Maria, mãe de Jesus Cristo-homem

Maria, mãe de Jesus Cristo-homem, foi virgem até conceber Jesus, e após o nascimento de Jesus, ela passou a conviver maritalmente com José, com quem teve mais filhos.


Maria, mãe de Jesus Cristo-homem

“E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo” (Mt 1:16)

Introdução

Teólogos da antiguidade, em defesa da deidade de Cristo, lançaram mão da profecia de Isaías, que anunciou o Cristo como o ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus conosco’, e, por meio de uma lógica simplista, estabeleceram que Maria é a mãe de Deus, visto que o ‘Emanuel’ é Deus conosco.

Daí, a pergunta: Maria, esposa de José, é a mãe de Deus?

 

José e Maria

Da mesma forma que é imprescindível destacar que José não foi o pai biológico de Jesus, pois disto depende a essência do evangelho, também é imprescindível destacar que Maria foi mãe de Jesus Cristo-homem, e não a mãe de Deus.

José jamais poderia ser pai biológico de Jesus Cristo-homem, pois se fosse, Jesus seria como os demais descendentes de Adão: pecador e alienado de Deus. Não poderia ser mediador e nem interceder pelos pecadores, pois o que vincula o homem ao pecado é a semente corruptível de Adão, que foi apenado com morte, e essa morte (condenação) passou a todos os homens, por isso é dito que todos pecaram (Rm 5:12).

Por isso Jesus foi gerado de Deus no ventre de uma mulher virgem, pois o vínculo de Cristo com a humanidade se dá por sangue, e não pela semente corruptível de Adão que todos os homens carregam.

 

Mãe de Deus?

Em primeiro lugar, se levarmos em conta a ideia que o termo ‘Deus’ faz referência: um ser onisciente, onipresente e onipotente, conclui-se que é impossível uma mulher descendente de Adão trazer a existência Deus, o Criador de todas as coisas. Se assim fosse a mulher não seria mulher, e o seu descendente não seria um homem e nem mesmo seria Deus.

Em segundo lugar, se faz necessário considerar que, ao ser introduzido no mundo dos homens, através da concepção virginal de Maria (Hb 1:6), o Jesus que nasceu em Belém da Judéia era única e exclusivamente homem (1Tm 2:5). Ao ser introduzido no mundo, o Verbo eterno despiu-se do seu poder e gloria e, em tudo, tornou-se semelhante aos homens.

A promessa que Deus fez a Davi, seu servo, deixa claro que o Cristo seria tanto Filho de Davi, quanto Filho de Deus:

“Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho (2Sm 15:12 -14; Hb 1:5).

Deus prometeu que um descendente da carne de Davi teria Deus por pai, como está escrito:

“Proclamarei o decreto: o Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2:7; Hb 1:5);

“… prostrai-vos diante dele todos os deuses” (Sl 97:7; Hb 1:6).

O apóstolo Paulo ao falar de Jesus, fez a seguinte declaração:

“Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1:1-4).

À luz das Escrituras, resta que Maria foi a mãe biológica de Jesus Cristo-homem, e não, como afirma o dogma[1] Católico ‘theotokos’ de que Maria é a mãe de Deus.

Maria foi mãe de um homem, em tudo semelhante Adão, porém, como não foi gerado segundo a semente corruptível de Adão, mas pela palavra e ação sobrenatural do Espírito Santo, veio ao mundo livre de pecado, tornando-se assim o último Adão.

Dizer que Maria é mãe de Deus é ignorar questões essenciais ao evangelho de Cristo, que para ser sumo sacerdote e interceder pela humanidade, teve que ser semelhante aos homens em tudo, porém, sem pecado.

“Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2:7 -8);

“Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Hb 2:17).

O evangelista João aponta para Cristo como o Verbo eterno, isto para demonstra que o homem que foi morto pelos seus concidadãos e ressuscitou, quando na eternidade, é o Deus Altíssimo. Na eternidade o Verbo é o Deus eterno, e nada possui da natureza humana, antes no princípio já existia e a tudo criou (Jo 1:1).

 

Pai e Filho

Quando falamos do Verbo eterno na eternidade, temos que tem em mente que na eternidade não existe e nem existiu a relação Pai e Filho entre as pessoas da divindade, pois na eternidade as pessoas da divindade são igualmente eternas, oniscientes, onipresentes e onipotentes. Essa relação somente existiu no mundo dos homens, quando é dito ‘hoje te gerei’.

“Proclamarei o decreto: o Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2:7.

Essa relação que se estabeleceu entre as pessoas da divindade só surgiu a partir do momento que o Cristo foi gerado no mundo dos homens:

“Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” (2Sm 15:14).

O que sugere o verso acima? Que Deus não é o Pai do Verbo, e nem o Verbo é Filho de Deus, antes no mundo dos homens a relação Pai e Filho foi estabelecida segundo um acordo na eternidade: Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho.

Na eternidade não existe a relação Pai e Filho, por isso é dito no verso 1, do Salmo 110: “DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés”, e não: ‘Disse o Senhor ao Filho’, pois na eternidade inexiste tal relação entre as pessoas da divindade.

Atribuir a Maria a maternidade de Deus, é o mesmo que dizer que ela existiu antes de Deus, e que antes de tudo ser criado, Maria já existia. Ora, grande contrassenso, pois Maria é uma das filhas de Davi. Pior, segundo essa ótica, Maria seria pré-existente, e Deus veio a existir em função de Maria.

Ao despir-se do seu poder, o Verbo eterno foi introduzido no mundo na condição de homem, sem qualquer resquício do poder e glória que dispunha na eternidade. Ao ser introduzido no mundo, Jesus era plenamente e cem por cento (100%) homem, portanto, Maria foi mãe de Jesus Cristo-homem.

 

Agraciada

Elevar Maria, a mãe de Jesus a um patamar superior a das outras mulheres que existiram e existem no mundo, não foi o objetivo da saudação do anjo Gabriel.

“E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1:28).

O anjo Gabriel foi enviado por Deus à cidade de Nazaré, que fica na Galileia, a uma virgem desposada com um homem da casa de Davi, de nome José, que se turbou, pois ficou sem entender que saudação era aquela (Lc 1:26 -27).

O anjo, após saudá-la, teve que explicar o que estava para acontecer:

“Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim” (Lc 1:30 -33)

Quando foi dito: salve agraciada, significa que Maria achou graça, ou seja, foi beneficiada sem mérito algum, isto em vista do propósito de Deus. O fato de Maria ter sido escolhida não tem um fundo meritório, mas a graça de Deus em levar a efeito o seu propósito eterno.

A questão que veio a cabeça de Maria é a mesma indagação que surgem em muitas pessoas que ouvem a história do nascimento do Jesus:

“E disse Maria ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço homem algum?” (Lc 1:34).

Fazer esse questionamento é plenamente compreensível e natural para o ser humano, que sabe que é impossível vir um descendente de homem ao mundo sem a semente de outro homem.

A resposta do anjo calou as indagações da virgem Maria:

“E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1:35; Sl 139:13).

O anjo explicou que o Espírito Santo de Deus viria sobre ela, e o poder do Altíssimo haveria de abriga-la sob o seu mistério, de modo que o ente que haveria de nascer dela seria ‘Santo’, e chamado Filho de Deus.

Se houvesse alguma duvida, que Maria considerasse o fato de Isabel, prima de Maria, havia concebido um filho na velhice sendo estéril, e já estava no sexto mês de gravides, enfatizando à virgem Maria que para Deus nada é impossível (Lc 1:36 -37).

Emanuel, Deus conosco

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz (Isaías 9:6).

O profeta Isaías ao falar de Jesus nesta profecia aponta para Cristo com um menino nascido na cada de Davi (Is 9:7), cujo nome seria: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.

O que dizer de Jesus Cristo-homem? Maravilhoso, pois tudo o que está relacionado a Ele transcende aos homens comuns. Dele disse Davi em espírito:

“Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia” (Sl 139:13 -16).

O mesmo cuidado que Deus teve com os ossos de Cristo quando o seu corpo foi posto na sepultura, foi o mesmo enquanto preparava um corpo para o Verbo eterno vir ao mundo (Sl 40:6; Hb 10:5).

Como os filhos de Israel eram faltos de conselho e não havia neles entendimento (Dt 32:28; Sl 53:3; Rm 10:2), Cristo é o Conselheiro do Senhor, pois sobre Ele repousou o espírito que dá descanso ao cansado (Is 11:2; Is 42:1 e 7; Is 61:1), pois através do seu conhecimento, o Servo do Senhor que teve as orelhas furadas, salva a muitos (Is 53:11).

“E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR” (IS 11:2)

Jesus é o ‘Deus forte’ porque cavalgou pela causa da justiça:

Tu és mais formoso do que os filhos dos homens; a graça se derramou em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre. Cinge a tua espada à coxa, ó valente, com a tua glória e a tua majestade. E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis. As tuas flechas são agudas no coração dos inimigos do rei, e por elas os povos caíram debaixo de ti. O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros” (Sl 45:2 -7; Hb 1:8).

Jesus é o Pai da eternidade, pois dele disse Moisés:

“Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus” (Salmos 90:2);

“O teu trono está firme desde então; tu és desde a eternidade” (Salmos 93:2).

Esses Salmos falam do Cristo em virtude da interpretação que o escritor aos Hebreus faz dos versos 25 à 27, do Salmo 102:

“Desde a antiguidade fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles se envelhecerão como um vestido; como roupa os mudarás, e ficarão mudados. Porém tu és o mesmo, e os teus anos nunca terão fim” (Salmo 102:25 -27; Hb 1:10 -12).

Cristo é o príncipe da paz, pois derrubou a parede de separação, fazendo de dois povos um:

“Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio” (Efésios 2:14).

Como Sumo sacerdote é tal como Melquisedeque, sem principio e fim de dias:

“Onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós, feito eternamente sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebreus 6:20).

 

Maria, mãe do Redentor

Maria, a mãe de Jesus, não é a mãe de Deus, e nem a Perpetua Virgindade, Mãe da Igreja, Medianeira, Corredentora, ou Rainha do Céu.

Justificar o uso da expressão Teótoco ou Mãe de Deus, citando Lucas 1, verso 43, onde a prima de Maria, Isabel a como a “mãe do meu Senhor”, ou Isaías 7, verso 14 e Mateus 1, verso 23, que contêm a profecia acerca de Cristo como o Emanuel, que significa ‘Deus Conosco’, é deturpar as Escrituras. Nestes textos o termo ‘Emanuel’ tem em vista o ente Santo que nasceria de uma virgem e seria nomeado o ‘Emanuel’, e não que a virgem seria mãe de Deus.

Maria foi virgem até conceber Jesus, e após o nascimento de Jesus, ela passou a conviver maritalmente com José, com quem teve mais filhos. Como Jesus teve mais irmãos, segue-se que Maria não permaneceu virgem, e não é justificável o titulo de Perpetua Virgem.

Nesse esteio, Maria também não é a mãe da Igreja, pois a Igreja não tem mãe.  A Igreja é o corpo de Cristo, e os seus membros em particular, participantes do seu corpo. Assim como Eva foi tirada da costela de Adão enquanto dormia, a Igreja é formada do corpo de Cristo que foi morto e ressurgiu, o que entendemos por alegoria.

A Bíblia é clara: há só um mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo-homem, pois não há outro nome pelo qual os homens devam ser salvos (1Tm 2:5; Atos 4:12).

Temos que destacar que diversos Padres da Igreja nos três primeiros séculos defenderam Maria como a Teótoco, dentre eles: Orígenes (254), Dionísio (250), Atanásio (330), Gregório (370), João Crisóstomo (400) e Agostinho de Hipona (430).

Nestório, patriarca de Constantinopla, contrariamente defendeu no Terceiro Concílio Ecumênico realizado em Éfeso, em 431, que Maria devia ser chamada de Cristótoco (Christotokos), que significa “Mãe de Cristo”, apontando Maria como mãe apenas da natureza humana de Cristo e não da sua natureza divina.

Cirilo de Alexandria, contrariou Nestório, argumentando que tal posicionamento destruía a união perfeita e inseparável da natureza divina e humana em Jesus Cristo, alegando que, se Cristo, o Verbo que se fez carne é Deus, a carne é o Verbo, e como Maria foi mãe da carne de Cristo, consequentemente, é mãe do Verbo.

“Surpreende-me que há alguns que duvidam que a Virgem santa deve ser chamada ou não de Teótoco. Pois, se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, e a Virgem santa deu-o à luz, ela não se tornou a [Teótoco]?” Cirilo de Alexandria < https://pt.wikipedia.org/wiki/Te%C3%B3toco > Consulta realizada em 24/12/2017.

Ora, sabe-se pela abordagem do apóstolo Pedro, que todos os cristãos são participantes da natureza divina, uma vez que foram gerados de novo de semente incorruptível, mas o fato de ter a natureza divina não torna homens deuses.

“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” (2 Pe 1:4).

Enquanto na eternidade, o Verno eterno era Deus, e estava com Deus (Joao 1:1). Da natureza do Verbo eterno podemos dizer que era onipotente, onisciente e onipresente. Ao despir-se da sua glória, mesmo sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, antes se esvaziou a si mesmo tomando a forma de servo, fazendo-se igual aos homens.

Maria foi mãe d’Aquele que se esvaziou a si mesmo, ou seja, d’Aquele que se fez igual aos homens, que é diferente d’Aquele antes de ser introduzido no mundo na condição de Unigênito de Deus, e que é diferente d’Aquele que ressurgiu na condição de Primogênito dentre os mortos.

Maria não é mãe nem do Verbo, nem do Cristo ressurreto, pois Ele já não é conhecido deste modo:

“Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo” (2 Coríntios 5:16).

 

 

[1] “Emanuel realmente é Deus, e a santa Virgem é, portanto, Mãe de Deus” (John A. Hardon, S.J., The Catholic Catechism, 135).




Isaías 11 – Jesus Cristo, o rebento do tronco de Jessé

A previsão de Isaías 11 além de apocalíptica, apresenta Jesus Cristo como o rebento do tronco de Jessé.


Isaías 11 – Jesus Cristo, o rebento do tronco de Jessé

“PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR…” (Isaías 11:1-2).

Introdução

Este capítulo do Livro de Isaías contém profecias grandiosas que apontam para o Cristo, o Filho de Davi, consequentemente, o Filho de Deus, conforme predito pelo profeta Natã (2 Sm 7:14).

A mensagem do oráculo desse capítulo ecoa por todo o Livro de Isaías, principalmente nos capítulos 42 e 61 do livro, pois apresentam a mesma mensagem, só que, de perspectivas diferentes.

No capítulo 61, a profecia é escrita da perspectiva da pessoa do Cristo: o Messias, se apresentando aos seus interlocutores. Enquanto, no capítulo 11, o profeta fala que o Espírito de Deus estaria sobre o Descendente de Jessé, no capítulo 61 o próprio descendente de Jessé declara que ‘O espírito do Senhor Deus está sobre mim’.

Apesar de a mensagem ser a mesma nos capítulos 11, 42 e 61, o que muda é a perspectiva da  narrativa da profecia, embora o profeta seja o mesmo Isaías.

“O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu para pregar boas novas aos mansos…” (Is 61:1).

Ao voltar, em um sábado, para a cidade de Nazaré, onde fora criado, Jesus leu, em uma sinagoga, o trecho do Livro de Isaías, que dizia: “O Espírito do Senhor Deus é sobre mim…” (Lc 4:17-18) e completou:

Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4:21).

O capítulo 11 revela quem é o Cristo, na perspectiva do profeta, e por isso Isaías fala de um evento futuro: brotará, frutificará, repousará, enquanto o capítulo 61 destaca que o mesmo espírito está:

“PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR…” (Is 11:1-2).

Analisemos o oráculo vaticinado pela boca do profeta Isaías!

 

O renovo do Senhor

“PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé e das suas raízes, um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. E deleitar-se-á no temor do SENHOR; não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos. Mas, julgará com justiça aos pobres, repreenderá com equidade aos mansos da terra; ferirá a terra com a vara de sua boca, com o sopro dos seus lábios matará ao ímpio, a justiça será o cinto dos seus lombos e a fidelidade o cinto dos seus rins” (Isaías 11:1-5).

Deus anunciou aos filhos de Israel, por intermédio de Isaías, que, da casa (família, tronco) de Jessé, o pai de Davi (1 Sm 16:1), um ramo haveria de brotar (filho, descendente). Para não deixar dúvidas, Deus faz referência às ‘raízes’ de Jessé, o que remete a Abraão, pois Jessé é um dos muitos descendentes de Abraão.

“LIVRO da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou a Isaque; Isaque gerou a Jacó; Jacó gerou a Judá e a seus irmãos; E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; Esrom gerou a Arão; Arão gerou a Aminadabe;  Aminadabe gerou a Naassom; Naassom gerou a Salmom; Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; Boaz gerou de Rute a Obede; Obede gerou a Jessé; E Jessé gerou ao rei Davi (Mt 1:1-6)

O profeta faz alusão a uma figura importante na árvore genealógica de Cristo: Jessé, o pai de Davi, demonstrando que o rebento (filho, criança) que haveria de nascer, além de ser da família (tronco) de Jessé, tinha raízes profundas, o que remete aos patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó).

O profeta Isaías anunciou aos filhos de Israel que, sobre o Descendente (ramo, rebento) do tronco de Jessé, estaria o espírito de Deus, ou seja, o espírito de sabedoria, de inteligência, de conselho, de fortaleza, de conhecimento e de temor (Is 11:2).

Qual é o espírito do Senhor? A palavra de Deus, que no Novo Testamento, é apresentada como ‘espírito’ e ‘vida’ (Jo 6:63).

Jesus é o Messias, o Ungido de Deus, pois, a palavra de Deus esteve sobre Ele, para anunciar boas novas, proclamar liberdade e anunciar o ano aceitável do Senhor (Is 61:1-2). O espírito (mensagem) que foi posto em Cristo, tem por objetivo produzir justiça entre todos os povos (Is 42:1).

“O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” (Is 61:1-2);

“EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” (Is 42:1).

Ora, o evangelho – as boas novas de salvação – diz do espírito do Senhor, pois, no evangelho, se descobre a justiça de Deus, que é, de fé em fé, salvação para todos os que creem em Cristo (Rm 1:16-17).

Nesse verso, são descritos os sete espíritos de Deus: sabedoria, entendimento, conselho, poder, saber, amor e temor do SENHOR.

“Porque eis aqui a pedra que pus diante de Josué; sobre esta pedra única estão sete olhos; eis que eu esculpirei a sua escultura, diz o SENHOR dos Exércitos, e tirarei a iniquidade desta terra num só dia” (Zc 3:9; Ap 5:6).

“O Espírito de Yahweh, o SENHOR, repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito que proporciona o verdadeiro saber, o amor e o temor do SENHOR” (Is 11:2).

A ‘inspiração’ ou, o ‘deleite’ do Ungido de Deus, foi previsto por Isaías: obedecer a Deus. Nas palavras do profeta: o Ungido, o rebento do tronco de Jessé, ‘deleitar-se-á no temor do SENHOR’.

É, em função desta verdade, que Jesus declarou o seu prazer:

“Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4:34);

“Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” (Sl 40:8).

A palavra de Deus é temor, por isso é dito: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9:10). Compare:

“O temor do SENHOR é limpo e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos, juntamente” (Sl 19:9);

“O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; bom entendimento têm todos os que cumprem os seus mandamentos; o seu louvor permanece para sempre (Sl 111:10);

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre (1 Pd 1:23).

‘Temor’ refere-se à palavra de Deus e ‘temer’ a Deus remete a obedecê-Lo. Temer é guardar os mandamentos, andar após Deus, Servi-Lo, amá-Lo, apegar-se a Ele, o que só é possível através da palavra de Deus (temor).

No Novo Testamento, o temor do Senhor diz das Boas Novas de salvação, anunciadas por Cristo aos homens e temer a Deus, é crer que Jesus é o Cristo, pois a promessa na nova aliança é de vida eterna a todos quantos creem (1 Jo 2:25; 1 Jo 3:23).

Além de deleitar-se no ‘temor’ do Senhor, Cristo não haveria de julgar os homens, segundo a aparência (vista dos seus olhos) e nem de ensinar (repreender), segundo o ouvir dos seus ouvidos. Cristo, como Servo do Senhor, é descrito como ‘cego’ e ‘surdo’, porque não julgaria segundo a aparência e nem repreenderia segundo a doutrina (ensinamento) dos homens.

“Quem é cego, senão o meu servo ou, surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego, como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” (Is 42:19).

Jesus ensinou aos homens, especificamente, o que ouviu do Pai e não a doutrina dos seus concidadãos (irmãos e inimigos), que consistia em temor de homens. Os religiosos de Israel haviam trocado o mandamento (temor) de Deus por mandamento de homens!

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo, consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

É, em função do que havia ouvido do Pai, e do que os seus concidadãos seguiam, que Jesus disse que tinha muito a ensinar e a julgar, acerca do seu povo.

“Muito tenho que dizer e julgar de vós, mas, aquele que me enviou é verdadeiro; e o que dele tenho ouvido, isso falo ao mundo” (Jo 8:26).

Jesus evidencia a sua missão, quando diz:

“E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem, vejam e os que vêem, sejam cegos” (Jo 9:39).

A sabedoria dos sábios, diante da doutrina de Cristo, seria confundida:

“Os sábios são envergonhados, espantados e presos; eis que rejeitaram a palavra do SENHOR; que sabedoria, pois, têm eles?” (Jr 8:9);

“Portanto, eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; porque a sabedoria dos seus sábios perecerá e o entendimento dos seus prudentes se esconderá(Is 29:14).

Quando disse que a ninguém julgava, isso significa que Jesus não julgava segundo as questões da carne (aparência), como: tribo, nação, língua, circuncisão, linhagem, etc. (Fl 3:4-5).

O Julgamento de Cristo não seria, segundo os parâmetros dos seus concidadãos, que era segundo a carne, entretanto, Ele veio ao mundo para juízo (Ml 3:5), de modo que, os que julgavam que viam (religiosos judeus), tornaram-se cegos e os cegos (judeus e gentios pecadores) passaram a ver(Is 42:7; Jo 9:39).

“Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15);

“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24).

Cristo veio como o braço do Senhor (Jo 12:38), salvação para todos os povos, de modo que a sua mão se revelou exaltada, mas os filhos de Israel não O reconheceram como o Ungido, o enviado do Senhor (Jo 1:10).

“Atendei-me, povo meu e nação minha, inclinai os ouvidos para mim; porque, de mim, sairá a lei e o meu juízo farei repousar para a luz dos povos” (Is 51:4);

“SENHOR, a tua mão está exaltada, mas, nem por isso, a vêem; vê-la-ão, porém, e confundir-se-ão, por causa do zelo que tens do teu povo; e o fogo consumirá os teus adversários” (Is 26:11).

É necessário destacar que ‘cegueira’ e ‘surdez’ são figuras utilizadas para fazer referência única e exclusivamente ao povo de Israel, que, apesar de Deus se revelar soberanamente (mão exaltada), nem por isso, os filhos de Israel O reconheceram (Jo 1:11), por isso, Israel é descrito como um povo cego e surdo:

“Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” (Is 43:8; Zc 7:11);

“Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9).

A surdez e a cegueira não são figuras que se aplicam aos gentios porque, apesar de habitarem as regiões das trevas, ‘viram’ uma grande luz, a mão do Senhor exaltada (Is 9:2), por isso, Cristo se manifestou aos gentios, dizendo: – ‘Eis me aqui’.

“Fui buscado dos que não perguntavam por mim, fui achado daqueles que não me buscavam; a uma nação que não se chamava do meu nome, eu disse: Eis-me aqui. Eis-me aqui. Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:1-2).

Embora tivessem ouvidos perfeitos para ouvir, os filhos de Israel não atendiam à palavra do Senhor: “Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves” (Is 42:20).

O Cristo teria prazer em realizar a vontade de Deus e não julgaria segundo a carne e nem repreenderia segundo o ouvir dos seus ouvidos (Is 11:3), mas, ‘julgaria’ com justiça os pobres e ‘repreenderia’ com equidade os mansos da terra (Is 11:4).

De que modo o Cristo julgaria os pobres e repreenderia os mansos da terra? Anunciando boas novas aos pobres, proclamando liberdade aos cativos: o ano aceitável diante de Deus (Is 61:1; Is 42:4).

Por isso é dito pelo profeta Davi:

“Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, assim como na provocação e como no dia da tentação no deserto” (Sl 95:7-8).

Que tempo é o ‘hoje’? O tempo em que Cristo se fez carne (Sl 2:7), o ano (tempo) em que a mensagem de salvação passou a ser proclamada a todos os povos!

Novamente, o profeta faz referência ao segundo advento de Cristo, através da parte ‘b’, do versículo 4, após ter tratado do primeiro advento:

“ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará ao ímpio” (v. 4).

No primeiro advento, Jesus veio anunciando boas novas de salvação aos pobres, aos tristes, aos mansos, etc., produzindo juízo e justiça na terra (Mt 5:1-12; Lc 7:22).

Sobre esse aspecto do ministério de Cristo, disse o apóstolo Paulo:

“Digo, pois, que Jesus Cristo foi ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para que confirmasse as promessas feitas aos pais; E para que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: Portanto, eu te louvarei entre os gentios, E cantarei ao teu nome. E outra vez diz: Alegrai-vos, gentios, com o seu povo. E outra vez: Louvai ao Senhor, todos os gentios, E celebrai-o todos os povos. Outra vez diz Isaías: Uma raiz em Jessé haverá e naquele que se levantar para reger os gentios, os gentios esperarão” (Rm 15:8-12; Ap 5:5 e 22:16).

Mas, o oráculo também aponta para o segundo advento de Cristo, quando Ele ferirá a terra com a ‘vara’ da sua boca e com o sopro da sua boca, eliminará o ímpio – o iníquo (2 Ts 2:8).

A ‘vara’ remete à repreensão de Cristo como castigo e o ‘sopro’ remete à grandiosidade do poder de Cristo, quando vier em glória (Is 26:21). O ‘dragão’ que está no mar, refere-se ao poder sobre o qual o iníquo terá posse, o filho da perdição, que Cristo desfará com o sopro da sua boca.

A previsão de Isaías é apocalíptica, pois, do mar (povos e nações), subirá uma besta (nação) (Dn 7:3), com características pertinentes a outros reinos (bestas), que sobrepujaram o povo de Israel e os submeteram ao cativeiro, características que são: semelhança com o leopardo (Grécia), com pés como o de urso (medos e persas) e com boca como de leão (Babilônia).

O profeta Daniel viu, em visão, quando esses reinos vieram à existência (Dn 7:4-6) e que, no final dos tempos, um quarto animal (besta), com características dos animais que o antecederam, surgirá e terá dez chifres na cabeça; após a queda de três, surgirá um chifre com olhos e boca (Dn 7:19-20), uma referência ao iníquo, com o poder concedido pelo dragão, o leviatã.

“NAQUELE dia o SENHOR castigará, com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, serpente veloz, o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão, que está no mar” (Is 27:1).

O evangelista João descreve a glória de Cristo, no dia em que Ele se levantar para ferir a terra:

“E vi o céu aberto e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro;  julga e peleja com justiça. E os seus olhos eram como chamas de fogo;  sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia, senão ele mesmo. E estava vestido de uma veste salpicada de sangue; e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus. E seguiam-no os exércitos no céu, em cavalos brancos, vestidos de linho fino, branco e puro. E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. E no manto e na sua coxa, tem escrito este nome: Rei dos reis, e Senhor dos senhores” (Ap 19:11-16).

O profeta Isaías aponta para Cristo que, no primeiro advento, tem a justiça como cinto dos seus lombos, como de uma couraça, e a fidelidade como proteção dos rins, e que, no segundo advento, se cobrirá com vestes de vingança e do zelo do Senhor como de um manto.

“Pois vestiu-se de justiça, como de uma couraça, e pôs o capacete da salvação na sua cabeça, e por vestidura pôs sobre si vestes de vingança e cobriu-se de zelo, como de um manto” (Is 59:17).

No primeiro advento, Cristo é assim descrito:

“Cinge a tua espada à coxa, ó valente, com a tua glória e a tua majestade! E nesse teu esplendor, cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” (Sl 45:3-4).

No segundo advento é, assim, descrito:

E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso” (Ap 19:15).

 

Morará o lobo com o cordeiro

“E morará o lobo com o cordeiro, o leopardo, com o cabrito se deitará, o bezerro, o filho de leão e o animal cevado andarão juntos e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos e o leão comerá palha como o boi. E brincará a criança de peito sobre a toca da áspide e a desmamada colocará a sua mão na cova do basilisco. Não se fará mal, nem dano algum, em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11:6-9).

Quando Cristo vier e ferir a terra com a vara de sua boca e matar o ‘ímpio’ com o sopro dos seus lábios, haverá abundância de paz na terra, pois, Ele dominará de mar a mar.

“Nos seus dias florescerá o justo e abundância de paz haverá, enquanto durar a lua. Dominará de mar a mar, desde o rio, até às extremidades da terra” (Sl 72:7-8).

Não mais se ouvirá falar de guerra, pois as nações coexistirão em harmonia. Os animais do campo (lobo/cordeiro; leopardo/cabrito; bezerro/leão; vaca/ursa), nas profecias de Isaías, bem como nas dos demais profetas, dependendo do contexto, representam as nações, coexistindo, pacificamente, como se o ‘lobo’ coexistisse com o ‘cordeiro’.

“E ele julgará entre as nações e repreenderá a muitos povos; estes converterão as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerrear” (Is 2:4);

“E julgará entre muitos povos, castigará nações poderosas e longínquas e converterão as suas espadas em pás, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Mq 4:3);

“E farei com elas uma aliança de paz, acabarei com as feras da terra, habitarão em segurança no deserto e dormirão nos bosques” (Ez 34:25);

“E naquele dia farei por eles aliança com as feras do campo, com as aves do céu e com os répteis da terra; e da terra quebrarei o arco, a espada e a guerra e os farei deitar em segurança (Os 2:18; Is 14:5).

Como Cristo regerá as nações com vara de ferro, conduzir as nações será uma tarefa facílima, comparável a uma criança a apascentar um rebanho constituído de lobos e carneiros.

É comum vermos seguimentos religiosos distribuírem literaturas com desenhos e ilustrações acerca do milênio, com animais convivendo pacificamente, como se Deus, no milênio, tivesse cuidado de animais: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura, tem Deus cuidado dos bois?” (1 Co 9:9).

As Testemunhas de Jeová e os Adventistas do Sétimo Dia dão explicações sobre o verso 6 do capítulo 11 de Isaías, porém, não entenderam a figura utilizada pelo profeta, portanto, a interpretação resta equivocada[1], como se Deus estivesse falando do ecossistema terrestre.

Observe a explicação de Ezequiel, acerca das feras do campo:

“E eu, o SENHOR, lhes serei por Deus e o meu servo Davi será príncipe no meio delas; eu, o SENHOR, o disse. E farei com elas uma aliança de paz e acabarei com as feras da terra, habitarão em segurança no deserto e dormirão nos bosques. Delas e dos lugares ao redor do meu outeiro farei uma bênção; e farei descer a chuva a seu tempo; chuvas de bênção serão. E as árvores do campo darão o seu fruto, a terra dará a sua novidade, e estarão seguras na sua terra; e saberão que eu sou o SENHOR, quando eu quebrar as ataduras do seu jugo e as livrar da mão dos que se serviam delas. E não servirão mais de rapina aos gentios, as feras da terra nunca mais as devorarão; habitarão seguramente e ninguém haverá que as espante” (Ez 34:24-28).

O tempo de paz e bonança na terra durante o governo de Jesus – o Filho de Davi – não se refere à esperança da Igreja, que é celestial, antes, diz da esperança do povo de Israel, que é terrena, pois, Israel herdará a terra conforme o prometido a Abraão.

Isaías previu um tempo em que Israel (cordeiro) conviverá pacificamente com as demais nações (animais do campo), sob o domínio de Cristo.

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu e o principado está sobre os seus ombros, se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Do aumento deste principado e da paz, não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:6-7)

Na Bíblia, muitas vezes as nações são retratadas como bestas feras do campo (Jr 5:6), que Deus utilizou para punir os filhos de Israel (Os 13:7-8), como sinal de que precisavam se arrepender e se voltar para Deus: “E serão entre ti, por sinal e por maravilha, como também entre a tua descendência, para sempre” (Dt 28:46; Jr 2:30; Is 1:5).

Como Cristo há de reger todas as nações com vara de ferro, o conhecimento do Senhor alcançará a terra, cobrindo a terra como águas que cobrem as profundezas do mar.

O que é impensável, hoje – uma criança brincando na toca de uma áspide – pelo perigo que o animal representa para uma criança, é tomado como figura para representar a abundância de paz no milênio, pois ‘não se fará mal nem dano algum em todo o santo monte’, ou seja, ao povo de Israel.

Há quem entenda que os versos 11 a 16 desse capítulo, referem-se ao regresso[2] dos israelitas da diáspora, após a deportação para a babilônia, entretanto, vale destacar que o retorno de Israel a Jerusalém, após a diáspora, se deu com um pequeno contingente (tribo de Judá, Benjamim, sacerdotes e levitas), ainda, sob ordens do rei Ciro, para reconstruir o templo, porém, os israelitas ainda estavam sob domínio da pérsia (Ed 1:3-5).

A profecia de Isaías dá conta de um retorno em massa de todos os judeus, sob o domínio do Messias e não sob a ordem de Ciro, o Persa. Além do mais, quando do evento descrito por Isaías, o reinado de Cristo jamais terá fim.

O profeta Daniel, por não compreender o motivo de não ter findo o cativeiro, conforme a profecia de Jeremias (Dn 9:2), orou a Deus e teve como resposta que o tempo determinado de setenta anos previsto por Jeremias para que o reino do Messias estivesse estabelecido, referia-se a setenta semanas de anos (quatrocentos e noventa anos). A resposta de Deus à questão levantada por Daniel demonstra que a profecia de Isaías 11, com relação ao retorno de Israel para a sua terra, ainda não se cumpriu (Dn 9:24; Zc 13:1).

 

A raiz de Jessé

“E acontecerá, naquele dia, que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso. E há de ser que, naquele dia, o Senhor tornará a pôr a sua mão para adquirir outra vez o remanescente do seu povo, que for deixado da Assíria, do Egito, de Patros, da Etiópia, do Elão, de Sinear,  de Hamate e das ilhas do mar. E levantará um estandarte entre as nações, ajuntará os desterrados de Israel e os dispersos de Judá congregará, desde os quatro confins da terra” (Isaías 11:10-12)

Cristo, o Senhor, é o Descendente prometido a Abraão, Isaque e Jacó, ou seja, a raiz de Jessé. Ele será a bandeira dos povos, reverenciado pelos gentios, quando matar o iníquo, com o sopro da sua boca.

A cidade de Jerusalém, o lugar de descanso (repouso) do Messias, será gloriosa e Ele buscará, após a grande tribulação, os remanescentes do povo de Israel (Is 10:22), que estiverem dispersos pelos confins do mundo (Mq 5:7).

“Formoso de sítio e alegria de toda a terra é o monte Sião sobre os lados do norte, a cidade do grande Rei” (Sl 48:2).

Essa será a recomendação, naquele dia, aos povos do mundo:

“BATEI palmas, todos os povos; aclamai a Deus com voz de triunfo. Porque o SENHOR Altíssimo é tremendo, Rei grande sobre toda a terra. Ele nos subjugará os povos e as nações debaixo dos nossos pés” (Sl 47:1-3).

Assim, como os generais dos exércitos na antiguidade utilizavam bandeiras para retransmitir ordens a seus soldados, Ele dará ordem às nações, como se utilizasse uma bandeira, e elas trarão os desterrados de Israel (v. 12).

Os filhos de Israel serão ajuntados dentre as nações e o profeta Isaías lista algumas cidades e regiões conhecidas, para destacar o mundo conhecido à época:  Assíria, Egito, Patros (Alto Egito), Etiópia, Elão (Pérsia/Irã), Sinear(Babilônia), Hamate (norte da Síria) e ilhas do mar (Mediterrâneo).

 

Efraim e Judá

“E afastar-se-á a inveja de Efraim e os adversários de Judá serão desarraigados; Efraim não invejará a Judá e Judá não oprimirá a Efraim. Antes, voarão sobre os ombros dos filisteus ao ocidente; juntos, despojarão aos do oriente; em Edom e Moabe porão as suas mãos e os filhos de Amom lhes obedecerão. E o SENHOR destruirá totalmente a língua do mar do Egito, e moverá a sua mão contra o rio, com a força do seu vento e, ferindo-o, dividi-lo-á em sete correntes e fará que por ele passem com sapatos secos. E haverá caminho plano para o remanescente do seu povo, que for deixado da Assíria, como sucedeu a Israel, no dia em que subiu da terra do Egito” (Is 11:13-16).

O profeta Isaías prevê a união entre Efraim e Judá, no dia em que Cristo se assentar para reinar sobre os filhos de Israel, o que também foi profetizado por Ezequiel:

“Tu lhes dirás: Assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu tomarei a vara de José que esteve na mão de Efraim, e a das tribos de Israel, suas companheiras, e as ajuntarei à vara de Judá, e farei delas uma só vara, e elas se farão uma só, na minha mão” (Ez 37:19).

Vale destacar que, no Livro do Gênesis, vemos descritos os nomes dos descendentes do patriarca Jacó que, posteriormente, foi nomeado por Deus com o nome de Israel.

Jacó teve duas mulheres (Lia e Raquel) e duas concubinas (Bila e Zilpa). Ao todo, Jacó gerou doze filhos e uma filha: Rúben (1), Simeão (2), Levi (3), Judá (4), Dã (5), Naftali (6),Gade (7), Aser (8),Issacar (9), Zebulom (10), Diná (11), José (12) e Benjamim (13).

Mas, as doze tribos de Israel são formadas por dez filhos de Jacó e dois filhos de José, que Jacó tomou por seus: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Zebulom, Issacar, Dã, Gade, Aser, Naftali, Benjamim, Manassés e Efraim (Gn 48:5).

Fora Diná, as tribos de Manassés e de Efraim substituem as pessoas de José e de Levi, sendo que este último filho de Jacó não herdou terras, mas, o serviço do tabernáculo e, depois, do templo (Js 14:4).

Como foi previsto por Jacó, a bênção de Deus repousou sobre a tribo de Judá, que, por sua vez, chegou à casa de Davi (Gn 49:8-12), tendo Cristo como o Descendente. Mas, com a morte de Salomão, houve cisão no reino, conforme o predito pelo profeta Aías, o silonita, em decorrência do desvio de Salomão (1 Rs 11:29-36).

O reino foi dividido entre Jeroboão, filho de Nebate, efrateu, de Zereda, que ficou com dez tribos, e entre Roboão, filho de Salomão, filho de Davi, que ficou com as tribos de Judá e Benjamim.

A aversão entre Efraim e Judá deixará de existir (1 Rs 11:39), pois Cristo se assentará para reinar sobre as doze tribos de Israel. Para isso, Cristo reunirá os desterrados, dentre as nações, e os congregará de volta à sua terra, e nunca mais serão duas nações quando estiverem sob o domínio de Cristo (Ez 37:21-24).

Jeroboão, o efrateu, ficou com inveja de Roboão, pois achou que os filhos de Israel, ao irem adorar, em Jerusalém, poderiam ser aliciados por Roboão, e assim, fez corromper os filhos de Israel, ao confeccionar dois bezerros de ouro e os colocar em Betel e em Dã (1 Rs 12:26-29).

Além de reunir as doze tribos de Israel, Cristo há de reinar sobre os gentios, até os confins da terra, e se assentará sobre o trono de Davi, seu pai, e exercerá a função de sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque (1 Rs 9:5).

A narrativa demonstra que não haverá oposição a Israel em suas conquistas futuras, pois terá livre acesso ao ocidente, como que passando por sobre os ombros dos filisteus, ferrenhos inimigos à época, mas que agora está extinto.

Efraim e Judá, juntamente, despojarão o oriente e Israel expandirá o seu território para além dos termos do mar morto, abarcando as cidades antigas de Edom, Moabe e Amom, terras da peregrinação do Patriarca Abraão.

Há profecia para uma transformação hidrográfica na região, visto que, assim como os filhos de Israel foram resgatados do Egito, passando o mar vermelho a pé, o remanescente de Israel terá acesso às suas terras pelo rio, que será dividido em sete pequenos córregos (Ap 16:12). Essa transformação será decorrente da separação que ocorrerá no Monte das Oliveiras, que criará um vale, possibilitando a fuga de alguns dos filhos de Israel (Zc 14:4).

“Naquele dia, também, acontecerá que sairão de Jerusalém águas vivas, metade delas para o mar oriental e metade delas para o mar ocidental; no verão e no inverno sucederá isto. E o SENHOR será rei sobre toda a terra; naquele dia um será o SENHOR, e um será o seu nome. Toda a terra em redor se tornará em planície, desde Geba até Rimom, ao sul de Jerusalém, ela será exaltada e habitada no seu lugar, desde a porta de Benjamim até ao lugar da primeira porta e até à porta da esquina e desde a torre de Hananeel, até aos lagares do rei” (Zc 14:8-10).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “No novo mundo de Jeová, as pessoas poderão tocar a juba fofinha de um leão, acariciar o pêlo listrado dum tigre e até mesmo dormir na floresta, sem temerem ser atacadas por um animal. Veja a seguinte promessa de Deus: “Hei de fazer cessar no país a fera nociva, e [os humanos] realmente morarão no ermo em segurança e dormirão nas florestas.” — Ezequiel 34:25; Oséias 2:18. Os animais selvagens estarão em sujeição, até mesmo a crianças pequenas. A Bíblia diz: “O lobo, de fato, residirá por um tempo com o cordeiro e o próprio leopardo se deitará com o cabritinho, o bezerro e o leão novo jubado e o animal cevado, todos juntos; e um pequeno rapaz é que será o condutor deles” Animais — eternos companheiros do homem, Revista Despertai! — 2004, pág. 11. <http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/102004123> Consulta realizada em 11/12/16.

[2] “Esta seção se refere ao regresso dos israelitas da diáspora, isto é, ao retorno dos dispersos entre as nações, após a deportação para a Babilônia”. Bíblia de Estudo Almeida, SBB, Barueri – SP, 2000. Nota de rodapé, pág. 720.




A cruz serrada

A estória da cruz serrada foi tão difundida que, se fosse possível, enxertariam a narrativa no Canon sagrado. Muitos consideram a estória da cruz serrada uma ilustração do convite registrado nos evangelhos: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ).


A cruz serrada

“Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á” ( Mt 16:24 -25)

Era uma vez…

A estória da cruz serrada foi tão difundida que, se fosse possível, enxertariam a narrativa no Canon sagrado. Muitos consideram a estória da cruz serrada uma ilustração do convite registrado nos evangelhos: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ).

Apesar do grande número de variantes, resumidamente a estória da cruz serrada apresenta os seguintes pontos:

Certo moço foi convidado a fazer uma jornada até o paraíso. Para chegar ao paraíso era necessário carregar uma cruz que foi posta em seu ombro e seguir a seguinte recomendação: a) seguir por um caminho reto ascendente, e; b) nunca deixar a cruz à beira do caminho.

O moço iniciou a jornada e, após certo tempo, a cruz começou a incomodar e a ficar cada vez mais pesada. O jovem trocou a cruz de obro por diversas vezes e, por fim, resolveu cortar um pedaço da cruz. O moço prosseguiu na jornada e, como a cruz continuou a incomodar, repetiu a ação anterior por várias vezes: cortou pedaços da cruz. Por estar com a cruz mais leve, o jovem notou que começou a ultrapassar outros caminhantes que carregavam as suas cruzes intactas. Porém, em certo momento o jovem se deparou com um rio e o caminho continuava do outro lado e não havia como atravessar.

Quando os retardatários chegaram, cada indivíduo utilizava a cruz como ponte, e atravessaram o precipício. O moço, tardiamente percebeu que a cruz era o único meio de atravessar o rio, porém, ele havia reduzido em muito o seu tamanho. Ele buscou um lugar no qual a sua cruz alcançasse o outro lado, e após apoiá-la na beirada do precipício, tentou atravessar e caiu, sendo levado pela correnteza < http://www.dnadedeus.com.br/2014/03/a-cruz-cortada-medite-sua-vida-nunca.html > 07/04/14 ou < http://recife.blog.arautos.org/2013/09/a-cruz-serrada > Consulta realizada em 07/04/2014 ou < http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=7911&cod_canal=67 > Consulta realizada em 17/04/14.

Após narrar a estória, os pregadores concitam os seus ouvintes com os seguintes argumentos:

  • a ilustração corresponde perfeitamente com o que o Senhor Jesus disse, e cita Mateus 16, verso 24: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”;
  • que existe uma cruz a ser carregada, a mesma que Jesus carregou;
  • que Jesus não cortou a sua cruz, antes carregou uma cruz que não era feita de madeira, mas de pecados;
  • a cruz é a chave que abrirá as portas do maravilhoso reino prometido, e;
  • no final, se você conduziu a cruz, fará a grande travessia que te conduzirá a vida eterna.

A estória é narrada pausadamente, acompanhada de um fundo musical e busca um clímax. A música envolve o ouvinte que, em vez de analisar o narrado, se emociona e fica extasiado, deixando de considerar o que realmente é necessário para que o homem seja salvo.

Será que esta estória da cruz serrada realmente representa a ordem de Cristo estampada em Mateus 16, verso 24: – “… tome sua cruz e siga-me”? Será que há algum abismo a ser atravessado antes do salvo herdar a vida eterna?

 

O que é necessário para ser salvo?

O apóstolo Paulo fez uma breve exposição acerca do que é necessário:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:8 -13).

Ora, para ser salvo basta reconhecer que é pecador, admitir (confessar) que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus crendo que Deus o ressuscitou dentre os mortos. A confissão é necessária para salvação e o crer para a justiça, pois está estabelecido nas Escrituras que ao invocar o nome do Senhor o homem é salvo da ira vindoura.

É necessário que fique bem claro que, para ser salvo basta a qualquer pessoa crer e confessar Cristo conforme o apóstolo Pedro: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).

Esta mesma confissão foi feita por Marta, irmã de Lazaro: “Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” ( Jo 11:27 ).

Antes de ser batizado, o eunuco etíope, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, professou: “E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” ( At 8:37 ).

Jesus se apresentou ao povo como o caminho, a verdade e a vida “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ), e é Ele que conduz os homens a Deus “E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:14 ).

Não é ao final da existência que o homem será provado se é digno ou não de estar com Deus. O homem precisa compreender que está perdido, alienado de Deus, e que é necessário crer no evangelho para entrar pelo caminho que conduz o homem a Deus.

A Bíblia é clara dizendo que pela carne de Cristo foi consagrado um novo e vivo caminho que dá acesso a Deus, portanto, não há outro caminho “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

A crença de que a cruz do indivíduo é o ‘passaporte’ para o paraíso não é conforme o evangelho de Cristo, pois o que conduz à vida é Cristo, que a si mesmo se entregou para salvar a humanidade.

Jesus censurou muitos de seus ouvintes, pois acreditavam que Cristo era um dos profetas pelos sinais miraculosos que operava, pois para ser salvo é necessário crer e confessar Cristo conforme as Escrituras, de que o Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o Filho de Davi, que veio ao mundo sem pecado, foi morto e ressuscitou e que tira o pecado do mundo “Então muitos da multidão, ouvindo esta palavra, diziam: Verdadeiramente este é o Profeta” ( Jo 7:40 ); “E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas” ( Mt 16:13 -14).

Havia muitos que diziam crer em Cristo, porém, não queriam admitir que eram escravos do pecado e que necessitavam ser libertos por Cristo “Dizendo ele estas coisas, muitos creram nele. Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:30 -33).

Para ser salvo basta crer que Jesus é o Eu Sou “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ), o descendente prometido a Davi “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens” ( 2Sm 7:12 -14).

 

No que consiste a renúncia de si mesmo e o tomar a cruz?

A renúncia de si mesmo e o tomar a cruz é uma mensagem para os seguidores de Cristo, ou seja, para aqueles que creram na mensagem de salvação, e que, portanto, já deixaram o caminho de perdição.

É uma mensagem de aviso solene e alento para que os discípulos não desanimem quando chegar a angustia e a perseguição por causa da palavra. Sofrer por causa da mensagem do evangelho não é dado a quem ainda não entrou pela porta estreita, ou seja, renunciou a si mesmo “Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende” ( Mt 13:21 ).

Aquele que ‘nega a si mesmo’ e ‘toma a sua cruz’ é bem-aventurado, pois compreende que com relação ao evangelho não somente é concedido crer em Cristo, mas também padecer pela mensagem da cruz “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fl 1:29 ); “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:10 ).

A mensagem sobre a necessidade de tomar a cruz visa estabelecer paz no coração dos verdadeiros cristãos que sofrem perseguição no mundo “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ).

 

A renuncia de tudo

Jesus deixa claro que, para ser um seguidor d’Ele é necessário ‘renunciar a si mesmo’. Mas, como se dá a ‘renuncia de si mesmo’?

“Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:33 ).

Esta é uma exigência de Cristo que permeia o Novo Testamento:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 );

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me” ( Mc 10:21 );

“E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a” ( Mt 13:46 );

Jesus estava falando de doação de bens materiais? Não!

Primeiro temos que observar qual é o público alvo do ensinamento de Jesus: a multidão “Ora, ia com ele uma grande multidão; e, voltando-se, disse-lhe:” ( Lc 14:25 ).

Jesus estava falando a multidão, e devemos lembrar que Ele só fala à multidão por parábolas: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ); “E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado” ( Mt 13:10 -11).

Como Jesus só falava por parábolas à multidão, ao ler o convite: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ), é necessário questionarmos se Jesus falou abertamente à multidão ou se utilizou de uma parábola, conforme Deus sempre fez com a casa de Israel “Filho do homem, propõe um enigma, e profere uma parábola para com a casa de Israel” ( Ez 17:2 ; Sl 78:2 ).

A parábola é a forma que Deus utilizou para falar com a casa rebelde de Israel, homens que rejeitaram a aliança com Deus ( Sl 78:10 ; Ez 17:19 ).

A repreensão de Deus através do profeta Oséias nos auxilia compreender as parábolas de Jesus acerca de vender tudo que possuem:

“Tu, pois, converte-te a teu Deus; guarda a benevolência e o juízo, e em teu Deus espera sempre. É um mercador; tem nas mãos uma balança enganosa; ama a opressão. E diz Efraim: Contudo me tenho enriquecido, e tenho adquirido para mim grandes bens; em todo o meu trabalho não acharão em mim iniquidade alguma que seja pecado” ( Os 12:6 -8).

Há muito Deus requer de Israel conversão, ou seja, que guardasse a misericórdia e o juízo confiando em Deus sempre. Israel, por sua vez, é comparável a um negociante que traz uma balança enganosa na mão que rouba os seus clientes. Apesar de ser comparável a um negociante fraudulento, Israel se sente abastado, possuidor de grandes bens e sem pecado.

Esta era a condição do homem que possuía uma herdade que produziu muito:

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 ).

A acusação dos profetas era contra o povo de Israel, que confiavam nos bens que possuíam: “Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6); “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará, e no seu fim será um insensato” ( Jr 17:11 ); “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas” ( Sl 49:6 ); “Eis aqui o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes confiou na abundância das suas riquezas, e se fortaleceu na sua maldade” ( Sl 52:7 ); “Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” ( Sl 62:10 ); “Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas” ( Jr 9:23 ).

A mensagem de Mateus 10, verso 37 é diferente da mensagem em Lucas 14, verso 26 em função do público alvo. Em Mateus 10, o público alvo da mensagem são os doze discípulos, pessoas que Jesus dava o sentido das parábolas, apesar de muitas das vezes não compreenderem “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ); “Disseram-lhe os seus discípulos: Eis que agora falas abertamente, e não dizes parábola alguma” ( Jo 16:29 ).

Em Lucas, o público alvo é a multidão, portanto, Jesus lhes falou por parábola.

Considerando que a mensagem registada por Lucas tinha por alvo a multidão, quais eram os ‘bens’, ou ‘tudo o que tinham’ que a multidão foi concitada a dispor?

 

Ódio ao pai e a mãe

Jesus apresenta os familiares ou a própria vida dos seus ouvintes como um obstáculo a ser transposto para que pudessem ser os seus discípulos:

“Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ).

Jesus não disse que há um abismo entre o homem e o paraíso, antes que havia a necessidade de odiar pai e mãe para ser um seguidor d’Ele.

No que consiste odiar pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs?

Primeiramente é necessário deixar bem claro que Jesus não estava incitando o povo a desrespeitarem o primeiro mandamento com promessa “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” ( Ef 6:2 ; Lc 18:20 ; Mc 7:10 ; Ex 20:12 ; Dt 5:16 ). Se observarmos o contexto, percebemos que não é esta a ideia decorrente da mensagem: hostilizar entes queridos.

O termo grego traduzido por aborrecer é μισεω (miseo), e significa odiar, detestar, perseguir com ódio, ser odiado, detestado. O termo traz em seu bojo a ideia de perseguição, hostilidade permanente, como se os seguidores de Cristo devessem perseguir e permanentemente hostilizar os seus entes queridos.

“miseõ (a etimologia é incerta) é atestado de Homero em diante, e significa “odiar”, “aborrecer”, “rejeitar”. O vb. conota não somente a antipatia para com certas ações, como também uma hostilidade permanente e arraigada para com outros homens ou até para com Deus” Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Paulo ; Vida Nova, 2000, pág. 1027.

Para interpretar o verso, precisamos de outro texto, onde o termo ‘odiar’ é empregado: “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ).

O termo ‘odiar’ aparece contrapondo o termo ‘amar’ ao fazer referencia a dois senhores. Os termos ‘amor’ e ‘ódio’ são empregados para descrever a relação senhor e escravo, de modo que ‘amar’ é obedecer e ‘odiar’ é desobedecer. O elemento ‘afeição’ como sentimento é ausente nos dois termos.

Ora, quando Jesus utilizou o termo grego agapé (amor) em Lucas 16, verso 13, a essência do termo é ‘honrar’ “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” ( Ml 1:6 ).

Veja a definição original do termo agapé (amor):

“agapaõ, que originalmente significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção necessariamente nítida quanto ao significado” Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Pauio ; Vida Nova, 2000, pág. 113.

Ora, Jesus não esta reclamando aos seus ouvintes ‘entranháveis afetos’, o sentimento de afeto denominado amor. Ele está reivindicando a ‘honra’ devida, o agapaõ, que originalmente no grego clássico significava “honrar”.

Qual a extensão deste amor (agapaõ)?

Para compreender este ‘amor’, basta lembrarmos que uma mulher pecadora soube que Jesus estava à mesa com um fariseu, e ela levou um vaso de alabastro com unguento e, chorando aproximou-se dos seus pés por detrás, e regava os pés de Cristo com lágrimas e enxugava com os cabelos de sua cabeça e beijava os pés e ungia com o unguento ( Lc 7:37 -38).

O fariseu censurou o seu convidado ao pensar: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora” ( Lc 7:39 ).

Em seguida Jesus dirigiu a palavra ao fariseu e contou-lhe uma parábola dizendo: “Um certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinquenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?” ( Lc 7:41 -42).

O amor dos devedores é de cunho sentimental, ou conforme a raiz do termo grego ‘agapaõ’?

A descrição que Jesus faz logo após o fariseu responder que o devedor que mais devia é o que ‘amaria’ mais nos esclarece a questão: “E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e mos enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento” ( Lc 7:44 -46).

Jesus demonstra que o fariseu o convidou para jantar em sua casa, porém, não o ‘honrava’ como Mestre.

Em seguida Jesus anuncia à mulher que a fé que ela tinha a salvou, e perdoou os seus pecados: “Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama. E disse-lhe a ela: Os teus pecados te são perdoados. E os que estavam à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados? E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz” ( Lc 7:47 -48).

A ‘honra’ é que cobre multidão de pecados: “Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados” ( 1Pe 4:8 ); “Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados” ( Tg 5:20 ); “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todos os pecados” ( Pv 10:12 ).

Quem recebe (dá as boas vindas) a Cristo o ama, ou seja, honra. Quem recebe um discípulo de Cristo, recebe a Cristo e recebe aquele que o enviou, de modo que honrou tanto o Pai quanto o Filho “Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou. Quem recebe um profeta em qualidade de profeta, receberá galardão de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá galardão de justo. E qualquer que tiver dado só que seja um copo de água fria a um destes pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão” ( Mt 10:40 -42); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

O ‘renunciar-se a si mesmo’ em Mateus 16, verso 24 é o descrito no verso 37 de Mateus 10: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim”.

O ‘renunciar a si mesmo’ para seguir a Cristo é o mesmo que entregar o velho homem para ser crucificado com Cristo, de modo que o corpo que estava sob o domínio do pecado seja desfeito ( Rm 6:6 ). É na renuncia que se dá a morte com Cristo. É na renuncia que o crente é batizado na morte de Cristo ( Rm 6:3 ).

Ao ‘renunciar a si mesmo’ ocorre o arrependimento, a mudança completa de concepção acerca de como salvar-se. Antes de ouvir a mensagem do evangelho o homem possui uma concepção própria acerca de como ser salvo. Após ouvir o evangelho, o homem abandona a concepção que tinha e adota o posicionamento revelado no evangelho (metanoia).

A mudança completa de concepção (arrependimento) de um Judeu se dá quando ele deixa de confiar que sua herança genética lhe confere salvação e crê no coração que o Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o descendente prometido a Abraão em quem seriam benditas todas as famílias da terra e professa que Jesus é o Filho de Davi.

E qual é a mudança de concepção de um cristão convertido dentre os gentios que demonstra a ‘renuncia de si mesmo’? Abandonar dogmas que entendia ser o que proporcionava salvação.

O argumento: – “Nasci nesta religião e morro nela”, ou a concepção: – “Todas as religiões levam a Deus”, ou a filosofia: – “Basta ser uma pessoa boa”, etc., deve ser substituída pelo seguinte argumento:

“Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:10 -12).

Certa feita Jesus estava ensinando a multidão e os seus parentes segundo a carne (mãe e irmãos) estavam do lado de fora querendo falar com Jesus. Alguém trouxe um recado e disse: – “Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te” ( Mt 12:47 ). Foi quando Jesus respondeu: – “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:48 -50).

Quem Jesus ‘honrou’ (agapé) quando estendeu sua mão para os discípulos? Os seus familiares segundo a carne ou os que fizeram a vontade de Deus?

Ora, Jesus não abandonou a sua mãe, visto que até na cruz dispensou um cuidado para com ela “Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa” ( Jo 19:27 ). Ninguém deve abandonar os seus parentes ( 1Tm 5:4 à 8).

‘Odiar’ pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs, segundo a perspectiva do ensinamento de Jesus só se compreende quando se descobre que a família de Cristo é QUALQUER que faz a vontade de Deus, ou seja, QUALQUER um que crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Em segundo lugar é necessário entender que ter vínculo de sangue com Abraão não torna ninguém filho de Deus.

A multidão a quem o Senhor Jesus dirigia a palavra era formada por judeus, homens que se orgulhavam de possuir o sangue de Abraão. A multidão era uma grande família que consideravam a descendência segundo a carne de Abraão lhes conferia filiação divina, ou seja, salvação, o seu maior tesouro.

Qualquer um que fizer a vontade de Deus pertence à família de Cristo, no entanto, para pertencer à família de Israel era necessário ser descendente da carne de Abraão e circuncidado ao oitavo dia.

Para honrar a Deus era necessário a multidão crer em Cristo como o Filho de Deus ( Jo 5:23 ), e isto significa que deviam abrir mão do que lhes era mais caro: confiar que eram filhos de Deus por serem descendente de Abraão “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão (…) Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus” ( Jo 8:39 e 41).

Ser descendência de Abraão era o obstáculo que os judeus precisavam transpor para serem discípulos de Cristo e verdadeiramente livres. No entanto, honravam mais o vínculo familiar com Abraão do que a mensagem de Cristo. Isto significa que aquele que ‘honra’ o seu vínculo de sangue com Abraão em detrimento da vontade de Deus, não é digno de Cristo.

Não basta presumir e dizer: – “Temos por pai Abraão” ( Mt 3:9 ; Jo 8:39 ), é necessário crer em Cristo para fazer parte da família de Deus.

Quando Jesus diz para ‘odiar’, ‘hostilizar permanentemente’, etc., os membros da família, utilizou uma parábola para expor a necessidade de ‘odiarem’, ‘rejeitarem’ a doutrina dos escribas e fariseus que era segundo a tradição dos anciões. Era doutrina de homens que tinha por base a carne e a circuncisão de Abraão “Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo, procurais matar-me, porque a minha palavra não entra em vós” ( Jo 8:37 ).

Quando é dito: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ), Jesus está demonstrando a impossibilidade de a multidão servir a dois senhores, pois se quisessem servi-Lo, deveriam ‘obedecer’, ‘amar’, ou ‘honrar’ somente a Ele.

Não há como obedecer a Cristo e ao mesmo tempo considerar que se alcança a salvação pela carne e o sangue de Abraão, pois não há outro nome pela qual o homem é salvo. Quem serve a Deus, odeia a Mamom, e quem ama a Deus, não serve a Mamom, porém, aqueles que se gloriam na carne serve as ‘riquezas’ herdadas de seus pais.

Cristo foi desamparado por seus familiares segundo a carne, como se lê: “E, quando os seus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si” ( Mc 3:21 ); “Porque, quando meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me recolherá” ( Sl 27:10 ), pois Ele veio para os que eram seus, mas os seus não O receberam ( Jo 1:11 ).

Por que não obedecer (odiar) os familiares? A resposta é esta: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” ( Mt 6:21 ). Ser descendente da carne de Abraão era uma ‘riqueza’ que os filhos de Israel não abriam mão.

Quando Jesus interpelou algumas pessoas que criam n’Ele dizendo ser necessário permanecerem na doutrina de Cristo para serem livres, de pronto responderam que eram descendentes de Abraão, e que, portanto, nunca foram escravos de ninguém “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:33 ).

O apóstolo Pedro estava se enveredando pelo caminho de honrar ‘pai’ e ‘mãe’ quando foi repreendido pelo apóstolo Paulo:

“Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” ( Gl 2:12 -14).

A dissimulação do apóstolo Pedro fez com que outros judeus convertidos e até Barnabé se deixasse levar, se comportando de maneira que não era segundo a verdade do evangelho. Ao temer os da circuncisão (judeus), o apóstolo Pedro estava honrando os seus familiares em detrimento de Cristo e do seu corpo, que é a igreja.

 

Deixar tudo quanto tem

Como os judeus poderiam seguir a Cristo se continuavam apegados aos preceitos instituídos pelos anciões? Estes preceitos tornaram-se uma riqueza cultural que cegou o povo de Israel quando o reino de Deus se manifestou “Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas” ( Mc 7:8 ).

A tradição é uma espécie de ‘riqueza’ que os antepassados judeus legaram aos filhos. Ora, Deus deu uma lei aos pais para que transmitissem aos seus filhos, porém, em lugar de ensinarem os preceitos de Deus, substituíram por mandamentos de homens “Porquanto se rebelaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altíssimo” ( Sl 107:11 ).

Quando o povo de Israel estava para entrar na terra da promessa, Deus os avisou por intermédio de Moisés dizendo para não confiarem que entraram na terra por serem justos, mas que foi dada aquela benesse porque os povos daquela terra eram ímpios “Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o SENHOR teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” ( Dt 9:6 ).

Ora, Deus deu o alerta para que os filhos de Israel não considerassem que eram melhores que os outros povos, ou que possuíam a melhor religião, visto que eles não eram justos. No entanto, os filhos de Israel desprezaram a palavra do Senhor, pois em lugar de serem ensinados que foram introduzidos na terra por causa da promessa que Deus fez aos pais ( Dt 9:5 ), os anciões do povo prevaricaram na sua atribuição e assenhoram dos filhos de Israel ensinando mandamentos de homens.

Ao entrar na terra Deus deu a ordem: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Era para os filhos de Jacó gravarem estas palavras e ensinar aos seus filhos ( Dt 11:18 -19), porém, enfatizavam a circuncisão do prepúcio da carne e não enfatizavam a circuncisão do coração. Enfatizavam os sacrifícios e negligenciavam a obediência à palavra de Deus. Estabeleceram ritos, mas não guardaram a palavra de Deus no coração.

Os ensinamentos dos anciões tornaram-se tradição, e a tradição uma riqueza aos filhos de Israel. Dai a repreensão dos profetas contra os filhos de Israel, homens que se gloriavam em suas fazendas, na multidão de suas riquezas, uma gloria que não os tornava ricos para com Deus “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas (…) O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpétuas e as suas habitações de geração em geração; dão às suas terras os seus próprios nomes (…) Não temas, quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa se engrandece. Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará” ( Sl 49:6 , 11 e 16-17).

A exigência de Cristo à multidão é específica: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ), porque Ele sabia que abrir mão de conceitos como a filiação de Abraão, a circuncisão, as linhagens, as tribos, as festas, as luas, os sábados, etc., eram algo muito caro ao povo de Israel.

O apóstolo Paulo ciente de que não dava para seguir a Deus e as ‘tradições’ dos seus pais dá uma lição de como um judeu deixa pai, mãe e riquezas para ganhar a Cristo:

“Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:4 -8).

É necessário aborrecer, até mesmo, a sua própria vida, ou seja, era necessário considerar que a maneira de viver que herdaram por tradição dos pais não os salvava. Precisavam deixar as suas próprias concepções e tradições para servir a Deus.

“Se alguém vier a mim, e não aborrecer (…) ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 );

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” ( Jo 8:31 -32)

Aborrecer os familiares ou ainda a própria vida é abandonar a vã maneira de viver que por tradição o crente judeu recebeu dos seus pais “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais” ( 1Pd 1:18 ).

Mas, apesar de dizerem que criam, muitos ouvintes de Jesus não permaneceram no seu ensino, pois continuavam fiados que a condição de descendentes de Abraão os salvaria.

 

A cruz de Cristo

Ao crer em Cristo o homem é transportado do domínio das trevas para o reino do Filho do seu amor, onde permanece assentado nas regiões celestiais em Cristo Jesus “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ); “E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” ( Ef 2:6 ).

Se o crente está assentado, não há abismo a ser transposto. Ao ser transportado do domínio das trevas para o reino de Cristo, resta ao crente levar a sua cruz , mas a cruz do cristão não possui relação com a cruz da estória da cruz serrada.

A cruz que o crente tem que levar refere-se a ignominia, ao desprezo, a oposição, a perseguição por causa do evangelho “Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” ( Mt 10:25 ). O ódio do mundo é contra os discípulos de Jesus ( Mt 10:22 ; Mc 13:13 ; Lc 21:17 ; Jo 15:18 ; 1 Jo 3:13 ).

Os discípulos estarão expostos diariamente aos vitupérios da cruz “E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:27 ).

É neste sentido que o apóstolo Pedro disse: “Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus; quanto a eles, é ele, sim, blasfemado, mas quanto a vós, é glorificado” ( 1Pd 4:14 ); “Em parte fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações, e em parte fostes participantes com os que assim foram tratados” ( Hb 10:33 ); “Tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa” ( Hb 11:26 ); “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério” ( Hb 13:13 ).

Sobre tomar sobre si a cruz de Cristo disse o apóstolo Paulo: “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

O apóstolo Paulo preferiu ser perseguido a deixar de professar a mensagem da cruz, pois pela mensagem da cruz é que o apóstolo foi crucificado para o mundo, e o mundo para ele “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ).

Ora, o apóstolo se dispôs das suas riquezas para estar ‘em Cristo’, o que o torna justo diante de Deus ( Fl 3:9 ). Após se achar em Cristo (nova criatura), o apóstolo passou a ser um com Cristo (conhece-lo), sendo ressuscitado com Ele ( Cl 3:1 ); “Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte” ( Fl 3:10 ).

Só após conhecer a Cristo e a virtude da sua ressurreição, é que se dá a comunicação das aflições de Cristo, conformando-se em tudo com a morte de Cristo “E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” ( 2Co 1:7 ).

Sabendo que a perseguição por causa da palavra viria sobre os seus discípulos ( Mt 13:21 ; Mc 4:17 ), Jesus anuncia, à multidão que o seguia, a necessidade de calcularem bem o quanto estavam dispostos a ‘perder’ para seguir a Cristo. Além de abrirem mão de tudo (pai, mãe e riquezas), deveriam atentar que haveria perseguições e aflições por causa da palavra.

Após enfatizar que os seus seguidores sofrem perseguições e muitas aflições, Cristo conta à multidão duas parábolas: a do construtor, e a do rei em prenuncio de guerra.

“Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, Dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar” ( Lc 14:28- 30).

“Ou qual é o rei que, indo à guerra a pelejar contra outro rei, não se assenta primeiro a tomar conselho sobre se com dez mil pode sair ao encontro do que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, estando o outro ainda longe, manda embaixadores, e pede condições de paz” ( Lc 14:31 -32).

As duas parábolas envolve consideração e previsibilidade.

Jesus questiona a multidão sobre qual deles ali presente, ao desejar edificar uma torre, primeiro não se assentaria para verificar os gastos da obra e o montante que dispõe. Ora, é necessária a análise para que, após iniciada a obra, não falte o subsidio necessário para termina-la, e o construtor não seja alvo de escarnio.

Semelhantemente, qualquer rei que vai à peleja, primeiro analisa que tem condições de vencer a guerra com o número de homens que dispõe, comparando com o número de homens que o outro rei dispõe para a guerra. Por que é necessária esta atitude por parte do rei? Se estiver em desvantagem, melhor é verificar quais são as condições de paz imposta pelo outro rei.

Jesus contou estas duas parábolas para enfatizar que: “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:33 ).

É essencial ao discípulo estar consciente da sua nova condição em Cristo e conhecer as riquezas da graça. É este conhecimento (saber) que torna o cristão apto a levar os vitupérios (tomar a sua cruz) e seguir após o Mestre. Quando o cristão descobre a extensão da gloria que há de ser revelada em nós, suportará as aflições do tempo presente: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” ( Rm 8:18 ).

Esta mesma mensagem foi registrada por Lucas no capitulo 9, e ela foi anunciada por Cristo a todos os seus ouvintes: “E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará. Porque, que aproveita ao homem granjear o mundo todo, perdendo-se ou prejudicando-se a si mesmo? Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos” ( Lc 9:23 -26).

O evangelista Marcos registrou a mesma mensagem: “E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará. Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate da sua alma? Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos” ( Mc 8:34 -38).

O evangelista também deixou consignado: “Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me; Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma? Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras” ( Mt 16:24 -27).

Os evangelhos deixam estampado um convite amplo a todos os homens de todos os povos, línguas e nações: ‘Se alguém quiser vir após mim’. O verbo grego traduzido por querer é θελω, e significa querer, ter em mente, pretender. Ou seja, Jesus não obriga ninguém segui-Lo, antes o indivíduo de livre e espontânea vontade precisa ter o desejo de segui-Lo.

 

Eu vim trazer espada

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” ( Mt 10:34 )

Durante o discurso de preparação dos doze, Jesus anunciou que não veio trazer paz ao mundo, mas espada ( Mt 10:34 ). Como é possível o ‘príncipe da paz’ trazer espada?

Há muito o profeta Jeremias havia predito que não era para ninguém dentre os filhos de Israel confiar em seus entes queridos nas questões concernentes as coisas de Deus, pois ninguém em Israel falava a verdade ( Jr 9:3 -8; Sl 58:3 ), e há muito haviam deixado de ouvir a voz de Deus ( Jr 9:13 -14).

Os filhos de Israel se gloriavam em seus príncipes, gloriavam na força que a lei e Abraão representavam, de modo que se consideravam salvos, ou seja, abastados, ricos perante Deus ( Jr 9:23 ), e quando o Cristo veio trazendo salvação a todos os povos, ou seja, fazendo misericórdia, juízo e justiça na terra ( Jr 9:24 ), era inevitável a dissensão que haveria entre os filhos de Israel “Tornou, pois, a haver divisão entre os judeus por causa destas palavras. E muitos deles diziam: Tem demônio, e está fora de si; por que o ouvis? Diziam outros: Estas palavras não são de endemoninhado. Pode, porventura, um demônio abrir os olhos aos cegos?” ( Jo 10:19 -21).

O profeta Miquéias quando profetizou acerca da vinda de Cristo disse: – “Veio do dia dos seus vigias”, ou seja, o dia daqueles que esperavam a visitação de Deus! Mas, o dia da visitação do Messias, também é descrito como dia de confusão!

Na visitação seria semeada a desconfiança ( Mq 7:5 ), e a confusão seria enorme, pois o filho despreza o pai, a filha é contra a mãe e a nora e a sogra não entram em acordo, pois: “Os inimigos do homem são os da sua própria casa”.

Quando diz que veio trazer espada, significa que Ele é o valente que luta pela causa da verdade, da mansidão e da justiça ( Sl 45:3 -4). A espada que empunha é a sua doutrina “E fez a minha boca como uma espada aguda, com a sombra da sua mão me cobriu; e me pôs como uma flecha limpa, e me escondeu na sua aljava” ( Is 49:2 ), que traria confusão entre os filhos de Israel.

O texto de Miquéias é claro: O Messias não haveria de trazer paz, mas confusão e dissensão ( Mq 7:5 -6).

Como crer em atalaias e pastores nesta condição funesta: “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono. E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte” ( Is 56:10 -11).

Ora, o Cristo inteirado de que os líderes do seu povo eram atalaias que nada viam e que eram gananciosos, prevê que eles perseguiriam os seus próprios irmãos de sangue caso se convertessem ao Senhor: “E o irmão entregará à morte o irmão, e o pai o filho; e os filhos se levantarão contra os pais, e os matarão. E odiados de todos sereis por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” ( Mt 10:21 -22).

A perseguição aos profetas sempre foi uma constante em Israel “E ele disse: Eu tenho sido em extremo zeloso pelo SENHOR Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada, e só eu fiquei; e buscam a minha vida para ma tirarem” ( 1Re 19:14 ).

Ao dizer: – “Não vim trazer paz, mas espada”, Cristo estava anunciando que a profecia de Miqueias estava se cumprindo: “Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca. Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” ( Mq 7:5 -6).

 

Salvo em Cristo e discípulo

Por não compreender o significado da cruz de Cristo, muitos elegem para si uma cruz a ser levada. Muitos cristãos estabelecem que os problemas diários sejam a cruz.

Se o marido é um homem difícil de lidar, a mulher considera que aquela é a sua cruz. Se os filhos são desobedientes, assumem a condição de cruz. Se a mulher é rixosa, a cruz do homem é a mulher, etc.

As vicissitudes da vida não é a cruz que Cristo convocou os homens a carregarem. É imprescindível o cristão entender que a prosperidade e a adversidade foram estabelecidas por Deus, para que o homem não saiba o que há de ser do dia de amanhã, e que tudo ocorre igualmente ao justo e ao injusto “No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” ( Ec 7:14 ); “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento” ( Ec 9:2 ).

O que ocorre igualmente ao justo e ao injusto? O estabelecido na lei da semeadura: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” ( Gl 6:7 ); “Mas quem fizer agravo receberá o agravo que fizer; pois não há acepção de pessoas” ( Cl 3:25 ).

A cruz que Cristo mandou carregar refere-se à mensagem do evangelho. Não diz dos problemas e conflitos diários “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 ).

Quando o homem ouve a mensagem de que o Verbo eterno despiu-se da sua glória, se fez carne, revelou o Pai aos homens, foi crucificado, morto, sepultado e ressurgiu ao terceiro dia e está assentado à destra da majestade nas alturas e crê, é salvo.

Embora esta mensagem que anuncia que Cristo morreu pela humanidade seja o poder de Deus para salvação dos que creem, para muitos esta mensagem é loucura e escândalo “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:23 ).

Quando o homem crê, renuncia-se a si mesmo e é crucificado e morto com Cristo “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” ( Rm 6:6 ); “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ); “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Quando o crente passa a anunciar o evangelho de Cristo que é segundo as Escrituras será perseguido. A exemplo do apóstolo Paulo que pregava evangelho e era perseguido, mas se pregasse a circuncisão, não haveria perseguição, pois não estaria anunciando o escândalo da cruz “Eu, porém, irmãos, se prego ainda a circuncisão, por que sou, pois, perseguido? Logo o escândalo da cruz está aniquilado” ( Gl 5:11 ).

Havia aqueles que se diziam cristãos e ainda não haviam ‘odiado’ pai e mãe. Queriam participar do convívio dos cristãos e permanecerem sendo louvados na comunidade judaica por anunciarem a circuncisão. Estes não queriam levar a cruz de Cristo, ou seja, não queriam ser perseguidos por causa da mensagem do evangelho “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses os obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

Enquanto muitos se gloriavam por serem descendente da carne e do sangue de Abraão, da circuncisão, dos sábados, etc., o apóstolo Paulo gloriava-se na mensagem do evangelho. Considerou todas as coisas pertinentes ao judaísmo como escória para ganhar a Cristo “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ; Fl 3:8 ).

É dada a missão, aos que creem, de evangelizar, e quem evangeliza deve ter o cuidado de não apresentar um conhecimento próprio, desprezando a mensagem da cruz “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã” ( 1Co 1:17 ); “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” ( 1Co 2:2 ).

O apóstolo Pedro enfatizou que não anunciou a virtude daquele que nos tirou das trevas para a sua maravilhosa luz através de fábulas artificialmente compostas, antes anunciaram o que realmente viram “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” ( 2Pd 1:16 ).

Mas, nos que não vimos pessoalmente a majestade de Cristo, devemos pautar a nossa pregação na mensagem dos profetas e no que foi anunciado pelos santos apóstolos ( 2Pd 1:19 ).

Quando nos deparamos com estórias como a da cruz serrada, de que certo moço foi convidado para fazer uma jornada até o paraíso, encontramos diversas incongruências com a mensagem do evangelho, pois Cristo não convida ao paraíso, antes convida a Ele “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ).

Por que é necessário ao homem ‘vir’ a Cristo? Porque Ele é o caminho, a verdade e a vida que conduz o homem a Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ).

Como Cristo é o caminho que conduz o homem a Deus, certo é que n’Ele não há um abismo que seja necessário o homem transpor, ou que seja necessária uma cruz para transpor um obstáculo entre os homens e o paraíso.

A estória da cruz serrada diz que as pessoas faziam muito esforço para conduzir as suas cruzes e que tal cruz é chave que abre as portas do maravilhoso reino prometido. O evangelista João, por sua vez, orienta dizendo que os mandamentos de Deus não são pesados “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ).

Enquanto a mensagem da cruz é revelação de Deus por intermédio de Cristo, o mediador, a estória da cruz serrada reflete a elucubração do coração do homem, pois entender que o sofrimento desta vida concede a vida eterna é negar a eficácia da cruz de Cristo.

Não vemos na Bíblia Jesus carregado todos os dias uma cruz até ser crucificado. Nem mesmo a cruz de madeira na qual foi crucificado foi carregada por Cristo até o Calvário “E, quando saíam, encontraram um homem cireneu, chamado Simão, a quem constrangeram a levar a sua cruz” ( Mt 27:32 ).

A cruz que Cristo foi crucificado não era feita de pecados, pois quem carregou a cruz foi o cirineu, de nome Simão. O pecado da humanidade foi levado por Cristo em seu corpo, e não na cruz de madeira confeccionada pelos Romanos.

Somos informados pela Bíblia que Cristo levou sobre si as nossas enfermidades e dores, ou seja, o pecado de muitos “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido (…) Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores” ( Is 53:4 e 12); “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” ( 1Pd 2:24 ).

A cruz de madeira na qual Jesus foi morto representa a ignominia de ter sido contado entre os transgressores, apesar de nunca haver engano em sua boca “Quando também em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, o seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o SENHOR teu Deus te dá em herança” ( Dt 21:22 -23); “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” ( 1Pd 2:22 ).

A essência da ordem de Cristo para tomar a cruz refere-se às perseguições daqueles que querem viver segundo o evangelho de Cristo, o que demonstra que a cruz é dada para quem já passou da morte para a vida, ao contrário da estória cruz serrada que apresenta uma cruz para conduzir à vida “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” ( 2Tm 3:12 ).

O apóstolo Paulo ao escrever aos Tessalonicenses faz esta abordagem demonstrando que da mesma forma que mataram a Cristo e os profetas, os judaizantes perseguiam os que creram em Cristo “Os quais também mataram o SENHOR Jesus e os seus próprios profetas, e nos têm perseguido; e não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens” ( 1Ts 2:15 ).

O apóstolo se gloriava por causa da perseverança (paciência) dos cristãos no evangelho (fé) e por tudo que suportavam “De maneira que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa paciência e fé, e em todas as vossas perseguições e aflições que suportais” ( 2Ts 1:4 ), pois esta foi a abordagem de Cristo ao ordenar que cada um tome a sua cruz e siga-O “Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” ( Mt 10:25 ).




A origem de Satanás, o ‘pai da mentira’

Quando se entende que Satanás desejou a posição de Deus, muitas perguntas se calam, mas quando se compreende que Satanás buscava alcançar a semelhança do Altíssimo, muitas perguntas surgem. O que é a semelhança do Altíssimo? O que há na semelhança do Altíssimo que possibilitaria ao querubim da guarda ungido ter uma posição superior a dos anjos? “Serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:14 ); “Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança…” ( Gn 1:26 ). Observe que aquilo que Satanás intentou alcançar, Deus concedeu ao homem: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança!


A origem de Satanás, o ‘pai da mentira’

Introdução

Analisando de maneira genérica, a mentira existe em função da verdade, ou seja, ela surge na tentativa de calar a verdade, entretanto, mesmo que uma mentira dita muitas vezes não se torne uma verdade, por ser repetia por muitos acaba se transformando em consenso.

Um exemplo de consenso se observa neste provérbio que alguém deixou escrito na porta de uma igreja: “Todo homem quer ser rei, e todo rei quer ser deus…”.

Fica a pergunta: Todos desejam um reino? Todos os reis desejam ser um deus? Sabemos que generalizar é um risco que compromete o que é verdadeiro, e por isso, não podemos generalizar em nossas proposições.

Porém, este provérbio, por ser repetido por muitos, acabou por transformar-se em consenso, mesmo não correspondendo à realidade fática.

 

O intento de Satanás

Já nos acostumamos a ouvir que Satanás quis ser igual Deus. De longa data vem sendo difundido acerca do anjo caído que o orgulho levou-o à queda, isto porque, no seu íntimo, intentou ser igual a Deus.

Dentro desta mesma linha de pensamento acerca do que levou Satanás à queda, há algumas variantes: ele quis ocupar o lugar de Deus; ele quis para si a adoração que pertence a Deus; ele procurou um reino próprio; ele quis exaltar-se tomando para si todo poder existente, usurpando a base do Trono da divindade.

Será isto verdade? Seria isto possível? É factível à criatura alcançar ser igual ao Criador? Existiu alguma possibilidade de Satanás tomar o lugar de Deus? Estamos diante de uma verdade ou de um consenso?

Que Satanás quis ser igual a Deus já é consenso, visto que muitos assim afirmam. Resta-nos verificar se o consenso corresponde à verdade.

Satanás foi criado por Deus como todos os outros seres do universo. Ele foi criado e posto na posição mais sublime na ordem celestial: ele era querubim da guarda ungido, perfeito em seus caminhos, formoso e sábio. Na ordem celestial, ele estava no topo da hierarquia ( Ez 28:12 ).

 

O abismo

Apesar da posição elevada do querubim da guarda ungido havia um abismo intransponível entre ele e o Criador, tanto que em seu coração ele reconhecia que Deus é inatingível e inigualável ao nomeá-lo como o Altíssimo.

Jamais a criatura poderá igualar-se ao Criador. Embora Satanás estivesse no topo da hierarquia celestial, a distância entre criador e Criatura é intransponível. O mesmo abismo intransponível que impede os homens como criaturas de assumirem a condição de Criador, é o abismo que há entre os anjos e Deus.

A Bíblia demonstra que somente Deus é Criador. Este é um pólo que somente Deus está e estará pela eternidade. No outro pólo, as criaturas, onde figuram as incontáveis hostes celestiais e as terrestres. Por mais elevada que seja a criatura, ela permanecerá criatura, e jamais conseguira transpor a barreira que há entre o Criador e criatura.

Não podemos confundir a hierarquia estabelecida no universo: Deus, anjos, homens e animais, com as posições: Criador e criaturas. Sobre esta verdade a Bíblia diz:

“Pois quem no céu se pode igualar ao SENHOR? Quem entre os filhos dos poderosos pode ser semelhante ao SENHOR?” ( Sl 89:6 ).

Estas perguntas são pertinentes ao tema em questão: Haveria alguém no céu que poderia igualar-se a Deus? Se levarmos em conta os filhos dos poderosos, haveria alguém que ao menos fosse semelhante a Deus? A resposta para as perguntas é não!

O homem mais simples sabe que é impossível à criatura igualar-se, tomar ou alçar o lugar do Criador.

Porém, de tanto ouvir que Satanás quis ser igual a Deus, criou-se um consenso, e muitos se permitem concordar com tal argumento, mesmo que inconscientemente, que a possibilidade de Satanás ser igual a Deus existiu.

É estranho ao homem, que possui conhecimento limitado, afirmar que é possível alguém tornar-se o Criador, e é o cumulo do absurdo que um ser criado cheio de sabedoria tenha intentado ser o próprio Criador.

Além do mais, como Satanás conseguiu convencer um terço dos anjos que seria possível prosperarem no intento de alçarem a posição do Criador?

 

A Pretensão de Satanás

Deixando o consenso de lado, a Bíblia nos diz que Satanás intentou ser semelhante a Deus. Isaías apresenta qual a intenção do coração de Satanás: “Tu dizias no teu coração:”

“Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:14 ).

Há uma grande diferença entre a pretensão de ser semelhante ao Altíssimo e usurpar-lhe o lugar. Satanás, mesmo ‘possuído’ pela soberba, tinha plena consciência da posição inatingível do seu Criador: o Altíssimo. Embora o pecado houvesse se instalado em sua natureza, Satanás estava ciente de que a posição de Deus é inatingível.

Como alcançar o Inatingível? Como igualar-se ao Inigualável? Perceba que não é factível, ou seja, que é impossível levar a efeito qualquer plano que usurpe a posição do Criador.

Diante das evidências, de que é impossível à criatura alcançar a posição do Criador, ficam as perguntas: o que motivou a ideia de que Satanás quis ser Deus? De quem é o interesse de que se propague tal consenso? A quem tal mentira favorece?

Uma das maiores mentiras da atualidade é a de que Satanás intentou ser igual a Deus. Esta mentira deu à luz a dualidade: bem e mal; Deus e Satanás. Esta abordagem trás uma equivalência entre Deus, o Criador, e o diabo, a criatura. A quem é proveitoso que esta mentira seja propagada?

 

A Verdade sobre o Pai da Mentira

“Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” ( Jo 8:44 ).

Ao falar aos religiosos da sua época, Jesus descreveu algumas características do inimigo de nossas almas:

  • ele é homicida desde o princípio;
  • não se firmou e não há verdade nele;
  • quando ele profere mentira, é algo de sua natureza.
  • Mas, nem sempre ele foi assim.

Satanás era um anjo da ordem dos querubins. Ou seja, Satanás era um anjo de posição elevada perante os seus semelhantes. Ele era nomeado como o Portador de Luz (em hebraico, heilel ben-shachar, הילל בן שחר; em grego na Septuaginta, heosphoros).

A Bíblia descreve Satanás antes da queda como sendo o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Ele estava no jardim do Éden, Jardim de Deus, e quando da sua criação, também foi preparado os seus ornamentos (vestes).

Ele devia ficar no monte santo de Deus, exercendo a função para qual foi comissionado: guarda ungido. Ele havia assumido a maior posição da hierarquia celestial, porque Deus estabeleceu o querubim ungido naquela posição.

Porém, por se achar o pecado no querubim ungido, Deus o destituiu da sua posição, lançando-o profanado para fora do monte, e Satanás recebeu a penalidade: a morte!

 

Satanás antes da queda

Quando Deus criou os seres celestiais, ao querubim ungido disse: “Tu és o selo da perfeição, cheio de sabedoria, e perfeito em formosura” ( Ez 28:12 ).

Sobre o lugar em que o querubim foi posto, temos: “Estavas no Éden, jardim de Deus” ( Ez 28:13 ). A descrição do querubim se prende na indumentária que vestia, sendo ela criada no dia em que ele foi trazido à existência “Cobrias-te de toda pedra preciosa (…) no dia em que foste criado foram eles preparados” ( Ez 28:13 ).

Até ser achado iniquidade no querubim ungido, ele é descrito como: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que fostes criado…” ( Ez 28:15 ).

A missão dele era: “Tu eras querubim da guarda ungido…” Ez 28: 14. Porém, tudo estabelecido por Deus “… e te estabeleci” (v. 14). A rotina dele era percorrer o monte protegendo-o: “Estavas no monte santo de Deus, andavas entre as pedras afogueadas” (v. 14).

 

Satanás depois da queda

Satanás intentou aferir algum tipo de lucro da missão que desempenhava, e caiu em pecado ( Ez 28:16 ). Por causa da iniquidade em Satanás, Deus destituiu o querubim ungido. Ele foi lançado do monte santo por ter se tornado profano. Ao fazer mal uso de sua posição buscando uma vantagem (comércio), ele se profanou.

Além de ser destituído do cargo para qual foi comissionado, e lançado fora do monte de Deus, o querubim ungido pereceu. É a primeira referência ao salário do pecado no universo: perecer, ou seja, estar separado da vida que há em Deus: Morte!

“Pelo que te lançarei profanado fora do monte de Deus, e te farei perecer, ó querubim protetor, entre pedras afogueadas” ( Ez 28:16 ).

Temos que, Satanás é homicida desde o princípio, ou seja, ele conduziu 1/3 dos anjos à morte. Depois ele induziu a humanidade à mesma condição: serem separados da vida que há em Deus. Toda a humanidade foi destituída da glória de Deus através da queda do primeiro Adão.

Ele não se firmou na verdade, visto que Deus é verdade. Todos quantos não estão em Deus, não são verdadeiros, e portanto, são filhos do diabo.

 

A intenção do querubim

Satanás é mentiroso desde o princípio, porém, Isaías ao profetizar, revelou o verdadeiro intento do seu coração, o que correspondia à verdade: “Tu dizias no teu coração: Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:14 ).

Deus aponta a intenção do coração do querubim da guarda ungido através do profeta Isaías. É demonstrado qual foi a pretensão o querubim da guarda ungido (serei semelhante), o método (subirei acima das estrelas (anjos).

“Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; no monte da congregação me assentarei nas extremidades do norte” ( Is 14:13 ).

Qual foi a real intenção do querubim ungido? Ele desejou em seu coração subir ao céu (uma vez que ele foi estabelecido na terra, especificamente no Éden), acima das estrelas de Deus, exaltando o seu trono.

Sabemos que as estrelas ficam nos céus. Porém, as estrelas da qual o ex-querubim fez referência diz dos anjos de Deus. As ‘estrelas de Deus’ diz de toda a ordem angelical: querubim, arcanjo e anjos. Embora um querubim tenha uma posição hierárquica superior a um anjo, ele continua sendo anjo. Embora um querubim seja superior hierarquicamente a um arcanjo, tanto querubim, quanto arcanjos continuam sendo anjos.

Toda a ordem angelical estava nos céus, e o querubim da guarda ungido, que foi estabelecido para guardar o monte santo de Deus no Éden, intentou subir aos céus, porém, queria chegar ao céu de posse de uma posição superior a de anjo.

Por que ele ‘subiria ao céu’? Porque ele estava no Éden desempenhando a missão para qual foi estabelecido: guardar o monte santo percorrendo sobre as pedras afogueadas.

Porém, o seu intento era chegar ao céu de posse de uma posição superior a das estrelas de Deus (anjos). Ele queria estar em uma posição acima (exaltarei o meu trono), superior a das estrelas de Deus.

Como alcançar uma posição superior a dos anjos? Para se alcançar uma posição superior a dos anjos, em primeiro lugar seria necessário deixar de ser anjo, e passar a outra categoria de ‘ser’ ou ‘existência’. Se ele subisse ao céu e continuasse a ser querubim, não teria ‘subido’ ou exaltado o seu trono, a sua posição na ordem celestial.

Como ele pretendia alçar uma nova posição na ordem celestial? Ele pretendia alcançar uma posição superior a das estrelas de Deus (anjos) assentando-se no monte da congregação, ns extremidades do norte. O que foi comissionado ao querubim da guarda ungido proteger (guardar), ele desejou alcançar.

Em momento algum vemos Satanás intentando alcançar a posição do Altíssimo, visto que, este intento não é factível a nenhuma criatura.

Ele desejou subir acima das mais altas nuvens, a posição de semelhança do Altíssimo.

Vemos que ele desejou ser semelhante e não igual a Deus. Ser igual a Deus não é factível, mas, para o querubim ungido, ser semelhante ao Criador pareceu plenamente factível.

 

A Semelhança do Altíssimo

Quando se entende que Satanás desejou a posição de Deus, muitas perguntas se calam. Porém, quando se entende que Satanás buscava alcançar a semelhança do Altíssimo, muitas perguntas surgem.

O que é a semelhança do Altíssimo? O que há na semelhança do Altíssimo que possibilitaria ao querubim da guarda ungido ter uma posição superior a dos anjos?

“Serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:14 ).

“Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança…” ( Gn 1:26 ).

Observe que aquilo que Satanás intentou alcançar, Deus concedeu ao homem: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança!

 

A quem interessa a mentira?

Analisando mais criteriosamente o fato bíblico de que Satanás intentou ser semelhante a Deus, poderemos identificar o que há por trás da mentira que vem sendo divulgada, de que satanás intentou tomar a glória de Deus, e tornar evidente a verdade, visto que, a verdade sempre será verdade, não importando o que está estabelecido pelo consenso.

O que a Bíblia diz? Satanás intentou tomar o lugar de Deus?

Observe:

“Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:14 ).

Quando se propaga a ideia de que Satanás intentou ser igual a Deus, o homem deixa de se perguntar: o que é ser semelhante a Deus? É do interesse do inimigo de nossas almas que o homem não descubra o que é ser semelhante ao Altíssimo.

A Bíblia demonstra que é impossível a criatura ser igual ao Altíssimo:

“Pois quem no céu se pode igualar ao SENHOR? Quem entre os filhos dos poderosos pode ser semelhante ao SENHOR?” ( Sl 89:6 ).

A resposta é direta: ninguém pode igualar-se a Deus. Este versículo por si só demonstra que Satanás não intentou ser igual a Deus, pois é de conhecimento de todas as criaturas de Deus que Ele é inigualável.

Satanás intentou ser semelhante a Deus, e para levar a efeito a sua intenção, tinha em seu coração um plano ‘bem’ elaborado. Ele pensou que bastava subir ao céu, acima das estrelas de Deus, que alcançaria a semelhança do Criador. Ledo engano! Ele foi precipitado no mais profundo abismo.

“E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:13 -14).

Qual não é a surpresa de todas as hostes espirituais quando Deus disse:

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

O que Lúcifer intentou alcançar, Deus concedeu de maneira graciosa ao homem. Ele criou Adão a sua imagem e a sua semelhança.

Quando nos perguntamos o que é ser semelhante a Deus, começamos a ver a multiforme sabedoria de Deus que é revelada aos principados e potestades nas regiões celestiais por intermédio da igreja ( Ef 3:10 )!

Sabemos que é impossível a todas as criaturas de Deus serem iguais a Ele em poder e magnificência, porém, Deus estabeleceu que o homem receberia a semelhança d’Ele.

Este plano eterno pareceu frustrado quando da queda da humanidade em Adão, porém, através da pessoa de seu Filho, Jesus, o último Adão, Deus concede a sua semelhança àqueles que nele creem.

“No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Adão era a figura de Cristo (aquele que havia de vir), e Cristo a expressa imagem de Deus. Por meio de Cristo o homem alcança a plenitude de Deus Cl 2: 9- 10, e são alçados a posição de filhos de Deus.

A posição que o homem alcança em Cristo é superior a dos anjos, arcanjos, serafins e querubins, uma vez que será da competência dos salvos julgar os anjos, não importando a categoria que pertençam ( 1Co 6:3 ).

Àqueles que estão em Cristo hão de ser semelhantes a Ele, posição mui elevada se comparada à dos anjos ( 1Jo 3:2 ).

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

 

Posição Superior às Estrelas de Deus

E. H. Bancroft deixou registrado o seguinte:

“…em resultado de orgulho pela sua própria superioridade, ele procurou desviar para si a adoração devida exclusivamente a Deus” Teologia Elementar, Emery H. Nancroft, Ed EBR, 2001, Pág. 302, II. (grifo nosso). É correto dizer que Satanás quis a adoração devida a Deus, como afirmo Bancroft?

Satanás quis uma posição acima das estrelas de Deus, e para isso intentou apossar-se da semelhança de Deus. Para levar a efeito o seu plano, ele pretendia assentar-se no monte da congregação, nas extremidades do norte. Ele queria se apossar daquilo para qual foi estabelecido para guardar.

Para ele, estar em uma posição superior a dos seus companheiros bastava subir, ou seja, galgar uma nova posição. Porém, Deus surpreende todas as hostes angelicais ao descer e conceder a sua semelhança aos homens.

Desta maneira, verifica-se que é mentira dizer que Lúcifer intentou ser igual a Deus. O orgulho que subiu ao coração de Satanás fez com que ele não guardasse a sua posição original (principado), e intentasse alcançar uma nova posição, a de semelhante a Deus.

Satanás desejou alcançar uma posição superior, visto que, o orgulho se apossou de seu coração. Por ter sido criado perfeito em todos os seus caminhos, representar a perfeição de Deus (selo da perfeição), cheio de sabedoria, perfeito em formosura e possuir uma indumentária que o distinguia de todos os outros anjos, sentiu-se atraído a alcançar aquilo que foi comissionado a proteger.

Ele se achou grande por causa de sua formosura. Por ter focado o resplendor que possuía a sua sabedoria não o livrou da queda. Ele rejeitou o seu principado (a posição estabelecida por Deus) para tentar lançar mão de uma posição que desconhecia.

O querubim ungido, por causa do orgulho, já não via os outros anjos como sendo companheiros, antes os fitava do topo da sua posição hierárquica. O seu coração elevou-se por causa da sua formosura, e a sabedoria que deveria afastá-lo da soberba, foi corrompida pelo desejo de uma posição maior.

 

O Propósito Eterno

Os seres angelicais foram criados através do poder e da palavra de Deus: Haja, e eles vieram à existência “Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?” ( Jó 38:7 ); “Louvem o nome do SENHOR, pois mandou, e logo foram criados” ( Sl 148:5 ).

Os anjos conheciam o poderio e a majestade de Deus, porém, estes desconheciam a sua multiforme sabedoria.

Eles desconheciam o propósito eterno de Deus somente revelado no evangelho de fazer convergir em Cristo todas as coisas “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:10 ).

Eles desconheciam o propósito eterno de Deus em fazer Cristo o primogênito de toda criação “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” ( Cl 1:15 ); “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ); “E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo; Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:9 -11).

Para levar a efeito o seu propósito eterno, aprouve a Deus criar a terra para ser habitada “Porque assim diz o SENHOR que tem criado os céus, o Deus que formou a terra, e a fez; ele a confirmou, não a criou vazia, mas a formou para que fosse habitada: Eu sou o SENHOR e não há outro” ( Is 45:18 ).

Na terra Deus criou o Éden, lugar onde o mistério que esteve oculto desde os séculos eternos haveria de ser revelado ( Ef 3:9 ).

Deixou sobre o monte um protetor, o querubim da guarda ungido, investido de autoridade e posição hierárquica superior aos outros seres angelicais.

Porém, ao perceber que havia uma posição superior à posição dos anjos, que é a semelhança do Altíssimo, Satanás desejou para si.

Ele deixou o seu principado, a posição para qual foi estabelecido, e lançou-se na empreitada de se assentar no monte da congregação nas extremidades do norte. O plano decorrente do orgulho parecia factível ao querubim da guarda, que conseguiu enganar e atrair 1/3 da ordem angelical “E a sua cauda levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que havia de dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe tragasse o filho” ( Ap 12:4 ).

Porém, aprouve a Deus desde tempos imemoriais, segundo o conselho da sua vontade, dar aos homens a sua imagem e semelhança.

 

O Primeiro Homem

O homem foi criado em uma posição inferior a dos anjos Sl 8: 4. Porém, em Cristo Jesus, o último Adão, o homem passa a uma posição superior a dos anjos.

O homem foi criado por Deus a partir do barro. Este foi o primeiro homem, criado alma vivente, sendo designado homem natural e terreno. Todos os outros homens são conforme o primeiro homem, naturais e da terra.

Em decorrência da queda de Adão, todos os outros homens nascem debaixo de uma condenação herdada do primeiro homem. Toda a humanidade traz a imagem do terreno.

 

O Último Homem

O último Adão é Cristo. Ele é espírito vivificante, ou seja, ele concede vida àqueles que foram feitos alma vivente em Adão.

Jesus Cristo homem foi gerado pelo Espírito Eterno, o primogênito de toda criação (primeiro gerado de Deus). Enquanto Adão foi criado, Jesus é o gerado de Deus. Enquanto Adão foi criatura, Jesus é o Filho.

Por meio de Cristo, o último homem (homem espiritual e celestial), todos os homens terrenos que crerem são de novo gerados de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Estes são vivificados e passam a ser conforme o último Adão ( 1Co 15:45 -49).

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial” ( 1Co 15:45 -49).

 

A Posição Cobiçada

Satanás cobiçou a posição de semelhança do Altíssimo, porém, desconhecia que o próprio Deus haveria de despir-se de sua glória, se fazendo carne.

Enquanto o querubim ungido desejava subir aos céus de posse de uma posição maior do que a dos seres celestiais, o Verbo se fez carne, assumiu a condição de servo e habitou entre os homens ( Fl 2:6 -11 ).

Porém, por ter se resignado a assumir a condição de servo, fazendo se igual aos homens, Deus elevou a Cristo soberanamente. Mesmo após assumir a posição ‘menor que’ os anjos, Jesus se humilhou ainda mais, e foi obediente até a morte, e morte de cruz.

Observe que Cristo na posição de servo não teve por usurpação ser igual a Deus, embora sendo Deus ( Fl 2:7 ). Observe que a condição de sumo sacerdote foi outorgada pelo Pai, ou seja, Ele não lançou mão desta função “Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, Hoje te gerei” ( Hb 5:5 ).

Ao ser glorificado pelo Pai com a glória que Ele tinha antes de haver mundo, Jesus adquire nome sobresselente, que é sobre todos os nomes “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” ( Jo 17:5 ). Ao retornar a glória, Cristo conduz dentre os homens muitos filhos a Deus “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” ( Hb 2:10 ).

O propósito eterno cumpre-se quando Cristo retorna à glória trazendo muitos filhos a Deus, visto que, Cristo passa a condição de primogênito entre muitos irmãos e primogênito dentre os mortos.

A imagem e semelhança de Deus passou aos seus filhos, que são gerados da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. “E foi assim para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nas regiões celestiais” ( EF 2:10 ).

Satanás intentou alcançar uma posição, porém, desconhecia a multiforme sabedoria de Deus. Desconhecia que a posição elevada acima das estrelas de Deus decorre da filiação divina.

A posição que ele almejou, não é pertinente à criatura, e sim, ao Filho, o último Adão, por meio de quem alcançamos a condição de filhos. Somente àqueles que foram recebidos por filhos é que receberam a posição elevada de serem semelhantes ao Altíssimo ( 1Jo 3:2 ; Hb 2:10 -13; Rm 8:16 -17).

 

O Monte da Congregação

“No monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte” ( Is 14:13 ).

Satanás intentou alcançar uma posição superior (serei semelhante ao Altíssimo), para se estabelecer acima das estrelas de Deus. Para isso, ele intentou assentar-se nas extremidades do norte, no monte da congregação de Deus.

O que era o monte da congregação? Ou, o que era o monte santo de Deus? Por que havia a necessidade de um protetor desempenhando a função de guarda?

A glória de Deus estava presente no Éden, no monte da congregação, nas extremidades do norte. Havia o ambiente da congregação, porém, o ajuntamento que se estabelecia no monte santo não pertencia às estrelas de Deus.

Observe que ‘os filhos de Deus’ apresentavam-se perante o Senhor de tempos em tempos ( Jó 1:6 ; Jó 2:1 ), porém, o monte da congregação que estava no Éden lhes era vetado. Deus havia constituído o querubim ungido como protetor, para que os anjos não obtivessem acesso ao mistério presente no monte da congregação.

No monte da congregação estava a glória de Deus, a mesma que o sacerdote Ezequiel em visão viu afastar-se do templo. A glória estava sobre os querubins e retirou-se para a entrada do templo ( Ez 9:3 e Ez 10:4 ); da entrada do templo, a glória deslocou-se para a cidade, e por fim, a glória deslocou-se para o monte das Oliveiras ( Ez 11:23 ).

A mesma glória haverá de retornar ao templo milenial ( Ez 43:2 -7). Quando o Senhor sair a peleja, os seus pés estarão sobre o monte das Oliveiras, que será fendido ao meio ( Zc 14:4 ). Observe que a presença de Deus sempre esteve envolta em mistério: “Então disse Salomão: o Senhor declarou que habitaria numa nuvem escura” ( 1Rs 8:12 ).

Não sabemos detalhes do que foi tratado no monte santo da congregação, porém, sabemos que ali era o local onde se dava a reunião para tratar do mistério que sempre esteve oculto em Deus, e que tal ‘congregação’ era estabelecida sem a presença dos anjos, uma vez que o querubim ungido foi estabelecido para impedir a aproximação dos seres celestiais.

Percebe-se que o querubim da guarda ungido, que foi constituído para proteger o mistério, sentiu-se tentado a observar e vislumbrou o que estava para se desenvolver.

A conjectura de Satanás levou-o a queda, uma vez que desejou a semelhança do Altíssimo, para estar em uma posição superior a dos seres celestiais.

Quando Deus criou os céus e a terra, houve a necessidade de estabelecer o querubim da guarda ungido no Éden para impedir o acesso das hostes angelicais ao santo monte. Tempos depois, Deus estabeleceu querubins para impedir o acesso do homem lançado de sua presença, para impedi-los de ter acesso à árvore da vida ( Gn 3:24 ).

Os querubins ao oriente do Jardim do Éden e a espada flamejante protegia o caminho da árvore da vida do homem em pecado. Já o querubim ungido, protegia o monte da congregação do acesso dos seres celestiais, para não ter acesso ao mistério oculto.

Satanás acabou por conjeturar que, se ele assentasse no monte da congregação, lugar de acesso exclusivo a Deus, ele haveria de alcançar uma posição superior a dos seres celestiais (estrelas de Deus). Por não estar em busca da posição do Altíssimo, e sim, de uma posição superior as estrelas de Deus, não viu a violência da sua intenção, ao intentar profanar o santuário do seu Criador Ez 28: 16.

Ele já estava em uma posição privilegiada, a de protetor, e para isso foi investido de poder e autoridade sobre os demais ( Zc 3:1 -2; Jd 1:9 ).

Porém, o orgulho lhe fez ambicionar lucrar com sua posição de protetor (multiplicação do seu comércio) ( Ez 28:16 ), e foi lançado do Éden profanado, ao querer ter acesso ao lugar da glória de Deus ( Is 48:11 ).

 

Duas Figuras que Ilustram o Intento do Querubim Ungido

Hamã

“Quando Hamã entrou, perguntou-lhe o rei: O que se fará ao homem a quem o rei se agrada honrar? Ora, Hamã disse consigo mesmo: A quem se agradaria o rei honrar mais do que a mim?” ( Et 6:6 ).

Hamã, o agagita, havia sido engrandecido acima de todos os príncipes do reino de Assuero (Xerxes). Todos os oficiais do rei se inclinavam quando Hamã passava, conforme o rei ordenará ( Et 3:1 -3). Porém, Mordecai não se inclinava e nem se prostrava.

Os oficiais protestaram a Mordecai, e este não lhes deu ouvidos. Estes por sua vez fizeram Hamã saber da atitude de Mordecai.

Hamã ao saber do comportamento de Mordecai, propôs ao rei uma maneira de arrecadar 10.000 talentos de pratas, exterminando o povo de Mordecai, a pretexto de não cumprirem as leis do rei ( Et 3:9 ).

O que Hamã propôs ao rei visava tão somente uma satisfação pessoal. Era vaidoso, arrogante e egoísta. Quando o rei propôs honrar Mordecai, Hamã somente conseguiu ver a si mesmo como aquele que merecia as honrarias do rei.

Da mesma forma que Hamã, o querubim da guarda ungido estava cego por causa de sua formosura, e quis para si a honra e posição que Deus agradou dar aos seus filhos: a semelhança do Altíssimo.

Uzias

“Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o SENHOR seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso” ( 2Cr 26:16 ).

O rei Uzias foi um dos reis de Judá e fez o que era reto aos olhos do Senhor ( 2Cr 26:4 ).

Porém, após ter fortificado o seu reino com guerreiros, máquinas, lanças e flechas, o coração dele se corrompeu. Ele foi infiel ao intentar oferecer incenso sobre o altar do incenso no templo do Senhor ( 2Cr 26:16 ).

Observe que ele foi impedido pelos sacerdotes, descrito como sendo homens corajosos. Estes resistiram a Uzias, e disseram: “A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o Senhor, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para queimar incenso” II Cr 26: 18.

Os sacerdotes determinaram que Uzias saísse do templo, por ter sido infiel. O alerta e completo: “nem será isto para ti honra tua da parte do Senhor Deus”. Cristo tornou-se sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, por Deus outorgar esta honra ( Hb 5:5 ). Uzias intentou oferecer incenso, honra dada aos filhos de Arão, o que o tornou infiel.

A cegueira chegou ao ponto dele indignar-se com os sacerdotes, que estavam a alertar acerca do seu erro. Em seguida, a lepra brotou-lhe na testa. Os sacerdotes apressaram a retirada dele do templo, e ele mesmo apressou em sair, quando percebeu que Deus havia lhe ferido ( 2Cr 26:20 ).

Da mesma forma, ao querer assentar-se no monte santo para tomar uma posição que não lhe foi dada, Satanás tornou-se profano. Ele não profanou o lugar da glória de Deus, visto que, ao se achar a iniquidade nele, Deus lançou-o profanado do monte de Deus e destituído do seu principado ( Ez 28:16 ).




A mulher samaritana

A mulher samaritana quando descobriu que estava diante de um profeta, quis saber de questões de ordem espiritual: adoração, e deixou suas necessidades pessoais em segundo plano.


A mulher samaritana

“Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta!” ( Jo 4:19 )

Introdução

O evangelista João deixou registrado que tudo o que escreveu tinha por objetivo levar os seus leitores a crerem que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, e crendo, tivessem vida em abundância “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ).

Em especial, há na história da mulher samaritana elementos que demonstram que Cristo é o Filho do Deus vivo, o Filho de Davi prometido nas Escrituras.

O evangelista João deixou registrado que, quando Jesus verificou que os fariseus haviam ouvido que Ele operava muitos milagres e que batizava muito mais que João Batista, deixou a Judeia e dirigiu-se para a Galileia ( Jo 4: 2-3), e que teve que passar por Samaria ( Lc 17:11 ).

Jesus foi a uma cidade de Samaria chamada Sicar, cujo território era uma herdade que Jacó deu ao seu filho José ( Jo 4:5 ). O local onde Jesus foi em Sicar possuía um poço perfurado por Jacó.

O evangelista evidencia a humanidade de Jesus ao descrever seu cansaço, fome e sede. Ao mencionar que seus discípulos foram comprar comida, dá-nos a entender que Jesus precisa se alimentar, que se assentou porque estava cansado e, ao solicitar à mulher samaritana água, fica implícito que estava com sede.

Embora a tônica da abordagem do evangelista não tenha sido de demonstrar que o Senhor Jesus estava com sede de água, pois o que ficou evidente foi a sua necessidade de anunciar as boas novas do reino à mulher, fica explicito que Jesus veio em carne ( 1Jo 4:2 -3 e 2Jo 1:7).

Jesus se assentou junto ao poço de Jacó, perto da hora sexta (meio-dia) ( Jo 4:6 e 8 ), momento em que uma mulher samaritana chega junto à fonte para tirar água (nomear alguém pelo nome da cidade era desonroso, pois demonstrava que tal indivíduo não pertencia à comunidade de Israel), e foi abordada pelo Mestre que lhe dirigiu a palavra dizendo: – Dá-me de beber ( Jo 4:7 ).

A atitude do Senhor para com a samaritana (solicitar água) trouxe à tona o que todo homem e mulher possuem de mais nobre: a razão, o raciocínio ( Jó 32:8 ).

Obrigatoriamente a mulher formulou uma questão com base em uma gama de conhecimento prévio. Ela não formulou o pensamento mais brilhante da humanidade, mas trouxe a lume uma questão importante para aquela mulher e para o seu povo: – Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? ( Jo 4:9 ).

Os samaritanos eram discriminados pelos judeus, mas Jesus, apesar de ser Judeu, não deu importância a esta questão, antes a mulher serviu muito bem ao propósito d’Ele naquele momento.

Na pergunta, a mulher destaca que era mulher e ao mesmo tempo samaritana, ou seja, que havia um impedimento duplo àquele homem que, aparentemente, deveria ser mais um judeu zeloso da sua religiosidade.

Muitos questionamentos surgiram na cabeça da samaritana, pois Jesus ignorou práticas e regras pertinentes ao judaísmo ao solicitar água. – Será que ele não percebeu que sou mulher e samaritana? Será que ele beberá da água que eu lhe der sem receio de se contaminar?

 

O Dom de Deus

Depois de despertar o raciocínio da samaritana, Jesus estimula ainda mais o interesse da mulher: – Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.

A mulher samaritana não alcançou de imediato a excelência das palavras de Cristo, pois ela não possuía experiência na verdade “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ).

Se a samaritana tivesse a mente exercitada na verdade não faria a pergunta: – Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? Pela argumentação, dá para perceber que a Samaritana se foca na impossibilidade de alcançar água sem os meios necessários, porém, não contestou o que Jesus afirmou sobre possuir água viva.

Não considerando a argumentação inicial de Jesus acerca do dom de Deus, ela analisou: – És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, bebendo ele próprio dele, e os seus filhos, e o seu gado?

Oferecer uma alternativa de água sem ser a água do poço de Jacó fez parecer à samaritana que aquele judeu desconhecido era, no mínimo, presunçoso, pois se colocou em uma posição superior à de Jacó, que deixou o poço como legado aos seus filhos e, que naquele momento, provia a necessidade de muitos samaritanos.

As questões seguintes precisavam de respostas: – Tu não tens com que tirar água e o poço é fundo! Onde tens água viva?

Mas Jesus estava trabalhando para que o “ouvir” daquela mulher fosse despertado pela palavra de Deus, pois sua proposta dava a conhecer que Ele era, de fato, superior ao próprio pai Jacó.

É neste ponto que estava a deficiência de conhecimento da samaritana, pois se ela conhecesse quem era Jesus, concomitantemente conheceria o dom de Deus, pois Cristo é o dom de Deus.

Se ela conhecesse quem era que pedia: – Dá-me de beber, saberia que Ele era maior que o pai Jacó, saberia que Cristo era o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra seriam bem-aventuradas ( Gn 28:14 ).

Se ela conhecesse quem era o Cristo, veria que através da água que Cristo estava oferecendo, de fato e de direito ela se tornaria um dos filhos de Abraão. Se ela conhecesse a Cristo, veria que os filhos segundo a carne não são os filhos de Abraão, e sim os filhos da Fé, a descendência do último Adão (Cristo) que estava se manifestando ao mundo ( Gl 3:26 -29; Rm 9:8 ).

Se ela conhecesse a Cristo, veria que apesar de fazer parte entre os últimos poderia tomar parte entre os primeiros, pois através do Descendente é possível a todos os povos serem bem-aventurada como o crente Abraão ( Mt 19:30 ).

Se ela conhecesse Aquele que pedia de beber e que estava lhe oferecendo água viva, veria que Ele é o dom de Deus, pois é Cristo que dá vida ao mundo ( Jo 1:4 ). Ela veria que Ele é o sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, por quem todos os homens, de qualquer tribo ou língua, podem oferecer dons e serem aceitos por Deus “Tu subiste ao alto, levaste cativo o cativeiro, recebeste dons para os homens, e até para os rebeldes, para que o SENHOR Deus habitasse entre eles” ( Sl 68:18 ).

Deus deu testemunho da oferta (dons) que Abel oferecera por causa daquele que subiria ao alto levando cativo o cativeiro, o sumo sacerdote constituído por Deus sem principio e fim (eterno) de dias ( Hb 7:3), que ofereceu-se a si mesmo como Cordeiro imaculado a Deus, e só através d’Ele os homens são aceitos por Deus ( Hb 7:25 ).

 

As necessidades diárias

A pergunta da mulher: – És tu maior que o nosso pai Jacó?, foi pertinente, porém, ainda não lhe permitia identificar quem era aquele homem que lhe pedia água da fonte de Jacó e, ao mesmo tempo, ofereceu água viva “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” ( Jo 4:14 ).

É de se estranhar que a mulher samaritana, que teve um pensamento elaborado ao perceber que Jesus estava dando a entender ser maior que o pai Jacó, tenha aceitado a proposta d’Ele, que possuía uma água que impediria de ter sede, no entanto pedir-lhe água junto ao poço de Jacó.

A proposta de Jesus era clara: ‘Aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede’, e para que ele queria água, se tinha água superior?

A mulher se interessou pela oferta de Jesus, porém o seu entendimento estava turvado.

O que levou a mulher a querer da água que Jesus lhe oferecera, mesmo estando o Mestre com sede?

A resposta encontra-se no pedido da samaritana: – SENHOR, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la. Em nossos dias é quase inimaginável o trabalho que aquela mulher tinha para adquirir um pouco de água. Era a hora sexta quando a mulher fora buscar água para suprir as suas necessidades básicas.

Enquanto em nossos dias o que muitos entendem por básico, essencial, é diferente do que aquela mulher necessitava, é possível dimensionar o quanto aquilo que o homem entende por essencial turva o raciocínio. Se o que é essencial compromete o entendimento quanto ao proposto no evangelho, que se dirá dos negócios desta vida?

Um homem que a mulher samaritana não conhecia pediu água e, agora oferecia uma água com propriedades inimagináveis: saciaria sua sede de modo a não mais necessitar beber água novamente.

Quando a mulher demonstrou interesse pela ‘água viva’, Jesus lhe disse: – Vai, chama o teu marido, e vem cá. A mulher respondeu: – Não tenho marido. Jesus respondeu: – Disseste bem: Não tenho marido; Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.

Observe que Jesus não emitiu um juízo de valores sobre a condição da mulher, pois Ele mesmo disse que a ninguém julga segundo a carne, pois Ele não veio julgar o mundo, mas salvar ( Jo 8:15 ; Jo 12:47 ).

Neste momento a mulher reconheceu Jesus como profeta: – Senhor, vejo que és profeta! É interessante a mulher samaritana ter reconhecido aquele judeu como profeta de pronto e, ao mesmo tempo, surpreendentemente, formular a pergunta que vem a seguir: – Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar.

Quando a mulher samaritana descobriu que Cristo era profeta, deixou as suas necessidades básicas de lado, e passou a indagar qual o local de adoração.

Como samaritana, ela conhecia muito bem a história que levou os judeus a não se comunicarem com os samaritanos. No livro de Esdras consta um dos desentendimentos que houve entre judeus e samaritanos em virtude dos judeus não permitirem que os samaritanos ajudassem a construir o segundo templo sob ordem de Ciro ( Ed 4:1 -24), sendo que a sedição teve início porque o rei da Assíria instalou nas cidades de Samaria povos oriundos da Babilônia que passaram a habitar a região, substituindo o povo de Israel que anteriormente foram levados cativos e, que adotaram a religião judaica ( 2Rs 17:24 comp. Ed 4:2 e 9-10).

A questão quanto ao local da adoração era milenar e, diante de um profeta, suas pendengas diárias deixaram de ter importância, pois a oportunidade era única: descobrir o local de adoração e como adorar.

É curioso saber qual seria a reação, em nossos dias, caso um cristão descobrisse que estava perante um profeta? Quais seriam as indagações para alguém que se apresentasse como profeta?

Imagino que se os cristãos dos nossos dias encontrassem um profeta, as perguntas seriam: – Quando vou adquirir minha casa? Quando terei meu carro? Quando vou casar? Com quem vou casar? Meu filho será homem ou mulher? Quando quitarei minhas dividas? Vou ficar rico? Etc.

Mas a samaritana, ao descobrir que estava perante um profeta, quis saber de questões de ordem espiritual, deixando suas necessidades terrenas em segundo plano. Não era importante saber se teria um marido, ou se iria deixar de caminhar até o poço de Jacó para tirar água. Ora, a questão do lugar da adoração arrastava-se por gerações e aquela era uma oportunidade que não poderia perder.

Com a declaração: – Vejo que és profeta!, podemos considerar que a mulher compreendeu o que realmente estava acontecendo.

Diferente dos outros judeus que se fixavam na sua religiosidade, legalismo e ritualismo, os profetas de Israel não eram judeus presos a tais amarras.

Foi o mesmo que dizer: – Ah, agora compreendi! O senhor é como Elias e Eliseu, profetas que não se fizeram de rogados perante os outros povos, visto que ambos foram a outras nações e, inclusive entraram na casa de órfãos, viúvas, etc. Somente sendo um profeta para se comunicar com uma mulher samaritana, pois Elias foi à casa de uma viúva que habitava em Sarepta, nas terras de Sidon e lhe pediu água a beber: “Traze-me, peço-te, num vaso um pouco de água que beba” ( 1Rs 17:10 ). Eliseu, por sua vez, servia-se do que lhe era oferecido por uma mulher rica que habitava na cidade de Suném, que semelhantemente era nomeada a partir do nome da cidade como era o caso da samaritana ( 2Rs 4:8 ).

É de extrema importância analisar a história de Nicodemos comparando com a da samaritana, pois diante de Deus um homem com todas as qualidades morais e intelectuais como era o caso de Nicodemos é igual a alguém sem mérito algum, como era o caso da mulher samaritana.

 

A adoração

Foi quando Jesus respondeu: – Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Jesus ensinou à samaritana que havia chegado o tempo previsto, pois a adoração não mais estava vinculado a um monte, seja o monte de Jerusalém ou o de Samaria.

Jesus solicitou à mulher samaritana que cresse n’Ele e que acatasse o seu ensinamento “Mulher, crê-me…” (v. 21). Em seguida aborda uma questão comum aos judeus e samaritanos: “Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus”. Embora os samaritanos entendessem que adoravam a Deus, contudo adoravam-No sem conhecê-Lo. A condição dos samaritanos é a que o apóstolo Paulo retratou aos cristãos em Éfeso:

“Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” ( Ef 2:11 -12).

Ter disposição para adorar a Deus não confere ao homem a condição de verdadeiro adorador, pois igualmente os judeus adoravam, e adoravam o que conheciam, pois a salvação vem dos judeus ( Jo 4:22 ), porém, tal adoração não era em espirito e em verdade (v. 23). Sobre este fato, protestava os profetas: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

A declaração de Jesus iguala judeus e samaritanos, pois ambos acreditavam que adoravam a Deus, porém, a adoração deles era algo proveniente somente da boca, mas longe dos ‘rins’ “Plantaste-os, e eles se arraigaram; crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém longe dos seus rins” ( Jr 12:2 ).

Jesus apresenta a concepção verdadeira de adoração, quando diz: “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem” (v. 23 ). A adoração a Deus só é possível em espírito e em verdade, diferente da adoração com os lábios, que se refere a uma ‘aproximação’ de Deus somente com os lábios, possui aparência, porém, o coração continua alienado de Deus.

O que o Pai procura? Verdadeiros adoradores, ou seja, os que adoram em espirito e em verdade. Segundo as Escrituras, os olhos de Deus procuram os justos, os fiéis sobre a face da terra, pois somente os que trilham o caminho reto podem servi-lo “Os meus olhos estarão sobre os fiéis da terra, para que se assentem comigo; o que anda num caminho reto, esse me servirá” ( Sl 101:6 ), o que contrasta com a condição do povo de Israel: “Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça, e têm prazer em se chegarem a Deus” ( Is 58:2 ).

Ou seja, Deus está próximo dos que O invocam, porém, dos que O invocam em verdade “Perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade” ( Sl 145:18 ). Somente invocando a Deus ‘em verdade’ a inimizade é desfeita e a comunhão é restabelecida a ponto de o homem se assentar com Deus “E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” ( Ef 2:6 ).

Como invocar a Deus em verdade? Entrando pela porta da retidão. Somente aqueles que entram pela porta da retidão rende verdadeiro louvor a Deus ( Sl 118:19 ). Só os que entram pela porta do Senhor são fiéis e justos ( Sl 118:20 ), e tão somente sobre estes, os olhos do Senhor está.

Jesus deixa claro que: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”, ora, Deus é Espírito, e Jesus complementa que as palavras que Ele disse são espírito e vida ( Jo 7:63 ), portanto, para adorar em espírito e em verdade é necessário ao homem nascer da água e do Espírito ( Jo 3:5 ), nascer das palavras ditas por Cristo.

 

A certeza da mulher samaritana

Apesar da necessidade diária de ter que buscar água, o que indicava a condição humilde daquela mulher, pois não dispunha de um escravo, ela possuía uma esperança. Apesar de não pertencer à comunidade de Israel, ela tinha um certeza: – Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo.

De onde veio tamanha certeza? Ora, tal certeza era proveniente das Escrituras. A confiança dela era firme, pois ela não esperava ter um poço particular, ou um marido só seu. As Escrituras não prometiam melhora financeira ou familiar, mas indicava que haveria de vir o Cristo, o mediador entre Deus e os homens, e que Ele daria a conhecer aos homens tudo o que é pertinente ao reino de Deus.

Diante da confiança da mulher nas Escrituras, Jesus se revela: – Eu o sou, eu que falo contigo! Por que Jesus se revelou àquela mulher, se em outras passagens bíblicas ele orienta os seus discípulos a não revelarem a ninguém que Ele era o Cristo? ( Mt 16:20 ) Porque a verdadeira confissão é aquela que decorre do testemunho que as Escrituras dá acerca do Cristo ( Jo 5:32 e 39 ), e não de sinais miraculosos ( Jo 1:50 ; Jo 6:30 ).

Naquele instante os discípulos chegaram e ficaram perplexos com o fato de Cristo estar falando com uma mulher “E nisto vieram os seus discípulos, e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher; todavia nenhum lhe disse: Que perguntas? ou: Por que falas com ela?” (v. 27).

A mulher samaritana abandonou o seu intento e correu à cidade e convocou os homens para que investigassem se o judeu junto à fonte de Jacó era o Cristo “Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?” (v. 28 e 29)

Como à época uma mulher era uma cidadã de segunda classe, ela não impôs a sua crença, antes incita os homens a irem até Jesus e que analisassem as palavras d’Ele. Os moradores da cidade saíram e foram ter com Cristo “Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele” (v. 30).

Novamente as marcas de um verdadeiro profeta tornaram-se evidente: “E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, a não ser na sua pátria e na sua casa” ( Mt 13:57 ). Entre os estrangeiros Jesus foi honrado como profeta, diferente de sua pátria e casa ( Mt 13:54 ).

Os discípulos rogaram ao Mestre: – Rabí, come. Jesus respondeu-lhes: – Uma comida tenho a comer que vós não conheceis.

A concepção deles ainda estava focada em necessidades humanas. Foi quando Jesus lhes declarou que estava ‘faminto’ para fazer a vontade do seu Pai, e realizar a sua obra. Que obra seria? A resposta está em João 6, verso 29: “A obra de Deus é esta: crede naquele que ele enviou”.

Enquanto os seus discípulos sabiam ler os tempos em que se dava o plantio e a sega deste mundo ( Jo 4:34 ), Jesus estava ‘vendo’ os campos brancos para a ceifa do Pai. Desde aquele momento em que Cristo estava se manifestando ao mundo os ceifeiros já recebiam o seu salário, e a colheita para a vida eterna já havia iniciado, e ambos, o semeador e ceifeiro, estavam regozijados pela obra realizada (v. 36).

Jesus cita um ditado: “Um é o semeador, e outro o ceifeiro” (v. 37), e alerta os seus discípulos que estavam sendo comissionados a ceifar em campos que não trabalharam (v. 38). Que campos são estes? Ora, os campos que Jesus viu como prontos para a colheita eram os gentios. Eles nunca haviam trabalhado entre os gentios, agora foram comissionados a trabalhar entre os gentios, pois outros já haviam feito este mister, ou seja, alguns profetas como Elias e Eliseu haviam ido aos gentios prefigurando a missão que haveriam de desempenhar (v. 38).

Por causa do testemunho da mulher, que disse: – Disse-me tudo o que tenho feito, muitos dos samaritanos creram em Cristo. Como? Por ela ter dito: – Disse-me tudo o que tenho feito, Jesus foi ter com os samaritanos e permaneceu dois dias com eles, e creram nele por causa das suas palavras ( Jo 4:41 ).

Eles não creram em Cristo somente pelo testemunho da mulher, antes creram porque, ouvindo Cristo anunciar-lhes o reino dos céus, creram que Ele verdadeiramente era o Salvador do mundo ( Jo 4:42 ).

 

Distorções

Enquanto a proposta das Escrituras e de Cristo era que os homens cressem que Ele é o Salvador do mundo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, etc., em nossos dias há diversos tipos de evangelhos que não promovem a verdadeira obra de Deus, que é: que os homens creiam em Cristo como o enviado de Deus.

A esperança deles não é quanto ao mundo vindouro, em que Cristo virá e levará os que creem para junto d’Ele ( Jo 14:1 -4), antes fixam se nas coisas e anseios deste mundo.

Muitos falsos mestres chamam a atenção dos incautos apontando-lhes necessidades diárias. Por quê? Porque as necessidades dos homens turvam o raciocínio e não os deixa analisar questões lógicas essenciais. O discurso dos falsos mestres sempre aponta para as necessidades do dia a dia para confundir os incautos, pois os seus discursos são vãos.

Há aqueles que se cercarão de mestres segundo os seus interesses e que se voltam às fábulas ( 2Tm 4:4 ). Outros consideram que Cristo é fonte de lucro, e cooptam aqueles que querem ficar ricos ( 1Tm 6:5 -9).

Mas, há também aqueles que possuem aparência de piedade, que não passa de mais uma religião, pois a mensagem deles tem por alvo os órfãos e as viúvas, lutam pela causa dos pobres e necessitados de bens materiais, porém, negam a eficácia do evangelho, pois contrariam verdades essências como a ressurreição futura dentre os mortos e a volta de Jesus ( 2Tm 2:18 e 3:5; “Porque, qual é a nossa esperança, ou gozo, ou coroa de glória? Porventura não o sois vós também diante de nosso Senhor Jesus Cristo em sua vinda?” ( 1Ts 2:19 ).




Gálatas 4 – A plenitude dos tempos

Em ambos os casos (herdeiro menino e escravos), o empecilho decorre da lei. O escravo (os gentios) só pode ser ‘livre’ do seu senhor quando for resgatado, ou quando morrer. O herdeiro enquanto menino (judeu) só terá direito a herança quando chegar o tempo determinado pelo pai. Em ambos os casos (herdeiro menino e escravos), o elemento que constrói a ideia apresentada pelo apóstolo é a lei. A lei impede que o escravo deixe a sua condição, da mesma forma que impede o herdeiro menino de exercer o senhoril.


Gálatas 4 – A plenitude dos tempos

O ‘Menino’ e o ‘Servo’

1 DIGO, pois, que todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo;

Este versículo utiliza a figura de um menino na condição de herdeiro para ilustrar qual foi a serventia da lei (aio). Através desta ilustração é possível entender qual a ideia que o apóstolo Paulo procurou destacar aos irmãos de Colossos ao enfatizar que eles eram idôneos: “…que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” ( Cl 1:12 ).

O menino herdeiro será senhor de tudo, porém, por ainda não ter atingido a maioridade, ou seja, a idoneidade, em nada difere do escravo.

O herdeiro tem por herança todos os bens do pai, porém, na casa do pai o herdeiro não possui condição distinta da do escravo, ‘…ainda que seja senhor de tudo’ ( Gl 4:1 ).

 

2 Mas está debaixo de tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai.

O herdeiro deve resignar-se em esperar o tempo estabelecido pelo pai. Durante o tempo da minoridade o herdeiro não exerce as prerrogativas de senhor.

Embora herdeiro de tudo, o menino permanece sob cuidados de tutores e curadores até que chegue a idoneidade.

O tempo determinado pelo Pai é lei, tendo papel idêntico ao da lei que tutelava os Israelitas.

 

3 Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo.

O apóstolo Paulo compara a condição do menino herdeiro com a condição dos judeus sob a lei: “Assim também nós, quando éramos meninos…” ( Compare a utilização do pronome na primeira pessoa do plural ‘nós’ Gl 4:3 com Gl 2:15 ).

Quando o apóstolo Paulo diz que tanto os meninos (judeus) quanto os escravos (gentios) estavam reduzidos à servidão.

Considerando que o herdeiro enquanto menino em nada difere do escravo, segue-se que todos os judeus antes de terem um encontro com Cristo ‘são meninos’, visto que eram reduzidos à servidão.

O apóstolo Paulo comungava e expunha aos cristãos a mesma doutrina de Cristo, que disse: “Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). Por que os judeus eram escravos do pecado?

Porque eram ‘meninos’ (ou seja, não eram herdeiros de fato), em nada eram diferentes dos outros pecadores (gentios), pois não tinham direito a herança.

Porém, na plenitude dos tempos Deus enviou o Descendente, por quem vem a idoneidade, mas os judeus continuaram presos aos primeiros rudimentos (lei).

Neste exemplo os gentios são representados pela figura da ‘escravidão’, e os judeus representados pela figura do ‘menino’, ou seja, mesmo sendo classificados como meninos, os judeus em nada diferem dos escravos (gentios) “Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios” ( Gl 2:15 ).

Para falar da condição do homem debaixo da lei (judeus), Paulo lança mão de um exemplo que demonstra qual a condição de um herdeiro quando menino: em nada diferente de um escravo. Permanece sob cuidados de curadores e tutores até que se cumpra o tempo determinado pelo pai.

Em ambos os casos (herdeiro menino e escravos), o empecilho decorre da lei. O escravo (os gentios) só pode ser ‘livre’ do seu senhor quando for resgatado, ou quando morrer. O herdeiro enquanto menino (judeu) só terá direito a herança quando chegar o tempo determinado pelo pai.

Em ambos os casos (herdeiro menino e escravos), o elemento que constrói a ideia apresentada pelo apóstolo é a lei. A lei impede que o escravo deixe a sua condição, da mesma forma que impede o herdeiro menino de exercer o senhoril.

O versículo três resulta da comparação estabelecida nos dois versículos anteriores: o menino não difere do escravo em conseqüência do tempo estabelecido pelo seu pai, precisando ficar sob a tutela de tutores e curadores. Portanto, os homens judeus por ficarem debaixo da lei (aio) estão reduzidos à servidão.

Os judeus rejeitaram lançar mão da herança proposta no evangelho, pois não aceitaram o Descendente que foi enviado na plenitude dos tempos, ou seja, o tempo estabelecido pelo Pai Eterno.

Somente por intermédio do Descendente os judeus alcançariam a idoneidade ( Cl 1:12 ).

 

 

4 Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei,

Quando da plenitude dos tempos Deus enviou o seu Filho, o Verbo encarnado, para os herdeiros que estavam na condição de meninos “e os seus não O receberam”.

O que era necessário para que os judeus alcançassem o direito à herança?

  • O tempo determinado pelo Pai – A plenitude dos tempos ( Gl 4:4 );
  • a idoneidade ( Gl 4:5 ).

Na plenitude dos tempos, ou seja, no tempo determinado, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher e sob a lei.

Cristo nasceu de mulher para ser participante da carne e do sangue para que em tudo fosse semelhante aos seus irmãos ( Hb 2:14 e Hb 2:17 ).

Da mesma forma, para ser herdeiro da promessa, o homem necessita ser participante da carne e do sangue do Descendente, que é Cristo para alcançar a idoneidade “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos” ( Jo 6:53 ).

 

5 Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.

Para remir os que estavam debaixo da lei foi preciso:

  • A plenitude dos tempos;
  • O Filho de Deus ser enviado; o verbo encarnado nascer de mulher e estar sob a lei.

A vinda de Cristo ao mundo cumpre o tempo determinado pelo Pai, momento que torna possível àqueles que estão reduzidos à servidão (judeus), receber a adoção de filhos, ou seja, serem idôneos para participar da herança.

Ao fazer alusão à condição em que ele e os cristãos judeus eram ‘meninos’ (reduzidos à escravidão), o apóstolo Paulo demonstra que esteve sob a tutela da lei. A lei tinha a função de ‘tutor’ e ‘curador’, e estipulava o que o ‘menino’ devia ou não fazer até o tempo estabelecido pelo pai, quando tomaria posse da herança.

A filiação decorre de nascimento, já a adoção, neste versículo, refere-se ao processo em que o ‘menino’ passa a condição de idôneo para participar da herança do pai “Porque eu mesmo poderia desejar ser anátema de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne; Que são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e as alianças, e a lei, e o culto, e as promessas; Dos quais são os pais, e dos quais é Cristo segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém” ( Rm 9:3 -5).

A adoção de filhos refere-se à filiação divina ou a herança dos israelitas? Eles eram filhos de Deus por serem descendentes da carne e do sangue de Abraão? Não! A filiação somente decorre de nascimento.

Para ser um dos filhos de Deus é necessário ser gerado d’Ele, através da semente incorruptível.

Os descendentes de Abraão não eram filhos de Deus e nem idôneos para participar da herança ( Rm 9:8 ). Os judeus foram formados em iniquidade e concebidos em pecado como todos os outros homens ( Sl 51:5 ). Mesmo sendo descendentes de Abraão, estavam retidos pela lei, estavam reduzidos à escravidão por serem nascidos segundo a vontade do varão, segundo a vontade da carne e do sangue ( Jo 1:13 ).

Cristo, o Descendente, veio na plenitude dos tempos resgatar os que estavam debaixo da lei, livrando-os da condição a que foram reduzidos. Os judeus que creram passaram a pertencer a Cristo na condição de filhos de Abraão e herdeiros, conforme a promessa segundo a fé que o Descendente revelou ( Gl 3:29 ; Gl 3:23 ).

Os judeus reputavam que a herança decorria da lei, porém, o apóstolo Paulo demonstra que a herança decorre da promessa, sendo alcançada pela fé revelada ( Gl 3:18 ). Quando o Descendente chegou na plenitude dos tempos, sendo ele quem tinha a promessa ( Gl 3:19 ), resgatou os judeus para que eles recebessem a promessa do Espírito, que é o penhor da herança ( Gl 3:14 ).

Da mesma forma que Cristo resgatou os judeus, também resgatou os gentios, visto que a promessa dada a Abraão diz do Descendente e de todas as famílias da terra. Para alcançar a bênção de Abraão basta qualquer homem crer em Cristo conforme Abraão creu na promessa.

Observe que o versículo seguinte estabelece a diferença na argumentação do apóstolo Paulo quanto aos gentios na condição de escravos, e os judeus na condição de meninos: “Ele nos resgatou para que a benção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebêssemos a promessa do Espírito ( Gl 3:14 ).

Nos versos seguinte o apóstolo Paulo apresenta pontos importantes do Testamento que estipula a herança que será concedida ao herdeiro que alcançar a idoneidade ( Gl 3:15 e Gl 4:1 -2).

 

A adoção

A promessa de Deus a Abraão constitui-se um testamento, e ninguém o anula ou pode acrescentar coisa alguma ( Gl 3:15 ). As promessas foram feitas a Abraão e diz do seu Descendente, que é Cristo ( Gl 3:15 ).

Deus prometeu fazer de Abraão uma grande nação e que nele seriam benditas todas as famílias da terra ( Gl 3:8 ). Porém, havia um tempo estabelecido por Deus para que a promessa fosse levada a efeito, e para isso, havia a necessidade da vinda do Descendente ( Gl 4:4 ).

Os descendentes de Abraão embora tivessem a promessa, não podiam herdá-la, enquanto não viesse o Descendente, por Quem a adoção de filho é concedida. Eles estavam reduzidos à servidão, debaixo da lei, e em nada diferiam dos gentios.

Os gentios acabaram por receber a filiação divina através do Descendente e passaram à condição de filhos de Abraão por meio da fé. A bênção de Abraão chegou aos gentios através do Descendente, que é Cristo.

Mas, o Testamento (promessa) confirmado a Abraão não fez distinção entre os descendentes de Abraão e os gentios. Embora os descendentes de Abraão estivessem sob tutores e curadores até o tempo determinado por Deus, eles em nada diferiam dos gentios, pois Deus não faz acepções de pessoas.

Para adquirir a condição de filhos de Deus, é preciso crer no descendente, por quem é a promessa e a herança, e nisto não há distinção entre gentios e judeus ( Gl 3:26 ).

Se os judeus pensavam estar em uma condição privilegiada por serem ‘meninos’, o apóstolo Paulo demonstra que em nada diferiam dos escravos, e que eles não tinha direito à herança.

Todos quantos creem em Cristo são de novo gerados, criados idôneos para participar da herança dos santos na luz. Não são meninos, e não precisam de tutores e curadores.

Os judeus que têm a adoção de filhos, ou seja, a promessa da herança necessita crer em Cristo, o Descendente, para que sejam resgatados da lei pela fé em Cristo. Os descendentes de Abraão que foram reduzidos à escravidão por causa da lei, são alçados a idoneidade, deixando de ser meninos e com direito pleno à herança.

Desta forma, não há gentios ou gregos, pois todos são descendentes, ou melhor, filhos de Abraão, herdeiros conforme a promessa, pela fé em Cristo ( Gl 3:26 ).

 

6 E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai.

Os judeus eram descendentes de Abraão e deles era a adoção por causa do Descendente (herança em testamento), porém não tinham em seus corações o Espírito do Descendente que clama: Aba, Pai.

Como entender a colocação seguinte: os que são da fé são filhos de Deus (filhos de Abraão) ( Gl 3:6 ). Os descendentes de Abraão refere-se aos seus filhos segundo a carne ( Jo 8:37 ), ou seja, a descendência de Abraão não concede aos judeus a filiação divina. João Batista disse que não basta dizer temos por Pai a Abraão, antes precisavam mudar de conceitos acerca de como se alcança a filiação divina, uma vez que até mesmo das pedras Deus pode constituir filhos para si ( Mt 3:9 ).

Todos os cristãos são filhos de Deus (ou, filhos de Abraão) pela fé em Cristo, e por fé não há distinção quanto às origens carnais, podendo ser judeu ou gentil ( Gl 3:26 ). Ou seja, todos quantos creem, se revestem de Cristo, por serem batizados em Cristo. Para ser batizado em Cristo é preciso fazer parte da carne e do sangue, tornando-se um em Cristo. Desta maneira, os cristãos além de serem filhos de Abraão (filhos de Deus), são descendentes de Abraão, e herdeiros conforme a promessa “E, se sois de Cristo, então sois descendentes de Abraão, e herdeiros conforme a promessa” ( Gl 3:29 ).

Por participar da carne e do sangue do Descendente pela fé (Cristo) os gentios tornam-se filhos de Abraão (filhos de Deus), e também descendentes de Abraão. Desta maneira não há distinção alguma entre gentios e judeus.

Os judeus eram descendentes de Abraão por terem vínculo de sangue (adoção de filhos), mas não eram filhos de Deus (filhos de Abraão), por não terem recebido pela fé a promessa do Espírito, o seja, o Espírito do Descendente, que clama: Aba, Pai (v. 6).

Os que ‘estavam sob a lei’ (judeus) e aceitaram a Cristo pela fé, são filhos de Deus, pois receberam do Santo Espírito em seus corações.

 

7 Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo.

Conforme o que foi exposto anteriormente, o apóstolo conclui: “Assim que já não és mais servo…”. A quem o apóstolo Paulo direcionou esta conclusão? Aos escravos que em nada diferiam dos herdeiros quando eram ‘meninos’.

Observe que, quando o apóstolo enfatiza que os cristãos são herdeiros, ele quer demonstrar a total garantia de que, como filhos, possuem uma herança por meio da promessa assim como Abraão.

 

8 Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses.

O apóstolo Paulo lembra-os da condição passada: por não conhecerem a Deus, todos os cristãos serviam também aos que não eram deuses! O apóstolo Paulo apela para algo que talvez ainda não houvessem esquecido.

Continua….




Romanos 4 – Promessa firme à posteridade

Os versículos 21 à 31 do capítulo 3, retoma a abordagem que teve início nos versículos 16 e 17 do capítulo 1. Observe que a ideia é una nos versículos seguintes: “Não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: O Justo viverá da fé (…) Mas agora se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas. Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos {e sobre todos} os que creem. Não há distinção” ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22).


Romanos 4 – Promessa firme à posteridade

Introdução

Das análises feita à carta de Paulo aos Romanos, verificou-se que, dos capítulos 1, 2 e 3, até o verso 20, o escritor tratou de desfazer a pretensa vantagem dos judeus quanto à salvação. Paulo demonstra argumentativamente, invocando a autoridade das Escrituras Rm 3: 10, que todos os homens estão reféns da condição herdada em Adão “Todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão, e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Este versículo demonstra que todos os homens, judeus e gentios estão condenados. Os gentios perecerão, e os judeus serão julgados quanto às suas obras segundo a lei. Nenhum homem será justificado, pois ninguém consegue viver para Deus por intermédio da lei ( Rm 2:13 ).

Os versículos 21 à 31 do capítulo 3, retoma a abordagem que teve início nos versículos 16 e 17 do capítulo 1. Observe que a ideia é una nos versículos seguintes: “Não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: O Justo viverá da fé (…) Mas agora se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas. Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos {e sobre todos} os que creem. Não há distinção” ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22).

No capítulo 4, o apóstolo demonstra por meio de exemplos o que foi exposto anteriormente sobre a justificação pela fé, que consta no capítulo 3, dos versos 21 à 31.

Em linhas gerais, Paulo demonstrou que:

  • Jesus é a justiça de Deus manifesta aos homens ( Rm 3:21 );
  • A justiça de Deus é alcançada pela fé em Jesus ( Rm 3:22 );
  • A salvação de Deus é para todos os homens, visto que todos pecaram ( Rm 3:22 -23);
  • A salvação de Deus livra o homem da condenação (pecado) herdada de Adão, pois em Adão todos pecaram;
  • Os que foram declarados condenados em Adão, por intermédio da redenção em Cristo é declarado justo por graça ( Rm 3:24 );
  • Para que Deus seja Justo e Justificador, Cristo manifesto é a propiciação do pecado (pela fé no seu sangue), remindo os pecadores. Está é a base da justificação em Cristo;
  • Por intermédio da fé, a lei é estabelecida: não há acepção ou distinção entre os homens diante de Deus.

Após a conclusão ( Rm 3:28 ), Paulo passa a demonstrar evidência da justificação pela fé nos pais da nação judaica.

Antes de prosseguirmos, é preciso esclarecermos duas passagens bíblicas:

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

É sabido que os fariseus eram uma das mais severas seitas do judaísmo e lideravam um movimento para trazer o povo a submeter-se à lei de Deus. Eles eram extremamente legalistas, formalistas e tradicionalistas. Hoje estes termos são utilizados de maneira pejorativa, mas à época de Cristo, era tida por justa a maneira de viver dos fariseus.

Os fariseus eram uma referência moral, de caráter, de ética e comportamento. Aos olhos dos homens eles eram justos “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” ( Mt 23:28 ).

Qual justiça Jesus estava recomendando aos seus ouvintes? Qual justiça excede a dos fariseus?

Sabemos que Cristo é a justiça de Deus manifesta aos homens. É Ele a Justiça que excede a justiça dos escribas e fariseus.

Esta justiça é imputada por meio da fé em Cristo, e vem do alto ( Rm 10:6 ).

A justiça divina não se vincula a elementos humanos como comportamento, moral, caráter, sacrifícios, religiosidade, etc.

Da mesma forma que para se ter acesso ao reino de Deus é preciso nascer de novo, a justiça que ultrapassa a dos escribas e fariseus também decorre do novo nascimento. Enquanto os fariseus e saduceus não conseguiram ser justificados por intermédio das obras da lei, aqueles que creem em Cristo recebem de Deus poder para serem feitos (criados) filhos de Deus: estes, que são nascidos de semente incorruptível, que é a palavra de Deus, são declarados justo por Deus.

Os fariseus e saduceus jamais seriam justificados por Deus, visto que em Adão já estavam condenados, e as suas obras reprováveis por não serem feitas em Deus ( Jo 3:18 -19). Já a nova criatura, é livre da condenação em Adão, e as suas obras são aceitáveis, pois são feitas em Deus ( Jo 3:21 ).

Livre da condenação em Adão, o homem será julgado no tribunal de Cristo. Já os condenados em Adão, ao comparecerem ante o grande Tribunal do Trono Branco, não será justificado, pois as suas obras são trapos de imundície, e não servem para vestes.

Só a justiça providenciada por Deus, por intermédio de Cristo, excede a dos escribas e fariseus. As obras dos escribas e fariseus eram segundo as suas naturezas herdadas de Adão: obras mortas.

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” ( Mt 10:32 -39).

Myer Pearlman ao comentar os versículos acima disse:

“Esta é a ideia contida nestes versículos: A comunhão com Cristo pode significar separação daqueles que nos são queridos na terra, mas a recompensa será grande (…) É doloroso o repúdio dos familiares, talvez a mais severa tentação que o convertido possa enfrentar” Pearlman, Myer, Mateus, O evangelho do Grande Rei, Ed. CPAD, 1. ed. Rj, 1995, Pág. 75, V.

Jesus realmente recomendou aos seus ouvintes, e a nós, que abandonássemos os nossos familiares? Como entender estes versículos e conciliá-los com o primeiro mandamento com promessa? “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” ( Ef 6:2 ).

Como entender que o príncipe da paz não veio trazer paz à terra? O príncipe da paz empunha uma espada? Por que Jesus veio semear dissensão entre o homem e o seu pai? Como interpretar essa passagem?

O apóstolo Paulo é categórico quanto à interpretação “As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais” ( 1Co 2:13 ).

A interpretação bíblica não pode ser pautada em sabedoria humana. Ela deve ser estudada através do que o Espírito Santo ensina. Como o Espírito nos ensina? Quando comparamos as coisas espirituais com as espirituais!

Para comparar as coisas espirituais com as espirituais, e ser ensinado pelo Espírito de Deus, devemos nos socorrer da citação bíblica que Cristo faz: “Os inimigos dos homens são os da sua própria casa” ( Mt 10:36 e Mq 7:6 b).

O profeta Miqueias sente pena de si mesmo. Miqueias sente-se faminto pela justiça ( Mq 7:1 ). Por que esta fome e sede? Porque não há homem piedoso sobre a face da terra. Ninguém é reto, pois todos se desviaram em Adão, o homem piedoso que pereceu ( Mq 7:2 ).

As obras dos ímpios e o mal, ou seja, a árvore produz frutos segundo a sua espécie ( Mq 7:3 ). O melhor dos homens é comparado a um espinho, que se dirá do mais reto? ( Mq 7:4 ). Porém, Miqueias visualiza algo maravilhoso: veio do dia dos seus vigias, ou seja, o dia daqueles que esperavam a visitação de Deus! Mas, o dia da visitação do Messias, também é dia de confusão! Quem haveria de entender as parábolas de Cristo? ( Mq 7:4 ).

Na visitação seria semeada a desconfiança ( Mq 7:5 ). O motivo é evidenciado: o filho despreza o pai; a filha é contra a mãe; a nora e a sogra não têm acordo. Por fim, tudo se resume na frase: “Os inimigos do homem são os da sua própria casa”.

Após lermos e interpretarmos estes versículos de Miqueias, passemos ao Novo Testamento.

Quando Jesus cita o pequeno trecho de Miqueias, ele estava anunciando ao povo que a profecia estava se cumprindo ao seus ouvidos. Jesus estava anunciando que ele era o Messias esperado por muitos, e que havia chegado o dia da visitação.

O texto de Miqueias é claro: O Messias não haveria de trazer paz, mas confusão e dissensão ( Mq 7:5 -6). Por quê? A mensagem do evangelho demonstra que os injustos vivem para si, e não para Deus. A condição de injustiça dos homens teve origem em Adão, e não em suas ações, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.

Jesus veio por causa dos injustos, ou melhor, daqueles que tem fome e sede de justiça ( Mq 7:1 ). Destes elementos decorre que: Deus jamais haveria de estabelecer comunhão com os filhos da ira, por isso, Cristo não trouxe paz aos homens que habitam a terra. Ele trouxe a espada, que representa morte e justiça. Os ímpios só podem ter contato com a espada, e não com a paz de Cristo.

Ao trazer a espada (justiça e morte) àqueles que têm sede e fome de justiça, Cristo estabelece a dissensão entre os seus familiares. Como? O homem está condenado diante de Deus por causa da filiação de Adão. Os judeus consideravam salvos por serem descendentes de Abraão. Jesus propõe aos seus ouvintes que se desvinculem de seus familiares, ou seja, das suas origens em Adão e da ideia de que eram descendência de Abraão para que se tornasse possível receberem a Cristo.

Da mesma forma que Abraão saiu do meio de sua parentela por fé, só é possível o homem abandonar pai, mãe, irmão e irmã por meio da mesma fé que teve o pai Abraão. Somente desta forma é possível adquirir a filiação divina.

Para ir após Cristo, somente tomando a cruz. Não há como seguir após Cristo até Deus, sem antes o homem ter um encontro com a cruz de Cristo. Na cruz de Cristo o homem corta toda e qualquer relação que tinha antes com o pecado de Adão, ou com a ideia de que é filho de Deus por intermédio da descendência de Adão.

A cruz de Cristo é a espada que traspassa o velho homem que teve origem em Adão. Somente após ter um encontro com Cristo, o homem terá a sua fome e sede de justiça saciadas. Este perde a sua vida terrena, e adquire de Deus uma nova vida, achando-a. É vida abundante!

Aqueles que encontram a nova vida que há em Deus, são aceitos por filhos de Deus e declarados justos.

Isto posto, fica demonstrado que em momento algum Jesus disse para abandonarmos os nossos genitores ou parentes à própria sorte. Antes, Jesus recomenda aos seus ouvintes a honrar pai e mãe, e este é um dos mandamentos de Deus “E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus” ( Mt 15:6).

 

1 QUE diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?

Esta pergunta de Paulo é totalmente pertinente às questões da salvação em Deus. Os judaizantes alegavam ser salvos por descenderem de Abraão, e isto implicaria em dizer que, Abraão também recebeu algo decorrente de seus pais. O que Abraão alcançou segundo a sua descendência? Nada. Além do mais, ele era descendente de gentios, que por sua vez não tinham o sinal da circuncisão na carne.

Se Abraão tivesse alcançado a justificação segundo a carne (descendência), seria correto afirmar que era possível receber a salvação por ser descendência de Abraão.

 

2 Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus.

Da mesma forma, caso Abraão pudesse produzir algo (obras) que o justificasse, teria elementos para gloriar-se (jactância), o que era feito pelos judeus ( Rm 3:10 e 27). Abraão poderia considerar ser melhor, ou que tinha alguma vantagem quanto à salvação.

Estas considerações decorrente das obras não permite que homem algum se glorie perante Deus. Todos eles somente se gloriam diante de seus semelhantes, e este era o caso dos judeus.

 

3 Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.

Paulo deixa a sua argumentação de lado e se apóia na autoridade das Escrituras “Creu Abrão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” ( Gn 15:6 ). Paulo demonstra através dos textos sagrados que a fé sempre esteve em pauta, quando se faz referência a salvação que procede de Deus.

 

4 Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida.

Paulo constrói uma nova argumentação: o salário é uma dívida do empregador para com quem trabalha. Não é uma relação segundo a graça, e sim, decorre de dívida. Se a justificação fosse segundo o que os judaizantes anunciavam, Deus teria uma dívida para com Abraão, e não o contrário. Abraão seria credor na relação acima.

 

5 Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.

Em contra partida, qualquer um que não pratica as coisas da lei (este foi o caso de Abraão), mas crê em Deus que pode justificar ‘o ímpio’, a fé do crente é imputada por Deus como justiça. Observe que Paulo faz referência a justificação em uma abordagem evangelística, e não teológica.

Na linguagem evangelística é válido argumentos tais como: Deus salva o pecador; Deus justifica o ímpio; Deus perdoa os pecados; etc. Por que é válida esta argumentação? Porque na evangelização é quase impossível utilizar a linguagem teológica acerca da salvação em Cristo.

Observe a frase segundo a visão teológica: “…mas crê naquele que justifica o ímpio…”. Ao analisá-la seguindo a ideia do verso seguinte: “Que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e quarta geração” ( Ex 34:7 ), percebe-se que Deus é justificador, visto que é ele quem perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado. Porém, de modo algum, ele terá o culpado por inocente, ou seja, ele não justifica o ímpio.

De modo que, quando Paulo diz que ‘mas crê naquele que justifica’, aquele que crê já deixou a condição de ímpio, segundo uma consideração teológica. Quem crê, deixa a condição de ímpio, e passa a condição de justo. Da mesma forma, o pecador que crê, deixa a condição de escravo e passa a condição de servo da justiça. Ou seja, se transformamos estas abordagem em uma linguagem teológica, temos o pecador como sendo ‘velho homem’. Falamos evangelisticamente que Deus salva o pecador, porém, teologicamente, é impossível dizer que Deus salva o velho homem ou a velha criatura (o pecador em seu estado original).

Evangelisticamente diremos que Deus justifica o ímpio, teologicamente sabemos que jamais Deus justificará o ímpio “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ). Para conciliar estas duas linguagens, percebe-se que aquele que é pecador, e crê naquele que justifica, nasce de novo (nova criatura) deixando a condição de ímpio na sepultura, e consequentemente, Deus o declarará justo diante dele.

Quando Paulo disse que Deus justifica o ímpio, perceba que este ‘ímpio’ primeiramente creu naquele que não justifica o ímpio, e a sua fé é imputada como justiça. O ex-ímpio passa a condição de justo por meio da fé, sendo portanto, declarado justo, por ter sido de novo criado, em verdadeira justiça e santidade.

“Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

Qual é a planta que o Pai não plantou? Sobre o que Jesus estava falando? A planta que o Pai não plantou refere-se ao homem nascido de Adão! Mas, como chegar a esta conclusão?

Observe que os escribas e fariseus questionaram Jesus sobre os motivos que levava seus discípulos transgredirem as tradições dos anciões ( Mt 15:1 ). Jesus demonstra que o que seus discípulos estavam deixando de fazer (lavar as mãos antes das refeições), não era nada comparado às transgressões deles ao seguirem as tradições dos anciões: invalidavam a lei de Deus (v. 3).

Deus deu a eles uma ordem clara: “Honra teu pai e a tua mãe, e quem maldisser a seu pai ou a sua mãe certamente será morto” (v. 4), porém, invalidavam a lei de Deus ao instituírem o Corbã ( Mc 7:11 ).

Jesus expõe a hipocrisia dos seus interlocutores ao fazer referência ao que foi profetizado por Isaías: “Este povo honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim” ( Is 29:13 ). Os escribas e fariseus adoravam a Deus em vão!

E após convocar a multidão, disse-lhes: “Ouvi, e entendei: o que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai da boca, isto sim é o que contamina o homem” ( Mt 15:10 -11).

Enquanto os escribas e fariseus estavam preocupados com o lavar de mãos, Jesus demonstra que a verdadeira contaminação do homem procede do coração. Por que? Como?

A Bíblia demonstra que a queda de Adão deixou o homem debaixo de condenação. A humanidade em Adão passou à condição de culpáveis e condenáveis diante de Deus. Todos os homens quando vem ao mundo são formados em iniquidade, e em pecado são concebidos.A humanidade nasce de uma semente corruptível e em inimizade com Deus, por causa da natureza que possuem.

A Bíblia classifica a natureza decaída do homem de filhos das trevas, mentira, filhos da ira, filhos da desobediência, filhos do diabo, etc.

Enquanto os homens se preocupam com comportamento, moral e caráter, o mal reside em sua própria natureza, procede do coração.

Os discípulos não entenderam a abordagem de Jesus, e ele lhes disse: “Toda planta que o Pai não plantou, será arrancada”, ou seja, todos quantos não nasceram da semente incorruptível que é a palavra de Deus, estes não permanecerão.

A planta plantada pelo Pai germina de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Os homens que vêm ao mundo nascem de uma semente corruptível, pois nascem da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue ( Jo 1:13 ). Aqueles que creem são de novo gerados, da semente incorruptível, pela vontade e palavra de Deus ( Jo 1:12 ; 1Pe 1:3 e 23).

Desde a entrega da lei ao povo de Israel, Moisés insistia: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ), pois era lá que estava o que contamina o homem: a natureza condenada e herdada em Adão.

Os escribas e fariseus nunca circuncidaram os corações, e por isso, não eram plantas que o Pai plantou. Eram cegos, ou seja, permaneciam na escuridão apesar de estar presente a luz de Deus que ilumina os homens.

Honravam a Deus com os lábios, mas os corações não foram circuncidados. Continuavam de posse da natureza (morte) herdada de Adão. A adoração dos escribas e fariseus era em vão, e a doutrina deles resumia-se em preceitos de homens.

A doutrina dos escribas e fariseus não operava a circuncisão do coração, onde o homem se desfaz da velha natureza herdada em Adão. Continuavam de posse de um coração que procede todo tipo de mau.

Cristo é a semente de Deus dada aos homens que promove o novo nascimento. É dele que o homem precisa se alimentar para ter a vida que procede de Deus. Aquele que nasce segundo a vontade de Deus e por meio da palavra de Deus, que é Cristo, é a planta que o Pai plantou.

 

6 Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo:

O apóstolo demonstra que o salmista Davi também profetizou a bem-aventurança decorrente da fé. Deus justifica o homem sem as obras da lei, ou seja, Ele galardoa o homem segundo a graça.

7 Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. 8 Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado.

Sobre a bem-aventurança, leia o comentário ao “Salmo Primeiro” e o texto “A Bem-aventurança“.

As maldades são perdoadas por Deus, ou seja, não serão levadas em conta. Já os pecados, precisam ser cobertos, enterrados. O homem que teve os pecados cobertos e as maldades perdoadas, não terá imputado o pecado, e sim a justiça divina.

Observe que Davi demonstra o favor de Deus aos homens, e não o serviço dos homens a Deus. Pelas obras da lei, ou serviço, jamais os homens serão justificados.

A maldade faz referência ao fruto da árvore má, ou seja, aquilo que a árvore não plantada por Deus produz ( Mt 15:13 ). Esta maldade é perdoada, ou seja, lançada no mar do esquecimento.

Quanto ao pecado, refere-se a natureza pecaminosa do homem herdada em Adão. Por ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ), todos os homens quando nascidos segundo à carne, são árvores não plantadas por Deus. Estas árvores devem ser arrancadas, a sua natureza pecaminosa precisa ser ‘coberta’ ( Rm 4:7 ).

Somente após ter um encontro com a cruz de Cristo, e ser sepultado com Ele, é que o homem tem o seu pecado, ou seja, a sua herança em Adão ‘coberta’.

 

9 Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou também sobre a incircuncisão? Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão.

A bem-aventurança de ter os pecados encobertos e as maldades perdoadas somente é possível aos judeus? Os gentios não podem ser participantes desta bem-aventurança em Deus? Se os leitores declarassem que sim, estariam dizendo que Deus faz acepção de pessoas.

Se alguém dentre os cristãos romanos declarassem que a bem-aventurança é restrita aos judeus, Paulo contra argumenta: “Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão”, ou seja, por que dizemos que Abrão foi justificado por meio da fé, se para os judaizantes a justificação decorre de laços consanguíneos?

Dizer o que as Escrituras expõe é uma coisa, vivenciar é outra. Os judaizantes citavam as escrituras, porém, não viviam as Escrituras por causa de suas tradições. Liam na Escritura que Abraão foi justificado pela fé, porém, sustentavam que eram justos por descenderem de Abraão.

 

10 Como lhe foi, pois, imputada? Estando na circuncisão ou na incircuncisão? Não na circuncisão, mas na incircuncisão.

Qual a condição de Abraão quando lhe foi imputada a justiça que decorre da fé? Abraão era incircunciso, ou melhor, um gentio. Paulo faz a pergunta e responde em seguida: Abraão estava na incircuncisão!

 

11 E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja imputada;

Paulo demonstra que Abraão recebeu o sinal da circuncisão como um selo da justiça recebida por meio da fé. Ele recebeu este sinal quando incircunciso, demonstrando que ele se tornaria pai de todos aqueles que pela fé creem em Deus.

Abraão é pai tanto dos gentios quanto dos judeus que tiverem a mesma fé que ele teve em Deus. Os judeus tinham Abraão por pai, e pensavam que a filiação divina decorria do fato de eles serem descendentes de Abraão. Paulo demonstra que a fé é o elo de ligação entre Deus e os seus filhos.

Deus não faz acepção de pessoas. Ele justificou a Abraão por meio da fé, e justifica todos quantos se achegarem a Ele por meio da fé.

 

12 E fosse pai da circuncisão, daqueles que não somente são da circuncisão, mas que também andam nas pisadas daquela fé que teve nosso pai Abraão, que tivera na incircuncisão.

O que Abraão recebeu na incircuncisão por meio da fé o torna pai dos incircuncisos que creem, e dos circuncisos que também creem. Observe que Abraão não é pai daqueles que foram circuncidados, e sim, pai dos que seguirem as suas pisadas: a fé!

 

13 Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé.

Quando Abraão recebeu a promessa de Deus, a lei não existia. A promessa de Deus exigiu dele um exercício de fé, e não obras decorrente de uma lei.

Outro aspecto que Paulo destaca é que a promessa de que Abraão haveria de ser herdeiro do mundo, não diz especificamente da pessoa de Abraão, e sim, de sua posteridade, que é Cristo.

 

14 Porque, se os que são da lei são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é aniquilada. 15 Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão.

Paulo apresenta três argumentos em defesa da abordagem anterior:

1º – Se os judeus são os herdeiros segundo o que estipula a lei, segue-se que crer em Deus não é o que justifica, e que o que foi prometido a Abraão nunca existiu, pois a promessa foi feita quando ele ainda estava na incircuncisão. Ora, se Deus prometeu, e jurou sobre a sua palavra, resta a quem recebeu a proposta crer (descansar).

2º – A lei opera a ira, pois ela somente apresenta punição aos transgressores, sem qualquer promessa. Quem não praticar a lei é considerado transgressor e réu de juízo ( Mt 5:21 ).

3º – Enquanto os judaizantes se escudavam na ideia de que seriam declarados justos por Deus por que tinham uma lei, Paulo demonstra que a função da lei é somente demonstrar que os homens são reprováveis.

Os versículos seguintes demonstram a conclusão de Paulo sobre as obras da lei e a graça.

 

A Teologia da Libertação

A abordagem teológica da ‘Teologia da Libertação’ é uma variante do pensamento da Igreja Católica Romana. Vejamos o que um dos seus teólogos diz:

“A religião verdadeira, portanto, nasce dos pobres e dos fracos. São eles que podem, a partir da sua experiência, ensinar quem é Deus e o que ele quer. São eles que penetram a sua sabedoria e o seu projeto (Mt 11, 25- 26). Foi da experiência dos pobres que nasceu a religião de Javé, o Deus que liberta da exploração e da opressão e dá a liberdade e a vida” Storniolo, Ivo, Como ler o Livro de Jó, Série como ler a Bíblia, ed. Edições Paulinas.

Por isso é espantoso a abordagem seguinte de um Pr. evangélico:

“Encontramos o Senhor nos necessitados, solitários, frustrados, oprimidos, enfermos e perturbados. Paulo nos ensina estas grandes verdades em Colossenses 3. 23, 24” Pr. Valdinei Fernandes Gomes da Silva, comentarista da revista Jovens e Adultos, revista dominical para Professor, Epístola de Judas, ed. Betel – 3º Trimestre de 2007, ano 18, nº 64, Pág 07.

É no mínimo estranho que seguimentos do meio evangélico esteja entrando pelo mesmo caminho que até pouco tempo protestavam ser errôneo.

O que disse Paulo aos Colossenses? “E, tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens…” ( Cl 3:23 ), ou seja, este versículo não apóia a argumentação de que encontramos o Senhor nos desprovidos de bens materiais desta vida.

Paulo estava instruindo os servos (escravos) que se converteram a Cristo a permanecerem desempenhando o seu serviço aos seus senhores, embora fossem livres em Cristo ( Cl 3:22 ). A mensagem de Paulo demonstra aos seus ouvintes que, em Cristo não há diferenças sociais, ou seja, todos são filhos de Deus pela fé em Cristo “Desta forma não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho ou fêmea, pois todos vós sois um em Cristo” ( Gl 3:28 ).

Porém, a mensagem do evangelho poderia ser mal interpretada, e Paulo alerta aos cristãos que eram escravos a submeterem-se aos seus senhores. Embora não haja distinção entre os homens na igreja de Deus, na sociedade existem diferenças. À época de Paulo havia uma distinção nítida entre servos e livres, gregos e judeus, e enquanto os cristãos estivessem convivendo em sociedade, estas diferenças deveriam e devem ser observadas.

Todos cristãos devem se portar de forma que não deem escândalos nem a gregos, nem a judeus e nem a igreja de Deus ( 1Co 10:32 ). O evangelho não é causa de revoltas ou transformações sociais, embora tenha influenciado as relações sociais no transcorrer dos séculos. A abordagem de Paulo aos Colossenses deve ser vista sob a ótica do versículo seguinte: “Assim cada um ande como Deus lhe repartiu, cada um como o Senhor o chamou. É o que ordeno em todas a igreja (…) Cada um permaneça na situação em que estava quando foi chamado” ( 1Co 7:17 -24).

A citações de Mateus 25: 31- 46 também não dá sustentação à ideia de que encontramos o Senhor nos perturbados e frustrados.

O que Jesus ensinou em particular aos discípulos sobre o monte das Oliveiras tem a ver com o julgamento das nações, e não com os pobres deste mundo.

Observe que Jesus virá em glória com os seus santos anjos para se assentar sobre um trono de glória. Ele reunirá todas as nações diante dele, e fará uma seleção como o pastor faz entre bodes e ovelhas ( Mt 25:31-32).

Jesus, na sua vinda em glória assumirá a posição de Rei, pois esta será a palavra do Rei: “Vinde, benditos de meu Pai, possui por herança o reino que vos esta preparado desde a fundação do mundo” ( Mt 25:34 ).

A base do julgamento das nações que serão reunidas diante do Rei será o tratamento que dispensaram aos Seus pequeninos irmãos ( Mt 25:40 ). O julgamento daqueles que não entrarão no reino eterno se dará pela omissão “Em verdade vos digo que, todas as vezes que deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” ( Mt 25:45 ).

Resta a pergunta: encontramos o Senhor nos pobres deste mundo, ou através da revelação do evangelho?

O alerta de Paulo permanece:

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” ( Gl 1:8 )

 

16 Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós,

Os argumentos apresentados por Paulo em defesa da justificação pela fé, desde o verso 1 ao verso 15 deste capítulo, é concluído a partir deste versículo: “Portanto, é pela fé…” (v. 16).

Na conclusão Paulo apresenta o propósito de a justificação ser somente alcançada pela fé, e não pelas obras da lei:

1º) A justificação é pela fé, para que seja segundo a graça, ou seja, se fosse possível aos homens executar as obras da lei, a justificação seria:

A) uma dívida de Deus para com os homens ( Rm 4:4 ), o que é inadmissível, e;
B) impossível de ser alcançada, visto que a natureza da lei difere da natureza dos homens ( Rm 7:14 );

2º) A justificação é pela fé para que a promessa seja firme a toda posteridade de Abraão. Quando a Escritura (V. T.) diz que a promessa é para a posteridade, ela estava incluindo todos os que cressem. A promessa é para todos que tenham a mesma fé que teve o pai Abraão, que é pai daqueles que tem fé em Deus.

3º) A justificação é pela fé por causa da fidelidade de Deus que não faz acepção de pessoas. Todos quantos têm a mesma fé que teve o crente Abraão (judeus e gentios), são justificados. Como a Bíblia dá testemunho de que Deus justificou Abraão pela fé, todos quantos tem fé em Deus por meio de Jesus, também são justificados.

A promessa de Deus é firme, pois centra-se em seu poder e fidelidade. Ela foi firme a Abraão, visto que Abraão nada fez, e Deus lhe concedeu a promessa. Abraão nem mesmo havia saído do meio de sua parentela, e a promessa já tinha sido estabelecida ( Gn 12:2 -3).

Primeiro veio a promessa de Deus, e logo após, Abraão saiu de sua parentela. Observe que não há como ter fé, sem antes ter uma promessa. Deus prometeu uma descendência a Abraão impossível de contar, como é o caso das estrelas no céu, e mesmo sendo a sua mulher estéril, ele creu. A fé só é possível após a promessa ( Gn 15:6 )!

A justificação é pela fé, pois se fundamenta no poder de Deus (Evangelho), unicamente Deus é poderoso para justificar o homem ( Mc 2:10 ). Muitos consideram que a justificação é mediante um ato judicial de Deus, porém, a Bíblia nos demonstra que ela é uma ato de poder “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem poder para perdoar pecados (disse ao paralítico): A ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para a tua casa” ( Mc 2:10 -11).

 

17 (Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem.

Paulo demonstra que a colocação de que Abraão é ‘pai de todos nós’ é segundo o que foi predito na Escritura (Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí).

Como Abraão é pai de muitas nações, e foi Deus que o constituiu por pai, a promessa feita a Abraão é firme a toda à sua descendência. A Promessa é firme, e foi em Deus que Abraão creu, ou seja, ele creu naquele que dá vida aos mortos; Deus chama a existência as coisas que não são como se já existissem, ou seja, quando se crê em Deus que prometeu, se crê em Deus, e não naquilo que foi prometido. Pois muitas das vezes, o que foi prometido ainda não existe, mas Deus é poderoso para trazer a existência o que prometeu. Isto é crer contra a esperança!

 

18 O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência.

A fé de Abraão estava em Deus que prometeu (em esperança), que a sua crença não levou em conta o fato de ter que sacrificar o seu único filho, de onde seria proveniente a sua descendência (creu contra a esperança). A primeira esperança refere-se a confiança na promessa de Deus, e a segunda esperança diz de Isaque, a esperança de descendência.

Não há como negar a fé de Abraão, visto que ele se tornou pai de muitas nações. A fé de Abraão é evidente, pois Deus fez a ele conforme foi dito: Assim será a tua descendência!

 

19 E não enfraquecendo na fé, não atentou para o seu próprio corpo já amortecido, pois era já de quase cem anos, nem tampouco para o amortecimento do ventre de Sara.

Haviam alguns elementos na vida de Abraão que poderia levá-lo a fraquejar na fé.

Abraão não se fixou em seu corpo, já amortecido, e tampouco no amortecimento do ventre de sua mulher. Abraão e sua mulher constituíam de per si impedimentos por demais à esperança do patriarca, o que poderia influenciar a sua fé.

 

20 E não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus,

A incredulidade surge depois que o homem tomou conhecimento da promessa e a rejeita. Não há como ser incrédulo antes de ser cientificado da promessa.

Abraão não duvidou, antes foi fortificado na fé! O que quer dizer ser fortificado na fé? Não olhar para as impossibilidades humanas, e sim, para o poder de Deus “No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” ( Ef 6:10 ).

Um exemplo claro do que é ser fortificado na fé é descrito nos versos seguintes: “Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” ( Ef 1:18 -20).

Após os cristãos serem inteirados sobre a esperança da vocação, quais as riquezas da herança de Deus nos santos e a grandeza do poder que operou sobre os cristãos, tudo por ter crido em Cristo. Se restar alguma dúvida, o cristão deve olhar para o Cristo ressurreto, pois o mesmo poder que foi manifesto em Cristo para ressurreição, opera agora sobre o cristão para a salvação.

Quando o cristão crê em Deus, Deus opera o prometido. O resultado daquilo que Deus realiza se constituí em glória ao seu poder e glória “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo” ( Ef 1:11 -12). Aquele que espera em Cristo, permite que Deus faça todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade em sua vida e passa a se constituir em louvor de sua glória.

 

21 E estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer.

Estar certíssimo de que Deus é poderoso para realizar é o estar fortalecido na fé.

 

22 Assim isso lhe foi também imputado como justiça.

A fé que Abraão exerceu em Deus tinha em vista o prometido: ser pai de muitas nações. Porém, diante da certeza de Abraão (fortificado na fé), a fé que era para ser pai das nações também serviu-lhe para justificação, ou seja, lhe foi também imputado como justiça.

Se a fé de Abraão alcançou a condição de pai de muitas nações, esta mesma fé é base para a salvação. Caso Deus houvesse somente prometido salvação, a fé de Abraão em alcançar ser pai de muitas nações era suficiente para Deus salvá-lo.

Observe que, quando o homem crê em Jesus, Ele concede o que a fé alcançou e o perdão dos pecados ( Mt 8:1 -9).

 

23 Ora, não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta,

O versículo que consta do livro de Gênesis: “Creu Abrão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” ( Gn 15:6 ), não está registrado simplesmente para relatar o que aconteceu com Abrão, visto que, o fato de ele ter crido em Deus é algo pessoal. Antes, foi registrado que a justificação de Abrão foi pela fé, por causa de todos que creem em Deus que ressuscitou a Cristo.

 

24 Mas também por nós, a quem será tomado em conta, os que cremos naquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus nosso Senhor;

Os cristão creem em Deus que ressuscitou a Cristo dentre os mortos, e são justificados pela fé tal qual foi o pai Abraão. O que a Escritura diz acerca de Abraão, foi registrado para que os cristãos se informassem deste importante evento com os patriarcas, e que agora, em Cristo, o descendente, tornaram-se participantes.

 

25 O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação.

Por causa do pecado da humanidade Jesus foi entregue, para que todos os que creem n’Ele se conformem com Ele na morte. A sentença que diz: “A alma que pecar, esta mesmo morrerá”, ou “O culpado não será tido por inocente” é cumprida quando os que creem tomam cada uma a sua cruz, e seguem após Cristo.

Estes são mortos e sepultados a semelhança de Cristo ( Rm 6:3 e 8).

Porém, Jesus ressurgiu para a justificação daqueles que creem. Como o cristão morre com Cristo, ele também ressurge com Cristo dentre os mortos, para glória de Deus Pai. Este novo homem criado em Cristo é declarado justo pelo poder de Deus ( Cl 3:1 ). Esta é a base da justificação: o poder de Deus manifesto em Cristo e naqueles que creem ( Ef 1:19 -20).




Judas – Defesa da fé

Judas sentiu a necessidade de concitar os cristãos a batalharem pela fé, ou seja, a lutarem em defesa da doutrina do evangelho (Filipenses 1.27), tendo em vista que algumas pessoas, que se diziam cristãs, estavam transtornando a mensagem do evangelho.


Judas em defesa da fé

“JUDAS, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo: Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados”(Judas 1.1)

 

Apresentação

Judas se apresenta aos destinatários da carta como servo (δοῦλος – doulos) de Cristo e irmão de Tiago.

Ambos, Judas e Tiago, eram filhos de José e Maria, e, por sua vez, irmãos de Cristo segundo a carne por parte de Maria.

“Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas?” (Mateus 13.55).

Na apresentação fica evidente que Judas, apesar de ser irmão de sangue de Jesus, não se considerava privilegiado em relação aos demais cristãos quanto à salvação, pois a salvação em Cristo é comum a todos quantos crerem em Cristo como Senhor.

“À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:” (1 Coríntios 1.2).

Observe que o crente Judas não se arroga no direito de escrever aos cristãos na condição de apóstolo de Cristo, embora reunisse em si todas as condições necessárias para fazê-lo, pois ele viu Jesus em carne. Mas, como não figura no rol dos doze discípulos escolhidos por Jesus (Mateus 9.1-4), Judas não se apresenta como apóstolo. Apesar de ser irmão de Jesus, com vínculo de sangue por causa de Maria, Judas demonstra através desta apresentação que se submeteu ao senhorio de Jesus Cristo como todos os demais cristãos.

“Judas, servo de Jesus Cristo…” (v. 1).

Foi na condição de servo obediente a Cristo que Judas escreveu aos cristãos (chamados), ou seja, àqueles que ouviram a mensagem do evangelho e creram. Através da mensagem do evangelho os cristãos foram chamados para serem propriedade (pertencerem) peculiar de Deus.

“Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Romanos 1:6).

Os cristãos estavam em Deus (1 João 3.24; 4.16), portanto, sobre a proteção do amor (cuidado) do Pai, e em Cristo Jesus guardados.

“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3.3; 1 Pedro 1.5; Romanos 1.6; Êxodo 16.5).

 

Santos em Cristo

Toda e qualquer pessoa que ouve, crê e confessa a essência do evangelho são santos (2 Coríntios 1.1), pois o evangelho é água limpa que purifica o homem (Atos 26.18; João 15.3). Por ‘santificado’, ‘santo’ entende-se ‘separado’, uma propriedade para uso exclusivo de Deus. Por pertencer a Deus os cristãos são nomeados ‘santos’.

“E ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou santo, e vos separei dos povos, para serdes meus” (Levítico 20.26);

“Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Romanos 1.6).

O nome ‘santo’ decorre única e exclusivamente da condição da nova criatura, que está ’em Cristo’. Ser santo não decorre de questões morais ou de caráter (Romanos 1.7). O cristão alcançou a santificação ao crer em Cristo, mas como ocorre a santificação?

Nas Boas Novas de salvação há um convite, um chamado, e em função deste convite é dito que muitos são ‘chamados’. Mas, como são poucos os que atendem o ‘chamado’, é dito que poucos são escolhidos. A ordem ‘entrai’ pela porta estreita é direcionado a todos os homens, mas são poucos os que a encontram, ou seja, os que encontram a porta estreita são os escolhidos.

“Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos (Mateus 22.14; 7.13-14; 1 Coríntios 1.26);

“Esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão.” (Salmos 118.20).

Observe que Cristo é a porta do Senhor, mas quem entra por Cristo é justo. ‘Escolhido’ e ‘justo’ são designações pertinentes a quem entrou por Cristo, e não uma seleção de quem entrará, ou que só quem já é justo entra por Cristo.

Os cristãos foram chamados quando evangelizados, e se tornaram escolhidos quando creram na mensagem do evangelho. No entanto, a Bíblia apresenta um outro chamado, que é diferente da ordem para entrar por Cristo, a porta estreita. Com relação ao convite do evangelho muitos são chamados, mas aqueles que estão em Cristo todos são designados ‘escolhidos’, ‘chamados’, ‘eleitos’.

Todos os salvos são nomeados ‘chamados’, ‘escolhidos’ e ‘eleitos’ em vista da vocação em Cristo, pois todos em Cristo são eleitos e predestinados. Cristo é o eleito de Deus, e os cristãos, por serem geração de Cristo, são santos e irrepreensíveis (Efésios 1.4). Por causa da vocação em Cristo, todos os salvos estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, objetivando a primogenitura de Cristo, pois Ele é e será o primogênito entre muitos irmãos.

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8.29).

Os que são ‘chamados’, ou seja, aqueles que ouvem a mensagem do evangelho (poder de Deus) e creem (escolhidos), recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus. Agora, na condição de salvos em Cristo, todos são chamados com santa vocação segundo o eterno propósito de Deus: a preeminência de Cristo em todas as coisas. Para salvação tem-se o evangelho, para o propósito estabelecido em Cristo, temos a eleição e a predestinação (João 1.12; 2 Timóteo 1.8-9; Efésios 3.11).

A nova criatura proveniente do poder criativo de Deus pertence exclusivamente a Deus (Efésios 4.24; 2 Coríntios 5.17), diferentemente da velha criatura, que é proveniente da semente corruptível de Adão e que pertence ao pecado. Como a nova criatura proveniente da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é gerada em verdadeira justiça e santidade, agora, ela é designada ‘santa’, ‘irrepreensível’ (1 Pedro 1.23; Efésios 4.24).

A raiz da qual se origina a palavra ‘santificados’, e outras correlatas, é proveniente do vocábulo grego “hágios”, que na tradução do grego significa ‘o sublime’, ‘o consagrado’, ‘o venerável’, sem qualquer referência às questões de ordem moral ou comportamental. O termo ‘hágios’ aponta especificamente para questões de ordem funcional, pois entre os gregos tudo era definido pela função[1].

Quando o ‘servo’ de Jesus, Judas, nomeou os cristãos de ‘santos’, utilizou a raiz do vocábulo grego ‘hagios’, para enfatizar que os cristãos são propriedade de Deus, por pertencerem a Deus são verdadeiramente e inteiramente santos. Os cristãos, por serem gerados de novo, criados segundo a palavra da verdade e participantes da natureza divina (2 Pedro 1.4), são declarados santos porque Deus os separou por Seu.

Assim como os cristãos são nomeados ‘santos’, também são nomeados ‘primícias’ e ‘primogênitos’, porque funcionalmente são propriedades do Senhor. Nomear os cristãos de ‘primícias’ e ‘primogênitos’ são hebraísmo, que remetem a propriedade.

“À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hebreus 12.23);

“Mas o primogênito de um animal, por já ser do SENHOR ninguém o santificará; seja boi ou gado miúdo, do SENHOR é” (Levítico 27.26);

“Porque meu é todo o primogênito entre os filhos de Israel, entre os homens e entre os animais; no dia em que, na terra do Egito, feri a todo o primogênito, os santifiquei para mim (Números 8.17).

Em momento algum a santificação é apresentada na Bíblia como gradual ou processual. A ideia de que a santificação é processual decorre do trabalho e do entendimento de alguns lexicógrafos, que ao longo dos anos ‘amalgamaram’ ao termo ‘hagios’ a ideia de que santo é ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’, sendo que esta não era a proposta dos apóstolos.

Para ser salvo basta ao homem crer na mensagem do evangelho, a graça de Deus que é ofertada através da revelação de Cristo Jesus aos homens, e é Deus que opera o milagre da Regeneração, a sua obra perfeita, visto que, para ser salvo é necessário nascer de novo (João 6.29).

Desta forma, segue-se que os de novo nascidos segundo a semente de Deus são guardados em Jesus Cristo, como bem demonstrou o apóstolo Paulo:

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá” (1 Pedro 5.10).

É Deus quem chama os cristãos à sua eterna glória por intermédio do evangelho de Cristo, e Ele mesmo há de conservá-los irrepreensíveis até a vinda de Cristo (1 Tessalonicenses 5.23-24).

 

Saudação

Quando o irmão Judas saudou os cristãos nos mesmos moldes que os apóstolos, ele o fez confiado em Deus que multiplica misericórdia, paz e amor. Após se identificar, Judas identifica os destinatários da carta como ‘chamados’, e os saúda com a misericórdia, a paz e o amor de Deus (v.2).

“A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Romanos 1.7).

A misericórdia (prover de bem a quem merecia o mal), a paz (comunhão com Deus) e o amor (o cuidado de Deus) decorrem do evangelho de Cristo. Quando Judas solicita a Deus que benesses se multipliquem, ele tem em mente a mesma oração do apóstolo Paulo:

“E oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” (Efésios 3.18).

O amor de Cristo já foi derramado sobre os cristãos em misericórdia, paz e amor, porém, é necessário compreender qual a dimensão deste amor. A compreensão revelará quais foram as benesses concedidas sem medida.

 

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 1.2-4)

Este verso demonstra que a epístola de Judas é fruto de uma necessidade, e não de mera frivolidade. Judas envidou todo esforço para escrever está epístola acerca da salvação que todos haviam alcançado, mas ao perceber que havia algumas pessoas mal-intencionadas infiltradas entre os cristãos, teve por necessidade exortar os cristãos a defenderem o evangelho.

Ao perceber que alguns homens ímpios estavam dissimuladamente introduzindo na comunidade cristã heresias de perdição, Judas viu o quanto era necessário concitar os cristãos a batalharem pela ‘fé’, ou seja, a se engajarem na luta pela doutrina do evangelho.

Estes indivíduos se introduziram em meio aos que professavam o evangelho e ensinavam doutrinas provenientes de uma concepção carnal, pois pervertiam a graça de Deus ao negar que Jesus era o Cristo. Judas descreve esses homens como ímpios, cuja atuação foi prevista no passado: perverter a graça de Deus em dissoluções, negando a essência da fé: Jesus Cristo Soberano Senhor (2 Pedro 2.1-2).

“Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” (Atos 2.36).

Não podemos confundir o ajuntamento solene de pessoas, onde os ímpios também podem comparecer, com a Igreja de Cristo, que é formada somente por aqueles que efetivamente são membros do corpo de Cristo. Para fazer parte do corpo de Cristo como membro é necessário comungar da fé (doutrina) dos apóstolos: crer que Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos e confessar a Cristo como Senhor (Romanos 10.9).

Os homens somente se tornam membros da igreja de Cristo quando batizados em um só espírito, ou seja, nas palavras de Cristo que são espírito e vida (João 6.63). É possível que haja heresias, mas jamais o corpo de Cristo, a Igreja de Deus, será maculado, pois, só é membro do corpo o batizado no único e verdadeiro batismo: batismo na morte de Cristo (Efésios 4.4 -6; Romanos 6.3; 1 Coríntios 12.13).

A exortação no início da epístola de Judas remete à recomendação do apóstolo Paulo aos Filipenses:

“O que é mais importante, deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo. Então, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais firmes em um mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” (Filipenses 1.27).

 

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 1.4)

 

Ímpios

Os homens que dissimuladamente se introduziram na comunidade cristã negavam a Cristo, único Soberano e Senhor, são nomeados ‘ímpios’. Eles procuravam transtornar o evangelho ao impor as suas sujidades (doutrinas de engano). Quando Judas fez alusão aos ímpios, não estava se referindo aos descrentes, mas aqueles que se diziam irmãos e eram devassos.

“Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” (1 Coríntios 5.10-11).

A partir do momento que se iniciou a proclamação do evangelho aos povos, os seguidores de Jesus foram perseguidos e confrontados pelos judaizantes. Em um primeiro momento, os cristãos foram confrontados pelos judaizantes, ao imporem a necessidade de os cristãos convertidos dentre os gentios se circuncidarem segundo a lei de Moisés (Atos 15.1), embora Jesus e os apóstolos não tenham dado mandamento algum neste sentido.

“Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento” (Atos 15.24).

Os judaizantes queriam introduzir no evangelho elementos da lei mosaica, ou seja, deitar fermento à massa dos ázimos da sinceridade (evangelho), quando concitavam os cristãos a se circuncidarem. O apóstolo Paulo, porém, alerta que tal apelo é fruto de um outro evangelho (Gálatas 1.6-7), e que tal chamado não é proveniente de Cristo (Gálatas 5.8), e que estes homens queriam submeter novamente os cristãos à escravidão.

“Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” (1 Coríntios 5.7-8);

“Um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gálatas 5.9).

Os judaizantes negavam a eficácia da obra de Cristo, uma vez que, para se salvar, os cristãos convertidos dentre os gentios precisavam adotar práticas da lei, dentre elas a circuncisão do prepúcio da carne. Para ser salvo é suficiente crer que Jesus é o Filho de Deus, uma vez que, a salvação não está em ser descendente da carne de Abraão e nem em se tornar um prosélito (Gálatas 5.13).

Jesus alertou: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.” (Mateus 10.37), ou seja, quem dá mais valor à sua descendência ou nação não é digno de Cristo. O apóstolo Paulo deixou claro que, para ganhar a Cristo, abriu mão de todo conhecimento e práticas judaicas que, por tradição, herdou dos seus (Filipenses 3.4; Romanos 9.3).

Os ‘infiltrados’ entre os cristãos são descritos como transtornadores (perverter) da graça que se revela em Cristo Jesus, o único Soberano e Senhor. Como? Negando-O como Soberano Senhor, ou seja, contrariando o testemunho das Escrituras:

“Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro” (Isaías 8.13; 1 Pedro 3.15).

Temos na epístola de Judas uma confissão da deidade de Cristo, pois o próprio irmão de Jesus segundo a carne se refere a Cristo como Soberano Senhor, em consonância com o anunciado pelos profetas na Antiga Aliança: Deus conosco, nosso Salvador (Romanos 10.9).

O intuito dos que desejavam transtornar o evangelho de Cristo é flagrante ação do anticristo, visto que, a ação do anticristo é negar que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Filho do Deus vivo, negativa que compromete a verdade do evangelho.

“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2.22).

O apóstolo João chama os ‘infiltrados’ de anticristos porque negavam a Jesus como Senhor e Cristo (1 João 2.22-23).

Judas adverte que as Escrituras já haviam previsto que haveria tais homens ímpios, e nos versos 5 à 6 demonstra onde tal predição se encontra nas Escritura. Assim como o apóstolo Paulo entendia que tudo o que consta nas Escrituras foi deixado para o ensino dos cristãos, Judas demonstra, através da história de Israel, que em meio aos cristãos também haveria enganadores (2 Pedro 2.1).

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” (Romanos 15.4).

A sentença dos que rejeitam a verdade (não creem) foi prevista há muito tempo: destruição. Os que odeiam a Deus, ou seja, que não guardam o seu mandamento, estão destinados à perdição, pois permanecem na iniquidade.

“Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êxodo 20.5-6; Salmos 81.11-12).

Quando Moisés rogou a Deus para perdoar o pecado do povo de Israel por fazerem um bezerro de ouro, foi dito por Deus: “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” (Êxodo 32.33), dando a entender o que foi anunciado posteriormente pelo profeta Ezequiel: ‘A alma que pecar, esta mesma morrerá’.

“Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18.4).

Embora Deus tenha dado ordem a Moisés para conduzir o povo de Israel pelo deserto, mais tarde foram destruídos no deserto, entrando somente dois dos que saíram do Egito na terra prometida, porque Deus disse: “porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado” (Êxodo 32.33), ou seja, nesta palavra estava predito a destruição dos que não creram.

“Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” (Êxodo 32.34-35).

Ora, rejeitar a Cristo como Senhor é causa de eterna perdição (2 Tessalonicenses 1.8-9), o que também foi predito pelos profetas acerca dos líderes de Israel, como se lê:

“A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” (Salmos 118.22);

“Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Isaías 8.14).

Há muito tempo estava previsto, por boca dos profetas, que aqueles que rejeitassem a verdade seriam passíveis de destruição, leitura semelhante a que foi feita pelo apóstolo Pedro:

“E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina, e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados (1 Pedro 2.7-8). Compare:

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo…” (Judas 1.4).

Na segunda carta do apóstolo Pedro é feito alusão aos mesmos homens ímpios que se infiltraram em meio aos cristãos:

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita (2 Pedro 2.1 -2).

A sentença de destruição sobre os filhos de Jacó é enfatizada pelos escritores do Novo Testamento todas as vezes que apresentam o povo de Israel como exemplo de desobediência. 

 

“Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno” (Judas 1.5).

 

Exemplos de incredulidade

Embora os cristãos já soubessem da necessidade de estarem engajados na defesa da verdade do evangelho, Judas escreveu para trazer à lembrança algo que já sabiam: o que ocorreu com o povo que foi tirado do Egito (Judas 1.5; Filipenses 3.1; Hebreus 3.14).

Para relembrá-los da necessidade de perseverarem firme no evangelho (fé que foi dada aos santos), Judas apresenta três questões pertinentes aos filhos de Israel que saíram do Egito:

  1. a) a destruição dos que não creram após o povo de Israel ser resgatado do Egito (v. 5; Hebreus 4.11);
  2. b) e os anjos que não guardaram a sua posição, estão na escuridão e em cadeias até o dia do juízo (v. 6), e;
  3. c) os que não creram e foram destruídos são comparados aos habitantes das cidades de Sodoma e Gomorra, e cidades adjacentes, que se entregaram a prostituição, são exemplo de punição (v. 7).

O Senhor Jesus, àquele que os homens ímpios estavam negando, é o mesmo Senhor que resgatou o povo de Israel da escravidão no Egito, mas escondeu o Seu rosto deles.

“E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1 Coríntios 10.4).

Por causa da incredulidade dos filhos de Israel, o Senhor, que os resgatou do Egito, escondeu o Seu rosto deles.

“E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade” (Deuteronômio 32.20).

O profeta Isaías, ao falar da salvação, aponta para o Senhor que esconde o seu rosto da casa de Jacó, pois o resplendor da glória de Cristo é a misericórdia de Deus manifesta aos homens.

“E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” (Isaías 8.17);

“O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti” (Números 6.25);

“Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4.6; Salmos 80.3).

Através desta pequena alusão à desobediência do povo de Israel, Judas trouxe à memória dos irmãos uma lição que eles já haviam aprendido (v. 5). Uma lição que o escritor aos Hebreus também enfatiza:

“Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” (Hebreus 4.2).

Sobre o resgate de Israel do Egito e os que foram destruídos no deserto, podemos nos socorrer dos ensinamentos do apóstolo Paulo. Embora tenha sido resgatado do Egito um povo, nem todos eram israelitas de fato “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas” (Romanos 9.6). Da mesma forma, nem todos que se apresentavam na assembleia solene dos santos eram verdadeiramente membros do corpo de Cristo.

Os que pereceram no deserto eram descendentes da carne de Abraão, porém, pela incredulidade que havia neles, não eram contados como filhos de Abraão. Na condição de descendentes da carne de Abraão foram resgatados do Egito, porém, por não terem a mesma fé que o crente Abraão, não foram contados como filhos de Deus.

Através desta pequena referência a Israel, Judas esperava que os cristãos considerassem que Deus resgatou Israel da escravidão do Egito transtornando os pensamentos de Faraó para tornar conhecido o seu nome em toda a terra, e cumprir a palavra dada aos pais: Abraão, Isaque e Jacó. Deus fez de Israel sua propriedade particular dentre todos os povos da terra.

“Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Êxodo 9.16).

Embora saiu do Egito um povo livre da escravidão do Egito, contudo, cada membro do povo de Israel, em particular, ainda era prisioneiro do pecado, pois não confiavam verdadeiramente em Deus (Deuteronômio 9.4 e 6). Tomando Israel como exemplo, os cristãos deveriam considerar que, para serem participantes do corpo de Cristo, é imprescindível crer na verdade do evangelho e permanecer no evangelho (Colossenses 2.7).

Da mesma forma que foram destruídos os descrentes dentre o povo de Israel, visto que somente dois homens entraram na terra prometida (Números 26.65), os ímpios à época de Judas igualmente haveriam de ser destruídos por não crerem em Cristo (1 Pedro 4.17; Romanos 2.8).

Os filhos de Israel não eram salvos porque pesava sobre eles a condenação proveniente de nascimento segundo a maldição que há na semente corruptível de Adão (Salmos 53.3; Salmos 58.3). A circuncisão do prepúcio da carne não livrava os filhos de Jacó da condenação herdada de Adão. Somente quando circuncidassem o prepúcio do coração estariam livres do pecado, o que é realizado por Deus, sem auxílio de mãos humanas (Colossenses 2.11).

O irmão Judas propôs reavivar na lembrança dos cristãos um conhecimento que já dispunham, pois amplamente era lido nas Escrituras o que ocorreu com os desobedientes de Israel. O exemplo de desobediência dos filhos de Israel é apresentado aos cristãos para não incorrerem no mesmo erro:

“Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram (…) Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” (Hebreus 4.1-2 e11).

O apóstolo Paulo também faz referência a Israel como exemplo negativo:

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. E não nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Coríntios 10.6-11).

 

Anjos ou mensageiros

O termo traduzido por ‘anjo’ no Novo Testamento é ἄγγελος (ággelos), que pode fazer referência a um mensageiro (homem) ou a um ser celestial (anjo). É consenso que somente o contexto onde o termo ἄγγελος é empregado possibilita determinar se o termo faz referência a um mensageiro humano (profeta) ou a um ser celestial.

Por exemplo, temos João Batista, um mensageiro humano, e o termo ἀγγέλους (ággelos) é empregado quando da citação do profeta Malaquias:

“João é aquele de quem está escrito: Adiante da tua face envio o meu anjo, que preparará diante de ti o teu caminho” (Mateus 11.10; Malaquias 3.1).

O termo também é empregado para um ser celestial, conforme demonstra o contexto:

“E um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do incenso.” (Lucas 1.11).

Em razão do uso do termo ‘ággelos’ ser comum a homens e anjos, destacando-lhes a missão de mensageiros, se faz indispensável para a leitura e compressão do verso 6, de Judas, compreender o contexto.

“E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;” (v. 6).

Consideremos o Salmo 78, que contém um resumo da história de Israel:

“Porque ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e pôs uma lei em Israel, a qual deu aos nossos pais para que a fizessem conhecer a seus filhos. Para que a geração vindoura a soubesse, os filhos que nascessem, os quais se levantassem e a contassem a seus filhos; Para que pusessem em Deus a sua esperança, e se não esquecessem das obras de Deus, mas guardassem os seus mandamentos” ( Sl 78:5 ).

Qual era o encargo de cada membro do povo de Israel? Tinham que relatar aos seus filhos o que Deus havia feito para com os pais, de modo que os filhos que nascessem contassem aos seus filhos, e assim por diante. Considerando a ordem de Deus, todos em Israel eram mensageiros de Deus, comissionados a repassar aos seus filhos o testemunho estabelecido em Jacó.

“Tão-somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, que não te esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e não se apartem do teu coração todos os dias da tua vida; e as farás saber a teus filhos, e aos filhos de teus filhos.” (Deuteronômio 4.9).

No segundo livro das Crônicas dos reis de Israel ficou registrado o seguinte:

“E o SENHOR Deus de seus pais, falou-lhes constantemente por intermédio dos mensageiros, porque se compadeceu do seu povo e da sua habitação. Eles, porém, zombaram dos mensageiros de Deus, e desprezaram as suas palavras, e mofaram dos seus profetas; até que o furor do SENHOR tanto subiu contra o seu povo, que mais nenhum remédio houve” (2 Crônicas 36.15-16).

Sobre essa questão, afirmou o escritor aos Hebreus:

“HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo” (Hebreus 1.1-2).

Quem é o anjo que o Pregador alerta para não dizer que foi um erro?

“Não consintas que a tua boca faça pecar a tua carne, nem digas diante do anjo que foi erro; por que razão se iraria Deus contra a tua voz, e destruiria a obra das tuas mãos?” (Eclesiastes 5.6).

Pelo contexto, percebe-se que este anjo é um sacerdote, e não um ser celestial. Na verdade, ao instruir os filhos de Israel a atentarem mais para o que era ensinado no templo, do que se apressar e fazer um voto, ou oferecer um sacrifício, que o ofertante não tinha condições de pagar ou cumprir (Eclesiastes 5.1-5), e depois, comparecer diante do sacerdote e dizer que foi um erro ao votar o que não tinha como cumprir (Eclesiastes 5.7; 1 Samuel 15.22).

É sabido que Deus é a habitação de Israel:

“O Deus eterno é a tua habitação, e por baixo estão os braços eternos; e ele lançará o inimigo de diante de ti, e dirá: Destrói-o.” (Deuteronômio 33.27).

Mas, se os filhos de Israel se rebelassem, seriam rejeitados e destruídos:

“Também Deus te destruirá para sempre; arrebatar-te-á e arrancar-te-á da tua habitação, e desarraigar-te-á da terra dos viventes. (Selá.)” (Salmos 52.5).

É importante frisar, que o apóstolo Pedro, quando apresentou o povo de Israel como exemplo negativo, pois havia falsos profetas no meio do povo, ou acerca dos profetas que ministravam bênçãos que não era para os filhos de Israel, acaba fazendo uso do termo grego ‘ággelos’, comumente traduzido por seres celestiais (anjos):

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores (…) Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram…” (2 Pedro 2.1 e 4);

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” (1 Pedro 1.12).

Semelhantemente, o irmão Judas faz uso do termo ‘ággelos’ após fazer uma alusão negativa do povo de Israel:

“Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia” (Judas 1.6).

O escritor aos Hebreus também faz uso do termo ‘ággelos’ quando contrapôs a condição dos cristãos diante de Deus, e o exemplo negativo do povo de Israel quando se apresentou diante de Deus no monte Sinai que fumegava:

“Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos; À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados (…) Vede que não rejeiteis ao que fala; porque, se não escaparam aqueles que rejeitaram o que na terra os advertia, muito menos nós, se nos desviarmos daquele que é dos céus (Hebreus 12.22 -23 e 25).

O escritor aos Hebreus também utiliza o termo ‘ággelos’ bem no início da sua epístola:

“HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho (…) Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição…” (Hebreus 1.1 e Hebreus 2.2; Hebreus 10.28; Atos 7.53).

Em todos os versos citados acima é apresentado um anuncio grave de juízo e condenação para os desobedientes. Todos os versos apontam para uma mensagem anunciada pelos profetas de Deus, e que nenhuma das palavras anunciada por eles falhou.

“Que confirmo a palavra do seu servo, e cumpro o conselho dos seus mensageiros; que digo a Jerusalém: Tu serás habitada, e às cidades de Judá: Sereis edificadas, e eu levantarei as suas ruínas” (Isaías 44.26).

Observando a passagem do escritor aos Hebreus, somos informados de que Deus falou de muitas maneiras ao povo de Israel através dos profetas. Ora, os profetas eram mensageiros de Deus e toda palavra que eles anunciaram ao povo de Israel permaneceram firme, e toda transgressão e desobediência recebeu o justo juízo. A palavra falada que permaneceu firme era a palavra dos profetas ou a palavra de seres celestiais?

“Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição,” (Hebreus 2.2).

Pelo contexto, percebe-se que a palavra que permaneceu firme é a falada pelos profetas, sendo que o escritor aos Hebreus utilizou o termo ‘aggelos’ neste verso, e no verso 1, do capítulo 1 ‘prophētais’. O verso 2, do capítulo 2, da epístola aos Hebreus, retoma o que foi exposto no verso 1 do capítulo 1, portanto, o termo ‘ággelos’ (anjos) não se refere a seres celestiais, e sim aos santos profetas, os mensageiros de Deus que antigamente falaram aos pais.

A palavra que permaneceu firme não foi emitida por seres celestiais (Isaías 44.26), antes pelos profetas que falaram de muitas maneiras aos pais (Hebreus 1.1 e Hebreus 2.2), e a mesma mensagem, na plenitude dos tempos, foi notificada pelo Filho aos cristãos (Hebreus 2.3).

“Que confirmo a palavra do seu servo, e cumpro o conselho dos seus mensageiros; que digo a Jerusalém: Tu serás habitada, e às cidades de Judá: Sereis edificadas, e eu levantarei as suas ruínas;” (Isaías 44.26).

Quando escreveu aos Colossenses, o apóstolo Paulo faz referência a um ‘culto aos anjos’. O que seria esse culto? Sabemos que os judaizantes queriam dominar os cristãos com o pretexto de humildade e reverencia cerimonial (θρησκεία) aos anjos (ἀγγέλων), entretanto, verifica-se que os judeus reverenciavam os ‘profetas’, e por isso edificavam os túmulos dos profetas.

“Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão” (Colossenses 2.18);

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos,” (Mateus 23.29).

Se não considerarmos a passagem de Mateus e o fato de que o termo ‘aggelos’ aplica-se a profetas e seres celestiais, a primeira ideia é estabelecer que os judeus cultuavam seres celestiais, sendo que, na verdade, reverenciavam religiosamente os profetas da Antiga Aliança.

É corrente fazer a leitura do verso 12, de 1 Pedro, capítulo 1, como se os seres celestiais quisessem pregar o evangelho:

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar (1 Pedro 1.12).

Há uma grande diferença entre ‘pregar o evangelho’ e ‘atentar’, ou seja, perscrutar (olhar para dentro, compreender). Considerando o contexto, tem-se os profetas do Antigo Testamento que profetizavam acerca da graça do evangelho que seria dada aos gentios (1 Pedro 1.10), e eles indagavam e investigavam para saber acerca daquilo que anunciavam e quando tais coisas que o espírito de Cristo lhes revelava aconteceriam. Eles de antemão predisseram os sofrimentos de Cristo e a gloria que havia de suceder, porém, sabiam que tal glória não pertencia a eles, pois foi revelado a eles que o que anunciavam não lhes pertencia (1 Pedro 1.11-12).

Mas, a glória que os profetas do Antigo Testamento ministravam, e que agora era anunciada pelos apóstolos através do Espírito Santo aos cristãos, era o que os profetas, os mensageiros (ággelos) de Deus desejavam perscrutar, ou seja, entender, como que olhando para dentro. Ora, o contexto aponta para os profetas e não para seres celestiais. No entanto, a leitura de que anjos desejaram pregar o evangelho se sedimentou ao longo dos anos, o que promove grande prejuízo à compreensão dos cristãos.

Por causa dessas questões apontadas com relação ao termo ‘ággelos’, a leitura do verso 6 de Judas deve ser feita considerando o que foi dito pelo profeta Jeremias acerca dos profetas e dos sacerdotes contaminados, pois o caminho deles foi descrito como escorregadio na escuridão. Analisando os versos 9 em diante, do capítulo 23, de Jeremias, que aborda a questão dos profetas (mensageiros, anjos), a sequência de ideias utilizadas por Judas para falar da destruição dos filhos de Israel que saíram do Egito e não creram (v. 5), bem como dos ‘mensageiros’ que estão guardados em algemas para o dia da visitação (v. 6), que são comparados aos habitantes de Sodoma e Gomorra (v. 7), pois cometeram adultério e estão postos como exemplos, é semelhante a sequência de temas que são abordados na profecia do profeta Jeremias:

Quanto aos profetas: o meu coração está quebrantado dentro em mim (…) Porque tanto o profeta, como o sacerdote, estão contaminados; até na minha casa achei a sua maldade, diz o SENHOR. Portanto o seu caminho lhes será como lugares escorregadios na escuridão; serão empurrados, e cairão nele; porque trarei sobre eles mal, no ano da sua visitação, diz o SENHOR. Nos profetas de Samaria bem vi loucura; profetizavam da parte de Baal, e faziam errar o meu povo Israel. Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os seus moradores como Gomorra.” (Jeremias 23.9 e 11-14).

“Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição.” (Salmos 73.18).

Na profecia de Jeremias temos três pontos a destacar:

  1. Quanto aos profetas – os profetas de Israel eram os mensageiros, os anjos, postos por atalaias em Israel, mas que não guardaram a sua função, e deixaram o Senhor que os resgatou, portanto estão em lugares escorregadios na escuridão, preservados para o ano da visitação;
  2. Nos ministros de Samaria há loucura, mas nos de Jerusalém adultérios;
  3. São comparáveis as cidades de Sodoma e Gomorra.

Na abordagem de Judas, destacam-se três pontos:

  1. O povo de Israel foi resgatado do Egito, mas os que não creram foram destruídos;
  2. Dentre o remanescente que entrou na terra da promessa, os profetas que ficaram por atalaia (Isaias 56.10), não cumpriram com o seu dever (Miqueias 3.11), de modo que foram reservados na escuridão para o juízo do grande dia (Oseias 4.5; Oseias 9.7);
  3. De modo semelhante as cidades de Sodoma e Gomorra, esses que foram destinados à destruição praticaram imoralidades (prostituição), foram postos como exemplo de punição.

O profeta Jeremias anunciou o juízo de Deus sobre todos habitantes de Jerusalém, incluindo os reis, os príncipes, os sacerdotes e os profetas. Estes homens proeminentes em Israel são os ‘ággelos’ (mensageiros) que não guardaram a sua posição (principado).

“Mas tu dize-lhes: Assim diz o SENHOR: Eis que eu encherei de embriaguez a todos os habitantes desta terra, e aos reis da estirpe de Davi, que estão assentados sobre o seu trono, e aos sacerdotes, e aos profetas, e a todos os habitantes de Jerusalém” (Jeremias 13.13; Oseias 9.7-8).

O termo grego ἀρχή, transliterado ‘arché’, também possui o significado de chefe (acima de tudo), ou seja, diz de quem tem o primado porque está à frente do restante (“preeminente”), ou ‘principado’ (Judas 1.6). Como em algumas passagens bíblicas o termo ‘principado’ aplica-se aos seres celestiais, alguns teólogos consideraram que Judas, neste verso, estivesse tratando de anjos. Ora, não só os anjos exercem domínio, mas os homens também, cada qual em sua esfera de atribuição.

Como os filhos de Israel não deram ouvidos a voz de Deus, e os seus príncipes, profetas e sacerdotes não guardarem a sua posição (principado) e deixaram o Deus de Israel, ou seja, o local da sua habitação, o povo foi deportado segundo o juízo de Deus para Babilônia. Deixarem a própria morada (Deus) para juízo (deportação), o que dá um trocadilho, pois deixaram a própria terra quando foram deportados.

“O Deus eterno é a tua habitação, e por baixo estão os braços eternos; e ele lançará o inimigo de diante de ti, e dirá: Destrói-o” (Deuteronômio 33.27);

“Porque uma voz de pranto se ouviu de Sião: Como estamos arruinados! Estamos mui envergonhados, porque deixamos a terra, e por terem eles lançado fora as nossas moradas” (Jeremias 9.19).

Deus havia predito que haveria um grande dia de juízo, um dia de indignação, densas trevas e escuridão (Sofonias 1.15; Joel 2.2; Amós 518). De longa data Deus conclama os moradores de Jerusalém a se emendarem antes do grande e terrível dia.

“Dai glória ao SENHOR vosso Deus, antes que venha a escuridão e antes que tropecem vossos pés nos montes tenebrosos; antes que, esperando vós luz, ele a mude em sombra de morte, e a reduza à escuridão” (Jeremias 13.16).

Esta é a descrição da filha de Sião:

“Mas este é um povo roubado e saqueado; todos estão enlaçados em cavernas, e escondidos em cárceres; são postos por presa, e ninguém há que os livre; por despojo, e ninguém diz: Restitui” (Isaías 42.22).

“E serão ajuntados como presos numa masmorra, e serão encerrados num cárcere; e outra vez serão castigados depois de muitos dias” (Isaías 24.22).

O profeta Jeremias, ao confessar o pecado de Sião, assim descreve o resultado da ira de Deus:

“Assentou-me em lugares tenebrosos, como os que estavam mortos há muito. Cercou-me de uma sebe, e não posso sair; agravou os meus grilhões” (Lamentações 3.6-7).

O mesmo problema quanto ao uso do termo ‘ággelos’ ocorre na segunda carta do apóstolo Pedro:

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita. Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo;” (2 Pedro 2.1-4);

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo. Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;” (Judas 1.4-6).

Observe a semelhança de abordagem do apóstolo Pedro e Judas:

  1. Ambos demonstram que falsos doutores ou homens ímpios se introduziram na comunidade cristã:
  2. Houve falso profeta em meio ao povo de Israel, e dos que saíram do Egito foram destruídos os que não creram;
  3. Ambos demonstram que os falsos profetas ou homens ímpios negam a Cristo;
  4. Deus não perdoou os mensageiros que pecaram, da mesma forma que os mensageiros que não guardaram o seu principado estão reservados para a destruição.

Após exortar os cristãos a considerarem as palavras dos profetas, pois as profecias não foram produzidas pela vontade dos homens, o apóstolo Pedro destaca que os profetas falavam movidos pelo Espírito Santo (2 Pedro 1.19-21). Em seguida, o apóstolo Pedro destaca a problemática dos falsos doutores, lembrando aos cristãos que em meio ao povo de Israel também houve falsos profetas (2 Pedro 2.1).

Observe que o contexto não faz referência a seres celestiais, antes está focado em apresentar aos cristãos o povo de Israel como exemplo de desobediência e punição, posto que, para os falsos mestres o juízo já estava estabelecido (lavrado) (2 Pedro 2.3). Como a palavra das Escrituras é firme (2 Pedro 1.19), o apóstolo Pedro apresenta quatro exemplos, destacados pela partícula ‘se’:

  1. O juízo dos mensageiros que pecaram (2 Pedro 2.4);
  2. O juízo do mundo pré-diluviano (2 Pedro 2.5);
  3. O juízo de Sodoma e Gomorra (2 Pedro 2.6);
  4. O livramento do justo Ló (2 Pedro 2.7).

Após os quatros exemplos, segue uma conclusão: Deus livra os piedosos, mas reserva os injustos para o dia do juízo para serem castigados (2 Pedro 2.8; Jeremias 23.29-20).

Se há alguma dúvida com relação a abordagens de Judas e o apóstolo Pedro serem a mesma, estes versos são conclusivos:

“Mas principalmente aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia, e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades;” (2 Pedro 2.10);

“E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades.” (Judas 1.8).

Em seguida, Judas e o apóstolo Pedro faz alusão a seres angelicais:

“Enquanto os anjos, sendo maiores em força e poder, não pronunciam contra eles juízo blasfemo diante do Senhor.” (2 Pedro 2.11);

“Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda.” (Judas 1.9).

A abordagem de ambos, Judas e o apóstolo Pedro, deriva de uma passagem do profeta Zacarias, no entanto, Judas cita uma passagem que não consta do Canon conhecido. Supõe-se que Judas citou passagem do livro “A Assunção de Moisés”, um livro apócrifo que continha a narrativa sobre a disputa entre Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés, mencionado por Orígenes (c. 185-254), um estudioso e teólogo cristão primitivo. O livro judeu grego “A Assunção de Moisés” perdeu-se, e Orígenes supôs que esta era a fonte da narrativa em Judas.

“E ELE mostrou-me o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do anjo do SENHOR, e Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor. Mas o SENHOR disse a Satanás: O SENHOR te repreenda, ó Satanás, sim, o SENHOR, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?” (Zacarias 3.1-2).

Ora, os seres angelicais não fazem juízo difamador, mesmo com relação aos anjos caídos, como se verifica na passagem de Zacarias, mas os homens que Judas e o apóstolo Pedro estavam abordando em suas epístolas, blasfemavam do que não compreendiam (2 Pedro 2.12; Judas 1.10). Os falsos mestres são como os animais irracionais, que nascem para serem capturados e destruídos, ao que eles receberão pela injustiça a recompensa da injustiça (2 Pedro 2.12-13), e para eles está reservada a escuridão das trevas, pois são estrelas errantes.

“Ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações; estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas” (Judas 1.13);

“Estes são fontes sem água, nuvens levadas pela força do vento, para os quais a escuridão das trevas eternamente se reserva” (2 Pedro 2.17).

Ambos, o apóstolo Pedro e Judas se socorreram do profeta Isaías:

“Mas os ímpios são como o mar bravo, porque não se pode aquietar, e as suas águas lançam de si lama e lodo.” (Isaías 57.20).

O apóstolo Pedro contrapõe os falsos mestres em meio aos cristãos com os falsos profetas que haviam em meio ao povo de Israel (2 Pedro 2.1). Em seguida, após ser dito que o juízo dos falsos mestres já está estabelecido – ‘o juízo de a muito não tarda e a destruição não dorme’ (2 Pedro 2.3) -, dos mensageiros (ággelos) é dito que não foram poupados por Deus, ou seja, a ira de Deus já sobreveio sobre eles.

“Portanto o seu caminho lhes será como lugares escorregadios na escuridão; serão empurrados, e cairão nele; porque trarei sobre eles mal, no ano da sua visitação, diz o SENHOR (…) Eis que saiu com indignação a tempestade do SENHOR; e uma tempestade penosa cairá cruelmente sobre a cabeça dos ímpios.” (Jeremias 23.12 e 19).

Com relação aos seres celestiais que se rebelaram contra Deus é certo que não foram poupados, antes foram precipitados dos céus, e a eles está reservado o lago de fogo e enxofre.

“E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu” (Lucas 10.18);

“Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25.41).

É certo que o ‘lago de fogo e enxofre’ foi criado para todos os anjos que caíram, porém, Satanás e os demônios só serão lançados no lugar destinado a eles no fim dos tempos (Apocalipse 20.10), local que ainda será ‘inaugurado’ pela besta e o falso profeta (Apocalipse 19.20). Deste modo, certo é que no tempo presente não há nenhum ser celestial decaído (Satanás, demônios, diabos, etc.) que esteja preso no inferno.

A única notícia acerca de quando Satanás será preso, aponta para o início do reinado de Cristo antes do milênio.

“Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos” (Apocalipse 20.2).

A queda dos seres celestiais sujeitou a todos debaixo do pecado, e para eles não há resgate. Eles estão sob condenação, visto que não há como se livrarem do juízo estabelecido. Além da eterna condenação que Satanás trouxe sobre si e os seus seguidores, não logrou êxito na sua própria exaltação quando desejou estar acima dos outros anjos (Isaías 14.13). A queda de Lúcifer foi ilustrada como sendo conduzido à cova, o mais profundo do abismo: separação eterna de Deus (Isaías 14.15).

Embora o apóstolo Pedro tenha utilizado o termo ταρταρώσας[2] (tartaroó) para falar da punição dos mensageiros, não podemos pensar o termo do ponto de vista da mitologia grega, como se tratasse de uma região subterrânea, sombria e escura, habitação dos mortos, o local em que eram lançados os titãs e os gigantes que se rebelaram contra Zeus, e os malfeitores sofrem punição pelas suas más obras.

Se o apóstolo Pedro realmente fez referência aos seres celestiais que se rebelaram, pode-se considerar um exemplo de punição a queda dos anjos, visto que estão destinados à perdição eterna. Mas, considerando que o apóstolo Pedro não fez as suas exposições firmado em fábulas artificialmente compostas (2 Pedro 1.16), segue-se que as exposições não se firmam em questões mitológicas ou derivadas das tradições dos judeus.

“Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tito 1.14).

Neste sentido, para compreender esta passagem, não se deve lançar mão dos escritos apócrifos como os livros de Enoque, Baruque, Eclesiástico, Sabedoria, etc. As crendices judaicas, principalmente as crendices referentes aos anjos e os nomes a eles atribuídos fora do Canon, não deve ser levado em conta, pois não é essa a recomendação dos apóstolos Pedro e Paulo (2 Pedro 1.16; 1 Timóteo 1.4).

Percebe-se do evento miraculoso no qual o apóstolo Pedro é solto da prisão por um anjo, que os cristãos primitivos entenderam que quem batia à porta do recinto era o anjo de Pedro “E disseram-lhe: Estás fora de ti. Mas ela afirmava que assim era. E diziam: É o seu anjo” (Atos 12.15). Alguns dos discípulos, por sua vez, acreditavam em fantasmas, como se lê: “Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, cuidaram que era um fantasma, e deram grandes gritos” (Marcos 6.49).

Também vale destacar que, dependendo de quem é a fala nas Escrituras, a palavra deve ser considerada com reserva. Por exemplo, segue este verso: “Eis que ele não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui loucura” (Jó 4.18). Este verso reflete o pensamento de Elifaz, derivado de uma voz abafada, de um espírito que ele não conseguiu distinguir a forma, e que fez lhe arrepiar os cabelos.

O contexto deixa claro que ‘servos’ e ‘anjos’ referem-se aos seres celestiais, visto que no verso seguinte Elifaz contrapõe os que têm casas de lodo com aqueles, demonstrando que os homens são formados do pó da terra e aqueles não (Jó 4.19).

Se o leitor considerar que o verso 4, da segunda epístola de Pedro, no capítulo 2 trata dos seres celestiais, deve restringir-se a considerar a severidade de Deus, visto que é sabido que Ele castigou os anjos que se rebelaram, não os poupando da perdição. Que se dirá dos falsos mestres que se introduziram entre os cristãos?

Mas, se considerarmos que os sacerdotes e os profetas em meio ao povo de Israel eram tidos por mensageiros[3] de Deus, e por terem prevaricado quanto as suas atribuições, não foram poupados, antes foram presos, entregues às cadeias de escuridão, sendo reservados para o juízo, certo é que os falsos mestres serão especialmente castigados (2 Pedro 2.10).

“Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei porque ele é o mensageiro do SENHOR dos Exércitos (Malaquias 2.7);

“Então Ageu, o mensageiro do SENHOR, falou ao povo conforme a mensagem do SENHOR, dizendo: Eu sou convosco, diz o SENHOR” (Ageu 1.13);

“Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” (Isaías 43.27);

“E sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e serão um horror a toda a carne” (Isaías 66.24);

Vale destacar que, na lei, estava estabelecido qual o tratamento dispensado aos falsos mensageiros:

“Mas certamente o matarás; a tua mão será a primeira contra ele, para o matar; e depois a mão de todo o povo. E o apedrejarás, até que morra, pois te procurou apartar do SENHOR teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão” (Deuteronômio 13.9-10);

“Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá” (Deuteronômio 18.20), ao que assevera o escritor aos Hebreus:

“Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas” (Hebreus 10.28).

Considerando que os cristãos são tidos por embaixadores de Deus, os mensageiros de paz (Isaías 33.7), e que os falsos apóstolos se transfiguravam em apóstolos de Cristo, o fim deles está previsto conforme as suas obras.

“Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras” (2 Coríntios 11.13-15);

“E o forte se tornará em estopa, e a sua obra em faísca; e ambos arderão juntamente, e não haverá quem os apague” (Isaías 1.31).

Assim como o juízo dos falsos mestres que se infiltraram entre os cristãos não tarda, e a destruição deles não dorme, os falsos mensageiros infiltrados em meio ao povo de Israel não foram poupados, antes foram entregues à morte, sendo guardados para o juízo de obras no Grande Trono Branco.

“E será que naquele dia o SENHOR castigará os exércitos do alto nas alturas, e os reis da terra sobre a terra. E serão ajuntados como presos numa masmorra, e serão encerrados num cárcere; e outra vez serão castigados depois de muitos dias” (Isaías 24.21-22).

Também não poderíamos deixar de observar que o termo ‘ággelos’ utilizado no Novo Testamento refere-se a homens e anjos, entretanto, é de se estranhar que somente em duas passagens de difícil interpretação: Judas 6 e 2 Pedro 2:4, o termo seria utilizado para anjos caídos. Em todas as outras passagens, exceto essas duas, claramente o termo ‘ággelos’ se refere aos seres celestiais, ou mensageiros homens, e em nenhuma outra é utilizada para fazer referência ao inimigo das almas dos homens.

Daí vale questionar o porquê o apóstolo Pedro não utilizou o termo ‘diabo’, ‘satanás’, ‘inimigo’, ‘adversário’, em vez de ‘ággelos’ em segunda Pedro 2, verso 4, visto que os termos ‘diabo’ e ‘adversário’ foram utilizados na primeira carta “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1 Pedro 5.8).

Observe que os quatro exemplos apresentados pelo apóstolo Pedro servem para a seguinte constatação: Deus livra os piedosos da provação e impõe castigo aos ímpios, posto que eles estão reservados para o dia do juízo.

Comparando o verso 4, de segunda Pedro 2 com outros versos, percebe-se certa semelhança na abordagem:

“Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo (2 Pedro 2.4);

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo; Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder” (2 Tessalonicenses 1.8-9);

“O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor;” (Colossenses 1.13);

“Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas.” (João 12.46);

Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração;” (Efésios 4.18);

“Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas.” (Isaías 42.7);

Tirou-os das trevas e sombra da morte; e quebrou as suas prisões.” (Salmos 107.14);

“O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz.” (Isaías 9.2).

A certeza do juízo deve soar como alerta para os incautos e impenitentes, para os que não se submetem ao Senhorio de Cristo e querem transtornar o evangelho.

É interessante o irmão Judas fazer alusão às cidades de Sodoma e Gomorra, pois os filhos de Israel são comparados a essas duas cidades pelos profetas.

“Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm.” (Deuteronômio 32.32);

“Se o SENHOR dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já como Sodoma seríamos, e semelhantes a Gomorra. Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra.” (Isaias 1.9-10);

“Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os seus moradores como Gomorra.” (Jeremias 23.14);

“Subverti a alguns dentre vós, como Deus subverteu a Sodoma e Gomorra, e vós fostes como um tição arrebatado do incêndio; contudo não vos convertestes a mim, disse o SENHOR.” (Amós 4.11);

“Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade.” (Mateus 10.15).

As cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas ao seu tempo por causa das suas prostituições, de modo que, ao comparar os mensageiros com as cidades de Sodoma e Gomorra, Judas está denunciando as prostituições dos homens que se introduziram na comunidade cristã.

“Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno. E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades.” (Judas 1.7-8).

Ao considerarem as cidades de Sodoma e Gomorra, os cristãos veriam que os mensageiros foram punidos por serem promíscuos como os habitantes das cidades destruídas com fogo e enxofre, o que nos remete as considerações do apóstolo Paulo aos corintos:

“Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” (1 Coríntios 5.11).

Nos 4 versos que se seguem, temos dois pronomes demonstrativos, que são: τροπον (a estes) e ουτοι (estes). As cidades de Sodoma e Gomorra são semelhantes τροπον (a estes) (v. 7), ‘a estes’ refere-se: a) aos homens ímpios; b) aos que não creram e foram destruídos, ou; c) aos mensageiros que estão prisioneiros? ‘Ουτοι’ (estes) que, sonhando, contaminam a carne (v. 8), refere-se: a) aos homens ímpios; b) aos que não creram e foram destruídos, ou; c) aos mensageiros que estão prisioneiros?

5 υπομνησαι δε υμας βουλομαι ειδοτας υμας απαξ τουτο οτι ο κυριος λαον εκ γης αιγυπτου σωσας το δευτερον τους μη πιστευσαντας απωλεσεν 6 αγγελους τε τους μη τηρησαντας την εαυτων αρχην αλλα απολιποντας το ιδιον οικητηριον εις κρισιν μεγαλης ημερας δεσμοις αιδιοις υπο ζοφον τετηρηκεν 7 ως σοδομα και γομορρα και αι περι αυτας πολεις τον ομοιον τουτοις τροπον εκπορνευσασαι και απελθουσαι οπισω σαρκος ετερας προκεινται δειγμα πυρος αιωνιου δικην υπεχουσαι 8 ομοιως μεντοι και ουτοι ενυπνιαζομενοι σαρκα μεν μιαινουσιν κυριοτητα δε αθετουσιν δοξας δε βλασφημουσιν” Judas 1.5-8, Scrivener’s Textus Receptus(1894).

O pronome demonstrativo ‘estes’, no plural, refere-se aos ‘homens ímpios’ do verso 4, alternativa ‘a’, assim como os pronomes demonstrativos ‘estes’ nos versos 10,12, 16 e 19. Já com relação ao pronome demonstrativo ‘a estes’, dativo, no plural, refere-se aos mensageiros do verso 6, alternativa c, de modo que, Sodoma e Gomorra e as cidades vizinhas foram imorais e foram postas como exemplo sofrendo o fogo eterno como punição, semelhantemente, de igual maneira, os mensageiros (a estes) que não guardaram o seu principado, mas deixando a própria morada, em prisão eterna sob escuridão, tem sido preservado para o juízo do grande dia.

Estas três pequenas citações de eventos do A. T. deve ser analisados e tidos como lembrete, para que os que seguem a Cristo não venha a ser enganados por homens que se intrometem em meio aos cristãos e introduzem dissimuladamente heresias com o objetivo de transtornar a doutrina do evangelho.

Devaneios segundo a carne

“E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades. Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda. Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem. Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré. Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas;” (Judas 1.8-12).

Judas passa a descrever os homens ímpios que haviam se infiltrado entre os cristãos dissimuladamente.

Tais homens ímpios destinados à destruição se posicionavam como mestres, pois ao se infiltrarem, passavam a negar a Cristo como Senhor. Eram sonhadores, como que adormecidos, pois com os seus devaneios segundo a carne tudo contaminavam (Eclesiastes 5.3 e 7). Acerca destes impuros, bem falou o apóstolo Paulo a Timóteo:

“Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão (Colossenses 2.18).

Por serem carnais, estavam destituídos do espírito, assim como aqueles que fascinaram os cristãos das regiões da Galácia (Gálatas 3.1-5; Judas 1.19). Ao negarem a Cristo como Senhor rejeitavam a pregação da fé, e dissimuladamente, introduziam rudimentos fracos e pobres (Gálatas 4.9-10).

Vale destacar que as questões da carne estão ligadas a mandamentos de homens, e que se apoiam em questões como nacionalidade, genealogias, tribo, circuncisão, lavar as mãos, jejuns, prolongadas orações, etc., como era o posicionamento de Saulo, antes de ter um encontro com Cristo:

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne. Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo.” (Filipenses 3.3-7).

Quem serve a Deus em espírito é porque serve a Deus por intermédio do evangelho, pois as palavras de Cristo são espírito e vida, e os cristãos são ministros do espírito, ou seja, da Nova Aliança.

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (2 Coríntios 3.6; João 6.63).

Quem anda segundo a carne anda segundo a letra que mata, ou seja, a lei. Como não utilizam a lei legitimamente, pois a lei foi feita para os injustos e obstinados, cumprem somente mandamentos de homens (1 Timóteo 1.8-11).

Observe que ‘carne’ e ‘espírito’ são antagônicos, e representam duas doutrinas diferentes, de modo que, ao mostrar o antagonismo do evangelho versus a lei, os apóstolos utilizam a ‘carne’ e o ‘espírito’.

Pela descrição de Judas e o apóstolo Pedro, percebe-se que tais homens ímpios, além de judaizantes, eram sediciosos, semelhantes aos Macabeus, judeus que, liderados por Matatias e seus filhos, lutaram contra os reis sírios (selêucidas) e seus aliados judeus, pela libertação religiosa e política da nação, opondo-se aos valores do helenismo. Por falarem das autoridades e dignidades, percebe-se que tal movimento levou a repressão de Roma aos judeus por mãos do general Tito.

“Mas principalmente aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia, e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades;” (2 Pedro 2.10).

A pretensão dos homens ímpios fazia com que rejeitassem toda autoridade e blasfemassem das dignidades. O apóstolo Paulo fez um alerta aos cristãos de Roma, para se sujeitarem as autoridades (Romanos 13.1-7), e demonstra em seguida, que aquele que se reveste de Cristo não tem cuidado da carne e das suas concupiscências, o que demonstra que a concupiscência da carne é conhecida e que foi para tais pessoas que a lei foi feita:

“Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja.” (Romanos 13.13);

“Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas,” (1 Timóteo 1.9).

Os falsos mestres queriam a posição de mestre para fazer os cristãos seguirem as suas dissoluções, e com isso fazer dos cristãos negócio (2 Pedro 2.3).

Os homens ímpios não observavam o que preceitua a Escritura, quando ela demonstra que o arcanjo Miguel não ousou pronunciar juízo de maldições contra o diabo.

“Mas o SENHOR disse a Satanás: O SENHOR te repreenda, ó Satanás, sim, o SENHOR, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?” (Zacarias 3.2).

Conforme exposto anteriormente, supõe-se que Judas citou passagem do livro “A Assunção de Moisés”, mencionado por Orígenes (c. 185-254), um livro judeu grego apócrifo que se perdeu.

Podemos aventar mais duas possibilidades: a) talvez tenha se equivocado ao citar a tradição judaica, sendo que o texto base que Judas queria citar fosse o de Zacarias, ou; b) alguém que tenha copilado a carta, equivocou-se e substituiu o texto de Zacarias pelo texto da tradição judaica.

Especulações à parte, a ideia transmitida pelo texto se assemelha a exposição do apóstolo Pedro (2 Pedro 2.11), de que o anjo não proferiu juízo infamatório contra Satanás, quando este se opunha aquele na visão acerca do Sumo Sacerdote Josué, antes disse:

“O Senhor te repreenda, ó Satanás, sim, o Senhor que escolheu Jerusalém…” (Zacarias 3.2).

Devemos ter em mente que Miguel é um dos anjos de Deus, porém, não podemos confundi-lo com o Anjo do Senhor, que é Cristo “O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra” (Salmos 34.7). Diferente de Miguel, o Anjo do Senhor é onipresente (acampa-se ao redor dos (todos) que o temem, e é temido (o temem). É de Cristo que o apóstolo Paulo disse:

“Porque esta mesma noite o anjo de Deus, de quem eu sou, e a quem sirvo, esteve comigo” (Atos 27.23).

Os homens ímpios apontados por Judas, se não compreendem algo, blasfemam ou difamam (v. 10). Até o que se compreende de modo natural, como animais irracionais, se corrompem.

“Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam.” (1 Timóteo 1.7).

O irmão Judas apresenta três ‘ais’ em desfavor dos homens ímpios.

Com as heresias dissimuladas percorriam o caminho de Caim, que matou o próprio irmão (Gênesis 4.8). Com essa figura, Judas os declara homicidas, pois procuravam ‘matar’ com o erro os que alcançaram vida em Cristo.

No erro de Balaão se lançaram atrás de recompensa. Resolveram transtornar a verdade do evangelho por questões desta vida (Números 31.16; 2 Pedro 2.15-16 e 18).

Ao falarem contra as autoridades superiores, agiram da mesma forma que Coré, atitude que os condenava assim como os revoltosos que se levantaram contra Moisés (Números 16.1-2).

Nas reuniões solenes de amor, esses homens ímpios são como manchas. Enquanto os cristãos eram filhos, eles não passavam de geração perversa e distorcida.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é.” (Deuteronômio 32.5).

Não se intimidavam em se fazer como tendo comunhão, descaradamente banqueteavam-se com os cristãos.

“Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.” (1 Coríntios 5.11).

Esses ímpios tinham cuidado somente de si mesmos (apascentam), cujo deus é o ventre (v. 16).

“Cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3.19).

Estrelas errantes

“Ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações; estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas. E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele. Estes são murmuradores, queixosos da sua sorte, andando segundo as suas concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes, admirando as pessoas por causa do interesse” (Judas 1.13-16).

Judas compara os homens que se introduziram entre os cristãos com as impetuosas ondas do mar, que espumam (multiplicam) as suas próprias vergonha (ignominia). O apóstolo Paulo alerta os cristãos para não se deixar levar.

“Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Efésios 4.14).

Eles são comparados as estrelas errantes, ou seja, embora percorram um caminho, está reservado para eles a escuridão das trevas para sempre (Judas 1.6).

Os homens sem Cristo percorrem caminhos que aos seus olhos parecem conduzir a Deus, porém, ainda permanecem no caminho largo que conduz à perdição. Por não entrar por Cristo, a porta estreita, seguem caminhos variados, mas, por descenderem de Adão, o caminho largo, todos os caminhos que seguem são contemplados pela perdição eterna decorrente da natureza pecaminosa herdada em Adão.

Judas lembra que, acerca dos homens ímpios, profetizou Enoque, o sétimo após Adão:

“E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: ‘Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele’.” (Judas 1.14-15).

No Canon sagrado não encontramos qualquer referência a Enoque como profeta ou que tenha dito algo. Acerca de Enoque temos somente esta passagem:

“E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou” (Gênesis 5.18-24).

Não é alvo deste estudo tentar descobrir a origem desta citação de Judas, porém, podemos analisá-la através de outros textos bíblicos verificando a sua veracidade e validade. A citação feita por Judas está no livro 1 Enoque 1, verso 9. Esse livro apócrifo é conhecido como Enoque Etíope, porque a cópia localizada estava preservada somente nessa língua.

Apesar de citar um verso do Livro de Enoque, tal citação não depõe em desfavor da epístola de Judas, e tão pouco inferir que o Espírito de Deus não tenha inspirado o teor da carta de Judas.

Sobre Enoque, o escritor aos Hebreus nos disse:

“Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus” (Hebreus 11.5).

O escritor da carta aos Hebreus, com base no Livro do Gênesis, afirma que Enoque alcançou testemunho de que agradara a Deus, e que pela fé foi trasladado. O testemunho das Escrituras de que Enoque andou com Deus é um testemunho fidedigno (Gênesis 5. 22 e 24).

Primeiro a Escritura diz que Enoque andou com Deus “Andou Enoque com Deus…” (Gênesis 5.22), e só é possível andar com Deus quando se é obediente a Ele. Depois, a Escritura afirma que Enoque andou com Deus, e que foi tomado para Deus: “…e já não era, porque Deus para si o tomou” (Gênesis 5.24).

A narrativa do Gênesis demonstra que Enoque era justo, pois andava segundo a palavra de Deus, e que Enoque agradou a Deus pelo testemunho de que andava com Deus. Se Enoque andou com Deus e pela fé foi trasladado, isto significa que a promessa do Messias, proveniente da semente da mulher, era a temática da vida do Enoque.

Através da revelação do Novo Testamento, sabemos que o homem se tornou desagradável a Deus por causa da queda de Adão, ou seja, todos os homens gerados de Adão são filhos da desobediência e da ira, no entanto, aqueles que creem em Cristo são de novo gerados segundo a sua palavra, tornando-se agradáveis.

A profecia de Enoque é uma constatação: ‘Eis que veio o Senhor’. A Bíblia contém vários livros que apontam a vinda do Senhor.

“Disse pois: O SENHOR veio de Sinai, e lhes subiu de Seir; resplandeceu desde o monte Parã, e veio com dez milhares de santos; à sua direita havia para eles o fogo da lei.” (Deuteronômio 33.2);

“Então virá o Senhor meu Deus e todos os santos com Ele” (Zacarias 14.5 b).

A profecia de Enoque aponta o motivo da vinda do Senhor:

“… para fazer juízo contra todos, e para fazer convictos todos os ímpios…” (Judas 1.15).

Do mesmo modo disse o Senhor ao povo de Israel:

“Se eu afiar a minha espada reluzente, e se a minha mão travar o juízo, retribuirei a vingança sobre os meus adversários, e recompensarei aos que me odeiam” (Deuteronômio 32.41).

O apóstolo Paulo enfatiza:

“Deus recompensará a cada um segundo as suas obras” (Romanos 2.6; Jeremias 17.10).

Ora, sabemos que toda a humanidade foi julgada e condenada em Adão, mas os ímpios pecadores não sabem desta verdade. Porém, no dia da ira de Deus, ele tornará manifesto o seu juízo. Dará vida eterna aos que procuraram honra e glória e perseveraram fazendo o bem, mas, trará indignação e ira aos desobedientes à verdade, e que obraram o mal (Romanos 2.7-10).

Ao retribuir a cada um segundo as suas obras, Deus fará juízo (Apocalipse 20.12), e os homens conhecerão (convictos) que estavam condenados segundo a condenação de Adão (Romanos 5.18). Na essência, essa profecia atribuída a Enoque não destoa do restante das Escrituras.

 

As aspirações segundo a carne

“Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo; Os quais vos diziam que nos últimos tempos haveria escarnecedores que andariam segundo as suas ímpias concupiscências. Estes são os que causam divisões, sensuais, que não têm o Espírito. Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo,” (Judas 1.17-20).

Judas reforça o seu posicionamento de servo de Cristo (Judas 1.1), quando aponta a necessidade de os cristãos terem na lembrança as predições dos apóstolos do Senhor Jesus. Em momento algum Judas procura igualar as suas palavras com as palavras dos apóstolos, antes recomenda que os cristãos não se esqueçam delas.

Através deste posicionamento, Judas demonstra que as palavras anunciadas pelos apóstolos de Jesus equivalem ao anunciado pelos profetas do Antigo Testamento. Apesar de ter apresentado vários personagens do Antigo Testamento para dar peso aos seus argumentos, Judas demonstra que as palavras dos apóstolos não destoam dos profetas.

Mesmo sendo irmão de Jesus na carne, e irmão de Tiago, Judas não se arroga no direito de se auto intitular apóstolo, ou utilizar de autoridade sobre os irmãos. Na verdade, Judas desempenha o verdadeiro papel da autoridade: cuidado para com o rebanho de Deus.

Em nossos dias, inúmeros líderes ‘cristãos’ se auto intitulam apóstolos, e não consideram o exemplo de Judas, ou dos apóstolos. Se considerassem o exemplo de Judas e do apóstolo Paulo, jamais utilizariam este título.

“Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus” (1 Coríntios 15.9).

Ao fazer referência as palavras dos apóstolos, Judas não cita as palavras ‘ipsis litteris’, e nem atribui a algum apóstolo específico o que foi predito. Isto demonstra que as palavras preditas pelos apóstolos eram de senso comum, e que Judas não considerava um apóstolo em detrimento dos outros. Mas, verifica-se na segunda epístola de Pedro essa mesma recomendação:

“Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador.” (2 Pedro 3.2)

O alerta é específico:

“No último tempo haverá escarnecedores, andando segundo as suas ímpias concupiscências” (Judas 1.18).

Tal alerta foi feito por Pedro:

“Sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências” (2 Pedro 3.3).

Esses homens ímpios são os que provocam divisões, que pode ser no seio da comunidade, diferenciando judeus de gentios, ou escândalos na sociedade, visando afetar o evangelho.

“E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles.” (Romanos 16.17).

Elas agem assim porque as suas aspirações são orientadas segundo a carne, ou seja, não tem em si o espírito. Somente aqueles que creem que Jesus é o Cristo e professam que Deus o ressuscitou dentre os mortos possuem o espírito. Ou seja, para ter o espírito de Deus é preciso ser nascido de novo (João 3.6), pois o Pai e o Filho só fazem morada no novo homem criado em Cristo, em verdadeira justiça e santidade (Efésios 2.21; 4.24; 1 Pedro 2.5).

“Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro.” (1 João 4.6).

Quem não compreende (discerne) o que é o corpo do Senhor (assembleia de servos, livres, judeus, gregos, pobres, ricos, homens, mulheres, etc.), acaba promovendo divisão como as que o apóstolo Paulo teve que repreender na igreja de Coríntios (1 Coríntios 6.1-8 e 11.18).

Para ser espiritual é preciso tão somente cumprir com o mandamento de Deus, que é:

“…que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” (1 João 2.3 e 23).

Basta crer em Cristo conforme diz as Escrituras, que o homem é gerado de novo, pois o velho homem é crucificado com Cristo e passa a viver segundo o evangelho de Cristo.

Judas encera a exortação acerca da ‘necessidade de se batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos’, e passa a falar da salvação que lhes é comum, o que inicialmente ele queria fazer diligentemente.

“Amados, enquanto eu empregava toda diligência para vos escrever acerca da salvação que nos é comum…” (Judas 1.3).

 

Edificados sobre a fé

“Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo. Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. E apiedai-vos de alguns, usando de discernimento; E salvai alguns com temor, arrebatando-os do fogo, odiando até a túnica manchada da carne. Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém” (Judas 1.20-25)

Judas recomenda aos cristãos crescerem na graça e no conhecimento quando diz:

“…edificando-vos sobre a vossa santíssima fé…” (Judas 1.20).

No verso 3, ‘fé’ diz do evangelho que foi entregue aos santos e que os cristãos tinham incumbência de defender. Todos quantos receberam o evangelho (fé) da graça devem continuar construindo sobre o que é firme e permanente, a fé que nos foi entregue.

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;” (Efésios 2.20);

“Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.” (1 Coríntios 3.11).

Sobre o evangelho, o apóstolo Pedro demonstra que cada cristão é pedra viva, e que são edificados como casa espiritual sobre a Pedra de Esquina, que é Cristo (1 Pedro 2.4-5; 2 Timóteo 1.15; 4.6 e 9). Cristo, o Verbo Eterno, é a Pedra de Esquina, anunciado através do evangelho, e Ele é a fé manifesta e recebida de uma vez por todas pelos cristãos (Gálatas 3.23; Judas 1.3).

Conforme promessa a Davi, primeiro Deus edifica casa para Si por intermédio de Cristo, o descendente prometido, ou seja, a igreja, onde temos Jesus como a cabeça, e cada crente em particular são os seus membros. A Pedra de Esquina e as pedras vivas são edificados como casa Espiritual.

Cada cristão constitui-se pedra viva e precisa deixar toda malícia, todo engano, todo fingimento e toda maledicência, desejando, como crianças recém-nascidas, o puro leite espiritual. Embora os cristãos sejam idôneos para participar da herança dos santos na luz (Colossenses 1.12), precisavam ser plenos do conhecimento da vontade de Deus. Judas está recomendando aos cristãos serem exercitados na palavra da verdade, que é a fé que foi dada aos santos, sobre a qual é preciso crescer (construir) todos os dias.

O evangelho é poder de Deus para salvação dos que creem (João 1.12; Romanos 1.16; 1 Coríntios 1.24), e quando o cristão é instruído a se fortalecer no Senhor e na força do seu poder (Efésios 6.10), percebe-se a necessidade de crescer no conhecimento da palavra da verdade, que é poder de Deus (Efésios 1.18-19; Colossenses 3.16).

A única forma de um cristão conservar a si mesmo é permanecendo firme no evangelho, o amor de Deus. Sobre esta necessidade escreveu Tiago:

“…sabendo que a prova da vossa fé desenvolve a perseverança. Ora, a perseverança deve terminar a sua obra, para que sejais maduros e completos, não tendo falta de coisa alguma.” (Tiago 1.4-5).

Permanecer firme no evangelho é a temática dos apóstolos, pois ao fazer a vontade de Deus, que é crer em Cristo, é imprescindível à salvação permanecer crendo.

“Portanto, o que desde o princípio ouvistes permaneça em vós. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis no Filho e no Pai.” (1 João 2.24).

O crer (fé) é proveniente da mensagem do evangelho, é a fé (evangelho) que realiza a sua obra (João 6.29), pois através do evangelho é criando o novo homem, segundo Deus em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4.24), e Deus constitui filhos para Si segundo o seu eterno poder (João 1.12).

A prova da fé, por sua vez, desenvolve a perseverança, e a perseverança conclui a obra que teve início na fé. Ora, a fé sem perseverança é inócua, assim como a fé sem a obra morta.

“Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” (Hebreus 10.36);

“No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis, se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro.” (Colossenses 1.22-23).

Ora, após receber a palavra da fé, é preciso perseverar (paciência), esperando a manifestação de nosso Senhor para a vida eterna (1 Coríntios 1.7).

Judas recomenda aos cristãos que tenham piedade de alguns que vacilam na fé, ou seja, que duvidam da graça em Cristo. Outros, que sejam salvos, arrebatando-os do fogo. E, outros, é necessário se compadecer, porém, rejeitando até a vestimenta contaminada pela carne (v. 23).

A ordem para se compadecer dos que duvidam se concretiza através de instrução na verdade do evangelho, demonstrando através das Escrituras a promessa de salvação e o seu cumprimento em Cristo (Efésios 4.14; Tiago 1.6-8).

Para salvar alguns, como que os arrebatando do fogo, deve ser cumprida do modo que o escritor aos Hebreus prescreveu:

“Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento” (Hebreus 5.12).

O cristão que não evolui no evangelho, que não vai além dos princípios rudimentares da palavra de Deus, corre sério risco, pois fica infrutífero (Marcos 4.19), e pode ser cortado da oliveira (João 15.2).

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo;” (2 Tessalonicenses 1.8).

Já com relação a ‘compadecer em temor’, refere-se aos contradizentes, pois é necessário conhecimento e discernimento para convencê-los.

“Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.” (Tito 1.9).

Aos vacilantes são imprescindíveis admoestações com a sã doutrina, mas aos contradizentes devem ser identificados para, com o conhecimento da doutrina, convencê-los. Dos contradizentes é necessário rejeitar até mesmo as suas ‘roupas manchadas da carne’, ou seja, rejeitar tudo o que professam e praticam.

Um contradizente, por causa da túnica manchada, ainda é carnal, e carece do evangelho (v. 19). Após a conversão é preciso rejeitar todas as práticas deles, que é a roupa manchada da carne. Mesmo que a proposta deles seja boa do ponto de vista comportamental, tem que ser rejeitado pelo princípio existente. Lavar as mãos antes das refeições é bom do ponto de vista da higiene, mas lavar as mãos para se purificar, é túnica manchada da carne.

“Agora, porém, despojai-vos também de tudo…” (Colossenses 3.8).

Ao instruí-los, tudo o que disserem deve ser rejeitado. Somente após professarem a verdade do evangelho, segundo as Escrituras, é possível dizer que tal mente foi conduzida cativa à obediência de Cristo.

“Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo.” (2 Coríntios 10.5).

Quando o apóstolo Paulo fala em se despir, ele faz referência à morte do velho homem (natureza pecaminosa), e o despojar é se desfazer das túnicas do velho homem (Colossenses 3:8-9).

Na doxologia, Judas demonstra que Deus guarda os que creem de tropeçar e de apresentar sem mácula na Sua glória radiantes de alegria (1 Coríntios 1.8; 1 Tessalonicenses 5.23). Ora, quem não tropeça na palavra da verdade é perfeito (Tiago 3.2)

A divindade de Cristo é enfatizada ao final da epístola, visto que Judas reconhece Jesus Cristo como Senhor, e a Ele atribui glória, majestade, domínio e autoridade para a eternidade, sendo que inicialmente não cria em Seu Senhor.

“Porque nem mesmo seus irmãos criam nele” (João 7.5);

A doxologia da Epístola de Judas é uníssona com o que foi dito pelos apóstolos (1 Coríntios 1.8; Filipenses 1.10; 1 Tessalonicenses 5.23-24; 1 Pedro 5.10). Esta epístola nos ensina que a palavra de um servo de Cristo precisa ser uníssona com as palavras dos apóstolos (Judas 1.1).

 

 

[1] “Todas as coisas se definem pelas suas funções” (Aristóteles, A Política. Tradução Nestor Silveira Chaves. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 22).

[2] “5020 ταρταροω tártaro de Tártaro (o abismo mais profundo do inferno); v 1) nome da região subterrânea, sombria e escura, considerada pelos antigos gregos como a habitação dos ímpios mortos, onde sofrem punição pelas suas más obras; corresponde ao “Geena” dos judeus 2) lançar ao Tártaro, manter cativo no Tártaro” Dicionário bíblico Strong.

[3] “(מלאך 04397 mal’ak procedente de uma raiz não utilizada significando despachar como um representante; DITAT – 1068a; n m 1) mensageiro, representante 1a) mensageiro 1b) anjo 1c) o anjo teofânico) de Deus” Dicionário Bíblico Strong

 




O mistério em deixar pai e mãe

Do mesmo modo que é necessário ao homem deixar pai e mãe para unir-se a sua mulher, tornando-se uma só carne, Jesus anunciou que, para ter comunhão íntima (para conhecê-lo em verdade ( Jo 8:32 ), ser um com Ele e o Pai ( Jo 17:21 ), osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo) se faz necessário aos homens deixarem a geração segundo a carne, pois pai e mãe representam a semente corruptível, pela fé em Cristo, momento em que o homem é gerado de novo de uma semente incorruptível (água e Espírito), tornando-se um só corpo com Cristo.


“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” ( Gn 2:24 )

Este verso é utilizado em quase todas as cerimônias de casamento, porém, existe nele um mistério pouco explorado. Também existem nele princípios essenciais que regem as relações humanas após a união conjugal que são pouco conhecidos.

 

Adão e Eva

Muitas mulheres cristãs sentem repulsa quando ouvem a seguinte passagem bíblica: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” ( Ef 5:22- 24) .

Quantas vezes não ouvimos frases rancorosas quando algumas mulheres fazem referencia aos seus maridos? Será que a recomendação paulina não se encaixa no nosso tempo? O que ele recomendou com o verbo sujeitar?

A recomendação tem um público específico: as mulheres casadas.

A recomendação aplica-se a todas as mulheres casadas em todos os tempos, culturas e sociedades? Sim! A recomendação é para todas as mulheres.

Como as mulheres devem se sujeitar aos maridos? Devem se sujeitar aos maridos como se sujeitam ao Senhor, ou seja, voluntariamente. A sujeição não é algo imposto, antes a mulher deve, voluntariamente, sujeitar-se porque o marido é a cabeça da mulher.

O que significa o homem ser a cabeça da mulher? Significa que o homem está em posição de autoridade em relação à mulher. Para uma melhor compreensão, tem-se que visualizar que o papel da mulher é semelhante ao papel da igreja “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos” ( Ef 5:24 ).

Como Cristo é o salvador do corpo, isto significa que Cristo é a cabeça da igreja, da mesma forma deve ser o relacionamento conjugal: o homem é a cabeça da mulher, sendo que ela deve ser sujeita em tudo ao marido.

Quando voluntariamente a mulher se sujeita ao marido, ao mesmo tempo prestigia o seu casamento, visto que ambos são um só corpo. Quando se sujeita ao marido, a mulher demonstra que a cabeça tem autonomia para conduzir o casamento. Quando a mulher voluntariamente se sujeita ao marido, os filhos aprendem o que significa autoridade sem demasiada frustrações, e não terão problemas quando chegar o momento de conviverem em sociedade.

Há muitas mulheres que amam os seus maridos, porém, não prestigiam a cabeça do lar. Esquece que, quando não se submete ao marido, ao mesmo tempo desonra a si mesma, principalmente quando a insurreição se dá com palavras depreciativas.

Mas, a recomendação paulina não tem em vista somente as esposas, como se lê: “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para santifica-la, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja; Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:25 -30 ).

O apóstolo ordena às mulheres que se sujeitem aos maridos, e aos maridos ordena que amem as suas esposas. Os maridos devem amar as suas esposas do mesmo modo que Cristo amou a igreja. A extensão do amor que o marido deve devotar à sua mulher é entregando-se por ela.

O exercício do cuidado para com a esposa é sacrificial, e o marido deve ter a consciência de que tal cuidado é para que ela se apresente diante dele agradável, ou seja, deve ama-la como a seu próprio corpo.

Quem ama a esposa ama a si mesmo, cuida de si mesmo e, segundo o apóstolo Paulo, seria sem sentido alguém odiar o seu próprio corpo.

Na união conjugal a mulher deve submeter-se ao marido voluntariamente porque ele cuida dela, ou seja, o cuidado do marido é o que o investe de autoridade. O conceito bíblico de autoridade é diferente do conceito que há no mundo de que, quem a exerce deve exigir cuidados em vista da posição que ocupa: o cuidado é característica da autoridade, ou melhor, o cuidado é a única expressão de autoridade.

Cristo é a cabeça da igreja porque exerce cuidado por ela. A igreja deve submeter-se a Ele porque todas as suas ações são motivadas pelo amor e cuidado para com o seu próprio corpo.

A submissão da mulher e o amor do marido deve ser a tônica de um relacionamento conjugal. Quando o casal chega a este entendimento e expressa voluntariamente, um ao outro o que é ordenado, há paz e harmonia sempre.

 

Cristo e a igreja

“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” ( Gn 2:24 )

Quando se ouve o verso acima, geralmente é considerado somente da perspectiva humana, nas relações que decorrem da vida conjugal, porém, o apóstolo Paulo, ao citar este verso aos cristãos em Éfeso, alerta que o ato do homem deixar o seu pai e a sua mãe e apegar-se à sua mulher, tipifica um grande mistério relacionado a Cristo e a igreja.

Após anunciar que há um mistério nesta passagem, o apóstolo Paulo retoma a ideia inicial concluindo que o homem deve imitar a Cristo, amando sua esposa, e a mulher deve imitar a igreja de Cristo, reverenciando o marido: “assim também vós…” ( Ef 5:33 ). Este é o modelo ideal de comportamento dos cônjuges. Ninguém está dizendo que seja fácil, mas é o comportamento certo para uma união feliz.

Que mistério pode existir relacionado a Cristo e a igreja, no fato do homem deixar pai e mãe?

A resposta depreende-se dos seguintes versículos: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ); “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” ( Mt 10:37 ).

O mistério, como o apóstolo Paulo disse, é revelado através do evangelho ( Ef 3:4 ).

O mistério estava no fato de:

  1. Assim como Deus concedeu ao primeiro Adão uma mulher, semelhantemente Deus concedeu ao último Adão, que é Cristo, a igreja ( 1Co 15:45 );
  2. Assim como Eva foi tirada da carne de Adão, semelhantemente a Igreja foi formada da carne de Cristo ( Gn 2:21 ; 1Co 11:24 );
  3. Assim como Deus fez cair um profundo sono sobre Adão para fazer-lhe uma adjuntora, semelhantemente Cristo desceu à sepultura, pois todos que ressurgem com Ele fazem parte da igreja ( Gn 2:21 ; );
  4. Assim como Adão disse: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne” ( Gn 2:23 ), semelhantemente a igreja é osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo: “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos” ( Ef 5:30 );
  5. Assim como Deus disse: “Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne ( Gn 2:24 ; Mt 19:5 ; Mc 10:9 ), semelhantemente Jesus instituiu que: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ); “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” ( Mt 10:37 );
  6. Assim como Adão é terreno e a sua imagem é passada a todos os seus descendentes, semelhantemente, Cristo, o último Adão, é celestial e concede a sua imagem aos que d’Ele são gerados ( 1Co 15:46 -47), o que os tornam membros do seu corpo.

 

É por isso que, quando o apóstolo Paulo cita o verso 24, do capítulo 2 do livro de Gênesis: “Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne” ( Ef 5:31 ), ele destaca haver um grande mistério.

Deixar pai e mãe para contrair matrimônio não implica em abandoná-los. Humanamente falando, no matrimônio ocorre a junção de duas pessoas em um só corpo, porém, após a união, ambos, marido e mulher devem deixar o domínio dos pais, pois eram os pais que exerciam cuidado sobre ambos.

Agora, neste novo corpo (união), a cabeça (marido) deve agir desvinculada do cuidado dos seus pais e, o corpo (mulher) deve agir em consonância com o seu novo papel social. Isto não significa que o cristão deva desprezar seus pais segundo a carne, antes significa que deve unir-se um ao outro perfazendo uma nova família com direção e estilo de vida singular.

Do mesmo modo que é necessário ao homem deixar pai e mãe para unir-se a sua mulher, tornando-se uma só carne, Jesus anunciou que, para ter comunhão íntima (para conhecê-lo em verdade ( Jo 8:32 ), ser um com Ele e o Pai ( Jo 17:21 ), osso dos ossos de Cristo e carne da carne de Cristo) se faz necessário aos homens deixarem a geração segundo a carne, pois pai e mãe representam a semente corruptível, pela fé em Cristo, momento em que o homem é gerado de novo de uma semente incorruptível (água e Espírito), tornando-se um só corpo com Cristo “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:5 -7).

 

A criação do homem e da mulher

Quando Adão e Eva foram criados, ambos estavam nus, e ambos não se envergonhavam ( Gn 2:25 ), semelhantemente Cristo não se envergonha de chamar os seus membros de irmãos ( Hb 2:11 e 11:16 ), e a igreja entra no santo dos santos com ousadia ( Ef 3:12 ; Hb 4:16 ).

O apóstolo Paulo demonstrou que Adão era figura de Cristo ( Rm 5:14 ), ou seja, quando Adão foi criado, foi a expressa imagem do Deus invisível que o criou “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” ( Gn 1:27 ; Hb 1:3 ; Cl 1:15 ). Aquele que havia de vir (Cristo) e, que criou todas as coisas ( Jo 1:3 ; Cl 1:16 ; Ef 3:9 ), foi quem teofanicamente modelou o homem do pó da terra com as suas mãos e soprou o fôlego de vida nas narinas de sua imagem terrena, tornado-o alma vivente.

Qual foi a imagem e semelhança que Cristo deu a Adão? A imagem que Cristo adquiriu após ressurgir dentre os mortos como primogênito ( Sl 17:15 ; Cl 1:18 ), ou a imagem que ele assumiria ao ser introduzido no mundo como unigênito do Pai? ( Jo 1:14 ; 1Jo 4:9 ).

Ora, a semelhança que a expressa imagem do Deus invisível concedeu a Adão no Éden foi a que Ele utilizou ao ser introduzido no mundo na condição de unigênito do Pai. Ele concedeu especificamente a imagem e semelhança de unigênito a Adão, visto que, ao ser introduzido no mundo necessitava ser feito menor que os anjos por causa da paixão da morte ( Hb 2:9 ), para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote ( Hb 2:17 ), participando das mesmas coisas: carne e sangue ( Hb 2:14 ).

O primeiro Adão não alcançou a imagem e semelhança do Altíssimo, visto que, tal imagem e semelhança só é concedida àqueles que se conformam com Cristo na sua morte e ressurgem pelo poder de Deus segundo a imagem daquele que os criou ( Cl 3:10 ), até porque, o próprio Cristo só alcançou tal semelhança ao ressurgir dentre os mortos, como atesta o versículo: “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ).

Fazendo uma releitura do verso “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” ( Gn 1:27 ) entende-se que: criou Deus o homem à sua imagem. Que imagem? A imagem e semelhança que o unigênito seria introduzido no mundo, e não à imagem e semelhança que Cristo, na condição de cabeça da igreja, adquiriu após ressurgir dentre os mortos “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ). E como Deus criou o homem? A sua expressa imagem, que a tudo criou, também se encarregou de criar o homem: homem e mulher os criou.

Após Cristo criar todas as coisas ( Hb 1:10 -12 ; Sl 102:25 ), com as suas próprias mãos, fez Adão do pó da terra e soprou-lhe nas suas narinas o fôlego da vida ( Gn 2:7 ). Em seguida, Cristo plantou um jardim no Éden, fazendo brotar da terra toda espécie de árvores agradáveis ( Gn 2:9 ), inclusive a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal, que estavam no meio do jardim juntamente e, após, colocou o homem como lavrador e guarda do jardim ( Gn 2:15 ).

Para criar a mulher, Cristo fez cair sobre Adão um profundo sono e retirou uma das costelas de Adão e fechou a carne no seu lugar ( Gn 2:21 ).

Após ter fechado a carne de Adão, Jesus tomou em suas mãos a costela que foi retirada de Adão e formou a mulher ( Gn 2:22 ), e trouxe-a para o homem.

Depreende-se da leitura do Gênesis que as relações entre Cristo e o casal no jardim era perene, visto que, na viração do dia, ao ouvirem a voz de Deus ( Hb 1:8 -9 ; Sl 45:6 -7), se esconderam. Seria sem sentido o casal se esconder da divindade em sua majestade e glória, porém, como viam Deus teofanicamente, como sendo igual a eles, procuram se esconder ( Gn 3:8 ).

 

A Desobediência

Quando Adão ouviu a ordem divina: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que comerdes, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17), ouviu-a de alguém que era seu igual.

Ele não ouviu uma voz etérea que ecoou pelo jardim, dizendo: “Adãããão, Adão!”, como se tornou consenso. Não! Ele ouviu a ordem teofanicamente da boca do próprio Verbo de Deus que havia de ser encarnado na plenitude dos tempos. Ele desobedeceu a Cristo, a palavra que concede vida ( Dt 8:3 ; Jo 6:50 -51 ).

Naquele instante ergueu-se uma barreira de separação entre Deus e os homens. A ofensa de Adão trouxe de imediato o juízo e a condenação ( Rm 5:18 ). E qual foi a pena? A morte, ou seja, a barreira de separação.

Por que uma barreira de separação foi erguida? Porque Deus é vida e, a nova condição do homem destituído da vida que há em Deus, é morte. Deus é a verdade e, o homem naquele instante passou a ser mentira. Deus é luz, e naquele instante o homem passou a ser trevas.

 

O Descendente da mulher

Deus repreende a serpente, a mulher e o homem ( Gn 3:14 -19 ), e faz um promessa: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e o seu descendente; este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” ( Gn 3:15 ). Naquele instante foi instituída a humanidade de Cristo, o Verbo que se fez carne e passou a habitar entre os homens.

A promessa do descendente foi novamente anunciada ao gentio Abraão, que creu e foi justificado “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ). Por causa da promessa do descendente, Deus escolheu um povo para tal propósito, segundo a linhagem do patriarca ( Rm 9:5 ).

Na plenitude dos tempos, gerado pelo Espírito de Deus no ventre de mulher virgem, o Verbo se fez carne e Deus habitou em meio aos homens. O apóstolo João assim descreveu a vinda do Messias: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” ( Jo 1:1 -5 ).

A nação que foi instituída para preservar a linhagem e trazer Cristo ao mundo, rejeitou o Descendente prometido ao pai Abraão. Ele foi morto e ao terceiro dia ressurgiu pelo poder de Deus. Através da oferta do seu corpo foi desfeita a barreira de inimizade e separação que havia entre Deus e os homens.

Todos os salvos sob a Antiga aliança foram salvos, assim como o crente Abraão, pela fé no Descendente que havia de vir. Embora não compreendessem o mistério que envolvia a morte do Cristo e a glória que havia de segui-lo, foi revelado a eles que não profetizavam para si mesmos “Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 ).

Eles profetizavam acerca de uma esperança celestial, enquanto foi reservado a eles uma esperança terrena, visto que foi estabelecido por um decreto divino que o Messias regeria todas as nações da terra ( Sl 2:7 -8) e, para este mister, foi determinado que Cristo há de se assentar no trono de Davi ( Rm 1:3 ; Zc 12:8 ; Mt 12:23 ).

 

A noiva do Cordeiro

Do mesmo modo que a mulher de Adão foi tirada da sua carne e dos seus ossos ( Gn 2:22 -23 ), a noiva do Cordeiro foi tirada da carne e dos ossos de Cristo ( Ef 5:30 ). No que isto implica?

Ora, quando Deus tirou a mulher da carne e dos ossos de Adão, deu-se o início a geração terrena ( 1Co 15:47 ), de modo semelhante, quando Cristo foi sepultado e ressurgiu, a igreja foi criada a partir da sua carne e dos seus ossos, momento em que se deu início a uma nova geração de homens espirituais.

Quando Adão conheceu a sua mulher, trouxe a existência homens carnais e terrenos semelhantes a ele, e quando Cristo conheceu a igreja, trouxe a existência homens espirituais e celestiais semelhantes a Ele ( 1Co 15:47 -49).

Da geração de Adão, alguns homens foram escolhidos para fazerem parte da linhagem de Cristo e, um povo foi separado para preservar tal linhagem e conferir ao Descendente o direito legítimo de assentar-se sobre o trono de seu pai Davi. Ora, o povo de Israel foi escolhido para este propósito estabelecido em Cristo: fazê-lo rei “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” ( Sl 89:27 ; Is 52:13 -15).

Com relação a este propósito terreno, muitos em Israel foram eleitos, porém, não foram salvos, pois a salvação só é possível através da fé no Descendente, e não através da carne de Abraão.

Mas, como a igreja foi tirada da carne e dos ossos de Cristo, deu-se início a uma nova geração, a geração eleita segundo o propósito celestial ( 1Pe 2:9 ). Todos que são gerados de novo, segundo a geração eleita, foram predestinados a serem filhos de Deus. Todos que foram gerados de novo, foram eleitos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus.

Diferente da eleição de Israel, todos que fazem parte do corpo de Cristo, necessariamente, primeiro foram salvos pela fé em Cristo “… do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:9 ). Quando são salvos pelo poder de Deus contido no evangelho, os crentes são chamados segundo o propósito estabelecido em Cristo, que é Cristo preeminente em todas as coisas, posição que ele assumiu ao ser a cabeça da igreja.

Ou seja, através da igreja, que foi tirada da carne e ossos de Jesus, foi inaugurada uma nova geração de homens espirituais, semelhantes Àquele que os criou ( 1Jo 3:2 ; Cl 3:10 ).

 

Adão e Cristo – tipo e antítipo

Além de Adão ser a expressa figura da imagem terrena de Cristo ( Rm 5:14 ), ele é o primeiro tipo de Cristo, pois Adão é cabeça da geração humana e Cristo a cabeça da geração espiritual.

Diferentes dos demais tipos do Antigo Testamento, que apresentam semelhanças e comparações com o antítipo, entre Adão e Cristo têm semelhanças e contrastes que remontam um paralelismo sem igual.

Além das semelhanças que já apontamos entre Adão e sua mulher ‘versus’ Cristo e a igreja, temos outras figuras que apontam para Adão e Cristo, respectivamente:

  • Adão é a porta larga e Cristo é a porta estreita – a porta é figura do nascimento, sendo que Adão é a porta larga porque todos os homens quando vêm ao mundo tem que entrar por ele ( 1Co 15:46 ). Após o homem nascer segundo a carne de Adão, necessário é nascer de novo, da água e do Espírito, ou seja, da palavra de Deus que limpa e dá nova vida ( Jo 3:5 );
  • Adão é o caminho largo e Cristo é o caminho estreito – através destas duas figuras fica claro que não é o homem que vai à perdição ou à salvação, antes, nos dois casos os homens são conduzidos, ou seja, o caminho tem destino, não o viajante – através da ofensa de Adão os homens são conduzidos à perdição e através da obediência de Cristo os homens são conduzidos à salvação, como se lê: “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7;13 -14);
  • Adão é árvore má e Cristo é a árvore boa – Os homens são comparáveis a árvores, sendo que as árvores más têm origem na semente de Adão e as árvores boas têm origem na semente incorruptível, que é Cristo “Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore” ( Mt 12:33 );
  • Em Adão são feitos os vasos para desonra e em Cristo os vasos para honra ( Rm 9:22 -24);
  • Em Adão são gerados os homens carnais e em Cristo os homens espirituais ( 1C0 15:46 -47)
  • Adão é a semente corruptível e Cristo a semente incorruptível ( 1Pe 1:23 );
  • Adão gera filhos servos do pecado e Cristo gera filhos servos da justiça ( Rm 6:18 );
  • A geração de Adão é planta que o Pai não plantou, e a geração de Cristo são árvores de justiça ( Mt 15:13 ; Is 60:21 ; Is 61:3 ), etc.

Adão foi descrito por Miqueias como sendo o homem piedoso que pereceu ( Mq 7:2 ). Enquanto Adão, o homem piedoso, foi feito alma vivente, Cristo, o último Adão, foi feito espírito vivificante ( 1Co 15:45 ). A morte veio por Adão, e a ressurreição por Cristo. Todos os homens morreram em Adão, e todos são vivificados em Cristo ( 1Co 15:22 ). Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer, e Cristo é a porta estreita, por onde entraram todos os que nascem de novo ( Mt 7:13 ).

Quando vêm ao mundo, os homens entram pela porta larga (Adão), ou seja, desde a madre o homem é ímpio, desviado (alienado) de Deus “Desviam-se os ímpios desde a madre…” ( Sl 58:3 ). Após ser formado em iniquidade e concebido em pecado, trilham um caminho que o conduz à perdição, ou seja, andam errado desde que nascem “Andam errados desde que nascem, proferindo mentiras” ( Sl 58:3 ; Rm 3:4 ). Esta é a condição de todos os homens gerados de Adão.

Diferente dos descendentes de Adão, que são alienados desde a madre, Cristo foi gerado de Deus através da ação do Espírito Santo no ventre de Maria “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel” ( Is 7:14). Caso fosse gerado de Maria e José, Cristo nasceria sob a mesma condenação que pesa sobre a humanidade: alienado de Deus. Porém, Cristo foi ‘lançado’ da madre de modo diferenciado “Sobre Ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” ( Sl 22:10 ; Mt 1:18 ).

Ao introduzir o Primogênito de toda a criação no mundo, Deus agiu de modo miraculoso sobre o ventre de Maria ( Mt 1:20 ). Sobre a terra não havia um justo se quer, porém, por meio do Verbo de Deus encarnado, muitos justos são gerados para a glória de Deus ( Mt 1:21 ).

Deste modo, para atender a ordem de Cristo, que é aborrecer pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida, necessário se faz aborrecer a sua geração natural herdada de Adão. O que isto significa? Que o homem precisa morrer para a sua antiga condição. Precisa morrer para o pecado que mantém cativa a geração natural dos homens “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ; Mt 10:37 ).

E como se aborrece pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida? Tomando sobre si a maldição da cruz, pois é maldito qualquer que for pendurado no madeiro. Deste modo, o homem torna-se participante das aflições de Cristo, ou seja, toma a sua própria cruz e segue após Cristo “E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:27 ); “E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” ( MT 10:38 -39).

Cristo se fez maldito em lugar dos homens ( Gl 3:13 ), e qualquer que toma a sua própria cruz e segue após ele, aborrece pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ); “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ).

O que é pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a própria vida? Diz da geração segundo a carne de Adão. O homem deve abandonar sua própria vida renunciando sua descendência que teve origem na semente corruptível de Adão, Eva.

Deixar pai e mãe é fazer parte de uma nova família. Deixar pai e mãe é desligar-se do pecado para uni-se a Cristo. Pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs e, ainda a sua própria vida representa a geração de Adão que é sujeita ao pecado, mas através da cruz de Cristo o homem é sepultado e ressurge uma nova criatura e passa a pertencer a uma nova geração para a glória de Deus Pai “Que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no século futuro a vida eterna” ( Mc 10:30 ).




Cristo foi desamparado na Cruz?

Cristo aparentava estar desamparado por Deus diante dos homens para que a justiça de Deus fosse estabelecida.


Cristo foi desamparado na Cruz?

“E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactáni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Este chama por Elias, e logo um deles, correndo, tomou uma esponja, e embebeu-a em vinagre, e, pondo-a numa cana, dava-lhe de beber. Os outros, porém, diziam: Deixa, vejamos se Elias vem livrá-lo. E Jesus, clamando outra vez com grande voz, rendeu o espírito” ( Mt 27:46 -50)

 

A Bíblia explicada de S. E. Mcnair publicada pela editora CPAD diz:

“Jesus nunca falou em ser desamparado pelo Pai, mas sendo ‘feito pecado’ por nós, sentiu-se abandonado por Deus (46)”  McNair, S. E. A Bíblia explicada/S. E. McNair. – 4ª. ed. – Rio de Janeiro: CPAD, 1983, pág. 331.

Ouvi vários sermões acerca desta passagem bíblica, e nela os pregadores afirmavam: “Por Jesus levar sobre si o pecado da humanidade, Deus não suportou ver o pecado, e virou as costas para o seu Filho”.

Você concorda com tal afirmação? Jesus estava desamparado por Deus quando bradou na cruz: “Eli, Eli, lamá, sabactáni?” ?

Antes de qualquer conclusão, analise!

O ministério de Jesus teve como característica principal o ensinamento acerca do reino de Deus. Desde tenra idade ele esteve ensinado os seus compatriotas “Todos os que o ouviam admiravam-se da sua inteligência e respostas” ( Lc 2:47 ).

Quando Jesus assentou-se no templo e achou o texto no Livro de Isaías que dizia: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres” ( Lc 4:18 ), ele afirmou: “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” ( Lc 4:21 ).

Quando Jesus esteve pregado à cruz não foi diferente! Ao bradar em hebraico “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, Ele não estava alegando ou reclamando que o Pai tinha lhe abandonado.

Quando Jesus bradou: “Eli, Eli, lamá sabactâni”, deixou aos seus ouvintes uma última lição da mesma forma que foi deixado na sinagoga no início do seu ministério ( Lc 4:21 ). Como?

Jesus bradou utilizando-se de palavras idênticas ao do Salmo 22, o que indicava que aquela Escritura também cumpria-se aos ouvidos dos que assistiam a crucificação.

Observe que os ouvintes acharam que ele estava clamando por Elias “E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: Ele chama por Elias” ( Mt 27:47 ).

Caso Jesus estivesse reclamando que Deus o abandonara, simplesmente teria bradado em latim ou grego! Por que Ele bradou em especificamente em aramaico, causando uma confusão no povo acerca do que clamava?

Outros diziam: “Deixa, vejamos se Elias vem salvá-lo” ( Mt 27:49 ), e Jesus bradou novamente, e entregou o espírito ( Mt 27:50 ).

Observe que“Pai, na tuas mãos entrego o meu espírito” a penúltima frase antes de Jesus entregar o seu espírito foi: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, e que, logo em seguida disse a última frase que é: .

Você notou a diferença entre o primeiro e o último brado? No primeiro Ele fala ‘Eli, Eli’, que quer dizer Pai em aramaico. Já a última vez que Ele clamou por Deus, ele faz uso da língua de costume: ‘Pai’.

O que isto significa? Significa que o primeiro brado é somente uma citação do salmo 22, e o segundo brado a última oração do Filho ao Pai.

Observe o texto seguinte:

“E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração, a pregar liberdade aos cativos, E restauração da vista aos cegos, A por em liberdade os oprimidos, A anunciar o ano aceitável do Senhor. E, cerrando o livro, e tornando-o a dar ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele.21 Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” ( Lc 4:17 -21).

Ao citar um texto do Antigo Testamento Jesus demonstrou que aquele trecho havia cumprido cabalmente aos ouvidos do povo!

Da mesma forma ao bradar “Eli, Eli, lamá sabactáni”, Jesus estava demonstrando que o Salmo 22 estava cumprindo-se cabalmente ante os olhos dos que assistiam a crucificação.

É sabido que uma situação inusitada, cruenta ou chocante fixa-se na memória do ser humano. Pergunto: Cristo perderia a última oportunidade de esclarecer e fixar na memória dos que estavam assistindo mais um texto bíblico? Não!

Uma pequena citação das Escrituras era suficiente para trazer à lembrança do ouvinte todo o texto, visto que, a memorização das passagens bíblicas era necessário.

De maneira alguma Cristo foi abandonado pelo Pai! Deus jamais abandona os seus filhos, quanto mais o seu Filho Amado.

Quando se lê e estuda o Salmo 22, é preciso analisá-lo do ponto de vista profético.

O Salmo 22 é eminentemente messiânico, e demonstra com clareza alguns dos eventos mais relevantes da vida do Messias entre os homens.

Este salmo fixa-se em descrever a condição de Cristo como o Servo do Senhor quando pregado na cruz.

Analisando os versículos de 1 a 6, fica evidente que o salmista em momento algum reclamou que Deus o abandonara.

Da mesma forma, ao clamar: ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?‘, Jesus não está salientando que fora abandonado por Deus. Pelo contrário!

Por que o Salmo fala de desamparo? Seria porque Deus haveria de virar as costas para o seu Filho na cruz? Não!

Os versículos seguintes do mesmo Salmo demonstram outra realidade.

1º) O salmista demonstra que os pais (patriarcas, profetas, reis, etc) clamaram a Deus no passado e Deus os livrou. Isto demonstra que todos aqueles que depositaram confiança em Deus obtiveram livramento. E o que aconteceu com Cristo? Ele clamou e não foi atendido? Observe como Jesus clamou ao Pai: “E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” ( Mt 26:39 ). Cristo foi ‘desamparo’ em relação ao pedido (passa de mim este cálice), e não em relação a sua pessoa. Observe que os versículos 2 à 6 do Salmo 22 enfatizam o pedido, a confiança e o livramento da parte de Deus;

2º) Por que o pedido de Cristo não foi atendido, ou melhor, por que ele clamou e não foi (ouvido)? Acaso foi porque Deus o abandonou? Não! Deus não atendeu ao pedido de Cristo porque ele é santo. A santidade de Deus não podia ceder e dar lugar a vontade de Cristo. A santidade de Deus estabeleceu a vontade divina ( Sl 22:3 ).

3º) E o Salmo arremata: Sl 22:4 -6 – Os pais confiaram em Deus e foram atendidos em suas petições, porém, por causa da paixão da cruz Cristo não foi atendido, antes se estabeleceu a vontade de Deus. Enquanto os pais foram atendidos, Cristo humilhou-se até a condição de verme, opróbrio dos homens. A condição de verme é porque Cristo submeteu-se a vontade do Pai, ou porque foi desamparado na cruz? É certo que Jesus estava na condição de verme porque Deus é santo!

Note o contraste: os pais clamaram e não foram confundidos, e agora, o Filho clama e não é atendido ( Sl 22:1 -6).

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido? Deus meu, eu clamo de dia, e tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego. Porém tu és Santo, tu que habitas entre os louvores de Israel. Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os livraste. A ti clamaram e escaparam; em ti confiaram, e não foram confundidos. Mas eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo” ( Sl 22:1 -6).

Enquanto os pais foram atendidos em seus pedidos e escaparam, o Cristo de Deus assumiu a condição de verme e opróbrio dos homens. Por causa da condição de ‘opróbrio’ dos homens Jesus teve alongado de si o auxílio divino, ou seja, o auxílio de Deus veio, mas não conforme as palavras do bramido de Cristo “Meu Pai, se é possível passa de mim este cálice…” ( Mt 26:39 ).

O pedido de Jesus foi dentro das possibilidades, visto que Ele veio para fazer a vontade do Pai ( Jo 6:38 ).

Cristo aparentava estar desamparado por Deus diante dos homens para que a justiça de Deus fosse estabelecida. Segundo a visão limitada dos homens Cristo foi desamparado por Deus “Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus” ( Mt 27:43 ), mas aquele momento na cruz remete a um sacrifício que subiu como cheiro suave às narinas de Deus.

Não escondas de mim a tua face, não rejeites ao teu servo com ira; tu foste a minha ajuda, não me deixes nem me desampares, ó Deus da minha salvação. Porque, quando meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me recolherá (Salmo 27:9 -10).

Deus não desamparou Jesus sobre a cruz, visto que, a oferta do corpo de Cristo não foi em pecado. Cristo se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, o que demonstra que Deus não virou o seu rosto quando Cristo estava sobre a cruz, como diz o imaginário popular ( Hb 9:14 ).

Cristo não estava em pecado quando na cruz, pois ele não conheceu o pecado. Deus O fez pecado, ou seja, Jesus assumiu a posição de pecado (maldito) quando foi pendurado no madeiro “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” ( 2Co 5:21 ).

Deus em momento algum rejeitou a pessoa de Cristo, uma vez que no próprio Salmo 22 temos:

“Pois não desprezou nem abominou a aflição do aflito; não escondeu dele o seu rosto, mas quando ele clamou, O ouviu” ( Sl 22:24 ).