A epístola de Tiago

A obra exigida na epístola de Tiago de quem diz que tem fé (crença) é a obra que a perseverança termina (Tg 1:4), ou seja, é permanecer crendo na lei perfeita, a lei da liberdade (Tg 1:25).    


A epístola de Tiago

Introdução

Tiago, o Justo, possivelmente um dos irmãos de Jesus (Mt 13:55; Mc 6:3), é o autor dessa epístola.

O irmão Tiago só se converteu após a ressurreição de Cristo (Jo 7:3-5; At 1:14; 1 Co 15:7; Gl 1:19), tornando-se um dos líderes da igreja em Jerusalém, e é apontado como um dos pilares da igreja (Gl 2:9).

A epístola de Tiago é datada por volta de 45 d. C., bem antes do primeiro concílio em Jerusalém, que se deu por volta de 50 d. C., o que torna a mais antiga epístola do Novo Testamento. Segundo o historiador Flávio Josefo, Tiago foi morto por volta do ano 62 d. C.

Os destinatários da epístola são os judeus dispersos convertidos ao cristianismo (Tg 1:1), daí o tom austero e a linguagem peculiar aos judeus.

Quando escreveu esta epístola, Tiago buscou contrapor o ensinamento judaico de ter fé no único Deus, com o ensinamento do evangelho, que é ter fé em Jesus Cristo, pois de nada adianta alguém dizer que crê em Deus, mas que não obedece o mandamento de Deus, que é crer em Cristo.

A abordagem de Tiago nos lembra o ensinado por Jesus: “NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14:1), evidenciando a relevância da matéria abordada em função do público alvo: judeus convertidos ao cristianismo.

Entretanto, um entendimento equivocado acerca da epístola de Tiago se difundiu em meio a cristandade, de que ele defendia a salvação pelas obras, opondo-se ao apóstolo dos gentios, que defendia a salvação pela fé.

A má compreensão da abordagem de Tiago fez com que Martinho Lutero detestasse a essa epístola, denominando-a “epístola de palha”. Ele não conseguiu visualizar que o ensinamento de Tiago não difere do ensinado pelo apostolo Paulo.

 

Resumo da epístola de Tiago

A epístola de Tiago tem início com exortação à perseverança na fé, vez que na perseverança conclui-se a obra da fé (Tg 1:3-4). Quem suporta as provações sem desvanecer é bem-aventurado, vez que receberá de Deus a coroa da vida, que será dada aos que O obedecem (amam) (Tg1:12).

Tiago faz uso do termo ‘fé’ no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, ‘confiar’, diferentemente do apóstolo Paulo, que utiliza o termo tanto no sentido de ‘crer’ quanto no sentido de ‘verdade’, sendo que este último significado é muito mais utilizado que aquele.

Em seguida, Tiago apresenta a essência do evangelho, que é o novo nascimento por intermédio da palavra da verdade (Tg 1:18). Após asseverar que é necessário receber como servo obediente a palavra do evangelho, que é poder de Deus para salvação (Tg2:21), Tiago exorta os seus interlocutores a cumprirem o determinado no evangelho, não se esquecendo da doutrina de Cristo (Tg 2:21).

Tiago lembra que quem atenta para a verdade do evangelho e nela persevera, não sendo ouvinte esquecido, é executor da obra estabelecida por Deus: crer em Cristo (Tg 2:25).

À vista da obra exigida por Deus, Tiago demonstra que ser religioso sem refrear o que procede do coração, é enganar-se a si mesmo, e a religião desse indivíduo se revela vã (Tg 2:26-27).

Novamente Tiago chama os seus interlocutores de irmãos, para então conclama-los a não fazerem acepção de pessoas, já que professavam ser crentes em Cristo (Tg 2:1). Se alguém fala que é crente no Senhor Jesus, deve proceder conforme essa crença: não fazendo acepção de pessoas por causa de origem, língua, tribo, nação, etc. (Tg 2:12)

A abordagem de Tiago muda novamente através de um grave: – ‘Meus irmãos’, para questioná-los se é proveitoso alguém dizer que tem fé, se não tem obras. É possível uma crença sem obras salvar?

O termo obra no contexto deve ser compreendido conforme a visão do homem da antiguidade, que é o resultado da obediência a um mandamento. Para os homens à época, mandamento por parte de um senhor e obediência por parte de um servo resultava em obra.

A abordagem muda de acepção de pessoas para salvação. Primeiro; Quem tem fé em Cristo não pode fazer acepção. Segundo: Quem diz que tem fé que Deus é um só, se não realizar a obra exigida por Deus, não será salvo.

A questão não se trata de alguém que diz ter fé em Cristo, antes se algum que diz ter fé, porém, é fé em um único Deus. Quem tem fé em Cristo será salvo, pois essa é a obra exigida por Deus. Não pode se salvar alguém que diz ter fé em Deus, mas que não crê em Cristo, vez que não é executor da obra.

A obra exigida de quem diz que tem fé (crença) é a obra que a perseverança termina (Tg 1:4), ou seja, é permanecer crendo na lei perfeita, a lei da liberdade (Tg 1:25).      .

Como os cristãos convertidos dentre os judeus sabiam que a obra exigida por Deus é crer em Cristo, ao argumentar que não basta diz que tem fé, Tiago estava enfatizando que é inócuo crer em Deus e não crer em Cristo.

A abordagem no capítulo 3 muda novamente quando é dito: meus irmãos (Tg 3:1). A instrução tem em vista aqueles que queriam ser mestres, porém, para esse exercício ministerial é imprescindível ser ‘perfeito’. Ser ‘perfeito’ no contexto é não tropeçar na palavra da verdade (Tg 3:2), e assim estará apto a conduzir o corpo (os instruendos).

Após exemplos do que a palavra é capaz de promover, novamente a abordagem é mudada, para tratar da impossibilidade de proceder mensagens distintas de uma mesma pessoa, contrapondo o conhecimento de Deus versus a sabedoria e tradição humana (Tg 3:10 -12).

Por fim, a instrução é para que os cristãos convertidos dentre os judeus não falassem mau um dos outros (Tg 4:11), e, por figura (ricos), faz referência aos judeus que mataram o Cristo.

A epístola é encerada tratando do tema inicial: perseverança (Tg 5:11), encorajando os crentes a serem pacientes no sofrimento.

 

Os Principais equívocos de interpretação

  1. Entender que Tiago está preocupado com temas como justiça social, distribuição de renda, ações caridosas, etc;
  2. Considerar a repreensão severa aos ‘ricos’ que acumulam bens como sendo uma repreensão a quem detinha riquezas materiais é não observar que o termo ‘rico’ é uma figura que se aplica aos judeus;
  3. Entender que a carta de Tiago é antagônica ao ensinamento do apóstolo Paulo, que apresenta a salvação pela fé em Cristo Jesus. Na verdade, Tiago evidencia que crer em Deus não é o que Deus exige para salvação, e sim, crer que Jesus é o Cristo, a obra da fé;
  4. Entender que boas ações é o exigível para se autenticar quem tem fé genuína. Quem tem fé em Cristo conforme as Escrituras, tem fé genuína, pois essa é a obra exigida por Deus;
  5. Confundir boas obras com o fruto pelo qual se identifica a árvore.

 

 

 




Fé versus Obras

Ninguém é ou será salvo por boas ações. A fé é imprescindível à salvação, daí a exigência bíblica da ‘obra da fé’.


Fé versus Obras

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?”  (Tg 2:14)

A obra do amor

Como o amor requer obediência, só é possível amar quando se cumpre o mandamento, portanto, é por obra e em verdade, o que nos remete ao que Tiago disse: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

Que obra Tiago recomenda? A obra que torna o homem bem-aventurado, ou seja, que é crer no enviado de Deus: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que Ele enviou” (Jo 6:29); “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20:29).

Quem ouve o evangelho e para ele atenta, executou a obra que é crer em Cristo (Tg 1:22-23). Quem crê e persevera em crer é fazedor da obra, portanto, não é ouvinte que não pratica (que não crê, que não põe por obra), consequentemente é bem-aventurado. Aquele que ‘atenta’ executa a obra e, se persevera na obra que executou, o tal homem é perfeito, porque a perseverança é a obra completa do Autor e consumador da fé (Tg 1:3-4). Quem ouve a lei perfeita da liberdade (evangelho) e faz a sua obra (crê) e nisso persevera é bem-aventurado, pois, a fé sem a sua obra (perseverança) é vã.

O termo traduzido por obra é έργον (ergon) e, segundo F. Wilbur Gingrich obra é:

“έργον, ου, το trabalho — 1. ato, ação Lc 24.19; Cl 3.17; 2 Ts 2.17; Hb 4.3, 4, 10; Tg 2.14ss. Manifestação, prova prática Rm 2.15; Ef 4.12; 1 Ts 1.3; 2 Ts 1.11; Tg 1.4. Ato, realização Mt 11.2; Mc 14.6; Lc 11.48; Jo 3.19, 20s; 6.28s; 7.3, 21; 10.25, 37s.; At 9.36; Rm 3.20, 28; Cl 1.10; Hb 6.1; Tg 3.13; Ap 15.3.— 2. trabalho, tarefa, ocupação Mc 13.34; Jo 17.4; At 14.26; 15.38; 1 Co 15.58; 2 Tm 4.5.—3. trabalho, no sentido passivo, indicando o produto do trabalho At 7.41; 1 Co 3.13, 14, 15; Hb 1.10; 2 Pe 3.10; 1 Jo 3.8.—4. coisa, matéria At 5.38; talvez 1 Tm 3.1. [ergometria]” (GINGRICH, 1984, p. 84).

Entender o termo ‘εργον’ (obra) somente como ‘efeito do trabalho ou da ação’ ou ‘aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim’, ou seja, ‘atividade coordenada, de caráter físico e/ou intelectual, necessária à realização de qualquer tarefa, serviço ou empreendimento’ é temerário, pois, o contexto em que o termo aparece nas epístolas de João e Tiago refere-se a uma ‘tarefa a ser cumprida’, ‘um serviço’ que envolve ‘obrigação’, ‘responsabilidade’ e ‘perseverança’.

Quando lemos: “E o Seu mandamento é este: que creiamos no nome de Seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o Seu mandamento” (1Jo 3:23), tem-se um mandamento que evoca uma tarefa com obrigação que implica em obediência. Neste sentido crer é uma obra , a obra de Deus, que deriva da ideia defendida por Tiago e João: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que Ele enviou” (Jo 6:29).

Nesse sentido o crente em Cristo é um homem de obra, o que é um contraponto a quem é de palavra e de língua: “Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” (2Jo 1:9); “E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tg 1:22).

Por que enfatizar este aspecto denotativo do termo obra na epístola de Tiago? Primeiro, para desfazermos a ideia pejorativa que se estabeleceu ao longo dos séculos quanto ao termo ‘obra’, pois, equivocadamente, muitos estudiosos da Bíblia contrastaram ‘obra’ com ‘’.

Em segundo lugar, para demonstrar que o público alvo das cartas de Tiago e João possuía origem cultural idêntica, porém, diferia da dos leitores de algumas cartas do apóstolo Paulo.

Tiago escreveu a cristãos convertidos dentre o judaísmo (Tg 1:1), pessoas que antes professavam a lei mosaica como fé. Portanto, quando o termo fé era utilizado, os cristãos judeus automaticamente tinham a memória bombardeada com preceitos da lei, festas, dias e comidas. Ora, antes de se converterem a Cristo, eles confiavam na carne, na circuncisão e na lei, pois tinham ‘fé’ (acreditavam) que eram salvos por: a) descenderem da carne de Abraão; b) comungarem da circuncisão, e; c) dos cuidados pertinentes à lei mosaica.

Se Tiago se utilizasse do termo ‘fé’ aos moldes do apóstolo Paulo, certo é que os judeus permaneceriam confiantes de que a crença que depositavam na Lei era o meio de salvação: “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” (Rm 2:20). Por causa do contexto cultural e da necessidade de se fazer compreender entre os judeus é que Tiago se expressa utilizando ‘lei da liberdade’ em lugar do termo ‘evangelho’, e apresenta a ‘obra’ como característica da ‘fé’, já no primeiro capítulo da sua epístola.

No capítulo 2, Tiago enfatiza aos seus leitores que quem executa a obra (crer) da lei da liberdade (evangelho), não faz acepção de pessoas: “Meus irmãos, não tenhais a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tg 2:1).

Embora os cristãos de origem judaica, em outros tempos, consideravam que eram seguidores da melhor religião e muitos se consideravam mestres da lei (Tg 1:26), por terem sido gerados segundo a vontade de Deus pela palavra da verdade (Tg 1:18), agora deviam resignar-se em receber com mansidão a palavra da verdade neles implantada, pois só por meio dela se alcança salvação (Tg 1:21).

O verso 9 do capítulo 1, da carta de Tiago, diz: “Mas, glorie-se o irmão abatido na sua exaltação” (Tg 1:9). Este verso trabalha uma figura específica: a condição do abatido. Quem é o abatido? Seria o de condição humilde financeiramente? Não! O humilde é o abatido de espírito, aquele que não confia em si mesmo para se salvar, mas repousa em Cristo, que disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei” (Mt 11:28).

Ou seja, todos os que creem em Cristo são os pobres e abatidos de espírito, que agora se gloriam na exaltação proposta em Cristo, e não se gloriam da carne e nem da lei (Gl 6:14). Ora, Israel fora rejeitado por Deus, tanto os nobres quanto os pobres (Is 5:13-14), mas, o Senhor exaltou os contritos e abatidos de espírito (Is 61:1; Is 57:15).

Enquanto o ‘abatido’ diz de todos os cristãos (judeus e gentios) que se gloriam em Cristo, os ‘ricos’ é uma referência clara aos filhos de Israel que rejeitaram o consolo profetizado por Isaías: “Consolai, consolai o meu povo…” (Is 40:1). Mas, como consolar? Através da mensagem do que clama no deserto que anuncia a glória do Senhor manifesta aos homens (Is 40:5), e que demonstra que todos os homens, sem exceção (judeus e gentios), são ervas.

Portanto, até mesmo o povo de Israel que era classificado como ‘rico’, pois entendia que possuía algo de que se gloriar, agora deveria se gloriar na sua humilhação, pois, por meio da humilhação dos judeus (ou queda) deu-se a riqueza de todos os povos, que é a salvação em Cristo (Rm 11:12).

No capítulo 2, Tiago apresenta um exemplo: “Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje. E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?“ (Tg 2:2-4).

Ora, como religiosos, os ouvintes de Tiago bem compreenderam a colocação, e discerniram claramente que tal atitude é uma distinção entre pessoas, porque qualquer judeu que se achegasse a uma sinagoga, fosse ele rico ou pobre financeiramente, era aceito sem qualquer distinção, visto que, o que estava em voga era a nacionalidade e não a condição financeira.

O exemplo apresentado seria um comportamento inaceitável em meio aos judeus, o que induziria os cristãos judeus a analisarem a colocação seguinte sob o prisma de um comportamento inaceitável.

E o que disse Tiago? “Ouvi, amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais. Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” (Tg 2:5-6). Novamente Tiago faz referência ao abatido, ao pobre de espírito, àquele que não confia em si mesmo para se salvar. Com o comportamento de fazerem acepção de pessoas, aos moldes da dissimulação que o apóstolo Pedro fez e foi censurado pelo apóstolo Paulo, os destinatários da carta de Tiago estavam desonrando os herdeiros da fé (pobres).

Através da exposição do apóstolo Paulo na carta aos Gálatas, verifica-se o comportamento reprovável do apóstolo Pedro, que comia naturalmente com os gentios, mas, quando chegaram os cristãos convertidos dentre os judeus, retirou-se do meio dos gentios, temendo os da circuncisão. Esta dissimulação do apóstolo Pedro afetou até mesmo Barnabé (Gl 2:12-13).

Tal dissimulação poderia comprometer a verdade do evangelho, o que fez com que o apóstolo dos gentios se posicionasse em defesa do evangelho, repreendendo o apóstolo Pedro (Gl 2:14). Esta questão devia ser tratada na frente de todos, pois estava induzindo muitos à dissolução e, consequentemente, poderia trazer prejuízo à compreensão do evangelho (Gl 2:16).

A acepção de pessoas não se dava por questões econômicas como ocorria na igreja de Corintos (1Co 11:22). Alguns cristãos que pertenciam às doze tribos da dispersão estavam fazendo acepção por causa da carne e do sangue, visto que alguns cristãos não pertenciam à nação judaica. Na acepção de pessoas que Tiago expõe em sua carta, não estava em voga questões de ordem econômica, se ricos ou pobres financeiramente, pois o que os cristãos das doze tribos consideravam era a origem, a nacionalidade, se judeu ou gentio, pois estavam considerando imundo e comum o que Deus separou por seu: “E disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo” (At 10:28).

Por causa de tal comportamento Tiago os faz recordar que, quem os conduzia aos tribunais por causa do bom nome de Cristo eram os ‘ricos’, ou seja, os judeus que não aceitaram a Cristo, os judeus que confiavam na descendência de Abraão para salvação, os mesmo ricos que Tiago no capítulo 5, versos 1 a 6 aponta como aqueles que mataram o Cristo: “Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:6).

Para reter firme a fiel palavra (Tt 1:9), evitando distorções doutrinárias, sendo uma delas a exclusão que os judeus faziam aos gentios convertidos, Tiago evoca a ‘lei real’ encontrada nas Escrituras que resume os mandamentos mosaicos: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Tg 2:8; Rm 13:9). Mas, por causa dos contenciosos, argumenta: “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (Tg 2:14).

Quem poderia replicar a Tiago dizendo que tinha fé, mas não tinha obra? Aqueles que diziam ter fé em Deus, porém, rejeitavam a ‘lei da liberdade’ e se voltavam para a lei de Moisés: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem” (Tg 2:19; Jo 6:36). Tais judaizantes se esqueciam da obra pertinente à lei da liberdade (Tg 1:25), e se apegavam à crença inútil da lei.

A análise anterior dá suporte para afirmar que o ‘alguém que diz ter fé’ é o que ‘ama de palavra e de língua’, e aqueles que têm ‘as obras’ diz dos que ‘amam por obra e em verdade’. Compare:

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1Jo 3:18);

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (Tg 2:14).

Ambos, João e Tiago, abordam as mesmas questões, tanto que fizeram uso do mesmo exemplo. Compare:

“Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus?” (1Jo 3:17);

“E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?” (Tg 2:15-16).

Sem perder de vista o verso: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25), é de se estranhar que Tiago estivesse exigindo boas ações de pessoas que se firmavam em práticas da lei mosaica e, que em decorrência de suas ‘obras’ eram tidos por justos diante dos homens (Mt 23:28). Como exigir mais obra de religiosos extremamente legalistas, ritualistas e formalistas?

Também não se deve aduzir que o apóstolo estava enfrentando cristãos que possuíam somente uma fé de cunho teórico, pois o ideal da fé (evangelho) não diz de igualdade social, de ações sociais ou, responsabilidade social e econômica, etc., pois, em nenhum momento o apóstolo Paulo procurou influenciar as estruturas sociais e econômicas da época (1Co 7:21).

Não se pode confundir ‘obra’ com ‘boas ações’. Quando lemos: “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (Tg 2:14), a obra exigida é a obediência ao mandamento de Deus. A obra do cristão não diz de boas ações, assim como o ‘fruto’ que produz por estar na Videira, que é Cristo, não diz de boas ações.

A ‘obra’ está intimamente ligada ao ‘fruto’ que a Videira verdadeira produz através daqueles que estão ligados nela, pois o fruto que se produz quando se está na Videira é o fruto dos lábios que professa a Cristo (Jo 15:5 e 8; Hb 13:15; Os 14:2; Pv 18:20).

O fruto está relacionado ao que o homem professa, diz do querigma e, a obra está relacionada à obediência ao querigma. Quem professa que Jesus não veio em carne não está ligado à Videira e não produz o fruto que glorifica a Deus (2Jo 1:7). Mas, quem ama a Deus, ou seja, crê em Cristo, torna-se participante de Cristo e produz o fruto.

Semelhantemente, o fruto do Espírito também não diz de boas ações, visto que o fruto pertence ao Espírito, assim como as obras da carne são pertinentes à carne que, em última instância, opõem-se um ao outro (Espírito versus carne) para que os homens não façam a sua própria vontade; pois, quando conquistados, os homens são feitos servos e realizam a vontade do seu senhor (Gl 5:17).

Por causa desta peculiaridade pertinente a singularidade da mensagem do evangelho, qualquer que professa que Jesus não veio em carne é o enganador e o anticristo. Desse modo, ir além da doutrina de Cristo é cortar a comunhão com Deus (2Jo 1:9), e quem tiver comunhão com o tal torna-se participante das suas obras más (2Jo 1:11; Jo 3:19-20).

Ninguém é ou será salvo por boas ações. A salvação só é possível por intermédio do evangelho de Cristo, portanto, o verso 19 é o mais significativo do capítulo 2 da epístola de Tiago: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem” (Tg 2:19), pois ter fé em Deus e não obedecer o Seu mandamento, que é crer no amor que nos tem dado, constitui-se em uma fé morta em si mesma (Tg 2:17), uma vez que a vida eterna só é possível através do Filho: “Quem tem o Filho tem a vida, mas quem não tem o Filho de Deus não tem vida” (1Jo 5:12).

Por que Deus não salva os demônios, se eles creem? Porque a eles não foi dado mandamento algum, o que significa que, após a queda, não foram amados. Com relação à humanidade, Deus amou a todos, pois lhes deu a Sua palavra: “Na verdade amas os povos (…) Eles se colocam a teus pés, e cada um recebe das tuas palavras” (Dt 33:3).

Observe que Tiago está escrevendo a judeus, pessoas que antes de conhecer a Cristo, professavam fé em Deus: “Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde” (Tg 1:1), os quais, muitas vezes nas Escrituras, também são chamados de povo de Sodoma e Gomorra, adúlteros, ricos, bêbados, insensatos, loucos, cegos, etc. (Dt 32:28-33; Sl 53:1-5).

Dizer que tem fé em Deus sem a obra realizada por Deus em Cristo é inútil: “Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?” (Tg 2:20 comparado com Tg 1:25).

O exemplo do verso 15 e 16 é um comparativo! Assim como é inútil dizer para alguém que está com frio: – “Fique aquecido”, sem lhe dar um casaco, também é inútil dizer: – “Tenho fé em Deus”, e não obedecer ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo, a obra que Deus veio realizar: “E o amor é este: que andemos segundo os Seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nele” (2Jo 1:6); “E o Seu mandamento é este: que creiamos no nome de Seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o Seu mandamento” (Jo 3:23); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que Ele enviou” (Jo 6:29).

Após demonstrar que não basta falar que possui fé se não possui as obras, Tiago contra-argumenta uma possível réplica de alguém que se apresenta como uma pessoa de obras, enquanto Tiago seria, para esse alguém, um homem somente de palavras vazias: ‘Tu tens fé, e eu tenho as obras’.

Tiago se antecipa a uma possível réplica de uma pessoa tendente a voltar a buscar a Deus somente de língua. Tal pessoa poderia tentar inverter as alegações de Tiago, dizendo que, na verdade, quem tinha uma fé vazia seria Tiago, enquanto ele, como ‘seguidor’ da lei, possuía obras.

Neste ponto Tiago propõe um desafio: que o recalcitrante mostrasse a ‘fé’ dele sem as obras, que, em contrapartida, Tiago teria o prazer de mostrar pelas suas ‘obras’ a fé: “Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tg 2:18). Como é possível mostrar pelas obras a fé?

Respondendo esta questão Tiago apresenta Abraão, exemplo de fé, como alguém que foi justificado pelas obras: “Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21).

Para compreender a alegação de Tiago faz-se necessário lembrar um comentário de Jesus aos judeus. Certa feita, os judeus disseram: “Nosso pai é Abraão”, e Jesus disse-lhes: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (Jo 8:39). Quais as obras de Abraão? Obedecer a Deus, visto que amar a Deus é o mesmo que cumprir os Seus mandamentos. “Disse-lhes, pois, Jesus: Se Deus fosse o vosso Pai, certamente me amaríeis, pois que eu saí, e vim de Deus; não vim de mim mesmo, mas Ele me enviou” (Jo 8:42); “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os Seus mandamentos; e os Seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5:3).

Jesus é claro: Se Deus fosse o vosso pai, certamente me amaríeis (obedecer), mas como não amaram a Cristo, não amaram a Deus, pois não cumpriram o Seu mandamento. Não executaram a obra exigida por Deus.

Quando Abraão ofereceu Isaque segundo a palavra de Deus, executou a obra exigida (Gn 26:5), o que significa que amava a Deus. Ao obedecer, não amou apenas de palavras, mas por obra. Quando executou a obra, assim o fez porque exultava na salvação que Deus prometeu através do seu Descendente, e não em Isaque “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se” (Jo 8:56). Por crer em Deus que lhe prometeu o Descendente, em quem todas as famílias da terra seriam benditas, foi que Abraão ofereceu Isaque, certo de que Deus poderia trazê-lo dentre os mortos (Hb 11:19).

Ou seja, a obra está intimamente ligada à obediência (amor): “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia (…) Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar; E daí também em figura ele o recobrou” (Hb 11:8 e 17-19).

Quando se lê: ‘Pela fé ofereceu Abraão a Isaque… ’, devemos considerar que Abraão obedeceu a Deus em função da promessa, ou seja, da fé que havia de se manifestar, pois ao crer no Descendente ofereceu sobre o altar a sua esperança (Hb 10:36; Rm 4:18).

A argumentação de muitos ao longo da história, é de que a fé, que não produz boas ações, não é a fé salvadora, pois consideram que, qualquer que tem fé, necessariamente tem que produzir boas ações. Entretanto, a obra em tela estava longe de ser uma boa ação, visto que Abraão iria matar o seu próprio filho. O que Deus levou em conta foi a obediência (obra) de Abraão que confiou na esperança (fé) proposta por Deus.

A obra de Abraão que o justificou é resultado da sua obediência à palavra do Senhor, pois foi impedido de matar o filho (Gn 22:12). Qualquer que crê em Cristo, obedece tanto o Pai quanto o Filho e, de igual modo, será chamado amigo de Deus como Abraão, pois fez o que o Pai e o Filho mandam (Jo 15:14).

Certamente que a obra diz da obediência à verdade do evangelho e não de boas ações ou de sacrifícios, pois a obra tem em vista uma ‘tarefa a ser cumprida’, ‘um serviço’ que envolve obrigação, responsabilidade e perseverança que se restringe ao mandamento de Deus.

Quando lemos: “Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus” (Tg 2:21-23), a obra diz da obediência, e a fé que cooperou com a obediência, diz da crença em Deus. Somente através da obediência ao mandamento de Deus (amor, crer em Cristo), é que a crença em Deus é aperfeiçoada: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

Qualquer crença que não repouse na promessa de Deus não é fé. Qualquer crença que não envolva obediência ao amor de Deus, que é crer em Cristo, não é fé. Portanto, para mostrar a fé pelas obras basta ao homem crer, obedecer, confiar no Descendente prometido a Abraão, que mostrará a sua fé. Mas, quem diz ter fé e não cumpre o mandamento, não possui a obra exigida por Deus e sua crença é vã.

Tiago, por não fazer acepção entre judeus e gregos com relação ao corpo de Cristo, demonstrava a sua fé. Pela perseverança em meio à provação, Tiago demonstrava que era perfeito e maduro, e que não tinha falta de coisa alguma. Tiago tinha consciência de que era mestre, e que não tropeçava na palavra da verdade, o que demonstrava sua fé.

O que significa: ‘a fé cooperar com as obras’ e ‘as obras aperfeiçoarem a fé’? O apóstolo João responde: “Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele” (1Jo 2:5). Ora, o termo ‘aperfeiçoar’ não diz de uma ‘melhora’ antes, tem em vista a ‘perfeição’ (teleios) que é funcional. Algo é perfeito quando realiza plenamente a finalidade para a qual foi planejado: “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Fl 1:6); “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém” (Hb 13:21).

Por fim, Tiago conclui a exposição demonstrando que ‘… o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé’, ou seja, que o homem não é justificado somente por dizer ou acreditar que Deus existe, antes, é essencial que O obedeça, crendo no enviado de Deus.

Neste sentido, Tiago apresenta como exemplo Raabe, a meretriz que escondeu os emissários de Israel: “E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários, e os despediu por outro caminho?” (Tg 2:25).

Ora, obra neste verso não se refere a comportamento social louvável, visto que a obra que está em destaque decorre de uma meretriz que estava traindo o seu povo. Os judaizantes faziam acepção de pessoas por causa de suas origens e práticas sociais, mas Raabe, apesar de toda sorte de contaminação possível em sua casa, foi louvada pela sua fé demonstrada por obra.

Qual foi a obra de Raabe? Primeiro, ela ouviu acerca de como o Deus de Israel operou maravilhosamente no Egito em favor de Israel e creu. Ela se dispôs em esconder os espias e atou o cordão vermelho à janela de sua casa em obediência a palavra dos espias (Js 2:21), de modo que: “Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias” (Hb 11:31).

Ao que Tiago complementa: “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2:26). Se Raabe somente dissesse crer em Deus e não tivesse escondido os espias e não tivesse colocado a fita vermelha na janela, a sua crença seria inútil.

Tiago estava demonstrando às doze tribos da dispersão que, dizer ter fé em Deus é bom, porém, é uma fé sem efeito, sem o amor, sem a obediência, sem cumprir os mandamentos de Deus. Se Deus não fez acepção e aceitou Abraão e Raabe, dois incircuncisos, para compor a linhagem de Cristo, a acepção que faziam, quanto aos gentios, destoava da fé que diziam professar, pois o próprio Deus não faz acepção de pessoas (Dt 10:17).

Qualquer que diz ter fé em Cristo, mas não persevera no evangelho não é perfeito. Quem diz ter fé e faz distinção entre pessoas com relação à nacionalidade nas reuniões solenes, na verdade não compreendeu e nem obedeceu a Cristo (Tg 2:1). Quem tem fé em Cristo não professa duas doutrinas, o evangelho e a lei (Tg 3:12). Quem tem fé não promove dissensão (Tg 3:14 e 16), pois muitos judeus que se diziam cristãos não queriam comer com os gentios e promoviam dissensões.

Muitos diziam crer em Cristo, mas permaneceram dizendo que tinham por pai Abraão: “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos (…) Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (Jo 8:31 e 33). Muitos diziam ser membro do corpo de Cristo, porém queriam impor obrigações aos gentios para que pudessem ser salvos (Gl 2:14; At 15:24).

Quem tem fé em Jesus e quer continuar com amizade com o mundo, ou seja, repousado nas prescrições de homens, como dias de festas, luas, sábados, etc., não tem a obra exigida por Deus (Tg 4:4).

Portanto, quando o apóstolo João diz: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1Jo 3:18), Tiago complementa: “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (Tg 2:14). Ou seja, a determinação era para que procedessem em conformidade com as suas palavras (Tg 2:12).

O apóstolo Paulo, o apóstolo João e Tiago falaram a mesmas coisas:

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-No com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16);

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1Jo 3:18);

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (Tg 2:14).

Também não há contradição alguma entre as afirmações de Tiago e as do apóstolo Paulo quando falam de Abraão:

“Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21);

“Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus” (Rm 4:2).

Segundo Tiago, Abraão foi justificado pelas obras da fé (promessa) porque elas foram executadas em obediência a Deus, pois só é possível amar a Deus quando cumprimos os Seus mandamentos, e o apóstolo Paulo destaca que Abraão não foi justificado pelas obras da lei, visto que a lei só foi dada aproximadamente 430 anos mais tarde (Gl 3:17).

Enquanto Tiago estava abordando a obra da fé (Tg 2:21), o apóstolo Paulo estava abordando a obra da lei (Rm 4:2). A obra que Abraão ‘realizou’ e pela qual foi justificado foi obedecer, crendo em Deus. À época que foi justificado, não tinha do que se gloriar. Ele não poderia se gloriar da carne, pois não tinha gerado filho segundo a carne (o seu filho foi gerado segundo a promessa muito tempo depois de ter sido justificado), e nem podia gloriar-se da lei, pois, à época não havia lei (a lei só veio 430 anos depois).

Quando o apóstolo Paulo diz que Abraão não foi justificado pelas obras, fez referência às obras da lei, pois as obras da lei foram dadas sob maldição: “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gl 3:10); “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei” (Rm 3:28).

Todas as ações de Abraão foram executadas quando sob a promessa, portanto, todas as suas ações não estavam sob a maldição que a lei impõe (Gl 3:10), visto que a lei veio 430 anos mais tarde (Gl 3:17). Ele não podia se gloriar da lei e nem da carne porque suas obras foram realizadas segundo a promessa e não segundo a prescrição legal. Ora, quando lhe foi feita a promessa, Abraão não estava sob a lei e nem tinha herdeiro, portanto, não tinha do que se gloriar: nem da carne e nem das obras da lei.

A abordagem de Tiago distingue-se da abordagem do apóstolo Paulo com relação ao tempo. Tiago fala da obra quando Abraão já estava com Isaque, e o apóstolo dos gentios fala de Abraão quando queria fazer Eliezer seu herdeiro (Gn 15:2 e 6).

As obras de Abraão somente demonstram que ele creu, pois quando executou a obra, executou-a não sob maldição da lei, e nem confiado na sua carne, mas sob a promessa da bem-aventurança, logo, não há possibilidade de jactância, visto que a jactância decorre da lei e da carne: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27).

Ao executar as obras da lei há o perigo de tropeço em um dos mandamentos e, se ocorrer o tropeço em um dos mandamentos, o homem torna-se transgressor de toda a lei. Ao crer, o homem cumpre toda a lei e Deus deu testemunho de Abraão a Isaque dizendo: “… e confirmarei o juramento que tenho jurado a Abraão teu pai; E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra; Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” (Gn 26:3-5).

Com base nestes versos é essencial que se perceba a diferença de abordagem que o apóstolo Paulo faz acerca de Abraão na Epístola aos Gálatas e aos Romanos, da que Tiago fez em sua epístola.

Na carta aos Gálatas, o apóstolo contrasta a diferença entre a lei e a promessa, e destaca que tudo o que Abraão fez, o fez antes de ter sido entregue a lei, portanto, Abraão foi justificado pela ‘pregação da fé’, e não pelas ‘obras da lei’: “Mas digo isto: Que tendo sido a aliança anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a invalida, de forma a abolir a promessa” (Gl 3:17; Gl 3:2).

Já na carta aos Romanos, o apóstolo contrasta a diferença entre a carne e o Espírito para demonstrar que judeus e gentios são justificados pela fé (Rm 3:30). A pergunta: “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?” (Rm 4:1), é essencial para compreendermos porque Abraão não tinha do que se gloriar (Rm 4:2).

Era motivo de jactância para os judaizantes: a) a carne (descendência) de Abraão (Rm 4:1), e; b) a lei como forma da ciência e da verdade (Rm 2:20), porém, os motivos dos quais se gloriavam eram inócuos, visto que, quando foi feito a promessa, Abraão não tinha filhos segundo a carne, era incircunciso e não havia a Lei.

O apóstolo dos gentios demonstra que a lei era desabonadora e instituída somente para que os judeus compreendessem sua real condição (Rm 3:19). O motivo da jactância dos judaizantes era fútil, tendo em vista que, quando Abraão recebeu a circuncisão, estava na incircuncisão, não tinha filho e não havia lei (Rm 4:11).

Quando argumenta a suposição: “Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar…” (Rm 4:2), o apóstolo não estava contrapondo a ‘fé’ e a ‘obra’ de Abraão, visto que em Abraão a obra confirmou a sua fé na promessa do Descendente, como testifica Tiago (Tg 3:21). O apóstolo estava demonstrando que a bem-aventurança prometida a Abraão repousa sobre judeus e gentios (Rm 4:9), pois, quando creu, recebeu o selo da justiça da fé, ou seja, a circuncisão do coração (Rm 3:29; Rm 15:6), sendo que a circuncisão da carne só ocorreu treze anos mais tarde, ou seja, após a circuncisão do coração (Gn 17:24 ).

Abraão nada alcançou segundo a carne, antes, alcançou da promessa que Deus lhe fez, e quando a promessa lhe foi feita ainda estava na incircuncisão da carne (Rm 4:12) e sem descendência. Através deste argumento, o apóstolo contrapõe a ‘lei da fé’ com a ‘lei das obras’ (Rm 3:27), pois os que são da carne não podem agradar a Deus, visto que não amam (obedecem) a Deus (Rm 8:7-8).

Mas, aqueles que andam segundo o Espírito é porque amam a Deus em obra e em verdade (Rm 4:4), pois obedeceram a fé que é o amor de Deus revelado (Rm 1:5; Gl 3:23), deixaram de ser carnais e passaram a ser espirituais, como o crente Abraão (Rm 8:4).

Cristo é a Fé que se manifestou na plenitude dos tempos, e todos quantos O obedecem, conforme a linguagem paulina, realizam a obra da fé, ou seja, a obra que a fé exige: crer. Quem crê no Descendente, a Fé que se manifestou, executou toda a lei (mandamento) assim como o crente Abraão executou: “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” (Gn 26:5;  Gl 3:23).

Quando o apóstolo Paulo escreveu a Tito, abordou a mesma verdade que Tiago escreveu às doze tribos. Observe: “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-No com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16 compare com Tg 2:14). Os que conhecem a Deus são os que O amam, que O obedecem, que cumprem o Seu mandamento, que obedecem à fé ou que obedecem ao amor de Deus.

O apóstolo Paulo deixou Tito em Creta para que organizasse algumas coisas, especialmente, porque era necessário estabelecer bispos cheios de qualidades pessoais e morais, e que fossem firmes e fieis à palavra do evangelho, para que fossem destemidos em admoestar segundo a palavra, principalmente para convencer os da circuncisão “… aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância (…) Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé. Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tt 1:11 e 13).

As mesmas recomendações foram dadas a Timóteo, para que evitasse as contendas de palavras, antes, tinha que se apresentar a Deus aprovado, manejando bem a palavra da verdade, ou seja, preparado para toda a boa obra (2Tm 2:21 e 3:17).

Ninguém será salvo por intermédio das obras da lei, porém, quem quiser salvar-se, basta entrar pela porta, ou seja, realizar o que a fé exige (fazer a obra da fé = crer em Cristo): “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” (Jo 10:9); “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).

O apóstolo Paulo deixa bem claro que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Cristo (obra da fé). Quem crê em Cristo, a Fé que havia de se manifestar ou o amor de Deus demonstrado, realiza a obra que Deus exige.

A obra da lei não diz somente do trabalho ou ação do homem em querer se salvar por suas próprias forças ou méritos antes, refere-se à obediência de quesitos da lei, mesmo que bem intencionado, o que contrasta com a obra da fé, pois sendo Cristo a fé que havia de se manifestar, só é crente aquele que realiza a obra da fé, ou seja, que obedece à mensagem do evangelho (Gl 3:23): “Quando vier para ser glorificado nos seus santos, e para se fazer admirável naquele dia em todos os que creem (porquanto o nosso testemunho foi crido entre vós). Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação, e cumpra todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder; Para que o nome de nosso Senhor Jesus Cristo seja em vós glorificado, e vós nele, segundo a graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo” (2Ts 1:10-13).

A aparente contradição que algumas pessoas apontam entre o exposto por Tiago e o apóstolo Paulo, decorre de uma má leitura do que é ‘obra’ e do que é ‘fé’, tanto na epístola de Tiago quanto nas epístolas paulinas, isto porque, não se atem à distinção que há entre ‘obra da lei’ e ‘obra da fé’ que o apóstolo Paulo evidencia na carta aos Romanos e aos Gálatas.

Quando fé e obras são colocadas em contraste, certamente obra passa a ter um conceito pejorativo, e por contrastar ‘fé’ e ‘obra’ equivocadamente, a doutrina reformada ao longo dos séculos cunhou para o termo ‘obra’ a ideia de ‘salvar-se a si mesmo’.

Porém, os apóstolos em momento algum colocaram ‘fé’ e ‘obra’ como categorias bíblicas antagônicas, pois o antagonismo que existe ocorre entre ‘lei’ (mosaica) e ‘fé’ (evangelho); porquanto, o homem é salvo pela fé sem as obras da lei, porém, a fé demanda obediência, a obra da fé: “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” (Rm 6:17).

O antagonismo entre ‘lei’ e ‘fé’ é explicitado nas figuras de Hagar e Sara, Ismael e Isaque, Sinai e Jerusalém, carne e Espírito, escrava e livre, etc., ou seja, os apóstolos não apresentam ‘obra’ e ‘fé’ como entes antagônicos, pois do mesmo modo que há ‘obras da lei’, também há ‘obras da fé’ que, por fim, é o mesmo que ‘obedecer’ a lei e ‘obedecer’ a fé.

Portanto, obedecer de coração é o mesmo que amar a Deus. Obedecer de coração à forma de doutrina é o mesmo que amar (obedecer) por obra (crer) e em verdade (Cristo): “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1Jo 3:18).

Esta mesma verdade foi anunciada aos cristãos em Tessalônica quando o apóstolo Paulo escreveu: “… sem cessar, conservamos a lembrança da obra da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza de vossa esperança…” (1Ts 1:3). A obra da fé é uma realização de Cristo, a abnegação diz da obediência do cristão e a firmeza de esperança refere-se à perseverança do cristão em Cristo.

‘A obra do Amor’ é um capítulo do livro A Obra que demonstra Amor a Deus

Autor: Crispim, Claudio
Editora: Newbook
Índice para catálogo sistemático: 1. Amor a Deus :Vida cristã : Cristianismo 248.4



O templo do descendente prometido a Davi e o templo de Salomão

O templo de Deus prometido a Davi está sendo construído com pedras vivas, homens chamados dentre todos os povos e línguas que, após crerem em Cristo, são de novo gerados “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).


O templo do descendente prometido a Davi e o templo de Salomão

“Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre” ( 2Sm 7:13 )

Deus prometeu que o descendente da carne de Davi teria o seu reino estabelecido ( 2Sm 7:12 ), e que edificaria um templo a Deus ( 2Sm 7:14 ).

Quando Davi morreu, Salomão reinou em seu lugar. O rei Salomão ao escrever ao rei Hirão, considerou ser o descendente prometido ao rei Davi “E eis que eu intento edificar uma casa ao nome do SENHOR meu Deus, como falou o SENHOR a Davi, meu pai, dizendo: Teu filho, que porei em teu lugar no teu trono, ele edificará uma casa ao meu nome” ( 1Rs 5:5 ).

Porém, o templo magnífico que Salomão construiu foi destruído pelo rei de Babilônia ( Jr 52:13 ), o que significa que o templo de Salomão não era a casa que Deus prometeu a Davi que o seu descendente construiria ( 1Rs 9:3 -9), e o reino de Salomão não foi estabelecido para sempre por Deus, pois o reino foi dividido em dois ( 1Rs 12:16 ).

Quando o rei Ciro deu ordem a Esdras para reedificar o templo em Jerusalém ( Ed 1:1 ), não havia nenhum rei constituído em Israel, portanto, apesar da glória do segundo templo ser maior que a do primeiro ( Ag 2:2 e 9), não era o templo que Deus prometeu a Davi ( Lc 21:6 ).

Se Salomão não foi o descendente prometido a Davi que construiria o templo que Deus prometera, quem seria o filho de Davi?

As Escrituras comprovam que Jesus de Nazaré é o descendente prometido por Deus a Davi. Ele é o renovo justo, a poderosa salvação levantada na casa de Davi ( Mt 1:1 ; Lc 1:69 -70; Jr 23:5 ; Jr 33:15 ). Cristo é o desejado de todos os povos, o príncipe da paz, que por Ele foi estabelecida a paz entre Deus e os homens.

Cristo é o descendente de Davi que adentrou no segundo templo e tornou a glória da segunda casa maior do que a glória do templo de Salomão, apesar de ser um templo modesto se comparado a exuberância do primeiro templo ( Ag 2:9 ).

Como é possível através de uma boa exegese demonstrar que Cristo é o descendente prometido a Davi? Onde está o templo prometido que o Filho de Davi construiria? Como e quando seria construído?

O templo a ser construído pelo descendente conforme a promessa feita a Davi é eterno, assim como o seu reino. Por ser eterno, o templo tem que ser invisível, pois o que vemos é efêmero, e as coisas que não vemos são eternas, assim como o reino do Messias “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” ( 2Co 4:18 ); “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” ( Jo 18:36 ).

Cristo é o descendente prometido a Davi. O Jesus de Nazaré é o filho de Davi com direito a se assentar no trono de Davi ( Rm 1:3 -4), o que é defendido no evangelho de Mateus ( Mt 1:1 ). Concomitantemente, o descendente prometido a Davi é Filho do Deus vivo “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ), que foi morto e após ressurgir dentre os mortos, assentou-se a destra de Deus nas alturas ( At 7:56 -57; Mc 12:37 ; Mt 22:42 ; Sl 110:1 ; Rm 15:25 ).

Mas, onde está o templo que Deus prometeu que o Cristo, o descendente de Davi, ergueria?

Leia atentamente a promessa: “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:12 -14).

Deus prometeu que, quando Davi morresse, levantaria um homem da sua descendência que teria o reino estabelecido para sempre, e este descendente edificaria uma casa a Deus. Salomão foi levantado como rei em Israel e Judá enquanto Davi ainda era vivo, portanto, a promessa de Deus não se refere a Salomão ( 1Rs 1:32 -35).

Como Salomão não edificou uma casa permanente a Davi, certo é que o descendente que a profecia aponta diz de Cristo.

Considerando que Deus não habita em casa feita por mãos humanas, como o Messias edificaria uma casa a Deus? “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas” ( At 17:24 ).

Deus prometeu e Ele mesmo estabeleceu a pedra fundamental do templo, uma pedra preciosa: “Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido” ( 1Pd 2:6 ).

Acerca do templo prometido a Davi, profetizou Isaías, dizendo:

“Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” ( Is 8:14 ).

O profeta Isaías instruiu os habitantes de Israel para santificarem em seus corações o Senhor dos Exércitos e que deviam servi-Lo com temor e tremor, sendo Ele o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel ( Is 8:13 e 17; Dt 32:20 ).

Por desconhecerem que o Senhor do salmista que está a mão direita do Senhor é a pedra que guiou o povo e os fez atravessar o mar vermelho, rejeitaram a Cristo, a comida e a bebida espiritual “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” ( 1Co 10:4 ; Sl 110:1 ; Jo 6:55 ).

Caso santificassem a Cristo como o Senhor que na plenitude dos tempos resplandece o seu rosto sobre todas as nações, o mesmo Senhor seria santuário, templo, casa, tabernáculo, etc., exclusivamente para os seus filhos. Mas, os filhos de Jacó não eram filhos de Deus, como se lê: “Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” ( Dt 32:5 ).

Daí o alerta: se não o santificassem em seus corações Cristo como Senhor, o mesmo Senhor tornar-se-ia uma rocha de escândalo, uma pedra de tropeço para as duas casas de Israel “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ).

A rejeição de Cristo por Israel demonstra que a pedra fundamental do templo prometido a Davi já foi lançada, mas como está sendo edificado o templo?

O salmista Davi anunciou que a pedra estabelecida por Deus, eleita e preciosa, seria rejeitada pelos construtores de Israel, porém, ela tornou-se a pedra angular do templo do Senhor “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” ( Sl 118:22 ).

O templo é edificado durante o tempo sobremodo oportuno, que é ‘hoje’, através do evangelho anunciado por Cristo, que estabelece a paz entre Deus e os homens, de modo que, Cristo é o fundamento, e os que creem são juntamente edificados para morada de Deus em espírito “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” ( Ef 2:20 ; Ef 2:17 -22; Hb 3:13 ; 2Co 6:2 ).

É em virtude desta verdade que o apóstolo Pedro alerta os cristãos: “Antes, santificai a Cristo, como SENHOR, em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” ( 1Pd 3:15 ).

Os edificadores tropeçaram na rocha eleita porque deixaram de considerar que o Messias prometido, o filho de Davi, era o filho de Deus. Eles não creram que o Jesus de Nazaré era o Filho de Deus.

Ao questionar os escribas e fariseus acerca do Cristo ( Mt 22:42 ), eles responderam que Cristo é filho de Davi, mas diante da pergunta: “Como é então que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, Até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?” ( Mt 22:43 -45), nada souberam responder.

Se houvessem analisado a profecia que diz: “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:12 -14), os escribas e fariseus saberiam que Davi chamou o seu filho de Senhor por Ele ser o filho de Deus ( Sl 110:1 ; Pv 30:3 e Sl 127:4 combinado com Is 49:2).

Os filhos de Israel aguardavam somente que o Messias prometido fosse um libertador nacional. Para eles a pedra prometida dizia tão somente do reino Messiânico “Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre, da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro; o grande Deus fez saber ao rei o que há de ser depois disto. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação” ( Dn 2:44 -45), e esqueceram do templo prometido a Davi por terem um templo construído por mão humanas.

Está é uma promessa segura: o reino do seu Cristo jamais será destruído, não passará a outros povos e dominará todos os reinos, pois foi isto que Deus prometeu ao seu Ungido ( Sl 2:8 ).

Mas, a promessa também dizia do pecado do povo, pois Zacarias profetizou, dizendo: “Ouve, pois, Josué, sumo sacerdote, tu e os teus companheiros que se assentam diante de ti, porque são homens portentosos; eis que eu farei vir o meu servo, o RENOVO. Porque eis aqui a pedra que pus diante de Josué; sobre esta pedra única estão sete olhos; eis que eu esculpirei a sua escultura, diz o SENHOR dos Exércitos, e tirarei a iniquidade desta terra num só dia” ( Zc 3:8 -9).

É em função desta missão específica, tirar a iniquidade, que do renovo do Senhor disse o profeta João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” ( Jo 1:29 ). Deus prometeu um rebento na casa de Davi, o Cristo, e Ele foi posto por pedra preparada (esculpida) por Deus para arrancar o pecado do mundo.

Ao falar ao povo de Israel, o apóstolo Pedro destaca a função de Cristo, o Nazareno: a pedra posta por cabeça de esquina “Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:10 -12).

Ao falar em uma sinagoga em um sábado, o apóstolo Paulo destaca que Jesus era o descendente prometido a Davi para salvação do povo de Israel ( At 13:23 e 38), e que os seus interlocutores deveriam cuidar para identificar e crer na obra realizada por Deus “Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” ( Hc 1:5 ; At 13:41 ).

Cristo é a pedra escolhida como sustentáculo do templo de Deus, e quando Jesus disse a Pedro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ), o templo prometido por Deus a Davi começou a ser edificado com pedras vivas.

Não é ouvido nenhum som de martelo ou de ferramentas, entretanto o templo prometido a Davi começou a ser erguido pelo Filho de Davi, a semelhança do templo construído por Salomão “E edificava-se a casa com pedras preparadas, como as traziam se edificava; de maneira que nem martelo, nem machado, nem nenhum outro instrumento de ferro se ouviu na casa quando a edificavam” ( 1Re 6:7).

Para edificar o templo, a semelhança da construção de Salomão, pedras são trazidas dentre os gentios para compor a estrutura do templo “E mandou o rei que trouxessem pedras grandes, e pedras valiosas, pedras lavradas, para fundarem a casa. E as lavraram os edificadores de Hirão, e os giblitas; e preparavam a madeira e as pedras para edificar a casa” ( 1Re 5:17 -18).

Ao longo da história da cristandade, inúmeros templos são erguidos, mas todos são frutos da engenhosidade humana. Mas, o salmista é direito: “SE o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” ( Sl 127:1 ). Em vão trabalham os que edificam os seus templos, catedrais, basílicas, sinagogas, mesquita, pagode, etc. Engana-se quem entende que o templo de Deus diz de uma estrutura arquitetônica.

Muitos não atentam para as seguintes perguntas: “O céu é o meu trono, E a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor, Ou qual é o lugar do meu repouso?” ( At 7:49 ; Is 66:1 ).

O templo de Deus prometido a Davi está sendo construído com pedras vivas, homens chamados dentre todos os povos e línguas que, após crerem em Cristo, são de novo gerados “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

As pedras para o templo do Senhor são obras de suas mãos, visto que, aos que creem na palavra (água limpa aspergida) é arrancado o coração de pedra e é dado um novo coração de carne e um novo espírito ( Ez 36:25 -27; Sl 51:10 ; Is 57:15 ). Quando a nova criatura é criada segundo Deus, tornou-se habitação do Espírito, pois o Pai, o Filho e o Espírito Santo faz do novo homem morada ( Rm 8:11 ; 1Co 3:16 -17; Jo 14:23 ).

O templo prometido é a igreja, o corpo de Cristo. É sobre Cristo, a pedra fundamental, que os homens são edificados casa espiritual para habitação do Espírito “Arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças” ( Cl 2:7 ); “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina (…) No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:20 -22).

Quando Jesus propôs: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei” ( Jo 2:19 ), os judeus não compreenderam que ele falava do seu corpo, e responderam: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?” ( Jo 2:20 ); “Mas ele falava do templo do seu corpo” ( Jo 2:21 ).

As falsas testemunhas, quando citaram a fala de Jesus, não compreenderam a grandeza do que repetiram “Nós ouvimos-lhe dizer: Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens” ( Mc 14:58 ).

O templo em questão era o corpo físico de Cristo, que após ser entregue na morte (derribado), foi ressurreto (edificado) pelo poder de Deus. Após ressurreto, Cristo foi constituído cabeça de um corpo, e todos que morrem com Cristo ressurgem com Ele e são constituídos membros do corpo de Cristo ( Ef 1:22 -23).

Individualmente cada cristão é membro um dos outros, porém, todos os que estão em Cristo formam um só corpo “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ; Ef 4:25 ).

Através de Cristo, que é a cabeça, a igreja, que é o seu corpo, aumenta pela justa operação de cada membro ( Ef 4:16 ; Ef 2:21 ). Para ser membro deste corpo é imprescindível crer no evangelho de Cristo (uma só fé), para que o velho homem morra (um só batismo), e ressurja uma nova criatura “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” ( Rm 6:4 ); “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:12 ).

Para demonstrar a unidade do Seu corpo, o templo do Deus vivo, Cristo utilizou o pão como figura para representá-Lo. Antes de ser entregue aos pecadores, Jesus disse ao partir o pão: “Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim” ( 1Co 11:24 ). Daí a fala do apóstolo Paulo: “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 ).

Quando o homem é batizado na morte de Cristo, ressurge uma nova criatura na condição de pedra viva, edificado sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos e passa a compor o templo de Deus prometido a Davi. É um templo invisível aos olhos dos homens, e por isso mesmo, eterno “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” ( 2Co 4:18 ).

Se o fundamento do templo é o próprio Deus, certo é que os poderes do inferno como a lei, o pecado e a morte jamais subsistem diante da igreja “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ).

Assim como a morte não tem poder sobre o Cristo ressurreto ( Rm 6:9 ), ela não tem poder sobre os que creem, pois foram circuncidados com a circuncisão de Cristo, sepultado e ressurgiram pelo poder de Deus “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:11 -12; Cl 3:1 ).

Como o fundamento do templo prometido a Davi foi esculpido por Deus na pedra que possui sete olhos, as pedras que compõe o templo também são vivas. Ao morrer e ressurgir com Cristo, o cristão passa a compartilhar da natureza divina, é pedra viva, um só pão um só corpo ( 2Pe 1:4 ; Cl 2:10 ).

No crente está contido os elementos essenciais à adoração, pois o crente é sacerdote real, templo e sacrifício vivo ( 1Pe 2:9 ; 1Co 3:16 ; Rm 12:1 ; Hb 13:15 ). Na condição de casa do Senhor, o cristão não precisa de intermediário para estar na presença de Deus, e em todo momento e lugar oferecer o fruto dos seus lábios como novilhos ( 1Tm 2:5 ; Os 14:2 ; Hb 13:15 ).

Somente quando o homem se torna templo de Deus é possível adorar a Deus em espírito e em verdade. A adoração não se vincula a lugar, templo, monte, sacrifícios, ofertas, nação, povo, língua, etc., antes se vincula a verdade do evangelho, pois todos que creem recebem poder de serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ; Jo 4:20 -21).

Quem crê nas palavras de Cristo, que é espírito e vida, é nascido do espírito, portanto, adora em espírito e verdade ( Jo 4:24 ; Jo 3:6 ; Jo 6:63 ). Quem crê em Cristo é plantação do Senhor, para que Ele seja glorificado ( Is 61:3 ; Is 60:21 ; Jo 15:8 ). Quem crê em Cristo passa a compor o corpo de Cristo. É uma pedra viva adquirida por Deus dentre todos os povos e que agora compõe o templo santo erguido pelo descendente que Deus prometeu a Davi: Jesus Cristo, nosso Senhor.

Da nova Jerusalém, a cidade que Abraão aguardava ( Hb 11:10 ), temos o seguinte testemunho do evangelista João: “E nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”( Jo 21:22 ). Isto indica que o templo erguido por Cristo jamais será substituído “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 ).




Habacuque 3 – Oração do profeta Habacuque

A oração de Habacuque é para Deus implementar (avivar) a sua obra. Embora fosse anunciado pelos profetas que Deus haveria de levantar os caldeus para castigar o povo de Israel, quando os profetas contavam a maravilhosa obra, o povo não cria. Eles não se arrependeram e veio o cativeiro conforme a visão dos profetas “…vós não crereis, quando vos for contada” ( Hc 1:5 ).


Oração do profeta Habacuque

HABACUQUE 3

1 ORAÇÃO do profeta Habacuque sobre Sigionote.
2 Ouvi, SENHOR, a tua palavra, e temi; aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida; na tua ira lembra-te da misericórdia.
3 Deus veio de Temã, e do monte de Parã o Santo (Selá). A sua glória cobriu os céus, e a terra encheu-se do seu louvor.
4 E o resplendor se fez como a luz, raios brilhantes saíam da sua mão, e ali estava o esconderijo da sua força.
5 Adiante dele ia a peste, e brasas ardentes saíam dos seus passos.
6 Parou, e mediu a terra; olhou, e separou as nações; e os montes perpétuos foram esmiuçados; ou outeiros eternos se abateram, porque os caminhos eternos lhe pertencem.
7 Vi as tendas de Cusã em aflição; tremiam as cortinas da terra de Midiã.
8 Acaso é contra os rios, SENHOR, que estás irado? É contra os ribeiros a tua ira, ou contra o mar o teu furor, visto que andas montado sobre os teus cavalos, e nos teus carros de salvação?
9 Descoberto se movimentou o teu arco; os juramentos feitos às tribos foram uma palavra segura. (Selá.) Tu fendeste a terra com rios.

 

A Oração de Habacuque

Depois que Deus revela a Habacuque os seus desígnios, ele orou ao Senhor. O capítulo 3 do livro de Habacuque e uma oração em forma de cântico. É um salmo profético!

Ao ouvir a palavra de Deus, Habacuque teme, ou seja, ele deposita confiança em Deus. O temor ao Senhor é proveniente dos seus ensinos. Após ter ouvido, ele creu em Deus, ou seja, ele segue o que disse Miqueias “A voz do Senhor clama à cidade, temer-lhe o nome é sabedoria. Escutai a vara, e quem a ordenou” ( Mq 6:9 ).

Embora a obra do Senhor que Habacuque faz referência era o suscitar dos caldeus contra Israel e Judá ( Hb 1:6), ele não teme e pede a Deus que implemente (avive) a sua obra. Deus haveria de levantar os caldeus contra o povo de Israel, porém, Habacuque confia na misericórdia do Senhor.

Habacuque sabia que os caldeus eram um povo feroz e impetuoso, e que, segundo o oráculo que viu, Judá e Israel seriam levados cativos, porém, à vista deste quadro de sofrimento e ignomínia, ele confia na misericórdia de Deus “Fez com que deles tivessem compaixão os que os levaram cativos” ( Sl 106:46 ).

Em nossos dias este versículo tem um valor totalmente diverso da ideia que Habacuque procurou evidenciar. Perceba que Habacuque não pede um avivamento ‘espiritual’, o que é comum interpretarem em nossos dias. Ele ora a Deus que realize a sua obra, ou seja, a mesma obra anunciada na primeira visão “Vede entre as nações, e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos, porque realizo em vossos dias uma obra, que vós não crereis, quando vos for contada. Suscito os caldeus…” ( Hc 1:5 -6).

Perceba que a oração de Habacuque é segundo a vontade de Deus, ou seja, ele não pede que Deus livre a Israel do castigo, antes que os caldeus venham segundo a palavra anunciada. Mesmo sabendo que os caldeus viriam, a confiança de Habacuque não é abalada! Ele confia que o povo de Israel seria preservado “Nós não morreremos”, pois os caldeus somente foram estabelecidos para castigar o povo de Israel ( Hb 1:12 ).

Habacuque pede a Deus que implemente (aviva) a sua obra. Ora, a obra maravilhosa e admirável é o suscitar dentre as nações os caldeus, e que, ao longo dos anos os homens haveriam de conhecê-la. Embora fosse anunciado pelos profetas que Deus haveria de levantar os caldeus para castigar, quando os profetas contavam maravilhosa obra, o povo de Israel não cria. Eles não se arrependeram e veio o cativeiro conforme a visão dos profetas “…vós não crereis, quando vos for contada” ( Hc 1:5 ).

 

É possível ocorrer um ‘avivamento’ ao moldes do que é alardeado em nossos dias?

 

A Bíblia demonstra que quem crer em Cristo como diz as Escrituras verá a luz da vida.

Por intermédio da palavra de Deus o homem tem vida e vida em abundância. Ora, Deus dá vida àquele que é participante da água que faz jorrar uma fonte para a vida eterna. É possível a quem bebeu da água da vida tornar a ter sede? A resposta é ‘Não’! Do mesmo modo que é impossível àquele que beber da água que faz jorrar uma fonte para a vida eterna ter sede novamente, é impossível a ideia apregoada de avivamento para a igreja de Cristo ( Jo 4:13 -14).

A igreja de Cristo é viva e não dorme. Ela é perfeita, pois o Senhor a estabeleceu para ser templo e morada do Espírito. A igreja de Cristo não precisa de avivamento, pois jamais a igreja tornou-se morna.

Perceba que há um grande diferencial entre o que Habacuque pediu, que é: implemente (aviva) a tua obra, da ideia que muitos apregoam: Deus trará um avivamento para a sua igreja. A obra que Habacuque fez referência não tem relação alguma com a igreja. Enquanto Habacuque pede misericórdia por causa da obra que estava por vir, a igreja só está a aguardar a nova terra onde habita a justiça.

Embora Habacuque estivesse temeroso com relação a vinda dos caldeus (a obra maravilhosa e admirável suscitada dentre as nações), após ouvir a palavra do Senhor, ele creu. O temor não mais existia, pois estava confiando no amor e na misericórdia de Deus. Liberto do medo, Habacuque espera que Deus realize a sua obra e a torne conhecida de todos os homens (v. 2).

Ora, se o ‘avivamento’ fosse algo desejável do ponto de vista humano Habacuque não clamaria por misericórdia ( Hc 3:2 ). Habacuque também não estaria esperando o dia da angustia do seu povo ( Hc 3:16 b).

Apesar da aflição do seu povo, Habacuque expressa quão grande é a glória de Deus: ela cobre os céus. Ele descreve que a Terra encheu-se do seu louvor, isto porque na terra Deus estabeleceu uma das suas maiores obras: fez dos homens Seus filhos (v. 3); ( Ef 1:11 -12).

O resplendor da glória de Deus se fez como a luz, revelou Deus aos homens ( Jo 1:18 ). A luz de Deus que ilumina os homens (v. 4) ( Jo 1:9 ). O resplendor da glória de Deus é inacessível aos olhos dos homens, porém, ao se fazer luz, ‘vimos a glória do Unigênito de Deus’!

Habacuque fala da manifestação da salvação de Deus de forma impar. Quando ele diz que raios brilhantes saíram das mãos de Deus, ele estava falando do Cristo, o Filho de Deus. O braço do Senhor manifesto e desnudado perante as nações “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” ( Is 52:10 ).

Cristo é a Força do Senhor que dominará sobre a terra ( Is 40:10 ). Cristo é o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Jacó “E o resplendor se fez como a luz, raios brilhantes saíam da sua mão, e ali estava o esconderijo da sua força” (v. 4); “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” ( Is 8:17 ).

Habacuque profetiza acerca de um dos eventos mais esperado por Israel como nação: o dia em que Cristo há de julgar as nações e submetê-las sob os seus pés (v. 5- 6; Sl 110:5 -7).

Haverá um dia em que Cristo marchará sobre a largura da terra, e adiante dele irá a peste, e brasas ardentes sairá dos seus pés. Ele parará e medirá a terra (julgamento) e separará as nações como o pastor separa as ovelhas “E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas” ( Mt 25:32 ).

Os montes perpétuos (nações) serão desfeitas. Os outeiros eternos (nações) serão abatidos, porque os caminhos eternos lhes pertencem. Ele é a pedra lançada sem auxílio de mãos “Da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro; o grande Deus fez saber ao rei o que há de ser depois disto. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação” ( Dn 2:45 ).

As grandes nações são comparadas aos montes e outeiros, e Israel é comparado a um monte “Por que saltais, ó montes elevados? Este é o monte que Deus desejou para a sua habitação, e o SENHOR habitará nele eternamente” ( Sl 68:16 ).

Habacuque testemunhou acerca da aflição do seu povo. Ele viu as tendas de Cusã em aflição e as cortinas da terra de Midiã tremiam.

A aflição dos filhos de Israel não é em conseqüência da ira de Deus. Deus não estará irado com Israel (rio) no tempo da aflição. Enquanto as nações são comparadas aos mares, o povo de Israel é comparada com rios e ribeiros. Quando Habacuque pergunta se é contra os rios que Deus está irado, ele refere-se ao povo de Israel. Acaso Deus estava irado contra Israel?

Ora, se o Senhor está montado sobre os seus cavalos é porque chegou o dia da ira, o dia da retribuição, no qual ele trará a juízo as nações e dará a beber a elas o cálice da sua ira. Para as nações inimigas Deus é furor, para os que confiam em Deus, ele é salvação (v. 8).

Da primeira vez que foi manifesta a flecha do Senhor, os homens pasmaram pela sua ignomínia, porém, após ele ser manifesto a todos os povos, ele será o arco que se movimenta perseguindo os seus inimigos ( Is 52:14 -15); “E fez a minha boca como uma espada aguda, com a sombra da sua mão me cobriu; e me pôs como uma flecha limpa, e me escondeu na sua aljava” ( Is 49:2 ).

Habacuque ao orar a Deus profetiza acerca de Cristo, a flecha da aljava de Deus. Porém, quando Deus tira a descoberto o seu arco, verifica-se que está farta a aljava de flechas (muitos filhos de Deus “Tiras a descoberto o teu arco, e farta está a tua aljava de flechas” (v. 9).

 

9 Tu fendeste a terra com rios.
10 Os montes te viram, e tremeram; a inundação das águas passou; o abismo deu a sua voz, levantou ao alto as suas mãos.
11 O sol e a lua pararam nas suas moradas; andaram à luz das tuas flechas, ao resplendor do relâmpago da tua lança.
12 Com indignação marchaste pela terra, com ira trilhaste os gentios.
13 Tu saíste para salvação do teu povo, para salvação do teu ungido; tu feriste a cabeça da casa do ímpio, descobrindo o alicerce até ao pescoço. (Selá.)
14 Tu traspassaste com as suas próprias lanças a cabeça das suas vilas; eles me acometeram tempestuosos para me espalharem; alegravam-se, como se estivessem para devorar o pobre em segredo.
15 Tu com os teus cavalos marchaste pelo mar, pela massa de grandes águas.
16 Ouvindo-o eu, o meu ventre se comoveu, à sua voz tremeram os meus lábios; entrou a podridão nos meus ossos, e estremeci dentro de mim; no dia da angústia descansarei, quando subir contra o povo que invadirá com suas tropas.
17 Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado;
18 Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação.
19 O SENHOR Deus é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas. (Para o cantor-mor sobre os meus instrumentos de corda).

 

Salmodiando ao Senhor

O povo de Israel (rios) causa uma divisão sobre a terra: temos a nação bem-aventurada e os outros povos (v. 9). Por Deus ter escolhido a Israel dentre todas as nações, criou-se uma divisão sobre a terra.

As nações (montes) vêem a glória do Senhor e ficam apavorados. Diante do Senhor de toda a terra a inundação (invasão) das nações (muitas águas) passam (v. 10).

O abismo restitui o que deteve, e levanta as mãos ao alto em sinal de rendição (v. 10).

Os filhos de um homem em sua virilidade são comparados as flechas na mão de um homem poderoso “Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade” ( Sl 127:4). Habacuque descreve o Senhor como Aquele que possui um aljava cheia de flechas ( Hc 3:9 ), ou seja, Ele possui muitos filhos dentre os homens (v. 11).

Diante da glória dos filhos de Deus, o sol e a lua deixará de cumprir a sua função diária e se recolherá em sua morada (aposento). Diante do resplendor daquele que é o Sublime entre os sublimes, o sol e a lua haverá de recolher-se, pois o Cordeiro de Deus iluminará a cidade santa “Nunca mais te servirá o sol para luz do dia nem com o seu resplendor a lua te iluminará; mas o SENHOR será a tua luz perpétua, e o teu Deus a tua glória” ( Is 60:19 ).

Observe a superioridade da lança comparado as flechas. O brilho das flechas e o resplendor da lança será suficiente para iluminar a cidade santa, pois assim como Ele é, os cristãos serão semelhantes a Ele “E a cidade não necessita de sol nem de lua, para que nela resplandeçam, porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada” ( Ap 21:23 ).

Cristo foi feito mais sublime que os seus, e os cristãos, como casa espiritual e habitação do Altíssimo, serão mais sublimes que os céus, pois assim como Ele é, serão semelhantes a Ele “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

Com indignação Cristo marchará sobre a terra e trilhará as nações. Quando Habacuque escreveu esta oração profética, ele conseguiu visualizar o Senhor Jesus marchando sobre a largura da terra. Habacuque não visualiza somente a Babilônia, antes as nações que se submeterão ao reino de Cristo no milênio ( Sl 110:5 -7).

A saída de Deus no dia da batalha será em defesa do seu povo, os descendentes de Abraão segundo a carne. Diferente e a ação de Deus para com o seu povo segundo a fé que teve o crente Abraão, a igreja, os filhos de Deus segundo a fé em Cristo, pois estarão nas bodas do Cordeiro ( Jo 1:12 -13). Há os descendentes de Abraão segundo a carne e os filhos de Abraão segundo a fé, nomeados também de filhos de Deus.

Ao salvar o seu povo (Israel), Deus preserva o trono do seu Ungido (v. 3). O ‘chefe’ da terra da impiedade será ferido e despido completamente. Quem é (será) o chefe da terra? O iníquo que haverá de se levantar contra o povo escolhido, segundo a eficácia de Satanás “E então será revelado o iníquo, a quem o Senhor desfará pelo assopro da sua boca, e aniquilará pelo esplendor da sua vinda” ( 2Ts 2:8 ).

Cristo sairá para livrar o povo de Israel quando eles forem atacados pelas nações. Eles atacarão o povo de Israel como se estivessem para devorar o pobre as ocultas. Eles atinarão que Israel estará indefeso, porém, eles serão traspassados por suas próprias armas, quando avançarem com o ímpeto semelhante a das tempestades sobre Israel ( Hb 3:14 ).

Ora, novamente Habacuque utiliza a figura do mar e das águas para falar das nações (v. 15). Do mesmo modo, João na ilha de Patmos utilizou a figura das águas e do mar para fazer referência as nações da terra: “Então o anjo me disse: As águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, multidões, nações e línguas” ( Ap 17:15 ).

Ao ouvir a voz do Senhor que marcha entre os povos da terra, o profeta Habacuque sente temor e tremor, visto que a sua carne não suporta a voz do Altíssimo. Por não poder suster-se em pé, Habacuque considera que a podridão acometeu os seus ossos (v. 16).

Apesar de toda glória revelada, o profeta aguarda a invasão dos caldeus, que prefigura o dia da angustia, o tempo da grande tribulação (v. 16b; Mt 24:21 ).

Diante desta revelação maravilhosa, o profeta que estava orando ao Senhor irrompe em adoração. Ainda que as maiores adversidades acometesse a existência de Habacuque, todavia o profeta estaria alegre no Senhor. O exultar do profeta é a salvação de Deus, apesar dos contra-tempos desta vida.

Habacuque apresenta um quadro de transtorno das coisas naturais: não florescer a figueira; a vide não produzir frutos; a oliveira não produza; os campos não produzam mantimentos; as ovelhas exterminadas; os currais não tenham gado. Ora, os homens confiam piamente na natureza, pois ela não os decepciona. Alegram-se quando vêem o que a natureza produz, porém não esperam no Deus da nossa salvação.

Ao final da sua oração Habacuque bendiz ao Senhor. Por confiar em Deus, Ele tornou-se a força do profeta. Os pés do profeta será ágil e forte como os pés das corças. As corças andam por lugares inatingíveis a outros animais do campo, e o profeta, segundo a força do Senhor, trilhará caminhos altos.

Este trecho final da oração de Habacuque é semelhante a fala de Paulo: “Não digo isto por necessidade, pois já aprendi a contentar-me em toda e qualquer situação (…) Posso todas as coisas naquele que me fortalece” ( Fl 4:11 -13). O poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza dos homens!




Habacuque 1 – Realizarei em vossos dias uma obra

Deus não é a causa das injustiça sociais e nem das violações de questões legais estabelecida pelos homens. O juízo de Deus foi estabelecido sobre a humanidade em Adão, e a justiça de Deus manifesta-se em Cristo. No juízo está a condenação da humanidade, na justiça de Deus manifesta aos homens em Cristo, está a salvação.


Habacuque 1 – Realizarei em vossos dias uma obra

“Entenda o motivo de o profeta Habacuque pedir a Deus que ‘lembre da misericórdia’ após pedir que a obra de Deus fosse avivada”

HABACUQUE 1

1 O PESO que viu o profeta Habacuque.
2 Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvarás?
3 Por que razão me mostras a iniquidade, e me fazes ver a opressão? Pois que a destruição e a violência estão diante de mim, havendo também quem suscite a contenda e o litígio.
4 Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, e a justiça se manifesta distorcida.

 

Questões sem Respostas

A vida particular do profeta Habacuque é pouco conhecida assim como a dos outros profetas menores. Habacuque, cujo nome significa ‘abraço’, profetizou a Judá sobre a invasão iminente dos caldeus.

O primeiro verso do livro de Habacuque está mais para um título inicial, do que para um elemento essencial para o entendimento do texto. Durante a leitura do livro é possível verificar que o texto apresenta uma sentença (peso) que o profeta (oráculo de Deus) viu, ou seja, uma revelação de Deus.

O peso do Senhor não são as perguntas do profeta, antes uma resposta de Deus as suas perguntas.

O Livro de Habacuque tem início com algumas questões que importunavam o profeta “Até quando, Senhor…” (v. 2). As questões eram acerca dos tempos estabelecidos por Deus através do seu próprio poder. Ora, desde a antiguidade a preocupação dos homens centram-se nos tempos em que Deus realizará os seus desígnios “E disse-lhes: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder” ( At 1:7 ).

Pedro demonstra a preocupação dos profetas acerca da salvação que haveria de ser revelada e dos tempos estabelecido por Deus “Indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava…” ( 1Pe 1:11 ).

Além de querer saber os tempos que Deus estabeleceu por seu próprio poder, Habacuque clamava por justiça! (v. 2- 4). Mas, qual tipo de justiça era o anseio do profeta Habacuque?

Habacuque queria entender por que ele clamava e Deus não lhe respondia. Não escutar equivale a não responder. Habacuque não estava acusando Deus de surdez ou algo semelhante.

O profeta gritava: “Violência!” do mesmo modo quando os homens gritam: “Fogo!”, e esperam ser atendidos. Porém, embora gritasse “Violência” e clamasse por auxílio, Habacuque não conseguia ver o auxilio de Deus.

Por que Habacuque não conseguiu ver o socorro de Deus? Porque ele estava focado em questões humanas!

Habacuque estava clamando a Deus por causa das injustiça sociais, pois ele via a opressão dos fortes sobre os fracos, dos ricos sobre os pobres, dos reis sobre os súditos, etc. A destruição e a violência era algo aferido diariamente pelo profeta, porém, ele não entendia porque Deus deixava os homens se lançarem às suas maldades.

A preocupação do profeta é a mesma de alguns religiosos e bons cidadãos em nossos dias. Por que tanta violência em nossos dias? Por que tanta morte, roubo, opressão, suborno, etc? Por que os inocentes sofrem?

Habacuque não estava clamando por sua salvação, pois quem invoca a Deus por salvação é atendido (ouvido) prontamente por Deus: é salvo da condenação que há no mundo, pois a mensagem de Deus é clara: “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ; Jl 2:32 ).

Entretanto, quem clama a Deus para ver a providência divina com relação as contendas e litígios entre os homens, deve esperar o tempo ou as estações que Deus estabeleceu por seu próprio poder, quem clama por salvação é atendido prontamente. Pois hoje é o dia sobremodo aceitável! Hoje é o dia de salvação!

Os cristãos devem compreender que, após crerem em Cristo conforme diz as Escrituras, foram salvos da condenação proveniente da queda de Adão. Esta salvação é efetiva para o tempo que se chama hoje. Quem invoca a Cristo é salvo hoje de condenação estabelecida em Adão no passado ( 1Co 6:2 ).

Quem assim clamar (invocar) será escutado (atendido). Quem gritar ao Senhor acerca da violência estabelecida em Adão, verá a salvação de Deus. Quem ver a iniquidade em que foi formado, perceberá que precisa nascer de novo, da semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( Sl 51:5 ).

Mas. quem olhar para as relações humanas onde o litígio e as contendas são fomentadas, quem olhar para as questões legais e as injustiças cometidas, ou quem olhar para os perversos que cercam os justos, indagará sempre acerca de como se dá a justiça de Deus.

Se Habacuque considerasse que o juízo de Deus foi estabelecido em Adão, e que todos os homens foram julgados e condenados, jamais diria que Deus não o escutava. Quem aprender com Habacuque jamais considerará que a justiça de Deus ‘tarda mas não falha’. Aqueles que compreendem que a humanidade já está sob condenação, a condenação em Adão, percebe que o juízo e a condenação já foi estabelecido no passado da humanidade, ou seja, a justiça de Deus não é tardia.

Ora, não precisa ser profeta para ver que a violência humana e a iniquidade é crescente. Ao observar a iniquidade e a opressão, Habacuque considerava que Deus é quem lhe mostrava o estado de degradação do homem. Para ele, a justiça não se manifestava e a lei afrouxava por causa do ímpio, aquele que que suscita a contenda e o litígio (v. 3- 4).

A questão levantada por Habacuque é semelhante a dos religiosos, pois estes não compreendem por que Deus silencia acerca das injustiças dos homens (sociais). Por que Deus permanece inerte e despreocupado à vista da degradação da humanidade?

Diferentes dos religiosos da atualidade, que procuram dar uma resposta às suas indagações, Habacuque esperou uma resposta de Deus.

Deus não é a causa das injustiça sociais e nem das violações de questões legais estabelecida pelos homens. O juízo de Deus foi estabelecido sobre a humanidade em Adão, e a justiça de Deus manifesta-se em Cristo. No juízo está a condenação da humanidade, na justiça de Deus manifesta aos homens em Cristo, está a salvação.

Ora, as questões levantadas por Habacuque não precisa ser as mesmas dos cristãos, pois já sabemos que a salvação de Deus é individual e manifesta-se em Cristo “… aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” ( Jl 2:32 ). Os cristãos devem saber que ‘justiça’ neste mundo é utópico, pois mesmo na terra da retidão os ímpios não aprenderão a justiça (milênio) “Ainda que se mostre favor ao ímpio, nem por isso aprende a justiça; até na terra da retidão ele pratica a iniquidade, e não atenta para a majestade do SENHOR” ( Is 26:10 ).

Justiça segundo a concepção inicial de Habacuque só será estabelecida no novo céu e na nova terra que será criada por Deus num tempo estabelecido por seu próprio poder “Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão” ( Is 65:17 ); “Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça” ( 2Pe 3:13 ).

Embora a corrupção do gênero humano é observável a olho nu, o socorro e a salvação de Deus é imediata àqueles que invocam o seu nome. Os ouvidos de Deus não estão agravados para que não possa ouvir quem clame por salvação “E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Jl 2:32 ); “EIS que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir” ( Is 59:1 ).

 

5 Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada.
6 Porque eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas.
7 Horrível e terrível é; dela mesma sairá o seu juízo e a sua dignidade.
8 E os seus cavalos são mais ligeiros do que os leopardos, e mais espertos do que os lobos à tarde; os seus cavaleiros espalham-se por toda parte; os seus cavaleiros virão de longe; voarão como águias que se apressam a devorar.
9 Eles todos virão para fazer violência; os seus rostos buscarão o vento oriental, e reunirão os cativos como areia.
10 E escarnecerão dos reis, e dos príncipes farão zombaria; eles se rirão de todas as fortalezas, porque amontoarão terra, e as tomarão.
11 Então muda a sua mente, e seguirá, e se fará culpado, atribuindo este seu poder ao seu deus.

 

A Obra do Senhor

O profeta Habacuque como todos os homens ‘anseiam’ por uma resposta divina, porém, será que a resposta de Deus é conforme os anseios dos homens? A resposta de Deus é agradável aos homens?

Habacuque queria saber quando e como Deus trataria com o seu povo. Até quando a iniquidade, a opressão, a destruição, a violência, o litígio, a contenda, a injustiça e o ímpio seria uma constante em Israel? ( Sl 73).

Deus ordena a Habacuque e a quem dentre o povo de Israel que aguardava uma resposta de Deus, que olhassem entre as nações para encontrarem a resposta. Deus estava realizando nos dias de Habacuque uma obra maravilhosa, porém, não creriam quando tal obra fosse anunciada (v. 5).

Que obra Deus estava realizando e que daria uma resposta àqueles que esperavam em Deus? Deus estava suscitando os caldeus! Os caldeus eram habitantes semitas da Babilônia. Eram descendentes de Quesede, irmão de Abraão ( Gn 22:22 ). Nos caldeus estaria a resposta a pergunta de Habacuque!

Alguém poderia tentar contrariar o que Deus estava anunciando dizendo que creria piamente na mensagem acerca da obra Deus. Isto é possível?

Habacuque foi um dos profetas de Deus anterior ao cativeiro de Israel e Judá. Profetizaram antes do cativeiro em Judá: Jeremias (profetizou até o cativeiro), Joel, Miqueias, Naum, Habacuque e Sofonias, e em Israel Oseias, Amós e Jonas.

Dentre estes profetas, muitos se ocuparam em anunciar ao povo que Deus haveria de levar cativo o povo de Israel para a Babilônia. Acaso alguém creu em Isaías quando anunciou que o povo haveria de ser cativo em Babilônia? Do mesmo modo, alguém creu quando Jeremias profetizou acerca do cativeiro? “O que ficar nesta cidade há de morrer à espada, ou de fome, ou de pestilência; mas o que sair, e se render aos caldeus, que vos têm cercado, viverá, e terá a sua vida por despojo” ( Jr 21:9 ).

Quem creu no anunciado pelos profetas? Quem creu na obra maravilhosa que foi anunciada: Deus suscitará os caldeus contra Israel para castigar!

Habacuque compreendeu e anunciou que os caldeus foram levantados por Deus. Bem antes de ocorrer a invasão de Nabucodonosor, Habacuque demonstrou que os caldeus eram uma nação feroz e impetuosa. Que eles marchariam para tomar casas que não eram suas (v. 6).

Os caldeus eram uma tribo semitas (também chamados babilônicos), que ocuparam a região entre o Golfo Pérsico e a Babilônia. Eles conquistaram a maior parte do Oriente num curto período de mais ou menos vinte e cinco anos.

Nem mesmo quando Jerusalém estava cercada pelos caldeus, o povo acreditou no anunciado por Jeremias “Assim diz o SENHOR Deus de Israel: Eis que virarei contra vós as armas de guerra, que estão nas vossas mãos, com que vós pelejais contra o rei de Babilônia, e contra os caldeus, que vos têm cercado de fora dos muros, e ajuntá-los-ei no meio desta cidade” ( Jr 21:4 ).

O profeta descreve os caldeus com detalhes bem antes de iniciarem as suas conquistas:

a) Os caldeus eram uma nação amarga e impetuosa (v. 6);
b) Apoderam-se de tudo;
c) É uma nação horrível e terrível, pois ela estabelece o seu direito sobre o que não lhe pertencia segundo a sua dignidade (v. 7);
d) Eles utilizam cavalos que lhes dá agilidade para apanhar os inimigos, uma vez que tem a capacidade de espalharem-se por toda parte (v. 8);
e) A distância não é empecilho aos caldeus, pois podem alcançar a presa como as águias;
f) Os caldeus abaterão os povos com violência reunindo os cativos em grande número (v. 9);
g) Por fazerem várias conquistas, perdem o respeito pelos reis e os seus exércitos.

Após inúmeras conquistas, os caldeus passariam a considerar que as suas vitórias eram por causa de seus deuses, fato que torna os caldeus culpados (v. 11).

Quando pregou aos judeus na sinagoga em um dia de sábado, na cidade de Antioquia da Pisídia (Atos 13: 14), Paulo citou a ideia do verso cinco de Habacuque, que é similar ao exposto pelo profeta Isaías. Compare:

“Vede, ó desprezadores, e espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, Obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” ( At 13:41 );

“Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” ( Hc 1:5 ), e;

“Diz o Senhor: Este povo se aproxima de mim com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim (…) Portanto continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá” ( Is 29:13 -14).

Paulo apresenta aos judeus o alerta divino: ‘Vede, ó desprezadores…’ (v. 5).

O que os judeus precisavam ver? Eles precisavam ver e entender que:

1) A obra maravilhosa Deus seria suscitar uma nação dentre os gentios para executar a sua vontade (v. 5);
2) Não acreditariam na obra realizada por Deus apesar de ter sido anunciada com antecedência (v. 5);
3) Diante da obra maravilhosa de Deus, a sabedoria e o entendimento dos homens haveria de desaparecer ( Is 29:14 ).

Nos dias de Habacuque a obra de Deus foi suscitar os caldeus, nação gentílica, nos dias do apóstolo Paulo a obra de Deus são os cristãos, pessoas levantadas dentre todas as nações que se convertiam a Cristo.

Deus revelou a Habacuque que haveria de levantar dentre as nações os caldeus, mas quando fosse anunciado ao povo de Israel a obra que Deus haveria de realizar, o povo de Habacuque não haveriam de crer.

Isaías, Jeremias, Ezequiel e muitos outros profetas anunciaram que o povo de Israel haveria de ser levado cativo pelos caldeus, porém, eles não creram quando lhes foi anunciada a palavra do Senhor.

Habacuque descreve os caldeus segundo a visão que Deus lhe concedeu, ao passo que o povo de Israel não acreditava na invasão dos Babilônicos, a obra maravilhosa que Deus haveria de fazer.

Embora o povo de Israel não terem crido na obra de Deus, no capítulo 5 do livro de Esdras, verso 12, Esdras descreveu a invasão de Nabucodonosor, rei de Babilônia, o caldeu. Jeremias anunciou a obra maravilhosa de Deus e ficou em Jerusalém com o restante do povo que não foi levado cativo ( 2Rs 24:14 ). Ezequias também foi levado cativo à Babilônia na segunda deportação de Judá, segundo a obra maravilhosa que foi anunciada por Deus por intermédio dos seus profetas, como foi o caso de Habacuque.

 

12 Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR meu Deus, meu Santo? Nós não morreremos. Ó SENHOR, para juízo o puseste, e tu, ó Rocha, o fundaste para castigar.
13 Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar. Por que olhas para os que procedem aleivosamente, e te calas quando o ímpio devora aquele que é mais justo do que ele?
14 E por que farias os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?
15 Ele a todos levantará com o anzol, apanhá-los-á com a sua rede, e os ajuntará na sua rede varredoura; por isso ele se alegrará e se regozijará.
16 Por isso sacrificará à sua rede, e queimará incenso à sua varredoura; porque com elas engordou a sua porção, e engrossou a sua comida.
17 Porventura por isso esvaziará a sua rede e não terá piedade de matar as nações continuamente?

 

Como compreender a Obra do Senhor?

O profeta Habacuque continua confiando em Deus, uma vez que Deus é imutável “Não és desde a eternidade, ó Senhor…” (v. 12). Deus é misericordioso, e não é por causa da profecia acerca da invasão dos caldeus que a misericórdia seria invalidada.

Apesar da invasão ser certa, contudo a confiança de Habacuque era firme na fidelidade de Deus: “Não morreremos” (v. 12). Habacuque demonstra que a fidelidade de Deus é a causa de Israel não ter sido consumido. Porque Deus é desde a eternidade é que o povo não seria exterminado (não morreremos).

Habacuque continua confiando em Deus, pois o invoca: “Ó Senhor…”. Ele entendeu que os caldeus foram estabelecidos para juízo. Eles foram fundados para castigar Israel pela sua desobediência, conforme o predito na lei de Moisés.

O profeta compreende que Deus é puro de olhos, de modo que Ele não coaduna com a opressão (v. 13). A pureza de Deus era possível ao profeta compreender, porém, não compreendia como Deus poderia levar a efeito o seu propósito se a vara de correção (caldeus) eram homens aleivosos. Como os ímpios podiam ser usados por Deus, se o povo de Israel, segundo a concepção de Habacuque, eram mais justo do que eles?

É possível à concepção humana de justiça, alguém ser mais justo que outro. Porém, segundo a justiça e o juízo de Deus, não há uma gradação de justiça. Ou o homem é justo, ou não é.

Para Deus os caldeus e o judeus eram iguais, ambos condenáveis diante de Deus. Para Habacuque, por serem descendentes de Abraão, por terem as promessas, as escrituras, etc., ele considerava que a nação de Israel era mais justa que as nações em redor.

Habacuque invoca a soberania de Deus para que Ele estabeleça o seu reino, e os homens não mais vivam semelhante aos peixes e répteis, sem quem os governe. É plausível esta consideração de Habacuque? Não! Ele esqueceu de considerar que o domínio da terra foi dado aos homens, e o que é dado por Deus Ele não toma.

A Cristo foi dado o domínio de todas as coisas porque ele conquistou. Deus concedeu todo o domínio ao autor e consumador da nossa fé, pois ele conquistou este direito ao morrer e ressurgir dentre os mortos.

Habacuque não duvida da obra maravilhosa revelada, porém, continua em busca de respostas, pois não compreende o modo de Deus trazer correção ao seu povo.

Como Deus aceitava os caldeus abaterem os seus inimigos através do Seu poder, se eles atribuíam as suas conquistas as suas armadilhas e habilidades? (v. 16).

Habacuque procurou elementos para compreender a ação divina, mas os cristãos conhecem que:

  • Deus escolhe dentre os homens e dentre os povos quem executará uma obra, porém, isto não significa que o povo ou quem é escolhido será salvo;
  • Israel foi escolhido para tornar conhecido o nome do Senhor sobre a terra, porém, individualmente cada descendente de Abraão precisava circuncidar o seu coração, caso quisesse ver a salvação de Deus;
  • Ciro e Gideão executaram uma missão, porém, isto não lhes garantiu salvação;
  • A salvação dos homens não é segundo uma escolha divina entre quem será ou não salvo, antes é pela fé em Cristo. Uma missão não concede salvação a ninguém.
  • Os caldeus não eram mais ímpios que os israelitas, visto que a geração dos ímpios é diferente da geração dos justos.

Os ímpios são gerados segundo a vontade da carne, vontade do varão e do sangue. Já os justos são gerados segundo a vontade de Deus ( Jo 1:12 -13).

A geração dos ímpios é proveniente de Adão, e todos os nascidos em Adão são pecadores, filhos da ira e da desobediência. A geração dos justos é proveniente de Cristo, o último Adão, e todos os que são nascidos de Deus são conhecidos d’Ele.

O povo de Israel devia compreender o que foi exposto por Moisés: “Sabe, portanto, que não é por causa da tua justiça que o Senhor teu Deus te dá essa boa terra, para a possuirdes, pois és povo rebelde” ( Dt 9:6 ). Por que eles eram rebeldes? A resposta está em Isaías: “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ).

O povo de Israel era rebelde (ímpio) pelo mesmo motivo que as outras nações: Adão pecou! Se os interpretes de Israel considerassem que todos pecaram em Adão e que foram destituídos da glória de Deus, não teriam prevaricado contra o Senhor.

Eles não diriam que o povo de Israel eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão. Antes demonstrariam que, para serem filhos de Deus, o povo precisava circuncidar o coração, o que só é possível através da fé em Deus, a mesma fé que teve o crente Abraão “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ).

Habacuque considerava que a impiedade do seu povo era proveniente da opressão, da violência, do litígio, das injustiças, porém, esqueceu que os homens são ímpios porque foram gerados e concebidos em pecado. Ele não atinou que o primeiro pai dos homens (Adão) pecou e por isso todos tornaram-se pecados, e carecem da glória de Deus.




Colossenses 1 – Idôneos em Cristo

Deus fez os cristãos idôneos, ou seja, Deus já os criou com capacidade plena para serem participantes da herança dos santos. Quando os cristãos creram na mensagem do evangelho, eles receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ), e quando foram criados, foram criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Desta maneira Deus fez (criou) um novo homem (os cristãos) em Cristo. As novas criaturas (os cristãos) vieram à existência com direito pleno à herança guardada nos céus, não necessitando estar debaixo de tutores ou curadores como era próprio a lei ( Gl 4:1 -2).


O contexto do versículo 1 é de apresentação. Paulo faz uma apresentação pessoal, dele e de Timóteo.

O contexto do versículo 2 é de saudação, demonstrando Cristo nos cristão “…que é Cristo em vós, esperança da glória” ( Cl 1:27 ).

Paulo apresenta-se aos destinatários como sendo apóstolo designado por Cristo, e os saúda com graça e paz da parte de Deus e de Jesus Cristo. Na apresentação Paulo nomeia os cristãos de santos e fiéis.

 

Apresentação e Saudação

1 PAULO, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo,

Os remetentes da carta são: o apóstolo Paulo e o seu irmão em Cristo Timóteo.

O apostolado de Paulo decorre da vontade de Deus e segundo a pessoa de Cristo. Este versículo é uma pequena defesa do ministério apostólico de Paulo.

Paulo demonstra não ter se arrogado como apóstolo, antes, pela vontade de Deus, ele foi comissionado para este ministério “… e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” ( Cl 1:23 e 25).

 

2 Aos santos e irmãos fiéis em Cristo, que estão em Colossos: Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.

Os destinatários da carta são os ‘santos’ e ‘fiéis’ que estavam em Colossos.

Este versículo apresenta os seguintes elementos:

a) Aos santos – A carta de Paulo e Timóteo foi remetida aos cristãos de Colossos e estes são designados ‘santos’ em Cristo. Por estarem em Cristo, Paulo os chama de santos! Ao lermos textos como “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” ( 2Co 5:17 ); “… mas sim o ser uma nova criatura” ( Gl 6:15 ); “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem virtude alguma; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ), percebemos que, ‘estar em Cristo’ significa ser uma nova criatura. ‘…em Cristo’ é uma maneira resumida de fazer referência à nova criatura, que é criada em verdadeira justiça e santidade “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ). Paulo continua nomeando os cristãos de ‘santos’ por toda a carta: ( Cl 1:2 ; Cl 1:4 ; Cl 1:12 ; Cl 1:22 ; Cl 1:26 e Cl 3:12 );

b) Aos fiéis – Da mesma forma, Paulo chama os cristãos de ‘fiéis’. Em Cristo é que se dá a fidelidade dos cristãos, e não à parte d’Ele. Verifica-se que ‘santidade’ e ‘fidelidade’ decorrem de Cristo, condição que se adquire no novo nascimento. Perceba que o cristão não é ‘fiel a Cristo’, e sim, ‘fiéis em Cristo’. Esta fidelidade não decorre de esforço humano para se alcançar (é proveniente do novo nascimento). Compare esta fidelidade (v. 2) com a apresentada no (v. 7);

c) Colossos – cidade ou região onde os cristãos estavam;

d) Graça e paz – graça refere-se ao favor imerecido de Deus e que somente é possível alcançar pela fé em Cristo. Por intermédio de Cristo o homem passa a ter paz com Deus, visto que, sem Cristo o homem é inimigo de Deus “Porque, se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” ( Rm 5:10 ).

 

 

Agradecimentos a Deus

3 Graças damos a Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, orando sempre por vós,

O apóstolo agradece e ora pelos cristãos. São duas ações distintas.

Estas duas ações, agradecer e orar, são provenientes de elementos distintos, como veremos a seguir.

4 Porquanto ouvimos da vossa fé em Cristo Jesus, e do amor que tendes para com todos os santos;

Paulo agradecia a Deus continuadamente após tomar conhecimento da fé dos cristãos. Paulo e Timóteo ouviram acerca da fé e do amor que os cristãos de Colossos nutriam por todos os santos.

Não há como deixar de agradecer a Deus, diante de tão maravilhosa graça: mais irmãos sendo conduzidos à gloria por Cristo.

O amor dos irmãos era demonstrado no Espírito (v. 8), como assevera o apóstolo João “…e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

 

5 Por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual já antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho,

O agradecimento de Paulo a Deus é por causa da esperança reservada nos céus aos que creem.

A esperança dos cristãos esta reservada nos céus, e os cristãos já haviam tomado ciência do que estava reservado, através da palavra da verdade do evangelho que haviam ouvido anteriormente ( Cl 1:23 e 27).

6 Que já chegou a vós, como também está em todo o mundo; e já vai frutificando, como também entre vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade.

A verdade do evangelho, além de ter chegado aos cristãos de Colossos, também estava se disseminado por todo o mundo conhecido à época. O mundo que o apóstolo Paulo refere-se diz das regiões da Europa, Ásia e África, ou seja, conforme o conhecimento geográfico da época.

O evangelho apresentava os seus frutos em todo o mundo, da mesma forma que estava apresentando frutos entre os de Colossenses.

Quando os cristãos ouviram o evangelho e creram, eles conheceram a graça de Deus em verdade. Passaram a conhecer a Deus, ou antes, foram conhecido Dele.

7 Como aprendestes de Epafras, nosso amado conservo, que para vós é um fiel ministro de Cristo,

Os cristãos de colossos aprenderam o evangelho de Epafras, que segundo Paulo era conservo e fiel ministro de Cristo.

Com esta declaração, Paulo demonstra que Epafras e ele desfrutavam de igual condição: Paulo, Timóteo e Epafras eram servos de Cristo.

Os cristãos de Colossenses deveriam ter em Epafras um fiel ministro de Cristo.

Há uma diferença muito grande entre ser ‘fiel em Cristo’ e ser ‘um fiel ministro de Cristo’. A condição de fiel somente é possível para o homem que esta em Cristo ( Cl 1:2 ). Com relação ao ministério, a fidelidade diz de uma qualidade própria de Epafras, ou seja, ele era fiel em Cristo, e desenvolvia o seu ministério com fidelidade.

Da mesma forma que Paulo desempenhou o seu ministério entre os gentios com empenho, Epafras também era fiel em seu ministério. A fidelidade a Deus é por meio da união com Cristo.

 

8 O qual nos declarou também o vosso amor no Espírito.

Paulo demonstra que tomou conhecimento do amor dos cristãos através do amado conservo Epafras.

O amor dos colossenses era no Espírito, ou seja, em Deus.

Para uma melhor compreensão das cartas paulinas é necessário observar o seguinte: o apóstolo Paulo agradece a Deus por aquilo que os cristãos já receberam, e quando ele ora pelos cristãos é solicitando a Deus por algo que eles ainda não haviam recebido.

Esta característica repete-se na carta aos Filipenses, Efésios, Tessalonicenses, etc:

“…não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações…” ( Ef 1:16 );

“Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós (…) E esta é a minha oração: que o vosso amor aumente…” ( Fl 1:2 -11);

“Sempre damos graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações” ( 1Ts 1:2 ).

Quando Paulo agradece a Deus, geralmente agradece por elementos pertinentes à esperança proposta em Cristo, tais como: regeneração, justificação, santificação, eleição, predestinação, etc “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz…” ( Cl 1:12 ).

Mas, quando Paulo ora pelos cristãos, é em razão de elementos que eles ainda não haviam alcançado. Observando esta e outras cartas, verifica-se que os pedidos de Paulo em oração a Deus geralmente refere-se a conhecimento ( Cl 1:9 ; Ef 1:17 ; Fl 1:9 ).

 

 

Pedidos em Oração

9 Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual;

Epafras anunciou a Paulo e Timóteo o ‘amor no Espírito’ dos cristãos em Colossos ( Cl 1:4 ), o que motivou Paulo a orar continuadamente em favor deles.

Paulo não cessou de orar a Deus desde que recebeu notícias acerca dos cristãos, o que demonstra a preocupação do apóstolo por causa do que ainda lhes faltava.

Na oração o apóstolo pede a Deus que eles fossem cheios do conhecimento da vontade divina em toda sabedoria e inteligência espiritual (v. 9).

Por que Paulo orou para que eles fossem cheios do conhecimento da vontade de Deus? Qual o objetivo de eles obterem este conhecimento? Por que a sabedoria e a inteligência devem ser espirituais?

Estar cheios do conhecimento da vontade de Deus daria as condições necessárias para que os cristãos pudessem:

a) andar dignamente diante do Senhor;

b) agradar a Deus em tudo;

c) para frutificarem em toda a boa obra, e;

d) crescer no conhecimento de Deus.

Estes eram os objetivos pelos quais Paulo orava a Deus, e que os cristãos precisavam alcançar.

Só é possível conhecer a vontade de Deus se o homem tiver sabedoria e inteligência espiritual. Por que Paulo emprega o adjetivo ‘espiritual’ à sabedoria e a inteligência? Para diferenciar a sabedoria e a inteligência proveniente do evangelho do conhecimento e da sabedoria secular.

É possível verificar esta maneira de Paulo tratar das coisas concernentes ao evangelho quando lemos ( 1Co 2:1 -16).

Paulo evangelizava certo de que estava anunciando poder de Deus para os que crerem, o que não era feito com base em conhecimento humano “…não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria (…) a minha palavra, e a minha pregação, não consistiu em palavras persuasivas de sabedoria humana (…) Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens… ” ( 1Co 2:1 -5), mas com sabedoria e inteligência espirituais, segundo o que o Espírito Santo lhe ensinava ( 1Co 2:13 ).

Paulo classifica a inteligência e a sabedoria como sendo espirituais para diferenciar da sabedoria humana.

“… e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou ( Cl 3:10 ); compare com:

“ … que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual ( Cl 1:9 ); compare com:

“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e prefeita vontade de Deus ( Rm 12:2 ).

Renovar, transformar, ser cheio do conhecimento refere-se aos mesmos elementos, visto que, o objetivo é vestir o novo homem do que lhe é pertinente. O novo homem precisa experimentar a boa, agradável e prefeita vontade de Deus, e que pode andar dignamente diante de Deus, agradando-lhe em tudo.

 

10 Para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus;

Estes elementos são novamente apresentados em ( Cl 3:8 -11), e melhor explicado.

Este versículo trata das questões comportamentais pertinentes aos novos cristãos. Os cristãos foram criados em Cristo idôneos para participar da herança dos santos, porém, deveriam moldar o comportamento. Precisavam andar como filhos da Luz, uma vez que já eram filhos da Luz ( Ef 5:8 ).

Desde que ouviu de Epafras que havia cristãos em colossos, Paulo passou a agradecer a Deus por eles também serem participantes da esperança reservada nos céus. Porém, o apóstolo passa a orar para que eles adquirissem uma nova maneira de viver, ou seja, que andassem dignamente diante do Senhor “Assim como bem sabeis de que modo vos exortamos e consolamos, a cada um de vós, como o pai a filhos; Para que vos conduzísseis dignamente para com Deus, que vos chama para o seu reino e glória” ( 1Ts 2:11 -12; Cl 1:10 ); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo…” ( Fl 1:27 ).

A preocupação de Paulo era para que eles agradassem a Deus em tudo, e que frutificassem em toda a boa obra. O escritor aos hebreus expõe esta mesma ideia em uma única frase: “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Jesus Cristo…” ( Hb 13:21 ).

Através do conhecimento da vontade de Deus os cristãos andariam por modo digno do evangelho, agradando a Deus e frutificando em toda a boa obra ( Ef 2:10 ), e cresceriam no conhecimento de Deus.

Observe que o crescimento do cristão ocorre no conhecimento, uma vez que já alcançou a maioridade em Cristo: já é participante da herança dos santos na luz.

 

11 Corroborados em toda a fortaleza, segundo a força da sua glória, em toda a paciência, e longanimidade com gozo;

Para atingir o que foi exposto no versículo anterior, os cristãos deviam contar com ‘toda a fortaleza’ por parte de Deus. A fortaleza é segundo a força da glória de Deus. Somado à força divina, ele podiam contar com a paciência e longanimidade de Deus. Deus é longânime e paciente com aqueles que foram recebidos por filhos.

O que lhes falta é chegar à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo.

Deus criou o homem com capacidade de aprender e compreender, e através destas faculdades Deus que lhes preencher do seu conhecimento. Sendo Deus paciente e longânime, o cristão deve andar dignamente perante Ele, pois tem toda a fortaleza segundo a força da sua glória.

Na carta aos cristãos em Éfeso, o apóstolo também faz referência ao poder de Deus: “E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” ( Ef 1:19 ).

 

 

Bendizendo por Bênçãos Eternas

12 Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz;

Paulo deixa de falar na primeira pessoa do singular “Graças damos (Paulo e Timóteo) a Deus…” ( Cl 1:3 -11), e passa a falar na primeira pessoa do plural: “Dando graças ao pai que nos (Paulo e os cristãos) fez idôneos…” ( Cl 1:12 -14).

Esta é uma das regras essenciais na interpretação de cartas: é preciso atenção para identificar quando o escritor da carta isola-se da ação que estava descrevendo.

Quando Paulo diz: “Damos graças a Deus”, ele esta demonstrando que ele e Timóteo agradeciam a Deus, e nesta ação os cristãos não estão inclusos. Nesta carta, o apóstolo apresenta as suas ações e a de Timóteo do verso três ao onze.

Do versículo doze em diante, Paulo passa a descrever a ação de Deus que contemplo a todos os cristãos. Paulo inclui na narrativa os cristãos, Timóteo e ele mesmo ( Cl 1:12 -14). Paulo demonstra o que Deus concedeu a ele e a todos os irmãos em Cristo.

Deus fez os cristãos idôneos, ou seja, Deus já os criou com capacidade plena para serem participantes da herança dos santos. Quando os cristãos creram na mensagem do evangelho, eles receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ), e quando foram criados, foram criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Desta maneira Deus fez (criou) um novo homem (os cristãos) em Cristo.

As novas criaturas (os cristãos) vieram à existência com direito pleno à herança guardada nos céus, não necessitando estar debaixo de tutores ou curadores como era próprio a lei ( Gl 4:1 -2).

Participar da herança dos santos na luz, é uma das maneiras de se falar em Deus. Como filhos da Luz, os cristãos passaram a ser herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo ( Ef 5:8 ). Sendo filhos de Deus, os cristãos passaram a ter herança em Deus, ou seja, na Luz.

A condição de ‘santos’ decorre da nova natureza adquirida na regeneração. Os cristãos, por crerem em Cristo, receberam poder de Deus para serem feitos filhos, nascidos de semente incorruptível. Por serem novas criaturas em Cristo e participantes da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), pois receberam a plenitude em Cristo ( Cl 2:10 ), são os eleitos de Deus: santos e irrepreensíveis.

 

13 O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor;

Deus tirou Paulo, Timóteo e todos os cristãos, ou seja, o próprio Deus resgatou todos os que creram do domínio das trevas e transportou-os para o reino de seu Filho. Paulo designa Jesus como Filho do seu ‘amor’.

O que ocorreu com os cristãos também ocorreu com o apóstolo: todos foram resgatados do poder das trevas e transportados para o reino de Cristo. A única diferença entre Paulo e os cristãos esta no serviço que ele desempenhava: ministério apostólico ( Cl 1:25 ).

Este ministério difere da ideia de ‘ministério apostólico’ que hoje em dia se divulga, e que muitos se auto-comissionam e intitulam.

 

14 Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados;

Através do ‘Filho do amor de Deus’ é que os cristãos obtiveram a redenção por meio do seu sangue.

Paulo acrescenta uma explicação, demonstrando que a obra da redenção é completa: os cristãos foram comprados por um alto preço, e postos em liberdade.

Em cartas direcionadas as igrejas que Paulo visitou não encontramos ressalvas conforme as apresentadas nesta carta. Nesta carta Paulo apresenta duas ressalvas explicativas sobre a ideia apresentada. Com relação a linguagem empregada, podemos dizer que a necessidade de ressalvas é quase dispensável, mesmo quando o evangelho foi anunciado por outra pessoa (Epafras), como é o caso da igreja de colossos.

Por que se fez necessário Paulo dizer que a redenção pelo sangue de Cristo é remissão dos pecados? Porque ele fez referência a atos que a lei mosaica regulava. Esta ‘transação’ refere-se à retomada do direito de posse de bens perdidos pelas famílias hebraicas.

A redenção é ato de parente capaz, que efetuaria tudo o que fosse exigido pelo credor. A redenção do parente era de pessoas e herança, ou fazer as vezes de marido quando um parente morresse sem deixar descendente ( Lv 25:25 -49 ; Rt 3:12 -13).

Quando o cristão crê em Cristo, e passa a ser participante da carne e do sangue de Cristo, torna-se um dos descendentes de Abraão por intermédio do corpo de Cristo, e ao mesmo tempo adquire a filiação divina, sendo um dos filhos de Abraão por intermédio da fé.

Aquilo que alguns dos judeus disseram a Cristo, somente os cristãos podem dizer: “Somos descendentes de Abraão, e jamais fomos escravos de ninguém” ( Jo 8:31 ). Através do Descendente, que é Cristo, os homens que creem passam à condição de descendentes do pai Abraão, pois se tornaram participante da carne e do sangue do Descendente.

De igual modo, por meio da fé, o crente adquire a filiação divina ao ressurgir com Cristo dentre os mortos, tornando-se filhos de Abraão (filhos de Deus). O novo homem criado em Cristo, este sim, nunca foi escravo de ninguém. São de fato filhos de Deus!

Quando Paulo faz referência à redenção, não o faz em relação a bens materiais, mas a bens futuros, demonstrando que os cristãos foram adquiridos e libertos do poder do pecado.

 

15 O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;

O contexto da carta muda deste versículo até o versículo vinte.

O apóstolo introduz nestes seis versículo um aposto explicativo semelhante ao da carta aos Hebreus, demonstrando quem é o Filho do amor de Deus – Jesus.

Jesus é a imagem do Deus invisível – O Deus que habita em luz inacessível aos olhos dos homens revelou-se através da pessoa de seu Filho. Sobre esta verdade o apóstolo João testemunhou: “E o verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ; 2Co 4:3 -4; Hb 1:3 ).

Jesus, o primogênito de toda a criação – Para entender este versículo, deve-se verificar o que Paulo diz acerca de Adão, o primeiro homem: “…Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ). Através deste versículo, somos informados que Cristo é ‘aquele que havia de vir’, e que Adão foi criado segundo a imagem de Cristo. Antes mesmo de haver mundo, Cristo é o cordeiro de Deus! Desta forma, segue-se que: “O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o ultimo Adão em Espírito vivificante” ( 1Co 15:45 ); “O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu” ( 1Co 15:47 ). Sendo que, se Adão era a imagem de Cristo (daquele que havia de vir), conclui-se que Cristo é o primogênito de toda a criação.

Cristo é o primeiro gerado (primogênito) de toda a criação de Deus. Todos os outros seres do universo (anjos, arcanjos, querubins, serafins, homens, etc) foram criados por Deus. Cristo difere de todas as criaturas por ser o primeiro gerado de Deus.

Enquanto Adão foi criado alma vivente, Jesus foi gerado espírito vivificante “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu” ( 1Co 15:45 -47).

Alguns questionam a passagem de Gênesis, onde está registrado que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, e alegam que, sendo Deus Espírito, qual a imagem de Deus que foi concedida a Adão?. A resposta torna-se evidente por meio da leitura deste versículo: Adão foi criado a imagem do Cristo de Deus ( Rm 5:14 ).

 

16 Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele.

Em Cristo, o Senhor, foram criadas todas as coisas que há no céu e na terra. Desde tronos, dominações, principados, potestades, as coisas visíveis e as invisíveis I Co 15: 47.

O Sl 102:25 -27 fazem referência a Cristo, o criador de todas as coisas ( Hb 1:10 -11).

17 E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.

Paulo faz referência à divindade de Cristo da mesma forma que o escritor aos Hebreus: “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder…” ( Hb 1:3 ).

 

A Pessoa de Cristo

18 E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.

Ao falar da autoridade de Cristo sobre a igreja, Paulo utiliza uma figura de linguagem: ‘cabeça do corpo, a igreja’.

Jesus como princípio é apresentado no versículo 17. Neste versículo Jesus é o princípio, visto que Ele inaugurou a nova criação de Deus, sendo Ele mesmo o primogênito dentre os mortos. ‘Em Cristo’ Deus faz nova todas as coisas.

Desta maneira, em tudo Cristo é preeminente. Adão era a figura daquele que havia de vir – e Jesus veio em carne, segundo a linhagem de Davi, mas foi declarado Filho de Deus em poder através da ressurreição dentre os mortos. Observe o a alerta: “Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e , ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já o não conhecemos deste modo” ( 2Co 5:16 ).

Pela ressurreição dentre os mortos Jesus passou a ser o primogênito dentre os mortos: Adão era figura daquele que havia de vir, e Cristo é o último Adão. Espírito vivificante que dá vida a todos que nele creem. Desta forma, Ele é o último Adão, e por meio dele todos que creem são feitos (criados) nova criatura: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo ( 2Co 5:19 ).

 

19 Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse,

Através deste versículo conseguimos identificar o propósito principal da divindade: toda plenitude da divindade habitando corporalmente no último Adão, para que ele participasse da carne e do sangue dos homens ( Hb 2:14 ).

Deste propósito decorre a salvação dos homens, onde os que creem passam a ser participantes da carne e do sangue de Cristo, sendo criados filhos de Deus, participantes da natureza divina ( 2Pe 1:4 ), da mesma forma que Cristo participou da natureza humana ( Hb 2:17 ).

 

20 E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.

Por meio do sangue de Cristo, Deus estabeleceu a paz, reconciliando consigo mesmo todas as coisas.

Deus reconciliou gentios e judeus, e reconciliou os homens com sigo mesmo, destruindo a inimizade estabelecida no pecado, que teve origem na queda da humanidade em Adão ( Ef 2:16 ).

 

O contexto agora é de conscientização, onde Paulo descreve os eventos que ocorreram na vida daqueles que aceitaram a graça do evangelho. Paulo não se inclui na explanação.

 

21 A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou

Geralmente quando o apóstolo Paulo conscientiza os cristãos, ele não se inclui na narrativa. Compare:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação” ( Ef 1:13 );

“A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora vos reconciliou…” ( Cl 1:21 ).

A inimizade dos homens para com Deus sempre esteve no entendimento, visto que, por meio de Cristo, todos os homens têm livre acesso a Deus.

“Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho…” ( 2Co 4:3 -4);

“Entenebrecidos no entendimento separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 );

“…antes o seu entendimento e consciência estão contaminados” ( Tt 1:15 ; 2Pd 1:3 ).

As obras más é que embotam o entendimento dos homens, visto que Deus nunca declarou ser inimigo dos homens. Deus sempre amou os pecadores e entregou o seu Filho em regate dos perdidos, demonstrando que ele não tem em conta as obras más dos homens.

O homem, por ignorar que Deus sempre esteve com as mãos estendidas para salvar, acaba por considerar que Deus lhe é inimigo, visto que as suas obras são más.

Jesus falou deste entrave a Nicodemos: “Todo aquele que pratica o mal aborrece a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas” ( Jo 3:20 ). Segue-se que, aparte de Cristo, ninguém tem acesso a Deus. Como ir a Luz? Pela prática de boas ações? Não! O homem se achega a Deus por intermédio de Cristo. Mas, Deus prova o seu amor ao conceder Cristo quando ainda éramos pecadores.

Quando se compreende que Deus ama o mais vil pecador, e que Cristo por ele se entregou, ai sim, o pecador vai até Deus confiante que as suas obras más não são levadas em conta, e sim, o seu amor, que cobre multidão de pecados.

Ao abandonar a ignorância, ou a cegueira espiritual, claramente se vê que as boas obras somente são possíveis quando o homem esta em Deus, pois elas são produzidas em Deus ( Jo 3:21 ). Claramente se vê que é impossível ao velho homem proceder dignamente perante Deus.

No passado os cristãos eram inimigos de Deus, estranhos à aliança, sem Deus no mundo ( Ef 2:12 ), mas agora…

 

22 No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis,

…os cristãos foram reconciliados com Deus no corpo da carne de Cristo, e através de sua morte.

A reconciliação com Deus não se deu em seu corpo glorioso, antes no corpo da carne. Esta verdade pode ser verificada ao lermos “Em verdade, em verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vos mesmo” ( Jo 6:53 ).

Só através do corpo de Cristo é que se abre o novo e vivo caminho para que o homem tenha acesso a Deus “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

Pela morte com Cristo o homem carnal é desfeito (morre com Cristo), e surge (é criado) o novo homem, que é designado espiritual, em contra ponto ao carnal, que perante Deus é santo e irrepreensível. Por meio da morte foi riscado o escrito de dívida que pesava sobre o homem, pois em Cristo é criado um novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Cl 2:14 ).

O objetivo de Cristo ao entregar-se em prol do pecador foi para apresentar diante de Deus homens santos, irrepreensíveis e inculpáveis, ou seja, conduzir à glória filhos a Deus.

É por causa desta verdade do evangelho que Paulo nomeia os cristãos de santos e fiéis em Cristo.

 

 

23 Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro.

Todas as benesses apresentadas por Paulo até aqui, tais como: idoneidade, herança, reino, redenção, amizade, santidade, irrepreensibilidade e inculpabilidade pertencem aos cristãos.

O único obstáculo do cristão é ele mesmo. Deus é fiel e todas as bênçãos concedidas têm em Cristo o sim. Resta ao crente permanecer fundado e firme na fé.

Fundados, estruturados, base sólida, sem demover-se na fé. O evangelho foi anunciado aos cristãos quando eles eram ainda pecadores, ou seja, eles ouviram acerca da esperança proposta. Por ouvir vem a fé, e da fé os cristãos não podiam demover “…tenhamos forte consolação, nós, os que nos refugiamos em lançar mão da esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

É sobre este aspecto que Tiago diz da obra da fé: “Ora, a perseverança deve terminar a sua obra…”, ou seja, sendo a perseverança produto da fé posta em prova, a perseverança conclui a obra da fé ( Tg 1:3 -4).

O remetente da carta novamente se identifica e demonstra a sua atribuição no evangelho.

 

24 Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja;

Paulo estava alegre no que ele padecia pelos cristãos. O sofrimento de Paulo não era causa de tristeza, pois ele mesmo se propôs sofrer em prol do evangelho.

“Na minha carne” refere-se ao corpo físico de Paulo, o que remete ao sofrimento de Cristo quando na carne. Paulo não utiliza o termo ‘corpo’ com relação a sua estrutura física, mas o termo carne, para demonstrar que ele também faz parte do corpo de Cristo, a igreja.

Devemos prestar muita atenção no contexto para ser possível definir o significado da palavra carne. Carne pode referir-se ao ‘corpo físico’, a ‘herança genealógica’, ou a ‘natureza herdada de Adão’.

“Para ver se de alguma maneira posso incitar à emulação os da minha carne e salvar alguns deles” ( Rm 11:14 ) – Paulo refere-se aos hebreus.

“E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha carne, antes me recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo” ( Gl 4:14 ) – Paulo refere-se ao seu corpo físico.

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ) – Paulo refere-se a natureza herdada de Adão.

 

25 Da qual eu estou feito ministro segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, para cumprir a palavra de Deus;

O contexto muda novamente: Paulo faz uma retrospectiva na escrita da carta para apresentar um panorama completo de tudo que ele escreveu até o presente versículo.

Paulo reafirma a sua condição de ministro da igreja de Deus ( Cl 1:1 ; Cl 1:23 e Cl 1:25 ). O ministério de Paulo foi concedido, não para proveito próprio, antes para cumprir a palavra de Deus e em prol dos cristãos.

 

26 O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, e que agora foi manifesto aos seus santos;

O mistério de Deus é Cristo, que foi revelado aos seus santos, conforme ele descreveu anteriormente ( Cl 1:15 -20).

O mistério revelado demonstra Cristo nos cristãos, dando-lhes acesso à glória de Deus.

 

27 Aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória;

Deus quis revelar o mistério que dantes estava oculto entre os gentios, e não aos judeus – Cristo, a esperança da glória. Cristo em seus santos é esperança da glória.

“Em Cristo” e “Cristo em vós” refere-se a mesma condição: nova criatura!

 

28 A quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o homem perfeito em Jesus Cristo;

O evangelho era anunciado pelos apóstolos com o objetivo de apresentar aqueles que cressem perfeitos em Cristo. Todos os que creem em Jesus conforme diz as escrituras, estes são perfeitos diante de Deus.

Paulo exorta e ensina a todos com sabedoria consciente da responsabilidade imposta ( 1Co 9:16 ).

 

29 E para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente.

O trabalho de Paulo consistia em apresentar a Deus homens perfeitos em Cristo. Ele demonstra que o seu trabalho e a sua batalha é segundo a eficácia de Deus, que nele operava poderosamente.

O que Paulo proclamou aos cristãos acerca da força e fortaleza de Deus ( Cl 1:11 ), ele demonstra que esta mesma força e poder operava por meio dele eficazmente.




Tiago 3 – Os perfeitos

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito a salvação, uma vez que foi alcançado pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através de comportamento. A salvação é pela fé (salvação) e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.


A Língua

1 Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo.

 

Tiago dá um conselho a alguns irmãos: não sejam muitos de vós mestres. Por que ele dá esse conselho? Alguns queriam ser mestre, porém não tinham recebido tal capacitação ( Ef 4:10 -11).

As pessoas que aspiravam a posição de mestre não atinavam que os mestres receberão juízo na condição de mestre e nem da necessidade de estar enquadrado em alguns quesitos que Tiago discorre neste capítulo.

O juízo que Tiago faz referência será estabelecido no Tribunal de Cristo ( Rm 14:10 ; 2Co 5:10 ), visto que ele se inclui entre aqueles que receberão maior juízo (implicitamente Tiago se posiciona como mestre), e por ser certo que ele tinha certeza de sua salvação. O juízo do Grande Trono Branco não é destinado à igreja “Meus irmãos…” (v. 1).

Os versículos que se seguem apresentam os motivos pelas quais os irmãos não deveriam aspirar a posição de mestres com o único fito de se vã gloriar.

 

2 Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo.

 

O apóstolo chama a atenção para algo que não devemos ignorar: todos tropeçam em muitas coisas! Tiago não exclui nenhum dos irmãos. Todos nós tropeçamos em muitas coisas.

O tropeçar deste versículo difere da ideia que Paulo apresenta em Romanos “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ). Isto porque o que Paulo apresenta diz respeito a todos que ainda não tiveram um encontro com Cristo.

A carta aos Hebreus demonstra o desejo do escritor em não tropeçar em coisa alguma, e para isso solicita aos cristãos que orem em seu favor “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ). O portar-se honestamente em tudo deve ser o desejo de todo cristão, porém, ele deve ter consciência de que falhará em muitas coisas.

O tropeçar em muitas coisas não suspende o direito à salvação, uma vez que a salvação é alcançada pela fé. A salvação decorre da filiação divina por meio da fé em Cristo, aparte das questões comportamentais. A salvação não é conquistada através de bom ou mau comportamento e também não é mantida através do comportamento.

A salvação é pela fé (evangelho), e o fim objetivo da nossa fé se alcança com a perseverança.

“Se alguém não tropeça (em+a) palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo”

Após demonstrar que todos os cristãos estão sujeitos a erros, tanto comportamentais quanto conceituais, o apóstolo Tiago estipula uma condição para alguém ser perfeito: se não tropeçar em palavra, o homem é perfeito.

Tropeçar ‘em palavra’ não é falar palavras torpes, fofocar, mal dizer, mentir, etc. O ‘tropeçar em palavra’ não tem relação com o que é abordado no verso 5 ( Tg 3:5 ).

Se ‘tropeçar em palavra’ fosse falar palavras torpes, fofocar, mentir, amaldiçoar, o apóstolo não teria colocado o substantivo ‘palavra’ no singular “Se alguém não tropeça em palavra(s) …”. Quando alguém mente, fofoca ou amaldiçoa, profere várias palavras, diferente de tropeçar ‘em’ a ‘palavra’. Sobre qual ‘palavra’ o apóstolo fez referência?

 

A palavra do verso 2 do capítulo 3 diz da palavra da verdade, o que foi abordado desde o início da epístola:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 );

“Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:21 );

“E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” ( Tg 1:22 );

“Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural” ( Tg 1:23 );

 

Ou seja, desde o início da epístola o apóstolo demonstrou que os cristãos foram gerados pela palavra da verdade com o objetivo de serem primícias das criaturas de Deus (perfeitos). Ele também demonstra que é necessário rejeitar toda a imundície e malícia, recebendo com mansidão a palavra enxertada que salva o homem. O cristão é aquele que cumpre a palavra, e não somente ouvinte, ou seja, o ouvinte diz de quem se envolve em falsos discursos ( Tg 1:23 ).

A palavra da verdade é poder para criar filhos de Deus ( Jo 1:12 ), porém, não tem efeito sobre aqueles que não se exercitam nela “Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz” ( Tg 3:18 ). Ou seja, da mesma forma que o espelho não tem poder para mudar o homem que se utiliza do seu reflexo para contemplar o seu rosto natural, não terá nova vida aqueles que não atentam bem para a lei perfeita, e nela perseveram ( Tg 1:25 ).

Todos que creem na palavra tornam-se perfeitos, pois alcançou a salvação em Cristo ( 1Co 2:6 ; 2Co 13:11 ). Ou seja, Tiago estava demonstrando que quem não tropeça na (em+a) palavra alcançou a perfeição, isto porque muitos desejavam serem mestres, porém não compreendiam a palavra que concede a perfeição em Cristo “Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:7 ); “Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” ( Rm 2:20 ).

Muitos buscavam somente a posição de mestre por vã-gloria, o que promoveria somente a inveja, o sentimento faccioso, a confusão e toda má obra ( Tg 3:16 ). Quem quisesse ser sábio e entendido, condição essencial para ser mestre, bastava ter um bom procedimento ( Tg 3:13 ).

Os perfeitos manejam bem a palavra da verdade (poder de Deus), estão plenos (cheios) do poder de Deus ( Rm 1:16 ). Quem é perfeito se revestiu de toda a armadura de Deus ( Ef 6:10 , 13 -17), e não mais vive guiado pelas paixões humanas ( Gl 5:24 ; 2Tm 2:22 ), não tem falta de coisa alguma. Perfeito: maduro e completo ( Tg 1:4 ).

 

3 Ora, nós pomos freio nas bocas dos cavalos, para que nos obedeçam; e conseguimos dirigir todo o seu corpo.

O apóstolo passa a exemplos figurativos. Os exemplos apontam o contraste entre o tamanho e força do cavalo e a pequenez dos freios que os controlam.

 

4 Vede também as naus que, sendo tão grandes, e levadas de impetuosos ventos, se viram com um bem pequeno leme para onde quer a vontade daquele que as governa.

 

Ele apresenta o contraste entre o tamanho das embarcações e o leme que as orienta.

 

5 Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia.

 

“Assim também…”, ou seja, alguns dos elementos (leme e freio) que foram apresentados nas ilustrações anteriores se comparam proporcionalmente a língua e o efeito devastador que ela pode causar. O apóstolo evidencia o quanto é importante ter a língua sob controle.

Tiago apresenta uma grande verdade: a língua é um pequeno membro que se gloria de grandes coisas! Ou seja, muitos dentro da igreja se gabavam de serem mestres, mesmo quando não tinham esse dom. Porém, é difícil que alguém venha a se gabar das funções que aparentemente são pequenas.

Um bom exemplo de controle sobre a língua é observável em Paulo: “Se convém gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza. O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que é eternamente bendito, sabe que não minto. Em Damasco, o que governava sob o rei Aretas pós guardas às portas da cidade dos damascenos, para me prenderem. E fui descido num cesto por uma janela da muralha; e assim escapei das suas mãos” ( 2Co 11:30 -33).

Paulo não se gabou de grandes coisas, antes, sentia-se lisonjeado por ter fugido do rei Aretas em um cesto.

Muitos em nossos dias se gabam de grandes feitos, grandes ajuntamentos, grandes mensagens. Porém, este é um feito próprio da língua quando sobre ela não se tem domínio.

Paulo bem que podia gabar-se do livramento que Deus concedeu a ele e a Silas, mas preferiu gloriar-se (como que em um ato de loucura) das suas fraquezas “E, perto da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hinos a Deus, e os outros presos os escutavam. E de repente sobreveio um tão grande terremoto, que os alicerces do cárcere se moveram, e logo se abriram todas as portas, e foram soltas as prisões de todos” ( At 16:25 -26).

Apenas uma fagulha de fogo pode incendiar um bosque inteiro.

 

Iniquidade

 

6 A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno.

 

A língua é comparada a uma fagulha que incendeia um bosque. Por vir especificada ‘um fogo’, demonstra que ela não é fogo, mas é comparável ao fogo por ter a capacidade de inflamar.

Embora esta carta traga muitos conselhos, não devemos ler e analisar seus textos como se lê e analisa o livro de provérbios. Primeiro porque provérbios é um livro, e o texto de Tiago é uma epístola.

As diferenças entre carta e livro acabam por influenciar a escrita e a linguagem utilizada pelo autor, visto que a linguagem deve ser própria ao público alvo.

O público que se destina um livro é abrangente, universal, enquanto que uma carta destina-se a um público restrito (os destinatários). Ou seja, uma carta tem o cunho pessoal, enquanto um livro se guia pela impessoalidade e universalidade.

O livro de provérbios destina-se a humanidade e a carta de Tiago aos cristãos.

O tema ‘língua’ não tem início neste capítulo. Este tema vem sendo desenvolvido desde o primeiro capítulo, o que diferencia a abordagem de Tiago da abordagem feita em Provérbios. Em Provérbios geralmente uma ideia se conclui em apenas um versículo.

Como a língua é um pequeno membro que se gaba de grandes coisas, todos os cristãos devem ter o cuidado de gloriar-se apenas em Deus ( Jr 9:24 ; 1Co 1:31 ; 2Co 10:17 ), pois no Senhor não há diferenças sócio-econômicas. Ou seja, o irmão de condição humilde deve gloriar-se na sua alta posição no Senhor e o rico na sua insignificância ( Ef 1:9 -10).

Porém, ao ingressar na igreja, tanto o pobre quanto o rico buscam o que entendem ser a melhor posição: querem ser mestre, doutores, pastores, etc. Esquecem que para ser algo diante do Senhor, devem deixar tudo, principalmente os conceitos e conhecimentos do mundo “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo…” ( Fl 3:8 ).

Aquele que procura ser mestre somente como meio para se gabar, sem ter a chamada para tal ministério, poderia causar um grande prejuízo a igreja de Deus, visto que poderia introduzir algum erro conceitual e a devastação seria semelhante ao pequeno fogo em uma floresta.

Observe que o homem é atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Por desejar ardentemente gabar-se de grandes feitos, aplica-se em alcançar grandes posições. Aquele que é guiado pela concupiscência, quando alcança uma posição de destaque, os deslizes com as palavras e os erros conceituais são inevitáveis (isto porque, todos nós tropeçamos em muitas coisas, e quem não tropeça em palavras é perfeito e capaz de refrear todo o corpo); e o que este homem estará propagando com a sua língua será como o fogo em uma floresta: devastador. A posição de mestre a alguém que não foi comissionado para ensinar potencializa o efeito destruidor do erro.

Para evitar tão grande mal, todo homem deve estar pronto a ouvir e ser tardio em falar, a exemplo daqueles que, diante da tentação, diziam de maneira equivocada que estavam sendo tentados pelo Senhor ( Tg 1:13 -17). Qual não seria o estrago no seio da igreja se alguém com este erro conceitual viesse a alcançar a posição de mestre?

Aquele que é enganado pelo seu próprio coração acredita que é religioso. Estes geralmente não controlam a língua, estão prontos a falar, são tardios em ouvir, e acabam lançando mão da ira ( Tg 1:16 ).

“…como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno”

O versículo acima é um exemplo prático do exposto no capítulo um, versículo quatorze e quinze. Compare:

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” ( Tg 1:14 -15).

Cada pessoa é tentada pela sua própria concupiscência, ou seja, primeiro ela é atraída e engodada pelos seus próprios desejos. Quando estes desejos são levados a efeito, dá-se à luz o pecado, e o fim dele é a morte.

Da mesma maneira, o homem que não cumpre com o disposto no versículo dezenove do capitulo um, acaba por se gabar de grandes coisas ( Tg 3;5 ). Para fazer jus ao que foi propalado através da língua incontida, este homem vai se sentir atraído e desejar as ‘melhores’ posições na igreja.

Como todos tropeçam em muitas coisas, aquele que se gaba e alcança uma posição de destaque, irá tropeçar em palavras. Desta forma, a língua deste incauto será como fogo. Será como mundo de iniquidade situada entre os seus membros.

Como o que contamina o homem é o que procede do seu coração “Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem” ( Mt 15:18 ); “Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem” ( Mc 7:15 ), a língua é o veículo que evidencia o que está no coração, o que contamina todo o corpo.

Tiago e Jesus falam do mesmo problema que afeta o coração da humanidade. Este fala do princípio pernicioso que contamina o homem (o pecado que tem domínio sob o coração do homem sem Deus), enquanto aquele fala da língua, membro que torna evidente o princípio pernicioso que está no coração do homem.

Tiago dá mais um alerta: a língua pode acelerar o processo de destruição do homem, que sem a intervenção da língua, seria natural, ou seja, seria conforme o curso próprio da natureza. Isto porque o curso da natureza do homem é a morte, e a língua tem a capacidade de inflamar; ela acelera o curso da natureza. Um exemplo desta verdade é o recomendado por Paulo: “Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo” ( 1Tm 3:6 ).

A soberba leva a queda, uma entrada súbita na condenação do diabo. E, o que resta a quem teve inflamado o curso da natureza pela língua? Ser inflamada pelo inferno!

Onde há pecado, há morte e a justiça de Deus não opera, o que resta é o fogo do inferno ( Tg 1:20 e Tg 3:6 ).

 

 

Fonte Doce, Água Doce

7 Porque toda a natureza, tanto de bestas feras como de aves, tanto de répteis como de animais do mar, se amansa e foi domada pela natureza humana;

 

Toda a natureza é dominada pelo homem porque Deus lhe deu o domínio “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

 

8 Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal.

 

Apesar da condição anterior (v. 7), o homem não pode domar a língua. Observe que Tiago aponta uma impossibilidade: nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode controlar; está cheia de peçonha mortal.

Se pensarmos somente na língua, é difícil explicarmos este verso. Porém, quando verificamos que o coração do homem e enganoso “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ); e que, o que procede do coração do homem é que contamina “E dizia: O que sai do homem isso contamina o homem” ( Mc 7:20 ), percebemos que a abordagem de Tiago refere-se ao posicionamento de Jesus: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

É impossível ao homem por si só mudar a natureza do seu coração “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ). Mas, o que é impossível aos homens é possível a Deus! Através da regeneração Deus cria um novo coração e um novo homem e lhe dá uma nova vida.

A ordem divina sempre foi: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Mas, como fazer tal circuncisão? É possível ao homem fazer tal incisão?

Ora, o é que impossível aos homens, é possível a Deus. A circuncisão do coração só é possível quando se está em Cristo “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo” ( Cl 2:11 ).

Tal circuncisão é pela fé “Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:6 -10).

Seria impossível a boca (língua) fazer a confissão verdadeira para a salvação caso não houvesse a circuncisão de Cristo. Só em Cristo é que o homem recebe um novo coração “E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” ( Ez 11:19 ).

 

9 Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus.

 

Tiago evidência a incoerência de alguns: bendizem a Deus e amaldiçoam a sua criatura.

 

10 De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim.

 

Isto quer dizer que de uma mesma boca, através de uma mesma língua, um coração deita benção e maldição.

Não é conveniente a cristãos que procedam desta maneira. Caso alguém questionasse o fato de não ser próprio aos irmãos falarem mal uns dos outros Tiago passa aos exemplos e motiva a sua argumentação.

 

11 Porventura deita alguma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa?

 

As perguntas de respostas prontas: Não! Cada fonte deita a água que lhe é própria. Mas, uma fonte de um mesmo manancial só pode produzir um único tipo de água.

 

12 Meus irmãos, pode também a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce.

 

O que é impossível às plantas é impossível às fontes de um mesmo manancial “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto” ( Lc 6:43 ).

O apóstolo segue fazendo uma aplicação prática do seu ensino.

 

13 Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria.

 

Esta pergunta é uma ‘pegadinha’. Aquele que responder: “Eu”, é o mesmo que queria ser mestre, e que Tiago procura dissuadir do seu intento ( Tg 3:1 ). Aquele que desejava ser mestre, ao menos se considerava sábio e entendido.

Pois bem, se houvesse alguém que se considerava sábio e entendido deveria demonstrar através de um bom trato (procedimento), as suas obras em mansidão de sabedoria.

Ou seja, aquele que não tivesse as suas obras demonstradas em bom procedimento, tinha em si amarga inveja e um sentimento faccioso.

É necessário observar os três elementos que compõe o versículo: “Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria”.

  • Mostre pelo seu bom trato – (trato: tratamento; ajuste, pacto, tratado; convivência; passadio, alimentação; procedimento, modos, etc). Aquele que se sentisse sábio e entendido deveria ter uma boa convivência, bons modos e procedimento;
  • As suas obras – ‘as obras’ constituem o motivo pela qual alguém se gaba; observe que ‘bom trato’ não é ‘boas obras’ (aquelas que são feitas em Deus), e que ‘boas obras’ também não é ‘as suas obras’, que o versículo faz referência; a pessoa que estivesse se gloriando deveria mostrar a sua realização (suas obras);
  • Em mansidão de sabedoria – Porém, deveria demonstrar as suas obras segundo a sabedoria descrita no versículo dezessete: em mansidão de sabedoria que do alto vem.

 

A Inveja: Obra da Carne

 

14 Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.

 

O problema encontra-se no coração do homem e a língua torna evidente este mal “…sentimento faccioso em vosso coração…”.

Este versículo demanda um exercício de interpretação de texto para uma melhor compreensão. Observe:

  • Uma pergunta“Quem entre vós é sábio e entendido?”. O contexto nos mostra que só quem quer ser mestre se considera sábio e entendido;
  • Uma determinação a quem respondesse afirmativamente que é sábio e entendido“Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” A determinação do apóstolo só é cabível a quem presume ser sábio e entendido; porém, a determinação é impossível de ser cumprida por quem se arroga na condição de sábio e entendido;
  • Uma conclusão“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração…”. Este versículo é uma conclusão do apóstolo, e aponta os elementos que consta do coração daqueles que se acham sábios e entendidos. Observe que o argumento fica inconsistente quando se tenta combinar a primeira e a segunda parte do versículo ao se enfatizar a partícula ‘se’: “Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso…”, e; “…não vos glorieis, nem mintais contra a verdade”. O indivíduo pode se gloriar de uma alta posição, porém, jamais alguém vai querer se gloriar de ser invejoso e faccioso. A Bíblia Vida Nova da Editora Vida Nova reza o seguinte: “Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade”. Para enfatizar a partícula ‘se’, trocam o ‘não’ pelo ‘nem’, o que dá a entender que alguém se gloria em ser invejo e faccioso (‘glorieis disso’, disso o quê?).

 

A ênfase deve estar no verbo ‘ter’, o que demonstra que aqueles que se sentiam entendidos e sábios só estavam cheios de inveja e contenda “Porém se tendes inveja amarga, e contenda em vosso coração…”.

A pergunta persiste: quem é sábio e entendido? Um sábio e entendido deve mostrar através do seu bom comportamento suas obras em mansidão de sabedoria. Quando alguém que se diz sábio e entendido não consegue cumprir com a determinação anterior, só pode estar acometido de amarga inveja e um sentimento faccioso no coração.

A determinação é clara e precisa: “…não vos glorieis nem mintais contra a verdade”.

  • Não vos glorieis – Com relação a gloriar-se, a primeira determinação do apóstolo é oposta: “Glorie-se o irmão de condição humilde (…) o rico, porém, glorie-se na sua insignificância…”; O apóstolo Tiago dá um bom motivo para os irmãos se gloriarem ( Tg 1:9 -10), e reitera que todos devem estar prontos a ouvir, tardios em falar ( Tg 1:19 ). Se alguém estava procurando a posição de mestre com a intenção de gloriar-se, a determinação é clara: não vos glorieis; pois os mestre receberão maior juízo ( Tg 3:1 ); a língua se gaba de grandes coisas ( Tg 3:5 ); e, quem entre eles era sábio e entendido, a ponto de gloriar-se? ( Tg 3:13 );
  • Nem mintais contra a verdade – o verbo no grego sugere que não deveriam alegar ‘falsas reivindicações de estarem na verdade’, ou seja, eles na verdade não eram mestres, antes tinham amarga inveja no coração e um sentimento faccioso.

 

15 Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.

 

Muitos dentre os cristãos se sentiam mestres, sábios e entendidos, porém a sabedoria que neles estava não vinha de Deus ( Tg 3:1 e 13).

A pretensa sabedoria que alguns possuíam não era a sabedoria que vem do alto.

A sabedoria terrena, animal e diabólica é a que está vinculada à velha natureza. Eles ainda eram carnais ( 1Co 3:3 ).

 

16 Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.

 

O apóstolo dá os motivos que compromete a sabedoria que alguns possuíam: inveja, espírito faccioso, perturbação e obra perversa “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” ( Gl 5:19 -21); “Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?” ( 1Co 3:3 ).

 

17 Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.

 

O apóstolo Tiago descreve a sabedoria que vem de Deus. Esta é a sabedoria que Deus dá liberalmente a todos “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” ( Tg 1:5 ).

 

18 Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

 

O apóstolo Tiago chega a uma conclusão: o fruto da justiça semeia-se na paz! O que ele quis dizer?

Não se semeia o fruto, e sim a semente, pois devemos ter em mente que a semente dará o seu fruto no devido tempo. Ou seja, para se obter o fruto da justiça devemos lançar a semente na paz. Mas, qual é a semente que produz o fruto da justiça? Para se obter o fruto da justiça faz-se necessário semear a semente apropriada, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ).

Sabemos que Cristo é a nossa paz e que o fruto da justiça só é possível por meio dele ( Ef 2:14 ). Sobre este assunto o apóstolo Tiago já havia feito uma abordagem anteriormente:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas. Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus. Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” ( Tg 1:18 -21).

  • Gerou pela palavra da verdade: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ) – a palavra do evangelho é semente que pode salvar as nossas almas e nos deixa na posição de primícias das criaturas de Deus;
  • Pronto para ouvir: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ) – a semente só germina quando ouvimos. Por isso a recomendação do apóstolo: “…recebei com mansidão a palavra…”;
  • Não opera a justiça de Deus: “Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” ( 2Co 5:21 ) – a justiça que surge é em Cristo (nele) e é resultado de uma obra divina (feitos);
  • Rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia: “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ) – o ato do cristão em rejeitar a imundícia e a superfluidade de malícia é o mesmo que se exercitar na paz.

 

Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz.

Passemos a explicar novamente o versículo dentro do contexto que o apóstolo vinha discorrendo.

Aqueles que desejavam ser mestre simplesmente para se gabar, foram avisados de que a sabedoria que vem do alto é pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia. Após informar qual a sabedoria que deveriam buscar, Tiago conclui: “Ora…”.

Ou seja, só é possível semear o fruto da paz, levar a semente do evangelho, aqueles que dela são nascidos e que exercitam a paz. Os que promovem a paz, ou aqueles que a exercitam, não devem ter amarga inveja e nem sentimento faccioso. Estes são requisitos essenciais a quem deseja ser mestre.

A Bíblia nos apresenta o fruto da justiça e o fruto do Espírito. Qual a relação entre eles?

“Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz”

“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança…”

 

Tiago fala como se semeia o fruto da justiça e Paulo aponta o que é o fruto do Espírito.

  • O fruto do Espírito“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:23 -24) – O fruto do Espírito só é possível àqueles que crucificaram a carne e nasceram do Espírito Eterno. Estes deixaram de viver segundo a carne e passaram a viver segundo o Espírito. Ou seja, cumpre-se o que foi dito por Cristo: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Aqueles que são nascidos do Espírito através do lavar regenerador da palavra do evangelho, estes são espirituais, e produzem em Deus amor, gozo, paz, longanimidade, etc. “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim” ( Jo 15:4 );
  • O fruto da justiça“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” ( 1Pe 2:24 ) – O fruto da justiça só é possível àqueles que tiveram os seus pecados levados pelo corpo de Cristo e crucificaram a carne, estando mortos para o pecado. Estes deixaram de viver para o pecado e passaram a viver segundo a Justiça. Ou seja, para pudéssemos ser: “Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” ( Fl 1:11 ).

 

Observe que o ‘fruto da justiça’ e o ‘fruto do Espírito’ só são possíveis por meio de Jesus. Observe também que os dois frutos estão no singular: o fruto. Ou seja, o fruto do Espírito é o mesmo que o fruto da justiça.

E o mais interessante: Paulo e Tiago falam do fruto do Espírito, e ou Fruto da Justiça, para dissuadir os seus leitores de comportamento semelhantes:

“Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” ( Gl 5:26 );

“Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade (…) Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa” ( Tg 3:14 -16).




Como fazer a obra de Deus?

A Bíblia demonstra que somente a palavra de Deus pode executar a sua obra, pois tudo que foi criado, obras visíveis e invisíveis, existem por intermédio da palavra de Deus ( Hb 11:3 ). Toda e qualquer obra realizada por Deus, criativa ou redentora, só pode ser executada por meio da sua palavra “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ).


Como fazer a obra de Deus?

“Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 )

Introdução

Há no coração dos homens uma disposição interna em realizar algo para Deus. Deste desejo têm surgido inúmeras religiões com inúmeros serviços e sacrifícios com intuito de agradar a Deus, porém, esquecem que o serviço não torna o homem agradável a Deus.

A pergunta que persiste pelos séculos e incomoda os homens acaba ecoando também entre muitos cristãos: – Qual é a obra de Deus? Como posso executá-la?

Esta mesma pergunta foi feita pelos judeus que seguiam a Cristo quando lhes prometeu alimento que concede vida eterna “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Ora, se o alimento para a vida eterna estava sendo oferecido por Cristo, sem dinheiro e sem preço, por que inquiriram sobre o que fazer para executar as obras de Deus?

Observamos neles uma grande inversão de valores. A ordem divina é que o homem coma do suor do seu rosto, e neste quesito os judeus buscavam um dádiva de Deus. Com relação a salvação, que é uma dádiva, queriam trabalhar pelo alimento celestial.

A multidão seguia a Cristo porque se fartaram com pães e peixes. Foram voluntariosos, destemidos, empreendedores e obstinados em seguir a Jesus, porém, estavam enfatuados quanto ao que estava sendo oferecido: buscavam somente sustento para o corpo.

Jesus estava ciente que o povo estava em seu encalço somente por causa dos pães e que não haviam considerado a sua pessoa, que é o pão que dá vida ao mundo. Seguiam a Cristo em busca de um milagre, pura e simplesmente, ou seja, trabalhavam por uma comida perecível.

Jesus estava oferecendo ‘comida’ que é para a vida eterna, gratuitamente, conforme o que foi anunciado por Isaías, mas não ouviram de bom grado “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura. Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:1 -3).

Do mesmo modo que Isaías orienta os trabalhadores a não gastarem o produto do trabalho naquilo que não podia satisfazer, Jesus orienta os seus seguidores a trabalharem pela comida que permanece “Jesus respondeu-lhes, e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” ( Jo 6:26 -27).

E o que é necessário ‘fazer’ para conseguir o alimento prometido? Basta ter fome e sede! Não precisa ter dinheiro! Não depende do produto de qualquer labuta! Basta inclinar os ouvidos e ouvir que a aliança se estabelece, sendo concedidas as firmes beneficências.

 

A Obra de Deus

Os idealizadores da pergunta: “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ), eram homens carnais, pois ainda não haviam crido em Cristo. Buscavam-no somente porque comeram pães e peixes a fartar, mas não estavam dispostos a considerar a doutrina de Cristo.

Jesus alertou-os para que deixassem de labutar pela comida que perece (pães e peixes), pois estavam seguindo o Mestre somente porque comeram pão a fartar. Ou seja, estas coisas seriam acrescentadas naturalmente, porém, aquele era o momento de buscar o reino dos céus e a sua justiça “Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” ( Lc 12:31 ).

Eles não compreendiam as coisas espirituais ( 1Co 2:14 ). Após uma breve análise da pergunta é possível demonstrar que estavam equivocados em quererem executar as obras de Deus.

O primeiro erro embutido na pergunta deles consiste na ideia de que é possível ao homem executar a obra de Deus. Seguiam o mesmo erro dos seus pais que foram resgatados do Egito, visto que eles também propuseram fazer a obra de Deus, como se lê: “E tomou o livro da aliança e o leu aos ouvidos do povo, e eles disseram: Tudo o que o SENHOR tem falado faremos, e obedeceremos” ( Êx 24:7 ).

Uma mente carnal entende que Deus quer que o homem execute a sua obra, pois não compreendem que ao homem compete somente descansar na promessa d’Ele. Basta qualquer homem dar ouvido à palavra do Senhor para que Deus realize a sua obra, que é: “Creia naquele que ele enviou”.

Observe a resposta e como Jesus corrige o foco da pergunta dos seus inquiridores: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Jesus demonstra que:

a) a obra é de Deus, e;

b) a obra é específica, ou seja, não compete ao homem realizá-la.

A obra de Deus consiste em que os homens ‘creiam n’Aquele que Ele enviou’, o Verbo encarnado. É por isso que a palavra do Senhor é anunciada em todos os tempos, para que creiam n’Ele, pois a obra de Deus (fé) vem somente pelo ouvir, ‘… e o ouvir pela palavra de Deus’ ( Rm 10:17 ).

A Bíblia demonstra que somente a palavra de Deus pode executar a sua obra, pois tudo que foi criado, obras visíveis e invisíveis, existem por intermédio da palavra de Deus ( Hb 11:3 ). Toda e qualquer obra realizada por Deus, criativa ou redentora, só pode ser executada por meio da sua palavra “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ).

Quando Moisés pegou o livro da aliança e leu aos ouvidos do povo era para que confiassem em Deus, pois por intermédio da palavra de Deus teriam vida “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Quando Jesus multiplicou os cinco pães e os dois peixes, Ele tinha o fito de dar a entender ao povo que o homem não terá vida por intermédio do pão material, antes só terá vida por intermédio da palavra de Deus.

Desde Moisés o povo andava atrás de alimento para sustento do corpo físico, pois ainda não haviam compreendido que a vida que Deus quer conceder aos homens é proveniente da palavra que sai da boca do Senhor.

Por labutarem por coisas pertinentes a esta vida o povo de Israel ficavam focados somente no que viam e não confiavam em Deus: rejeitaram ouvir a sua palavra, depois rejeitaram o Verbo encarnado “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Ex 20:19 ). O que era para vida entenderam que lhes traria morte! Que falta de confiança! Enquanto Deus oferece vida em abundância através da sua palavra, buscavam somente alimento para sustento da carne.

Como não creram na palavra que saiu da boca de Deus, Deus enviou o seu Filho Unigênito, o Verbo de Deus encarnado para que, por intermédio d’Ele os homens obtivessem vida “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ; Jo 1:4 ).

Cristo foi enviado por Deus na condição de pão vivo para que os homens obtivessem vida ( Jo 6:51 ), e Jesus levou a efeito este objetivo, anunciando a palavra de Deus “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ); “Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” ( Jo 6:40 ; Jo 5:24 ).

Após a multiplicação dos pães Jesus concita os seus seguidores a deixarem de trabalhar pelo alimento que perece, antes deviam trabalhar pela comida que permanece, e que tal comida haveria de ser concedida de graça “… a qual o Filho do homem vos dará” ( Jo 6:27 ). Cristo anunciou ser o pão da vida, entregue para que os homens obtivessem vida.

Enquanto Jesus é o alimento que concede vida aos homens, o seu sustento era fazer especificamente a vontade do Pai e realizar a sua obra “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Somente Cristo pode realizar a obra de Deus! Por quê? Porque Ele é a palavra encarnada que faz o que é aprazível ao Pai ( IS 55:11 ). Jesus veio para que os homens cressem nos escritos do Pai, a obra de Deus por excelência, e para isso, anunciou aos homens as palavras de Deus: fez a sua vontade e obra “Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” ( Jo 5:47 ); “Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não lhe dá Deus o Espírito por medida” ( Jo 3:34 ).

Após esta análise, conclui-se que a obra de Deus é específica, e consiste em que os homens creiam no Verbo de Deus “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 8:29 ).

Neste sentido profetizou Isaías, demonstrando que Deus haveria de conceder aos homens a paz, ou seja, aquela que excede a todo entendimento, uma vez que Deus haveria de realizar nos homens (em nós) todas as suas obras “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Fl 4:7 ; Is 26:12 ).

Deus estabeleceu a paz em Cristo. É Deus que realiza a obra redentora, pois os que creem são obras d’Ele, ‘… feitura Sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas’ ( Ef 2:10 ).

Conclui-se através do que o apóstolo Paulo escreveu que, tanto ‘a obra de Deus’ quanto às ‘boas obras’ são proveniente de Deus, por intermédio de Cristo.

Após regenerado, compete aos cristãos andarem nas boas obras certos de que Deus já as preparou para este objetivo. Em Cristo toda a jactância é excluída! ( Rm 3:27 )

O cristão é obra de Deus conforme se lê: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

E como os cristãos foram criados? O apóstolo Tiago responde: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” ( Tg 1:18 ). Deus gerou de novo os que creem por intermédio da sua palavra, pois toda obra de Deus só existe e se sustêm pela sua palavra.

A obra de Deus decorre da sua vontade concretizada através da sua palavra! Ele assim o fez para constituir as suas novas criaturas em louvor da sua glória e graça ( Ef 1:6 e 12 ).

Qualquer que ouve a palavra da verdade, o evangelho da salvação que é poder de Deus para todos que creem, recebe de Deus poder para ser feito filhos de Deus, deixando de ser filho de Adão ( Jo 1:12 ; Rm 1:16 ), e é selado com o Espírito Santo da promessa.

Tudo é por graça somente, pois o cristão é salvo por meio da fé (evangelho) que uma vez foi dada aos santos ( Jd 1:3 ; Ef 2:8 ). A verdade do evangelho, também denominada fé, é dom de Deus, o que dispensa as obras e a jactância ( Ef 2:9 ).

Se alguém convocar para fazer a ‘obra de Deus’, muito cuidado, pois é bem provável que quem faz este convite não compreenda ainda qual é a obra de Deus.




A incredulidade

Após Moisés, o servo fiel em toda a casa de Deus ( Hb 3:5 ), expor ao povo as palavras que Deus lhe havia anunciado “Agora, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” ( Ex 19:5 ), todo o povo a uma só voz respondeu: “Tudo o que o Senhor falou, faremos ( Ex 19:8 ). Um coração incrédulo propõe fazer tudo o que o Senhor ordena ( Ex 19:8 ), porém, o que é agradável a Deus, não faz, ou seja, ouvir (temer, crer) a palavra de Deus ( Is 66:4 ; Jr 32:40 ). Escolhem os seus próprios caminhos porque tremem de medo e rejeitam o Senhor ( Ex 20:18 ; Is 66:3 ).

 


“Agora, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” ( Ex 19:5 )

Após Moisés, o servo fiel em toda a casa de Deus ( Hb 3:5 ), expor ao povo as palavras que Deus lhe havia anunciado “Agora, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” ( Ex 19:5 ), todo o povo a uma só voz respondeu: “Tudo o que o Senhor falou, faremos ( Ex 19:8 ).

A unanimidade do povo ao dizer: ‘Tudo que o Senhor falou, faremos’, demonstra espontaneidade, voluntariedade e disposição quanto a prestar um serviço a Deus.

A resposta dada pelo povo ao profeta Moisés ecoou ao longo dos séculos, e novamente foi repetida na presença do Messias, que como Filho sobre sua própria casa, foi fiel ao que O constituiu ( Hb 3:2 ): “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Há um paralelo sem precedentes entre Moisés com o povo no deserto, e Jesus com o povo de Israel sob o domínio dos Romanos. Ambos, servos de Deus, aquele como servo e este como Filho ( Hb 3:2 -6).

Este paralelo demonstra que Israel, como povo de Deus, em todos os tempos nunca confiou em Deus. Apesar de serem voluntariosos e dispostos a prestar serviço a Deus ( Rm 10:2 ), sempre desprezaram os seus servos, e por último, lançaram mão do Filho ( Mt 21:37- 39).

Recapitulemos alguns momentos históricos:

Logo após a travessia do mar vermelho, ao chegar em Mara, o povo de Israel murmurou contra Moisés, dizendo: “Que haveremos de beber?” ( Ex 15:25 ). Por causa da murmuração do povo, Deus lhes deu estatutos e ordenanças com o objetivo de prová-los ( Ex 15:25 ).

Pouco tempo depois, no deserto de Sim, o povo novamente murmurou contra Moisés e Arão ( Ex 16:2 ), e Deus fez ‘chover’ carne e pão dos céus para prová-los, se seguiam a sua lei ou não ( Ex 16:4 ; Dt 8:2 ).

A ordenança do Senhor não era difícil de realizar, pois bastava o povo crer na palavra do Senhor, atendo-se a colher uma porção do maná para cada dia, porém, não deram ouvidos a Moisés ( Ex 16:20 ).

O povo no deserto viu e comeu o pão que Deus deu a comer, porém, não deu ouvidos à palavra de Deus, o verdadeiro pão que dá vida aos homens, e foram reprovados. A vida é proveniente da palavra de Deus ( Dt 8:3 ), ou seja, não deriva dos sentidos (ver) ou da satisfação das necessidades física do homem (comer)( Ex 16:28 ). Por não confiarem em Deus, logo a seguir, tentaram ao Senhor em Redifim dizendo: “Está o Senhor no meio de nós, ou não?” ( Ex 17:7 ).

Quando o povo chegou ao monte Sinai, Deus lhes disse: “Agora, se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes a minha aliança, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” ( Ex 19:5 ). O povo foi novamente instruído a ouvir a voz de Deus.

Naquele momento (agora) Deus estava estabelecendo uma aliança com base na Sua fidelidade, tendo como exigência somente o ouvir diligentemente à voz de Deus, ou seja, bastava confiar (ouvir), porém, o povo queria realizar algo ( Ex 19:8 ).

Em seguida Deus anunciou a Moisés que viria em uma nuvem expressa para que o povo ouvisse quando Ele falasse com Moisés, para que cressem também em Moisés ( Ex 19:9 ). Entretanto, quando Moisés levou o povo para fora do arraial e Deus começou a falar, o povo temeu e fugiu ( Ex 20:18 ).

Apesar da voluntariedade e espontaneidade, o povo não atendeu a ordem divina: “Agora, se diligentemente ouvirdes a minha voz…” ( Ex 19:5 ), rejeitaram a voz de Deus “Fala tu conosco, e ouviremos. Mas não fale Deus conosco…” ( Ex 20:19 ), pois não confiavam em Deus que firmou a aliança “…para que não morramos” ( Ex 20:19 ; Ex 19:5 ).

Não foi diferente à época de Cristo, pois o povo lia os escritos de Moisés, mas não criam em Deus ( Jo 5:46 -47).

À semelhança dos milagres realizados no Egito para libertação do povo de Israel, Jesus operou muitos sinais miraculosos visando a libertação espiritual do povo.

Jesus atravessou o mar da Galileia, e grande multidão O seguia por causa dos milagres ( Jo 6:1 ). Ao ver a grande multidão que se aproximava, Jesus tinha um plano, porém, perguntou a Filipe: “Onde compraremos pão para toda essa gente?” ( Jo 6:5 ).

Em seguida houve a multiplicação dos pães e peixes, e a multidão comeu carne e pão até estarem saciados, de modo semelhante ao povo que comeu carne e maná (pão) no deserto. Após o milagre foi recolhido doze cestos de pães que sobejaram ( Jo 6:13 ).

A multidão viu o milagre realizado por Jesus e disseram: “Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo” ( Jo 6:14 ). Ora, para o homem, um profeta verdadeiro é aquele que se ocupa das mazelas sócio-econômicas do povo. Se comer carne e pão a se fartar, a multidão procura fazer do profeta rei, porém, quando o profeta transmite a palavra de Deus, rejeitam-no.

Quando a multidão encontrou Jesus do outro lado do mar, ele alertou: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará…” ( Jo 6:27 ).

Diante da oferta de comida (vinho e leite) sem dinheiro e sem preço que o Filho do homem fez ( Is 55:1 ), o povo fez a pergunta emblemática: Que faremos para executar as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ). E Jesus respondeu:A obra de Deus é esta: crede naquele que Ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Deus enviou o seu servo Moisés para que cressem e não creram. Enviou muitos outros profetas e continuaram não crendo. Por último, Deus enviou o Filho, e o povo permaneceu firme na incredulidade, não se demoveu de suas convicções: “Tudo que o Senhor falou, faremos” ( Jo 6:28 ; Ex 19:8 ), e permaneceram longe do Senhor, por não ouvirem a Sua voz “O povo permaneceu de pé de longe, enquanto Moisés se chegou às densas trevas, onde Deus estava” ( Ex 20:21 ).

Quando Jesus anunciou que a obra que Deus tem a realizar se vincula à sua Palavra, a multidão, como o povo em Redifim, tentaram a Cristo dizendo: “Que sinais miraculosos, pois, fazes tu, para que vejamos e creiamos em ti? Que farás? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer pão do céu” ( Jo 6:30 -31).

O sinal miraculoso da multiplicação dos pães, que o povo viu e comeu, ficou no esquecimento. Com base em suas necessidades pessoais, tentaram a Cristo “Está o Senhor no meio de nós, ou não?” ( Ex 17:7 ). Ver sinais miraculosos, comer carne e pão, ou beber água que sai da rocha em pleno deserto, não traz fé aos homens.

Enquanto buscavam saciedade, Jesus se apresentou como sendo o pão da vida. Jesus anunciou que, qualquer que vem (crê) até Ele, jamais terá fome ou sede. Qualquer que ficar de longe, mesmo que prestando serviço voluntariamente, e não der ouvido à palavra anunciada, não terá vida em si mesmo ( Jo 6:53 ).

O povo não queria ouvir a palavra de Deus junto ao monte Sinai, e não deram ouvido ao que Cristo anunciava, porém, desejava ver sinais miraculosos como condição essencial para crerem.

Deus providenciou o Verbo encarnado porque o povo exigia ‘ver’. Deus providenciou a Pedra Angular, o que é muito mais maravilhoso do que qualquer sinal miraculoso, e mesmo assim rejeitaram-no “Isto foi feito pelo Senhor e é coisa maravilhosa aos nossos olhos?” ( Mc 12:11 ; Sl 118:23 ).

Deus alertou para que o povo O ouvisse diligentemente, porém o povo exigia ver e queria fazer. A voluntariedade do povo em prestar serviço fez com que se afastasse do Deus vivo ( Ex 19:8 ; Ex 20:18 ; Hb 3:12 ). O povo foi convidado a confiar (ouvir) no cuidado de Deus, o garantidor da aliança, mas pensaram que o ‘favor’ de Deus era a paga pelas suas realizações. Erraram em seus corações e não conheceram o caminho de Deus ( Hb 3:10 ).

Por que Deus concitou o povo no deserto a ouvir? Porque a fé (confiança) e a vida (ouvir) vêm pela palavra de Deus “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” ( Rm 10:17 ). Só ouve a palavra de Deus aquele que tem vida, vida que é concedida através da palavra de Deus ( Dt 8:3 ).

Jesus, por sua vez, convidou o povo a comer da sua carne e a beber do seu sangue, para que alcançassem vida “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos” ( Jo 6:53 ). Ora, a carne e o sangue de Cristo é verdadeiramente comida, e por isso ele concitou os seus ouvintes a trabalhar pela comida que permanece para a vida, ou seja, que cressem em seu nome ( Jo 6:27 ).

Em todos os tempos Deus nunca desistiu da humanidade, visto que a mensagem é a mesma em todos os tempos: “Agora, se diligentemente ouvirdes a minha voz…” ( Ex 19:5 );Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom (…) Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim, ouvi, e a vossa alma viverá” ( IS 55:2 -3 ; Jo 6:63 e Hb 2:1 ).

Ora, ‘nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’ ( Mt 4:4 ), porque as palavras ditas por Cristo ‘… são espírito e vida’ ( Jo 6:63 ).

Por que confiar? Porque a palavra de Deus não volta vazia. É a palavra de Deus que realiza tudo o que é aprazível a Deus ( Is 55:11 ). Basta somente o homem comprar sem dinheiro e sem preço, ou seja, ouvir, que receberá as firmes beneficências prometidas a Davi, conforme a aliança que ele estabeleceu ( Is 55:3 ).

Certa feita Jesus foi abordado por um homem de posição, e ao ouvi-lo dizer que fazia todas as coisas pertinentes à lei desde a sua mocidade, recebeu o seguinte alerta: “Ainda te falta uma coisa” ( Lc 18:22 ). O alerta de Jesus foi motivado pela convicção do homemTodas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade. Quando Jesus ouviu isto, disse-lhe: ‘Ainda te falta uma coisa’” ( Lc 18:21 -22).

A fala do homem de posição reproduziu o mesmo pensamento do povo no deserto que pereceu e não entrou no descanso prometido por Deus ( Hb 3:17 )! Tanto o povo do deserto quanto o homem de posição estavam confiados em suas próprias realizações. Ele estava seguro de que realizava o necessário para ter direito a vida eterna.

Este também era o entendimento dos escribas e fariseus, visto que sabiam os mandamentos de cor, não matavam, não roubavam, não adulteravam, não diziam falso testemunho, honravam pai e mãe, etc ( Lc 18:11 compare Lc 18:20 -21), porém, faltava a todos uma única coisa: comprar sem dinheiro e sem preço, vinho e leite, ou seja: ouvir atentamente ( Is 55:1 ).

Por descenderem da carne de Abraão, os fariseus estavam confiados na sua carne, ou seja, faziam dela a sua força ( Jr 17:5 ; Fl 3:4 ). Honravam a Deus com os lábios, mas o coração apartava-se do Senhor ( Jr 17:5 ; Is 29:13 ). O temor deles consiste em mandamentos de homens, pois não deram ouvido à palavra do Senhor “E farei com eles uma aliança eterna de não me desviar de fazer-lhes o bem; e porei o meu temor nos seus corações, para que nunca se apartem de mim” ( Jr 32:40 ).

Na palavra de Deus (temor) há fidelidade perpétua, pois Ele estabeleceu uma aliança eterna “No temor do SENHOR há firme confiança e ele será um refúgio para seus filhos” ( Pr 14:26). Mas, qualquer que não ouve a sua palavra, em vez de se refugiar, se lança da presença de Deus (Ex 20:18 ).

Deus falou ao povo de Israel através de profetas, mas nestes últimos dias falou ao seu povo através do Filho ( Hb 1:1 ). A proposta é a mesma que foi apresentada no deserto: que o homem atente diligentemente para as coisas que já foram anunciadas ( Hb 2:1 ; Ex 19:5 ).

O alerta do Espírito Santo é para que o homem ouça a sua voz ( Hb 3:7 ), para que possa ter acesso ao descanso prometido ( Hb 3:11 ; Sl 95:11 ). Sendo certo que, todos que creem entram no descanso prometido, tal qual foi anunciado pelo Senhor ( Hb 4:3 ).

Aquele que confia na palavra de Deus entra para o repouso do Senhor, e assim como o Senhor, descansa de suas obras ( Hb 4:10 ). Passa a assentar (descanso) nas regiões celestiais em Cristo ( Ef 2:6 ).

Enquanto os sacerdotes da antiga aliança não podiam assentar no tabernáculo porque o povo não quis ouvir a palavra de Deus, os sacerdotes da nova aliança estão descansados, pois estão assentados nas regiões celestiais em Cristo ( 1Pe 2:5 ).

Mas, qualquer que queira fazer alguma obra, não confia em Deus, que trabalha para aqueles que nele esperam “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ; Is 64:4 ). A paz e o descanso prometido decorrem das obras que Deus realiza-nos que creem.

Como o povo de Israel recuou no monte Sinai e se pôs ao longe para não ouvir a palavra do Senhor, o escritor aos Hebreus concita aos cristãos a se achegarem com confiança diante do trono da graça ( Hb 4:16 ).

Ora, o povo no deserto rejeitou ouvir a palavra de Deus, por isso ela foi impressa na pedra. Por não confiarem em Deus, a palavra de Deus que é viva e eficaz, rocha para quem confia, tornou-se pedra de tropeço para o povo de Israel ( Rm 9:33 ).

A promessa de Deus é de salvação a todos que creem. A única coisa que faz o homem afastar-se de Deus é o coração perverso herdado de Adão ( Hb 3:12 ). O coração é perverso por causa da ofensa de Adão, e nomeado incrédulo, por não se aproximar do Deus vivo ( Ef 4:18 ). Ao ouvir a mensagem do evangelho a ignorância é desfeita ( Ef 4:21 ).

Qualquer que crê que, por intermédio de sua palavra Deus cria (Bara) um novo coração e renova o espírito do homem, certamente entrou para o descanso do Senhor ( Sl 51:10 ).

No deserto, por meio da sua palavra, Deus daria ao povo um novo coração e um novo espírito, porém, por não darem ouvido à palavra (incredulidade), Deus imprimiu a sua palavra em uma pedra ( 2Co 3:3 ). Bastava o povo ouvir à voz de Deus, que Ele imprimiria sua Palavra em seus corações. Mas, como o povo não ouviu, Deus imprimiu sua palavra nas tabuas de pedra.

É necessário àquele que deseja a vida conscientizar-se de que as boas ou as más ações não mudam a condição do homem diante de Deus. Em Adão todos pecaram, e não há diferença diante de Deus entre os pecadores: o melhor é um espinho, e o mais reto é uma sebe de espinhos! ( Mq 7:4 ).

Quando o homem compreende que é impossível salvar-se por meio de suas ações, e refugia-se na palavra de Deus, então Deus realiza a sua obra ( Jo 6:29 ). Para que Deus realize a sua obra no homem, basta dar ouvido à palavra, que é espírito e vida ( Jo 6:63 ; 1Co 2:4 ). A obra que Deus realiza naqueles que ouvem a sua palavra (treme) é fazê-los nova criatura, o que torna as suas obras aceitáveis diante d’Ele “Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” ( Is 66:2 ).

Após anunciar no Sermão da Montanha que os pobres de espírito são bem-aventurados, Jesus concluiu o sermão dizendo: “Portanto todo aquele que ouve estas palavras e as pratica, será semelhante ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha” ( Mt 7:24 ; 1Co 10:4 ; Rm 9:32 ; At 4:11 ; Dn 2:45 e Ex 20:25 ).

Ou seja, o Sermão da Montanha deriva da mensagem anunciada por Deus através de Isaías. O pobre de espírito é bem-aventurado porque ouve a palavra de Deus ( Mt 5:3 ; Mt 7:24 e Is 66:2 ), porque come (treme) o que é bom ( Is 55:2 ).

Quem ouve e pratica as palavras de Cristo é comparável ao homem prudente que edifica sua casa sobre a rocha. Quem ouve e pratica vê que quem edificou todas as coisas é Deus ( Hb 3:4 ). É prudente pois sabe que está sobre edificado na pedra angular ( Ef 2:20 ), como pedras vivas ( 1Pe 2:5 ).

Após crer na mensagem do evangelho, basta conservar firme a confiança e a glória da esperança ( Hb 3:6 ; Hb 3:14 ). O temor (palavra) do Senhor deve estar no coração ( Hb 4:1 ), pois as boas novas também foi anunciado ao povo de Israel no deserto, mas foram incrédulos ( Hb 4:2 ).

E o que propõe um coração incrédulo? Propõe fazer tudo o que o Senhor ordena ( Ex 19:8 ), porém, o que é agradável a Deus, não faz, ou seja, ouvir (temer, crer) a palavra de Deus ( Is 66:4 ; Jr 32:40 ). Escolhem os seus próprios caminhos porque tremem de medo e rejeitam o Senhor ( Ex 20:18 ; Is 66:3 ).