O milagre da ressurreição de Lázaro

O milagre da ressurreição de Lázaro é grandioso, mas a confissão de Marta é superior, pois proporciona o milagre da vida eterna.


O milagre da ressurreição de Lázaro

“E Jesus, ouvindo isto, disse: Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” ( Jo 11:4 )

A passagem bíblica que narra a ressurreição de Lázaro tem muito a ensinar acerca da Fé cristã.

O evangelista João destacou o motivo de ter narrado os milagres operados por Cristo: “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ). Sem perder de vista o objetivo do discípulo Amado, analisemos a narrativa da ressurreição de Lázaro, irmão de Marta e Maria.

 

A doença e a morte

Lázaro, irmão de Marta e Maria, ficou enfermo. Marta e Maria (a que enxugou os pés de Cristo após ungi-Lo com um unguento caríssimo) enviaram mensageiros a Cristo para avisá-Lo da condição de Lázaro, dizendo: “Senhor, eis que está enfermo aquele que tu amas” ( Jo 11:3 ).

O evangelista destaca que Jesus amava os três irmãos e, ao ouvir acerca da enfermidade de Lázaro, disse: “Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” ( Jo 11:4 ). Mas, a despeito da enfermidade de Lázaro, Jesus permaneceu com os discípulos onde estava por dois dias.

No terceiro dia Jesus disse aos discípulos que retornariam para a Judeia ( Jo 11:7 ), ao que os discípulos objetaram: “Rabi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e tornas para lá?” ( Jo 11:8 ).

Jesus respondeu enigmaticamente: “Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; Mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz” ( Jo 11:9 -10 compare Jo 9:4 ). Ora, Jesus identificou-se como sendo a Luz que veio ao mundo “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo” ( Jo 9:5 ); “Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” ( Jo 12:46 ).

Em seguida Jesus disse aos discípulos que Lázaro dormia e que iria despertá-lo do sono, e os seus discípulos entenderam que Lázaro estivesse bem, ou seja, que somente estava repousando ( Jo 11:13 ). Foi quando Jesus disse claramente: “Lázaro está morto; E folgo, por amor de vós, de que eu lá não estivesse, para que acrediteis; mas vamos ter com ele” ( Jo 11:14 -15).

Tomé, que nada compreendeu, arrematou: “Vamos nós também, para morrermos com ele” ( Jo 11:16 ).

A cidade de Betânia fica a uma distância de três quilômetros de Jerusalém onde Jesus estava ( Jo 10:22 ), e ao chegar na cidade de Betânia, já fazia quatro dias que Lázaro havia sido sepultado ( Jo 11:17). A morte de Lázaro fez com que muitos Judeus fossem à Betânia prestar as suas condolências à Marta e Maria ( Jo 11:19 ).

 

O encontro de Marta com Jesus

Quando Marta ouviu que Jesus se aproximava, saiu-lhe ao encontro fora da aldeia, enquanto Maria, a que escolheu ficar aos pés de Jesus ouvindo os seus ensinamentos, ficou assentada em casa ( Lc 10:42 ).

Ao encontrar Jesus, Marta disse: – “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!”. Embora o irmão de Marta estivesse morto, diante de Cristo a certeza de Marta era esta: Lázaro não teria morrido se o Senhor Jesus estivesse com eles.

Ela não questionou o fato de Jesus não ter se adiantado para atender o seu irmão quando ainda vivo. Ela não questionou a bondade de Deus. Não atribui sua perda a Deus, antes demonstrou uma confiança inabalável, apesar da contingência: – “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!” ( Jo 11:21 ).

Após expressar a sua confiança, Marta diz: – “Mas também agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá” ( Jo 11:22 ). Mesmo atingida pelas vicissitudes da vida, Marta continuou crendo que, tudo quanto Cristo pedisse a Deus, Deus havia de atendê-Lo.

Mesmo estando enlutada, com os sentimentos fragilizados, não questionou o Mestre como os Judeus que ali estavam fizeram: “Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também com que este não morresse?” ( Jo 11:37 ).

Embora Lázaro estivesse no sepulcro, Marta continuou certa de que Cristo continuava o mesmo (Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido) e, que Deus era com Ele (Mas também agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá).

Diante das declarações de Marta, Jesus disse: “Teu irmão há de ressuscitar” ( Jo 11:23 ). Novamente Marta nos surpreende, pois faz uma nova confissão: “Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia” ( Jo 11:24 ). Embora tivesse perdido um irmão recentemente e, apesar da amizade Jesus não ter se adiantado para atendê-los, Marta continuava firme na doutrina que aprendera: – Eu sei! Meu irmão há de ressuscitar na ressurreição do último dia!

Através da asserção: “Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia” ( Jo 11:24 ), verifica-se que Marta era uma pessoa resignada, conhecia o ciclo natural da natureza, mas que o seu irmão havia de ressuscitar no dia determinado. Apesar de a adversidade ter se instalado no lar de Marta, ela estava cônscia de que tudo tem o seu tempo próprio “TUDO tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou” ( El 3:1 -2).

Por conhecer que Deus fez o dia da adversidade que se opõe ao dia da prosperidade, Marta demonstrou resignação ao dizer: – Eu sei! Meu irmão há de ressuscitar na ressurreição do último dia! ( Ec 7:14 ). Como o evangelista João não faz referencia aos pais de Marta e Maria, possivelmente Lázaro fosse o ‘chefe’ da família. Além da dor da perda do irmão, Marta e Maria teriam que enfrentar novos desafios.

Foi quando Jesus fez uma declaração acerca de Si mesmo: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?” ( Jo 11:25 -26).

Marta havia acabado de perder o irmão, e Jesus anunciou ser a ressurreição e a vida. Em nossos dias tal declaração estaria em xeque. – Como Ele é a ressurreição e a vida se meu irmão está morto? Se isso ocorreu em minha casa que Jesus diz amar, que se dirá das famílias que não tem amizade com Ele?

Marta diante da declaração de Jesus confessou: – “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” ( Jo 11:27 ). Marta não disse crer na ressurreição do seu irmão Lázaro. Ela não disse crer no sobrenatural. Também não disse crer em milagres ou no impossível. Não! Diante do Autor da Vida, da Luz que veio ao mundo, Marta confessou que cria em Jesus de Nazaré como o Cristo prometido nas Escrituras – O Filho de Deus que havia de vir ao mundo!

Uma confissão como a de Marta em qualquer circunstância é grandiosa, mas a dor de Marta torna sua confissão admirável. A confissão de Marta diante de inúmeros Judeus que reputavam que Cristo era simplesmente o filho de José – o carpinteiro – foi um testemunho vivo da Fé que Marta abraçou.

A Fé que Marta confessou não é subjetiva. Não teve origem nela, antes ela declara segundo o que é verdadeiro em Cristo. A Fé que Marta declarou tem por firme fundamento Cristo. A Fé de Marta não era a certeza de coisas que se esperam, pois ela não esperava que o seu irmão fosse ressuscitado naquele dia, antes a Fé dela era o firme fundamento, pois ela cria n’Aquele que é a ressurreição e a vida; ela cria n’Aquele que mesmo os mortos vivem quando creem n’Ele; Ela cria n’Aquele em quem os que creem e vivem, nunca morrerão.

Quando perguntamos: o que é Fé? A resposta é rápida: ‘Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam’, ou ‘a convicção de fatos que se não veem’, porém, a Fé não diz do que o homem espera, ou do que o homem não vê, antes a Fé diz do ‘fundamento’, diz da ‘prova’.

A Fé de Marta não era proveniente do que ela esperava naquele momento e nem do que ela não via. A Fé de Marta diz do fundamento (Alicerce, base de um edifício, principal apoio, base, causa, motivo), diz da prova (O que demonstra a veracidade de uma proposição ou a realidade de um fato), diz do mesmo artigo de Fé que o discípulo Pedro confessou: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).

Alguns tradutores da Bíblia chegam a substituir no vero 1 de Hebreus 11 o termo ‘fundamento’ por ‘certeza’ e, ‘prova’ por ‘convicção’, porém, tal substituição é enfatuada, pois o ‘fundamento’ é algo objetivo e a ‘certeza’ uma questão subjetiva. A prova diz de algo objetivo, já a ‘convicção’ diz de questões subjetivas. Portanto, quando lemos Hebreus 11, verso 1, temos que a fé é o firme fundamento e prova! “ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” ( Hb 11:1 ).

Qual o firme fundamento? A resposta é: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?” ( Jo 11:25 -26). O que o cristão espera? A resposta é: a vida eterna, pois esta é a promessa que Ele nos fez “E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” ( 1Jo 2:25 ).

Diante da pergunta: Crês tu nisso? Crês que Eu sou a ressurreição e a vida? A única resposta para os que creem é: – “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” ( Jo 11:27 ).

Tal pergunta não admite como resposta: – Eu creio em milagres; Eu creio no impossível; Eu creio no que espero; Eu crio no que não vejo; Eu creio porque é absurdo; Eu creio no sobrenatural; ou, eu creio em Deus, pois Cristo diz: “NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim ( Jo 14:1 ). Crede ao menos por ver as mesmas obras! “Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras” ( Jo 14:11 ). Mas, bem-aventurados são os que não viram e creram “Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” ( Jo 20:29 ).

Marta não estava à espera de um milagre. O que Marta esperava já havia alcançado: – “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” ( Jo 11:27 ). O que os profetas dava por certo em seus oráculos, e que muitos aguardavam, Marta havia contemplado, e por isso confessou que Jesus era o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.

 

A ressurreição de Lázaro

Apesar de o texto narrar a ressurreição de Lázaro, Lazaro é coadjuvante na história, e suas irmãs protagonistas.

Após confessar que Cristo é o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, Marta voltou e chamou Maria, sua irmã, e disse em particular: “O mestre está aqui e te chama” ( Jo 11:28 ).

Quando ouviu de Marta que Jesus a chamou, Maria levantou-se depressa e foi ter com Jesus fora da aldeia, no mesmo lugar onde Marta e Jesus se encontraram ( Jo 11:30 ). Os Judeus que vieram a Betânia consolar Marta e Maria, ao ver Maria sair apressadamente, pensaram que ela fosse ao túmulo chorar e seguiram-na ( Jo 11:31 ).

Quando Maria chegou junto a Jesus, caiu aos seus pés e declarou: – “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” ( Jo 11:32 ). Se Marta, que diante do ensinamento de Jesus estava ocupada com muitos afazeres, possuía a convicção abordada anteriormente, não poderia ser diferente a convicção daquela que escolheu a melhor parte: ficar aos pés de Jesus ouvindo sua palavra.

Quando viu Maria chorando jogada aos seus pés, e que os Judeus que acompanhavam Maria também choravam, Jesus comoveu-se, o que O perturbou ( Jo 11:33 ). Ao questionar onde colocaram o corpo de Lázaro, diante da resposta: – ‘Senhor, vem, e vê’, Jesus não se conteve e chorou ( Jo 11:35 ).

Diante das lágrimas de Cristo iniciou-se o burburinho. Uns interpretaram as lagrimas como sinal da afeição de Jesus por Lázaro, e outros questionavam por que Ele nada havia feito para evitar a morte de Lázaro se lhe era possível abrir os olhos aos cegos ( Jo 11:36 -37).

O evangelista João narra que Jesus novamente se comoveu e foi ao sepulcro. Para ambientar o leitor, o discípulo Amado descreve o lugar: era uma caverna e havia uma pedra posta sobre ela ( Jo 11:38 ). Foi quando Jesus disse a frase que muitos consideram célebre: – “Tirai a pedra”.

Esta frase ecoou ao longo dos séculos nos púlpitos cristãos, muitas mensagens foram pregadas tendo por tema tal ordem. Há inúmeras mensagens que buscam dar significados à pedra posta à entrada da caverna feita sepulcro. Neste afã, muitas alegorias, simbologias e parábolas são construídas para dar sentido à pedra posta à porta do sepulcro.

Frases como: Deus requer uma parceria com o homem para acontecer o milagre; O homem entra com a fé e Deus com o sobrenatural, ou, assertivas como: a pedra representa a incredulidade, medo, religiosidade, dúvida; a pedra diz dos problemas familiares, financeiros, emocionais, trabalhistas, etc.

Amados, não há na pedra simbologia alguma que deva ser interpretada. Ela foi posta à porta do sepulcro, porque este era o costume dos judeus ao enterrar os seus mortos: sepultar seus mortos em caverna e colocarem uma pedra na entrada. Se o milagre tivesse sido operado em nossos dias, Jesus teria dito: ‘- Removei a terra’, ou ‘Abram a cripta’, etc. Uma pedra semelhante foi posta na sepultura de Jesus, portanto, se a pedra no sepulcro de Lázaro possui um significado específico, o mesmo deveria ocorrer com a pedra posta no túmulo em que o corpo de Jesus foi posto, e de tantos outros judeus.

A Bíblia possui inúmeras figuras e, nenhuma delas possui dois significados distintos. A pedra é utilizada para fazer referencia a Deus e a Cristo, de modo que Deus é apresentado ao homem como a rocha e Cristo como a pedra angular que os edificadores rejeitaram. Portanto, nada há de especial na pedra que estava posta à porta do túmulo onde Lázaro jazia que demande uma interpretação.

Diante da ordem de Cristo, Marta se antecipa e avisa: – “SENHOR, já cheira mal, porque é já de quatro dias”. Para Marta a pedra posta estava servindo ao propósito em que fora colocada: impedir a saída do mau cheiro. O decurso de quatro dias no calor severo da palestina significava decomposição avançada.

Ela fez tal aviso por não esperar um milagre naquele instante. Isto não significa que ela tenha deixado de crer ou que tivesse dúvidas em seu coração. Observe que outros heróis da fé que estampam a galeria construída pelo escritor aos Hebreus têm fatos relevantes que apresenta um quadro semelhante ao de Marta.

Abraão é o pai da Fé, mas ao ser informado que teria um filho com Sara, sendo ambos de avançada idade, ele riu-se do que lhe fora dito por Deus ( Gn 17:17 ). De igual modo, Sara quando ouviu que haveria de conceber, também riu ( Gn 18:12 -13). Moisés ficou abismado com a promessa de carne e questionou a palavra de Deus ( Nm 11:21 -23).

Todos eles creram em Deus com relação aos bens futuros, porém, não estavam aguardando eventos sobrenaturais, de modo que foram surpreendidos. Dai, a aparente dúvida. Entretanto, a fé que salva eles guardavam. Os pais criam no evangelho anunciado a Abraão, que no seu Descendente seriam benditas todas as famílias da terra, e Marta, por sua vez, cria na pessoa bendita de Cristo Jesus como sendo o Filho de Deus que havia de vir ao mundo ( Gl 3:8 ).

 

Conclusão

O que o evangelista João escreveu sobre a ressurreição de Lázaro tinha o fito de demonstrar que Cristo é o Filho de Deus, ou seja, não tinha por finalidade dar significado ou por em evidência a pedra posta no túmulo ( Jo 20:31 ). Ele evidencia que Marta e Maria criam em Cristo como o Filho de Deus que havia de vir ao mundo e, que Jesus operou o milagre para que os homens cressem que Ele é o enviado de Deus ( Jo 11:42 ).

Jesus replica Marta: – “Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?”

Os que ali estavam, retiraram a pedra da porta do sepulcro onde o corpo de Lázaro jazia e, Jesus levantando os olhos para cima, disse: – “Pai, graças te dou, por me haveres ouvido. Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste” ( Jo 11:41 -42).

A oração de Cristo ao Pai não foi o elemento catalizador do milagre. A oração só foi feita por causa da multidão e com um propósito bem definido: para que cressem que Cristo era o enviado de Deus.

A certeza do Servo do Senhor era inabalável: – “Eu bem sei que sempre me ouves”, portanto, vale salientar que e a confiança não decorre da oração, antes a oração serve para expressar a confiança naquEle que é fiel. A fidelidade de Deus é o motivo da oração, daí advém o agradecimento (graças te dou) e a confiança expressa (bem sei que sempre me ouves).

Após evidenciar o motivo da ordem para tirarem a pedra da porta da sepultura, bradou: – “Lázaro, sai para fora” ( Jo 11:43 ). Diante da ordem, Lázaro saiu ainda com as mãos e os pés enrolados com faixas e o rosto envolto em um lençol. Novamente Jesus fala aos que ali estava: – “Desligai-o, e deixai-o ir”.

O objetivo da vinda de Cristo à cidade de Betânia completou-se: muitos dos judeus que viram o que Jesus fizera, creram nele! A obra ‘maior’ realizada por Cristo não foi a ressurreição de Lázaro, foi fazer com que os judeus cressem n’Ele ( Jo 6:29 ). Naquele momento houve alegria nos céus em função dos pecadores arrependidos ( Lc 15:10 ).

Ao ler esta passagem, devemos ter os olhos bem atentos para ver o milagre maior, pois Jesus alertou para que alegrássemos com os nossos nomes escritos no livro da vida, e não em função de ações miraculosas “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” ( Lc 10:20 ). Na maioria das vezes que esta passagem é interpretada, constatamos que toda ênfase é atribuída a ressurreição de Lázaro, mas a ênfase está na confissão de Marta, pois neste evento ela dá um testemunho público de que havia nascido de novo.

De igual modo dá-se ênfase à confiança do homem como se ela fosse o catalizador de maravilhas, porém, o texto demonstra que a ênfase está na Fé, a semente incorruptível, o firme fundamento, que promove a obra de Deus. Esta é a Fé que obra maravilhosamente e que deve ser anunciada: “Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” ( Rm 1:3 ).

Os homens querem ver a glória de Deus demonstrada através de milagres e até buscam apoio nas Escrituras “Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu” ( Jo 6:30 -31), porém, quando Jesus disse: “Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” ( Jo 11:4 ), a gloria de Deus decorre de crer que Cristo Jesus é o enviado de Deus ( Jo 6:30 ). Quando Ele diz: “Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?”, Jesus não apontou para o milagre da ressurreição do defunto que jazia no túmulo, antes fez referência aos judeus que creram n’Ele “Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo a Maria, e que tinham visto o que Jesus fizera, creram nele” ( Jo 11:45 ).

Através daquele evento coumpriu-se o objetivo de Jesus ao sair de Betânia: glorificar o Pai, pois Deus é glorificado na Sua plantação “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” ( Is 61:3 ); “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” ( Jo 15:8 ).




As bestas do campo nas visões de Daniel

Após os três primeiros animais: leão (babilônia), urso (medo/persa) e leopardo (grego), Daniel viu um quarto animal terrível que será substituído pelo reino de Cristo, portanto, este animal não se refere a Roma.


As bestas do campo nas visões de Daniel

Introdução

Por que Abraão habitou em tendas na terra da promessa?

As visões de Daniel contêm várias figuras de animais do campo e as suas respectivas interpretações, o que nos auxiliará na interpretação das visões que constam do livro do Apocalipse. Através das figuras de bestas feras do campo foi apontado, cronologicamente, a sucessão dos reinos da terra.

Observe esta passagem do livro do profeta Jeremias que destaca três bestas feras do campo: “Por isso um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias” ( Jr 5:6 ).

Oséias profetizou: “Serei, pois, para eles como leão; como leopardo espiarei no caminho. Como ursa roubada dos seus filhos, os encontrarei, e lhes romperei as teias do seu coração, e como leão ali os devorarei; as feras do campo os despedaçarão” ( Os 13:7 -8). As feras do campo anunciadas pelos profetas referem-se às nações inimigas que Deus haveria de incitar contra Israel.

Por causa das explicações contidas no livro de Daniel é possível afirmar que as figuras do leão, do lobo e do leopardo elencadas pelo profeta Jeremias fazem referência respectivamente às nações gentílicas: babilônia, medos/persas e grega.

Quando Deus explica através do profeta Jeremias o motivo pelo qual a nação de Israel seria levada cativa e pisada pelos gentios, utilizou a figura de três bestas feras do campo para fazer referencia às três primeiras grandes nações que dominaram o mundo da antiguidade, e elas foram apresentas em uma ordem cronológica.

As feras do campo são figuras utilizadas para ilustrar as nações gentílicas quando utilizada por Deus para punir a nação de Israel, como se lê:

“E devastarei a sua vide e a sua figueira, de que ela diz: É esta a minha paga que me deram os meus amantes; eu, pois, farei delas um bosque, e as feras do campo as devorarão ( Os 2:12 );

“Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” ( Is 56:9 ).

 

O sonho da estátua de Nabucodonosor

Nabucodonosor sonhou com uma estátua que tinha uma cabeça de ouro, e Daniel informou ao rei que a cabeça da estátua representava a Babilônia dos caldeus, cujo esplendor representava o próprio reino de Nabucodonosor ( Dn 2:37 -38). O peito e os braços da estátua eram de prata simbolizando os reinos dos medos persas, que subjugaram o reino Babilônico ( Dn 2:39 ). O ventre e os quadris da estátua eram de bronze representando o reino dos Gregos ( Dn 2:29 ), e, por fim, as pernas confeccionada em ferro, representado o domínio dos Romanos.

Nabucodonosor viu que os pés e os dedos da estatua era feito de uma mescla de ferro e barro que não se misturam, o que aponta para um reino formado por alianças politicas (casamento), mas que continuarão a coexistir separadamente ( Dn 2:43 ).

A visão demonstra que os pés e dedos da estátua, compostos de ferro e barro, refere-se ao final dos tempos, quando Cristo virá e estabelecerá o seu reino sempiterno que jamais será destruído, pois permanecerá para sempre ( Dn 2:44 ).

O reino de Cristo é representado por uma pedra cortada sem auxilio de mãos humanas ( Dn 2:45 ), que será arremessada contra os pés e os dedos da estátua, destruindo a estatua sem deixar vestígios ( Dn 2:34 -35). A visão do impacto da pedra arremessada contra os pés da estátua demonstra que o domínio dos reinos da terra passará a pertencer ao Verbo de Deus, o Criador dos céus e da terra “Ó SENHOR dos Exércitos, Deus de Israel, que habitas entre os querubins; tu mesmo, só tu és Deus de todos os reinos da terra; tu fizeste os céus e a terra” ( Is 37:16 ).

Na visão a pedra cortada sem auxilio de mão tornou-se uma grande montanha (reino) que encheu toda a terra, demostrando que o domínio do reino do Cristo englobará todos os reinos da terra ( Is 2:1 -4; Dn 7:13 -14).

A estátua possui dois membros superiores para ilustrar o império Medo-Persa, dois membros inferiores que representam os dois impérios romanos (oriente e ocidente) e os pés com dez dedos, que apontam para um reino e dez reis que antecederão o reinado do Messias ( Dn 7:7 ; Ap 17:12 ).

É significativo que o reino de Cristo não é representado por um dos membros da estátua, evidenciando que o reino do Cristo não é deste mundo. O reino de Cristo não faz parte da estátua, por conseguinte, a visão apresenta uma pedra arremessada sem auxilio de mãos “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” ( Jo 18:36 ).

Vale destacar que a Igreja de Cristo aqui na terra não é a pedra cortada sem auxilio de mãos que é arremessada contra os pés da estatua, antes a pedra representa o reino milenial de Cristo em que Ele se assentará sobre o trono de Davi para reinar sobre toda a terra. Antes de iniciar-se o reino milenar, Cristo se assentará no seu trono e julgará as nações separando uma das outras assim como os pastores separam os bodes das velhas ( Mt 25:31 -33; Dn 2:44 ).

Nesta visão fica claro que a cabeça que será restaurada de um ferimento mortal e que maravilhará os moradores do mundo não é Roma, porque Roma é representada somente pelas pernas da estátua “As pernas de ferro…” ( Dn 2:33 e 40). Antes de vir o reino sempiterno do Messias, haverá o reino representado pelos pés e artelhos, pois os pés e os artelhos representam um reino diferente do representado pelas pernas “… os seus pés em parte de ferro e em parte de barro” ( Dn 2:33 ).

A pedra será arremessada sem auxilio de mãos contra os pés e artelhos da estátua, e não contra as pernas da estátua (Roma). O reino de Cristo substituirá o reino representado pelos pés e os artelhos ( Ap 13:3 ; Dn 2:33 e 41-44).

 

As quatro bestas feras que subiram do mar

Na visão do capítulo 7 de Daniel as nações e reinos da terra são representados por figuras de animais do campo. Daniel viu os ‘quatro ventos’ agitarem o ‘grande mar’ e subiram do mar quatro animais grandes e diferentes uns dos outros ( Dn 7:3 ; Dn 7:17 ; Ap 13:1 ).

O primeiro animal que ele viu subir do mar foi um leão com asas como de águia, símbolo do reino babilônico. Enquanto Daniel contemplava, as asas do leão foram arrancadas e, em seguida o leão se firmou sobre dois pés como um homem e passou a ter mente (ou coração) de homem ( Dn 7:4 ).

Moisés já havia profetizado acerca desta nação que viria com asas como de águia quando o povo de Israel se distanciasse das ordenanças de Deus, e os filhos de Jacó seriam levados cativos por povos de terras longínquas “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço” ( Dt 28:49 -50; Jr 21:7 ).

Os caldeus foi o primeiro povo a ser enviado por Deus contra Israel conforme avisou o profeta Habacuque ( Hc 1:7 ). Mas, após dominarem a nação de Israel conforme estabelecido por Deus ( Dn 5:18 ), Nabucodonosor se ensoberbeceu ( Dn 5:20 ). Belsazar, Filho de Nabucodonosor, apesar de saber o que ocorrera ao seu pai, não atribuiu ao Deus de Israel a magnificência do reino Babilônico ( Dn 5:23 ; Dn 2:37 ), o que trouxe ruína a Babilônia.

Babilônia era representada por um leão com asas de águia. As asas significam que Babilônia era uma nação estabelecida por Deus para executar uma obra específica: a punição de Israel ( Dn 5:18 ; Hc 1:5 -6). Por causa da grandeza, glória e majestade concedidas por Deus aos caldeus para que desempenhassem a missão, envaideceram-se e “ergueram-se sobre os seus pés”. Por sua suposta autossuficiência, Babilônia se ensoberbeceu (soberba é sentimento afeto aos homens), desprezou o Deus de Israel.

Enquanto besta, a babilônia serviu de Vara de repreensão contra Israel ( Jr 27:6 ) e, ao considerar que por sua própria força sobrepujou os reinos da terra obteve coração (arrogância e soberba) de homem, perdeu as asas como de águia, perdeu a aprovação de Deus ( Is 47:10 ; Jr 51:17 ; Is 13:11 ).

Em seguida, Daniel vê uma besta fera do campo semelhante ao urso. O urso é figura que representa o império da Média e da Pérsia, que é visto erguendo-se sobre um dos seus lados (Medos) e com três costelas (Lídia, Babilônia e Egito) e em sua boca ( Dn 7:5 ).

O leopardo representa o império dos gregos. A visão do capítulo 7 comparada com a visão do capítulo 11 permite inferir que as quatro asas e as quatro cabeças que possuía faz referencia aos quatro generais de Alexandre Magno (quatro asas), que rapidamente dominaram o mundo antigo ( Dn 7:6 ). Após a morte de Alexandre o império foi dividido e passou aos seus quatro generais ( Dn 11:3 -4).

O quarto animal diz de uma fera (besta= em grego ‘therion’, e significa um grande e feroz animal) impossível de ser comparado a qualquer animal terrestre. A quarta besta vista nesta visão foi descrita como muito forte, terrível e espantosa, possuía dentes de ferro, unhas de bronze e dez chifres. A fera devorava, fazia em pedaços e pisava aos pés o que sobrava ( Dn 7:7 ).

Cada besta teve o seu ciclo de atuação e foram substituídas, o que nos remete a ideia de que os reinos subsistiram por um período de tempo e tiveram um fim após o surgimento da próxima fera ( Dn 7:12 ). O quarto animal, porém, representa um reino que ainda não existiu e, quando existir, será o reino que será substituído pelo reino milenial de Cristo ( Dn 7:26 -27).

Após os três primeiros animais: leão (babilônia), urso (medo/persa) e leopardo (grego), Daniel viu um quarto animal terrível que será substituído pelo reino de Cristo, portanto, este animal não se refere a Roma.

Embora saibamos pela visão da estátua e pela história que existiram quatro grandes impérios: babilônico, medo-persas, grego e romano, a visão do capítulo 7 de Daniel difere da visão de Nabucodonosor.

Enquanto a estátua é uma visão panorâmica da história das nações gentílicas revelada a um gentil, as visões das bestas representando nações apontam para o papel que as nações gentílicas desempenham na punição do povo de Israel, e foi revelada a um judeu: Daniel.

O capítulo 7 contém figuras de bestas que representam as nações gentílicas enviadas para castigar a apostasia dos judeus (leão, lobo, leopardo e a besta indescritível= quatro nações), já a visão do capítulo 2 só apresenta um quadro panorâmico dos reinos da terra sem conexão com a missão que desempenham. O profeta Jeremias aponta três nações descritas através das figuras do leão, do lobo e do leopardo ( jr 5:6 ), as mesmas nações que constam dos capítulos 2 e 7.

O império Romano só é representado na visão da estátua (pernas de ferro) que Nabucodonosor viu em sonho. A estátua representa todos os reinos gentílicos. Já as outras nações (Babilônia, Medo Pérsia, Gregos), além de serem representadas na visão da estátua, também são representadas nas demais visões como bestas feras do campo (vara de punição contra Israel) que subiram da agitação do mar grande.

A agitação do mar representa a amotinação das nações gentílicas contra o Ungido de Deus e o povo que Deus escolheu ( Sl 2:1 ; Sl 46:3 ).

Observando com acuidade as visões de Daniel, não encontramos os romanos representados como uma besta fera do campo, significando que o império romano não recebeu a missão de punir o povo de Israel por sua apostasia. O império Romano contempla o período bíblico singular denominado de ‘plenitude dos gentios’, ou seja, Roma não faz parte do tempo que corresponde às setenta semanas de Daniel.

Roma estabeleceu o que se denomina em nossos dias de ‘PAX ROMANA’, pois Augusto em 29 a. C. declarou o fim das guerras civis, o que perdurou até o ano da morte de Marco Aurélio, em 180 d.C.

Enquanto as outras nações são identificadas através de bestas feras do campo, não é atribuído ao império Romano nenhuma figura de alimária do campo. Nas visões que consta do livro de Daniel, Roma é representada somente através das pernas de ferro da estatua que Nabucodonosor viu em sonho.

‘Besta’ ou ‘animais ferozes do campo’ são figuras utilizadas para fazer referencia às nações gentílicas que executariam o juízo e a ira de Deus contra o povo de Israel por não darem ouvidos à palavra de Deus.

Vale destacar novamente que as figuras construídas através das alimárias do campo representam as nações instituídas para punir a apostasia de Israel, porém, ao Império Romano não é atribuído nenhuma figura de fera do campo. Esta distinção se dá porque no período que foi estabelecido o Império Romano, inaugurou-se o tempo denominado de ‘a plenitude dos gentios’, período de tempo que abrange da morte do Cristo ao arrebatamento da Igreja e a contagem de tempo estabelecida sobre os judeus suspenso.

As perseguições ao povo de Israel durante a plenitude dos gentios não são previstas nas profecias e nem nas visões. Portanto, a diáspora dos judeus após a destruição de Jerusalém pelos Romanos não está representado nas profecias bíblicas, visto que a contagem de tempo que está determinada sobre o povo de Isael foi suspensa na sexagésima nona semana.

De acordo com a profecia, até o nascimento de Cristo foi estabelecido sessenta e nove semanas de anos sobre o povo de Israel, e o Ungido foi cortado da terra dos viventes (morto) após as sessenta e nove semanas “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias ( Dn 9:25 -26).

A contagem das setenta semanas (tempo dos Judeus) foi suspensa com o nascimento de Cristo ( Dn 9:24 -25), como também as profecias para Israel e, após a morte de Cristo iniciou-se a plenitude dos gentios ( Lc 16:16 ).

Desde a ordem dada por Ciro para restaurar e edificar o templo em Jerusalém, tempo em que parte do povo de Israel saiu da Babilônia e voltou para Israel até o nascimento de Cristo, transcorreram sessenta e nove semanas, que corresponde à soma de sete semanas e sessenta e duas semanas “Que digo de Ciro: É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz, dizendo também a Jerusalém: Tu serás edificada; e ao templo: Tu serás fundado” ( Is 44:28 ; Ed 1:1 ).

A última semana que resta para completar as setenta semanas profetizadas pelo Jeremias somente voltará a ser computada após o arrebatamento da Igreja, quando se encerrará a plenitude dos gentios ( Rm 11:25 ).

Não há na Bíblia nenhuma figura de besta relacionada ao tempo em que a Igreja de Cristo permanecer na face da terra, mas, quando a Igreja for arrebatada a contagem de tempo da ‘última semana de Daniel’ terá início, quando a besta apocalíptica que subirá do mar surgirá e fará guerra aos santos e será dado besta vencê-los ( Ap 13:1 ).

Para muitos interpretes o quarto animal apontado na interpretação da visão como o quarto reino da terra seria o Império Romano. Mas, se considerarmos:

  1. as características do animal: diferente de todos os animais que apareceram antes dele, grandes dentes de ferro, as unhas de bronze e os dez chifres ( Dn 7:19 );
  2. a interpretação da visão: ‘devorará toda a terra, e a pisará aos pés, e a fará em pedaços’ ( Dn 7:23 ), e;
  3. as características do Império Romano, que impunha o seu domínio pela escravidão sem destruir completamente a cultura e o modo de existência daqueles que eram conquistados.

Chegaremos à seguinte conclusão: o quarto animal não pode ser o Império Romano.

Por causa das características do quarto animal, Daniel ficou curioso para saber:

  1. a verdade acerca do quarto animal ( Dn 7:19 );
  2. a verdade acerca dos dez chifres que o animal possuía ( Dn 7:20 );
  3. a verdade acerca do chifre que surgiu entre os dez e fez com que caísse três chifres, e;
  4. e a guerra que o chifre fez contra os santos e os vencia.

O quarto animal que Daniel viu refere-se à besta do Apocalipse, ou seja, um reino diferente de todos os outros reinos que existiram.

Em determinado tempo (na metade da última semana) se levantará deste reino dez reis conforme representado pelos dez chifres que o animal possui ( Dn 7:19 -20).

Através da explicação contida nos versos 21, 23 e 24 do capítulo 7 de Daniel, somos remetidos tanto à besta que subiu do mar que consta do Apocalipse, quanto aos pés e dedos da estátua vista por Nabucodonosor confeccionados em ferro e barro ( Dn 2:41 ; Ap 13:1 ; Dn 2:33 e 40).

Daniel observava bem os dez chifres da besta que tem aparência terrível quando surgiu um chifre pequeno e três dos dez chifres foram arrancados, ficando ao total 8 chifres ( Dn 7:8 ). O ‘chifre’ possuía olhos de homem e uma boca que proferia blasfêmias como é apresentado em Apocalipse 13, verso 5, pois era mais robusto que os outros chifres e fazia guerra aos santos e os vencia ( Dn 7:20 -21; Ap 13:7 ).

A profecia é clara ao estabelecer que o quarto reino da terra terá um período delimitado de tempo (tempo, tempos e metade de um tempo – três anos e meio), porém, o Império Romano se estabeleceu por um período de aproximadamente 1500 anos, período muito superior a uma semana de anos como o previsto por Deus a Daniel “E proferirá palavras contra o Altíssimo, e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei; e eles serão entregues na sua mão, por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo” ( Dn 7:25 ); “E ouvi o homem vestido de linho, que estava sobre as águas do rio, o qual levantou ao céu a sua mão direita e a sua mão esquerda, e jurou por aquele que vive eternamente que isso seria para um tempo, tempos e metade do tempo, e quando tiverem acabado de espalhar o poder do povo santo, todas estas coisas serão cumpridas” ( Dn 12:7 ).

Para a Igreja Apostólica Romana o leopardo refere-se aos gregos na figura de Alexandre Magno e as quatro asas aos reinos que surgiram após a morte de Alexandre. No entanto, os teólogos católicos identificam o quarto animal como sendo o reino dos Diádocos (sucessores de Alexandre), posicionamento diferente dos protestantes que consideram o quarto reino como sendo Roma ou o papado.

Enquanto Daniel continuava olhando, foi posto tronos e o Ancião de dias assentou-se para julgar ( Dn 7:9 -10), e os reinos da terra foram dados aos santos para sempre ( Dn 7:27 ).

 

O carneiro e o bode

Outra visão com relação às nações contendo figuras de animais foi vista por Daniel. Quando teve as visões do capítulo 8 Daniel estava na cidade de Susã, província de Elão, porém, na visão ele estava nas proximidades do rio Ulai “E vi na visão; e sucedeu que, quando vi, eu estava na cidadela de Susã, na província de Elão; vi, pois, na visão, que eu estava junto ao rio Ulai” ( Dn 8:2 ).

O profeta Daniel viu um carneiro com dois chifres altos, um maior que o outro, sendo que o chifre que subiu por último era maior que o primeiro. O carneiro dava marradas (chifradas) para o ocidente, norte e sul. Em seguida foi dada a interpretação da visão, e apontado os reis da Média e da Pérsia como sendo os chifres do carneiro ( Dn 8:3 e 20).

Em seguida foi visto um bode peludo que veio do ocidente planando no ar e possuía um chifre enorme na testa e arremeteu-se contra o carneiro, que não pode resistir. O bode tornou-se grande, mas o seu chifre quebrou-se e surgiram quatro em seu lugar ( Dn 8:5 ). O rei da Grécia é o bode peludo, sendo o chifre grande seu primeiro grande rei (Alexandre).

Com a queda do primeiro grande rei da Grécia surgiram quatro reinos em seu lugar, mas não possuíam a força do primeiro rei.

O reino de Alexandre, o Grande, foi dividido por seus quatro generais:

  1. Cassandro recebeu a Macedônia e a Grécia;
  2. Lisímaco ocupou a Trácia, a Bítínia e a maior parte da Ásia Menor;
  3. Seleuco assumiu a Síria e a área ao leste deste país, inclusive a Babilônia, e;
  4. Ptolomeu ficou com o Egito, e provavelmente a Palestina e a Arábia ( Dn 8:21 -22).

Na visão o grande chifre do bode quebrou-se e foi substituído por quatro chifres, que cresceram em direção aos quatro ventos ( Dn 8:8 ). Em seguida, Daniel destaca que, quando a medida dos prevaricadores for completa, um chifre pequeno surgirá e se desenvolverá para o sul, oriente e a terra formosa (joia).

Em seguida o anjo apresenta a explicação da visão, de mostrando que, com a ruptura do grande chifre do carneiro, quatro chifres nasceriam em seu lugar, porém, sem terem o mesmo poder do chifre grande. Sabemos que o chifre grande refere-se a Alexandre, o grande, e que os quatro chifres representam os seus quatro generais. Ou seja, os quatro chifres ainda representam o domínio do carneiro, ou seja, dos gregos.

Após demonstrar que os quatro chifres substituíram o chifre grande, a visão especifica um tempo: quando for dada por completa a medida dos infiéis (judeus). Neste tempo um rei (chifre pequeno) surgira pleno de mentiras e de crueldade.

Há quem considere que o chifre pequeno do verso 9 refere-se a pessoa de Antíoco IV Epífânio (215 – 162 a.C.), rei da Dinastia Selêucida que governou a Síria entre 175 e 164 a.C., e que o chifre pequeno originou-se de um dos quatro chifres.

“De um dos chifres saiu um chifre pequeno e se tornou muito forte para o sul, para o oriente e para a terra gloriosa” (v. 9) ARA;

No entanto, o chifre pequeno do capítulo 8 é o mesmo chifre pequeno do capítulo 7 ( Dn 7:24 -26), que é a boca dada à besta do Apocalipse ( Ap 13:5 ).

A confusão de estabelecer Antíoco Epifânio como o chifre pequeno do capítulo 8 se dá porque muitos entendem que o chifre pequeno surge de um dos quatro chifres do bode peludo. No entanto, o chifre pequeno surge do mar grande, uma vez que os quatro ventos é o que agita as nações gentílicas ( Ap 13:1 ; Dn 7:2 ).

“De um deles saiu um pequeno chifre que se desenvolveu consideravelmente para o sul, para o oriente e para a joia (dos países)” (v. 9) Bíblia Ave Maria.

No texto hebraico do capítulo 8 de Daniel não há o termo ‘chifres’ no verso 9.

Por inferência e sem colocar o termo ‘chifres’ entre colchetes os tradutores inseriram no texto o termo ‘chifres’, o que veta ao leitor a faculdade de analisar e concluir por si mesmo se é ou não plausível fazer a inferência do termo na leitura.

O chifre pequeno saiu dos quatro ventos, visto que há uma ruptura entre o reino do bode peludo e o surgimento do chifre pequeno (o rei de feroz catadura e entendido em intrigas que consta do verso 23). O chifre pequeno é descendente do povo do bode peludo como foram os quatro chifres (quatro generais) que subirarm em lugar do chifre grande que foi quebrado.

O anjo deixou claro que do povo do bode peludo haveria de se levantar quatro reinos (chifres), mas se considerarmos Etioco Epifânio como sendo o chifre pequeno, teríamos cinco chifres.

Se o chifre pequeno subiu de um dos quatro chifres do bode peludo, o texto necessáriamente deveria apontar que o bode teria cinco chifres.

Nas visões que apresntam a figura de bestas, os chifres são vistos sobre as cabeças dos animais. As visões não apresentam um chifre surgindo de um chifre que já existe sem ants derrubá-lo. É possível que um chifre suba quando outro é arrancado ou se quebra, porém, um chifre subir sem o outro ter sido quebrado não ocorre nas Escrituras.

O texto não diz que um dos quatro chifres foi quebrado, antes que subiram do seu lugar para os quatro ventos do céu. Mas, se surgisse um chifre após os quatro, certo é que seria apresentado os quatro e, em seguida, narrado que após o quarto, surgiu um quinto chifre no mesmo animal.

A tradução que mais reflete o texto hebraico é: “E de um deles saiu um chifre muito pequeno, o qual cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa” (v.9).

A expressão ‘de um deles’ contida no verso 10 induz o leitor a entender que o chifre pequeno sai de um dos quatro generais de Alexandre.

Mas, ao observar as Escrituras como um todo, percebe-se que as figuras de animais que representam as nações gentílicas surgem da agitação do mar grande ( Dn 7:2 ), que é agitada pelos quatro ventos do céu ( Ap 13:1 ). Como a última expressão do verso 8 é: ‘os quatro ventos do céu’, certo é que o chifre pequeno sobe do mar por causa da agitação dos quatro ventos (de um deles) “Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar grande” ( Dn 7:2 ; Ap 13:1).

Dos quatro ventos que agitaram o mar grande surgiu quatro grandes animais, cada qual diferente um do outro representando respectivamente a babilônia, os medos persas, os gregos e o animal terrível ( Dn 7:3 ). Quando da visão do capítulo 8, a babilônia já havia caido diante dos medos, daí o motivo de não aparecer uma figura que representasse a Babilônia.

A visão do capítulo 8 apresenta os mesmos reinos do capítulo 7, exceto a babilônia, de modo que tanto o cordeiro com dois chifres, quanto o lobo peludo e os seus chifres e o chifre pequeno surgiram da da agitação do mar grande causada pelos quatro ventos, conforme narra o verso 2 e 3 do capítulo 7: “Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar grande. E quatro animais grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar” ( Dn 7:2 -3).

Ora, se o animal semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, e o outro semelhante um leopardo, o qual tinha quatro asas de ave nas suas costas e possuia quatro cabeças, surgiram da agitação do mar grande, certo é que o cordeiro de dois chifres e o bode com um chifre grande surgiram da agitação que os quatro ventos causaram ao mar grande.

As visões do capítulo 7 e do capítulo 8 são similares, de modo que a do capítulo 8 suprime a figura de um animal que representava a Babilônia e, por apontar eventos pertinente ao último tempo da ira, a figura do quarto animal terrível e espantoso (reino) foi suprimida, sendo evidenciado somente o chifre pequeno (rei) que surge após serem arrancados três de um total de dez ( Dn 7:8 ).

O chifre pequeno não é Epifânio porque do chifre pequeno é dito que ele ‘cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa’. Do ponto de vista geopolítico, se compararmos a expansão do governo de Antíoco como rei da Síria, vê-se que ele não se fortaleceu nem no sul (Israel), nem no sudoeste (Egito), visto que Antíoco estava sujeito a Roma em virtude do tratado de Apaméia assinado por Antíoco III, o Grande, e viu-se obrigado a impor-se contra Jerusalém para honrar as suas obrigações para com Roma.

Quando é dada a explicação da visão a Daniel é dito pelo anjo que os eventos da visão referem-se ao último tempo da ira, que pertence ao tempo determinado do fim “E disse: Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira; pois isso pertence ao tempo determinado do fim ( Dn 8:19 ). Ora, os tempos dos reis da Média e da Pérsia, bem como dos reis da Grécia não foram o tempo do fim, pois quando Jesus veio, deixou claro que os inúmeros eventos de guerras e rumores de guerras ainda não era o fim, antes o ‘princípio de dores’.

Jesus explicou que rumores de guerras não é o fim, antes indica um periodo de tempo que precede as dores. Através da explicação de Cristo fica evidente que as ações de Antíoco não selaram o último tempo da ira e nem pertencem ao tempo determinado do fim “E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim ( Mt 24:6 ).

Ora, o reinado dos quatro reinos estabelecidos pelos generais de Alexandre findou-se muito antes do tempo chamado por Jesus de ‘princípio de dores’, tempo este apontado como aquele que antecede o tempo do fim, o que descarta Antíoco Epifânio como o chifre pequeno, pois à época de Jesus ainda não havia trasncorrido o ‘princípio de dores’ apesar dos horrores perpetrados por Antíoco contra os judeus.

Observe os versos 22 e 23 de Daniel 8: “O ter sido quebrado, levantando-se quatro em lugar dele, significa que quatro reinos se levantarão da mesma nação, mas não com a força dele. Mas, no fim do seu reinado, quando acabarem os prevaricadores, se levantará um rei, feroz de semblante, e será entendido em adivinhações” ( Dn 8:22 -23), e compare com os versos 8 e 9: “E o bode se engrandeceu sobremaneira; mas, estando na sua maior força, aquele grande chifre foi quebrado; e no seu lugar subiram outros quatro também insignes, para os quatro ventos do céu. E de um deles saiu um chifre muito pequeno, o qual cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa” ( Dn 8:8 -9).

Tanto o chifre insigne (grande) que foi quebrado, quanto os quatros chifres que surgiram no lugar do chifre grande pertenciam ao bode peludo. Isto significa que o chifre grande e os quatro reinos que surgiram e que cresceram em direção dos quatro ventos do céu pertencia aos gregos.

A abordagem sobre o carneiro e o bode não se refere ao tempo do fim, visto que os medos/persas e os gregos passaram e não chegou o fim.

É importante compreender que, apesar de ter sido revelado pelo anjo o significado do carneiro e do bode (urso e leopardo), o objetivo da visão era mostrar a Daniel os acontecimentos pertinentes ao tempo do fim “e disse: Eu te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira, porque ela se exercerá no determinado tempo do fim” ( Dn 8:17 ).

O tempo do fim fica vinculado ao tempo em que os prevaricadores completarão a medida de suas trangressões. Quem são os prevaricadores? Os prevaricadores são os judeus que se desviaram de seguir o seu Deus “Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores” ( Is 46:8 ); “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” ( Is 59:13 ; 2Cr 28:19 ; Jr 2:8 ).

O verso deixa claro que, somente quando os ‘prevaricadores’ completarem a medida de suas transgressões se levantará o rei de semblante feroz e entendido de adivinhações “Quando acabarem os prevaricadores, se levantará um rei, feroz de semblante, e será entendido em adivinhações” ( Dn 8:23 ), ou “Quando os transgressores encherem a medida do seu pecado…”.

O anjo deixa claro que a visão se refere ao determinado tempo do fim, o que iria acontecer no último tempo da ira ( Dn 8:19 ). Ora, o tempo do fim refere-se à última semana de Daniel, período de tempo posterior ao parentese dos gentios.

É impossível o reinado de Antíoco Epifânio ser o reinado do rei feroz de semblante (chifre muito pequeno), porque muito tempo depois Jesus ensinou aos seus discípulos que o tempo do fim ainda estava por vir.

O reinado do chifre pequeno que consta da visão do verso 23 tem relação com o que há de acontecer no último tempo da ira, visto que a ira de Deus será exercida no determinado tempo do fim.

Com o advento da igreja é necessário considerar o tempo da plenitude dos gentios, que antecede a última semana de Daniel, visto que a contagem do tempo estabelecido por Deus sobre Israel (as setentas semanas) está suspensa até o arrebatamento da igreja.

No verso 23 é apontado a característica do rei de feroz semblante, as mesmas característica atribuídas ao reino da besta que subiu do mar do Apocalipse e ao animal do capítulo 7 do livro de Daniel ( Ap 13:1 ; Dn 2:34 ).

O governo da besta terá as principais características dos grandes reinos da antiguidade: será um reino semelhante ao leopardo (Grécia), pés como os de urso (Medos e Persas), e a sua boca como a de leão (Babilônia).

Observe que o governo representado pela besta apocalíptica crescerá por causa da força que o dragão (Satanás) concederá, assim como o rei de semblante feroz ( Ap 13:2 ). Mas, por fim o reino representado pela besta será quebrado, assim como os pés da estátua que teve os pés destruídos sem auxílio de mão ( Dn 8:24 -25). Tanto a visão de Daniel quanto a visão do apóstolo João refere-se ao tempo do fim ( Dn 8:26 ).

Continua…




O livre-arbítrio não é mito

Um dos erros da concepção de que o livre arbítrio é um mito é aplicar uma figura utilizada para descrever a condição dos filhos de Israel e de seus líderes (condutores cegos que guiam cegos) e aplica-la a humanidade para estabelecer a inabilidade do homem em crer em Cristo “Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” ( Mt 15:14 ).


O livre-arbítrio não é mito

“Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 )

 

Introdução

O presente artigo não é uma abordagem filosófica acerca do que é ‘livre-arbítrio’, nem mesmo se propõe abordar suas implicações morais, religiosas, psicológicas, científicas, sociais, econômicas, politicas, ideológicas, etc.

A abordagem não é de cunho religioso, pois não visa impor questões éticas e morais, ou seja, não é prescritivo, não visa responder se o indivíduo é moralmente responsável por suas ações e nem se o homem é capaz de exercer escolhas genuínas.

A análise deste artigo tem por base princípios e figuras que a Bíblia apresenta.

 

Qual é o mito?

Deparei-me com um artigo na web com o título “O mito do livre-arbítrio” que fortemente me compeliu a comentá-lo. Para contextualizar a abordagem do tema, se faz necessário transcrever alguns pontos do artigo que está assinado pelo Pr. Walter Chantry.

Nos dois primeiros parágrafos do artigo temos a seguinte exposição:

“Ninguém pode negar que o homem tem vontade – que é a faculdade de escolher o que deseja dizer, fazer e pensar. Mas, já refletiu sobre a lastimável fraqueza da sua vontade? Embora tenha a capacidade de tomar uma decisão, você não tem o poder de realizar o seu propósito. A vontade pode projetar um curso de ação, mas não tem em si mesma a capacidade de realizar o que intenta. Os irmãos de José o odiavam e venderam-no como escravo. Mas Deus utilizou o que eles fizeram para torná-lo um governante sobre eles mesmos. Eles escolheram, com o seu curso de ação, prejudicar a José, mas Deus, em Seu poder, dirigiu os acontecimentos para o bem de José, que disse: “Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem” (Gn 50.20)” (grifo nosso) O mito do livre-arbítrio, Walter Chantry, pastor da Grace Baptist Church em Carlisle, PA, EUA – Traduzido por: Wellington Ferreira – Copyright© Walter Chantry, Editora Fiel, Traduzido do original em inglês: The Myth of Free Will extraído do site: www.the-highway.com/Myth.html.

O Pr. Chantry afirma que o homem possui a faculdade de ‘escolher o que desejar dizer, fazer e pensar’, ou seja, ele faz referência à vontade do homem, porém, em seguida, perde a lógica, pois faz algumas conjecturas sobre ‘decisão’ e ‘poder de realizar’ como se estivesse analisando a vontade. Para dar apoio à argumentação, que confunde ‘vontade’ com ‘decisão’ e ‘capacidade de realização’, cita os irmãos de José como prova de que o homem não tem a capacidade de realizar o que intenta sob a alegação de que a vontade do homem é fraca.

Nesta abordagem há uma distorção gravíssima sobre o que é ‘vontade’ e ‘decisão’, quando argumenta que a vontade não possui capacidade de realização. Propositadamente ou não, o que o Pr. Chantry propôs deriva do mesmo princípio do argumento do ‘paradoxo da pedra’, argumentação filosófica que contrapõe a onipotência divina com força física.

O paradoxo da pedra firma-se no argumento de que, se Deus tem poder para realizar qualquer ação, então teria que criar uma pedra que Ele mesmo não pudesse levantar. A argumentação não leva em conta que as leis da física não se aplicam a Deus.

Sem adentrar na seara do paradoxo da pedra que contrapõe indevidamente elementos que possuem naturezas completamente distintas como ‘força física’ e ‘poder criativo’, é inegável que Deus é livre e todo poderoso.

Na tentativa de encontrar uma impossibilidade em Deus, os homens se apoiam na lógica e em eventos físicos, mas a Bíblia revela abertamente e sem qualquer rodeio que Deus não pode mentir, ou seja, que Deus não pode negar a si mesmo “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:13 ; Tt 1:2 ).

Apesar de ser todo poderoso, a Bíblia apresenta várias impossibilidades em Deus, como: Deus não pode mentir, não pode ter o culpado por inocente, não pode justificar o ímpio, não pode aceitar suborno, não pode fazer acepção de pessoas, não pode mudar, etc. Ora, todas estas impossibilidades é segurança para os que creem!

A impossibilidade de mentir depõe contra a onipotência divina? Não! A impossibilidade seria uma fraqueza da vontade divina? Não! Se tal impossibilidade não depõe contra os atributos da divindade, de igual modo temos que considerar que a incapacidade humana de realizar algum desejo não depõe contra o seu livre arbítrio.

É aberrante tentar amalgamar ‘vontade’ com ‘capacidade de ação’, ou, abordar ambas como se fosse um só ente. A natureza da vontade e a natureza da capacidade de ação são completamente distintas, pois ‘capacidade de ação’, mesmo quando limitada por fatores externos ao homem, não o impede de desejar.

A vontade é algo inerente ao indivíduo e é definida como a ‘capacidade de autodeterminação’, ‘intencionalidade definida’, ‘anseio da alma’, o que diverge do conceito apresentado pelo Pr. Walter, de que vontade é ‘a faculdade de escolher o que deseja dizer, fazer e pensar’.

Há imprecisão na asserção apresentada, pois vontade não é o mesmo que escolha.

Temos que divisar bem. Estamos abordando o problema do livre-arbítrio, questão diferente da livre agencia, embora muitos trabalhem as duas questões como se fosse apenas uma. Na livre agencia há o problema das opções de escolha, que é fator limitador externo ao agente, mas a opção de escolha não limita a vontade. A livre agencia é condicionada a fator externo ao agente, já o livre-arbítrio não.

A vontade do homem não possui limites por não estar sujeita a fatores externos ao indivíduo, mas quando o homem se depara com opções de escolha, exercerá a sua liberdade dentro de parâmetros pré-estabelecidos, o que se denomina de livre agencia. Quando no exercício da escolha dentro das opções ofertadas não podemos aduzir que, em função do limite de opções há fraqueza na vontade do homem.

Nada há que limite a capacidade do homem de desejar e pensar e, se não há o que limite o homem quanto a esta capacidade, certo é que o homem possui livre-arbítrio. Faça você mesmo um exercício desta faculdade neste momento. Escolha o que você quiser pensar e resolva desejar o que você quiser desejar. Há qualquer fraqueza quanto a esta faculdade? Você não conseguiu pensar o que quis pensar, ou houve algum empecilho quanto àquilo que você quis desejar?

Uma pessoa pode desejar comer o doce que quiser, mas se for diabético, apesar do desejo livre, as suas escolhas quanto a comer doces estará condicionada a preservar a sua existência.

O Pr. Walter inicialmente abordou a vontade como faculdade, que em outras palavras é aptidão indissociável das disposições internas do indivíduo, em seguida procurou estabelecer a vontade como fraca em função de questões externas ao indivíduo, porém as questões externas estão relacionadas à capacidade de ação e não à vontade.

Quando se fala em vontade, fazemos referência à autodeterminação e tal capacidade não está investida de poderes mágicos, ou de onipotência. Há uma grande diferença entre vontade e capacidade de realização. Por exemplo: Deus quer que todos os homens se salvem e que venham ao conhecimento da verdade, porém, apesar de possuir todo poder (capacidade de realização), poucos são os que entram pela porta estreita “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:14 ).

Há incapacidade na vontade de Deus? Não!

O pastor Walter começa seu texto fazendo uma definição de vontade, e no afã de anular o livre arbítrio faz a seguinte colocação:

“Se a vontade do homem é tão potente, por que não desejar vivendo sempre e sempre? Mas você certamente vai morrer” Idem.

Quem, algum dia afirmou que há potencia na vontade? O termo livre arbítrio não trás a ideia de potência, mas a liberdade de julgamento íntimo!

Ora, a vontade do homem não é potente e nem impotente. Entretanto, se a premissa acima foi lançada no texto para demonstrar que o homem não tem mérito quanto a aceitar a salvação, ela é inócua, porque o mérito da salvação não se baseia em vontade, mas no agir de Deus segundo o seu propósito.

Embora a vontade não tenha em si mesmo o poder de realização, contudo, ela impulsiona o indivíduo a agir (trabalhar) em favor da realização. A ação é a fonte que possibilita a concretização do desejo. Pensar a vontade sem levar em conta que é no trabalho que está o poder de realização, promove confusão no trato do livre arbítrio.

Não há poder de realização quando se deseja ter uma casa, porém, o desejo é a chama que motiva o homem a trabalhar e construir uma casa para si. No trabalho encontra-se o poder de realização.

De igual modo, não há poder na vontade do homem quando deseja ser salvo. Quando se trata de uma casa, o homem pode trabalhar para conquistar seu desejo, mas com relação à salvação isto lhe é impossível alcançar através do labor.

Quando o discípulo Pedro perguntou: “Quem poderá, pois salvar-se?” ( Mt 19:25 ), Jesus respondeu: “Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível” ( Mt 19:26 ). Jesus apontou uma impossibilidade de realização, e não uma impossibilidade de desejar.

Com relação à salvação o homem pode desejar ser salvo, porém não pode conquistar tal desejo em si mesmo, mas como Deus deu garantia expressa que trabalha para aqueles que n’Ele esperam, basta esperar naquele que é poderoso para cumprir o que prometeu que será salvo, pois o evangelho anunciado por Cristo é poder de Deus para salvação dos homens “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera” ( Is 64:4 ); “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” ( Jo 5:17 ); “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 ).

Sem a vontade o homem fica apático às questões existenciais, não haverá valoração íntima quanto a exercer escolhas, o que o reduzirá a uma subespécie.

A vontade do indivíduo é para sua autodeterminação, ou seja, serve para nortear o curso da sua própria vida. A vontade não serve para direcionar o curso da vida alheia, quanto menos para alterar uma lei física.

Utilizar a passagem de José como exemplo para demonstrar que a vontade do homem é fraca não serve ao propósito, visto que, os irmãos de José desejaram traçar o curso da vida alheia. Os irmãos, por inveja, desejaram se livrar do “queridinho” do pai, mas cada qual do seu jeito. Uns queriam matá-lo, outros vendê-lo, e até mesmo houve quem desejou devolvê-lo ao pai. Cada um dos irmãos de José possuíam desejos distintos.

Quanto ao que os irmãos de José desejaram não há que se falar em fraqueza, pois cada um deles teve seu desejo livre dentro de si. Mas no que tange à capacidade de realizar havia obstáculos. Dentro das alternativas que dispunham, conseguiram afastar José da convivência familiar, pois primeiro lançaram José no poço e depois o venderam como escravo.

A vontade dos irmãos de José guiava o curso da vida deles, porém, a vontade deles jamais poderia guiar o curso da vida de José. Quando se fala de vontade, diz-se de faculdade que se restringe ao indivíduo, e jamais passa da pessoa do indivíduo.

Deus deseja que todos os homens se salvem, porém, muitos se perdem. A vontade de Deus é fraca, visto que Ele não leva a efeito o que deseja? Não! Embora Deus seja onipotente, contudo, não impõe a sua vontade às suas criaturas “Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade ( 2Co 3:17 ).

Quando Deus age, ninguém pode impedir, mas isto não se aplica à Sua vontade, pois quando Deus manda, a luz vem a existência, o mar obedece, o universo para, mas, diversas vezes na Bíblia vemos Deus pedindo obediência ao homem.

Quando Deus criou o homem, vê-se que Ele tem poder sobre o barro. Mas não impôs sua vontade sobre o vaso.

Não era da vontade de Deus que Adão o ofendesse, porém, Adão O ofendeu. A vontade de Adão tornou-se superior à vontade de Deus? Não! Deus simplesmente respeitou a decisão de Adão. Isto significa que não há como afirmar que a vontade é fraca ou forte. Não alcançar o que se deseja não torna a vontade fraca, e alcançar, não torna a vontade forte.

Embora os irmãos de José tenham intentado o mal e deram vazão à vontade que possuíam, contudo, pela ação de Deus em cumprir sua promessa feita a Abraão, José foi preservado tendo-se em vista a linhagem de Cristo, conforme o testemunho de José: “Pelo que Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento” ( Gn 45:7 ).

Não quero aqui menosprezar a soberania de Deus, categoricamente na condição de Juiz supremo, ninguém há que possa escapar das mãos de Deus. Nesse quesito, agindo Deus, não há quem possa impedir. O supremo juiz tem poder sobre as suas criaturas “Ainda antes que houvesse dia, eu sou; e ninguém há que possa fazer escapar das minhas mãos; agindo eu, quem o impedirá?” ( Is 43:13 ). Mas no afã de exaltar a soberania de Deus, não devemos menosprezar Sua longanimidade.

Quando li esse parágrafo do artigo “O mito do livre-arbítrio”, fiquei impressionado com a confusão que se faz com livre-arbítrio (livre vontade), poder de decisão e capacidade de realização:

“Quantas das suas decisões são miseravelmente frustradas? Você pode desejar ser um milionário, mas é possível que a providência de Deus impeça isso. Você pode desejar ser um erudito, mas uma saúde comprometida, um lar instável, ou insuficiência financeira pode frustrar a sua vontade. Você pode querer sair de férias, mas um acidente de automóvel pode mandá-lo para o hospital” Idem.

A frustração nada mais é do que prova de que a vontade do homem é livre, pois o homem pode desejar o impossível, o que certamente trará frustração. A liberdade de desejar é faculdade diferente do poder de decisão, que por sua vez é diferente do poder de realizar.

Muitos desejam ser milionários, mas desejar ser milionário e ser milionário é o resultado de uma decisão?

Afirmar que a vontade de Deus impede um homem de ser milionário é contestar a palavra de Deus que diz que o sol nasce sobre os justos e injustos, é negar que a sorte foi lançada ao regaço de todos.

Não sei se fico triste ou alegre por Friedrich Nietzsche não estar vivo, pois as alegações do pensador acima daria azo para que Nietzsche dissesse mais blasfêmias ( Rm 2:24 ).

Se pelo fato de o homem não levar a termo as suas vontades, elas são tachadas de miseravelmente frustradas, que dizer da vontade de Deus, que é salvar todos os homens? Deus é miseravelmente frustrado?

Não é porque o homem não pode selecionar ou determinar a sua posição social, cor, inteligência, família, etc., que seu livre arbítrio está comprometido. Em qualquer condição que um ser humano nasce é possuidor de livre arbítrio, pode desejar o possível e o impossível.

Deus é Todo Poderoso, livre, a sua vontade é livre, mas a ninguém oprime.

Não se pode confundir a ‘vontade’ de Deus com o ‘propósito’ de Deus. Com relação ao propósito de Deus em salvar a humanidade, Ele AGIU soberanamente, pois nem mesmo poupou o seu próprio Filho. Mas com relação a sua vontade: ‘que todos se salvem e venham ao conhecimento da verdade’, não impõe, antes espera que os homens a experimentem “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:2 ).

É através da vontade livre que os homens sonham, fazem projetos, se lançam às realizações, mesmo quando sentem que as suas forças não pode alcançar.

Muitos escravos, quando amarrados, em postes de tortura, embora não tivessem o poder de realizar os seus intentos, contudo persistia dentro deles o anseio pela liberdade, a vontade deles era livre, e homem algum poderiam sobrepujar os seus anseios e sonhos.

O fato dos sonhos serem frustrados em nada depõe contra a livre vontade do homem. Mesmo que a vontade seja frustrada, não impede que o homem permaneça desejando.

Por fim, o Pr. Walter utiliza duas citações bíblicas como prova das suas alegações:

“Uma sóbria reflexão sobre sua própria experiência levará à conclusão que: “O coração do homem propõe o seu caminho, mas o Senhor lhe DIRIGE os passos” (Pv 16.9). Em vez de exaltarmos a vontade humana, deveríamos humildemente louvar ao Senhor, cujos propósitos formam as nossas vidas. Assim como confessou Jeremias: “Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho, nem do homem que caminha o dirigir os seus passos” (Jr 10.23). Sim, você pode escolher e planejar o que tiver vontade, mas sua vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus. Nem tem você a capacidade de alcançar qualquer meta que não seja aquela que Deus permitiu” Idem.

O que Jeremias confessa diante de Deus? Que você pode escolher e planejar o que tiver vontade, mas que sua vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus? Que você não tem a capacidade de alcançar qualquer meta que não seja aquela que Deus permitiu ou estabeleceu? Não!

A asserção ‘… mas sua vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus” contraria o que Deus diz: “Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento ( Jr 19:5 ).

É de se considerar que o profeta que Deus usou para falar que não é do homem seu caminho, e nem do que caminha o dirigir os seus passos, foi o mesmo que usou para dizer que certos homens (judeus) faziam coisas que Ele não ordenou, coisas que nem passou em seu pensamento.

Haveria confusão em Deus? Deus desconhecia o assunto que falava? De modo nenhum!

Deus falou muitas vezes, e de muitas maneiras; e uma destas maneiras foi usando figuras. Ao abordar as impossibilidades do homem no que tange ao caminho, Deus estava falando de salvação. O homem não escolhe a porta para entrar neste mundo. Foi o que Jesus explicou: o homem entra no mundo pela porta larga e é conduzido por um caminho largo à perdição porque Adão pecou. É impossível o homem ser conduzido pelo caminho estreito a Deus sem a providência divina da Porta Estreita.

 

Figuras e princípios

A Bíblia apresenta as figuras das duas portas (Adão e Cristo) que representam dois nascimentos (natural e espiritual), sendo que ambos os nascimentos é o meio pelo qual os homens acessam os caminhos (largo e apertado) que conduzem a dois destinos (morte e vida).

Os homens, quando vem ao mundo, só entram nele por intermédio do nascimento natural, ou seja, nasce segundo a carne, o sangue e a vontade do varão. Nenhum homem exerce escolha que venha determinar qual a sua condição diante de Deus, visto que, quando nasce, já está em um caminho que o conduz à perdição ( Jo 1:12 ).

O único homem que não entrou no mundo através da porta larga, foi Cristo Jesus, pois diferente de toda a humanidade, Ele foi lançado na madre por Deus ( Sl 22:10 ). Todos os outros homens, apesar de não terem feito escolha alguma, inexoravelmente são descritos como desviados de Deus desde que foram lançados na madre em função da semente corruptível de Adão, de modo que desde a madre a humanidade é descrita como mentira ( Sl 58:3 ).

Por causa da ofensa de Adão, resultante da sua escolha de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, todos os homens – juntamente – se desviaram de Deus – e em função daquela única escolha, todos se fizeram imundos ( Sl 53:3 ). O desvio e a imundície da humanidade não são apresentados na Bíblia como uma questão de ordem ética, moral, psíquica, religiosa, social, filosófica, etc., como várias correntes teológicas vêm apresentado ao longo da história da cristandade.

O pecado, a imundície, a alienação, a separação de Deus é condição intrínseca à natureza do homem em função da queda.

Como a humanidade estava na ‘coxa’ de Adão, todos os homens juntamente se desviaram e tornaram-se imundos, herdaram a escravidão ao pecado, condição que não depende das escolhas diárias. Por causa desta condição, o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais justo a uma sebe de espinhos ( Mq 7:4 ).

Como a porta estreita é oposta a porta larga, Cristo é apresentado pelo apóstolo Paulo como o último Adão.  Da mesma forma que Adão foi criado como cabeça de homens carnais, Cristo foi introduzido no mundo como a cabeça de uma nova raça de homens espirituais ( 1Co 15:45 -49).

Ou seja, para sair do caminho de perdição, o homem natural precisa morrer com Cristo, ser sepultado e, então, deve ser criado de novo em verdadeira justiça e santidade, nascer de novo, e estará no caminho estreito que conduz o homem a Deus.

É necessário a todos os homens nascerem de novo, nascerem segundo a semente incorruptível do último Adão para alcançar a salvação.

De longa data muitos teólogos negam que o homem sem Cristo possui “livre-arbítrio” alegando que, por serem escravos do pecado deixaram de possuir o ‘livre arbítrio’.

Do ponto de vista existencial, não ter ‘livre arbítrio’ é o mesmo que reduzir a condição do homem a um patamar inferior ao dos animais, ou seja, o homem não passaria de uma máquina.

A condição do homem seria inferior a de um cachorro, visto que, por mais que se prenda um cachorro em canis, correntes, etc., instintivamente o animal é livre. Qualquer prisão arquitetada pelo homem somente mantém cativo o corpo do animal, porém, o animal é livre em seus instintos. Jamais o homem conseguirá exercer domínio sobre os instintos de um animal.

Qual o objetivo de muitos teólogos afirmarem que, com a queda de Adão, o homem perdeu o livre arbítrio? A pena prescrita e imposta por Deus à ofensa de Adão no Éden contemplava a perda do livre-arbítrio além da separação de Deus (morte)?

Na pena estabelecida no Éden não estava incluso a perda do ‘livre-arbítrio’. A pena foi: a morte (separação de Deus) “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás ( Gn 2:17 -18).

Houve também a dosimetria, que inclui – para a mulher: maior dor emocional, dor na gestação, dor no dar à luz filhos e sujeição ao marido – para o homem: dor e sofrimento para conquistar o alimento e maldição da terra – para ambos: morte física.

Além da pena, acessoriamente o homem tornou-se como Deus, pois adquiriu o conhecimento do bem e do mal ( Gn 3:22 ), mas nada com relação à perda do juízo livre foi mencionado.

A negação do livre arbítrio, chamado de ‘determinismo teológico’, teve origem na doutrina calvinista da eleição e predestinação. Como pode ser isto? A doutrina calvinista afirma que, antes da criação Deus já havia escolhido e predestinado alguns homens à salvação e outros para a danação eterna. Por apresentar a predestinação como base da doutrina da salvação, a alternativa que restou para explicar tal fatalismo foi negar o livre-arbítrio.

A raiz do determinismo teológico é eco do fatalismo, filosofia Greco-romana que considera os acontecimentos no mundo produzidos de modo irrevogável por uma ordem cósmica. Na mitologia grega temos a ‘moira’, e entre os romanos o ‘fatum’, deuses que controlavam o destino de homens e divindades, destino este que submetiam e estava acima de todas as divindades.

A Bíblia não aborda o destino dentro de uma perspectiva fatalista, antes o termo ‘destino’ é empregado tão somente para descrever o lugar final de um caminho. Na Bíblia há dois caminhos que possuem seus respectivos destinos, e os destinos, por sua vez, não estão vinculados aos homens, e sim, aos caminhos.

Se o leitor se inteirar das discussões acadêmicas que abordam o livre arbítrio poderá observar que a ofensa de Adão e a obediência de Cristo não são consideradas. As considerações filosóficas do juízo livre só analisa a vontade humana como capacidade de escolha entre bem e mal, certo e errado e se conhecidos conscientemente – o que compromete o tema, se analisado sob a ótica bíblica. Ora, o mal que distancia o homem de Deus não é de ordem moral, visto que o mal ao qual a Bíblia faz menção e que separa o homem de Deus decorre da desobediência de Adão, e em seguida, que teve como consequência o conhecimento do bem e do mal.

As decisões cotidianas entre o certo e o errado, ou entre o bem e o mal não é o que trás alienação de Deus, antes tais julgamentos tem por base o conhecimento proveniente da árvore do conhecimento do bem e do mal que analisa e julga o comportamento humano.

Já o julgamento de Deus foi realizado com base na ofensa de Adão, pois foi a ofensa de Adão que trouxe o juízo de Deus e a condenação que trouxe perdição sobre a humanidade.

O livre arbítrio deve ser analisado levando-se em conta Cristo e Adão, pois ambos são representados figurativamente como portas que dão acesso a dois caminhos e que sujeitam os homens à justiça ou ao pecado.

É um equivoco das religiões julgarem que através da responsabilidade moral o homem garantirá a sua salvação ou perdição. A Bíblia demonstra que a perdição é uma herança, assim como a salvação. Os descendentes de Adão herdaram a perdição, de modo que todos os nascidos da carne e do sangue já estão condenados ( Jo 3:16 ), mas os que creem, são de novo gerados em Cristo e são herdeiros da salvação ( Hb 1:14 ).

Fazer uma leitura com base na responsabilidade moral da seguinte declaração do apóstolo Paulo: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ), é um equivoco, pois os vasos de desonra são os descendentes de Adão, e os vasos para honra são os descendentes de Cristo, sendo que Deus usa a mesma massa que os filhos de Adão foram feitos para, através de Cristo, fazer vasos de honra para Si, o qual somos nos, por termos crido em Cristo “Os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” ( Rm 9:24 ).

O artigo ‘O mito do livre-arbítrio’ repetidas vezes confunde ‘vontade’ com ‘poder de realização’. Novamente ele aborda a ideia de que a vontade do homem não é livre para realizar quando cita Jeremias. E não podemos ignorar também que este artigo, além de confundir a vontade do homem com o poder de realizar, também confunde a vontade de Deus com providência, ou seja, a vontade de Deus com o agir de Deus. Não é de admirar que o pastor Walter prevarique na explicação do livre arbítrio.

Veja este proverbio: “A alma do preguiçoso deseja, e coisa nenhuma alcança, mas a alma dos diligentes se farta” ( Pr 13:4 ). Por que o preguiçoso deseja e não alcança? Por que Deus se lhe opõe? Não! O preguiçoso não alcança porque não é diligente, porque se fosse diligente teria a alma farta segundo o seu desejo. Deus determinou que o homem comeria do suor de seu rosto (do seu trabalho). A fartura vem do trabalho. Ter fartura é fruto de trabalho e não apenas de vontade.

Quando Jeremias fala: – ‘O coração do homem propõe o seu caminho…’ , está testificando da parte de Deus que o homem tem a vontade livre, mas que não tem poder em si mesmo de mudar de caminho, visto que Deus estabeleceu que o homem trilharia o caminho da morte caso comesse do fruto do conhecimento do bem e do mal, e estabeleceu também que o homem passaria do caminho da morte para o caminho da vida se cresse em Cristo conforme seu Testemunho.

Quando o profeta diz: “Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho, nem do homem que caminha o dirigir os seus passos” ( Jr 10:23 ), faz uma referencia aos dois caminhos anunciados por Jesus. O Mestre anunciou haver dois caminhos, porém, em ambos não é o homem que dirige os seus passos, antes o caminho que trilha, porque o caminho largo dirige à perdição e o caminho estreito conduz seus passos à salvação ( Mt 7:13 -14).

Com esta confissão, Jeremias demonstra uma realidade espiritual, porém, o Pr. Walter não se apercebeu desta verdade, e fez uma colocação tímida das questões próprias ao supralapsarianismo e infralapsarianismo ao dizer que a vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus e nem de alcançar qualquer meta que não seja aquela que Deus permitiu.

Jeremias era profeta de Deus e embora tenha usado linguagem e símbolos conhecidos pelos homens, estava discursando sobre coisas celestiais, pois é Deus que determina os caminhos, pois o caminho de perdição e o de salvação não pertence aos homens.

Existem dois caminhos determinados por Deus e cada caminho conduz o homem a um destino. São os caminhos que conduzem os homens à perdição ou à salvação. Porém, todos os homens que abrem a porta da madre entram no caminho de perdição, porque todos entraram pela porta larga que é Adão. Mas, há um convite para todos os homens que entrem pela porta estreita, que se aceitar (crer em Cristo), serão conduzidos a Deus.

Como todos os homens, que entram por Adão, são conduzidos pelo caminho largo à perdição, implica que, o coração do homem é segundo o seu caminho, ou seja, propõe o seu caminho: um coração de pedra é segundo o caminho de perdição. Para estar no caminho estreito é necessário um coração de carne, portanto o coração de carne é segundo a porta estreita “O coração do homem propõe o seu caminho, mas o Senhor lhe DIRIGE os passos” ( Pv 16:9 ).

O homem tem liberdade para querer tudo o que a sua alma desejar, porém, só pode alcançar os desejos que estão dentro das possibilidades que lhe são apresentadas.

Com relação às questões naturais, o homem pode desejar voar como um pássaro? Sim! Pode desejar, visto que a sua vontade é livre. No entanto, tal possibilidade não é factível, terá que se contentar voar de avião. Desta forma, temos a vontade livre e, quando não é possível realizar alguns sonhos, o homem pode implementá-los dentro do que é factível.

Um escravo podia desejar ser livre? Podia desejar, e ninguém jamais sobrepujou este poder em um escravo, porém, a possibilidade de escolher ser livre não existia. O que mantinha o escravo na condição de sujeição ao seu senhor? A lei. A lei determinava que o escravo era propriedade do seu senhor. Ele podia desejar ser livre? Podia e era livre para desejar, mas a possibilidade de se fazer livre não existia.

Ora, muitos escravos lutavam na arena para tentar conquistar o direito de poder ser livre. Ele tinha a vontade livre, mas não tinha o poder para exercer livre escolha, porém buscava tal poder na arena.

Podemos dizer que a livre agencia do homem é o seu poder de escolher entre alternativas. A vontade do homem é livre, porém, só pode decidir dentro das opções que lhe são apresentadas. Suas escolhas são influenciadas por forças exteriores e disposições internas.

Embora o homem possa ser compelido a agir em contrário a sua vontade, ou forçado a dizer o que ele não quer dizer, contudo é a sua vontade que guia suas ações segundo o que lhe for conveniente no momento. Até mesmo quando são apresentadas alternativas, a liberdade da vontade do homem se manifesta, pois deseja o vermelho ainda que só possa escolher entre amarelo e azul.

Mesmo diante de uma grave ameaça para não agir segundo a sua vontade, o homem continua de posse da sua livre vontade. Um escravo permanecia debaixo da sujeição em vista de um preceito legal e das punições. Se não fossem as punições que o coagisse, jamais seria escravo. Alguns, por ser livre quanto à vontade e por não temer a pena, fugiam ou dava cabo da própria vida. Outros, apesar da condição ignóbil, por se afeiçoarem de seus senhores, submetiam-se docilmente.

O homem faz escolhas baseado em seu entendimento, seus sentimentos, nas coisas de que gosta ou não gosta, ou seja, através das suas disposições internas. Em outras palavras, a vontade não é à parte do homem. O homem não é livre de si mesmo! As escolhas são determinadas pela vontade e sentimentos do homem. A vontade jamais é independente da natureza do individuo.

Não podemos dizer que a vontade é escrava da natureza do homem, antes que a vontade é um atributo desta mesma natureza, assim como os instintos de um animal.

A vontade é bastante parcial ao que se sabe, sente, ama e deseja. O homem sempre escolhe com base em sua disposição interna, de acordo com a condição de seu coração, portanto, é livre. Quando a vontade do homem é parcial com seu ser, indica que é livre.

A prisão da vontade seria decretada se fosse possível obrigar a vontade a ser imparcial com as disposições internas do próprio indivíduo.

Concluir que a vontade do pecador não é livre para fazer o bem, tendo em vista que o coração do homem sob o pecado é mau, deriva de uma confusão do que é bem e mau.

Para compreendermos o que é bem e mal conforme as coisas espirituais, devemos considerar o ensino de Jesus comparando-o com a abordagem do salmista Davi: “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” ( Lc 11:13 ); “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um” ( Sl 53:3 ).

Embora Deus tenha visto que as maquinações do coração do homem são más continuamente, não significa que os homens não façam boas ações. Significa que dar boas dádivas aos seus semelhantes não é o mesmo que fazer o bem “E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” ( Gn 6:5 ).

Fazer o bem só é possível quando se está em Cristo, mas fazer boas ações é possível a todos os homens: quer sejam maus ou bons, quer sejam nobres ou vis “E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más ( Jo 3:19 ). A impossibilidade de fazer o bem está no fato de o homem sem Cristo pertencer ao Pecado, e tudo que pertence a este “senhor” é mau.

Um escravo não podia ser livre por sua própria vontade porque esta possibilidade de escolha não existia. Mas, caso o seu senhor lhe apresentasse a oportunidade, por certo que, ao exercer a sua livre escolha, escolheria ser livre. É neste quesito que o apóstolo Paulo orientou alguns cristãos escravos: “Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião ( 1Co 7:21 ).

Embora a vontade é livre, a escolha é delimitada pelas possibilidades. Um escravo podia exercer inúmeras escolhas durante o seu dia. Qual o caminho para o trabalho, a ferramenta a ser utilizada, a quantidade de esforço, etc., porém, não existia a possibilidade de ser livre, o que revela a escolha delimitada dentro de possibilidades. O maior problema da escravidão era a falta de ocasião, visto que, a ocasião ficava a cargo do seu senhor.

Antes de pecar o homem possuía livre vontade. Ora, ele possuía a livre vontade: de todas as arvores comerás livremente! Ao exercer a livre vontade comendo da árvore do conhecimento do bem e do mal ofendeu Deus. Se ele não possuísse a vontade livre, jamais teria ofendido a Deus.

Porém, para exercer a livre vontade, foi concedido por Deus a Adão o poder de escolha: podia comer de todas as árvores que estavam no jardim, livremente, inclusive a do conhecimento do bem e do mal, apesar da ressalva: ( Gn 2:16 ).

Ao exercer a livre vontade, decidindo comer o fruto do conhecimento do bem e do mal, Adão perdeu a opção de união com Deus, pois se sujeitou a escolha de sua decisão anterior. É neste quesito que Adão tornou-se escravo de sua escolha, pois não havia opção que pudesse reverter a sua condição.

A vontade não molda questões da vida como posição social, cor, ou inteligência, mesmo porque quando Adão recebeu o livre arbítrio, assim como qualquer ser humano, a parte física já estava formada. Ora, apesar de ser livre, Adão não podia voar como os pássaros e nem nadar como os peixes. Ele não pode escolher ter sido criado ou não, e nem mesmo foi lhe perguntado se queria ter uma sogra. Não foi dado a Adão nenhum título, riqueza, honrarias, e ele nem mesmo escolheu a sua mulher, contudo sua vontade era livre.

A argumentação a seguir é inócua, pois não depõe contra o livre-arbítrio, antes caracteriza a vontade do homem como isenta de poder de realizar, mas não a isenta de liberdade.

“Os principais fatores que moldam a sua vida não se devem à sua vontade. Você não seleciona sua posição social, sua cor, sua inteligência, etc.”  Idem.

Ora, a liberdade da vontade não está em poder realizar, antes está em desejar, querer. Há uma imprecisão na argumentação de que a vontade do homem não é livre para realizar qualquer coisa contrária aos propósitos de Deus, pois a vontade diz do ‘querer’, do ‘desejo’.

A vontade de Adão era forte ou fraca quando se rebelou? De onde veio o poder que concedeu autonomia a Adão para ofender a vontade de Deus?

“Mas, você já refletiu sobre a profunda fraqueza de sua vontade? Embora você tenha a habilidade de fazer uma decisão, você não tem o poder de realizar seu propósito. A vontade pode planejar um curso de ação, mas não tem nenhum poder de executar sua intenção” Idem.

Planejar e realizar são coisas distintas. Jesus declara que, caso alguém queira edificar uma torre, primeiro é necessário planejar, verificar o quanto possui e o quanto gastará. O poder para construir uma torre é proveniente do seu trabalho e não da sua vontade “Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar?” ( Lc 14:28 ); “O desejo do preguiçoso o mata, porque as suas mãos recusam trabalhar” ( Pv 21:25 ).

A vontade de Deus nem sempre se realiza, mas o seu propósito sempre é realizado. O pastor Walter não soube distinguir o propósito de Deus da vontade de Deus. Com relação a sua vontade, Deus espera ( 1Tm 2:4 ), já o propósito de Deus é levado a efeito segundo o seu eficaz poder ( Fl 3:21 ). O propósito de Deus não contempla ações cotidianas dos homens, antes o seu eficaz poder de sujeitar a Si todas as coisas.

Se Deus tem propósito em cada ação do homem, como afirma alguns, como é possível os filhos de Israel terem sacrificado os seus filhos no fogo? Se nunca subiu ao coração de Deus que os homens queimassem seus filhos no fogo, de quem era o proposito que os filhos de Israel executaram? “E edificaram os altos de Tofete, que está no Vale do Filho de Hinom, para queimarem no fogo a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração” ( Jr 7:31 ). Tal afirmativa somente seria possível se Deus pudesse mentir!

Contestar o livre-arbítrio através do argumento de que os principais fatores da vida do homem não são moldados por sua vontade já causa estranheza, mas o argumento de que foi Lázaro que resolveu responder o chamado de Jesus quando foi ressuscitado dentre os mortos, só pode ser adjetivado negativamente. Observe:

“Quem jamais escolheu ter sido criado? Quando Lázaro ressuscitou da morte ele decidiu responder à chamada de Cristo, mas não pôde decidir ter vida” (Idem).

Um morto, que desceu ao pó, depois de quatro dias na sepultura resolveu, decidiu, responder um chamado? A vontade de ninguém é responsável para que se venha ao mundo, tão pouco a vontade de um defunto. Com o termino das funções vitais não resta qualquer expectativa neste mundo. A ressurreição de Lázaro não se deu em função de uma resposta de Lázaro.

Ao dizer: – ‘Lázaro, vem para fora’, Jesus somente determinou quem seria ressuscitado. A determinação não dependeu da resposta de Lázaro, antes do poder de Deus.

Não é o homem quem realiza o seu novo nascimento, pois a vontade do homem não possui poder criativo, mas como a vontade de Deus é dar vida aos que creem em função do poder de Deus e da sabedoria de Deus, todos os homens de boa vontade que ouvem e crê na pregação do evangelho, recebe de Deus poder para ser criado de novo, em verdadeira justiça e santidade “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação (…) Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:21 -24).

As boas novas do evangelho são para os homens de boa vontade: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens de boa vontade” ( Lc 2:14 ), mas a concepção da depravação total transtornou até mesmo a tradução do verso em comento, pois a argumentação deles é contraria a ideia de que o homem possa ter boa vontade.

É dado aos que invocarem o nome do Senhor serem salvos ( Rm 10:13 ), mas para serem salvos é necessário primeiro alguém pregar. Para alguém pregar, antes é necessário a mensagem, pois a mensagem é o poder de Deus para salvação dos que creem.

Quando o homem crê na mensagem do evangelho, exalta a graça de Deus revelada em Cristo. A luz de Cristo brilhou aos que habitavam na região das sombras da morte, de modo que, ainda que o homem esteja morto, se crê, verá a Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ).

 

A Prisão Espiritual

No que consiste ser escravo do pecado? O servo do pecado não deseja ser livre? O pecador não deseja fazer o bem?

Ora, o apóstolo Paulo ao descrever as suas disposições internas sob o domínio do pecado, disse: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e, com efeito, o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ).

Ele destaca que:

  • Na sua carne não reside bem algum;
  • Que a sua vontade era fazer o bem, e;
  • Havia uma impossibilidade decorrente da sua natureza: não conseguia realizar o bem.

Em se tratando de vontade, o homem não deve ser comparado aos animais. A comparação de que o leão faminto sempre escolhe carne fresca à salada, e que tais instintos animais são comparáveis às inclinações do homem no pecado é uma má leitura da Bíblia.

Os animais possuem instintos, o homem possui vontade, consciência e inteligência. Instintivamente um leão sempre comerá carne, já com relação ao homem, ele leva em conta suas preferências antes de escolher.

Se os leões possuem instintos e os homens consciência, a natureza de ambos são distintas e, portanto, não se aplica uma mesma regra a homens e animais. O que dita a escolha do homem é a sua vontade.

“Se carne fresca e salada fossem colocadas diante de um leão faminto, ele escolheria a carne. Isso aconteceria porque a natureza do leão dita a escolha. O mesmo se aplica ao homem. A vontade do homem é livre de força exterior, mas não é livre das inclinações da natureza humana. E essas inclinações são contra Deus. O poder de decisão do homem é livre para escolher o que o coração humano dita; portanto, não há possibilidade de um homem escolher agradar a Deus sem a obra anterior da graça divina”  Idem.

O que se observa nas escrituras? Que muitos homens procuravam servir a Deus, porém, sem entendimento. Não serviam a Deus segundo a novidade das boas novas do evangelho, da palavra, do espírito, antes buscavam servir a Deus através da velhice da letra ( Rm 7:6 ; Rm 10:2 ).

Estes versos demonstram que muitos buscavam a Deus, porém, não conseguiam alcança-lo por falta de entendimento, ou seja, do conhecimento que há no evangelho “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Para servir a Deus é necessário um conhecimento especifico que está no evangelho, porém, as obras dos judeus eram más continuamente porque não eram feitas em Deus ( Jo 3:21 ), ou seja, eles eram ensinados a praticar o mal, não possuíam o conhecimento do santo os ‘obreiros da iniquidade’, pois seguia o engano dos seus corações ( Sl 53:4 ).

E que engano era esse? Que eram filhos de Abraão e, por conseguinte, filhos de Deus. Não era engano de ações cotidianas, mas de conceito. Até porque a nação de Israel recebeu instruções do próprio Deus: “E que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós?” ( Dt 4:8 ).

A verdade é que não lhes resplandeceu a luz do evangelho para verem que eram descendência de Adão, e que estavam em igual condição aos outros povos. Apesar de Deus ter anunciado que eles não eram de fato justo, se achavam justos aos seus próprios olhos e melhores que os outros povos ( Dt 9:4 ).

No antigo testamento o povo de Israel é descrito como cegos, ou seja, um povo que rejeitava ver a verdade expressa nas Escrituras. Com relação à humanidade não é utilizado a figura do cego para descrevê-los, são descritos como povo que habita a região das trevas e que haveriam de ver uma grande luz.

Se os judeus admitissem que eram cegos, não teriam pecado, pois se assim confessassem, demonstraria que eram iguais aos demais pecadores, habitantes da regiões das trevas “Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:41 ).

Um dos erros da concepção de que o livre arbítrio é um mito é aplicar uma figura utilizada para descrever a condição dos filhos de Israel e de seus lideres (condutores cegos que guiam cegos) e aplica-la a humanidade para estabelecer a inabilidade do homem em crer em Cristo “Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” ( Mt 15:14 ).

O que dizer de versículos como esta citação dos salmos: “… não há ninguém que busque a Deus” ( Rm 3:11 ). O que dizer da citação de Jeremias: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ).

Uma leitura equivoca dos versos acima dirá que o ser humano possui uma inabilidade para ouvir e crer, ou que é cego para as coisas de Deus, ou que está morto, e se está morto não pode ouvir e nem crer. Porém, os versos acima depõem contra os judeus, demonstrando que eles se encaixam na mesma condição da humanidade, pois o que a lei diz, diz aos que se guia por ela.

Os versículos não dizem que ninguém desejava aproximar-se de Deus, antes os versos demonstram que, apesar de desejarem buscar a Deus os judeus não buscavam a Deus, de modo que não havia diferença entre judeus e gregos ( Rm 3:9 ). Como o apóstolo Paulo chegou à conclusão que não havia diferença entre judeus e gregos? Através da Escritura que diz: ‘não há ninguém que busque a Deus’. Porque lhes faltava o entendimento, o conhecimento! “Deus olha dos céus para os filhos dos homens, para ver se há algum que tem entendimento e busca a Deus” ( Sl 53:2 ).

A leitura correta do salmo 53 deve ter por base o ‘entendimento’. Deus olha dos céus para os filhos dos homens para ver se eles possuem entendimento. Ora, entre os gentios não havia o entendimento necessário para buscar a Deus, e entre os filhos de Israel, apesar de possuírem a Escritura, não compreendiam, pois os obreiros não tinham o conhecimento.

Por que não há ninguém que faça o bem? Porque os obreiros (servos) do pecado não tem o conhecimento “Acaso não têm conhecimento estes obreiros…” ( Sl 53:4 ). E quem são esses obreiros? São os lideres de Israel, que se alimentavam do povo, porém, prevaricaram quanto às suas atribuições. Eles, no afã de se achegarem a Deus ensinavam um conhecimento que não salvava, pois ensinavam mandamentos de homens.

Por que o salmista é enfático em dizer que não há quem faça o bem? A resposta advém do contexto em que o apóstolo Paulo cita o salmo: para demonstrar que os judeus, que diziam buscar a Deus, não eram melhores que os gentios, sendo que judeus e gregos, todos estavam debaixo do pecado.

Quando as escrituras dizem que: “Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus” ( Rm 3:10 -11), evidencia que, embora os judeus tivessem zelo de Deus, liam as escrituras, faziam sacrifícios continuamente, mas na verdade, não buscavam a Deus.

Os salmos depunham contra os judeus: “ACASO falais vós, deveras, ó congregação, a justiça? Julgais retamente, ó filhos dos homens?” ( Sl 58:1 ), e Jesus enfatizou esta verdade: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” ( Jo 7:24 ).

Para quem foi escrito a lei? O apóstolo Paulo responde: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Para quem foi escrito que o etíope não pode mudar a cor da sua pele e, tão pouco o leopardo? Romanos 3, verso 19 responde. Mas, por que não podiam? Por que não buscavam? Por que não tinham livre escolha? Não! A resposta é clara: porque lhes faltava o entendimento, uma vez eram ensinados a fazer o mal “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ; Mt 3:7 ).

A figura do leopardo e a do etíope demonstra que tanto judeus quanto gentios não podiam mudar a condição deles diante de Deus. Porque os judeus não podiam mudar a condição deles? Porque o que lhes era ensinado era o mal, e não o bem.

Isto não significa que possuíam uma inabilidade para aprender, antes que a inabilidade estava na matéria que aprendiam continuadamente: eram ensinados a fazer o mal. Ora, se fossem ensinados a fazer o bem, aprenderiam o bem, claro está que receberiam poder para mudar a condição deles, pois Deus dá tal poder aos que vierem e aprenderem daquele que humilde e manso de coração ( Jr 13:11 ; Jo 1:12 ; Mt 11:29 ).

Em outras palavras, Israel precisava deixar instruir-se pelo próprio Deus e abandonar os preceitos de homens.

Como é possível alguém ensinar o seu próximo a fazer o mal como os obreiros da iniquidade faziam? Como os filhos de Israel foram lançados na madre ímpios, pois foram concebidos em pecado, ou seja, através da semente de Adão, falavam mentiras desde que nasciam ( Sl 58:3 ). Dai o imperativo: “Estas são as coisas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas” ( Zc 8:16 ), mas não tinham o conhecimento do santo e nem julgavam segundo a reta justiça.

As escrituras sempre demonstraram aos judeus que ninguém buscava a Deus, antes se desviaram juntamente, e todos os homens se fizeram imundos ( Sl 53:1 -3). Mas, os mestres de Israel entendiam que eles não estavam em igual condição aos demais homens, acreditavam que eram filhos de Deus por serem descentes de Abraão. Eles entendiam que o Salmo 53 apontava somente para os gentios.

O erro deles consistia no fato de confiarem da carne. Esqueciam que todos os homens juntamente se desviaram, e que eles estavam inclusos neste evento. Que não eram filhos de Abraão, antes filhos de Adão, o primeiro pai de todos os homens, por quem entrou o pecado no mundo “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ). Embora avisado de que eram filhos da desobediência de Adão, continuavam ensinado que eram filhos de Abraão. Em Adão transgrediram “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim” ( Os 6:7 ), ou “Em Adam eles quebraram a minha aliança, aí eles me traíram” ( Os 6:7 ) CNBB.

A Bíblia afirma categoricamente que a condição do homem é de sujeição ao pecado, e utiliza a figura da escravidão para levar o leitor a compreender tal condição. Uma figura serve de ilustração e dever ser analisada em todas as suas nuances.

Nos regimes escravagistas a sujeição dos escravos aos seus senhores se dava por meio do corpo. Os senhores compravam o corpo do escravo para subjugá-los, porém, nada contava das escrituras a vontade, a mente e as disposições internas dos indivíduos a serem escravizados.

O que os senhores olhavam num escravo? O porte físico, os dentes, a coloração dos olhos e mucosas, etc. Ou seja, eles não tinham como aferir as disposições internas dos escravos. Eles compravam, pagavam e levavam para suas terras. Nas suas terras vinha a surpresa: os escravos acabavam por revelar as suas disposições internas! Podia ser um bom escravo ou um mal escravo. Trabalhador ou preguiçoso. Serviçal ou arredio, etc.

E o que submetia os escravos aos seus senhores? A lei e as penas previstas. Como a lei submetia os escravos aos seus senhores? Prevendo castigos severos àqueles que não servissem os seus senhores a contento, ou que tentasse fugir.

A fuga era uma saída? Paliativa, porque para a lei e seu senhor, jamais o escravo deixaria de ser escravo. Todos estes aspectos pertinentes à escravidão aplicam-se ao pecado, visto que ele é descrito nas Escrituras como um senhor de escravos que escraviza o corpo, e não as disposições internas como a vontade.

É por isso que a cruz de Cristo foi estabelecida: para desfazer o corpo do pecado “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” ( Rm 6:6 ). O pecado exerce domínio por causa da condição que a humanidade herdou de Adão e que sujeita o corpo de todos os homens.

Assim como os escravos só eram livres do seu senhor quando morriam, o único modo de os homens sob o pecado serem libertos é morrendo. Quando se crê em Cristo, o homem morre e é sepultado. Quando sepultado, o homem é criado de novo em verdadeira justiça e santidade, possuidor de um novo corpo unido ao corpo de Cristo. O novo corpo ressurreto com Cristo é livre do domínio do pecado, sendo possível servir à justiça ( Cl 3:1 ).

A vontade de um servo do pecado é livre, porém, o que o submete ao senhorio do pecado é a lei e a pena. Qual lei e qual pena? A lei instituída no Éden, que diz: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17).

Através da lei santa, justa e boa instituída no Éden o pecado achou ocasião e matou o homem ( Rm 8:11 ), e a força do pecado decorre da própria lei santa, justa e boa ( 1Co 15:16 ). A lei que matou o homem não foi a de Moisés, antes a lei perfeita concedida no Éden ( 1Co 15:22 ).

E porque os homens ainda permanecessem sob o domínio do pecado? Por causa da pena imposta! Como? A vontade do homem é livre, porém, permanece sujeito à servidão “E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” ( Hb 2:15 ).

A Bíblia afirma com todas as letras que a vontade humana faz a decisão crucial de vida espiritual. A vontade do pecador é totalmente livre para decidir-se ou não pela vida eterna oferecida em Jesus. O homem não está numa posição cômoda que possa se dar ao luxo de escolher entre salvação ou perdição. Ele está perdido e precisa decidir entrar pela porta estreita que livra a todos quantos entrarem por ela.

Deus dará um novo coração e um novo espírito a todos que, pelo poder de Deus contido no evangelho, decidirem (livre vontade) receber a Jesus Cristo, que é a opção concedida por Deus ao homem que o livra da condenação. Não há dúvida de que receber a Jesus Cristo é um exercício da liberdade humana, o que denominamos ‘crer’, ‘ter fé’, ‘descansar na esperança proposta’, ‘estar quieto’, etc.

Como o homem chega e recebe espontaneamente o Senhor? A resposta é: Pelo poder contido no evangelho que lhe é oferecido. Como pode ser isso? Jesus, além de profeta, é o Verbo de Deus. Receber a Jesus significa crer em tudo que ele diz, e ele disse em João “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ). O que ocorre se o homem crer? Jesus mesmo disse: “Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?” ( Jo 11:40 ).

Em João 8, verso 41 à 45, Jesus deixou claro que os judeus que se diziam crer n’Ele não eram filhos de Abraão, antes filhos de Satanás. Novamente o texto e o contexto remetem aos judeus que achavam que estavam em posição privilegiada diante de Deus por serem descendentes da carne de Abraão, e Jesus tenta convencê-los do contrário.

Dizer que a vontade humana não escolherá crer em Deus é tornar o evangelho inócuo. João 8, verso 41 à 45 não afirma a ideia da inabilidade do homem crer, visto que os judeus tinham zelo de Deus, porém sem entendimento, ou seja, sem Cristo.

Quando o conhecimento verdadeiro que dá entendimento aos homens se posicionou diante deles dizendo: “Se permanecerdes no meu ensino, verdadeiramente sereis meus discípulos, então conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” ( Jo 8:31 -32 ), não creram. Por que não creram? Porque não eram livres, incapacitados para serem ensinados? Não! Antes, mesmo sendo livres para crer preferiram continuar de posse do mal que foram ensinados “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ); “Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ).

Jesus estava ensinando a fazer o bem, ou seja, a vontade de Deus, que é crer naquele que Ele enviou. Mas, como os judeus estavam acostumados com o ensino do mal, não fizeram o bem que é obedecer a Deus que estabeleceu Cristo como a pedra eleita e preciosa “E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?” ( Mt 3:7 ).

A pergunta: ‘Quem vos ensinou?’ é pertinente, pois o povo de Israel foi ensinado errado, e através de Cristo, o reino dos céus, alcançariam poder para serem feitos filhos de Deus.

Apesar de a vontade ser livre, não é ela que dá o escape ao homem sob o pecado, antes o escape é providência divina que advém do conhecimento apregoado por Cristo. É no conhecimento contido no evangelho que está o poder de Deus para salvação, e não na vontade do homem. A única realização da vontade humana é descansar, ou seja, nada realizar, ficar quieto, crendo em Cristo “Porque assim diz o Senhor DEUS, o Santo de Israel: Voltando e descansando sereis salvos; no sossego e na confiança estaria a vossa força, mas não quisestes” ( Is 30:15 ). O homem crê, Deus realiza. O homem decide, Deus opera. O homem descansa, Deus trabalha em favor daqueles que nele espera. Aleluia!

Ter fé, crer, acreditar, descansar, sossegar, ficar quieto é a ação da vontade livre diante da oferta de salvação. Ou seja, não é por obra, é pela fé somente. O exercício da fé não pode ser confundido com obras, visto que a fé é descansar, estar quieto e tranquilo, e a obra demanda trabalho, empenho. Deus se empenhou na salvação da humanidade se fazendo homem, sofrendo as mesmas paixões, suportando a cruz.

Como afirmar que crê é salvar-se pelas obras, se crer é descansar? Como haverá dívida se o homem somente descansa na esperança proposta? “Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida” ( Rm 4:4 ).

Quando o homem crê, na verdade é uma obra que Deus realizou “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). E como Deus realiza a sua obra? Por intermédio da sua palavra.

Devemos ter cuidado com doutrinas que se utilizam de superadjetivação para alguns posicionamentos: inimizade violenta contra Deus, todas as outras partes do homem clamam por rebelião, todo o seu ser odeia a verdade; a vontade humana está desesperadamente escravizada; graça preveniente, graça irresistível, graça geral, etc.

Adjetivar o que não foi adjetivado é uma clara violação do mandamento: “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro” ( Ap 22:18 ).

Observe:

“Leia João 1.12-13. Essa passagem diz que aqueles que creem em Jesus foram nascidos não “da vontade do homem, mas de Deus”. Assim como a sua vontade não é responsável por sua vinda a este mundo, assim também ela não é responsável pelo novo nascimento” Idem.

O escritor faz uma má aplicação dos versos citados, visto que assim como os filhos segundo a carne são gerados segundo a vontade dos pais ( Jo 1:12 e Jo 3:6 ), assim são os de novo nascidos, são gerados da vontade de Deus.

Mas, a vontade de Deus não é fazer os descrentes seus filhos, antes é fazer os que creem em Cristo seus filhos. É Deus o responsável pela vinda de seus filhos ao mundo, mas só são feitos filhos os que creem. É neste ponto que temos a advertência de Deus: “Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 )

Quando o homem é gerado segundo Adão herda um coração de pedra, um coração que é segundo o caminho de perdição. Quando ouve a verdade e crê, Deus cria um novo coração e dá um novo espírito, um coração que é segundo o caminho de salvação “O coração do homem propõe o seu caminho, mas o Senhor lhe DIRIGE os passos” ( Pv 16:9 ); “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne” ( Ez 36:26 ).

O que os versos demonstram é que há duas vontades que determinam os nascimentos. Os homens são gerados primeiramente através da vontade do varão (Adão) e gerados de novo através da vontade do último Adão, que é Cristo “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual” ( 1Co 15:46 ). Não é porque o homem não vem ao mundo por sua própria vontade que a sua vontade não é livre.

Adão não escolheu vir ao mundo, mas depois que veio ao mundo, Deus lhe deu livre arbítrio e não tirou “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” ( Rm 11:29 ).

O evangelho é a fé que havia de manifestar-se, e por si só é um ato de Deus em prol da salvação dos pecadores ( Gl 3:23 ). Quando falamos da fé que foi manifesta e entregue aos santos, ela é poder e sabedoria de Deus “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:24 ; Jd 1:3 ).

O que o cristão apregoa é poder e sabedoria para salvação “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 ). Esta fé dada aos santos é ato proveniente da vontade e misericórdia de Deus.

Ao ouvir o evangelho, que é poder para os que creem a reação do homem não é um ato que envolva mérito, mas uma aquiescência. Da sua reação frente à mensagem não resulta ato ou obra alguma. Aquiescer à esperança proposta é assentar, descansar, estar quieto. Para os que creem Jesus concede salvação.

Não é a vontade do homem que lhe concede esperança, visto que a vontade do homem não é dotada com o poder de realizar, antes a esperança é Cristo que apresenta a proposta de salvação. Os salvos não confiam na vontade livre, antes confiam naquele que é poderoso para salvar e que trabalha para aqueles que nele confiam “E andarei em liberdade; pois busco os teus preceitos” ( Sl 119:45 ).

Onde o Espírito de Deus está, ai há liberdade: “E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará. Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” ( 2Co 3:15 -17 ); “Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 ).

A sequência dos eventos para a salvação é: Cristo – vida manifesta; os mortos ouvem e creem; então são regenerados (morte espiritual é separação de Deus – morte física é descer ao pó). O novo coração e um novo espirito só é concedido aos que creem, ou seja, que invocam a Deus: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

O clamor ‘cria em mim’ deriva de um coração contrito, ou seja, que crê “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ). Quem pede é porque confia, e pede porque ainda não tem. É um contra sendo pedir um coração novo quando se tem, e confiar pedido quando não se crê. Em primeiro lugar é necessário contrição, pois Deus só vivifica os contritos e abatidos de espírito

Por que é lido Moisés? Por que é anunciado o evangelho? Porque Deus espera que os homens ouçam e se convertam ao Senhor, pois aprove Deus salvar os crentes através da loucura da pregação e não através da doutrina que tem por base o pensamento pagão grego de destino.

Embora Deus quer (vontade) que todos se salvem e venham ao conhecimento da verdade, resigna-se a apresentar a sua palavra como se rogasse, de modo que, se ouvirem, Ele espera que os homens O obedeçam e convertam-se do mau caminho “Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 ); “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

 

Contradições

No final do artigo ‘O mito do livre arbítrio’ o autor faz um apelo à vontade humana quando diz:

Lance-se à misericórdia de Deus para a salvação. Rogue ao Espírito de Graça para que Ele crie um novo espírito dentro de você”  Idem.

Ora, se a vontade humana não é livre para decidir se achegar a Deus, antes o homem é escolhido e predestinado por Ele para a salvação, o encerramento do artigo não deveria conter um apelo à vontade do homem, antes deveria ser finalizado como conscientização, demonstrando aos leitores que é para se resignarem, devido à inabilidade humana para salvação, pois se fossem eleitos para serem regenerados, naturalmente se lançariam à misericórdia, mas se não, de nada adiantaria crer em Cristo.

É contraditório um artigo que no inicio defende que a vontade está presa às cadeias da malignidade da natureza humana e terminar apelando à mesma vontade que se lance à misericórdia e que rogue a Deus para criar um espirito novo. Não foi defendido durante o artigo que se Deus primeiro não conceder vida é impossível o homem ouvir a palavra de Deus e crer?

Para defender a ideia da inabilidade humana, de que o pecador não pode responder ao convite do evangelho crendo, o Pr. Walter citou João 1, versos 12 e 13, onde o apóstolo João defende que, todos quantos recebem a Cristo, a saber, que creem em seu nome, Deus concede poder para ser feito filho de Deus “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” ( Jo 1:12 -13).

Vemos a asserção do apóstolo João invertida no artigo do Pr. Walter, pois ele ardilosamente procura demonstrar que primeiro é necessário Deus conceder vida ao homem para tornar possível o homem crer.

Para o homem crer, primeiro foi necessário Deus dar a vida, mas a vida que Deus dá é Cristo, de modo que, estando todos habitando nas regiões das trevas, mortos em delitos e pecado, raiou a luz, e a luz que raiou nas trevas é a vida dos homens ( Jo 1:5 -4). Neste sentido a vida precede o crer, pois antes de o homem crer foi necessária a Fé se manifestar, ou seja, Cristo vir ao mundo ( Gl 3:23 ).

A luz se manifestou e o seu povo (Israel) rejeitou, mas todos quantos o receberam, foram agraciados por Deus com a filiação divina, se crer. Jesus foi rejeitado pelo seu povo porque acharam que já eram filhos de Deus por terem sido gerados segundo a carne e o sangue de Abraão, mas o apóstolo João demonstra que os nascidos da carne e do sangue não são filhos de Deus, somente os nascidos segundo a vontade de Deus.

A Bíblia demonstra que Deus trabalha em prol dos que n’Ele esperam “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera” ( Is 64:4 ).

Como esperar em quem não se crê? E como crer se não ouvir?  Como ouvir se não há quem pregue? “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” ( Rm 10:14 ).

Deus roga através dos embaixadores de Cristo que os homens se reconciliem Ele, o que demonstra que a vontade de Deus não é imposta. Quando o evangelho da parte de Cristo é anunciado, Deus espera que cada homem se converta do seu mal caminho: “Bem pode ser que ouçam, e se convertam cada um do seu mau caminho, e eu me arrependa do mal que intento fazer-lhes por causa da maldade das suas ações” ( Jr 26:3 ); “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).




O templo do descendente prometido a Davi e o templo de Salomão

O templo de Deus prometido a Davi está sendo construído com pedras vivas, homens chamados dentre todos os povos e línguas que, após crerem em Cristo, são de novo gerados “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).


O templo do descendente prometido a Davi e o templo de Salomão

“Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre” ( 2Sm 7:13 )

Deus prometeu que o descendente da carne de Davi teria o seu reino estabelecido ( 2Sm 7:12 ), e que edificaria um templo a Deus ( 2Sm 7:14 ).

Quando Davi morreu, Salomão reinou em seu lugar. O rei Salomão ao escrever ao rei Hirão, considerou ser o descendente prometido ao rei Davi “E eis que eu intento edificar uma casa ao nome do SENHOR meu Deus, como falou o SENHOR a Davi, meu pai, dizendo: Teu filho, que porei em teu lugar no teu trono, ele edificará uma casa ao meu nome” ( 1Rs 5:5 ).

Porém, o templo magnífico que Salomão construiu foi destruído pelo rei de Babilônia ( Jr 52:13 ), o que significa que o templo de Salomão não era a casa que Deus prometeu a Davi que o seu descendente construiria ( 1Rs 9:3 -9), e o reino de Salomão não foi estabelecido para sempre por Deus, pois o reino foi dividido em dois ( 1Rs 12:16 ).

Quando o rei Ciro deu ordem a Esdras para reedificar o templo em Jerusalém ( Ed 1:1 ), não havia nenhum rei constituído em Israel, portanto, apesar da glória do segundo templo ser maior que a do primeiro ( Ag 2:2 e 9), não era o templo que Deus prometeu a Davi ( Lc 21:6 ).

Se Salomão não foi o descendente prometido a Davi que construiria o templo que Deus prometera, quem seria o filho de Davi?

As Escrituras comprovam que Jesus de Nazaré é o descendente prometido por Deus a Davi. Ele é o renovo justo, a poderosa salvação levantada na casa de Davi ( Mt 1:1 ; Lc 1:69 -70; Jr 23:5 ; Jr 33:15 ). Cristo é o desejado de todos os povos, o príncipe da paz, que por Ele foi estabelecida a paz entre Deus e os homens.

Cristo é o descendente de Davi que adentrou no segundo templo e tornou a glória da segunda casa maior do que a glória do templo de Salomão, apesar de ser um templo modesto se comparado a exuberância do primeiro templo ( Ag 2:9 ).

Como é possível através de uma boa exegese demonstrar que Cristo é o descendente prometido a Davi? Onde está o templo prometido que o Filho de Davi construiria? Como e quando seria construído?

O templo a ser construído pelo descendente conforme a promessa feita a Davi é eterno, assim como o seu reino. Por ser eterno, o templo tem que ser invisível, pois o que vemos é efêmero, e as coisas que não vemos são eternas, assim como o reino do Messias “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” ( 2Co 4:18 ); “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” ( Jo 18:36 ).

Cristo é o descendente prometido a Davi. O Jesus de Nazaré é o filho de Davi com direito a se assentar no trono de Davi ( Rm 1:3 -4), o que é defendido no evangelho de Mateus ( Mt 1:1 ). Concomitantemente, o descendente prometido a Davi é Filho do Deus vivo “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:14 ), que foi morto e após ressurgir dentre os mortos, assentou-se a destra de Deus nas alturas ( At 7:56 -57; Mc 12:37 ; Mt 22:42 ; Sl 110:1 ; Rm 15:25 ).

Mas, onde está o templo que Deus prometeu que o Cristo, o descendente de Davi, ergueria?

Leia atentamente a promessa: “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:12 -14).

Deus prometeu que, quando Davi morresse, levantaria um homem da sua descendência que teria o reino estabelecido para sempre, e este descendente edificaria uma casa a Deus. Salomão foi levantado como rei em Israel e Judá enquanto Davi ainda era vivo, portanto, a promessa de Deus não se refere a Salomão ( 1Rs 1:32 -35).

Como Salomão não edificou uma casa permanente a Davi, certo é que o descendente que a profecia aponta diz de Cristo.

Considerando que Deus não habita em casa feita por mãos humanas, como o Messias edificaria uma casa a Deus? “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas” ( At 17:24 ).

Deus prometeu e Ele mesmo estabeleceu a pedra fundamental do templo, uma pedra preciosa: “Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido” ( 1Pd 2:6 ).

Acerca do templo prometido a Davi, profetizou Isaías, dizendo:

“Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” ( Is 8:14 ).

O profeta Isaías instruiu os habitantes de Israel para santificarem em seus corações o Senhor dos Exércitos e que deviam servi-Lo com temor e tremor, sendo Ele o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel ( Is 8:13 e 17; Dt 32:20 ).

Por desconhecerem que o Senhor do salmista que está a mão direita do Senhor é a pedra que guiou o povo e os fez atravessar o mar vermelho, rejeitaram a Cristo, a comida e a bebida espiritual “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” ( 1Co 10:4 ; Sl 110:1 ; Jo 6:55 ).

Caso santificassem a Cristo como o Senhor que na plenitude dos tempos resplandece o seu rosto sobre todas as nações, o mesmo Senhor seria santuário, templo, casa, tabernáculo, etc., exclusivamente para os seus filhos. Mas, os filhos de Jacó não eram filhos de Deus, como se lê: “Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” ( Dt 32:5 ).

Daí o alerta: se não o santificassem em seus corações Cristo como Senhor, o mesmo Senhor tornar-se-ia uma rocha de escândalo, uma pedra de tropeço para as duas casas de Israel “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ).

A rejeição de Cristo por Israel demonstra que a pedra fundamental do templo prometido a Davi já foi lançada, mas como está sendo edificado o templo?

O salmista Davi anunciou que a pedra estabelecida por Deus, eleita e preciosa, seria rejeitada pelos construtores de Israel, porém, ela tornou-se a pedra angular do templo do Senhor “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” ( Sl 118:22 ).

O templo é edificado durante o tempo sobremodo oportuno, que é ‘hoje’, através do evangelho anunciado por Cristo, que estabelece a paz entre Deus e os homens, de modo que, Cristo é o fundamento, e os que creem são juntamente edificados para morada de Deus em espírito “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” ( Ef 2:20 ; Ef 2:17 -22; Hb 3:13 ; 2Co 6:2 ).

É em virtude desta verdade que o apóstolo Pedro alerta os cristãos: “Antes, santificai a Cristo, como SENHOR, em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” ( 1Pd 3:15 ).

Os edificadores tropeçaram na rocha eleita porque deixaram de considerar que o Messias prometido, o filho de Davi, era o filho de Deus. Eles não creram que o Jesus de Nazaré era o Filho de Deus.

Ao questionar os escribas e fariseus acerca do Cristo ( Mt 22:42 ), eles responderam que Cristo é filho de Davi, mas diante da pergunta: “Como é então que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, Até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?” ( Mt 22:43 -45), nada souberam responder.

Se houvessem analisado a profecia que diz: “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” ( 2Sm 7:12 -14), os escribas e fariseus saberiam que Davi chamou o seu filho de Senhor por Ele ser o filho de Deus ( Sl 110:1 ; Pv 30:3 e Sl 127:4 combinado com Is 49:2).

Os filhos de Israel aguardavam somente que o Messias prometido fosse um libertador nacional. Para eles a pedra prometida dizia tão somente do reino Messiânico “Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre, da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro; o grande Deus fez saber ao rei o que há de ser depois disto. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação” ( Dn 2:44 -45), e esqueceram do templo prometido a Davi por terem um templo construído por mão humanas.

Está é uma promessa segura: o reino do seu Cristo jamais será destruído, não passará a outros povos e dominará todos os reinos, pois foi isto que Deus prometeu ao seu Ungido ( Sl 2:8 ).

Mas, a promessa também dizia do pecado do povo, pois Zacarias profetizou, dizendo: “Ouve, pois, Josué, sumo sacerdote, tu e os teus companheiros que se assentam diante de ti, porque são homens portentosos; eis que eu farei vir o meu servo, o RENOVO. Porque eis aqui a pedra que pus diante de Josué; sobre esta pedra única estão sete olhos; eis que eu esculpirei a sua escultura, diz o SENHOR dos Exércitos, e tirarei a iniquidade desta terra num só dia” ( Zc 3:8 -9).

É em função desta missão específica, tirar a iniquidade, que do renovo do Senhor disse o profeta João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” ( Jo 1:29 ). Deus prometeu um rebento na casa de Davi, o Cristo, e Ele foi posto por pedra preparada (esculpida) por Deus para arrancar o pecado do mundo.

Ao falar ao povo de Israel, o apóstolo Pedro destaca a função de Cristo, o Nazareno: a pedra posta por cabeça de esquina “Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:10 -12).

Ao falar em uma sinagoga em um sábado, o apóstolo Paulo destaca que Jesus era o descendente prometido a Davi para salvação do povo de Israel ( At 13:23 e 38), e que os seus interlocutores deveriam cuidar para identificar e crer na obra realizada por Deus “Vede entre os gentios e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” ( Hc 1:5 ; At 13:41 ).

Cristo é a pedra escolhida como sustentáculo do templo de Deus, e quando Jesus disse a Pedro: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ), o templo prometido por Deus a Davi começou a ser edificado com pedras vivas.

Não é ouvido nenhum som de martelo ou de ferramentas, entretanto o templo prometido a Davi começou a ser erguido pelo Filho de Davi, a semelhança do templo construído por Salomão “E edificava-se a casa com pedras preparadas, como as traziam se edificava; de maneira que nem martelo, nem machado, nem nenhum outro instrumento de ferro se ouviu na casa quando a edificavam” ( 1Re 6:7).

Para edificar o templo, a semelhança da construção de Salomão, pedras são trazidas dentre os gentios para compor a estrutura do templo “E mandou o rei que trouxessem pedras grandes, e pedras valiosas, pedras lavradas, para fundarem a casa. E as lavraram os edificadores de Hirão, e os giblitas; e preparavam a madeira e as pedras para edificar a casa” ( 1Re 5:17 -18).

Ao longo da história da cristandade, inúmeros templos são erguidos, mas todos são frutos da engenhosidade humana. Mas, o salmista é direito: “SE o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” ( Sl 127:1 ). Em vão trabalham os que edificam os seus templos, catedrais, basílicas, sinagogas, mesquita, pagode, etc. Engana-se quem entende que o templo de Deus diz de uma estrutura arquitetônica.

Muitos não atentam para as seguintes perguntas: “O céu é o meu trono, E a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor, Ou qual é o lugar do meu repouso?” ( At 7:49 ; Is 66:1 ).

O templo de Deus prometido a Davi está sendo construído com pedras vivas, homens chamados dentre todos os povos e línguas que, após crerem em Cristo, são de novo gerados “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

As pedras para o templo do Senhor são obras de suas mãos, visto que, aos que creem na palavra (água limpa aspergida) é arrancado o coração de pedra e é dado um novo coração de carne e um novo espírito ( Ez 36:25 -27; Sl 51:10 ; Is 57:15 ). Quando a nova criatura é criada segundo Deus, tornou-se habitação do Espírito, pois o Pai, o Filho e o Espírito Santo faz do novo homem morada ( Rm 8:11 ; 1Co 3:16 -17; Jo 14:23 ).

O templo prometido é a igreja, o corpo de Cristo. É sobre Cristo, a pedra fundamental, que os homens são edificados casa espiritual para habitação do Espírito “Arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças” ( Cl 2:7 ); “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina (…) No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:20 -22).

Quando Jesus propôs: “Derribai este templo, e em três dias o levantarei” ( Jo 2:19 ), os judeus não compreenderam que ele falava do seu corpo, e responderam: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?” ( Jo 2:20 ); “Mas ele falava do templo do seu corpo” ( Jo 2:21 ).

As falsas testemunhas, quando citaram a fala de Jesus, não compreenderam a grandeza do que repetiram “Nós ouvimos-lhe dizer: Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens” ( Mc 14:58 ).

O templo em questão era o corpo físico de Cristo, que após ser entregue na morte (derribado), foi ressurreto (edificado) pelo poder de Deus. Após ressurreto, Cristo foi constituído cabeça de um corpo, e todos que morrem com Cristo ressurgem com Ele e são constituídos membros do corpo de Cristo ( Ef 1:22 -23).

Individualmente cada cristão é membro um dos outros, porém, todos os que estão em Cristo formam um só corpo “Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros” ( Rm 12:5 ; Ef 4:25 ).

Através de Cristo, que é a cabeça, a igreja, que é o seu corpo, aumenta pela justa operação de cada membro ( Ef 4:16 ; Ef 2:21 ). Para ser membro deste corpo é imprescindível crer no evangelho de Cristo (uma só fé), para que o velho homem morra (um só batismo), e ressurja uma nova criatura “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” ( Rm 6:4 ); “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:12 ).

Para demonstrar a unidade do Seu corpo, o templo do Deus vivo, Cristo utilizou o pão como figura para representá-Lo. Antes de ser entregue aos pecadores, Jesus disse ao partir o pão: “Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim” ( 1Co 11:24 ). Daí a fala do apóstolo Paulo: “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” ( 1Co 10:17 ).

Quando o homem é batizado na morte de Cristo, ressurge uma nova criatura na condição de pedra viva, edificado sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos e passa a compor o templo de Deus prometido a Davi. É um templo invisível aos olhos dos homens, e por isso mesmo, eterno “Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” ( 2Co 4:18 ).

Se o fundamento do templo é o próprio Deus, certo é que os poderes do inferno como a lei, o pecado e a morte jamais subsistem diante da igreja “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ).

Assim como a morte não tem poder sobre o Cristo ressurreto ( Rm 6:9 ), ela não tem poder sobre os que creem, pois foram circuncidados com a circuncisão de Cristo, sepultado e ressurgiram pelo poder de Deus “No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” ( Cl 2:11 -12; Cl 3:1 ).

Como o fundamento do templo prometido a Davi foi esculpido por Deus na pedra que possui sete olhos, as pedras que compõe o templo também são vivas. Ao morrer e ressurgir com Cristo, o cristão passa a compartilhar da natureza divina, é pedra viva, um só pão um só corpo ( 2Pe 1:4 ; Cl 2:10 ).

No crente está contido os elementos essenciais à adoração, pois o crente é sacerdote real, templo e sacrifício vivo ( 1Pe 2:9 ; 1Co 3:16 ; Rm 12:1 ; Hb 13:15 ). Na condição de casa do Senhor, o cristão não precisa de intermediário para estar na presença de Deus, e em todo momento e lugar oferecer o fruto dos seus lábios como novilhos ( 1Tm 2:5 ; Os 14:2 ; Hb 13:15 ).

Somente quando o homem se torna templo de Deus é possível adorar a Deus em espírito e em verdade. A adoração não se vincula a lugar, templo, monte, sacrifícios, ofertas, nação, povo, língua, etc., antes se vincula a verdade do evangelho, pois todos que creem recebem poder de serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ; Jo 4:20 -21).

Quem crê nas palavras de Cristo, que é espírito e vida, é nascido do espírito, portanto, adora em espírito e verdade ( Jo 4:24 ; Jo 3:6 ; Jo 6:63 ). Quem crê em Cristo é plantação do Senhor, para que Ele seja glorificado ( Is 61:3 ; Is 60:21 ; Jo 15:8 ). Quem crê em Cristo passa a compor o corpo de Cristo. É uma pedra viva adquirida por Deus dentre todos os povos e que agora compõe o templo santo erguido pelo descendente que Deus prometeu a Davi: Jesus Cristo, nosso Senhor.

Da nova Jerusalém, a cidade que Abraão aguardava ( Hb 11:10 ), temos o seguinte testemunho do evangelista João: “E nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”( Jo 21:22 ). Isto indica que o templo erguido por Cristo jamais será substituído “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 ).




O cego Bartimeu à beira do caminho

Todos que creem em Cristo e O confessam como o cego Bartimeu confessou: Cristo, Filho de Davi, constitui-se uma pedra do templo erguido em louvor a Deus “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).


O cego Bartimeu à beira do caminho

“Depois, foram para Jericó. E, saindo ele de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão, Bartimeu, o cego, filho de Timeu, estava assentado junto do caminho, mendigando. E, ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a clamar, e a dizer: Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim. E muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele clamava cada vez mais: Filho de Davi! tem misericórdia de mim. E Jesus, parando, disse que o chamassem; e chamaram o cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo; levanta-te, que ele te chama. E ele, lançando de si a sua capa, levantou-se, e foi ter com Jesus. E Jesus, falando, disse-lhe: Que queres que te faça? E o cego lhe disse: Mestre, que eu tenha vista. E Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E logo viu, e seguiu a Jesus pelo caminho” ( Mc 10:46 -52)

 

O clamor de Bartimeu

O evangelista Marcos narra um milagre operado por Jesus quando deixava a cidade de Jericó: a cura do cego Bartimeu.

Jesus estava deixando a cidade de Jericó juntamente com os seus discípulos e uma grande multidão O seguia. Pelo caminho em que Jesus passou havia um cego por nome Bartimeu, filho de Timeu, que estava assentado à beira do caminho mendigando.

Quando Bartimeu ouviu que era Jesus de Nazaré que passava, começou a clamar dizendo: – “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim!”. A narrativa deste milagre decorre do fato de Bartimeu ter ouvido que era Jesus de Nazaré que passava.

Há dois pontos dignos de análise nesta narrativa:

a) O cego ouviu que era Jesus de Nazaré que passava, e;

b) O cego clamou por Jesus, Filho de Davi.

Por que o cego clamou dizendo: – “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim”, em vez de clamar: “Jesus de Nazaré, tem de misericórdia de mim!”? O texto deixa explícito que Bartimeu ouviu que Jesus de Nazaré passava. Há algo significativo no fato dele ter clamado ‘Filho de Davi’, e não ‘Jesus de Nazaré’?

Analisemos! Se Bartimeu fizesse referência à pessoa de Cristo como ‘Jesus de Nazaré’, estaria admitindo, com base no que era divulgado pelo povo, que Jesus era o filho de José, aquele que residia em Nazaré, uma cidade da Galileia ( Lc 1:26 ). Ao admitir que Cristo era ‘Jesus de Nazaré’, Bartimeu estaria somente vinculando a pessoa de Cristo ao carpinteiro José, marido de Maria, ou que Cristo era um profeta.

A bíblia nos aponta que a concepção do povo era: a) Jesus é o filho do carpinteiro José, e; b) Jesus é um dos profetas “E, chegando Jesus às partes de Cesareia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas” ( Mt 16:13-14 ); “E diziam: Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu?” ( Jo 6:42 ). Mas, afirmar que Jesus é o Filho de Davi é admitir que as Escrituras cumprem-se especificamente na pessoa de Jesus.

Quando o cego Bartimeu clamou dizendo: “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim”, num mesmo brado estava rogando e admitindo que Jesus de Nazaré era o Filho de Deus que havia de vir ao mundo conforme o previsto nas Escrituras.

Na declaração daquele homem cego havia inúmeras implicações. Se homem de Nazaré, era o Filho de Davi, era o Filho de Deus e tinha direito a se assentar no trono de Davi seu Pai. Admitir que Cristo era o Filho de Davi era o mesmo que confessar que Cristo era o Messias prometido nas sagradas escrituras pelos profetas, nascido da descendência de Davi segundo a carne e Filho de Deus, pois o seu próprio pai na carne, em espírito, O chamou de Senhor dizendo: “DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ; Mt 22:43 ).

 

A repreensão da multidão

Diante do clamor do cego Bartimeu, muitos o repreendiam para que se calasse.

Os que repreenderam o cego, estavam incomodados com o barulho que o cego estava fazendo, ou estavam incomodados com a declaração do filho de Timeu?

Para resolver este impasse, temos que nos socorrer de outras passagens da Bíblia.

Certa feita Jesus foi ao templo e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo e, após motivar o que havia feito citando as escrituras ( Mt 21:13 ), curou muitos cegos e coxos que foram ter com Ele ( Mt 21:14 ). Quando os principais dos sacerdotes viram as maravilhas que Cristo estava realizando e as criancinhas que clamavam dizendo: – “Hosana ao Filho de Davi”, indignaram-se e questionaram a Jesus dizendo: – “Ouves o que estes dizem?” ( Mt 21:16 ), ao que Jesus respondeu citando as escrituras: – “Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?” ( Mt 21:16 ).

Fica claro no texto de Mateus 21 que a indignação dos principais dos sacerdotes e dos escribas repousava no fato de as criancinhas declararem abertamente ser Jesus o Filho de Davi. Como as crianças não eram passíveis de reprimenda frente ao que declaravam, os religiosos Judeus voltaram-se contra Cristo exigindo uma posição.

Existe um paralelo entre a narrativa das criancinhas que clamavam ‘Hosana ao Filho de Davi’ e o que clamou Bartimeu: ‘Jesus, Filho de Davi, tende misericórdia de mim’.

A repreensão que fizeram contra o cego também era em função do que ele declarava, e não por algum incomodo em virtude de Bartimeu estar gritando, ou seja, para muitos dentre a multidão que seguia para Jerusalém, o escândalo não eram os gritos de Bartimeu, antes o que ele dizia “Para os que estavam ouvindo os ensinos do Jesus todo esse escândalo era uma ofensa”Barclay, William, Comentário do Novo Testamento, Tradução de Carlos Biagini, pág. 259.

É patente nas Escrituras! Os escribas e fariseus deixavam transparecer grande indignação e reprimenda diante de qualquer possibilidade de se admitir que Jesus era o Cristo, o Filho de Davi: “Trouxeram-lhe, então, um endemoninhado cego e mudo; e, de tal modo o curou, que o cego e mudo falava e via. E toda a multidão se admirava e dizia: Não é este o Filho de Davi? Mas os fariseus, ouvindo isto, diziam: Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios” ( Mt 12:22 -24).

Quando o apóstolo Paulo estava em Tessalônica, por três sábados consecutivos foi à Sinagoga disputar com os judeus sobre as escrituras ( At 17:2 ). Mas, pelo fato de o apóstolo expor que Jesus era o Cristo, demonstrando nas escrituras que convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse, os judeus rebeldes inflamaram a multidão contra o apóstolo ( At 17:3 e 5).

Se Bartimeu houvesse gritado conforme o que havia ouvido: – ‘Jesus de Nazaré, tem misericórdia de mim’, ninguém o havia reprimido, mas por ter admitido e ao mesmo tempo anunciado ser Jesus o Filho de Davi, foi repreendido para que se calasse.

Bartimeu sabia muito bem o que estava gritando à beira do caminho, o que contraria o posicionamento de Barcley:

“Bartimeu não sabia muito bem quem era Jesus. Chamava-o insistentemente Filho de Davi. Este era um título messiânico, mas seu significado evocava a ideia de um Messias conquistador, um Rei da linha de Davi, que levaria Israel à recuperação de sua grandeza como povo. Esta concepção do rol de Jesus era muito inadequada. Mas Bartimeu tinha fé e a fé que tinha cobriu qualquer engano teológico no que pôde ter incorrido. Não nos é exigido que entendamos à perfeição de quem é Jesus. Em última análise, ninguém jamais pode obter tal coisa. O que nos pede é que tenhamos fé. Um escritor de imensa sabedoria há dito: ‘Devemos esperar que o povo pense, mas não querer que se façam teólogos antes de fazer-se cristãos’. O cristianismo começa em nós quando reagimos diante da pessoa de Jesus, e quando esta nossa reação é de amor, um sentimento instintivo de que alguém é capaz de sair ao encontro de nossa necessidade. Até se nunca chegamos a ser capazes de elaborar teologicamente as coisas, essa resposta instintiva, esse grito que sai da alma, é mais que suficiente” Barclay, William, Comentário do Novo Testamento, Tradução de Carlos Biagini, pág. 261.

A cada passo a caminho de Jerusalém o Filho de Davi estava a conquistar a vitória sobre a morte, o mundo e o inferno para humanidade ( Ap 1:17 -18). Jesus não exige um grito instintivo da alma, antes é necessário confessá-Lo conforme diz o apóstolo Paulo: “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” ( Rm 1:2 -4). Bartimeu não equivocou-se quanto a Cristo, pois dele disse um anjo “Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai” ( Lc 1:32 ).

Tal confissão era tão reprimida pelos judeus religiosos que, se alguém admitisse ser Jesus o Cristo, expulsavam a pessoa da sinagoga. Era divulgado ao povo a proibição de declarar que Jesus de Nazaré era o Cristo “Seus pais disseram isto, porque temiam os judeus. Porquanto já os judeus tinham resolvido que, se alguém confessasse ser ele o Cristo, fosse expulso da sinagoga” ( Jo 9:22 ).

Depois que o apóstolo Pedro confessou ser Jesus o Cristo Filho de Deus, este recomendou aos seus discípulos para que a ninguém anunciassem esta verdade, porque Ele bem sabia dos riscos que os discípulos estariam sujeitos se declarassem abertamente que Jesus era o Filho de Davi ( Mt 16:20 ; Jo 17:12 ).

Quando Jesus curou um cego de nascença, declarou ser o Filho do homem, e o ex-cego creu e O adorou ( Jo 9:38 ). Foi então que Jesus declarou a sua missão: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos” ( Jo 9:39 ).

Naquele evento o cego viu primeiro a luz do sol e, quando Jesus revelou-se, ele viu a luz da vida ( Jo 1:4 ). Quando o cego passou a enxergar, somente aumentou a descrença e a fúria dos judeus ( Jo 9:18 ). Quando Jesus anunciou abertamente ao outrora cego ser o Cristo, houve alegria no céu, pois um pecador mudou o seu conceito (arrependeu-se): passou a honrar o Filho da mesma forma que honrava o Pai ( Jo 14:1b ), pois creu em Jesus e o adorou ( Jo 5:23 ).

E por que Jesus não declarava abertamente ser o Cristo? Porque de modo algum eles creriam “És tu o Cristo? Dize-no-lo. Ele replicou: Se vo-lo disser, não o crereis” ( Lc 22:67 ). Quando Jesus declarou abertamente ser o Cristo, O crucificaram ( Mt 26:63 ).

Por que reprimiram Bartimeu? Porque os judeus julgavam que qualquer que se fizesse Filho de Deus devia morrer ( Jo 19:7 ; Mt 26:65 -68), e Bartimeu estava declarando que Jesus era o Cristo. Se Bartimeu tivesse chamado Jesus de profeta, Galileu ou de Nazareno, não haveria problema algum para com os judeus ( Jo 7:40 44).

Não havia problema algum em chamar Jesus de ‘Jesus de Nazaré’, pois os doutores da lei reputavam que, segundo o que entendiam das Escrituras, ‘da Galileia não surge profeta’ ( Jo 7:52 ; Jo 1:46 ). Para eles a questão estava resolvida, pois se da Galileia não vinha profeta, segue-se que de lá também não viria o Cristo, pois o Cristo, além de ser Filho de Davi, também seria profeta.

Estavam equivocados, pois se esqueceram da profecia que diz: “Mas a terra, que foi angustiada, não será entenebrecida; envileceu nos primeiros tempos, a terra de Zebulom, e a terra de Naftali; mas nos últimos tempos a enobreceu junto ao caminho do mar, além do Jordão, na Galileia das nações” ( Is 9:1 ).

Quando Jesus falou abertamente em uma festa judaica (Festa dos Tabernáculos), algumas pessoas de Jerusalém começaram a questionar o posicionamento das autoridades religiosas do local: “Então alguns dos de Jerusalém diziam: Não é este o que procuram matar? E ei-lo aí está falando abertamente, e nada lhe dizem. Porventura sabem verdadeiramente os príncipes que de fato este é o Cristo?” ( Jo 7:25 -26). Em seguida apresentam o posicionamento que adotaram: “Todavia bem sabemos de onde este é; mas, quando vier o Cristo, ninguém saberá de onde ele é” ( Jo 7:27 ), ou seja, eles não admitiam que Jesus de Nazaré podia ser o Cristo.

Certa feita Jesus estabeleceu uma celeuma entre os judeus enquanto ensinava, pois estavam presentes fariseus e doutores da lei que vieram de todas as aldeias da Galileia, Judeia e Jerusalém, quando Jesus disse a um homem paralítico que os pecados dele estavam perdoados ( Lc 5:17 ). Como começaram a murmurar, duvidando do poder de Jesus “E os escribas e os fariseus começaram a arrazoar, dizendo: Quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?” ( Lc 5:21 ), Jesus lhes propôs o seguinte problema: – “Que arrazoais em vossos corações? Qual é mais fácil? dizer: Os teus pecados te são perdoados; ou dizer: Levanta-te, e anda?” ( Lc 5:22 -23). Em seguida foi dito: – “Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa” ( Lc 5:24 ). O milagre ocorreu e os escribas e doutores da lei apenas ficaram admirados.

Diante de tamanho poder (de perdoar pecados e curar), era para eles terem se rendido e confessado: – ‘Jesus, tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo!’.

 

Jesus te chama

Quando Jesus parou e mandou que chamassem Bartimeu, foram ao cego e disseram: – “Tende bom animo; levanta-te, que ele te chama”. De imediato o cego Bartimeu lançou de si a sua capa, levantou-se e foi ter com Jesus.

Aqui é necessário nos determos novamente. Há algum significado específico na capa de Bartimeu?

Há quem repute que a capa de Bartimeu representava o pecado, o medo, os vícios, a idolatria, o mal, ou tudo que possa haver de ruim na vida de uma pessoa. Ora, se a capa é uma figura, não pode representar diversas coisas ao mesmo tempo. A capa não pode ser o pecado, pois não há representação do pecado com vestimentas, o pecado é representado na bíblia por condições, como: escravidão, trevas, cegueira, carne, desobediência.

Diante de toda a riqueza que o texto nos apresenta, a capa de Bartimeu não deve ser considerada como uma figura a ser interpretada, da mesma forma que a pedra que foi removida da porta do túmulo de Lázaro também não é uma figura a ser interpretada. Tais elementos não representam qualquer ideia, figura, conotação, enigma, etc. O empenho em dar significado à capa de Bartimeu simplesmente ofusca a confissão que ele fez diante do povo.

Antes de lançar de si a capa, Bartimeu já havia feito a mesma confissão que o eunuco da rainha de Candace, ao dizer: – “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” ( At 8:37 ), e isto o tornou apto a ser batizado nas águas.

Bartimeu já havia se arrependido e estava produzindo frutos dignos da mudança de concepção antes mesmo de lançar de si a capa “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão” ( Lc 3:8 ); “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ).

Quando Bartimeu chegou diante de Jesus, foi lhe feita a seguinte pergunta: – “Que queres que te faça?”. Foi neste exato momento que Bartimeu reafirmou a sua confissão, ao adorá-Lo dizendo: – “Mestre, que eu tenha vista” ( Mc 10:51 ). Aos moldes do leproso e da mulher que tinha uma filha possessa, Bartimeu adorou o Filho de Davi ao dizer: “Mestre, que eu tenha vista”; — “E, eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo” ( Mt 8:2 ); “Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me!” ( Mt 15:25 ).

Nenhum cego em sã consciência aproxima-se de um homem e pede a visão, pois isto é impossível aos homens. Aquela seria a oportunidade de pedir uma esmola, um favor, etc., mas o cego Bartimeu pediu a visão, o que é o mesmo que reconhecer Jesus como Deus.

 

A Fé que salva

A resposta de Cristo foi maravilhosa: – “Vai, a tua fé te salvou”, e logo o cego Bartimeu viu e seguiu pelo caminho ( Mc 10:52 ).

Temos mais uma questão a tratar! Que fé salvou Bartimeu? Por que Jesus disse ‘a tua fé te salvou’ e não disse: ‘a tua fé te curou’? Ser curado é o mesmo que ser salvo?

Quando Jesus disse: “A tua fé te salvou”, estava reafirmando a confissão de Bartimeu, de que ela estava firmada na verdade, pois foi o Filho de Davi que operou salvação e cura. Jesus, o Filho de Davi anunciado nas Escrituras é a Fé manifesta que realizou a salvação e a cura de Bartimeu ( Gl 3:23 -25).

A Fé que salvou diz do Firme Fundamento, pois Bartimeu estava fundado e firmado em Cristo ( Cl 1:23 ; Hb 11:1 ). Quando Jesus perguntou: “Que queres que te faça”, Bartimeu ratificou a sua confissão dizendo: “Mestre, que eu tenha vista”.

Cristo é a Fé que foi dada aos santos, e é por Ele que os cristãos devem batalhar demonstrando ser Ele o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo ( Jd 1:3 ; Rm 1:2 -4). É em Cristo que o cristão deve permanecer fundado e firmado, pois Ele se revelou ao mundo como a Luz da vida! Foi Cristo que operou a salvação de Bartimeu, pois a confissão de Bartimeu é a ‘pedra’ sobre a qual Jesus edificou a sua igreja.

Enquanto os homens diziam que Cristo era um dos profetas, o apóstolo Pedro confessou que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo. Diante da confissão de Pedro, Jesus lhe disse: – “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” ( Mt 16:17 ). Como o apóstolo Pedro disse ser Jesus o Filho do Deus vivo, Jesus igualmente admitiu que o seu discípulo era Pedro “Pois também eu te digo que tu és Pedro…” ( Mt 16:18 ), e em seguida apresenta o artigo de Fé, a pedra fundamental sobre a qual a igreja de Cristo é edificada: “… sobre esta pedra (confissão que refere-se a pessoa de Cristo) edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ).

Por que Jesus disse que Simão era ‘Pedro’? Porque quando Pedro admitiu que Jesus era o Cristo, achegou-se a Ele e tornou-se ‘pedra viva’, templo e morada de Deus: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ); “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:4 -5).

Todos que creem em Cristo e O confessam como Bartimeu confessou, constitui-se uma pedra do templo erguido em louvor a Deus “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ); “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele” ( 1Co 3:10 ); Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:20 -22).

Qualquer que admitir (confessar) que Cristo é o Filho do Deus vivo, honra o Filho, portanto é ‘pedra viva’, porque são criados em verdadeira justiça e santidade, ou seja, conforme a pedra eleita e preciosa, que é Cristo “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 ; Rm 10:9 ).

Confissãopalavra grega que significa falar a mesma coisa, consentir, concordar, admitir, declarar o que realmente é acerca de algo em decorrência de profunda convicção dos fatos.

A confissão se dá quando o homem se depara com o Firme Fundamento, que é Cristo ( Hb 11:1 ). Embora Bartimeu ainda não tivesse visto o Cristo, contudo, creu n’Ele como o Filho de Davi, o que correspondia à verdade das Escrituras, pois Jesus é o Filho do Deus vivo.

Mesmo diante das boas novas anunciadas por Filipe, para fazer a mesma confissão de Bartimeu; de que Jesus de Nazaré era o Cristo, Natanael precisou ver um milagre da parte de Jesus: “Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José (…) Disse-lhe Natanael: De onde me conheces tu? Jesus respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira. Natanael respondeu, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel” ( Jo 1:45 e 44-45).

Enquanto Natanael duvidou das palavras de Filipe dizendo: – “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” ( Jo 1:46 ), Bartimeu, que nada via, bastou ouvir que ‘Jesus de Nazaré’ passava e creu ser Ele o Cristo.

Tal abordagem se fez necessária para demonstrar que o evangelista Lucas apresentou Jesus a Teófilo como o Filho de Deus e não como um milagreiro. Através da narrativa da cura de Bartimeu ele evidenciou a questão central defendida no Novo Testamento. Portanto, é maravilhoso demonstrar que Cristo curou Bartimeu, mas não podemos deslocar a ênfase do texto que está em: Bartimeu confessar que Cristo é o Filho de Davi. E por isso mesmo Poderoso para realizar o milagre.

Enfatizar somente ‘milagres’ é descartar o artigo de Fé (confissão): ‘Jesus é Deus’. É lançar uma semente diversa daquela que produz vida, pois milagres não salvam, como se lê: “E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” ( Lc 16:30 -31); “ Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque se os milagres que foram realizados entre vocês o fossem em Tiro e Sidom, há muito tempo elas teriam se arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. Mas no juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para vocês. E você, Cafarnaum: será elevada até ao céu? Não; você descerá até o Hades”! ( Lc 10:13 -15).




1 Pedro 2 – Pedras vivas

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, a pedra viva aprovada por Deus, para Deus Ele é a pedra eleita e preciosa.


241 DEIXANDO, pois, toda a malícia, e todo o engano, e fingimentos, e invejas, e todas as murmurações, 2 Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo; 3 Se é que já provastes que o SENHOR é benigno; 4 E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa,

Pedro retoma o tema que foi abordado no verso treze do capítulo anterior: “…cingindo os lombos do nosso entendimento, sede sóbrios…” ( 1Pe 1:13 ).

Os cristãos foram gerados de novo através da ressurreição de Cristo ( 1Pe 1:3 ), mas precisam ter o ‘lombos do entendimento’ ajustado ‘adequadamente’.

O que isso que dizer? Quer dizer que os cristãos não devem viver conforme os desejos mundanos que tinham antes de crerem em Cristo, ou seja, quando eram ignorantes ( 1Pe 1:14 ).

Como? Ora, os cristãos devem deixar toda a malícia, todo engano, todo fingimento, toda inveja e toda sorte de maledicências. Aceitar o convite para ajustar à compreensão é que fará com que os cristãos sejam transformados ( Rm 12:2 ).

Mas, como promover a renovação do entendimento? Desejando ardentemente o puro leite espiritual, ou seja, a palavra de Deus. O homem espiritual é perfeito diante de Deus, pois foi criado idôneo para participar da herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ), porém, os neófitos (principiantes) no evangelho (fé) devem exercitar a compreensão na palavra da justiça (cingir o lombo do entendimento).

Paulo fala acerca dos cristãos da Igreja em Corinto que eles foram criados com leite (básico do evangelho), porque eles ainda não podiam suportar alimento sólido (avançado) ( 1Co 3:2 ).

O escritor aos Hebreus também escreveu acerca dos cristãos que, pelo tempo no evangelho, já eram para serem mestres, porém, precisavam compreender ainda os rudimentos do evangelho de Cristo.

Observe que Pedro não designa os cristãos de meninos, antes, eles deviam desejar COMO meninos o leite espiritual, para que eles pudessem crescer na compreensão “Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino” ( Hb 5:13 ); “Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis” ( 1Co 3:2 ).

A recomendação do apóstolo é para aqueles que já provaram que o Senhor é benigno. Para quem provou e sabe que Deus é benigno, resta tão somente crescer na graça e no conhecimento de Deus ‘bebendo o leite espiritual’, abandonando tudo o que pertencia ao velho homem que foi morto e sepultado com Cristo.

‘Deixar’ as coisas pertinentes ao velho homem (v. 1) e ‘achegar-se’ de Deus (v. 4), é o mesmo que apresentar-se para obedecer àquele a quem se é servo “Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?” ( Rm 6:16 ).

Ora, um cristão deve saber (ou não sabeis?) que os homens nascidos em Adão tornaram-se servos do pecado, pois foram vendidos como escravos ao pecado através da transgressão de Adão. Deve saber também que, para tornar-se servo da justiça é preciso morrer para o antigo senhor e nascer novamente, uma nova criatura, sob o jugo da justiça.

A única forma dos homens se apresentarem aos senhores (justiça e pecado) para servir-los é através do nascimento. Através do nascimento do primeiro Adão, tornam-se servos do pecado. Através do novo nascimento em Cristo, o último Adão, os homens tornam-se filhos de Deus, e os filhos de Deus jamais foram ou serão escravos de ninguém.

Mas, alguém pode questionar: os cristãos não eram pecadores, como nunca foram escravos de ninguém? Os cristãos eram escravos do pecado em outro tempo, quando não conheciam a Deus. Agora, após conhecerem a Deus, ou antes, serem conhecidos dele, tem-se um novo tempo de justiça e paz.

No ‘novo tempo’ que é pertinente aos criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade, os filhos de Deus foram criados livres e nunca se submeterão a servidão de ninguém. O tempo dos cristãos é diferente do tempo dos ímpios, como se lê: “Portanto, lembrai-vos de que vós outrora éreis (…) que naquele tempo estáveis sem Cristo…” ( Ef 2:11 -12).

Sobre o tempo dos cristãos, temos: “Mas, agora em Cristo…” ( Ef 2:13 ), ou melhor, agora uma nova criatura ( 2Co 5:17 ).

Pedro indica o Senhorio de Cristo e a sua virtude maravilhosa: bondade (vs. 3- 4). É assente que somente Deus é bom “E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ), e Pedro, ao demonstrar o senhorio de Cristo, demonstra que o Pai e o Filho são um.

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, a pedra viva aprovada por Deus, para Deus Ele é a pedra eleita e preciosa.

Cristo é a pedra eleita (escolhida) conforme o propósito eterno que é fazer convergir em Cristo todas às coisas. Cristo foi escolhido antes dos tempos eternos por ser o Cordeiro perfeito; por ser o Servo obediente; por ser o Filho amado; por ser o braço do Senhor; por ser o Verbo de Deus, etc.

 

5 Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. 6 Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido. 7 E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina

Cristo, o Senhor bondoso, é a ‘pedra viva’ conforme indicou o salmista Davi: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a pedra angular” ( Sl 118:22 ). Embora os homens tenham reprovado a Cristo, Ele é a pedra viva aprovada por Deus antes da fundação do mundo. Cristo é a pedra eleita e preciosa.

Cristo, a pedra eleita (escolhida) conforme o propósito eterno de Deus, que é fazer convergir em Cristo todas as coisas “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” ( Ef 1:10 ), foi escolhido antes dos tempos eternos para que em tudo seja preeminente “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” ( Cl 1:18 ).

Pedro procura conscientizar os cristãos do mesmo modo que o apóstolo Paulo. Compare:

a) Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 );
b) “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ).

Paulo demonstrou que, após os cristão ouvirem a palavra do evangelho e crerem, passaram a ser participantes da natureza de Cristo ( Cl 2:10 ). Este não é um privilégio de alguns, antes é um privilégio de todos que ouviram a mensagem do evangelho e creram.

Do mesmo modo que Cristo é a Pedra Viva, os cristãos também são pedras vivas, uma vez que foram de novo criados participantes da natureza divina.

Observe a relação que Pedro estabelece entre a Pedra viva que é Cristo, e as pedras vivas, que são àqueles que creram e receberam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 -13) “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:4 -5).

Cristo é a pedra viva eleita e preciosa, e os cristãos também, ou seja, são pedras vivas eleitas e preciosas, pois assim como Ele é são os cristãos aqui neste mundo “… porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 ).

O homem antes de crer na mensagem do evangelho não é pedra viva. Ele não é eleito e nem precioso aos olhos de Deus. É um grande erro pertinente a doutrina dos reformadores considerar que dentre os homens nascidos em pecado Deus elegeu (escolheu) e predestinou alguns para a salvação, pois somente as pedras vivas são os eleitos de Deus.

Somente é eleito e precioso o novo homem gerado através da palavra da verdade, uma vez que se tornou pedra viva. Os que ouvem a palavra da verdade, e creem, são os que seguem a retidão, são os que buscam ao Senhor ( Is 51:1 ).

Cada cristão em particular constitui-se casa espiritual e é sacerdote separado dos pecadores. Deus prometeu que habitaria com os contritos e abatidos de espírito ( Is 57:15 ), pois tais homens seriam templos santos do Senhor, casas do Altíssimo.

Sobre esta verdade, Davi pede (confiança) a Deus que crie um novo coração puro e lhe dê um novo espírito reto (regeneração), pois esta é a condição para que o espírito de Deus habite no salmista ( Sl 1:10 -11).

Qual sacrifício os sacerdotes santos oferecem a Deus por intermédio de Cristo? Por intermédio de Cristo os que creem sempre oferecem a Deus sacrifícios de louvor, que é o fruto dos lábios que confessam a Cristo como Senhor ( Hb 13:15 ).

O verdadeiro sacrifício parte dos lábios de quem adora em espírito e em verdade. É possível aos filhos da ira e da desobediência adorar a Deus em espírito e em verdade? Não! Primeiro, para adorá-Lo em espírito e em verdade é preciso nascer de novo, ser criado por Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Quem é nascido do Espírito é espiritual, condição essencial para adorar a Deus. O homem carnal nascido de Adão não pode adorar a Deus em espírito, pois é carnal. O sacrifício que os filhos de Deus oferecem a Deus são os frutos dos lábios, conforme predisse Oseias “Tomai convosco palavras, e voltai para o Senhor. Dizei-lhe: perdoa toda a iniquidade, e nos aceita graciosamente, para que ofereçamos como novilhos os sacrifícios dos nossos lábios” ( Os 14:2 ).

Jejuns, orações, rezas, promessas, votos, meditações, peregrinações, etc., não são sacrifícios aceitáveis diante de Deus, antes um coração contrito, e um espírito abatido constituem-se em sacrifícios aprazíveis a Deus “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ), e somente aqueles que professam o nome de Cristo como Senhor, pois a boca fala o que procede do coração, constituem-se casa e templo do Altíssimo “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

A consideração teológica de Pedro é conforme as Escrituras, conforme se lê: “Vede, ponho em Sião uma Pedra Angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido” ( 1Pe 2:6 ). O que Deus estabeleceu é possível o homem constatar: “Vede”. Ele estabeleceu a Pedra Angular onde toda edificação de Deus será erguida.

A ‘confusão de rosto’ indica a perdição dos homens, mas todos quantos querem ser salvos, basta crer em Cristo, que não será confundido. Ora, por crerem em Cristo que é a Pedra de Esquina, para os cristãos ela é eleita e preciosa, mas para os que não creem, os rebeldes, a Pedra reprovada pelos edificados é pedra de tropeço, ou rocha de escândalo.

A Igreja Apostólica Romana ensina que Pedro era a pedra sobre quem a igreja de Deus seria construída por Cristo, isto para dar a entender que o papa constitui-se um dos sucessores do apóstolo Paulo.

Mas, o apóstolo Pedro demonstrou que:

  • Cristo é a pedra posta como a principal de esquina, ou seja, a ‘Pedra Viva’ ( 1Pe 2:4 );
  • e, que todos os cristãos são também (igualmente) pedras vivas, edificados como casa espiritual ( 1Pe 2:5 ).

Ora, se Cristo é a Pedra de Esquina sobre quem é construída a casa espiritual, jamais Pedro seria a pedra onde Cristo construiria a sua igreja. De modo que, quando Jesus diz: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, pois não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus, e também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:17 -18).

Pedro foi constituído pedra viva por crer que Jesus é o Filho de Deus, do mesmo modo que todos que creem são pedras vivas. Ou seja, Cristo demonstra que tanto Pedro quanto todos os que creem são pedras vivas, e que todos são edificados sobre Ele, a Pedra de Esquina, em casa espiritual a Deus.

 

 

8 E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados. 9 Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; 10 Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.

Pedro classifica os homens em crentes e descrentes.

Para os que creem em Cristo, Ele é a pedra eleita e preciosa, para os descrentes Ele a pedra de tropeço, a rocha de escândalo ( 1Pe 2:7 ).

Ora, quem crer na Escritura que diz: “Vede, ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundida” ( 1Pe 2:6 ), é edificado casa espiritual, onde Deus faz morada eterna.

Quem não crê na palavra que diz: “Vede, ponho em Sião uma pedra angular”, tropeça na palavra, pois não a compreende. Quem tropeça na palavra é desobediente, pois não crê no enviado por Deus.

Ora, os homens ímpios foram destinados à impiedade, do mesmo modo que os justos são destinados à justiça. Como? Quem são os homens ímpios? Quando e como foram destinados à impiedade?

Os homens nascidos em Adão são pecadores, e, portanto, ímpios. Todos são destinados à impiedade, pois nasceram de Adão. São filhos da ira e da desobediência de Adão, que desobedeceu a palavra de Deus e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e mal.

Em Cristo, o último Adão, os homens são criados filhos de Deus através da obediência de Cristo, que tudo suportou, e foi obediente até a morte, e morte de cruz.

Diferente dos ímpios que foram destituídos da glória de Deus, os cristãos são a geração eleita (escolhida), isto porque uma é a geração dos ímpios e outra a geração dos justos. Qual é a geração dos ímpios? É a geração de Adão. E qual é a geração dos justos? É a geração do último Adão, que é Cristo.

Diferente dos descrentes, os cristãos, por terem crido em Cristo receberam poder para serem feitos filhos de Deus. É por isso que Pedro demonstra que os cristãos são geração eleita “Mas vós sois a geração eleita…” (v. 9).

Além de ser a geração eleita, os cristãos também é sacerdócio real, é nação santa, é povo adquirido. Mas, para que? Para que proclamem as virtudes de Deus, que chamou homens que viviam em trevas, para viverem sob a sua maravilhosa luz.

A geração de Adão não é a escolhida por Deus, pois ao pecar, Adão e toda a sua geração foi destituída de Deus. A geração do último Adão é a escolhida (eleita), pois ao obedecer, Jesus conduziu muitos filhos à glória de Deus.

Observe que as considerações monergistas não comportam a doutrina de Cristo. Dizer que a regeneração precede a fé é contrário à doutrina bíblica, pois primeiro é concedido a esperança proposta (fé), e os homens precisam descansar nesta esperança (fé), que também é designada fé “Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” ( Hb 6:18 ).

Quem são os cristãos? São aqueles homens que se refugiem em reter a esperança proposta. A proposta de salvação é de Deus, e é pertinente ao homem refugiar-se em aguardar na esperança proposta.

As questões sinergista ou monergista não são bíblicas, pois a fé e a esperança são provenientes da fidelidade de Deus “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” ( 1Pe 1:21 ).

Por que Deus daria o seu Filho como testemunha ao ressuscitá-lo dentre os mortos, se a regeneração precede a fé? Por que a fé e a esperança estão em Deus, se o homem coopera com Deus?

Perceba que é impossível o homem cooperar na regeneração simplesmente por aguardar em Deus, pois é impossível a quem está sendo gerado de novo segundo a palavra de Deus participe desta nova criação. É impossível o homem cooperar com Deus, pois só Ele ‘bara’ (cria) com base na sua palavra.

Pedro utiliza a mesma fala do apóstolo Paulo:

“Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” ( 1Pe 2:10 );
“Pois outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” ( Ef 5:8 ).

Pedro fez referência aos judeus ou aos gentios? Os judeus não eram o povo de Deus? Ao serem escolhidos como povo, os judeus não alcançaram misericórdia? Por certo que não! Tanto judeus quanto gregos, antes de crerem em Cristo não eram o povo eleito de Deus e nem a geração eleita.

Tanto judeus, quanto gregos, servos, livres, pobres, ricos, todos os cristãos em outro tempo não eram povo de Deus. Mas, agora, ao nascerem de novo segundo a palavra de Deus, aqueles que não eram povo passaram a ser povo, uma vez que pela fé proposta (evangelho) alcançaram fé e descansaram em Deus.

Crer em Deus é alcançar misericórdia. Crer em Deus é atender o chamado. Crer em Deus é ser eleito, pois Deus chamou os homens nascidos de Adão para serem criados de novo, participantes de sua natureza.

 

 

11 Amados, peço-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências carnais que combatem contra a alma; 12 Tendo o vosso viver honesto entre os gentios; para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, glorifiquem a Deus no dia da visitação, pelas boas obras que em vós observem. 13 Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor; quer ao rei, como superior; 14 Quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem. 15 Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo bem, tapeis a boca à ignorância dos homens insensatos; 16 Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus. 17 Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai ao rei.

Pedro pede aos cristãos que se abstenham dos desejos da carne. Ora, Pedro não utiliza-se da sua autoridade de apóstolo para estabelecer um mandamento, pois somente Deus é legislador, e a sua ordem é clara: creiam naquele que Deus enviou ( 1Jo 3:23 ).

Do mesmo modo é o tratamento dispensado por Paulo aos cristãos: “Portanto, como prisioneiro do Senhor, rogo-vos…” ( Ef 4:1 ). Enquanto Paulo aponta a sua condição de prisioneiro para dar consistência ao seu pedido, Pedro aponta a condição dos cristãos: peregrinos e forasteiros.

Ora, que desejo tem um peregrino e um forasteiro em uma cidade que não lhe pertence? Um peregrino ou forasteiro pensa nas coisas pertinentes a sua cidade, e almeja as coisas que são pertinentes a ela.

Neste mesmo diapasão disse Paulo: “Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” ( Cl 3:2 ). Como um forasteiro pode ater-se em coisas de uma terra que não lhe pertence?

Os apóstolos recomendam os cristãos a não fixarem os seus desejos e interesses nas coisas deste mundo, uma vez que não pertencem a este mundo “Eles não são do mundo, como eu do mundo não sou” ( Jo 17:18 ).

Pedro pede aos cristãos que se abstenham das concupiscências carnais, pois elas combatem contra a alma. Por que abster-se das concupiscências carnais?

  • Porque as concupiscências da carne são anteriores ao pecado, ou seja, é algo pertinente à natureza humana (humanidade) “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” ( Gn 3:6 );
  • A concupiscência não é pecado, porém, ela pode afastar o homem de Deus ( Tg 1:15 ).

É necessário fazer a distinção entre pecado e concupiscência, pois o pecado é proveniente da semente corruptível de Adão. Ora, o pecado foi introduzido no mundo através da desobediência de Adão, e não é dado a nenhum outro homem pecar a semelhança da condenação de Adão ( Rma 5:14 ).

Por que é impossível aos homens nascidos de Adão pecar à semelhança de Adão? Pois todos estão sobre o jugo de Adão, e as suas condutas, por mais perniciosas que sejam não pode melhorar ou piorar as suas condições diante de Deus: estão destituídos da glória de Deus.

A concupiscência é pertinente a humanidade, independentemente se é homem natural ou espiritual. Adão foi criado santo e irrepreensível, e os desejos da carne estavam presentes: ele observava as coisas e as desejava ( Gn 3:6 ).

Os desejos dos homens sem Cristo são variáveis, podendo ser perniciosos ou não. Mas, do mesmo modo, todos quantos nasceram de novo também têm desejos, porém, não podem deixar serem dominados por nenhum deles “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” ( 1Co 6:12 ).

Ora, os desejos da carne combatem contra a alma, e procuram dominá-la. A coisa desejada pode até ser lícita, porém, mesmo sendo lícito, o cristão não pode deixar as concupiscências da carne (desejos) dominar a alma.

Sobre a concupiscência Jesus disse: “E a que caiu entre espinhos, esses são os que ouviram e, indo por diante, são sufocados com os cuidados e riquezas e deleites da vida, e não dão fruto com perfeição” ( Lc 8:14 ). Cuidar das coisas da vida e buscar uma melhora financeira não é ilícito, mas qualquer um que for vencido pela concupiscência, e for dominado por ela, acabará trocando a promessa de vida eterna por um prato de lentilhas.

Pedro não impôs nenhuma ordenança aos cristãos, antes pediu aos seus leitores que vivessem de modo honesto entre os gentios. Observe que os cristãos têm um viver pertinente a este mundo, porém, por serem nascidos de novo, a vida que adquiriram pertence única e exclusivamente a Deus.

Por que um viver honesto? Para alcançar salvação? Não! Antes, o viver honesto é para que os ímpios possam ver as boas ações dos cristãos e glorifiquem a Deus, embora agora falem dos cristãos como sendo malfeitores.

Em que aspecto Pedro solicita um bom comportamento? Nas questões relativo as ordens do rei ou dos governantes. É por amor do Senhor que os cristãos deviam sujeitar-se aos reis.

Pedro evidência que os governos humanos foram estabelecidos por Deus quando solicita que se sujeitem as leis dos homes por amor a Cristo. Ora, os governos humanos são instituídos sobre a premissa de que eles castigam os malfeitores e premiam os que fazem boas ações.

Pedro responde uma colocação de Paulo: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:2 ). Qual a vontade de Deus que o cristão deve experimentar? Fazer o bem, para que os ignorantes não tenham o que falar (v. 15).

Os cristãos vivem como livres, visto que é servo da justiça. Ora, quem é livre no Senhor, não deve ter a sua liberdade por cobertura da malícia, pois é servo do Senhor.

A exortação é clara para que é livre no Senhor: Honrar a todos. Amar fraternalmente. Temor a Deus, o Senhor. Honra a autoridade constituída (v. 17).

 

 

18 Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos Senhores, não somente aos bons e humanos, mas também aos maus. 19 Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. 20 Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus. 21 Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas. 22 O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano. 23 O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente;

Aos cristãos que eram escravos (servos), Pedro recomenda sujeitarem-se aos seus senhores. A sujeição dos cristãos ‘escravos’ deveria ser com todo temor.

A sujeição recomendada aos senhores é proveniente do temor a Cristo, o Senhor, e não por medo dos seus senhores, pois Cristo declarou o seu cuidado pelos seus seguidores: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo (…) Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos” ( Mt 10:28 ).

Os cristãos, escravos ou não, devem temer a Deus, Aquele que tem poder para lançar os homens no inferno. Ora, o amor a Deus lança fora o medo, pois quem O teme está livre do inferno. A paz proveniente dos ensinos de Jesus é que motivaria os cristãos escravos a serem obedientes aos seus senhores na carne “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ).

Sobre este aspecto do evangelho, Paulo também disse: “Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus, e tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens” ( Cl 3:22 -23).

Por que ‘temer’ os homens se eles não têm poder sobre a alma? Para que os cristãos tivessem uma vida quieta e sossegada ( 1Tm 2:2 ). A temática do evangelho não é incitar as pessoas a pegar em espadas e saírem em defesa de questões humanitárias, ou de algum regime político, como ocorre em algumas concepções religiosas.

Ora, a sujeição aos homens em eminência é produto do temor a Deus, Àquele que tem poder para lançar o corpo e a alma no inferno.

Observe que as colocações de Jesus, Pedro e Paulo não se contradizem. Isto demonstra que todos tinham um mesmo parecer acerca das questões socioculturais.

A sujeição dos cristãos escravos deveria estender-se também aos senhores maus, ou seja, eram para sujeitarem-se não somente aos senhores bons (v. 18).

Alguém pode questionar: Por que o evangelho não apregoou a insurreição dos escravos contra os seus senhores? Jesus não veio salvar os pobres e os oprimidos?

Não! Jesus não veio mudar os reinos e a concepção de sociedade dos homens. Jesus não veio mudar as relações humanas e implantar uma doutrina com bandeira semelhante à concepção marxista. A temática: liberdade, igualdade e fraternidade não foram instituídas através do evangelho de Cristo. Tal concepção de sociedade é produto da concepção de alguns homens, embora influenciados pelo cristianismo, mas que não lhes deu o direito a salvação em Cristo.

Jesus veio ao mundo salva-lo de condenação anterior, a condenação em Adão, e não readequar ou resgatá-lo de regimes como o autoritarismo, monarquismo, ditadura, comunismo, socialismo, capitalismo, etc. Ora, todos os regimes políticos foram impostos através de uma luta constante dos homens pelo poder, sendo que alguns regimes políticos foram mais e outros menos agressivos.

Mas, por que o apóstolo Pedro recomenda a sujeição dos cristãos escravos aos seus senhores? Ele responde: “Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente” (v. 19).

Observe que Pedro aponta a consciência do cristão para com o seu Deus como motivo suficiente para sofrer agravos até de um senhor mau. É agradável a Deus que alguém se sujeite a sofrer afrontas injustamente por causa da compreensão (consciência) do evangelho.

Deus agrada-se da consciência dos que creem, e não da consciência social, política, moral, etc. Não é de valor para a salvação o sofrimento por causa de questões sociais, políticas, econômicas, morais, etc., pois a salvação encontra-se única e exclusivamente em Cristo.

Que glória resultará a Deus se os cristãos escravos sofressem por estarem comportando-se de modo desordeiro? De igual modo, que glória resultará a Deus se os cristãos livres não se submeterem as leis da sociedade?

A palavra pecado do verso 20 não se refere ao pecado herdado de Adão, antes a palavra grega traduzida por pecado equivale a ideia do que é mau. Ora, se é agradável os cristãos fazerem o bem e mesmo assim serem afligidos, não é agradável quando sofrem por fazerem o mau (pecado) (v. 20).

Para que os cristãos foram chamados? Para padecerem? Não! Para darem glória a Deus, fazendo o que lhe é agradável (v. 19- 20).

Pedro demonstra que Cristo sofreu por todos os cristãos para que seguissem o seu exemplo: não injuriar quando injuriado; não ameaçar quando padecer, antes é preciso entregar-se a Deus, Àquele que julga com justiça (v. 23).

O exemplo dado por Cristo é significativo, pois ele nunca cometeu pecado, e nem em sua boca houve engano, porém, foi perseguido, injuriado, maltratado, etc.

Pedro para de falar de questões comportamentais e volta a abordar uma questão doutrinária sobre modo importante: a morte para o pecado e a vida para justiça (v. 24- 25).

O cristão não deve prender-se em questões socioculturais, porém, deve agir conforme disse o apóstolo Paulo: “Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião” ( 1Co 7:21 ).

 

 

24 Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados. 25 Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas.

Pedro continua as suas considerações apontando o servo por excelência: Cristo ( Is 52:13 ).

Cristo, o servo escolhido e obediente, levou em seu corpo os pecados dos cristãos, e por que não dizer, do mundo inteiro?

Pedro faz referência a um trecho do livro do profeta Isaías, sem especificamente citá-lo. Ovelhas desgarradas pelas suas feridas foram sarados, e levando ele mesmo os nossos pecados refere-se ao trecho de Isaías 53, e Pedro faz uma releitura do texto, parafraseando-o: “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si (…) Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas (…) como cordeiro foi levado ao matadouro…” ( Is 53:4 -7).

Como Cristo levou os pecados da humanidade sobre si, se Deus não toma o culpado por inocente, não trata o justo como injusto e a alma que pecar essa morrerá?

Primeiro é preciso considerar o tipo de linguagem utilizada, pois a linguagem teológica difere da linguagem evangelística. Na linguagem evangelística é válido dizer que Deus salva o pecador, porém, na linguagem teológica é salvo somente quem nascer de novo, ou seja, somente o novo homem em Cristo, que outrora era pecador, é salvo por Deus.

Segundo, a oferta do corpo de Cristo é segundo a vontade de Deus ( Hb 10:10 ).

Ora, Cristo morreu pelos pecadores, e todos os que creem na mensagem do evangelho tornam-se participantes da sua morte, quebrando o vínculo do homem com o seu antigo senhor, o pecado.

Os homens nascidos em Adão que não morrerem com Cristo, não têm como ressurgir com Cristo. Só é possível ressurgir uma nova criatura quando o homem torna-se participante da morte de Cristo.

Mas, como o homem torna-se participante da morte de Cristo? Quando come da sua carne e bebe do seu sangue, ou seja, quando crê na sua palavra, pois ela é espírito e vida, da qual o homem deve ser participante pela fé “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ).

Como as palavras de Cristo são espírito e vida e só é possível ter vida quando se come a carne e bebe o sangue de Cristo, a fé na promessa contida no evangelho é o único meio do homem comer do pão vivo enviado do céu ( Jo 6:35 e 53).

É preciso morrer para depois ressurgir uma nova criatura, quando passa a existir um novo tempo de justiça e paz. Antes, os cristãos eram como ovelhas quando desgarradas, agora, em Cristo, voltaram ao Pastor e Bispo das suas vidas (v. 25).

É impossível viver para a justiça quando se está longe do Pastor e Bispo das almas regeneradas. Estar longe de Deus é o mesmo que estar vivo para o pecado, e morto para a justiça.

Quando o homem desgarrado como ovelha sem pastor crê em Cristo, efetivamente morre com Cristo, e ressurge um novo homem participante da natureza divina.

Observe que Jesus convidou os seus ouvintes a seguirem-no até a cruz, pois qualquer que quisesse preservar a sua vida haveria de perdê-la “Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” ( Jo 12:25 ).

Paulo também reafirma a doutrina de Cristo: “Pois morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

Pedro não é diferente: “… mortos para os pecados…” (v. 24), ou seja, quando os cristãos morreram, morreram para o pecado, e passaram a viver para Deus através da ressurreição de Cristo.

Ambos, Pedro e Paulo falam acerca de um tempo passado: “Porque éreis como ovelhas desgarradas” (v. 25); “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ). Agora, Em Cristo, os cristãos estão livres de pecado, pois para isto Cristo veio, morreu, ressurgiu e assentou-se à destra de Deus nas alturas: “De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” ( Hb 9:26 ).




Nascer da água e do Espírito

A doutrina de Jesus somente tornou evidente o que estava registrado nos profetas: nascer da água e do Espírito é o mesmo que Deus espargindo água pura sobre o homem. Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito, ou seja, uma nova vida ao homem!


Nascer da água e do Espírito

“Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” ( Jo 3:5 )

Água e Espírito

A resposta de Jesus satisfaz a seguinte pergunta: “Como pode nascer um homem, sendo velho?” A resposta é precisa: o novo nascimento é por meio da água e do Espírito!

Para entendermos a resposta de Jesus é preciso saber que a doutrina apregoada por Ele em nada difere da mensagem apregoada na lei e pelos profetas.

Sabemos que a lei nunca pode aperfeiçoar ninguém por conter somente a sombra dos bens futuros ( Hb 10:1 ). Porém, ela sempre apontou a necessidade da circuncisão do coração.

O que a lei propunha era impossível o homem alcançar por meio dela, visto que, a própria lei estava enferma pela carne (Romanos 8: 3). A lei somente serviu de ‘tutor’ para conduzir o homem a Cristo ( Gl 3:24 ), ou seja, ao apontar a necessidade da circuncisão do coração, a lei conduz o homem a Cristo, pois somente nele é possível alcançar circuncisão através do despojar do corpo da carne: a circuncisão de Cristo ( Cl 2:11 ).

Podemos extrair uma grande lição da lei: ela foi escrita em tábuas de pedras e entregue ao povo, mas, não pode aperfeiçoar ninguém, visto que, mesmo após a entrega da lei, Moisés continuou apregoando a necessidade da circuncisão do coração ( Dt 10:16 ; Dt 30:6 ; 2Co 3:3 e 7).

Caso a lei fosse essencial para a salvação do homem não haveria a necessidade de Moisés apregoar a circuncisão do coração. Conclui-se que, a lei entregue em tábuas de pedra não operou a transformação necessária no coração do povo, visto que, eles ainda precisavam da circuncisão do coração.

A ação divina nunca foi por intermédio da lei, visto que, a mensagem de Deus sempre foi: “Ouve, ó Israel…”, pois a fé é o único meio de se achegar a Deus ( Rm 10:17 ). Caso ouvissem a voz de Deus, haveria uma mudança radical neles: deixariam de ter um coração de pedra e passariam a ter um coração de carne ( Dt 11:18 ; Jr 4:4 ).

A intervenção divina na vida do povo só ocorreria no momento em que eles ouvissem e gravassem a lei em seus corações. A circuncisão é uma ação divina por meio da sua palavra ( Dt 30:6 -8).

 

Promessa de purificação

O profeta Ezequiel sobre este assunto disse o seguinte: “Então espargirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27).

O mestre Nicodemos já conhecia esta passagem bíblica. Há muito que ele lia acerca da promessa de uma nova vida (um novo coração e um novo espírito), porém, não conseguia abstrair a essência do que Deus propôs.

Para alcançar a nova vida é necessário que o próprio Deus venha a espargir água pura sobre o homem (“EU” espargirei água pura sobre vós).

A doutrina de Jesus somente tornou evidente o que estava registrado nos profetas: nascer da água e do Espírito é o mesmo que Deus espargindo água pura sobre o homem. Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito, ou seja, uma nova vida ao homem!

Nascer da água é o mesmo que nascer da palavra: Jesus é o Verbo de Deus, ou seja, a Palavra encarnada ( Jo 1:14 ). Sobre este aspecto Paulo escreveu: “Para santificá-la, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra…” ( Ef 5:26 ) “Se alguém tem sede, vem a mim e beba” ( Jo 7:37 ). Jesus é a água que produz vida naqueles que são purificados por Ele, ou seja, naqueles que creem.

Nascer do Espírito é o mesmo que nascer de Deus, visto que, Deus é Espírito e aqueles que d’Ele são nascidos recebem um novo espírito e um novo coração. Portanto, “…o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ), e os que creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus! Ora, se o homem crê, da plenitude de Deus já recebeu ( Jo 1:16 ; Cl 2:7 -8). Passa a ser participante da natureza natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

Quem crê na Palavra encarnada como diz as Escrituras, do seu interior terá rios de água viva fluindo, ou seja, isto foi dito: “… do Espírito que haviam de receber os que nele cressem” ( Jo 7:37 -39), o nascer do Espírito.

Há uma ordem específica para se nascer de novo? Sim! Primeiro o homem nasce da água, depois do Espírito! Como?

Primeiro o homem precisa da Palavra de Deus para que possa crer, ou seja, para crer, primeiro é preciso ouvir (ser espargido por Deus com água limpa), acerca da fé (evangelho) que é poder de Deus que faz dos homens que descansam na esperança proposta filhos de Deus “Porque não me envergonho do Evangelho de Cristo, pois é Poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crê” ( Rm 1:16 ).

O homem só tem acesso ao poder de Deus depois que ouve a palavra da verdade, conforme Paulo escreveu a Tito: “… Ele nos salvou mediante a lavagem da regeneração e da renovação pelo Espírito Santo” ( Tt 3:5 ).

Paulo ao escrever a Tito demonstra que Deus lava e renova o homem por meio da palavra e do seu Espírito, ou seja, ele reafirma o que foi dito por Ezequiel: (“EU” “espargirei água pura sobre vós…”).

Através da Palavra de Deus, que é água pura espargida sobre o pecador, ocorre a lavagem da regeneração. Os que de Deus são nascidos, são renovados pelo Espírito Eterno, recebendo um coração de carne em lugar do coração de pedra e um novo espírito ( Sl 51:10 ).




Edificarei a minha Igreja

Ao observar o contexto do trocadilho tão controverso ao longo da história do cristianismo, verifica-se que Jesus havia interrogado os seus discípulos acerca de quem ele era ( Mt 16:15 ), momento em que o discípulo Pedro fez uma confissão “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).


“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 )

 

Luis Fernando Veríssimo teceu um comentário no jornal O Estado de São Paulo, em 13 de março de 2008, sob o título ‘Pedro e Paulo’, no Caderno 2, pág. D14, o que motivou-me a escrever sobre Mateus 16, verso 18.

A visão de Veríssimo é desfocada da ideia bíblica, porém, não vejo nele dolo, uma vez que ele segue as premissas difundidas nos meios acadêmicos, que não tem por base as Escrituras, antes segue as especulações históricas.

Ele afirma em seu artigo, que contém (é) uma critica ácida à riqueza do Vaticano, que:

  • Jesus apresentou o primeiro trocadilho registrado da história quando disse que;
  • Pedro era a pedra sobre a qual Jesus haveria de erguer a sua igreja, porém;
  • Apesar da fala de Jesus de que ele edificaria a sua igreja, foi o apóstolo Paulo quem a construiu.

Em primeiro lugar, não foi Jesus quem deixou registrado o primeiro trocadilho da história, uma vez que no Antigo Testamento encontramos inúmeros trocadilhos. Um exemplo de trocadilho está registrado em Isaías: “Ai de ti, Ariel, Ariel, a cidade em que Davi assentou o seu arraial! Acrescentai ano a ano, e sucedam-se festas. Contudo sitiarei a Ariel; pranteará e lamentará, será para mim como a lareira do altar” (Isaías 29: 1- 2).

A palavra hebraica transliterada como nome próprio ‘Ariel’, na verdade significa ‘lareira de Deus’, uma referência a cidade de Jerusalém, onde ficava o templo e o altar do sacrifício.

Como é próprio à poesia hebraica privilegiar as ideias em lugar da rima, Isaías fez um trocadilho, dando a entender que, de local onde se oferecia sacrifício, um dia, a própria cidade de Jerusalém passaria a ser, ela mesma, um altar de sacrifício.

A poesia hebraica favorece o surgimento de ‘trocadilhos’ e um trocadilho bem conhecido e citado por muitos está no livro de Jeremias: “Maldito o homem que confia no homem” (Jeremias 17: 5). Ora, a maldição não recai sobre quem confia em seus semelhantes, até porque, as relações humanas são regidas por confiança mutua, antes, a ideia que o texto procura transmitir é: maldito o homem que confia na força do seu próprio braço, ou seja, o homem que deixa de confiar em Deus e passa a confiar em si mesmo (Jeremias 17: 5 e 7 ; Pv 3:5 ), o que já contraria o posicionamento de Veríssimo de que o ‘trocadilho’ feito por Jesus é o primeiro da história.

“Pedro era a pedra sobre a qual se ergueria sua igreja, disse Jesus, no primeiro trocadilho registrado pela História, mas foi Paulo quem a construiu” Luiz Fernando Veríssimo, jornal O Estado de São Paulo, em 13 de março de 2008, sob o título ‘Pedro e Paulo’, no Caderno 2, pág. D14.

Mas, admitir que a fala de Jesus é um trocadilho, resta apenas o entendimento de que o apóstolo Pedro não era e não foi a ‘pedra’ sobre a qual Jesus ergueria a sua igreja “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ).

Na primeira leitura do texto se depreende que o apóstolo Pedro seria a pedra fundamental sobre a qual a igreja haveria de ser erguida, porém, como toda a Bíblia depõe contra esta primeira leitura, certo é que este é o caso de um ‘trocadilho’, pois o apóstolo Pedro não era a pedra fundamental (pedra de esquina), antes o próprio Cristo, como o próprio apóstolo atesta em uma de suas epístolas “E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina” ( 1Pe 2:7 ).

Um mal entendido semelhante a este foi registrado pelo apóstolo João e, ele mesmo procura desfazer o entendimento equivocado acerca da fala de Jesus: “Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e deste que será? Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu. Divulgou-se, pois, entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti?” ( Jo 21:21 -23).

Lucas, o médico amado, registrou um discurso do apóstolo Pedro em que é demonstrado que Jesus é a pedra angular “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:11 -12).

Veríssimo afirma que foi o apóstolo Paulo quem construiu a igreja, contrariando a fala de Jesus. Ora, foi Jesus ou Paulo que construiu a igreja? O fato de o apóstolo Paulo ter viajado pelo ‘mundo antigo’ anunciando o evangelho o tornou construtor da igreja?

“Pedro era a pedra sobre a qual se ergueria sua igreja, disse Jesus, no primeiro trocadilho registrado pela História, mas foi Paulo quem a construiu. O apóstolo propagador levou o cristianismo a todos os cantos do mundo conhecido e, na sua pregação, definiu o que havia de diferente na nova religião” Idem.

Como o apóstolo Paulo poderia ter construído a igreja se ela já existia quando ele começou persegui-la? ( Gl 1:13 ). A concepção secular de igreja difere da concepção que Cristo e os apóstolos ensinaram, pois a igreja de Cristo não foi concebida como instituição ou governo, antes como morada de Deus.

Jesus foi enfático: “Eu edificarei a minha igreja” ( Mt 16:18 ). Através desta afirmação, temos: Cristo como sábio construtor e a quem a igreja pertence, pois ela é o seu corpo “E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:21 -22).

O apóstolo Paulo afirmou que a igreja pertence a Deus e que ela está sujeita a Cristo, sendo a igreja o seu corpo. O apóstolo Paulo demonstrou que faz parte do corpo de Cristo na condição de servo ( Gl 1:13 ; 1Co 1:2 ).

Mas, o apóstolo dos gentios não parou neste ponto, pois ele demonstra que, como Jesus é o fundamento, todos os cristãos podem edificar a igreja, porém, ninguém pode por outro fundamento “Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo (…) Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” ( 1Co 3:10 -17).

É descabida a ideia de que o apóstolo Paulo ‘edificou’ a igreja no simples fato de ter se aplicado em difundir o evangelho. É o mesmo que afirmar que os museus onde os quadros de Picasso foram expostos é que estabeleceram o valor intrínseco aos quadros produzidos.

Ora, o apóstolo que difundiu o evangelho era fruto do evangelho de Cristo. Ele tornou-se apóstolo por causa do evangelho e não porque difundiu o evangelho. Como apóstolo, Paulo mesmo disse que Cristo o enviou a evangelizar ( 1Co 1:17 ).

Existe um diferencial do apóstolo Paulo com os outros apóstolos por causa das cartas que ele escreveu. Vemos a difusão do evangelho através de seus olhos. Que diremos do trabalho dos outros apóstolos? Só não é patente porque não foi registrado, mas não foi menos importante que o do apóstolo dos gentios.

As cartas do apóstolo Paulo foram e são de suma importância para difusão do evangelho uma vez que os seus escritos puderam ser analisados ao longo da história. Enquanto o trabalho dos outros apóstolos foi pontual, restringindo-se ao tempo em que viveram, as cartas do apóstolo Paulo transcendeu o seu tempo, tendo em vista o que representou a sua conversão, pois ele mesmo era um perseguidor severo da igreja e tornou-se o maior divulgador da doutrina de Cristo.

O artigo de Veríssimo apresenta outro ponto polêmico: quem apresentou o diferencial da nova religião? Para os acadêmicos foi o apóstolo Paulo quem definiu os pontos doutrinários da nova religião, porém, uma analise apurada dos ensinos de Cristo demonstra que o evangelho de Cristo constitui-se a verdadeira expressão do que foi anunciado na Lei, nos Profetas e nos Salmos, o que é contrário a todo o ordenamento judaico.

Qualquer ou todo sistema religioso, até mesmo a ‘cristandade’ nos nossos dias aponta o julgamento da humanidade como um evento para o futuro da humanidade, quando os homens serão declarados culpados ou inocentes, o que contaria o que Jesus demonstrou, que o homem já está condenado. O evangelho de Cristo demonstra que o julgamento da humanidade já ocorreu e que ele se deu no início da civilização humana. O julgamento da humanidade se deu no primeiro homem, ou seja, no passado, e todos foram condenados e apenados e, por isso, todos os homens precisam de salvação hoje “…mas quem não crê já está condenado…” ( Jo 3:18 ).

O evangelho de Cristo diferencia-se do judaísmo ou das crenças judaicas em vários aspectos, e a perseguição o Senhor Jesus sofreu dos religiosos à época é prova cabal disso ( Gl 5:11 ).

O apóstolo Paulo declarou que o evangelho de Cristo é poder de Deus para salvação de todo homem que confiar em Deus ( Rm 1:16 ). João demonstrou que todos os homens que creem no evangelho de Cristo recebem poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Cristo, o autor da salvação disse: “… as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ).

A doutrina de Cristo era completamente diferente da doutrina dos fariseus, uma vez que muitos dos seus seguidores entenderam que o discurso de Cristo era difícil de suportar “Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (João 6: 60).

Veríssimo alega que foi o apóstolo Paulo que proclamou o evangelho livre do racionalismo grego. Para sustentar a sua alegação, aponta para um texto do apóstolo Paulo transcrito em latim: “Sapientiam sapientum perdam”, ou seja, destruirei a sabedoria dos sábios, porém, como é sabido, tal fala não pertence ao apóstolo Paulo que evidência este fato ao declarar: “Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes” ( 1Co 1:19 ).

Ora, o apóstolo Paulo fez referência a um verso do livro de Isaías ao demonstrar que o evangelho apresentado por Cristo não coaduna com a ideia dos judeus e nem com a dos gregos ( Is 29:14 ).

O apóstolo Paulo não estava levantando uma bandeira contra o pensamento grego, antes, qualquer homem, seja ele grego ou judeu, é designado de modo pejorativo um ‘sábio’ quando rejeita o poder do evangelho, e este ‘sábio’, por sua vez, considera o evangelho como loucura ( 1Co 1:18 ).

Quando o apóstolo Paulo diz que a loucura de Deus é mais sábia que os homens, estava evidenciando a cruz de Cristo. Para os gregos a cruz era loucura e, para o judeu não passava de escândalo, porém, na cruz a multiforme sabedoria de Deus foi demonstrada ( 1Co 1:25 ).

As declarações do apóstolo Paulo aos Coríntios não tem em vista a lógica ou a ciência. Ele jamais introduziu a discórdia com qualquer ramo do pensamento humano.

Neste sentido, seria um contra senso ele apregoar qualquer insurreição dos cristãos contra o sistema político e econômico à época se o reino de Deus não é deste mundo.

O apóstolo Pedro não gerou a igreja, e, portanto, ele não é o pai da igreja e nem a pedra angular que dá sustentação a igreja. A igreja não é uma entidade ou instituição, como muitos a concebem. A igreja é um corpo, o corpo de Cristo. A Bíblia define que Cristo é a cabeça da igreja, o que significa que Cristo não é meramente um líder. Como cabeça, Cristo demonstra que os cristãos estão intimamente ligados a ele.

Enquanto algumas instituições religiosas assumiram a condição de organização, instituição, corporação e até de governo, a igreja de Cristo diz das pessoas que aceitam e professam o seu evangelho em todos os lugares e em qualquer tempo. Cristo mesmo declarou que a sua igreja não é deste mundo, e que os seus integrantes não têm possessão permanente aqui ( Jo 17:16 ).

Embora tais instituições possuam o título de cristãs, na realidade instituição ou governo não são seguidores de Cristo, pois os seguidores de Cristo são homens que o professam segundo o evangelho.

Veríssimo diz que: “O admirável é que a força mística da igreja de Pedro tenha sobrevivido a todas as derrotas políticas da igreja de Paulo” Idem. Ora, não há nada de admirável em uma instituição que se promoveu até angariar o status de entidade política, e que arrematou riquezas ao longo da história da humanidade. O evangelho distorcido e irreconhecível que criaram para dar sustentabilidade ao sistema religioso nada tem do evangelho de Cristo. Pedro e Paulo são participantes da mesma igreja que qualquer pessoa que hoje crer no evangelho tornar-se participante: o corpo de Cristo.

Do ponto de vista teológico, o artigo em pauta contém várias imprecisões, que se analisadas minuciosamente não resistem à verdade da Bíblia. Quando Veríssimo diz que o apóstolo Paulo se opôs “…. a Pedro e aos cristãos primitivos de Jerusalém…” e que “… marcou a distância da nova crença das suas raízes judaicas…” Idem, é porque nunca leu que em determinado momento da sua carreira missionária, o apóstolo Paulo foi a Jerusalém e constatou que o que anunciava era idêntico a dos outros apóstolos “E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão; Recomendando-nos somente que nos lembrássemos” ( Gl 2:9 -10).

O que se percebe é que Veríssimo propôs uma critica a igreja católica, porém, desconhece a essência do evangelho e quem foram os apóstolos: Paulo e Pedro. Porém, ele não é de todo culpado, pois muitos que se dizem seguidores de Cristo possuem a visão turvada.

Mas, o apóstolo Pedro esclarece o trocadilho proposto por Cristo: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” ( Mt 16:18 ), quando escreveu: “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( Pe 2:4 -5).

Jesus não edificou a sua igreja única e exclusivamente através da pessoa de Pedro ou de Paulo, antes todos os que creem em Cristo e o confessarem como o apóstolo Pedro confessou, que Cristo é o Messias, o Filho do Deus vivo, constitui-se uma pedra do templo erguido em louvor a Deus “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ); “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele” ( 1Co 3:10 ); “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” ( Ef 2:20 -22).

O apóstolo Pedro foi nomeado ‘pedra’ após admitir que Cristo é o Filho do Deus vivo, e todos que confessam o Filho são ‘pedras vivas’, pois são criados em verdadeira justiça e santidade conforme a pedra eleita e preciosa, que é Cristo “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 ; Rm 10:9 ).

Ao observar o contexto do trocadilho tão controverso ao longo da história do cristianismo, verifica-se que Jesus havia interrogado os seus discípulos acerca de quem ele era ( Mt 16:15 ), momento em que o discípulo Pedro fez uma confissão “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).

O que é confissão? A palavra grega ‘homologeo’ traduzida por confessar significa literalmente falar a mesma coisa, consentir, concordar, admitir, declarar o que realmente é acerca de algo em decorrência de profunda convicção dos fatos.

Portanto, quando Pedro disse que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, a fala de Pedro correspondia à verdade, pois Jesus era o Filho do Deus vivo.

Em seguida, após anunciar que Simão era bem-aventurado, Jesus, aos moldes da confissão de Pedro, também faz uma confissão: “Pois também eu te digo que tu és Pedro…” ( Mt 16:18 ). O que há de significativo na confissão de Cristo? Ora, Ele admitiu que o seu discípulo, Simão, a quem pôs o nome de Pedro ( Mc 3:16 ), realmente era Pedro ( Mt 16:18 ), ou seja, Jesus admitiu como efeito de uma convicção profunda acerca dos fatos.

Ora, por sua vez, a convicção de Pedro foi lhe dada por revelação, ou seja, não foi os homens que revelaram tal fato a Pedro, mas Deus foi quem o revelou ( Mt 16:17 ), através da palavra do evangelho.

A confissão possui dois aspectos:

  • Após ouvir a mensagem do evangelho, o homem precisa reconhecer, admitir, concordar, etc., que é pecador, ou seja, ao admitir-se culpado como resultado de convicção interior, confessou que é pecador ( 1Jo 1:9 );
  • Quando o homem depara-se com o evangelho, também deve reconhecer, admitir, consentir que Cristo é o Filho do Deus vivo, portanto, declara abertamente e fala livremente, como efeito de profunda convicção dos fatos, que Jesus é o Cristo.

Portanto, qualquer que admitir que Jesus é o Cristo, constitui-se uma ‘pedra’ assim como Pedro e, por meio destas ‘pedras’ vivas Jesus tem edificado o seu corpo, que é a igreja ( Rm 10:8 -10); “Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus” ( Mt 10:32 ).

Pedro confessou a Cristo como o Filho do Deus vivo diante dos discípulos e, Jesus o confessou (admitiu) diante do Pai, que está nos céus, que Pedro era uma das ‘pedras vivas’ que compunha o seu corpo “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

A confissão jamais pode ser tida como sacramento da penitência ou do perdão, em que envolve a remissão de pecados perante um padre (presbítero) ou bispo que ‘atua’ em nome de Cristo. Tais práticas disseminou-se na Igreja Católica, na Igreja Ortodoxa e em algumas comunidades religiosas da Igreja Anglicana. Para esses seguimentos religiosos, inclusive, alguns movimentos protestantes, o recebimento do perdão divino se dá por meio das faltas confessadas diante de um representante de Cristo e de uma penitência, que consiste na repação do suposto dano causado por quem errou.“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação”

Todos os homens que professam a Cristo conforme diz as Escrituras são pedras vivas, plantação do Senhor. Entretanto, além da condição de pedras vivas e plantação do Senhor, também foram ‘contratados’ como trabalhadores na vinha, o que não os faz fundadores da vinha.

É neste contexto que se lê a seguinte declaração do apóstolo Paulo: “Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele” ( 1Co 3:10 ), pois a ação de Deus entre os homens se dá através de seus servos, homens que professam a Cristo como salvador. O fato de Jesus construir a sua igreja não implica na negativa de que o apóstolo dos gentios foi instrumento para levar a efeito tal obra.




O primeiro e grande mandamento na lei

Para ouvir e compreender a mensagem de Cristo é necessário comparar coisas espirituais com coisas espirituais (novo testamento com antigo testamento) e lembrar sempre do seguinte versículo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas” ( Mt 13:34 ). Até mesmo a resposta que Jesus deu ao fariseu era uma parábola, pois Cristo é o ‘braço’ do Senhor, a luz do Senhor manifesto aos homens, e os homens não O compreenderam ( Jo 12:41 ; Jo 1:5 ).


“Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” ( Mt 22:36 -40).

Certa feita Jesus foi questionado pelos discípulos porque falava aos seus ouvintes por parábolas. E Jesus lhes respondeu: “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” ( Mt 13:13 ).

Jesus falava ao povo por parábolas, pois neles se cumpria a profecia de Isaías, uma vez que o coração deles estava endurecido ( Mt 13:15 ).

No diálogo que Jesus teve com certo doutor da lei se faz necessário descobrir se Jesus também falou por parábolas, para que, o doutor da lei e fariseu ouvindo, não ouvisse e nem compreendesse ( Jo 1:5 ).

Os profetas anunciaram que o Cristo haveria de propor enigmas e parábolas aos seus ouvintes ( Sl 49:4 ; Sl 78:2 ), e Jesus não trouxe nada de diferente do que constava na lei, salmos e profetas ( Jo 5:39 ; Lc 24:44 ).

A pergunta capciosa de um fariseu foi: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei?”.

Jesus, por sua vez, demonstrou que o primeiro e grande mandamento na lei é: “Amará o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” ( Mt 22:37 ), e que o segundo, semelhante ao primeiro é: “Amará o teu próximo como a ti mesmo” ( Mt 22:39 ).

O mestre dos fariseus deu-se por satisfeito, pois era isto mesmo que ele queria ouvir. Ele escutou e aprovou a resposta de Cristo. Ele já havia lido e ouvido esta passagem bíblica inúmeras vezes, mas não ‘ouviu’ e nem ‘compreendeu’.

A pergunta que o doutor da lei precisava fazer para Jesus era: como se ama a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento?

As Escrituras nos revelam que cumprir todos os mandamentos assim como certo príncipe judeu cumpria a lei desde a mocidade, não é o mesmo que amar a Deus de todo coração, de toda a alma e de todo o entendimento ( Mt 19:20 ; Lc 18:18 -24).

“- Tudo isto tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” Se o Jovem rico amasse a Deus de todo o seu coração, não teria se retirado triste ( Mt 19:22 ). Se ele entendesse a proposta da lei, jamais teria perguntado: “Que bem farei para herdar a vida eterna” ( Lc 18:18 ), pois saberia que não há bem algum a ser realizado pelo homem que dê direito a salvação, antes, para que o homem possa herdar a vida eterna é necessário somente crer no Autor da salvação.

Mesmo sendo príncipe dos judeus, fariseu, juiz e mestre em Israel, Nicodemos também não amava o Senhor Deus de todo coração, de toda alma e de todo entendimento, uma vez que Jesus lhe disse: necessário vos é nascer de novo ( Jo 3:1 -5 ).

Outro fariseu subiu ao templo, e em oração disse: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo” ( Lc 18:11 -12).

Mesmo ‘seguindo’ o que preceituava a lei, o fariseu que subiu ao templo não foi justificado! Não roubar, não matar, não furtar, não ser injusto ou adultero não é o mesmo que amar a Deus de todo coração, de toda a alma e de todo o entendimento, pois aqueles que amam a Deus e cumprem os seus mandamentos são declarados justos ( Dt 7:9 ).

Se os fariseus, apesar de serem religiosos, legalistas, formalistas e ritualistas, não cumpriram o primeiro e grande mandamento na lei, como esperar que qualquer do povo cumpriria o mandamento que diz: “Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” ( Dt 6:4 -5)?

A resposta está em Deuteronômio, verso 6, capítulo 30: “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Para que o homem possa ‘amar o Senhor Deus de todo o coração, de toda alma, de todas as forças e de todo o entendimento’ é necessário que o coração do homem seja circuncidado por Deus.

A circuncisão do coração feita por Deus tem dois objetivos definidos:

  • Que o homem obtenha vida, e;
  • Que o homem possa amar ao Senhor de todo o coração, de toda a alma, etc.

Somente um coração circuncidado pelo Senhor pode amá-Lo de todo. Somente após Deus realizar a sua obra, que é a circuncisão do coração, torna-se possível ao homem e a mulher amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo entendimento, etc “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração (…), para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma” ( Dt 30:6 ).

Um coração incircunciso está morto diante de Deus. Somente um coração circuncidado vive perante Ele “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração (…) para que vivas ( Dt 30:6 ). Nada representa diante de Deus os sentimentos de um coração incircunciso, ou seja, que está morto! A circuncisão de Deus é para que o homem tenha vida, pois Deus é Deus de vivos, e não de mortos.

O amor a Deus não se vincula a sentimentos humanos, à voluntariedade, aos serviços, aos sacrifícios ou esforço próprio, antes só é possível amar a Deus após a intervenção cirúrgica de Deus: a circuncisão do coração!

Havia um enigma no primeiro e grande mandamento da lei! Muitos leram, outros ouviram, porém, não entenderam e nem compreenderam como se cumpre o primeiro e grande mandamento na lei: circuncidai, pois o vosso coração!

Antes de entregar pela segunda vez as tábuas dos dez mandamentos, Deus orientou o povo a amá-lo ( Dt 10:12 ). De que modo? Circuncidando o prepúcio do coração ( Dt 10:16 ). Ou seja, o cumprimento da lei dependia diretamente da circuncisão do coração, o que só é possível através da ação divina, sem o auxílio de mãos humanas: obra exclusiva de Deus “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração…” ( Dt 30:6 ; Cl 2:11).

Da mesma forma que, segundo a carne, Abraão circuncidou Isaque, quando Deus recebe dentre os homens filhos para si, Ele circuncida o prepúcio do coração dos seus filhos. É o pai que circuncida o filho, e a circuncisão promovida por Deus demonstra que Ele recebeu o circuncidado por filho.

Os fariseus não amavam a Deus de todo o coração porque acreditavam que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão. Por serem circuncidados na carne ao oitavo dia após nascerem, acreditavam que tal prática os tornava filhos de Deus.

Porém, Deus só recebe por filhos aqueles que ele circuncida. A circuncisão do coração é necessária para que o homem viva, ou seja, volte a ser participante da glória de Deus. Sem a circuncisão que Deus efetua no coração o homem está morto, continua na incircuncisão da carne herdada de Adão, mesmo após cumprir os quesitos da lei, como o é a circuncisão do prepúcio.

Enquanto a circuncisão do prepúcio era quesito para ser membro da nação de Israel, a circuncisão do coração é imprescindível para que fossem participantes do Israel de Deus ( Rm 9:6 ). Somente Deus pode realizar a circuncisão do coração do homem “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Após ser circuncidado pelo Senhor, o homem recebe um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). É tirado o coração de pedra e concedido um coração de carne ( Ez 36:26 ). O criado em verdadeira justiça e santidade um novo homem( Ef 4:24 ). Tudo se faz novo!

Somente após receber um novo coração e um novo espírito, o homem regenerado passa a adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, consegue amar a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.

O profeta Ezequiel anunciou que Deus haveria de espargir água pura sobre os homens, ou seja, através da sua palavra Deus haveria de conceder um novo coração e um novo espírito.

Após o novo nascimento, Deus haveria de habitá-los, condição imprescindível para que os homens andem, guardem e cumpram os estatutos de Deus ( Ez 36:25 -27 ). Para amar a Deus de todo o coração é necessário que Deus habite o homem.

Diante da lei e do protesto veemente dos profetas, o povo de Israel aplicavam-se a cumprir os mandamentos como guardar o sábado, utilizar os filactérios, jejuns, orações, sacrifícios, etc. Valorizavam a circuncisão ao oitavo dia, porém, o coração deles permanecia na incircuncisão, longe de Deus “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 At 7:51 ).

O jovem rico era um perfeito retrato da nação de Israel, visto que a maioria seguia o estipulado nos dez mandamentos: “Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo” ( Mt 19:18 -19 ; Ex 20:2 – 17), porém, sentiam que faltava alguma coisa.

Elogiar a Cristo não é o mesmo que amar a Deus de todo o coração: “Muito bem, Mestre, e com verdade disseste…!” ( Mt 12:32 -33). Para o escriba ainda faltava alguma coisa também, pois não basta reconhecer que Jesus apresentou um ensino verdadeiro: “Não estás longe do reino de Deus” ( Mt 12:34 ).

Se o escriba observasse melhor, veria que a porta para se entrar no reino de Deus estava aberta bem a sua frente! Se ele abandonasse os seus conceitos (arrependimento), veria o quão próximo estava o reino dos céus “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus” ( Mt 3:2 ).

Após observarmos o jovem rico e o escriba, precisamos entender porque não basta guardar os mandamentos da lei “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” ( Mt 19:20 ). É essencial descobrir porque mesmo após admitir qual é o maior dos mandamentos, muitos ainda não tem acesso ao reino dos céus “Não estás longe do reino de Deus” ( Mt 12:34 ).

Embora fosse ferrenho seguidor da lei por ser fariseu, exemplo em Israel como mestre, conhecedor da lei como juiz, Nicodemos não podia entrar no reino dos céus, pois lhe faltava nascer de novo! ( Jo 3:2 ). Só é possível nascer de novo após morrer! Quando Deus oferece ao homem e a mulher a circuncisão do coração, ele demonstra a necessidade de se exterminar a velha natureza herdada de Adão, condição essencial para que ocorra o novo nascimento.

Para ser circuncidado pelo Senhor basta crer na palavra que diz: “Ouve, ó Israel…”, pois a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus ( Sl 81:8 ).

Para ouvir e compreender a mensagem de Cristo é necessário comparar coisas espirituais com coisas espirituais (novo testamento com antigo testamento) e lembrar sempre do seguinte versículo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas” ( Mt 13:34 ). Até mesmo a resposta que Jesus deu ao fariseu era uma parábola, pois Cristo é o ‘braço’ do Senhor, a luz do Senhor manifesta aos homens, e os homens não O compreenderam ( Jo 12:41 ; Jo 1:5 ).

 

O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da lei

As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Não matarás e o Sermão da Montanha

O Sermão do Monte e o adultério

O Sermão da montanha e algumas práticas religiosas dos judeus – esmola, oração e jejum




A letra e o espírito

Este artigo é uma resposta a uma critica enviada por e-mail, e os tópicos são apresentados de modo a respondê-la pontualmente, o que nos servirá de lição bíblica de como interpretar o versículo que contém a seguinte frase: “A Letra mata mas o espírito vivifica”. Não postamos a crítica para poupar a pessoa que nos enviou o seu posicionamento.


A letra e o espírito

A Letra mata

Certa feita Jesus afirmou: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ). No mesmo diapasão, o apóstolo Paulo reiterou: “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder” ( 1Co 2:4 ).

Já na segunda epístola aos coríntios, o apóstolo Paulo disse que foi Deus quem o fez capaz de ser ministro “… de um novo testamento, não da letra, mas do espírito” ( 2Co 3:6 ).

Porque o apóstolo Paulo foi constituído ministro de um novo testamento? A resposta é clara: “Porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ).

Ora, se as palavras ditas por Cristo são ‘espírito e vida’, qual ‘letra’ mata? Se o ‘espírito que vivifica’ é o mesmo que as palavras de Cristo, como é possível a alguém que analisar tais palavras encontrar morte?

É evidente que a ‘letra’ que o apóstolo Paulo faz referência não diz do evangelho de Cristo. As palavras e a pregação do apóstolo Paulo não é o mesmo que a ‘letra’ que mata.

No verso: “Porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ), o apóstolo Paulo estava demonstrando aos cristãos de Corinto que ele era ministro de um novo testamento ( 2Co 3:8 ), ou seja, ministro do testamento do Espírito que vivifica “Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45), o que contrasta com o velho testamento, que é o testamento da ‘letra’ “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” ( Gl 3:10 ).

A ‘letra’ é uma referência ‘polida’ que o apóstolo Paulo faz à lei que foi entregue ao povo por Moisés, e que não tinha poder de conceder vida, escrita com tinta em tábuas de pedras ( Gl 3:12 ), pois a própria tinta em pedras especificava os não cumpridores de malditos “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém” ( Dt 27:26 ).

Em seguida o apóstolo Paulo demonstra que os cristãos eram a carta de Cristo ( 2Co 3:3 ), carta esta ministrada pelos apóstolos e escrita com o Espírito do Deus vivo. Ele destaca que os cristãos, na condição de cartas, não foram redigidos com tinta, antes, com o Espírito. Não em tabuas de pedras, mas no coração ( 2Co 3:3 ).

Vale destacar que, com as palavras tinta, tábuas, pedras, coração, etc., o apóstolo Paulo criou uma alegoria para demonstrar que o ministério da lei dada ao povo por intermédio de Moisés era transitório e da morte, uma vez que as letras foram gravadas com tinta em pedras, e não no coração dos homens ( 2Co 3:7 ).

Portanto, o que mata é a letra da lei gravada em pedras, e não a palavra ministrada pelo apóstolo Paulo e por Cristo, pois a palavra de ambos é espírito e vida, pois é gravada no coração daqueles que creem na palavra anunciada.

 

O Espírito Vivifica

O que vivifica o homem? As palavras que foram proferidas por Cristo, conforme se depreende de João 6, verso 63. Cristo é o Verbo de Deus, a palavra encarnada, o espírito que concede vida, o último Adão, o espírito vivificante, a semente incorruptível “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pe 1:23 ).

Cristo é a palavra de Deus revelada aos homens, viva e que permanece para sempre, pois Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente ( Hb 13:8 ).

Quando deu início ao seu ministério, Jesus anunciou: “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração” ( Lc 4:18 ). Jesus foi ungido a evangelizar os necessitados de comunhão com Deus (pobres), e por isto, o Espírito de Deus estava sobre Ele.

Ciente destas considerações, as pregações do apóstolo Paulo sempre tiveram o intuito de apresentar aos homens o Pai e o Filho, respectivamente Espírito e poder “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder” ( 1Co 2:4 ).

Em suas pregações o apóstolo procurava demonstrar que Deus é o Espírito, e o que realmente importa aos homens “Deus é Espírito, e importa que …” ( Jo 4:24 ).

O apóstolo dos gentios exaustivamente demonstrou que a lei (que é transitória) não é o meio pelo qual o homem adora a Deus em espírito e em verdade, antes, que só é possível adorar através do poder de Deus, o que o motivava anunciar aos judeus e aos gregos: Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus “Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus” ( 1Co 1:24 ).

Mesmo na lei há testemunho vivo do ministério do espírito, pois Moisés alertou os seus ouvintes que seria levantado um profeta, e que Ele deveria ser ouvido pelos seus compatriotas “O SENHOR teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” ( Dt 18:15 ). Na lei também estava estipulado o que realmente concede vida aos homens: tudo o que procede da boca de Deus “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Mas, tudo que Deus realizou para que os ouvintes da lei entendessem, não entenderam, ou seja, que na sua palavra há vida, sabedoria e poder. Bastava crerem na palavra que lhes era anunciada, porém, rejeitaram ‘ouvir’ e se propuseram realizá-la “Então todo o povo respondeu a uma voz, e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos. E relatou Moisés ao SENHOR as palavras do povo” ( Ex 19:8 ); “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Ex 20:19 ).

O povo de Israel rejeitou ouvir o Senhor “… não fale Deus conosco, para que não morramos” ( Ex 20:19 ), e como conseqüência não compreenderam o que Cristo anunciou a toda humanidade.

Quando Ele voltou ao Pai, enviou o Consolador, o Espírito de verdade, que haveria de guiar os seus seguidores em toda a verdade “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir” ( Jo 16:13 ).

A palavra de Deus foi revelada através dos profetas e personificada no Filho ( Hb 1:1 ), e a função do Espírito Santo é guiar os discípulos de Cristo em toda a verdade.

 

Revelações

Alardear que não é possível ao homem compreender a Bíblia, uma vez que o entendimento da palavra é revelado pelo Espírito Santo é temerário, principalmente quando utilizam a citação: ‘A letra mata e o espírito vivifica’, como sendo algo que lhes foi revelado pelo Espírito Santo.

A própria revelação que possuem apresenta um entendimento equivocado quanto a verdadeira interpretação do versículo, o que não é próprio ao Espírito da verdade.

É estratégico alegar que a palavra de Deus é revelada pelo Espírito Santo, pois através deste artifício é fácil distorcer a Bíblia com interpretações ‘particulares’, e, por fim, alegar que se está sendo supervisionado pelo Espírito Santo ( 2Pe 1:20 ).

A Bíblia é clara quanto à função do Espírito Santo: “Ele vos guiará em toda a verdade” ( Jo 16:13 ), porém, atribuir uma nova função ao Espírito, que seria atualizar o entendimento da palavra ‘dentro de um contexto profético’ é descabido.

Porém, levando-se em conta o que dizem, destacamos que:

  1. Desde o Antigo Testamento Deus procurou alcançar o entendimento dos homens ( Dt 8:3 ); Jesus alerta que a compreensão é essencial a salvação ( Mt 13:13 ; Mt 13:23 ); O apóstolo Paulo sempre orou a Deus para que os cristãos compreendessem o amor de Deus ( Ef 3:18 );
  2. Qualquer que compreende a palavra do Senhor está em comunhão com Deus, e qualquer que esteja em comunhão, compreendeu. Não há como desvincular a compreensão da comunhão. E no que consiste a comunhão com Deus? Ser gerado de novo tornando-se uma nova criatura, tornando-se participante da natureza divina, o que é possível somente através do lavar regenerador da palavra, que é semente incorruptível ( 1Pe 1:2 e 1Pe 1:22 e 23 ; 2Pe 1:4 );
  3. Cristo é o pão vivo que desceu do céu e que dá vida aos homens, o que contrasta com o maná no deserto, que todos comeram, mas morreram no deserto. O verdadeiro pão do céu é Cristo, que dá vida aos homens ( Jo 6:58 ); Felizmente não são as profecias que alimentam a alma do homem, antes é Cristo o verdadeiro alimento, o cumprimento das Escrituras;
  4. O que os cristãos entendem acerca das Escrituras não é o mesmo que ‘letra’, pois ‘letra’ refere-se aquilo que o povo de Israel entendia da lei. Para eles, as Escrituras tornaram-se em morte, porque em vez de ‘ouvirem’ e ‘crerem’ n’Aquele que realiza todas as coisas, se propuseram a fazer. Para os cristãos as Escrituras testificam de Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus, portanto, pão vivo que desceu dos céus e que dá vida aos homens;
  5. As opiniões e as práticas que há no mundo não é o que conduz o homem a morte. O que conduz o homem à perdição é o caminho largo que o homem acessou após ter entrado pela porta larga, que é ser gerado de Adão ( Mt 7:13 ). Há inúmeros caminhos, opiniões, práticas, filosofias, etc., porém, nenhum desses caminhos refere-se ao caminho largo que conduz a perdição. Apesar de haver caminhos que ao homem parece direito, ao cabo dá em morte, porque ele começou a trilhar o caminho que leva a perdição desde a madre ( Sl 58:3 ; Sl 51:5 );
  6. O mistério que esteve oculto pelos séculos não depende do serviço ou da fidelidade do homem a Deus; o mistério que foi revelado em Cristo refere-se a igreja, que é a união de dois povos: gentios e judeus ( Ef 2:14 e Ef 3:6 ; Cl 1:24 e Cl 1:26 );
  7. Cristo não veio resgatar os homens de uma existência temporal e da infelicidade; Jesus veio resgatar o que havia se extraviado: todos os homens! ( Rm 3:12 ). É por isso que Deus amou o mundo de tal maneira que Deus o seu Filho unigênito. Jesus não veio somente conceder uma existência eterna, antes Ele veio compartilhar da Sua natureza com aqueles que creem, que é vida em abundância, embora o homem compartilhará pela eternidade desta comunhão com o Pai e o Filho ( Jo 17:22 );
  8. Santificação não e o mesmo que arrependimento. É comum entender que arrependimento refere-se a uma mudança de atitude, de comportamento, porém, a palavra grega traduzida por arrependimento refere-se a uma mudança de concepção, de ponto de vista, ou de pensamento. Por exemplo: Qualquer judeu que deixe de acreditar que será salvo por causa da ‘letra’ da lei, ou porque é descendente da carne de Abraão, e crê em Cristo, arrependeu-se, ou seja, mudou de concepção, de pensamento, de ponto de vista. Arrependimento é deixar de pensar como se pensava “E não presumais (pensar), de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 );
  9. Como é estar em Cristo? É ser uma nova criatura! Como é ser uma nova criatura? É estar em Cristo! ( 2Co 5:17 ). É neste sentido que o Espírito vivifica: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 ), pois Cristo, o último Adão é espírito vivificante. A ação do Espírito Santo não é falar de si mesmo, e sim guiar o homem em toda a verdade, ou seja, a Cristo, pois Ele é o caminho, a verdade e a vida.

Este verso: “Porque a letra mata e o espírito vivifica”, nem mesmo pode ser atribuída a uma pessoa que lê a Bíblia como sendo um livro comum ( 2Co 3:6 ), pois o sentido do texto estaria sendo alterado, uma vez que o apóstolo Paulo ao entregar esta mensagem a Igreja de Corinto estava demonstrando a impossibilidade da Lei (Mosaica) salvar alguém.

A lei apenas mostra ao homem a sua incapacidade de agradar a Deus, dessa forma a ‘letra’, o mesmo que ‘Lei’, mata, ou melhor, mesmo que se busque cumprir rigorosamente a lei, a exemplo de Nicodemos, para Deus o homem continua no mesmo estado que nasceu: morto.

Para cumprir a lei é necessário ao homem ouvir e crer na palavra de Deus “E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos“ ( Ex 20:19 ), e não se propor em realizá-la, como fez o povo de Israel “Veio, pois, Moisés, e contou ao povo todas as palavras do SENHOR, e todos os estatutos; então o povo respondeu a uma voz, e disse: Todas as palavras, que o SENHOR tem falado, faremos” ( Ex 24:3 ).

Dentro do seu contexto, esta linha de 2 Coríntios 3, verso 6 expressa um contraste importante entre a impossibilidade do sistema do Velho Testamento e a suficiência de Cristo para salvar o homem do pecado, condição que a humanidade herdou em Adão.

A “letra” representa o “ministério da morte, gravado com letras em pedras” que foi dado aos israelitas através de Moisés ( 2Co 3:7 e 3:3). O “Espírito” representa a nova aliança de Cristo, revelada através do Espírito Santo e escrita em nossos corações ( 2Co 3:3 – 8).

O apóstolo Paulo procurou demonstrar que, mesmo que o homem conseguisse cumprir/guardar toda a letra (613 leis, mais os 10 Mandamentos), não alcançaria a salvação, ou seja, para Deus ele ainda estaria morto por ser filho de Adão, ou seja, por não ter sido gerado de Deus.

É salutar que se entenda que, em Adão, toda a humanidade nasce (é gerada) destituída da gloria de Deus ( Rm 3:23 ), e que para restabelecer a comunhão com Deus ( Jo 17:22 ), a exemplo de Nicodemos, é necessário nascer (ser gerado) de novo, da Água (palavra) e do Espírito (Deus).

Ao ouvir e aceitar o evangelho de Cristo rejeita-se qualquer outra doutrina (arrependimento). Quando se crê na mensagem anunciada o velho homem “morre” com Cristo e é sepultado, ou seja, o homem é batizado na morte de Cristo, no verdadeiro e único batismo para salvação ( Ef 4:5 ), cumprindo a lei de Deus: “A alma que pecar, essa morrerá” ( Ez 18:4 ).

Não podemos confundir arrependimento, que é mudança de conceito, ou mudança de entendimento acerca de alguma matéria, com arrependimento de obras mortas. Os homens por estarem mortos, o mesmo que imundos diante de Deus, praticam obras mortas, ou seja, imundas. A maioria dos homens se arrependesse dos seus erros, porém, não passa de arrependimento de obras mortas, o que não é o mesmo que arrepender-se (mudança de entendimento) porque é chegado o reino dos céus.

Quando o novo homem ressurge dentre os mortos para a glória de Deus, é justificado, ou seja, a nova criatura é declarada justa por Deus por ser participante da natureza divina.

O novo homem é justificado não por suas obras (guardar dia, fazer coisas boas, jejum, orações, caridade, descendência de Abraão, ser participante de uma denominação, etc.), antes, porque ao ser gerado por Deus em Cristo, torna-se participante do corpo e do sangue de Cristo ( Jo 6: 54 -56), e por ter sido criado em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24), compartilha da natureza divina. A nova criatura, ou o novo homem por ter sido criado JUSTO é declarado justo por Deus.

Tudo ocorre através da maravilhosa obra de Deus, a regeneração, através do Descendente, que é Cristo. Através do último Adão, que é Cristo são gerados os filhos de Deus. Filhos nascidos, não da carne, nem do sangue, e nem da vontade do varão, mas da vontade de Deus ( Jo 1:12 ).

Para que os filhos de Deus sejam gerados, há a necessidade de nascerem da palavra e do Espírito de Deus. Nascer de Deus só é possível por meio da pregação do evangelho que é semente incorruptível e poder de Deus pela fé em Cristo. Por isto que “o espírito vivifica”, por que ele dá vida a quem está morto.

No mesmo contexto de 2 Coríntios 3 o apóstolo Paulo enfatiza a importância da palavra revelada por Cristo contrastando-a com a ‘letra’. Ele destaca o valor da palavra de Deus ( 2Co 4:2 ), da verdade ( 2Co 4:2 ), do conhecimento da glória de Deus ( 2Co 4:6 ) e da liberdade em Cristo, pois a sua palavra é Espírito e poder ( 2Co 3:17 ).

A lei ainda vigora? NÃO, de maneira alguma, pois Cristo cumpriu a lei para que por intermédio d’Ele tenhamos vida ( 2Co 3:14 ).

É bom lembrar que, quando Jesus morreu na cruz o véu do templo se rasgou de alto a baixo. Isto estabeleceu o fim da lei, pois a partir daquele momento o templo de Deus passou a ser os nossos corpos, onde Deus habita através do Seu Espírito ( Jo 14:23 ; 1Co 3:17 ). O véu que foi rasgado significa que a lei foi abolida ( Rm 10:4 ).