofereceram fogo estranho ao Senhor e foram rejeitados:

“E OS filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o SENHOR, o que não lhes ordenara” ( Lv 10:1 );

“Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o SENHOR seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso” ( 2Cr 26:16 ).

A forma em que Davi fez a condução da arca da aliança exala a voluntariedade, o que trouxe a punição divina, mas a correção de atitude segundo a lei é submissão: “E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” ( 2Sm 6:9 ).

Ao despir-se da sua gloria para ser introduzido no mundo, no Verbo de Deus houve prontidão de vontade, pois tinha autonomia de fazê-Lo. Mas, após se fazer homem, ou seja, achado na forma de servo, o Verbo eterno não foi voluntarioso propondo sacrifício ou oferta a Deus ( Hb 10:5 ; Hb 5:4 -5), antes resignou-se a obedecer tudo o que foi prescrito pelo Pai ( Hb 10:9 ).

“Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Fl 2:7-8)

A obediência é sacrifício agradável, é a disposição em resignar-se a cumprir a determinação de Deus. Para compreendermos o valor da obediência e do voluntarioso, é necessário observar o crente Abraão quando teve que apresentar o seu único filho em holocausto em obediência a Deus. Abraão não queria sacrificar o seu único filho, mas seguiu para o monte Moriá em obediência. O que estava sendo posto à prova no holocausto de Isaque era a obediência de Abraão, e não a sua voluntariedade “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

Voluntariedade é uma disposição do homem em agradar a Deus através do que possui ou representa, mas o homem só agrada a Deus quando obedece à sua palavra. É Deus quem estabelece o que é agradável a Ele.

A humildade é condição de quem se sujeita ao Senhor como servo:

“Isto está claro em passagens como o Sl 86, onde Davi confessa que, embora ele seja o rei de Israel, ele é humilde (santo) e que, embora desfrute das riquezas do reino, ele é necessitado (confia em Deus). Com base nestas condições espirituais, ele ora pela resposta do concerto de Deus: “Guarda a minha alma, pois sou santo; ó Deus meu, salva o teu servo, que em ti confia” (Sl 86.2). As bênçãos buscadas são eternas (Sl 86.11-13) e temporais (Sl 86.14-17)” Dicionário VINE.

Embora a identificação do paralelismo seja perfeita, contudo a observação de Vine não se refere ao rei Davi, antes o Salmo 86 é messiânico, uma profecia acerca do filho de Davi – Cristo.  Como rei na sua primeira vinda, Cristo é o pobre (humilde) e necessitado (confia em Deus).

A condição ‘pobre’ e ‘necessitado’ não é de bens materiais. São figuras extraídas da lei, pois Deus deixou a sua casa como abrigo dos pobres e necessitados ( Dt 26:12 ), referência de socorro e subsistência. Os termos apontam para aquele humilde (separado como servo) porque é necessitado (confia em Deus).

O servo (humilde) é santo (fiel) e pede que o seu Senhor guarde a sua alma, livrando-a do poder da morte ( Sl 86:13 ).

 

Manso

Semelhantemente, na declaração: ‘Sou manso e humilde de coração’ o termo ‘manso’ na frase em comento não é uma questão de foro íntimo, subjetiva, antes possui valor objetivo. A ‘mansidão’ de Cristo não decorre da relação com o próximo, mas da relação entre Ele e o Pai.

“praütes ou p ra o /e s, forma mais antiga (TTpaúrriç ou Tipaoníç) denota “mansidão”. Em seu uso na Escritura, no qual tem um significado mais extenso que nos escritos gregos seculares, não consiste só no “comportamento exterior da pessoa; nem ainda em suas relações para com o próximo; tampouco na sua mera disposição natural (…) está relacionado de perto com a palavra tapeinophrosune [humildade], e resulta diretamente dela (E f 4.2; Cl 3.12; cf. os adjetivos na Septuaginta em S f 3.12, ‘humilde e pobre’); […] é somente o coração humilde que também é manso, e o qual, como tal, não luta contra Deus e mais ou menos se debate e combate com Ele (…) O significado de praütes “não é expresso prontamente em nosso idioma, pois os termos mansidão, brandura, comumente usados, sugerem fraqueza e pusilanimidade em maior ou menor extensão, ao passo que praütes não diz nada disso. Não obstante, é difícil encontrar uma tradução menos aberta à objeção que ‘mansidão’; gentileza’ foi sugerido. Mas como praütes descreve uma condição da mente e coração, e visto que ‘gentileza’ é apropriada preferivelmente para ações, esta palavra não é melhor que a outra. Deve ser entendido claramente que a mansidão manifestada pelo Senhor e recomendada para o crente c o fruto de poder. A suposição comum é que quando o homem é manso, é porque ele não pode se ajudar; mas o Senhor era ‘manso’ porque Ele tinha os recursos infinitos de Deus à Sua disposição” Dicionário VINE.

Da relação, Senhor e Servo estabelecida entre o Pai e o Filho, decorre a condição ‘manso’ do Filho, e como Deus quer salvar todos os homens, a submissão do servo proporciona aos homens a graça da redenção.

Competia ao Servo do Senhor substituir a desobediência de Adão pela obediência para que, pela obediência do Servo do Senhor, muitos possam ser feitos justos “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Para compreender a declaração de Cristo, vale destacar novamente que, no contexto, Jesus havia acabado de declarar que ‘Todas as coisas me foram entregues pelo meu Pai’. A qualidade de ‘manso’ se dá pelo poder investido pelo Pai no Filho, o Servo que se sujeitou a vontade do Pai em tudo “Sairei na força do Senhor DEUS, farei menção da tua justiça, e só dela” ( Sl 71:16 ).

O Filho é manso mesmo quando propõe seu senhorio aos homens, ele é manso mesmo quando a sua linguagem parece ser rude, como se lê na parábola dos trabalhadores contratados em horários diferentes “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” ( Mt 20:15 ).

Só é possível compreender a declaração de Cristo como ‘manso’ quando se compreende a total sujeição de Cristo a Deus, mesmo Deus entregando todas as coisas a Cristo “Sou como um prodígio para muitos, mas tu és o meu refúgio forte” ( Sl 71:7 ).

O termo grego traduzido por ‘entregue’ é παραδιδωμι, transliterado paradidomi, significa:

“1) entregar nas mãos (de outro), 2) transferir para a (própria) esfera de poder ou uso, 2a) entregar a alguém algo para guardar, usar, cuidar, lidar” Dicionário Bíblico de Strong.

Ao convidar os homens sobrecarregados e cansados em decorrência de um jugo duro e do fardo pesado que levam, Jesus prometeu alivio aos que se sujeitam a Ele. O convite expressa o poder de um Senhor que oferece um jugo suave e um fardo leve aos seus servos. Ele demonstra ter o poder de livrar qualquer homem da opressão e do cansaço do jugo do pecado, desde que se submeta ao seu senhorio.

As Escrituras testificam de Cristo ( Jo 5:39 ), apresentando dois aspectos pertinente àquele que declarou: – “Sou manso e humilde de coração”: a) era o Servo do Senhor, porque se sujeitou a vontade do Pai ( Sl 40:8 ), b) e Rei, porque todas as coisas foram entregues a Ele pelo Pai;

O Servo do Senhor foi descrito por Isaías como prudente e, quando exaltado, elevado e mui sublime: rei “Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime” ( Is 52:13 ); “Aumentarás a minha grandeza, e de novo me consolarás” ( Sl 71:21 ).

Este mesmo Servo trouxe um conhecimento específico, de modo que demanda por parte dos homens aprenderem este conhecimento e, em contra partida, serem aliviados de suas iniquidades, pois o jugo e a carga que pesa sobre os homens, o Servo do Senhor levou sobre si “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

O conhecimento das Escrituras é imprescindível para que os homens entendam, assim como as criancinhas que estavam no templo, que Cristo é aquele que veio em nome do Senhor: – “Hosana ao que vem em nome do Senhor” ( Mt 21:15 ), e lembrar do profetizado por Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta” ( Zc 9:9 ). Diante deles não estava um profeta, mas o filho de Davi, o rei de Israel, o Filho de Deus ( Mt 16:13 -14).

É um equivoco considerar que Jesus era manso no sentido de possuir um gênio submisso aos homens. Ele era manso por enfatizar a autoridade do Pai como servo. A autoridade que viam em Jesus decorria do seu ensino e, diferente dos escribas que transtornavam o mandamento de Deus, Cristo cumpriu o mando do Pai “Porquanto os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas” ( Mt 7:29 ); “E admiravam a sua doutrina porque a sua palavra era com autoridade” ( Lc 4:32 ).

O termo grego traduzido por manso é:

“4239 πραυς praus aparentemente, palavra primária, ver 4235; TDNT – 6:645,929; adj1) gentileza, bondade de espírito, humildade” Dicionário Bíblico de Strong

O termo hebraico traduzido por manso é:

“06035 anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT – 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico de Strong

A definição de ‘manso’ que consta dos dicionários não é o que Jesus enfatizou ao dizer: – “Sou manso e humilde de coração”. Cristo era ‘manso’ não no sentido de ser pobre, aflito, fraco, modesto, etc., mas em função da maneira em que, como Servo do Senhor cumpria a sua missão.

Os homens reputaram o Cristo como aflito e ferido de Deus, no entanto, o Cristo estava sendo manso, ou seja, não lançou mão das prerrogativas que possuía antes de ser encarnado, e nem antecipou as prerrogativas que receberia ao ser glorificado pelo Pai ‘… e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido’ ( Is 53:4 ).

O termo não deve ser compreendido do ponto de vista moral ou socioeconômico e nem como autocontrole.

No texto a seguir muitos veem autocontrole, mas nele fica estampada a obediência: “E aconteceu que, completando-se os dias para a sua assunção, manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém. E mandou mensageiros adiante de si; e, indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos, para lhe prepararem pousada, Mas não o receberam, porque o seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém. E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia” ( Lc 9:51 -56).

A orientação de Cristo aos discípulos vai além da ideia de autocontrole, pois deveriam identificar, compreender, a que espirito pertenciam, portanto, deviam se ater à missão recebida “Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido” ( Mt 18:11 ).

Como servo do Senhor, Jesus é o majestoso salvador que cavalgou prosperamente pela causa da verdade, mansidão e da justiça, e como Ele punha a confiança em Deus, Deus ensinou a Ele coisas terríveis “E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” ( Sl 45:4 ); “Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei” ( Sl 16:8 ).

Jesus era manso porque nada realizou entre os homens que promovesse uma glória própria. Apesar de o Pai entregar a Ele todas as coisas, tudo o que realizou visava a glória do Pai “Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei” ( Jo 12:28 ).

Cristo não promoveu a si mesmo buscando honra e glória ( Jo 8:50 ), tudo o que falou restringia-se ao mandamento que o pai determinou que falasse “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:49 -50).

Através do paralelismo antitético do provérbio: “Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos” ( Pv 16:19 ), em que ‘humilde de espírito’ é condição oposta a ‘soberbo’, verifica-se que o manso não visa lucro no exercício do seu mister, diferente dos soberbos querem o despojo “Por que, pois, não deste ouvidos à voz do SENHOR, antes te lançaste ao despojo, e fizeste o que parecia mau aos olhos do SENHOR?” ( 1Sm 15:19 ).

Apesar de ser herdeiro de todas as coisas e ter o poder de fazer todas as coisas assim como o Pai, Cristo abriu mão de qualquer ação autônoma “Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente” ( Jo 5:19 ).

Ser manso é ter o poder de realizar ou de se vingar, mas resignar-se a cumprir estritamente a vontade do seu Senhor. É ter à mão doze legiões de anjos, e não fazer uso do recurso por preocupar-se com a palavra do seu Senhor “Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” ( Mt 26:53 -54).

Ora, temos registrado nas Escrituras que Moisés foi o homem mais ‘manso’ da terra ( Nm 12:3 ). O termo manso (עָנָו anav) refere-se a um sentimento ou a uma virtude? O termo não aponta para questões do sentimento e nem da moral!

“Em sua primeira ocorrência a palavra descreve a condição objetiva como também a postura subjetiva de Moisés. Ele era completamente dependente de Deus e via o que era: ‘E era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra’ (Nm 12.3)” Dicionário VINE.

“06035 עָנָו anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT – 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico Strong

Em nossos dias não é aprovado como manso um homem que lança mão de um homem para mata-lo ( Ex 2:12 ). Alguém gentil pode ser severo, pesado ao falar? ( Ex 4:10 ) Como o homem mais manso fica irado a ponto de arremessar e quebrar as tábuas dos mandamentos? ( Ex 32:19 )

As Escrituras designam Moisés como mui manso porque ele não defendia a sua causa ou posição, antes deixava a cargo de Deus defende-Lo. Por várias vezes o profeta Moisés foi desafiado por seus irmãos segundo a carne, e em nenhuma delas Moisés utilizou da autoridade concedida para vindicar a sua posição.

Miriam e Arão confabularam contra Moisés, e Deus interveio ( Nm 12:1 ). Eles até poderiam censurar Moisés por ter tomado para si uma mulher cusita, mas não tinham o direito de contestar o ministério e a autoridade de Moisés com base em uma questão familiar ( Nm 12:2 ); “A Deus não amaldiçoarás, e o príncipe dentre o teu povo não maldirás” ( Êx 22:28 ).

O povo revoltou-se contra Moisés e queriam eleger um líder que os conduzisse de volta ao Egito ( Nm 14:4 ). Moisés poderia se impor sobre o povo como líder, no entanto, ele se voltou para Deus se prostrando como servo ( Nm 14:5 ). Apesar de estar investido de poder sobre a casa de Deus, Moisés evidencia a força de Deus ( Nm 14:17 -19).

Coré, Datã e Abirão, juntamente com duzentos e cinquenta príncipes do povo, se opuseram a Moisés contestando a sua autoridade sob o argumento de que toda a congregação era santa ( Nm 16:3 ), e Moisés nada argumentou em seu favor. Apesar da ira que lhe sobreveio, porque nunca havia defraudado a nenhum dos filhos de Coré, Datã e Abirão ( Nm 16:15 ), deixou a cargo de Deus evidenciar quem era o escolhido para conduzir o povo ( Nm 16:28 ).

Por ser mui manso, Moisés fez com que os filhos de Israel apresentassem segundo o número de suas tribos doze varas. Após serem identificadas com os nomes das tribos, as varas foram deixadas de um dia para o outro na tenda da congregação, e no dia seguinte a vara de Arão havia florescido, as flores desabrocharam e produziam amêndoas ( Nm 17:8 ).

A Bíblia descreve Moisés como ‘mui’ manso. O termo hebraico traduzido por ‘mui’ é מְאֹ֑ד, significando:

“1) extremamente, muito subst. 2) poder, força, abundância n m 3) grande quantidade, força, abundância, extremamente 3a) força, poder 3b) extremamente, grandemente, muito (expressões idiomáticas mostrando magnitude ou grau) 3b1) extremamente 3b2) em abundância, em grau elevado, excessivamente 3b3) com grande quantidade, grande quantidade” Dicionário Strong.

Se comparado aos outros homens, Moisés era muito manso, e não foi nomeado ‘manso’, o que indicaria uma condição plena, porque certa feita, em lugar de obedecer a palavra do Senhor e falar a rocha, feriu a rocha duas vezes, de modo que não evidenciou ao povo quem lhes deu água a beber da rocha ( Nm 20:11 -12).

Cristo por sua vez apresenta-se manso e humilde, condição que O habilita a ensinar os seus ouvintes o conhecimento que lhes dará descanso “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Jesus não se defendeu, antes confiou inteiramente no Pai “Pois tu tens sustentado o meu direito e a minha causa; tu te assentaste no tribunal, julgando justamente” ( Sl 9:4 ); “O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” ( 1Pd 2:23 ).

Quando Jesus foi incisivo, a intervenção visou a causa do Pai, como podemos ver quando Ele expulsou os cambistas da casa do Pai, mas em tal evento ele permaneceu manso “E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda. E os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devorará” ( Jo 2:16 -17).

Da mesma forma, Cristo, como Filho sobre a sua própria casa, foi um servo gentil, obediente, conforme o expresso nas Escrituras: “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” ( Is 42:19 ).

Quem é cego, surdo e perfeito? A resposta está no verso 1: “EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” ( Is 42:1 ).

Ser cego, surdo e perfeito aponta para condição, e não para questões circunstanciais como a emoção ou o sentimento. Cristo é o servo do Senhor em quem Deus se apraz. E Jesus foi ungido com o espírito do Senhor porque, como servo, tinha que tirar da prisão os presos “Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, e para luz dos gentios. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:6 -7).

Quando Jesus disse: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim…”, estava anunciando as boas novas de salvação. Qualquer que se fizesse servo de Cristo, ou seja, tomasse sobre si o jugo de Cristo, aprenderia d’Ele, o servo (humilde) gentil (manso) de coração, consequentemente, tais pessoas encontrariam o descanso prometido por Deus.

Jesus não disputava uma cadeira na galeria dos humildes que a humanidade elegeu para si com pessoas como Ghandi, Madre Paulina, Madre Tereza de Calcutá, etc. Quando Jesus disse: “… sou manso e humilde de coração…” ( Mt 11:29 ), estava se apresentando aos seus ouvintes como Aquele que se submeteu a vontade do Pai como servo, ungido (escolhido, eleito) a pregar boas novas que dá liberdade aos cativos “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” ( Is 61:1 -2).

  • Jesus continuou sendo o servo do Senhor quando disse: “… sou manso e humilde de coração…” ( Mt 11:29 ).
  • Jesus continuou manso e humilde quando expulsou os cambistas do templo (Jo 2:15 ).
  • Jesus não deixou de ser humilde quando se apresentou como o ‘Eu Sou’ que existia antes mesmo que Abraão existisse “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ).
  • Jesus continuou humilde após se apresentar a Pilatos “Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” ( Jo 18:37 ).
  • Jesus não perdeu a humildade após se declarar Mestre e Senhor “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” ( Jo 13:13 ).
  • Ao dizer ser o Filho de Deus, Jesus não faltou com a verdade e nem perdeu a sua condição de humilde, pois continuou sendo o servo (ταπεινος tapeinos) do Senhor “Àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?” ( Jo 10:36 ).
  • Mesmo após dar testemunho de Si mesmo, Cristo continuou sendo o servo do Senhor, ou seja, humilde e manso de coração “Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai que me enviou” ( Jo 8:18 ).
  • Cristo, o Verbo eterno se esvaziou a si mesmo ao tomar a forma de servo se fazendo semelhante aos homens “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ). Mas, tomar a forma de servo não é o mesmo que ser servo. Porém, Cristo após se achar na forma de servo, ou seja, semelhante aos homens, humilhou-se a si mesmo sendo obediente até a morte “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ).

Tomar a forma de servo é se fazer homem, mas ser servo (humilhar a si mesmo) é obedecer.

Onde está o segredo da humildade? Na obediência! Ao obedecer a vontade do Pai resignando-se a morrer na cruz, Cristo humilhou-se a si mesmo fazendo-se servo.

Além de Cristo humilhar a si mesmo se fazendo servo apresentando-se como cordeiro sobre a cruz, os seus algozes negaram-lhe um julgamento justo “Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra” ( At 8:33 ; Is 53:8 ).

O que se depreende da frase em comento, como do livro ‘Humildade – A Beleza da Santidade’, ambos produzidos pelo Pr. Andrew Murray é que ele não compreendeu o que é humildade do ponto de vista bíblico.

 

Quem se humilha será exaltado

Em dois momentos que Jesus censurou os escribas e fariseus, foi dito: “E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado” ( Mt 23:12 ; Lc 18:14 ).

O texto não diz que os cristãos são aqueles que são humilhados, no sentido de serem desprezados. Jesus enfatizou que aquele que se humilha é que será exaltado, ou seja, se humilha aquele que se sujeita a Deus “Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” ( 1Pd 5:6 ).

À época de Cristo um homem livre estava na mais alta posição, se contrastada a sua condição social com a de um escravo. Como alguém poderia ‘humilhar’ a si mesmo? Se fazendo servo!

Como se humilhar a si mesmo do ponto de vista bíblico? Se fazendo servo de Deus. E como tornar-se servo de Deus? Obedecendo a sua ordem? E qual a sua ordem? Que creiais naquele que Ele enviou.

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 );

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Daniel foi um homem que se humilhou diante de Deus. Como? Primeiro ele se aplicou a compreender o que o profeta Jeremias havia profetizado (Dn 9:2 ), e ao querer colocar em prática o que compreendeu, estava se humilhando, ou seja, se fez servo de Deus “Então me disse: Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras (…) Mas eu te declararei o que está registrado na escritura da verdade” (Dn 10:12 e 21).

Já o rei Belsazar, apesar de saber tudo o que o seu pai, o rei Nabucodonosor, passou por não reconhecer que Deus é o Altíssimo, não se fez servo de Deus “E tu, Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o teu coração, ainda que soubeste tudo isto” ( Dn 5:22 ).

O servo do Senhor não pode ter a iniciativa de falar de si mesmo, antes deve seguir o exemplo do apóstolo Paulo: “Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras” ( Rm15:18 ). Para fazer os gentios obedientes, o apóstolo Paulo não ousou falar coisa alguma que Cristo não houvesse feito por intermédio do apóstolo.

Cristo como servo falou as palavras de Deus conforme Deus havia estabelecido sem alterá-la em nada “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou” ( Jo 8:28 ). E porque Jesus teve o cuidado de falar conforme o Pai ensinou? Porque Ele sabia que o mandamento de Deus é a vida eterna, e alterar o mandamento de Deus produz morte “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ).

Ao crer em Cristo o apóstolo Paulo se humilhou a si mesmo, pois se fez servo de Cristo. Ao perseverar anunciando o evangelho tal qual aprendeu, o apóstolo permanecia na posição de servo, pois somente anunciando tal qual aprendeu os outros seriam exaltados “Pequei, porventura, humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus?” ( 2Co 11:7 ).

Obediência estrita ao conteúdo do evangelho é a essência da auto humilhação, e não questão de caráter, como aponta Murray:

“Vamos estudar o caráter de Cristo até nossa alma estar cheia de amor e admiração por Sua humildade” Andrew Murray, Série Riquezas de Cristo – Humildade – A Beleza da Santidade, Título do original em inglês: Humility – The BeautyofHoliness © 1994 Christian LiteratureCrusade, EUA © 2000 CCC Edições; Tradução: Alessandra Schmitt Mendes.

Obediência não diz de um feitio moral, senão o reino de Deus estaria vetado às meretrizes e publicanos. ‘Obediência’ ou ‘se fazer servo’ está em que se faça o que foi determinado, como se lê: “Mas, que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer” ( Mt 21:28-32).

A Bíblia apresenta a desobediência de Adão como a ofensa contra Deus que trouxe a queda da humanidade e a obediência de Cristo como causa da justificação, de modo que a salvação é substituição de ato, obediência pela desobediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Por não compreender que a humildade de Cristo teve relação exclusiva com o fato de Ele ser o servo obediente é que surgem colocações como:

“Cristo é a humildade de Deus incorporada na natureza humana: o Amor Eterno humilhando-se a Si mesmo, revestindo-se com as vestes da mansidão e da bondade para vencer, e servir e nos salvar. Como o amor e condescendência de Deus fazem Dele o benfeitor, e auxiliador e servo de todos, assim, Jesus, por necessidade, se tornou a Humildade Encarnada. E, assim, mesmo no centro do trono, Ele é o manso e humilde Cordeiro de Deus” Idem.

Cristo foi humilde porque se sujeitou a Deus como servo. Mas, a quem o Altíssimo se sujeitaria para ser humilde? Há humildade em Deus? Deus deixou de ser bom (ἀγαθός agathos)? Ora, o predicativo ‘bom’ quando aplicado a Deus significa aquele que é superior, de cima, nobre, em contrate com aqueles que são de baixo, ralé, inferiores, significado que não contempla a ideia do homem do nosso tempo que acha que Deus é bonzinho, condescendente, etc. “E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ).

“18 αγαθοςagathos uma palavra primitiva; TDNT 1:10,3; adj 1) de boa constituição ou natureza. 2) útil, saudável 3) bom, agradável, amável, alegre, feliz 4) excelente, distinto 5) honesto, honrado” Strong

Por não compreender que o termo ‘humildade’ na Bíblia faz parte de uma linguagem utilizada para se fazer compreender diante dos homens à época, ou seja, homens que não pertencem ao nosso tempo, é que o Pr. Murray fez a seguinte colocação:

“É nesse estado de mente, nesse espírito e disposição, que a redenção de Cristo tem sua virtude e eficácia. É para trazer-nos para essa disposição que somos feitos participantes de Cristo. Esta é a verdadeira abnegação, para a qual nosso Salvador nos chama: o reconhecimento de que o ego não tem nada de bom em si mesmo, exceto como um recipiente vazio que Deus tem de preencher, e de que sua pretensão de ser ou fazer qualquer coisa não deve, nem por um momento, ser permitida. É nisto, acima e antes de todas as coisas, que consiste a conformidade com Jesus: nada ser e nada fazer de nós mesmos, para que Deus seja tudo” Idem.

Sendo Cristo o ente santo gerado de Deus, em tudo semelhante aos homens, significa que o seu ego não tinha nada de bom em si mesmo? E os que creem em Cristo, portanto, gerados de novo participantes da natureza divina, não possuem nada de bom no ego?

Cristo era participante da natureza do seu Pai, Ele era bom porque seu Pai é bom. Primeiro era ‘bom’ no sentido de ‘bem nascido’, ‘distinto’, ‘nobre’, segundo, porque Cristo era benevolente.

É um erro entender que o mal decorre do ego do indivíduo, pois o mau se instalou no homem decaído por causa da barreira de separação (pecado) que alienou o homem de Deus, o bom e o bem supremo. O conhecimento do bem e do mal que tornou o homem como Deus não é a causa do mau, portanto, não se deve afirmar que o ego não tem nada de bom em si mesmo.

Leia a seguinte definição de Ego:

“Ego é termo da psicanálise que aponta para o eu de cada indivíduo, a essência da personalidade. A principal função do ego é harmonizar os desejos com a realidade, e depois harmonizar os desejos e a realidade com as exigências presentes nos valores da sociedade. O ego define a personalidade, filtrando os conteúdos do inconsciente impedido que passem para o campo da consciência” Teoria psicanalítica  < http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_psicanal%C3%ADtica > Consulta realizada em 17/03/2014.

Tudo que o homem é e realiza possui relação com o ego. Mesmo o salvo tem ego, pois Deus jamais anula o indivíduo, mesmo após o evento do novo nascimento. O ego faz parte da massa, que Deus, o oleiro, tem poder para fazer vasos para honra. O ego não é sinônimo de altivez, orgulho, etc. Não há como falar em homem se não considerarmos o ego. Se excluir o ego do homem, o homem deixa de ser homem.

O Pr. Murray chegou a conclusão de que Cristo negou o seu ego após listar alguns versos onde aparece o advérbio de negação ‘não’, como se vê:

“O Filho nada pode fazer de Si mesmo” ( Jo 5:19 );

“Eu nada posso fazer de Mim mesmo (…) O Meu juízo é justo, porque não procuro a Minha própria vontade” (v. 30);

“Não aceito glória que vem dos homens” (v. 41);

“Eu desci do céu, não para fazer a Minha própria vontade” ( Jo 6:38 );

“O Meu ensino não é Meu” (Jo 7:16 );

“Não vim de Mim mesmo” (v. 28);

“Nada faço por Mim mesmo” (Jo 8:28 );

“Não vim de Mim mesmo, mas Ele Me enviou” ( Jo 8:42 );

“Eu não procuro a Minha própria glória” (v. 50);

“As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim mesmo” ( Jo 14:10 );

“A palavra que estais ouvindo não é Minha” (v. 24).

A análise de um psicólogo com base nestes versículos daria a ideia de que Jesus estava negando o seu ego, porém, o que dizer dos versos em que Ele enfatiza o ‘Eu’?

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” ( Jo 6:35 );

“E dizia-lhes: Vós sois de baixo, eu sou de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo” ( Jo 8:23 );

“Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 );

“Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 );

“Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 );

“Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” ( Jo 10:11 );

“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 );

“Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 );

“Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” ( Jo 13:13 ).

Após ler estes versos, seria Jesus narcisista?

Que dizer das seguintes palavras:

“Elas mostram o que Cristo considerou como o estado de coração que Lhe cabia como o Filho do Pai. Elas nos ensinam o que são a natureza e vida essenciais dessa redenção que Cristo cumpriu e agora transmite. É isto: Ele não era nada para que Deus fosse tudo. Ele renunciou a Si mesmo totalmente, com Sua vontade e Suas forças, para que o Pai trabalhasse Nele. De Seu próprio poder, Sua própria vontade, Sua própria glória, de toda a Sua missão com todas as Suas obras e Seu ensinamento — de tudo isso, Ele disse: “Não sou Eu, não sou nada. Eu Me dei totalmente ao Pai para trabalhar; não sou nada, o Pai é tudo”” Idem.

Jesus não disse as palavras acima, ou buscou apregoar a ideia expressa pelo Pr. Murray. Ora, João Batista foi quem procurou se diminuir, e não Cristo “É necessário que ele cresça e que eu diminua” ( Jo 3:30 ).

Cristo não disse que não era nada, antes Ele disse: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ). Jesus não disse ‘eu me dei totalmente ao pai para trabalhar, antes Ele disse: “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” ( Jo 5:17 ).




Como se humilhar diante de Deus?

Se o jovem rico houvesse se sujeitado ao mando de Cristo, seria aceito por servo. Obedecer é humilhar a si mesmo.


Como se humilhar diante de Deus?

“E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 )

Jesus, o exemplo

O apóstolo Paulo recomenda aos cristãos que sejam imitadores de Deus como filhos amados “SEDE, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” ( Ef 5:1 ).

O que um pai espera de um filho? A resposta para esta pergunta não pode ser dada segundo a concepção do homem moderno e contemporâneo levado por todo vento de ensinos, antes deve ser respondida levando-se em conta o contexto cultural e social do homem da antiguidade.

Em todos os tempos os pais esperam o amor dos filhos, porém, se falarmos do homem do nosso tempo, o amor esperado diz de afetividade, carinho (sentimento), se falarmos conforme o pensamento do homem da antiguidade, o amor esperado vai além da afetividade, do sentimento e traduz-se em obediência (funcional) como a de um servo ao seu senhor.

Este era o pensamento do homem da antiguidade, o filho, ainda que senhor de tudo, em nada era diferente do servo, pois devia obediência ao pai “DIGO, pois, que todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo” ( Gl 4:1 ).

O filho devia obediência, honra, ao pai, de modo que honrar é obedecer “Honra a teu pai e a tua mãe, como o SENHOR teu Deus te ordenou…” ( Dt 5:16 ); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ); “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” ( Ml 1:6 ).

À época dos apóstolos, a essência do termo ‘agape’ traduzido por amor era funcional e objetivo, de modo que o termo evoca a ideia de obediência, honra, o que é muito diferente da concepção do homem do nosso tempo, que entende o amor como afetividade, sentimento subjetivo.

Jesus disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama” ( Jo 14:21 ). A exigência é objetiva: obedecer aos mandamentos de Cristo. Não há espaço para questões de ordem subjetiva, como sentimento, afetividade, emoção, etc. Quem obedece ama, quem não obedece odeia “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ) – Crispim, Claudio, A Obra que demonstra Amor a Deus, São Paulo: Newbook, 2012.

Para ser imitador de Cristo é necessário ser obediente como Ele, que achado na forma de homem se fez servo “Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve” ( Lc 22:26 ). Cristo é o maior, mas se fez como quem serve, de modo que Cristo, sendo maior que João Batista, se fez como o que serve “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele” ( Mt 11:11 ).

Daí a ênfase do apóstolo Paulo: “SEDE, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” ( Ef 5:1 -2). O cristão deve imitar a Cristo como filhos sob o cuidado (amado) do pai, ou seja, sendo obediente (andai em amor).

Cristo cuidou (amou) da sua igreja e entregou-se a si mesmo em cheiro suave a Deus. A relação do cristão e Cristo se dá através da submissão e do cuidado, de modo que a ideia do verso 2 do capítulo 5 de Efésios é ilustrado através da figura do esposo e da mulher: “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:24 -26, Ef 5:2 ).

O Verbo eterno quando na carne, despido de seu poder, em todo momento resignou-se a obedecer à vontade expressa de Deus: obediência quero e não sacrifício ( 1Sm 15:22 ). Cristo entregou-se a si mesmo em obediência ao Pai, pois a exigência divina é a obediência e não o sacrifício. A oferta de Cristo ao Pai foi agradável por ser ato de obediência, e não de voluntariedade em sacrificar-se.

Deus não exige sacrifício dos homens porque Ele mesmo proveu a vítima perfeita para o sacrifício “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” ( 1Jo 4:10 ; Jo 3:16 ). Foi o próprio Deus que apresentou a vítima a ser atada ao altar, formada especificamente para ser servo “E agora diz o SENHOR, que me formou desde o ventre para ser seu servo, para que torne a trazer Jacó; porém Israel não se deixará ajuntar; contudo aos olhos do SENHOR serei glorificado, e o meu Deus será a minha força. Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra” ( Is 49:5 -6); “Deus é o SENHOR que nos mostrou a luz; atai o sacrifício da festa com cordas, até às pontas do altar” ( Sl 118:27 ).

O escritor aos Hebreus explica o Salmo 40, versos 6 à 8 contrastando a obediência com o sacrifício: “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), Para fazer, ó Deus, a tua vontade.  Como acima diz: Sacrifício e oferta, e holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradaram (os quais se oferecem segundo a lei). Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:5 -10).

O escritor aos Hebreus demonstra que o verso 6 do Salmo 40 refere-se ao Cristo quando introduzido no mundo. Do Cristo não foi exigido sacrifício ou oferta, antes que, voluntariamente, se sujeitasse ao Pai (minha orelha furaste Ex 21:6 ; Dt 15:17 ).

Cristo foi formado por Deus para ser servo ( Is 49:5 ), e Deus não requereu do seu Filho holocaustos, sacrifícios, antes fazer a vontade de Deus. É por isso que o salmista em espírito demonstra que Cristo deleitar-se-ia em fazer a vontade de Deus ( Hb 10:8 ).

Em nossos dias há muitos que em datas comemorativas impõe a si mesmos o flagelo da cruz, mas diante de Deus tal ato cruento é sem valor, pois Deus não requer sacrifício, antes Deus exige a obediência.

Há uma diferença gritante entre o sofrimento de Jesus na cruz e o sofrimento das pessoas que aplicam a si castigos físicos semelhantes à crucificação de Jesus. Cristo não buscou o flagelo para agradar ao Pai, antes buscou obedecê-lo, pois isto é agradável a Deus.

Jesus orou ao Pai sobre a necessidade de beber o cálice, porém, na oração, apesar de expressar o desejo de que o Pai passasse dele o cálice, vê-se que não abre mão de obedecê-Lo, quando declarou: “Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” ( Mt 26:42 ); “Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora” ( Jo 12:27 ).

Como as Escrituras demonstravam que Deus não exigia oblações pelo pecado, Jesus apresentou-se como servo para fazer a vontade de Deus. E é na vontade de Deus que o homem é santificado, pois Cristo foi posto por propiciação pelos pecados.

Ao falar da obediência de Cristo, o escritor aos hebreus disse: “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” ( Hb 5:7 -8). Quando no Getsemani, Jesus clamou ao Pai, o único que podia livrá-Lo da morte, porém, diante do sofrimento que se seguiu, verifica-se que Jesus desprezou a sua própria vontade e acatou a vontade de Deus sendo obediente em tudo.

O apóstolo Paulo demonstra que Jesus foi obediente, e o escritor aos Hebreus apresenta o sofrimento como prova da obediência de Cristo, ou seja, a sujeição de Cristo aos vitupérios da cruz indica que em tudo Jesus foi obediente. Cristo, mesmo sendo o Filho de Deus, foi atendido porque obedeceu (temeu) e não porque era Filho, ou seja, quando Cristo rogou ao Pai, aquele que podia livrá-lo da morte, foi atendido porque era obediente (piedoso, temente) “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” ( Hb 5:7 -8).

Através das Escrituras Jesus compreendeu que Deus não está em busca de sacrifícios e holocaustos, antes que O obedeçam. Jesus tinha consciência de que sacrificar-se sem o mando do Pai não seria algo aprazível.

Antes de derramar a sua alma na morte, Jesus sabia através das Escrituras que podia orar ao Pai que seria socorrido por mais de 12 legiões de anjos ( Mt 26:53 ), mas resignou-se a apresentar-se a Deus como oferta e sacrifício, pois esta era a vontade de Deus.

Quando Jesus expressou o seu desejo de que o Pai passasse de si o cálice, estava cônscio de que somente Deus podia desobrigá-Lo de ser o cordeiro do sacrifício assim como livrou Isaque de ser imolado, porém, Jesus não impôs a sua vontade, antes se humilhou diante do Pai quando disse: ‘todavia seja feita a sua vontade’.

Quando Jesus entregou-se aos seus inimigos para ser crucificado, não estava apenas oferecendo um sacrifício, estava obedecendo ao Pai, pois foi para isto mesmo que Jesus foi enviado: para fazer a vontade de Deus ( Is 1:11 -14).

Neste mesmo sentido, quando Deus exigiu de Abraão o seu único filho, não buscava um sacrifício, antes a obediência (temor) do patriarca “Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho” ( Gn 22:12 ).

Sacrifício é um ato que decorre da voluntariedade do homem, não é uma exigência divina ( Lv 1:2 ; Sl 50:8 -13; Sl 51:16 ; Os 6:6 ). É essencial compreender que oferecer o seu único filho em sacrifício não foi um ato voluntarioso de Abraão, como muitos entendem. Conduzir Isaque até o altar do sacrifico não foi uma decisão que o patriarca Abraão deliberou realizar, o que caracterizaria um sacrifício, antes o patriarca estava obedecendo à ordem divina, o que caracteriza a sujeição, a humildade.

E por que Abraão obedeceu? Porque confiava que Deus era poderoso para trazer o seu filho dentre os mortos ( Hb 11:17 -19).

Sacrifício é produto de um ato voluntário, como o foi o voto de Jefté: “E Jefté fez um voto ao SENHOR, e disse: Se totalmente deres os filhos de Amom na minha mão, Aquilo que, saindo da porta de minha casa, me sair ao encontro, voltando eu dos filhos de Amom em paz, isso será do SENHOR, e o oferecerei em holocausto ( Jz 11:30 -31), o que não ocorreu com Abraão “E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” ( Gn 22:2 ).

O escritor aos Hebreus demonstra que Abraão temia (obediência) a Deus, e as Escrituras contém o testemunho que Deus dá de Abraão a Isaque “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia” ( Hb 11:8 ); “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” ( Gn 26:5 ).

A Bíblia demonstra que Jesus ‘suportou’ a cruz. Suportar demonstra que a cruz não lhe era algo agradável, entretanto optou por fazer a vontade do Pai “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ), o que demonstra que Cristo não se apresentou para oferecer um sacrifício, antes quem ofereceu o Cristo como cordeiro foi o próprio Pai, pois foi do agrado de Deus moê-lo “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado…” ( Is 53:10 ); “Não morrerei, mas viverei; e contarei as obras do SENHOR. O SENHOR me castigou muito, mas não me entregou à morte” ( Sl 118:17 -18).

Se Cristo não acatasse a vontade do Pai que o colocou como cordeiro, não haveria sacrifício e nem resgate da humanidade. A vontade do Cristo não era uma morte de cruz quando pediu ao Pai que passasse d’Ele o cálice, porém, sendo servo, resignou-se a obedecer, pois obedecer é o único modo de agradar a Deus e ser recompensado “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice…” ( Mt 26:39 ); “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).

Na cruz Jesus desempenhou dois papéis distintos: servo e cordeiro. Como servo agradou ao Pai obedecendo e, como cordeiro foi o sacrifício perfeito providenciado por Deus em resgate da humanidade. Quem apresentou o sacrifício perfeito foi o Pai, e quem obedeceu como servo, foi o Filho, que não abriu a sua boca, resignando-se como cordeiro ( Is 42:19 ).

Sem a obediência de Cristo não haveria justiça, pois a justiça de Deus é substituição de ato: obediência em lugar da desobediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Quando sem pecado Adão desobedeceu, de modo que somente um sem pecado e que obedecesse poderia substituir a ofensa de Adão. Através da obediência do servo do Senhor, tem-se o cordeiro perfeito entregue pelo Pai para a salvação de muitos “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” ( Rm 4:25 ; At 2:23 ).

Diante da desobediência de Adão que trouxe a injustiça, somente a obediência de alguém sem pecado traria justiça. Qualquer sacrifício apresentado por um descendente de Adão é sem valor, visto que o ofertante é filho da ira e da desobediência. Somente um homem sem pecado poderia substituir a ofensa de Adão, porém, a substituição é a obediência, o que Cristo fez, por ser o último Adão.

Na obediência está a justiça, no sacrifício do corpo de Cristo a justificação. Todos quantos obedecem a Cristo conformam-se com Cristo na sua morte, e após ressurgem com Cristo, Deus os declara justos. Deus estabeleceu a sua justiça através da obediência de Cristo, mas era necessário o trigo morrer para produzir fruto ( Jo 12:24 ).

Na morte de Cristo foi plantado o Unigênito Filho de Deus, quando ressurgiu dentre os mortos, Cristo tornou-se o primogênito dentre os mortos, pois através da sua morte e ressurreição são conduzidos à glória muitos filhos de Deus ( Rm 8:29 ).

Deus não busca dos homens sacrifícios, ofertas, holocaustos ou oblações pelo pecado, antes a obediência. Quando preparou ao Cristo um corpo, o esperado era a obediência, consequentemente, o cordeiro para o holocausto era certo. Se o último Adão não se resignasse a obedecer, não haveria substituição de ato e a justiça não seria estabelecida.

Jesus, como homem, não foi voluntarioso em oferecer a si mesmo como sacrifício, antes se apresentou ao Pai para obedecê-Lo. Jesus humilhou-se a si mesmo ao se fazer servo, pois abriu mão de sua vontade e entregou-se em obediência à determinação do Pai.

Humilhar a si mesmo é posicionar-se na condição de servo, executando estritamente a ordem do seu Senhor. Humilhar a si mesmo é abrir mão da própria vontade para executar a vontade de Deus a exemplo do que Cristo fez. Quando na carne, o Verbo não se apresentou ao Pai com o argumento: – ‘Vou dar o meu melhor ao Pai’, ou ‘Vou me oferecer como sacrifício’, antes se resignou a acatar humildemente a vontade de Deus: – ‘Seja feita a sua vontade’.

Deixar a sua glória e se fezer homem, não foi o momento em que Jesus se humilhou, visto que a ação do Verbo eterno ao deixar a sua glória foi uma decisão soberana e voluntária. Ao deixar a Sua glória, o Verbo eterno submeteu-se à sua própria decisão, mas quando na carne, abriu mão de sua vontade para sujeitar-se a vontade do Pai, se fez servo, o que é humilhar a si mesmo  “Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo” ( Hb 10:9 ; Sl 40).

Quando deixou a sua glória, o Verbo Eterno voluntariamente despiu-se da sua glória, ou seja, esvaziou-se do seu poder para tornar-se homem, porém, a humilhação de si mesmo se deu quando Jesus, como homem, em obediência ao Pai, resignou-se a sofrer os vitupérios da cruz “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ).

Quando resignou-se a beber o cálice proposto pelo Pai, sujeitando-se como servo, Cristo humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz. Observe que o apóstolo Paulo demonstra que Cristo humilhou a si mesmo quando achado na forma de homem, e não quando esvaziou-se a si mesmo para se fazer semelhante aos homens: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ).

 

Instruções acerca da humilhação

Como um homem se humilha debaixo das potentes mãos de Deus? Qual o modo de ser exaltado por Deus? O único modo é obedecendo!

Através da história do rei Saul é possível compreendermos outro aspecto da obediência. Desde Abel e Caim, Deus nunca se opôs aos sacrifícios e votos dos homens, apesar de não exigi-los ( Gn 4:3 -4). Em função da voluntariedade do homem em sacrificar ( Lv 1:2 ), no livro de Levítico Deus disciplina a forma de como oferecê-los, o que demonstra que para agradar a Deus é necessário a obediência.

Através do livro de Levítico, caso o voluntarioso em sacrificar se resignasse a cumprir todos os rituais estabelecidos, paulatinamente estava aprendendo a importância da obediência, e o tal seria aceito por Deus, não em função do sacrifício, antes por obedecer.

Apesar de Deus nunca ter exigido sacrifícios, não os extinguiu, antes disciplinou como e onde oferecê-los, pois este era uma forma de os ofertantes aprenderem a obediência, e não o meio de serem aceitos por Deus. O homem só é aceito por Deus quando se converte dando ‘ouvidos’ a Deus, e não através de sacrifícios ( Dt 5:9 ; Dt 30:2 e 6).

Deus deu uma ordem direta ao rei Saul para que os amalequitas fossem completamente exterminados. Diante da ordem divina não era facultado ao rei sacrificar ou votar. Em qualquer outra ocasião o rei poderia apresentar quantos sacrifícios desejasse, mas diante da ordem expressa de Deus cabia-lhe somente a obediência.

Sob o argumento de que cumpriu completamente a ordem divina ( 1Sm 15:13 ), mesmo tendo poupado o rei Agage e o melhor do interdito, Saul persistiu na desobediência apresentando como justificativa o sacrifício.

A atitude voluntária de Saul em sacrificar não era o posicionamento de um servo, antes estava a serviço de si mesmo. Executar 99,9% de uma ordem não é obediência, é rebelião e feitiçaria. É estar a serviço de si mesmo.

Não submeter-se a vontade de Deus é o mesmo que feitiçaria, iniquidade e idolatria. É servir Mamom e não ao Senhor “Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” ( 1Sm 15:22 -23).

Diante da vontade expressa do Senhor não cabe sacrifício, só a submissão em obediência, visto que não submeter-se é rebelião “Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” ( Dt 31:27 ); “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” ( Is 59:13 ).

Acerca da submissão ao Senhor, temos a seguinte ordem no Novo Testamento:

“Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” ( 1Pd 5:6 )

“Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará” ( Tg 4:10 )

Jesus orientou os escribas e fariseus acerca da auto-humilhação após curar um homem que sofria de uma doença que acumulava líquidos em seu corpo (hidrópico): “Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado” ( Lc 14:11 ).

Jesus recomenda aos seus ouvintes a não se assentarem nos primeiros lugares quando convidados a uma festa, pois se houvesse alguém mais digno, o dono da festa poderia requerer o lugar de destaque e dá-lo ao mais digno. Ao contar-lhes esta regra de etiqueta social, por parábola, Jesus estava demonstrando aos seus ouvintes que, apesar de se acharem dignos de um lugar de destaque no reino dos céus por serem descendentes da carne de Abraão, o noivo daria a outros convidados mais dignos que se assentassem em lugar de destaque.

Jesus apresenta a eles a regra do reino dos céus, visto que os convidados não são os judeus (sãos), antes os obedientes como o crente Abraão, pecadores dentre todos os povos (doentes) “Jesus, porém, ouvindo, disse-lhes: Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes” ( Mt 9:12 ).

Na lição que Jesus passou estava implícita a ordem: “Misericórdia quero, e não sacrifício”, pois Jesus não veio ‘chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento’ ( Mt 9:13 ). Embora os religiosos judeus entendessem que tinham direito de entrar no reino dos céus por serem descendentes da carne do patriarca Abraão, não havia compreendido o enigma da misericórdia “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Quando Jesus contou a parábola do fariseu e do publicano, demonstrou aos seus ouvintes que se achavam justos aos seus próprios olhos que, para ter acesso ao reino dos céus é imprescindível reconhecer a sua condição miserável diante de Deus, humilhando-se a si mesmo.

E como humilhar-se? Diferente do que os interlocutores de Jesus pensavam que, para humilhar-se era necessário sacrifício como jejuns, sábados, dízimos, circuncisão, votos, holocaustos, etc., humilhar a si mesmo é quando o homem clama pela misericórdia de Deus “Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado” ( Lc 18:14 ).

Humilhar-se a si mesmo é lançar fora todas as suas ‘riquezas’ como linhagem, circuncisão, tribo, nacionalidade, lei, religiosidade, etc., considerando a riqueza como escória, sujeitando-se a Cristo “Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu. Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:5 -8).

Humilhar-se a si mesmo é acatar a ordem divina, se fazendo servo de Cristo “Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 ).

Se o jovem rico houvesse se sujeitado ao mando de Cristo, seria aceito por servo. Na fala: – ‘Se queres ser perfeito’ estava implícita uma prova semelhante a que Deus deu a Abraão. Se o jovem rico se dispusesse a obedecer, o sacrifício não seria exigido, assim como se deu com o crente Abraão. A partir do momento em que o jovem se dispusesse a seguir a Cristo, estaria andando humildemente com o seu Deus, sendo justificado como o crente Abraão ( Gn 17:1 ; Gn 6:9 ; Dt 18:13 ; Mt 5:48 ). Jesus não está em busca de doadores de bens materiais, antes que o jovem rico se dispusesse a segui-Lo. Este foi o mando de Deus a Abraão, e o seu eco permeia todas as Escrituras: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” ( Mq 6:8 ); “Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito” ( Gn 17:1 ).

O profeta Jeremias alertou os filhos de Jacó dizendo: “Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR” ( Jr 9:23 -24). Quem são os sábios, os fortes e os ricos? São figuras utilizadas pelos profetas para fazer referencia ao povo de Israel, pois tudo o que a lei diz, diz aos que estão sob a lei e se gloriam nela ( Rm 2:23 e Rm 3:19 ).

 

Distorções acerca da humilhação

Uma das distorções acerca da auto-humilhação surge da ideia de que é necessário ao homem se desprender dos bens deste mundo, como dinheiro, emprego, carro, casa, família, etc. Outra, é achar que se humilhar é o mesmo que ser pobre, desprovido de bens materiais. Nem de longe distribuir bens aos pobres é humilhar a si mesmo.

Quando a Bíblia recomenda o desprendimento da glória e das riquezas que o mundo oferece, apresenta uma parábola, de modo que é necessário desvendar-lhe o enigma para compreende-la.

Quando lemos que Moisés recusou ser chamado filho da filha de Faraó, renegando o tesouro do Egito, ele tinha em vista o tesouro que permanece para a vida eterna. Se Moisés se apegasse aos bens do Egito, não teria como abraçar a fé e esperar a recompensa incorruptível ( Hb 11:24 -26).

Isto não quer dizer que o tesouro do Egito era amaldiçoado, antes que era impossível herdar o tesouro do Egito e obedecer à ordem de Deus para retirar o povo do Egito. Uma escolha se fez necessária, diferente de José, que desfrutou dos tesouros do Egito e protegeu a linhagem de Cristo.

Semelhantemente Abraão rejeitou o premio do rei de Sodoma, pois tinha em vista a promessa de Deus “Jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão” ( Gn 14:23 ).

A determinação para os cristãos não é para abandonar os seus afazeres diários, nem mesmo renegar os seus bens materiais, antes seguir a seguinte recomendação paulina: “Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; o que resta é que também os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; E os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem; E os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” ( 1Co 7:29 -31).

Fazer uso das coisas deste mundo não é o mesmo que exaltar-se, mas fazer uso de questões deste mundo como origem, religião, regras, nacionalidade, etc., como meio de se salvar é presunção, orgulho, soberba. Por exemplo: os escribas e fariseus eram ‘soberbos’ porque se apegavam ao fato de serem descendentes da carne de Abraão e à lei mosaica como meio de alcançar salvação.

Para os escribas e fariseus humilharem-se a si mesmos teriam que considerarem: descendência da carne de Abraão, a lei, a circuncisão, sábados, sacrifícios, etc. como escória, pois só assim é possível alcançar a Cristo “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:7 -8).

É salutar ser reconhecido entre seus pares, na família, na sociedade, e abrir mão disto não é o mesmo que se humilhar. Tornar-se monge, padre, pastor, sacerdote, andarilho, etc., não é o mesmo que humilhar-se. Deixar de conviver com a família, os amigos, não é humilhar-se. Fazer voto de pobreza, de silêncio, restrição alimentar, castidade, isolamento, não é humilhar-se a si mesmo. Sofrer humilhação de outras pessoas, como desprezo, ‘bullying’, ou ser uma pessoa resignada diante das vicissitudes, não é o mesmo que humilhar-se a si mesmo.

 

Como se humilhar?

‘Humilhar-se a si mesmo’ é tornar-se servo de Cristo, tomando sobre si o ‘jugo’ de Jesus ( Mt 11:29 ). O verdadeiro significado de ‘humilhar-se a si mesmo’ consiste em crer em Cristo, que tira o pecado do mundo.

Cristo humilhou a si mesmo quando obedeceu ao Pai como servo e entregou-se aos pecadores. O homem humilha-se a si mesmo quando obedece a seguinte ordem de Cristo: “E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” ( Mc 8:34 ).

Negar a si mesmo é o mesmo que humilhar a si mesmo, pois após sujeitar-se ao senhorio de Cristo, o homem deixa de fazer a vontade do seu antigo senhor para fazer a vontade de Cristo. Humilhar-se a si mesmo é resignar-se à condição de instrumento a serviço do seu senhor “Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 ); “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

No momento em que o cristão torna-se discípulo de Cristo, conhecendo a verdade, significa que, como servo, o cristão renegou a sua vida herdada de Adão, que na verdade é morte, separação de Deus, e tomou a sua própria cruz, seguiu após Cristo, morreu com Ele e ressurgiu uma nova criatura pelo poder de Deus, tornando-se servo da justiça.

Para o homem humilhar a si mesmo basta crer em Cristo. Se faz servo ao obedecer a ordem de Deus, crendo no enviado de Deus “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

Para humilhar-se a si mesmo é imprescindível crer no enviado de Deus, pois este é o mandamento de Deus aos seus servos “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Antes de crer em Cristo, o homem é servo do pecado, após obedecer de coração a doutrina de Cristo conforme o modelo passado pelos apóstolos e profetas, o crente torna-se servo da justiça “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:17 -18).

A maior humilhação da antiguidade era alguém se fazer servo, deixando de lado a sua autodeterminação para submeter-se ao mando de outrem. Quando o homem atende ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo, se faz servo, ou seja, sai fora do arraial e sofre com Cristo o vitupério da cruz ( Hb 13:13 ).

O homem gerado segundo Adão, que estava sujeito à ira de Deus morre, é sepultado e ressurge dentre os mortos uma nova criatura. Como consequência, o novo homem é exaltado, pois ressurgiu com Cristo uma nova criatura. A gloria que Cristo recebeu é compartilhada com todos os cristãos “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ).

Quando lemos o seguinte salmo: “Ainda que o SENHOR é excelso, atenta todavia para o humilde; mas ao soberbo conhece-o de longe” ( Sl 138:6 ), devemos considerar que o ‘humilde’ é aquele que submete-se ao senhorio de Deus, obedecendo-O e o soberbo aquele que não se submete.

Um exemplo de soberba encontramos no rei Saul, que após receber um ordem de Deus para exterminar os amalequitas, resolveu por si mesmo preservar a vida do rei Agague e o melhor dos bois e das ovelhas ( 1Sm 15:8 -9). Esta deliberação de Saul e do povo foi soberba, mas se tivessem exterminado todos os amalequitas, seria humildade.

Nas Escrituras humildade está para obediência, assim como soberba está para a desobediência. Observe o seguinte verso: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?” ( Mq 6:8 ). O que Deus exige do homem? Obediência, o que é o mesmo que andar ‘humildemente’ com Deus.

Quando o homem reconhece que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus e que os homens pela fé em Cristo são justificados gratuitamente, a soberba é excluída, como se lê: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” ( Rm 3:23 -27).

No verso jactância é orgulho, ostentação, soberbia, ufania, vaidade, vanglória. O mandamento (lei) da fé, que é crer em Cristo exclui qualquer orgulho, vanglória, jactância, porque o homem é justificado por Deus gratuitamente segundo a redenção que há em Cristo.

Um cristão não pode sentir orgulho? Se for com relação às questões deste mundo, pode sim. Pode orgulhar-se de seus filhos, esposa, amigos, parentes, conquistas pessoais. O apóstolo Paulo ao escrever corintos demonstrou estar orgulhoso dos seus interlocutores, o que demonstra que o ‘orgulho’ não é uma questão capital, como preceitua a igreja católica: “Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas tribulações” ( 2Co 7:4 ).

Mas, na primeira carta aos corintos, o apóstolo Paulo destaca uma soberba que é capital. O apóstolo dos gentios havia anunciado o evangelho aos Corintos e, para que os cristãos permanecessem nas pisadas do apóstolo, foi enviado Timóteo para preservar a memória dos cristãos as questões do evangelho ( 1Co 4:16 -17). Porém, apesar do cuidado do apóstolo Paulo, havia alguns que andavam ‘ensoberbecidos’, ‘inchados’, ou seja, não eram imitadores do apóstolo dos gentios quanto ao evangelho.

Um exemplo proveniente da soberba estava em tolerarem um congregado que abusava da mulher do seu próprio pai ( 1Co 5:2 ). Ou seja, a soberba nestes versos não diz de orgulho, antes do desvio da palavra da verdade, visto que, após reprovar o desvio no verso 6, do capítulo 5 da carta aos Corintos, o apóstolo demonstra que era necessário remover o ‘fermento’ velho, para serem uma nova massa.

De modo que, fazer a festa com os ázimos da sinceridade e da verdade, que é o evangelho genuíno, é humildade, e soberba é permanecer com o fermento velho, o fermento da malicia e da maldade ( 1Co 5:6 -8).

Tiago ao recomendar aos seus interlocutores que se humilhassem, chama-os de adúlteros e adulteras. Ora, ele estava escrevendo aos judeus da dispersão, pessoas religiosas não dadas à promiscuidade sexual como os gentios. Quando Tiago nomeia os seus interlocutores de adúlteros e adulteras, estava enfatizando o desvio deles da verdade do evangelho, e não abordando questões de cunho sexual ( Tg 4:4 ; Ez 16:35 ).

Em seguida Tiago destaca que as Escrituras demonstram que Deus habita nos cristãos e que tem ciúmes ( Ez 16: 42 ). Novamente Tiago cita as Escrituras demonstrando que Deus resiste aos desobedientes, e da graça aos obedientes ( Tg 4:6 ).

Daí os imperativos seguintes: sujeitai-vos a Deus, ou seja, obedeçam, sejam servos de Deus, pois o diabo não pode tocar nos servos de Deus; chegai-vos a Deus, ou seja, tomai sobre si o jugo de Deus; limpem as mãos e os corações; quando deixassem a presunção de que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão veriam as suas misérias, tornando-se humildes, de modo que Deus em Cristo os exaltaria ( Tg 4:10 ).

Mas, como os interlocutores de Tiago continuavam seguindo os seus próprios mestres que possuíam uma sabedoria carnal e diabólica, Tiago destaca que eram soberbos e mentiam contra a verdade “Mas agora vos gloriais em vossas presunções; toda a glória tal como esta é maligna” ( Tg 4:16 ; Tg 3:14 ).

Em resumo: o soberbo é aquele que ensina outra doutrina que não a de Cristo, como se lê: Se alguém ensina alguma outra doutrina, e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, ruins suspeitas” ( 1Tm 6:3 -4).

A soberba é uma figura para fazer referencia aos homens que se desviam da palavra de Deus: “Tu repreendeste asperamente os soberbos que são amaldiçoados, que se desviam dos teus mandamentos”( Sl 119:21 ); “Tu repreendeste asperamente os soberbos, os malditos, que se desviam dos teus mandamentos” ( Sl 119:21 ). Semelhantemente, a viúva, o órfão, o pobre são figura que contrapõe a figura dos soberbos, de modo que os humildes, pobres, tristes são bem-aventurados e os soberbos não “O SENHOR desarraiga a casa dos soberbos, mas estabelece o termo da viúva” ( Pr 15:25 ); “Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos no pensamento de seus corações” ( Lc 1:51 ).

Qualquer que presume de si mesmo que tem por Pai Abraão por ser descendente da carne de Abraão é soberbo. Gloria na sua riqueza, porém, é um pobre, cego e nu “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” ( Ap 3:17 ). A humildade não está na pobreza material, e sim em adquirir de Deus vestes de justiça, ouro provado no fogo, ou seja, obediência à fé. Daí a fala de Tiago: “EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de traça” ( Tg 5:1 -2).

Qualquer que não segue os mandamentos de Deus está à mercê da própria vontade, portanto, é soberbo e nada sabe “A nossa alma está extremamente farta da zombaria daqueles que estão à sua vontade e do desprezo dos soberbos” ( Sl 123:4 ).

Para humilhar-se a si mesmo basta tomar sobre si o jugo de Cristo, ou seja, é necessário aprender com Ele, que é humilde e manso de coração: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ).

Por que Jesus era manso? Porque Jesus resignou-se a obedecer ao Pai.

Em tudo Ele cumpriu o que predisse a profecia. Jesus poderia deliberar ir atrás de uma montaria melhor para apresentar-se a Jerusalém, porém, resignou-se a cumprir a profecia “Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei aí te vem, Manso, e assentado sobre uma jumenta, E sobre um jumentinho, filho de animal de carga” ( Mt 21:5 ); “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta” ( Zc 9:9 ).

A melhor tradução é a que demonstra que Jesus veio humilde, e não pobre como a utilizada acima, pois o verso demonstra a obediência do servo do Senhor.

Quando a Bíblia diz que Moisés era o homem mais manso que havia sobre a terra, não estava apontando virtudes psíquicas, antes destacando a obediência de Moisés, que era servo obediente na casa de Deus ( Nm 12:3 e 7; Hb 2:5 ).

Qualquer que executa a obra de Deus é manso, humilde. Qualquer que põe por obra o juízo de Deus é manso “Buscai ao SENHOR, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão; pode ser que sejais escondidos no dia da ira do SENHOR” ( Sf 2:3 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

A verdadeira humilhação pertinente ao cristão refere-se a sujeição a Cristo, tomando sobre si o jugo de Cristo.




Romanos 7 – Mortos para a lei

Quando os cristãos estavam na carne produziam frutos para a morte, agora, ’em Cristo’, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Só é ´possível servir a Deus após adquirir um novo espírito. O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 -19). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios (Is 57:19). É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ).


Epístola aos Romanos – Capítulo 7

Introdução e Conteúdo

Devido a complexidade do tema abordado nesta exposição, indico aos leitores e estudantes que façam um estudo sistemático e progressivo de alguns textos essenciais à compreensão deste capítulo, e que estão à disposição neste portal.

Leia atentamente os comentários aos capítulos anteriores, principalmente aqueles pontos que apresentam a metodologia de interpretação da carta paulina.

O leitor precisa conhecer e distinguir no que implica o caminho largo e o caminho estreito. Necessita conhecer quais são as plantas plantadas por Deus, e as que não são. É de suma importância saber quais são os vasos para honra e os vasos para desonra, etc. Todas estas questões foram abordadas neste portal e continua à disposição.

O estudo sobre Romanos 7 não passou por revisão ortográfica, e, desde já pedimos desculpar por possíveis erros de ortografia e gramática.

Agradeço a minha esposa (Jussara) por colaborar na elaboração deste estudo.

Tenha uma boa leitura, e que Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do nosso entendimento ( Ef 1:18 ).

 

Prefácio

Este é um dos capítulos de maior complexidade para se interpretar de toda a Bíblia. Ao longo dos séculos o capítulo sete da carta aos Romanos tem desafiado inúmeros teólogos e estudiosos quanto à sua real interpretação.

Uma correta interpretação deste capítulo é essencial à compreensão de toda carta, e, para interpretá-lo, precisaremos de todos os elementos que foram realçados através das análises feitas nos capítulos anteriores.

Antes de ler este capítulo, recomendo que seja feita uma leitura minuciosa de todos os comentários aos capítulos anterior da carta aos Romanos.

Além de observar os comentários versículo a versículo, é preciso observar também todas as introduções feitas aos capítulos, pois eles contêm elementos essenciais à interpretação deste capítulo em particular.

O primeiro ponto a se considerar na leitura deste capítulo é: Paulo escreveu uma carta, e ela originalmente não foi redigida em capítulos e versículos. Ao ler uma carta, o leitor não pode ater-se às divisões em versículos e capítulos, pois tal divisão interfere na interpretação do texto.

Para um maior proveito na leitura da carta que está sendo estudada, recomendo a quem tem um computador, que imprima a carta de Paulo aos Romanos sem as divisões em capítulos e versículos, pois a leitura do texto sem estes divisores será muito mais proveitosa para a interpretação.

Quem analisa qualquer texto bíblico precisa de algumas premissas centrais para não perder o foco durante a interpretação, uma vez que surgirão inúmeras perguntas, porém, dependendo da pergunta ela não vem ao caso no momento da análise.

Um exemplo claro de perca de foco, e que algumas pessoas incorrem ao ler a Bíblia, verifica-se na passagem acerca da vida de Caim. Há vários aspectos a serem analisados e compreendidos na vida de Caim, porém, muitos restringem a análise e não progridem por se fixarem em questionar quem foi a mulher de Caim.

Diante de um texto bíblico surgirão inúmeras questões, porém, é necessário estar resolvido somente levantar questões que focam o texto. Antes de prosseguir em certas questões é preciso ter em mente as seguintes questões: É pertinente tal pergunta? É necessária no momento? Tem relação direta com a ideia do texto em análise?

Estas são algumas perguntas que devem ser feitas durante a análise do texto bíblico para evitar divagações desnecessárias quando da interpretação de um texto complexo.

Exemplo: Questionar quem foi a mulher de Caim é plausível? Há na Bíblia qualquer referência à mulher de Caim? É possível encontrar uma resposta bíblica acerca da mulher de Caim que não seja mera especulação? Se não há nenhuma referência direta sobre a mulher de Caim, como descobrir quem foi sua mulher? De que adiantaria descobrir quem foi a mulher de Caim?

Paulo recomendou a Tito: “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ). Muitos há que procuram demonstrar conhecimento bíblico, e que, em qualquer conversa interpõe perguntas semelhantes: Quem foi a mulher de Caim? Quem eram os Nefilins? Qual o sexo dos anjos?

 

Convite ao Raciocínio

“NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” ( Rm 7:1 – 3).

1 NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?

Após demonstrar que todos os cristãos foram batizados em Cristo, ou seja, tornaram-se participantes da Sua morte, e que, por estarem mortos, não havia como viverem no pecado, Paulo convoca os seus interlocutores ao raciocínio.

Se os cristãos em Roma desconheciam que todos que foram batizados em Cristo ( Rm 6:3 ), destruíram de uma vez por todas o corpo do pecado ( Rm 6:6 ), e que não mais serviam ao pecado, este ponto em específico foi esclarecido no capítulo seis. Porém, caso alguém permanecesse agarrado à ignorância, Paulo propõe os mesmos argumentos aos seus leitores, só que agora, através de figuras.

Este modo de exposição foi utilizado anteriormente nesta mesma carta. Basta analisar os elementos do texto que Paulo escreveu após falar da justificação por meio da fé ( Rm 3:21 – 26), para compreendermos o modo e porque Paulo introduziu os argumentos que há no capítulo 7.

Para ilustrar a doutrina do evangelho no capítulo 3, que foi exposta em poucas linhas, Paulo apresentou Abraão, o homem que foi justificado por Deus pela fé na promessa divina ( Rm 4:1 – 5). Em seguida o apóstolo Paulo apresenta alguns versos do salmista Davi para dar sustentação aos seus argumentos ( Rm 4:6 – 8).

Novamente ele fala da justificação pela fé em Cristo ( Rm 5:1 ), e, somente então, Paulo apresenta a primeira figura na carta aos Romanos: a escravidão, para dirimir qualquer ignorância da parte dos cristãos acerca da justificação: “Ou, porventura, ignorais que (…) e não sirvamos o pecado como escravos” ( Rm 6:6 ).

Diante da ignorância dos cristãos “Porventura ignorais, irmãos…” ( Rm 7:1 ), Paulo apresenta uma nova figura: a mulher ligada ao marido pelo matrimônio ( Rm 7:1 – 3).

Paulo geralmente introduz uma figura ou uma alegoria através da expressão interrogativa: “… não sabeis…?”:

  1. “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis” ( 1Co 9:24 );
  2. “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” ( 1Co 5:6 ), e;
  3. “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” ( Rm 11:2 );

Paulo conhecia bem a sua ‘platéia’, o que é próprio à retórica (arte do bem falar), uma vez que ele estava escrevendo a quem conhecia à lei. A quem Paulo estava escrevendo? Ora, sabemos que ele escreveu aos cristãos em Roma, porém, a carta do capítulo dois ao doze tinha como público alvo um grupo mais específico: os cristãos judeus.

Como aos cristãos judeus? A resposta a esta pergunta encontra-se no início da carta, isto porque, ao registrar que estava falando a quem conhecia a lei, é possível demonstrar que Paulo estava tratando especificamente com os cristãos de origem judaica e que agora pertenciam à igreja que estava em Roma.

Por ser uma carta intitulada: ‘Epístola de Paulo aos Romanos’, muitos são levados a entender que Paulo escreveu especificamente aos cristãos chamados dentre os gentios que habitavam em Roma. Porém, ao observar alguns versos desde o início da carta, veremos que Paulo escreveu focado em dois grupos de cristãos: cristãos chamados dentre os judeus e cristãos chamados dentre os gentios. Observe:

  • “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso Pai segundo a carne?” ( Rm 4:1 ) – Com base neste versículo, Paulo estava escrevendo aos cristãos judeus ou aos cristãos gentios? De quem Abraão é pai segundo a carne? Dos Judeus ou dos gentios? Observe que Paulo está tratando especificamente com os judeus desde o capítulo 2;
  • “… mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é Pai de todos nós” ( Rm 4:16 ) – Através deste verso, Paulo procura convencer os filhos de Abraão segundo a carne (os judeus) que todos os cristãos, tanto gentios quanto judeus, efetivamente são filhos de Abraão segundo a fé. Ora, segundo a fé Abraão é pai de todos os que creem, sem distinção alguma, tanto de judeus quanto gregos;
  • “… porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” ( Rm 6:14 ) – Ora, quem esteve debaixo da lei a não ser os cristãos chamados dentre os judeus? Perceba que o público alvo da carta aos Romanos inicialmente eram os judeus convertidos, embora os cristãos gentios também pudessem se beneficiar da exposição de Paulo;
  • “Convosco falo, gentios” ( Rm 11:13 ) – Observe que, após tratar diretamente com os judeus, Paulo direciona o seu discurso aos cristãos chamados dentre os gentios, para que eles não se ensoberbecem contra os cristãos que foram chamados dentre os judeus.
  • “Mas tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ) – Paulo direcionou o seu discurso especificamente aos cristãos judeus a partir deste ponto em diante, embora, o alvo da mensagem do evangelho seja todos os homens sem distinção alguma ( Rm 2:3 ).

Quem eram os irmãos que conheciam a lei? Os cristãos judeus ou os gentios? É certo que Paulo diz dos cristãos judeus ( Rm 7:1 ).

O que os cristãos estavam aparentando desconhecer? Eles demonstravam desconhecer que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que viver ( Rm 7:1 ).

Paulo questiona os seus interlocutores se eles desconheciam que a lei só tem domínio enquanto o homem está vivo. Ora, se eles morreram com Cristo (foram batizados), como era possível questionarem a possibilidade de permanecerem no pecado para que a graça aumentasse ( Rm 6:1 ).

Ora, como é possível a alguém que morreu para o pecado estar sob o domínio do pecado? (Romanos 6: 2). Para quem não compreendeu que a lei não mais tinha domínio sobre os cristãos, visto que todos morreram com Cristo, Paulo apresenta a figura da mulher ligada à lei do marido, para ilustrar a verdade exposta no capítulo 6.

 

 

A Figura da Mulher ligada ao Marido

2 Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.

Um exemplo claro de que é impossível a alguém que morreu para o pecado permanecer no pecado é apresentado através da figura da mulher sujeita a lei do marido (lei estabelecida no matrimonio).

Enquanto o marido viver, a mulher estará ligada ao marido pela lei. Porém, morto o marido, qual o papel da lei? A viúva deveria continuar submissa à lei mesmo após a morte do marido?

É certo que, morto o marido, a lei continuará a existir, porém, a viúva não mais será alcançada pela lei, por mais que a mesma lei continue a submeter outras mulheres casadas a seus maridos, ela não submeterá a viúva.

Os leitores da carta de Paulo deviam construir um paralelo entre eles, que morreram para o pecado, e os não crentes, que permaneciam vivos para o pecado.

Quem não foi batizado (morreu) em Cristo, e que, portanto, não morreu com Cristo, permanece vivo para o pecado e sob a égide da lei. Quem não é batizado em Cristo, mesmo sem causa é transgressor “Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa” ( Sl 25:3 ).

Quem crê em Cristo, ou seja, quem espera na salvação providenciada por Deus (esperam em ti), jamais serão confundidos. Porém, todos os que não confiam em Deus serão confundidos, pois mesmo sem causa são transgressores ( Sl 25:3 ).

O que isto quer dizer? Ora, todos os nascidos em Adão são transgressores por natureza, sem qualquer relação direta com questões comportamentais ou morais. Mesmo quando não transgridem leis sociais, morais e comportamentais, são transgressores diante de Deus.

Quem confia no Senhor, morre para o pecado e ressurge uma nova criatura, que jamais será confundida, pois a salvação providenciada por Deus não advém das regras sociais, morais ou comportamentais, antes, é salvo por ter sido novamente criado na condição de filhos de Deus.

A lei do marido só tem razão de ser enquanto o marido estiver vivo, pois tal lei estabelece a sujeição da mulher ao marido, porém, após a morte do marido, a viúva está livre da lei do marido.

 

3 De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.

Paulo convida os seus interlocutores a pensarem e a chegarem a uma conclusão. Enquanto o marido viver, a mulher será chamada adúltera se for de outro homem, porém, após morrer o marido, a mulher estará livre da lei, e não mais será adultera se for de outro homem.

As figuras utilizadas por Paulo, tanto da escravidão quanto da mulher ligada ao marido pela lei são simples de entender.

Diante da lei jamais um escravo seria livre sem a aquiescência do seu senhor. Caso o senhor viesse a falecer, o escravo simplesmente fazia parte dos espólios do seu antigo senhor, porém, não seria livre.

Somente a morte do escravo é que o tornava livre do seu senhor, uma vez que a lei e o antigo senhor nada representavam para o escravo após a sua morte. Como é sabido, o pecado é um senhor tirano que não concede liberdade a seus escravos. Somente a morte deixa livre o pecador do seu tirano senhor, no entanto, seguirá para a eternidade sob condenação eterna.

O cristão efetivamente morre com Cristo, e é por isso que o pecado deixa de exercer domínio como senhor sobre ele.

Quem morre (a morte natural) como servo do pecado seguirá para a eternidade sob condenação, porém, aquele que morre com Cristo, é julgado em Cristo para não ser condenados com o mundo. Quem morre para o pecado em Cristo, ressurge uma nova criatura, e passa a viver para Deus.

O ponto principal que Paulo demonstra neste verso é que, após morrer o marido a mulher está livre da lei do marido. Do mesmo modo, após o escravo morrer, livre está do seu senhor.

Por certo, ao morrer para o pecado e para a lei, o cristão é livre da lei e do pecado. A figura da escravidão demonstra que o cristão é livre do pecado ( Rm 6:6 ), e a figura da mulher ligada ao marido pela lei, que o cristão é livre da lei ( Rm 7:4 ).

 

Argumentos Conclusivos

A figura da mulher ligada a lei do marido ( Rm 7:2 ) e a figura da escravidão ( Rm 6:18 ) que Paulo apresentou anteriormente conduz o leitor à conclusão que é apresentada nestes três versos a seguir.

Paulo novamente enfatiza que os cristãos estão mortos ( Rm 7:4 ), o que foi demonstrado nos capítulos anteriores exaustivamente “Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ). Todos cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

Paulo descreve de modo retroativo os eventos pertinentes àqueles que morreram em Cristo:

  • “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 ) – diz do agora (presente), diz da nova condição pertinente a vida dos cristãos. Para alcançar esta posição (mortos para o pecado), os cristãos ressurgiram com Cristo (vivos para Deus);
  • “…todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (v. 3) – Antes de ressurgir com Cristo, os cristãos foram sepultados pelo batismo na morte de Cristo, ou seja, o batismo que Paulo faz referência não é o batismo em águas, antes ao batismo na morte;
  • “…fomos sepultados com ele pelo batismo na morte…” (v. 4) – o sepultamento se dá efetivamente no batismo na morte, o que não dá vazão a doutrina da regeneração batismal;
  • “…fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte…” (v. 5) – a semelhança não é um faz de conta, antes a semelhança que os cristãos foram plantados é conforme a morte de Cristo;
  • “Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…” (v. 6) – antes de estar efetivamente morto, antes de ser batizado, ou seja, ser plantado com Cristo, em primeiro lugar o ‘velho homem’ foi crucificado com Cristo.

É pertinente ao modo literário do apóstolo Paulo, apresentar inicialmente a condição efetiva dos cristãos “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade,…” ( Ef 1:13 ), para depois demonstrar como alcançaram tal condição “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ). Geralmente o apóstolo dos gentios apresenta aos cristãos a nova condição em Cristo, para depois demonstrar como se alcançou tamanha graça. Para tanto, ele demonstra qual era a condição do homem sem Cristo.

Paulo faz alusão a um princípio doutrinário do evangelho nos versos três a cinco do capítulo 7, mas para compreendê-los é preciso relembrar o que Jesus disse aos discípulos através da figura da árvore e seus frutos: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Através da figura da árvore e seus frutos Jesus demonstrou que é impossível uma árvore boa produzir frutos maus, e que é impossível uma árvore má produzir frutos bons. Ora, este princípio é observável na natureza, porém, que aplicação há com relação às questões espirituais?

Jesus demonstrou que é impossível um falso profeta (lembre-se que eles têm aparência de ovelha), produzir frutos bons, ou seja, dizer o que é verdadeiro. Ora, nem todo o que diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus, porque produzem frutos maus, ou seja, não professam a Cristo segundo a verdade do evangelho (não produzem bons frutos).

Qual é o fruto bom? O fruto dos lábios que professam a Cristo! ( Hb 13:15 ). Quem professa a Cristo, conforme diz a Escritura, é porque nasceu da semente incorruptível. É plantação do Senhor, árvores de Justiça ( Is 61:3 ).

Os nascidos em Adão são árvores más, plantas que o Pai não plantou, e todos os seus frutos são maus. Porém, aqueles que creem na palavra da verdade são plantação do Senhor, árvores de Justiça, e produzem frutos bons, ou seja, professam a Cristo, pois este é o fruto que Deus criou Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

É preciso relacionar Rm 6:19 e Rm 6:22 com Rm 7:4 sem esquecer que, antes de serem libertos do pecado, os cristãos eram escravos do pecado, e, portanto, só podiam produzir para o seu senhor.

Lembrando que um servo não pode servir a dois senhores e esta mesma impossibilidade é encontrada na figura da árvore, pois do mesmo modo que um servo do pecado não pode servir à justiça, uma árvore má não pode produzir frutos bons.

Como pode um servo da justiça servir ao pecado, se é impossível servir a dois senhores? ( Rm 6:20 ). Ou melhor, como pode alguém que está morto para o pecado, viver ainda nele? ( Rm 6:2 ). Como é possível a uma árvore que germinou de uma semente incorruptível produzir frutos maus? ( 1Pe 1:23 ). Como ser achado ainda pecador, quem já se refugiou em Cristo? ( Gl 2:17 ).

O capítulo 7 da carta aos Romanos apresenta uma resposta a estas perguntas.

 

Os Frutos

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:4 – 6).

 

4 Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.

O comparativo é estabelecido entre os cristãos e a figura da mulher que estava ligada ao marido através da lei “Assim, meus irmãos, também vós…” (v. 4).

Observe a similaridade entre este verso e Efésios 1: 13:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” ( Ef 1:13 );

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo…” ( Rm 7:4 ).

‘Estar em Cristo’ e ‘estar morto para a lei’ aponta para uma mesma condição diante de Deus: uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘em Cristo’ é dizer que ele é uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘morto para a lei’ é o mesmo que dizer: você é uma nova criatura “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é…” ( 2Co 5:17 ).

Por que os cristãos estavam mortos para a lei pelo corpo de Cristo? Porque através do evangelho conclui-se que, se um morreu por todos, logo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Ora, foi através da oferta do corpo de Cristo que os cristãos deixaram a condição de velha criatura e passaram à condição de nova criatura ( Hb 10:10 ).

A oferta diz do corpo de Cristo, do corpo que o Verbo encarnou. Foi através do corpo humano que Deus preparou para o seu Filho ( Hb 10:5 ), que os cristãos passaram a estar mortos para a lei.

Quando Paulo faz referência ao corpo de Cristo, ele está fazendo referência à morte de Cristo, ou seja, ao corpo que foi apresentado imaculado como oferta a Deus. Deste modo, por causa do corpo de Cristo, que foi entregue aos pecadores, os cristãos estão mortos para a lei.

Como? Ao apresentar um paralelo entre a figura da mulher que estava ligada ao marido pela lei, e que após a morte do marido não mais estava sujeita à lei, Paulo demonstra que a lei só teve alcance sobre os cristãos pelo tempo que em que viveram na carne ( 2Co 5:15 ).

Uma vez que todos que creram em Cristo foram crucificados, mortos com Cristo, e sepultados com Cristo, que relação há entre a lei e o cristão?

Da morte com Cristo surge uma nova condição: livres da lei e do pecado.

Enquanto filhos de Adão, gerados da semente corruptível, o homem está sob o domínio da lei e da escravidão do pecado, através do corpo de Cristo, o homem efetivamente morre, e passa a compartilhar da natureza divina através da ressurreição com Cristo.

Antes de morrer com Cristo, a quem os cristãos pertenciam? Ao pecado, ao mundo, às trevas, à ira, à perdição e estavam debaixo da lei (certamente morrerás). Agora, por estarem em Cristo, os cristãos passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos.

Os cristãos não pertencem ao Cristo que veio em carne, antes pertencem àquele que ressurgiu dentre os mortos para louvor da glória e graça de Deus ( 2Co 5:16 ).

Por que os cristãos estão mortos para a lei? Por que eles passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos? A resposta é simples: “… a fim de darmos fruto para Deus”.

Como é possível dar fruto para Deus? Assim como é próprio a árvores produzir frutos segundo a sua espécie é próprio à natureza daqueles que estão mortos para a lei produzirem frutos para Deus! Não depende do esforço do homem.

Como os cristãos são árvores de justiça, plantação do Senhor é próprio da nova natureza produzir fruto para Deus.

Repassando:

  1. Os cristãos estão mortos para o pecado e não podem viver nele. Paulo não fez uma recomendação aos cristãos: – Vocês não devem viver no pecado! Antes, ele demonstrou que é impossível viver no pecado, quando se está morto para o pecado ( Rm 6:2 ). Paulo demonstra que é impossível viver no pecado, o que difere completamente da concepção de que ele tenha ordenado a que não vivessem em pecado. Ou o homem vive para a justiça ou vive para o pecado. É impossível o homem viver para ambos;
  2. Os cristãos andam em novidade de vida porque ressurgiram com Cristo, ou seja, só é possível ‘andar em novidade de vida’ quando se vive no Espírito, ou seja, após morrer e ressurgir com Cristo ( Rm 6:4 ; Gl 5:25 );
  3. Os cristãos foram plantados juntamente com Cristo, na semelhança da sua morte, e, portanto, são semelhantes a Ele na ressurreição: a morte não tem mais domínio ( Rm 6:5 e Rm 6:9 ; “…qual ele é, somos nós também aqui neste mundo” 1Jo 4:17 );
  4. O pecado não mais tem domínio sobre os cristãos, pois não estão debaixo da lei (morreram), ou seja, o pecado não reina sobre os cristãos de modo que venham a produzir frutos que tenham do que se envergonhar ( Rm 6:14 e Rm 6:21 ).

É próprio à natureza daqueles que foram gerados de novo produzirem frutos de justiça, e que o comportamento humano não se vincula ao fruto que Deus cria Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

Os frutos que os cristãos produzem para Deus são provenientes do próprio Deus sem qualquer relação com o esforço humano. Quem é nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ), é plantação do Senhor, ou melhor, plantas que o Pai plantou ( Mt 15:13 ). Ora, as plantas que o Pai plantou produzem frutos segundo a sua espécie: frutos bons.

É por isso que o profeta Isaías registrou: “Eu crio o fruto dos lábios…”. Por quê? Ora, se a boca fala do que o coração está cheio “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ), um coração mal só fala malignidade, mas de um coração novo, que é criado por Deus ( Sl 51:10 ), só é possível produzir fruto bom.

Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito. Tudo que é proveniente do novo coração foi criado por Deus, e, por isso mesmo, Ele criou o fruto dos lábios.

Quem vive de acordo com a verdade do evangelho é porque está em Cristo, de modo que todos podem ver claramente que as suas obras são feitas em Deus, pois quem vive em trevas e nela anda, não vem para Cristo, porque amam mais as trevas do que a luz para preservarem as suas próprias obras ( Jo 3:19 – 21 ).

 

A Carne e o seu Fruto

5 Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.

Paulo neste verso faz referência à antiga condição dos cristãos, quando estavam vivos para o pecado e mortos para Deus.

Naquele tempo específico, quando os cristãos estavam na carne, eles davam frutos para a morte. Hoje, em Cristo, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 e Is 57:19 ). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios ( Is 57:19 ).

É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ). Os cristãos estão livres do pecado e os seus frutos são para Deus e por fim herdarão a vida eterna ( Rm 6:22 ), porém, antes de aceitarem a Cristo eram servos do pecado, os seus frutos eram para o pecado, e por fim herdariam a morte eterna.

As paixões pertinentes ao corpo do pecado existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado. Quem morre com Cristo, crucifica o corpo do pecado e as suas paixões “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a natureza carnal que produz tal fruto, pois, a inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez às paixões e concupiscência da carne.

Analisando a seguinte tradução com base em outros versículos: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ), chega-se à seguinte conclusão: não são as paixões dos pecados que produzem fruto para a morte. Como? Ora, dizer que as paixões e as concupiscências produzem fruto para morte é o mesmo que dizer que o comportamento humano é que produz a morte (separação de Deus).

Porém, como é de conhecimento geral, a natureza pecaminosa herdada de Adão, designada carne, é que estabeleceu a morte (condenação) e produz para a morte (iniquidades). É por isso que quando os cristãos crucificam a carne, crucificam também as paixões e as concupiscências ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões e as concupiscências que se inclinam para a morte, antes é a carne. A carne é sujeita à lei, e a lei realça as paixões e as concupiscências nos membros (corpo) que pertencem à carne.

Assim sendo, o versículo é melhor traduzido quando evidencia a condição da carne (sujeição ao pecado), e para quem ela produz o seu fruto (para a morte). Ou seja: “… quando estávamos na carne (…), frutificávamos para a morte”. Com relação às paixões, Paulo somente evidenciou que elas são (realçadas) através da lei, e que efetivamente tais paixões operavam nos membros da carne.

Sugestão de emenda a tradução: “Porque, quando estávamos na carne (as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros) frutificávamos para a morte”.

Basta comparar os versos ( Rm 7:4 e Rm 7:5 com o verso 16: “… sóis servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça” ( Rm 6:16 ).

É possível o homem escolher não obedecer ao pecado sem ter obedecido a Cristo? É possível ao homem abandonar o pecado sem ser adquirido por Cristo? Não!

Ora, a humanidade sem Cristo (escravos) obedece ao pecado (senhor) porque foram introduzidos no mundo sob o domínio do pecado. Em Adão a humanidade ‘obedeceu’ ao pecado! Adão é a porta larga pela qual todos os homens entraram, e seguem por um caminho largo que os conduz à perdição.

Embora muitos procurem realizar boas ações, as suas obras não passam de trapos de imundície. Por serem servos do pecado todas as obras dos homens são más, ou seja, os servos do pecado frutificam para a morte.

Em Cristo, o último Adão, os homens são novamente criados segundo Deus, livre do poder do pecado, e sob o jugo da justiça. Ao entrar pela porta estreita, o homem deixa de produzir para a morte e passa a produzir para a justiça, pois se inclinam para a vida que há em Deus e para a paz que excede a todo entendimento.

 

Em Espírito e em Verdade

6 Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Paulo apresenta uma conclusão à sua exposição: agora, após serem libertos da lei, ou seja, mortos para aquilo que estavam retidos (a lei), os cristãos servem a Deus em novidade de espírito.

Por que em novidade de espírito? Porque após crer em Cristo o homem adquire um novo coração e um novo espírito, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Sl 51:10 ; Ef 4:24 ).

Paulo demonstra que os judeus não serviam a Deus, antes, só tinham zelo, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ). Por quê? Porque só é possível servir a Deus em espírito e em verdade, ou seja, quando o homem é gerado do Espírito, o mesmo que ser circuncidado no coração. Somente em Cristo é possível ao homem alcançar a condição de servir a Deus em espírito ( Jo 4:23 ).

A condição ‘em espírito’ só é possível quando o homem é gerado de Deus. É por isso que Jesus disse a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Somente após o homem ser gerado de novo através da fé em Cristo torna-se possível servir a Deus (o Espírito Eterno) em espírito.

Os judeus pensavam servir a Deus, porém, a qualquer homem nascido de Adão (nascido da carne) é impossível servir a Deus. Deus somente ‘conhece’ aqueles que o adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:24 ; Gl 4:9 ).

Paulo estava tratando diretamente com os judeus convertidos, como foi demonstrado anteriormente, e aqui temos outra evidência: somente os cristãos judeus tentaram servir a Deus através da velhice da letra (lei de Moisés), ponto abordado por Paulo que não tem relação com os gentios.

Só é possível servir a Deus em novidade de espírito, e, somente Ele, é quem ‘renova’ (cria) no homem um espírito reto ( Sl 51:10 ). Só é possível ter novo coração e um novo espírito quando o homem está livre da lei, ou melhor, quando morre para aquilo em que se estava retido.

Como é possível ao homem morrer para o que estava retido (lei)? Através da circuncisão do coração! Quando Moisés apregoou a circuncisão do coração ao povo de Israel, tal circuncisão só era possível através da fé em Deus, Aquele que tem o poder de circuncidar o coração, ou seja, Ele mata o homem gerado em Adão e concede um novo coração “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Somente após alcançar novo coração (novo nascimento) o homem compreende a palavra de Deus “Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” ( Dt 29:4 ).

Em resumo: Os cristãos morrerem com Cristo, portanto, estavam livres da lei. Qual o objetivo de os cristãos terem morrido para a lei, ou antes, morrido com Cristo? Para servirem a Deus com um novo espírito e um novo coração ( Ez 36:25 – 27 ). Ora, o novo coração e o novo espírito só são possíveis alcançar através da regeneração em Cristo.

A lei de Moisés (velhice da letra) não poderia proporcionar o novo nascimento. Somente o evangelho de Cristo, que é a água limpa aspergida pelo Espírito Eterno, faz nascer o novo homem para louvor de sua glória ( Jo 3:5 ; Ez 36:26 ). É através do evangelho que o homem recebe poder para ser criado em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

Após declarar que os cristãos eram livres da lei ( Rm 7:6 ), do mesmo modo que eram livres do pecado ( Rm 6:6 ), poderia surgir um entrave na mente de alguns cristãos: acharem que Paulo estava equiparando a lei ao pecado ( Rm 7:7 ).

 

Verbos, flexões e Interpretação

Como interpretar este versículo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ).

Quem crê em Cristo é (presente) salvo ou será salvo (futuro)? Por que Jesus disse: quem crer será salvo? Você é salvo ou ainda será salvo no futuro?

Há pessoas que dizem que ainda não estão salvas, mas que serão salvas. Ao serem indagadas, citam o seguinte versículo: “quem crer será salvo”, ou seja, porque o verbo salvar está no futuro essas pessoas entendem que somente estarão salvas no futuro.

O argumento anterior é válido? Não! Por quê?

Porque a frase: ‘quem crer será salvo’ está corretíssima, porém, ‘quem crê está salvo’, também é correta e não contradiz a afirmação anterior.

No verso 16, do capítulo 16, do evangelho de Marcos (Mc 16:16 ), o verbo ‘crer’ está no infinitivo, ou seja, neste caso o verbo conserva a forma não flexionada: ‘crer’.

A frase ‘Quem crer…’ é impessoal, ou seja, o verbo ‘crer’ não faz referência a nenhum sujeito específico. Qualquer homem que ouvir a mensagem do evangelho e crer assumirá a condição de salvo, ou seja, assumirá a condição de sujeito desta frase.

Como o verbo ‘crer’ está no infinitivo, e neste caso o infinitivo não é flexionado, o verbo ‘ser’ é conjugado no futuro simples. Porém, se colocarmos o verbo ‘crer’ no presente ‘crê’, o verbo ‘ser’ é posto no presente: ‘é’. Compare:

Quem crer será salvo;
Quem crê é (está) salvo.

É só substituir o pronome indefinido ‘Quem’ por um substantivo, que a frase apresenta os verbos em tempos flexionados: João crê, portanto, é salvo.

Por que o verbo ‘crer’ foi colocado no infinitivo? Porque a mensagem do evangelho destina-se a todas as pessoas em todos os tempos. A mesma mensagem apregoada por Cristo e os apóstolos continua atual, e destina-se a todos os homens, em todos os tempos e lugares.

Esta primeira análise é gramatical, porém, é possível analisar o mesmo versículo através de outros recursos.

Ao escrever aos cristãos de Coríntios, Paulo disse: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Paulo aponta a nova condição dos cristãos efetiva no presente. Ora, se alguém (sujeito indeterminado) está (presente) em Cristo é uma nova criatura, ou seja, a salvação é efetiva hoje: “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ).

Paulo utiliza neste verso todos os verbos no presente para falar de uma condição pertinente a todos quantos creem em Cristo.

João, ao falar da salvação, registrou: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ). João fala da salvação como sendo um evento do passado. Todos quantos creram no nome de Jesus receberam poder para serem feitos filhos de Deus. Quem creu, recebeu poder, o que nos leva a seguinte conclusão: quem crê está salvo.

Os tempos verbais podem causar muitos problemas na hora de interpretar um versículo específico ou uma carta. Erros podem surgir da má compreensão dos tempos verbais, principalmente quando há regras para se estabelecer a correta correlação verbal proveniente de questões gramaticais.

O capítulo 6 da carta aos Romanos contém alguns versículos que podem causar alguns problemas na hora da interpretação. Observe:

  • “Se formos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição?” ( Rm 6:5 ) – O versículo é argumentativo, ou seja, o apóstolo não fez uma afirmação. Por causa desta peculiaridade do argumento apresentado por Paulo é preciso estabelecer uma correlação verbal entre as orações, que é ‘a articulação temporal entre duas formas verbais’. No argumento apresentado por Paulo, ‘se formos plantados’ surge a correlação com o verbo ‘ser’ no futuro (seremos). Porém, é assente que os cristãos já morreram com Cristo ( Cl 3:3 ), e, portanto, são semelhantes a Cristo na sua ressurreição ( Cl 3:1 ; 1Jo 4:17 ), pois assim como Jesus é, são os cristãos aqui neste mundo;
  • “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:8 ) – Neste verso o apóstolo baseia-se na premissa de que os cristãos já morreram com Cristo (para morrer com Cristo é preciso crer), segue-se que os cristãos creram, morreram, ressurgiram, e que também esperam que viverão para sempre com Cristo. O fato de Paulo ter colocado o verbo ‘viver’ no futuro, o que dá uma ideia de algo que será alcançado, é proveniente do argumento introduzido pela partícula ‘se’. Caso o apóstolo tivesse apontado a morte efetiva dos cristãos, a conclusão seria: com ele vivemos.

 

É a Lei Pecado?

“Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Diante do que foi exposto, Paulo convoca os cristãos ao raciocínio: “Que diremos, pois?”.

Com base no que já foi demonstrado anteriormente, qual a conclusão que os cristãos deveriam abraçar? Que a lei é pecado? A resposta é clara: De modo nenhum! A lei não é pecado!

Embora o apóstolo não tenha afirmado no decurso da carta que a lei é pecado, alguns judaizantes poderiam distorcer os argumentos e afirmar que Paulo anunciou que a lei é pecado. Como Paulo anunciava que os cristãos eram livres do pecado e da lei, alguém mal intencionado poderia anunciar que Paulo estava equiparando a lei com o pecado, distorcendo o que o apóstolo dos gentios procurou evidenciar.

Paulo demonstra incisivamente que a lei não é pecado para desfazer qualquer conclusão diferente da verdade do evangelho. Ele apregoou a necessidade dos cristãos livrarem-se da lei, porém, nunca disse que a lei é pecado.

Este deve ser um dos cuidados de quem interpreta as escrituras: não concluir por si só algo que não foi afirmado categoricamente. É necessário saber diferenciar argumentação, asserção e conclusão. Uma argumentação é construída com premissas, porém, as premissas e as argumentações não podem ser consideradas como sendo uma asserção (afirmação).

Do mesmo modo, uma conclusão não tem o mesmo valor de uma asserção, pois a asserção deriva da conclusão ou da argumentação. Isto porque, as premissas utilizadas em uma argumentação que levará a uma conclusão geralmente foram retiradas de asserções. Exemplo:

  • Uma asserção: “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 );
  • Uma argumentação: “…como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 );
  • Uma conclusão: “Pois o pecado não terá domínio sobre vós…” ( Rm 6:14 );
  • Duas premissas: “…porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça ( Rm 6:14 ).

Observe que as duas premissas apresentadas em Romanos 6: 14b são excludentes ( Rm 6:14 ). Ora, quem está debaixo da graça não pode estar sob a lei, e vice-versa.

Deste ponto em diante, o leitor deve estar atento as peculiaridades apresentadas acima, sabendo divisar bem o que é argumento, premissa, asserção e conclusão.

Quando questionou os seus interlocutores acerca da lei (É a lei pecado?), Paulo esperava ter como resposta uma negativa (De modo nenhum!). Em seguida, ele apresenta argumentos que desfaz qualquer argumentação dos judaizantes que vincule a lei ao pecado (versos 7b a 11), para que seus leitores possam chegar à seguinte conclusão: “Portanto, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom” ( Rm 7:12 ).

Agora analisaremos os versos 7b a 11 de Romanos 7, para que possamos chegar à mesma conclusão que Paulo estabeleceu: a lei é santa e o mandamento também ( Rm 7:12 ). Qualquer conclusão que destoe da conclusão que Paulo apresenta no verso 12 de Romanos 7, demonstra que o interprete ‘prevaricou’ na sua atribuição.

Para chegar à conclusão de que ‘a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom’, é necessário analisar criteriosamente os cincos versículos ( Rm 7:7 -11) e algumas questões pertinentes à linguística.

 

Figuras de Linguagem

Durante a leitura da carta aos Romanos é fácil perceber que Paulo utiliza um recurso linguístico (figura de linguagem) ao falar do evangelho de Cristo. Observe:

  • “… para a obediência da fé entre todos os gentios…” ( Rm 1:5 );
  • “… porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé ( Rm 1:8 );
  • “… seja consolado pela fé mutua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ).

Tal figura de linguagem é denominada perífrase, onde temos a palavra ‘fé’ substituindo a palavra ‘evangelho’, assumindo a ideia da palavra substituída. O evangelho foi anunciado aos gentios para obediência. Do mesmo modo, em todo mundo era anunciado o evangelho, ou seja, a vossa fé. Paulo e os cristãos seriam consolados mutuamente através do evangelho (fé mutua).

Perceba que, para não repetir várias vezes a palavra ‘evangelho’ e dar maior graciosidade a escrita da carta, Paulo substitui alguns termos por outros, utilizando-se de alguns recursos pertinentes à linguagem.

Após descobrir este uso de uma figura semântica, faz-se necessário observar com acuidade toda a carta, visto que, algumas ‘figuras de linguagem’ ou ‘recurso de estilística’ pode interferir na interpretação do texto.

Desta forma, analisemos a seguinte afirmação de Paulo: Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 ). O que o ‘apóstolo dos gentios’ expõe neste verso era de conhecimento geral dos cristãos, uma vez que eles ‘bem sabiam’ do que Paulo estava tratando.

Percebe-se através do contexto que a palavra ‘verdade’ em Romanos 2: 2, substitui a palavra ‘evangelho’, como se verifica no verso 16.

  • “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 );
  • “Isto sucederá no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por meio de Jesus Cristo, segundo o meu evangelho” ( Rm 2:16 ).

Ora, se o julgamento de Deus é segundo a verdade do evangelho, fica claro que o julgamento de Deus não é segundo a lei. Perceba também que o juízo é segundo a verdade (presente), e que há um dia preordenado para ser manifesto este juízo ( Rm 2:5 ), o que indica que o juízo segundo a verdade já ocorreu e está estabelecido.

Porém, ‘segundo o evangelho (de Paulo)’, Deus também julgará os segredos dos homens. Isto demonstra que o juízo de Deus foi estabelecido no passado em Adão “O Juízo veio de uma ofensa (…) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo…” ( Rm 5:16 e Rm 5:18 ), e, que, Deus julgará todos os homens segundo as suas obras no futuro (Grande Trono Branco) ( Ap 20:11 ).

Procuramos demonstrar que é similar a ideia entre ‘evangelho’ e ‘verdade’, ‘fé’ e ‘evangelho’, porque recursos literários semelhantes a este foram utilizados diversas vezes pelos apóstolos.

 

 

Qual a relação entre Pecado, Lei e Conhecimento?

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Para compreender a declaração: “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei”, é necessário saber:

a) de qual lei o apóstolo estava falando;
b) o que é pecado, e;
c) o que é ‘conhecer’. Após responder as questões acima, será possível verificar de que ‘eu’ o apóstolo estava falando.

A primeira citação da palavra ‘lei’ Paulo fez na carta aos Romanos no capítulo 2, verso 12: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Já analisamos este verso, porém, faz-se necessário aprofundar a análise.

É possível inferir de Rm 2:12 que os que sob a lei pecaram são os judeus, do mesmo modo, que os gentios pecaram sem lei. Isto demonstra que Paulo estava escrevendo acerca da lei de Moisés, visto que, desde Adão até Moisés todos pecaram, mesmo não tendo uma lei específica.

Não é porque os gentios não possuíam uma lei que não estavam sob condenação. Do mesmo modo, não é porque os judeus possuíam uma lei, que não haveriam de perecer. Ou seja, todos pecaram e estavam debaixo de condenação, e seguiam para a perdição ( Rm 3:9 ).

Isto demonstra que a transgressão à lei mosaica não é o que subjugou a humanidade ao pecado. Porém, Paulo demonstra que o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a ter comunhão intima com o pecado através da lei ( Rm 7:7 ), o que indica que em Rm 7:7 ele não está se referindo a Lei de Moisés, antes fez referência a lei perfeita da liberdade concedida ao homem no Éden ( Gn 2:16 – 17).

Ora, Adão perdeu a comunhão com o criador quando desobedeceu a ordenança divina que foi dada no Éden, e por causa da ofensa dele, todos pecaram, tanto gentios quanto judeus. Todos ficaram alienados da glória de Deus, ou seja, ‘conheceram’ o pecado.

O pecado subjugou a humanidade por causa da desobediência à lei dada no Éden. Ora, tanto os que estavam sob a lei de Moisés quanto os gentios, ambos pecaram, o que demonstra que o pecado decorre da desobediência de Adão.

Desta análise é possível concluir que Paulo faz referência a dois tipos de lei na sua carta. Uma refere-se à lei de Moisés, e a outra à lei de Deus outorgada no Éden. Desta última decorre a penalidade eterna: ‘certamente morrerás’, ou seja, o homem ‘conheceu’ a separação da vida que há em Deus através da ofensa no Éden.

Ora, se o pecado decorre da desobediência à lei dada no Éden, logo, o ‘eu’ da qual o apóstolo faz alusão refere-se a algo proveniente de Adão, e que é comum a todos os homens destituídos da glória de Deus.

 

O que é pecado?

Se uma das definições de pecado é a transgressão da lei ( 1Jo 3:4 ), como é possível pecar sem lei? ( Rm 2:14 ) Qual lei transgredida é pecado: a lei de Moisés ou a lei dada no Éden?

Paulo afirma categoricamente que a lei não é pecado ( Rm 7:7 ). Também afirmou que os gentios pecaram mesmo sem lei. Estas afirmações levam-nos a concluir que, o pecado surgiu da transgressão à lei dada no Éden, e não da transgressão das prescrições de Moisés.

Uma das definições de pecado geralmente é extraída da I carta do apóstolo João, que diz: “Todo aquele que comente pecado, transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ) Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, Ed. Vida. Se adotarmos este verso da carta de João como sendo a definição de pecado, como é possível aos gentios pecarem, se eles não têm lei?

Observando a carta de João, perceba que apenas neste verso a palavra ‘lei’ foi utilizada. No decurso da carta de João a palavra que foi utilizada diversas vezes é ‘mandamento’, porém, 1Jo 3:4 destoa da carta. A palavra “lei” também não é utilizada nas outras cartas do apóstolo João.

Já a versão João Ferreira Corrigida não utiliza a palavra lei em I João 3: 4, observe: “Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade” ( 1Jo 3:4 ). Versão Corrigida e fiel.

Ora, surge a dúvida: o pecado é ‘iniquidade’ ou o pecado é a ‘transgressão da lei’?

Pois bem, dúvidas a parte, segue-se que, ao ler os versículos nestas traduções, faz-se necessário analisar o seu contexto para chegarmos a um entendimento acerca das palavras utilizadas pelos tradutores, e qual a ideia que os apóstolos procuram evidenciar.

Ora, inferimos de Rm 2:12 que é plenamente possível pecar mesmo sem lei. Bem antes da lei de Moisés a morte reinou sobre todos os homens ( Rm 5:13 ). Desde Adão até Moisés a morte reinou sobre os homens o que significa que todos pecaram ( Rm 5:14 ). Daí, vale destacar que, o pecado impera aparte da lei mosaica.

Como? Um homem pecou, todos pecaram ( Rm 5:18 ). Ora, se um só homem pecou e todos pecaram, segue-se que o pecado que subjugou a humanidade não decorre da desobediência à lei de Moisés, visto que, após a desobediência de Adão, Deus não instituiu de imediato leis, porém, mesmo assim, todos morreram, o que demonstra que todos estavam em pecado.

O homem peca porque foi vendido como escravo ao pecado, e isto através da ofensa de Adão. Jesus é claro ao afirmar: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). O homem peca porque é escravo do pecado, e não porque transgride a lei de Moisés.

Resta a pergunta: O que é pecado? ‘Pecado’ diz da condição da criatura quando divorciada do Criador.

Quando a criatura se distancia do Criador, a condição ‘em pecado’ se manifesta. Ou seja, pecado é o mesmo que estar destituído da glória de Deus (morto para Deus e vivo para o mundo).

Se pecado fosse a transgressão da lei de Moisés ( 1Jo 3:4 ), não haveria como o homem ser formado em iniquidade e nem gerado em pecado, pois como poderia alguém transgredir no ventre materno? ( Sl 51:5 ).

Verifica-se nas Escrituras que um homem transgrediu e que todos transgrediram. Um pecou e todos vêem ao mundo separados de Deus, destituído da Sua Glória, porque todos pecaram pelo simples fato de serem descendentes de Adão.

O que toda humanidade passou a compartilhar após a ofensa de Adão? A mesma condenação! Como o apóstolo Paulo demonstrou que através da lei o ‘eu’ ‘conheceu’ o pecado, isto demonstra que o ‘eu’ surgiu quando da ofensa de Adão, pois ninguém pode transgredir a semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).

Somente Adão poderia e vendeu a humanidade como escrava ao pecado. O ‘eu’ jamais poderia pecar a semelhança do pecado de Adão, antes o ‘eu’ surgiu do pecado de Adão.

A humanidade conheceu o pecado por causa da ofensa de Adão, visto que todos são gerados em iniquidade e concebidos em pecado. O ‘eu’ não possuía autonomia para ‘conhecer’ o pecado, antes ‘conheceu’ o pecado por ser descendente da carne de Adão.

Enquanto os judeus acreditavam que os homens eram pecadores por não serem descendentes de Abraão e transgressores da lei de Moisés, o salmista Davi demonstra que os pecadores diante de Deus são transgressores sem causa ( Sl 25:3 ).

Sem esquecer que Paulo estava tratando com cristãos judeus e que o seu discurso tinha como tema central o Cristo crucificado, é necessário considerar que ele procurava dissuadir os que continuavam apegados à lei, como se ela fosse essencial à justificação ( Gl 5:4 ).

A concepção humana aponta que a justiça divina é proveniente da lei, como é o caso da justiça humana. ‘Sem lei não há justiça’, está é a concepção dos homens, porém, a justiça de Deus tem por base o seu eterno poder, e não a lei.

Como Deus perdoa pecados? Com base na ‘lei’ ou no seu ‘poder’? Ao curar um paralítico Jesus demonstrou que o perdão dos pecados tem como base o seu eterno poder: “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico)…” ( Mc 2:10 ). O versículo não esta dizendo que Deus tem ‘autonomia’ para perdoar pecado, antes que Ele detém o poder necessário para perdoar pecado.

É por isso que João disse: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ). Ora, é através do poder de Deus que a justiça de Deus se estabelece, diferente da justiça dos homens, que têm nas leis a sua maior expressão de justiça. O perdão do pecado só ocorre quando Deus cria (Bara) o novo homem.

Qual o poder necessário para perdoar pecado? O poder de transformar homens gerados segundo a carne em filhos de Deus! Ou seja, somente tem o pecado perdoado aqueles que são recebidos por Deus na condição de filhos. Para tanto é necessário nascer de novo, da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

Os homens procuram valer suas leis através de sanções, e a lei é invocada apenas quando alguém descumpre suas prescrições. Diante de suas leis os homens clamam por justiça, mas da mesma lei criada para se fazer justiça surgem inúmeras injustiças. Elas nunca podem reparar o dano, somente tem valor punitivo.

Da justiça de Deus é preciso considerar que:

  1. Ela não é tardia, pois é aplicada quando do nascimento dos homens;
  2. Ela alcança a todos os homens, sem distinção alguma;
  3. Ela não precisa de leis, antes se aplica à natureza dos homens;
  4. Todos os homens gerados segundo a natureza de Adão foram julgados e estão debaixo de condenação;
  5. Somente os homens gerados segundo o último Adão, que é Cristo, estão livres de condenação;
  6. Ela não se vincula à moral, ao comportamento ou ao caráter, antes alcança a natureza, que é permanente;
  7. Ela é reta, e não se prende às questões de mérito ou demérito proveniente das relações humanas.

O evangelho é poder de Deus que gera homens espirituais estabelecendo a justiça de Deus. É por isso que o evangelho é descrito como semente incorruptível e através desta semente os homens tornam-se árvores de justiça, plantação do Senhor. As árvores plantadas por Deus produzem frutos bons, já as plantas que Ele não plantou produzem frutos maus. Não há como o homem gerado em Adão ser aceito por Deus, e tão pouco suas obras. Aqueles que são gerados de Deus, não são rejeitado, e tão pouco as suas obras ( Mt 15:13 ).

 

O que é ‘conhecer’ o pecado?

A palavra ‘conhecer’ na Bíblia possui dois sentidos e só o contexto pode indicar o seu real significado. Em determinados contextos a palavra ‘conhecer’ indica ‘união intima’, ‘estar ligado intimamente’ ou ‘ser participante da mesma natureza’. Quando Paulo escreveu: “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ), ou “O Senhor conhece os que são seus” ( 2Tm 2:19 ), ele demonstra que o ‘conhecimento’ de Deus vai além da ‘ciência’ de algo, ou seja, neste contexto a palavra ‘conhecer’ indica comunhão intima com o Criador ( Jo 17:11 ; Jo 17:21 – 22).

O significado mais utilizado para a palavra ‘conhecer’ é ‘saber acerca de’, ‘ter ciência de’, diferente do significado apresentado nos versículos acima. Observe como a mesma palavra é empregada com sentidos diferentes na frase seguinte: “Só conhece (saber acerca de) a concupiscência aqueles que ‘conhecem’ (união intima) o pecado, ou antes, foram conhecidos dele”.

Antes de pecar (conhecer o pecado = união intima), jamais seria possível a Adão conhecer (saber) que estava nu “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” ( Gn 3:7 ).

Quando Adão conheceu que estava nu, não havia nenhuma lei estabelecida por Deus sobre a nudez, porém, por causa da corrupção do pecado, ele constatou haver uma lei escrita em seu coração, testificando a sua consciência e os seus pensamentos, que o acusou de estar nu.

Adão encontrou em si mesmo uma lei ao reconhecer que estava nu. Ele passou a fazer naturalmente as mesmas coisas que, no futuro, seriam pertinentes à lei de Moisés, ou seja, mesmo não tendo a lei de Moisés para norteá-lo, Adão seguiu uma lei impressa em seu coração, proveniente do fruto do conhecimento do bem e do mal ( Rm 2:14 – 15).

Como Adão pecou, ou seja, ‘conheceu’ o pecado? Pela lei! Como assim? Adão conheceu o pecado pela transgressão da lei perfeita que foi dada no Éden: “De todas as árvores comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 – 17).

Através da lei o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a estar destituído da glória de Deus, separado do Criador, ou ainda, em comunhão intima com o pecado por causa da desobediência de Adão.

Paulo é enfático: a lei não é pecado, porém, através dela o homem tornou-se ‘carnal’, ‘conhecendo’ (união intima) o pecado “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei” ( Rm 7:7 ). Quando escreveu aos cristãos em Roma, Paulo não mais ‘conhecia’ o pecado, visto que esta condição se deu noutro tempo, quando ele conheceu o pecado por intermédio da lei ( Ef 2:2 e Ef 2:3 ).

Observe que o verbo ‘conhecer’ está no passado, o que indica uma situação remota e diversa da nova vida que Paulo alcançou em Cristo. Observe também que a palavra ‘conhecer’ em Rm 7:7 indica ‘união intima’ com o pecado (estar em pecado).

Para os judaizantes e alguns cristãos judeus, era absurdo o pecado ser ‘conhecido’ (união íntima) através da lei. Para eles, através da lei Deus estabeleceria a sua justiça. Após apresentar argumentos que contradiz o pensamento dos judaizantes, Paulo apresentou outro argumento: “…porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 ).

Ora, do mesmo modo que o homem soube (conheceu) por intermédio da lei que é vetado cobiçar, por intermédio da lei dada no Éden que diz: ‘…dela não comerás…’ ( Gn 2:17) o homem passou a ‘conhecer’ (união intima) o pecado (separação de Deus).

Como já demonstramos anteriormente, a concupiscência não é o pecado, antes a concupiscência é o engodo da carne sujeita ao pecado.  É algo próprio do mundo, ou seja, a existência humana ( 1Jo 2:16 – 17). Ora, quando o cristão crucifica a carne, a concupiscência também é exposta ao vitupério ( Gl 5:24 ). Os cristãos não estão entregues a concupiscências, visto que a concupiscência é pertinente aos corações incircuncisos ( Rm 1:24 ), ou seja, que não aceitaram a circuncisão de Cristo, que é o despojar da carne ( Cl 2:11 ).

As paixões desordenadas pertinentes a carne existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado que é gerado segundo Adão ( Rm 7:5 ). Quem morreu com Cristo crucificou o corpo do pecado e as suas paixões, o que leva a concluir que Paulo não mais conhecia a concupiscência pertinente a carne “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as tentações ou paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a carne pertencente ao pecado que produz tal fruto. A inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez as paixões, tentações e concupiscência da carne.

A natureza pecaminosa herdada de Adão, representada pela carne de Paulo que foi crucificada com Cristo, é que produziu a morte (separação e condenação), e para a morte (iniquidades). Em Cristo, Paulo crucificou a carne, e desta forma, as concupiscências que foram ‘conhecidas’ (saber) através da lei, também foram crucificadas ( Gl 5:24 ).

Através da lei, Paulo tomou consciência de que cobiçar era algo pertinente ao pecado. Porém, a carne surgiu pelo pecado de Adão e não depende da cobiça para estar sob condenação, ou seja, mesmo sem qualquer transgressão aparente é imputada a morte (condenação) à carne por ela ser gerada de Adão ( Sl 25:3 ). Não é a cobiça a causa do pecado (separação entre Deus e os homens), antes a causa do pecado é a desobediência de Adão.

Pela lei dada a Adão ( Gn 2:17 ) todos os homens gerados segundo a carne conheceram (uniram-se) o pecado ( Sl 51:5 ). Diferente de Adão, vieram ao mundo sob o domínio do pecado, e a lei mosaica somente evidenciou o pecado ( Rm 7:5 ), trazendo a lume a concupiscência, quando diz: “não cobiçarás”.

Analise estes dois versículos:

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei. Pois eu não conheceria a concupiscência se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 );

“Quando estávamos na carne, as paixões do pecado, realçadas pela lei, operavam em nossos membros a fim de darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ).

Não podemos perder de vista que o objetivo da argumentação do apóstolo dos gentios é levar os cristãos judeus à conclusão do verso 12: “Portanto a lei é santa, e o mandamento, justo e bom” ( Rm 7:12 ), para que não concluíssem que Paulo estava declarando que a lei é o mesmo que pecado. Paulo estava simplesmente demonstrando que a lei serviu de ‘aio’, para conduzir todos os homens a Cristo. Dentre estes homens estão inclusos principalmente os judeus, que pensavam que a lei conduzia o homem a Deus.

Ao escrever: ‘Mas eu não conheci o pecado senão pela lei…’ ( Rm 7:7 ), Paulo fez referência ao tempo em que ele estava morto em delitos e pecados ( Ef 2:5 ). Por causa da lei instituída no Éden ocorreu a queda do homem, e todos passaram a ‘conhecer’ (estar unido) ao pecado.

Se a lei perfeita instituída no Éden deu ocasião à queda de toda a humanidade, outra lei não traria liberdade, no caso, a lei de Moisés. Através da lei o homem somente soube (conhecer) que não devia cobiçar: “…porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás” ( Rm 7:7 ).

A lei dada no Éden enfatizava o cuidado e a liberdade que há em Deus. A lei que Adão transgrediu e que trouxe o ‘conhecimento’ (união intima) do pecado enfatizava plena liberdade em Deus “…de todas as árvores comerás livremente…”. Ela continha o conhecimento necessário para que o homem obedecesse, o que demonstra o cuidado de Deus.

A lei no Éden foi dada para que o homem não atentar contra a sua própria natureza, pois foi criado à imagem e semelhança de Deus. Quando foi destituído da glória de Deus estabeleceu-se a separação (pecado). Do mesmo modo que Deus não pode mentir, foi concedido, por semelhança, uma restrição ao homem, que poderia afetar a sua natureza.

 

 

‘Quem’ outrora viveu sem Lei?

“Que diremos pois? É a lei pecado? Nunca seja assim! Mas eu não conheci o pecado senão através da lei; porque também eu não tinha sido consciente da (minha) concupiscência, se a lei não dizia: “Não cobiçarás”. Mas o pecado, havendo tomado ocasião através do mandamento, operou em mim todo tipo de concupiscência; porquanto sem a lei o pecado estava morto. E eu, outrora, vivia sem lei; mas, havendo vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri. E o mandamento, o qual foi ordenado para vida, este por mim foi achado ser para morte. Porque o pecado, havendo tomado ocasião através do mandamento, me enganou, e me matou através dele (do mandamento) ( Rm 7:7 – 11) – LTT – Bíblia Literal do Texto Tradicional.

 

Para continuarmos é necessário fazermos algumas perguntas:

  1. Outrora ‘eu’ vivia sem lei – Em que período da vida de Paulo ele viveu sem lei? Paulo escreveu aos Filipenses que nasceu sob a lei ( Fl 3:5 ), o que demonstra que jamais ele viveu sem estar sob a égide da lei;
  2. ‘Vivia’ sem lei – Antes de ter um encontro com Cristo era possível o apóstolo estar vivo para Deus? Paulo mesmo disse que todos os homens (ele estava incluso neste rol), eram por natureza filhos da ira ( Ef 2:3 ), ou seja, outrora o apóstolo nunca esteve vivo, visto que estava morto em delitos e pecados, sendo por natureza filho da ira e da desobediência ( Ef 2:5 );
  3. Outrora – “Outrora” diz de um tempo remoto, passado. Quando o apóstolo Paulo utilizou a palavra ‘outrora’, ou ‘noutro tempo’, geralmente a utilizou para designar o tempo em que os homens (mortos) viviam sem Deus ( Ef 2:2 ). O contraste é claro: outrora filhos da ira e da desobediência, agora, uma nova condição em um novo tempo ( Cl 1:21 ).

Ora, como Paulo nunca viveu sem lei, segue-se que o ‘eu’ do qual ele faz referência diz de todos os homens que potencialmente ‘viveram’ em Adão. Como? Se todos os homens morreram em Adão ( Rm 5:12 ), segue-se que todos ‘viveram’ em Adão. Ou seja, o ‘eu’ que Paulo utiliza é uma figura que engloba todos os homens, judeus e gregos, sem distinção alguma, pois se todos morreram ‘em Adão’, todos viveram ‘em Adão’.

Diante do que a Bíblia afirma sobre a vida de Paulo e sobre a natureza humana, não é possível afirmar que Paulo utiliza o ‘eu’ para falar literalmente de si mesmo, visto que, Paulo nunca viveu sem lei. O ‘eu’ também não se refere a sua infância (inocência), visto que ele foi formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Não saber discernir entre o bem e o mal não exime o homem da condenação estabelecida em Adão.

Também sabemos que o pecado nunca esteve morto ou que tenha tornado à vida “…reviveu o pecado…”. A palavra ‘reviver’ aqui empregada não significa tornar a ter vida, antes a ter animo, força, como se lê de Jacó ( Gn 45:27 ).

Quando ocorreu o evento em que o pecado ‘reviveu’, e conseqüentemente o ‘eu’ morreu? A época que Paulo era criança? Quando adulto? De que modo este evento ocorreu se, segundo a lei, Paulo era fariseu?

Percebe-se que o ‘eu’ que Paulo utiliza nestes versos refere-se a Adão, onde toda a humanidade existiu potencialmente. A figura utilizada é a mesma empregada pelo escritor aos Hebreus ao dizer que Levi, que recebe dízimo, por meio de Abraão, pagou dízimo ( Hb 7:9 ; Hb 7:10).

Ora, se um pecou e todos morreram, segue-se que todos viviam em Adão. Porém, ao ser dado o mandamento “…mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerá…”, o pecado achou ocasião e todos morreram. O pecado refere-se à divisão que se estabelece entre Deus e as suas criaturas.

Como sabemos, Satanás é a primeira criatura a experimentar (o pecado) uma existência alienada da vida que há em Deus ( 1Jo 3:8 ). Antes da queda do homem o pecado já existia, porém, com a vinda do mandamento, o pecado reviveu, tomou força e alcançou todos os homens.

O mandamento ordenado no Jardim do Éden era para vida “…dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ), visto que, nele continha plena liberdade e o alerta quanto às conseqüências de se comer da árvore do bem e do mal. O mandamento foi dado especificamente para preservar a vida do homem, porém, o homem achou (entendeu) que era para morte.

Por que tal entendimento? Por causa do pecado, visto que, pelo mandamento o pecado achou ocasião, enganou o homem, e através dele, o matou. Como?

Na determinação divina dada no Éden temos três aspectos:

  1. Plena Liberdade – na primeira parte do mandamento temos plena liberdade;
  2. Preservação da vida – na segunda parte um alerta solene;
  3. Condenação – na terceira parte do mandamento temos a pena imposta: separação da vida que há em Deus.

O elemento que diferencia a lei do mandamento é a pena. No mandamento temos a ordenança: “Não cobiçaras”, sem uma pena previamente imposta. Já na lei, além do mandamento “…dela não comerás…”, temos uma pena estipulada “…certamente morrerás”.

O mandamento de Deus foi dado ao homem visando proteger a vida que possuía e compartilhava de Deus. Porém, através da tentação no Éden, o homem esqueceu-se da liberdade que possuía “De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ), e aquiesceu a palavra do tentador que enfatizou a proibição “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do Jardim?” ( Gn 3:1 ).

Pelo mandamento santo, justo e bom ( Gn 2:16 ), o pecado achou ocasião e matou o homem por causa da força da lei “…certamente morrerás”, que é santa ( Rm 7:12 ). Desta exposição paulina advém a conclusão do versículo 12.

Observe que o pecado só passou a exercer domínio sobre o homem por causa da força existente na lei que estipulava: certamente morrerás.




Romanos 6 – O homem velho foi crucificado com Cristo

Há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus. Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).


Romanos 6 – O homem velho foi crucificado com Cristo

Introdução

“Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante” ( 1Co 15:45 )

 

Para compreendermos a exposição de Paulo nos capítulos 6 e 7 é preciso entendermos as comparações que Paulo faz entre Cristo e Adão.

No capítulo 5 Paulo demonstrou que Adão e Cristo constituem-se ‘os cabeças’ de duas famílias distintas. Este trouxe à vida (existência) os filhos de Deus, e àquele traz à existência na condição de mortos e em inimizade com Deus os filhos da ira, filhos da desobediência, filhos do diabo, ou filhos de Adão.

Comparando Adão e Cristo, os contrastes são evidentes:

  • Em Adão a transgressão e em Cristo o dom gratuito ( Rm 5:15 );
  • Em Adão a condenação e em Cristo a justificação ( Rm 5:16 );
  • Em Adão morte e inimizade, e em Cristo vida e paz ( Rm 5:17 );
  • Em Adão ofensa e em Cristo justiça ( Rm 5:18 );
  • Adão desobedeceu e Cristo obedeceu ( Rm 5:19 );

Em Adão todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus e são justificados em Cristo (o último Adão), gratuitamente pela sua graça por meio da fé ( Rm 3:23 -24).

Paulo iniciou a exposição do livro de Romanos demonstrando o comportamento dos homens destituídos de Deus, e que, todos sem exceção serão trazidos a juízo por causa de suas obras no dia da retribuição de Deus (dia da ira), quando também será manifesto o juízo de Deus que se deu em Adão a todos os homens ( Rm 2:5 -11).

Paulo aponta questões futuras, demonstrando que Deus recompensará a cada um segundo as suas obras ( Rm 2:7 -8), quando forem estabelecidos o Tribunal do Trono Branco para os ímpios ( Rm 2:6 ), e o Tribunal de Cristo para os justos ( 2Co 5:10 ).

Depois, Paulo passou a demonstrar qual a condição dos homens que hoje estão sem Cristo: todos pecaram e juntamente se extraviaram, sem que houvesse um único homem que fizesse o bem ( Rm 3:10 -20). Concomitantemente, ele demonstra a condição daqueles que estão em Cristo: justificados gratuitamente pela graça de Deus por meio da fé em Cristo!

Desta forma, há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus.

Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).

A exposição que Paulo faz aos cristãos Romanos é argumentativa e principalmente teológica, diferente da exposição de Cristo, que é por parábolas e ilustrativa.

Desta forma temos que as parábolas como os dois caminhos, as duas portas, as árvores boas e as árvores más, as plantas que o Pai não plantou, etc, fazem referência a Adão e a Cristo.

Depois de fazer uma exposição teológica, Paulo também apresenta uma figura para ilustrar as considerações teológicas: os vasos para honra e os vasos para desonra ( Rm 9:21 ).

Isto posto, verifica-se que, para estudarmos o capítulo 6 e 7 e chegarmos a uma conclusão plausível, é preciso analisados segundo a ótica do primeiro e do último Adão.

 

1 QUE diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?

A pergunta deste versículo decorre do versículo 20 do capítulo anterior.

“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse. Mas onde o pecado abundou, superabundou a graça (…) Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça aumente?” ( Rm 5:20 e Rm 6:1 ).

Após demonstrar que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, Paulo antecipa-se àqueles que poderiam argumentar que permaneceriam no pecado visando aumentar a graça.

‘Que diremos…’, ou seja, qual deve ser o entendimento do cristão? Permanecer no pecado (em Adão), para que a graça aumente? Não! Este não deve ser o entendimento do cristão.

Não é porque a graça superabundou onde o pecado abundou que o comportamento do cristão deva ser de devassidão.

O pecado reinou pela morte (pena decorrente da transgressão de Adão), e a lei somente fomentou a ofensa ( Rm 5:20 ). Mas, a graça de Deus se há manifestado para que, da mesma forma que o pecado reinou por meio da natureza decaída do homem (carne) e em obediência as suas concupiscências (conduta aquém da lei de Deus), a graça também reine pela justiça através da nova natureza (espiritual) e em obediência à justiça (conduta segundo a lei da liberdade).

 

2 De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?

De modo nenhum! Os cristãos em Roma e o próprio escritor da carta não permanecem no pecado.

Paulo espera que os cristãos raciocinem e cheguem a uma conclusão sobre o ‘permanecer no pecado’ através do parâmetro estabelecido neste verso: Se os cristãos ‘Estão mortos para o pecado’, como é possível permanecer nele? Para os que estão mortos para o pecado não há como viver ou permanecer no pecado.

Da mesma forma que Cristo, quanto a ter morrido, ‘de uma vez morreu para o pecado’ ( Rm 6:10 ), os que morreram com Cristo também de uma vez estão mortos para o pecado ( Rm 6:8 e 10).

 

3 Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?

Para os leitores da carta que argumentassem que permaneceriam no pecado para que a graça aumentasse, Paulo demonstra que quem assim pensa desconhece o real significado do batismo.

Tanto Paulo quanto os leitores da sua carta havia sido batizados na morte de Cristo por meio da fé “…fomos batizados em Jesus…”, ou seja, todos os que creem são batizado na morte de Cristo Jesus “…um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ).

Se todos morreram porque Cristo morreu, isto demonstra que ‘de uma vez morreram para o pecado’ conforme Paulo demonstra no verso 10.

 

4 De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.

É pela fé que o cristão torna-se participante da morte e da ressurreição de Cristo. O batismo nas águas somente simboliza o que o cristão já alcançou pela fé em Cristo: o verdadeiro batismo do homem efetivasse na morte com Cristo.

O cristão é batizado na morte de Cristo e sepultado juntamente com ele. Isto porque, da mesma forma que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória e poder de Deus, os que com ele ressurgem obtenham nova vida (espírito) e andem conforme ele andou (comportamento).

Neste ponto está o grande mistério revelado: Da mesma maneira que através do primeiro Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo que não há nenhum deles que pratique o bem (embora pratiquem boas ações) ( Rm 3:10 -18 e 23), por meio de Cristo, o último Adão, os homens são justificados e conduzidos à glória dos filhos de Deus, e estes por sua vez não praticam o mau (embora sejam suscetíveis de praticar más ações).

Como isto é possível? Este versículo é uma explicação teológica da figura da árvore que Cristo apresentou aos seus discípulos: “Do mesmo modo, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos bons” ( Mt 7:17 -18).

Ou seja, os homens nascidos segundo a semente corruptível de Adão não fazem o bem, e jamais poderão fazer o bem. Eles são plantas que o Pai não plantou ( Mt 15:13 ), nascidos da semente corruptível, e portanto, árvores más, e só podem produzir frutos maus.

Da mesma forma, os homens nascidos da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, estes fazem o bem, visto que as suas obras foram preparadas por Deus de ante mão para que andassem nelas. Estes são plantas que o Pai plantou, árvores boas, e que só produzem frutos bons.

Como Deus fez (plantou) os cristãos novas criaturas para as boas obras (bons frutos), resta que não há como andar segundo o pecado, pois Deus já preparou para as suas criaturas para que andassem em boas obras ( Ef 2:10 ).

Resta que, é impossível àqueles que creem em Cristo, e que, portanto, são boas árvores (participantes da videira verdadeira), pratiquem más obras ou deem maus frutos ( Tg 3:11 -12).

Com base no princípio demonstrado anteriormente é que Paulo demonstra que é impossível aos que foram agraciados com nova vida por meio a fé em Cristo permanecer (v. 1), viver (v. 2) ou andar segundo a velha natureza que foi crucificada com Cristo (v. 4).

 

5 Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;

Este versículo apresentada a mesma ideia que o apóstolo João apresenta em uma de suas carta: “Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no da do juízo tenhamos confiança, porque, qual ele é, somos nós também neste mundo ( 1Jo 4:17 ).

A exposição de João é declarativa, enquanto a de Paulo argumentativa. João afirma categoricamente que os cristãos são como Cristo é, e aqui e agora, neste mundo. João não aponta o mundo vindouro, quando os cristãos serão revestidos da imortalidade, mas que, neste sistema de coisas (mundo) o Cristão já alcançou a mesma posição do Filho de Deus.

É a maneira de João dizer que os cristãos já estão assentados nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 2:6 ).

Como a exposição de Paulo é argumentativa, ele conduz o leitor para chegar a uma conclusão. ‘Se fomos…’ é o mesmo que ‘fomos’ plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte, uma vez que com ele morremos.

Por terem sido plantados na semelhança da sua morte, os cristãos também ressurgem dentre os mortos à semelhança de Cristo. Desta maneira, da mesma forma que Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo. Estão assentados nas regiões celestiais em Cristo.

 

6 Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.

Não há como um cristão dizer que permanecerá no pecado com a ideia de que aumentará a graça de Deus, visto que:

  • O velho homem (nosso) foi crucificado com Cristo;
  • O corpo do pecado (carne) é desfeito, e;
  • Não serve mais ao pecado.

Como seria possível a alguém que crê em Cristo permanecer no pecado, visto que os que creem são crucificado com Cristo e tiveram o corpo do pecado desfeito? Se o corpo do pecado foi desfeito, como viver ou andar no pecado?

O crente é crucificado e sepultado com Cristo para que não mais sirva ao pecado, e segundo este saber, as possíveis argumentações do verso 1 são inconsistentes.

 

7 Porque aquele que está morto está justificado do pecado.

Ou seja, aquele que morreu com Cristo (que está morto) justificado está do pecado. Por assim dizer, também cessou do pecado.

Aquele que está morto para o pecado, não permanece inerte, antes ressurge dentre os mortos para a glória de Deus Pai. O novo homem que ressurge com Cristo, este é declarado justo diante de Deus (justificado).

Aquele que está morto para o pecado é o mesmo que vive para Deus. Por viver para Deus é que o homem recebe a declaração de que é justo.

Os que vivem para o pecado jamais serão justificados por Deus, uma vez que os vivos para o pecado estão mortos para Deus. Paulo disse que, quem está morto para o pecado está justificado, isto por causa do versículo seguinte, onde ele demonstra que quem morre com Cristo, vivem para Deus (v. 8).

A declaração de justo (justificação) é concernente a nova vida adquirida de Deus. Para receber a nova vida é preciso morrer (ter um encontro com a cruz de Cristo). Segue-se que a graça de Deus veio sobre todos os homens, “… para justificação e vida” ( Rm 5:18 ).

 

 

Abordagem Histórica das Transformações Lingüística

Antes de prosseguirmos o estudo da Carta de Paulo aos Romanos, faz-se necessário nos deter em observar as transformações que ocorreram ao longo da história recente sobre o modo de exposição e argumentação do pensamento humano.

A abrangência interlocutiva da linguagem é um fenômeno de todos os tempos e de todas as sociedades, porém, o estudo cientifico deste fenômeno (Pragmática) é recente.

A tendência da metafísica ocidental a partir de Platão (428 – 427 a.c), salvo exceções, tendeu privilegiar a dimensão apofântica (lógica do verdadeiro e falso), declarativa e locutória da linguagem. Perseguiam um ideal de linguagem (lógico-matemático).

O que a metafísica não alcançou, a ciência moderna se declarou herdeira. Para os da ciência moderna (Kepler, Galileu, Descartes e Newton), fazer ciência consiste em matematizar e formalizar, eliminando da linguagem as considerações implícitas, tendo estes elementos da linguagem natural como equívocos ou inadequadas ao discurso científico.

Veja o que Perelman diz da metafísica e da ciência moderna sobre o discurso declarativo como única forma de descrição da linguagem:

“Negar as outras formas de discurso, ou a desvalorizá-las como fazia Platão, acusando de sofístico todo o uso linguístico não apoiado na essência, na definição, na clareza a priori” (Perelman, citado em Meyer, 1992: 120).

Apesar do ostracismo imposto pelas regras da metafísica quando realçadas pela ‘linguagem’ adotada pela ciência moderna, temos na história um outro tipo de abordagem linguística do discurso: a retórica.

A primeira referência a retórica remonta ao século V a.C, tendo em dois sicilianos (Corax e Tisia) os seus idealizadores, por causa de Hiéron, um certo tirano de Siracusa, que, segundo a lenda, teria proibido os seus súdito de utilizar a fala.

A Retórica cresceu em importância na democracia ateniense, visto que, saber falar para persuadir e convencer nas assembleias, tribunais, praças públicas, etc transformou-se em necessidade.

Era preciso a quem fizesse o uso da fala saber convencer o interlocutor da pertinência de sua abordagem. Por fim, os Sofistas, que se auto intitulavam ‘mestres de Retórica’ os seus principais representantes.

Aristóteles ao abordar a Retórica, transforma a ‘técnica de persuasão’ em ciência quando dedica três livros a Retórica, ao compor um conjunto de conhecimentos, categorias e regras.

Essencialmente, Aristóteles demonstrou que a Retórica visa criar meios de persuadir um auditório acerca de uma determinada matéria. Sem fixar-se naquilo que é demonstrável ou analítico, a Retórica tem o que é verossímil ou provável como seu objeto, através de uma natureza puramente discursal (dialética).

O declínio da Retórica teve início no final do século XVI num processo que estendeu-se até o século XIX, que marca o seu desaparecimento. Ela perdeu a influência e sofreu modificações: perdeu o seu objetivo pragmático, deixando de aplicar-se ao persuadir para aplicar-se ao ensino de ‘belos’ discursos.

Tal declínio deve-se a ascensão do pensamento burguês através da evidência pessoal do protestantismo, racional do cartesianismo ou sensível do empirismo (Perelman 1993: 26). Este processo é marcado pelo racionalismo de Descartes, quando erigiu a evidência em critério de verdade. Ele excluiu a argumentação do campo do saber geral e da filosofia em particular. Para ele evidência só através da demonstração, e nunca através da discussão (Perelman 1987: 264).

Mas, qual a relação entre a Retórica, a Metafísica e a linguagem da ciência moderna com a abordagem a Carta de Paulo aos Romanos? A Retórica como uma ‘ciência’ da argumentação de modo a persuadir e convencer o interlocutor teve o seu ápice entre os Gregos e Romanos, sociedade que Paulo, como cidadão Romano fazia parte, e que acabou por influenciar o estilo de composição de suas cartas.

Para uma melhor compreensão dos escritos de Paulo, é preciso utilizar como ferramenta de interpretação de texto e contexto elementos da Retórica. É plenamente verificável que o método de ensino de Paulo é segundo a arte do bem falar, de modo que ele procurava persuadir e convencer os seus interlocutores

As várias condições que Perelman enumera como sendo necessárias a argumentação (Retórica) são plenamente observáveis nas Cartas de Paulo. Paulo sempre:

  • Situa e insere- o seu discurso em um contexto determinado e dirige-se a um auditório determinado;
  • Paulo como orador, através do seu discurso procurava exercer uma ação (de persuasão ou convicção) sobre o auditório;
  • Os interlocutores precisam estar dispostos a escutar, ou seja, a sofrer (aceitar)a ação do orador;
  • Querer persuadir implica renúncia por parte do orador em dar ordens ao auditório, procurando antes, a sua adesão intelectual;
  • Paulo, além do estilo argumentativo, que nada tem a ver com a verdade do evangelho, aponta e defende a verdade do evangelho desvinculado do seu conhecimento humano ou do próprio uso da Retórica;
  • Ao argumentar, Paulo demonstra que é tão possível defender uma tese como a sua contrária. Aplicação prática do exposto por: (Perelman, 1987: 234).

A argumentação (Retórica) de Paulo é distinta da demonstração (lógica), visto que, a concepção da argumentação insere a noção de auditório “O conjunto daqueles que o orador quer influenciar mediante o seu discurso” (Perelman, 1987: 237). O ‘auditório’ de Paulo é os cristãos, e ele conhecia os valores e as teses do seu auditório em especial.

Paulo era versado na Retórica, uma vez que ele não apresenta erros como orador, que é a petição de princípio, que segundo Perelman é: “Supor admitida uma tese que se desejaria fazer admitir pelo auditório” (Perelman, 1987: 239-240). Durante as suas exposições, Paulo trabalha as teses e valores do seu auditório (cristãos), mesmo quando constituído de apenas uma ou algumas pessoas (cartas pastorais e cartas as igrejas), através do questionamento, técnica muito utilizada por Sócrates em seus diálogos platônicos. (Perelman, 1987: 240).

O Capítulo 6 é composto por frases argumentativas, e, portanto, elas não devem ser consideradas ou confundidas com frases conclusivas ou afirmativas.

Quais as diferenças entre frases argumentativas, conclusivas e afirmativas? Como interpretá-las?

Um exemplo claro de frase afirmativa é: “E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ). O apóstolo João é quem trabalha muito com frase afirmativas, ou por vezes declarativas.

Ao relembrar a mensagem anunciada por Cristo, João faz menção de uma frase declarativa e afirmativa: Deus é luz! Tais frases são utilizadas para evidenciar uma verdade inconteste, ou para declarar algo acerca de alguém.

Por exemplo: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje e eternamente” ( Hb 13:8 ). Temos uma verdade e uma declaração acerca de Cristo Jesus. Estas frases podem ser tomadas de maneira isolada do texto e contexto que não trarão grande prejuízo ao leitor.

Ao citar Hb 13:8 é quase impossível alguém intentar negar a imutabilidade de Cristo, embora há quem intente.

As frases afirmativas, declarativas constituem-se premissas que dão sustentabilidade às frases argumentativas e conclusivas.

O apóstolo Paulo é dado a linguagem argumentativa, visto que, o seu discurso visa convencer ou persuadir, seja qual for os seus interlocutores (judeus ou gentios). Argumentar é fornecer argumentos e razões a favor ou contra uma determinada tese ou matéria.

A linguagem de Paulo é segundo a retórica dos Gregos e dos Romanos, que foi concebida como a arte do bem falar, embora a doutrina apregoada por Paulo não tenha se firmado em sublimidade de palavras ou de sabedoria ( 1Co 2:1 ). A arte do bem falar é o falar de modo a persuadir e a convencer através da dialética e tópica, ou seja, uma arte no conduzir o diálogo e a exposição de temas controversos.

A arte do bem falar trabalha com operadores argumentativos que a língua dispõe. Estes dispositivos são designados operadores e conectivos argumentativos. Por causa destes operadores argumentativos, os enunciados de uma frase ou oração, embora tenha uma significação própria do ponto de vista lógico, acaba por divergir quando analisadas do ponto de vista argumentativo.

Vejamos o seguinte exemplo:

a) “Ora, a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés?”;

B) “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:13 -14).

Temos dois enunciados que se analisados do ponto de vista lógico e argumentativo, somente o ponto de vista argumentativo faz com que o segundo enunciado complemente o primeiro. Observe: a pergunta ‘b’ quando tida como um enunciado de cunho lógico somente carece de respostas: Os anjos são ou não ministros enviados a servir em favor dos santos?

Porém, quando analisadas argumentativamente, os operadores argumentativos transformam simples premissas que conduzem a uma única conclusão, diferente do que é próprio a abordagem lógica (verdadeiro – falso).

Desta forma, verifica-se que o enunciado ‘b’ exerce somente a função de enfatizar a divindade de Cristo, sem a pretensão de especificar qual o ‘serviço’ desenvolvido pelos anjos.

Os operadores argumentativos aplicados aos enunciados transforma-os em premissas que conduzem a uma única conclusão, posicionando o enunciado numa certa direção que implicam em conclusões específicas.

Já os conectores argumentativos são dispositivos (advérbios, conjunções e locuções de subordinação ou de conjunção, etc.) que permitem a conexão ou a ligação recíproca de dois ou mais enunciados. Numa argumentação, os conectores podem ligar as premissas entre si, as premissas com a conclusão e a conclusão com as premissas.

Bibliografia: Retórica e Argumentação, Paulo Cesar, Universidade da Beira Interior, 95/96.

 

As argumentações deste capítulo devem ser analisadas segundo o que Paulo demonstrou nos versos 12 à 19 do capítulo 5, da mesma forma que o capítulo 3, versos 23 ao capítulo 5, verso 11, deveriam ser analisados com base no exposto nos versos 21 à 22 do capítulo 3.

Ao declarar que a justiça de Deus é pela fé em Cristo ( Rm 3:21 -22), Paulo apresenta um vasto repertório de argumentos no intuito de demonstrar e convencer alguns dos cristãos da validade do exposto, e, para demonstrar que os seus argumentos não comportam mais que uma conclusão, ele apresenta a seguinte conclusão: “Sendo, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ), e no que ela implica: “… temos paz com Deus…” ( Rm 5:1 ).

A exposição do verso 1 do capítulo 6 segue o mesmo molde do exposto acima. Neste verso o apóstolo simplesmente antecipa-se a possíveis ‘contradizentes’, demonstrando que, qualquer argumento contrário ao que ele haveria de expor, não chegaria a uma conclusão válida segundo a verdade do evangelho, que é conforme o exposto acerca de Adão e Cristo ( Rm 5:12 -19).

O verso 1 deste capítulo fundamenta-se no verso 20 do capítulo 5, onde fica claro que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, ou seja, a graça já foi demonstrada abundante (passado) em Cristo (na sua morte), não sendo mais necessário que alguém procurasse ‘promover’ a graça (para que a graça aumente).

O pecado abundou sobre os nascidos em Adão, porém, a graça de Deus demonstrou-se superabundante por intermédio de Cristo, nosso Senhor. Qualquer tentativa humana em promover a graça, é inócua, visto que, ela já foi demonstrada em plenitude (superabundou), quando Cristo morreu pelos homens, sendo eles ainda pecadores ( Rm 5:8 -10).

 

Mortos com Cristo

8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos;

Os versos 1 à 6 traz o leitor a seguinte conclusão: o cristão já morreu com Cristo (juntamente). Observe que Paulo inclui-se na narrativa ao demonstrar que, ele e os destinatários da carta, morreram com Cristo.

Até o verso 2 deste capítulo o apóstolo tão somente fez referência à morte de Cristo, demonstrando que, Ele foi entregue e morto por causa dos pecados dos homens que foram gerados em Adão ( Rm 4:25 ). As questões acerca da morte de Cristo, que reconciliou os que creem com Deus, são plenamente respondidas ( Rm 5:10 ), porém, como se deu a justificação dos que creem, está questão é respondida através dos versículos que demonstram que os cristãos também morreram com Cristo.

O verso 8 é um enunciado argumentativo por causa dos conectores argumentativos (ora, se e que), porém, o enunciado apresenta o seguinte pressuposto: Já morremos (os cristãos) com Cristo.

Em primeiro lugar, o apóstolo demonstrou que Cristo morreu ( Rm 5:8 ) (argumentação segundo valores intrínsecos a ele e seus interlocutores: a fé no evangelho). Todos os cristãos sabiam que Cristo havia morrido na cruz do calvário! Temos na argumentação uma premissa: Cristo morreu.

Logo em seguida, Paulo apresenta outro enunciado argumentativo, do qual podemos extrair a seguinte premissa: todos os cristãos estão mortos para o pecado ( Rm 6:2 ). Após apresentar um novo enunciado argumentativo, Paulo procura certificar-se de que todos possuíam o mesmo conhecimento: “Ou não sabeis que…” ( Rm 6:3 ), de que o batismo do cristão representa a sua morte com Cristo.

Dai segue-se o seguinte raciocínio:

a) Cristo morreu (premissa 1);

b) Os que creem morreram com ele para o pecado (premissa 2 – é o que o batismo representa);

c) surge a conclusão ao relacionar a premissa 1 com a premissa 2: Como Cristo morreu e os cristãos também morreram, logo, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos, os cristãos também ressurgiram com Ele ( Cl 3:1 ).

Mas, por que o versículo aponta que com Cristo viveremos (futuro), e não que com ele vivemos (presente)? Por causa do exposto no verso 5, onde o apóstolo destaca a semelhança com Cristo. Ou seja, os cristãos foram plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte para que os cristãos alcancem a semelhança do Cristo ressurreto, o que ocorrerá quando o que é mortal se revestir da imortalidade (futuro).

Hoje o cristão vive e anda em Espírito, pois o corpo do pecado foi desfeito na cruz do calvário, porém, só alcançará a semelhança da ressurreição de Cristo, quando da manifestação dos filhos de Deus ( Rm 8:19 ), que serão semelhantes a Cristo.

Desde o momento em que o homem crê, ele passa a viver e andar segundo a vida concedida por Deus, porém, este versículo destaca que a vida com Deus é sempiterna (viveremos = habitaremos para sempre). “Ora se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos”, ou seja, o viveremos indica a eficácia da salvação poderosa providenciada por Deus e manifesta na morte de Cristo (graça superabundante).

 

9 Sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele.

No verso três Paulo, lembra os cristãos que todos foram batizados na morte de Cristo “Ou não sabeis que…” (v. 3), e nos versos 6 e 9, ele demonstra que todos tinham um conhecimento em comum “Pois sabemos isso (…) Pois sabemos que…” (vs. 6 e 9).

Os cristãos sabiam que Cristo morreu (v. 3), e que havia ressuscitado dentre os mortos, e que Ele jamais voltaria a morrer novamente. Cristo jamais voltará a se sujeitar a passar pela paixão da morte, uma vez que ela foi vencida na cruz do calvário.

 

10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.

O verso 10 complementa o verso anterior. Paulo reafirma que, quanto a ter morrido, Cristo morreu uma só vez por causa do pecado da humanidade decorrente de Adão. Porém, com relação a vida decorrente da ressurreição, Ele vive para sempre à destra de Deus.

Este verso demonstra que, se os cristãos realmente criam que efetivamente morreram à semelhança de Cristo, isto significava que eles também morreram de uma vez (não é preciso morrer outra vez) e para sempre para o pecado. Da mesma forma, quanto a viver, viverão para sempre com Deus à semelhança de Cristo “…cremos que também com ele viveremos” (v. 9).

 

11 Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.

Paulo procura conscientizar os seus leitores a considerarem (Retórica perfeita) que estavam mortos para o pecado e vivos para Deus. “Assim também…” remete as considerações apresentadas anteriormente.

Ou seja, da mesma maneira que ‘conheciam’ que Cristo morreu uma única vez por causa do pecado e foi sepultado, os cristãos deveriam considerar estarem mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus.

Esta relação entre a morte de Cristo e a morte dos cristãos, e a vida de Cristo e a nova vida dos cristãos Paulo Já havia estabelecido no verso 8, porém, discorre de forma a não deixar dúvidas quando a morte dos cristãos para o pecado, e ressurreição deles para vida, por meio de Cristo Jesus.

Considerar é ter em conta, ou seja, é andar conforme a nova vida alcançada “…assim andemos nós também em novidade de vida” (v. 4). Paulo não recomenda um faz de conta ao pedir que os cristãos considerassem estarem mortos para o pecado e vivos para Deus. Eles deviam contar com a nova vida e descansar por estarem de posse dela (regeneração), porém, andarem de modo digno da nova condição alcançada graciosamente (comportamento).

 

12 Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências;

Os versos 12 e 13 não devem ser considerados como uma determinação (ordem), pois é próprio à retórica a renúncia, pelo orador, a dar ordens ao auditório.

A conjunção coordenativa conclusiva (portanto) demonstra que todo o enunciado (vs 12 e 13) depende das considerações expostas anteriormente (vs 9- 12), ou seja, o verso 12 não é uma ordem direta e inflexível (Não reine.), como se o homem possuísse domínio sobre o pecado (isto considerando o pecado quanto a figura de senhor).

A partir do momento que o cristão considera que está morto para o pecado (v. 11), automaticamente estará cônscio de que o pecado não exerce domínio sobre ele (reinado), e que já não cumpre com as obrigações do pecado.

O pecado não exerce domínio (reine) sobre o corpo mortal dos que creem, de maneira que o cristão ‘deva’ se submeter as suas concupiscências (do pecado).

Este verso apresenta a mesma ideia do verso 14: a partir do momento que o homem passa a estar debaixo da graça, é porque o corpo do pecado foi desfeito (v. 6) e a lei não exerce qualquer influência sobre ele. O pecado deixa de ter domínio, e portanto, já não reina o pecado sobre o corpo mortal dos que creem.

Este versículo apresenta uma nova realidade aos cristãos, e não uma determinação do apóstolo aos cristãos.

 

13 Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.

A nova condição em Cristo permite aos cristãos não apresentar os seus membros (corpo mortal) ao pecado (antigo senhor) por instrumento de iniquidade. Diante da nova realidade decorrente da morte com Cristo que é a do pecado não exercer domínio (não reine) sobre os seus ouvintes, Paulo apresenta argumentos que demonstram ser possível também andar em novidade de vida.

Os que morreram com Cristo passaram à condição de vivos para Deus, uma vez que rejeitaram o pecado através da fé em Cristo, e podiam apresentarem-se a Deus, visto que estavam de posse da nova condição: vivos dentre mortos.

Apresentar-se a Deus refere-se ao serviço voluntário do servo ao seu novo Senhor, ou seja, é estar consciente de que os seus membros (corpo) deve estar a serviço do seu Senhor como instrumento de justiça.

Observe que a função de instrumento é estabelecida através de um comparativo: ‘como’ instrumento. Os homens não são instrumentos, porém, podem entregar-se ‘como’ instrumento de iniquidade ou de justiça. Um instrumento não tem iniciativa própria, ficando na dependência de quem o usa. Este comparativo nos remete à carta de Paulo aos Gálatas: “Estes se opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

Um instrumento não possui vontade própria, e por isso carne, e Espírito se põem, para terem os homens como instrumentos. Desta forma os homens como instrumento não fazem o que desejam, antes, são utilizados como instrumento, ou da carne para a iniquidade, ou do Espírito para a justiça.

Um instrumento não possui vontade própria, da mesma forma se estabelecermos este comparativo a pessoa de um escravo. Apesar de um escravo possuir ‘vontade’ por ser um ser humano reduzido a servidão, a condição de servidão faz com que o escravo não passe da condição de um objeto.

Um escravo era tido como um instrumento de produção (máquina), e a sua vontade não era levado em conta, visto que:

a) um escravo não podia possuir propriedades (bens);

b) tudo quanto produz pertence por direito ao seu Senhor, e;

c) em última instância, o escravo não passa da condição de propriedade do seu senhor.

A única certeza de um escravo quanto a receber alguma coisa desta vida era a morte, que o tornaria livre do seu senhor. Desta forma, a morte seria o único salário (recompensa) que um escravo teria direito, pois, como ‘coisa’ que era, um escravo não podia ter posses ou herdades.

 

14 Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.

Após saber ou conhecer que Cristo ressurgiu dentre os mortos e que a morte não tem domínio sobre Ele, resta que o pecado não tem domínio sobre os cristãos, uma vez que ressurgiram com Cristo (v. 9) “Portanto, se fostes ressuscitados com Cristo…” ( Cl 3:1 ).

O fato de os cristãos terem sido batizados com Cristo na sua morte, e ressurgido dentre os mortos para a glória do Pai (v. 4), tirou-os da condição de sujeição a lei, para estabelecê-los debaixo da graça de Deus.

A premissa é: o pecado não tem domínio sobre o cristão. Mas, tal premissa é introduzida por um operador e conectivo argumentativo: porque – conjunção coordenativa explicativa. Ou seja, a premissa (o pecado não terá domínio sobre vós) do verso 14 é introduzida como uma explicação sobre porque o cristão deve considerar-se morto para o pecado e vivo para Deus.

 

 

Jesus Cristo Crucificado

Paulo foi instruído (versado) na arte do bem falar, porém, as suas mensagens não estavam apoiadas e nem consistiam em conhecimento humano (retórica). O tema das suas mensagens era e é a cruz de Cristo “E EU, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado ( 1Co 2:1 -2).

Demonstramos anteriormente que (pág. 17), através da arte do bem falar, Paulo trabalhava a concepção dos ouvintes através da persuasão, porém, em momento algum ele esteve apoiado em elementos provenientes da sabedoria humana (retórica) “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana…” ( 1Co 2:4 ).

Ao expor o evangelho de Cristo, Paulo não estava confiado na Retórica (sublimidade de palavras ou palavras persuasivas de sabedoria humana), antes estava cônscio de que a mensagem do evangelho é poder de Deus ( 1Co 2:5 ; Rm 1:16 ).

Paulo demonstrava efusivamente que a mensagem do evangelho é Espírito e poder (vida), para que os cristãos não depositassem confiança em meras palavras de conhecimento humano “O Espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são Espírito e vida ( Jo 6:63 ) compare: “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder ( 1Co 2:5 ).

Observe a relação entre ‘poder’ e ‘vida’: a vida eterna decorre do poder que emana de Deus por meio da fé em Cristo, o Verbo de Deus, que é a vida de Deus concedida graciosamente aos homens ( Jo 1:4 ).

Jesus, ao falar de si mesmo, apresentou-se como a vida de Deus concedida aos homens ( Jo 14:6 ), e Paulo ao testificar d’Ele, apresenta-O como ‘poder de Deus’, visto que, somente através do poder de Deus (evangelho) os homens alcançam a vida eterna.

Observe a primeira carta aos Coríntios, onde é possível inferir que as divisões entre os cristãos em vários partidos eram provenientes do entendimento de alguns que estabeleciam aqueles que detinham maior conhecimento humano em uma posição de preeminência sobre os demais ( 1Co 1:13 ).

O que percebemos através dos textos bíblicos é que Paulo não promovia estas desavenças. Paulo procurava demonstrar que todos os cristãos foram agraciados e enriquecidos em Cristo, em toda palavra e conhecimento, de modo que, nenhum dom faltava aos cristãos ( 1Co 1:5 ). Se todos foram de igual modo enriquecido em conhecimento e sabedoria, porque estavam se gloriando nos homens se tudo pertencia a eles? ( 1Co 3:21 ).

Se todos os cristãos foram enriquecidos em Cristo em tudo, para quê focar elementos provenientes do conhecimento humano “…os quais são vãos” ( 1Co 3:20 ), se a maior riqueza está na cruz de Cristo?

Paulo demonstra que nada propôs saber aos cristãos, a não ser a Cristo, e Este crucificado “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” ( 1Co 2:2 ), ou seja, o apóstolo não apresentou aos cristãos elementos de sabedoria humana, visto que, tal sabedoria é vã e não vem do alto, conforme também atesta o apóstolo Tiago ( Tg 3:14 -15).

As dissensões nas igrejas eram provenientes daqueles que estavam equivocados em sua carnal compreensão. Tinham a si mesmos por sábios, mas esqueciam que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus ( 1Co 3:18 -19).

Além daqueles que consideravam a si mesmos por sábios segundo a sabedoria deste mundo, havia outros que se gloriavam naqueles que se diziam sábios, o que potencializava as contendas entre os cristãos “…portanto, ninguém se glorie nos homens!” ( 1Co 3:21 ).

Através do exposto por Paulo aos cristãos de Coríntios, verifica-se que a mensagem do evangelho não se mescla à sabedoria humana. Enquanto esta é vã, aquela promove a vida eterna.

Quando Paulo escreveu que a sabedoria deste mundo é vã, ele não estava descartando de todo o conhecimento humano. É salutar que os cristãos sejam instruídos no conhecimento secular, porém, é preciso compreender que o homem jamais se achegará a Deus por meio deste conhecimento.

Enquanto na condição de ‘peregrinos’ nesta vida, o cristão precisa instrui-se para melhor relacionar-se com os concidadãos deste mundo, mas deve estar ciente de que a instrução deste mundo não o torna apto a compreender as coisas do reino de Deus.

Alguém pode perguntar: por quê? A Bíblia apresenta vários motivos:

  • Ter um diploma ou ser versado em ciências humanas não habilita homem algum a compreender a mensagem do evangelho “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” ( 1Co 2:14 );
  • A mensagem do evangelho é loucura para os sábios deste mundo “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem…” ( 1Co 1:18 );
  • A sabedoria deste mundo não promove o conhecimento de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria…” ( 1Co 1:21 );
  • O evangelho apresenta Deus se revelando aos homens por intermédio do seu Espírito, mas nenhum dos ‘príncipes’ deste mundo conheceu a Cristo, embora fossem sábios e entendidos “A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu (…) Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito…” ( 1Co 2:8 -10).

O que observamos em Paulo é que, apesar de ele ter sido instruído nas questões seculares, ele não usou desta sabedoria para se impor sobre os demais cristãos. Porém, não podemos negar que, ao expor o evangelho em suas cartas, Paulo utiliza elementos da retórica para melhor expor a verdade do evangelho.

Mas, quando comparamos as cartas de Paulo e Pedro, verificamos que, com relação à mensagem apregoada, as cartas de Pedro não ficam aquém do exposto pelas cartas Paulinas.

O problema quanto à sabedoria deste mundo surge quando alguém se arroga na posição de sábio e mestre, porém, firma-se na sabedoria deste mundo, e não na sabedoria que é do alto, proveniente da revelação de Deus por intermédio do evangelho ( 1Co 3:18 -20).

O homem movido pelo conhecimento deste mundo se vangloria em suas conquistas pessoais e apresentam os seus títulos como troféus. Acaba ensoberbecendo-se contra o seu irmão, e esquece que, as conquistas pessoais deste mundo não tornam ninguém diferente perante Deus “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” ( 1Co 4:7 ).

Um exemplo claro de como o conhecimento humano interfere na compreensão da palavra do evangelho encontramos na doutrina da justificação.

Muitos estudiosos ao examinar a Bíblia compreendem que a justiça divina é semelhante a apresentada nos tribunais humanos, e estabelecem esta relação pura e simplesmente por causa da palavra ‘justificação’.

Scofield e Bancroft comungam da mesma opinião quando fazem referência à justificação:

“A justificação é o ato judicial de Deus, mediante o qual aquele que deposita sua confiança em Cristo é declarado justo a Seus olhos…” Teologia Elementar, Bancroft, Emery H., Editora EBR, 3º Ed., pág. 255 (grifo nosso), e nota explicativa do rodapé da Bíblia de Scofield com Referências à Rm 3: 28.

Na mesma página, Bancroft dá uma definição ‘bíblica’ para a palavra justificação: “A palavra ‘justificação’, tanto na terminologia religiosa como na linguagem comum, é um termo ligado à lei (…) É termo técnico e forense…”. Destas colocações surge a pergunta: Onde está definido que a palavra justificação é termo técnico e forense? O que se percebe, é que homens versados em ciências jurídicas passaram a adotar o termo ‘justificação’ como sendo um termo jurídico por entenderem que a justiça divina assemelhasse a justiça humana, ou seja, que Deus também trabalha com ‘ato judicial’.

Ledo engano! Isto quando não apresenta contradições em suas definições. Se considerarmos as notas de Scofield, o que é justificação? É um ato judicial ou um ato de reconhecimento divino?

Se considerarmos a Bíblia, verificaremos que os dois conceitos não condizem com a verdade. A Bíblia não trás uma definição, porém, ela apresenta elementos que apontam para a seguinte definição: Justificação resulta de um ato criativo de Deus!

Por que um ato criativo? Por que envolve o poder de Deus. O homem só é justificado (tornar justo, declarar justo, declarar reto ou livre de culpa e merecimento de castigo) quando crê no evangelho e recebe poder para ser feito (criado) novamente (regeneração) um novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

A necessidade da justificação do homem não é por causa de seus atos, antes por causa da natureza herdada em Adão. Por isso a justificação é de vida, através da ressurreição com Cristo, onde o poder manifesto em Cristo, também se manifesta sobre os que creem “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida ( Rm 5:18 ; Ef 1:19 -20).

Desta maneira, verifica-se que o conhecimento humano não alcança a magnitude da revelação de Deus por meio do evangelho. A sabedoria de Deus não surpreende somente os homens uma vez que a multiforme sabedoria de Deus é revelada aos principados e potestades por intermédio da igreja.

Enquanto o mundo procura sabedoria, o cristão deve fixar-se na mensagem da cruz de Cristo, que é escândalo para os sábios deste mundo, porém, a sabedoria de Deus confunde a sabedoria dos sábios deste mundo, pois o que é anunciado por meio do evangelho constitui-se poder de Deus.

 

Debaixo da graça

15 Pois que? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum.

A argumentação apresentada no verso 2 é complementada através deste verso e apresenta a mesma colocação de João e uma de suas cartas: “Qualquer que permanece nele não peca (…) Qualquer que é nascido de Deus não comente pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” ( 1Jo 3:6 -9).

Sem esquecer que os argumentos deste capítulo fundamenta-se no capítulo 5, do verso 12 ao 21, João apresenta uma figura que ilustra a condição daquele que á nascido de Deus, ou seja, é uma planta plantada por Deus “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

João apresenta o motivo pelo qual o homem nascido de Deus não peca: porque a semente de Deus permanece nele, ou seja, o que determina o tipo de uma planta é a semente.

A Bíblia apresenta dois tipos de sementes: a corruptível e a incorruptível. Está é a palavra de Deus e aquela refere-se a semente corruptível de Adão, por quem todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus por causa da semente de Adão.

Sabemos que uma planta não pode produzir dois tipos de frutos, e nesta ilustração, verifica-se que a planta plantada pelo Pai só pode produzir segundo a semente planta. É um contra senso considerar que a planta que o Pai plantou possa produzir dois tipos de frutos: o bem e o mau.

Segundo o que Paulo apresentou temos:

  • Os mortos para o pecado não podem viver para o pecado ( Rm 6:2 );
  • Ao ser plantado na semelhança da morte de Cristo, o homem é semelhante a Cristo na ressurreição ( Rm 6:5 ). Uma vez que os cristãos já ressuscitaram com Cristo ( Rm 6:8 ; Cl 3:1 ), segue-se que, qual Ele é, os cristãos o são neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 );
  • A única referência às questões comportamentais no capítulo 6 refere-se a “andar em novidade de vida” ( Rm 6:4 ), visto que ‘viver em Espírito’ diz da nova vida proveniente de Deus;
  • Uma vez que os cristãos não estão debaixo da lei, mas da graça, segue-se que o pecado perdeu o seu domínio ( Rm 6:14 ). Como um servo só pode servir a um senhor, conclui-se que é impossível aos que tem a Cristo como Senhor em suas vidas produzir para Deus e para o pecado.

Neste versículo (v. 15) Paulo retoma a abordagem do verso 2, e demonstra que não há como o cristão pecar (De modo nenhum). Paulo demonstra que este saber era comum aos cristãos, visto que eles sabiam que haviam morrido com Cristo (v. 6). Também sabiam que Cristo havia ressuscitado dentre os mortos (v. 9). Mas, no que implica a morte e a ressurreição de Cristo?

Uma vez que o velho homem foi crucificado com Cristo (v. 6), segue-se que, com a ‘morte’ do velho homem, o cristão é declarado justo (v. 7), conforme demonstra o verso 5: “Porque, uma vez que temos sido plantados juntamente com Ele na semelhança da Sua morte…” assim é o cristão, justo e santo ‘na semelhança da Sua ressurreição’ ( 1Jo 4:17 ).

Uma vez que os cristãos já morreram com Cristo e a ressurreição é na semelhança da ressurreição de Cristo, segue-se que aqueles que morrem juntamente com Cristo, de uma vez por todas morrem para o pecado, já que tanto Cristo como os cristãos passaram a viver para Deus por intermédio da ressurreição. Desta forma os cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo, por causa da nova condição do homem espiritual gerado em Cristo (v. 10).

Muitos entendem que neste versículo (v. 15) Paulo está perguntado aos seus leitores se é pertinente aos cristãos permanecerem em uma vida de devassidão simplesmente por não terem o freio da lei, uma vez que agora estão na graça.

Mas, não é esta a colocação do apóstolo. É preciso considerar a primeira pergunta: “Pois que?”, que introduz os elementos necessário à compreensão do leitor, quando ler a conclusão: “De modo nenhum”.

Paulo através da pergunta: “Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça?” procurou introduzir uma nova figura que ilustrasse e trouxesse conhecimento aos Cristãos: “Não sabeis vós que…” (v. 16), contrastando com o conhecimento que era comum: “Sabendo isto…” (v. 6 e 9).

Após apresentar Adão e Cristo, o pecado e a graça no capítulo anterior ( Rm 5:12 -21), neste capítulo, a primeira referência à lei encontra-se no verso 15. Através deste versículo Paulo demonstra que a ausência da lei não determina a condição de submissão ao pecado, e sim o fato de o homem ter herdado de Adão tal condição. Antes mesmo de ser instituída a lei, já estava o pecado no mundo ( Rm 5:13 ), o que demonstra que a abundante graça de Deus promove a justificação de vida ( Rm 5:18 ), em contraste à condenação herdada de Adão.

Na justificação, Deus declara o homem livre de pecado e culpa, ou seja, o homem é justo perante Ele. Para receber tal declaração de Deus é preciso que o homem não esteja na condição de sujeição ao pecado, e, para isso, não pode pecar, uma vez que somente os escravos do pecado pecam “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ).

Somente cometem pecado os servos do pecado, ou seja, àqueles nascido da semente corruptível de Adão. Isto porque, segundo o apóstolo João, os que tem em si a semente de Deus, nascidos da vontade de Deus ( Jo 1:12 ), estes não pecam ( 1Jo 3:6 -9).

A frase ‘De modo nenhum (…) Pecaremos…” não é uma determinação divina que o homem deva cumprir como uma lei, antes diz da impossibilidade da nova natureza criada na regeneração através da semente incorruptível pecar.

Por não estarmos debaixo da lei (tutelados) pecaremos? De modo nenhum! Pois que os que morreram e ressurgiram com Cristo, de uma vez morreram para o pecado.

 

16 Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?

A frase ‘De nenhum modo’ pede uma explicação da parte do apóstolo sobre a impossibilidade de o homem pecar quando alcançado pela graça. Tal explicação advém de elementos pertinente à figura do escavo, que é introduzida através da argumentação seguinte “Não sabeis vós…?”.

Não sabeis vós que é impossível servir a dois senhores? Não sabeis vós que a árvore só produz fruto segundo a sua espécie? Ou não sabeis que um fonte não pode jorrar água doce e salgada? ( Tg 3:12 ). Todas estas figuras complementam-se e apontam para os elementos apresentados por Cristo acerca das duas portas e dos dois caminhos.

Como o homem apresenta-se como servo para obedecer ao seu senhor (…a quem vos apresentardes por servos…)? Ou seja, como o homem passa a condição de servo daquele a quem ele obedece (pecado ou obediência)?

A Bíblia é clara sobre este aspecto. Todos os homens quando vem ao mundo através do nascimento natural, segundo Adão, apresentam-se ao pecado para o servir e obedecer. Ou seja, o nascimento natural é a porta larga que dá acesso a um caminho espaçoso que conduz a perdição “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 ).

O nascimento segundo a semente corruptível de Adão (natural) é a maneira como o homem se apresenta como servo ao pecado. É o nascimento segundo a vontade da carne, segundo a vontade do varão e do sangue que coloca o homem em sujeição e em obediência ao pecado ( Jo 1:13 ).

Como o homem se apresenta a Deus como servo? Através da obediência a palavra da verdade (evangelho) “…obedecestes de coração a forma de doutrina a que fostes entregues” (v. 17).

 

17 Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues.

Paulo agradece a Deus por de modo nenhum ser possível àqueles que morreram e ressurgiram com Cristo pecarem. Graças a Deus, pois outrora os cristãos foram escravos do pecado, mas, agora, em Cristo, por terem obedecido de coração à forma de doutrina a que foram entregue, foram feitos servos da justiça.

 

Servos da justiça

18 E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.

Esta é a condição daqueles que obedeceram a verdade do evangelho: libertos do pecado e servos da justiça.

É Deus que, por intermédio de Cristo, faz (feitos= criados) os que creem servos da justiça ( Jo 1:12 ).

 

19 Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.

(Falo como homem) – Observe o comentário ao capítulo 3, verso 5. Por causa da fraqueza da carne ou para evidenciar a condição da carne é que Paulo ilustra o tema como se os cristãos judeus ainda estivessem na carne.

Observe que ao falar aos Judeus Paulo se inclui na explicação “Qual é a vantagem do Judeus? (…) E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus? … (Falo como homem)” ( Rm 3:1 -5).

Da mesma forma, ao escrever aos cristãos da Galácia, Paulo assim diz: “Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito. Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta” ( Gl 3:14 -15).

‘Nós’ quem? Paulo fala acerca da bênção de Abraão aos gentios e da promessa do Espírito aos judeus, e que, tanto Paulo e os cristãos judeus receberam (nós).

Por ter feito referência a sua condição como judeu, ou seja, quando Paulo ainda estava na carne, é que ele introduz a ressalva: falo como homem. Isto demonstra que Paulo jamais quis se valer da sua condição de judeu para anunciar a verdade do evangelho.

Neste versículo Paulo registrou que falava como homem porque no verso 1 do capítulo 4 ele fez referência a seu irmãos na carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne” ( Rm 4:1 ), sendo que, as escrituras foram deixadas aos descendentes de Abraão segundo a carne “Ora, não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta, mas também por nós, a quem será tomado em conta…” ( Rm 4:23 -24).

Em seguida Paulo demonstra que ser descendente de Abraão é ser fraco, visto que, ser descendente de Abraão não é ser filho de Abraão “Porque Cristo, estando nós ainda fracos…” ( Rm 5:6 ). Ser filho de Abraão só é possível por meio da fé.

Desta maneira, ao chegar no capítulo 6, verso 19, Paulo reitera que, falou como homem, por causa da fraqueza da carne dos judeus, que não aproxima homem algum de Deus “Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne…” (v. 19).

Compare: ‘nós ainda fracos’ diz de Paulo e dos judeus quando ainda estavam sem Cristo, e ‘pela fraqueza da vossa carne’ diz da condição dos judeus que confiavam da carne (descendência de Abraão) para a salvação, condição que Paulo não mais estava.

Após evidenciar a nova condição daqueles que estão em Cristo (v. 18), Paulo procurou tratar do comportamento dos cristãos judeus, visto que, por ter sido evidenciado que eles não estavam mais tutelados pela lei (v. 14), consideravam Paulo um libertino “Façamos males para que venham bens?” ( Rm 3:8 ).

Ora (pois que), se os cristãos judeus haviam apresentado os seus corpos para servirem à imundície e a maldade através da sujeição à lei, embora as suas ações fossem alvo de louvor por parte dos homens por causa da moral e ética que seguiam, por que não continuar a fazer boas ações e receber de Deus o louvor?

Paulo estabelece um comparativo entre o antes e o depois de aceitarem a verdade do evangelho: “…assim como apresentastes os vossos membros (…) assim apresentai agora os vossos membros …” ( Rm 6:19 ).

Compare:

Na fraqueza da carne, ou seja, na submissão à lei, por acreditar que eram filhos de Abraão (de Deus) por serem descendentes de Abraão, permaneciam filhos da ira e da desobediência, permaneciam carnais.

No poder do Espírito, ou seja, na submissão à graça por meio da fé em Cristo, os judeus cristãos tornaram-se filhos de Abraão, livrando-se da fraqueza da carne e foram criados homens  espirituais Jo 1: 12 e 3: 6.

Por quererem servir a Deus por intermédio da lei, os judeus possuíam uma conduta ilibada se comparado aos outros povos de sua época, porém, esta devoção à lei somente era um serviço à maldade e a imundície. Assim como possuíam uma conduta ilibada diante dos homens por pensarem que era possível servir a Deus por intermédio da lei, agora, libertos da lei e servos da justiça, os cristãos judeus deveriam da mesma forma comportarem-se de modo ilibado e receberiam o louvor de Deus.
Por serem escravos do pecado, tudo o que cumpriam da lei era um serviço à imundície e a maldade, pois o senhor deles continuava sendo a maldade, ou o pecado. Agora, sendo servos da justiça pela fé em Cristo, tudo o que os cristãos realizassem estava sendo realizado em Deus, que preparou as boas obras para que os de novo nascido andassem nelas Ef 2: 10.
Ou seja, se eles não se livrassem da condenação de Adão que os fez filhos da ira e da desobediência, permaneceriam mortos em delitos e pecados, embora as suas ações fossem louvadas pelos homens. Mas, diante dos homens, tais obras não passavam de trapo de imundície, visto que tentava cobrir o velho homem decorrente da natureza de sujeição ao pecado herdada de Adão. Ou seja, agora, livres da condenação de Adão e feitos filhos de Deus, deveriam comporta-se de modo digno da nova condição em Cristo. Embora o que importa é a nova natureza adquirida por meio da fé que opera pelo amor Gl 5: 6, não deveriam entregar-se a devassidão, por não estarem debaixo da lei.

Como os cristãos apresentaram os seus membros para servir à justiça? Por intermédio da fé na mensagem do evangelho, que é poder de Deus, que faz dos homens que creem filhos de Deus.

Após ter sido liberto do pecado, os cristãos foram feitos servos de Deus, e tudo que produzem pertence àquele que os santificou “… para santificação” (v. 19). Não é a prática do que é puro e bom que promove a santificação dos cristãos como alguns pensam, antes, os cristãos foram santificados pela fé em Cristo At 26: 18.

Quando a bíblia diz que é preciso servir à justiça “…para santificação”, ocorre o que chamamos em português de figuras de palavras, e neste caso em específico temos a ‘antonomásia’ ou a ‘perífrase’, que consiste em uma transposição de significado de uma palavra que usualmente significa uma coisa para ser usada com outro significado.

Neste versículo temos a palavra santificação, que é a obra de Cristo no homens que creem, sendo usada em lugar do nome do autor da santificação, dada a relação de semelhança ou possibilidade de associação entre eles. O cristãos serve à justiça ‘para Cristo’, aquele que santifica, ou seja, o autor da santificação.

metonímia: consiste numa transposição de significado, ou seja, uma palavra que usualmente significa uma coisa passa a ser usada com outro significado. A metonímia explora a relação lógica entre os termos. Ex.:
Não tinha teto em que se abrigasse (teto em lugar de casa).

 

20 Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça.

Este versículo expressa o principio: “Nenhum servo pode servir dois senhores” (Lucas 16: 13). A sujeição de um servo a um senhor o torna livre de qualquer outro senhor.

Servo do pecado, livre da justiça. Servo da justiça, livre do pecado. Como servos da justiça os cristãos devem servi-la segundo aquele que santifica. É o mesmo que: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” (Gálatas 5: 25), ou seja, se servimos a justiça por vivermos em Espírito, devemos ser puros e bondosos para andarmos em Espírito, andarmos segundo a vontade de Deus.

 

21 E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? Porque o fim delas é a morte.

Como entender este versículo? Qual era o fruto (resultado) que os judeus tinham, e que agora, por estarem em Cristo, era causa de vergonha? Que ‘coisas’ eram estas que o fim delas é a morte?

Este versículo é melhor traduzido desta maneira: “Naquele tempo que resultado colhestes? Somente as cousas de que agora vos envergonhais; por que o fim delas é a morte” Ed. Revista e Atualizada no Brasil, SBB.

Que fruto os judeus colheram por terem se escudado no sobre nome judeu, repousado na lei e se gloriado em ‘saber’ a vontade de Deus? Nenhum, visto que, a verdadeira circuncisão é a do coração, no Espírito, não na letra (lei) Rm 2: 17 e 29.

O que eles ensinavam podia livrar-lhes da condenação em Adão? Não! Não bastava professar serem filhos de Deus por serem descendentes de Abraão Mt 3: 9, antes precisavam produzir frutos digno de arrependimento, ou seja, professar o nome de Cristo que estava trazendo o reino dos céus aos homens.

Era motivo de vergonha aos judeus terem assumido a posição de mestres, quando na verdade estavam igualmente perdidos como os demais homens, pois todos pecaram e destituídos estavam da glória de Deus Rm 2: 19- 23. Os judeus não estavam em uma posição privilegiada se comparada a dos gentios Rm 3: 9, porém, os seus discursos eram de falsidade e promovia a morte.

 

22 Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna.

Paulo demonstra que, por estarem em Cristo, agora estavam libertos do pecado e em sujeição à justiça.

Os cristãos judeus por serem servos da justiça deveriam professar (fruto) a verdade do evangelho, e não mesclar a lei ao evangelho.

Observe que ‘fruto’ neste versículo não se refere a comportamento, visto que comportamento é ‘semear’, conforme vemos em Gálatas 6: 7- 8.

De igual modo, o Fruto do Espírito não diz de comportamento humano, antes diz daquilo que o Espírito produz naqueles que vivem e andam em Espírito, por terem crucificado a carne com as suas paixões e concupiscência Gl 5: 22- 24.

O fruto que os cristãos judeus precisavam produzir era o fruto dos lábios que professa àquele que os santificou, ou seja, a Cristo “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13: 15). Compare: Pv 18: 20; Is 57: 19; e Mt 7: 20.

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre” Pv 18: 20, ou seja, é o mesmo que: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.” (Mateus 12: 34), visto que, segundo aquilo que professa um homem podemos saber se ele é uma árvore boa ou má Mt 7: 18. Se ele é ou não nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

Segue-se que ‘a morte e a vida está no poder da língua’, visto que aquele que professar a Cristo receberá poder para ser feito filho de Deus Jo 1: 12, e aquele que não professar, já está condenado à morte eterna Pv 18: 21; Jo 3: 18.

Desta forma temos: tenha o vosso fruto, ou seja, professe a Cristo, e por fim, obtenha a vida eterna.

23 Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.

Segue o motivo pelo qual é preciso ao homem professar a Cristo como Senhor: o salário do pecado é a morte, ou seja, o escravo do pecado só terá a morte como possessão.

Em contra partida, o dom gratuito de Deus para aqueles que tem o seu ‘fruto’ para a santificação é a vida eterna.




1 Pedro – Regenerados pela palavra da verdade

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho: a salvação da perdição do pecado. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).


1 Pedro – Regenerados pela palavra da verdade

Eleitos segundo a presciência

1 PEDRO, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia; 2 Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.

Pedro não teve o mesmo problema que o apóstolo Paulo quanto a ter que defender o seu apostolado. Por ter sido escolhido por Cristo para ser discípulo, e visto o Mestre ainda em carne, não teve dificuldades no exercício do seu ministério.

Paulo demonstra em suas cartas que Pedro possuía uma posição de destaque entre os primeiros cristãos, tanto que foi significativo para Paulo passar quinze dias com Pedro e ser recebido entre os discípulos pelo evangelho que anunciava aos gentios ( Gl 1:18 ; Gl 2:9 ).

No decorrer da carta Pedro também se apresenta como o ‘Ancião’ ( 1Pe 5:1 ), e que Silvano foi quem escreveu (escriba) a carta, e que eles estavam na companhia de Marcos ( 1Pe 5:12 -13). A maestria na escrita da carta deve-se a Silvano, mas o conteúdo da carta ao apóstolo Pedro.

Muitos questionam a autoria da carta de Pedro por ele ter sido um simples pescador da Galileia e ter escrito uma carta tão bela em grego semelhante à literatura ática. Estudiosos questionam a autoria da carta por ele citar a Septuaginta, por usar o ‘artigo’ de modo elegante como nenhuma outra carta do Novo Testamento e por ter um vocabulário próprio e numeroso.

Ora, Pedro mesmo demonstra que não foi ele quem escreveu a carta, e sim Silvano. Percebe-se que Pedro apresentou os argumentos e Silvano, na condição de hábil escriba usou o seu conhecimento para imprimir à carta o estilo próprio as frases da literatura ática.

Quando escreveu, Pedro estava em uma cidade que ele nomeou de Babilônia ( 1Pe 5:13 ). Os destinatários da carta estavam em cinco províncias Romanas: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia.

Após identificar-se, o apóstolo aponta quem são os destinatários da sua epístola: os estrangeiros dispersos. ‘Estrangeiros dispersos’ diz dos cristãos que foram perseguidos por causa da mensagem do evangelho ( At 8:1 ; At 11:19 ). Ora, é certo que os dispersos eram na maioria judeus, porém, ao escrever, Pedro tem como foco os cristãos, sem qualquer referência a origem carnal dos cristãos.

Pedro escreveu aos eleitos, ou seja, aos santos e irrepreensíveis em Cristo ( Ef 1:4 ). Os arminianista utilizam-se deste verso para afirmar que a eleição é segundo a presciência de Deus, porém, é necessária uma análise mais rigorosa.

Uma tradução bíblica datada de 1681 diz o seguinte:

Pedro Apoftolo de Jefu Chirifto a os eftrangeiros efpalhados em Ponto, em Galacia, em Cappadocia, em Afia, e em Bythynia. Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae, em fanctificaçaõ de Efpirito…”

Novo testamento, Companhia das Indias Oriental, cidade de Amsterdam, Bartholomeus Heynen e Joannes de Vooght, 1681.

Observe o verso em questão: “Elegidos fegundo a providencia de Deus Pae…” (v. I). Ora, a eleição é segundo a presciência ou providência?

Como já demonstramos no artigo O Evangelho Anunciado, a eleição não é o modo pelo qual Deus salva o homem. Deus não escolheu antes dos tempos eternos quem seria salvo ou não, com base na sua presciência ou na sua soberania. As concepções calvinista e arminianistas não são bíblicas.

Para compreender a ideia que o apóstolo Pedro procurou evidenciar, não se pode interpretar um verso fora do contexto, ou isolá-lo do restante da Bíblia.

A estrutura da primeira carta de Pedro comparada à carta de Paulo aos Efésios é equivalente na estrutura do texto e na ideia que procuraram demonstrar. Observe:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da dispersão, no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na Ásia e na Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:1 -2).

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus: a vós outros graça, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” ( Ef 1:1 -2).

Tanto Pedro quanto Paulo se apresentam, identificam os destinatários, saúdam com graça e paz, apresentam o local onde os cristãos se reuniam, porém, enquanto Pedro fala da nova condição pertinente aos salvos, ‘eleitos’ (presente), Paulo faz referência ao evento da eleição (passado).

Ora, Deus elegeu os cristãos em Cristo ( Ef 1:3 ), e os cristãos são eleitos (condição atual) por estarem em Cristo ( 1Pe 1:2 ).

Para os arminianistas a eleição é segundo a presciência de Deus, e os calvinistas apontam a soberania de Deus. Como a maioria dos tradutores segue uma tendência teológica, não sabemos o quanto estes posicionamentos doutrinários influenciam os tradutores.

Porém, é possível extrair do texto uma resposta: a eleição não é segundo a presciência e nem segundo a providência de Deus Pai, antes é na (em, ou através) Santificação do Espírito. Observe:

segundo a presciência de Deus Pai

Eleitos (condição atual) na santificação do Espírito

para a obediência e aspersão do sangue

Se considerarmos que a frase ‘segundo a presciência de Deus Pai’ é um aposto explicativo, veremos que não imposta à posição que ela é inserida no texto. Ora, têm-se várias cominações possíveis:

“… segundo a presciência de Deus Pai, eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito, segundo a presciência de Deus Pai, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo…”, ou;

“… eleitos na santificação do Espírito para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo, segundo a presciência de Deus Pai…”.

Alguém que segue uma visão arminianista prefere agrupar as várias frases que compõe o versículo segundo a sua concepção: eleitos segundo a presciência. Outro, que não prefere a concepção arminianista, mas a calvinista, preferem a providência divina.

Porém, de acordo com o restante das escrituras, a eleição não é segundo a presciência, antes a eleição é segundo o propósito eterno de Deus. Ora, se é segundo o propósito eterno não pode ser segundo a presciência!

Por tanto, para interpretar ( 1Pe 1:2 ), é necessário considerar que:

  • Nenhum ponto das Escrituras deve ser considerado isoladamente do restante das escrituras “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação” ( 2Pe 1:20 );
  • Algumas frases contidas nos textos são um tipo de aposto explicativo;
  • É necessário observar a forma do discurso do interlocutor, que neste caso específico é o apóstolo Pedro;
  • Não deixar ser influenciado por tendências doutrinárias, que são muitas;
  • Comparar o versículo com o texto de outros escritores da Bíblia;
  • Por ser um versículo complexo deve ser analisado segundo a ideia geral da Bíblia.

Segundo o que Paulo demonstra, os cristãos foram eleitos em Cristo “Pois nos elegeu nele…” ( Ef 1:4 ), e Pedro do mesmo modo demonstra que os eleitos alcançaram está condição ‘… em santificação do Espírito…’ ( 1Pe 1:2 ).

Perceba que tanto Pedro quanto Paulo utiliza o dativo de forma especial (en Cristo = em Cristo) ao escreverem acerca da eleição. É um uso específico do dativo preposicionado, característica própria à sintaxe cristã ao utilizarem o grego.

Ora, Paulo disse que os cristãos foram eleitos em Cristo, portanto, não podemos interpretar que a eleição é segundo a presciência, e sim, em santificação do Espírito.

Como? Ora, as palavras de Cristo são Espírito e vida “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ). É através da Palavra que Cristo santificou a sua igreja “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

A santificação do Espírito é pela palavra do evangelho e a eleição se deu em Cristo, ou seja, ’em santificação do Espírito’ (santificação pela palavra), pois Cristo é o Verbo de Deus, a palavra da vida encarnada.

Ora, dizer que os cristãos foram eleitos ’em Cristo’, ou que são eleitos ’em santificação do Espírito’ evidencia a mesma ideia: a nova criatura (os cristãos) é eleita por estar em Cristo ( 2Co 5:17 ).

Segundo Paulo, os cristãos foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, é para santificação que os cristãos foram eleitos em Cristo antes da fundação do mundo. Temos aqui dois eventos distintos:

  • antes dos tempos eternos, segundo o seu propósito eterno, Deus escolheu a Cristo para ser preeminente sobre todas as coisas;
  • para que Cristo fosse preeminente em tudo, Deus o constituiu como cabeça da igreja, que são os santificados pela palavra, as novas criaturas, homens nascidos segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Em Cristo Deus escolheu os cristãos para que hoje sejam santos e irrepreensíveis. Paulo apresentou o tempo da eleição para demonstrar que os cristãos agora estavam em Cristo na condição de eleitos de Deus ( Ef 1:13 ), e Pedro apresenta a condição dos cristãos hoje (eleitos), e como alcançaram tal condição: em santificação pelo Espírito.

Percebe-se que através da santificação se dá a eleição dos homens, pois para a santificação é necessário ser anunciada a palavra aos homens, estes por sua vez creiam na pregação, e Deus opera a sua maravilhosa obra: a regeneração. Através da regeneração ocorre a justificação e santificação simultaneamente.

Paulo demonstra que os cristãos foram eleitos para santificação (objetivo), e Pedro demonstra que pela santificação do Espírito os Cristãos são eleitos (condição). A condição de eleitos decorre da santificação, mas quando Deus escolheu antes dos tempos eternos aqueles que estariam em Cristo, foi para serem santos e irreprimíveis.

Cristo demonstrou que a santificação é proveniente da sua palavra, que é espírito e vida para todos os que creem. A regeneração só é operada através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Compare: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” ( 1Pe 1:2 ), e “Tendo purificado as vossas almas na obediência a verdade…” ( 1Pe 1:22 ).

A ‘santificação’ ou ‘purificação’ só ocorre através da obediência.

Mas, o que é obediência? Obediência é crer na mensagem do evangelho do mesmo modo que cumprir os mandamentos de Deus é crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Qual a verdade que os cristãos da Galácia não estavam obedecendo? À verdade do evangelho “Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” ( Gl 3:1 ).

Como se obedece a verdade do evangelho? Crendo, como está escrito: “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido” ( Rm 10:11 ).

Pedro procurou demonstra em sua saudação inicial que os cristãos são os eleitos de Deus, pois todos são santos por estarem em Cristo ( Ef 1:2 ). Eles tornaram-se santos (separados) após serem lavados pela palavra da verdade, a palavra do evangelho que obedeceram.

É através da obediência ao evangelho e aspersão do sangue de Jesus que os cristãos foram purificados, tornaram-se eleitos.

Tudo o que ocorreu com os cristãos após ouvirem e obedecerem à palavra do evangelho (aspersão do sangue, santificação e eleição) já era de conhecido de Deus (onisciência) antes dos tempos eternos “Pois os que dantes conheceu…” ( Rm 8:29 ).

Quando os apóstolos falaram da eleição, eles tinham em mente a geração que foi escolhida por Deus e a condição dessa geração. A geração dos eleitos ocorre em Cristo, e a geração dos não eleitos, em Adão ( 1Pe 2:9 ). A geração dos eleitos (justos) se dá em Cristo e a geração dos não eleitos (ímpios) em Adão porque uma é a geração dos justos e outra é a geração dos ímpios.

Nenhum descendente da carne de Adão foi eleito por Deus para ser santo e irrepreensível, antes só os homens que creem em Cristo, ou seja, que obedeceram a verdade do evangelho e são de novo gerados segundo Deus, são eleitos para serem santos (separados). É por isso que apóstolo Pedro fala que é por meio da santificação do Espírito que os cristãos são conhecidos d’Ele.

A ideia que Pedro procurou evidenciar é a mesma que Paulo demonstrou no verso seguinte: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Através da onisciência Deus é conhecedor de todas as coisas, ou seja, nada se exclui do seu saber, conhecimento. Porém, quando os cristãos eram incrédulos, eles não eram conhecidos de Deus. O que isto quer dizer, que Deus não é conhecedor de todas as coisas? ( Gl 4:8 ).

Não! Quando os cristãos não conheciam a Deus, Deus também não os conhecia. Porém, agora que conheceram a Deus, ou antes, tornaram-se um com Ele, conhecidos por Ele através da aspersão do sangue de Cristo que se da através da obediência à sua palavra, tornaram se filhos, eleitos (escolhidos) conforme o propósito eterno, que é a preeminência de Cristo como cabeça da igreja.

Conhecer a Deus vai além de um simples saber. Fala de união, ou seja, de tornar-se um só corpo com Cristo, conhecendo um ao outro em amor. Quando o cristão torna-se um só corpo com Cristo é o mesmo que Deus ter conhecido os cristãos, tornam-se um só corpo, pois o homem passa a compartilhar da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

A palavra ‘presciência’ não deve ser utilizada para fazer referência a ideia de que Deus antevê eventos futuros, pois Deus sabe de todas as coisas e eventos através dos séculos igualmente bem, o que se dá o nome de onisciência. O termo ‘presciência’, ou melhor, pré-conhecimento ou pré-ciência refere-se á mensagem acerca do Cristo que os profetas anunciaram de antemão (previamente). Que por intermédio do conhecimento de Deus em Cristo os homens tornar-se-iam um com Deus, conhecendo-O ( Dt 9:24 ; Am 3:2 ; Mt 7:23 ; Jo 10:14 -15).

Ora, o sangue da aspersão foi conhecido ainda antes da fundação do mundo do mesmo modo que os eleitos são conhecidos d’Ele através da aspersão deste mesmo sangue ( 1Pe 2:20 ).

Isto não coaduna com a ideia arminianista de que Deus determinou quem seria salvo através da ‘presciência’. O que Pedro demonstra não é o atributo da onisciência, antes que Deus determinou tudo o que é relativo à salvação do homem: o cordeiro, a palavra e a fé.

 

Regeneração pelo evangelho

3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,4 Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, 5 Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo

Após o prefácio e a saudação, Pedro passou a bendizer a Deus pela sua misericórdia.

A estrutura inicial desta carta é similar a carta de Paulo aos Efésios e aos Salmos 103 e 104.

Pedro passa a bendizer, ou seja, a adorar a Deus reconhecendo os atributos de Deus (Salmos 104) e os benefícios concedidos aos homens (Salmos 103).

O fato de Pedro bendizer ou adorar a Deus nada acrescenta ao Criador, pois Deus não depende da adoração de suas criaturas para existir. Diferente são as imagens esculpidas, que são ícones idolatrados que surgem e são mantidos somente por serem venerados pelos homens, e que dependem desta veneração para continuarem sendo ídolos.

No entanto, os ídolos nada são ( 1Co 8:4 ), pois mesmo quando venerados, a adoração dos seus adeptos nada acrescenta ou omite as imagens de escultura. Somente são ídolos por causa de seus veneradores, mas afastando os seus adeptos, nada representam.

Como o homem adora a Deus?

Em primeiro lugar, só é possível adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, somente aqueles que creram em Cristo e foram de novo criados é que o adoram segundo o que Ele estipulou: em espírito e em verdade;

Após o novo nascimento, cabe ao cristão reconhecer a grandeza de Deus e todos os seus atributos, e cantar todos os benefícios concedidos.

Pedro bendiz a Deus pela sua misericórdia, do mesmo modo que Davi e Paulo bendisseram ( Ef 1:3 ; Sl 103:10 ).

Ele aponta a misericórdia de Deus como sendo a causa de uma nova esperança, ou seja, em primeira instância a fé e a esperança do crente estão em Deus ( 1Pe 1:21 ).

Pedro é bem claro ao falar da regeneração em Cristo: gerar de novo. Ora, nascer de novo é o mesmo que ser participante de uma nova geração. Em Adão os homens são gerados segundo a carne, em Cristo, o último Adão, os homens são gerados de novo. Esta é a geração dos justos e aquela é a geração dos ímpios.

Mas, como ocorre o novo nascimento?

O ‘gerar de novo’ é um ato criativo de Deus (bara), onde Ele concede um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Deus não reformula ou melhora o velho homem gerado em Adão, antes, Ele faz tudo novo.

Quando Pedro falou ‘nos gerou de novo’, ele se incluiu na narrativa para demonstrar que, tanto ele quanto os cristãos foram de novo gerados. Este não é um privilégio restrito, antes todos os que creem são novamente criados.

É através da ressurreição de Cristo que Deus concede nova vida aos que creem. Pela ressurreição de Cristo, o primogênito dentre os mortos, os homens nascidos sob a condenação de Adão também ressurgem para a glória de Deus e passam a condição de filhos de Deus, e Cristo assume a posição sublime de primogênito entre muitos irmãos.

Assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos e ascendeu aos céus, os cristãos ressurgem com Cristo e assentam se nas regiões celestiais em Cristo. O mesmo poder que agiu em Cristo ressuscitando-O dentre os mortos é que opera a ressurreição dos que são alcançados pela misericórdia de Deus ( Ef 1:19 -20).

A viva esperança do crente é uma herança incorruptível e incontaminável, que não está guardada neste mundo, antes está guardada nos céus. A herança diz de bênçãos, do mesmo modo que Paulo agradece a Deus por todas as bênçãos concedidas por Deus ( 1Pe 3:9 ; Ef 1:3 ).

Ora, o que guarda o cristão para salvação é o poder de Deus, da qual o homem torna-se participante pela fé. Não é a confiança do homem que o salva ou que o sustem (guarda), antes é o poder de Deus que preserva o homem na salvação recebida.

Qual a virtude ou, qual o poder de Deus para salvação?

O poder de Deus para salvação é o evangelho de Cristo, como lemos em Romanos “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 ; Jo 1:12 ; 1Co 1:18 ).

Basta descansar (crer) em Deus que os cristãos são escondidos (guardado) através do seu poder para salvação que será manifesta muito em breve a todos. Revelar, tornar conhecido a todos os homens o retorno de Cristo (V. 5).

O poder de Deus que preserva os que creem da contaminação deste mundo é o evangelho da graça.

 

O objetivo do evangelho

6 Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco contristados com várias tentações, 7 Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo; 8 Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso; 9 Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.

A alegria do cristão é proveniente das coisas pertinentes à salvação. Este deve ser o contentamento e a exultação do cristão, a salvação.

Há quem exulte por expulsar demônios ou quando opera algum milagre, porém, o alerta solene de Jesus é: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Lc 10:20 ).

Esta recomendação de Jesus e do apóstolo Pedro é para que os cristãos não caiam no engodo do diabo e sejam levados pelos falsos profetas que fazem inúmeros milagres ( Mt 7:22 ).

A alegria pela salvação também se faz acompanhar de aflições. As aflições e as tentações contristam os seguidores de Cristo, mas estas coisas não são para comparar com a glória futura “Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” ( Mt 5:12 ).

No verso sete, Pedro aborda a questão da perseverança e compara a fé com o processo de purificação do ouro.

A fé comparada com o ouro é muito mais preciosa. O ouro que segundo a concepção dos homens é um material nobre e que resiste ao tempo, porém, mesmo após ter sido provado pelo fogo continua sendo perecível.

A fé dos cristãos, quanto mais provada, redundará em louvor, honra e glória quando da volta de Cristo. Quanto maior as provações, ficará demonstrado quão grande é o valor da nossa fé, a fé que uma vez foi entregue aos santos (Judas 3).

Pedro demonstra quão maravilhoso é o evangelho, visto que ele apresenta aos cristãos Cristo crucificado, mas, mesmo não tendo visto a Cristo em carne, ou ressurreto, foram conquistados pelo seu amor.

Embora os cristãos não vejam a Cristo agora, o amam crendo, e sentem as suas vidas inundadas por uma alegria inefável e gloriosa. A alegria de Deus é proveniente da paz estabelecida entre Deus e os homens.

A perseverança fará com que os cristãos alcance o objetivo fim proposto no evangelho, a fé que foi entregue aos cristãos. Ora, os cristãos já haviam feito a vontade Deus quando creram na mensagem do evangelho, mas precisavam perseveram na fé que professaram para colocarem as mãos na herança prometida “Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

 

A graça concedida em Cristo

10 Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, 11 Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. 12 Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar. 13 Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo;

Pedro apresenta um fato curioso acerca dos profetas do Antigo Testamento. Eles inquiriram diligentemente acerca de Cristo, a salvação que seria manifesta aos homens.

Os profetas perguntavam sobre a salvação que haveria de ser relevada, e eram diligentes quando profetizavam acerca de Cristo. Eles queriam saber os tempos que Deus estabeleceu pelo seu poder.

O Espírito de Cristo concediam aos profetas mensagens acerca da vinda do Messias e dos seus sofrimentos, porém, a época em que estes eventos se dariam não lhes era revelado.

Ora, segundo a onisciência de Deus Pai os eventos futuros eram revelados aos profetas, mas o fato de Deus conceder de antemão a revelação de eventos futuros (pré-conhecimento/πρόγνωσις/prognósis) não interfere nas decisões dos homens (v. 11). Cristo foi preso, crucificado e morto porque aprouve a Deus enfermá-lo, mas tudo ocorreu segundo o que foi vaticinado pelos santos profetas  “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência (προγνώσει) de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” ( At 2:23 ).

É pela onisciência que Deus antecipou aos seus profetas os eventos futuros, porém, a salvação não é determinada com base na ideia equivocada de ‘presciência’ como ‘saber de antemão’, antes a salvação é na santificação através da obediência ao evangelho, que é a fé entregue aos santos ( Jd 1:3).

Os profetas tinham conhecimento que falavam de coisas grandiosas para outros, e que as suas mensagens não diziam respeito a eles. Pedro quer que os cristãos tenham na memória que os profetas não profetizam acerca de bens para eles mesmos, antes, que eles (profetas) conheciam plenamente que outros seriam favorecidos pela graça de Deus.

Os profetas testificavam acerca de Cristo, e os apóstolos agora, pelo Espírito Santo anunciavam o evangelho. Ou seja, a mensagem anunciada aos cristãos era a mesma anunciada pelos profetas e que lhes aguçava a curiosidade para saber a respeito da salvação que hoje é revelada.

Muitos entendem que os anjos desejaram pregar o evangelho aos homens, porém, Pedro estava demonstrando que a mesma curiosidade pertinente aos profetas, também era pertinente aos cristãos. Do mesmo modo que os profetas inquiriram diligentemente, os anjos também desejaram compreender (v. 12b).

As coisas que os anjos desejaram atentar não foi desejo de anunciar as boas novas do evangelho, antes desejaram compreender a multiforme sabedoria de Deus, que até antes do advento da igreja era um mistério aos principados e potestades celestiais ( Ef 3:10 ).

Ora, se os anjos desejaram compreender as grandezas do evangelho, e os profetas inquirira diligentemente acerca da salvação, coisa que não estava reservada a eles, chega-se a seguinte conclusão: “Portanto,…” ( 1Pe 1:13 ).

Se os anjos desejaram compreender e os profetas inquiriram acerca dos tempos, o que resta aos que estão sendo beneficiados pela salvação revelada é cingir os lombos do entendimento. A recomendação de Pedro é para que os cristãos tenham uma compreensão apurada acerca das riquezas de Deus apresentada no evangelho.

Quando os cristãos ajustam bem a sua compreensão acerca do evangelho, deixando de lado as dúvidas e especulações, ele passa a esperar inteiramente na graça oferecida. Sobre a compreensão dos cristãos o apóstolo Paulo orou a Deus pelos cristãos em Éfeso: “Oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” ( Ef 3:18 ).

A compreensão acerca das verdades eternas deve ser a temática da vida cristã, pois o cristão só consegue crescer na graça e conhecimento de Cristo. Não há crescimento espiritual, pois o homem espiritual é perfeito diante de Deus. Muitos apregoam crescimento espiritual, mas os cristãos já são criados idôneos, ou seja, já pode participar da herança dos santos em Deus ( Cl 1:12 ).

O que é preciso àqueles que creram na mensagem do evangelho? Falta somente transformarem-se através da renovação do entendimento. O que era pertinente a velha natureza, o cristãos deve lançar fora, para viver segundo o conhecimento de Cristo ( Rm 12:2 ).

Do mesmo modo que Paulo agradece a Deus pelas bênçãos alcançadas do verso 3 ao 14 da carta aos Efésios, e ora a Deus para conceder aos cristãos o que lhes faltava (conhecimento) ( Ef 1:18 ), Pedro recomenda os cristãos a ajustar a compreensão acerca do conhecimento revelado.

Jesus alertou na parábola da semente que a compreensão é essencial a salvação, pois a ação nefasta do inimigo do homem é arrancar a semente dos corações que não compreendem “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no coração” ( Mt 13:19 ).

É por isso que o escritor aos Hebreus recomenda os cristãos atentarem diligentemente para as coisas que já ouviram, para que em tempo algum (bonança ou perseguição) se desviem ( Hb 2:1 ).

Pedro recomenda a sobriedade, pois ela é essencial à vigilância, principalmente àqueles que aguardam a revelação de Cristo Jesus, o Senhor ( 1Ts 5:6 ).

 

Sede santos

14 Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; 15 Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; 16 Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. 17 E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, 18 Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, 19 Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,

O comportamento dos cristãos deve ser conforme o comportamento de filhos obedientes. Quando obedeceram a fora de doutrina que foi entregue no evangelho, crendo, os cristãos receberam poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Agora, de posse desta nova condição: filhos do Deus vivo, também devem viver como filhos obedientes. Ora, não é o comportamento dos cristãos que os faz filhos de Deus, e nem o comportamento diário que os mantém na condição de filhos.

Antes, os cristãos são filhos porque obedeceram ao mandamento que diz: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do eu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 2:23 ). Crer é o mesmo que obedecer a Deus!

Porém, apesar de não ser o comportamento que faz o homem filho de Deus, antes o ser de novo gerado segundo o poder do evangelho, agora que se é filho, os cristãos não devem se conformar com as concupiscências que antes tinham na ignorância.

Os desejos são pertinentes ao homem. Desde o Éden a concupiscência acompanhava o homem ( Gn 3:6 ). Percebe-se que a concupiscência não é o pecado, porém, os desejos do novo homem não devem ser conforme os desejos dos homens que ainda vivem na ignorância.

Se o homem foi alcançado pelo conhecimento do evangelho, que o liberta das trevas da ignorância, deve agora pensar nas coisas que são de cima, onde Cristo está assentado a destra de Deus. Deve aguardar inteiramente na graça que a revelação de Cristo oferece (v. 13).

Os desejos são pertinentes a esta vida, e todos que se deixam levar pelas concupiscências da carne, dos olhos e pela soberba da vida é por que não são sóbrios (vigilantes). Pedro quer demonstrar que a concupiscência gera tentação “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência, depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Os cristãos devem pautar os seus desejos segundo o amor não fingido, pois os desejos segundo a concupiscência dos homens não é pertinente àqueles que foram iluminados pela luz do evangelho “Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus” ( 1Pe 4:2 ).

Mas, como é Santo Àquele que chamou os cristãos à sua misericórdia, os cristãos também deveriam ser santos em todo o procedimento.

Observe que o comportamento dos cristãos é uma recomendação do apóstolo, e não uma imposição de Deus. Deus é santo porque a ninguém oprime, ou seja, ele não obriga nenhuma de suas criaturas a servi-lo “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

Ele é santo e por isso chama, convida, oferece aos homens salvação. A santidade de Deus não impõe aos homens a sua vontade. Ele não predestina ninguém à salvação ou à perdição.

O cristão é santo porque foi criado de novo participante da natureza de Deus. Não é o comportamento do cristão que o mantém separado dos pecadores, pois há muitos pecadores que tem uma vida regrada, e não são santos (separado para uso exclusivo de Deus).

Mas, como Deus é santo e chamou o homem à santidade, é de bom alvitre que os cristãos mantenham-se separados também do comportamento dos ímpios pecadores ( 1Pe 1:15 ).

Ora, o apóstolo Pedro não faz esta recomendação por acaso, visto que está escrito: “Sede santos, porque eu sou santo” ( 1Pe 1:16 ). Ora, o versículo não recomenda aos homens que se santifiquem, pois isto é impossível aos homens. Antes o versículo expressa a vontade de Deus, pois é através da oferta do corpo de Cristo que o homem é santificado ( Hb 10:10 ).

Ora, quando Deus diz: ‘Sede santo’, temos a sua vontade (querer), e o seu efetuar através da sua palavra (Sede) “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” ( Fl 2:13 ). ‘Sede’ não é uma ordem, antes expressa a vontade de um Deus que trabalha para aqueles que nele esperam.

Este verso apresenta a mesma vontade de Deus a Abraão, ‘anda na minha presença e sê perfeito’ ( Gn 17:1 ). Ora, ser perfeito não é a condição para se andar na presença de Deus, mas ao andar na presença de Deus, o homem é perfeito, visto que ele justifica todos os que nele esperam como foi justificado Abraão pela fé.

Deus não exige perfeição do homem, antes é na sua vontade que o homem é aperfeiçoado “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus” ( Dt 18:13 ). O homem só é santo porque Deus o separou dos demais para ser santos ( Lv 20:26 ).

O apóstolo Pedro chama os seus interlocutores ao raciocínio. Se os cristãos invocam por Pai um Deus que não faz acepção de pessoas, ou seja, um Deus que julgará e retribuirá a cada um segundo as suas obras, deve entender que, se Deus punirá os ímpios pelas suas más ações, também será censurando pelo mal ou bem que houver feito ( 2Co 5:10 ).

Ora, os seus filhos precisam compreender que, o comportamento não é para salvação, visto que a salvação é em Cristo, porém, assim como os ímpios serão julgados segundo as suas obras, os justos também serão.

Quem cinge os lombos do entendimento compreendem que Deus não faz acepção de pessoas; que não foi com coisas corruptíveis que foram salvos; que o sangue de Cristo é precioso, o cordeiro de Deus sem mácula.

Pedro convoca os cristãos à sobriedade, para que não andassem segundo a vaidade dos pensamentos, entenebrecidos no entendimento ( Ef 4:17 -18), mas que servissem ao Senhor não fazendo uso do que é pertinente ao velho homem, que já foi crucificado e sepultado co Cristo ( Cl 3:8 -10).

 

Crer em Deus por intermédio de Cristo

20 O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós; 21 E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;

Pedro compara o sangue de Cristo como sendo o de um cordeiro sem mancha ou mácula, ou seja, perfeito ( 1Pe 1:19 ).

Ora, Cristo foi ‘conhecido’ do Pai antes da fundação do mundo (na eternidade). Em ‘outro tempo’, ou seja, um tempo específico que não é conforme o tempo dos homens.

Mas, o que é ter sido ‘conhecido’ antes da fundação do mundo? Que tipo de ‘conhecer’ é este apontado pelo apóstolo Pedro?

É ‘conhecido’ de Deus aquele que o ama “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” ( 1Co 8:3 ). Jesus também falou acerca de ter sido conhecido do Pai, pois o Pai O amou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 ).

Compare:

a) “… porque tu me amaste antes da fundação do mundo” ( Jo 17:24 );
b) “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo…” ( 1Pe 1:20 ).

Antes de haver mundo, Cristo e o Pai estavam unidos em amor, que é o vínculo da perfeição, ou seja, Cristo é conhecido do Pai antes mesmo de ser introduzido no mundo como Filho amado.

Ser conhecido de Deus é estar em Deus e Deus em nós. O homem em Deus é surpreendente, porém, Deus nos homens é maravilhoso!

Ser ‘conhecido’ de Deus é uma forma específica de fazer referência a divindade de Cristo. É fazer dos homens e as pessoas da divindade um só “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ), e “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti. Que eles também sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que sejam um, como nós somos um: Eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em unidade…” ( Jo 17:21 -23).

Ora, o mundo não conheceu a Cristo porque não amou a Deus, mas Cristo conheceu a Deus, pois sempre estiveram unidos em amor. O ‘conhecer’ de Deus é compartilhar da mesma natureza, e os anjos, apesar de maior em poder e glória, jamais serão conhecidos do mesmo modo que os que creem conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos dele ( Gl 4:8 -9).

Observe que Cristo foi conhecido de Deus e revelado aos homens. Os anjos não conheceram a Cristo como o Verbo encarnado na eternidade, mas viram o Unigênito de Deus que foi revelado aos homens “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ).

Os anjos ficaram maravilhados quando viram que Deus se manifestou aos homens em carne, o Verbo Eterno encarnado. Foi lhes revelado a multiforme sabedoria quando viram que todos que creem tornam-se semelhantes a Cristo, pois são novamente criados em verdadeira justiça e santidade segundo o poder contido no evangelho.

A palavra grega ‘proginosko’ (conhecer) usada em At 26:5 ; Rm 8:29 ; Rm 11:2 ; 1Pe 1:20 e 2Pe 3:17 não é idêntica à palavra grega ‘prognosis’, usada em At 2:23 e 1Pe 1:2 , mesmo sendo correlatas. ‘Presciência’ não é um dos aspectos da ‘onisciência’, atributo de Deus relacionado ao conhecimento que ele tem de todas as coisas em todos os tempos (eternidade e o tempo dos homens: passado, presente e futuro).

Ao unirem-se (conhecer) o homem e a mulher, tornam-se uma só carne, mas o mistério eterno revela-se na igreja, quando o cristãos torna-se membro do corpo de Cristo ( Ef 5:30 -32).

Cristo foi manifesto aos homens para que eles pudessem crer em Deus. Como? Ora, a mensagem do evangelho demonstra que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pelo poder de Deus, e que ele recebeu glória e poder, fato que dá garantias, àqueles que com medo da morte eram servos do pecado, de que basta confiar em Deus que será livre do medo e da servidão “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

Cristo foi manifesto porque Deus amou o mundo de tal maneira (v. 20), e deu o seu Filho (que foi morto e ressurgiu), para que, por intermédio de Cristo, exemplo de fé (autor e consumador), os homens também passem a crer em Deus (v. 21).

Ora, a fé está em Deus, que zela pela sua palavra para cumpri-la, e a esperança do homem também, pois espera inteiramente na salvação que a revelação de Cristo oferece gratuitamente.

Ora, mediante a fé os cristãos estão guardados na virtude (fidelidade) de Deus. A palavra do evangelho é a fé que um dia foi dada aos santos (Judas 3), e por meio dela o cristãos é preservado, esperando inteiramente na graça oferecida.

Esperar em Deus é fé, porém, a palavra do evangelho também é designada fé. A fé que o homem deposita em Deus equivale a esperança, e a fé que foi entregue aos santos (evangelho) é o mesmo que ‘esperança proposta’ ( 1Pe 1:5 ; 13 e 21). Deste modo temos uma esperança proposta, que é designada evangelho ou fé, e quem tem esta esperança em Deus, exerce ‘fé’ (esperança) em Deus.

Os calvinistas e arminisnistas causam um grande prejuízo à compreensão da verdade do evangelho porque não conseguem distinguir que o evangelho é o mesmo que a esperança proposta. Que o evangelho é a fé que uma vez foi dada aos santos.

Caso conseguissem distinguir que o evangelho, a esperança proposta e a fé dada aos santos são coisas provenientes de Deus, veriam também que crer na mensagem do evangelho, ter fé em Deus é o mesmo que esperar inteiramente na esperança proposta.

 

Purificação pela obediência ao evangelho

22 Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; 23 Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. 24 Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; 25 Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.

Os versos 22 e 23 são equivalentes, ou seja, expressam dois eventos provenientes da mensagem do evangelho.

Somente Deus gera de novo e purifica o homem. Somente Deus podia realizar o pedido do salmista Davi: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Somente Deus (Espírito) pode espargir água limpa (palavra) sobre os homens, concedendo-lhes um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:25 -27). O novo Nascimento somente ocorre por intermédio da água (semente incorruptível) e do Espírito (Deus) ( Jo 3:5 ).

O apóstolo Pedro demonstra que efetivamente os cristãos foram purificados quando creram na mensagem do evangelho (v. 22). ‘Obedecer à verdade’ é o mesmo que ‘cumprir o mandamento de Deus’ que é: “… que creiamos no nome do seu Filho…” ( 1Jo 3:23 ).

Somente quando se crê (obedece) na mensagem do evangelho o Espírito Eterno digna-se em realizar a sua obra “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Deus purifica o homem completamente (livra do jugo) e o fardo que agora deve carregar por estar em Cristo é amar uns aos outros, segundo o seu mandamento ( 1Jo 3:23 ).

Antes, por ser descendente de Adão, o coração do homem era ‘enganoso’ e ‘incorrigível’, agora, por estar em Cristo, foi concedido um novo coração puro, sendo possível amar uns aos outros ardentemente com um coração puro ( Jr 17:9 ; Sl 51:10 ; 1Pe 1:22 ).

Observe a semelhança entre o verso 22 e o verso 2:

“…eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus …” (v. 1);
“Tendo purificado as vossas almas na obediência à verdade…” (v. 22).

O apóstolo Pedro apresenta a doutrina da regeneração, que é o novo nascimento.

Por que os cristãos foram de novo gerados? Porque todos os homens são gerados em Adão, de uma semente corruptível ( Jo 1:13 ). Após crer na mensagem do evangelho, os homens que foram gerados em Adão, agora são de novo gerados pela palavra de Deus.

A palavra de Deus é viva e permanece para sempre, e todos que são de novo gerados passam a viver para sempre com Deus.

Para demonstrar que todos os homens nascidos em Adão são perecíveis, Pedro cita uma passagem de Isaías: “Diz uma vos: Clama. E eu disse: Que hei de clamar? Todos os homens são como a erva, e toda a sua beleza como as flores co campo. Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e caem as flores, mas a palavra do nosso Deus subsiste eternamente” ( Is 40:6 -8).

Observe que a citação de Pedro não é “ips literis”. Ele somente evidência a ideia do texto de Isaías, demonstrando que todos os homens nascidos da carne (toda carne) são comparados a erva. Toda a glória que o homem possui é comparável a flor da erva.

Para demonstra quão fugaz é a existência dos homens, Pedro somente arremata: “Secou-se a erva, e caiu a sua flor”. Ele não se ateve ao processo de degradação pertinente a existência do homem que culmina com os eu retorno ao pó da terra.

Já a palavra de Deus é completamente diferente: ela permanece para sempre, e os que por ela são de novo gerados subsistem eternamente.

Sobre esta verdade Jesus disse: “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Ora, a planta que o Pai não plantou são os homens nascido em Adão e todos serão arrancados. Porém, aqueles que nascem da palavra de Deus, são plantação do Senhor, árvores de justiça “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).




A fé

A fé é proveniente de Deus, e não do homem. É por causa da fidelidade, bondade e imutabilidade de Deus demonstrado no evangelho (fé) que o homem passa a descansar na esperança proposta (fé). A confiança (fé) do homem não é a causa da imutabilidade e fidelidade divina, antes a fidelidade e imutabilidade de Deus produz confiança. Ao ouvir a palavra de Deus, que contém grandíssimas promessas ( 2Pe 1:4 ), no coração do homem surge a fé, que nada mais é que confiança (fé) em Deus, que é fiel e poderoso para cumprir. A fé é resultado direto da fidelidade e do poder de Deus.


A fé

Você já deve ter percebido através da leitura do Livro de Gênesis que Deus deu plena liberdade ao homem quando disse: “De toda árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ), e que era necessário ao homem confiar no seu Criador quando foi apresentada a ressalva: “…mas, da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás…”, uma vez que Deus deu um motivo muito forte para que o homem não comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal: “…porque no dia em que comeres, certamente morrerás”.

Deus apresentou ‘um motivo’ suficientemente esclarecedor ao homem sobre o porquê não se deveria comer do fruto da árvore do bem e do mal. Porém, para que o homem observasse a prescrição do seu Criador (obedecesse), era necessário confiar.

Ao colocar a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim do Éden, Deus concedeu liberdade plena ao homem, e ao dar livre acesso a árvore do conhecimento do bem e do mal, Deus concedeu garantias para que o homem exercesse tal prerrogativa.

Através da liberdade (comer de todas as árvores livremente) e da garantia de exercer as suas escolhas (livre acesso a árvore) Deus estabeleceu uma relação de confiança com a sua criatura. Deus confiou um jardim com inúmeras espécies de árvores, tendo entre elas a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal.

A autoridade de Deus se revela no cuidado ao alertar o homem do perigo que a árvore do bem e do mal representava para a manutenção da relação de confiança entre Deus e o homem.

A autoridade de Deus se revela no cuidado, e a confiança do homem na obediência. Para obedecer, o homem necessariamente precisa confiar em Deus, ou seja, na sua palavra.

Surgiu um personagem na história bíblica (serpente) que semeou a desconfiança entre o homem e Deus ao distorcer e negar a palavra de Deus ( Gn 3:4 ).

O homem, por sua vez, preferiu confiar em seus próprios sentidos, e comeu do fruto da árvore do bem e do mal “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e desejável para dar entendimento…” ( Gn 3:6 ).

O homem atentou contra a sua própria natureza quando deixou de confiar em Deus. Deixou a condição de amizade e confiança e passou a estar em inimizade com Deus, destituído da glória de Deus. Passou a estar morto diante de Deus, ou seja, morto em delitos e pecados.

Observe que o conceito de ‘morte’ em Gn 2:17 procede de Deus, ou seja, significa ‘separado da vida que há em Deus’, separado daquele que concede vida (morto). Já o conceito de ‘morte física’ somente é apresentado em Gênesis 3: 19, que é ‘tornar a terra’, isto porque, tanto os que ainda ‘não desceram’ à terra, e os que ‘tornaram’ a terra, “…para Deus vivem todos” ( Lc 20:38 ).

Mas aqueles que estão separados de Deus estão fatalmente mortos (separados de) para Deus.

Deus, que é grande em misericórdia e amor, providenciou salvação poderosa a todos os homens quando enviou o seu Filho ao mundo ( Rm 5:8 ; Lc 1:69 ). E, para alcançar a salvação prometida basta ao homem confiar no seu Criador.

Da mesma forma que, pela desobediência/falta de confiança de um homem (Adão) todos os homens tornaram-se pecadores, através da obediência/confiança (só obedece quem confia) de um só homem, que é Cristo (último Adão), todos os que creem em Cristo recebem de Deus salvação.

Pedro disse: “Em nenhum outro há salvação, pois também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ). Para receber a salvação de Deus basta ao homem “…confessar a Jesus como Senhor…” e “…em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).

Através destes versículos, fica demonstrado que, para o homem alcançar salvação basta crer em Deus. Por que crer em Deus? O que é a fé em Deus?

A fé é algo proveniente de Deus, e não do homem. É por causa da fidelidade, bondade e imutabilidade de Deus demonstrado no evangelho (fé) que o homem passa a descansar na esperança proposta (fé). Ao ouvir a palavra de Deus, que contém grandíssimas promessas ( 2Pe 1:4 ), no coração do homem surge a fé, que nada mais é que confiança (fé) em Deus, que é fiel e poderoso para cumprir. A fé resulta diretamente da fidelidade e do poder de Deus.

A esperança proposta (evangelho) é nomeada ‘fé’, bem como o descansar em Deus (confiança, crença, fé) também é nomeado fé.

a) “Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ); ‘fé mútua’ equivale a palavra do evangelho;
b) “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta ( Hb 6:18 ); A ‘firme consolação’, ‘reter a esperança proposta’, ou o ‘refugiar-se’ também se nomeia fé.

Sem a palavra do evangelho (fé) é impossível ao homem crer em Deus. Primeiro é necessário ouvir a ‘fé’ que foi dada aos santos, para depois o homem ter fé, ou seja, descansar na esperança proposta.

Somente confiamos em alguém que é verdadeiro, e Deus é a verdade. Segue-se que a fé é dom de Deus, pois ele é fiel, verdadeiro e tem todo poder para levar a efeito as suas promessas.

Crer implica em obediência. E, após obedecer a Deus, que é olhar para Ele (crer em Cristo) ( Is 45:22 ), a relação de confiança é estabelecida.

Através do evangelho, o homem crê em Deus que tem poder para fazê-lo filho de Deus. É a fidelidade de Deus e o poder de Deus que fará o que Lhe apraz, e não a confiança do homem na confiança. Ou seja, é Deus quem move as montanhas, e não a fé do homem. Fé na fé é superstição e não encontra apoio em Deus.

Um exemplo é: Deus prometeu salvação aos que creem, e você está confiante que Ele te salvou por crer em Cristo. Diferente é estar confiante de que a sua própria confiança te levará aos céus. A fidelidade de Deus é suficiente para te salvar, mas a fé na fé não promove a salvação.

No que você tem aplicado a sua confiança? Você crê na salvação ou que será bem sucedido financeiramente? Deus prometeu perdão de pecados pela fé em Cristo, e isto Ele cumpre. Diferente disto, é crer que Deus lhe dará posses nesta terra, uma vez que, Ele não prometeu riquezas nesta terra.

O apóstolo Pedro ao falar de Jesus disse o seguinte: “Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo (…) Ele mandou pregar ao povo, e testificar que ele é o que por Deus foi constituído juiz dos vivos e mortos. Dele dão testemunho todos os profetas, de que todos os que nele creem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome” ( At 10:34 -43).

A fé ou a confiança é a única forma de todos os homens se achegarem a Deus, visto que, Ele é justo e não faz acepção de pessoas. Qualquer um que crer em Cristo passa a ser agradável a Deus. E, aquele que crê, descansa ( Hb 11:6 )!

Crer é lançar de si todas as ansiedades, pois é Deus quem cuida dos seus ( 1Pe 5:7 ).

Perguntas e Respostas:

1) O que satanás semeou no coração do homem?
R. A desconfiança

2) O homem quebrou a relação de confiança com Deus quando seguiu _os seus sentidos______ .

3) A confiança do homem se revela na _obediência à palavra de Deus______ .

4) A desobediência é falta de ___confiança___________ em Deus.

5) A fé é proveniente da __fidelidade ______ e do __poder__ de Deus.

6) O que Deus promete àqueles que creem em Cristo?
R. Poder para ser feito (criado novamente) um dos filho de Deus.

7) Ter fé é desvencilhar-se de toda __ansiedade ____, confiado no cuidado de Deus.

8) Qual o objetivo fim da confiança em Deus?
R. Salvação.