Descubra o que poucos cristãos sabem sobre salvação e filiação divina

Somente os que primeiro ‘conheceram’ a Deus por intermédio do evangelho são predestinados à filiação divina. Mas, como ainda ‘não é manifesto o que havemos de ser’, uma coisa é certa, toda a criação está numa ardente expectação esperando a manifestação dos filhos de Deus “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus” ( Rm 8:19 ).


Descubra o que poucos cristãos sabem sobre salvação e filiação divina

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 )

Nova Criatura

Após ouvir a mensagem do evangelho (fé) e crer em Cristo os cristãos passaram a estar em Cristo “É nele que vós também estais…” (v. 1 ), ou seja, após ouvir e crer no evangelho da salvação todos os cristãos efetivamente passara a ser uma nova criatura ( 2Co 5:17 ).

O apóstolo Paulo é categórico ao afirmar: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” ( 2Co 5:17 ). Qualquer que está em Cristo, ou seja, que é uma nova criatura goza de uma nova condição. O que motivou o apóstolo dos gentios a bendizer a Deus no verso 3 “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” ( Ef 1:3 ).

Ao que parece, os cristãos em Éfeso desconheciam que estar em Cristo, ou seja, ser uma nova criatura, lhes concedia nova condição, pois o apóstolo teve que afirma de modo contundente que eles também estavam em Cristo após ouvir e crer na mensagem do evangelho.

Esta abordagem incisiva do apóstolo dos gentios deixa evidente o contexto do capítulo 1 da carta aos Efésios. Ele estava tratando especificamente das benesses pertinentes à nova criatura, posição recém adquirida pelos cristãos por estarem em Cristo.

Quem foi abençoado com todas as bênçãos espirituais? Os cristãos! Quem estava assentado nas regiões celestiais? Os cristãos!

E porque os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos e gozavam de um lugar de descanso (assentados)? Porque estavam em Cristo, porque eram novas criaturas, ou seja, o apóstolo estava abordando questões especificas à nova criatura.

Ao dizer: ‘É nele que vós também estais…’, o apóstolo procura demonstrar que:

a) Eles foram abençoados com todas as bênçãos, e;

b) que estavam assentados nas regiões celestiais, porque foram gerados de novo e eram novas criaturas.

Faz-se necessário destacar que no Capítulo 1 da carta aos Efésios em momento algum o apóstolo dos gentios faz referencia ao homem sem Cristo. Todas as bênçãos espirituais pertencem aos que estão em Cristo! Somente os que são novas criaturas descansaram de todas as suas obras, ou seja, estão assentados!

Somente aqueles que ouviram a mensagem do evangelho e creram em Cristo, ou seja, que estão n’Ele, e que, portanto, são novas criaturas, são os eleitos de Deus. Observe que o apóstolo está tratando de questões pertinentes à nova criatura: “… nos elegeu n’Ele…”, ou seja, antes da fundação do mundo Deus determinou que, aqueles que estariam em Cristo, ou seja, que seriam novas criaturas, haveriam se ser santos e irrepreensíveis.

Deus escolheu a nova criatura para ser santa e irrepreensível diante d’Ele. Para ser eleito de Deus é necessário estar em Cristo, ou seja, é necessário ouvir e crer na mensagem do evangelho. Quando não se está em Cristo é impossível ser eleito de Deus. Como a posição de eleito é pertinente somente à nova criatura, segue-se que o pecador não preenche o quesito da eleição, pois jamais a velha criatura, alguém que ainda não está em Cristo, seria eleita para ser santa e irrepreensível.

Quando o apóstolo Paulo trata da eleição, ele diz da nova criatura, pois o pecador, o velho homem, a natureza pecaminosa não é escolhida por Deus. Como Deus elege o homem em pecado para ser santo e irrepreensível se ele precisa ser desfeito para surgir uma nova criatura? ( Rm 6;6 ). Deus não elege o homem sob o domínio do pecado porque o velho homem precisa morrer para Deus possa criar o novo homem em Cristo Jesus.

Como Deus escolheria o homem em pecado, se Deus elege o homem somente quando se está em Cristo? Se Deus “… nos elegeu n’Ele…”, acaso Cristo é ministro do pecado? Não! O homem em pecado não foi escolhido para ser santo e irrepreensível, antes, a nova criatura, aquele que está em Cristo, é a escolhida para ser santa e irrepreensível.

Jamais Deus elegeria ou predestinaria os homens sob o pecado, pois antes de ser servo da justiça o velho homem precisa ser crucificado e sepultado com Cristo. Se o velho homem é destruído para que o cristão tenha um encontro com Deus, como o homem em pecado pode ser escolhido ou predestinado?

A relação de equivalência na asserção:

a) ‘…se alguém está em Cristo…’, e;

b) ‘… nova criatura é’,

A relação a=b e b=a possibilita substituir no capítulo 1 da carta aos Efésios o ‘estar em Cristo’ por ‘nova criatura’.

Com a substituição teríamos a seguinte abordagem:

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais por sermos uma nova criatura; Como também nos elegeu por sermos uma nova criatura antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele por sermos novas criaturas; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si por sermos novas criaturas. Por sermos novas criaturas temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça (…) novas criaturas vocês também são, depois que ouvistes a palavra da verdade…”.

O apóstolo procurou demonstrar aos cristãos em Éfeso que as benesses de Deus são pertinentes à nova criatura. Quando se admiti que, só após ser uma nova criatura é que se está de posse da redenção pelo sangue e da remissão das ofensas, tem-se que admitir também que só o homem em Cristo (nova criatura) assume a condição para a qual é eleito: santo e irrepreensível.

Tudo que foi demonstrado pelo apóstolo Paulo no capítulo 1 de Efésios refere-se aqueles que, primeiro esperaram em Cristo “… nós os que primeiro esperamos em Cristo” ( Ef 1:12 ).

Quando o apóstolo Paulo menciona ‘… os que primeiro esperamos em Cristo’, não se refere aos apóstolos ou aos pais da igreja, antes diz daqueles que receberam as bênçãos porque ‘primeiramente’ creram em Cristo. Quando o homem crê em Cristo passa a ‘conhecer a Deus, ou antes, é conhecido d’Ele’. Primeiro é necessário ao homem crer em Cristo (esperar, permanecer na palavra, ser discípulo), para depois conhecê-lo “Então, conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” ( Jo 8:32 ).

Quem foi abençoado com todas as bênçãos espirituais? Os cristãos! ‘Nos abençoou’, ou seja, o pronome na primeira pessoa do plural ‘nós’ demonstra que Deus abençoou ‘os que primeiro esperamos em Cristo’. Quem foi assentado nas regiões celestiais? ‘Nós’, ou seja, aqueles que foram feitos novas criaturas. Quem são os eleitos? ‘Nós’, ou seja, os que creram em Cristo! Quem é predestinado a ser filhos por adoção? ‘Nós’, os que esperamos em Cristo!

Segundo a riqueza da sua graça, Deus concedeu:

  • Sabedoria e prudência aos cristãos;
  • Revelou a sua vontade;
  • Foram feitos herdeiros, e;
  • Constituem-se louvor à Sua glória.

A quem Deus concedeu estas bênçãos? Aos que primeiramente esperaram em Cristo, ou seja, aos cristãos! Em momento algum o apóstolo Paulo faz referencia aos não cristãos.

No capítulo 1 da epístola aos Efésios, o apóstolo Paulo deixa registrado tudo o que é pertinente à nova criatura, ou seja, ele faz alusão à nova condição pertinente aos cristãos, aqueles que esperam em Cristo, e que, apesar de desconhecer as benesses desta nova condição, também eram nova criaturas e necessitavam se conscientizar do que receberam após crer no evangelho ( Ef 1:13 ).

Tudo que o apóstolo dos gentios demonstra tem por sujeito os cristãos, sendo utilizada a primeira pessoa do plural (nós) para fazer referencia a tudo quanto os cristãos receberam após estarem em Cristo.

O que o apóstolo faz é lançar luz aos olhos do entendimento dos cristãos, para que eles soubessem o montante (todas) de benesses que receberam ao aceitar o chamado do Senhor segundo o evangelho ( Ef 1:18 ). O apóstolo assim o faz porque os cristãos de Éfeso desconheciam a riqueza da glória da herança de Deus nos santos.

Eles deviam saber que, o poder que ressuscitou a Cristo dentre os mortos foi o mesmo que operou sobre os cristãos por terem crido na mensagem do evangelho ( Ef 1:20 ), e que o mesmo Deus que fez o Senhor Jesus assentar a sua direita, também fez com que os cristãos assentassem nas regiões celestiais ( Ef 2:6 ).

O apóstolo Paulo escreveu aos santos e fiéis em Cristo, ou seja, escreveu àqueles que são novas criaturas, que estão assentados nas regiões celestiais, que são herdeiros e herança, selados com o espírito santo da promessa, redimidos do pecado, gerados de novo para serem filhos por adoção (predestinados) e de posse da irrepreensibilidade e santidade que só é próprio aos de novo gerados em Cristo (eleitos).

Deus escolheu de antemão todos os que seriam gerados de novo para serem irrepreensíveis e santos. Deus predestinou todos os que seriam gerados de novo, segundo Cristo, para serem filhos de Deus por adoção.

Nenhuma destas benesses é pertinente aos filhos de Adão. Os filhos de Adão são imundos e infiéis. Não são eleitos e nem predestinados. Foram amaldiçoados e são cansados e oprimidos, ou seja, não encontraram descanso. Não são herança e nem herdeiros de Deus.

Como Cristo foi eleito para conduzir muitos filhos a Deus ( Hb 2:10 ), e antes mesmo da fundação do mundo fora ofertado como cordeiro imaculado ( Ap 13:8 ), de antemão Deus elegeu (escolheu) os descendentes do último Adão, que é Cristo, para serem santos e irrepreensíveis, ou seja, elegeu aqueles que primeiro esperam em Cristo.

De igual modo, Deus estabeleceu os descendentes do Descendente, que é Cristo, como sua herança peculiar e os predestinou para serem filhos por adoção “… com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo” ( Ef 1:12 e Ef 1:5 ).

A condição de filhos por adoção é para louvor e glória da sua graça, uma vez que os cristãos foram feitos agradáveis a Deus por esperarem em Cristo, ou seja, primeiro crerem na mensagem do evangelho e foram de novo criados, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, ou seja, irrepreensíveis e santos ( Ef 4:24 ). Ao crer na mensagem do evangelho, os cristãos receberam poder para serem feitos filhos de Deus, tornando-se agradáveis a Deus através do Amado Senhor Jesus Cristo ( Jo 1:12 ).

 

Velha Criatura

No capítulo 1 da epístola aos Efésios, o apóstolo Paulo trata somente do que é pertinente aos cristãos. No capítulo 2, o apóstolo trás a lembrança dos cristãos qual era a condição deles antes de crer no evangelho de Cristo.

Após demonstrar aos cristãos que eles eram obras realizadas por Deus, criados em Cristo Jesus “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ), o apóstolo Paulo fez com que lembrassem que, houve um tempo em que todos não tinham esperança “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” ( Ef 2:11 -12).

Ora, se noutro tempo os cristãos não tinham esperança, segue-se que nenhum deles era eleito ou predestinado à salvação aos moldes do que foi alardeado pelos reformadores, pois, se assim fosse, todos eles tinham uma esperança.

Como nova criaturas, os cristãos vivem um novo tempo de justiça, e paz e alegria no Espírito Santo ( Rm 14:17 ). Após ser gerado de novo, o calendário de medição do tempo do novo homem também muda. Ao fazer referencia a antiga condição, o apóstolo Paulo diz: “Noutro tempo”, ou “outrora”.

Quando os cristãos estavam sem Cristo eram estranhos à aliança da promessa, não tinham esperança, estavam sem Deus, e, por natureza, eram filhos da ira ( Ef 2:12 e Ef 2:2 -3).

Todos os homens gerados de Adão são filhos da desobediência, e, portanto, filhos da ira. Não têm esperança, pois entraram por uma porta larga que os conduz à perdição. Todos quantos querem ser salvos, precisam entrar pela porta estreita, que é Cristo, ou seja, precisam nascer de novo.

O último Adão é a porta estreita (por onde os homens entram e são conduzidos à salvação), e o primeiro Adão a porta larga (por onde os homens entram e são conduzidos à perdição).

Se a eleição e a predestinação fossem aos moldes da doutrina calvinista ou arminianista contrariaria o exposto pelo apóstolo Paulo, uma vez que alguns homens sempre estiveram de posse de uma garantia. Estes seriam filhos da desobediência, porém, não seriam filhos da ira. Nunca seriam perdidos de fato, pois antes mesmo de serem gerados já estavam destinados a salvação.

Mas, não é assim a verdade do evangelho, visto que, quanto ao trato passado (condição), todos os cristãos estavam efetivamente mortos, e, portanto, perdidos ( 1Co 15:22 ). A salvação se da através das boas novas do evangelho, ou seja, alguém anuncia as boas novas do evangelho e os que ouvem precisam crer ( 1Co 15:2 ; Rm 10:14 ).

A salvação em Cristo não se dá pela eleição e nem pela predestinação, como apregoam os que dizem que a soberania divina não coaduna com o livre arbítrio do homem. Para justificar este posicionamento, perguntam: Se o homem está morto, como poderia decidir servir a Deus? Esquecem do alerta de Cristo que diz: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ).

A condição do homem não é causa de impedimento para que se possa crer em Cristo, visto que, ainda que esteja morto, ao crer em Cristo, viverá.

Para que os cristãos alcançassem as benesses pelas quais o apóstolo Paulo bendiz a Deus no capítulo 1, foi necessário Deus vivificá-los, pois estavam todos mortos ( Ef 2:1 ). Para vivificar os cristãos, Deus ressuscitou-os juntamente com Cristo e os fez assentar nas regiões celestiais ( Ef 2:6 ).

O apóstolo Paulo aponta dois tempos e duas condições específicas na vida dos cristãos: outrora éreis trevas, agora sois luz no Senhor (no Senhor=em Cristo=nova criatura), ou seja, sois luz por ser nova criatura “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR” ( Ef 5:8 ).

Mas, como os cristãos se tornaram luz? Foram escolhidos dentre os perdidos para serem luz? Foram predestinados para serem luz? Não!

O apóstolo João é claro ao repetir as palavras de Cristo: “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:36 ). Ou seja, é necessário ao homem crer na luz para ser filho de Deus. Qualquer que recebe a Cristo, ou seja, crê na mensagem do evangelho, recebe de Deus poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ).

Deixar de considerar que o apóstolo Paulo faz referencia a dois tempos, duas condições e dois tipos de criaturas no capítulo 1 da carta aos efésios, faz com que surja e se perpetue alguns erros de interpretação.

Os reformadores erraram:

  • Ao estabelecer como finalidade da eleição e da predestinação a salvação, e;
  • Por não levar em conta que o apóstolo Paulo faz referência a dois tipos de criaturas.

Erraram ao estabelecer que Deus elegeu e predestinou dentre os filhos da desobediência de Adão alguns para serem salvos. Deixaram de observar que a eleição refere-se à santidade e irrepreensibilidade, e que a predestinação refere-se a filiação.

Após observar que há os filhos da ira e os filhos da luz, e que, para ser filho da luz é necessário crer na luz, conclui-se que, antes da fundação do mundo Deus estabeleceu que, os que cressem na mensagem do evangelho, receberiam poder para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ), e na condição de eleitos de Deus são santos e irrepreensíveis ( Tt 1:1 ).

Isto que dizer que, de antemão Deus estabeleceu um único destino (predestinou) aos que haveriam de crer em Cristo: seriam salvos da condenação estabelecida em Adão e seriam filhos por adoção.

Quando o apóstolo escreve aos cristãos em Éfeso, capítulo 1, ele trata única e exclusivamente das bênçãos que Deus concede aos cristãos na condição de novas criaturas. Para fazer alusão às bênçãos concedidas por Deus, o apóstolo utiliza os verbos no pretérito perfeito (elegeu, predestinou, deu, derramou, desvendou, etc.), tendo por sujeito dos verbos no pretérito perfeito, os cristãos (nos), e não aqueles que são filhos da ira e da desobediência.

Deste modo não há contradição alguma entre a soberania e o livre-arbítrio do homem, pois os filhos da ira são provenientes de uma geração e os filhos da luz proveniente de outra geração. A geração dos ímpios é segundo o sangue, a vontade da carne e a vontade do varão, e a geração dos justos segundo a vontade de Deus.

A geração dos ímpios jamais foi eleita, pois a eleição é pertinente a geração dos justos, como se lê: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pe 2:9 ).

Os cristãos são geração eleita, pois a geração segundo a carne foi rejeitada. Como os cristãos alcançaram a eleição? Deus os chamou através do evangelho das trevas para a luz, ou seja, não foram predestinados e nem eleitos. Foram chamados!

 

Salvação e a filiação

No capítulo 1 da carta aos Efésios o apóstolo Paulo faz alusão ao propósito eterno de Deus. Qual o propósito eterno de Deus? Ora, o propósito eterno não se refere à salvação do homem, pois apesar de Deus querer e salvar os homens, há um tempo pré-determinado para a obra redentora ser encerrada.

A salvação é eterna, porém, Deus não continuara salvando os homens por toda a eternidade, portanto, a obra redentora de Deus não se refere ao propósito eterno.

O propósito eterno diz de algo que nunca terá fim, ou seja, o único evento que nunca terá fim é a preeminência de Cristo, pois ela perdurará pela eternidade ( Ef 1:10 ).

É propósito eterno de Deus:

  • Que a multiforme sabedoria de Deus seja revelada aos principados e potestades nas regiões celestiais;
  • Que Cristo tenha a preeminência em tudo;
  • Que Cristo seja o primogênito de toda criação;
  • Que Cristo seja o primogênito dentre os mortos, e;
  • Que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos.

Através da igreja, que é o corpo de Cristo, Deus concretizou o seu propósito eterno!

Em todos os tempos os homens são salvos por Deus mediante a fé, porém, a condição dos membros do corpo de Cristo é diferente da condição dos outros salvos que existiram ao longo da história da humanidade. Como?

Ora, os homens são salvos em todos os tempos pela fé em Deus, pois Deus salvou e salvará:

  • Antes da lei de Moisés;
  • Durante o período da lei de Moisés;
  • Durante o período das boas novas do evangelho;
  • No período da grande tribulação, e;
  • Durante o milênio.

Porém, diferente dos outros salvos, que continuarão na posição de homens, a igreja de Cristo foi elevada a categoria de ‘semelhantes a Deus’, posição superior a dos anjos, uma vez que serão semelhantes a Cristo ( 1Jo 3:2 ). Observe a tabela abaixo:

 

Hierarquia dos seres antes da constituição da Igreja

Hierarquia dos seres depois da constituição da Igreja

Criador

Deus

Deus

Criaturas

—————-

Semelhantes a Deus

Anjos

Anjos

Homens

Homens

 

Aos salvos que não são membros do corpo de Cristo, que é a igreja, não será dado a autonomia de julgar os anjos ( 1Co 6:3 ), mas a igreja julgará o mundo e os anjos ( 1Co 6:2 -3).

Diferentemente dos salvos de outras épocas, a igreja foi participante da morte de Cristo e passou a ser semelhante a Ele na ressurreição “Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição” ( Rm 6:5 ; Cl 3:1 -3).

O mesmo poder que foi manifesto em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, também operou sobre os membros do corpo de Cristo, a igreja ( Ef 1:19 ). Cristo é o primogênito dentre os mortos, e o seu corpo, também nomeado de a universal assembléia, é a igreja dos primogênitos ( Hb 12:23 ).

Cristo é Filho e herdeiro de todas as coisas, e os membros do seu corpo, filhos e co-herdeiros, pois é certo que os cristãos com Ele morreram (padecemos) para com Ele serem glorificados (ressurgir) ( Rm 8:17 ; Cl 3:3 ).

Tal qual Cristo é, é a sua igreja aqui neste mundo ( 1Jo 4:17 ). A igreja possui a imagem de Cristo, pois qual o Celestial, tais também os celestiais ( 1Co 15:47 -48). Esta condição é efetiva hoje, agora, não diz de algo para o futuro ( Ef 5:8 ).

Conclui-se que, todos os salvos de todas as épocas são filhos de Deus, porém, nem todos os salvos são qual o último Adão, que é Cristo. Há muitos filhos, mas somente a igreja é conforme a imagem de Cristo. Há muitos salvos, porém, somente através da igreja Cristo tornou-se primogênito dentre os mortos e primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

O apóstolo João e o apóstolo Paulo anunciaram que todos os cristãos receberam da plenitude de Cristo ( Jo 1:16 ; Cl 2:10 -11), ou seja, todos são participantes da natureza divina, pois a semente de Deus permanece neles ( 2Pe 1:4 ; 1Jo 3:9 ).

A condição da igreja é tão diferenciada da dos outros salvos que os profetas estavam cientes que a graça que seria concedida à igreja não era igual a que lhes pertencia ( 1Pe 1:12 ).

As potestades e principados, por sua vez, desconheciam qual a multiforme sabedoria que foi revelada na igreja ( Ef 3:10 ), e assim como os profetas da antiga aliança também desejaram compreende-la “… para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 b).

Este verso tem causado inúmeros equívocos, visto que os anjos não desejaram anunciar o evangelho como muitos apregoam, antes eles desejavam atentar para as mesmas coisas que os profetas desejavam compreender Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” ( 1Pe 1:12 ).

Sabemos que Cristo é mais sublime que os céus, e que a igreja será semelhante a Ele, ou seja, possuidores de uma glória superior a própria ‘habitação’ do Altíssimo ( Hb 7:26 ; 1Jo 3:2 ).

Mas, como ainda ‘não é manifesto o que havemos de ser’, uma coisa é certa, toda a criação está numa ardente expectação esperando a manifestação dos filhos de Deus “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus” ( Rm 8:19 ).

No entanto, a manifestação dos filhos de Deus somente se dará quando Cristo se manifestar, e, então, a igreja será manifesta com Cristo em glória, ou seja, semelhantes a Ele ( Cl 2:11 ; 2Co 5:4 ; 1Co 15:53 -54).

Deus levou a efeito o seu propósito eterno quando adquiriu um povo, gerado segundo a palavra da verdade, constituído sacerdócio real e nação santa para que Cristo tenha a preeminência em tudo. Como? Através da igreja Cristo é o mais sublime entre os sublimes. Ele é o primogênito entre muitos irmãos! “Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime” ( Is 52:13 ).

Somente através da igreja, o Servo do Senhor, o Filho do Altíssimo, é exaltado, elevado e mui sublime.

 

Conheceu e Predestinou

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

Após alertar que as aflições do tempo presente não se comparam com a glória que há de ser revelada, e lembrar a expectativa da criação quanto a revelação dos filhos de Deus ( Rm 8:18 -22), o apóstolo Paulo demonstrou estar ansioso quanto a redenção do corpo ( Rm 8:23 ).

Ele reitera o que os cristãos deviam saber: que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus ( Rm 8:28 ), ou seja, os ‘que amam a Deus’ são aqueles que foram ‘chamados segundo o seu propósito’.

Quem são os chamados? Todos os que ouvem a mensagem do evangelho. Quem são os que amam a Deus? Todos que atenderam o chamado contido no evangelho.

Ora, somente as ‘boas novas’ do evangelho promove o propósito de Deus, pois todos os que foram ‘conhecidos’ de Deus, também foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo ( Rm 8:29 ).

Deste verso surgem algumas perguntas essenciais a compreensão:

  • O que é conhecer a Deus?
  • O ‘dantes’ refere-se a que?
  • Foram predestinados a que?
  • Com que propósito Deus chama os homens através do evangelho?

Conhecer a Deus “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ) – ‘Conhecer’ a Deus não é ter ‘ciência’, ‘saber’ ou ‘conhecimento acerca de’ Deus, antes, ‘conhecer’ é tornar-se um só corpo e um só espírito com o Pai e o Filho ( Ef 4:4 ), ou seja, refere-se a comunhão intima ( 1Co 1:9 ). Assim como o homem torna-se um só corpo ao ‘conhecer’ a mulher, conhecer a Deus, ou antes, ser conhecido d’Ele, diz de comunhão intima. Conhecer a Deus é algo pertinente ao tempo presente dos cristãos “Mas, agora…” ( Gl 4:9 ).

Dantes conheceu – A que tempo refere o ‘dantes’? O que ‘dantes conheceu’ é o mesmo que ‘… primeiro esperamos em Cristo’ ( Ef 1:12 ). Os que primeiro esperaram em Cristo são os que conheceram a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele. Os que ‘dantes’, ou os que ‘primeiro’ conheceram a Deus, por esperar em Cristo, são os que foram feitos herança e predestinados segundo o propósito de Deus ( Ef 1:11 -12). ‘Dantes conheceu’ remete a mesma ideia que o apóstolo Paulo expôs aos cristãos da região da Galácia: conhecendo a Deus, ou ANTES, sendo conhecido d’Ele ( Gl 4:9 ). Este ‘dantes’ não tem relação com a ‘pré-ciência’ de Deus.

Predestinados a quê? – Deus predestinou os que ‘dantes’, ou seja, que em primeiro lugar O conheceram ao crer no evangelho para serem conformes à imagem de seu Filho. Observe que ninguém é predestinado a salvação! Antes de ser predestinado a ser conforme a imagem do Filho é necessário ao homem ‘conhecer’ a Deus, ou antes, ser ‘conhecido’ d’Ele.

O evangelho do propósito eterno – A oferta de salvação em Cristo, além da redenção do homem, faz parte do propósito eterno de Deus, que é tornar o Unigênito Filho de Deus no Primogênito de Deus entre muitos irmãos. Para tanto, todos os que creem no evangelho, além de salvos, são predestinados a serem conforme a imagem de Cristo.

Somente os que primeiro ‘conheceram’ a Deus por intermédio do evangelho são predestinados à filiação divina. Ninguém é predestinado a ‘conhecer’ a Deus, ou seja, ninguém é predestinado a salvação, antes, é necessário primeiramente (dantes) crer em Cristo, que o homem terá o seu destino definido conforme o que foi proposto na eternidade: será conforme a imagem de Cristo “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

E qual o propósito de Deus ao conceder filiação aos remidos segundo a graça demonstrada no evangelho? Que o Unigênito Filho de Deus, que foi morto e ressurgiu, seja o primogênito dentre os mortos com muitos irmãos.




A armadura de Deus

A fome que Jesus estava sentindo após o jejum foi utilizada pelo diabo como meio de esconder a capciosidade contida na pergunta, uma vez que apresenta o poder de Cristo (palavra) como meio de subsistência física, porém, Jesus demonstra que a palavra de Deus (o poder de Cristo) é para conceder vida (novo nascimento) ao homem, e não para prover-lhe sustento físico. Caso Jesus transformasse as pedras em pães haveria uma contradição, pois o homem deve comer do suor do seu rosto, e não da palavra de Deus ( Dt 8:3 compare com Gn 3:19 ).


A armadura de Deus

“No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder”

Como demonstrar a importância da palavra de Deus a cristãos convertidos dentre os gentios que tinham pouco contato com as Escrituras? Como falar da lei, dos juízes, dos profetas, dos salmos, dos provérbios, se as Escrituras estavam sendo apresentada aos poucos aos convertidos dentre os gentios?

Ciente da necessidade de os cristãos se inteirarem da palavra de Deus e da dificuldade de apresentar aos gentios um estudo das Escrituras, o apóstolo Paulo ao escrever aos cristãos em Éfeso utiliza figuras, sendo uma delas a relação comparativa entre a palavra de Deus e as partes que compunham uma armadura.

Comparando a carta de Paulo aos Efésios com outras epístolas de sua autoria, verifica-se que a carta aos Efésios é a que menos contém citações do Antigo Testamento, porém, apresenta um número maior de figuras, muito eficiente na didática da Palavra de Deus. Dentre as figuras apresentadas na carta aos Efésios (o corpo, a família, o edifício, etc.), abordaremos como tema do nosso estudo a armadura de Deus.

O apóstolo Paulo recomenda aos cristãos de Éfeso que se fortalecessem no Senhor e na força do seu poder. Como se fortalecer no Senhor? Qual a força do poder de Deus?

A Bíblia demonstra que o evangelho é o poder de Deus para salvação ( Rm 1:16 ; 1Co 1:18 ), visto que Cristo é poderoso para salvar “QUEM é este, que vem de Edom, de Bozra, com vestes tintas; este que é glorioso em sua vestidura, que marcha com a sua grande força? Eu, que falo em justiça, poderoso para salvar” ( Is 63:1 ). Cristo é a força do Senhor, visto que Ele é o Verbo que se fez carne, a destra do Altíssimo, o braço do Senhor ( Ne 8:10 ; Is 48:13 ).

Para se fortalecer no Senhor basta confiar (esperar) n’Ele, pois o salmista diz: “Esforçai-vos, e ele fortalecerá o vosso coração, vós todos que esperais no SENHOR” ( Sl 31:24 ). Fortalecer no Senhor é um modo diferente de recomendar aos cristãos que descansem em Deus, ou seja, que confiem n’Ele.

A confiança do cristão decorre das promessas de Deus, e para se inteirar das Suas promessas se faz necessário meditar na palavra de Deus de dia e de noite. Este deve ser o deleite do crente, pois a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus ( Rm 10:17 ).

A confiança deriva da palavra de Deus somente, o que exclui as vãs filosofias, que são produtos de mentes carnais que buscam satisfazer somente as suas concupcências.

Para se fortalecer no Senhor e na força do seu poder, basta descansar nas promessas contidas nas Escrituras, que é poder de Deus, uma vez que a palavra do Senhor é Cristo encarnado, o braço do Senhor desnudado perante as nações. Os que professam o seu nome estão assentados nas regiões celestiais, e, portanto, são cingidos de força “Deus é o que me cinge de força e aperfeiçoa o meu caminho” ( Sl 18:32 ; Is 59:16 ).

 

“Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes”

Através de uma ordem imperativa o apóstolo Paulo demonstra uma necessidade que é própria a cristãos: revestirem-se da armadura de Deus. Por que o cristão necessita revestir-se de toda a armadura de Deus? Porque somente quando revestido da armadura de Deus o cristão é capaz de discernir as astutas ciladas do diabo, defender-se dos dardos inflamados do maligno. O cristão que se reveste da armadura não se demoverá do evangelho, e não será enlaçado nas astutas ciladas do diabo.

O apóstolo Paulo compreendia como o diabo atua “Porque não ignoramos os seus ardis” ( 2Co 2:11 ), e para não acusá-los de ignorância, utiliza o pronome na terceira pessoa do plural (ignoramos). Há um alerta quanto ao perigo contido nas ciladas do maligno, pois além da cilada ser algo por natureza dissimulado também é nomeada de astuta, por causa da antiga serpente “E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição” ( 2Pe 2:1 ).

Como o diabo atua? Utilizando ciladas astutas, ou seja, encobertamente (cilada) ele aproxima-se daquele que quer enganar (astucia). Em que consiste as ciladas do diabo? Consiste em transtornar a mensagem do evangelho ( At 15:24 ; Gl 1:7 e Tt 1:11 ).

Ao observar as Escrituras, verifica-se que desde o Éden a ação de Satanás é introduzir mentiras para transtornar a verdade da palavra de Deus. A astúcia de Satanás é tamanha que com uma pergunta, aparentemente simples, semeou a incredulidade no coração de Eva: “Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?” ( Gn 3:1 ).

A pergunta que Satanás formulou era uma armadilha engendrada com astucia. Enquanto Deus apresentou plena liberdade ao homem, Satanás evidenciou uma proibição sórdida “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente…” ( Gn 2:16 ).

A cilada de Satanás é astuta porque aproveita a falta de compreensão da palavra da verdade e as propensões emocionais do homem para introduzir encobertamente palavras de engano “Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis” ( Gn 3:4 ). Geralmente o homem demonstra ser zeloso “… não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais” ( Gn 3:3 ), porém deixa-se guiar pela aparência, pelas sensações e pelas emoções, “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” ( Gn 3:6 ), mas é negligente quanto à palavra que lhe preserva a vida “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Com Cristo tal cilada astuta não funcionou, pois quando o diabo perguntou: “Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães” ( Mt 4:3 ), Cristo respondeu segundo a sua essência: “Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” ( Mt 4:4 ).

Diante da necessidade física do Messias, o diabo trouxe à baila a ideia de que Cristo possuía o poder necessário para saciar a sua própria fome, porém, a proposta da pergunta era semear dúvida (Se tu és), e se Cristo se propusesse a provar que era o Filho de Deus sinalizaria incerteza. A astúcia é tamanha, pois todas as Escrituras apontavam para Cristo como autor e consumador da fé, o enviado de Deus “Confiou no Senhor, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer” ( Sl 22:8 ; Mt 22:8 ).

Astuciosamente antiga serpente intentou fazer com que o último Adão, que é Cristo, incorresse no mesmo erro do primeiro Adão: não confiar na palavra do Pai.

A fome de Jesus após o jejum foi utilizada como meio de esconder a capciosidade contida na pergunta, uma vez que apresenta o poder de Cristo (palavra) como meio de subsistência física, porém, Jesus demonstra que a palavra de Deus (o poder de Cristo) é para conceder vida (novo nascimento) ao homem, e não para prover-lhe sustento físico. Caso Jesus transformasse as pedras em pães haveria uma contradição, pois o homem deve comer do suor do seu rosto, e não da palavra de Deus ( Dt 8:3 compare com Gn 3:19 ).

Deus deixou o povo de Israel passar fome quarenta anos no deserto para que o povo entendesse que não é de pão que vive o homem, mas da palavra que sai da boca de Deus ( Dt 8:3 ). Em quarenta dias jejuando Jesus demonstrou que compreendeu a lição do Pai, pois diante da fome soube distinguir que o homem comerá do suor do seu rosto, e que para ter vida depende da palavra de Deus ( Mt 4:4 ).

Satanás sabia que havia em Cristo a disposição interna em realizar a vontade de Deus ( Jo 6:38 ). Diante deste anseio o diabo apresenta a proteção divina que estava prevista nas Escrituras para o Messias como meio de fazer com que Cristo tentasse a Deus. Embora sendo Filho, o Messias não poderia por Deus à prova para ter certeza da sua filiação. A maior prova de que o homem é um dos filhos de Deus não está na proteção diária, antes está em se obedecer a palavra de Deus.

Como as propostas das duas perguntas não demoveram o Messias de sua confiança, Satanás propõe dar a Cristo o que foi prometido pelo Pai. O Pai havia prometido ao Filho que lhe daria todas as nações por herança e os confins da terra por possessão ( Sl 2:8 ), e Satanás propõe agilizar este processo. Ele propõe entregar sem lutar o seu reino a Cristo com uma única condição: se ele o adorasse, ou pedisse.

Se Cristo pedisse a Satanás o reino que estava sendo mostrado, estaria rendendo adoração ao inimigo, pois o Pai disse: “Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão” ( Gn 2:8 ). Cristo rejeitou a proposta satânica e conquistou todas as coisas na cruz, e o Pai lhe concedeu um nome que é sobre todos os nomes como havia prometido ( Cl 2:15 ).

O diabo não teve qualquer chance diante de Cristo, o Verbo de Deus encarnado, a armadura de Deus. Diante dos dardos inflamados do inimigo, Jesus utilizou a sua palavra como escudo e broquel ( Sl 91:4 ).

Ciente dos riscos que rondava os Cristãos o apóstolo Paulo expressa o seu maior temor: “Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo” ( 2Co 11:3 ).

A ação primária do diabo é manter o homem na ignorância acerca do poder contido na palavra de Deus. Somente a ignorância mantém o homem longe de Deus, uma vez que Deus já providenciou salvação poderosa para todos os homens desde a casa de Davi “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

O tempo em que o homem permanece separado de Deus é descrito como sendo o tempo da ignorância ( At 17:30 ; 1Pe 1:14 ). Por possuir o entendimento entenebrecido, se mantém separado de Deus por ignorar a salvação que é ofertada em Cristo.

Quando na ignorância, o homem desregrado, entende não ser merecedor da graça divina. Outros, envoltos na mesma ignorância aplicam-se a religiosidade, a moral, a lei, a filosofia, ao ascetismo, ao sacrifício, ao ritualismo, etc., pois entendem que deste modo se achegarão a Deus. Em ambos os casos, os entenebrecidos no entendimento permanecem separados de Deus pela dureza do seu coração.

Embora o homem permaneça nas trevas por rejeitar a luz, não significa que a palavra de Deus haja falhado. A graça de Deus manifestou-se a todos os homens na pessoa de Jesus Cristo conforme Ele predisse na Sagrada Escritura, porém, diante do amor e da fidelidade de Deus muitos preferem as trevas e não vem para luz ( Jo 3:20 ).

O cristão não deve lutar contra a carne e o sangue, ou seja, a luta do cristão não é contra pessoas por causa de origem, nacionalidade, condição social, religião, etc. A luta, a batalha travada é contra Satanás e suas hordas. Por quê? Porque seria contraproducente lutar contra os homens, uma vez que Deus amou o mundo de maneira tal que entregou o seu Filho para salvar os que se perderam, pois todos os homens ao nascerem entram por Adão, a porta larga, e passam a trilhar um caminho largo que os conduz a perdição.

Judas sabia contra o que estava lutando, pois desejou fazer um tratado acerca do embate que estava travado “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” ( Jd 1:3 -4).

A desobediência de Adão tornou a humanidade culpável diante de Deus. Nada que façam podem livrá-los do juízo e da condenação imposta sobre a humanidade. O diabo sabe disto e promove inúmeras distrações para que o homem permaneça longe da verdade do evangelho, que é poder de Deus para os que creem.

Qual a base de operação do diabo? Os lugares celestiais! Como? Ora, os cristãos estão assentados por Cristo nos lugares celestiais, e como o mundo jaz no maligno (pertence a ele por causa da morte, da lei e do pecado), a ação do inimigo é atuar entre os cristãos semeando o joio.

Heresias, tradições, filosofias, legalismo, moralismo, ritualismo, sacrifícios, genealogias, rudimentos da lei, etc., são ações do diabo para arrebatar a semente que foi lançada no coração dos homens que estão nos lugares celestiais em Cristo Jesus “E ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou, é o diabo” ( Mt 13:37 -39).

Geralmente as pessoas imaginam que o diabo luta utilizando luxúria, pornografia, roubo, furto, mentira, raiva, ódio, etc., para derrotar os homens. Isto porque desconhecem que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Estão mortos e jazem no maligno. Por Adão o juízo de Deus já foi estabelecido e a condenação também ( Rm 5:18 ).

As práticas do homem não são a causa de condenação, antes somente aumentam a medida da ira de Deus que será derramada sobre eles “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” ( Rm 2:5 ).

Muitos tentam visualizar as armas empregadas na guerra entre o reino da luz o reino das trevas como se fossem espadas, pois lembram a passagem bíblica onde o apóstolo Paulo compara a palavra de Deus a uma espada de dois gumes, porém, as armas dos dois reinos resumem-se em sementes. São três tipos de semente:

  • A semente corruptível, que é o nascimento segundo a carne de Adão;
  • A semente incorruptível, que é a palavra de Deus, que produz filhos para Deus segundo o último Adão, homens espirituais, e;
  • A semente do joio, que é a semente do maligno.

Quando nascem, os homens são pecadores por natureza, pois foram formados em iniquidade e concebidos em pecado. Com relação a estes que desviaram desde a madre, basta ao diabo mantê-los na ignorância, entenebrecidos no entendimento, segundo a dureza dos seus corações.

Mas, quando os homens recebem em seus corações a palavra de Deus, recebem poder para serem feitos filhos de Deus. São filhos nascidos de Deus, e não da carne, do sangue e da vontade do varão ( Jo 1:12 -13).

É pelo plantio no coração dos homens que ocorre o embate entre o reino das trevas e o reino da luz (carne versus Espírito). Onde foi lançado a semente incorruptível, o diabo faz sua investida para arrancá-la ( Mt 13:4 ). As ações das aves, do sol, dos pedregais e dos espinhos são implacáveis. Como isto ocorre? O maligno semeia no campo do pai de família o joio.

Observe que o maligno busca semear joio no campo que pertence ao pai de família ( Mt 13:25), ou seja, a batalha se dá nos lugares celestiais ( Ef 6:12 ), uma vez que os falsos profetas vêm até os que creram vestidos de ovelhas, mas são lobos devoradores “Recebendo o galardão da injustiça; pois que tais homens têm prazer nos deleites quotidianos; nódoas são eles e máculas, deleitando-se em seus enganos, quando se banqueteiam convosco ( 2Pe 2:13 ; Mt 7:15 ).

Qualquer que se alimenta do joio que surgiu no campo do pai de família continuará entenebrecido no entendimento e podem confundir os ‘meninos’ na fé, arrastando-os com ventos de doutrinas ( Ef 4:14 ).

Com isto há um crescimento vertiginoso da plantação, porém, o que se vê não é trigo, mas joio. É por isto que Cristo alerta: “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho” ( Mt 13:19 ).

O reino dos céus e o reino deste mundo consiste em plantas que o pai plantou e plantas que o pai não plantou ( Mt 15:13 ). O embate se dá através de sementes! Sendo a semente de Adão corruptível, a semente da palavra de Deus incorruptível e a semente do maligno, o joio.

Com qual semente o cristão deve ter cuidado? Com o joio, ou seja, palavras que convertem em dissolução a graça de Deus, pois não devemos lutar contra carne e sangue, que são plantas oriundas da semente corruptível de Adão. O embate é para que o maligno não lance a sua semente no campo.

O apóstolo Paulo demonstra que a ação do maligno se dá nos lugares celestiais, visto que os cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo e os lobos disfarçados de ovelhas buscam tragá-los “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores” ( Mt 7:15 ; 1Pe 5:8 ).

Se os falsos profetas vêem até os que creem, isto significa que a batalha é travada nos lugares celestiais, onde o crente está assentado ( Ef 1:3 ; Ef 2:6 ).

É por isto que o crente deve tomar toda a armadura de Deus: para resistir no dia mau! Qual o dia mau? O dia mau refere-se ao ataque do maligno “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, Remindo o tempo; porquanto os dias são maus. Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor” ( Ef 5:15 -17).

Aquele que entende a vontade do Senhor anda prudentemente. É pleno do Espírito, pois fala segundo a palavra de Deus ( Ef 5:19 ). É neste sentido que Cristo ensina os cristãos a orarem: “E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém” ( Mt 6:13 ).

Cristo foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado. A tentação ocorreu com base na palavra de Deus, visto que o inimigo fez uma citação das Escrituras que continha uma promessa específica para Cristo, porém, a astúcia estava em fazer com que o Messias caísse em contradição ao tentar o Pai caso Cristo se lançasse do alto do pináculo do templo.

Aquele foi o dia mau, mas Cristo foi livrado pelo Senhor, pois compreendia qual era a vontade do Pai ( Mt 6:13 ).

Após tomar toda a armadura de Deus e resistir o dia da tentação, basta permanecer firme.

 

“Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça”

A firmeza encontra-se no ato de cingir os lombos com a verdade. O que é isto? O apóstolo Pedro responde: “Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:13 ).

Cingir é o mesmo que ajustar, prender, não deixar frouxo. Cingir o lombo do entendimento é o mesmo que: “Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade…” ( Ef 3:18 ).

Quem possui os lombos do entendimento cingidos não aceita outro evangelho “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” ( Gl 1:8 ).

O lombo que deve ser revestido é o lombo do entendimento. Como? Basta esperar somente e inteiramente na graça ofertada por Deus em Cristo Jesus. Qualquer que espera somente em Cristo para ser salvo é porque tem os lombos cingidos com a verdade.

Cristo é a verdade, e após crer em Cristo o homem torna-se um com a verdade. Conhecer a verdade diz de união íntima, momento em que o Cristão é vestido com o manto de justiça. O possuir o entendimento cingido com a verdade é etapa posterior ao conhecer a verdade. É o mesmo que revestir-se da armadura. É ter a mente de Cristo! Ser vestido de justiça basta crer na mensagem do evangelho, revestir-se da armadura demanda diligencia, guardar o que foi anunciado pelo Filho deixando os rudimentos ( Hb 2:1 ; Hb 6:1 ).

O cristão deve colocar a couraça da justiça. Que couraça é esta? Couraça diz de algo resistente a ataques externos, ou seja, se alguém intentar acusação, não irá prevalecer. A certeza dos cristãos é a de que ninguém intentará acusação contra ele, pois agora em Cristo está incluso entre os seus escolhidos “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica” ( Rm 8:33 ). Aquele que está morto está justificado do pecado! ( Rm 3:24 ; Rm 5:1 ; Rm 6:7 ).

Está é a certeza do crente, pois o braço do Senhor vestiu-se de justiça, como de uma couraça para vir ao mundo resgatar a humanidade “Pois vestiu-se de justiça, como de uma couraça, e pôs o capacete da salvação na sua cabeça, e por vestidura pôs sobre si vestes de vingança, e cobriu-se de zelo, como de um manto” ( Is 59:17 ; Is 11:5 ).

É por isso que o apóstolo João diz que os cristãos são mesmo filhos de Deus, pois foram gerados de novo e vestem-se da mesma armadura do primogênito Filho de Deus ( 1Jo 4:17 ).

O manto de justiça de Cristo decorre da obediência em tudo d’Ele para com o Pai. Já a injustiça de Adão decorre do fato dele não ter crido na palavra de Deus que lhe preservava a vida, e ficou despido de justiça, ou seja, pobre, cego e nu.

 

“E calçados os pés na preparação do evangelho da paz”

Por que os cristãos necessitam calçar os pés na preparação do evangelho da paz? Porque, como embaixador dos céus, deve estar apto a anunciar as boas novas do evangelho a todas as nações. Após calçar os pés, fará com que os homens ouçam que em Cristo a inimizade entre Deus e os homens foi desfeita.

Cristo é a paz dos cristãos, e os cristãos foram comissionados com a mesma missão desempenhada por Cristo “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!” ( Is 52:7 ).

 

“Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno”

 

Qual é o escudo da fé? O que concede poder para apagar os dardos inflamados do maligno?

O escudo do cristão é a palavra de Deus, e a fé é a palavra de Deus, ou seja, a fé que uma vez foi dada aos santos ( Jd 1:3 ); “O caminho de Deus é perfeito; a palavra do SENHOR é provada; é um escudo para todos os que nele confiam” ( Sl 18:30 ); “Toda a Palavra de Deus é pura; escudo é para os que confiam nele” ( Pr 30:5 ); “Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel” ( Sl 91:4 ).

É comum confundir a fé (evangelho) que foi revelada com a fé (crer) que é descansar. Os cristãos têm fé (crê, acredita, descansa) na fé (evangelho) que foi manifesta em Cristo “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Somente possuindo o evangelho como escudo, que é poder de Deus, o cristão destrói os dardos inflamados do inimigo.

 

“Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”

Todos quantos creem em Cristo são participantes da morte de Cristo, ou seja, foram batizados na sua morte. Como morreram com Cristo, também ressurgiram, ou seja, revestiram-se de Cristo “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” ( Gl 3:27 ).

Após ressurgir, o cristão está de posse do capacete da salvação, a esperança da glória “Mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e do amor, e tendo por capacete a esperança da salvação” ( 1Ts 5:8 ).

Deve portar a espada do espírito, que é a palavra de Deus. Se for obreiro, deve manejá-la bem, pois o bom manejo qualifica o obreiro como aprovado, e que não tem do que se envergonhar. Obreiro que não maneja bem a palavra da verdade é uma vergonha “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” ( 2Tm 2:15 ).

Todas as peças que compõem a armadura de Deus consistem em manejar bem a palavra da verdade, portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que já temos ouvido, para que em tempo algum nos desviemos delas.




Efésios 3 – O mistério revelado

Os seres celestiais tinham consciência do poder de Deus e de que o Verbo de Deus participou da criação, visto que, em Cristo todas as coisas foram criadas. Porém, agora, pela igreja, estes seres celestiais passaram a conhecer a multiforme sabedoria de Deus. É interessante observar que os seres celestiais têm contato constante com o poder de Deus, que a tudo criou por meio de Cristo, mas nem mesmo eles conheciam a multiforme sabedoria ( Ef 1:9 -10).


Efésios 3 – O mistério revelado

A Missão entre os Gentios

1 Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios;

Qual causa? A missão que foi confiada ao apóstolo Paulo de demonstrar aos cristãos que a parede de separação entre gentios e judeus foi derrubada. O fato de ter sido criado um novo homem em Cristo Jesus a partir de dois povos (judeus e gentios) “…para criar em si mesmo dos dois um novo homem…” ( Ef 2:15 ), tornou-se o pivô das prisões de Paulo.

A missão que foi delegada a Paulo mantinha o apóstolo vinculado a Cristo através de uma lei interna, visto que ele era cativo (prisioneiro) no entendimento “…e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” ( 2Co 10:15 ).

A ideia que Paulo expôs sobre ser prisioneiro de Cristo é melhor explanada em ( 1Co 9:16 -19) “Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho! E por isso, se o faço de boa mente, terei prêmio; mas, se de má vontade, apenas uma dispensação me é confiada. Logo, que prêmio tenho? Que, evangelizando, proponha de graça o evangelho de Cristo para não abusar do meu poder no evangelho. Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais”.

Paulo não quis ser só um despenseiro, e sim, alguém que anunciava o evangelho de bom grado, com o intuito de receber um prêmio maior. Para tanto, ele quis se prender a causa.

A igreja de Cristo é um novo corpo que une ‘gentios’ e ‘judeus’, e ambos têm acesso ao Pai em um mesmo Espírito.

O remetente da carta se identifica novamente “…eu, Paulo…”; ( Ef 1:1 ).

Paulo tinha conhecimento pleno da sua condição em Cristo “…sou prisioneiro de Jesus Cristo…”, e da missão.

Paulo procurou conscientizar os cristãos gentios da sua luta através deste versículo.

Ele prossegue apresentando novos elementos no transcorrer da carta, porém, sempre faz referência a algo que já escreveu. Ex:

  • Apresentação pessoal ( Ef 1:1 e Ef 3:7 );
  • Louvor a Deus ( Ef 1:3 e Ef 3:20 -21);
  • Regiões celestiais ( Ef 1:3 e Ef 2:6 );
  • Mistério desvendado ( Ef 1:9 e Ef 3:6 );
  • O Espírito Santo ( Ef 1:13 e Ef 4:30 );
  • O poder de Deus ( Ef 1:19 ; Ef 3:7 e Ef 3:20 );
  • O passado ( Ef 2:1 e Ef 4:17 -19);
  • Vivificar com Cristo ( Ef 2:1 e Ef 2:5 );
  • Morada do Espírito ( Ef 2:22 e Ef 3:17 ), etc.

Esta peculiaridade da carta aos Efésios a torna auto-explicativa.

 

2 Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada;

A conscientização (entendimento) acerca da complexidade que havia por trás do ministério do apóstolo Paulo só é possível àqueles que já ouviram acerca da graça de Deus. Tal graça foi apresentada aos gentios por intermédio do apóstolo.

A mensagem que Paulo apregoava era desconhecida tanto para os judeus como para os gentios. Somado a isto, ele precisava apregoar o evangelho de maneira que convencesse os judeus a abandonarem a ideia de que a salvação era exclusiva ao povo de Israel, sem menosprezar os gentios.

Como conciliar homens que tinham a cruz de Cristo como escândalo e loucura? “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação. Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:21 -22).

Porém, Paulo pregava confiado em Cristo que concedeu a missão de proclamar o evangelho, que é poder de Deus e salvação para todo aquele que crê “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 ) compare com “E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder…” ( Ef 1:19 ).

 

3 Como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi;

A dispensação da graça de Deus era um mistério que foi manifesto ao apóstolo Paulo por revelação. Sobre este mistério, agora revelado, Paulo escreveu algumas coisas no próprio corpo da carta ( Ef 2:13 -22).

 

4 Por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo,

Paulo espera que os leitores percebam o quanto ele compreendia o evangelho, o mistério de Cristo que agora foi revelado aos homens.

O versículo 6 detalha a extensão da compreensão do apóstolo Paulo.

 

5 O qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas;

O mistério acerca da pessoa de Cristo ainda não havia sido revelado aos homens, porém, agora, o Espírito Santo de Deus revelou tal segredo aos santos apóstolos e profetas.

É interessante observar que a revelação de Deus se deu aos apóstolos e aos profetas “Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João” ( Mt 11:13 ). É diferente a abordagem feita em Efésios da feita por Cristo em Mateus.

Quando Cristo falou acerca dos profetas, Ele disse que: “…os profetas e a lei profetizaram até João”. Ou seja, tanto os profetas quanto a lei apontavam para a vinda de Cristo em carne, e o profeta João Batista foi o último a profetizar acerca da vinda do Messias em carne ( Mt 3:11 ).

Os profetas, da qual Jesus fez referência, profetizavam acerca de algo que não lhes era plenamente compreensível. Da mesma maneira a lei, que é uma profecia acerca do Cristo, mas que não era plenamente compreendida pelo povo.

A abordagem de Paulo é diferente da abordagem feita por Jesus.

Paulo fala do mistério que foi revelado aos apóstolos e profetas. O mistério revelado é que os gentios também são herdeiros da promessa por meio do corpo de Cristo.

A revelação do mistério que estava oculto se deu aos apóstolos (como é o caso do apóstolo Paulo), e aos profetas (como é o caso de algumas pessoas que foram nomeadas como profetas) “E, demorando-nos ali por muitos dias, chegou da Judeia um profeta, por nome Agabo” ( At 21:10 ).

A lei e os profetas falavam da vinda do Messias em carne, mas não deixava claro que através de Cristo os gentios e judeus formariam um só corpo. Porém, agora, o mistério foi revelado, e os apóstolos e os profetas passaram a compreender a grandeza do evangelho.

Os profetas que profetizaram acerca da vinda do Messias duraram até João. Os profetas que Paulo faz referência profetizaram muitas coisas aos apóstolos e a igreja, e estes não estão inclusos no alerta de ( Mt 3:11 ); “E, achando discípulos, ficamos ali sete dias; e eles pelo Espírito diziam a Paulo que não subisse a Jerusalém” ( At 21:4 ).

 

6 A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho;

Este versículo demonstra a compreensão do apóstolo acerca do mistério que foi revelado.

O mistério que esteve oculto e que agora foi revelado aos apóstolos e profetas é que os gentios são co-herdeiros e membros de um mesmo corpo.

Por meio do evangelho os gentios tornaram-se participantes da promessa feitas a Abraão.

A promessa foi feita a Abraão, e por meio de Cristo os gentios tornam-se participantes da promessa “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

 

7 Do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder.

Este versículo complementa a apresentação inicial do apóstolo.

Paulo identificou-se como apóstolo de Cristo pela vontade de Deus ( Ef 1:1 ), e aqui ele complementa que foi feito ministro do evangelho, segundo o dom da graça de Deus que a ele foi dado, segundo a operação do seu poder.

Verifica-se que o contexto continua sendo o poder de Deus. No capítulo um, versículo dezenove, o apóstolo orou a Deus para que os irmãos se conscientizassem “da suprema grandeza do seu poder” ( Ef 1:19 ).

O poder de Deus foi manifesto em Cristo ao ressuscitá-lo dentre os mortos e em nós, ao nos vivificar dos mortos ( Ef 2:5 -6). E, pelo mesmo poder, Paulo foi feito ministro do evangelho, apóstolo dos gentios.

 

8 A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo,

Paulo demonstra conhecer a sua real condição perante Deus quando diz ser o mínimo de todos os santos.

A graça de Deus concedeu salvação ao apóstolo, porém, também lhe foi dada à incumbência de anunciar o evangelho aos gentios.

Mas, há algo neste versículo que nos chama atenção: o mínimo de todos os santos. Desde a apresentação inicial da carta, o apóstolo nomeia os destinatários de santos “…aos santos que estão em Éfeso…” ( Ef 1:1 ); “…para sermos santos e irrepreensíveis….” ( Ef 1:4 ); “…e o vosso amor para com todos os santos” ( Ef 1:15 ); “…quais as riquezas da glória da sua herança nos santos” ( Ef 1:18 ); “…mas concidadãos dos santos, e da família de Deus” ( Ef 2:19 ); “…como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas” ( Ef 3:5 ), etc.

Estes versículos apresentam uma condição dos cristãos perante Deus, e não somente um título de tratamento entre os irmãos.

 

9 E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo;

A missão do apóstolo era anunciar as riquezas insondáveis de Cristo e demonstrar a todos os homens a dispensação do mistério que esteve oculto ao longo dos séculos.

O contato que os homens têm é com a mensagem do evangelho, que contém o mistério revelado e que torna compreensíveis as riquezas de Cristo. Diferente é o aspecto deste mesmo evangelho para os seres celestiais.

 

10 Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus,

Os seres celestiais tinham consciência do poder de Deus e de que o Verbo de Deus participou da criação, visto que, em Cristo todas as coisas foram criadas.

Porém, agora, pela igreja, estes seres celestiais passaram a conhecer a multiforme sabedoria de Deus.

É interessante observar que os seres celestiais têm contato constante com o poder de Deus, que a tudo criou por meio de Cristo, mas nem mesmo eles conheciam a multiforme sabedoria ( Ef 1:9 -10).

 

11 Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor,

O eterno propósito de Deus de fazer convergir em Cristo todas às coisas tornou conhecido aos principados e potestades nos céus a multiforme sabedoria de Deus.

A nós, os homens, foi revelado o mistério e a possibilidade de compreendermos as riquezas de Cristo.

 

12 No qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele.

Em Cristo Jesus, os cristãos têm ousadia e acesso a Deus, pela confiança adquirida. Sobre a confiança a carta de Tiago é esclarecedora.

É pela fé em Cristo que se tem ousadia e confiança “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus” ( Hb 10:19 ).

 

13 Portanto, vos peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, que são a vossa glória.

Paulo era o prisioneiro de Cristo, mas não queira que os irmãos desfalecessem por causa dele. Antes, os cristãos deveriam reputar as tribulações de Paulo como sendo uma glória deles.

Os cristãos não deveriam desfalecer ante as tribulações do apóstolo, antes deveriam tê-las (as tribulações) como uma confirmação de que o perseguidor era quem anunciava o evangelho.

 

14 Por causa disto me ponho de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,

O apóstolo demonstra outro motivo pela qual orava constantemente ao Senhor: que as suas tribulações não se tornem em empecilho aos cristãos.

O primeiro momento de oração foi para que Deus concedesse aos cristãos sabedoria e revelação em seu conhecimento ( Ef 1:16 -19).

 

15 Do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome,

Todas as criaturas de Deus refugiam-se em seu nome ( Ef 1:10 ).

 

16 Para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior;

Temos duas referências a riquezas da graça ( EF 1:7 ; Ef 2:7 ), e duas referências a riquezas da glória.

As duas últimas referências foram utilizadas em momento de oração. As riquezas incompreensíveis de Cristo dizem das riquezas da graça que é por meio do evangelho, loucura para os que perecem “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:23 ).