1 Corintios 7 – Tristeza para arrependimento

Porém, a despeito da disparidade comportamental existente no seio da comunidade cristã primitiva em decorrência das múltiplas questões de ordem sociocultural pertinentes à época, o apóstolo teve que dar um norte, apontando quais eram os princípios gerais a serem seguidos por todos: judeus, gentios, servos, livres, bárbaros, gregos, etc.


Os termos abatido: oprimidos, quebrantados, perturbados, cansados, tristes, aflito, necessitado, pobre, etc., são utilizados para fazer referencia aos homens que reconhecem as suas impossibilidades diante da condição de sujeição ao pecado “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Para analisar o capítulo 7 da segunda epístola do apóstolo Paulo aos Corintos se faz necessário lembrar algumas peculiaridades pertinentes a uma carta.

Normalmente, tanto os remetentes quanto os destinatários possuem um conhecimento comum, sendo que o conhecimento prévio que compartilham determinará a linguagem empregada na carta.

Uma carta surge da necessidade de comunicação entre pessoas que se conhecem, ou que no mínimo possuem afinidade acerca de um tema específico, portanto, a linguagem empregada na carta terá uma peculiaridade específica, o que torna uma carta completamente diferente de um livro quanto à linguagem.

A linguagem de quem escreve uma carta vai além dos linguísticos pertinente a gramática, visto que há uma carga de impressões ou emoções pessoais que realça a troca de informações entre destinatário e remetente.

Este fenômeno linguístico ocorre com as cartas paulinas, embora o apóstolo Paulo tenha utilizado vários recursos pertinentes à retórica nas suas argumentações. Os conhecimentos prévios que o apóstolo e seus destinatários possuíam acerca da matéria abordada, que é o evangelho de Cristo, possuem nuances que, se o leitor não prestar a devida atenção, não fará uma boa leitura do texto.

 

1 ORA, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.

Após fazer alusão às promessas de Deus exaradas no Antigo Testamento: “E eu serei para vós Pai, E vós sereis para mim filhos e filhas, Diz o Senhor Todo-Poderoso”, o apóstolo Paulo reitera aos cristãos a necessidade de todos os cristãos, ele próprio não se exclui da necessidade, ‘purificarem-se’ de toda a imundícia da carne e do espírito.

Da declaração do apóstolo surgem as perguntas: quais são as imundícies da carne e do espírito? É possível ao homem purificar a si mesmo?

Jesus demonstra que a santificação ocorre por intermédio da palavra de Deus: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ), ou seja, pela crença em Cristo: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Ou seja, todos os cristãos, pela fé em Cristo, são remidos do pecado e recebem uma herança imarcescível nos céus, pois todos quantos morrem com Cristo estão justificados do pecado ( Rm 6:7 ), pois são gerados de novo em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Ou seja, a santificação é uma obra exclusiva de Deus, como se lê: “Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27).

É Deus quem promete e se encarrega de santificar o homem, pois somente Ele pode dar um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). Quando se lê uma ordem para o homem santificar-se, certo é que o homem deve refugiar-se em Deus, que o santificará: “Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” ( Ez 18:31 ; Ez 11:19 ).

Porém, após o novo nascimento, há um único elemento que não é renovado na nova criatura que demanda sua volitividade : a mente. Daí advém as determinações: transformai-vos pela renovação do vosso entendimento.

Crer em Cristo concede salvação da condenação pertinente à transgressão de Adão, porém, com relação às questões conceituais e comportamentais existe a necessidade de ocorrer uma renovação na mente dos que foram gerados de novo “E vos renoveis no espírito da vossa mente” ( Ef 4:23 ; Rm 12:2 ).

É neste contexto que cabe ao homem regenerado purificar-se a si mesmo. Esta mesma recomendação foi passada a Timóteo pelo apóstolo Paulo, o que dá elementos suficientes para uma interpretação mais segura: “Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra” ( 2Tm 2:21 ).

Enquanto Deus santifica, purifica o homem do pecado (hamartia) de Adão, de onde adveio a condenação de toda a humanidade, a determinação do apóstolo Paulo refere-se a erros a que todos os cristãos estão sujeitos “Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo” ( Tg 3:2 ).

Ou seja, deve ser o objetivo dos cristãos o portar-se honestamente em tudo, embora seja passível de erros conceituais e comportamentais “Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente” ( Hb 13:18 ).

E qual é o objetivo do cristão? portar-se honestamente? O portar-se honestamente é um elemento humano e não visa a salvação, pois a salvação é providencia de Deus. A honestidade dos cristãos tem em vista os não crentes para que não haja qualquer entrave quanto ao anuncio da mensagem do evangelho “Para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa alguma” ( 1Ts 4:12 ).

Geralmente quando se lê a recomendação para se ‘purificar da imundície da carne e do espírito’, é comum que os leitores abstraiam a ideia que há tipos distintos de imundície e, que estas se subdividem em imundícies pertinentes a carne, e outras, pertinentes ao espírito, mas não é assim.

Carne e espírito são entes distintos na essência, porém, ambos são utilizados pelo apóstolo Paulo para fazer referência a completude humana que o torna indivíduo “Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus” ( 2Co 7:1 ). Compare: “Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” ( 1Co 6:20 ).

Portanto, o cristão, como indivíduo, deve purificar-se de toda imundície. O que se entende por imundície na abordagem paulina?

Imundície é tudo o que foge de um viver sossegado, moderado; quem se intrometa no alheio, quem foge do trabalho “Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação (…) Porque também já assim o fazeis para com todos os irmãos que estão por toda a Macedônia. Exortamo-vos, porém, a que ainda nisto aumenteis cada vez mais. E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado” ( 2Ts 4:7- 12).

A imundice, ou mancha, está relacionado a comportamentos inconvenientes, o que é distinto do pecado, que é a própria existência separada de Deus por ter sido gerado segundo a carne de Adão.

A salvação do pecado é obra de Deus que, através de Cristo, concede ao homem um novo coração e um novo espírito, ou seja, é o resultado do novo nascimento, e a imundície diz de comportamento reprovável, inconveniente, no seio da comunidade cristã.

A salvação do pecado torna o homem membro do corpo de Cristo, por meio da fé, que é dom de Deus, ou seja, não se dá por questões morais ou comportamentais. Mas, concomitantemente com o surgimento da igreja (corpo de Cristo) surge a comunidade cristã, que é um misto de povos de todas as nações e línguas, cujo comportamento difere de indivíduo para indivíduo, o que demanda por parte dos seus integrantes o recomendado pelo apóstolo Pedro: “Mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus” ( 1Pe 3:4 ).

Não se pode confundir a aludida ‘carne’ e ‘espírito’ do verso 1 deste capítulo com a carne que é despojada através da circuncisão de Cristo e sepultada no batismo com Cristo, pois a carne despojada através da circuncisão diz da natureza pecaminosa herdada de Adão (natureza de filho da ira, filho da desobediência) e, a carne que trata este capítulo, refere-se ao comportamento reprovável dos homens sob domínio do pecado “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também“ ( Ef 2:3 ); “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:10 -11).

“A vontade do pensamento” de Efésios 2, verso 3 refere-se ao ‘espírito’ de 2 Coríntios 7, verso 1, ou seja, em ambos o sentido de espírito e pensamento remete apenas à psique do homem, e este elemento humano demanda ao próprio homem controlar “… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 ).

Observe que o apóstolo Paulo não se apresenta como legalista impondo ou delineando regras comportamentais, pois tudo é abordado do ponto de vista da recomendação e da exortação, como inicialmente foi acordado no primeiro concílio em Jerusalém “Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” ( At 15:28 -29).

É necessário notar que em todas as cartas paulinas não é imposto lei, regras ou normas, pois o apóstolo tinha em vista a necessidade de se deixar claro que o evangelho de Cristo não se constituía e nem possuía elementos normatizadores, legalistas ou prescritivos de comportamento humano, seja em questões legais, éticas ou morais “ROGO-VOS, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados” ( Ef 4:1 ).

Porém, a despeito da disparidade comportamental existente no seio da comunidade cristã primitiva em decorrência das múltiplas questões de ordem sociocultural pertinentes à época, o apóstolo teve que dar um norte, apontando quais eram os princípios gerais a serem seguidos por todos: judeus, gentios, servos, livres, bárbaros, gregos, etc.

A palavra grega traduzida como ‘aperfeiçoar’ aqui, tem vários significados, destacando entre as principais a ideia de: a) ajustar e por em ordem; b) equipar ou habilitar algo para um propósito determinado. Portanto, a ideia do verso não é ‘aperfeiçoar’ a santificação, antes diz de algo acessório, de um ornamento, de se ‘equipar’ o que foi concedido por Deus “Não defraudando, antes mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador” ( Tt 2:10 ).

Ao escrever a Tito o apóstolo Paulo apresenta algumas questões comportamentais, e enfatiza que tais ações são um ‘ornamento da doutrina de Deus’, de igual modo, ao fazer a mesma abordagem com os cristãos de corintos, ele recomenda o ‘aperfeiçoamento’ (ornar) da santificação no temor do Senhor ( 2Co 6:3 ).

Como a ‘palavra de Deus’ é o mesmo que ‘o temor do Senhor’ “Confirma a tua palavra ao teu servo, que é dedicado ao teu temor” ( Sl 119:38 ), e a santificação decorre da palavra de Deus, segue-se que o que o apóstolo recomenda é um comportamento que sirva de ornamento ao temor (doutrina, palavra) do Senhor ( Jo 17:17 ; Sl 34:11 ; Sl 19:9 ).

 

2 Recebei-nos em vossos corações; a ninguém agravamos, a ninguém corrompemos, de ninguém buscamos o nosso proveito.

Neste verso ele retoma uma questão que estava tolhendo a relação de confiança que havia entre o apóstolo e os cristãos de corintos “Não estais estreitados em nós; mas estais estreitados nos vossos próprios afetos” ( 2Co 6:12 ).

O apóstolo roga que o aceitem, não somente por amizade, mas que aceitassem como verdadeiras as suas palavras em seus corações, e apresenta seus motivos: ele não tinha ofendido ninguém, não havia corrompido ninguém e, muito menos, buscava o seu próprio proveito ( 2Co 12:14 ).

 

3 Não digo isto para vossa condenação; pois já antes tinha dito que estais em nossos corações para juntamente morrer e viver.

O apóstolo deixa claro que, com o pedido anterior não estava emitindo um juízo de valor negativo acerca do sentimento dos corintos. Ele não estava censurando, antes buscava demonstrar o quanto os amava.

 

4 Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas tribulações.

Devido ser o pai quanto a fé que os cristãos de corintos professavam, o apóstolo dos gentios era ousado quando se dirigia àquela comunidade cristã “Porque ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo” ( 1Co 4:15 ).

O apóstolo dos gentios demonstra que, quando fazia qualquer alusão acerca dos cristãos de Corintos, o fazia com ousadia e, não tinha receio de se gabar, de se gloriar deles. A consolação do apóstolo resumia-se no fato de os cristãos de corintos suportarem as mesmas aflições que o ele “Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; ou, se somos consolados, para vossa consolação e salvação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos; E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” ( 2Co 1:6 -7).

O apóstolo tinha grande alegria pelo fato de dividirem as mesmas tribulações, visto que esta era uma prova de que estavam firmes no evangelho.

 

5 Porque, mesmo quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum; antes em tudo fomos atribulados: por fora combates, temores por dentro.

Embora a Macedônia parecesse representar um local de descanso, o apóstolo Paulo e os que com ele estavam não puderam descansar, visto que tiveram que defender o evangelho (combate), e suportar o receio e os temores quanto a não terem encontrado Tito em Trôade “Não tive descanso no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito; mas, despedindo-me deles, parti para a Macedônia” ( 2Co 2:13 ; 1Ts 2:2 ).

 

6 Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito. 7 E não somente com a sua vinda, mas também pela consolação com que foi consolado por vós, contando-nos as vossas saudades, o vosso choro, o vosso zelo por mim, de maneira que muito me regozijei.

Esta é a frase mais importante deste capítulo: “Mas Deus, que consola os abatidos (tristes)…”, pois nela está o supedâneo necessário para se interpretar o restante do capítulo.

Quem são os ‘abatidos’ que Deus consola e, que o apóstolo faz referência ?

Certo é que são os pobres de espírito e os tristes do qual Jesus também faz alusão no sermão do monte ( Mt 5:3 -4). Também é uma referência aos tristes e abatidos que Isaías profetizou: “A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” ( Is 61:2 ); “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ).

Com base nos versículos em destaques conclui-se que consolar os tristes, os que choram, ou os abatidos é ação exclusiva de Deus através da pessoa de Cristo “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

Os termos abatido: oprimidos, quebrantados, perturbados, cansados, tristes, aflito, necessitado, pobre, etc., são utilizados para fazer referencia aos homens que reconhecem as suas impossibilidades diante da condição de sujeição ao pecado “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Somente Deus sara os abatidos de espírito e, os abatidos são aqueles que se refugiam em Deus, que por sua vez serão consolados, instruídos, etc. “Sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas” ( Sl 147:3 ); “E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” ( Is 29:24 ).

Neste verso o apóstolo Paulo enfatiza que é Deus que consola os abatidos, ou seja, esta é a obra que Deus realiza: salvação, porém, ele atribui a Deus o consolo com a vinda de Tito, que era algo que, anteriormente, o deixou contristado.

E não somente isto, o apóstolo também considera um consolo saber que os irmãos sentiram saudades, que prantearam e que zelavam dele, o que o levou a estar regozijado.

Porém, o consolo com a vinda de Tito e com a alegria decorrente do apreço demonstrado pelos irmãos é totalmente diferente do consolo que só Deus opera, visto que este é concernente à salvação e aquele diz de relações interpessoais.

 

8 Porquanto, ainda que vos contristei com a minha carta, não me arrependo, embora já me tivesse arrependido por ver que aquela carta vos contristou, ainda que por pouco tempo.

Sem abordar as questões especulativas da existência de uma carta extraviada que não chegou em nossas mãos, ou sobre o tema que levou os cristãos de corintos a ficarem tristes, o certo é que apóstolo Paulo enfatiza que, com sua carta, havia entristecido os cristãos.

Quando o apóstolo Paulo soube que os cristãos de Corintos ficaram tristes com o conteúdo da carta que enviara, arrependeu-se de ter escrito aquela carta, mas ao verificar que a carta produziu nos cristãos uma mudança de concepção, de entendimento, mudou de postura.

 

9 Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma.

Mas, apesar de ter deixado os cristãos entristecidos (contristados) por causa do conteúdo da carta, naquele momento o apóstolo demonstra estar regozijado, pois todos eles foram contristados de modo que mudaram de concepção (metanóia) acerca da matéria abordada.

A palavra grega ‘metanoeo’ empregada pelo apóstolo Paulo e por outros apóstolos, significa ‘mudança de mente’, ‘mudança de concepção’, ‘mudança de ideia acerca de uma matéria’, o que difere da concepção que foi utilizada ao longo dos séculos, que inicialmente foi adotada na ‘vulgata latina’ por ‘penitencia’ e, até mesmo, difere do que se abstrai da palavra arrependimento em nossos dias, que muitos entendem como ‘abandono do pecado’, ‘tristeza em vista dos erros de conduta’, ‘remorso’, ou ‘mudança de comportamento’.

O apóstolo Paulo deixa claro que não havia ficado contente ao saber que os cristãos se entristeceram (metanoeo), mas que o seu contentamento se dera em função da mudança de pensamento que ocorreu. Ou seja, se a tristeza fosse elemento essencial ao arrependimento segundo Deus, certo é que, em momento algum o apóstolo teria demonstrado arrependimento pelo fato de tê-los contristado “Porque, se eu vos entristeço, quem é que me alegrará, senão aquele que por mim foi contristado?” ( 2Co 2:2 ).

Pelo fato de terem mudado de concepção, o apóstolo enfatiza: “… pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma” (v. 9). Este verso deve ser analisado com base no verso 6: “Mas Deus, que consola os abatidos…” (v. 6).

A tristeza ou a contrição aqui não é algo visível aos olhos dos homens, pois mesmo o apóstolo Paulo diante da tristeza dos cristãos não soube, inicialmente, discernir se a tristeza era segundo Deus ou segundo o mundo, como se observa no verso 10.

Ser contristado segundo Deus ocorre quando se tem contato com a sua palavra “Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos” ( Sl 119:71 e 81 -82). A contrição, a tristeza diz da conscientização que o homem adquire da condição que está após ter contato com o que é anunciado por Deus.

Ser contristado segundo Deus é garantia de que o homem será consolado por Ele, pois é Ele que consola os abatidos e rejeita os altivos “Isto é a minha consolação na minha aflição, porque a tua palavra me vivificou” ( Sl 119:50 ). A tristeza segundo Deus está intimamente ligada à salvação, sendo que o consolo de Deus é salvação.

Ora, se houve a mudança de pensamento após a carta que os contristou, certo é que foram contristados segundo Deus, pois ele corrige a quem recebe por filho “Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho (…) para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:6 -11).

Com este argumento o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos não haviam sofrido nenhum agravo por parte dele, antes que foram devidamente instruídos segundo Deus, o que promoveu a mudança de pensamento.

A tristeza segundo Deus não é promovida por decepção, desilusão, necessidades materiais, desgosto, etc. , ou seja, não deriva de um sentimento que é intrínseco ao homem. Antes possui conexão direta com o jejum estipulado por Deus: o afligir da alma, e não do corpo ( Is 58:5 ).

 

10 Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.

Se os cristãos foram entristecidos por causa da carta, como não sofreram agravo? A resposta esta no verso 10.

Qual é a tristeza segundo Deus que opera a mudança de concepção (metanoeo) para a salvação? É a tristeza abordada no verso 6: “Mas Deus, que consola os ‘abatidos’…” (v. 6).

A ‘tristeza’ segundo Deus que promove a mudança de concepção e produz salvação é uma referência específica acerca dos abatidos de espíritos, dos tristes, dos contritos, etc., que são apresentados nos Salmos, Profetas e na Lei, pois Deus só salva os contritos e abatidos de espírito “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” ( Sl 34:18 ).

Qualquer um que seja altivo, farto, abastado, rico, que segue seu coração enganoso, pois se estriba na carne, não será salvo por Deus “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:9 ).

A ‘tristeza’ provocada pela carta do apóstolo Paulo operou arrependimento nos cristãos, mas tal arrependimento não tinha em vista a salvação da condenação eterna. Eles foram contristados e se arrependeram de algo que não estava diretamente atrelado à salvação, mas que poderia comprometê-los.

O apóstolo deixa claro neste verso que a contrição, o espírito abatido, a tristeza segundo Deus opera uma mudança de concepção para que o homem possa ser salvo, mas da salvação ninguém se arrepende.

Enquanto a tristeza segundo Deus opera a salvação, a tristeza segundo o mundo opera a morte, pois tal tristeza diz de um sentimento promovido pelo ódio, inveja, contenda, porfia, etc.

 

11 Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio.

O fato de eles terem sido contristados em decorrência da carta, segundo a contrição proveniente de Deus, tornou-os cuidadosos, diligentes, atenciosos. A mudança de concepção fez com que propagassem a discussão. Ficaram inflamados. Temeram. Foram invadidos pelo sentimento saudosista. Defenderam o proposto.

Ou seja, a atitude deles demonstrou que, naquela questão abordada na carta não estavam envolvidos!

 

12 Portanto, ainda que vos escrevi, não foi por causa do que fez o agravo, nem por causa do que sofreu o agravo, mas para que o vosso grande cuidado por nós fosse manifesto diante de Deus. 13 Por isso fomos consolados pela vossa consolação, e muito mais nos alegramos pela alegria de Tito, porque o seu espírito foi recreado por vós todos.

O apóstolo Paulo destaca que fora mal compreendido, pois a carta não tinha em vista quem fez ou quem sofreu o dano. Ele corrige a distorção causada pela carta anterior demonstrando que o foco era evidenciar o cuidado que possuíam pelos apóstolos, especialmente pelo apóstolo Paulo e os que acompanhavam-no em seu ministério.

Que diante de Deus fosse manifesto e os irmãos pudessem visualizar o quanto tinham em conta os apóstolos de Cristo.

Em vista da apologia, indignação, temor, saudades, etc., o apóstolo sentiu-se revigorado, consolado, sem falar na alegria de Tito, que alem de contagiante, demonstrava o cuidado que tiveram por Ele.

 

14 Porque, se nalguma coisa me gloriei de vós para com ele, não fiquei envergonhado; mas, como vos dissemos tudo com verdade, também a nossa glória para com Tito se achou verdadeira. 15 E o seu entranhável afeto para convosco é mais abundante, lembrando-se da obediência de vós todos, e de como o recebestes com temor e tremor. 16 Regozijo-me de em tudo poder confiar em vós.

O apóstolo Paulo enfatiza que havia dito a Tito boas coisas a respeito dos corintos, e que eles, por sua vez, não o decepcionaram. De tudo que o apóstolo gloriou-se acerca deles, Tito confirmou ser verdadeiro, o que prendeu afetivamente Tito.

Tito destacou que os irmos eram obedientes e como o receberam, o que promoveu alegria e a satisfação do apóstolo dos gentios.




O fardo e a cruz

Para nascer de novo, antes o homem precisa ter um encontro com a sua própria cruz. É necessário ao homem morrer para depois viver! É por isso que Jesus disse que não veio trazer paz, mas espada. Jesus não veio estabelecer um acordo com a natureza herdada de Adão (paz), antes veio desfazer o corpo do pecado (morte) “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” ( Mt 10:34 ).


O fardo e a cruz

A figura abaixo foi utilizada em uma lição para novos convertidos para ilustrar como o perdão do pecado ocorre:

(Fig. 01)

Nela o pecado é representado como sendo um fardo, uma carga que o homem deve depositar ao pé da cruz (A), para livrar-se do pecado (B).

Comparando o que a figura apresenta com a Bíblia, temos duas questões a discordar:

  • O pecado não é um fardo, e;
  • Para obter o perdão dos pecados o homem que sobe até a cruz não desce de lá.

 

A diferença entre jugo e fardo

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” ( Mt 11:29 )

O jugo fala de sujeição e o fardo diz do encargo que decorre dessa sujeição.

A Bíblia apresenta dois tipos de jugos:

  • O jugo da justiça, e;
  • O jugo do pecado.

Tanto a sujeição ao pecado quanto a sujeição à justiça vincula-se à natureza do homem, sendo que a sujeição à justiça decorre do novo nascimento e a sujeição ao pecado decorre do nascimento natural ( Rm 6:18 ).

Ao nascerem segundo a carne de Adão os homens se apresentam por servos do pecado, e ao nascer de novo, segundo a semente incorruptível, o novo homem gerado em Cristo se apresenta à justiça como servo “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

Deste modo, temos que, ou o homem é servo da justiça ou é servo do pecado. Enquanto o fardo da justiça é leve, o fardo do pecado, por sua vez, é pesado.

Para ser servo da justiça basta crer n’Aquele que Deus enviou, e para servir a justiça basta oferecer os membros por instrumento “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ).

Qual o mandamento do Senhor?

  • Que creiamos no nome do seu Filho, e;
  • Que amemos uns aos outros ( 1Jo 3:23 ).

Ao crer o homem torna-se servo da justiça e, ao amar uns aos outros, o homem oferece os seus membros por instrumento da justiça ( Rm 6:19 ).

 

Qual o fardo da humanidade sem Deus?

“Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los” ( Mt 23:4 )

Por natureza a humanidade é classificada como cansada e oprimida. A humanidade é classificada como cansada e oprimida por não ter por herança o descanso prometido por Deus, visto que ela foi arrojada da presença do Senhor por causa da desobediência do primeiro pai da humanidade ( Lm 5:5 ; Is 23:12 ).

Além dos homens serem cansados e oprimidos por estarem alienados de Deus, e, por conseguinte, do Seu descanso, temos um elemento complicador: a religiosidade. Os religiosos, a exemplo dos escribas, fariseus e saduceus são os responsáveis por atar aos ombros dos homens fardos pesados e difíceis de suportar.

Deste modo, temos que os ‘fardos’ que os homens carregam aos ombros não é o pecado, antes diz da regras e mandamentos que os religiosos impõem aos homens na tentativa de agradar a Deus. Tal esforço por parte dos homens explorados é vão, pois o fardo que carregam aos ombros resume-se em mandamentos de homens ( Mc 7:7 ).

O fardo que os homens carregam não é o pecado, antes diz das tradições e mandamentos de homens, como se lê: “Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas” ( Mc 7:8 ).

Portanto, a figura que representa corretamente o que o homem carrega sobre os seus ombros segue-se abaixo:

(Fig. 02)

Mas, se o fardo que o homem carrega não é o pecado, onde fica o pecado?

 

A Natureza pecaminosa

A Bíblia demonstra que o homem é gerado todo (pleno) em pecado. O pecado não se resume a um fardo que o homem carrega as costas, antes o pecado é o próprio ‘ser’ do homem gerado de Adão. Tanto corpo, alma e espírito, ou seja, a própria natureza do homem fundiu-se ao pecado em decorrência da desobediência de Adão.

Quando o homem foi destituído da glória de Deus, não foi destituído somente o corpo, ou apenas a alma, ou apenas o espírito. O homem foi destituído por completo.

O homem é concebido em pecado e o nascimento natural é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer ( Mt 7:13 ). Ao nascer, ou seja, ao entrar pela porta larga, o homem trilha um caminho largo que o conduz à perdição. Este homem faz parte de um povo que vive na região das sombras ( Is 9:2 ), e pertence ao mundo que jaz no maligno “… e que todo o mundo está no maligno” ( 1Jo 5:19 b ).

Como ilustrar a condição do homem alienado de Deus?

  • Habita na região das trevas;
  • O caminho que trilha conduz à perdição, e;
  • Ao entrar pela porta larga foi gerado todo em pecado.

Portanto, para livrar-se por completo da natureza pecaminosa é necessário um novo nascimento, e não somente ‘depositar’ um fardo aos pés da cruz.

Mas, para nascer de novo, antes o homem precisa ter um encontro com a sua própria cruz. É necessário ao homem morrer para depois viver! É por isso que Jesus disse que não veio trazer paz, mas espada. Jesus não veio estabelecer um acordo com a natureza herdada de Adão (paz), antes veio desfazer o corpo do pecado (morte) “Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” ( Mt 10:34 ).

A determinação de Deus é clara: a alma que pecar, está morrerá ( Ez 18:4 ). Neste diapasão temos que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, e, que, portanto, devem morrer para serem justificados do pecado ( Rm 6:7 ). Neste caso, Jesus alerta que, qualquer que não toma a sua própria cruz e não O segue, jamais terá parte com Ele “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim” ( Mt 10:38 ).

Ou seja, para nascer de novo, antes é necessário ao homem tomar a sua própria cruz, seguir após o Mestre, ser crucificado e sepultado à semelhança da sua morte “Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” ( Rm 6:5 ).

Observe a ilustração abaixo:

(Fig. 03)

O homem proveniente da carne de Adão é gerado todo em pecado, está ‘morto’ para Deus, porém ‘vive’ em trevas, ‘vive’ no pecado e para o pecado ( Mt 7:13 ). Este homem gerado segundo o sangue, a vontade da carne e a vontade do varão também denominado de filho da ira, filho da desobediência, velha natureza, natureza carnal e velho homem, precisa morrer para que um novo homem ressurja dentre os mortos ( Cl 2:12 ; Jo 1:13 ).

Para livrar-se da condição de pecado o homem gerado segundo o primeiro pai da humanidade (Adão) necessita tomar a sua própria cruz e seguir após o Cordeiro de Deus. Ou seja, o homem que vive para o pecado deve ser crucificado, morto, sepultado, e, então, um novo homem é criado por Deus, ressurgindo dentre os mortos conforme o último Adão ( Cl 2:12 ; Rm 6:5 ).

É por isso que o apóstolo Paulo diz: “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ), ou seja, Cristo morreu por todos para que todos que creiam n’Ele tenham acesso a Deus por intermédio do corpo de Cristo, pois sendo participante da sua morte o homem torna-se participante da sua ressurreição “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

O pecado não é um fardo a ser depositado aos pés da cruz, antes o homem em pecado deve ser perdurado no madeiro à semelhança de Cristo e sepultado para que possa ressurgir um novo homem, criado segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ; Cl 2:12 ).

No novo nascimento, quando ocorre a nova criação, Deus concede um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Is 57:15 ; Ez 18:21 ; Ez 36:26 ), que substitui a velha natureza herdada de Adão que tinha um coração de pedra ( Ez 36:26 ).




O fardo e o jugo de Jesus

Quem ensinou carregar fardos pesados para fugir da ira divina? É preciso aos cansados e oprimidos arrependerem-se, ou seja, mudar o entendimento quanto a salvação, pois o ensinamento dos escribas e fariseus não livra da ira futura. Primeiro é preciso tomar sobre si o jugo de Jesus, e então o homem estará apto a levar o fardo de Jesus, que é conforme o seu ensino.


 

Jesus deixa claro que somente o seu jugo traz alivio e descanso aos cansados e oprimidos:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mateus 11:28 ).

Somente aqueles que, diante da mensagem de Jesus reconhecem que estão cansados e oprimidos e aceitam a sua oferta, obterão alivio “Vinde a mim (…) Tomai sobre vós…” ( Mateus 11:28 -29). Serão ‘aliviados’ todos quantos ‘tomarem sobre si’ o jugo de Jesus, ou seja, todos que se sujeitarem (submeterem) ao senhorio de Jesus.

Todos os homens estavam sob o ‘jugo’ do pecado por serem descendentes de Adão, uma vez que todos nasceram em sujeição ao pecado ( Sl 51: 5 ). É por isso que o apóstolo Paulo disse: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ).

A condição de sujeição (jugo) ao pecado é proveniente da queda de Adão, pois o pecado entrou no mundo por causa da ofensa de Adão ( Rm 5:12 ). De igual modo, somente através de Jesus Cristo (último Adão) é possível os homens receberem o dom da justiça ( Rm 5:17 ).

Cristo (último Adão) liberta o homem da condição de sujeição ao pecado, pois todos que aceitam o convite por fé (vinde a mim) recebem poder para serem de novo criados filhos de Deus, ou seja, em sujeição a Deus ( Jo 1:12 ).

O apóstolo Paulo orienta os cristãos para continuarem firmes na nova condição adquirida ’em Cristo’ (aquele que está ’em Cristo’ nova criatura é), não voltando a submeterem-se à servidão do pecado, na condição de filhos da ira e da desobediência em Adão.

“Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão” ( Gl 5:1 ).

O jugo de Jesus é ‘suave’ porque não envolve trabalho pesado.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ).

O amor de Deus revelado aos homens é Cristo, e os homens precisam crer nele, pois este é o mandamento de Deus ( Jo 6:29 ). Ora, crer em Cristo não demanda esforço da parte do homem, pois é Deus quem trabalha para que a confiança do homem esteja nele “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera” ( Is 64:4 ).

O jugo da servidão ao pecado proveniente da queda de Adão é um ‘peso’, pois promove cansaço e opressão. Para os filhos da ira não há descanso! Para os filhos da desobediência de Adão não há liberdade! Todos eles nasceram em sujeição ao pecado e ‘vivem’ para o mundo sob a pena que lhes foi imposta: a morte “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

Somente aqueles que estavam sujeitos ao jugo do pecado e sentiram medo da condenação (morte), e creram que a morte de Cristo pode aniquilar quem tinham o império da condenação, o diabo, entraram para o descanso prometido por Deus ( Hb 2:14 ).

Perceba que há dois jugos: um jugo proveniente da desobediência de Adão, e outro jugo proveniente da obediência de Cristo.

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Em Adão e em Cristo há dois jugos que a humanidade submetem-se: “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ), o que não pode ser confundido com fardo.

A sujeição a Cristo, ou o ‘tomar o jugo de Cristo’ e o mesmo que ‘obediência da fé’, uma vez que o convite: “Vinde a mim…”, é uma das maneira de Cristo manifestar-se aos homens conforme a escritura dos profetas ( Is 55:1 -3). Ele anunciou o mandamento de Deus a todas as nações que é: ‘creiam naquele que Ele enviou’ de várias maneiras “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ).

Conceituamos o que é jugo, agora resta saber o que é fardo.

A resposta encontra-se neste verso:

“Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los” ( Mt 23:4 ).

Jesus ensinou os seus discípulos e a multidão que a doutrina dos que se assentavam no lugar de Moisés (escribas e fariseus) consistia somente em mandamentos e regras ‘pesadas’ que nem mesmo os seus idealizadores cumpriam ( Mt 23:2 e 4).

Os escribas e fariseus estavam enfatuados quando ensinavam a lei e os profetas, conforme protestou Isaías:

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído ( Is 29:13 ).

Os líderes de Israel não compreendiam a mensagem da Lei “…andam errados na visão e tropeçam no juízo ( Is 28:7 ), e por isso, não havia nada bom em suas mesas. O alimento que eles serviam ao povo era vômitos e imundícia, ou seja, mandamento sobre mandamento, regra sobre regra (v. 10).

Por causa do erro dos líderes de Israel Deus anunciou, por intermédio de Isaías, que haveria de falar ao povo de Israel através de uma outra língua (à época de Cristo foi utilizado o grego), e lhes seria dito: ‘Este é o descanso e este é o refrigério’! Porém, os lideres de Israel não quiseram dar crédito, e tropeçaram na Pedra de Esquina ( Is 28:14 e 16).

O ensinamento dos escribas e fariseus consistia somente em mandamentos e regras de homens, ou seja, era um fardo pesado. Impunham sacrifícios que trazia somente peso.

“Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir. Assim, pois, a palavra do SENHOR lhes será mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali; para que vão, e caiam para trás, e se quebrantem e se enlacem, e sejam presos” ( Is 28:12 -13).

Jesus recomenda aos seus ouvintes a fazerem tudo o que os escribas e fariseus diziam, porém, não era para procederem conforme as suas obras.

Por que não era recomendável proceder em conformidade com as obras dos escribas e fariseus? Por que as suas ações tinha por base somente regras e mandamentos que não trazem refrigério, antes, as regras e os mandamentos eram somente ‘fardos pesados’ e difíceis de suportar que os deixava enlaçados e presos.

Embora eles anunciassem as palavras da lei, negligenciavam o mais importante da lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Liam as escrituras, mas os seus corações estavam distantes de Deus “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

O convite de Jesus é universal: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos…” Mt 11: 28; “…ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado…” ( Is 28:12 ). Embora Jesus estivesse falando especificamente a judeus, ele anunciou estas palavras em outra língua: o grego (koinê) “Pelo que por lábios estrangeiros e por língua estranha Deus falará a este povo” ( Is 28:11 ). Estudiosos confirmam que, embora Jesus tenha falado em aramaico com os seus discípulos, o seu ensino público foi realizado predominantemente em grego comum.

O fardo de Jesus contrastado com o fardo dos homens é leve! Após crer na mensagem do evangelho, cumprindo o mandamento de Deus que é: crede naquele que Ele enviou, os servos da justiça devem amar uns aos outros, segundo o seu mandamento, e não conforme o mandamento da lei “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Qualquer ‘fardo’ que não seja segundo o mandamento de Deus, que é crer em seu Filho, não tem valor diante de Deus. Amar uns aos outros só tem valor diante de Deus para aqueles que tomaram o jugo (sujeitaram-se) de Cristo.

Para levar o fardo de Jesus, os seus ouvintes precisam abandonar o fardo pesado que os homens lhes impõe através de preceitos. O que isto significa? Que é preciso ao homem abandonar os conceitos que lhe foi ensinado pelos homens (arrependimento) “E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?” ( Mt 3:7 ).

Quem ensinou carregar fardos pesados para fugir da ira divina? É preciso aos cansados e oprimidos arrependerem-se, ou seja, mudar o entendimento quanto a salvação, pois o ensinamento dos escribas e fariseus não livra da ira futura.

Primeiro é preciso tomar sobre si o jugo de Jesus, e então o homem estará apto a levar o fardo de Jesus, que é conforme o seu ensino.

O alívio está em tomar o jugo de Jesus, pois os seus mandamentos não são penosos “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ). O jugo é suave e o fardo é leve, deforma que todos que lhe obedecem (tomam sobre si o jugo) encontram descanso e alívio para as suas almas, e o seu ensino não trás peso algum (leve).

Os escribas e fariseus viviam em sujeição ao pecado e carregavam um fardo pesado, mas os que se sujeitam a Cristo, além de encontrarem descanso, passam a carregar um fardo leve. Tanto os servos do pecado quanto os servos da justiça carregam um fardo, porém, a distinção está no peso dos fardos.

Os homem impõem muitos mandamentos e regras (fardo pesado), porém, o fardo dos que submetem-se a Cristo é: amai uns aos outros, pois este é o julgo daqueles que andam segundo a lei da liberdade “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

O homem livra-se da sujeição ao pecado quando “crê naquele que Deus enviou” “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós” ( Jo 5:38 ). A obediência a Cristo consiste em crer na palavra do evangelho, e não em seguir regras e ordenanças de relações humanas e interpessoais “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro” ( 1Pe 1:22 ).

Aqueles que aprenderem de Jesus compreendem o que significa misericórdia: “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” ( Os 6:6 ). Os escribas e fariseus diziam observar a lei, porém, negligenciavam o mais importante: a misericórdia, a justiça e a fé ( Mt 23:23 ) “Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” ( Mt 9:13 ).

Quando Jesus chama: “Vinde a mim, todos os que estais casados e oprimidos,e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ), ele esta chamando os pecadores ao arrependimento ( Mt 9:13 ). Ele quer ensinar o que é misericórdia, libertando os seus aprendizes do jugo do pecado e do fardo proveniente das ordenanças impostas pelos homens que resumem-se em sacrifícios ( Mt 9:13 ).

O fardo de Jesus é proveniente do mandamento do Pai, que é: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ).

Quem crê, a palavra de Deus permanece nele “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós” (João 5: 38). As escrituras são equivalentes as palavras de Cristo “Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” ( Jo 5:47 ).

Desta forma, Jesus demonstra que é necessário aos homens crerem nele para serem filhos de Deus, tornando-os livres do jugo de Adão “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:36 ).

Os que rejeitam a Cristo é porque continuam presos as suas concepções errôneas, uma vez que se consideram abastados e não reconhecem que são pobres de espírito “E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, a pedra que os edificadores reprovaram, essa foi a principal da esquina” ( 1Pe 2:7 ).

João escreveu aos cristãos para que eles soubessem que tinham efetivamente vida eterna, ou seja, para não se demoverem da fé “Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna, e para que creiais no nome do Filho de Deus” ( 1Jo 5:13 ).

Quem toma o fardo de Jesus, ou seja, abandona o fardo pesado das ordenanças proveniente dos ensinos dos homens e acata os mandamentos de Cristo, aprendeu de Deus.

“Está escrito nos profetas: ‘E serão todos ensinados por Deus’. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim ( Jo 6:45 ).

Os discípulos de Jesus são aqueles que aprendem d’Ele, que é humilde e manso de coração, ou seja, a natureza daquele que ensina é diferente da natureza dos homens ( Is 54:13 ).

Sobre ser ensinado por Cristo, escreveu Paulo “Se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus” ( Ef 4:21 ). Ou seja, Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo. A verdade é Deus em Cristo “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” ( 2Co 5:19 ).

Quem aprende ‘de Cristo’ despoja a carne e é circuncidado não por mãos humanas, pois é novamente criado um novo homem, segundo a natureza de Deus, em verdadeira justiça e santidade Cl 2: 11; Ef 4: 24. O novo homem é manso e humilde de coração, uma vez que recebe um novo coração e um novo espírito segundo a natureza daquele que o criou (Salmos 51: 10).

Os que são geração de Deus como Jesus é, são limpos de mãos e puros de coração “Aquele que é limpo de mãos e puro de coração (…) Este receberá do Senhor a bênção (…) Tal é a geração daqueles que o buscam…” ( Sl 24:4 -6); “…qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 b); “Qual o terreno, tais são também os terrenos; e qual o celestial, tais também os celestiais” ( 1Co 15:48 ).

Quem aprendeu de Cristo está assentado nas regiões celestiais em Cristo, lugar de verdadeiro descanso para a alma que outrora estava cansada e oprimida ( Ef 1:3 e Ef 2:6 ).

Considerar que ‘jugo’ e ‘fardo’ referem-se a mesma coisa é um erro comum. Considerar que fardo diz de condutas pecaminosas também é erro comum em nossos dias. Alegar que é preciso abandonar o fardo do pecado aos pés da cruz também é erro comum!

É impossível ao homem livrar-se do jugo do pecado, uma vez que, o escravo não pode libertar-se do seu senhor. A única coisa que tornava o escravo livre do seu jugo era a morte, e é isto que Cristo oferece aos cansados e oprimidos: morte com Cristo.

Aquele que não tomar sobre si a sua própria cruz, e não seguir a pós Cristo, não terá vida em si mesmo. Continuará na condição de morto diante de Deus. É preciso ao homem pegar a sua cruz e seguir após Cristo, conformando-se com Ele na sua morte.

“Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” ( Rm 6:5 ).

É preciso comer da carne e beber do sangue de Cristo, ou seja, tornar-se participante da sua morte para o homem livrar-se do jugo da escravidão do pecado. Somente quando o homem torna-se participante da morte de Cristo livra-se do jugo do pecado, podendo pertencer a outro senhor “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

O homem que crê em Cristo é livre do jugo do pecado, e é feito servo da justiça, e toma sobre si um fardo leve, pois os mandamentos de Deus não são pesados “E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” ( Rm 6:18 ).