Salmo 26 – Aquele que lava as mãos na inocência

Ao ler o Salmo 26, o leitor precisa considerar a pessoa de Cristo e que o salmista era profeta. É imprescindível considerar que o salmista não estava orando a Deus confiado em si mesmo, antes, profetizava acerca do Cristo.


Salmo 26 – Aquele que lava as mãos na inocência

“1 JULGA-ME, SENHOR, pois tenho andado em minha sinceridade; tenho confiado também no SENHOR; não vacilarei. 2 Examina-me, SENHOR, e prova-me; esquadrinha os meus rins e o meu coração. 3 Porque a tua benignidade está diante dos meus olhos; e tenho andado na tua verdade.  4 Não me tenho assentado com homens vãos, nem converso com os homens dissimulados. 5 Tenho odiado a congregação de malfeitores; nem me ajunto com os ímpios. 6 Lavo as minhas mãos na inocência; e assim andarei, SENHOR, ao redor do teu altar. 7 Para publicar com voz de louvor e contar todas as tuas maravilhas. 8 SENHOR, eu tenho amado a habitação da tua casa e o lugar onde permanece a tua glória. 9 Não apanhes a minha alma com os pecadores, nem a minha vida com os homens sanguinolentos, 10 Em cujas mãos há malefício, e cuja mão direita está cheia de subornos. 11 Mas eu ando na minha sinceridade; livra-me e tem piedade de mim. 12 O meu pé está posto em caminho plano; nas congregações louvarei ao SENHOR” (Salmo 26:1-12).

 

Introdução

Outro Salmo do profeta Davi (1 Cr 25:1-3), portanto, se faz necessário interpretá-lo, considerando que, pelo espírito, o rei e salmista Davi não falava acerca de si mesmo, mas do seu Filho, o Messias.

“Sendo, pois, ele (Davi) profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que, do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono. Nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no inferno, nem a sua carne viu a corrupção.” (At 2:30-31)

Da mesma forma que o Salmo 16 refere-se a Cristo, uma profecia de Davi acerca da ressureição do Cristo, o Salmo 26 apresenta mais algumas características do Messias de Israel.

“Porque dele disse Davi: Sempre via diante de mim o Senhor, Porque está à minha direita, para que eu não seja comovido; Por isso, se alegrou o meu coração e a minha língua exultou; E ainda a minha carne há de repousar em esperança; Pois não deixarás a minha alma no inferno, Nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção; Fizeste-me conhecidos os caminhos da vida; Com a tua face me encherás de júbilo.” (At 2:25-28; Sl 16:8-11)

 

Homem sincero

“1 JULGA-ME, SENHOR, pois tenho andado em minha sinceridade; tenho confiado, também, no SENHOR; não vacilarei. 2 Examina-me, SENHOR, e prova-me; esquadrinha os meus rins e o meu coração. 3 Porque a tua benignidade está diante dos meus olhos; e tenho andado na tua verdade.”

Qualquer homem, inclusive o salmista Davi, quando se apresenta diante de Deus, assim o faz confiado na misericórdia, não em sua própria integridade e retidão.

“Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém, caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens, não caia eu.” (2 Sm 24:14)

Observe a oração do profeta Daniel:

“Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos e olha para a nossa desolação e para a cidade que é chamada pelo teu nome, porque não lançamos as nossas súplicas perante a tua face, fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias. (Dn 9:18).

A oração contida no Salmo 26 não pertence ao salmista Davi, pois não tem por base a misericórdia de Deus, antes, tem por base a integridade de quem roga. Por ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado (escravo do pecado), sem falar nas falhas de caráter (tropeços diários), jamais o rei Davi poderia fazer essa oração.

A única pessoa que andou sobre a terra e podia fazer essa oração, confiado em sua integridade, diz do Filho de Deus encarnado, por conseguinte, do Filho de Davi, segundo a carne (2 Sm 7:14). Essa mesma oração repete-se pelos Salmos, por serem profecias acerca do Cristo.

“O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça e conforme a integridade que há em mim” (Sl 7:8).

“Provaste o meu coração; visitaste-me de noite; examinaste-me e nada achaste; propus que a minha boca não transgredirá” (Sl 17:3).

A certeza do Cristo, acerca da sua integridade, é tamanha que, em alguns Salmos, Ele faz algumas imprecações de infortúnios que poderiam alcançá-lo, caso não fosse justo e íntegro:

“SENHOR meu Deus, se eu fiz isto, se há perversidade nas minhas mãos, se paguei com o mal àquele que tinha paz comigo (antes, livrei ao que me oprimia sem causa),persiga o inimigo a minha alma e alcance-a; calque aos pés a minha vida sobre a terra e reduza a pó a minha glória. (Selá.)” (Sl 7:3-5).

O Cristo se apresenta para ser examinado e provado por Deus, refugiado em sua própria integridade. A oração é um rogo a Deus, que sonde os seus pensamentos (rins) e vontade (coração) e O prove (Pv 23:16; Sl 16:7; Lv 8:13; 1Pe 1:13), pois Ele tem certeza da sua inocência (v. 6).

Cristo tinha diante dos seus olhos a bondade (amor, mandamentos) de Deus e a sua comida era fazer a vontade de Deus (caminhava na verdade).

“Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.” (Jo 4:34);

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.” (Jo 15:10).

 

Roda dos escarnecedores

4 Não me tenho assentado com homens vãos, nem converso com os homens dissimulados. 5 Tenho odiado a congregação de malfeitores; nem me ajunto com os ímpios.

Através da descrição que o Cristo faz da sua conduta, podemos classificá-Lo como o homem bem-aventurado, conforme o Salmo 1! Como os olhos de Cristo estão fitos no amor de Deus (v. 3), certo é que o seu prazer (comida) é na lei do Senhor e nela medita de dia e de noite (Sl 1:2).

Apesar de Cristo se assentar para comer na companhia de pecadores (publicanos e prostitutas), nunca se assentou (teve comunhão) com os homens vãos (escribas, fariseus, saduceus, príncipes, etc.), ou seja, nunca comungou das suas doutrinas.

Quando o Salmo diz: não me assento com homens ímpios, significa que o Cristo não teria comunhão com o que eles ensinavam. Cristo não se associou aos mentirosos, ou seja, aos trapaceiros ou, dissimulados. Ele odeia o ajuntamento de malfeitores, ou seja, dos ímpios.

Quem são os mentirosos? Os malfeitores? Os ímpios?

O Salmo 58 descreve os mentirosos como todos os homens, inclusive os judeus, pois se desviaram desde a madre, em virtude do que aconteceu no Éden.  Desde que nascem andam errados e proferem mentiras (Sl 58:3), pois todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos (Sl 53:3).

 

O inocente

6 Lavo as minhas mãos na inocência; e assim andarei, SENHOR, ao redor do teu altar. 7 Para publicar com voz de louvor e contar todas as tuas maravilhas. 8 SENHOR, eu tenho amado a habitação da tua casa e o lugar onde permanece a tua glória.

Os acusadores de Cristo apregoavam a necessidade de lavar as mãos com água antes de fazer refeições (Mc 7:2-3), mas, Cristo lavou as mãos na inocência, na inculpabilidade diante de Deus, e por isso podia estar junto ao altar, na condição de sumo sacerdote do Altíssimo, anunciando os louvores e as maravilhas de Deus.

Cristo teria cuidado da casa de Deus, o lugar onde a glória de Deus permanece. Que casa seria essa? O seu corpo, a sua Igreja, santuário para todos os povos! (Is 8:14)

“Pois o zelo da tua casa me devorou e as afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (Sl 69:9)

Como a promessa de Deus a Davi era que o seu Filho haveria de construir uma casa a Deus (2 Sm 7:13), Cristo foi feito a pedra de esquina e sobre Ele, o fundamento dos apóstolos e profetas, está sendo erguido um templo santo com pedras vivas. (Ef 2:20-22; 1 Pe 2:5).

O louvor anunciado por Cristo está nos seus ensinamentos, que é segundo mando do Pai: “Os meus lábios proferiram o louvor, quando me ensinaste os teus estatutos.” (Sl 119:171; Jo 12:49-50)

 

9 Não apanhes a minha alma com os pecadores, nem a minha vida com os homens sanguinolentos, 10 Em cujas mãos há malefício e cuja mão direita está cheia de subornos.

A oração do Cristo é segundo a vontade de Deus, pois espera que a sua alma não tenha o mesmo fim que a dos pecadores, ou seja, os homens violentos. Os homens violentos, com as mãos manchadas de sangue, diz dos religiosos que continuamente traziam os seus sacrifícios diante do altar. (Is 66:3)

A oração não aponta para um problema social, mas, utiliza-se de figuras para descrever aqueles que querem tomar o reino dos céus à força, através da violência dos seus sacrifícios, e não se socorriam do espírito do Senhor. (Zc 4:6)

“Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas.” (Jr 9:23)

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17:5)

Os sacrifícios, os ajuntamentos solenes, as luas, as festas, etc., diante de Deus eram abominações:

“OUVI a palavra do SENHOR, vós filhos de Israel, porque o SENHOR tem uma contenda com os habitantes da terra; porque na terra não há verdade, nem benignidade, nem conhecimento de Deus. Só permanecem o perjurar, o mentir, o matar, o furtar e o adulterar; fazem violência, um ato sanguinário segue imediatamente a outro” (Os 4:1-2).

O protesto dos profetas não era por questões sociais, mas pela violência que fizeram à lei, quebrando a aliança:

“Porque as vossas mãos estão contaminadas de sangue e os vossos dedos de iniquidade; os vossos lábios falam falsidade, a vossa língua pronuncia perversidade. Ninguém há que clame pela justiça, nem ninguém que compareça em juízo pela verdade; confiam na vaidade e falam mentiras; concebem o mal e dão à luz a iniquidade. Chocam ovos de basilisco e tecem teias de aranha; o que comer dos ovos deles, morrerá; e, quebrando-os, sairá uma víbora. As suas teias não prestam para vestes, nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade e obra de violência há nas suas mãos.” (Is 59:3-6)

Quem se desvia da palavra de Deus prevarica e mente. Quem concebe e fala palavras segundo o seu coração enganoso, fala de opressão e de rebelião.

“Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade.” (Is 59:13).

Essa é a palavra do Senhor para aqueles que julgam segundo a aparência e não segundo a reta justiça, que é a palavra de Deus:

“Ouvi agora isto, vós, chefes da casa de Jacó e príncipes da casa de Israel, que abominais o juízo e perverteis tudo o que é direito, edificando a Sião com sangue e a Jerusalém com iniquidade. Os seus chefes dão as sentenças por suborno e os seus sacerdotes ensinam por interesse,  os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao SENHOR, dizendo: Não está o SENHOR no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá.” (Mq 3:9-11)

 

Sincero

11 Mas eu ando na minha sinceridade; livra-me e tem piedade de mim. 12 O meu pé está posto em caminho plano; nas congregações louvarei ao SENHOR.

O Cristo declara que é integro, sincero, ou seja, fala a verdade segundo o seu coração (Sl 15:2). Ele roga por socorro, pela compaixão do Pai. Por andar segundo a palavra do Pai, o pé do Cristo estava em caminho reto e no ajuntamento solene anunciaria o nome do Senhor, salvação para todos os povos!

A certeza de salvação é plena, de modo que Cristo tinha por certa a angústia, mas que Deus também o traria à vida:

“Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos e a tua destra me salvará.” (Sl 138:7)

“Ele me invocará e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei e o glorificarei. Fartá-lo-ei com longura de dias e lhe mostrarei a minha salvação.” (Sl 91:15-16)

Observe que a oração do Cristo tem apoio na promessa do Pai. Ambas, oração e promessa se complementam.

Somente o Cristo teve condições de orar ao Pai, nos seguintes termos:

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” (Sl 139:23-24)

“O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano.” (1 Pe 2:22; Is 53:9)

Ao ler o Salmo 26, o leitor precisa considerar a pessoa de Cristo e que o salmista era profeta. É imprescindível considerar que o salmista não estava orando a Deus confiado em si mesmo, antes, profetizava acerca do Cristo. Cristo, o Filho de Davi, é o Ungido do Senhor que andou na sua sinceridade e integridade e que podia rogar ao Pai para sondá-Lo.

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




Tiago 2 – Fé e obras

De nada aproveita ao homem dizer que tem fé (que crê em Deus) e não ter obras (obedecer). Só é plenamente aceitável e aproveitável se ele tiver fé (crer) e as obras (obedecer).


Tiago 2 – Fé e obras

 

Introdução

O comentário ao capítulo 1 da Carta do apóstolo Tiago contém os elementos necessários à interpretação do capítulo 2.

Declarações do apóstolo como: “Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma”, ou “assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”, tem suas bases no capítulo um.

Antes de continuarmos a explicação versículo à versículo, já é possível determinarmos o tema central da carta: a perseverança dos cristãos no evangelho.

A prova da VOSSA fé produz a perseverança ( Tg 1:2 ). Neste versos Tiago destaca que o crente que suporta a provação é bem-aventurado (v. 12). A perseverança é condição essencial para se alcançar à bem-aventurança prometida por Deus aos que O amam (v. 25).

“Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo.” (Mateus 24:13).

Nesta linha de raciocínio, o apóstolo Paulo também destacou que a perseverança é produzida na tribulação ( Rm 5. 3 ). O escritor aos Hebreus também demonstrou que é necessária a perseverança depois que se crê em Cristo:

“Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ).

Perseverança: Obra completa da fé (confiança, crença) posta à prova ( Tg 1:3 -4);

A vontade de Deus: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

Apesar de  estar endereçada ‘às doze tribos da dispersão’ ( Tg 1:1), o conteúdo da carta é de suma importância a todos os cristãos, e não somente aos cristãos convertidos dente os judeus.

O apóstolo Tiago demonstra que a fé (confiança) do cristão ao ser provada desenvolve a perseverança. Esta ideia é confirmada pelo apóstolo Paulo: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência…” ( Rm 5:3 ).

A prova da fé (confiança) produz a perseverança, e a perseverança é a obra completa da fé (confiança), como se lê abaixo:

“Sabendo que a prova de voffa fé obra a paciencia. Tenha porém a paciencia a obra perfeita, peraque perfeitos e totalmente finseros fejaes, em nada faltando”

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Tiago insta os leitores a entenderem que a prova da confiança deles produz a perseverança. Após a provação, restava aos cristãos e estarem de posse da perseverança, que é a obra completa (perfeita) da confiança que nutriam no evangelho.

Este aspecto da confiança dos cristãos é retratado pelo apóstolo Paulo aos cristãos de Tessalonicenses, ao enfatizar a perseverança de Cristo:

“Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo” ( 2Ts 3:5 ).

Tanto o apóstolo Paulo quanto Tiago concordam que a perseverança é a obra perfeita da fé (crer):

“Bem-aventurado o homem que suporta com perseverança a provação…” ( Tg 1:12 ; Rm 5:3 ).

O homem será bem-aventurado no que realizar quando suporta a provação, visto que atenta para a lei perfeita, a da liberdade. Esta é a obra a se executar: a perseverança ( Tg 1:25 ).

A fé que Tiago faz referência diz da confiança do individuo na palavra da verdade. Decorre da fé (evangelho) que uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3). A confiança em Cristo quando provada (produz) a perseverança.

Em resumo, o capítulo um demonstra a obra da confiança do homem (fé) quando provada: a perseverança.

A perseverança é algo próprio da confiança, pois se alguém confia persevera. A fé como verdade, fundamento, fidelidade, não vem do cristão, mas de Deus, e a perseverança é resultado de uma confiança inabalável na fidelidade revelada no evangelho. A perseverança (fé) é característica de quem possui a fé (evangelho).

 

 

Alerta Segundo a Lei Real

1 Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas.

Novamente o apóstolo Tiago demonstra a fraternidade em Cristo: meus irmãos.

A fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória é coletiva. A fé no sentido de evangelho pertence ao Senhor da glória e ela foi dada aos cristãos ( Jd 1:3 ; Ef 2:8 ; Tg 1:3 ).

Apesar da fé ser entregue aos santos, estes não deviam tê-la em acepção de pessoas, pois o evangelho não era só para os judeus, mas para todso os povos.

Este versículo é um aconselhamento, e em seguida é dado um exemplo.

 

2 Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, 3 E atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, 4 Porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?

O exemplo de acepção de pessoas para ter o foco nas diferenças socioeconômicas, no entanto, não é esse o objetivo de Tiago.

Imaginemos que em uma reunião formada por cristãos judeus entrasse um com anel de ouro, e outro maltrapilho, e aquele com traje precioso fosse honrado e o maltrapilho desprezado, é evidente que ouve acepção de pessoas.

Mas, Tiago não estava escrevendo a judeus, mas a cristãos convertidos dentre os judeus, e como a entrada de pessoas nas reuniões dos cristãos era livre, diferente do ajuntamento dos judeus, nas reuniões os cristãos convertidos dentre os judeus não podiam fazer acepção de pessoas, preferindo os judeus em detrimento dos gentios.

Em um primeiro momento o exemplo parece hipotético, porém, a exortação torna-se incisiva, isto porque fizeram distinção entre eles mesmos, preferindo uns em detrimento de outros. A distinção que faziam não era por questões econômicas, pois um judeu em uma sinagoga não era rejeitado por ser pobre, e sim por questões de nacionalidade.

 

5 Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?

O agora é o momento para qual os cristãos foram preparados: “Ouvi, meus amados irmãos…” ( Tg 1:19 ).

A linguagem utilizada neste verso é essencialmente evangelística: Deus escolheu os ‘pobres aos olhos do mundo’ para serem ‘ricos na fé’.

Os termos ‘ricos’ e ‘pobres’ neste verso não tem viés econômico, antes são duas figuras para fazer referência, respectivamente, àqueles que crucificaram o Cristo e àqueles que aceitam o evangelho de Cristo. Compreendendo essas duas figuras, evidencia a essência do exemplo do homem com anel no dedo e o de traje andrajoso.

Neste versículo não há qualquer promessa melhora ou mudança na condição financeira dos cristãos. Qualquer tipo de promessa de melhora na condição financeira dos cristãos após aceitarem a Cristo não é bíblica.

Observe que a promessa confere direito aos cristãos, porém, a herança está atrelada ao reino prometido, que não é deste mundo.

 

6 Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais?

O irmão Tiago é incisivo e expõe um problema no seio da igreja: “Mas vós desonrastes o pobre”. Aqueles que precisavam ouvir tal queixa e acusação já haviam sido preparados – sejam prontos a ouvir e perseverantes.

Que pobre eles desonraram? O irmãos em Cristo convertido dentre os gentios. E quem eles honravam? Alguém que tinha por sobrenome judeu, a mesma estirpe de pessoas que oprimiam os seguidores de Cristo e os arrastavam aos tribunais.

Aqueles que sofreram a afronta também estavam preparados: sejam tardios em falar, e tardios em irar.

O tema da carta é perseverar, e no capítulo 1, Tiago reuniu elementos que preparou o ânimo dos seus leitores, pois os humildes são chamados de irmãos e herdeiros de alta posição: filhos de Deus; mas, os ricos, possuem um veredicto: passará como a erva ( Tg 1:9 -10).

Só os humildes permanecem para sempre, o que contrasta com a condição do rico, que é fugaz:

“E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” (I João 2:17)

 

Recomendações

7 Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?

Os ricos segundo os parâmetros deste mundo, além da opressão que impunham aos cristãos, acabavam por levá-los aos tribunais.

 

8 Todavia, se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: Amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fazeis.

Se os leitores da carta de Tiago andassem conforme as Escritura (A. T.), estariam realizando o bem “E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem” ( 2Ts 3:13 ).

Observe a distinção que Tiago faz dos elementos da lei ao citar um único trecho de Levítico (a Escritura): deveriam cumprir a lei real, ou o que foi instituído por Cristo “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR” ( Lv 19:18 ; Mc 12:31 ).

 

9 Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores.

O apóstolo Tiago faz esta declaração com base neste versículo: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” ( Tg 4:17 ).

Aquele que não anda conforme a lei real, este é transgressor e comente pecado, pois tal pessoa ainda não teve um encontro real com Cristo “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas” ( 1Jo 2:9 ).

 

10 Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos.

Este é um parâmetro da lei: um ‘simples’ tropeço em qualquer ponto leva a pessoa subordinada a ela a derrocada total.

 

11 Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tu, pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei.

Este versículo é um exemplo aplicado dos parâmetros da lei que foi apresentado no versículo anterior.

 

12 Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade.

Este versículo contempla o argumento do apóstolo João: “Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas” ( 1Jo 2:9 ). O procedimento do cristão deve estar em conformidade como que ele professa.

Ao falar: “Amarás o teu próximo, como a ti mesmo”, deveriam proceder conforme o que diziam. Deveriam falar conforme a lei régia e proceder conforme ela estipula.

Aquele que procede conforme o que fala, age assim por saber que será julgado pela lei da liberdade. Tal julgamento é de obras e se dará no Tribunal de Cristo “Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo” ( Rm 14:10 ); “Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 ).

A lei da liberdade nos remete ao versículo vinte e cinco do capítulo um: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” ( Tg 1:25 ).

Aquele que não é relapso, ou seja, que atenta bem para a lei da liberdade, cumpre com o determinado e é bem-aventurado no seu feito.

Ele é bem-aventurado por suportar com perseverança a tentação. A fé que ele recebeu deve se desenvolver, tornando-se perseverante.

 

13 Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa do juízo.

A misericórdia divina só é demonstrada aos homens em particular quando este tem um encontro com Ele.

Sabemos que Deus amou o mundo de tal maneira, e que deu o seu Filho unigênito. Está é a misericórdia de Deus demonstrada ao mundo, em que seu Filho morreu, sendo nós ainda pecadores.

Mas, para que o homem seja participante desta misericórdia deve crer em Cristo para ser participante da luz.

Todos aqueles que creem em Cristo são participante de sua natureza e devem andar como ele andou. Contudo, devemos observar o que diz o apóstolo João: “Outra vez vos escrevo um mandamento novo, que é verdadeiro nele e em vós; porque vão passando as trevas, e já a verdadeira luz ilumina. Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos” ( 1Jo 2:8 -11).

Aquele que não faz misericórdia é porque está em trevas e anda nas trevas. Não conhece a Deus, ou antes, não é conhecido por Ele. Tal homem, por não ser perseverante, ou seja, não continuou na fé que professava, uma vez viu, mas agora não sabe para onde deva ir, pois as trevas cegaram os seus olhos.

Estes são aqueles que não fazem misericórdia e terão o juízo de Deus.

O apóstolo João é bem claro com relação ao amor: “Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” ( 1Jo 3:23 ).

O mandamento de Deus é claro: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Somente após crer no enviado do Pai, é que o amor ao semelhante passa a ter valor diante de Deus. Devemos nos amar segundo o mandamento que foi ordenado: que creiais naquele que Ele enviou.

 

Porventura a Fé pode salvá-los?

14 Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?

O apóstolo Tiago continua a exposição do versículo doze: “Assim falai, e assim procedei…”. Qual o proveito se alguém disser que tem fé e não tiver as obras? Esta pergunta encontra resposta nos versículos seguintes.

“Meus irmaõs, que aproveita, fe alguem differ que a fé tem, e as obras não tiver? por ventura pode o a [tal] fé falvar?

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

O leitor deve observar atentamente a construção do versículo 14: alguém diz que tem fé, porém, ele não tem as obras.

De nada aproveita ao homem ter fé e não ter obras. Só é plenamente aceitável e aproveitável se ele tiver a fé e as obras.

Certa feita algumas pessoas se achegaram a Cristo e perguntaram: “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ). Jesus respondeu: A obra de Deus é esta: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

O que esta passagem nos ensina? Que as pessoas geralmente estão em busca de algo material, e não de Deus. A multidão estava a procura de Jesus por causa do pão que comeram (v. 26), porém, a mensagem e os sinais demonstrados não os fez compreender que Jesus era o Cristo (v. 27).

Quando Jesus demonstra que eles o buscavam de maneira enfatuada, interpelaram: “Que faremos para executar a obra de Deus?”.

Geralmente os homens que ainda não tiveram um encontro com Cristo, entendem que para se aproximar de Deus, ou que para agradá-lo, é necessário fazer alguma coisa. Observe que a multidão queria fazer a obra de Deus.

Quando Jesus revela a obra a ser realizada (que creiais naquele que ele enviou), estes apresentam empecilhos: “Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu?” ( Jo 6:30 ).

A humanidade é voluntariosa quando se proclama afazeres. Constroem grandes templos, fazem grandes sacrifícios, são generosos nas esmolas, porém, quando tomam ciência do que devem fazer, que é crer em Cristo, estes pedem um sinal.

O jovem rico ao se aproximar de Jesus fez a mesma pergunta: “Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?” ( Mt 19:16 ). Jesus enumerou algumas coisas pertinentes à lei, e o jovem rico demonstrou que aquela era sua prática de vida, mas ele queria fazer algo mais para ter garantia da vida eterna “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” ( Mt 19:20 ).

Jesus aponta o essencial para que ele alcançasse a perfeição: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 ).

A condição para alcançar a perfeição não estava no disponibilizar das riquezas, antes na crença na palavra de Cristo. Quando Jesus lhe apresentou a obra a ser realizada (crer naquele que Deus enviou), o Jovem rico recuou.

Nestas passagens Cristo confirma as palavras do apóstolo Paulo ao dizer que a salvação é por meio da fé “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ). Ou seja, que “…sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Também somos informados que as boas obras Deus preparou de ante mão para que andássemos nela “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 ). Ou melhor, que as boas obras são feitas, realizáveis em Deus “Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:21 ).

Reiterando: a salvação é por meio da fé e as boas obras foram preparadas por Deus e são feitas Nele.

Através desta análise podemos demonstrar que há uma grande diferença entre ‘obras da fé’ e o que chamamos de ‘boas ações’.

‘Boas ações’ são pertinentes e possíveis de serem realizadas por todos os homens e independe da fé. Tanto o crente quanto o incrédulo podem e devem realizar boas ações aos seus semelhantes. Mesmo aqueles que não creem em Cristo realizam boas ações, e nem por isso serão salvos.

Desta maneira é possível verificar que ‘boas obras’ não está vinculado a procedimentos humanos, já que as boas obras só são realizáveis quando o homem está em Deus por meio de Cristo.

Verifica-se que boas obras e más obras são termos utilizados que fazem referência tanto ao comportamento humano, quanto ao que é realizável em Deus “Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela” ( Rm 13:3 ).

O que define quando o texto faz referência a ‘boas ações’ e a ‘boas obras’? O contexto geralmente aponta qual a ideia a se considerar. Na citação acima, temos que ‘boas obras’ é o fazer ‘boas ações’, ou seja, o bem.

Este versículo contém elementos para nortear o entendimento do leitor, porém, há vários versículos que não dispõe do contexto para uma boa interpretação. Nestes versículos o que vale é o posicionamento doutrinário adotado pelos apóstolos.

Um exemplo claro de que devemos nos valer do posicionamento doutrinário adotado pelos apóstolos está neste versículo que estamos analisando.

A análise que fizemos acima aponta os seguintes posicionamentos doutrinários:

  • Sabemos que a salvação é por meio da fé;
  • Que a salvação é dom de Deus;
  • Que a salvação não é por obras, para que ninguém se glorie;
  • Que as boas obras são feitas em Deus;
  • Que não é possível ao homem realizar a obra de Deus;
  • Basta ao homem crer no enviado de Deus para se alcançar a salvação.

O versículo que estamos analisando apresenta os elementos seguintes:

“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?”

O versículo aponta que é necessário ter fé e ter as obras. Em momento algum o apóstolo Tiago alude que a prática de boas obras é o meio pelo qual se alcança a salvação. Em momento algum ele afirma que boas obras auxilia a fé.

Observe que as obras pertencem à fé (obras da fé). As obras da fé que Tiago faz alusão não podem ser confundidas com ‘boas ações’.

Neste versículo o apóstolo não fala de prática de boas obras, ou prática de boas ações. Ele fala de posse da fé e posse das obras da fé.

É totalmente pertinente o que Tiago escreveu e o que os outros apóstolos escreveram.

Primeiro porque a Bíblia demonstra que a fé é proveniente de Deus “E pela fé no seu nome fez o seu nome fortalecer a este que vedes e conheceis; sim, a fé que vem por ele, deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde” ( At 3:16 ; Rm 12:3 ; 1Co 12:9 ).

Qualquer tipo de prática não torna o homem agradável a Deus “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” ( Gl 3:12 ).

Novamente o apóstolo Paulo excluiu qualquer prática: “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:5 ).

Não existe contradição alguma entre Paulo e Tiago, pois Tiago não fala em pratica de obras, mas sim da posse da posse das obras da fé.

Para ilustrar a ideia, Tiago estabelece um exemplo:

 

 

Fé e Obras

15 E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, 16 E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?

Estes dois versículos são bases para um comparativo.

Perceba que os dois versículos não constituem uma exortação à prática destas ações, pois a questão de alimentar o faminto era algo já resolvido entre os cristãos, tão resolvido que o apóstolo utiliza como exemplo para mostrar a inutilidade da fé sem as obras.

É uma constante em nossos dias utilizar este comparativo como base para instar as pessoas a serem praticantes de boas ações. Para isso utilizam o jargão: ‘Está escrito’! Está escrito que de nada adianta visitar o irmão necessitado sem dar-lhe o necessário ao sustento.

Estes dois versículos são duas perguntas com respostas prontas. O apóstolo já sabia da resposta dos leitores.

‘Meus irmãos, qual é o proveito…?’ (v. 14)

‘Se (…) qual o proveito disso?’ (v. 15- 16).

A resposta do versículo quatorze é negativa, e a dos versículos quinze e dezesseis era de se esperar negativa.

É necessário dar alimento e roupa a quem tem necessidade? Sim! Mas, a ideia em discussão vem do versículo seguinte:

17 Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

O versículo inicia-se através de uma comparação com o exemplo do versículo anterior. A leitura da ideia do versículo anterior é de que nada adianta falar ao necessitado que se satisfaça sem prover-lhe os meios para tanto. Assim também, ou seja, da mesma forma a fé.

Assim também a fé é sem efeito, ou seja, em si mesma está morta, pois não tem o que lhe é próprio: as obras. As obras são concernentes a fé, de sorte que se ela não tiver as obras, a morte também lhe será própria.

Quais são as obras da fé?

A paciência é a obra perfeita da fé e nela estão contidas todas as outras obras. Observe:

“Sabendo que a prova da vossa fé opera a paciência. Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” ( Tg 1:3 -4).

Os cristãos deveriam ter a paciência, a obra perfeita da fé!

O apóstolo não faz referência à prática de obras, mas a posse da obra perfeita da fé.

É certo que a perseverança termina a obra que teve início através da fé, e que nela estão inclusas todas as outras obras.

O texto é claro: a fé quando provada produz a paciência, a obra perfeita da fé.

A obra em discussão é a da fé, e não a obra do homem que pratica boas ou más ações.

Sobre as questões comportamentais da nova criatura (as boas obras), o apóstolo Paulo recomenda aos cristãos agirem em conformidade ao ‘fruto do Espírito’ “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:22 -25).

O apóstolo Tiago ao falar das obras da fé retrata as mesmas questões do apóstolo Paulo quando fala do fruto do Espírito. As obras da fé e o fruto do Espírito são questões pertinentes ao homem interior, que devem influenciar o comportamento deste mesmo homem nas suas relações com o mundo “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito. Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros” ( Gl 5:25 -26).

Observe que o fruto é do Espírito da mesma forma que as obras são da fé. Se tal fé não possuiu as obras que dela decorrem, é morta em si mesmo. Aquele que possui a fé deve também estar de posse das obras que a fé produz “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (v. 14).

As obras que o crente deve ter posse são as da fé, e difere das boas ações que os cristãos devem efetivamente praticar (diferente de ter).

É fácil visualizarmos que as obras da fé não dizem respeito às questões comportamentais (obras do homem) quando compreendemos que todos os homens, sejam salvos ou não, podem praticar boas ações.

De outra forma, é fácil verificarmos que as boas obras dizem respeito àqueles que vêm para Cristo por meio da fé, e que tais obras somente se realizam em Deus ( Jo 3:21 ; Is 26:12 ; Ef 2:10 ). Ou seja, não é possível àqueles que não aceitaram a Cristo como salvador terem boas obras ou o fruto do Espírito. Primeiro porque não são nascidos do Espírito; Segundo porque as boas obras são feitas em Deus.

Porém, há um outro aspecto a se considerar com relação àqueles que estão em Cristo: o homem regenerado realiza as boas obras por estarem em Deus por meio de Jesus, conforme lemos em Isaías “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ); porém, este mesmo homem realiza boas e más ações, e estas serão provadas como pelo fogo quando do Tribunal de Cristo ( 2Co 5:10 ) “E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:12 -15).

 

 

A Nova Criatura:

  • É nascida de Deus “O que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 );
  • As boas obras são feitas em Deus “… a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” ( Jo 3:21 );
  • As boas obras foram preparadas por Deus “…criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” ( Ef 2:10 );
  • Porém, a nova criatura pode praticar boas e más ações “… cada um receberá segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” ( 2Co 5:10 );
  • E será salvo “…mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo” ( 1Co 3:12 -15);
  • Ele é salvo por meio da fé e deve estar de posse das obras da fé. É espiritual e deve andar (comportar) segundo o Espírito ( Gl 5:25 ).

 

A Velha Criatura

  • É nascida da semente de Adão “Necessário vos é nascer de novo” ( Jo 3:7 ), e precisa nascer novamente, da semente incorruptível, a palavra de Deus;
  • As suas obras são más “…os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” ( Jo 3:19 );
  • Fazer o mal está ligado à natureza, e não as ações do homem não regenerado “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Tampouco podeis vós fazer o bem, acostumados que estais a fazer o mal” ( Jr 13:23 );
  • A velha criatura pode fazer boas e más ações, porém não pode realizar o bem “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 );
  • Como a velha natureza está vendida ao pecado como escrava, por mais que se tenha vontade, não realizará o bem “…com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ); Por mais que se queira fazer o bem é uma impossibilidade que reside na natureza decaída, que é escrava do pecado;
  • Por mais que pratiquem boas ações, jamais a velha criatura verá o reino dos céus, pois sobre ela pesa uma condenação “…quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 );
  • Por mais que pratiquem boas ações, a velha criatura não possui a fé e as obras da fé. Ela não vive no Espírito e não pode andar em Espírito ( Gl 5:25 ).

 

 

A Perseverança

A carta de Tiago não foge do tema que está na introdução. Na introdução fica claro que o tema da carta é: “perseverança, obra perfeita da fé” ( Tg 1:2 -4).

Os outros escritores também fizeram referência à perseverança, e eles têm a mesma ideia sobre o seu valor.

Paulo disserta sobre o amor em I Co 13, e de maneira semelhante Tiago disserta quase que exclusivamente sobre a perseverança em sua carta.

Sobre a fé sabemos que ela foi implantada no cristão através da palavra da verdade, que é poderosa para salvar as nossas almas ( Tg 1:21 ). O apóstolo Pedro nos informa que o objetivo fim da nossa fé é salvação das nossas almas ( 1Pe 1:9 ).

Assim como Pedro, Tiago também nos informa que a fé é provada ( 1Pe 1:7 ; Tg 1:3 ).

Veja nas referências abaixo a harmonia de ideia entre Pedro e Tiago:

Aquele que é perseverante em observar a lei perfeita, a da liberdade, receberá a coroa da vida ( 1Pe 1:22 -23; Tg 1:21 e 25). Compare os textos.

A segunda carta de Pedro tem início semelhante à carta de Tiago. Pedro cumprimenta com graça e paz todos aqueles que receberam a fé por meio do conhecimento de Deus, que deu tudo que diz respeito a vida e a piedade. A essa fé alcançada deveriam diligentemente acrescentar as obras da fé.

O apóstolo Pedro enumera as obras da fé: “E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, E à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, E à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois aquele em quem não há estas coisas é cego, nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” ( 2Pe 1:5 -11; Gl 5:22 -23 ; Tg 3:17 ).

Observe que os elementos que se deve ter acrescido à fé não diz de afazeres (prática de ações ou obras). Não são os afazeres que se deve acrescentar a fé, antes os cristãos deve ter a posse da fé, e somado a ela estas outras virtudes, produzidas por meio da fé (bondade, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor). Se a fé produz (obra) a paciência, da mesma forma ela produz as virtudes enumeradas acima.

Aquele que está de posse das virtudes que decorrem da fé não estará ocioso, mas se aplicará em produzir boas ações no conhecimento de Cristo Jesus.

Da mesma forma, Tiago receita aqueles que sentissem falta de alguma coisa, que pedissem a Deus sabedoria ( Tg 1:5 ), que a todos concederia do alto ( Tg 1:17 ), a sabedoria que é pura, pacífica, moderada, tratável, misericordiosa e de bons frutos, imparcial e honesta ( Tg 3:17 ).

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Tendo posse desta sabedoria, o cristão tem os meios para mostrar através do seu bom comportamento em mansidão de sabedoria as suas obras. Se o cristão é completo, tem fé e obras, deve por meio do seu bom procedimento mostrar as suas obras em mansidão.

  • É a perseverança que termina a obra que teve início na fé ( Tg 1:3 ) – “Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:36 ). É preciso considerar que a vontade de Deus é que se creia naquele que Ele enviou. Ou seja, primeiro se crê na mensagem do evangelho e para que se possa alcançar a promessa precisa ter a perseverança, a obra perfeita da fé.
  • Não há como dissociar perseverança e fé ( Tg 1:12 ) – “Para que vos não façais negligentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas” ( Hb 6:12 ). A carta de Tiago trabalha esta ideia desde o início ( 2Ts 1:4 ).
  • A carta de Tiago trata do que se deve ter e acrescentar à fé – “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, E a paciência a experiência, e a experiência a esperança. Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos” ( Rm 5:3 -4; Rm 8:25 ). Tiago trata do comportamento do cristão enquanto com perseverança se aguarda a promessa.
  • A salvação se opera através da obra perfeita de fé – “Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; se somos consolados, para vossa consolação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos” ( 2Co 1:6 ). A salvação se opera suportando com paciência as mesmas aflições que sobrevieram aos apóstolos.

A obra que a fé opera (produz) está relacionada ao homem interior, e o capítulo um bem demonstra esta verdade.

 

18 Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.

Novo Testamento – 2ª impressão – Data da edição: 1693, com introduções e resumos da edição de 1681 de Amsterdam, além de Notas de Rodapé dos revisores – Impresso na Batávia (Ilha de Java). SBB.

Diante da afirmação anterior, alguém poderia contradizer o apóstolo dizendo: Tu tens a fé, ou seja, a afirmação é o mesmo que por em descrédito o argumento do apóstolo que acabou de dizer que a fé sem as obras é morta.

A resposta do apóstolo é: “…e eu tenho as obras:”, ou seja, ‘… e eu (que ou digo) tenho as obras’. Este alguém que diz: “Tu tens fé”, estaria querendo apontar um possível erro conceitual do apóstolo, porém, Tiago reafirma o seu posicionamento: “E eu tenho obras”.

O apóstolo Tiago põe a prova o que estava afirmando: “mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”.

O apóstolo não descarta a fé, pois o seu discurso é para que se tenha ‘as obras’ da fé. Observe que as obras é o elemento essencial da fé, pois como alguém sem as obras da fé poderia demonstrar a fé? “Mostre-me a tua fé sem as tuas obras”.

Tiago se propõe a demonstra a sua fé por intermédio de suas obras. Como a paciência é a obra perfeita da fé, é facilmente demonstrável a fé por meio do que ela produz.

 

 

A Fé Morta

19 Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem.

A crença em um só Deus é importante, porém, é inócua tal crença se não se fizer acompanhar as obras.

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (João 14:1).

De nada adianta dizer crer em Deus se o indivíduo não crê no testemunho que Ele deu acerca do seu Filho. As Escrituras é um testemunho vivo que Deus deu do seu Filho, e aqueles que creem em Cristo realizam a ‘obra’ exigida por Deus, pois Cristo mesmo disse: – ‘A obra de Deus é está: que creiais naquele que ele enviou!’

 

20 Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?

A insensatez de alguns em compreender a mensagem do apóstolo sobre as obras da fé, leva o apóstolo a dar exemplos:

 

21 Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?

A fé de Abraão foi demonstrada na perseverança em levar o seu único filho até o altar de sacrifício. Sobre este aspecto o escritor aos Hebreus assim escreveu: “Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito” ( Hb 11:17 ).

Abraão não se fez de rogado quando lhe sobreveio a provação, permanecendo firme.

Abraão foi justificado quando creu em Deus, porém a sua fé provada se demonstrou mais preciosa que o ouro, e as suas obras testemunharam acerca de sua fé “Para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 ).

 

Em Gn 15:6 a fé de Abraão foi lhe imputada para justiça, ou seja, Deus justificou a Abraão, e sobre este aspecto Paulo afirma: “Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” ( Rm 4:3 -5).

O aspecto que Paulo comenta é o da declaração divina acerca do homem: aquele que crê que Deus justifica o ímpio, esta fé é imputada como justiça. Abraão não tinha praticado nenhuma obra, mas creu. Ele estava de posse da fé que veio por meio da palavra de Deus, que lhe fez a promessa.

Tiago comenta Gn 22, onde a ação de Abraão confirma a sua fé em Deus. Neste ponto é as obras de Abraão que o justifica, ou seja, são as obras que dizem algo à respeito do pai Abraão. Em Gênesis quinze, Deus declara algo sobre Abraão, e em Gênesis vinte e dois, as obras dizem algo acerca do patriarca “…pelas obras justificado…” (v. 21).

 

22 Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada.

Através do exemplo anterior o apóstolo espera que o leitor insensato possa ver que a fé coopera com as obras, e que pelas obras a fé é aperfeiçoada. Ou seja, a prova da fé leva ao aperfeiçoamento da fé, resultando em obras pertinente à fé.

 

23 E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.

Tiago citou dois pontos distintos da Escritura: Gn 15:6 , da justificação pela fé, e 2Cr 20:7 , onde Jeosafá em pé na congregação nomeia Abraão de “amigo de Deus”.

A escritura cumpriu-se na seqüência exata e em dois pontos distintos: Deus justificou a Abraão ( Gn 15:6 ), e a sua perseverança na fé, apesar da prova, concedeu-lhe a dádiva de ser chamado de amigo de Deus “Porventura, ó nosso Deus, não lançaste fora os moradores desta terra de diante do teu povo Israel, e não a deste para sempre à descendência de Abraão, teu amigo?” ( 2Cr 20:7 ).

O cumprimento da Escritura se dá em dois momentos: Quando Deus justifica o crente Abraão e ele persevera mesmo quando a sua fé foi provada, o que lhe deu o título de amigo de Deus posteriormente. Se Abraão não estivesse de posse da obra perfeita da fé,a perseverança, jamais teria recebido o título de amigo de Deus.

 

24 Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.

Este versículo demonstra que o homem é justificado pelas obras da fé. Ou seja, o homem não é justificado somente pela fé, mas pela fé e pelas obras que esta fé produz ( Tg 1:4 ).

 

25 E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários, e os despediu por outro caminho?

A ação de Raabe em esconder os espias de Israel demonstra de maneira clara que ela havia crido em Deus. O que ela ouviu acerca do Deus de Israel foi o bastante para que ela alcançasse a fé, que logo em seguida foi posta à prova ( Js 2:1 -24).

 

 

26 Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.

Tiago conclui o pensamento com uma comparação. Assim como o corpo sem o espírito está morto, a fé sem obras é morta.

A fé sem as suas obras é morta. Não há referência as obras ou ações humanas como meio para se alcançar o favor de Deus.

O favor de Deus foi demonstrado, sendo que Cristo foi morto, e éramos ainda pecadores. Ele morreu isto porque não havia como o homem realizar algo que pudesse mudar sua realidade.

Agora que já fomos reconciliados com Deus através da morte de Cristo, haveria algo ainda a ser feito para permanecer com tal dádiva? Não!

O que o apóstolo demonstra é que devemos ter a fé e estar de posse das obras da fé.

“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” ( Hb 4:16 ).

Após cremos em Deus, devemos nos achegar ao trono da graça com confiança, certos de que em tempo oportuno acharemos graça e misericórdia.

O aproximar do trono da graça com confiança é uma das obras da fé, da mesma forma que o é reter firmemente a nossa confissão ( Hb 4:14 ).

As obras da fé são aspectos que se manifestam no homem interior, onde ele lança mão da esperança proposta. Ele possui essa consolação como ancora firme e segura da alma.

Por várias vezes Tiago chama os cristãos de irmãos.

Quando ele chama o lugar de reunião dos cristãos de ‘sinagoga’ (com base no texto grego Tg 2:2 ), é porque o conceito de igreja não se estendia ao templo, como o é em nossos dias.

As várias referências que a Bíblia registra acerca da igreja descrevem mais um reunião de pessoas do que o templo onde estavam se reunindo. Para Paulo a igreja era a união de gentios e judeus em torno do nome de Cristo ( Ef 3:10 ).

O ajuntamento dos cristãos constitui a igreja, porém o local pode ser denominado de templo, igreja ou sinagoga. À época de Tiago o termo mais preciso para o local de ajuntamento era ‘sinagoga’.

Neste aspecto o apóstolo João escreveu no Apocalipse desta maneira: “Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás” ( Ap 2:9 ); “Eis que eu farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem: eis que eu farei que venham, e adorem prostrados a teus pés, e saibam que eu te amo” ( Ap 3:9 ). O apóstolo escreve ao anjo das igrejas da Ásia, porém havia algumas pessoas que se diziam judias, mas na verdade eram sinagoga de Satanás. Ou seja, aqueles que se arrogavam no direito de se dizerem judeus queriam avocar para si a filiação divina, mas não passavam de sinagoga (templo) de Satanás.

As expressões judaicas que a carta apresenta decorrem de uma vida inteira voltada para o judaísmo. Tal característica não determina precisamente que os destinatários da carta também devam ser todos judeus convertidos ao cristianismo.

O tema da carta não é uma questão própria e exclusiva dos judeus convertidos, mas de todos quantos creem em Cristo: perseverança!

A carta não apresenta temas como idolatria e escravidão pelo simples fato de os destinatários serem cristãos. Com relação a idolatria já havia recomendações proveniente do concílio de Jerusalém ( At 15:20 ).

Não entraremos nas questões pertinentes às hipóteses das datas em que foi escrita a epístola, porém a carta não faz menção a cristãos gentios ou judeus por ser unânime entre os apóstolos desde o concílio em Jerusalém que os judeus e gentios constituem a igreja de Cristo ( At 15:14 ).

Qualquer desvio deveria ser prontamente reprimido ( Gl 2:14 ). Quem presenciou a repreensão de Paulo ou que ouviu falar de tal acontecimento, já estava mais do que alertado quanto a qualquer tipo de dissensão entre povos no seio da igreja.

As argumentações teológicas em Tiago são as mesmas que permeiam as cartas de Paulo, como já vimos em ( Tg 1:17 -18).

Aliado a está característica, não dá para afirmar que a carta de Tiago foi escrita antes dos evangelhos. A linguagem dos evangelhos é voltada para fatos históricos, com exceções ao evangelho de João.

Tiago não faz alusão ao concílio de Jerusalém, porém tal fato não pode ser utilizado para tentar precisar a data da carta, visto que tal fato não é pertinente ao tema em questão.

Há quatro indivíduos identificados como Tiago no novo testamento. Podemos sugerir qual deles seria o autor da carta, porém não é possível afirmar categoricamente.

O que é plenamente observável a respeito do escritor da carta é que ele não precisar defender a sua posição no seio da igreja à maneira de Paulo. Bastou a simples identificação: “Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo…” ( Tg 1:1 ).




Salmo 17 – Proteção contra os inimigos

O Senhor Jesus Cristo é o que anda em sinceridade, pratica a justiça e do coração fala a verdade (Sl 15:2). Ele também é descrito por Isaías como o que fala com retidão: “O que anda em justiça e o que fala com retidão; o que rejeita o ganho da opressão, o que sacode das suas mãos todo o presente; o que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de derramamento de sangue e fecha os seus olhos para não ver o mal” (Is 33:15).


SALMO 17 – Proteção contra os inimigos​

Introdução

A grande maioria dos leitores do Livro dos Salmos ainda veem os Salmos como expressão decorrente do estado emocional dos salmistas. Corroboram com tal pensamento, os títulos introdutórios que muitas Bíblias apresentam e, assim, constituem um obstáculo à boa leitura e compreensão dos Salmos. A interposição de títulos introdutórios, que seria auxilio ao leitor no momento de localizar uma passagem bíblica, serve de obstáculo à compreensão do texto, pois impõem ideias e conceitos divorciados da verdade que o Salmo contém.

Em uma Bíblia na língua portuguesa, encontramos o seguinte título no Salmo 17:

“Davi pede a Deus que o proteja contra os seus inimigos. Davi confia na sua inocência e na justiça de Deus” Oração de Davi.

Além do título, acresce a informação: Oração de Davi.

Seria isso verdadeiro?

Davi mesmo disse que o Espírito de Deus falava por ele, ou seja, que a palavra de Deus estava em sua boca (2Sm 23:2). Os apóstolos nomeavam o salmista Davi de profeta e não de compositor, musicista, levita, etc. (At 2:30).

Jesus, ao fazer referência a um Salmo, nomeou o Salmo de lei e, em outro lugar, disse que tudo o que d’Ele estava escrito na Lei, nos Salmos e nos Profetas, convinha que se cumprisse, evidenciando qual o ‘status’ dos Salmos: profecias “Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses?” (Jo 10:34); “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse, estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lc 24:44).

O rei Davi, quando separou os capitães dos seus exércitos, deu-lhes a missão de profetizarem ao som de instrumentos musicais, portanto, os Salmos são profecias em forma de poesia e canto.

“E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, de Hemã e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério: Dos filhos de Asafe: Zacur, José, Netanias, e Asarela, filhos de Asafe; a cargo de Asafe, que profetizava debaixo das ordens do rei Davi. Quanto a Jedutum, os filhos: Gedalias, Zeri, Jesaías, Hasabias, e Matitias, seis, a cargo de seu pai, Jedutum, o qual profetizava com a harpa, louvando e dando graças ao SENHOR” (1Cr 25:1-3).

A estrutura da poesia hebraica, na qual os Salmos foram produzidos, facilita a exposição de ideias e possui recursos de cunho lógico que impedem alguém de má índole de transtornar a mensagem.

Os Salmistas não buscavam tocar a emoção dos ouvintes, através de ritmos, rimas, melodia, harmonia, etc.

A proposta dos Salmos é tocar o entendimento dos ouvintes, de modo que pudessem conhecer o seu Deus e, por isso, utilizavam o paralelismo[1] para compor ou evidenciar uma ideia que, geralmente, constitui uma instrução, uma profecia, uma repreensão ou um exemplo ao povo de Israel.

 

A Justiça

1 OUVE, SENHOR, a justiça; atende ao meu clamor; dá ouvidos à minha oração, que não é feita com lábios enganosos. 2 Saia a minha sentença de diante do teu rosto; atendam os teus olhos à razão.

O Salmo tem início com um pedido da ‘justiça’ e não do rei Davi. Se o Salmo fosse um pedido, um rogo de Davi, por certo ele diria: – “Ouve, ó Senhor, o teu servo”, no entanto, temos um pedido da própria ‘justiça’.

Não estamos diante de uma oração de Davi mas, sim, diante de uma profecia que aponta para a justiça personificada. Neste verso, a justiça não trata de um conceito abstrato, que deriva de uma perspectiva humana mas, sim, à justiça que vem de Deus, segundo o que profetizou Isaías:

“ASSIM diz o SENHOR: Guardai o juízo e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça, para se manifestar (Is 56:1)

Da justiça que vem por meio do evangelho foi profetizado:

“Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem tampouco está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, para que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:12-14); “Mas a justiça, que é pela fé, diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo)” (Rm 10:6).

O Senhor Jesus, para os que creem, foi feito justiça: “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1Co 1:30).

O Senhor Jesus, ao interpretar o Salmo 110, demonstra que Davi estava profetizando acerca do Filho do homem, quando disse: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés?” (Sl 110:1; Mt 22:43-44).

Davi, no Salmo 17, registra, em espírito, o clamor do Cristo, quando manifesto aos homens. Neste Salmo a justiça diz do Renovo justo, o Filho de Davi, que terá o nome: ‘O Senhor, Nossa Justiça’!

“Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” (Jr 23:5-6).

Algumas traduções vertem o Salmo 17, verso 1 desta forma: ‘Ouve, ó Senhor, a minha causa justa’, o que remete o leitor à pessoa do rei Davi, sendo que o que está sendo dito refere-se ao Descendente prometido a Davi.

Certo homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, quando leu uma profecia no Livro de Isaías, tinha a seguinte dúvida: – “Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” (At 8:34). O eunuco lia: “Foi levado como a ovelha para o matadouro; e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim não abriu a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra” (At 8:32-33) e não conseguia entender quem ‘foi levado como a ovelha para o matadouro’. Seria o profeta Isaías que estava sendo levado? Ou seria alguma outra pessoa?

De quem é a boca que fez a oração deste Salmo, cujos lábios não são enganosos? O único homem que nunca houve engano em sua boca foi Jesus, portanto, claro está que este clamor não diz do salmista Davi “E puseram a sua sepultura com os ímpios e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” (Is 53:9); “O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça e conforme a integridade que há em mim” (Sl 7:8).

O Salmo 15 também faz referência a Cristo como Aquele que anda em sinceridade, pratica a justiça e do coração fala a verdade (Sl 15:2). Ele também é descrito por Isaías como o que fala com retidão: “O que anda em justiça e o que fala com retidão; o que rejeita o ganho da opressão, o que sacode das suas mãos todo o presente; o que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de derramamento de sangue e fecha os seus olhos para não ver o mal” (Is 33:15).

Se dentre os homens não há ninguém que faça o bem; Se todos juntamente se desviaram e se fizeram imundos (Sl 14:1-3); Se os ímpios falam mentiras desde que nascem (Sl 58:3), certo é que ninguém havia entre os filhos dos homens tivesse os lábios puros, pois como todos foram formados em iniquidades (Sl 51:5), todos herdaram coração imundo.

Qualquer homem, em sã consciência, e conhecedor da sua condição miserável, clamará por misericórdia, e não por uma sentença segundo a sua justiça, equidade, retidão (מֵישָׁרִים)[2] “JULGA-ME, SENHOR, pois tenho andado em minha sinceridade; tenho confiado também no SENHOR; não vacilarei” (Sl 26:1; Sl 7:3-5).

Davi não possuía esses predicativos, antes quando errou confiou na misericórdia de Deus, atitude que por si só demonstra que jamais Davi pleitearia algo a Deus com base em sua retidão e justiça “Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu” (2Sm 24:14).

Há um titulo introdutório nas Bíblias para o Salmo 26 que diz: “Davi recorre a Deus, confiando na sua própria integridade”. Homem algum pode recorrer a Deus confiado em sua própria integridade[3], pois diante de Deus não há homem que seja justo, nem mesmo Davi “Na verdade que não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque” (Ec 7:20).

 

Retidão​

3 Provaste o meu coração; visitaste-me de noite; examinaste-me e nada achaste; propus que a minha boca não transgredirá.

Jesus Cristo-homem foi provado, examinado minuciosamente por Deus, e restou confirmado que Ele andou integramente diante de Deus, pois confiou em Deus sem vacilar “JULGA-ME, SENHOR, pois tenho andado em minha sinceridade; tenho confiado também no SENHOR; não vacilarei. Examina-me, SENHOR, e prova-me; esquadrinha os meus rins e o meu coração” (Sl 26:1-2; Sl 139:1 3 e 23; Sl 7:9).

Jesus esteve ao abrigo da sombra protetora de Deus, vez que, a fidelidade de Deus expressa em sua palavra, era como escudo e broquel “Louvarei ao SENHOR que me aconselhou; até o meu coração me ensina de noite” (Sl 16:7; Sl 63:7).

Continuamente, Cristo esteve sob proteção, ao abrigo da sombra das asas de Deus, pois tinha o ‘amor’ de Deus diante dos seus olhos, ou seja, meditava na palavra de Deus, continuamente (de dia e de noite), deste modo, nada de pecaminoso foi achado n’Ele “O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita” (Sl 121:5); “Guarda-me como à menina do olho; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas” (Sl 17:8; Sl 91:1; Sl 26:3; Sl 1:2).

Este é o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho, Jesus Cristo: “E puseram a sua sepultura com os ímpios e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” (Is 53:9); “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” (1Pd 2:22).

 

4 Quanto ao trato dos homens, pela palavra dos teus lábios me guardei das veredas do destruidor. 5 Dirige os meus passos nos teus caminhos, para que as minhas pegadas não vacilem.

Ao se pautar pelas palavras de Deus, Jesus permaneceu longe dos caminhos dos transgressores[4] (destruidor) (Sl 1:1; Sl 26:2 -6). Como Servo obediente, Jesus se deixou guiar pela lei do Senhor, de modo que os seus pés não vacilaram: “Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei” (Sl 16:8; Sl 121:3 e 5).

 

6 Eu te invoquei, ó Deus, pois me queres ouvir; inclina para mim os teus ouvidos, e escuta as minhas palavras. 7 Faze maravilhosas as tuas beneficências, ó tu que livras aqueles que em ti confiam dos que se levantam contra a tua destra.

Pela confiança de que o Pai havia de respondê-Lo, é que o Filho invocava (Jo 11:42). E pelo que o Filho clama? Para que Deus estenda as suas misericórdias, ou seja, faça maravilhosa as suas beneficências. Como? Salvando os que buscam refugio em Deus através da sua Destra, ou seja, através de Cristo.

Cristo é a Destra do Senhor desnudada perante os olhos de todos os povos: “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10). Cristo é a firme beneficência prometida a Davi e salvação para todos quantos O invocar: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3). Cristo é o homem que, após ser glorificado, assentou-se à destra da Majestade nas alturas: “Seja a tua mão sobre o homem da tua destra, sobre o filho do homem, que fortificaste para ti” (Sl 80:17).

Mas, apesar das beneficências prometidas por Deus em Cristo, haveria homens ímpios que se levantariam contra a Destra do Altíssimo.

 

Adversários

8 Guarda-me como à menina do olho; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas, 9 Dos ímpios que me oprimem, dos meus inimigos mortais que me andam cercando. 10 Na sua gordura se encerram, com a boca falam soberbamente. 11 Têm-nos cercado agora os nossos passos; e baixaram os seus olhos para a terra;12 Parecem-se com o leão que deseja arrebatar a sua presa, e com o leãozinho que se põe em esconderijos.

Por causa da oposição dos pecadores, nesta previsão, Jesus roga a Deus que O proteja como os homens protegem as meninas dos olhos. Cristo espera em Deus que O proteja debaixo de suas asas (Sl 20:6).

O pedido é para que Deus livrasse o Cristo dos ímpios, homens que O oprimiriam. Estes homens seriam seus inimigos mortais, pois procurariam saqueá-Lo e, por fim, apoderarem-se da sua alma.

Quem eram esses inimigos de Jesus? Os escribas, fariseus, sacerdotes, príncipes, etc., homens que honravam a Deus com a boca, porém, os seus corações estavam longe de Deus “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15:8).

Como estava predito: “Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Mq 7:6), Jesus veio para os que eram seus e os seus não O receberam (Jo 1:12) e foi rejeitado pelos seus concidadãos.

Os líderes da religião se colocavam à espreita buscando pegar Jesus nalguma contradição: “E, observando-o, mandaram espias, que se fingissem justos, para o apanharem nalguma palavra e o entregarem à jurisdição e poder do presidente” (Lc 20:20; Lc 10:25; Mt 22:15), e assim cumpriu-se neles o provérbio que diz: “No entanto estes armam ciladas contra o seu próprio sangue; e espreitam suas próprias vidas” (Pv 1:18).

O ‘laço do passarinheiro’ predito no Salmo 91 refere-se às armadilhas dos escribas e fariseus que buscavam pegar Jesus nalguma contradição (Sl 91:3). Homens, cujas línguas comparam-se a da serpente, pois veneno (engano) procedem dos seus lábios (Sl 140:3). Lábios mentirosos que se propuseram a desviar o Cristo das veredas de justiça estabelecida pelo Pai. Através de laços e cordas (armadilhas), estendem uma rede, na intenção de terem do que acusar o Cristo (Sl 140:4-5).

Sobre esses homens profetizou Jeremias:

“Porque ímpios se acham entre o meu povo; andam espiando, como quem arma laços; põem armadilhas, com que prendem os homens. Como uma gaiola está cheia de pássaros, assim, as suas casas estão cheias de engano; por isso, se engrandeceram e enriqueceram” (Jr 5:26-27).

Jeremias protesta contra os filhos de Israel, visto que os profetas profetizavam falsidades, os sacerdotes estavam em conluio com os profetas e o povo se deleitava no engano, pois, não gostavam da palavra de Deus (Jr 5:31 e Jr 6:10).

Por estarem tão seguros na mentira e no erro dos seus corações enganosos (Jr 17:9), rejeitaram o profeta que Deus avisou, por intermédio de Moisés, que seria levantado dentre os seus irmãos: “Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18:18). Tendo por pretexto a lei, se mancomunaram contra o Cristo e condenaram sangue inocente “Porventura o trono de iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei? Eles se ajuntam contra a alma do justo e condenam o sangue inocente. Mas o SENHOR é a minha defesa; e o meu Deus é a rocha do meu refúgio. E trará sobre eles a sua própria iniquidade; e os destruirá na sua própria malícia; o SENHOR nosso Deus os destruirá” (Sl 94:20-23).

Os escribas e fariseus assemelhavam-se aos leões que ficam a espreita da presa, ou como o filho do leão que caça por emboscada. Por causa de um coração incrédulo, repeliram a piedade de Deus revelada em Cristo e falaram arrogantemente, segundo os seus corações malignos: “Pois a boca do ímpio e a boca do enganador estão abertas contra mim. Têm falado contra mim com uma língua mentirosa” (Sl 109:2).

 

Homens, cuja porção está nesta vida

13 Levanta-te, SENHOR, detém-no, derriba-o, livra a minha alma do ímpio, com a tua espada; 14 Dos homens com a tua mão, SENHOR, dos homens do mundo, cuja porção está nesta vida, e cujo ventre enches do teu tesouro oculto. Estão fartos de filhos e dão os seus sobejos às suas crianças.

Em espírito, o profeta Davi nesta previsão antecipa a oração do Cristo, para que Deus detenha e livre a sua alma dos ímpios. No verso 14 o Salmista deixa uma descrição dos ímpios: Homens do mundo cuja porção está nesta vida!

O apóstolo Paulo faz uso deste verso ao falar dos inimigos do evangelho: “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fl 3:18-19).

Os homens do mundo se satisfazem com o que proferem as suas bocas, ou seja, fartam os seus ventres com o que há em seus corações malignos, pois do que o coração está cheio, disso fala a boca “Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34; Sl 7:14).

Deus há de retribuir os homens segundo as suas obras, de modo que aquele que tem um coração impenitente, ou seja, que não creu no testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho, receberá a ira de Deus: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” (Rm 2:5); “Se eu afiar a minha espada reluzente, e se a minha mão travar o juízo, retribuirei a vingança sobre os meus adversários e recompensarei aos que me odeiam” (Dt 32:41; Jr 17:10).

Sobre os fim dos ímpios profetizou Jeremias:

“JUSTO serias, ó SENHOR, ainda que eu entrasse contigo num pleito; contudo falarei contigo dos teus juízos. Por que prospera o caminho dos ímpios, e vivem em paz todos os que procedem aleivosamente? Plantaste-os, e eles se arraigaram; crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém longe dos seus rins” (Jr 12:1 -2).

Os ímpios descritos por Jeremias são homem que tem Deus nos lábios, mas longe do coração (Is 29:13). Aos olhos dos homens, os religiosos em Israel prosperavam e viviam em paz. Foram plantados por Deus, mas desviaram-se e se firmaram nas suas conquistas decorrentes da força do seu próprio braço e se esqueceram do Senhor. Multiplicaram e cresceram, mas não viam a ruina que se avizinhava (Jr 12:3).

Os ímpios só podem ser combatidos através da espada de Deus, ou seja, com a palavra do evangelho (Ef 6:17), mas se não se converterem, sofrerão a ira de Deus (Sl 7:12; Rm 2:16).

Como se multiplicaram e cresceram, fartos estão de filhos e dão dos seus sobejos (doutrina) aos seus rebentos. Os filhos de Israel se fartavam das regras e mandamentos, que por tradição herdavam de seus pais (Mc 7:8-9), uma herança que dava a falsa sensação de que eram ricos, fartos, diante de Deus.

 

Anseio pela glorificação

15 Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar.

O Salmo é encerrado com uma confissão admirável: – “Quanto a mim, por minha integridade, contemplarei a Tua face”. Diferentemente de todos os outros homens, que a revelação da face do Senhor significa misericórdia, o Salmo descreve o Messias pleiteando a sua causa com base na sua retidão.

Enquanto o Salmo 80 relata o arrependimento dos filhos de Israel clamando por misericórdia, no Salmo 17 o Salmista descreve Aquele que se manteve integro e que nunca se achou engano e sua boca “O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça, e conforme a integridade que há em mim” (Sl 7:8).

“Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos. Ó SENHOR Deus dos Exércitos, até quando te indignarás contra a oração do teu povo? Tu os sustentas com pão de lágrimas, e lhes dás a beber lágrimas com abundância. Tu nos pões em contendas com os nossos vizinhos, e os nossos inimigos zombam de nós entre si. Faze-nos voltar, ó Deus dos Exércitos, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 80:3 -7)

O final do Salmo 17 aborda a morte e a ressurreição de Cristo. Como Cristo andou firme em Deus, a sua alma não foi deixada na morte, soltas as ânsias da morte: “Ao qual, Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela” (At 2:24).

O Salmo 16 aponta para Cristo, sendo que o corpo de Cristo ficaria em repouso e seguro na sepultura. O Pai prometeu que o Filho não seria deixado na sepultura e que nem experimentaria a corrupção (Sl 16:9 -10; At 2:25).

Sobre a morte de Cristo, temos essa predição: “Atenta para mim, ouve-me, ó Senhor, meu Deus. Ilumina-me os olhos para que eu não adormeça na morte” (Sl 13:3).

No Salmo 138, verso 7 temos uma expressão de confiança do Cristo em Deus, pois mesmo na angustia o Pai estaria com Ele. A certeza de que invocaria e seria atendido decorre da promessa:

“Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos e a tua destra me salvará” (Sl 138:7);

“Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei. Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação” (Sl 91:15 -16).

Quando introduzido no mundo, Jesus se fez, em tudo, semelhante aos homens, sendo participante de carne e sangue (Hb 2:14 e 17). O Verbo Eterno despiu-se da sua glória e se fez carne e passou a habitar entre os homens como o Unigênito de Deus (Fl 2:7-8).

Após ser achado na forma de homem, se fez Servo e foi obediente até a morte, e morte de cruz: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2:8).

A parte ‘b’ do versículo 15, do Salmo 17, faz referência à condição do Cristo ressurreto. Enquanto no mundo, tinha a forma de homem e, quando ressurreto, herdou a Semelhança do Altíssimo, ou seja, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível, o primogênito dentre os mortos, pois todos os que creem ressurgem com Ele e são feitos semelhantes a Ele “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1:15; 1Jo 3:1-3).

Enquanto na carne (homem), Jesus era o Unigênito de Deus, depois de glorificado, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível, o resplendor da sua glória “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (Hb 1:3).

Quando Deus criou o mundo expressou a sua vontade de dar à sua imagem e semelhança ao homem (Gn 1:26). Adão foi criado à imagem de Cristo homem, a imagem daquele que havia de vir, e não a expressa imagem e semelhança do Deus invisível.

A vontade de Deus expressa no Gênesis foi levada a efeito, quando Cristo ressurgiu dentre os mortos com um corpo glorificado: o homem a expressa imagem do Deus invisível. Todos quantos n’Ele creem ressurgem uma nova criatura semelhante a Ele, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

Quando o querubim da guarda ungido se insurgiu contra o Criador, a intenção não era tomar o lugar de Deus, antes era alcançar a posição que foi dada a Cristo e ao seu corpo (Igreja): a semelhança do Altíssimo “E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14).

O propósito de Deus, estabelecido em Cristo, esteve oculto em Deus, mas, através da igreja, a multiforme sabedoria de Deus se tornou conhecida das potestades e principados nas regiões celestiais. Através da igreja, que é o seu corpo, Cristo agora tem a preeminência em tudo (Cl 1:18).

 


[1] Os diversos tipos de paralelismos são utilizados: a) Paralelismo Sinônimo – A segunda asserção repete o pensamento da primeira, porém, utiliza-se de termos diferentes. Ex: “Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” ( Salmo 24.1 ); b) Paralelismo Antitético – A segunda asserção contrasta a ideia da primeira. Ex: “Pois o Senhor conhece o caminho dos justos; mas o caminho dos ímpios perecerá” (Sl 1:6 ); c) Paralelismo Sintético – A segunda asserção enfatiza o estipulado pela primeira. Ex: “Não te furtes a fazer o bem a quem de direito, estando na tua mão o poder de fazê-lo” (Pv 3:27 ); d) Paralelismo Climático – A segunda asserção faz uso de palavras da primeira asserção e complementa a ideia. Ex: “Tributai ao SENHOR, filhos de Deus, tributai ao SENHOR glória e força” (Sl 29:1); e) Paralelismo Emblemático – A primeira asserção estabelece um comparativo que ilustra a segunda asserção. Ex: “Como água fria para o sedento, tais são as boas-novas vindas de um país remoto” (Pv 25:25).

[2] “04339 meyshar procedente de 3474; DITAT – 930e; n m 1) igualdade, honestidade, retidão, equidade 1a) igualdade, plano, suavidade 1b) retidão, equidade 1c) corretamente (como advérbio)” Dicionário Strong.

[3] “O clamor do salmista para que Deus ouça a sua oração baseia-se não somente na misericórdia e graça de Deus, mas também na sua continua fidelidade nos caminhos do Senhor (vv. 1-5). Deus sondou seu coração e viu que no seu esforço para agradá-lo não havia fingimento (cf. 1Jo 3:18-21). O fato de Davi orar a Deus com base na sua própria fidelidade pessoal expressa a verdade fundamental que Deus promete ouvir as orações dos que o amam e o honram” Comentário de Nota de Rodapé da Bíblia de Estudo Pentecostal, Editora CPAD.

[4] “06530 פָּרִיץ parits procedente de 6555; DITAT – 1826b; n. m. 1) pessoa violenta, infrator 1a) ladrão, assassino” Dicionário Bíblico Strong.




‘Quem é a fé’, e não ‘O que é a Fé’

Nas Escrituras fidelidade (Fé) produz confiança (fé), mas a confiança (crença) de alguém não produz fidelidade. A fé-confiança é sempre fruto da Fé-fidelidade, nunca o contrário.  Quando cremos na PALAVRA de Deus que não passa, mas que permanece para sempre (Fé-fidelidade), a fé-confiança que possuímos é fruto da Fé-fidelidade de Deus.


‘Quem é a fé’, e não ‘O que é a Fé’

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Efésios 2:20);

O que é a fé

O Pr. Airton Evangelista da Costa assim respondeu a pergunta ‘O que é a fé’?:

“A fé não se explica através da lógica humana. Fé é crença, convicção, certeza, confiança, entrega. É a certeza de que algo vai acontecer, não importando se as condições sejam contrárias. A definição bíblica para a fé é a seguinte: ‘É a CERTEZA das coisas que se esperam, e a prova das coisas QUE NÃO SE VÊEM’ ( Hb 11:1 ). Fé é a crença de que o Senhor está no comando de todas as coisas, em quem depositamos total e irrestrita confiança”  Airton Evangelista da Costa, O Que é a Fé?, Artigo disponível no link: < http://www.estudosgospel.com.br/a-biblia-responde/soteriologia/o-que-e-a-fe.html> visitado em 0105/13.

Há equívocos na definição acima, tanto na argumentação do Pr. Airton quanto na tradução bíblica utilizada por ele.

Na Bíblia a fé não é definida como certeza, antes a fé é descrita como ‘firme fundamento’ “ORA, a fé é o FIRME FUNDAMENTO das coisas que se esperam, e a PROVA das coisas que se não veem” ( Hb 11:1 ). O ‘firme fundamento’ é objetivo e a ‘certeza’, por sua vez, é questão subjetiva, de foro íntimo e varia de pessoa para pessoa.

A certeza ou opinião varia de pessoa para pessoa, mas o fundamento de Deus não! O fundamento de Deus fica firme ( 2Tm 2:19 ), as opiniões e certezas não.

Qual é o fundamento de Deus? Cristo, Ele é a fé anunciada de antemão pelos apóstolos e profetas e se manifestou aos homens na plenitude dos tempos “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” ( Ef 2:20 ); “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” ( 1Co 3:11 ).

Jesus Cristo é o fundamento de Deus, a rocha inabalável, firme. Enquanto a Bíblia aponta para o fundamento que é firme, o Pr. Airton aponta para uma crença, uma certeza. Ele deixa de olhar para o que é firme para olhar o que é transitório:

“É a certeza de que algo vai acontecer, não importando se as condições sejam contrárias” (Idem).

O firme fundamento

Quando o escritor aos Hebreus diz que a fé é o firme fundamento, ele está falando de Cristo, a pedra firme que os edificadores rejeitaram “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina” ( At 4:11 ); “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” ( Ef 2:20 ).

Na Bíblia, Cristo é a personificação da fé, ou seja, Ele é a fé que havia de se manifestar e foi manifesta na plenitude dos tempos “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ). A FÉ que havia de se manifestar é Cristo, por meio da qual o justo vive “Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá” ( Hc 2:4 ). Se o homem vive da palavra que sai da boa de Deus (Verbo), consequentemente a fé não é uma certeza, uma opinião ou um sentimento, isto porque certezas, opiniões e sentimentos são volúveis enquanto a palavra de Deus permanece para sempre e faz tudo o que lhe é aprazível “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ; 1Pe 1:25 ).

Da palavra de Deus temos o testemunho de que jamais mudará, mas com relação aos homens há a exortação para que creiam na palavra de Deus até o fim ( Mt 24:13 ).

Jesus disse: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ), ao fazer referencia a Cristo, o evangelista João diz: “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” ( 1Jo 5:4 ). Não é a certeza do homem que vence o mundo, antes quem venceu o mundo foi Cristo, e Ele é a nossa fé.

Cristo é a fé que habita no coração daqueles que creem ( 2Tm 1:5 ), pois Ele prometeu fazer morada nos crentes ( Jo 14:23 ).

A fé que não se explica através da lógica humana é a fé que consta nos dicionários. Por exemplo:

“Fé (do Latim fides, fidelidade e do Grego πίστη pistia1 ) é a firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta ideia ou fonte de transmissão” Wikipédia.

Se alguém possui a opinião de que algo é verdade, os lexicógrafos definem que tal opinião ou crença é fé. Por exemplo: se alguém tiver a firme opinião de que um pedaço de madeira é pedra, a opinião, a crença de tal pessoa é tida por fé.

A verdade como fundamento

Mas, observando na Bíblia, verifica-se que, quando Deus ordenou ao povo de Israel que subisse e tomasse a terra prometida por herança, se houvessem obedecido, a crença (pisteuein) deles na palavra de Deus (verdadeira e firme= pistis) seria designada fé (pisteuein), porém, como o povo desobedeceu, isto demonstra que não tinham o que é proveniente do que é verdadeiro e firme (pistis): fé (confiança=pisteuein). Observe que em seguida os filhos de Israel se animaram em adentrar a terra e o que fizeram a seguir também não era fé, pois não estavam apoiados na palavra de Deus ( Nm 14:39 -45 ).

A opinião do povo estava formada: ‘Não podemos subir contra aquele povo porque é mais forte que nós’ ( Nm 13:31 ). Logo em seguida surgiu nova opinião: ‘Eis-nos aqui, e subiremos ao lugar que o SENHOR tem falado; porquanto havemos pecado’ ( Nm 14:40 ), mas em ambos os casos a opinião que possuíam não era fé.

Não é a covardia ou a coragem que determina se o homem tem fé ou não. O que promove a fé é a verdade da palavra de Deus, de modo que, quando o homem anda segundo o que lhe é ordenado, anda por fé. Aceitar ou não um desafio não é prova de fé, antes resignar-se a obedecer a palavra de Deus é fé “E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” ( Mt 4:3 -4).

Há uma grande confusão com relação ao termo ‘fé’ e o termo ‘crer’, visto que na língua grega o mesmo radical da palavra é utilizado como substantivo e verbo. Quando os tradutores foram traduzir o substantivo e o verbo ‘fé’ para a língua portuguesa, como o termo fé não é flexionável para ser utilizado como verbo, o termo foi substituído pelo verbo crer.

Em resumo, o substantivo latino fides (fé), correspondente ao termo grego pistis (fé=substantivo), não tem verbo e, assim, os tradutores viram-se obrigados a recorrer a um verbo latino de outro radical para exprimir o verbo grego pisteuein. Passaram a utilizar o verbo credere, que em português é crer.

No hebraico arcaico, o termo fé é ‘emunah’, palavra feminina com dois significados: fidelidade e adesão, e no hebraico moderno o termo passou a ser utilizado com vários significados, incluindo o verbo ‘crer’, que na língua hebraica é ‘boteach’ (creio) e ‘livtoach’ (acreditar).

Na língua grega o termo fé (Pistis [substantivo], Pisteuō, [verbo], Pistos [adjetivo]) deriva dos termos verdadeiro, fidedigno, fiel, de modo que a fé decorre do que é verdade, fiel, fidedigno. Não há fé no que é falso, na crendice, no conto de fada. Somente o que é verdadeiro produz fé, de modo que um tabelião só dá fé do que é verdadeiro.

Ora, a fé está vinculada à verdade, e a fidelidade ao que é fidedigno, de modo que a confiança deriva da verdade, do que é real, nunca o contrário. Jamais a confiança produz uma verdade ou altera a realidade.

A ‘lei da gravidade’ contém os elementos essenciais para que se possa compreender o sentido da fé. Se uma pessoa acredita (opinião firme) que se saltar de um penhasco uma força de atração o trará para o solo, temos a fé: confiança na verdade. Mas, se uma pessoa acredita que ao saltar do penhasco alçará voo, temos uma crença. Ainda que esta confiança ou opinião seja absoluta, não mudará a verdade de que uma força o atrairá para o solo.

A fé não decorre de uma firme opinião de que algo é verdade, antes a fé decorre da verdade. Sem a verdade não há fé. À parte do que é verdadeiro, firme, seguro, fidedigno, fiel, não há que se falar em fé.

Acreditar na fada do dente, ter a firme opinião de que a fada Sininho existe não é fé, é ilusão. Tal crendice, tal opinião, por mais intensa que seja, não torna a fantasia real. Agora, a verdade, por sua vez, é o que produz fé, confiança, mesmo quando não podemos ver.

As definições contidas nos dicionários apresentam diversos significados com relação ao termo fé porque a língua é dinâmica. Observe algumas frases construídas com o termo fé:

  • “Fazer fé”: acreditar em alguém ou em algum ato; ter esperança;
  • “Dar fé”: afirmar como verdade;
  • “Boa fé”: forma de agir honestamente, sem quebrar um compromisso;
  • “Má fé”: agir de forma intencional para prejudicar terceiros;
  • “Botar fé”: acreditar sem questionar;
  • “Fé cega”: o ato de acreditar sem questionar;
  • “A fé remove montanhas”: o impossível pode ser alcançado quando você acredita em Deus.

A ideia bíblica: ‘Creio porque é verdadeiro’ acabou sendo substituída pela asserção ‘creio porque é absurdo, improvável’, etc. pelo uso incorreto do termo fé (fides).  Tremendo equivoco!

Nas Escrituras fidelidade (Fé) produz confiança (fé), mas a confiança (crença) de alguém não produz fidelidade. A fé-confiança é sempre fruto da Fé-fidelidade, nunca o contrário.  Quando cremos na PALAVRA de Deus que não passa, mas que permanece para sempre (Fé-fidelidade), a fé-confiança que possuímos é fruto da Fé-fidelidade de Deus.

Qualquer que planta limão e se põe a espera de uma colheita de laranja é louco, desvairado, pois o fato de esperar, acreditar, firmar opinião, etc., jamais mudará o fato de que sementes de limão produzem limão, isto porque Deus disse: “Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi” ( Gn 1:11 ).

Acreditar jamais mudará o que foi estabelecido por Deus: as árvores darão frutos segundo a sua espécie, ou seja, segundo a sua semente.

Agora, quando alguém acredita, tem certeza, a firme opinião de que ao plantar limão, colherá limão, a fé-confiança (pisteuein ) é fruto da Fé-fidelidade (pistis) que estabeleceu que a ‘árvore frutífera dê fruto segundo a sua espécie’.

A verdade de que uma semente produz frutos segundo a sua espécie é o que denominamos fé (verdade, fiel, fidedigno), pois apesar de não se ver as árvores e os seus frutos quando se está lançando a semente ao solo, a semente é prova suficiente daquilo que não se vê. O que espero tem por base um firme fundamento.

Quando Jesus anunciou ser o Filho de Deus, muitos não creram porque não criam nas Escrituras “Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” ( Jo 5:47 ). Além do testemunho das Escrituras, as obras que Jesus realizava testificavam acerca d’Ele “Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim” ( Jo 10:25 ).

Por que era necessário o testemunho das Escrituras e o testemunho das obras de Cristo? Porque a fé deriva do fundamento, da verdade, do que é firme, e não de uma crença, convicção, certeza, confiança, entrega.

Por que o crente crê em Deus? Por causa de milagres?  Não! O crente crê em Deus por causa de Cristo, visto que Deus o ressuscitou dentre os mortos. Deus o ressuscitou para que a confiança e esperança do crente estejam em Deus “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” ( 1Pe 1:21 ).

O evento da ressurreição é tão importante para o crente que, os seus discípulos foram estabelecidos por testemunhas da ressurreição “E matastes o Príncipe da vida, ao qual Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas ( At 3:15 ).

A concepção de que a fé não é afeta a lógica humana decorre de uma má leitura feita desde os patristicos, sendo atribuída a Tertuliano a frase ‘credo quia absurdum’ (creio porque é absurdo) em decorrência da frase: “E o Filho de Deus morreu, o que é crível justamente por ser inepto; e ressuscitou do sepulcro, o que é certo porque é impossível”, pois entendiam que a verdadeira fé tem de se opor a razão.

Se a fé não se explicasse através da lógica humana, ou se a fé fosse contrária à razão, seria sem sentido a orientação do apóstolo Pedro: “Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” ( 1Pe 3:15 ). Ou ainda a exortação do apóstolo Paulo em Romanos 12.1 para apresentar a Deus sacrifício vivo, santo e agradável que é o culto racional.

Seria sem sentido Cristo ter aparecido aos seus discípulos com muitas e infalíveis provas “Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando das coisas concernentes ao reino de Deus” ( At 1:3 ).

A fé não é a ‘crença de que Deus está no comando de todas as coisas’, antes a fé é proveniente de Deus que é fiel, verdadeiro e poderoso para cumprir a sua palavra, portanto, digno de total e irrestrita confiança Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

Quando o homem crê que pode salvar-se através das suas boas ações, sacrifícios, orações, votos, etc., não é fé, antes fé é quando o homem crê que Cristo é o enviado de Deus que tira o pecado do mundo.

Cristo é a fé manifesta, o firme fundamento estabelecido por Deus. Por intermédio de Cristo é que cremos em Deus que ressuscita os mortos. Sem Cristo é impossível agradar a Deus, pois Ele é o autor e o consumador da fé ( Hb 11:6 ; Hb 12:2 ; 1Pe 2:5 ).




Por que Deus exigiu de Abraão o sacrifício de Isaque?

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ). Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!


Por que Deus exigiu de Abraão o sacrifício de Isaque?

A ordem direta de Deus a Abraão para imolar Isaque fomenta várias discussões, distorções e interpretações errôneas acerca do objetivo de tal ordem.

A despeito da onisciência de Deus, muitos questionam qual o propósito de Deus em mandar Abraão imolar o seu filho. Deus queria saber até onde Abraão era obediente? Deus queria mensurar a fé de Abraão?

A resposta é simples, porém, demanda conhecimento bíblico e raciocínio. Para responder tal indagação é necessário relembrar alguns eventos específicos concernentes a vida de Abraão. Analisemos estes três pontos principais:

 

O chamado de Abraão

Abraão era gentil, morava na cidade de Ur, terra dos Caldeus. Seu pai saiu da cidade de Ur com destino a terra de Canaã, porém, quando chegou a Harã, passou a habitar naquele lugar.

Abraão foi orientado por Deus a sair do meio de seus parentes seguindo para uma terra que ainda seria mostrada. Abraão saiu confiado em Deus tendo em vista uma promessa ( Gn 12:2 ). Obedeceu à voz divina, porém, levou consigo o seu sobrinho Ló até a terra de Canaã ( Gn 12:5 ).

Após passar pela terra de Canaã, novamente Deus apareceu a Abraão e prometeu aquela terra à sua descendência. Abraão, que à época chamava-se Abrão, ali edificou um altar ao Senhor, e seguiu em direção ao sul.

Abraão desceu ao Egito por causa da escassez de alimento e quando se estabeleceu no Egito adquirindo riquezas. Após ter alcançado bens o patriarca foi compelido a deixar o Egito, pois Deus feriu o rei do Egito por causa de Sara, mulher de Abraão. Em seguida, Abraão subiu do Egito para as regiões do Nequebe juntamente com Ló.

Perceba que Abraão poderia continuar morando no Egito, porém, a grande praga que sobreveio ao rei do Egito fez com que Abraão saísse de lá.

Abraão seguiu do Egito para a região do Neguebe e retornou ao local que fez o primeiro altar ao Senhor, Betel, ou seja, voltou ao ponto inicial de sua peregrinação. Após uma contenda entre os servos de Ló e os servos de Abraão, eles se separaram. Ló foi levado cativo e Abraão teve que lutar contra quatro reis para libertá-lo.

Após a guerra, saiu ao encontro de Abraão o rei de Sodoma e o rei de Salém. O rei de Salém abençoou Abraão, e o rei de Sodoma fez uma proposta a Abraão, que foi rejeitada de pronto: “Levantei a minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio nem uma correia de sapato, para que não digas: eu enriqueci a Abrão” ( Gn 14:22 -23).

De tudo que relembramos até aqui, surgem algumas considerações: Por que Abraão precisou sair do Egito, se ele não alcançou a promessa e viveu como peregrino na terra? Por que Abraão não aceitou a proposta do rei de Sodoma se era legitimo ele aceitar tal prêmio?

Diante da proposta do rei de Sodoma Abraão entendeu que, caso aceitasse, no futuro alguém poderia interpretar que Abraão foi enriquecido através dos bens da cidade que foi subvertida por Deus. Se Abraão ficasse com os bens do rei de Sodoma, ficaria ‘constado na história’ que, o rei de Sodoma, e não Deus havia abençoado Abraão.

Abraão foi tentado a lançar mão de bens, que no futuro poderia dar a entender a Abraão que a promessa de Deus efetivou-se por uma conquista própria. Como bem sabemos posteriormente a cidade de Sodoma foi subvertida devido a sua promiscuidade excessiva.

Porém, fica uma questão sem resposta: onde e quando Abraão alcançou o discernimento para não fazer aliança com o rei de Sodoma, rejeitando o que lhe era de direito? A saída do Egito motivada pela praga na casa do rei proporcionou a Abraão uma lição de vida que o capacitou a rejeitar a aliança com o rei de Sodoma.

Com relação às questões materiais Abraão estava consciente de que deveria esperar em Deus.

 

A promessa de um descendente

Deus prometeu a Abraão que a sua descendência herdaria a terra que os seus olhos estavam enxergando no momento da reiteração da promessa ( Gn 13:14 ), porém, Deus ainda não havia prometido um filho a Abraão gerado por Sara.

Em face da promessa à sua ‘descendência’ ( Gn 15:1 ), Abraão ficou incomodado por não ter filho, e pretendia fazer o damasceno Elieser, o seu servo, o seu herdeiro.

Foi quando Deus prometeu a Abraão um filho de suas entranhas, sem qualquer referência a Sara, e creu Abraão e isto lhe foi imputado por justiça ( Gn 15:4 ).

Para Abraão Deus prometeu o impossível, visto que a época da promessa era de conhecimento que Sara era estéril, porém ele creu firmado no poder e na fidelidade de Deus, sendo declarado justo diante de Deus.

Apesar de Abraão crer em Deus e ser justificado, o tempo passava e ele continuava sem filho. Diante deste quadro, a mulher de Abraão resolveu providenciar filho a Abraão, e ele aceitou dar a Sara um filho através da escrava ( Gn 16:2 ).

É bem provável que Abraão tenha interpretado a atitude de sua mulher como sendo a providência divina: 1) Ismael foi gerado segundo a carne de Abraão, e; 2) o nascimento de Ismael encaixou ‘perfeitamente’ no que Deus lhe falara (um filho de suas entranhas).

Este entendimento decorre do fato de Abraão ter feito menção do nome de Ismael quando Deus reiterou a promessa: “Oxalá viva Ismael diante de ti!” ( Gn 17:18 ). Abraão já estava compreendendo que Ismael era o filho da promessa, o seu ‘primogênito’ e herdeiro.

Algum tempo depois, Abraão foi interpelado por sua mulher, que exigiu que Ismael não herdasse juntamente com Isaque. Abraão ficou temeroso, visto que Ismael seria o seu ‘primogênito’, porém, descansou em Deus quando foi orientado a esperar na providência divina e que ele não estaria fazendo nenhum mal ( Gn 21:12 ).

 

O milagre

A despeito do riso de Abraão no coração, a promessa de Deus continuou de pé ( Gn 17:17 ), e no tempo determinado nasceu Isaque.

Isto demonstra que a fidelidade de Deus é a causa de Abraão ter sido justificado e abençoado segundo a promessa, visto que Abraão riu da promessa.

Em nossos dias a fé é tida como agente catalisador que desencadeia milagres, porém, o que a palavra de Deus demonstra é que a fidelidade e o poder de Deus devem ser à base da fé cristã.

Mesmo após Abraão apresentar seu servo damasceno e seu filho Ismael como opção diante de Deus, mesmo após rir da promessa, Deus permaneceu fiel à sua palavra.

Sara era estéril, de avançada idade (mais de 90 anos) e segundo a promessa de Deus concebeu Isaque. A bíblia demonstra que Abraão estava ciente das impossibilidades para se alcançar um filho com Sara:

  • Um homem de cem anos;
  • Sará com noventa anos;
  • Sará estéril ( Gn 17:17 ).

Diante das impossibilidades, o homem ri, pois não tem ideia da dimensão do poder de Deus. Diante do mar vermelho o homem fica temeroso, pois a impossibilidade do homem fica em evidência. Diante da necessidade de salvação o homem descobre que está à mercê do pecado e da morte, porém, o que é impossível aos homens, para Deus é possível.

 

Por que Deus exigiu o sacrifício de Isaque?

Através da análise anterior, fica demonstrado que certos eventos relatados na história de Abraão são difíceis de captar. O relato da história do patriarca Abraão não se prende a explicar certos porquês, antes se fixa somente nos fatos.

Como é possível a bíblia apontar Abraão como sendo um exemplo de fé, sendo que em determinado momento da sua vida ele riu da promessa, e apresentou uma alternativa diante de Deus? Não era para ele ter perdido a bênção neste evento?

Por que Abraão tentou ‘ajudar’ Deus cumprir a promessa através de Ismael? Uma leitura superficial da história de Abraão faz com que o leitor não perceba este detalhes de suma importância ao contexto geral das escrituras.

Outro ponto a se destacar é concernente a aliança proposta pelo rei de Sodoma. Abraão foi tentado a ajudar Deus com riquezas provenientes do fruto de suas conquistas pessoais, porém, rejeitou-a, pois entendeu que a sua prosperidade deveria ser fruto da promessa divina.

Isto é maravilhoso, porém, onde Abraão aprendeu esta lição? Se levarmos em conta o fato de Abraão ter sido expulso do Egito por causa de uma praga que sobreveio ao Faraó, veremos que neste evento ele aprendeu que rei algum seria o pivô da riqueza pertinente a sua descendência.

Se Abraão não aprendesse a lição no Egito, certamente sucumbiria diante da aliança e oferta do rei de Sodoma. Observe que o perigo rondava Abraão de perto. Se Abraão fizesse uma aliança com Sodoma, certamente diriam que:

  • Sodoma foi responsável pela prosperidade de Abraão, ou;
  • Abraão poderia reputar que as suas riquezas era fruto de suas conquistas pessoais.

Surge outra pergunta: havia algum risco para Abraão acerca do nascimento de Isaque, caso Deus não tivesse posto Abraão a prova. Como? Isto mesmo! Analisemos se havia algum risco para Abraão, caso ele não fosse submetido à provação.

Observe como é fácil o homem confundir-se:

É notório para nós que Isaque foi quem nasceu segundo a promessa de Deus, porém, Abraão fez menção de Ismael perante Deus, pois estava esperançoso que o filho da escrava fosse o seu herdeiro;

Embora Isaque tenha nascido segundo a promessa, Abraão ainda podia e continuou a gerar filhos, mesmo após os cem anos ( Gn 25:1 -2).

Neste ponto em específico (b) havia um grande perigo rondando o patriarca. Havia um risco para Abraão decorrente do fato de ele gerar filhos segundo a sua carne, mesmo em avançada idade. Havia o risco de Abraão se gloriar da sua carne, pois mesmo em avançada idade ainda gerava filhos.

Hoje seria tema de discussão cientifica se Isaque era mesmo filho segundo a promessa, ou se Sara nunca foi estéril de fato. O cuidado que Abraão teve com relação ao rei de Sodoma, para que ninguém dissesse no futuro: “O rei de Sodoma foi quem enriqueceu a Abraão”, seria sem valia, visto que questionariam se Isaque foi realmente fruto da providência divina.

Quando nasceu Isaque, Abraão reputava com base na fé, que a promessa estava sendo cumprida. Mas, após Sara morrer e Abraão casar-se com Quetura, obtendo outros filhos, havia o risco de Abraão ser dissuadido da fé, e voltar a rir da promessa, visto que ele ainda podia gerar filhos, mesmo após considerar impossível obtê-los por causa da idade avançada ( Gn 17:17 ).

Quando Deus mandou Abraão imolar Isaque, Isaque era o seu ‘único’ filho, e não era cogitado Abraão ter mais filhos ( Gn 17:17 ). O evento demonstra que Deus não estava ‘testando’ e nem ‘mensurando’ a fé de Abrão. Deus não estava pondo à fé de Abraão a prova, uma vez que ele já havia sido justificado por Deus.

Deus não estava em dúvidas quanto à fé de Abraão quando o submeteu a prova!

O que Deus pretendia com a ‘provação’?

Com a provação Deus estava cuidando de Abraão! Como?

Pedro nos diz: “Essas provações são para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 e 1Pe 4:12 -14).

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ).

Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!

Como Abraão riu-se da promessa quando vislumbrou as impossibilidades ( Gn 17:17 ), ele poderia novamente rir-se da providência divina após gerar filhos de Quetura ( Gn 25:1 -52).

As seguintes questões poderiam sobressaltar Abraão: Será que Sara era estéril mesmo? Ismael, Isaque, Zinrá, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Sua não foram filhos da minha carne? Será que a falta do “costume das mulheres” em Sara era mesmo uma impossibilidade de ter filhos? A idade de Sara era um real impedimento para ela conceber? Visto que pude ter filhos com mais de cem anos com Quetura, o filho de Sara não poderia ser produto da minha ‘virilidade’?

Todas estas questões não poderiam levar Abraão a gloriar-se da sua carne?

Ao ser exigido o sacrifício de Isaque, Abraão teve que recobrar o seu filho dentre os mortos, confiado no poder de Deus “Abraão julgou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar, e daí também em figura o recobrou” ( Hb 11:19 ).

Ou seja, quando Abraão se predispôs obedecer à ordem divina para oferecem em holocausto o seu filho, ele deixou de ter um filho segundo a sua carne (embora o filho segundo a promessa de Deus fosse proveniente das ‘entranhas’ de Abraão e Sara), para receber o seu filho dentre os mortos.

Daquele momento em diante, Abraão estava desprovido de qualquer elemento que o levasse a considerar posteriormente que Isaque era fruto de sua carne, ou que a sua própria carne havia lhe concedido Isaque. Após o evento da oferta de Isaque, Abraão, segundo a providencia divina, teve a confirmação de que nada alcançou segundo a carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?” ( Rm 4: 1).

Ao recobrar o seu filho dentre os mortos, o que Deus proporcionou a Abraão além do seu filho Isaque? Uma âncora que penetrou até o interior do que estava oculto. Ele foi ensinado a lançar mão da esperança proposta, e não do que era aparente e que desvanece ( Hb 6:18 -19).

Isaque não era a segurança de Abraão, antes a segurança estava na esperança proposta. A consolação esta em Deus que não mente e é imutável, o que faz o homem peregrinar em busca da pátria celestial! ( Hb 6:14 -18).

Para alcançar Isaque, Abraão teve que recobrá-lo dentre os mortos, agindo de modo a dar cabo da própria promessa. Naquele momento em que Abraão ofereceu o seu único filho, a palavra de Deus foi posta acima de evidências físicas da promessa.

Abraão descansou na providência divina, pois o descendente sobre quem a promessa repousaria ainda estava por vir!

Abraão alcançou esta graça em Deus, porém, o povo de Israel, os seus descendentes não compreenderam e nem fizeram como o crente Abraão. Apesar do exemplo concedido por Abraão, o povo não foi aprovado na prova do maná concedido no deserto. As pessoas estavam confiadas no maná que aparecia no deserto, porém, não confiavam na palavra de Deus, que deu origem ao maná. Não consideravam que ‘nem só de pão viverá o homem’ ( Dt 8:3 ).

A prova da fé do homem não é porque Deus quer saber ou mensurar algo a respeito do homem. Antes, a prova da fé tem em vista a preservação da confiança do homem, o que redunda em louvor, glória e honra a Deus ( 1Pe 1:7 ).

 

O temor de Abraão

Com relação ao versículo que diz: “Agora sei que temes a Deus, pois não me negaste o teu filho, o teu único filho” ( Gn 22:12 ), temos uma caso típico de antropomorfismo, ou melhor, é um dos ‘modos’ de Deus se manifestar ou comunicar-se utilizando a forma, o modo, a características ou a linguagem humana.

O homem geralmente compara o desconhecido ou compreende algo desconhecido através de elementos e fatos conhecido. Por exemplo, ao descrever algum animal desconhecido, o homem utiliza-se do que conhece para descrevê-lo: tinha pés como o de homem; cabeça como a de cavalo, rabo como o de peru, etc ( Ez 1:10 ).

Do mesmo modo, ao fazer referência a Deus, diz-se que Deus descansou, uma vez que o homem descansa. Porém, surgem as questões: sendo Deus onisciente, onipresente e onipotente Ele pensa? Faz considerações? Chega a conclusões? Precisa descansar segundo a concepção humana? ( Is 40:8 -31).

Por certo que os ‘caminhos de Deus’ são muito elevados, e os seus ‘pensamentos’ inatingíveis! “Mas não sabem os pensamentos do SENHOR, nem entendem o seu conselho; porque as ajuntou como gavelas numa eira” ( Mq 4:12 ). Como expressar o que nunca se viu ou ouviu? O que nunca subiu ao pensamento do homem? “Mas, como está escrito: As coisas que os olhos não viram, e os ouvidos não ouviram, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” ( 1Co 2:9 ).

Além das questões antropomorfista, é preciso considerar que a linguagem humana é dinâmica e transforma-se constantemente. Como alcançar o pensamento original de uma única palavra ou de uma frase escrita a milhares de anos? Por mais que muitos escribas procuraram ser fiéis à transcrição de textos, impressões pessoais podem afetar a idéia do texto.

É por isso que o estudo da bíblia deve ser sistemático, seguindo regras e princípios pertinentes a hermenêutica e a exegese. Não é o que um texto expressa que fará surgir ou que extirpará uma doutrina bíblica, antes o contexto geral das escrituras é observado para fazermos um juízo de valores e idéias.

Hoje já é difícil para um interprete ou tradutor secular transmitir a idéia contida em uma expressão idiomática, porém, esta é uma limitação humana.

A bíblia diz que Deus descansou no sétimo dia, porém, através da carta aos Hebreus fica demonstrado que a idéia de descanso que a bíblia imprime não tem relação com a necessidade de repouso. Através da palavra ‘descansar’ a bíblia quer evidenciar que não mais havia obras a serem realizadas.

Após o dia sexto nenhuma outra obra concernente a criação do universo foi realizada, pois tudo foi criado e estabelecido com perfeição.

‘Descansar’ no Gênesis significa não ter obrar a realizar, diferente da ideia que muitos querem dar: repouso por causa de cansaço “Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” ( Hb 4:10 ). Ora, quando a bíblia diz que Cristo entrou no seu repouso, ela quer dar a entender que a obra de Cristo é perfeita como a do Pai.

Com relação ao registro: ‘agora sei que temes a Deus’, verifica-se que o temor (confiança) de Abraão foi levado em conta quanto da justificação por Deus ( Gn 15:6 ), ou seja, ao provar Abraão, Deus não tinha como objetivo mensurar a fé do patriarca.

Se considerarmos um dos recursos linguístico próprio à retórica, percebe-se que o texto tem por objetivo transmitir (noticiar) a Abraão que ele foi provado e aprovado para louvor e glória de Deus, segundo a fé. Este verso não enfatiza falta de conhecimento em Deus, antes, a ênfase da frase está em tornar Abraão ciente de que estava aprovado.

Quando o Anjo do Senhor disse: ‘agora sei que temes a Deus’, o objetivo era louvar o homem que foi provado e aprovado com base na fé “Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas, sim, aquele a quem o Senhor louva” ( 2Co 10:18 ).




O Autor da fé

A ‘fé’ que foi dada aos homens (evangelho) não ilide o crente dos problemas e percalços do dia-a-dia. Antes, o cristão deve ser perseverante na doutrina de Cristo para alcançar o objetivo fim do evangelho: a salvação, ou seja, não deve desfalecer “… não vos canseis, desfalecendo em vossas almas” ( Hb 12:3 ).


“… olhando firmemente para Jesus, autor e consumador da nossa fé, o qual pelo gozo que lhe estava proposto suportou a cruz…” ( Hb 12:2 )

Após fazer uma exposição do que alguns homens do passado alcançaram através da fé ( Hb 11:1 -40), o escritor aos Hebreus conclui o seu pensamento exortando os leitores a serem perseverantes, tendo como exemplo o Senhor Jesus ( Hb 12:2 ), ou seja, o versículo acima é conclusão de elementos apresentados anteriormente.

Após demonstrar a fé dos patriarcas, o escritor conclui que os cristãos após crerem na mensagem do evangelho (carreira que nos esta proposta), deveriam perseverar no evangelho (corramos com perseverança). Mas, para manter-se perseverante é imprescindível olhar firmemente para Cristo, o autor e consumador da fé.

Deste versículo extraímos quem é o autor da fé, ou seja, quem deu origem a crença dos cristãos: Jesus.

Consumador: refere-se àquele que realizou todos os atos para que fosse possível a nossa salvação.

‘Fé’ neste verso faz referência a Cristo, o fundamento dos ‘bens futuros’. Cristo é a essência, a base do que é anunciado no evangelho (fé). Neste versículo a palavra fé segue o que foi exposto na definição anterior: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam…” ( Hb 11:1 ).

O escritor aponta Cristo, o autor e o consumador da fé, como exemplo a ser seguido. Os que creem devem observar a Cristo, e este versículo apresentam alguns elementos acerca de Cristo, o autor e consumador da fé:

  • Havia uma promessa específica para Cristo: “… o qual pelo gozo que lhe estava proposto…”;
  • Diante do premio proposto, Cristo suportou e desprezou a ignomínia da cruz, e;
  • Ele assentou-se à destra de Deus.

Segundo o escritor aos Hebreus, os cristãos devem considerar as vicissitudes que Cristo suportou para que não desfalecessem em suas almas.

Da mesma forma que Cristo tinha uma promessa, o gozo proposto, os cristãos têm de Deus uma promessa através do evangelho: a salvação. A ‘fé’ que foi dada aos homens (evangelho) não contempla os problemas do dia-a-dia, antes, o cristão deve ter em mente que deve ser perseverante para ser possível alcançar o que o evangelho propõe, que é a salvação, e, por isso, não deveriam desfalecer “… não vos canseis, desfalecendo em vossas almas” ( Hb 12:3 ).

Precisavam considerar a Cristo, que sendo o autor e consumador da fé, não teve em conta a oposição dos pecadores, antes tinha em vista o premio proposto. Da mesma forma, os cristãos não podiam desfalecer, antes deviam olhar firmemente para Jesus, para podermos alcançar o premio proposto no evangelho, que é a salvação.

A fé (confiança do cristão em Deus), em muitas das vezes não livra o cristão das afrontas, antes lhe concede a força necessária para que venha a resistir firme na esperança proposta, pois o combate do cristão pode estender-se ‘até o sangue’ (v. 4).

O escritor aos Hebreus é claro ao demonstrar que, pela fé o cristão esta apto a abraçar dois extremos: pode ser livre das agruras desta vida ( Hb 11:33 -34), ou resistirem até o sangue ( Hb 11:35 -38).

 

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” ( Hb 11:1 )

Após exortar os cristãos à perseverança, o escritor aos Hebreus exemplifica, apontando a desobediência do povo no Antigo Testamento e suas conseqüências ( Hb 10:28 ).

O escritor aos Hebreus aponta os problemas e obstáculos que os fiéis dentre o povo de Israel tiveram que suportar e passar Hb 10. 32 -34, e leva os cristãos a concluírem que não deveriam lançar fora a confiança que tinham (v. 35).

Primeiro: deveriam permanecer confiantes para continuarem livres do castigo divino e por terem uma grande recompensa. Por causa da recompensa que está na promessa dada por Deus, daí surge a argumentação: “Ora, a fé é a certeza das coisas que se esperam…”.

A fé só pode ser designada fé enquanto se esta aguardando, pois quando se alcança o esperado, já está diante da recompensa, e não de posse da fé.

Observe que a fé geral e a fé para salvação estão fundamentadas em um mesmo princípio: a certeza do que se espera. Através do conhecimento e da experiência comum a todos os homens, sempre esperamos o amanhã, a chuva, o germinar da semente, etc, e temos uma certeza tão segura que nada há que demova o homem da segurança em sua espera.

Da mesma forma, ao falarmos do evangelho ou da fé dada aos santos, há garantias em Deus quanto a nossa salvação que a espera é com base em um fundamento seguro, que é Cristo. Isto é tão patente ao escritor aos Hebreus que ele retoma o mesmo pensamento, só que com outro argumento: “… e a prova das coisas que não se vêem”.

A certeza que se tem quanto ao que se aguarda é prova cabal do que não se vê! O que se aguarda é por não ser possível ver. Isto não significa que a fé é depositada sobre o que não existe.

A certeza decorre de provas irrefutáveis para aquele que acredita. Não é a fé que faz surgir às provas, antes as provas é que dá alicerce a fé ( Rm 8:24 -25).

“Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que O buscam” ( Hb 11:6 )

O ponto de partida deste versículo está em que a fé não é a causa da existência divina, antes é Deus o motivo de nossa fé.

O apóstolo aponta duas condições para que o homem possa agradar o seu criador:

  • para se aproximar de Deus homem precisa ao menos acreditar que Ele existe; isto é fato, só se pode achegar a Deus se cremos em sua existência. Não é a fé que faz surgir a pessoa da divindade!
  • para se aproximar de Deus o homem tem que estar certo de que Deus recompensará aqueles que O buscarem.

Ora, para que o homem creia em Deus de modo a ser recompensado é necessário ouvir a mensagem do evangelho que demonstra a disposição divina em salvar todos que creem que Jesus é o Cristo “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:9 ).




Como agradar a Deus?

O conceito que o escritor aos Hebreus apresentou acerta da fé nos auxilia em muito em compreender como agradar a Deus, porém, o contexto na qual a palavra ‘fé’ é empregada nos diz muito mais “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” ( Hb 11:1 ).

 


“Ora, sem fé é impossível agradar a Deus…” ( Hb 11:6 )

A Bíblia geralmente trabalha com proposições, ou seja, não é uma característica das exposições bíblicas dar definições e conceitos. Exemplificando, a Bíblia não apresenta uma definição ou um conceito de Deus, ela simplesmente apresenta algumas proposições, como: Deus é luz; Deus é vida, etc.

A linguagem bíblica demanda raciocínio para chegar a um entendimento, diferente da linguagem dos livros de hoje, que se aplicam em apresentar conceitos e definições acerca dos temas que abordam.

Os livros acabam simplesmente informando os seus leitores, já a Bíblia estimula o raciocínio do leitor, fazendo com que este percorra os labirintos do aprendizado até uma maravilhosa descoberta. Além do mais, auxilia na memorização do conceito quando abstraído.

Apesar de a Bíblia nos estimular ao raciocínio, ela nos surpreende ao apresentar, em uma das suas cartas, um conceito de fé:

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem” ( Hb 11:1 ).

a) O fundamento firme é definido pelo escritor aos Hebreus como sendo fé.

b) A fé é prova do que se espera e que apesar de não ser possível ser visto, existe.

O conceito que o escritor aos Hebreus apresentou auxilia em muito no desenvolvimento deste estudo, porém, o contexto na qual a palavra fé é empregada nos diz muito mais. Observe o versículo seguinte:

 

“Mas, se alguém não cuida dos seus, e principalmente dos da família, negou a fé, e é pior que o incrédulo” ( 1Tm 5:8 )

Qual o significado da palavra fé no versículo acima? Podemos aplicar o conceito apresentado pelo escritor aos Hebreus a este versículo? Não!

O contexto demonstra que a palavra fé empregada por Paulo neste verso teve o seu significado primário ampliado, passando a designar a ideia geral da mensagem do evangelho. Dizer que: ‘alguém negou a fé’, tem o mesmo significado que ‘negar a mensagem do evangelho’.

A fonte da fé genuína é o evangelho, e ter um comportamento contrário ao recomendado pelo evangelho constitui-se prova de que aquele que se diz cristão, e não é, está em condição inferior até mesmo daquele que não professa o evangelho.

O apóstolo Paulo não quis dizer que o comportamento seja essencial à aceitação do evangelho, pois este é alcançado por meio da fé. Antes, ele procurou demonstrar que o comportamento do cristão confirma o que ele professa ter alcançado por meio do evangelho.

A palavra fé neste versículo é empregada para designar a mensagem que deu causa à confiança do crente, enquanto o conceito da carta aos Hebreus se prende à confiança do crente, sem qualquer referência a mensagem que promove a fé.

Percebe-se que a fé não se trata de uma qualidade ou mérito intrínseco ao crente. A mensagem do evangelho dá base à crença (fé), que acaba por refletir no comportamento de quem professa segui-la.

Um outro aspecto a considerar, quanto à interpretação de alguns textos bíblicos, fica por conta da etimologia da palavra fé.

A ideia de fé no Antigo Testamento é a de ‘descansar’ ou ‘apoiar-se’, confiante em alguém ou em alguma coisa.

 

“Porque o Egito os ajudará em vão, e para nenhum fim; por isso clamei acerca disto: No estarem quietos será a sua força (…) Assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Em vos converterdes e em repousardes está a vossa salvação, no sossego e na confiança está a vossa força, mas não quisestes” ( Is 30:7 e 15).

“Aquietai-vos, e sabei que Eu sou Deus” ( Sl 46:10 )

A intranquilidade do homem, ou a sua procura obstinada por uma saída frente aos problemas da vida é uma demonstração de falta de confiança em Deus.

Geazi, o servo de Eliseu, é o exemplo típico do homem sem fé: “Então o moço lhe perguntou: Ai, meu senhor, o que faremos?” ( 2Rs 6:15 b).

A falta de confiança (fé) faz com que o homem busque uma solução apoiada em seus próprios recursos. A pergunta de quem não tem fé sempre será: O que faremos? “Perguntaram eles: Que faremos para executar as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Eliseu por sua vez demonstra tranqüilidade, mesmo quando tudo parecia perdido aos olhos de Geazi.

Os reis de Israel e Judá sempre procuravam alianças com os povos vizinhos, confiando que as suas alianças trariam paz e segurança. Todos eles esqueciam que Deus havia prometido defende-los, e que bastava repousarem e estar sossegados.

No A. T. a salvação de Deus apresentava-se àqueles que se convertiam ao Senhor e repousavam (descansar). Já o livramento aparecia vinculado ao estar sossegado. A força dos reis de Israel e Judá não estava em suas alianças, exércitos, cavaleiros, homens, etc., e sim, em estarem tranquilos.

No Novo Testamento temos o verbo ‘pisteuõ’ e o seu substantivo ‘pistis’. Este verbo tem dois significados básicos:

(1) acreditar no que alguém diz, aceitar uma afirmação como verdade, especialmente a de natureza religiosa “Vai-te, e seja feito conforme a tua fé” ( Mt 8:13 );

(2) confiança pessoal em contraposição a um mero crédito ou crença, e esta ideia é introduzida no texto através de uma preposição “em + ele” “Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados” ( At 10:43 ).

A mensagem do evangelho fundamenta-se na pessoa de Cristo. Ele mesmo anunciou as boas novas do reino aos homens. Crer na mensagem do engelho, em última instância, é crer na pessoa de Cristo.

A fé do cristão é pessoal, e sendo Cristo o Verbo de Deus encarnado, a palavra d’Ele é a verdade. A pessoa de Cristo e a sua mensagem estão intimamente interligadas. A palavra da fé é o firme fundamento designado fé, sem a qual ninguém verá a Deus.




A fé

A fé (confiança, crença) surge da constatação de verdades contidas no mundo, e o homem passa a agir conforme estas verdades ou a esperar com confiança nas leis naturais que constatou com os seus sentidos e perspectivas. Ex: a lei da gravidade, a chuva, dia e noite, etc.

 


“Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do SENHOR nosso Deus” ( Sl 20:7 )

Este tema reveste-se de complexidade dada a importância que ele tem para a compreensão de como ocorre a salvação em Cristo. Para ser salvo em Cristo basta a fé, porém, diante dos questionamentos que se avolumam no decorrer dos tempos, faz-se necessário saber o que é a fé verdadeira, como adquiri-la e como exercê-la.

 

Classificação

Antes de abordarmos este tema do ponto de vista bíblico, devemos verificar sobre qual tipo de fé estaremos falando. Para a análise, classificamos a fé em dois grupos:

a) fé natural, e;

b) fé salvadora.

A definição de fé natural é facilmente extraída dos dicionários, como se lê:

“fé sf. 1. crença religiosa. 2. Conjunto de dogmas e doutrinas que constituem um culto. 3. Rel. A primeira das virtudes teológicas: adesão e anuência pessoal a Deus. 4. Firmeza na execução de uma promessa ou compromisso. 5. Crença, confiança. 6. Testemunho autêntico, escrito, de certos funcionários, que tem força em juízo”.

Da definição dos dicionários subentende-se que até mesmo os ateus possuem algo em que acreditar. Se eles professam que não creem em Deus, ao menos creem nas leis da natureza e em suas próprias ideologias.

A fé natural refere-se à certeza que o homem tem das coisas concernentes ao seu dia-a-dia. Todos os homens possuem a certeza de um amanhã. Todos têm certeza das conseqüências dos seus atos. Todos têm certeza quanto às leis da física, da matemática, da natureza, etc.

Esta confiança não é algo nato do homem. A fé surge através da interação do homem com o mundo. Ao nascer, o homem não tem certeza ou fé, e nem mesmo acredita em coisa alguma. Porém, no decorrer do tempo, o homem passa a interagir com o mundo, e dessa interação surge as certezas e as crenças.

A fé natural surge da experimentação, do ensino, da constatação. O que leva a concluir que a fé não é proveniente do homem, antes, a fé é proveniente do mundo que o cerca. A realidade é que concede elementos por demais convincentes e dignos de confiabilidade ao homem.

Isto é verificável de duas formas:

(1) a certeza que o homem possui não torna a realidade verdadeira ou certa, ou seja, a certeza do homem não muda a essência real das coisas;

(2) antes de o homem vir à existência, certas verdades já existiam.

“A verdade produz certeza (confiança, fé), mas a certeza não produz verdade”

O que nos leva a concluir que a fé não é proveniente do homem, mas sim, das coisas que estão há muito estabelecidas.

Não é a confiança do homem que promove a infalibilidade das leis naturais, antes a certeza de que tais leis são irrevogáveis, é que promove a confiança do homem.

A fé, ou a confiança, surge da constatação de verdades contidas no mundo, e o homem passa a agir conforme estas verdades ou a esperar com confiança nas leis naturais que constatou com os seus sentidos e perspectivas. Ex: a lei da gravidade, a chuva, dia e noite, etc.

A fé natural surge no homem quando ele consegue ‘mapear’ os eventos que o cercam durante o seu desenvolvimento. Com base nos elementos que o meio fornece, e através daquilo que conseguiu constatar, surge a ‘fé’, e este homem passa a agir de modo seguro e confiante.

A ‘crença’ do homem não garante os eventos que ocorrem ao seu redor, porém, os eventos certos e previsíveis produzem confiança, fazendo o homem agir com segurança.

A certeza que o homem tem quanto à lei da gravidade não é o que a torna real, antes é a ação da gravidade ao influenciar a realidade que o cerca que lhe dá a certeza da existência desta lei. Esta certeza foi adquirida gradualmente, aprendida e internalizada de forma experimental e teórica.

O atrito dá certeza a um motorista que o carro não derrapará. O semeador semeia na certeza de que a terra produzirá e que as sementes germinarão segundo a sua espécie. A fé no amanhã dá ao o homem a condição necessária para desenvolver projetos, etc.

 

“A fé natural e a fé salvadora possuem os mesmos princípios quanto à sua inserção no homem, porém, elas diferem quanto à finalidade”

 

A fé salvadora é semelhante à fé natural, pois ambas são alcançadas de fora para dentro. Enquanto esta advém da inteiração do homem com o mundo, aquela advém da inteiração do homem com a palavra de Deus.

A diferença principal entre fé salvadora e fé natural está no objetivo, ou na finalidade a que ambas propõe. Em última instância, tanto a fé natural, quanto a fé salvadora são provenientes de Deus.

A fidelidade de Deus é onde a confiança de todos os homens fundamenta-se.

Para uns, a confiança é algo imperceptível, uma vez que não se dão conta que a infalibilidade das leis naturais é que dá segurança e equilíbrio à existência dos homens. Outros, além de desfrutarem da segurança e equilíbrio que as leis naturais conferem ao seu dia-a-dia, ao saberem que Deus providenciou salvação poderosa a todos os homens, descansam e esperam na fidelidade de Deus, que prometeu e é poderoso para cumprir.

A fé salvadora apresenta as características seguintes:

1. A fé salvadora não é proveniente do homem – É Deus quem concede fé aos homens, ou antes, Deus é à base da fé;

2. A salvação é pré-estabelecida – antes que o homem viesse a existir, Deus providenciou salvação a todos os homens;

3. O homem é o recipiente da fé – o homem não produz fé, porém, é quem usufrui de seus benefícios;

4. A fé é a prova coisas que não se vêem – não é a fé que torna real o mundo vindouro, antes, é a realidade do mundo vindouro que proporciona fé;

5. A confiança do homem não é o que garante a salvação, antes, é Deus que se interpõe como garantia, o que da segurança ao cristão confiante.

Todos os homens de alguma maneira exercem confiança. O crente é aquele que faz menção do nome do Senhor, pois crê na informação de que Deus salva o homem ( Sl 20:6 -7). O descrente, por sua vez, confia em suas forças e possessões, pois através destes elementos ele consegue influenciar e interagir com o mundo.

Nesta vida não há diferença visível entre crentes e descrentes, mas a Bíblia alerta:

“Então voltareis e vereis a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que não o serve” (…) “PORQUE eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da estrebaria” ( Ml 3:18 ; Ml 4:1 -2).




Maná – prova ou bênção

Deus deu o maná no deserto: “Eis que vos farei chover pão dos céus…” ( Ex 16:4 ), mas a proposta era uma prova, e não uma bênção: “… para que eu o prove se anda em minha lei ou não”. Com a promessa veio algumas determinações: “… o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia…”, e o povo foi reprovado.

 


Maná – prova ou bênção

Introdução

Após ser resgatado do Egito e transcorrer dois meses e quinze dias, o povo de Israel murmurou contra Moisés e Arão no deserto. Não consideraram a benevolência divina em dar-lhes liberdade e esperança de uma nova terra.

Em vez de avançarem pelo deserto em busca da terra que manava leite e mel, lembraram do Egito com vontade de comerem do alimento que recebiam na condição de escravos.

Foi quando Deus lhes prometeu: “Eis que vos farei chover pão dos céus…” ( Ex 16:4 ). Com a promessa veio algumas determinações: “… o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia…” (v. 4), e o objetivo de ter sido concedido o pão dos anjos: “… para que eu o prove se anda em minha lei ou não” (v. 4).

Na parte da tarde Deus enviou ao arraial codornizes (carne) e pela manhã uma camada fina como a geada, semelhante às escamas, proveniente do orvalho que evaporou (Maná). Coisa maravilhosa, visto que não sabiam o que era ( Ex 16:15 ).

Outro milagre ocorria diariamente: quem colhia pouco não faltava, e quem colhia muito, não sobrava ( Ex 16:18 ).

Mas, apesar de Deus operar maravilhosamente, não deram ouvido à palavra do Senhor e deixaram parte do alimento para o outro dia, e estragou. De igual modo ficaram perplexos quando o alimento não estragou no sábado segundo a palavra de Deus ( Ex 16:20 e 27).

A repreensão de Deus foi solene: “Até quando recusareis guardar os meus mandamentos e as minhas leis?” ( Ex 16:28 ).

O Maná que foi concedido por Deus ao povo de Israel nos apresenta algumas lições. Dentre elas destacamos:

 

Milagre ou Palavra

O nosso Deus sabe de todas as coisas, porém, para ensinar o povo de Israel que ‘não só de pão vive o homem, mas de tudo o que sai da boca do Senhor’, foi que guiou o povo no deserto e os deixou ter fome. Quando Deus concedeu ao povo o maná, precisavam compreender que estavam vivendo unicamente de uma palavra dada por Deus “Eis que vos farei chover pão dos céus…” ( Ex 16:4 ).

O povo não deveria se focar no maná, mas em Deus que provê o maná através da sua palavra, e não somente o maná, mas também a água, as codornizes, os chinelos, as roupas, a nuvem, a coluna de fogo, a terra, a vida eterna, etc.

Para quem compreendesse que estava se alimentando da palavra de Deus (maná), o pão dos anjos era bênção. Porém, para aqueles que não compreenderam que a palavra de Deus é que lhes provia de sustento diário, o maná tornou-se prova ( Dt 8:2 -3).

Mas, por que o povo precisava aprender? Porque eles viram inúmeros milagres desde a saída do Egito e continuavam sem crer em Deus. Mesmo sendo resgatados com mão forte, não consideraram todas as maravilhas operadas por Deus como sendo uma demonstração do amor de Deus. Continuavam desconfiados de que Deus haveria de matá-los no deserto.

É preciso compreender que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam. Embora soubessem que Deus existia, temiam que seriam destruídos no deserto ( Ex 20:18 ).

Precisavam entender que eles eram alvo do cuidado de Deus, para que não presumissem em seus corações que haviam alcançado a terra prometida por causa de seus méritos e qualidades pessoais ( Dt 8:17 ).

Deus procurou ensinar o povo do mesmo modo que um pai aplica correção aos seus filhos para que a soberba não subisse aos seus corações, esquecendo-se de Deus ( Dt 8:14 ).

Ora, Deus é poderoso para tudo realizar, e poderia até transladá-los para a terra prometida. Porém, o objetivo de Deus em guiá-los pelo calor do deserto, era para que lembrassem e reconhecessem que não é só de pão que o homem vive, antes de tudo que é pronunciado por Deus.

Que estrago haveria para o povo se eles entrassem em uma terra que mana leite e mel, e continuassem confiados que o homem vive de pão? Eles teriam o mesmo pensamento do homem rico: ‘tens em depósito muitos bens para muitos anos’, sem considerar o mundo vindouro “Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” ( Lc 12:20 ).

Ao ser tentado pelo diabo no deserto quando teve fome, Jesus respondeu: “Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” ( Mt 4:4 ).

A lógica do diabo era aceitável para alguém que andasse segundo a concepção humana. Não é o que dizem em nossos dias? Ora, se você é um dos filhos de Deus o milagre deve ser uma constante na sua vida!

Alguns lideres apregoam a mesma mensagem em nossos dias, segundo a lógica do diabo: Se você é filho de Deus, faça prova, pois seus filhos vivem uma vida abundante! Se você crê que é filho, então prove a sua fé fazendo um voto ou um desafio!

Ora, tremendo engano o que anunciam! O homem deve confiar na palavra de Deus que concede vida, e não no alimento proveniente do milagre. Para muitos, somente um milagre extraordinário poderá demonstrar que são verdadeiramente filhos de Deus. Porém, Jesus demonstra que não é o milagre que faz o homem filho, antes só é filho os que vivem de toda palavra que sai da boca de Deus.

Os filhos são aqueles que reconhecem em seus corações o cuidado de Deus, por compreenderem através da Sua palavra que não é o mantimento (por mais sobrenatural que seja), antes é a palavra de Deus que lhes concede vida.

O milagre do pão a fartar no deserto não mudou a compreensão do povo, e sentiram fastio do maná. Desejosos de outro alimento, lembraram do alimento do Egito. Ora, se lhes foi prometido uma terra onde manava leite e mel, porque não desejaram entrar na terra prometida? Por que tinham de lembrar da terra do Egito?

Ora, o povo comia todos os dias o maná, e passaram a indagar: “Quem nos dará carne a comer?” ( Nm 11:4 ). Isto demonstra que o milagre do maná não lhes abriu os olhos para ver que estavam comendo ‘da palavra que saiu da boca de Deus’.

Lembraram do Egito e mentido, diziam que comiam de graça a comida do Egito. Deus estava cuidando deles, e eles consideravam que estavam definhando ( Nm 11:4 -6). Rejeitaram a Deus e o alimento providenciado ( Nm 11:20 ).

Se confiassem em Deus, pediriam, e Deus lhes seria favorável, providenciando até mesmo outro alimento. Porém, por não confiarem na providência de Deus, murmuravam abertamente contra o Senhor. Eles receberam o maná porque murmuravam, e novamente utilizaram a murmuração para protestar contra Deus e os seus servos.

Por rejeitarem a Deus no deserto, rejeitaram o maná. Por rejeitarem a Cristo, a palavra de Deus, rejeitaram o pão vivo enviado dos céus.

 

Lições no Novo Testamento

1) A Tentação de Cristo

Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, Jesus teve fome. O diabo aproveitou-se do momento, e propôs a Cristo: “Prove que você é o Filho de Deus e dá ordem que estas pedras transformem-se em pães”. Ora, um milagre por mais maravilhoso que seja, não prova que o homem é filho de Deus, antes somente a palavra de Deus é que demonstra quem verdadeiramente é o seu Filho: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” ( Mt 3:17 ).

Para que colocar Deus à prova, se Ele já declarou quem é o seu Filho amado? Como simples pedras transformadas em pães poderia provar que Jesus é Filho, se os magos do Egito também fizeram muitos milagres? Quem crê na palavra que diz: “Este é o meu Filho amado…” não precisa de prova.

Como Cristo utilizou a palavra de Deus para rebater a proposta do diabo, o diabo utiliza a palavra de Deus para tentar a Cristo: “Se tu és Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo. Pois está escrito…” ( Mt 4:6 ).

Sabemos que a promessa de Deus no ( Sl 91:11 ) diz de Cristo, porém, Deus manda os seus filhos descansarem, confiarem, e não prová-lo. Ora, Cristo estava descansado na proteção de Deus, e utilizou a palavra de Deus para rebater a proposta do diabo.

Isto demonstra que se alguém disser aos que creem: está escrito, é preciso considerar toda palavra que sai da boca de Deus.

2) O Pão nosso de cada dia

Jesus ensina os seus discípulos a orarem segundo a palavra de Deus: “O pão nosso de cada dia nos daí hoje” ( Mt 6:11 ).

Deus disse que haveria de conceder uma porção para cada dia de maná ( Ex 16:20 ). Isto demonstra que Deus haveria de conceder somente o alimento necessário para cada dia. Se Deus demonstrou que não haveria de dar hoje o alimento de amanhã, por que tentá-lo pedindo o pão de amanhã?

Isto demonstra que os filhos de Deus devem orar segundo a sua palavra, pois se pedirmos segundo a nossa vontade, não receberemos.

Um exemplo claro desta verdade temos em Moisés, quando pediu que Deus riscasse o seu nome do livro da vida “Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” ( Ex 32:32 ). Moisés pediu a Deus o impossível! Jamais Deus seria injusto para satisfazer o pedido de Moisés, ou seja: “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” ( Ex 32:33 ).

O pedido de Moisés é descabido, pois jamais Deus punirá o inocente no lugar do culpado. O modo correto de orar a Deus neste sentido é invocando a misericórdia de Deus, e não fazendo uma proposta descabida.

3) Deus não Invalida a sua Palavra

Deus providenciou pão no deserto, porém, os filhos de Israel deviam sair todos os dias pelo deserto e colher o maná. O maná era como semente de coentro, e o povo se espalhava para colhe-lo, era preciso moer ou pilar. Depois deste trabalho, o maná estava pronto para ser cozido ou assado ( Nm 11:7 -8).

Por que Deus não lhes dava o maná pronto? Porque a sua palavra nunca é invalidada. Por causa da queda de Adão, foi imposta a seguinte ordem aos homens: “Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra…” ( Gn 3:19 ), e ao conceder-lhes o maná, todos precisavam trabalhar para comerem segundo a palavra de Deus.

Isto demonstra que, caso alguém em nome de Deus prometa que haverá ganho de bens aparte do trabalho, não fala segundo a palavra de Deus.

 

Milagre não Salva

O milagre do maná demonstra que a salvação só é possível por fé.

O povo de Israel foi resgatado do Egito com mão forte, e vários eventos milagrosos ocorreram. Coisa maravilhosa foi a travessia do mar vermelho, porém, tal evento não trouxe confiança em Deus.

Observe que, após caminharem pelo deserto três dias sem acharem água, o povo chegou a Mara, e passaram a murmurar contra Moisés. Ora, se os milagres realizados durante o êxodo trouxesse confiança em Deus, mesmo diante da dificuldade, estariam descansados no cuidado de Deus.

Foi só Moisés clamar, e Deus ouviu. Por que o povo não clamou a Deus? Porque lhes faltava confiança. Para quem não crê, a única alternativa é murmurar.

Jeroboão não se converteu após ver um sinal segundo a palavra de Deus ( 1Rs 13:3 ). Jesus protesta contra as cidades impenitentes acerca dos sinais que foram realizados, e não se arrependeram ( Mt 11:21 ).

Jesus demonstra que, caso fosse operado os sinais que se operaram em Jerusalém, os moradores de Sodoma e Gomorra haveriam se arrependido.

Os fariseus e saduceus pediram um sinal a Jesus, porém, o sinal que lhes foi apresentado de nada aproveitou ( Mt 12:38 ). Nem mesmo os discípulos de Jesus compreenderam qual era o sinal do profeta Jonas ( Mt 16:5 ).

 

Jonas

Os fariseus e saduceus para tentarem a Cristo pediam um sinal. Os filhos do diabo continuavam a ação do diabo, tentavam a Cristo para que mostrasse um sinal do céu. Do mesmo modo que o diabo pediu um sinal, os seus filhos tentaram a Cristo ( Mt 16:1 ).

Mas, o sinal que lhes foi dado é segundo a palavra de Deus, do mesmo modo quando Jesus respondeu o diabo. Para o diabo bastava transformar pedras em pão, para os fariseus e saduceus qualquer outro sinal.

Através da história de Jonas Jesus apresenta um grande sinal aos seus ouvintes. Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, Jesus haveria de ficar três dias e três noites no seio da terra ( Mt 12:39 ). Ora, muitos souberam deste sinal, e não creram na ressurreição de Jesus.

Mas, se o milagre de Jonas não traz fé em Deus, antes promove muitas questões loucas acerca de como o profeta sobreviveu, que se dirá da sua mensagem?

Jesus demonstrou que não foi necessário milagres para que os ninivitas se arrependessem. Antes, bastou que ouvissem a palavra de Deus para crerem, e foram salvos da destruição iminente ( Mt 12:41 ).

Quem era Jonas para os ninivitas? Um estrangeiro errante com uma mensagem surpreendente. Os ninivitas creram na mensagem de Deus por intermédio do seu profeta, e os fariseus e saduceus não creram em Cristo, um de seus irmãos, profetas e maior que Jonas.

Estrangeiros vieram a Salomão para ouvir a sua sabedoria, e os saduceus e escribas rejeitam a sabedoria de Deus. Somente a pregação é para arrependimento, pois a fé vem pelo ouvir. Somente através da pregação é possível alcançar a compreensão que promove uma mudança de concepção no homem (arrependimento) ( Mt 12:38 -42).

 

A Compreensão

Ao ouvirem Jesus dizer: “Cuidado, acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus” ( Mt 16:6 ), os discípulos passaram a discutir entre si que Jesus estava lhes censurando por não terem trazido pão.

Jesus percebeu a falta de compreensão dos discípulos e aponta o milagre da multiplicação dos pães. Por que? Ora, Jesus queria que eles considerassem o fato de que não precisavam estar preocupados com pão, visto que a multiplicação dos pães demonstrou que este não era um problema para Cristo.

Por que passaram a discutir acerca de pão, quando Jesus falou de fermento? Porque não consideraram que alimento para o sustento do corpo não era o foco da mensagem de Cristo. O que Jesus cobrou dos seus discípulos, também era possível ao povo no deserto.

O objetivo da palavra de Deus e dos milagres é para dar a entender, ou seja, para que o homem compreenda e lembre-se de que o homem não vive somente do que é aparente, antes ‘vive de tudo o que sai da boca de Deus’.

Caso o povo de Israel considerasse os milagres realizados por Deus quando do êxodo, nunca murmurariam acerca de quem haveria de dar-lhes carne a comer ( Nm 11:4 ). Se considerassem as realizações de Deus, compreenderiam que Deus é fiel, e descansaria no cuidado de Deus.

 

Quem busca pão e sinais acaba rejeitando a Cristo

Quem lê a história do povo de Israel não compreende como o povo rejeitou a Deus após ver tantos milagres. Há quem considere que jamais faria o mesmo que Israel, visto que conhece a história do povo hebreu.

Mas, o que se observa é que a história se repete, e o homem ainda continua não considerando o que diz a palavra de Deus.

Jesus testificou certa vez que um profeta não tem honra na sua própria terra ( Jo 4:44 ), o que contrasta o seu ministério com o do profeta Jonas.

Porém, a questão permanece: “Se não virdes sinais miraculosos e prodígios, de modo nenhum crereis?” ( Jo 4:48 ). Ora, Jairo creu na palavra de Jesus e recebeu a cura da sua filha. Ele precisava do sinal, não para crer, mas para a saúde de sua filha. Porém, antes de ver o sinal, creu na palavra de Jesus, e a sua filha foi restabelecida.

Mas, para que o povo considerasse e aceitasse a mensagem de Cristo, Jesus multiplicou cinco pães de cevada pequeno e dois peixes pequenos. Ele alimentou cinco mil pessoas e sobrou doze cestos de pão.

Ora, quando viram o milagre, argumentaram: “Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo” ( Jo 6:14 ). Esta declaração deles demonstra que estavam focados somente em questões deste mundo, tanto que queriam fazer Jesus rei.

Porém, o milagre não fez com que reconsiderassem e aceitassem a palavra de salvação que Jesus esteve anunciando. Eles estavam em busca de um profeta que os alimentassem de pão, e não com a palavra de Deus.

É por isso que Jesus disse que qualquer que viesse em seu próprio nome seria aceito pelo povo “Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis” ( Jo 5:43 ), pois o anticristo virá segundo a eficácia de satanás, com poder, e sinais e prodígios da mentira ( 2Ts 2:9 ).

Jesus viu a multidão se esforçando para segui-lo, porém, eles seguiam a Cristo por causa do pão que comeram a fartar, e não porque consideraram o milagre da multiplicação dos pães e se arrependeram ( Jo 6:26 ).

Eles estavam labutando simplesmente pela comida que perece, do qual todos os homens que trabalham a terra comem. Mas, Jesus avisa solenemente: trabalhai pela comida que permanece para sempre!

Bastava crerem em Cristo, o enviado de Deus que fariam a obra de Deus ( Jo 6:28 ). Porém, novamente pediram um sinal e desconsideraram as maravilhas realizada por Cristo no dia anterior.

Eles buscava um sinal para ver, mas a Bíblia diz que bem-aventurado é aquele que não viu e crê ( Jo 20:29 ). Paulo mesmo reitera: os judeus buscam um sinal, mas Deus revelou-se através da sua palavra “Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:22 -23).

Mesmo lembrando do evento do maná, os judeus não consideraram a palavra de Deus que diz: “… não só de pão vive o homem, mas de tudo o que sai da boca do Senhor” ( Dt 8:3 b). Rejeitaram a Cristo, o verbo de Deus encarnado que concede vida aos homens ( Jo 6:35 ), porque viviam em busca de pão e de uma pátria neste mundo.

Os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que declaram serem peregrinos na terra, e vivem em busca de uma pátria melhor ( Hb 11:8 -10). Ora, do mesmo modo que Abraão foi chamado, os filhos da mesma fé que teve Abraão foram chamados através da mensagem do evangelho e vivem em busca de uma pátria celestial ( Hb 11:16 ).