Salmo 55 – Desejo de voar como as pombas

O desejo de Cristo se assemelha à vontade do profeta Jeremias que, ao prever a destruição dos filhos de Israel, desejou uma estalagem de caminhantes no deserto, do que estar entre os seus patrícios, que seriam destruídos pela guerra (Jr 9:2).


Salmo 55 – Desejo de voar como as pombas

Este Salmo é mais uma profecia de Davi, em forma de cântico (1 Cr 25:1-3) ou, um cântico profético. O rei Davi era profeta (At 2:29-30) e neste Salmo, pelo espírito (Mt 22:43), ele descreve o estado emocional do Cristo, quando perseguido pelos seus irmãos, segundo a carne.

Este Salmo não é fruto do estado emocional do salmista. É equivocada a leitura de que os Salmos descrevem a angústia, a alegria, as frustrações, as conquistas, etc., de Davi. Os Salmos não são um cântico dramático, que falam dos temores de Davi, antes, é um cântico que nos apresenta como o Verbo de Deus, que se faria homem, quando na forma de homem, se humilharia em obediência ao Pai (Fl 2:8).

 

A angustia

1 INCLINA, ó Deus, os teus ouvidos à minha oração e não te escondas da minha súplica. 2  Atende-me e ouve-me; lamento na minha queixa e faço ruído, 3  Pelo clamor do inimigo e por causa da opressão do ímpio; pois lançam sobre mim a iniquidade e com furor me odeiam. 4  O meu coração está dolorido dentro de mim e terrores da morte caíram sobre mim. 5 Temor e tremor vieram sobre mim e o horror me cobriu.

O cântico profético de Davi é construído com paralelismo e dessa estrutura poética, é possível compreendermos melhor os seus versos (que não são estruturados em métricas, rimas ou ritmos), mas, através de ideias que se complementam ou que são antagônicas.

O primeiro verso é construído através de um paralelismo sinônimo, pois a segunda linha do verso reforça a ideia apresentada na primeira:

“INCLINA, ó Deus, os teus ouvidos à minha oração …

… e não te escondas da minha súplica.”

‘Inclinar’ os ouvidos é o mesmo que atender (Is 37:17), ser favorável, dar ouvidos. Não esconder da súplica é pedir pelo favor de Deus, que se revela no ‘resplendor’ da Sua face. Quando Deus se revela, indica que Ele é favorável a quem O invoca (Nm 6:25; Sl 31:16; Sl 80:3).

O Salmo constitui uma oração de Cristo, que roga ao Pai que lhe seja favorável e atenda os seus rogos.

Esse mesmo pedido está expresso no Salmo 102:

“Não escondas de mim o teu rosto no dia da minha angústia, inclina para mim os teus ouvidos; no dia em que eu clamar, ouve-me depressa.” (Sl 102:2)

O Cristo roga por auxilio, por uma resposta, pois, na sua angústia, sente-se perturbado e perplexo por causa da oposição dos seus inimigos, que são os da sua própria família (Mt 10:36). A opressão dos seus inimigos consiste em ofendê-lo, hostilizando e atribuindo maldades (v. 4).

A perseguição que os filhos de Israel imporiam ao Cristo, que o Salmo denomina de ‘ímpios’, causaria uma reação física, pois o coração do Messias ficaria acelerado, palpitante, pelo terror que a perspectiva da morte impõe. O medo causa a reação física de tremores e a reação psíquica é o horror (v. 5).

O Salmo 38 fala do abandono do Cristo pelos seus amigos e familiares e de como os seus irmãos, segundo a carne, O perseguiriam:

“Os meus amigos e os meus companheiros estão ao longe da minha chaga; e os meus parentes se põem à distância. Também, os que buscam a minha vida, me armam laços e os que procuram o meu mal, falam coisas que danificam e imaginam astúcias, todo o dia. Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo que não abre a boca. Assim, eu sou como homem que não ouve e, em cuja boca, não há reprovação.” (Sl 38:11-14)

 

Asas como de pomba

6  Assim, eu disse: Oh! quem me dera asas como de pomba! Então, voaria e estaria em descanso. 7  Eis que fugiria para longe e pernoitaria no deserto. (Selá.) 8  Apressar-me-ia a escapar da fúria do vento e da tempestade. 9  Despedaça, Senhor, e divide as suas línguas, pois tenho visto violência e contenda na cidade. 10 De dia e de noite a cercam, sobre os seus muros; iniquidade e malícia estão no meio dela. 11 Maldade há dentro dela; astúcia e engano não se apartam das suas ruas.

Na angústia, um desejo do Cristo: asas como de pomba, que possibilitasse alçar voo! O desejo de fugir e de estar num lugar deserto e inóspito soa como descanso, o que, para muitos, representa um lugar de infortúnios. O deserto, comparado à fúria e à tempestade causada pela oposição dos seus inimigos, é lugar de descanso!

O desejo de Cristo se assemelha à vontade do profeta Jeremias que, ao prever a destruição dos filhos de Israel, desejou uma estalagem de caminhantes no deserto, do que estar entre os seus patrícios, que seriam destruídos pela guerra (Jr 9:2).

Apesar do anseio de fugir, o Cristo se volta para o Pai e roga para que os conselhos dos seus inimigos sejam dissipados (confundidos), pois o que Ele contempla e vê na cidade em que eles habitam é só violência e contenda (v. 9). A cidade é descrita como se houvesse atalaias sobre os muros, em guarda para protegê-la, porém, não é isso o que ocorre, pois a cidade está tomada de iniquidade e malícia e não passaria impune por Deus. Ninguém, posto por atalaia, dá o alarde de que a maldade, a astúcia e o engano dominam as ruas.

Que cidade é esta descrita pelo profeta Davi?

O profeta Habacuque, na condição de atalaia de Israel, estava cansado de ver iniquidade e opressão  (Hb 1:3). Em função da calamidade que via em meio aos filhos de Israel, pois a justiça era torcida e o ímpio cercava o justo, Habacuque estava cansado de gritar ao Senhor para ser atendido (Hb 1:1).

Essa mesma cidade, cheia de violência e de contenda, é retratada no Livro dos Provérbios como a mulher adultera, que deixou o companheiro da sua mocidade e se esqueceu da aliança com o seu Deus (Pv 2:16-17). A mulher adúltera é figura que retrata as cidades habitadas pelos filhos de Israel, cheias de violência e de maldade.

“Oh! se tivesse no deserto uma estalagem de caminhantes! Então, deixaria o meu povo e me apartaria dele, porque todos eles são adúlteros, um bando de aleivosos” (Jr 9:2);

“Quando vês o ladrão, consentes com ele e tens a tua parte com adúlteros. Soltas a tua boca para o mal e a tua língua compõe o engano. Assentas-te a falar contra teu irmão; falas mal contra o filho de tua mãe” (Sl 50:18-20).

 

Irmão contra irmão

12 Pois não era um inimigo que me afrontava; então, eu o teria suportado; nem era o que me odiava que se engrandecia contra mim, porque dele me teria escondido. 13 Mas eras tu, homem meu igual, meu guia e meu íntimo amigo. 14 Consultávamos juntos, suavemente, e andávamos em companhia na casa de Deus. 15 A morte os assalte e, vivos, desçam ao inferno; porque há maldade nas suas habitações e no meio deles.

As pessoas que se levantariam contra o Cristo, não seriam de alguma nação inimiga, o que seria suportável. Era impossível ao Cristo se esconder dos seus adversários, pois os que se levantariam contra Ele, seriam os seus concidadãos, irmãos de sangue (Mq 7:6).

Ao encarnar, Cristo se fez homem. Como Cristo veio da casa de Davi, segundo a carne, os seus concidadãos eram seu ‘guia’ e ‘amigo intimo’, pois tinham a mesma afinidade: iam juntos ao templo. Esse verso tem conexão com o vaticinado por Moisés, que Deus levantaria um profeta dentre os seus irmãos e Ele seria como eles, em tudo.

“Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar.” (Dt 18:18)

Apesar do alerta do profeta Moisés, de que o mensageiro do Senhor seria um dos seus irmãos, não tiveram cuidado em falar mal contra o irmão (sangue), o filho da tua mãe (nação). (Sl 50:20)

Mas, pelo mal que fariam contra o Cristo, os ímpios seriam tomados de assalto pela morte e, apesar de possuírem o fôlego de vida, estariam a caminho do inferno (v. 23), na mesma condição que os rebeldes das casas de Coré, Datã e Abirão (Sl 55:23; Sl 140:10).

 

16 Eu, porém, invocarei a Deus e o SENHOR me salvará. 17 De tarde, de manhã e ao meio dia, orarei e clamarei e Ele ouvirá a minha voz. 18 Livrou, em paz, a minha alma da peleja que havia contra mim, pois havia muitos comigo. 19 Deus ouvirá e os afligirá. Aquele que preside desde a antiguidade (Selá), porque não há neles nenhuma mudança e, portanto, não temem a Deus.

O verso 16 demonstra a confiança que o Cristo depositaria no Pai, que O invocaria e seria salvo. Outros Salmos apresentam a resposta do Pai, ao clamor do Filho:

“Porque não desprezou, nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu.” (Sl 22:24)

“Ele me invocará e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia, dela o retirarei e o glorificarei.” (Sl 91:15)

Quando é dito que, de manhã, ao meio dia e à tarde, orará ao Pai, significa que o Filho confiaria, constantemente, em Deus. A oração é expressão de confiança em Deus, assim como  o esperar (Sl 40:1).

Deus, ao livrá-lo dos seus opositores, o Cristo alcançaria paz. Os opositores de Cristo seriam numerosos e temos uma ideia de quantos seriam: uma cidade, uma nação.

O Cristo confia que Deus o ouvirá e abaterá os seus opositores, pois Deus é soberano. Serão abatidos porque não se arrependem e nem temem (obedecem) a Deus (Jr 23:14). Arrepender-se, ou temer é esperar em Deus, na sua misericórdia (Sl 33:18). Para ‘aguardar’ a misericórdia de Deus, o homem tem que obedecê-Lo, pois Deus só tem misericórdia dos que O amam.

 

Os desprezadores

20 Tal homem pôs as suas mãos naqueles que têm paz com ele; quebrou a sua aliança. 21 As palavras da sua boca eram mais macias do que a manteiga, mas havia guerra no seu coração: as suas palavras eram mais brandas do que o azeite; contudo, eram espadas desembainhadas.

Profeticamente, o Salmista descreve os filhos de Israel como aqueles que levantam a mão contra os seus amigos, vez que todos violam a aliança. Como cada qual levanta a mão contra o seu amigo, vem o alerta nos Profetas: “Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca.” (Mq 7:5; Zc 7:10).

A denúncia contra os filhos de Israel é gravíssima, pois, todos se desviaram da aliança:

“Guardai-vos cada um do seu próximo e de irmão nenhum vos fieis; porque todo o irmão não faz mais do que enganar e todo o próximo anda caluniando. E zombará cada um do seu próximo, porque não falam a verdade; ensinam a sua língua a falar a mentira, andam-se cansando em proceder perversamente.” (Jr  9:4-5)

Como rejeitaram a lei de Deus e não cumpriram as suas palavras, Deus traria o mal sobre os filhos de Israel. De nada adiantava cuidarem dos pobres, órfãos e viúvas do povo, se quebraram a aliança, no final tudo seria destruído, por causa dos seus maus pensamentos.

“Ouve tu, ó terra! Eis que eu trarei mal sobre este povo, o próprio fruto dos seus pensamentos; porque não estão atentos às minhas palavras e rejeitam a minha lei.” (Jr 6:19)

“Para que, pois, me vem o incenso de Sabá e a melhor cana aromática, de terras remotas? Vossos holocaustos não me agradam, nem me são suaves os vossos sacrifícios. Portanto, assim diz o SENHOR: Eis que armarei tropeços a este povo; e tropeçarão neles pais e filhos, juntamente; o vizinho e o seu companheiro perecerão.” (Jr 6:19-21).

Embora cada um se apresente ao seu companheiro com semblante ‘angelical’, contudo, o que há no coração é inimizade. As palavras que os filhos de Israel proferem são dóceis, pois falam de paz, cada um com o seu companheiro, mas não em retidão e nem em justiça, de modo que as suas doces palavras religiosas são comparáveis a espadas afiadíssimas pelo veneno mortífero que contém.

“Que afiaram as suas línguas como espadas; e armaram por suas flechas palavras amargas.” (Sl 64:3)

“Aguçaram as línguas como a serpente; o veneno das víboras está debaixo dos seus lábios. (Selá.)” (Sl 140:3)

 

22 Lança o teu cuidado sobre o SENHOR e ele te susterá; não permitirá jamais que o justo seja abalado. 23 Mas tu, ó Deus, os farás descer ao poço da perdição; homens de sangue e de fraude não viverão metade dos seus dias; mas eu em ti confiarei.

O Cristo é instruído a depositar os seus anseios ou, fardo, em Deus, pois Deus é quem susterá o Cristo. Deus jamais permite que o justo, que é o Cristo, venha a vacilar, cair, tropeçar (Sl 26:1), pois o Cristo, por sua vez, lança o seu cuidado sobre o Senhor (Sl 15:5).

“Porque nunca será abalado; o justo estará em memória eterna. Não temerá maus rumores; o seu coração está firme, confiando no SENHOR. O seu coração está bem confirmado, ele não temerá, até que veja o seu desejo sobre os seus inimigos. Ele espalhou, deu aos necessitados; a sua justiça permanece para sempre e a sua força se exaltará em glória” (Sl 112:6-9);

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.” (Jo 15:10).

Os opositores de Cristo, por sua vez, serão desarraigados e o que os aguarda é a sepultura. Enquanto o Cristo põe em Deus a sua esperança, os seus opositores, os filhos do seu povo, são descritos como ardilosos e sanguinários.

Ao caracterizar os filhos de Israel como homens de sangue e fraude, o Salmista, por ser profeta, faz uso de figuras, símiles e parábolas, para denunciar a apostasia e o tropeço dos filhos de Israel.

Os homens de ‘sangue’ são aqueles que se lançam aos sacrifícios de bois, cordeiros, oblações, etc., mas que não obedecem a Deus (Is 66:3). Os homens de ‘fraude’ são aqueles que torcem a palavra de Deus, como descrito por Isaías:

“Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade.” (Is 59:13).

Como a boca fala do que o coração está cheio, certo é que quem profere palavras de falsidade é porque o coração é enganoso. O coração é enganoso por ter sido herdado de Adão, o que faz com que o homem fale mentiras, desde que nasce. (Sl 58:3; Rm 3:4)

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




Sacerdócio real ‘versus’ levitas

Quando o crente em Cristo ensina o evangelho, evangeliza um não crente ou, entoa uma canção, faz uma oração, etc., na verdade, está exercendo um sacerdócio, função que não tem relação alguma com o ministério desenvolvido pelos levitas da Antiga Aliança.


Sacerdócio real ‘versus’ levitas

“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas, para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2:9).

 

Introdução

É comum, nas igrejas (congregações, comunidades) locais, os cantores e músicos evangélicos se autodenominarem levitas. Esse é um fenômeno recente nas comunidades evangélicas, daí alguns questionamentos: na Igreja, como corpo de Cristo, há levitas? O que entender por levitas, na Nova Aliança? Havia, na Antiga Aliança, a função de cantores e instrumentistas?

 

O fruto dos lábios

O crente em Cristo é geração escolhida, sacerdócio real, nação separada e povo comprado por bom preço, com uma missão especifica: anunciar as virtudes de Deus, que chamou os crentes das trevas para a Sua maravilhosa luz (Cl 1:13; 1 Co 6:20 e 7:23).

Por ter sido gerado de novo, o crente em Cristo é membro de um povo que pertence (adquirido) a Deus, portanto, separado (santificado) por Deus. Como o corpo de Cristo é constituído de iguais, o termo grego eκκλησία, traduzido por igreja, e transliterado ‘ekklesia’ (eclesia), passou a ser utilizado para nomear os membros do corpo de Cristo: uma assembleia de iguais, visto que todos são filhos de Deus, pela fé em Cristo!

“E ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou santo e vos separei dos povos, para serdes meus(Lv 20:26).

Ser ‘geração’, ‘nação’ e ‘povo’, é condição inerente ao crente, por estar em Cristo, ou seja, por ser uma nova criatura, gerada, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24; 2 Co 5:17).

Agora, ‘sacerdócio’ aponta para a missão que o crente desempenha, como membro do corpo de Cristo! O cristão, ao exercer o seu sacerdócio, tem a missão de anunciar as virtudes de Deus, pois este é o sacrifício que Deus se agrada. O sacrifício exigido por Deus diz do ‘fruto dos lábios’, ou seja, anunciar ao mundo as virtudes de Deus!

“Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus, sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hb 13:15).

Quando o crente admite (confessa) com os lábios que Jesus é o Cristo, vez que, com o coração creu que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos (Rm 10:9-10), Deus é glorificado. É tão somente na confissão de que Jesus é o Filho de Deus, que o homem oferece sacrifício de louvor a Deus, ou seja, o fruto dos lábios, pois, em confessar a Cristo, o crente glorifica a Deus.

“E me disse: Tu és meu servo; és Israel, aquele por quem hei de ser glorificado (Is 49:3).

Admitir que Jesus de Nazaré é o Cristo (Mt 16:16), ou seja, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, é produzir o fruto pelo qual Deus é glorificado:

“Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” (Jo 15:8).

Por três anos, Deus esperou que Israel (figueira) produzisse o fruto dos lábios, crendo em Cristo, a pedra que os edificadores rejeitaram, e confessando (louvor nos lábios) que Ele é a paz para os judeus (perto) e os gentios (longe), mas não produziram e foram cortados (Is 57:19; Lc 13:6-9).

Os cristãos são plantação do Senhor, por terem nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus (Is 60:21 e Is 61:3). Ao anunciar a palavra de Deus, o cristão desempenha o seu sacerdócio, pois, através do fruto (louvor) dos seus lábios, anuncia a Cristo, um sacrifício santo e agradável!

“Vós, também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo” (1 Pe 2:5).

Os verdadeiros adoradores, que o Pai procura, encontram-se em Cristo (Jo 4:24), pois adoram a Deus, em espírito e em verdade, uma vez que o evangelho é espírito e Cristo, a verdade (Jo 6:63; Fp 3:3). Os nascidos da carne, são carne e os nascidos do espírito, são espírito, portanto, estes, verdadeiros adoradores!

 

Levitas

Os “levitas” eram “descendentes da Tribo de Levi” e Levi, por sua vez, um dos doze filhos de Jacó. Os levitas eram ministros de Deus que cuidavam do serviço da tenda da congregação, auxiliares dos sacerdotes.

Dentre os levitas, alguns desempenhavam a função de sacerdotes, que eram os descendentes da família de Arão. Embora os sacerdotes fossem levitas e descendentes de Arão, os levitas cuidavam do tabernáculo e de seus utensílios, inclusive, eram responsáveis por carregar a tenda e os seus utensílios, durante a peregrinação pelo deserto, e os descendentes de Arão, que eram da Tribo de Levi, ofereciam a Deus dons e sacrifícios pelos homens (Hb 5:1).

“DEPOIS tu farás chegar a ti teu irmão Arão e seus filhos com ele, do meio dos filhos de Israel, para me administrarem o ofício sacerdotal, a saber: Arão, Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar, os filhos de Arão” (Êx 28:1).

Para ser sacerdote, não bastava ser levita, tinha de ser, especificamente, da casa (descendência) de Arão! (Hb 5:4)

Não havia, na Antiga Aliança, alguém responsável por cânticos, músicas ou instrumentos musicais e, nem mesmo havia, durante o culto conduzido pelos sacerdotes, um momento de cânticos.

Encontramos, no Livro de Deuteronômio, Deus ordenando a Moisés que escrevesse um cântico profético, e que o ensinasse aos filhos de Israel, como testemunho em desfavor deles.

“Agora, pois, escrevei-vos este cântico e ensinai-o aos filhos de Israel; ponde-o na sua boca, para que este cântico me seja por testemunha contra os filhos de Israel (Dt 31:19).

A mensagem do cântico era instrução para os filhos de Israel e o cântico, em si, um veículo para que a mensagem não fosse esquecida:

“E será que, quando o alcançarem muitos males e angústias, então este cântico responderá contra ele por testemunha, pois não será esquecido da boca de sua descendência; porquanto, conheço a sua boa imaginação, o que ele faz hoje, antes que o introduza na terra que tenho jurado” (Dt 31:20)

Daí, o cântico magnífico, no Capítulo 32, do Livro de Deuteronômio, denunciando que os filhos de Israel não eram filhos de Deus (Dt 32:5), sem entendimento das coisas de Deus (Dt 32:28; Sl 53:3), e a doutrina que ensinavam não passava de peçonha de víboras (Dt 32:32-33).

Muito tempo depois, o profeta Davi inseriu a música e os instrumentos musicais, como elemento assessório ao ministério dos profetas (1 Cr 25:1-3). Ora, alguns levitas eram cantores e instrumentistas, assim como, o rei Davi (2Cr 5:12-13), porém, o ministério de alguns levitas era o de profetizar, utilizando-se de instrumentos musicais, diferentemente de outros, que tinham atribuições como porteiros, guardas, padeiros, perfumistas, etc. (1 Cr 9:14-33).

As profecias de Davi e de alguns levitas, foram anunciadas ao povo, em forma de cânticos e poesias, poemas acompanhados de instrumentos musicais, o que facilitava o povo decorar o que ouviam no templo, visto que 98% da população não sabia ler.

O que é imprescindível no cântico é a mensagem, a doutrina, a profecia, etc., que deve ser obedecida, não a musicalidade, os instrumentos, os acordes, a voz, o conjunto, a dança, etc., que são elementos acessórios à mensagem.

Cânticos, canções, composições, etc., que não contém a mensagem do evangelho, são inócuos para a salvação e quem se aplica aos cânticos, sem obedecer ao mandamento de Deus (crer em Cristo, conforme as Escrituras) é manancial roto, sem vida, e não é aceito por Deus:

“Odeio, desprezo as vossas festas e as vossas assembleias solenes não me exalarão bom cheiro. E ainda que me ofereçais holocaustos, ofertas de alimentos, não me agradarei delas; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais gordos. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas violas (Am 5:21-23).

Na Nova Aliança, não temos a figura dos levitas à semelhança dos homens que serviam na Antiga Aliança, que tinham a incumbência de conduzir a glória do Senhor sobre os ombros, com auxilio de varas, representada através da arca do Senhor (1 Cr 15:2).

“Porque havia sempre, naquele ofício, quatro porteiros principais, que eram levitas, e tinham a seu cargo as câmaras e os tesouros da Casa de Deus” (1 Cr 9:26);

“Quenanias, chefe dos levitas músicos, tinha o encargo de dirigir o canto, porque era perito nisso” (1 Cr 15:22)

Na igreja não temos levitas, porque a Igreja não possui paralelo com o Templo de Salomão, visto que o Templo de Salomão foi erguido com mãos humanas, no qual Deus não habita (At 17:24), e a Igreja está sendo erguida pelo descendente de Davi, sem auxilio de mãos humanas, no qual Deus habita.

A Igreja é o corpo de Cristo, templo santo ao Senhor, onde o Espírito Santo de Deus habita (1 Co 3:16). Os levitas eram ministros que cuidavam do templo auxiliando os sacerdotes, o crente, por sua vez, é ministro de Cristo e templo de Deus.

Os levitas tinham a incumbência de cuidar e de transportar os utensílios da tenda da congregação ou, prestavam serviço no templo (Nm 4:3-4), mas a glória do Senhor não estava sobre eles. Os levitas iam ao templo para adorar, os crentes em Cristo, por sua vez, são o templo, habitação do Altíssimo e adoram em todo tempo e em qualquer lugar.

Os levitas eram descendentes da tribo de Levi, separados por Deus para o serviço do culto na Antiga Aliança, e acabaram por não ter herança com os filhos de Israel (Dt 18:1-2). No corpo de Cristo não há subdivisão, pois todos são coerdeiros com Cristo e herdarão com Ele todas as coisas. Um levita não possui herança entre as onze tribos de Israel, já os membros do corpo de Cristo são herdeiros de Deus, vez que são filhos e coerdeiros de Cristo (Hb 9:15).

“E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Rm 8:17).

No exercício do seu sacerdócio, os cristãos são ministros do espírito, despenseiros dos mistérios de Deus, administrando aos outros a verdade do evangelho: o dom de Deus.

“Que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (1 Co 4:1);

“Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pe 4:10).

O apóstolo Paulo não queria ser considerado levita, e sim, ministro de Cristo, segundo a medida (padrão) do espirito (dom), segundo o que Deus repartiu a cada um:

“Pois, quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o SENHOR deu a cada um?” (1 Co 3:5; Rm 12:3 e 6).

Na qualidade de ministro de Jesus a serviço dos gentios, ministrando o evangelho, o apóstolo Paulo exercia o seu sacerdócio real, de modo que, assim era santificado pelo Espírito Santo, o que era ofertado pelos gentios.

“Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15:16).

Ministro[1] diz de quem serve no templo, ou de alguém ocupado com o serviço do templo, um sacerdote ou dos servos de um rei. Quando é dito que o crente é sacerdócio real, é porque exerce o ministério do espírito, pelo dom do evangelho, que contém a virtude de Deus.

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” (2Co 3:6);

“Do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder” (Ef 3:7).

 

Levita e a Igreja

Quando é feita a seguinte pergunta: – ‘Qual a verdadeira função dos levitas na Casa do Senhor?’, há um erro no questionamento, que induz a um equívoco, por causa de uma premissa errada.

Na casa do Senhor não há a função para levitas, considerando que a casa do Senhor diz do corpo de Cristo – a Igreja – e não de uma denominação, ou de uma igreja local.

“Porém vós sereis chamados sacerdotes do SENHOR e vos chamarão ministros de nosso Deus; comereis a riqueza dos gentios e na sua glória vos gloriareis” (Is 61:6);

“Mas, longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu, para o mundo” (Gl 6:14).

Não se pode confundir a função dos levitas da Antiga Aliança com a função dos diáconos na Nova Aliança.

O termo grego antigo διάκονος, traduzido por diácono, significa “ministro”, “servo”, “ajudante”, que é aplicado aos cristãos qualificados e selecionados para servir aos demais cristãos. Os diáconos são servos de Cristo, assim como os demais cristãos, e, em sujeição a Cristo, cuidam do interesse dos membros da igreja local.

Na igreja primitiva os diáconos foram comissionados para cuidar de questões materiais, como o sustento das viúvas (At 6:1). Em linhas gerais era uma espécie de tesoureiro da comunidade local, com a incumbência de tratar das necessidades dos mais pobres, visto que o estado não cuidava dessas questões (At 6:3).

O serviço do diácono, na igreja primitiva, devia primar pela equidade, de modo a não haver acepção de pessoas no momento da distribuição dos gêneros alimentícios. Para isso, os diáconos precisavam ser instruídos na palavra do evangelho, conscientes de que, no corpo de Cristo, não há melhor e nem pior, pois, todos são filhos de Deus, pela fé em Cristo.

Mas, apesar de um diácono ter a incumbência do serviço na comunidade local, com relação ao evangelho, exerce sacerdócio real como os demais, pois, também, é um despenseiro da graça de Deus.

Os levitas não podiam oferecer a gordura dos animais como os sacerdotes e nem podiam entrar no Santo dos Santos. Já os diáconos, com ousadia, têm acesso total a Deus, pelo novo e vivo caminho, consagrado através da carne de Cristo (Hb 10:19-20).

Quando o crente em Cristo ensina o evangelho, evangeliza um não crente ou, entoa uma canção, faz uma oração, etc., na verdade, está exercendo um sacerdócio, função que não tem relação alguma com o ministério desenvolvido pelos levitas da Antiga Aliança.

Arrogar para si a função de levita em uma igreja local é descabido, pois o sacerdócio araônico foi transitório, de modo que foi necessária a instituição de uma nova ordem: a ordem de Melquisedeque, rei de Salém (Hb 7:11). O Salmista Davi, muito depois da instituição do sacerdócio levítico, por intermédio de Arão, profetizou, acerca de Cristo, que Ele seria sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110:4; Hb 7:21).

O crente serve como membro do corpo de Cristo, do qual Cristo é a cabeça e, porque permanece eternamente, o seu sacerdócio é perpétuo: “Mas este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo” (Hb 7:24).

Um crente em Cristo é, acima de tudo, verdadeiro adorador, pois adora a Deus em espírito e em verdade. Em Cristo é santo e fiel, em qualquer lugar e em todo o tempo! Por crer em Cristo, realizou a obra de Deus, conforme Jesus asseverou aos seus ouvintes (Jo 6:29).

  • O crente não adora através de cânticos, danças, orações, jejuns, etc., pois esses recursos não são essenciais ao culto e, muitas das vezes somente refletem emoções da alma;
  • O crente não precisa de templo, pois é o templo;
  • O crente não precisa de sacrifício, pois apresenta o seu corpo e o fruto dos seus lábios, em sacrifício;
  • O crente não precisa de intermediário (sacerdote), pois tem amplo acesso ao trono da graça;
  • O crente não precisa de tempo ou de lugar para adorar a Deus, pois adora segundo o evangelho (espírito) e não na velhice da lei;
  • O crente goza de plena comunhão com Deus, pois tem comunhão com Cristo e os apóstolos em um mesmo espírito;
  • O crente goza de um nome e de uma posição superior à dos levitas: a de filhos e filhas.

Não queira se auto intitular levita, pois, foi honra concedida por Deus, somente aos descendentes da Tribo de Levi, da mesma forma que foi concedido à casa de Arão o sacerdócio. Assim como Cristo não se glorificou a si mesmo, antes foi Deus quem o honrou, ao estabelecê-Lo sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, contente-se com a posição superior que Deus te concedeu em Cristo: a condição de filho!

“E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão. Assim também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote” (Hb 5:4-5).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “3011 λειτουργος leitourgos de um derivado de 2992 e 2041; TDNT – 4:229,526; n m 1) ministério público, empregado do estado 2) ministro, empregado 2a) assim de trabalhadores militares 2b) do templo 2b1) de alguém ocupado com coisas santas 2b2) de um sacerdote 2c) dos servos de um rei”, Dicionário Bíblico Strong.




O Livro de Jó – Prefácio

Em função da verdade incrustada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!


Livro de Jó: Objetivo

Parte I

Prefácio

O Livro de Jó compõe o Cânon sagrado, juntamente com os Livros de Provérbios e de Eclesiastes, conjunto que se nomeia Livros de Sabedoria.

Do ponto de vista literário muitos autores classificam o Livro de Jó como drama e, em função dos diálogos, monólogos, provérbios e ditados que contém, interpretam o livro do ponto de vista das experiências humanas.

Não se pode negar que o Livro de Jó é de riqueza incalculável do ponto de vista literário, mas, também, pelo seu valor como poesia, sem falar do seu conteúdo histórico. Entretanto, o tesouro que há no Livro de Jó não é de ordem literária, filosófica, histórica, sociológica e nem psicológica.

A finalidade deste ensaio é trazer a lume uma questão que passa despercebida por muitos leitores do Livro de Jó:

– “Como o pecador pode ser justo diante de Deus?”

Na sua grande maioria, os livros e estudos acerca do Livro de Jó, destaca o sofrimento do patriarca, o que fomenta inúmeras discussões de viés filosófico, antropológico e, até mesmo, ontológico.

Poucos se apercebem de que a temática do Livro de Jó não é o sofrimento. Poucos conseguem visualizar, que o conteúdo do Livro de Jó dá corpo a uma parábola, através de uma história enigmática e que demanda interpretação.

O Livro de Jó funciona como um espelho, ao refletir que a justiça do homem mais íntegro que já viveu, está aquém da justiça de Deus. A integridade de Jó estabelece um contraste que evidencia a justiça de Deus, de modo que o sofrimento torna-se mero pano de fundo para revelar uma verdade imprescindível ao homem.

A finalidade deste ensaio, não necessariamente nesta ordem, é:

  • Evidenciar a justiça de Deus, em contraste com as qualidades de Jó;
  • Identificar o motivo pelo qual Jó foi escolhido como protagonista dessa história;
  • Trazer a lume o papel desempenhado pelos amigos de Jó e a visão superficial que tinham da justiça de Deus;
  • Extrair alguns elementos pertinentes à atuação de Satanás e como se dá a sua investida contra os servos de Deus;
  • Demonstrar a superioridade do conhecimento de Eliú, em relação aos outros amigos de Jó;
  • Explicar a diferença entre a Justiça Divina e a “justiça” humana;
  • Esclarecer os motivos pelos quais Jó foi repreendido por Deus e qual a lição que precisamos aprender, através da vida do seu servo!

Em função da verdade incrustrada nas páginas desse livro tão magnifico, esta é a minha oração: que o Senhor continue a se revelar, através da pessoa bendita do seu Filho Jesus Cristo, e que possamos compreender plenamente o seu propósito e graça, pois, o que de Deus se pode conhecer, já foi revelado em graça e bondade, através da manifestação em carne de Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!

 

Notas do autor.

 

Qual o objetivo do livro de Jó?

 

O livro

O Livro de Jó é classificado como poético, assim como, os cinco Livros dos Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão e Lamentações. Os eruditos classificam, também, o Livro de Jó como Livro de Sabedoria, assim como o Livro de Provérbios e de Eclesiastes.

Por que classificam o Livro de Jó como poético e de sabedoria? Por causa da estrutura dos diálogos entre Jó e seus amigos, construída através de muitos ‘paralelismos’.

Por paralelismo, o que dá sustentabilidade à poesia hebraica, temos a valoração do pensamento, através da ênfase, da repetição, do contraste e da elaboração de ideias, sem levar em conta elementos como ritmos, rimas e métricas, elementos essenciais às poesias ocidentais.

Como a estrutura da poesia hebraica repousa no desenvolvimento de ideias, a tradução do texto para outras línguas permite que se tenha maior precisão e preservação da ideia do texto, o que não ocorre nas poesias ocidentais pela impossibilidade de se transpor ritmo, rima e métrica para qualquer tradução.

O poema ‘Canção do exílio’, de Gonçalves Dias, por exemplo, é primoroso pelo ritmo, rima e métrica, de modo que a melodia, pelo encadeamento do ritmo, como a rima, permite descrever a beleza da terra do autor com leveza ímpar, do ponto de vista patriótico e nacionalista.

Observe:

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá”.

Dias, Gonçalves, Canção do exílio, De Primeiros cantos (1847).

A versão em Inglês, fica assim:

“My land has palm trees
Where the thrush sings.
The birds that sing here
Do not sing as they do there”

O ritmo e a rima que dá graciosidade ao texto se perdem na tradução e somente as expressões figurativas permanecem intocadas.

Já, o paralelismo, a base da poesia hebraica, trabalha analogias através de comparações, de modo a fazer com que o leitor conclua uma ideia por deduções simples, induzidas por figuras de linguagem, como personificações, hipérboles, metáforas, símiles e aliterações.

Destacamos alguns tipos de paralelismos importantes para exemplificar:

O paralelismo sintético (ou, formal, construtivo) trabalha um pensamento na primeira linha do poema e a segunda linha desenvolve e enriquece a ideia que está na primeira linha, que compõe a estrofe, através de uma relação de causa e efeito. Observe:

“Os céus declaram a glória de Deus e

o firmamento anuncia a obra das suas mãos”  (Salmo 19:1)

O paralelismo sintético divide-se em outros três, a saber:

  1. Conclusão: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião” (Salmos 2:6);
  2. Comparação: “É melhor confiar no SENHOR, do que confiar nos príncipes” (Salmos 118:9) e;
  3. Razão: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Salmos 2:12).

Por outro lado, o paralelismo antitético trabalha um pensamento em duas linhas, através da oposição de ideias, onde a segunda linha do poema expressa uma ideia oposta à ideia da primeira linha:

“Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos;

porém o caminho dos ímpios perecerá” (Salmos 1:6)

Já, o paralelismo sinonímico trabalha uma ideia expressa duas vezes, com termos diferentes, em duas linhas:

“Levanta o pobre do pó e

do monturo levanta o necessitado” (Salmos 113:7)

Ter domínio das peculiaridades do paralelismo, na composição da poesia hebraica, muito auxilia na leitura e na análise do Livro de Jó.

O Livro de Jó, também, é classificado como Livro de Sabedoria, porque os eruditos entendem que o livro trata de questões práticas, pertinentes à existência humana, tais como fatalismo, materialismo, espiritualidade, sofrimento, moralidade, etc.

Outra questão acadêmica que orbita o Livro de Jó, é acerca da sua autoria e possível data em que foi escrito. Não há uma resposta segura para ambos e quando se parte para o campo das especulações, sobram opiniões! Aqui não opinaremos.

O significado do nome ‘Jó’, do hebraico בוֹיּאּ, transliterado “Iyyõb”, provavelmente, deriva de uma raiz que significa ‘voltar’ ou, ‘arrepender-se’ ou, o ‘perseguido’, do hebraico ‘ãyeb’.

Podemos traçar o seguinte esboço do Livro de Jó:

  1. Jó é provado e o sofrimento passa a ser o pano de fundo da história: (Jó 1:1 a 2:13);
  2. Três amigos de Jó procuram confortá-lo, porém, diante da reclamação de Jó, inicia-se um ciclo de discursos, em defesa de Deus, apontando a condição de Jó como resultado dos seus erros (Jó 3:1 a 31:40);
    1. Lamentação de Jó (Jó 3:1-26);
    2. Posicionamento de Elifaz (Jó 4:1 a 5:27) e réplica de Jó (Jó 6:1 a 7:21);
    3. Posicionamento de Bildade (Jó 8:1-22) e réplica de Jó (Jó 9:1 a 10:22);
    4. Posicionamento de Zofar (Jó 11:1-20) e réplica de Jó (Jó 12:1 a 14:22).
    5. Posicionamento de Elifaz (Jó 15:1-35) e réplica de Jó (Jó 16:1 a 17:16);
    6. Posicionamento de Bildade (Jó 18:1-21) e réplica de Jó (Jó 19:1-29);
    7. Posicionamento de Zofar (Jó 20:1-29) e réplica de Jó (Jó 21:1-34).
    8. Posicionamento de Elifaz (Jó 22:1-30)  e  réplica de Jó (Jó 23:1 a 24:25);
    9. Posicionamento de Bildade (Jó 25:1-6) e réplica de Jó (Jó 26:1 a 31:40).
  3. Exposição de Eliú (Jó 32:1 a 37:24);
  4. Perguntas de Deus (Jó 38:1 a 42:6);
  5. Epílogo (Jó 42:7-17).

Por que o justo sofre?

Ao pesquisar vários livros e comentários sobre o livro de Jó, as considerações sempre orbitam o sofrimento e, quase unanimemente, dão como tema do livro o sofrimento do justo[1].

Os comentaristas, geralmente, destacam, em letras garrafais, a seguinte pergunta:

“Por que o justo sofre?”

As considerações dos eruditos, que giram sobre o sofrimento, são diversas e, dentre elas, destacamos as principais:

  • Deus permitiu o sofrimento de Jó para justificar-se diante da acusação de Satanás;
  • A providência e o governo ético de Deus frente ao problema do sofrimento de um homem justo;
  • Deus permite o sofrimento do justo como meio de purifica-lo[2];
  • A mente do homem é muito ínfima, para que possa entender os motivos de Deus no sofrimento do justo;
  • Deus tinha plena confiança de que Jó sairia da provação, plenamente aprovado;
  • Deus derrotou Satanás, através do sofrimento de Jó;
  • Jó foi o homem mais integro que atendeu aos altos reclames da justiça divina, etc.

Se o tema do Livro de Jó é o sofrimento do justo[3], por inferência, se faz necessário concluir que o sofrimento do ímpio é plenamente aceitável. Através da leitura do Livro de Jó, somos levados a entender que o ímpio deve sofrer?

Ao estudar o Livro de Jó, desconsiderei as abordagens teóricas que constam das Bíblias de Estudos e dos livros de teologia. Li e reli diversas vezes o Livro de Jó, para chegar à seguinte conclusão: é impossível achar no Livro de Jó uma resposta para o sofrimento do justo, vez que o sofrimento ou, a problemática dos infortúnios que acometem o justo, não é o tema do livro.

Apesar do consenso entre os acadêmicos de que o sofrimento do justo é o tema do Livro de Jó, não há uma resposta plausível que apresente o motivo[4], ou que dê resposta à pergunta: – ‘Por que o justo sofre?’[5].

Na verdade, o Livro de Jó não busca dar uma resposta à questão do sofrimento dos justos e nem foi escrito com o fito de apresentar uma teoria geral do sofrimento da humanidade[6].

O mote do Livro de Jó é pedagógico e o sofrimento é somente o pano de fundo, pois o tema do livro decorre de uma verdade imprescindível ao homem: a justiça do homem está aquém da justiça de Deus.

O propósito do livro é revelar uma verdade superior à ideia da problemática do sofrimento: como se dá a justificação do homem. O sofrimento é um dos elementos que fomentou os questionamentos, acerca da justiça de Deus e de que modo o homem poderia ser justo diante d’Ele.

Caro leitor, não quero desestimular a leitura do Livro de Jó, como um geólogo que desencoraja um visionário a não procurar petróleo em um terreno onde se suspeita que não haja o precioso ouro negro, mas deixa de avisar que há diamantes de grande valor naquela terra.

O nosso objetivo é que o leitor encontre a essência do Livro de Jó e, para isso, é necessário que o objeto seja substituído, para que o leitor tenha como encontrar o grande tesouro incrustado nessa história.

O leitor da Bíblia já observou que a história de Jó descreve alguém que sobrepuja qualquer ideário humano de justiça? Que a conduta, o caráter, a honradez e as práticas de Jó, estão muito além das nossas práticas cotidianas de justiça?

Ora, se Jó, de posse de um caráter que, a nosso ver, beira a perfeição; se as ações cotidianas do patriarca testemunhavam a favor da sua retidão e integridade[7] e; se Jó, ao ver o Criador, sentiu-se abominável e arrependido, imagine se eu ou você contemplássemos a Deus?

“Com os ouvidos eu ouvira falar de ti, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:5-6).

Após abrir mão de considerar o sofrimento dos justos como tema do Livro de Jó, fiquei sem um norte. Fez-se necessário fincar uma estaca, marcando um ponto ‘zero’, e voltar às minhas considerações e à releitura do livro, considerando os demais livros da Bíblia. Foi quando me deparei com o seguinte verso:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança”. (Romanos 15:4)

Se tudo o que foi escrito, anteriormente, tem o objetivo de nos ensinar, o que Deus quer ensinar, através do Livro de Jó? O que há no livro de Jó, que nos concede esperança? Há ‘paciência’ e ‘consolação’ na história de Jó?

Tive que retornar aos evangelhos, às epístolas, aos profetas e à lei e, se o leitor deseja desvendar o objetivo do Livro de Jó, venha comigo. É essencial uma digressão[8] para compreender o ensinamento que está incrustado na trama de Jó, da mesma forma que é necessário garimpar o ouro oculto nas rochas, no seio da terra.

 

O mal debaixo do Sol

Não encontraremos, na Bíblia, uma resposta à pergunta: – ‘Porque o justo sofre?’, no entanto, ela nos informa que há um mal, em relação a tudo o que se faz debaixo do sol: tudo sucede, de igual forma, a todos!

“Tudo sucede, igualmente, a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica, como ao que não sacrifica; assim, ao bom, como ao pecador; ao que jura, como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo (Eclesiastes 9:2-3).

O Pregador aponta que há um mal em tudo o que se faz neste mundo: tudo sucede, igualmente, a todos. Os eventos neste mundo, quer sejam bons, quer sejam maus, não tem preferência em atingir a justos ou ímpios!

Se, somente, os justos sofressem, haveria motivo para indagar acerca do sofrimento dos justos. Semelhantemente, se tão somente os ímpios sofressem[9], poderíamos dissertar a respeito. Mas, como tudo sucede, igualmente, a todos, um mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol, torna-se evidente que não há motivo para questionar o sofrimento, quando acomete os justos.

Mesmo os justos, tropeçam em muitas coisas (Tg 3:2) e se queixam dos seus próprios erros (Lm 3:39). O trabalho e a dor são pertinentes ao mundo dos homens, para exercitá-los, portanto, não há motivo para questionar acerca do sofrimento dos justos. “Tenho visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitar” (Ec 3:10;  Gn 3:17).

O Pregador dá um conselho aos homens, quer sejam justos, quer ímpios, e apresenta o motivo pelo qual há o dia da adversidade: para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas, no dia da adversidade, considera; porque, também, Deus fez a este, em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” (Ec 7:14).

Continua…

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Essa resposta chega de forma tríplice: Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do onipotente”. Archer, Gleason L., Merece confiança o Antigo Testamento? Traduzido por Gordon Chown. – São Paulo: Edições Vida Nova, Reimpressões 1998. Pág. 407.

[2] “Deus, por meio do sofrimento, pode levar o pecador à conversão e à salvação”. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri – SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000. Pág. 549.

[3] “O livro de Jó é uma obra-prima da literatura sapiencial. É uma dramática ficção histórica sobre o homem justo, sempre fiel às leis e tradições. O autor ou, autores, entrelaçam prosas e poemas, com os mais variados temas teológicos e sociais, como o sofrimento humano, a transformação  humana e social, o  bem e  o mal, a doutrina da retribuição, entre outros”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014 (Nota de rodapé), pg. 628.

[4] “O assunto do livro tem sido dado como ‘O problema do sofrimento, A relação entre o sofrimento e o pecado, ou Quais são as leis governo moral de Deus no mundo?’ Tudo isso é discutido de vários pontos de vista; e, mediante a discussão, somos levados a uma compreensão mais sábia destes perpétuos mistérios; mas, o livro termina sem que o problema tenha sido resolvido”. McNair, S. E. A Bíblia explicada, 4ª Edição, RJ: CPAD, 1983. Pág. 167 (Citação de Scroggie).

[5] “Existe apenas uma questão que realmente importa: Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? (…) Trata-se de um livro de difícil compreensão, um livro profundo e belo sobre o mais profundo dos temas, o problema do sofrimento dos bons”. Kushner, Harold S. “Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”, tradução Francisco de Castro Azevedo. – São Paulo: Nobel, 1988.  Págs. 15 e 38.

[6] “O assunto do livro é a providência e o governo ético de Deus à luz do muito antigo problema do sofrimento de um homem justo. Para esse problema, nem Jó se justificando, nem os seus três amigos acusando-o de pecado, encontraram a solução”. Scofield, C. I., Bíblia de Scofield, com referências (Nota de rodapé).

[7] Integridade – significa que Jó era honrado; integro no sentido de ‘completo’, resignado a não violar o que era de direito do outro.

[8] Em Literatura, digressão é um recurso utilizado pelo narrador, a fim de afastar a atenção sobre alguma ação da história principal. Dessa forma, o narrador pode iniciar um tema secundário pouco importante para a trama ou, refletir sobre um assunto que foge da narrativa principal.

[9] “Transcendendo o drama humano, centra-se o Livro de Jó nesta pergunta: ‘Por que sofre o justo?’ Que o pecador sofra, todos entendemos! Mas o justo? Aquele que tudo faz por agradar a Deus?” Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito., Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2ª Edição, 2003, pág. 14.




Temor e tremor

Como é possível ao homem operar a salvação? Com temor e tremor, ou seja, o homem opera a salvação obedecendo (tremor) a palavra do Senhor (temor).


Temor e tremor

“E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Ex 20:20 )

Temer ou não temer, eis a questão!

O profeta Moisés alertou o povo dizendo: Não temais ( Ex 20:20 ), porém, em Levítico ele reitera para que tivessem temor do Senhor: “Não te assenhorearás dele com rigor, mas do teu Deus terás temor” ( Lv 25:43 ).

Outro ponto intrigante é a recomendação do apóstolo Paulo: “De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor” ( Fl 2:12 ).

Para alguns, este é um caso de contradição. Outros tentam explicar a passagem como sendo uma contradição aparente, ou simplesmente nomeiam de paradoxo. Mas, o que a Bíblia tem a dizer? Seria somente um problema de semântica e etimologia?

 

O Amor lança fora o medo

Uma coisa é certa no alerta que Moisés fez ao povo de Israel: Deus não se relaciona com as suas criaturas através do medo “Não temais” ( Ex 20:20 ). A relação que Deus sempre procurou estabelecer com as suas criaturas pauta-se pela confiança.

Por que as criaturas de Deus devem confiar? Porque Deus é fiel e justo, atributos basilar para se estabelecer uma relação de confiança ( 1Jo 1:9 ).

Além de fiel, justo e imutável, Deus se relaciona com criaturas livres, pois onde o Espírito do Senhor está, aí há liberdade ( 2Co 3:17 ).

Nenhuma das criaturas de Deus deve temê-Lo, pois Deus ama indistintamente as suas criaturas, e o amor lança fora o medo “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” ( 1Jo 4:18 ).

Ora, Deus é amor, e em Deus não há medo, receio, temor, antes o perfeito amor lança fora o temor. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele ( 1Jo 4:16 ). Quem está em Deus é porque confia n’Ele ( 1Jo 4:16 ).

Qualquer que tem medo teme somente a pena, pois o medo não procede de Deus. O que procede de Deus é a confiança, pois ele é fiel, verdadeiro, justo, santo, imutável, amor, luz, etc. Deus não pode ser tentado com o mal, e a ninguém tenta ( Tg 1:13 ), portanto, o medo não procede de Deus.

Qualquer que tem medo é porque não é ‘perfeito’ em Deus, ou seja, não ‘conhece’ a Deus, não crê em Deus e não está em Deus, pois se confiasse entenderia que, tal Cristo é, são os que creem aqui neste mundo ( 1Jo 4:15 -18).

Mesmo que o Senhor venha para provar, o homem deve confiar n’Ele, pois assim o Senhor recomenda por intermédio do seu profeta: “Não temais, Deus veio para vos provar…” ( Ex 20:20 ). Aquele que se relaciona através do amor, da justiça, da fidelidade, da imutabilidade jamais despertará nas suas criaturas o medo, antes trará confiança e descanso.

O Temor do Senhor

Mas, se o homem não deve ter medo de Deus, que ‘temor’ é necessário ter de Deus? ( Lv 25:43 ) O que é operar a salvação com temor e tremor?

Parte da resposta encontra-se na palavra anunciada por Moisés: o homem não pode ter medo de Deus, mesmo quando Ele vem prová-lo, porque é essencial que o ‘temor’ de Deus esteja perante o homem, para que ele não venha a pecar contra Deus.

Como? O homem não pode ter medo, mas tem que ter o alardeado ‘temor’ reverente? Isto não seria outro nome para o medo, ou para a falta de confiança?

Para uma interpretação correta, devemos iniciar a análise com o motivo apontado como essencial para se ‘temer’ ao Senhor: “… afim de que não pequeis” ( Ex 20:20 ).

Há outro homem de Deus que disse algo semelhante: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 ). Quando se compara a meditação de Davi com o alerta de Moisés, chega-se à seguinte conclusão: o ‘temor’ de Deus é a Palavra de Deus!

  • “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 );
  • “… e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Ex 20:20 ).

O que era válido para Davi é válido para todos os homens: para não pecar, somente a ação da palavra de Deus no coração do homem!

Em vários textos bíblicos a palavra ‘temor’ foi utilizada para fazer referência à palavra de Deus. Ao observar o contexto bíblico onde Moisés alertou o povo de Israel para não ter medo de Deus é possível perceber que o profeta se referiu à palavra de Deus como sendo o ‘temor’ do Senhor.

Deus queria que o povo ouvisse quando Ele falasse com Moisés para que pudessem crer n’Ele ( Ex 19:9 ), mas ao ver que o monte Sinai fumegava e tremia grandemente, o povo teve medo de Deus e não quiseram ouvir a sua voz ( Ex 20:19 ). Foi quando Moisés alertou-os: “Não temais, Deus veio para vos provar…” ( Ex 20:20 ).

O que Deus se propôs fazer que o povo de Israel não podia temer? Pelo texto fica claro que Deus somente queria lhes falar, e a palavra do Senhor tinha o fito de que cressem n’Ele, ou seja, para que não pecassem contra o Senhor ( Ex 19:9 ; Ex 20:20 ).

A Bíblia define que o ‘temor’ do Senhor é o princípio da sabedoria “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria…” ( Pv 1:7 e Pv 9:10 ).

O salmista Davi fez a mesma declaração: “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; bom entendimento tem todos os que cumprem os seus mandamentos; o seu louvor permanece para sempre” ( Sl 111:10 ).

Como é de conhecimento comum, a poesia hebraica trabalha com paralelismo, ou rima de ideias em lugar de rimas de sons. A maioria dos paralelismos é dística, ou seja, expressam pensamentos sinônimos em cada linha. Outros são antíteses de ideias, pois a segunda linha da poesia expressa a negativa da linha precedente. Há também os paralelismos dísticos construtivos ou sintéticos, pois fortalecem um pensamento.

Há vários tipos de paralelismos, mas este não é o foco deste artigo. Se tomarmos o Salmo 111, verso 10, é possível verificar que se trata de um tipo de paralelismo dístico. A ideia que a frase: ‘O temor do Senhor é o princípio da sabedoria’, procura transmitir é a mesma ideia proposta na frase: ‘Bom entendimento tem todos os que cumprem os seus mandamentos’, ou na frase: ‘O seu louvor permanece para sempre’.

Crer na palavra é a obra sobre excelente de Deus ( Jo 6:29 ). É da sua palavra que procede o verdadeiro louvor que dura para sempre “Então creram nas suas palavras, e cantaram os seus louvores” ( Sl 106:12 ); “Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo” ( Ef 1:12 ). Todos que creem (esperam em Cristo), são novas criaturas criadas para louvor da glória de Deus.

O temor do Senhor é o princípio da sabedoria porque Cristo é a sabedoria de Deus, o verbo de Deus, a palavra encarnada “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” ( 1Co 1:30 ).

Cristo é a fonte de água que jorra para a vida eterna, e quem n’Ele crê, ainda que esteja morto, obtém vida. Quando lemos que o temor do Senhor é fonte de vida e que livra o homem das amarras da morte, isto significa que Cristo livra o homem do pecado “O temor do SENHOR é fonte de vida, para desviar dos laços da morte” ( Pv 14:27 ).

Somente Cristo tem poder de perdoar pecado, pois Ele é a misericórdia e a verdade de Deus demonstrada aos homens. Somente o Verbo encarnado desvia os homens do pecado “Pela misericórdia e verdade a iniquidade é perdoada, e pelo temor do SENHOR os homens se desviam do pecado” ( Pv 16:6 ).

Novamente o salmista utiliza o paralelismo dístico neste verso: “Confirma a tua palavra ao teu servo, que é dedicado ao teu temor” ( Sl 119:38 ), para estabelecer a relação ‘palavra’ e ‘temor’. O salmista aguardava que Deus confirmasse a sua promessa, pois era dedicado à sua palavra. A relação temor, palavra e juízo estão intimamente ligados “O temor do SENHOR é limpo, e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” ( Sl 19:9 ).

Quando Salomão disse: “No temor do SENHOR há firme confiança e ele será um refúgio para seus filhos” ( Pv 14:26 ), ele também fez uso da palavra ‘temor’ para demonstrar a imutabilidade da palavra de Deus. O homem deve confiar na palavra do Senhor, pois ela é firme, imutável. É na palavra do Senhor que os que creem se refugiam ( Hb 6:18 compare com Pv 14:26 ).

Quando lemos: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ), vemos o salmista fazendo um convite solene para que o ouvissem, pois seria ensinado a palavra do Senhor. Do mesmo modo, o salmista queria que o Senhor lhe ensinasse, pois o caminho do Senhor é a verdade da palavra de Deus. Cristo é o caminho, e todos que creem andam n’Ele “Ensina-me, SENHOR, o teu caminho, e andarei na tua verdade; une o meu coração ao temor do teu nome” ( Sl 86:11 ; Jo 14:6 ).

Jesus é o caminho, a verdade e a vida, ou seja, Ele é o temor do Senhor. Quando o salmista ora pedindo: “Une o meu coração ao temor do teu nome” ( Sl 86:11 ), Ele ora para que Deus lhe conceda ser um com a palavra da verdade ( Sl 119:11 ; Pv 4:4 ).

O profeta Isaías ao falar do Messias prometido anunciou: “E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR” ( Is 11:2 ). O Espírito do Senhor, que também é Espírito de sabedoria e entendimento, Espírito de conselho e fortaleza, Espírito de conhecimento e de temor, repousou sobre o Messias. Deste modo fica demonstrado que, o temor do Senhor é o mesmo que a palavra do Senhor.

Porém, há aqueles que querem se aproximar de Deus com um ‘temor’ espúrio, como era o caso do povo de Israel “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

 

Treme terra

Se o temor do Senhor é o mesmo que a Sua palavra, o que é tremor? “Adorai ao SENHOR na beleza da santidade; tremei diante dele toda a terra” ( Sl 96:9 ); “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” ( Sl 2:11 ).

O que o apóstolo Paulo quis dizer com: ‘… operai a vossa salvação com temor e tremor’? ( Fl 2:12 ) De onde o apóstolo Paulo tirou esta linguagem? Provavelmente das Escrituras, como se lê: “Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro” ( Is 8:13 ).

Como se santificar ao Senhor dos Exércitos? Sendo Ele o temor e o assombro, ou melhor, temor e tremor!

Como é possível ao homem operar a salvação? Com temor e tremor, ou seja, o homem opera a salvação obedecendo (tremor) a palavra do Senhor (temor).

O homem serve ao Senhor através da sua palavra (temor), e em obedecê-lo (tremor) há bem-aventurança (alegria) “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra. Vossos irmãos, que vos odeiam e que para longe vos lançam por amor do meu nome, dizem: Seja glorificado o SENHOR, para que vejamos a vossa alegria; mas eles serão confundidos” ( Is 66:5 ; Sl 2:11 ).

Novamente as palavras ‘temor’ e ‘tremor’ são utilizadas para descrever respectivamente a ‘palavra do Senhor’ e ‘obediência’ “Minha aliança com ele foi de vida e de paz, e eu lhas dei para que temesse; então temeu-me, e assombrou-se por causa do meu nome” ( Ml 2:5 ).

 

Temer não é ter medo

Após este pequeno estudo é possível deixar claro que a palavra de Deus não possui contradição alguma. Que em temor e tremor não há paradoxo algum.

Temor e tremor não coadunam com as perspectivas filosóficas que há no mundo, pois a palavra de Deus somente se discerne espiritualmente.

Mas, como discernir ‘espiritualmente’ a palavra de Deus? O apóstolo Paulo demonstra que é necessário comparar ‘coisas espirituais com as espirituais’, ou seja, para discernir o ‘temor’ do Senhor conforme o recomendado pelo apóstolo Paulo, ‘espiritualmente’, basta comparar o Pentateuco com os Salmos, Provérbios com os Profetas, os Profetas com os Evangelhos, os Salmos com as cartas do Novo Testamento, Antigo Testamento com o Novo Testamento, pois a palavra de Deus se auto-explica ( 1Co 2:13 ).

Nunca se deve interpreta a Bíblia a partir de experiências pessoais. Jamais a angustia, a desilusão, o medo e o tremor do homem devem ser utilizados como base para se analisar a palavra de Deus.

Crer em Deus não é um ‘salto de fé’, não é um ‘comprometimento com o absurdo’. Ora, tal posicionamento demonstra que se desconhece a natureza da fé.

O escritor aos Hebreus diz exatamente o contrário: “ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem” ( Hb 11:1 ). O salto de fé é inconsistente, pois a fé é o firme fundamento daquilo que se espera. A fé é prova cabal do que não se vê.

A fé não é o mesmo que crença. A fé refere-se à promessa de Deus. Fé é o mesmo que ‘temor’, pois, por meio da fé, que é dom de Deus, os antigos alcançaram testemunho ( Jd 1:3 ; Gl 3:23 ).

Por intermédio de quem Abraão alcançou bom testemunho? Não foi por causa do Descendente, que é Cristo? Cristo não é a fé que havia de se manifestar? Ou seja, os antigos alcançaram bom testemunho por meio do Descendente, a fé que havia de se manifestar.

Quando Judas concita os cristãos a batalhar pela fé, ele tinha em mente a verdade do evangelho, o temor do Senhor ( Jd 1:3). Da mesma forma a fé foi primeiramente anunciada a Abraão, quando Deus disse: “Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ), pois somente com a vinda do Descendente, que é Cristo, a fé foi manifesta aos homens ( Gl 3:16 e Gl 3:23 ).

A fé, o temor, o evangelho identificam-se com a pessoa do Cristo, e, portanto, a fé que foi manifesta aos homens é firme, inabalável, âncora da alma, verdadeira, etc.

O pressuposto de que a fé é impossível se houver provas e certezas e inconcebível. Admitir que há riscos na fé é inaceitável! A concepção que demonstra não haver necessidade de provas para que a pessoa possa crer e viver a fé não é bíblica.

A esperança proposta em Cristo é ancora da alma, ou seja, segura e firme, pois por duas coisas imutáveis Deus se interpôs com juramento: a) Deus é imutável, e; b) Deus não pode mentir ( Hb 6:18 ). De qual prova o homem necessita? Onde há segurança maior?

A filosofia existencialista de Soren Kierkegaard não soube distinguir a verdadeira natureza da fé na obra ‘Temor e tremor’. Quando Abraão ofereceu o seu filho em sacrifício, segundo a ordem divina, já havia recobrado em figura o seu filho dentre os mortos, pois teve por firme a palavra que diz: “Em Isaque será chamada a tua descendência” ( Hb 11:18 -19).

Através do temor do Senhor, que diz: ‘Em Isaque será chamada a tua descendência’, Abraão ‘tremeu’ e ofereceu Isaque em sacrifício “Ouvi a palavra do Senhor, vos que tremeis da sua palavra…” ( Is 66:5 ).




Salmo 96 – Como adorar o Senhor na beleza da sua santidade?

O cântico novo está atrelado à boca, à garganta, dos santos. Na no ajuntamento solene dos santos (assembleia) o tema é Cristo, o cântico novo ( Sl 149:1 ), pois os santos proclamam os altos louvores de Deus. Proclamar os altos louvores de Deus é o mesmo que empunhar a espada do espírito, que é a palavra de Cristo “Estejam na sua garganta os altos louvores de Deus, e espada de dois gumes nas suas mãos” ( Sl 149:6 ; Ef 6:17 ; Jo 6:63 ; Hb 4:12 ).


Introdução

O Salmo 96 também foi registrado no livro das Crônicas dos reis de Israel. No primeiro livro das Crônicas, no capítulo 16, os levitas trouxeram a Arca do Senhor que estivera sob o poder dos filisteus à cidade de Davi, e a colocaram em uma tenda que Davi havia erguido para aquela finalidade ( 1Cr 16:1 ).

Em seguida foi oferecido ao Senhor sacrifícios pacíficos e, ao final, Davi abençoou o povo em nome do Senhor. Para marcar o retorno da Arca do Senhor, naquele dia Davi distribuiu ao povo um pão, um bom pedaço de carne e um frasco de vinho ( 1Cr 16:2 ).

Davi também colocou alguns dos levitas perante a arca do Senhor por ministros com a função de recordarem, louvarem e festejarem ao Senhor. Ficou registrado nas Crônicas que Asafe era o chefe e Zacarias o segundo no ministério. Que Jeiel, Semiramote, Matitias, Eliabe, Benaia e Obede-Edom utilizavam alaúdes e harpas para falar ao povo, e Asafe, por sua vez, falava ao som de címbalos. Já os sacerdotes Benaia e Jaaziel continuamente tocavam trombetas perante a arca da aliança de Deus.

Davi entregou aos profetas salmos, sendo o Salmo 96 um dos que lhes foi entregue naquele dia “Então naquele mesmo dia Davi, em primeiro lugar, deu o seguinte salmo para que, pelo ministério de Asafe e de seus irmãos, louvassem ao SENHOR” ( 1Cr 16:7 ).

Como já relatamos, os salmos são profecias transformadas em poesias para serem cantadas ao som de instrumentos musicais para facilitar a memorização do povo de Israel, que na sua grande maioria à época não sabiam ler ( 1Cr 25:1 -9).

Também já demostramos pelas escrituras que os salmistas não compuseram os salmos com base em suas vidas terrenas, antes que os salmos tinham em vista o Messias, o Descendente prometido a Abraão – o Filho de Davi.

A poesia hebraica não privilegiava a rima e o ritmo, antes evidenciavam uma cadencia de pensamentos e ideias através de um recurso próprio denominado ‘paralelismo’.

 

Cânticos proféticos

Quando lemos: “Cantai ao SENHOR um cântico novo, cantai ao SENHOR toda a terra” (v. 1 ; Sl 98:1 ), é possível observar um convite para que os habitantes da terra entoem um cântico novo. Mas, como entoar um cântico novo? Qual é o cântico novo?

Ao falar do ‘cântico novo’, o Dr. Russell Shedd em um e-book disponível na web intitulado ‘Adoração Bíblica’ fez o seguinte comentário:

“O cântico deve ser novo, pois a adoração pode perder seu brilho se a ferrugem das ações de graça rotineiras não forem constantemente renovadas sob a orientação do Espírito. A repetição de frases milenares toma-se algo enfadonho. Uma novo cântico abre a visão da glória do paraíso (Ap 5.9). Temas desgastados pela repetição acabam como apontamentos de aula, transferidos da apostila do professor para o caderno do aluno, sem penetrar na mente de nenhum deles!” Shedd, P. Russeel, Adoração bíblica, Sociedade Religiosa Edições Vida Nova Copyright © 1987 – S.R. Edições Vida Nova.

O Dr. Russell enfatiza que o cântico deve ser novo, porém, não diz qual é o cântico novo. Como é possível a adoração ser passível de um ‘desgaste’? A adoração decorre de frases e temas que se desgastam com o tempo?

Ora, a adoração jamais perde o seu brilho, porque o cântico novo é proveniente de Deus, visto que a sua palavra se renova a cada manhã e permanece para sempre “Os teus estatutos têm sido os meus cânticos na casa da minha peregrinação” ( Sl 119:54 ; Sl 103:18 ); “Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cântico; então se dizia entre os gentios: Grandes coisas fez o SENHOR a estes” ( Sl 126:2 ).

O cântico novo não é fruto da imaginação e da inspiração da alma do homem, antes ele decorre das obras que Deus opera em prol do seu povo conforme a sua palavra. O Salmo 103 é um exemplo de cântico novo, pois nele são enumeradas todas as benesses que Deus faz para com o homem.

O homem deve cantar a Deus um cântico novo em função das suas maravilhas, e a maior maravilha está em Deus ter manifesto a sua destra, desnudando o seu santo braço aos homens ( Sl 98:1 ; Is 52:10 ). Cristo é o tema do novo cântico, pois Ele é o braço do Senhor desnudado perante todos os povos “Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação, e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão, e no meu braço esperarão ( Is 51:5 ).

Quando Isaías profetiza acerca de Cristo, o Servo do Senhor, temos o tema do cântico novo: “Cantai ao SENHOR um cântico novo, e o seu louvor desde a extremidade da terra…” ( Is 42:10 ), pois aonde se dizia: “Não há paz” ( Is 48:22 ), através de Cristo passou a ser anunciado: Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

É o Senhor Deus que cria o ‘novo cântico’, o novo cântico é o fruto dos lábios que professam a Cristo ( Hb 13:15 ), pois Cristo é a nossa paz “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ). Quem anuncia as boas novas de salvação em Cristo, canta um cântico novo “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!” ( Is 52:7 ).

Quem vê a Cristo e o teme, confiando n’Ele, tem um novo cântico posto na boca, um hino a Deus “E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão, e temerão, e confiarão no SENHOR” ( Sl 40:3 ). O hino que foi posto na boca do salmista diz de Cristo, pois Deus nunca foi visto por ninguém, mas o Filho revelou o Pai, de modo que todos os que nele creem veem a Deus “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” ( Jo 1:18 ; 1Jo 4:12 -14).

Ter um novo cântico na boca é o mesmo que ter a boca cheia de bens, pois a todos os que creem é dado poder para serem feitos filhos de Deus “Que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia” ( Sl 103:5 ; Jo 1:12 -13). Para que o homem seja feito filho de Deus, necessário é nascer de novo, ou seja, renovar as suas forças em Deus “Mas os que esperam no SENHOR renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão” ( Is 40:31 ).

O cântico novo está atrelado à boca, à garganta, dos santos. Na no ajuntamento solene dos santos (assembleia) o tema é Cristo, o cântico novo ( Sl 149:1 ), pois os santos proclamam os altos louvores de Deus. Proclamar os altos louvores de Deus é o mesmo que empunhar a espada do espírito, que é a palavra de Cristo “Estejam na sua garganta os altos louvores de Deus, e espada de dois gumes nas suas mãos” ( Sl 149:6 ; Ef 6:17 ; Jo 6:63 ; Hb 4:12 ).

Quando o Salmista convoca toda a terra para cantar um cântico novo, demonstra que a salvação de Deus tem por alvo todos os homens, ou seja, que a mensagem do evangelho não se restringe ao povo de Israel ( Jo 1:17 ). Se o cântico novo pode ser entoado por todas as gentes, isto significa que o cântico novo está intimamente ligado ao evangelho que fora anunciado primeiramente a Abraão: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ).

No que consiste cantar, bendizer ao Senhor? Cantar, bendizer, entoar um cântico novo é o mesmo que ‘anunciar a Salvação de Deus de dia em dia’, ou seja, proclamar o evangelho, produzir o fruto dos lábios ( Hb 13:15 ); “Cantai ao SENHOR, bendizei o seu nome; anunciai a sua salvação de dia em dia” (v. 2); “Tributai ao SENHOR a glória de seu nome; trazei presentes, e vinde perante ele; adorai ao SENHOR na beleza da sua santidade” ( 1Cr 16:29 ).

O que nos garante que ‘cantar’, ‘bendizer’ ou ‘entoar um cântico novo’ é o mesmo que ‘anunciar a salvação do Senhor’? O paralelismo da poesia hebraica nos garante, pois a estrofe: “Cantai ao SENHOR, bendizei o seu nome; anunciai a sua salvação de dia em dia”, contém dois casos específicos de paralelismo: 1) Sinônimo – a segunda frase repete o pensamento da primeira linha, e; 2) Sintético – a segunda frase completa ou aumenta o pensamento da primeira.

Quem canta, bendiz e vice versa, ou seja, quem canta, bendiz porque anuncia as boas novas do evangelho, que é salvação de Deus ( Rm 1:16 ).

Porque o salmista ordena que se anuncie entre as nações a glória do Senhor? “Anunciai entre as nações a sua glória; entre todos os povos as suas maravilhas” (v. 3). Por dois motivos: 1) “Porque grande é o SENHOR, e digno de louvor, mais temível do que todos os deuses” (v. 4), e; 2) “Porque todos os deuses dos povos são ídolos, mas o SENHOR fez os céus” (v. 5).

Qual é a glória do Senhor? Ora, a Bíblia demonstra que a glória de Deus é Cristo “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” ( Hb 1:3 ).

Quais são as maravilhas de Deus? A salvação da humanidade! Enquanto os deuses dos povos são ídolos, o Senhor descrito pelo salmista é grande e digno de louvor. Ora, sabemos que Cristo é o Senhor, digno de louvor, pois foi Ele quem fez os céus e a terra e tudo que nela há “NO princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” ( Jo 1:1 -3); “Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros. E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão” ( Hb 1:8 -12).

O salmista descreve o Messias pleno de glória e majestade, pleno de poder e de formosura em sua habitação. Diante de tamanho esplendor, o salmista ordena às famílias da terra a se rederem ao Senhor, ou seja, ‘tributa-se gloria e força ao Senhor’ quando o homem se render ao Senhor. É o mesmo que dizer: “Digna-te em salvar-nos”! “Glória e majestade estão ante a sua face, força e formosura no seu santuário. Dai ao SENHOR, ó famílias dos povos, dai ao SENHOR glória e força” (v. 6 e 7; Sl 40:13 ).

Quando o salmista convoca os homens à ‘dar glória ao Senhor’, não quer dizer que o homem é capaz de acrescentar glória Àquele que é pleno de glória. Deus não carece de glória e reconhecimento, antes, quando o homem reconhece que necessita de Deus, está ‘tributando’ glória a Deus, pois é neste momento que Deus realiza a sua obra “Digna-te, SENHOR, livrar-me: SENHOR, apressa-te em meu auxílio” ( Sl 40:13 ); “Dai ao SENHOR a glória devida ao seu nome; trazei oferenda, e entrai nos seus átrios” (v. 8 ; Jo 6:29 ; Sl 145:10 ; Ef 1:12 ).

É Deus que estabeleceu a sua glória ao resgatar das trevas homens que são transportados para o reino do Filho do seu amor. Somente após Deus arrancar o homem do charco de lodo é que Deus coloca na boca um novo cântico “Tirou-me dum lago horrível, dum charco de lodo, pôs os meus pés sobre uma rocha, firmou os meus passos. E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão, e temerão, e confiarão no SENHOR” ( Sl 40:2 -3).

Como adorar o Senhor na beleza da sua santidade? A resposta vem a seguir: tremendo diante d’Ele, ou seja, obedecendo ao Senhor “Adorai ao SENHOR na beleza da santidade; tremei diante dele toda a terra” (v. 9) “Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro” ( Is 8:13 ); “Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor” ( Sl 2:11 ); “De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor” ( Fl 2:12 ).

É equivocada a ideia de que Deus inspira medo, terror, em suas criaturas “Sua grandeza inspira temor. Quem teria coragem de aproximar-se de um Ser de tamanha importância?!”  (Idem). Em primeiro lugar, Deus não aterroriza as suas criaturas; Em segundo lugar, é impossível ao homem aproximar-se de Deus, mesmo com coragem, porque é Deus que se aproximou do homem ao enviar o mediador, Jesus Cristo homem.

A palavra de Deus é o temor, e obedecer à palavra é tremor, como se lê: “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra. Vossos irmãos, que vos odeiam e que para longe vos lançam por amor do meu nome, dizem: Seja glorificado o SENHOR, para que vejamos a vossa alegria; mas eles serão confundidos” ( Is 66:5 ). Cristo é o temor do Senhor, pois Ele é a encarnação do Verbo, e todos os que O obedecem adoram-No na beleza da sua santidade “ORA, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus” ( 2Co 7:1 ); “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ).

Quando o apóstolo Pedro ordena que os cristãos santifique o Senhor em seus corações, ele fez referencia a Cristo, pois Cristo é a pedra que os edificadores rejeitaram “Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro. Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém. E muitos entre eles tropeçarão, e cairão, e serão quebrantados, e enlaçados, e presos” ( Is 8:13 ; 1Pe 3:15 ).

Profeticamente o salmista ordena aos povos que adorem a Cristo, pois Ele é Senhor sobre a terra e o céu, pois Davi O chama de Senhor “Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?” ( Mt 22:45 ; Sl 110:1 ).

O salmista é claro: é necessário anunciar às nações que Jesus é rei e reina, pois o seu reino foi estabelecido em justiça e verdade “Dizei entre os gentios que o SENHOR reina. O mundo também se firmará para que se não abale; julgará os povos com retidão” (v. 10). Foi Ele quem fundou a terra, de modo que ela não vacilará. Do mesmo modo que a terra não vacila porque Ele a sustem, Ele reinará e julgará os povos com retidão ( Is 32:1 ; Lc 1:33 ).

Em seguida o salmista conclama aos seus que se alegrem pelo regozijo estabelecido sobre a terra. Há alegria nos céus por um pecador que se arrepende! Toda a criação geme na expectativa da aparição dos filhos de Deus! “Alegrem-se os céus, e regozije-se a terra; brame o mar e a sua plenitude” (v. 11 ; Rm 8:18 ; Lc 15:10 ).

Quando o salmista ordena, dizendo: “Alegre-se o campo com tudo o que há nele” (v. 12), ele fala por enigmas, pois o campo é o mundo, e tudo que nele há refere-se aos povos. Aqueles que buscam a salvação do Senhor se regozijarão, pois tornar-se-á plantação do Senhor, árvores de justiça.

Na presença do senhor há abundância de alegria, por isso é que o salmista manda os povos jubilarem ante a face de Cristo, pois é certo que Ele virá e julgará os povos “Ante a face do SENHOR, porque vem, porque vem a julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos com a sua verdade” (v. 13; Mt 25:31 -34).

O resplendor de Deus se vê na face de Cristo, pois Ele é o sol nascente das alturas por quem os homens são salvos “Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” ( Sl 80:3 ); “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ).

 

Adorando na beleza da Santidade

Cantar ao Senhor e celebrar a santidade do Senhor só é possível aos santos “Cantai ao SENHOR, vós que sois seus santos, e celebrai a memória da sua santidade” ( Sl 30:4 ).

A adoração não decorre de liturgias, cultos, oferendas, sacrifícios, etc., antes a essência da adoração é a nova criatura, obra que louva a Deus ( Sl 145:10 ; Ef 1: 12), pois é gerada segundo Deus em verdadeira justiça e santidade.

Para adorar a Deus na beleza da sua santidade é necessário crer em Cristo, santificando-O como Senhor em seu coração ( 1Pe 3:15 ), ou seja, crendo nele como o Filho de Davi, o Filho do Deus bendito.

Quando o homem crê em Cristo está tomando sobre si a sua própria cruz e seguindo após Cristo. Ao crer em Cristo o homem morre, é sepultado e ressurge com Ele uma nova criatura. No momento em que o homem é de criado de novo, com um novo coração e um novo espírito, é que Deus ‘encontra’ o verdadeiro adorador.

No momento em que o homem é regenerado (nasce de novo), surge um adorador que adora a Deus em espírito e em verdade, pois foi criado segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade.

O verdadeiro adorador reúne em si mesmo os quesitos essenciais ao culto a Deus, pois ao nascer de novo torna-se pedra viva que compõe o edifício espiritual em que Deus habita. Tem-se no novo homem o templo em que Deus faz morada, templo, casa, tabernáculo.

O novo homem também exerce sacerdócio santo, pois oferece sacrifícios espirituais agradáveis a Deus. Como sacerdócio real, o cristão oferece o fruto dos lábios e apresenta o seu próprio corpo em sacrifício vivo ( Rm 12:1 ; Hb 13:15 ).

O que é o fruto dos lábios? ( Hb 13:15 ) É o cântico novo que fala da majestade de Cristo, da sua força e da glória do seu reino ( Sl 145:5 -6 e 11).

Sem crer em Cristo, o Senhor dos exércitos, é impossível agradar e aproximar-se de Deus, mas aos que creem n’Ele, criados de novo na condição de filhos, O adoram na beleza da sua santidade “Ó SENHOR, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, admirável em louvores, realizando maravilhas?” ( Ex 15:11 ).

É um equivoco a ideia de que o homem consegue se santificar, antes é Deus que santifica o homem ao cria-lo em verdadeira justiça e santidade “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória” ( Jd 1:24 ); “Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” ( Ef 5:27 ); “No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” ( Cl 1:22 ).

Falas equivocadas acerca da santidade são reproduzidas aos montes sobre os púlpitos cristãos, tais como: – ‘Aquele que quer adorar a Deus não deve fazê-lo com sua vida de qualquer maneira’ – afirmando que a santificação está atrelada à mudança de comportamento, porém, as Escrituras afirma que o homem é santificado quando é gerado de novo, qusando o homem passa a estar escondida com Cristo em Deus.

Dizem também: – ‘Para que a adoração seja aceita, Deus quer ver santidade no adorador’ – Quem deseja ver santidade é o pregador de mensagens semelhantes a esta, pois julgam os outros segundo a vista, e não segundo a reta justiça “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” ( Jo 8:15 ); “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” ( Jo 7:24 ). No homem gerado da carne e do sangue Deus não vê santidade, porém, no novo homem gerado em Cristo, Deus vê santidade, pois ao gerar o novo homem, a natureza de Deus é implantada nele ( 2Pe 1:4 ).

E, por fim, apresentam o seguinte verso como pretexto do que dizem: “Segui a paz com todos e a santificação; sem a santificação ninguém verá o Senhor” ( Hb 12:14 ; At 4:12 ).

Ora, é Cristo quem nos santificou “E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” ( 1Co 6:11 ). O escritor aos Hebreus utilizou um recurso linguístico neste verso chamado metonímia*, onde ele substitui o autor pela sua obra. A santificação é obra realizada por Cristo, portanto, quem segue a Cristo, segue a santificação. O cristão segue a Cristo, pois Ele é a nossa paz e a nossa santificação.

Portanto, quando lemos: Seguia a paz e a santificação, devemos compreender que é recomendado seguir a Cristo, pois sem Cristo ninguém verá a Deus “Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” ( Ef 4:15 ); “… e segue a justiça, a fé, o amor, e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor” ( 2Tm 2:22 ). Neste verso ocorre o mesmo fenômeno linguístico. Cristo é o caminho a verdade e a vida, portanto, o homem deve obedientemente seguir a verdade – Cristo, pois Ele é o caminho que conduz a Deus “Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra” ( Ef 5:26 ).

*Metonímia – é um emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança ou a possibilidade de associação entre eles.




Salmo 50 – Louvor como sacrifício agradável

De modo claro, preciso, sem enigmas ou parábolas, Deus novamente anuncia que não precisa de novilhos e cabritos, pois ele nunca exigiu sacrifícios, como se verifica em Levítico 1, verso 2: “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá a sua oferta de gado, isto é, de gado vacum e de ovelha” ( Lv 1:2 ). Ou seja, sabedor que o homem é voluntarioso em ofertar e sacrificar, no livro de Levítico, Deus somente disciplina como seria apresentada a oferta e o sacrifício, contudo, sem exigi-los “E, quando oferecerdes sacrifícios de louvores ao SENHOR, o oferecereis da vossa vontade ( Lv 22:29 ).


No que consiste o louvor que o salmista Asafe definiu como o sacrifício agradável a Deus? Como oferecer sacrifício de ações de graças? Como glorificar a Deus?

Este salmo contém todas as respostas para as perguntas acima, e ele foi escrito por Asafe, um dos homens separados por Davi para profetizar com harpas, com címbalos e saltérios ( 1Cr 25:1 ). Portanto, se faz necessário considerar que o Salmo 50, como muitos outros, é uma profecia em forma de cântico que serve para edificação, exortação e consolação “Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação” ( 1Co 13:3 ).

O apóstolo Paulo deixou claro que, o que está registrado nas Escrituras (Lei, Profetas e Salmos) foi direcionado aos judeus “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Além de considerar que Asafe era profeta e que as Escrituras foram entregues aos judeus, o interprete deste salmo não pode deixar de considerar que o escritor aos Hebreus aponta Cristo como criador dos céus e da terra conforme o que está registrado no Salmo 102:26: “E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão, E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão” ( Hb 1:10 -12).

Por fim, o interprete não deve deixar de considerar que Jesus, o Filho do Deus Altíssimo, é Senhor dos vivos e dos mortos, como se depreende do Salmo 110, verso 1, que o escritor ao Hebreus e o apóstolo Pedro interpretaram ( Hb 1:13 ; At 2:34 -36).

 

1 O DEUS poderoso, o SENHOR, falou e chamou a terra desde o nascimento do sol até ao seu ocaso. 2 Desde Sião, a perfeição da formosura, resplandeceu Deus. 3 Virá o nosso Deus, e não se calará; um fogo se irá consumindo diante dele, e haverá grande tormenta ao redor dele. 4 Chamará os céus lá do alto, e a terra, para julgar o seu povo. 5 Ajuntai-me os meus santos, aqueles que fizeram comigo uma aliança com sacrifícios. 6 E os céus anunciarão a sua justiça; pois Deus mesmo é o Juiz. (Selá.)

Considerando que Cristo criou todas as coisas ( Jo 1:3 ; Hb 1:110 -12), e Ele é o Senhor do salmista ( Sl 110:1 ), devemos considerar que este salmo aplica-se a pessoa de Cristo.

Asafe, na condição de profeta, anuncia que Deus, o Senhor, falou e convocou toda a terra de um extremo ao outro. Desde Sião, que é a excelência em formosura e cidade do grande Rei, Deus resplandeceu (refulgiu) (v. 2). A descrição que o profeta faz de Sião é futurística, pois a cidade onde Asafe habitava não possuía as características que aqui são descritas “E a cidade não necessita de sol nem de lua, para que nela resplandeçam, porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada” ( Ap 21:23).

O profeta fala de um tempo em que Deus virá e se apresentará resplandecente, ou seja, com salvador (v. 2 e 3 ; Sl 31:16 ; Sl 80:3 ). Quando o Senhor mostra seu rosto, revela-se, traz consigo salvação “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” ( 2Co 4:6 ).

O fogo e a tormenta são figuras utilizadas para fazer referencia à majestade e ao poderio de Deus quando se manifestar “Eis que o Senhor tem um forte e poderoso; como tempestade de saraiva, tormenta destruidora, e como tempestade de impetuosas águas que transbordam, ele, com a mão, derrubará por terra” ( Is 28:2 ).

Na sua empreitada, Deus reúne os céus e a terra para emitir juízo acerca do seu povo (v. 4). O termo ‘Senhor’ neste salmo aplica-se a Cristo, que um dia virá em grande glória juntamente com os seus anjos e se assentará a julgar o seu povo e todas as nações da terra ( Mt 19:28 ; Mc 13:26 -27).

Neste dia a ordem que Cristo emitirá do seu trono será: Ajuntai-me os meus santos, aqueles que fizeram comigo uma aliança com sacrifícios” (v. 5 ), conforme ele mesmo disse: “E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” ( Mt 24:31 ).

Como fazer uma aliança com sacrifícios? Qual é o sacrifício exigido por Deus? Logo a seguir Deus dá uma resposta!

 

7 Ouve, povo meu, e eu falarei; ó Israel, e eu protestarei contra ti: Sou Deus, sou o teu Deus. 8 Não te repreenderei pelos teus sacrifícios, ou holocaustos, que estão continuamente perante mim. 9 Da tua casa não tirarei bezerro, nem bodes dos teus currais. 10 Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas. 11 Conheço todas as aves dos montes; e minhas são todas as feras do campo. 12 Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e toda a sua plenitude. 13 Comerei eu carne de touros? ou beberei sangue de bodes?

Sabendo que, tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, conclui-se que este salmo de Asafe tem por alvo os judeus, o povo escolhido por Deus.

Por intermédio do profeta Asafe, Deus faz um pronunciamento ao seu povo, Israel (v. 7). Embora Deus, seja o Deus de Israel, o seu pronunciamento é um testemunho contra a forma de sacrifício que ofereciam.

A repreensão não era em função da voluntariedade do povo de Israel em querer sacrificar (v. 8), antes por entenderem que Deus precisasse, ou que folgasse com aquelas oferendas. Na verdade as festas, os sacrifícios, os ritos, os ajuntamentos solenes, o tabernáculo, etc., constituem métodos de ensino com uma didática específica para conduzir o homem a Cristo.

De modo claro, preciso, sem enigmas ou parábolas, Deus novamente anuncia que não precisa de novilhos e cabritos, pois ele nunca exigiu sacrifícios, como se verifica em Levítico 1, verso 2: “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá a sua oferta de gado, isto é, de gado vacum e de ovelha” ( Lv 1:2 ). Ou seja, sabedor que o homem é voluntarioso em ofertar e sacrificar, no livro de Levítico, Deus somente disciplina como seria apresentada a oferta e o sacrifício, contudo, sem exigi-los “E, quando oferecerdes sacrifícios de louvores ao SENHOR, o oferecereis da vossa vontade ( Lv 22:29 ).

Após protestar que todos os gados dos campos e todos os pássaros dos céus lhe pertenciam, Deus questiona se, por acaso, haviam entendido que Deus necessitava de carne de touros e de sangue de cabritos.

O volume de ofertas e sacrifícios que continuamente traziam parecia anunciar que o povo entendia que Deus tinha fome e que dependesse dos homens para alimentá-lo (v. 12).

Ora, não foi somente Asafe que repreendeu o povo em nome do Senhor, como se lê: “E oferecei o sacrifício de louvores do que é levedado, e apregoai as ofertas voluntárias, publicai-as; porque disso gostais, ó filhos de Israel, disse o Senhor DEUS” ( Am 4:5 ). Embora Deus não houvesse exigido, era somente o que apresentavam: “De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios?” ( Is 1:11 -12).

 

14 Oferece a Deus sacrifício de louvor, e paga ao Altíssimo os teus votos. 15 E invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás.

Deus anuncia qual tipo de sacrifico que O agrada: sacrifício de louvor!

E no que consiste tal sacrifício? Consiste no fruto dos lábios que confessam o seu nome “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ). O escritor aos Hebreus interpreta e aponta qual é o sacrifício de louvor exigido por Deus: o fruto dos lábios que professam a Cristo como Senhor.

Qualquer outro tipo de interpretação acerca do que consiste o sacrifício de louvor que seja diferente do que interpretou o escritor aos hebreus seja anátema!

O fruto dos lábios é sinônimo de sacrifício de louvor, como atestam os salmos a seguir:

  • Oferecer-te-ei sacrifícios de louvor, e invocarei o nome do SENHOR” ( Sl 116 :17 ) – Invocar o nome de Cristo é sacrifício de louvor, pois ele salva a todos que O invocam ( Jl 2:32 );
  • “E ofereçam os sacrifícios de louvor, e relatem as suas obras com regozijo” ( Sl 107:22 ) – Contar, anunciar, relatar as obras de Deus é sacrifício de louvor, são frutos que os lábios produzem! e;
  • Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ) – E o homem não precisa ficar preocupado com o sacrifício de louvor, pois Deus mesmo anuncia: Eu crio o fruto dos lábios! Todos que anunciam que Cristo é o Deus de paz para todos os povos ( Is 9:6 ), oferecem sacrifico de louvor;
  • “Tomai convosco palavras, e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Tira toda a iniquidade, e aceita o que é bom; e ofereceremos como novilhos os sacrifícios dos nossos lábios ( Os 14:2 ) – Aquele que roga a Deus o perdão dos pecados segundo a sua palavra, oferece sacrifício de louvor.

Quando se lê que é necessário ao homem pagar os seus votos, muitos interpretam os ‘votos’ como promessas, juramentos, intenções, propostas ou propósitos. Mas, tais ‘votos’ não seriam outros tipos de sacrifícios?

Se o leitor cauteloso considerar a estrutura da poesia hebraica, verificará que o verso 14 do Salmo 50 é um paralelismo sinomínico, que é expressar a mesma ideia com palavras diferentes: “Oferece a Deus sacrifício de louvor, e paga ao Altíssimo os teus votos” (v. 14), ou seja, quando se louva a Deus como sacrifício, o homem esta pagando os seus votos de louva-Lo continuamente “Assim cantarei louvores ao teu nome perpetuamente, para pagar os meus votos de dia em dia” ( Sl 61:8 ).

Quando o homem invoca ao Senhor para ser salvo, Deus está pronto para salvar. Quando Deus vem em socorro daquele que clama e o salva, o redimido constitui-se em louvor a sua maravilhosa graça.

Quer glorificar a Deus? Faça como o salmista: “Digna-te, SENHOR, livrar-me: SENHOR, apressa-te em meu auxílio” ( Sl 40:13 ; Ef 1:12 ). Quando o homem descansa em Deus, neste momento o glorifica, pois Deus vem e realiza a sua obra que, essencialmente constitui-se louvor a sua glória.

 

16 Mas ao ímpio diz Deus: Que fazes tu em recitar os meus estatutos, e em tomar a minha aliança na tua boca? 17 Visto que odeias a correção, e lanças as minhas palavras para detrás de ti. 18 Quando vês o ladrão, consentes com ele, e tens a tua parte com adúlteros. 19 Soltas a tua boca para o mal, e a tua língua compõe o engano. 20 Assentas-te a falar contra teu irmão; falas mal contra o filho de tua mãe.21 Estas coisas tens feito, e eu me calei; pensavas que era tal como tu, mas eu te arguirei, e as porei por ordem diante dos teus olhos: 22 Ouvi pois isto, vós que vos esqueceis de Deus; para que eu vos não faça em pedaços, sem haver quem vos livre.

Deus novamente volta a tratar com o povo de Israel, nomeando-os de ímpios, pecadores.

Deus questiona o ‘ímpio’, ou seja, os homens pertencentes ao povo de Israel sobre o que faziam quando recitava a lei de Moisés. Por que recitavam a lei, se eles odiavam a correção e não obedeciam a palavra de Deus? ( v. 17).

Sobre este comportamento pernicioso falou o profeta Isaías: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

Deus estava protestando com os ladrões que havia em meio ao povo? Não! Este salmo apresenta o ladrão, o adultero e o maldizente como figura para ilustrar os príncipes e os sacerdotes “Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva” ( Is 1:23 ); “E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões” ( Mt 21:13 ; Os 6:9 ).

Deus reclama que o seu povo não passava de um bando de adúlteros “Oh! se tivesse no deserto uma estalagem de caminhantes! Então deixaria o meu povo, e me apartaria dele, porque todos eles são adúlteros, um bando de aleivosos” ( Jr 9:2 ).

Ora, apartir do momento que o homem fala segundo o seu coração enganoso, solta a língua para o mal e compõe o engano ( Jr 17:9 ; Is 66:3 ; Ez 33:17 ). É uma víbora peçonhenta, pois qualquer que não compreende os caminhos de Deus constitui-se vinha de Sodoma e Gomorra ( Dt 32:28 -33 ; Mt 12:34 ).

Ao torcer as palavras de Deus, o homem fala contra o seu irmão, pois em lugar de produzir vida, trará morte, pois da abundância que há no coração, disto fala a boca e, em sendo enganoso o coração, da boca só sairá engano. Um coração e um espírito que não foi trocado jamais produzirá ‘fruto’ bom ( Ez 36:26 ).

Os roubadores, os adúlteros e os mexeriqueiros, etc., são passiveis do fogo do inferno, pois são homens que se esqueceram de Deus (v. 22 ; Sl 9:17 ), e serão julgados segundo as suas obras.

Neste Salmo é exposto as mazelas do povo de Israel que considerava que Deus havia de se calar quanto aos seus desvios. Além de repreender e lançar em rosto o pecado do povo de Israel, Deus termina a abordagem instruindo:

 

23 Aquele que oferece o sacrifício de louvor me glorificará; e àquele que bem ordena o seu caminho eu mostrarei a salvação de Deus.

Novamente temos um paralelismo sinomínico, pois aquele que vê a salvação do Senhor é porque ofereceu sacrifício de louvor. Para o sacrifício ser aceito, primeiro Deus aceita o ofertante, mas como o sacrifício é o sacrifico dos lábios, que é professar a Cristo, segue-se que o homem ordenou o seu caminho, pois entrou pela porta que o conduz a Deus ( Jo 4:23 ).

Glorificar a Deus é oferecer sacrifício de louvor, que por sua vez, é o mesmo que professar o nome do Deus de Paz. Qualquer que professa a Cristo ordena o seu caminho, pois conhecerá a Cristo, a salvação de Deus.

Somente os salvos em Cristo glorificam a Deus, pois estes se refugiaram em Cristo, estão ligados a Oliveira verdadeira, que ‘dignou-se’ em salvá-los!

Somente aquele que oferece sacrifico de louvor, que é o fruto dos lábios, glorifica a Deus Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” ( Jo 15:8 ); “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ); “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:8 -10); “Portanto, qualquer que me confessar diante dos homens, eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus” ( Mt 10:32 ).

Basta confessar a Cristo em espírito e em verdade como salvador que o homem constitui-se louvor a Deus, pois está ligado (enxertado) a Oliveira verdadeira. É árvore de justiça, plantação do Senhor para que Deus seja glorificado “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” ( Jo 15:8 ).

Para glorificar a Deus basta ser árvore de justiça, plantação do Senhor “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado ( Is 61:3 ); “E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado ( Is 60:21 ).

Não é o homem que produz, ou que concede glória a Deus como se possuísse algo que lhe acrescentasse glória, antes é a glória do Senhor que se estabelece no homem, e nisto Ele é glorificado. E o que resta ao homem após constituir-se árvore de justiça na qual o Senhor é glorificado? Resta bendizer o seu nome ( Sl 113 e 114).

Adoração não é música, nem gritos e, nem mesmo silêncio solene e respeitoso. Adoração não se dá por cânticos, rezas, orações, sacrifícios, votos, promessas, etc. Adoração é algo proveniente do adorador por ter feito a vontade do Pai! E que vontade é esta? Crer no enviado de Deus, esta é a vontade, a obra e o mandamento do Pai ( Jo 6:29 ; 1Jo 3:23 ).

Cantar ou tocar, gritar ou calar-se, saciar a fome do pobre ou acolher o necessitado, abraçar o que não tem condições de tomar banho ou querer bem às crianças paupérrimas, abrir mão dos bens ou doá-los aos necessitados, etc., não é ser um verdadeiro adorador, pois todas estas ações os judeus praticavam ( 1Co 13:3 ).

Adoração não é proveniente de como o homem vive a sua existência terrena, antes a adoração decorre da própria existência do homem gerado de novo em verdadeira justiça e santidade, com um coração novo e um espírito novo ( Ef 4:24 ; Ez 36:25 -27 ; Sl 51:10 ). A nova criatura, ou o novo homem em Cristo é gerado de Deus para a sua glória ( Jo 1:12 ). Deus cria, forma e faz o novo homem em verdadeira justiça e santidade para a sua própria glória “A todos os que são chamados pelo meu nome e os que criei para a minha glória, os formei, e também os fiz” ( Is 43:7 ; Ef 1:12 ).

“Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes” ( Mt 12:7 ; Os 6:6 )