A graça de Deus sobre todos os homens

Este artigo vai de encontro ao posicionamento teológico de John Owen, que consta de uma versão condensada do seu livro ‘A Morte da morte na morte de Cristo’, sob o titulo ‘Por quem Cristo morreu’.


A graça de Deus sobre todos os homens

“Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.”  (Gálatas 3:8)

Introdução

Este artigo vai de encontro ao posicionamento teológico de John Owen, que consta de uma versão condensada do seu livro ‘A Morte da morte na morte de Cristo’, sob o titulo ‘Por quem Cristo morreu’.

No prefácio do seu livro, o Dr. John Owen alega que abordou o tema após ter sido consultado por diversas vezes, isto motivado pela exposição de Judas, que diz: “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 1:3).

O irmão Judas ao impor o dever de batalhar pela fé, não estava convocando os cristãos a defenderem as suas crenças pessoais, antes que defendessem a doutrina do evangelho, que muitas vezes no Novo Testamento também é denominado ‘fé’, ‘verdade’.

Em razão dessa ordem, o objetivo deste artigo não é defender questões pessoais, mas sim defender a verdade exarada nas Escrituras acerca da doutrina que uma vez foi dada aos santos.

 

Pressuposto

O Dr. Owen parte do pressuposto[1] de que a ‘Bíblia diz que a morte de Jesus Cristo foi como um pagamento para libertar os homens do pecado’ Owen, John, Por quem Cristo morreu? Editora PES, 2º Ed. 1996, Imprensa da fé, versão eletrônica em PDF. Pág. 13.

E ele conclui que, até essa afirmação esta tudo bem. Daí, pergunto: será? Se a morte de Cristo foi um pagamento, como se deu essa transação comercial? Quem pagou o que para quem? O pecado colocou à venda os seus servos?

Ora, a salvação do homem não se resume em uma transação comercial, como se o pecado fosse um senhor que negocia os seus escravos. Na verdade, a salvação é substituição de ato, obediência pela desobediência, para que Deus seja justo e justificador.

O apóstolo Paulo não aborda transação comercial, antes substituição de ato, de modo que haja justiça:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.” (Romanos 5:18).

O primeiro Adão desobedeceu a uma lei santa, justa e boa no Éden, e por seu ato ofensivo veio o juízo de Deus sobre todos os homens para condenação. Mas, para reparar este dano, o último Adão, que é Cristo teve que obedecer ao Pai em tudo: entregando-se aos pecadores para ser morto em uma cruz.

A morte de Cristo, apesar do seu imensurável valor em razão do resgate da humanidade, não pode ser confundido como se fosse uma moeda em uma transação comercial, ou um sacrifício que Cristo se propôs fazer. Na verdade, Cristo teve que obedecer a Deus, mesmo contra a sua vontade, e em razão disso se fez servo, morrendo morte de cruz.

Sem a morte de Cristo na havia um caminho pelo qual o homem tivesse acesso a Deus, mas pela sua carne entregue em obediência ao Pai, Cristo deu amplo acesso aos homens a Deus.

Como a morte de Cristo Deus pagou o pecado para deixar livres os homens? Não! Por duas razões: a) os servos do pecado não estavam à venda; b) o vínculo dos homens com o pecado só termina com a morte dos pecadores.

Sem a morte de Cristo, caso alguém morresse fisicamente, estava perdido por causa da condenação em Adão e seguia ao juízo de obras no Tribunal do Grande Trono Branco. Mas, como Cristo morreu, todos os que creem morrem juntamente com Ele para o pecado, e são de novo gerados de semente incorruptível e ressurgem uma nova criatura.

De modo que:

“Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram.” (2 Coríntios 5:14).

Se a morte de Cristo fosse como um pagamento como diz o Dr. Owen, não seria necessário a morte dos pecadores com Cristo. Quando Cristo morreu, não morreu como forma de pagamento, antes morreu para consagrar um novo e vivo caminho pelo véu, ou seja, pela sua carne.

“Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne,” (Hebreus 10:20).

A morte de Cristo não foi uma forma de pagamento, pois é impossível a mulher se ver livre da lei do marido por transação comercial.

“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.  De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.  Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.” (Romanos 7:2 -4).

Enquanto o marido viver a mulher estará ligada pela lei ao marido. A mulher só estará livre do marido se este morrer. Não há outra forma. Por isso, pelo corpo de Cristo, os cristãos estão mortos para lei, e assim, passaram a pertencer a Deus.

O segredo para o homem se ver livre do pecado é morrer e ser sepultado com Cristo, pois só os mortos estão livres da servidão ao pecado.

“De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;  Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.  Porque aquele que está morto está justificado do pecado.” (Romanos 6:4 -7).

Deus não adquire pecadores para Si através da morte de Cristo. Na verdade, todos os pecadores que crerem no evangelho se conformam com Cristo na sua morte, de modo que o velho homem é crucificado, e o corpo que pertencia ao pecado é desfeito. Após os pecadores morrerem com Cristo, Deus por sua maravilhosa graça os faz ressurgir dentre os mortos uma nova criatura, e são estás criaturas que pertencem a Deus como servos da justiça.

 

A morte de Cristo

Toda a argumentação de Owen parte do pressuposto de que a Bíblia afirma que Jesus morreu como forma de pagamento, sendo que, na verdade, Jesus morreu pelos pecadores.

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5:8).

Deus pagou quem com a morte de Cristo? Não há essa ideia na Bíblia. Na verdade, Cristo morreu a morte física em obediência ao Pai, e a morte física de Cristo é substitutiva, pois os pecadores não precisam morrer uma morte física.

“Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão.” (Isaías 53:10).

Entretanto, apesar de os pecadores não terem que morrer uma morte física, visto que Cristo morreu em lugar dos pecadores, todos os pecadores precisam morrer para o pecado antes que possam viver para Deus.

Do ponto de vista da morte física, a morte de Cristo é substitutiva, mas como está determinado que ‘a alma que pecar essa mesma morrerá’, do ponto de vista espiritual, a pena não pode passar da pessoa do transgressor: o pecador tem que morrer (Ezequiel 18:20).

Sem a morte do pecador não há libertação do pecado, pois o pecado é um senhor que não vende os seus escravos, visto que o salário do pecado é a morte (Romanos 6:23). O servo do pecado só é livre do pecado quando morre para quem estava retido, de modo que quando o pecador morre com Cristo está livre da lei e do pecado.

“Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.” (Romanos 7:6).

Para compreender o significado da morte de Cristo, se faz lembrar o ordenado por Deus a Arão após a morte dos seus dois filhos. Arão deveria entrar no santuário com um novilho para expiação do seu pecado e um carneiro para holocausto. Com relação ao povo, Arão precisava de dois bodes para expiação do pecado do povo e um carneiro para holocausto (Levítico 16:5).

Arão deveria lançar sorte sobre os bodes, de modo que um pertenceria ao Senhor para ser imolado, e o outro seria o bode emissário (Levítico 16:6). O bode cuja sorte caiu e que pertencia ao Senhor seria oferecido para expiação do pecado do povo, mas o outro bode seria o emissário, seria apresentado vivo perante Deus para se fazer expiação com ele (Levítico 16:10).

O primeiro bode representa a morte substitutiva de Cristo, pois ninguém precisa ser pendurado no madeiro à semelhança de Cristo para ser liberto do pecado (Levítico 16:15 -16).

Como a transgressão não pode passar da pessoa do transgressor, o sacerdote chamava o bode emissário, e colocava ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e confessava (admitia) as transgressões, os pecados e as iniquidades de todos os filhos de Israel e, por mão de um homem designado para tal, o bode era conduzido ao deserto (Levítico 16:21 -22).

O que simbolizava o bode emissário? Que cada indivíduo dará conta de si mesmo a Deus, e após admitir que é pecador, deve ser conduzido fora do arraial ao deserto, onde será morto com Cristo.

“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?  De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.  Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;” (Romanos 6:3 -5).

Observe que o batismo na morte de Cristo é essencial à doutrina do evangelho, pois sem ser plantado juntamente com Ele na semelhança da sua morte não há como ser ressuscitado juntamente com Ele.

“Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer.” (1 Coríntios 15:36).

O valor da morte de Cristo está em que todos que creem n’Ele, igualmente morrem com Ele.

“Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram.” (II Coríntios 5:14).

Isto posto, não podemos aquiescer da premissa do Dr. John Owen de que ‘a morte  de Cristo foi um resgate, ou pagamento’, quer seja por alguns ou por toda a raça humana.

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Colossenses 2:11 -12).

 

Persuasão

O apostolo Paulo alertou os cristãos a não se deixarem enganar por palavras persuasivas (Colossenses 2:4; Efésios 5:6).

Uma das artimanhas da persuasão é fazer perguntas com base em um pressuposto, de modo que o interlocutor fica sem opções a considerar em razão do pressuposto, e adote o posicionamento que lhe é apresentado.

John Owen apresenta o pressuposto de que a morte de Cristo foi como um pagamento para libertar os homens do pecado, e em momento algum faz referência à necessidade de o pecador ser batizado na morte de Cristo.

Se o leitor do Livro do Dr. Owen não considerar a questão do batismo na morte de Cristo, a pergunta que é introduzida a seguir: “A morte de Cristo libertou todos os homens, ou somente alguns homens, dos seus pecados?”, deixa abertura para qualquer ensinamento divorciado das Escrituras.

Devemos analisar com cuidado, pois mesmo uma premissa verdadeira pode dar azo a inverdades. Como pode ser isso?

Elifaz, um dos amigos de Jó, tendo por base uma pergunta decorrente de premissas verdadeiras, alimentou inverdades acerca da condição de Jó.

Tendo por base o que ouviu em uma visão noturna durante o sono: “Pode o homem mortal ser mais justo do que Deus? Pode o homem ser mais puro do que o seu Criador?” (Jó 4:17), Elifaz equivocadamente acusou Jó de pecado.

As perguntas de Elifaz por causa do ‘mais’ só tem como resposta um sonoro ‘não’, entretanto, mesmo sendo impossível aos homens serem ‘mais’ justos ou ‘mais’ puros que o Criador, tal premissa não autorizava Elifaz acusar Jó de pecado.

Com base na premissa: ‘se a morte de Cristo foi como um pagamento para libertar os homens do pecado’, o Dr. Owen argumenta que, ‘se dissermos que a morte de Cristo foi por todos, então não podemos ao mesmo tempo dizer que foi apenas por aquelas pessoas a quem Deus escolheu’.

Se o posicionamento doutrinário do Dr. Owen, de que não podemos ao mesmo tempo dizer que foi apenas por aquelas pessoas a quem Deus escolheu’ não comporta a verdade de exarada nas Escrituras, de que Cristo morreu por toda humanidade, então tal posicionamento doutrinário deve ser descartado, pois o que importa é o exposto nas Escrituras:

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens,” (Tito 2:11).

Cristo é a graça de Deus manifesta conforme predito pelos santos profetas, e por Ele foi providenciado salvação a todos os homens, vez que Ele morreu pelos ímpios.

“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” (Romanos 5:6).

Ora, Jesus não morreu somente ‘por aquelas pessoas a quem Deus escolheu’, um pressuposto calvinista, visto que, a seu tempo, Cristo morreu pelos ímpios, o que significa que Jesus morreu por todos os descendentes de Adão, pois todos os descendentes de Adão são ímpios.

O pressuposto seguinte do Dr. Owen é mais esdrúxulo, de que se Cristo morreu por todos, então Deus não precisava escolher um povo especial’, ou, ‘se Deus escolheu um povo especial, então Cristo não precisava morrer por todos’.

Para entender essa questão do Dr. Owen, precisamos verificar a asserção paulina de que Deus escolheu para si um povo especial? Observe:

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo; o qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” (Tito 2:11 -14).

Primeiro o apóstolo Paulo afirma que Cristo se manifestou e trouxe salvação a todos os homens, cumprindo-se assim as profecias bíblicas de que ‘em Abraão seriam benditas todas as famílias da terra’ (Gênesis 12:3), ou ‘que Deus derramaria do seu espírito sobre toda carne (Joel 2:28).

Devemos nos lembrar do anunciado por Moisés, de que a doutrina de Deus deveria ser gotejada como a chuva e a palavra de Deus como o orvalho, como chuvisco sobre a erva, e como gotas de água sobre a relva (Deuteronômio 32:2), e do alerta de Isaías, de que todos os homens são como a erva, e que o povo é erva (Isaías 40:6 -8), portanto, todos os homens necessitam da palavra de Deus que subsiste eternamente (1 Pedro 1:24 -25).

Ao enfatizar que a graça manifesta trouxe salvação a todos os homens, o apóstolo Paulo estava destacando que Deus não fez acepção de pessoas, manifestando a graça somente aos judeus, antes que a graça foi dada a todos os homens (judeus e gentios).

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15).

Se esse ponto não fica esclarecido, que o evangelho é para toda criatura, todo homem, todos os povos, etc., todos os cristãos convertidos dentre o judaísmo teriam que ter uma visão semelhante a que o apóstolo Pedro teve, quando viu um vaso como toda espécie de animal imundo, para poder chagar a seguinte conclusão:

“E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo. A palavra que ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o SENHOR de todos);” (Atos 10:34 -36).

A graça revelada em Cristo ensina aos homens (nós) que é necessário renunciar à impiedade e às concupiscências, e que se viva no tempo presente sóbria, justa e piamente esperando a volta de Cristo.

A graça ensina as questões elencadas acima, justamente por que Cristo entregou a si mesmo pelos homens (nós), objetivando remir os homens de toda iniquidade, purificando assim um povo como sua propriedade, o que os torna especial, zeloso de boas obras.

Qual o objetivo do Dr. Owen ao utilizar o termo ‘escolher’ em lugar do termo ‘purificar’, ao dizer ‘então Deus não precisava escolher um povo especial’? Por que a questão que está em voga no seu livro não é ‘Por quem Cristo morreu?’, e sim, enfatizar a doutrina calvinista.

“… o qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” (Tito 2:14).

 

Morte como pagamento

Até aqui analisamos os dois primeiros parágrafos da Introdução do livro do Dr. John Owen.

Agora, vamos à aplicação que o Dr. Owen fez do pressuposto de que a morte de Cristo foi um resgate, ou pagamento, por toda a raça humana.

O Dr. Owen alega que, se a morte de Cristo foi um resgate, ou um pagamento por toda humanidade (friso que a Bíblia não diz isto), que resta dois posicionamentos:

  • Todos os homens têm o poder para aceitar ou rejeitar aquela redenção; ou
  • Todos os homens realmente são redimidos por Cristo, tenham eles conhecimento disso ou não.

Em seguida, no último parágrafo da página 13, o Dr. Owen equipara a falácia de que ‘a morte de Cristo foi um resgate, ou um pagamento por toda a humanidade’, como a verdade de que ‘Cristo morreu por todos os homens’, como se ambas as asserções fossem equivalentes, o que não é. A Bíblia afirma que Cristo morreu por todos os homens, mas não afirma que a morte de Cristo é resgate ou pagamento por todos os homens.

Faremos a analise dos dois pontos apresentado por Owen tendo por base o posicionamento bíblico, de que Cristo morreu por todos, e não só pelos ‘escolhidos’, segundo o que apregoa o calvinismo.

O Dr. Owen alega que a morte de Cristo por todos os homens só poderia ser real se um dos dois pontos fosse verdadeiro, posicionamento que aquiesço.

O Dr. Owen afirma que o primeiro posicionamento: ‘Todos os homens tem o poder para aceitar ou rejeitar aquela redenção’, nega o ensino bíblico de que todos os homens estão irremediavelmente perdidos no pecado e em si mesmos não tem poder para se achegar a Cristo.

Há um erro no ensinamento que o Dr. Owen apresenta como bíblico em desfavor do primeiro ponto.

Primeiro, a Bíblia afirma que todos os homens estão perdidos no pecado, porém, essa é uma situação remediável por Deus, pois aos homens é impossível se salvarem, mas para Deus tudo é possível (Marcos 10:27). A Bíblia afirma que todos os homens estão perdidos no pecado, o ‘irremediavelmente’ é acréscimo desnecessário.

Segundo, a Bíblia afirma que em si mesmo o homem não tem poder de se achegar a Deus, e não a Cristo. Como o homem não podia se achegar a Deus em razão do pecado, Deus enviou o seu Filho unigênito como mediador, de modo que Cristo é o caminho pela qual o homem pode se achegar a Deus.

O argumento de que o homem não tem como se achegar a Cristo é invencionice calvinista, pois seria sem propósito ser impossível o homem se achegar a Deus, e Deus enviar um mediador que igualmente fosse impossível ao homem se achegar.

No convite: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28), não há qualquer empecilho que impeça o homem de se achegar a Cristo.

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” (1 Timóteo 2:5).

Se fosse impossível ao homem se achegar a Cristo, outro mediador deveria ser interposto entre Cristo e os homens. Se é impossível ao homem se achegar a Cristo, porque era necessário que em tudo Ele fosse semelhante aos irmãos? Como Cristo poderia ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, se Ele foi enviado ao povo que, de alguma maneira estão impedidos de se achegarem a Ele?

“Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados.” (Hebreus 2:17 -18).

Observe que o escritor aos Hebreus enfatiza que devemos nos aproximar com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, o que seria impossível tal convite se fosse impossível aos homens se aproximar de Cristo.

“Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão. Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno.” (Hebreus 4:14 -16).

O posicionamento do Dr. Owen acerca da impossibilidade de os homens ir a Jesus decorre de uma má leitura da seguinte passagem bíblica:

“Respondeu, pois, Jesus, e disse-lhes: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim.” (João 6:43 -45).

Como os judeus murmurarem por Jesus ter dito ser o pão vivo que desceu dos céus, Jesus disse por parábolas e enigmas aos seus interlocutores judeus, que ninguém poder vir a Cristo, se o Pai que o enviou não o trouxer. Isto significa que é impossível aos homens ir a Cristo? Não! Significa que todos que de Deus ouviu e aprendeu, conforme predito pelos profetas, vem a Cristo, mas aqueles judeus, como não haviam ouvido e aprendido de Deus, não puderam vir a Cristo.

Em função do contento e da citação de Isaías: “E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante.” (Isaías 54:13), é evidente que os judeus não puderam ir a Cristo por não serem ensinados do Pai, e que o ensino do pai é o que traz os homens a Cristo.

“E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós. Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam; E não quereis vir a mim para terdes vida. Eu não recebo glória dos homens; Mas bem vos conheço, que não tendes em vós o amor de Deus. Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis.” (João 5:38 -43).

O Dr. Owen com falsas premissas rejeita a verdade de que todos os homens têm o poder para aceitar ou rejeitar a redenção em Cristo, sendo certo que Cristo morreu por todos os homens, mas somente os que creem na mensagem do evangelho serão salvos.

O segundo ponto: ‘Todos os homens realmente são redimidos por Cristo, tenham eles conhecimento disso ou não’, está completamente equivocado, pois tal posicionamento decorre do pressuposto que ser ‘redimido’ é o mesmo que a morte de Cristo ser um pagamento por todos os homens.

O Dr. Owen pressupõe que, enfatizar que Jesus Cristo morreu por todos, decorre de cinco razões:

  1. Parece tornar Deus mais ‘atraente’, se dizer que a morte de Cristo foi por todos;
  2. Parece tornar o amor de Deus ‘maior’, se dizer que Ele ama todos os homens igualmente;
  3. Parece tornar a morte de Cristo de maior ‘valor’, se podem dizer que ela foi um pagamento pelos pecados de todos;
  4. A Bíblia parece usar as palavras ‘mundo’ e ‘todo’ como se significasse todas as pessoas;
  5. Alguns podem querer dizer que a morte de Cristo foi por todos, para que eles possam ser incluídos, embora não queiram mudar a forma ímpia como estão vivendo.

A Bíblia enfatiza que Cristo é o cordeiro de Deus que foi morto desde a fundação do mundo, a e sua morte se deu em favor dos ímpios, dos pecadores, pois Cristo é mediador entre Deus e os homens (Apocalipse 13:8; Romanos 5:6 e 8).

Enfatizar o que a Bíblia diz não é tornar Deus mais atraente. Dizer que Deus demonstrou o seu amor a todos igualmente ao enviar o seu Filho ao mundo não é tornar o amor de Deus maior, antes enfatizar justamente que Ele não fez acepção de pessoas ao enviar o seu Filho como salvador do mundo.

“O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus.” (Isaías 52:10).

A morte de Cristo é de valor incomparável, visto que o valor de uma alma é superior às riquezas de todo o mundo. Agora, a ideia de que a morte de Cristo é um pagamento pelo pecado de todos os homens é equivocada.

O problema de interpretação dos termos ‘mundo’ e ‘todo’ depende do contexto em que os termos são utilizados, portanto, não devem ser lidos sob o prisma de um sistema doutrinário.

Agora, o fato de dizer que a morte de Cristo foi por todos não quer dizer que todos estão salvos, pois apesar de Cristo morrer por todos, aprouve a Deus salvar os crentes. Cristo é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, mas só será salvo quem crer em Cristo como diz as Escrituras.

 

Cristo, a solução do problema

O apostolo Paulo é enfático acerca da salvação em Cristo:

“Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.” (1 Coríntios 1:21).

Uma verdade insofismável: par ser salvo é imprescindível crer que Jesus é o Cristo.

O carcereiro que guardava a prisão onde o apóstolo Paulo e Silas, perguntou o que era necessário fazer para ser salvo, e obteve a seguinte resposta:

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa.” (Atos 16:31).

Sem crer em Jesus não há como ser salvo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.” (Marcos 16:16).

E o motivo é apresentado pelo apóstolo Paulo:

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido.” (Romanos 10:9 -11).

O termo grego traduzido por ‘crer’ nos versos acima é o verbo πιστεύω, transliterado ‘pisteuó’, que significa ‘acreditar’, ‘depositar confiança’, ‘ter fé em’, ‘convicção’, etc. Crer é uma questão subjetiva, e com relação ao evangelho decorre da verdade. O acreditar para salvação, apesar de ser uma questão subjetiva, tem um elemento objetivo: o Cristo.

Para ser salvo não adianta crer no milagre, no impossível, nos anjos, em Deus, nos santos, nos profetas, etc., pois se não crer que Jesus é o Filho de Deus, não será salvo. ‘Crer’ em Cristo se dá por constatação, admissão de uma verdade, e essa faculdade humana não é o dom de Deus.

Alguém pode argumentar: mas a fé não é dom de Deus? Sim, a fé é dom de Deus, mas o crer não. Neste ponto é imprescindível diferenciarmos ‘crer’ de ‘fé’.

No grego, a ‘fé’ apresentada como ‘dom de Deus’ é tradução do substantivo πίστις, transliterado ‘pistis’, e não significa ‘crer’, ‘acreditar’ ou ‘convicção’. O substantivo πίστις (fé), em função do contexto empregado ganha a conotação de verdade, fidelidade, doutrina, e, em muitos versículos, significa evangelho, Jesus.

O apóstolo Paulo ao acabar a sua carreira, afirmou que guardou a ‘fé’. Essa fé seria ‘acreditar’? Não! Ele guardou o evangelho. Nesse sentido, o irmão Judas disse que devemos batalhar pela fé dada aos santos, ou seja, devemos batalhar pela verdade do evangelho.

Em outras passagens, como Cristo é o autor e consumador da fé, os apóstolos fazem referencia a Cristo como a ‘fé’. Observe:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gálatas 3:23).

A ‘fé’ que havia de manifestar é Cristo, pois por Ele o homem se torna agradável a Deus:

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe” (Hebreus 11:6).

Quando o apóstolo Paulo fala que ‘pela graça sois salvos, por meio da fé – e isto não vem de vós, é dom de Deus’ (Efésios 2:8), Cristo é a ‘fé’ pela qual os homens são salvos, e Ele é o dom de Deus.

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.” (João 4:10).

Após diferenciar ‘fé’, o dom de Deus, de crer, uma faculdade humana, analisemos ao exposto pelo Dr. Owen no capítulo 1, do seu livro, sob o titulo ‘Apresentando um problema’.

O Dr. Owen faz várias citações de versículos bíblicos, destacando o motivo pelo qual Cristo veio ao mundo:

“Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.” (Lucas 19:10).

O que se perdeu? A humanidade, ou melhor, todos os descendentes de Adão, que sejam judeus ou gentios.

“Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um.” (Salmos 53:3).

Ele cita outra passagem, em que Jesus deixa claro que veio servir e dar a sua vida em resgate de muitos:

“Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.” (Marcos 10:45).

O ‘resgate’ não é uma transação comercial, antes representa uma substituição. Quando é dito que Jesus deu a sua vida, não se pode pensar que a morte de Cristo foi um pagamento, antes que Ele deu a sua vida em substituição, de modo que os resgatados não necessitam dar a sua vida.

Mas, por que Jesus deu a vida em resgate ‘de muitos’ e não ‘de todos’? Porque Jesus como homem é exceção, pois Ele não resgatou a si mesmo, mas os outros. Essa questão também é abordado pelo apóstolo Paulo:

“Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos.” (Romanos 5:15).

Geralmente dizemos que, pela ofensa de Adão morreram todos, pois todos pecaram (Romanos 5:12), entretanto, o apóstolo Paulo enfatiza que morreram muitos, pois um homem é exceção: o último Adão. Semelhantemente a graça, que é por Cristo, abundou sobre muitos, pois Cristo é o dom de Deus.

Mas, a redenção em Jesus é para todos os homens? Sim!

“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo.” (1 Timóteo 2:4 -6).

O Dr. Owen faz mais três citações das cartas paulinas:

“O qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus nosso Pai,” (Gálatas 1:4);

“O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade,…” (Tito 2:14);

“Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.” (1 Timóteo 1:15).

O Dr. Owen afirma que é evidente o propósito da morte de Cristo: a) salvar as pessoas do pecado; b) libertar as pessoas do mundo mau; c) tornar as pessoas puras e santas, e; d) criar pessoas que façam boas obras.

No meu entender, o fato de Jesus salvar alguém do pecado já abarca todas as outras questões elencadas. Se Jesus morreu para salvar as pessoas do pecado, fica a pergunta: quais pessoas? Todas as pessoas que estavam sujeitas ao pecado.

Novamente o Dr. Owen destaca cinco questões decorrentes da morte de Cristo, e todas as outras são reflexos da primeira: As pessoas são reconciliadas com Deus por intermédio da morte de Cristo (Romanos 5:1), de modo que a reconciliação se deu porque foram justificadas (Romanos 3:24), purificadas e santificadas (Hebreus 9:14), feitos filhos de Deus (Gálatas 4:4 -5), compartilham da glória de Cristo e, por fim, vida eterna (Hebreus 9:15).

Em seguida, o Dr. Owen apresenta um raciocínio por demais simplista: com base nas questões decorrentes da morte de Cristo, se Ele morreu por todos os homens, então todos os homens estão livres do pecado ou Cristo falho no seu propósito.

Neste argumento o Dr. Owen faz uso de uma falácia, conforme categorizado no ‘Guia das falácias de Stephen Downes’, pois ele apresenta um falso dilema, pelo número limitado de opções (na maioria dos casos apenas duas), quando de fato há mais. O falso dilema é um uso ilegítimo do operador “ou”. Pôr as questões ou opiniões em termos de “ou sim ou sopas” gera, com frequência (mas nem sempre), esta falácia.

Primeiro, considerando que Cristo morreu por todos, e que muitos homens permaneceram no pecado, isto não significa que Cristo falhou. Um exemplo está no seguinte fato: nem todos os que são de Israel são de fato israelitas, o que não significa que a palavra de Deus tenha falhado (Romanos 9:6).

Semelhantemente, do mesmo modo que é anunciado o evangelho hoje aos homens, não importando se judeus ou gentios (todos os homens), aos filhos de Israel também foi anunciado boas novas, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou.  Seria o caso de que a palavra anunciada falhou? Não! O problema não estava na palavra, e sim no fato de não estar misturada com a fé naqueles que a ouviram, ou já, ouviram de mal grado.

“Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram.” (Hebreus 4:2; Mateus 13:15).

Onde Cristo falhou pelo fato de morrer por todos, e, no entanto, muitos se perderem? Há falha em Ele ser fiel e não negar a Si mesmo?

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Timóteo 2:11).

Em segundo lugar, qualquer experiência diária não suplanta a verdade das Escrituras. Cristo morreu por todos, mas nem todos estão livres do pecado! Por que? Porque primeiro Cristo teve que morrer, por isso é cordeiro morto desde a fundação do mundo, para então poder instruir os homens a entrarem pela porta estreita.

Não fujo da questão: Cristo morreu por todos, e nego as duas questões levantadas pelo Dr. Owen: que todos estão livres do pecado ou que Cristo falhou. Além do mais, além de dizer que Cristo morreu por todos, evidencio que era propósito de Deus que todos os homens fossem beneficiados, conforme se lê:

“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.” (1 Timóteo 2:4).

Não sei quem possa ter dito tamanha besteira, conforme noticiado pelo Dr. Owen, de que ‘o benefício é só para aqueles que produzem uma fé para crer em Cristo’.

Neste ponto, vale destacar que homem algum pode produzir ‘fé’, quer seja salvo ou perdido. ‘Fé’ não é algo que o homem produz, pois a ‘fé’ em questão é Cristo, a verdade, o dom de Deus.

A ‘fé’ possui um único autor e consumador, que é Cristo. Cristo é a ‘fé’ manifesta, pois Ele é proveniente de Deus. Para o homem crer é imprescindível a ‘fé’ noticiada no evangelho. O homem crê porque a ‘fé’ é firme fundamento, pois tem por base a palavra de Deus, que em única instancia remete ao Verbo de Deus, que é Cristo.

Percebe-se que o Dr. Owen não consegue distinguir a ‘fé’ pela qual o justo viverá (Habacuque 2:4), que em essência é a palavra de Deus (Deuteronômio 8:3), do ato de crer, que diz de uma questão subjetiva, quando diz:

“Este ato de fé deve ser algo que alguns homens fazem por si mesmos, tornando-os diferentes dos outros homens. (Se fé fosse alguma coisa obtida pela morte de Cristo, e se ele tivesse morrido por todos os homens, então todos os homens teriam fé!).” Owen, John, Por quem Cristo morreu? Pág. 18.

Se o Dr. Owen pelo menos cogitasse que o evangelho é ‘fé’, a ‘fé’ que foi entregue aos santos para batalharem por ela (Judas 3), saberia que todos quantos ouviram a mensagem do evangelho tiveram a sua disposição ‘fé’, ‘fé’ essa decorrente da morte de Cristo.

Todos quantos ouvirem a verdade do evangelho tiveram à sua disposição ‘fé’, que é definida como firme fundamento, que torna os homens agradáveis a Deus, que é Cristo, que segundo o apóstolo Paulo é a ‘fé’ que havia de se manifestar e que a seu tempo veio (Gálatas 3:23 -25).

O evangelho é a ‘fé’ (crença, doutrina, mensagem) que estava sendo anunciada em todo o mundo (Romanos 1:8), fé essa que era mútua, pois pertencia ao apóstolo e aos cristãos em Roma (Romanos 1:12), ‘fé’ essa que estava em Timóteo e, que habitou na avó, na mãe e em Timóteo (2 Timóteo 1:5).

“Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho.” (Filipense 1:27).

O substantivo grego traduzido por ‘fé’ ganha vários significados no Novo Testamento, pois em essência o termo pistis (fé) decorre da verdade, da fidelidade, e por isso o apóstolo Paulo utilizou o termo para dizer ‘fé do evangelho’, que é o mesmo que ‘verdade do evangelho’.

“Assim que, sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens à fé, mas somos manifestos a Deus;” (2 Coríntios 5:11).

O apóstolo Paulo sabendo que era necessário aos homens obedecerem (temor) a Deus, convencia os homens à fé, ou seja, ao evangelho.

A ‘fé’ é decorrente da morte de Cristo, pois sem a morte de Cristo não haveria o escândalo para os judeus e nem a loucura pra os gregos, o tema da pregação do evangelho.

“Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.” (1 Coríntios 1:23);

“Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado.” (1 Coríntios 2:2).

‘Crer’ não é algo que alguns homens possam fazer por si mesmos, pois a ‘fé’ constitui um mandamento, e crer é obedecer. Sem o mandamento, sem a fé, não existe o crer, a esperança e nem a perseverança.

O apóstolo João é enfático:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.” (1 João 3:23).

Se Deus não tivesse enviado o Cristo ao mundo para ser levantado, assim como Moisés levantou a serpente de metal no deserto (João 3:14), não haveria mandamento, por conseguinte, seria impossível obedecer a Deus.

Mas, como Deus deu o seu Filho Unigênito, implicitamente estabeleceu um mandamento: ‘para que todo aquele que nele crê não pereça’, de modo que quem crê se faz servo de Deus, pois executou a obra de Deus.

“Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (João 6:28 -29).

Concluo enfatizado que, se o ‘ato de fé’ a que o Dr. Owen se refere diz do substantivo grego pistis, não é algo que os homens possam fazer por si mesmo, pois se refere ao dom de Deus. Por outro lado, se o ‘ato de fé’ tem em vista o verbo grego πιστεύω, igualmente não é algo que os homens fazem por si mesmos, antes devem fazê-lo em obediência a um mandamento.

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza.” (Salmos 71:3);

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador;” (Tito 1:3).

O sistema doutrinário do qual o Dr. Owen é adepto, por não compreenderem a essência da ‘fé’ e a natureza do ‘crer’, inferem que se o homem crer na verdade do evangelho sem intervenção direta de Deus, intervenção essa chamada por eles de ‘graça preveniente’, o homem teria méritos ao crer.

Em primeiro lugar, quando o homem crê em Deus por intermédio de Cristo, o mérito é única e exclusivamente de Deus, pois Ele é fiel e imutável, de modo que crer é resultado da fidelidade de Deus.

Em segundo lugar, crer em Cristo é o mandamento de Deus, e não há mérito algum em o homem obedecer, antes, ao obedecer, o homem nega-se a si mesmo, fazendo-se servo. Onde está a jactância em obedecer? Quem se vangloria por obedecer? Onde está o mérito de quem obedece?

Abraão saiu do meio da sua parentela em obediência. Qual o mérito de Abraão? Abraão ofereceu o seu único filho em obediência. Qual a jactância de Abraão? Na verdade Abraão foi tido como amigo de Deus por ter cumprido todos os mandamentos de Deus.

“Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis.” (Gênesis 26:5).

Ao enviar o Cristo, a fé (verdade, fidelidade) foi manifesta, e a essência da fé é o mandamento de Deus: crer em Cristo, e quem crê, torna-se servo, portanto, não tem do que se vangloriar, pois em se fazer servo não há mérito.

“Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.” (João 15:14).

 

Os agentes da salvação

Deus enviou o seu Filho como salvador do mundo, e foi dado mandamento aos homens para crerem nele para serem salvos, e como a doutrina calvinista não adota o posicionamento das Escrituras, o Dr. Owen para enfatizá-la busca atribuir as pessoas da divindade papeis distintos na questão da salvação do homem.

“Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse.” (Isaías 28:16).

O Dr. Owen infere que Deus como agente da salvação do homem agiu de duas maneiras: a) Deus enviou o seu Filho para morrer, e; b) puniu o Cristo por causa dos nossos pecados.

Temos dois problemas nestas afirmações, pois com relação à primeira, Deus enviou o seu Filho na condição de servo para obedecer, de modo que Cristo teve que sujeitar-se a vontade do Pai: bebendo o cálice (Mateus 26:42).

“E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Filipenses 2:8);

“Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu.” (Hebreus 5:8).

Com relação a segunda colocação, Cristo não foi punido pelos nossos pecados, antes foi do agrado do Pai moê-lo, fazendo-O enfermar (Isaías 53:10). Cristo foi ferido por causa das nossas transgressões, mas isso não significa que Ele foi punido por causa dos nossos pecados (Isaías 23:5), pois punir o inocente em lugar do culpado não reflete a justiça de Deus “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro.” (Êxodo 32:33).

Ora, a redenção da humanidade dependia da obediência do Cristo, pois por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, e por um ato de justiça veio a graça sobre todos os homens (Romanos 5:18), de modo que a humilhação e sofrimento de Cristo demonstra quão efetivamente Cristo foi obediente, o que é diferente da ideia de punido. Cristo não foi desobediente, portanto, não podia ser punido, entretanto, foi tentado e padeceu (Hebreus 2:18).

Abro aqui um parêntese: o juízo que veio sobre todos os homens, efetivamente refere-se a toda humanidade, por isso é dito que todos pecaram. Semelhantemente a graça veio sobre todos os homens, mas segundo a doutrina calvinista, todos não são todos.

Certo é que Deus enviou o seu Filho ao mundo como salvador (João 3:16: Gálatas 4:4 -5), por isso o sangue de Cristo é precioso, como de um cordeiro sem defeito e sem macula, conhecido antes da fundação do mundo (1 Pedro 1:19 -20).

O que foi concedido pelo Pai ao Filho para realizar a obra de Deus foi mandamentos (João 10:18; João 12:49), e não habilidades, pois em tudo Cristo foi semelhante aos seus irmãos, mas sem pecado.

Deus não prometeu ajuda ao Cristo, antes a fidelidade e imutabilidade de Deus era segurança para o Cristo desempenha a sua missão. A palavra de Deus era o bastante para Cristo se fazer servo:

“Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome. Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.  Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.” (Salmo 91:14 -16).

Após destacar que Deus é o agente na salvação, no item 2, da página 20, novamente o Dr. Owen enfatiza que Deus puniu o Cristo por causa dos nossos pecados, e cita o seguinte versículo:

“Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Coríntios 5:21).

Em seguida, enfatiza que Cristo sofreu e morreu em nosso lugar, para depois questionar, alegando ser estranho, que Cristo tivesse sofrido em lugar daqueles que vão sofrer por causa dos seus próprios pecados.

Certo é que Cristo em obediência ao Pai sofreu e morreu fisicamente em nosso lugar, entretanto, novamente o Dr. Owen ignora o fato de que, não basta o Cristo ter sofrido em nosso lugar para sermos salvos, visto que é imprescindível aquele que vai ser salvo ser crucificado com Cristo, morto, sepultado, para ressurgir com Cristo.

Cristo sofreu e morreu em nosso lugar para estabelecer um novo e vivo caminho pela qual o homem tem acesso a Deus, porém, Deus não tem comunhão com o homem nascido segundo a carne, pois antes se faz necessário ao homem morrer para o pecado, para então viver para Deus.

Embora Cristo tenha morrido por todos, pois a graça veio sobre todos os homens (Romanos 5:18), como muitos não se fizeram servos obedecendo ao mandamento de Deus, sofrerão em razão dos seus próprios pecados.

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador;” (Tito 1:3).

Devemos nos atentar que o amor de Deus não é sentimento, mas mandamento:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (1 João 5:3);

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me.” (Marcos 10:21).

Observe que Deus é Senhor, e como Senhor tem uma obra a realizar, obra essa que fica a cargo dos seus servos, de modo que crer em Cristo é o mandamento que Deus deu aos seus servos, obra essa que o homem na condição de servo deve realizar:

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (João 6:29).

Diante do que já expusemos, as conjecturas do Dr. Owen colocadas em três opções são um despautério, pois o pecado pela qual Cristo morreu diz de uma condição inerente à natureza dos homens gerados de Adão, e não de questões de cunho comportamental, moral ou legal.

A ideia de que Cristo morreu por alguns dos pecados de todos os homens contraria a exposição do escritor aos Hebreus, que Cristo pela sua morte aniquilou (tornar indolente, desempregado, inativo, inoperante, fazer uma pessoa ou coisa não ter mais eficiência, privar de força, influência, poder) o diabo, que tinha o império da morte (Hebreus 2:14), e livrasse todos que, com medo da morte, estivessem sujeito a servidão.  ‘Alguns dos pecados’ é ideia de pecados comportamentais, sendo que o pecado que Jesus morreu para redimir o homem, diz da condição do homem em sujeição ao pecado e a morte.

Certo é que Cristo morreu para expiar o pecado do povo, ou seja, Ele morreu pelos pecados de todos os homens.

“Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo.” (Hebreus 2:17).

O Dr. Owen pergunta: Se Cristo morreu pelos pecados de todos, por que não estão todos os homens livres do pecado? A resposta é objetiva: por causa da incredulidade.

Ao perguntar se a incredulidade é pecado, para tentar negar a verdade de que Cristo veio para expiar os pecados do povo, percebe-se que o Dr. Owen desconhece a natureza do pecado pelo qual Cristo morreu, e a natureza da desobediência, ofensa pela qual Cristo não morreu.

Cristo morreu pelo ‘pecado’ que entrou no mundo em função da ofensa de Adão, e pelo pecado também entrou no mundo a morte, pois Adão desobedeceu à lei que tinha como consequência a morte (certamente morrerás). Como a consequência da ofensa de Adão passou a todos os homens, ou seja, a morte passou a todos, por isso é dito que todos pecaram, ou seja, estavam separados, alienados de Deus.

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.” (Romanos 5:12).

Cristo morreu por causa do pecado que é a separação que há entre Deus e o homem, separação essa também denominada ‘morte’. A morte de Cristo visa reparar a separação que há entre Deus e os homens, e não remediar a desobediência de Adão. Para reparar a separação que havia entre Deus e os homens, Cristo teve que obedecer ao Pai em tudo, estabelecendo assim uma oportunidade de salvação.

“Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram;” (Hebreus 2:3).

Ora, todos os descendentes de Adão são por natureza filhos da ira e da desobediência, e para serem salvos precisam obedecer ao evangelho de Cristo.

“Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome,” (Romanos 1:5);

“Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé;” (Romanos 16:26).

A incredulidade com relação à mensagem do evangelho, de que Cristo é o Filho de Deus, não é um pecado pelo qual Cristo morreu, pois esse é um pecado contra o mandamento de Deus: a obediência da ‘fé’.

“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.” (João 3:36);

“Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece.” (João 9:41);

“Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados.” (João 8:24).

O pecado pelo qual Cristo morreu visa livrar o homem da ira de Deus, de modo que a incredulidade não está inclusa no pecado pela qual Cristo morreu. A incredulidade faz com que o homem pereça na condição que nasceu, sujeito a ira de Deus.

Ao argumentar que, se a incredulidade é um pecado,então deve estar incluída entre os pecados que Cristo morreu, no afã de refutar a premissa de que Cristo morreu pelos pecados de todos os homens, não atentou para o fato de que a incredulidade dos homens não aniquila a fidelidade de Deus.

“Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado. E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus, que diremos? Porventura será Deus injusto, trazendo ira sobre nós? (Falo como homem.)  De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?” (Romanos 3:3 -6).

Deus sendo fiel enviou o seu Filho ao mundo para remir a todos os pecadores, mas se alguns ou muitos forem incrédulos, Deus permanece fiel e verdadeiro. E se a injustiça desses incrédulos for causa da justiça de Deus, que trará ira sobre eles, não há injustiça em Deus.

“Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade.” (2 Tessalonicenses 2:12);

“Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2 Coríntios 4:4).

A incredulidade é o modo pela qual o homem nega a Cristo, por isso Jesus não morreu pelo pecado da incredulidade, antes Ele morreu para que pudéssemos morrer com Ele e, então, com Ele vivermos.

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Timóteo 2:11 -13).

No quesito Cristo como agente da salvação, entendemos que Cristo é o autor e consumador da ‘fé’, pois na eternidade sendo uma das três pessoas da divindade, acordou que abriria mão do seu poder e glória, e passaria a habitar no mundo dos homens na posição de Filho de Deus (2 Samuel 7:14).

No mundo dos homens, ainda que fosse Filho, se fez servo, não usurpando a condição de Deus, antes aprendeu a obediência, isto em vista do que Ele padeceu (Filipenses 2:6 -7).

Como filhos tem que ter vínculo de carne e sangue, Cristo também participou de carne e sangue, para que pudesse chamar os homens de irmãos, e assim tornou-se sujeito à morte, para poder aniquilar o que tinha o império da morte. Por isso era conveniente que em tudo Cristo fosse semelhante aos homens, para ser sumo sacerdote e misericordioso, e assim expiar o pecado do povo (Hebreus 2:14 -17).

O Dr. Owen afirma que a prontidão de Cristo não tinha em vista a raça humana, e sim ‘os filhos que Deus lhe deu’, uma citação do profeta Isaías, que são humanos (Hebreus 2:13; Isaías 8:18).

Evidente que não é isso que diz o texto de Hebreus, visto que Cristo se fez homem por causa da paixão da morte, para que pudesse experimentar a morte por todos. E, como os filhos participam de carne e sangue, Cristo teve que participar de carne e sangue, para poder chamar aqueles que Deus o deu de irmãos, e pudesse pela sua morte aniquilar o diabo.

“Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos.” (Hebreus 2:9).

O Dr. Owen não considera que tudo o que Jesus fez foi em obediência, e não voluntariamente. Cristo, sem pecado, se apresentou ao Pai como sacrifício e em obediência, e por isso o seu sofrimento e morte teve valor diante de Deus. Qualquer outro que se prontificasse a morrer não teria valor diante de Deus, primeiro por ter sigo gerado em pecado e, portanto, pecador; e segundo, porque Deus não requereu tal obediência de ninguém, a não ser dos seu Filho aquém Ele elegeu.

A interpretação que o Dr. Owen faz da oração sacerdotal de Jesus, para alegar que Jesus não morreu por todos os homens, pelo fato de Cristo não ter rogado pelo mundo todo, é no mínimo leviana.

Cristo veio ao mundo com a missão de revelar o Pai (João 1:10 e 18), mas o mundo não O conheceu (João 17:25). Após completar a sua missão, Jesus roga ao Pai pelos seus discípulos e por todos os que pela palavra de Deus haveria de crer em Cristo (João 17:20).

O fato de Jesus rogar somente pelo seu corpo, que é a Igreja, não depõe contra o fato de que Cristo é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, a graça sobre todos os homens “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” (João 1:29; Romanos 5:18).

Quando na página 24, o Dr. Owen diz que a entrega voluntária e a intercessão de Cristo destinam-se a trazer muitos filhos a glória de Deus, citando Hebreus 2, verso 10, percebesse uma má leitura do versículo, que diz:

“Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles.” (Hebreus 2:10).

Como o que santifica como os que são sanificados pertencem todos a Deus (Hebreus 2:11), Cristo é o príncipe da salvação daqueles filhos que foram conduzidos à gloria, porém, o texto destaca que a consagração de Cristo se deu pelas aflições. No texto citado não há qualquer referência a uma voluntariedade de Jesus, pois Ele é o servo cego e surdo (Isaías 42:19), portanto, só agiu em obediência ao Pai, e nem faz referência à intercessão.

Certo é que Cristo morreu por todos os homens, e todos que crerem receberá eterna salvação.

Apesar de no capítulo 6 o Dr. Owen enfatizar que o seu argumento destrói completamente o ensino de que Cristo morreu por todos, no capítulo 7 o mesmo argumento volta à tona.

Enquanto o texto bíblico enfatiza que com o seu ‘conhecimento’, o Cristo, justificará a muitos, o Dr. Owen alega que Jesus justifica aqueles cujas iniquidades levou sobre si.

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si.” (Isaías 53:11).

O Dr. Owen procura ignora a verdade de que toda a humanidade andava desgarrada como ovelhas, cada qual pelo seu caminho, mas Deus fez cair sobre Cristo a iniquidade de todos.

“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Isaías 53:6).

Quando Cristo derramou a sua alma na morte, levou sobre si o pecado de muitos, e neste ato intercedeu por todos os homens, pois todos eram transgressores.

“Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores.” (Isaías 53:12).

Alegar que Cristo intercedeu somente por aqueles cujos pecados levou sobre si é leviano, pois além de Deus fazer cair sobre Cristo a iniquidade de todos que andavam desgarrados, intercedeu por eles.

Alegar com base em Romanos 4, verso 25: “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação”, que Cristo ressurgiu dos mortos para justiçar aqueles pelos quais Ele morreu, é deturpar a essência do texto.

Cristo foi entregue pelos nossos pecados para que pudéssemos morrer com Ele, pois somente aqueles que morrem com Cristo estão justificados do pecado “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” (Romanos 6:7). Agora, como Cristo ressurgiu dos mortos, os que são mortos e sepultados com Ele, ressurgem uma nova criatura, quando são declarados justos por Deus: justificação.

‘Justificado do pecado’ é questão diferente de ‘justificação’. Justificação é uma declaração de Deus de que o homem gerado de novo pela palavra da verdade foi criado em verdadeira justiça e santidade, portanto, é justo. Já o ato de ser justificado do pecado ocorre no momento em que o velho homem é crucificado com Cristo, quando o corpo que pertencia ao pecado é desfeito.

Cristo morreu por todos os homens, para que por meio da pregação da fé pudessem crer em Deus por meio de Cristo “E é por Cristo que temos tal confiança em Deus;” (2 Coríntios 3:4), pois sem Cristo não há como o homem exercer confiança em Deus.

O Dr. Owen procura de várias maneiras enfatizar a intercessão de Cristo como essencial à salvação, e se esquece que o evangelho de Cristo é poder de Deus para salvação de todo que crê (Romanos 1:16 -17; 1 Coríntios 1:18). Basta ouvir o evangelho da salvação e crer para ser salvo (Efésios 1:13), pois crer no evangelho é crer na encarnação virginal, que Jesus veio sem pecado, habitou entre os homens, foi morto, sepultado, ressurgiu dentre os mortos e está assentado a destra de Deus nas alturas.

Cristo é o único meio para salvação dos homens, pois não há outro nome dado entre os homens pela qual devamos ser salvos (Atos 4:12). Dizer que Cristo associou a sua morte e sua intercessão como o único meio para a nossa salvação é ignorar que, para o homem ser salvo é necessário crer em Cristo como diz as Escrituras, e crer em Cristo é crer em toda a mensagem do evangelho: na encarnação virginal, que Jesus veio sem pecado, habitou entre os homens, foi morto, sepultado, ressurgiu dentre os mortos e está assentado a destra de Deus nas alturas.

O Dr. Owen quer fazer valer tanto a premissa da morte e intercessão, que se utiliza de um texto bíblico que fala da ressureição para enfatizar a intercessão.

“E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.” (1 Coríntios 15:13 -17).

Ora, sabemos que Cristo é nosso intercessor junto ao Pai, e que o Espírito Santo intercede com gemidos inexprimíveis, no entanto, quando enfatiza que há ressurreição dos mortos, o apóstolo Paulo não estava frisando que Jesus ressuscitou para interceder, antes que, se não há ressurreição dos mortos, Jesus não ressuscito, e se Ele não ressuscitou, a pregação dos cristãos era inócua e a crença (fé) deles também.

 

De tudo o que analisamos na primeira parte do livro ‘Por quem Cristo morreu?’, do Dr. Owen, alguns argumentos utilizado por ele decorrem de má leitura dos textos bíblicos, ou a interpretação de vários versículos é tendenciosa, de modo a dar suporte à doutrina reformada calvinista.

 

 

[1] “Pressuposto – aquilo que se supõe antecipadamente; pressuposição, conjectura, suposição”.




Solução grandiosa: a ressurreição de Jesus Cristo

Todos os cristãos celebram a ressurreição de Jesus Cristo, evento grandioso, como o é, a celebração da Páscoa, pelos Judeus. Em função da ressurreição de Cristo, todos os dias são motivo de os cristãos estarem regozijados. O mundo não compreende a essência da ressurreição de Cristo e nem o que ela proporcionou para a humanidade, dai a necessidade de anunciarmos a verdade do evangelho.


Solução grandiosa: a ressurreição de Jesus Cristo

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (João 10:10)

A Vida em Cristo

Todos os homens enfrentam problemas, dificuldades e sofrimentos, e muitos reputam que as vicissitudes da existência humana são decorrentes do pecado. Poucos compreendem que as vicissitudes da vida não decorrem do pecado, antes, foram estabelecidas por Deus.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este, em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele.” (Ec 7:14)

Todos os homens nascem com uma velha natureza, visto que estão espiritualmente ‘mortos’, ou seja, separados de Deus. A condição de mortos não é percebida pelos sentidos do corpo, mas a Bíblia revela que todos os homens nascidos de carne e sangue, estão presos na morte, o aguilhão do pecado.

Só é possível aos homens se darem conta de que estão alienados de Deus, quando lhes é anunciada a verdade do Evangelho de Cristo, quando, também, são inteirados do que lhes é necessário para voltar à vida.

Quando o homem recebe a Cristo, o dom da vida espiritual, é posto em liberdade, pois volta a ter comunhão com o Criador:

“Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo.” (Ef 2.4-5)

A ressurreição de Jesus torna possível que todos os homens recebam vida espiritual, com plena comunhão com Deus (1 Jo 1:3). Por Cristo, a graça de Deus, o velho homem que existia em inimizade com Deus, é crucificado, morto e sepultado e da semelhança da ressurreição com Cristo, ressurge uma nova criatura, em comunhão com Deus, livre do pecado.

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé.” (Ef 2:8)

Todos os homens podem receber o dom de Deus. A grandiosa solução que Deus proveu para a humanidade é de graça, pois nada é cobrado do homem, para que possa ser participante do dom inefável que proporciona vida.

Por causa da ofensa de Adão, não havia saída para a humanidade, pois a todos estava reservada a morte, como paga de todos, por serem escravos do pecado (Rm 6:23). Na condição de escravos do pecado, não havia como os homens proverem os meios necessários para alcançarem liberdade.

Como é exigência da lei, que estabeleceu que, certamente, o homem morre ao desobedecer a Deus, o que ocorreu, quando Adão comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, restava à humanidade, morrer e seguir para a eternidade, sob o peso da condenação, estabelecida em Adão.

Cristo, o último Adão, é a solução proporcionada por Deus, pois quando Ele morreu em obediência ao mandamento de Deus, proporcionou justa retribuição aos pecadores, de modo que é possível ao pecador morrer com Cristo e ressurgir uma nova criatura livre do pecado.

“Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.” (Jo 5:24)

A existência de todos os homens pode ser transformada quando descobrem a Cristo, o dom de Deus. Por causa da verdade do Evangelho, hoje é possível aos homens compreenderem que são pecadores, por causa da ofensa de Adão, e que necessitam de um redentor: Cristo!

 

A Vida da Ressurreição

A morte física é inexorável: todos os homens morrem. Nem um único indivíduo, neste planeta, escapa da morte física, pois, Deus estabeleceu que todos os homens voltam ao pó, por terem sidos tomados do pó da terra (Gn 3:19).

A morte física dos entes queridos causa imensa tristeza nos que ficam, mas, poucos consideram as consequências, decorrentes da morte espiritual, que estabeleceu uma barreira de separação entre Deus e os homens.

No instante em que Adão pecou, no Jardim do Éden, ele morreu espiritualmente (Gn 2:17). No instante que Adão degustou do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o pecado entrou no mundo e afetou a todos os seus descendentes. Em consequência da desobediência de Adão, é dito que todos ‘pecaram’, isso, porque, a morte espiritual passou a todos os homens.

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.” (Rm 5.12)

Em Adão, todos morrem, e como a morte é o aguilhão do pecado, todos são feitos pecadores, ou seja, escravos do pecado. A morte física é consequência de o homem ter sido tomado do pó da terra, e ser descendente da carne e do sangue de Adão tem, por consequência, o homem nascer alienado de Deus.

“Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça, reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo.” (Rm 5:17);

“Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também, todos serão vivificados em Cristo.” (1 Co 15:21-22)

Reparar o problema da morte espiritual não livra o homem da morte física, pois, crer em Cristo, não muda o fato de que o homem foi tomado do pó da terra. Em Cristo, Deus oferece aos homens solução grandiosa para o problema da separação que havia entre Deus e os homens.

Esta é a promessa que Jesus fez: vida eterna!

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá.” (Jo 11:25)

Todos os que creem em Cristo, ainda que venham a sofrer a morte física, como consequência de ter sido tomado do pó da terra, um dia haverá de ressurgir em um corpo glorificado, semelhante ao corpo de Cristo .(1 Jo 3:1; 1 Co 15.20-23)

Quem recebeu Jesus como seu Salvador, ressurge com Cristo e vive em novidade de vida (Cl 3:1), tendo a firme esperança de que, se descer a campa fria, antes da volta de Cristo, voltará a viver novamente e estará para sempre com Cristo.

 

Vida Abundante e Livre

O crente em Cristo precisa compreender que as realizações pessoais neste mundo não são parâmetro para analisar se uma pessoa é salva ou não. Viver sem idealizar grandes realizações ou, sem ter objetivos na vida, não possui relação alguma com a vida abundante e livre concedida por Cristo.

A ressurreição de Jesus resolveu o problema da desesperança da humanidade, no quesito salvação, pois, isso era impossível aos homens. (Mt 19:26) Pessoas que vivem sem um ideal, na tão alardeada crise existencial e que, frequentemente, se perguntam: “Qual é o sentido da vida?”, não encontrarão tal resposta em Cristo.

Por outro lado, se crê com o coração que Deus ressuscitou a Cristo dentre os mortos e confessa com a boca que Jesus é o Filho de Deus (Rm 10:9-10), o homem alcança nova vida e passa a viver por Cristo e para Deus.

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura…” (2 Co 5:17).

“Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim, também, andemos nós em novidade de vida.” (Rm 6:4)

Se o homem está “em Cristo”, é livre de toda condenação, pois está de posse de uma nova vida, sendo declarado justo, por Deus. Deus concede vida abundante a qualquer que obedece ao Seu mandamento de crer no Cristo.

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10:10)

Após crer que Jesus é o Cristo, o novo homem possui uma missão: batalhar pela verdade do Evangelho (Jd 1:3! Esta batalha é tão importante que, ao final da sua carreira, o apóstolo Paulo enfatizou que combateu um bom combate e guardou intacta a verdade do evangelho.

“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.” (2 Tm 4:7)

Um dos intensos combates dos cristãos se dá pela oposição daqueles que querem servir a Deus, através da caducidade da letra, e não através do espírito, ou seja, através das palavras de Cristo. (Jo 6:63)

“Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra.” (Rm 7:6)

Um dia, todos os salvos em Cristo comparecerão diante de Jesus e serão recepcionados no Tribunal de Cristo. Nesse evento celestial, Cristo haverá de premiar os salvos que, neste mundo, sobre-edificaram sobre o fundamento estabelecido por Deus, com matérias como ouro, prata, pedras preciosas, recebendo, assim, galardão. (1 Co 3:14). Mas, o cristão que utilizou materiais como madeira, palha, feno, as suas obras serão provadas, como que pelo fogo, e sofrerão detrimento, não sendo galardoados, porém, estarão salvos.

A ressurreição de Jesus proporciona nova vida aos que creem e o maior prazer dessa nova criatura está em pensar nas coisas celestiais, onde Cristo está assentado, à destra de Deus. (Cl 3:1) Durante a lida, o crente em Cristo pode dizer:

“Grandes coisas fez o SENHOR por nós, pelas quais estamos alegres.” (Sl 126:3)

Embora o crente neste mundo passe por aflições (Jo 16:33), pois o que foi prometido é a vida eterna, e não um oásis de facilidades, essa é uma verdade que escapa a muitos cristãos (Mt 5:10-12).

A despeito dos sofrimentos que, frequentemente, a vida proporciona, Cristo é a maior alegria dos que esperam em Deus. Tudo isso só é concedido aos cristãos, porque Jesus morreu e ressuscitou ao terceiro dia! Aleluia, pois, com Ele, também, ressurgimos!

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




O Livro de Jó – A cilada de Satanás

Fazer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.


Considerações sobre o sofrimento de Jó

Parte III

As riquezas, a família e a saúde foram arrancadas abruptamente de Jó sem um motivo aparente. E o que relata a Bíblia? Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

O sofrimento afetou o equilíbrio emocional de Jó, mas não tirou a sua confiança em Deus.

A compreensão que Jó tinha a respeito da existência do homem neste mundo e das dádivas que Deus concede pelo fruto do trabalho, era firme. Para Jó, tudo pertence a Deus e, se alguém tem alguma coisa, é porque recebeu de Deus.

“O Senhor o deu e o Senhor o tomou, bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1. 21).

Jó se posiciona como servo diante do senhorio de Deus, quando diz que o Senhor deu e o Senhor tomou, e o louva por tudo.

O sofrimento e a perda de bens materiais não afetou a confiança de Jó em Deus, porém, o mal que sobreveio sobre ele, afetou sobremaneira os seus amigos. Quando avistaram a condição de Jó, lamentaram e choraram, em alta voz, e permaneceram sete dias, sem dizer uma palavra sequer, sentados em cinzas e com os mantos rasgados (Jó 2:12). Era evidente a má sorte de Jó, entretanto, os consoladores não conseguiram segurar a emoção que a tristeza provocou.

Satanás vive observando, diuturnamente, os homens e identificou o bem mais precioso na vida de Jó. O sofrimento foi somente uma distração, enquanto o ponto principal seria atacado com todas as forças pelo adversário.

O sofrimento impressionou muito mais os amigos de Jó, do que o próprio Jó. Por quê? Porque o sofrimento de Jó foi um quadro meticulosamente arranjado por Satanás, para a contemplação e a estupefação dos amigos de Jó. Eles avistaram Jó, de longe, e não o reconheceram. Eles viram que a dor de Jó era muito grande e isso os tocou, profundamente.

O quadro aflitivo de Jó foi delineado para estabelecer uma cilada, que tragou primeiro os amigos de Jó pela estupefação e, posteriormente, se voltaram contra Jó para justificar a Deus. O sofrimento foi uma cilada que enlaçou, sentimentalmente, os amigos de Jó e, assim, guiados pelos sentimentos e emoções, foram conduzidos a fazer julgamentos segundo padrões humanos.

Satanás já aguardava um julgamento precipitado dos três amigos, ao exibir um justo sofrendo. Diante daquele quadro aflitivo, os amigos de Jó só tinham duas opções viáveis a considerar:

a) Deus é justo e Jó está em pecado;

b) Jó não está em pecado e Deus não estava sendo justo.

Ora, sem mais delongas, os amigos de Jó se posicionaram em defesa de Deus e emitiram um juízo, segundo o que era aparente. Eles julgaram, precipitadamente, a condição de Jó e foram unânimes ao concluir que Jó estava em pecado.

A conclusão equivocada dos amigos de Jó era o elemento que Satanás precisava para iniciar um ataque à integridade de Jó. Após Jó manifestar a intensidade da sua dor, o primeiro amigo dele deixa de considerar a aflição de Jó e passa a fazer considerações acerca da justiça de Deus.

É admirável como a grande maioria dos leitores do Livro de Jó se identifica com os sofrimentos desse homem, mesmo não tendo passado por nada parecido. Muitos questionam: – Como um homem pode suportar tanto sofrimento e continuar integro diante de seu Deus?

É próprio dos homens se identificarem com os problemas alheios, principalmente diante de alguém que mantém um comportamento altruísta. O sentimento de empatia leva os homens a analisarem e se compararem com o outro, imaginando qual seria o seu comportamento, frente aos mesmos sofrimentos.

O sofrimento toca profundamente os homens e causa uma espécie de fixação. O homem se detém, geralmente, no que pode ver, ouvir e sentir pela empatia e deixa de considerar a questão segundo a revelação das Escrituras.

O sofrimento de Cristo na cruz comove multidões, entretanto, as pessoas, na sua grande maioria, não conseguem visualizar o amor de Deus e a justiça que Deus proporcionou para a humanidade.

O elemento mais importante para a humanidade na cruz é a obediência de Cristo e o sofrimento, a maior provação para o Cristo, que teve que desprezar a afronta, pelo prémio que lhe estava proposto.

A visão humana só alcança o que é temporal, passageiro e efêmero, e o sofrimento é uma das principais impressões que fixa, privilegiadamente, uma ideia na mente do homem. Uma má leitura do livro de Jó deixa a impressão de que o livro trata do sofrimento de um homem que, em última análise, não era merecedor.

Entretanto, no Livro de Jó Deus revela algo grandioso, que diz respeito às coisas eternas, às quais o pensamento do homem não poderia alcançar, se Deus não o revelasse, pela sua palavra. O sofrimento de Jó serve a um propósito infinitamente superior!

Por mais que o homem seja diligente em suas realizações, Deus nada deve ao homem. A única exigência de Deus para com o homem é que confie, ou seja, descanse n’Ele.

A exigência de Deus para se alcançar a sua justiça está bem ilustrada em Abraão, que creu em Deus e isso foi lhe imputado por justiça.

Vale destacar, aqui, algumas considerações acerca do sofrimento, em vista do que contém o livro ‘Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito’[1], do Pr. Claudionor de Andrade, que cita outros autores.

  1. O sofrimento que Satanás impingiu sobre Jó não pode ser considerado uma forma de Deus se ‘justificar’ frente às acuações de Satanás. Deus não se justifica com ninguém, pois todas as suas obras são, juntamente, justas e boas. Deus permitiu o sofrimento na vida de Jó para deixar uma lição valiosa para a humanidade, que é muito superior ao sofrimento de um homem. Jó estava à disposição de Deus na condição de servo.
  2. O sofrimento na vida de Jó é detalhe, portanto, jamais o leitor do Livro de Jó pode se deixar levar pelo pensamento de que o sofrimento serve para purificar o homem. É uma ideia equivocada entender que a mente humana finita, frente ao propósito de Deus, torna impossível saber o motivo de um justo sofrer. O sofrimento não transforma e nem aperfeiçoa ninguém. Não há poder transformador ou regenerador no sofrimento, como alguns alegam. A redenção e purificação do homem estão no evangelho de Cristo, que é poder para salvação do que crê.
  3. A grandeza do evangelho é infinitamente vasta, se comparado este com o sofrimento de um justo. Ora, se o homem está apto a compreender o evangelho, não estaria apto a entender o sofrimento de um justo? O sofrimento é plenamente compreensível!
  4. Há quem diga que Deus confiou em Jó e que, por isso, submeteu Jó a uma prova. Sabemos que Deus requer dos homens, que confiem em sua palavra, que é fiel e justa, jamais o contrário. Porém, como alguém onisciente pode confiar num homem, se é sabedor de todas as coisas?
  5. Deus não usou o sofrimento de Jó para derrotar Satanás, antes para deixar uma lição para a humanidade. O sofrimento que sobreveio sobre Jó não é resultado de um duelo entre Deus e Satanás. O Criador jamais se opõe às suas criaturas, mesmo contra Satanás. Em Cristo, a vitória da Igreja já estava estabelecida, pois Ele é o cordeiro de Deus morto, desde a fundação do mundo, antes da fundação do mundo.

 

A história de Jó e outros textos do Oriente Antigo

Para alguns estudiosos, o tema do Livro de Jó não é genuinamente israelita, mas uma reprodução de uma ideia comum a todo o Oriente.[2] [3] Esses eruditos partem da premissa de que outros textos antigos trabalharam, a seu modo, o problema do sofrimento humano, vez que Jó poderia ser um não israelita oriundo de Us.

Ora, Abrão não era israelita quando foi chamado por Deus, pois era um caldeu da cidade de Ur e tal fato não pode ser tomado como evidência de que as instruções que o gentio Abrão recebeu de Deus tem raízes ou paralelo com qualquer pensamento produzido na caldeia.

Atribuir ao Livro de Jó semelhanças, até mesmo com as tragédias gregas,[4] por entenderem que o tema do Livro de Jó é o sofrimento humano, só evidencia a gana dos estudiosos em estabelecer um paralelo entre o personagem bíblico Jó e alguns personagens das tragédias gregas, como exemplo: Prometeu, Ésquilo e Édipo rei, de Sófocles.

Considerando que as tragédias gregas não possuem finalidade didática e que, apesar de poder causar a ‘catarse’[5] das emoções dos espectadores, este não era o seu objetivo; portanto, já temos um contra ponto à tentativa de se estabelecer semelhanças entre a história de Jó e as tragédias gregas.

A história de Jó possui viés didático, ou seja, introduz questionamentos acerca da justiça de Deus, para apresentar ao leitor um conhecimento impar, que somente Deus pode revelar, pois, o conhecimento que há no Livro de Jó, não tem paralelo com qualquer elucubração da mente humana.

Analisando a história de Jó, apesar do caráter irretocável do personagem, a mensagem do livro não é de cunho moralizante ou prescritivo de comportamento, como se observa na arte renascentista, pela má leitura que fizeram das tragédias gregas, malogro que se repete nas ‘tragédias’ shakespearianas[6].

Enquanto os artistas literários[7] da Grécia produziam as suas obras trágicas centradas na imitação, ou mímēsis[8], séria, completa e de certa magnitude, tendo a forma da composição artística a ação e não a narração, de modo a evocar emoções, como a piedade e o terror dos espectadores, os artistas Renascentistas, com destaque para os trabalhos de Shakespeare, tinham o viés de apresentar o protagonista da estória, confrontado com sua própria culpa.

Colocar Jó e Édipo, lado a lado, é um despautério, pois, apesar de, nas tragédias gregas, os heróis serem homens de elevada reputação ou, posição social, Jó é descrito como inigualável, pelo testemunho dado por Deus:

“Porque ninguém há na terra semelhante a ele” (Jó 1:8).

Enquanto o personagem e a história de Édipo são fruto da imaginação do homem, Jó é um personagem histórico que habitou na terra de Uz. Este é um personagem histórico, aquele um personagem literário fictício que idealiza homens da vida real.

A prosa no Livro de Jó, que introduz o diálogo entre Jó e seus amigos, redigido em forma de poesia, não depõe contra a literalidade da história – embora há quem lance mão dessa peculiaridade, para dizer que sim – antes reveste de importância a história de Jó.

Os discursos em forma de poema são uma ferramenta de proteção e preservação das ideias que são apresentadas pois, as poesias hebraicas, através dos seus paralelismos, estabelecem travas lógicas que favorecem a preservação do texto.

O Livro de Jó tem, como pano de fundo, o sofrimento, assim como muitas outras estórias oriundas do imaginário humano. As estórias trazem no seu bojo o sofrimento, pelas emoções que evocam aos espectadores.

Já, o sofrimento de Jó, foi utilizado para fins didáticos e não para impingir o terror ou a piedade pois, tudo que as Escrituras contêm, para o nosso ensino foi escrito:

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Romanos 15:4).

Estabelecer um paralelo entre a história de Jó e as literaturas antigas produzidas na Grécia, com base nas queixas dos personagens, em decorrência do sofrimento, é temerário, pois, a dor, o sofrimento e a angústia são sensações físicas ou psíquicas iguais em todos os homens, portanto, quando descritas, as perspectivas são equivalentes.

No entanto, diferente de Édipo, a história de Jó não foi engendrada, tendo as Moiras como pano de fundo, e nem evoca os meandros do fatalismo. O Deus do Livro de Jó não se sujeita ao Destino, um dos deuses da mitologia grega que sobrepuja todos os outros deuses e perante o qual os outros se curvam. Diferentemente, dos deuses da mitologia Grega, o Deus de Jó não se compraz em fazer a humanidade sofrer.

Édipo, ao descobrir a trama que estava envolto, rende-se[9] diante da sua impotência e miserabilidade traçada pelo Destino[10]. Diferentemente, ao contemplar a grandeza de Deus e ser instruído, Jó se arrepende de ter tecido comentário desairoso sem o conhecimento necessário (Jó 42:3-4).

Deus, no Livro de Jó, é o mesmo Deus que se revela por todas as Escrituras, e nada tem a ver com os deuses da mitologia grega e o fatalismo, concepção tão cara àquela sociedade.

O Livro de Jó deve ser visto a partir da seguinte premissa:

“Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam. Ninguém, sendo tentado, diga: de Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas, cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1:12-14).

 

Continua…


[1] “William W. Orr resume, assim, o assunto central de Jó: “Satanás acusou Deus de não ser correto na sua maneira de tratar o homem. Para justificar-se, Deus permitiu que Satanás afligisse esse abastado homem do Oriente”. Gleason L. Archer, Jr. faz uma interessante análise do tema de Jó: “Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis. Procura responder à pergunta: Por que os justos sofrem? Esta resposta chega de forma tríplice; I) Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede; 2) Deus pode permitir o sofrimento como meio de purificar e fortalecer a alma em piedade; 3) os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos por considerações vastas demais para a mente fraca do homem compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos da vida com a mesma visão ampla do Onipotente. Mesmo assim, Deus realmente sabe o que é o melhor para sua própria glória e para nosso bem final. Esta resposta é dada em contraste aos conceitos limitados dos três consoladores de Jó: Elifaz, Bildade e Zofar”. Escreve Henry Hampton Hailey: “Ao lermos o livro de Jó, do começo ao fim, devemos nos lembrar de que Jó nunca soube por que sofria —nem qual seria o desfecho. Os dois primeiros capítulos de Jó nos explicam por que isso aconteceu e deixam claro que a causa de seus sofrimentos não era algum castigo por pecados, mas, sim, a provação de sua fé —Deus tinha plena confiança dê que Jó seria aprovado”. Andrade, Claudionor de, Jó: O Problema do Sofrimento do Justo e o seu Propósito, Rio de Janeiro, Editora CPAD, 2ª edição, 2003, pág. 14. (Grifo nosso).

[2] “De uma série de textos paralelos do antigo Oriente se depreende que o livro de Jó não trata de um tema genuinamente israelita, mas comum ao Oriente. Há, hoje documentos, textos do 3º milênio ao séc. V a. C. que abordam o ‘problema de Jó’, de formas diferentes e com ênfases temáticas distintas (…) De maneira similar ao procedimento dos trágicos gregos ou dos poetas modernos (p. ex., Goethe, Fausto), o autor da forma mais antiga da narrativa de Jó deve ter recolhido uma lenda popular para trabalhar seu tema”. Zenger, Erich e outros, Introdução ao Antigo Testamento, Edições Loyola, São Paulo, 2003, págs. 296 e 297.

[3] “O presente artigo analisa o Livro de Jó, enquanto expressão do conjunto maior da tradição sapiencial do antigo oriente próximo. Pretendemos demonstrar a sua intimidade com fontes literárias egípcias e mesopotâmicas”. Leite, Edgard, O silêncio de Jó: O Livro de Jó e a crítica sapiencial à teologia sacerdotal. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano IV, n. 10, Maio 2011 – ISSN 1983-2850 < http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/RbhrAnpuh/article/view/30381/15961 >.

[4] “Se alguma novidade existe neste meu trabalho, é a tentativa de esboçar, na presente introdução, um pouco mais extensivamente, certa semelhança que existe entre o Livro de Jó e a Tragédia Grega, sublinhado, de modo especial, um impressionante paralelismo entre Jó e o Prometeu de Ésquilo, fazendo também algumas referências ao Édipo Rei de Sófocles (…) Não se trata de uma obra histórica: Jó é o nome fictício do personagem central de uma parábola, este gênero literário oriental tão ao gosto de Jesus, que o empregou no episódio do Filho Pródigo e em outras narrativas suas”. Lima, Héber S., Jó… quando o espinho floresce, Edições Loyola: São Paulo, 1995, pág. 10.

[5] “É fundamentalmente não-grego, atribuir qualquer impulso específico, didático ou terapêutico à criação artística, em geral ou, a algum artista em particular. A Poética pode falar da catarse de emoções, mas este é o (possível) efeito da tragédia e não seu propósito intrínseco” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 12.

[6] “Os conceitos de Aristóteles de anagnorisis (‘reconhecimento’) e peripeteia (‘reversão’) foram tão mal compreendidos na época do Renascimento, quanto sua concepção de hamartia – de fato, numa sequência partindo e se desenvolvendo da má compreensão anterior”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo: Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[7] “A tragédia é a imitação de uma ação importante e completa, de certa extensão; deve ser composta num estilo tornado agradável pelo emprego separado de cada uma de suas formas; na tragédia, a ação é apresentada, não com a ajuda de uma narrativa, mas por atores. Suscitando a compaixão e o terror, a tragédia tem por efeito obter a purgação dessas emoções” Aristóteles, A arte Poética, capítulo VI.

[8] “A mimesis, o processo principal das artes, era uma questão menos de doutrinação moral que de imitação (seletiva) da realidade (…) As ‘lições’ de literatura, na época de Aristóteles, não menos do que hoje, são oblíquas em vez de diretas e não prescritivas; não há mais obrigação de alguém tentar, na vida diária, viver à altura das excelências ou, evitar os excessos ali descritos, do que há a emular as qualidades ‘ideais’ representadas por (digamos) escultores como Fídias ou Canova. Esta é a luz sob a qual todas as afirmações de Aristóteles, na Poética, devem ser tomadas. A tragédia não é dogmática; a saúde moral da audiência não é sua preocupação primeira”. McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 13.

[9] “A anagnorisis, na tragédia antiga, assume duas formas. A primeira é uma simples admissão de que os personagens na peça reconhecem a verdade quando ela lhes é mostrada, revelando uma compreensão do padrão universal que eles nunca tiveram antes. As peças são salpicadas com expressões como ‘Finalmente, compreendo’ ou ‘Eu que estava cego, agora vejo’ ou ‘Ouvimos e obedecemos’ …” McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 32.

[10] “Édipo, em Édipo, Rei de Sófocles, frequentemente tomando como o arquétipo de um herói, cuja hamartia moral deriva da hybris (‘ele deliberadamente zomba do Destino’) é, na verdade, inocente: ele é cego para quem ele é, e a harmonia pode ser restaurada, apenas quando ele finalmente compreende”, McLeish, Kenneth, Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker. – São Paulo, Editora UNESP, 2000, pág. 30.




Jesus veio salvar o que se havia perdido

A finalidade da predestinação é a primogenitura de Cristo, e não a salvação. O filhos de Israel segundo a carne que são salvos antes de Cristo e na grande Tribulação não fazem parte desta predestinação, não terão a imagem do Filho de Deus. Para Cristo ser o primogênito há a necessidade de existirem irmãos conforme a sua semelhança, por isso que assim como Ele é o veremos e seremos semelhantes a Ele ( 1Jo 3:2 ).


Jesus veio salvar o que se havia perdido

Ao ler o artigo “Questões sóbrias para aqueles que creem numa redenção universal ou expiação ilimitada” do Pr. Colin Maxwell[1], não me esquivei à oportunidade de tecer alguns comentários e responder alguns dos seus questionamentos.

Mas, antes de responder as ‘Questões sóbrias’ do Pr. Maxwell, segue uma breve exposição do que creio segundo as Escrituras.

 

Eleição e predestinação

Os crentes em Cristo Jesus, por fazerem parte do corpo de Cristo, que é a sua igreja, além da maravilhosa graça de terem alcançado a salvação gratuitamente, também foram chamados a fazer parte do eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo “… segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Ef 3:11 ).

Deus introduziu o Seu Filho no mundo na condição de Unigênito, pois Ele foi o único homem concebido no ventre de uma virgem pelo poder do Espírito Santo ( Lc 1:35 ). Mas, ao ressuscitar o Seu Filho dentre os mortos, Cristo é declarado ‘primogênito’ entre muitos irmãos, pois todos que creem morrem com Cristo e ressurgem com Ele como filhos se Deus, uma nova criatura ( Cl 3:1 ).

Como o eterno propósito de Deus estabelecido na eternidade é constituir o Seu Filho primogênito entre muitos irmãos, todos quantos são salvos em Cristo Jesus através do evangelho foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo “… também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos( Rm 8:29 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que o objetivo de predestinar os que ‘conheceram’ a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele é que Cristo seja primogênito entre muitos irmãos ( Gl 4:9 ). Pela pregação da fé o homem ‘conhece’[2] a Deus, o que é impossível aos rudimentos fracos e pobres da lei ( Gl 3:2 com Gl 4:9 ).

Deus estabeleceu na eternidade (predestinou) que os membros do corpo de Cristo seriam conforme a imagem de Seu Filho por causa do beneplácito que propusera em Cristo: Ele será primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

A salvação difere da eleição e da predestinação quanto a finalidade. Enquanto a salvação diz da providência divina segundo as riquezas da graça de Deus que livra o homem da condenação estabelecida no Éden ( Ef 1:7 ), a eleição e a predestinação decorrem do conselho (beneplácito) da vontade de Deus, que é convergir na plenitude dos tempos todas as coisas em Cristo, e isso para louvor da Sua glória ( Ef 1:11 ).

Sem a salvação em Cristo é impossível ser eleito para o propósito de Deus que foi proposto em Cristo segundo o Seu beneplácito. É por isso que o apóstolo Paulo disse a Timóteo que Deus salva os crentes salva os crentes segundo o seu poder (evangelho) e que os chamou com santa vocação (eleição e predestinação).

O apóstolo Pedro ao falar da eleição aponta para uma geração: a geração eleita, ou seja, aqueles que foram gerados de novo através da semente incorruptível. Uma geração foi eleita, portanto a eleição não aponta para indivíduos “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” ( 1Pd 2:9 ).

Deus não elegeu e nem predestinou indivíduos para a salvação, antes Ele elegeu a geração de Cristo para serem santos e irrepreensíveis e os predestinou para serem conforme a imagem do Seu Filho, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

A salvação se dá no tempo que se chama hoje e o propósito eterno foi estabelecido antes de haver mundo (eternidade)! A eleição, segundo o propósito estabelecido em Cristo é anterior à salvação, porém, a vocação do crente para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo é posterior à salvação.

“Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso SENHOR, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” ( 2Tm 1:8 -9).

O apóstolo João destaca que os cristãos serão semelhantes a Cristo quando Ele se manifestar ( 1Jo 3:2 ), pois para isto foram predestinados a fim de que Jesus seja primogênito entre muitos irmãos.

 

Mundo

Quando é dito na Bíblia que Deus amou o mundo, certo é que o termo ‘mundo’ não se refere ao globo terrestre ou a sua fauna, visto que eles se reservam para o fogo. Quando é dito que Deus amou o mundo, o termo grego κόσμος, transliterado ‘kósmos’ foi empregado para fazer referência a todos habitantes do planeta terra.

Esta leitura do termo depreendemos do ‘Ide’ de Jesus aos seus discípulos. A mesma ordem foi registrada pelos evangelistas Mateus e Marcos, sendo que este registrou “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura ( Mc 16:15 ), e aquele registrou “Ide e fazei discípulos de todos os povos( Mt 28:19 ), o que demonstra que o termo grego κόσμος (mundo) deve ser lido com a conotação ‘de todos os povos’.

É no sentido de ‘povos’, e não de ‘extensão’ geográfica que o mesmo evangelho que estava com os cristãos em Colossos, estava se propagando pelo κόσμος (mundo) ( Cl 1:6 ).

No verso 23 do capítulo 1 de Colossenses, ao admoestar os cristãos a permanecerem firmes no evangelho (a não se afastar do evangelho que ouviram), o apóstolo Paulo enfatiza que o evangelho foi ‘proclamado’ a toda criatura debaixo do céu. ‘Toda criatura’ é um modo deixar evidente que a mensagem do evangelho não faz acepção de povo, língua ou nação ( Cl 1:23 ).

Agora, o mesmo termo ‘mundo’ quando empregado no contexto que se segue, possui outra conotação:

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo ( 1Jo 2:2 ).

O termo κόσμος (mundo) no verso acima não serve ao propósito de demonstrar que Deus não faz acepção de pessoas, antes é inclusivo, pois a propiciação em Cristo não era somente para os cristãos convertidos, mas pelos pecados de todo o mundo.

 

Pecadores

Por causa de uma só ofensa todos os homens ficaram sujeitos ao pecado, por isso a morte afetou todos os homens, de modo que todos são pecadores ( Rm 5:12 ; 15:21 -22).

Quando o apóstolo Paulo diz que o pecado entrou no ‘mundo’, o termo não tem a conotação de extensão geográfica, e sim de inclusão, indicando que o pecado afetou todos os homens sem distinção. Como os judeus se entendiam diferentes dos gentios, o termo ‘mundo’ foi utilizado para demonstrar que o pecado afetou judeus e gregos “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Quando lemos o testemunho de João Batista acerca de Cristo, o Cordeio de Deus que tira o pecado do ‘mundo’, certo é que João Batista esta fazendo referencia aos profetas para demonstrar que aquele Jesus era o descendente prometido a Abraão em quem todas as famílias da terra são benditas. Novamente verifica-se que o termo ‘mundo’ tem conotação inclusiva para indicar nações, povos e tribos de todas as línguas.

Todos os homens são pecadores, e Cristo veio salvar o que se havia perdido. A missão de Cristo é inclusiva e extensiva a todos os homens, até mesmo sobre aqueles que eram discriminados pelo seu próprio povo, como era o caso de Zaqueu, o publicano ( Lc 19:10 ).

Teria Cristo vindo salvar alguns que se perderam dentre muitos? Este não é o posicionamento das Escrituras, pois não há exceção: todo aquele que invocar o Senhor será salvo, visto que Deus quer que todos se salvem e que venham ao conhecimento da verdade ( 1Tm 2:4 ).

 

Resposta as indagações do Pr. Colin Maxwell

As respostas aqui apresentadas não possuem o condão de fomentar disputas teológicas, antes que cada cristão leia a Bíblia e medite nela.

Faz-se necessário deixar registrado que a visão bíblica é aquela que não acrescenta e nem diminui o conteúdo que há na Lei, nos Salmos e nos Profetas, porque foi isso que Cristo e os apóstolos fizeram: evidenciaram o cumprimento das Escrituras ( At 26:22 ; At 4:18 ; Lc 24:25 -27).

Como o Pr. Maxwell defende que o calvinismo deve ser difundido em suas ‘Questões sóbrias’, especificamente na de número 14, através da pergunta:

‘Você se refreia de crer na redenção particular por qualquer outra razão além do temor do homem?’, tenho que destacar que crer é algo de fórum íntimo, portanto, o pastor seria mais feliz se perguntasse se ‘você se refreia confessar a redenção particular por temor (medo) a homens’, porque quando creio, posso negar a crença e ninguém pode provar o contrário.

 

Crer em Cristo é suficiente

Respondendo a pergunta, devo afirmar segundo as Escrituras que, para alcançar a salvação em Cristo não é imprescindível confessar como se dá a redenção que Deus providenciou para a humanidade. Afinal, a redenção em Cristo é tão grandiosa que revela aos seres celestiais a multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 ).

Considerando que a redenção revela a multiforme sabedoria de Deus até aos seres celestiais, não podemos considerar que seja imprescindível para alcançar a salvação confessar como se dá a redenção ( Ef 2:2-3 e 4:17). As Escrituras afirmam categoricamente o que é necessário: confessar (admitir) que Jesus é o Senhor “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).

Quem evangeliza deve conhecer qual a esperança do salvo, quais as riquezas da glória da nossa herança e qual a excelente grandeza do poder de Deus sobre os que creem ( Ef 1:16 -20), mas ao evangelizar deve se ater a apresentar o Cristo, e este crucificado e ressurreto dentre os mortos.

O pastor insiste perguntando:

‘Se o temor do homem é a única razão (de não confessar a redenção particular), você não reconhece que isto no fim provará ser uma armadilha?’, o que me faz responder com outra pergunta: Se há predestinação para salvação, que armadilha pode haver em não confessar a redenção particular?

 

Crer na redenção particular ou em Cristo

Esta pergunta do pastor me levar a inferir que a intenção dele é afirmar que, saber como se dá a redenção: se particular ou universal, é garantia de salvação. Crer que Deus predestinou alguns para salvação é garantia da salvação? Ou melhor, seria garantia de predestinação? Se a garantia de salvação se encontra em Crer que o Senhor Jesus morreu por causa de nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação, por que tanto empenho em convencer qual tipo de redenção crer? Por que perder tempo anunciando como se dá a redenção, se a salvação se alcança em crer em Cristo Jesus?

Devo lembrar aqui que crer que Jesus é o Senhor e confessar que Ele é ressurreto dentre os mortos é garantida de salvação, e nisto não há ‘armadilha’ alguma, porque Deus vela sobre a sua palavra para cumprir.

A seguir o Pr. Maxwell faz uma pergunta que mais parece uma espécie de chantagem emocional evocando o medo ao dizer:

“Você não pode conversar sobre e através das diferenças com aqueles que você teme, apontado o sucesso da pregação calvinista na história da igreja? (Provérbios 29:25)”.

 

A doutrina Calvinista é um sucesso?

Ao citar provérbios sem levar em consideração o contexto bíblico, depois de fazer sua pergunta, o pastor parece induzir ‘meninos’ em Cristo, aqueles que são suscetíveis a ventos de doutrinas, a conversar sobre a redenção particular e o sucesso da pregação calvinista, e não as Escrituras.

Por que intimidar o cristão para que converse sobre questões e sucesso da pregação calvinista, se a promessa bíblica é que não há mais nenhuma condenação para quem está em Cristo, e somos exortados a: conhecer qual a esperança dos santos, quais as riquezas da glória da nossa herança e qual a excelente grandeza do poder de Deus sobre os que creem ( Ef 1:16 -20), nada dizendo sobre se a redenção é geral ou particular?

O apóstolo João fez um alerta acerca da permanência em Cristo, mas o alerta não evoca medo e nem se apoia em chantagem emocional, como se lê:

“Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto ao Pai como ao Filho” ( 2Jo 1:9 ).

A doutrina de Cristo que o apóstolo João faz referencia não se refere à pregação calvinista, mas ao mandamento que o Senhor Jesus deu, à saber: a ‘amar a Deus sobre todas as coisas’ crendo em Cristo, e ‘ao próximo como a si mesmo’ segundo o mandamento de Deus ( 1Jo 3:24 ).

Evoco o posicionamento do apóstolo Paulo:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 )

A Bíblia mostra que a graça de Deus se estende a todos os homens, assim como a ofensa de Adão trouxe juízo e condenação sobre todos os homens. Se admitirmos que o juízo de Deus veio sobre todos os homens para condenação sem exceção, também temos que admitir que a graça veio sobre todos os homens.

A condenação veio sobre todos os homens, porque ela é em função do nascimento natural segundo a carne de Adão. Mas, com relação à graça sobre todos os homens pela obediência de Cristo, só desfrutam dela aqueles que creem em Cristo conforme o poder que há no evangelho. A graça é poderosa para alcançar todos os homens sem exceção, pois a perdição foi para todos sem exceção!

“Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 );

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo ( 1Jo 2:2 ).

Faço esta defesa do evangelho de Cristo por não temer qualquer posicionamento doutrinário, ou homem algum, pois devemos ter por lema: “Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” ( 2Co 13:8 ).

Além do mais, o sucesso de qualquer agremiação ou tendência teológica não é selo de autenticidade doutrinária, por isso não me refreio em contestar o que se demonstra contrario às Escrituras mesmo que tenha atingido o sucesso.

Na questão de número 13[3], o Pr. Maxwell aponta a existência de calvinistas que ele desaprova. Na pergunta que contém muita argumentação, no afã de remover o que traz entrave à doutrina calvinista, o pastor lança descredito nos ‘hiper’ calvinistas por evidenciar que não há a necessidade de se evangelizar.

 

Evangelismo

No entanto, os ditos hiper calvinistas são ‘coerentes’ quando afirmam que não há necessidade de pregar quando se acredita na predestinação para a salvação. Segundo os hiper calvinista, se Deus só garante salvação para os eleitos segundo Sua soberania, exclui-se a necessidade de evangelizar.

Entendo que os hiper calvinista estão em extinção porque os demais calvinistas não sustentam o que afirmam. A recomendação de Tiago é: “Assim falai, e assim procedei, …” ( Tg 2:12 ), portanto, se a salvação decorre de uma predestinação, a pregação do evangelho fica sem finalidade. Uma característica de quem confessa a doutrina calvinista e defende a evangelização parece se amoldar muito bem ao alerta que o apostolo Paulo fez a Timóteo: “… Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:6 -7 ).

O cerne da questão não está na constatação de calvinistas que não recomendam evangelizar, e sim na essência do pensamento calvinista: por que evangelizar todos, se a salvação é para alguns escolhidos? Qual a necessidade de se evangelizar a todos, se a salvação é só dos eleitos? Se a salvação é só para alguns, porque o ‘ide’ de Jesus é para todos?

A energia que os não hiper calvinistas despendem para desqualificar a salvação ao alcance de todos deveria ser aplicada em encontrar argumentos que expliquem a necessidade de evangelismo considerando a lógica de sua doutrina, pois se de fato existe eleição e predestinação para a salvação, que se dê uma explicação plausível por que pregar o evangelho. Somente afirmar que também evangelizam não valida utilidade do evangelismo dentro da doutrina que anunciam.

Para defender o seu argumento, o Pr. Maxwell aponta na pergunta de n° 12 os pregadores George Whitefield e C. H. Spurgeon como os maiores evangelistas que já viveram. Volto a repetir, a postura desses homens e dos neo calvinistas não esclarece e nem valida a necessidade de evangelizar na doutrina calvinista.

Com relação à questão de n° 11:

“Você vê a redenção particular como estando em desvantagem quando se trata da livre oferta do evangelho? Tanto calvinistas como não calvinistas creem que o precioso sacrifício do Filho de Deus é suficiente para salvar o mundo, tanto os eleitos como os não eleitos – isto não remova qualquer senso de desvantagem?”;

Primeiro: ‘vantagem’ não é uma questão que se deva levar em conta quando o assunto é salvação. O que se deve considerar é a veracidade da palavra, e as palavras do artigo “Questões sóbrias…” se mostram duvidosas, porque enquanto aqui afirma que o precioso sacrifício de Jesus é suficiente para salvar o mundo todo, nas questões de número 02 e 03 argumenta contra esta mesma possibilidade dizendo:

“Cristo veio e morreu para salvar eficazmente homens ou apenas para fazer a salvação possível? Então, era teoricamente possível que Cristo falhou, no final das contas, no Seu propósito de Sua morte? Ele realmente verá o fruto do trabalho de Sua alma e ficará”, ou “Cristo está realmente satisfeito com o fruto do trabalho de Sua alma quando Ele vê Judas Iscariotes, (por quem, você insiste, Ele morreu, da mesma forma como por João e Pedro, etc.) indo para o próprio lugar onde teria sido melhor para ele nunca ter nascido? poderia morrer por pecados e ninguém ser salvo?”.

 

A redenção é falha?

O ‘ide’ de Jesus ao mundo como mandamento depõe contra a predestinação para a salvação. Ora, não encontramos termos como ‘redenção particular’ ou ‘redenção geral’ na Lei, Salmos, ou nos Profetas. A doutrina da redenção particular é incongruente com o evangelho de Cristo, porque quem nasce predestinado nunca esteve perdido, portanto, não precisa de salvação.

A Bíblia apresenta Jesus como salvador para todos que creem, sem distinção entre judeus e gregos, pois todos pecaram, e ainda afirma: “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 ). Já o posicionamento calvinista afirma a existência de dois grupos de pessoas: as que foram predestinadas a serem salvas (o que significa que tais pessoas nunca estiveram perdidas), e outras que nascem predestinadas à perdição (nunca tiveram uma real oportunidade de salvação).

A eleição e a predestinação são, efetivamente, doutrinas bíblicas, porém não apontam diretamente para a salvação. A eleição aponta para Jesus, pois se dá em Cristo e a predestinação visa os que nascem de novo, ou seja, os crentes. Cristo é o eleito de Deus antes da fundação do mundo e todos que se tornam participantes do seu corpo crendo nele, foram predestinados para serem conforme a imagem de Cristo.

O apóstolo Paulo enfatiza que os cristãos foram predestinados para serem conforme a imagem de Cristo, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos. A finalidade da predestinação é a primogenitura de Cristo, e não a salvação. Os filhos de Israel segundo a carne que são salvos antes de Cristo e na grande Tribulação não fazem parte desta predestinação, não terão a imagem do Filho de Deus. Para Cristo ser o primogênito há a necessidade de existirem irmãos conforme a sua semelhança, por isso que assim como Ele é o veremos e seremos semelhantes a Ele ( 1Jo 3:2 ).

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” ( Rm 8:29 ).

A salvação é concedida aos homens que, por intermédio do evangelho conheceu a Deus, ou antes, foram conhecidos dele “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ). O homem conhece a Deus por intermédio do evangelho.

Conhecer aqui não é presciência, e sim ter comunhão íntima, participando de um só corpo e de um só espírito. Ora, primeiro o homem se torna um com Cristo, e consequentemente predestinado a ser conforme a imagem de Cristo, pois a predestinação tem por objetivo a preeminência de Cristo entre muitos semelhantes a ele.

Primeiro Deus salva o perdido segundo o poder do evangelho, depois o salvo em Cristo é chamado com santa vocação: eleição e predestinação. Deus não escolheu e nem predestinou alguns indivíduos à salvação, antes Ele elegeu e predestinou a nova geração em Cristo, sendo Ele o último Adão, para serem santos e irrepreensíveis e conforme a imagem do Seu Filho para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

A vocação do crente para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo não precede a salvação em Cristo, porém, o propósito estabelecido em Cristo foi estabelecido na eternidade antes de haver mundo.

Na questão de nº 10[4], vale destacar que a crença exigida nas Escrituras é que se creia que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. A essência do evangelho é universal e inclusiva: todo aquele “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

Este é o mandamento de Deus segundo registrou o apóstolo João: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( Jo 3:23 ).

Não há suporte nas Escrituras para o que o homem acredita segundo uma carnal compreensão, e nem para a tal redenção dita ‘particular’, pois o que é a base da salvação é Cristo: o fundamento de Deus. A salvação está em Cristo, pois Ele é a fé manifesta ( Gl 3:23 ). A vantagem está em crer n’Ele, pois Ele é fiel, agora, não há vantagem alguma em acreditar em algo que não seja as Escrituras.

O evangelho anunciado pelo apóstolo Pedro as pessoas que crucificaram o Cristo foi de salvação irrestrita, mesmo para os assassinos do Filho de Deus, desde que mudassem de concepção crendo em Cristo ( At 3:15 -19).

Ora, Deus é verdade, e não há nele injustiça nenhuma ( Dt 32:4 ). Ora, se Ele amou todos os homens (mundo), significa que Deus amou todos os homens, e não que Ele anunciou uma ficção aos homens. O apóstolo Pedro, quando fez este discurso, não estava pensando em uma redenção particular, antes foi verdadeiro ao propor a todos homicidas de Cristo ampla e irrestrita salvação.

Seria uma falácia a mensagem do apóstolo Pedro se algumas pessoas estivessem destinadas a salvação. Deus não trabalha com o engano. Ele não fala o que não vai cumprir. É desonesta uma mensagem de salvação a todos os pecadores se a proposta inicial é salvar alguns.

O Pr. Maxwell alega que é desvantagem crer numa ‘redenção geral’ vez que Deus não alcança 100% de sucesso. Deus retirou do Egito um povo numeroso com quase seiscentos mil homens de pé, porém, desses, somente dois entraram na terra prometida. O sucesso de Deus é analisado pela quantidade de crentes salvos, e não pela quantidade dos que se perdem.

A promessa de Deus não se manteve firme por apenas dois dos que saíram do Egito terem entrado na terra prometida? Se todos os crentes em Cristo são salvos, então há 100% de sucesso na obra de Cristo “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação ( 1Co 1:21 ); “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” ( Rm 10:14 ).

Ora, o plano de redenção de Deus tem 100% de sucesso, pois Cristo veio ao mundo e foi obediente ao Pai em tudo. O seu eterno proposito que redunda em louvor a Sua glória tem 100% de sucesso, pois Cristo ao ressurgir dentre os mortos conduziu muitos filhos a Deus, e Cristo é primogênito entre muitos irmãos. Os muitos filhos são compostos de 100% crentes.

A incredulidade de alguns ou de muitos não aniquila a fidelidade de Deus. Deus é fiel e cumpriu o que prometeu: enviou o seu Filho e salva todo aquele que n’Ele crê. Agora, se formos infiéis, Ele permanece fiel, e a infidelidade do homem não depõe contra Deus ( Rm 3:3 ).

A questão de n° 9[5] acerca do significado de alguns termos na Bíblia como ‘todos’ e ‘mundo’, deve ser analisada criteriosamente, principalmente quanto à ênfase que o contexto apresenta.

 

Todos e mundo

Devemos reconhecer que, dependendo do contexto em que a palavra ‘mundo’ ou ‘todos’ é inserida, pode limitar o número de pessoas, contudo não anula o fato de que o termo ‘mundo’ empregado em João 3, verso 16, e em primeira João 2, verso 2 referem-se a todas e quaisquer pessoas, de todos os tempos e em todos lugares.

Foram citadas 5 passagens bíblicas e questionado o significado de algumas palavras. Atos 4, verso 35 é citado: “E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha” onde se vê que os apóstolos repartiam o que era comum segundo a necessidade em particular de cada indivíduo que pertencia à igreja. Ou seja, a passagem demonstra que havia uma limitação quanto ao que era distribuído, e a limitação não era quanto ao indivíduo, mas quanto a necessidade do indivíduo.

Isto porque ‘ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria’, ou seja, ninguém assume o valor de ‘todos’, pois sem exceção todos consideravam o que possuíam como sendo propriedade de todos, de modo que tudo era comum a todos ( At 4:32 ).

O verso seguinte demonstra que todos os apóstolos, sem exceção, possuía abundante graça e testemunhavam acerca da ressureição de Jesus ( At 4:33 ). Entre os cristãos não havia necessidade alguma, pois aqueles que possuíam herdade vendiam e traziam o valor arrecadado e dava aos apóstolos. Neste caso, somente os cristãos que possuíam herdade é que vendiam-nas, mas dentre os que possuíam, todos se propuseram vender e dar o dinheiro aos apóstolos.

Com relação a recomendação acerca do casamento o apóstolo Paulo adverte que cada cristão em particular tenha a sua própria esposa, e cada mulher cristã que tenha o seu próprio marido. Ora, o texto limita a quantidade de esposas e esposos por causa da prostituição, porém, a ordem se estende a todos os cristãos. A ênfase do texto está em limitar uma única esposa por marido ( 1Co 7:2 ).

Para responder a pergunta do Pr. Maxwell com relação ao comentário que ele faz do evangelho de João 12, versos 19 à 20 (“mundo” significa os gentios em oposição aos judeus somente), vale destacar que ‘mundo’ não foi utilizado para destacar oposição entre judeus e gentios, porque tanto a multidão que viu a ressurreição de Lázaro como a que viera para a festa era composta de judeus e prosélitos ( Jo 12.9 ). Afinal haviam ido a Jerusalém para a festa da Páscoa ( Jo 12.1 )

Outra questão levantada é com relação a seguinte passagem “E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” ( 1Jo 3:3 ). No verso ‘qualquer’ tem o sentido de ‘todo’, e isto não significa limitação, mas inclusão. Não importa a nação, o povo, ou a língua, se tem em Cristo esperança, purifica-se a si mesmo.

Nenhuma destas passagens depõe contra o fato de que Jesus veio salvar a todos, por isso a boa nova de salvação é anunciada a todos, sem exceção. A fidelidade de Deus é para todos, pois Ele providenciou poderosa salvação na casa de Davi para todos os povos, cumprindo a promessa a Abraão de que no descendente seriam benditas todas as famílias da terra “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

A promessa de benção de Deus não é extensiva a ‘todas’ as famílias da terra? Há alguma limitação especifica no evangelho anunciado primeiramente a Abraão?

Não há limitação quanto aos tipos de famílias: todas.

Qual o significado de ‘todos’ no verso seguinte:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” ( Rm 5:18 ).

Existe limitação com relação ao juízo de Deus sobre todos os homens? Não! Então não há limitação quanto à graça de Deus sobre todos os homens!

Não há limitação da parte de Deus, pois Ele é fiel! Mas, há limitação por parte do homem: a incredulidade “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” ( Rm 3:3 ).

A questão ‘incredulidade’ leva a pergunta de n° 8[6] onde há uma profusão de erros de interpretação bíblica.

A resposta para a pergunta: “Cristo morreu pelo pecado da incredulidade?” é não!

Cristo não morreu por ‘pecados’, antes ele morreu pelos pecadores, como se lê:

“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios ( Rm 5:6 );

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores ( Rm 5:8 );

“Porque foi para isto que morreu Cristo, e ressurgiu, e tornou a viver, para ser Senhor, tanto dos mortos, como dos vivos” ( Rm 14:9 );

“Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu” ( Rm 14:15 );

“E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu” ( 1Co 8:11 ).

Esses versículos citados enfatizam que Cristo morreu pelos homens, ou seja, pelos pecadores.

Há um único versículo que diz que Jesus morreu por nossos pecados:

“Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras” ( 1Co 15:3 ).

Ora, Jesus morreu pelos ‘ímpios’ ou pelos ‘pecados’?

O apóstolo Paulo nos responde:

“Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ).

Há uma questão teológica a ser entendida com relação a morte de Cristo.

Em primeiro lugar devemos entender que o pecado que atingiu toda humanidade é decorrente da ofensa de Adão, que desobedeceu e trouxe morte sobre todos os homens “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” ( 1Co 15:21 -22); “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 ).

A ofensa contra Deus que resultou no pecado foi a desobediência de Adão, e a desobediência só poderia ser substituída pela obediência. Na verdade a redenção da humanidade é substituição de ato: obediência pela desobediência, como se lê:

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:18 )

A redenção está na obediência de Cristo.

Mas, para que Cristo obedecesse havia que ser revelada a vontade de Deus, que neste caso era a oblação do corpo de Cristo.

“Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:9 -10).

Mas, por que Cristo morreu?

Ao morrer Cristo não estava oferecendo um sacrifício a Deus, antes estava sendo obediente, e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Semelhante a Abraão que obedeceu a Deus e ia oferecer o seu único filho em holocausto, Jesus obedeceu a Deus como Abraão e foi a ovelha do holocausto. Ele morreu por causa do advento da Nova Aliança, pois era necessário a morte do testador para ter validade a aliança “Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador” ( Hb 9:16 ).

Não foi por pecados que Cristo morreu, antes Ele morreu pelos homens porque são pecadores, daí a colocação paulina: Cristo morreu pelos (por causa dos) nossos pecados “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” ( Is 53:5 ).

Analisaremos em conjunto as questões 6 e 7[7], pois estão intimamente ligadas.

O Pr. Maxwell quer validar o seu argumento com a pergunta: Isto é justo? Esta é uma artimanha das Testemunhas de Jeová ao negarem a existência do lago de fogo: É justo alguém padecer pela eternidade?

 

É justo?

Argumentar ante o juiz de toda terra se é justo o que ele faz, não valida qualquer argumento, pois a concepção de justiça do homem é como trapo de imundície diante de Deus.

Deus ordenou a destruição dos amalequitas, e incluiu na matança as crianças. Pergunto: Isto é justo? Mas, as crianças eram inocentes! Questionar se é justo ou não, não é base para validar um argumento, pois mesmo as crianças de Sodoma e Gomorra sendo inocentes, não eram justas diante de Deus “Se porventura de cinquenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco ( Gn 18:28 ).

Cristo veio ao mundo salvar o que se havia perdido. Quem se perdeu? Todos os homens, pelo que se conclui que Jesus veio salvar todos os homens Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos ( Is 53:6 ); “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” ( Lc 19:10 ).

A morte de Cristo garantiu salvação a todos os homens, porém, muitos permanecem separados da vida de Deus por causa da ignorância que há neles. O problema não está na salvação providenciada, pois é poderosa e alcança a todos os homens, sem exceção. O problema é a ignorância.

A Bíblia afirma que por uma só ofensa todos pecaram, e Cristo morreu por causa desta ofensa. Já o erro de conduta das pessoas quer sejam salvas ou não, serão julgadas em tribunal específico: Tribunal de Cristo para os salvos e Tribunal do Trono Branco para os perdidos, onde cada um receberá segundo as suas obras “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

Devemos nos afastar de qualquer doutrina que tenha aparência de piedade, mas que negue a eficácia do evangelho “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Deus não se lembra dos pecados daqueles que ouviram a mensagem e misturaram com a fé “Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” ( Hb 4:2 ).

O escritor aos Hebreus destaca que o problema não está na mensagem pregada, o problema está naqueles que ouviram, mas ouviram de malgrado “Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos, E compreendam com o coração, E se convertam, E eu os cure” ( Mt 13:15 ).

O castigo que nos trouxe a paz foi perfeito, mas se alguém negar a Cristo, Ele também o negará “Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará” ( 2Tm 2:12 ). Se a salvação fosse por predestinação, o aviso solene para permanecer firme é sem razão, pois os que creem é para conservar a alma, diferente dos que desistem ( Hb 10:39 ).

Quando Cristo venceu a morte, o pecado foi aniquilado ( Hb 9:26 ). Só permanecem separados de Deus aqueles que permanecem na ignorância.

Embora a questão de nº 7 não leve em consideração o fato de o Cordeiro de Deus ter sido morto desde a fundação do mundo ( Ap 13:8 ), vale salientar que embora a graça é para todos, a promessa de jamais se lembrar dos pecados alcança somente os crentes ( Hb 10:17 ).

Apesar de o Cordeiro de Deus ser manifesto oportunamente na plenitude dos tempos, ele foi morto desde a fundação do mundo. Logo, quando Cristo foi morto (desde a fundação do mundo) não havia homens no inferno, de modo que a sua morte era suficiente para beneficiar a todos que cressem.

Somente os crentes são remidos, porém, a oferta do corpo de Cristo foi feita de uma vez por todas de modo que não há mais oblação pelo pecado ( Rm 8:1 ; Hb 10:18 ). Devemos lembrar que as ações daqueles que creem serão julgadas no Tribunal de Cristo. Os descrentes carregam consigo a condenação decorrente da ofensa de Adão, mas também serão julgados quanto as suas obras “E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras” ( Ap 20:12 ); “O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou” ( Ec 3:15 ).

O juízo para condenação se deu em Adão, mas haverá juízo de obras. Os pecados que não serão lembrados referem-se aos erros de conduta dos salvos antes de conhecerem a Cristo, pois se deram sob a paciência de Deus “Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:25 -26).

Cristo morreu por causa da ofensa de Adão e ressurgiu para a nossa justificação, o que demonstra que os erros de conduta e as boas ações dos crentes, quando praticados na ignorância são esquecidos. Cristo não morreu por pecados, antes por causa dos pecados para justificação de todo que crê.

Com relação a questão 5[8], entendo pelas Escrituras que Cristo morreu por todos os homens, até mesmo por Caim e Faraó. Devemos lembrar que Jesus é o Cordeiro de Deus que foi morto desde a fundação do mundo, e se Abel foi declarado justo por Deus, tal declaração foi decorrente da fé de Abel.

 

A incredulidade

Caim e Faraó se perderam não por ineficácia da morte de Cristo, mas pela incredulidade deles. Caim se perdeu, mas Abel foi salvo porque creu que Deus o aceitaria graciosamente, e não que seria aceito em função da oferta, de modo que Deus primeiramente o aceitou e depois a sua oferta ( Gn 4:4 ).

Abel se aproximou de Deus pois cria que Ele existe, e o buscou por que sabia que Deus é galardoador dos que O buscam, e não dos que apresentam uma oferta.

Sim! Creio que Jesus morreu por aqueles que já morreram, porque segundo as Escrituras para Deus vivem todos e, mesmo após morrerem, seguem para o juízo. Ora, todos os nascidos de Adão nasceram sob condenação, pois o juízo de Deus foi estabelecido na morte de Adão no Éden. O juízo que o homem segue após morrer a morte ordenada para ocorrer uma só vez é o juízo do Trono Branco, onde haverá julgamento das obras “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” ( Hb 9:27 ).

Cristo é Cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo, porém, a sua morte se deu na plenitude dos tempos ( Gl 4:4 ). Jesus morreu em benefício de todos, porém, indivíduos como Caim e Faraó não se beneficiaram da graça de Deus pela incredulidade deles.

Sim! Jesus morreu de bom grado por homens como Caim e Faraó, pois Ele não se propôs a morrer por homens justos, mas sim pelos ímpios, visto que não havia um justo, nem um se quer ( Sl 53:3 ). Esta é uma prova do amor de Deus: morrer por ímpios como Caim, Faraó, etc. “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

O convite de salvação é para pecadores, sejam eles a Madre Teresa de Calcutá ou Hitler. Este convite se estende até mesmo para aqueles que mataram o autor da vida ( At 3:19 ).

Com relação aos argumentos dos itens 3 e 4[9], tem-se um caloroso ‘sim’ à pergunta se Cristo morreu de igual forma para Pedro ou Judas.

A verdade é única: Cristo se fez maldito quando foi pendurado no madeiro e morreu pelos pecadores. Judas Iscariotes era pecador? Sim! Então Jesus morreu por ele. Pedro era pecador? Sim! Então, de igual modo Jesus morreu por Pedro.

Cristo não se sentiu satisfeito com a morte de Judas Iscariotes, mas sentiu-se satisfeito com o seu trabalho. Levando-se em conta a profecia de Isaías, com o seu trabalho Jesus ficou satisfeito, pois através do seu conhecimento Ele salvou muitos.

Judas não foi predestinado a perdição, antes Deus onisciente sabe de todas as coisas, e deixou tal evento registrado nas Escrituras. A decisão de Judas não foi estabelecida e nem sofreu influência de Deus, antes foi totalmente autônoma e voluntária.

O registro da traição nas Escrituras é um lampejo da onisciência de Deus, que para nós é presciência. A revelação de eventos futuros para o homem recebe o nome de presciência, já o atributo divino com relação ao conhecimento dá-se o nome de onisciência.

Deus é onisciente, e não presciente. A revelação de Deus aos homens é presciência. O fato de Deus saber da traição e deixar predito nas Escrituras não determinou a traição de Judas, pois tudo o que é já foi, e o que há de ser já ocorreu para Deus, mas Ele pede conta de cada um quanto aos seus feitos. O fato de Deus requerer dos homens seus feitos demonstra que Ele não determina os atos de ninguém ( Ec 3:15 ).

 

Jesus morreu por todos

Mas, porque Ele não salvou todos, se Ele morreu por todos? Porque onde há o Espírito de Deus, aí há liberdade, como se lê: “Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações, como na provocação” ( Hb 3:15 ; Sl 93:8 ). O convite é feito a todos, como se Deus por nos rogasse aos homens para que se reconciliem com Ele, mas Ele não sobrepuja os corações endurecidos ( 2Co 5:20 ).

É contra senso um Deus que escolhe e predestina alguns a salvação rogar através dos seus embaixadores que os homens se reconciliem com Ele.

Deus roga porque todos tem liberdade de aceitar ou recusar convite: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” ( Jo 7:37 ). A água oferecida não tem problema algum, pois é de uma fonte inesgotável e tem poder para saciar todos quanto beberem. O problema está naqueles que ouvem o convite e rejeitam a água.

Deus não tem prazer na morte do ímpio, e Cristo também “Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?” ( Ez 18:23 ).

Além de Deus não desejar a morte do ímpio, é desejo d’Ele que o ímpio se converta. O problema não está em Deus que faz um convite ao homem para que se converta, e sim nos homens que não dão ouvidos “Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel?” ( Ez 33:11 ).

Na questão do proposito que Deus estabeleceu na eternidade em Cristo, de fazê-lo cabeça da igreja e o mais elevado dos reis da terra, opera a soberania de Deus. Mas, nas questões relativas a salvação do homem, opera a misericórdia, por isso diz o apóstolo Paulo: “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” ( 2Co 5:20 ).

Deus estabeleceu o Seu Filho como primogênito, pois Cristo conquistou este direito na cruz, já com relação à salvação, há um pedido aos homens que se reconciliem.

Cristo ficou satisfeito com o seu trabalho, porque embora tenha provido salvação a todos os homens, a proposta é salvar os que creem. Deus não salva pela predestinação ou eleição, e sim pela loucura da pregação, que é o poder de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ).

Com relação ao item 2[10], certo é que Cristo veio salvar a humanidade, e o termo ‘eficazmente’ foi amalgamado à salvação para pôr em xeque a salvação em Cristo. A salvação não é especulação teórica, assim como a perdição de todos em Adão não é teoria.

Analisando a doutrina calvinista da eleição e predestinação, a perdição de alguns não passou de teoria, visto que tais ‘salvos’ pela eleição e predestinação nunca estiveram perdidos de fato. De outra banda, os perdidos nunca tiveram a possibilidade de salvação, pois a salvação nunca foi uma providência divina para eles. Segundo a concepção calvinista a salvação é uma falácia!

A Bíblia como verdade deve ser analisada como fato, e não como teoria. Levantar teorias sobre se era possível Cristo morrer pela humanidade em pecado (e não por pecados) e ninguém ser salvo é semelhante a se ater às fábulas e a genealogias intermináveis que mais promovem contendas do que edificação. Mas, nunca houve a possibilidade de ninguém ser salvo, pois Deus mesmo diz que a Sua palavra não volta atrás vazia, e por isso mesmo providenciou poderosa salvação na casa de Davi.

A questão sóbria de n° 1[11] é a pior de todas do ponto de vista dos equívocos. Não é admissível que alguém que se coloca como mestre das Escrituras use os anjos caídos para provar a redenção particular, visto que um mestre das Escrituras deve conhecer as Escrituras.

Cristo não morreu para salvar os seres celestiais caídos! Vejamos os motivos:

  • Os anjos não fazem parte do propósito eterno estabelecido em Cristo, que é Cristo como primogênito entre muitos irmãos ( Hb 2:5 );
  • Com relação ao propósito eterno os anjos são espectadores da multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 );
  • Aos anjos caídos não foi dado um mandamento que os salvasse, pois igualmente na queda não desobedeceram um mandamento ( Sl 71:3 ); Um homem desobedeceu o mandamento dado no Éden, agora a salvação para os homens está em um novo mandamento: crer em Cristo;
  • Os anjos não necessitam crer, pois enquanto os homens veem por espelho através dos enigmas, os anjos caídos estavam em contato com a realidade quando caíram;
  • Como não há morte física para os anjos, pois são seres ‘espirituais’, a redenção em Cristo não os alcança. A morte de Cristo só alcança os seus semelhantes segundo a carne sujeitos à morte física, pois qualquer que nele crê é batizado na morte de Cristo para ressurgir uma nova criatura;
  • Cristo foi feito menor que os anjos precisamente para que participasse da paixão da morte, morrendo a morte física em nosso lugar. Entretanto, os pecadores por estarem em um caminho largo que conduz à perdição, isso causa da ofensa de Adão, precisam morrer para o pecado para que se cumpra a lei que diz: a alma que pecar, essa mesma morrerá;
  • Os homens tornaram-se pecadores por uma ofensa de um homem que pecou, já os anjos deliberadamente seguiram cada um a presunção de seus corações;
  • Cristo é mediador entre Deus e os homens, e não mediador entre Deus, anjos e homens.

O fato de Jesus não ter morrido pelos anjos não depõe contra o fato de Jesus ter morrido pela humanidade, pois ele como homem só podia ser mediador de homens, por isso em tudo se fez semelhante aos seus irmãos: participante de carne e sangue ( Hb 2:17 ).

Não existe um grupo particular de pecadores, pois nem mesmo os judeus são diferentes ou melhores diante de Deus que os demais pecadores gentios ( Rm 3:9 ).

A salvação é universal (ilimitada) e inclusiva (todo aquele), porém, só gozarão dessas benesses aqueles que creem no evangelho, ou seja, que invocarem o nome do Senhor, portanto, neste aspecto a salvação é exclusiva dos que creem “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ; Rm 1:16 ).

Em suma, Jesus disse que Deus deu o Seu Filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Jesus disse que importava que Ele fosse levantado assim como a serpente de metal foi levantada no deserto por Moisés, para todo aquele que nele crê não perecesse, mas tivesse a vida eterna ( Jo 3:14 -16).

Deus amou o mundo que Deus o Seu Filho, porém, os adeptos da doutrina da ‘expiação limita’ fazem um esforço enorme para colocar uma dúvida no coração de quem ouve a mensagem do evangelho:

‘Será que Jesus morreu por você?’

Amado leitor, se esta dúvida sobressaltar o seu coração devido algumas questões doutrinárias, tenha este verso como lema:

“E ele [Jesus] é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” ( 1Jo 2:2 ).

 


[1] Maxwell, Colin ‘Questões sóbrias para aqueles que creem numa redenção universal ou expiação ilimitada’, artigo disponível no Site Monergismo < http://www.monergismo.com/textos/expiacao_limitada/questoes.htm > consulta realizada em 26/06/15.

[2] ‘Conhecer’ no sentido de se fazer um com Cristo ( Ef 5:30 ). Não diz de ‘presciência’, ou de ‘antever’, e sim de comunhão intima “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós” ( Jo 17:11 ).

[3] “13) Aparte da possibilidade de um ocasional hiper calvinista – uma espécie em extinção – você já ouviu um calvinista declarar que ele não necessita evangelizar, visto que o sacrifício de Cristo garante a salvação dos eleitos, quer ele evangelize, quer não?”

[4] “10) Você reconhece a distinta vantagem de se crer na redenção particular – que ela realmente realizará aquilo para o qual foi designada, isto é, a certa e infalível salvação daqueles por quem ela foi pretendida? Você reconhece a distinta desvantagem de se crer numa redenção geral que reside no tipo de imprecisão e o não poder reivindicar 100% de sucesso?”

[5] “9) Você crê que na Bíblia, palavras como “todos” e “mundo” e “todo homem” sempre significa cada pessoa ou coisa individualmente, a menos que seja limitada especificamente (por exemplo, 1 João 3:3) OU você reconhece que algumas vezes na Bíblia, palavras como “todos” significa “todos tipos de” (1 Timóteo 6:10) e “mundo” significa os gentios em oposição aos judeus somente (João 12:19-20) e “todo homem” significa “todos tipos de homem” (Atos 4:35/1 Coríntios 7:2), sem qualquer menção específica de uma limitação?”

[6] “8) Cristo morreu pelo pecado da incredulidade? Se sim, porque este pecado impede o pecador, mais do que qualquer outro pecado pelos quais Cristo morreu?”

[7] “6) Cristo realmente suportou os pecados daqueles que já estavam ou agora estão ou irão estar no inferno quando Ele morreu por eles? O resultado disto é o mesmo do crente, isto é, o esquecimento de Deus dos seus pecados (Hebreus 10:17)? Se sim, por que eles estão sendo relembrados agora? Se não, até que ponto é a diferença que você está introduzindo?” e; “7) Se Cristo sofreu e morreu por aqueles que estão agora sofrendo no inferno e agonizante pelos seus pecados… não estaria Deus exigindo castigo duas vezes pelos mesmos pecados? Isto é justo?”

[8] “5) Você crê que Cristo morreu por aqueles que já estavam no inferno, isto é, Caim, Faraó, etc., quando Ele veio ao mundo? Ele morreu de bom grado por eles, suportando todos os seus pecados, mesmo embora Ele soubesse que nem um milímetro de Seus sofrimentos jamais os beneficiaria?”

[9] “3) Cristo falhou, no final das contas, no Seu propósito de Sua morte? Ele realmente verá o fruto do trabalho de Sua alma e ficará SATISFEITO? (Isaías 53:11) Cristo está realmente satisfeito com o fruto do trabalho de Sua alma quando Ele vê Judas Iscariotes, (por quem, você insiste, Ele morreu, da mesma forma como por João e Pedro, etc.) indo para o próprio lugar onde teria sido melhor para ele nunca ter nascido? (Marcos 14:21) 4) Você relaciona a morte de Cristo – certamente o assunto mais importante sempre – com versos como Isaías 14:24/14:27/46:10/Salmos 115:3/Provérbios 19:21 etc., os quais ensinam que os propósitos de Deus são certos e não podem ser frustrados?”

[10] “2) Cristo veio e morreu para salvar eficazmente homens ou apenas para fazer a salvação possível? Então, era teoricamente possível que Cristo poderia morrer por pecados e ninguém ser salvo?”

[11] “1) Você crê que Cristo morreu pelos pecados dos anjos caídos, que estão reservados na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia (Judas 6), quando serão lançados como malditos no fogo eterno (Mateus 25:41), para serem atormentados de dia e de noite para todo o sempre (Apocalipse 20:10)? OU você crê que a expiação foi limitada a um grupo particular de pecadores?”




Você é realmente salvo?

As religiões buscam demonstrar que o homem é pecador através de questões morais e legais, mas a Bíblia demonstra que todos se tornaram pecadores por causa de uma única ofensa “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo”  ( Jo 16:8 ).


Você é realmente salvo?

Introdução

Muitos cristãos não sabem se são salvos, insegurança que advém de certos posicionamentos doutrinários, ou por não compreender alguns versos da Bíblia.

Versos que contêm advertência quanto aos cuidados com a salvação parecem suplantar as garantias contidas no evangelho, e muitos duvidam se realmente são salvos.

Como compreender a advertência contida no seguinte verso:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” ( Mt 7:21 ).

Diante deste verso, muitos duvidam de sua salvação e questionam-se sobre a possibilidade de estarem enganados por acreditarem que são salvos. Além da dúvida, ainda encontram os pseudos mestres do cristianismo que se utilizam do versículo somente para incutir medo nas pessoas, mas que também não compreendem a verdade ali contida.

Quando Jesus disse: ‘Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!’, estava falando a uma multidão demonstrando que, não basta chamá-lo de Senhor, antes, é necessário fazer a vontade de Deus para poderem entrar no céu.

Jesus esclareceu os seus ouvintes sobre o que é necessário fazer para ter garantia da salvação quando demonstrou aos seus ouvintes que dizer ‘Senhor, Senhor’, não garante salvação. A garantia de salvação está em fazer a vontade do Pai celestial. Jesus não demonstrou somente o que não garante salvação e deixou por conta do homem decidir por si mesmo qual é a vontade de Deus. Não! Jesus veio ao mundo fazer a vontade do Pai e declarar ao homem qual é a vontade de Deus a ser realizada pelo homem para alcançar a salvação.

A vontade de Deus

Qual é a vontade de Deus que, se o homem realizar, garante entrada nos céus?

Alguns pregadores, de posse deste verso arrematam dizendo que tais palavras têm por alvo aqueles que ‘professam’ publicamente com os lábios que crê em Cristo, mas que nunca se converteram genuinamente, alegando que confessar que creu em Cristo não redunda em salvação se o penitente não obedecer a Deus fazendo a sua vontade, o que gera confusão, pois não esclarecem qual é a vontade de Deus, ou pior, alegam que conformar-se com comportamentos estabelecidos pela sociedade como correto é realizar a vontade de Deus.

Uma coisa é certa: só entrará nos céus quem nascer de novo! Só entrará nos céus quem tiver obra superior a dos escribas e fariseus! Só entrará nos céus quem faz a vontade Deus! Ora, a vontade de Deus é especifica: que creiam em Cristo.

A obra de Deus, ou o mandamento de Deus, ou a vontade de Deus resume-se na seguinte frase: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ; Jo 6:29 ).

Ora, se a vontade de Deus é que os homens creiam em Cristo, quando Jesus disse que não basta dizer: -‘Senhor, Senhor’, mas que é necessário realizar a obra de Deus – a essência da mensagem de Cristo é que cressem n’Ele “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou ( Jo 6:29 ).

Fazer a vontade de Deus resulta em salvação, nunca o contrário, que a salvação resulta em fazer a vontade de Deus. Chavões como: ‘Tu não fazes a vontade de Deus para que sejas salvo, mas farás a vontade de Deus se és verdadeiramente salvo’, possui um equivoco tremendo.

Muitas vezes o pecador ouve que é pecador por ter sido gerado de Adão e que necessita de Cristo para ser salvo, e após o pecador crer que Jesus é o Filho de Deus que tira o pecado do mundo, tem a sua confiança desconstruída em função do argumento de que ‘o verdadeiro fruto da salvação é fazer a vontade de Deus’. Está é uma das artimanhas de Satanás que está ao derredor buscando a quem possa tragar. Este é um engano de perdição, pois crer em Cristo é a vontade de Deus, condição essencial para entrar no reino dos céus, quando o crente passa a estar em Cristo e Cristo no crente “E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado” ( 1Jo 3:25 ).

Crer em Cristo como o Cristo de Deus que havia de vir ao mundo é o mesmo que estar em Cristo, portanto, quem crê torna-se nova criatura, pois basta crer em Cristo para o homem cumpra o mandamento de Deus.

Quando o carcereiro de Filipo perguntou ao apóstolo Paulo e a Silas o que deveria fazer para se salvar, a resposta foi especifica e categórica: creia no Senhor Jesus! “E, tirando-os para fora, disse: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar? E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” ( At 16:30 -31).

Quem crê que Jesus é o Filho de Deus vence o mundo “Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” ( 1Jo 5:5 ). Em admitir que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que Deus o ressuscitou dentre os mortos está a salvação “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” ( Rm 10:9 ).

Confissão

Quando se crê em Cristo, ou seja, quando se faz a vontade de Deus, o homem passa a estar ligado à videira verdadeira. Por ser uma vara ligada à videira é impossível não dar fruto “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:4 -5; 1Jo 3:25 ).

Quando Jesus diz: ‘Estai em mim e eu em vós’, estava dizendo: – “Façam a vontade do Pai”; – “Creiam que Eu sou o enviado de Deus”; – “Realizem a obra de Deus”, pois qualquer que crê em Cristo passa a estar em Cristo e Cristo no crente. Para estar em Cristo basta crer em Cristo ( Jo 14:1 ), pois este é o mandamento de Deus que resulta em salvação, uma vez que Cristo foi enviado por Deus para que todo aquele que nele crê não pereça, antes tenha a vida eterna ( Jo 3:16 ).

O fruto que o crente produz é professar o nome de Jesus como salvador do mundo “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” ( Hb 13:15 ). Fazer a vontade de Deus é crer em Cristo, e o fruto daquele que crê consiste em professar a Cristo, o fruto dos lábios, que não é o mesmo que ‘fruto da salvação’ ( Hb 13:15 ).

O mandamento é crer em Cristo, o fruto é anunciar as boas novas do evangelho, pois no fruto está a semente que produz vida. É um equivoco grotesco confundir o fruto dos lábios com o mandamento de Deus.

A evidência da salvação está em que Deus ressuscitou o Seu Filho dentre os mortos, e que todo o que obedece a Deus crendo em Cristo é salvo, pois o seu mandamento é crer em Cristo.

Se o Cristão crê que Jesus é o salvador do mundo, o Filho de Deus nascido na casa de Davi, que viveu sem pecado, foi morto e ressurgiu dentre os mortos e está assentado à destra do Pai nas alturas, está salvo, como se lê: “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” ( Rm 1:2 -4).

Não deixe que outra pessoa examine a autenticidade da tua salvação, antes prove, analise a si mesmo se permaneceis crendo em Cristo, pois Ele é a fé que havia de se manifestar e que nos foi manifesta ( Gl 3:23 ). Se o crente permanece crendo que Jesus é o Cristo conforme diz as Escrituras, é aprovado diante de Deus.

Se alguém tentar por em dúvida a salvação de quem creu em Cristo, basta fazer o recomendado pelo apóstolo Paulo aos cristãos de Corintos: Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” ( 2Co 13:5 ).

É por este motivo que o crente deve se interirar do que alcançou após ouvir o evangelho e crer em Cristo Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” ( Ef 1:13 ).

Agora, se o cristão desconhece que está em Cristo e que Cristo está nele; se desconhece que é nova criatura por estar em Cristo; se desconhece que é templo, habitação do Espírito de Deus; se desconhece que é o corpo de Cristo; se desconhece que é luz no Senhor; se desconhece que é filho de Deus; se desconhecer que foi batizado na morte de Cristo; se desconhece que já ressurgiu com Cristo dentre os mortos; se desconhece que o Pai e o Filho vieram e fizeram nele morada, qualquer questão proveniente do anticristo demoverá tal cristão da sua fé e será achado reprovado “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” ( 2Co 13:5 ).

O cristão que não compreende que a vontade de Deus é crer em Cristo, ou que não compreende que crer em Cristo é suficiente para redundar em salvação, é comparável à semente caída a beira do caminho, suscetível de o maligno vir e arrebatar a semente, conforme lemos na parábola do semeador: “Ouvindo alguém a palavra do reino, e não a entendendo, vem o maligno, e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho” ( Mt 13:19 ).

Se o crente crê que:

a. Era pecador porque era descendente de Adão, porque foi gerados em pecado ( Rm 3:23 );

b. Jesus foi enviado ao mundo para salvar a humanidade porque todos estavam alienados de Deus por causa da ofensa de Adão ( Jo 3:16 );

c. Jesus é o Verbo eterno que no princípio estava com Deus ( Jo 1:1 -2), e sendo Deus, esvaziou-se do seu poder e glória e tornou-se homem ( Fl 2:7 );

d. Jesus foi introduzido no mundo como o Unigênito Filho de Deus gerado no ventre de Maria pelo Espírito de Deus ( Jo 1:18 ; Mt 1:18 );

e. Jesus viveu entre os homens, foi participante de todas as aflições, porém, sem pecado ( Hb 2:17 );

f. Jesus foi crucificado, morreu, foi sepultado e ressurgiu ao terceiro dia e está assentado à destra de Deus nas alturas ( Rm 1:3 -4), significa que se arrependeu, ou seja, que a sua concepção foi mudada, transformada pela mensagem do evangelho e efetivamente salvo.

Arrependimento genuíno

Há uma má leitura acerca do que é o arrependimento genuíno que também turva o entendimento de muitos cristãos. Arrependimento segundo a Bíblia diz de mudança de concepção, de entendimento. Quando Jesus diz ao Fariseus: “… se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” ( Lc 13:5 ), estava demonstrando que, apesar de pensarem que estava em condição privilegiada diante de Deus por serem descendentes de Abraão, na realidade, se não mudassem a concepção que tinham, pereceriam do mesmo modo que aqueles gentios que os fariseus haviam acabado de emitir um julgamento.

Arrependimento não é confessar erros e crimes cometidos. Arrependimento não é ir a um confessionário. Arrependimento não é penitenciar-se. Arrependimento não é remorso. Arrependimento, ‘metanoia’ no grego, é deixar de ter um conceito para abraçar uma nova compreensão.

Os fariseus acreditavam que era salvos por serem descendentes de Abraão, porém, se um fariseu se arrependesse, deveria substituir a concepção de que era salvo por ser descendente de Abraão pela concepção de que a salvação se dá em Cristo, o descendente prometido a Abraão. É por isso que João Batista disse aos escribas e fariseus: – “Arrependei-vos. Ou seja, mudem a concepção de vocês, pois para ser salvo não basta pensar que tendes por pai a Abraão, pois das pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”; “Mude a concepção de vocês, pois o reino de Deus está entre vós”.

Dizer: – ‘Senhor, Senhor’, é portar-se como alguns judeus que diziam crer em Cristo ( Jo 8:31 ), mas que ao serem questionados, apresentaram a sua real crença: “Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:33 ).

Apesar de muitos judeus crerem em Cristo, criam ao seu modo, pois entendiam que Cristo era um dos profetas, ou que era somente um dos filhos de José e Maria. Eles não criam em Cristo como o descendente prometido a Davi; não criam que Cristo é superior a Abraão; não criam que Cristo existia antes de Abraão; não criam que Jesus é o Eu Sou ( Jo 8:53 ).

Os judeus criam em Deus, porém, não queriam obedecê-Lo, por isso Jesus disse aos seus discípulos: “Crede em Deus, crede também em mim” ( Jo 14:1 ). O protesto de Tiago quanto ao posicionamento dos judeus é claro: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem”( Tg 2:19 ). Mas, por que Tiago protestou deste modo? Porque o mandamento de Deus é que os homens creiam em Cristo, e quem, na verdade, crê em Deus, deve crer em Cristo “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou”( Jo 12:44 ). Se não crer em Cristo, na verdade não crê em Deus “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

Crer é suficiente e crer é o exigido para a salvação da alma. Quando alguém alega que ser salvo ‘não é apensas crer, antes que há um crer específico’ somente trás entrave à compreensão.

Qual é o tipo de crença que é para a salvação da alma?

Ora, crer que Jesus veio em carne é o tipo de crença que é para salvação da alma, mas crer que Jesus não veio em carne é uma crença de perdição fomentada pelo anticristo “Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo” ( 2Jo 1:7 ; 1Jo 4:2 ).

Crer que Jesus foi crucificado, morreu e ressurgiu dentre os mortos é o tipo de crença que redunda em salvação da alma,  mas crer que Jesus não morreu ou que não ressuscitou dentre os mortos, é o tipo de crença que não livra da condenação ( 1Co 15:3 -4).

Crer que o Jesus de Nazaré é o Cristo, o Filho de Deus, é o tipo de crença que é para salvação, mas negar que Jesus é o Cristo é o tipo de crença que não redunda em salvação.

Crer que Jesus é o Eterno, o mesmo ontem hoje e eternamente, é o tipo de crença para salvação, mas crer que Jesus é um anjo ou arcanjo, não redunda em salvação.

Confessar, admitir que Jesus é o Filho de Deus é o tipo de crença que redunda em salvação, mas crer que Jesus nasceu de Maria e José é o tipo de crença que não é conforme a verdade do evangelho, portanto, não redunda em salvação.

Crer que Jesus faz milagres, que é um dos profetas, o maior mestre que já existiu, que é o maior psicólogo, o homem mais bondoso que já passou pela terra, que resolve problemas mil, etc., não é o tipo de crença que redunda em salvação, antes é salvo aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus que tem palavras de vida eterna “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” ( Jo 5:24 ).

Os judeus tropeçaram na pedra de tropeço porque não reconheceram que Jesus era o filho de Davi, portanto, o Filho de Deus, o cerne da confissão cristã “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ). Se admitisse que Jesus era o Filho que Deus prometeu a Davi, concomitantemente teriam que admitir, segundo as Escrituras que Jesus era o Filho de Deus ( 2Sm 7:13 -14; Sl 2:7 ). A confissão da irmã de Lázaro, Marta, estava em consonância com a declaração do apóstolo Pedro: “Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio
que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” ( Jo 11:27 ).

A conversão do homem decorre da pregação da mensagem do evangelho, semelhante ao que se deu com os habitantes de Nínive que, ao ouvirem a mensagem do profeta Jonas, se converteram ( Lc 11:32 ). A conversação não possui relação com o tipo de programa que o cristão assiste na televisão; com o traje do homem ou da mulher; com a aparência física; com o cabelo, se curto ou longo; com enfeites, brincos, perfumes, etc., antes a conversão está atrelada à confissão do evangelho.

Outro equivoco decorrente de uma má leitura das Escrituras é a ideia de que uma pessoa só pode crer verdadeiramente quando se ‘arrepender’ sentido pesar, remorso, tristeza pelos erros de condutas cometidos. Ora, ‘arrepender-se’ é o mesmo que crer na verdade do evangelho, pois o crer em Cristo para salvação só é possível quando o homem abandona (metanoia) os seus próprios conceitos quanto à salvação.

Por exemplo: Quando o evangelista Mateus narra a parábola dos dois filhos contada por Jesus aos fariseus, foi demonstrado que os publicanos e as meretrizes creram na mensagem de João Batista, mas os religiosos, apesar de ver tamanha maravilha, os pecadores crendo, não mudaram a concepção para crer na mensagem de João Batista “… nem depois vos arrependestes para o crer” ( Mt 21:32 ).

Uma evidencia de que os fariseus não creram na palavra de João Batista é que eles não mudaram a confissão, pois apesar de ouvirem que o reino de Deus estava próximo, continuavam dizendo que eram descendentes de Abraão. Se houvessem arrependimento, deixariam de fazer alusão a Abraão e passariam a confessar que Jesus é o Cristo.

Os fariseus não se arrependeram (metanoia) porque não creram, e não creram porque não mudaram a concepção que aprenderam dos seus pais (não se arrependeram). É necessário cuidado para não confundir ‘metanoia’ (arrependimento) com a concepção católica da penitência derivada da indulgencia que ainda permeia o significado da palavra ‘arrependimento’.

Para ser salvo é necessário que o Espírito Santo convença o homem do pecado, da justiça e do juízo. O convencimento do pecado que o Espírito Santo promove não decorre de questões legalista, moralista ou formalista. O convencimento do pecado que o Espírito Sato promove é conscientização segundo as Escrituras, de que :

– o homem é pecador por causa da desobediência de Adão; que a ofensa de Adão trouxe juízo sobre todos os homens para condenação.

– o juízo de Deus já foi estabelecido no Éden, trazendo condenação sobre todos os homens.

– a justiça de Deus é substituição de ato, a obediência de Cristo pela ofensa de Adão, e não por questões comportamentais.

As religiões buscam demonstrar que o homem é pecador através de questões morais e legais, mas a Bíblia demonstra que todos se tornaram pecadores por causa de uma única ofensa “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo”  ( Jo 16:8 ).

Quando se crê em Cristo, o homem passa da morte para vida. Quando se crê, o homem entra pela porta estreita. Quando se crê, o homem passa estar em Cristo, o caminho estreito que conduz o homem a Deus. Basta estar em Cristo que o homem passou a estar separado do pecado e unido a Deus.

O homem é salvo pelo evangelho, que é poder de Deus para salvação de todo que crê.

Quando dizemos que o homem é salvo pela fé, estamos dizendo que o homem é salvo por meio do evangelho, pois o evangelho é a fé que foi dada aos santos, pois foi manifesta na plenitude dos tempos ( Jd 1:3 ; Gl 3:23 ).

O homem é salvo pela pregação da fé, que é dom de Deus. Quando o homem ouve o evangelho e crê, obedeceu a fé, o que lhe dá poder de ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ). A crença (fé) genuína decorre da obra que Jesus realizou no Calvário (obediência) que redundou em sua ressurreição dentre os mortos.

Ser salvo é crer que Jesus morreu pelos pecadores para remi-los da condenação herdada de Adão.

Entretanto, milhares, sim, talvez milhões de religiosos, que são membros de igrejas, que dizem que invocam ao Senhor, ficarão chocados quando forem rejeitados por Deus. Por que? Porque alguns creem em Cristo ao seu modo, e não conforme as Escrituras “E saiu Jesus, e os seus discípulos, para as aldeias de Cesaréia de Filipe; e no caminho perguntou aos seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens que eu sou? E eles responderam: João o Batista; e outros: Elias; mas outros: Um dos profetas” ( Mc 8:27 -28). Outros porque não perseveraram crendo em Cristo conforme as Escrituras, antes se desvaneceram em seus próprios conceitos, rejeitando a verdade do evangelhoNão rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão. Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” ( Hb 10:35 -36), pois a promessa de Cristo é especifica aos que creem em seu nome: “E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” ( 1Jo 2:25 ); “A este dão testemunho todos os profetas, de que todos os que nele creem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome” ( At 10:43 ); “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ).

Crer que Jesus é o Filho de Deus é suficiente para alcançar a salvação, porém, é necessário guardar esta confiança até o fim, pois esta é a admoestação do apóstolo Paulo “Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão” ( 1Co 15:2 ). Depois de ter feito a vontade de Deus, que é crer em Cristo, basta a perseverança até o fim para alcançar a promessa: a vida eterna!

O objetivo do evangelho e das Escrituras é que o homem creia que Jesus de Nazaré é o Cristo “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ).




O eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo

O propósito de Deus de estabelecer a sua palavra acima de todo o seu nome é eterno e imutável e foi levado a cabo quando Cristo ressurgiu dentre os mortos e tornou-se a cabeça da igreja, que é o seu corpo.


O eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo

O propósito eterno de Deus é um tema grandioso que permeia toda a bíblia e deveria direcionar o foco de todos os estudantes das Escrituras, visto que o predicativo ‘eterno’ que qualifica o propósito advém do Eterno, pois o propósito é eterno por ter sido estabelecido em Deus e não nas suas criaturas que são finitas.

Sem compreender o propósito eterno que Deus estabeleceu em si mesmo os estudos teológicos ficam desfocados “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo…” ( Ef 1:9 ), pois a essência das Escrituras é a Palavra que se fez carne ( Jo 6:39 ).

Portanto, se faz necessário compreendermos qual é o propósito eterno que Deus propôs em si mesmo “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor…” ( Ef 3:11 ). Todos os cristãos precisam compreender no que consiste o propósito de Deus, para não relacioná-lo com suas necessidades diárias, das quais Cristo nos asseverou: “…Não estejais apreensivos pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis” (Lc 12.22).

 

O motivo e objetivo do Propósito eterno

“Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:21)

Qual o propósito eterno de Deus? O que Ele propôs que permanecerá pela eternidade?

O propósito eterno de Deus é anterior à queda do homem e foi estabelecido antes mesmo da fundação do mundo.

Após trazer a existência os seres angelicais ( Ne 9:6 ; Sl 148:2 -5), Deus tornou-se conhecido e reverenciado pelas suas criaturas celestiais em decorrência da sua majestade, poderio, grandeza, força, onipotência, etc., atributos estes denominados pela teologia de ‘naturais’. Diante da imensidão do Altíssimo seus anjos O bendiziam desta forma: “E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” ( Is 6:3 ).

Porém, segundo o beneplácito e conselho da sua vontade, Deus estabeleceu na eternidade que seria conhecido e reverenciado por suas criaturas, não em decorrência da sua onipotência e imensidão, antes seria adorado e reverenciado em decorrência da sua multiforme sabedoria, benignidade e fidelidade.

Mas, como estabelecer tal propósito? Esta intenção benigna que prepusera fazer em si mesmo ( Ef 1:9 ), foi levada a efeito com base no conselho da sua vontade, sendo o conselho plenitude de sua sabedoria, entendimento e conhecimento e poder ( Pv 8:14 ).

Para ser reverenciado por todas as suas criaturas segundo a sua multiforme sabedoria, benignidade e fidelidade, na eternidade Deus propôs engrandecer a sua Palavra acima de todo o seu nome e de todos os principados e potestades “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome ( Sl 138:2 ; Sl 89:2 ).

Ao propor estabelecer a sua palavra acima de todas as coisas e acima de todo o seu nome, que é onipotente, soberano, majestoso, eterno e infinito, Deus concedeu honra e glória ao seu nome em virtude do seu amor e da sua fidelidade “NÃO a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” ( Sl 115:1 ).

Observe que é o próprio Deus quem dá glória ao seu nome, e isto se dá em função do seu amor e benignidade. Quando o seu Conselho resolveu elevar a sua palavra acima de todo o seu nome, os que esperam (creem) em sua Palavra que se fez carne, tornaram-se instrumento de louvor da sua glória “Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo” ( Ef 1:12 ).

Para levar o seu propósito a cabo, Deus criou o mundo através da sua palavra – o Verbo de Deus “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” ( Jo 1:3 ). Embora o Verbo fosse Deus, despiu-se da sua glória e foi introduzido no mundo na condição de Unigênito de Deus, fazendo-se semelhante aos homens ( Fl 2:7 ).

Em tudo o Verbo divino se fez semelhante aos homens, por causa da paixão da morte, pois lhe era necessário provar a morte e morte de cruz ( Hb 2:9 ). Na condição de único gerado de Deus, a Palavra de Deus assumiu a condição de servo e em tudo foi obediente ao Pai pelo premio que lhe estava proposto ( Is 55:11 ; Fl 2:8 ; Hb 12:2 ).

Observe que, para expiar o pecado dos homens Jesus tornou-se semelhante aos homens em tudo, porém, a posição de sumo sacerdote misericordioso e fiel teve em vista o que era pertencente a Deus, ou seja, o seu eterno propósito “Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” ( Hb 2:17 ).

Ao ressurgir dentre os mortos, o Verbo que se fez carne ascendeu aos céus e assentou-se a destra de Deus. Embora Deus tenha feito o mundo por intermédio da sua Palavra (Cristo) ( Hb 1:8- 10), após, Este se assentar à destra da Majestade nas alturas, foi constituído herdeiro de tudo ( Hb 1:3 ).

Deus exaltou a sua Palavra soberanamente e lhe deu um nome acima de todo o nome ( Fl 2:9 ). Da igreja tornou-se a cabeça, pois dentre os filhos de Deus que Ele conduziu à glória, tornou-se o Primogênito ( Cl 1:18 ), para que em tudo a Palavra seja preeminente “Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime” ( Is 52:13 ).

Deste modo, a vontade de Deus orientada pelo seu Conselho elevou a sua Palavra acima de todo o seu nome e de todos os nomes, principados e potestades, convergindo todas as coisas em Cristo, a Palavra de Deus que se fez carne ( Ef 1:10 ; Sl 89:27 -28).

Enquanto servo e despido de sua glória, a Palavra de Deus em tudo foi semelhante aos homens, mas ao ressurgir, Ele tornou-se a expressa imagem do Deus invisível “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ), tornando-se mais sublime que os céus, e herdou um nome que é acima de todo nome, não só neste século mais também no vindouro ( Ef 1:21 ).

Observe que todas as coisas foram postas debaixo dos pés de Cristo, a Palavra que se fez carne. A posição da igreja é superior à dos anjos ( 1Co 6:3 ), portanto, acima de todos os principados e potestades, porém, sobre todas as coisas Cristo foi constituído como a cabeça da igreja ( Ef 1:22 ), ou seja, assumiu posição acima dos anjos e dos semelhantes a Ele.

Deste modo, Deus levou a efeito seu propósito eterno, que não se restringe a este século, mas também abarca os séculos vindouros: engrandecer a sua palavra acima de todo o seu nome “Inclinar-me-ei para o teu santo templo, e louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome” ( Sl 138:2 ).

O propósito de Deus de estabelecer a sua palavra acima de todo o seu nome é eterno e imutável e foi levado a cabo quando Cristo ressurgiu dentre os mortos e tornou-se a cabeça da igreja.

O apóstolo Paulo deixa claro que Deus desvendou o mistério da sua vontade, o beneplácito que propusera em si mesmo, no Verbo encarnado: a sua Palavra foi engrandecida! “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor…” ( Ef 3:11 e Ef 1:9 -10).

 

O Propósito Eterno e a Salvação

Muitos possuem um entendimento equivocado de que o propósito eterno de Deus resume-se na salvação da humanidade e, que tal propósito começou a ser posto em prática a partir da queda da humanidade.

Neste sentido, se admitirmos que o propósito eterno de Deus centra-se na humanidade, tem-se que o propósito não é eterno, pois teria inicio em seres finitos e, o propósito não poderia ser eterno com base na salvação dos homens, visto que há um tempo determinado para que se encerre o tempo de salvação.

Deus é eterno e o seu propósito foi estabelecido sobre a sua palavra, que é viva e eficaz e é a mesma ontem, hoje e permanece eternamente.

Deste modo, é essencial que se compreenda que o propósito eterno de Deus seria levado a efeito com ou sem a queda da humanidade, pois o propósito foi estabelecido por Deus e para Ele ( Ef 1:4 e 11). O propósito de estabelecer a sua Palavra acima de todo o seu nome é eterno e imutável, e o seu propósito não foi e nem poderia ser alterado ou mudado por causa da queda da humanidade.

Se a salvação fosse o eterno propósito, necessariamente Deus seria cúmplice do pecado, pois ficaria na dependência de que Adão pecasse para que, só então, pudesse levar a efeito o seu propósito.

Devemos saber diferenciar propósito de vontade. Enquanto Deus quer que todos os homens se salvem (vontade), porém, espera que os homens venham ao conhecimento da verdade para que Ele possa salvá-los, mas, com relação ao seu propósito Deus é proativo e, segundo o seu beneplácito, fez todas as coisas necessárias para engrandecer a sua palavra.

Mesmo que Adão e Eva não houvesse pecado, Deus levaria a efeito o seu propósito: a sua Palavra seria engrandecida acima de todo o seu nome. Mas, como o homem pecou, Deus não poupou nem mesmo o Verbo para resgatá-lo do pecado para levar a efeito o seu propósito: elevar a sua Palavra “Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:21 ).

Portanto, apesar de a redenção da humanidade ser uma obra maravilhosa decorrente da benignidade de Deus, não podemos confundi-la com o propósito eterno de Deus.

A redenção dos homens não é o objetivo fim do Propósito eterno, antes revela a multiforme sabedoria de Deus que proveu o meio de reconciliar consigo mesmo suas criaturas e, concomitantemente fazer o seu Filho o primogênito entre muitos irmãos, através da igreja.

 

Por que Deus criou o Homem?

“Também disse Deus: Façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 )

Ao anunciar: “Façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ), foi dado o ‘start’ para Deus estabelecer a sua palavra acima de todo o seu nome.

Diferente da primeira fala: ‘Haja luz’ ( Gn 1:3 ), onde o sujeito do verbo ‘haja’ precisa essencialmente de poder criativo, o sujeito do verbo ‘façamos’ o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança, além de poder, essencialmente deveria ser fiel a sua palavra, mantendo-a verdadeira, imutável.

Criar a terra e criar o homem por meio da sua palavra exige poder, manter a sua palavra e fazer o homem a sua imagem, exige sabedoria e fidelidade a sua palavra, porém, com a queda do homem, a benignidade de Deus foi revelada aos homens na pessoa do Messias prometido.

Com a queda do homem apareceu a benignidade de Deus, Jesus Cristo-homem e, agora, todas as criaturas podem e devem reconhecê-Lo pela sua multiforme sabedoria, fidelidade demonstrada a sua Palavra e a sua benignidade demonstrada para com os homens “NÃO a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade” ( Sl 115:1 ).

Deus criou o homem em função do propósito eterno estabelecido em Cristo, de elevar o nome de Cristo acima de todo o nome. E não somente isto, o seu propósito visava tornar Cristo a cabeça de seres semelhantes a ele, ou seja, alçando-O a posição de primogênito entre muitos irmãos.

Quando Deus disse: “Façamos o homem conforme a nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, Satanás tomado de loucura intentou alcançar tal semelhança para estar em posição superior aos seus pares “E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo” ( Is 14:13 -14 ).

Ou seja, Satanás intentou alcançar algo que Deus propôs em Cristo, ou seja, em si mesmo ( Ef 1:9 ). Equivocadamente, Satanás entendeu que Deus somente daria ao homem uma posição superior aos anjos, porém, por não compreender o propósito eterno de Deus devido a sua multiforme sabedoria, desconhecia que, a própria imagem expressa de Deus que a tudo criou haveria de se fazer carne e habitar entre os homens e, que após tornar-se servo, seria engrandecido e glorificado com a semelhança do Altíssimo.

Satanás não sabia que, para Cristo ter um nome que é sobre todo o nome e, por fim, ser a cabeça da igreja, Deus teria que se esvaziar da sua glória, ser encarnado, ser morto, ressurgir, tornando-se o primogênito dentre os mortos e, assim, conduzir muitos filhos a Deus semelhantes a Ele, o que lhe concedeu a posição mais elevada: primogênito entre muitos irmãos, ou seja, a cabeça da igreja ( Sl 89:27 ; Is 52:13 ).

Portanto, Deus criou o homem em função do seu propósito grandioso estabelecido em Cristo, demonstrando assim que o propósito de Deus está acima da vontade de salvar o homem, pois se o propósito de Deus fosse salvar os homens, teria que salvar a todos os homens.

 

O pecado não demoveu Deus do Seu propósito

Mesmo após a queda da humanidade Deus não mudou e nem reformulou o seu propósito inicial: engrandecer a sua Palavra acima de todo o seu nome!

Como já vimos, Satanás foi presunçoso ao intentar alcançar a posição de semelhante ao Altíssimo e, como não guardou o seu principado, foi lançado de diante da presença de Deus. Não contente e movido por um sentimento de inveja, Satanás se postou na posição de inimigo dos homens.

Diante do anuncio “Façamos o homem conforme a nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, Satanás tentou o casal e, este, por sua vez, creu na mentira e pecaram.

É comum pensar que, antes da queda, Adão possuía a imagem e a semelhança de Deus, porém, uma leitura mais detalhada revela que ele era detentor somente da figura (imagem) de Cristo, ou seja, ele possuía somente a figura daquele que havia de vir: Jesus Cristo-homem. Adão não possuía a semelhança do Altíssimo, pois a semelhança só é alcançada por aqueles que ressurgem com Cristo.

Antes de ser introduzido no mundo, Cristo era o Verbo de Deus e o Verbo era Deus ( Jo 1:1 ), porém, após despir-se da sua glória, tomou a forma de homem, a mesma forma (figura) que foi dada a Adão “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ), e, somente após ressurgir dentre os mortos Cristo assumiu a posição de semelhante ao Altíssimo “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” ( Sl 17:15 ).

Cristo Jesus ressurreto é a imagem exata de Deus e, por sua vez, Adão era somente figura de Cristo-homem, ou seja, figura (sombra) daquele que havia de vir em carne “… Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ). Adão foi criado pelo Verbo de Deus, que é a Imagem expressa de Deus ( Cristo), porém, foi concedido a Adão apenas a figura do Cristo-homem que estava por vir, e Cristo-homem, por sua vez, alcançaria para os seus descendentes (homens espirituais) a semelhança do Altíssimo e, concomitantemente, por isto mesmo, elevado por Deus recebendo um nome que é acima de todo o nome.

O Verbo de Deus veio em carne revelar Deus aos homens ( Jo 1:18 ), e para que em tudo fosse semelhante aos homens ( Hb 2:14 e 17), portanto, quando Adão foi criado, foi criado à imagem, à figura de Jesus Cristo o homem que havia de vir em carne e numa posição menor que a dos anjos, ou seja, Adão não foi criado segundo a imagem e semelhança do Sublime ( Is 52:13 ; Hb 7:26 ) .

A Palavra da vida foi encarnada em uma condição menor que a dos anjos por causa da paixão da morte ( Hb 2:7 ), e para tanto lhe foi concedido um corpo, em tudo, semelhante à sua figura, Adão ( Hb 10:5 ; Sl 80:17 ). Adão foi criado, não a semelhança do Altíssimo, antes, como sombra dos bens futuros, ou seja, sem ser a expressa imagem e semelhança do Deus invisível, somente como a expressa imagem de Cristo-homem quando fosse encarnado ( Sl 144:3 ), pois somente Cristo é a expressa imagem do Deus invisível.

A figura (homem) da Imagem do Deus invisível desvanece (vaidade), porém, a Expressa Imagem do Deus invisível permanece para sempre ( 2Co 5:16 ). Assim como a lei, a arca, o sacerdócio levítico, os sacrifícios, o tabernáculo, o templo, etc., eram sombras dos bens futuros e não a imagem exata das coisas, Adão também não trouxe a imagem expressa do Deus invisível, antes trouxe a imagem do Verbo encarnado ( Hb 10:1 ; Hb 10:9 ).

Faz parte do propósito de Deus criar o homem a Sua imagem e a Sua semelhança, ou seja, a imagem e a semelhança é condição que pertencia somente a Deus e foi do seu agrado compartilhar com os homens “Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26 ).

Para que os homens compartilhassem da semelhança do Altíssimo, através de Cristo foram conduzidos à glória de Deus homens que, inicialmente foram criados como figuras daquele que havia de vir, mas que agora se assentam nas regiões celestiais em Cristo, sendo semelhantes a Ele, que por sua vez se assentou à destra da Majestade nas alturas ( Hb 1:3 ; Ef 1:3 e Ef 2:6 ).

Na condição de descendentes de Adão os homens são sombras, por intermédio do evangelho de Cristo os homens que creem são gerados de novo, com rostos descobertos passam a ter a imagem exata (refletindo como espelho) do Deus invisível, pois os que creem são transformados de glória em glória na mesma imagem do resplendor da glória de Deus ( 2Co 3:18 ; Hb 1:3 ).

Do mesmo modo, em outro tempo os cristãos possuíam a imagem transitória do homem terreno, agora em Cristo, trás a imagem do celestial ( 1Co 15:49 ), pois aqueles que conheceram a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele, não possuem outro destino (predestinados), serão conformes à imagem de Cristo, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:29 ).

Há uma diferença enorme entre Adão antes de pecar e os cristãos de novo gerados em Cristo. A condição de Adão antes de pecar, diante de Deus é semelhante a dos salvos antes e durante a ‘dispensação’ da antiga aliança e os que serão salvos na grande tribulação e no milênio: homens em comunhão com Deus.

Já os cristãos, homens pertencentes a igreja do Deus vivo, foram gerados de novo e possuem uma condição superior a de Adão antes da queda e dos salvos em outros tempos “O primeiro homem, Adão, foi feito ser vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual e, sim, o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e como é o homem celestial, tais também os celestiais” ( 1Co 15:45 -48).

Pelo nascimento natural (de carne e sangue), os homens pertencem a geração adâmica, sendo que, podem ser salvos do pecado, porém, estão aquém do propósito eterno. Mas, através do novo nascimento, o novo homem pertence a uma geração celestial, que além de salvar do pecado, também é participante do propósito que Deus estabeleceu em si mesmo ( Ef 1:9 ).

Adão perdeu a comunhão com Deus em decorrência da desobediência ( Gn 3:1 -7). Jesus, que é a imagem do Deus invisível que tudo criou, o Verbo encarnado ( Cl 1:15 ), que sempre fez a vontade do Pai ( Jo 4:34 ), que em tudo lhe agradou ( Jo 8:29 ), sendo obediente até a morte ( Fl 2:8 ).

Todo o homem que crê no enviado do Pai ( Jo 6:29 ), nega-se a si mesmo e toma a sua cruz ( Mt 16:24 ), perde a sua vida ( Mt 16:25 ), recebe o senhorio de Jesus Cristo ( Rm 10:9 -11) e é batizado na morte de Cristo ( Rm 6:4 ; Mc 16:16 ), ressurge uma nova criatura ( 2Co 5:17 ), segundo Deus ( Ef 4:24 ), recebe a semente e a natureza de Deus ( 1Pe 1:22 -23; 2Pe 1:4 ) e a semelhança d’Aquele que o criou ( Cl 3:10 ).

O pecado nada afetou o propósito de Deus estabelecido em Cristo e na sua geração “Cristo em vós, a esperança da glória” ( Cl 1:27 ).

 

A Igreja e o Propósito Eterno

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes a imagem de seu filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmão” ( Rm 8:28 -29)

O propósito eterno de Deus foi levado a efeito para estabelecer a sua palavra acima de todas as coisas, acima até mesmo de todo o seu nome para louvor da glória da sua graça ( Ef 1:5 -6). O propósito de Deus tem em vista o seu louvor ( Is 48:11 ; Ez 20:9 ).

Mas, estava incluso no seu propósito que a sua Palavra encarnada na condição de Unigênito de Deus seria elevado e exaltado muito além dos reis e príncipes da terra. O Unigênito de Deus, feito um pouco menor que os anjos, alçaria posição superior a todas as categorias de anjos. Entretanto, para Deus isto não era o bastante e estabeleceu que o Verbo encarnado, que foi morto e ressurgiu, seria elevado entre iguais e adorado por seres semelhantes a Ele.

Deus sempre foi reverenciado por ser único, tendo em vista que se distingui de suas criaturas por ser o Criador, onipotente, altíssimo, ou seja, inatingível. Desta peculiaridade pertinente ao Criador advém a pergunta: “Pois quem no céu se pode igualar ao SENHOR? Quem entre os filhos dos poderosos pode ser semelhante ao SENHOR?” ( Sl 89:6 ).

Ora, não há entre as criaturas de Deus quem possa ser semelhante ao Senhor, muito menos igualar-se a Ele. Porém, não é do seu agrado ser reverenciado única e exclusivamente em decorrência da relação Criador e criatura, Senhor e servo, pois se lançar sobre a questão o olhar da nobreza, que valor há em ser reverenciado por uma estirpe inferior?

A busca da ‘areté’ pertinente a sociedade e cultura (paidéia) da primeira Grécia retrata melhor esta relação, pois a perfeição que os nobres buscavam (areté) surgia da competição entre iguais. O valor do homem nobre media-se quando na batalha em busca do escol, iguais se digladiavam em busca do areté. Era sem valor um nobre vencer um escravo em batalha, pois o ideal aristocrático da nobreza atribuía valor ao enfrentamento entre iguais.

Embora entre os filhos dos poderosos não houvesse quem pudesse ser semelhante ao Altíssimo, o próprio Altíssimo esvaziou-se da sua glória e se fez semelhantes aos homens. Na condição de servo foi obediente em tudo ao Pai, pelo que herdou um nome que é sobre todos os nomes daqueles que lhe eram iguais “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ; Ef 1:21 ).

O domínio da terra que havia sido entregue aos homens, Jesus conquistou e tornou a congregar todas as coisas, tanto o domínio na terra quanto nos céus ( Sl 2:8 ; Ef 1:10 ), embora esteja aguardando, assentado à destra do Senhor, que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés ( Sl 110:1 ).

Embora não haja entre os filhos dos poderosos quem possa ser semelhante ao Senhor, foi do seu agrado fazer o seu servo a cabeça de uma geração de homens espirituais semelhantes a Ele. Embora o termo mais utilizado para se fazer referência à igreja seja ‘família’ de Deus, contudo, a nova geração em Cristo diz de uma nova categoria de seres semelhantes a Ele.

Nesta nova categoria de seres, os que fizeram a vontade de Deus, ou seja, creram na Palavra da verdade que foi enviada por Deus, tem-se a mãe, os irmãos e as irmãs de Cristo ( Mt 12:50 ). Embora os filhos dos poderosos não podem ser semelhantes ao Senhor, contudo, aos que creram, Deus deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ), ou seja, foi do agrado do Pai que o seu Filho galgasse a posição de primogênito (preeminência) entre muitos irmãos.

Diferentemente dos salvos em outras ‘dispensações’ que somente alcançaram a salvação do pecado que os alienava de Deus, a igreja de Cristo, além da salvação do pecado, também foram chamados segundo o propósito eterno que Deus estabeleceu em si mesmo ( Ef 1:9 ).

Como se deu o chamado da igreja para ser participante do propósito eterno?

Ora, como a vontade de Deus é que nenhum homem se perca, mas que todos venham ao conhecimento da verdade (pois Ele não tem prazer na morte do ímpio), todos quantos conheceram a Cristo, a verdade de Deus, foram libertos da escravidão do pecado.

Mas, desde a eternidade, segundo o conselho da sua vontade, Deus já havia escolhido o seu Descendente, ou seja, a Palavra encarnada, para ser santo e irrepreensível diante d’Ele. Por decreto foi estabelecido que o Verbo encarnado haveria de ser o Filho de Deus ( Sl 2:7 ; Pv 30:4 ), e que Ele seria elevado e mui sublime, possuidor de um nome acima de todo o nome que se nomeie neste século e no vindouro e, sobre tudo, a cabeça da igreja: um corpo constituído de homens semelhantes a Ele.

Com relação à salvação, Deus quer que todos se salvem, porém, com relação ao seu propósito eterno, Deus chamou (vocação) antes dos tempos eternos a descendência (geração) do Primogênito dentre os mortos, ou seja, todos os que conhecem (união intima) a Cristo para sejam filhos por Adoção (predestinação) e santos e irrepreensíveis (eleição).

De antemão Deus predestinou a geração do último Adão para serem filhos por adoção em função do seu propósito, para que Cristo fosse o Primogênito entre muitos irmãos ( Rm 8:28 -29). Ou seja, o propósito eterno de fazer Cristo o primogênito entre muitos irmãos predestinou os que creem em Cristo a serem filhos por adoção.

Como os descendentes do último Adão são criados em verdadeira justiça e santidade, segue-se que foram eleitos, segundo o propósito eterno, para serem santos e irrepreensíveis.

A salvação do pecado se dá pela manifestação de Cristo ao mundo, a fé que havia de se manifestar, o amor e a benignidade de Deus, porém, o propósito eterno foi estabelecido segundo o conselho da sua vontade, em Cristo. O beneplácito da vontade de Deus elegeu e predestinou os descendentes de Cristo, para serem conforme a imagem de Cristo, predestinados a filho por adoção e, eleitos para serem santos e irrepreensíveis diante de Deus.

A intenção benigna que prepusera fazer em si mesmo ( Ef 1:9 ), engrandecendo a sua Palavra acima de todo o seu nome, foi levada a efeito com base no conselho da sua vontade.

Na condição de primícias das criaturas de Deus, por ter alcançado a semelhança do Altíssimo, cada cristão constitui-se louvor da glória da sua Palavra, que é a cabeça, ou seja, tudo em todos ( Ef 1:23 ).




Romanos 5 – O dom gratuito

Comentário ao Capítulo 5 da Carta de Paulo aos Romanos. Após estudar o capítulo cinco da carta de Paulo aos Romanos será possível ao leitor divisar como todos os homens foram feitos pecadores, e como é possível ser participante da graça de Deus. O leitor também estará apto a verificar qual é a condição dos que estão em Cristo, e a condição daqueles que continuam inimigos de Deus.


Romanos 5 – O dom gratuito

 

Introdução ao Capítulo 5

Antes de prosseguirmos na análise versículo a versículo, faz-se necessário observarmos como Paulo estruturou a escrita da carta aos Romanos.

A primeira abordagem de Paulo sobre a justiça de Deus pela fé em Cristo se dá no capítulo 1, versos 16 à 17. Em seguida, o apóstolo passa a demonstrar que todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus em Adão ( Rm 1:16 à Rm 3:20 ). Após demonstrar que diante de Deus todos os homens tornaram-se escusáveis (judeus e gregos), o apóstolo volta a abordagem inicial: a justificação pela fé. Observe:

1º) “Não me envergonho do evangelho, pois é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé” ( Rm 1:16 -17).

2º) “Mas agora se manifestou sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas. Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos [e sobre todos] os que creem. Não há distinção” ( Rm 3:21 -22).

Percebe-se que no intervalo argumentativo entre os dois textos acima, Paulo apresentou elementos que demonstram que todos os homens tornaram-se culpáveis diante de Deus.

Também é possível pontuar os elementos presentes nos dois textos acima: No capítulo 1, versos 16 à 17, Paulo demonstra que a justiça de Deus se alcança por meio da fé sem qualquer distinção entre judeus e gregos. Da mesma, o capítulo 3, versos 21 à 22 continua demonstrando que a justiça de Deus é para os que creem sem distinção alguma entre judeus e gregos.

Em seguida, o apóstolo apresenta uma argumentação precisa e concisa sobre os motivos da justificação ser pela fé ( Rm 3:23 -27), e uma conclusão: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei” ( Rm 3:28 ).

No capítulo 4, o apóstolo apresenta exemplos de justificação pela fé no A. T.: Abraão e Davi, ou seja, Paulo evoca a autoridade da Escritura para dar sustentação a sua argumentação ( Rm 4:1 -25).

Desta forma, chegamos ao capítulo 5, onde o apóstolo volta à exposição argumentativa do início da carta, quando apresentou a ideia da justificação pela fé “TENDO sido, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ).

Isto demonstra que a exposição de Paulo é focada sobre um tema: a justificação pela fé em Cristo, sem qualquer distinção entre judeus e gregos. A abordagem de Paulo sobre a justificação pela fé sem distinção alguma entre judeus e gregos é debatida do capítulo 1 ao 4.

A abordagem do capítulo 5 também é sobre a justificação pela fé, porém, sem o foco das discussões provenientes da diferenças entre judeus e gregos, que motivou o apóstolo a demonstrar que em Cristo não há distinção alguma entre judeus e gentios.

Nos quatro primeiros capítulos Paulo demonstrou que todos os homens pecaram, e no capítulo cinco, ele retroage no tempo para demonstrar onde e em quem todos pecaram ( Rm 5:12 -21). Diferentemente dos quatro primeiros capítulos que focam a problemática da lei, da fé, dos judeus e dos gentios, o capítulo cinco apresenta qual é a condição daqueles que agora estão em Cristo ( Rm 5:1 -5), e qual era a condição do homem antes de terem um encontro com Cristo por meio do evangelho ( Rm 5:6 -6; 8 e 10).

Conclui-se que, após estudar o capítulo cinco da carta de Paulo aos Romanos, será possível divisarmos como todos os homens tornaram-se pecadores, e como é possível ser participante da graça de Deus. O leitor também estará apto a verificar qual é a condição dos que estão em Cristo, e a condição daqueles que continuam inimigos de Deus.

 

Capítulo V

1 TENDO sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo;

Não é correto nos pautarmos nas divisões de textos como capítulos e versículos quando da interpretação das cartas bíblicas. Ao analisar o texto, não podemos atrelar a análise tão somente a um capítulo ou a um, dois ou três versículos. Antes, a análise de qualquer versículo ou frase deve ser considerada dentro do contexto geral da carta.

Precisamos estar atentos, pois as divisões em versículos e capítulos acabam por influenciar a leitura bíblica. As divisões em capítulos e versículos devem ser considerados somente como auxilio para localização e referenciamos certos textos.

A observação anterior é válida na análise deste capítulo. Quando o apóstolo diz: “Tendo sido, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ), ele termina uma argumentação e introduz uma nova ideia.

Quando o apóstolo escreve ‘Tendo sido, pois, justificados pela fé…’, ele dá por encerrada a discussão sobre a superioridade dos judeus, ou que somente os gentios eram pecadores, ou que a justiça de Deus era proveniente da lei mosaica.

Ao ser justificado pela fé em Deus, as questões abordadas anteriormente passam à segundo plano, uma vez que não há distinção alguma entre gentios e judeus. “Sendo, pois, justificados pela fé…” remete à versículos anteriores ( Rm 1:16 -17 e Rm 3:21 -22), e apresenta um novo aspecto da justificação pela fé.

Os cristãos pela fé adquiriram paz com Deus, por intermédio de Cristo Jesus. Por meio da fé os cristãos são declarados justos e obtiveram paz com Deus. A condição alcançada em Cristo contrasta com a condição apresentada no verso 10.

 

2 Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.

Desde já, vale observar que, ao falar da salvação em Cristo, Paulo apresenta a condição dos cristãos (paz com Deus), para depois apresentar como alcançaram tal condição (pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça). Ou seja, durante a análise da carta aos Romanos, demonstraremos que, geralmente, o ponto de partida para o apóstolo apresentar o plano da salvação é o da condição alcançada (paz com Deus), e em seguida, ele retroage até demonstrar qual era a condição anterior (inimizade).

Por intermédio de Jesus os cristãos têm entrada a esta graça, ou seja, alcança a graça da justificação e amizade com Deus pela fé. Este versículo demonstra que por Cristo e pela fé os cristãos recebem a graça de Deus, e o verso anterior fixa-se em demonstrar a graça alcançada: justificação e amizade com Deus.

Paulo reitera que ele e todos quantos estão em Cristo (…também temos…), estão firme na graça proveniente do evangelho (…na qual estamos firmes…). Enquanto muitos se gloriam das questões relativo à carne ( 2Co 11:18 ), os cristãos gloriam-se na esperança proposta por meio do evangelho.

Embora o apóstolo não volte a falar que não há diferenças entre gentil e judeu explicitamente, ele acaba por falar de modo velado destas distinções promovidas pelos homens, e não por Deus. Gloriar-se na esperança da glória de Deus é uma das maneiras de trazer à lembrança dos cristãos àqueles que se vangloriam da carne.

 

3 E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência,

Enquanto os da fé gloriam-se na esperança proposta e nas tribulações, os segundo à carne gloriam-se em questões meramente humanas “Pois que muitos se gloriam segundo a carne, eu também me gloriarei” ( 2Co 11:18 ); “Se convém gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza” ( 2Co 11:30 ).

Enquanto os da carne buscavam elementos para gloriarem-se na carne dos irmãos em Cristo “Porque nem ainda esses mesmos que se circuncidam guardam a lei, mas querem que vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne” ( Gl 6:13 ), Paulo demonstra que o cristão deve gloriar-se tão somente na cruz de Cristo, esperança da glória “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ).

 

4 E a paciência a experiência, e a experiência a esperança. 5 E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.

Esta relação entre tribulação, paciência, experiência e esperança também foi abordado por Pedro e Tiago, porém, cada um à sua maneira:

“Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por provações, sabendo que a prova da vossa fé desenvolve a perseverança. Ora a perseverança deve terminar a sua obra…” ( Tg 1:2 -4).

“Nisto vos exultais, ainda que no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações. Essas provações são para que a prova da vossa fé (…) redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:6 -7).

A fé é a ‘entrada’ à graça de Deus, que pela esperança proposta concede forças para suportar as tribulações ( Hb 12:2 ).

Quando o apóstolo diz que ‘a esperança não traz confusão’, ele aponta para o Espírito Santo, que foi concedido através do amor de Deus. Ao escrever este verso Paulo tinha em mente a declaração feita aos cristãos de Éfeso: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória” ( Ef 1:13 -14).

O penhor geralmente é equivalente ao valor da dívida, e Paulo demonstra que os cristãos já haviam recebido o que é infinitamente superior à herança: o Espírito Santo de Deus.

 

O Primeiro e o último Adão

“Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante” ( 1Co 15:45 ).

Adão e Cristo são os dois personagens de maior importância para a interpretação bíblica. Grande parte das parábolas de Jesus e das figuras do Novo Testamento são referências específicas aos eventos no Éden e da cruz, ilustrando as conseqüências destes eventos para a humanidade.

Um exemplo é a parábola dos ‘dois caminhos’, que, implicitamente, faz referência as conseqüências decorrentes dos eventos que sucederam no Éden e na cruz. Observe: Adão foi feito (criado) alma vivente, porém, após desobedecer a determinação divina passou a condição de morto perante Deus. A ‘nova’ condição de Adão após a queda passou a ser de sujeição ao pecado pela natureza adquirida.

A sujeição ao pecado deixou Adão em inimizade com Deus, e por causa da condenação deixou de ser participante da vida que há em Deus e passou a viver para o mundo e suas concupiscências (morto para Deus e vivo para o mundo).

Todos os nascidos de Adão (nascidos da carne, vontade do varão e do sangue) passaram a condição de filhos da ira e da desobediência. Todos os homens estavam destituídos da glória de Deus, pois todos pecaram.

Esta condição pertinente à toda humanidade é ilustrada através da parábola das duas portas e dos dois caminhos, ou seja, todos os homens ao nascerem, por serem descendentes de Adão, entram pela porta larga, e seguem pelo caminho espaçoso que conduz à perdição ( Mt 7:13 ).

Em Adão todos os homens morreram e destituídos estão da glória de Deus. Em Adão, a ‘porta larga’, todos os homens seguem o caminho de perdição. Todos os homens morreram em Adão e passaram a viver para o pecado, para o maligno e para o mundo.

Porém, através do último Adão, que por Deus constitui-se espírito vivificante, todos os que creem entram pela porta estreita, ou seja, nascem de novo. São criados por Deus em verdadeira justiça e santidade, segundo o poder concedido através do evangelho, sendo feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ).

Estes passam a trilhar o caminho estreito que conduz à vida. O caminho é estreito e poucos entram por ele, ou seja, quando se fala em quantidade, muitos vem ao mundo segundo Adão, e poucos são os que creem para a salvação, segundo o último Adão, que é Cristo.

Em números absolutos, em Adão todos morreram, e em Cristo, o último Adão, todos quantos crerem também morrem. Em Adão toda a humanidade morreu e passou a viver para o mundo, em Cristo, o último Adão, todos os que creem, morrem para o pecado, para o maligno e para o mundo, e são de novo criados, e passam a viver para Deus. Amém.

Outro exemplo, é a figura dos vasos, conforme Paulo escreveu aos Romanos, veja: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” ( Rm 9:21 ). Como entender esta figura apresentada por Paulo?

Sabemos que Deus é o oleiro, e é Ele que detém o poder sobre o barro, que é o homem. Todos os homens decorrem de uma mesma massa, ou seja, todos são alma viventes conforme Adão.

Todos os homens que vêem ao mundo são criados pelo poder de Deus, porém, por serem descendentes de Adão, todos são feitos vasos para desonra. Todos os descendentes de Adão são vasos para ira, preparados para perdição. Através deles Deus demonstra a sua ira, e dá a conhecer o seu poder, suportando-os com muita paciência.

Deus chama pacientemente os vasos preparados para a ira a fim de torná-los vasos para honra, ou seja, o evangelho é o chamado de Deus a todos os homens nascidos segundo Adão. Todos os cristãos foram chamados por Deus, e neles é demonstrado o poder de Deus e as riquezas de sua graça. Todos os que são chamados e creem são os vasos de misericórdia, e, portanto, vasos para a honra.

Observe que, tanto os nascidos em Adão e os nascidos em Cristo constituem-se vasos e são formados da mesma massa como nos afirma ( 1Co 15:46 ) “Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual”. Todos os homens precisam ser feitos almas viventes (homem natural), para depois serem criados espirituais (homem espiritual).

Quando criados, os homens naturais passam à condição de escravos do pecado, por causa do pecado de Adão. Percebe-se então que, o grande diferencial é que, os nascidos segundo Adão são vasos para a desonra, e os nascidos em Cristo são vasos para honra.

Quando o leitor não compreende a verdade sobre os eventos da cruz e do Éden, acaba por interpretar a Bíblia erroneamente. Ao deparar-se com parábolas e ilustrações como as apresentadas acima, terá um entendimento segundo uma concepção humana, e permanecerá enfatuado, segundo uma carnal compreensão.

Muitos interpretam que a porta é larga porque as pessoas do mundo estão entregues aos prazeres, são sensuais, céticas e criminosas. Entendem que a porta é larga por não apresentar ‘dificuldades’ ou condições para entrada. Entendem que o caminho estreito esta diretamente relacionado com dificuldades, proibições, restrições de ordem moral, comportamental e religiosa.

Entendem que, para trilhar o caminho estreito, ou que, para entrar pela porta estreita basta seguir preceitos religiosos, cumprir leis nacionais, ou seguir filosofias de vida.

Diante deste entrave surgem muitas religiões, igrejas e denominações. Se avolumam os discursos sobre disciplina, sofrimento, penitências, orações, rezas, moralidade, santidade, serviço, pró-atividade. As qualidades procedentes do ego humano são louvadas insistentemente, como: coragem, determinação, empenho, disciplina, resignação, etc.

O ritualismo, o formalismo e o legalismo são ferramentas utilizadas para caracterizar devoção religiosa. Criam mecanismos para medirem e serem medidos. e força outros a seguirem o que preceituam como necessário à salvação. Estabelecem padrões de justiça e santidade a ser seguido. Procuram lições provenientes do paganismo e das filosofias humanas.

Esquecem de observar o que Jesus disse a Nicodemos: “Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer de novo, não pode ver o reino dos céus” ( Jo 3:3 ). Não observam que o ‘melhor’ da religião, da lei, da moral, do comportamento não faz o homem agradável a Deus, e por tanto, a recomendação de Jesus a um dos mestres do judaísmo.

O mundo ainda continua apegado a elementos fracos e pobres, que não pode livrar o homem da condição de sujeição ao pecado ( Gl 4:9 -10).

O apóstolo Paulo demonstra estar consciente das conseqüências decorrente da desobediência de Adão e da obediência de Cristo ao escrever aos cristãos de Corinto ( 1Co 15:45 -50).

Ao escrever a Timóteo, Paulo alerta sobre este pretenso ‘evangelho’: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé (…) que proíbem o casamento, e ordenam a abstinência de alimentos” ( 1Tm 4:1 -3).

Esta análise se fez necessário, visto que, os capítulos 6 e 7 da carta aos Romanos se fundamentam sobre os eventos do Éden e da cruz, e as conseqüências destes eventos para a humanidade.

 

O comentário que Paulo fez do verso 1 ao 11 demonstra que a humanidade estava em inimizade com Deus, e que agora, por intermédio de Cristo, esta estabelecida a reconciliação Rm 5: 10- 11.

Os versos 12 à 19 retroage no tempo para demonstrar onde toda a humanidade passou à condição de inimizade com Deus, e como se estabelece a paz com Deus Rm 5: 1.

Apesar de Paulo não ter citado nenhum verso da Escritura neste capítulo, a explicação centra-se nos eventos do Éden e da cruz.

 

12 Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.

Através da desobediência de Adão o pecado entrou no mundo, e pelo pecado (desobediência) a morte também entrou no mundo dos homens.

Lembrando: Deus havia advertido Adão a que não comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, embora ele pudesse comer de todas as árvores livremente. Adão também foi informado das conseqüências funestas se comesse da árvore ‘proibida’: “…dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Adão desobedeceu, e por ele entrou o pecado no mundo. Como conseqüência do pecado, a morte também entrou, ou seja, Adão passou a condição de morto para Deus.

A resposta sobre como todos os homens tornaram-se pecadores encontra-se expresso neste versículo. Observe que Paulo já havia apresentado este conceito anteriormente (todos pecaram) ( Rm 3:23 ), mas não havia apresentado como e onde todos pecaram. Este versículo complementa a ideia apresentada no capítulo 3.

Como o pecado e a morte entraram no mundo por meio de Adão, todos os seus descendentes compartilham da mesma condição: são pecadores e destituídos da glória de Deus ( da vida que há em Deus).

A condenação decorrente do pecado de Adão que passou a todos os seus descendentes, ou seja, ‘assim também a morte passou a todos os homens’.

 

13 Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei.

Paulo observa que o pecado e a condição de destituídos da vida que há em Deus é anterior ao advento da lei. Como seria possível a lei justificar se o pecado é anterior a própria lei? Ou seja, até a lei ser dada ao povo, o pecado já estava no mundo. Como era possível ser justificado antes da lei?

A resposta está no primeiro versículo do capítulo: “… justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ), pois a fé é anterior à lei, e o Autor da fé “é” anterior a entrada do pecado no mundo.

A ideia apresentada por Paulo neste versículo é concluída no verso 20: “Porque até à lei estava o pecado no mundo (…) veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse…” (v. 13 e 20). Os versos 14 à 19 compõem um adendo explicativo sobre as conseqüências dos eventos do Éden e da cruz para a humanidade.

A segunda parte do versículo introduz uma pergunta, e não uma conclusão ‘…mas não é o pecado imputado, não havendo lei?’, ou seja, o pecado estava no mundo, e a penalidade não seria imputada, simplesmente por não existir a lei? A resposta é conclusiva: a penalidade foi imposta, mesmo sem a presença da lei, visto que a morte reinou desde Adão (início) até a vinda da lei (Moisés).

 

14 No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.

Este verso apresenta uma argumentação com base nos elementos apresentados nos versos anteriores, ou seja, mesmo que ‘o pecado é anterior à lei’, e não é ‘imputado aos homens’, ‘NO ENTANTO…’ (v. 14), a morte dominou (reinou) desde Adão até a chagada da lei (Moisés).

A morte dominou sobre todos os homens independentemente de questões comportamentais ou legais. Mesmo sobre aqueles que não transgrediram uma determinação especifica, como foi o caso de Adão, a morte tinha domínio.

Paulo demonstra a fragilidade da ‘sombra’, ou seja, daquilo que não é a imagem ‘exata das coisas’, pois a condenação se deu na ‘figura daquele que havia de vir’, em Adão. O que esperar da lei, se ela não é a imagem exata da coisas, como foi Adão? ( Hb 10:1 ).

 

15 Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos.

Quando Paulo demonstra que o dom gratuito não é como a ofensa, ele ainda tem em mente o que acabou de declarar no verso anterior: “… a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram a semelhança da transgressão de Adão…”. A morte reinou mesmo sobre aqueles que não pecaram a semelhança da transgressão de Adão, mas não é assim o dom gratuito.

Ou seja, para que o homem tenha acesso ao dom gratuito precisa crer individualmente. Assim é a ofensa: o pecado atingiu a todos os homens indistintamente, mas o dom gratuito não é assim como a ofensa: é pela fé, mediante Jesus Cristo nosso Senhor ( Rm 5:21 ).

Observe que a negativa inicial (Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa), não condiz com a explicação que se segue: ‘Porque, se pela…’, que apresenta uma equiparação entre os efeitos do dom gratuito e da ofensa sobre os homens.

O versículo 15 é semelhante na construção ao versículo 13, onde a frase inicial parece apresentar uma interrogação, onde a ofensa é um contra posto ao dom gratuito “Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa?”.

A divisão em versículos acaba por influenciar a leitura do texto. ‘Mas, não é assim o dom gratuito como a ofensa’ refere-se ao versículo 14, onde temos: “…até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão”, e não ao versículo 16.

Ou seja, o dom gratuito não é como a ofensa, visto que a morte reinou sobre todos os homens, mesmo sobre aqueles que não transgrediram à semelhança de Adão. O dom gratuito não é como a ofensa, porque a vida reina somente sobre aqueles que creem em Cristo.

O contra ponto entre ofensa e dom gratuito esta em que, a ofensa comprometeu toda humanidade, mesmo que não tenham cometido a mesma ofensa de Adão. Já o dom gratuito (vida) é por meio da fé em Cristo, e esta nova condição não passa a todos os outros homens, como foi e é o caso da ofensa, em que a morte passou e continua a passar a todos os homens que vêem ao mundo ( Rm 5:12 e 14).

O versículo introduz nova argumentação: ‘Porque, se pela ofensa, de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos’. Visto que a introdução do versículo remete a uma ‘possível’ pergunta (v. 15), que já havia sido responda anteriormente (v. 14), Paulo apresenta as bases para trazer uma nova questão: Um homem morreu por casa da ofensa (Adão), e muitos morreram (a humanidade). Como a ofensa impôs à morte a muitos, a graça de Deus é mais efetiva, proposta de salvação graciosa a muitos, ou seja, a oferta do dom da graça por meio de Cristo.

 

16 E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação.

Embora a ofensa e o dom gratuito não sejam semelhantes, visto que o dom da graça não passa a todos os homens como é o caso da ofensa, segue-se que, o dom é similar a ofensa na paridade de pessoas que ofenderam e que obedeceram: um só pecou (Adão), e um só obedeceu (Cristo).

A ofensa é proveniente de um só que pecou, e o dom da graça é proveniente de um só que obedeceu. Paulo demonstra que o juízo de Deus já está estabelecido por causa da ofensa de Adão, e isto para a condenação. Porém, o dom de Deus se manifesta sobre os pecadores (muitas ofensas) para justificação.

 

17 Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo.

A graça de Deus se manifesta maravilhosamente abundante, visto que, pela ofensa quem reinou foi a morte sobre os homens, porém, em Cristo quem há de reinar em vida são os homens que receberam por meio da fé o dom da justiça.

A morte reinou sozinha por um único ofensor (Adão), mas os que receberam a abundância da graça (muitos), estes reinarão por um único homem que obedeceu(Jesus).

 

18 Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.

O verso 19 é o motivo da exposição do verso 18. Paulo volta a demonstrar que uma só ofensa trouxe o juízo de Deus sobre todos os homens, e todos foram condenados em Adão.

Conforme os eventos que decorrem da ofensa, assim também, por um só ato de justiça a graça de Deus é concedida a todos os homens, para que estes sejam justificados.

A condenação trouxe a morte como penalidade, e a justificação, por sua vez, a vida. Isto demonstra que a justificação é ato de Deus contrário à condenação. Na condenação o homem adquiriu uma natureza contrária à natureza divina sendo declarado culpável diante de Deus, e na justificação o homem adquire nova natureza herdada em Deus: a natureza divina, sendo declarado justo por causa da nova vida e natureza ( 2Pe 1:4 ).

Temos: Uma ofensa e um ato de justiça; o juízo e a graça; condenação e justificação. Paulo contrapõe estes elementos, sendo que para reverte a ofensa de Adão, Cristo obedeceu. Para livrar o homem do juízo a graça de Deus manifestou-se. O homem foi declarado culpado na condenação, e na justificação é declarado justo.

Tanto na condenação, quanto na justificação a declaração de Deus diz de condições distintas, porém, efetivas. Deus não declara condenado um justo, e nem declara justificado alguém que ainda seja injusto.

 

19 Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.

Paulo apresenta os motivos da exposição anterior: pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos (criados) pecadores, e da mesma forma, pela obediência de Cristo, muitos são feitos (criados) justos.

O sentido da palavra ‘fazer’ deste versículo equivale ao anunciado por João: “Mas a todos os que o receberam, àqueles que creem no seu nome, deu-lhes o poder para serem feitos filhos de Deus…” ( Jo 1:12 ).

O sentido da palavra ‘fazer’ envolve um sentido mais amplo por causa da ação sobrenatural do poder de Deus. Ex: “Nele, digo, em quem também fomos FEITOS herança…” ( Ef 1:11 ); “…pela qual nos fez agradáveis para si no Amado” ( Ef 1:6 ), o que corresponde também a: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

 

20 Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça;

Este versículo complementa o exposto nos versos 12 e 13.

Sabemos que um homem pecou, e pelo pecado a morte passou a todos os homens, o que leva a concluir que todos pecaram, ou que estão em pecado. Daí advém a pergunta: Não existindo lei, o pecado não é imputado? O que a realidade demonstra é que mesmo sem lei, o pecado é imputado, visto que, a morte reinou sobre todos os homens, mesmo sobre os que não transgrediram a semelhança da transgressão de Adão.

O que Paulo quis demonstrar nos versos 12 e 13? Que a lei não veio para justificar o homem, antes ela veio para que a ofensa abundasse. Além da condenação em Adão que já encerrou os homens na morte (porta larga), resta que, a lei demonstra o quanto o homem é pecador, e será réu de juízo no Trono Branco por causa de suas obras reprováveis (caminho espaçoso).

Apesar deste quadro horrível para a humanidade, Paulo demonstra que, onde o pecado abundou, superabundou a graça de Deus. Ou seja, não há a necessidade de se permanecer no pecado para que a graça aumente ( Rm 6:1 ). Ela já se demonstrou abundante por meio de Cristo nosso Senhor. Amém.

 

21 Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.

A graça de Deus é abundante para que, assim como o reino do pecado foi estabelecido através da pena imposta à desobediência, ela também reine pela justiça através da recompensa eterna, que é por intermédio de Cristo: a vida eterna.




Efésios 2 – Vivificados com Cristo

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.


Introdução

Aqueles que já tiveram um contato com o comentário feito ao capítulo um de Efésios terão maior facilidade em assimilar os conceitos que aqui serão apresentados.

O capítulo um da carta de Paulo aos cristãos em Éfeso apresenta várias ideias que são detalhadas a partir do segundo capítulo.

Para início de nosso estudo, faremos um breve resumo do que já estudamos.

  • As cartas de Paulo possuem um público alvo pré-definido: os cristãos. Em decorrência destas características das Epístolas Paulo utiliza várias vezes o pronome “nós”;
  • Logo após a apresentação do remetente e saudações aos destinatários da carta, Paulo passa a agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas;
  • Para descrever a nova condição que os cristãos alcançaram em Cristo Jesus, Paulo utiliza a maioria dos verbos que fazem referência à ação divina no pretérito perfeito: abençoou, elegeu, predestinou, etc. Estes verbos no pretérito apontam para a nova condição dos cristãos no presente: Eles são abençoados, eleitos, predestinados, redimidos, etc “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas…” ( Ef 1:7 ); O verbo ter indica a nova condição dos cristãos no presente, e a desinência do verbo (-mos) indica que o apóstolo inclui-se entre os que alcançaram a redenção;
  • Após agradecer a Deus, Paulo procura conscientizar os Cristãos da nova condição que eles haviam adquiridos em Cristo “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa…” ( Ef 1:13 );
  • Por último, analisemos a oração de Paulo:

a) Paulo não cessava de agradecer a Deus pela vida dos novos cristãos;

b) Paulo passa a orar a Deus para que os olhos do entendimento dos cristãos fossem iluminados para que soubessem:

1. Qual a esperança da vocação divina;

2. Qual a riqueza da glória da herança divina nos santos, e;

3. Qual a suprema grandeza do poder de Deus para com todos.

Sobre o terceiro quesito que Paulo orou a Deus para que os cristãos conhecessem, ele demonstra que Deus manifestou a suprema grandeza do seu poder ressuscitando a Jesus Cristo.

“E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:19 -23).

A grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo. Sobre nós, os que cremos está a operação da força do mesmo poder que atuou sobre Cristo.

O capítulo dois de Efésios é uma continuação precisa dos versículos acima.

Observe:

A sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto naqueles que creem em seu nome “E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder…”, da mesma forma que a sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo Jesus, ressuscitando-o dentre os mortos “… que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus…”.

Deste ponto continua o nosso estudo.

Veremos o capitulo dois de Efésios sob o prisma da declaração de Paulo aos cristãos em Roma:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

Ele enfatiza que o evangelho é poder de Deus para os que creem. Estudaremos a transformação que ocorre naqueles que são agraciados com este poder.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 )

 

 

A Condição sob o Pecado

1 E VOS vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,

Paulo passa a demonstrar aos cristãos que todos foram vivificados por estarem em Cristo Jesus.

A sobre excelente grandeza do poder de Deus vivificou os cristãos “E vos vivificou…”. Antes de demonstrar os elementos pertinentes a operação do poder de Deus Paulo passa a falar da condição anterior a nova vida em Cristo “..estando vós mortos…”.

O que define o homem como morto ou vivo diante de Deus?

É impossível ao homem assumir as duas condições (vivo e morto) ao mesmo tempo diante de Deus. Ou se está morto ou se está vivo.

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.

Quando o homem está morto para Deus ele se encontra na condição de vivo para o mundo.

A condição de vivo para o mundo é em decorrência do pecado que herdamos de Adão e o salmista Davi assim diz: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Sl 51:5 ).

Para o homem passar a viver para Deus necessariamente ele precisa morrer para o mundo. Isto só é possível após o homem ter um encontro com a cruz de Cristo. Após o encontro com Cristo, o homem morre para o mundo e passa a viver para Deus.

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:11 );

“Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 );

“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

Desta forma devemos nos conscientizar que por estarmos vivos para Deus estamos mortos para o mundo. Aqueles que estão vivos para o mundo, estão mortos para Deus.

No passado, todos estavam mortos em ofensas e pecados, e hoje, os cristãos estão vivos em Cristo.

Há uma tênue diferença entre ofensa e pecado. Esta diferença é facilmente percebida ao lermos o capítulo cinco da carta aos Romanos.

Se observarmos as referências bíblicas, veremos que ofensa geralmente aponta para o pecado decorrente de Adão “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação” ( Rm 5:16 ).

A ofensa em Adão (um só que pecou) trouxe juízo e condenação sobre toda a humanidade. Já o dom gratuito de Deus veio de muitas ofensas para a justificação.

A ofensa de Adão deixou a humanidade diante de Deus na condição de mortos. Por quê? Por que a determinação divina a Adão foi clara: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Na determinação divina vem incluso a lei, o juízo e a condenação: Não comerás – a lei; No dia em que dela comerdes – o juízo foi estabelecido no momento que comeram do fruto proibido; certamente morrerás – a sentença é morte.

Em decorrência desta condenação Jesus declara: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ). Se aquele que não crê já está condenado é porquê este homem já passou pelo juízo e condenação divino.

A morte pertinente ao velho homem é em decorrência da queda de Adão e resulta da condenação adquirida no Éden.

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” ( Ef 1:7 );

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

Paulo coloca uma nota explicativa nas frases acima: A redenção pelo sangue é remissão das ofensas e dos pecados!

“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” ( Ef 2:5 ).

Geralmente a palavra ofensa vem em conexão com a condição de morto diante de Deus.

A palavra ‘pecado’ acaba por abranger duas perspectivas: a ofensa em Adão e a conduta do homem: “E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas” ( Cl 2:13 ).

A vivificação em Cristo ocorre quando as ofensas são perdoadas, quando o escrito de dívida que pesa sobre o homem é riscado.

“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” ( Cl 2:14 ).

Só é possível a vivificação em Cristo quando se tem um encontro com a cruz de Cristo. É necessário morrer com Cristo para que o homem possa ressurgir uma nova criatura, livre da ofensa e dos pecados.

“Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” ( 1Jo 1:7 ).

Andar em trevas é o mesmo que não praticar a verdade. A prática da verdade só é possível quando se anda, ou se comporta na luz.

Observe a exposição de João: Quando se diz que possui comunhão com Deus e não pratica a verdade, o homem anda em trevas, ou seja, é mentiroso ( Rm 3:7 ).

‘Mas…’, ou seja, se andar na luz, o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, segue-se que o sangue de Cristo purifica o homem de todo o pecado.

O pecado aqui está no singular. João não faz referência a conduta pecaminosa através da palavra pecado. A conduta pecaminosa é abordada através da expressão “andarmos em trevas”.

Quando se tem comunhão com Deus (se anda na luz), é porque o sangue de Jesus já purificou de todo o pecado (da morte decorrente das nossas ofensas).

Aquele que tem comunhão com Deus anda na luz; quem não tem comunhão, anda em trevas. Este princípio é semelhante ao da árvore: A árvore boa só produz bons frutos e a árvore má só produz frutos segundo a sua espécie: maus.

Se o homem disser que tem comunhão com Deus e anda em trevas, é mentiroso e não faz o que é verdadeiro. Por outro lado, se na luz andar, é o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, fato que leva a estar livre de pecado (nova condição).

Alguém pode pensar que o versículo compõe uma gradação para alcançar a libertação do pecado. Primeiro o homem teria que andar na luz, e; Segundo, ter comunhão com os irmãos, e, somente então, o sangue de Cristo haveria de purificar-lo dos pecados.

A ‘comunhão’ com os irmãos nunca livraria o homem do pecado, antes é a comunhão com Deus, por meio do sangue de Cristo, que torna o homem livre. A comunhão é um dos aspectos da nova vida com Deus, que demonstra efetivamente que o cristão prática a verdade. Para ter comunhão com os irmãos, primeiramente é necessário ter comunhão com Deus ( 1Jo 1:6 -7).

A ofensa de Adão é específica e nenhum outro homem teve ou terá a possibilidade de transgredir a mesma maneira de Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Não existe a possibilidade de alguém pecar à semelhança da transgressão de Adão: Adão antes de pecar era santo, justo e bom. Perfeito diante de Deus. A determinação de não comer da árvore do conhecimento só foi feita a Adão, e não aos seus descendentes; o ambiente onde Adão estava era perfeito, etc.

Pecado não envolve questões relativo a conduta. A ofensa refere-se ao pecado (desobediência) de Adão, e por ele todos os homens pecaram. O sangue de Cristo foi derramado para que a humanidade fosse redimida da ofensa herdada de Adão ( Ef 1:7 ).

Desta forma a palavra ‘pecado’ é genérica e abrange tanto as ofensas quanto o pecado de conduta: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

A remissão dos pecados refere-se a toda transgressão contra Deus. Ou seja, a remissão engloba tanto o pecado em Adão, que subjugou toda a humanidade, quanto às condutas errôneas dos homens que haverão de ser julgadas perante o Grande Trono Branco.

 

Mudou o Calendário para os Cristãos

2 Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência.

Paulo fala de outro tempo. Percebe-se que ele fala do passado dos cristãos pelo fato de o verbo ‘andar’ estar no passado (andastes).

Por que Paulo fala do passado desta maneira: “…noutro tempo…”? Porque os cristãos vivificados nunca viveram o tempo do pecado. Ou seja, os cristãos vivificados, regenerados, que foram criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade nunca viveram sob a égide do pecado.

Como? Noutro tempo existia o velho homem, escravo do pecado e sem Deus no mundo. Este velho homem ao ter um encontro com Cristo morreu. Foi crucificado com Cristo. Ao ressurgir, é criado por Deus um novo homem.

O novo homem vive num novo tempo: tempo de gozo, paz e amizade com Deus.

Observe que Paulo faz referência ao passado como se tal tempo não fosse o passado dos cristãos “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne…” ( Ef 2:11 ).

Da mesma forma que o nascimento de Cristo mudou a contagem do tempo, o nascimento da nova criatura estabelece um novo tempo de vida e paz no Espírito Santo para os que recebem um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

Compare este versículo com o versículo dez.

Os cristãos, quando ainda não eram cristãos, haviam andado segundo o curso deste mundo e segundo o maligno. O curso deste mundo é morte. O príncipe das potestades do ar é o diabo. O espírito que opera nos filhos da desobediência e o engano.

Andar refere-se a conduta. Observe o que Paulo escreveu na carta aos Gálatas: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:25 ). Paulo exorta a todos que nasceram de Deus, e que agora vivem em Deus, a também se comportarem como filhos de Deus.

Para se viver em Espírito, necessário é nascer do Espírito, conforme Jesus diz a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ).

O andar em Espírito diz da conduta da nova criatura: “Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências” ( Rm 13:13 -14).

‘Viver em Espírito’ não é o mesmo que ‘andar em Espírito’. Este não ocorre em consequência daquele. A ordem é dupla: revesti-vos do Senhor e não tenhais cuidado com a carne ( Rm 13:14 ).

Desta maneira podemos verificar que, se o homem viver em Cristo, também precisa andar em Espírito.

O viver em Espírito é o mesmo que ser revestido de Cristo, ou o despojar da carne ( Cl 2:11 ). O andar no Espírito refere-se ao cuidado diário que os cristãos precisam se aplicar para não praticar o que é pertinente à carne. Não é o cuidado que santifica o homem, porém, como o cristão foi santificado por estar em Cristo (nova criatura), esta é a vontade de Deus para a nova condição alcançada em Cristo.

“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 )

Há principados e potestades dos céus e principados e potestades do ar ( Ef 2:2 e Ef 3:10 ). Existem anjos e também existem demônios. Posteriormente aprofundaremos o estudo sobre os seres celestiais.

Os filhos da desobediência são atraídos e engodados pelo engano e este é o espírito que sobre eles opera. Mas, ‘nós’ (os cristãos), os que cremos em Cristo, temos a verdade do evangelho e o Espírito Santo de Deus.

 

3 Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.

Entre os filhos da desobediência, todos os cristãos, tanto judeus quanto gentios, antes andavam no desejo da carne.

Quando Paulo diz: ‘…todos nós também (…) como os outros também…’, ele esta fazendo referência a judeus e gentios. Está é uma das maneiras que Paulo utiliza para incluir os judeus na mesma condição dos gentios antes de terem um encontro com Cristo.

Os Judeus convertidos também andaram nos desejos da carne e eram também filhos da ira como os demais (gentios).

Paulo fala sobre o desejo da carne. Todos os homens antes de terem um encontro com Cristo andam nos desejos da carne. É possível ao homem desvencilhar-se do desejo da carne sem a cruz de Cristo? Não!

O desejo da carne refere-se à ofensa ocorrida em Adão. Só através do novo nascimento o homem torna-se livre do desejo pertinente à carne.

Qual é o desejo da carne? Paulo ao escrever aos Gálatas demonstrou que o desejo da carne é contrário ao desejo do Espírito de Deus “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” Ef 5. 17.

Em que o desejo da carne se opõe ao Espírito? A oposição entre a carne e o Espírito se resume em morte e vida “Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:6 ).

Desta maneira o apóstolo Paulo esclarece o que ocorre quando se está na carne: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ).

Quando se está no Espírito a inclinação do novo homem é amizade com Deus (vida), sendo certo que o novo homem produz exclusivamente fruto para Deus ( Rm 7:4 e Rm 8:7 ).

Só é possível andar no desejo da carne quando se está efetivamente na carne. Andar no desejo da carne só é possível àqueles que, por natureza, são filhos da ira, ou seja, é condição pertinente a todos aqueles que não tiveram um encontro com Cristo.

Todos os cristãos antes de terem um encontro com Cristo andavam no desejo da carne. Agora, em Cristo, não mais se anda no desejo da carne.

“… antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”

“… quando estávamos na carne” é o mesmo que dizer “antes andávamos nos desejos da carne”.

Por estar na carne o homem faz a vontade da carne e dos pensamentos.

Qual a diferença entre desejos da carne, vontade da carne e vontade do pensamento?

 

 

Os desejos da carne

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” ( Mt 7:18 )

Os fariseus faziam boas obras perante os olhos de seus semelhantes, entretanto, por rejeitarem a Cristo, continuavam sob o pecado de Adão e tudo o que produziam era segundo a natureza pecaminosa que possuíam.

Jesus ilustra a condição dos fariseus através da relação fruto – árvore. É pertinente à natureza das árvores boas produzirem frutos bons, e as árvores más produzirem frutos maus.

Por mais que os fariseus procurassem fazer as obras estipuladas na lei, não conseguiam realizar o bem, visto que a natureza deles era má. Eles não haviam nascido de novo, e, por tanto, eram filhos da ira, e tudo o que produziam eram frutos para a morte ( Rm 7:5 ).

Jesus dá o veredicto: “Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo” ( Mt 7:19 ). Não há exceção. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.

Quando Jesus falou a Nicodemos, ele demonstrou que para ver o reino dos céus necessariamente o homem precisa nascer de novo, e neste aspecto também não há exceção.

Os fariseus diziam: “Senhor, Senhor…”, mas, nem todos que assim dizem entrarão no reino dos céus, visto que estes não fazem a vontade de Deus.

Os fariseus não entrariam nos céus por não creem naquele que Deus enviou, pois esta é a vontade do Pai “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós” ( Jo 5:38 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

O que determina a qualidade do fruto é a natureza da árvore. Se alguém crê em Cristo, o seu fruto é bom. Como os fariseus não criam em Cristo, eles permaneciam em seus pecados, e por tanto, os seus frutos eram maus “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ).

João Batista disse aos fariseus que lhes era necessário produzirem frutos dignos de arrependimento. Frutos dignos de arrependimentos são boas obras? Não! As obras que os fariseus faziam eram ‘superiores’ as obras do povo, no entanto, eles não produziam frutos dignos de arrependimento “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ). Quem pensa que basta dizer que tem por pai Abraão que está salvo, não produz fruto digno de arrependimento ( Mt 3:9 ).

João Batista alerta: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ). Todas as árvores que não produzem bom fruto devem ser cortadas e destruídas.

Em contra partida, todos os que têm um encontro com Cristo também morrem para poderem ressurgir. Estes ressurgem e fazem parte da oliveira verdadeira e dão bom fruto “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ).

Os fariseus vieram ao mundo em pecado, e por tanto, andavam no desejo da carne. Eram filhos da ira, filhos da desobediência, filhos de Adão por natureza “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” ( Jo 8:44 ), ou se preferir, filhos do diabo.

Os fariseus por não nascerem de novo andavam segundo o curso deste mundo, ou seja, andavam nos desejos da carne “Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência” ( Ef 2:2 ).

Os fariseus eram árvores não plantadas pelo Pai, como Jesus disse: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

 

 

Fazendo a vontade da carne

“E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos ( 2Tm 2:26 )

As obras da carne são conhecidas: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia…” ( Gl 5:19 ).

A humanidade num todo andava segundo o desejo da carne: mortos em delitos e pecados. As obras da humanidade seguia o curso estipulado pela natureza perniciosa “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 b).

A pratica pecaminosa é uma constante na vida dos homens, pois fazem a vontade da carne. Fazem a vontade da carne, pois ela não é sujeita a lei de Deus “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” ( Rm 8:7 ).

 

Fazendo a vontade do pensamento

Qual era o pensamento dos escribas e fariseus? Eles pensavam que eram filhos de Abraão, e que, portanto, eram filhos de Deus.

E o que João Batista disse? “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Os homens sempre presumem de si mesmo que é preciso fazer algo para alcançar a salvação. O jovem rico é um exemplo: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” ( Mc 10:17 ). O homem sempre presume de si mesmo que para agradar a Deus é necessário fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Este é um dos maiores erros do pensamento humano.

Certa feita Jesus foi interpelado sobre o que deveriam fazer para fazer a obra de Deus: “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Os pensamentos do homem se estruturam na religião, na justiça própria, no conhecimento humano e na consciência.

“Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” ( Rm 2:15 )

Paulo ao escrever aos Romanos demonstrou que a obra que deriva da lei sempre esteve presente no coração dos homens. Os gentios, mesmo não tendo a lei de Moisés, sempre praticaram as obras da lei naturalmente.

Por quê? Porque os homens sempre se guiaram por meio de seus pensamentos tendo como parâmetro a consciência.

Desta maneira os homens seguem o que presumem “Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” ( Pv 14:12 ).

A vontade do homem é guiada pelas obras da lei. Muitos não se salvam por meio da crença em Cristo por se guiarem através da consciência e do pensamento. Estes se sentem seguros por estarem pautados na própria consciência (quer acusando ou defendendo), e continuam perdidos em decorrência da concupiscência do engano.

Aqueles que seguem a vontade do pensamento acabam por se sentirem ‘certinhos’ e com direito a salvação. Estes pensam que a salvação se dá por meio de boas obras e procuram respaldo e orientação em suas consciências. Ledo engano! Caem no engano do diabo.

O desejo da carne é que o homem faça a vontade da carne e do pensamento. Já a vontade do Espírito é que façamos a vontade do Espírito.

A luta entre carne e Espírito é para que não façamos a nossa vontade “…para que não façais o que quereis”, antes, devemos fazer a vontade de Deus, que é crer naquele que Ele enviou, e que nos amemos segundo o seu mandamento.

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ).

Quando o apóstolo Paulo diz: “… na minha carne, não habita bem algum…”, ele faz referência ao desejo da carne. Não há bem algum na natureza decorrente da queda e condenação de Adão. Através da queda de Adão os homens passaram a ser filho da ira, filho da desobediência, e não há bem algum nesta natureza.

Quando Paulo diz: “…com efeito o querer está em mim…”, ele faz referência a vontade do pensamento, o que é pertinente a todos os homens. Todos os homens querem e procuram fazer o bem, mas se não nascerem de novo é impossível fazerem o bem, visto que a carne não é sujeita a lei e Deus.

Quando Paulo diz que: “…não consigo realizar o bem”, ele faz referência a vontade da carne que decorre do desejo da carne.

O pecado de Adão tornou todos os homens escravos do pecado. Por mais que o homem queira realizar o bem, isto só fica na vontade. Por quê? Porque tudo aquilo que o escravo produz, produz para o seu senhor.

Há outra ilustração desta verdade: a árvore má não pode produzir bons frutos, isto porquê bons frutos não derivam de uma má árvore.

“… e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também”

A natureza de filhos da ira foi transmitida a todos os homens por meio da ofensa de Adão. Não podemos nos esquecer que filhos de Adão, filhos da desobediência e filhos da ira fazem referência a transgressão no Éden.

Faz-se necessário observarmos a estrutura de texto que Paulo construiu.

Paulo ora a Deus para que fosse dado aos cristãos: ‘…em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação’;

Segue-se que Deus iluminou os olhos do entendimento dos cristãos, para que:

  • Soubessem qual a esperança da vocação;
  • Quais as riquezas da glória da sua herança, e;
  • Qual a sobre-excelente grandeza do seu poder.

O poder de Deus foi manifesto em Cristo ( Ef 1:20 ), e este mesmo poder vivificou os cristãos ( Ef 2:1 ).

“E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar no lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( Ef 2:6 -7).

“… segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:19 -21).

No capítulo primeiro da carta, Paulo faz referência à operação do poder de Deus sobre aqueles que creram (v. 19). Em seguida Paulo demonstra que o poder de Deus foi manifesto em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos.

É característica própria às cartas de Paulo fazer um adendo contendo aspectos importantes acerca de Cristo.isto.

Na carta aos Efésios Paulo descreve a ação do poder de Deus em estabelecer a glória que Jesus tinha antes de haver mundo ( Ef 1:20 -23; Jo 17:5 ). Na carta aos Colossenses Paulo descreve a pessoa de Cristo, a imagem do Deus invisível ( Cl 1:15 -20).

Em seguida Paulo traz a lembrança dos leitores a condição passada ( Ef 2:1 ). Paulo demonstra que Deus vivificou os cristãos e a condição pecaminosa na qual se encontravam.

Do versículo quatro em diante Paulo passa a descrever o que o poder de Deus fez aos cristãos. Observe que a estrutura de texto que Paulo utiliza para descrever a ação divina na vivificação dos cristãos é semelhante ao que foi realizado em Cristo na ressurreição.

4 Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,

No capítulo anterior o apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus e que este mesmo poder foi manifesto ao ressuscitar Jesus dentre os mortos ( Ef 1:19 -23).

Quando Paulo fala do poder de Deus manifesto em Cristo, ele passa a descrever o que aconteceu com Cristo após a ressurreição.

Logo em seguida, Paulo passa a falar da ação de Deus sobre os cristãos: “Ele vos vivificou…”. Mas, antes de falar da vivificação Paulo faz um adendo e fala da condição do homem no pecado ( Ef 2:1 -3).

Agora, no versículo quatro Paulo volta ao tema que teve início no capítulo um, versículo dezenove: vivificou!

Apesar da condição pecaminosa do homem, Deus é riquíssimo em misericórdia. A expressão ‘riquíssimo em misericórdia’ se deve ao grande amor demonstrado aos homens.

5 Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo ( pela graça sois salvos ),

Observe que a morte decorre da ofensa.

O poder de Deus que foi manifesto em Cristo ressuscitando-o dentre os mortos e por meio deste poder os cristãos creram e foram vivificados juntamente com Cristo.

“E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” ( Ef 1:19 ).

6 E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;

Os cristãos foram ressuscitados (vivificados) juntamente com Cristo “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” ( 1Pe 1:3 ).

Cristo ao ressurgir assentou-se a destra de Deus nos céus e nos fez assentar nos lugares celestiais.

Os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo; é o mesmo que estar assentado nos lugares celestiais ( Ef 1:3 ; Ef 1:20 e Ef 2:6 ).

7 Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.

O objetivo dos cristãos terem ressurgido com Cristo é específico: “… mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( V. 7).

Cristo assentou-se a destra de Deus acima de todo principado, autoridade, poder, domínio e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas no vindouro.

Jesus, além de receber todo domínio e poder, também demonstrará nos séculos vindouros as abundantes riquezas da graça de Deus.

8 Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.

Pela graça somos salvos, por meio da fé.

Paulo retorna ao versículo dezenove do capítulo um: os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus “E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do teu poder” ( Ef 1:19 ).

A salvação é por meio da fé segundo a força do poder de Deus. Como? A salvação é por meio da fé segundo a pregação do evangelho:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

E novamente:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 )

Desta maneira conclui-se que: “A fé vem pelo ouvir…” .

A salvação é graça, pois foi dada aos homens por promessa. Deus prometeu salvação poderosa a todos os homens através do descendente de Abraão

“Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós…” ( Rm 4:16 ; Gl 3:16 ).

Primeiro Deus prometeu a Abraão o descendente e só após ouvir a promessa Abraão creu, sendo a sua fé em Deus imputada como justiça. Foi por graça a promessa. Abraão nada fiz e Deus lhe prometeu o descendente.

A promessa refere-se a graça de Deus dada aos homens por intermédio de Abraão e do descendente, que é Cristo.

“… mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão” ( Gl 3:18 ).

A promessa foi concedida por Deus. A promessa é dom de Deus. Não foi o homem que conquistou a salvação, mas Deus a deu gratuitamente.

9 Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

A salvação vem da promessa e não das obras. Caso a salvação fosse concedida por meio daquilo que produzimos, haveria motivo para alguém se posicionar de maneira altiva: “Eu conquistei a minha salvação. Fiz por merecer”.

10 Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

Não há como a salvação ser pelas obras. Por quê? Porque somos feituras de Deus.

Observe a grandeza da exposição de Paulo: antes de conhecermos a Cristo todas as nossas obras pertencia por direito ao pecado. Éramos escravos do pecado, e por tanto, tudo o que produzíamos pertencia ao pecado.

Por mais que o homem trabalhe e se esforce em fazer boas obras, elas não poderão salvá-lo, visto que tais obras não lhe pertencem.

Um escravo não adquire bens. Um escravo não ajunta fortuna. Como é possível a um escravo adquirir a própria liberdade se ele não possui recursos? Tudo o que se produz pertence ao seu senhor! O escravo é propriedade de seu senhor.

O trabalhador escravo do pecado só tem um salário estipulado: a morte!

A salvação não vem das obras porque há a necessidade de se nascer de novo. O novo homem é criado em Cristo, e só a partir de então é que se produz a boa obra.

A obra realizada por meio da antiga natureza não é contada como algo necessário para a existência da nova criatura. O salário que o pecador recebe é morte.

A vinda a existência da nova criatura fica na pendência única e exclusiva do poder de Deus. Primeiro há a regeneração e após as obras. Não há como inverter os fatores.

Não é por obras, visto que o novo homem é criado em Cristo; todos os que creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus com o objetivo de produzirmos boas obras.

São poucas as citações do antigo testamento, mas Paulo buscou em Isaías esta última declaração:

“SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ).

O profeta vaticinou o recebimento da paz que excede a todo entendimento. Há paz para aqueles que estão em Cristo Jesus, pois estes não necessitam realizar qualquer obra para alcançar a salvação.

Tudo que havia para ser feito foi realizado.

“Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo…” (v. 2);

“Não vem das obras (…) Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus…” (v. 10)

Por ser feitura de Deus, criado em Cristo, houve ‘um’ outro tempo em que o cristão não era feitura de Deus. Neste tempo a nova criatura (os cristãos) nunca existira.

Os versículos seguintes são conclusivos. Todo arcabouço doutrinário demonstrado nos versículos anteriores é utilizado como base para tocar o pensamento dos leitores.

Com base nos elementos doutrinários Paulo conclui: “Portanto…”

Gentios e Judeus

11 Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens;

O apóstolo reiterou aos seus leitores que eles haviam sido vivificados dentre os mortos.

Até o versículo anterior o apóstolo expõe questões de ordem doutrinária. Deste versículo em diante Paulo utiliza-se das questões doutrinárias para tratar do relacionamento entre gentios e judeus que se tornaram cristãos.

Os cristãos gentios não deveriam esquecer que ‘noutro tempo’ eles eram gentios na carne, ou seja, noutro tempo eles não pertenciam a Deus. Ser gentio na carne refere-se à descendência, a origem do indivíduo quando separado da comunidade de Israel.

Deus estabeleceu uma distinção entre gentio e judeu quando escolheu Abraão e lhe fez promessa. Esta distinção tinha a finalidade de preservar a linhagem que introduziria Cristo ao mundo.

Porém os judeus não entenderam este contexto e se achavam melhores que os outros povos simplesmente por terem o rito da circuncisão. Tinham na circuncisão um elemento de salvação, visto que, através dela, avocavam a filiação de Abraão com direito a promessa.

Por isso os judeus nomeavam os gentios de incircuncisos. Os judeus nomeavam os gentios de ‘incircuncisão’ e se auto-intitulavam de ‘circuncisão’.

Com a classificação feita por Paulo entendemos que os judeus são carnais, visto que eles não aceitaram a Cristo “… pelos que na carne …”.

A circuncisão dos judeus é caracterizada por Paulo de: “… feita pela mão dos homens”, para diferenciar da circuncisão realizada por Cristo ( Cl 2:11 ).

12 Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.

Paulo aponta cinco situações diferentes em que se encontravam os gentios:

a) Sem Cristo;

b) Separados da comunidade de Israel;

c) Estranhos às alianças da promessa;

d) Não tendo esperança, e;

e) Sem Deus no mundo.

Neste versículo Paulo refere-se ao ‘outro’ tempo através da afirmação: “naquele tempo”. A qual tempo o apóstolo se refere? A outro tempo, o que é diferente quando se refere ao passado.

Paulo enumera estas cinco situações de maneira peculiar: no tempo em destaque, os cristãos ainda eram incrédulos. As situações enumeradas por Paulo retroagem no tempo: os gentios estavam sem Cristo, condições sanadas quando creram na mensagem do evangelho.

Somado a situação de não terem Cristo, os gentios também estavam à parte da comunidade de Israel como conseqüência de não serem participantes das alianças.

Anterior a tudo isto, os gentios não tinham esperança, visto que a humanidade perdeu o vínculo com Deus em Adão.

13 Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto.

Porém, no tempo presente, o agora, os cristãos estavam em Cristo. O estar em Cristo remete a nova natureza, visto que aqueles que estão em Cristo, são novas criaturas “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

“…vós, que antes estáveis longe…” refere-se aos gentios.

O sangue de Cristo aboliu o pecado que fazia a separação entre Deus e os homens, e a lei, que fazia separação entre judeus e gentios. Desta maneira os gentios se achegaram a Deus.

14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio,

Cristo é a paz de Deus dada aos homens. Os que receberam a paz de Deus passam a fazer parte do grupo que Paulo intitula como sendo ‘nós’. Jesus é a nossa paz, visto que por meio da igreja ele uniu judeus e gentios em um único corpo ( Ef 3:6 ).

15 Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz,

Na carne de Cristo foi desfeita a inimizade entre os homens e Deus. Sabemos que a lei só pode disciplinar a carne, sem valor algum para o espiritual. Conforme esta verdade, Cristo ofereceu a sua carne na morte, e com ela desfez a lei dos mandamentos.

Todos quantos creem em Jesus também se desfazem da carne e tornam-se espirituais, pois se conformam com Cristo na as morte ( Cl 2:11 ), e não mais estão sujeitos a lei, pois ela só tem poder sobre aqueles que vivem na carne.

Ao destruir a barreira de inimizade, Cristo criou em si mesmo dos dois povos um novo homem, e estabeleceu a paz.

16 E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.

Reconciliar ambos, judeus e gentios, com Deus. É o mesmo que matar na cruz as inimizades. A cruz é o elemento reconciliador dos homens com Deus. Por quê? Porque por meio dela o homem morre para o mundo e é criado um novo homem que vive para Deus.

Quando Paulo aponta as inimizades, ele tem em mente a inimizade entre Deus e os homens pecadores, e a inimizade que existia entre judeus e gentios, visto que o véu do templo rasgou-se de alto a baixo.

17 E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto;

Paulo demonstra que Jesus não fez acepção de pessoas ao anunciar o evangelho da paz. Ele anunciou aos gentios e aos judeus a paz que excede todo entendimento.

18 Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.

Por que paz? Porque por Jesus, tanto judeu quanto gentio, tem acesso a Deus em um mesmo Espírito. Alguém poderia contestar onde estaria a paz evangelizada, e Paulo aponta a paz no acesso que ambos, judeus e gentios, têm acesso a Deus.

19 Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus;

Antes, os gentios eram estrangeiros e forasteiros. Em Cristo os gentios tomaram a posição de cidadãos e pertencentes à família de Deus.

20 Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;

O apóstolo aponta a solidez no qual os elementos que foram adquiridos em Cristo sustentam a condição anterior. Cristo é a pedra onde podemos construir um edifício a Deus “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina” ( At 4:11 ); “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

21 No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor.

Em Cristo, a Principal Pedra de Esquina, está sendo construído um só edifício, e o edifício cresce bem ajustado para habitação de Deus ( Is 57:15 ).

22 No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.

Paulo aponta para os gentios demonstrando que eles também estavam incluídos no edifício destinado à morada de Deus em Espírito “…vós juntamente sois edificados…” (judeus e gentios).

O elemento ‘comunhão’ é essencial para a construção deste edifício ( Jo 1:7 ).




Fé: o dom de Deus

Cristo é o dom de Deus, a fé manifesta por meio de quem a graça é revelada e a salvação concedida aos homens ( Gl 3:23 ).


“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 )

Introdução

Da má leitura deste verso surgiu o embate entre calvinistas e arminianistas sobre a natureza da ‘fé’ apresentada pelo apóstolo Paulo como’dom de Deus’, pois os arminianistas alegam que a fé é algo que o homem decide ter com base no livre-arbítrio e os calvinistas contrapõem dizendo que a fé é algo que soberanamente Deus dá ao homem.

Qual dos seguimentos doutrinários está com a razão? Ou será que ambos seguimentos estão equivocados?

 

A Fé

Na carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo nos diz que Cristo é a ‘fé’ que havia de se manifestar, pois ele faz referência à fé como sendo aquele que estava por vir e, que ao seu tempo, veio e se tornou manifesto aos homens “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar (…) Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio” ( Gl 3:23 -25).

Ou seja, o apóstolo apresenta a fé, não como uma disposição interna do indivíduo, tais como: sentimento, talento, prenda, aptidão, faculdade, capacidade ou habilidade, antes a fé é apresentada como um ente personificado, como se lê a seguir: “Trazendo à memória a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti” ( 2Tm 1:5 ).

O apóstolo fez referência à fé como sendo alguém que, primeiramente habitou na avó e na mãe de Timóteo e, concomitantemente, habitava em Timóteo. Ora, o único que possui a prerrogativa de ‘habitar’ os corações dos homens e é onipresente é Deus, pois Ele mesmo disse: “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos” ( Is 57:15 ).

Jesus, ao alertar os discípulos sobre o dever de guardar a sua palavra enfatizou que faria neles morada, de modo que Cristo é a fé que havia de vir, segundo o que foi anunciado pelos profetas, veio na plenitude dos tempos e, que concomitantemente passou a habitava em Lóide, Eunice e Timóteo “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” ( Jo 14:23; Gl 3:23 -25).

Jesus, ao falar com a mulher samaritana, disse que, se ela conhecesse o dom de Deus, identificaria quem estava pedindo água do poço de Jacó ( Jo 4:10 ). Ou seja, o dom de Deus não diz de um sentimento, talento, prenda, aptidão, faculdade, capacidade, habilidade, ou uma pré-disposição ‘específica’ de acreditar em algo.

Quando lemos que ‘O justo viverá da fé’ ( Hb 2:4 ), ou que ‘o homem não viverá de pão, mas de tudo que sai da boca do Senhor viverá o homem’ ( Dt 8:3 ), o termo ‘fé’, e a frase ‘o que procede da boca do Senhor’ referem-se a Cristo, autor e consumador da fé, a ‘fé’ que havia de se manifestar, a ‘palavra de Deus’ que se fez carne e habitou entre os homens ( 1Jo 1:1 -3).

Quando se analisa o capítulo 1 da carta de Paulo aos Romanos, o apóstolo Paulo cita Habacuque 2:8 ao afirmar que o evangelho é ‘poder de Deus’ e ‘justiça de Deus’. Ele é claro ao dizer: não me envergonho do evangelho, pois é poder de Deus para salvação dos que creem e, que no evangelho é que se descobre a justiça de Deus.

No verso 1 do capítulo 1 da carta aos Romanos, o apóstolo destacou que foi chamado por Deus para ser apóstolo e separado para o evangelho, e no verso 5 nomeia o evangelho de ‘fé’, quando diz ‘obediência da fé’, ou seja, obediência do evangelho. No verso 8 o apóstolo utiliza o termo ‘fé’ para fazer referência novamente ao evangelho: em todo mundo é anunciada a vossa fé, pois o que é anunciado diz das boas novas do evangelho.

No verso 9 o apóstolo Paulo diz servir a Deus através do ‘evangelho do seu Filho’, e que desejava ver os cristãos de Roma para poder compartilhar algum ‘dom espiritual’ de modo que fossem confortados. Que dom seria este? A ‘fé’ mutua apresentada no verso 12, pois ele desejava anunciar o evangelho também em Roma (v. 15), a ‘fé’ que é salvação, o dom de Deus, a palavra que se fez carne.

Incorrerá em equivoco qualquer que ler nas Escrituras o termo ‘fé’ levando em conta o significado do termo que há nos dicionários, pois o termo fé quando empregado nas Escrituras (em muitos dos casos) deve ser analisado levando em conta a figura de linguagem utilizada.

Uma das figuras de linguagem utilizada é denominada ‘metonímia’ ou ‘transnominação’, que consiste no emprego de um termo substituindo outro, dada a relação de semelhança ou a possibilidade de associação entre eles. Ex: Quando Judas diz que o cristão deve batalhar pela ‘fé’ que uma vez foi dada aos santos, o termo ‘fé’ substitui a ideia de ‘evangelho’, dada a possibilidade de associação entre os termos, tendo em vista que o evangelho é a causa da crença (fé), e a fé (crença) consequência do evangelho ( Jd 1:3 ).

Em Hebreus 12, verso 2 Cristo é a ‘fé’ que havia de se manifestar, visto que Cristo é o tema central da mensagem do evangelho e, concomitantemente, o autor e consumador da ‘fé’ (evangelho), ou seja, substituir a obra (fé) pelo autor (Cristo), pois Cristo é o autor e consumador da fé ( Hb 12:2 ), é o recurso denominado metonímia pela gramática moderna, empregado pelo apóstolo dos gentios quando redigiu a carta.

 

Sois salvos pela Fé

Quando se lê que ‘pela graça sois salvos’, o interprete deve considerar que a graça é termo utilizado para fazer referência ao favor imerecido e gratuito proveniente da misericórdia de Deus. Porém, é em Cristo que graça de Deus é manifesta “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ); “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” ( Jo 1:17 ); “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” ( Rm 3:24 ).

Através de Cristo, que é a fé manifesta, os homens têm acesso à graça, ao favor imerecido de Deus “Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós” ( Rm 4:16 ).

Por que graça? Porque na graça fica implícita as nuances essenciais ao resgate da humanidade: Cristo como o Verbo de Deus deixou a sua glória para tornar-se homem. A graça diz do fato de Cristo sendo rico ter se feito pobre, para que pela sua pobreza os que creem tornassem ricos “Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis” ( 2Co 8:9 ).

Qual foi a promessa que Abraão teve? A fé que havia de se manifestar, ou seja, o Descendente prometido em quem todas as famílias da terra seriam bem-aventuradas. É graça porque é gratuito, sem qualquer obra proveniente da lei “Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida” ( Rm 4:4 ); “Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” ( Rm 11:6 ).

Para ser salvo gratuitamente por Deus basta crer em Cristo. Quando o homem crê recebe poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ). Crer em Cristo, que é a fé manifesta é ter entrada por Ele à graça de Deus “Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual (fé) estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” ( Rm 5:2 ); “Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos” ( Rm 5:15 ).

Cristo é a palavra de Deus encarnada e tudo o que Cristo anunciou foi o que ouviu do Pai, portanto, a graça é proveniente dos lábios de Cristo, sendo Ele mediador entre Deus e os homens. Cristo é mais formoso do que os filhos dos homens, pois foi declarado Filho de Deus em poder pela ressurreição dentre os mortos “Tu és mais formoso do que os filhos dos homens; a graça se derramou em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre” ( Sl 45:2 ).

O homem é salvo por meio de Cristo, pois não há outro mediador entre Deus e os homens ( 1Tm 2:5 ). Não há outro nome pelo qual devamos ser salvos ( At 4:12 ); “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 ); “E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo” ( ITm 1:14 ), pois só há fé e amor em Jesus Cristo.

 

A Fé é diferente de confiança

O maior problema daqueles que não se apercebem que o termo evangelho muitas vezes é substituído pelos termos: fé, poder, obediência, palavra, cruz de Cristo, palavra da cruz, pregação, etc., é que não conseguem distinguir onde o texto bíblico faz referencia a ‘fé’ como dom de Deus, que é Cristo, e ‘fé’ como crer, acreditar, ter confiança.

Quando lemos: “E muitos mais creram nele, por causa da sua palavra” ( Jo 4:41 ), verifica-se que a palavra de Cristo é o que produz no homem confiança, e não o contrário. Ou seja, muitos creram em Cristo, a fé que foi manifesta ( Gl 3:23), por causa da sua palavra. A palavra foi a causa da crença, pois sendo fiel e verdadeira, a palavra de Cristo contém os elementos essenciais para que se creia n’Ele.

Jesus repreendeu os discípulos que estavam no caminho de Emaús por não crerem nas escrituras: “E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” ( Lc 24:25 ).

De igual modo, quando lemos: “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ), a frase: ‘pela fé em mim’ assume a ideia de confiança em Cristo, o autor e consumador da fé, pois Ele é a fé que se manifestou “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Quando o apóstolo Paulo disse que a ‘fé’ vem pelo ouvir, referia-se à palavra da vida (fé) que justifica, pois só a palavra de Deus dá vida aos homens. Concomitantemente, o ouvir, o atender, o acreditar, o crer só é possível pela palavra de Deus. Sem a palavra de Deus não há em quem o homem confiar para alcançar a salvação.

Os discípulos creram em Cristo quando Ele ressurgiu dentre os mortos, pois lembraram que o que Ele havia dito era conforme o que as Escrituras anunciavam “Quando, pois, ressuscitou dentre os mortos, os seus discípulos lembraram-se de que lhes dissera isto; e creram na Escritura, e na palavra que Jesus tinha dito” ( Jo 2:22 ).

Ou seja, a confiança, a crença que o homem exerce em Deus para a salvação só é possível por Cristo, pois Ele é a fé, de modo que a salvação é de fé (Cristo) em fé (confiança) “E é por Cristo que temos tal confiança em Deus” ( 2Co 3:4 ).

Por crer em Cristo o homem tem ousadia e acesso a Deus “No qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” ( Ef 3:12). A confiança às vezes é denominada fé, sendo que às vezes a esperança e a confiança também são designadas de fé, como se lê: “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 ); “Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim” ( Hb 3:14 ); “Não rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão” ( Hb 10:35 ).

É do contexto em que o termo fé está inserido que se deve extrair o verdadeiro significado da palavra. Por ex: Em Hebreus 10, verso 35, a confiança é o mesmo que fé, evangelho, pois o escritor alerta o cristão para não rejeitar a confiança, visto que ela tem por base Cristo, o ‘princípio da nossa confiança’ ( Hb 10:35 ).

O que determina o significado do termo fé são os termos utilizados como: conservar, princípio, retivermos, etc., o que demonstra que o texto faz referencia a algo imutável, a palavra de Deus, que deve ser conservada, retida e aceita.

Por Cristo, que é a nossa fé, o crente tem ousadia para se apresentar diante de Deus e confiança de que será galardoado, o que só é possível ao homem pela crença em Cristo “No qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” ( Ef 3:12). Ou seja, conserva, reter e não rejeitar a confiança é o mesmo que combater o bom combate e guardar a fé “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” ( 2Tm 4:7 ).

Cristo é a verdade, o caminho e a vida, e somente quem confia n’Ele verá a luz da vida. É a verdade que produz confiança, nunca a confiança do homem produzirá verdade. É a Fé que salva, de modo que resta ao homem confiar na promessa proposta pela fé anunciada.

O termo grego ‘pístis’ traduzido por fé é: 1) fé, crença (estado subjetivo), e: 2) algo que inspira crença, prova.

A fé como estado subjetivo é uma crença própria ao indivíduo que decorre da prova, que na análise bíblica é o evangelho; já a fé que inspira crença, diz do evangelho.

Portanto, a fé opera salvação, mas o crer à parte da fé não. O maior problema quanto à interpretação decorre da associação dos termos ‘crer’ e ter ‘fé’. No N. T. temos o termo grego ‘pistis’, mas no latim não havia um substantivo equivalente a ‘pisits’. Sem um verbo que traduzisse o substantivo grego ‘pistis’, os tradutores passaram a utilizar o verbo “credere”, ou seja “crer”, que possui um radical completamente diferente de ‘pistis’.

Por causa deste problema, nenhum dos idiomas latinos possui um verbo derivado do substantivo grego ‘fides’ (fé), e, inconvenientemente, hoje é utilizado o termo crer. Portanto, pistis (fé) é utilizado para falar da mensagem, do querigma do evangelho, e ‘crer’ (credere) é o termo utilizado para fazer referencia ao assentimento intelectual, exercício da fé (crer) na mensagem (fé).

Portanto, há muitos que creem em anjos céus, inferno, deuses, milagres, etc., porém, não tem fé, pois a fé diz de Cristo, e para recebe-lo é necessário crer que Ele é o Filho de Deus, o Filho de Davi, que foi morto e ressurgiu dentre os mortos pelo poder de Deus.

A faculdade de crer é própria ao ser humano, desde que se lhe apresente algo que inspira crença, prova. É por isso que muitos creem em milagres, estórias, deuses, etc., pois o que lhes foi apresentado tocou-lhes a disposição interna em crer em algo.

Porém, crer para salvação diz de algo específico. Só é salvo, só possui a fé redentora aquele que crê em Cristo conforme diz as escrituras. Não basta crer em milagres e em Deus. Não é crer no improvável ou no impossível. Não é lançar-se no vazio, antes é crer na palavra de Deus conforme o que está escrito ( Mt 4:7 ).

Portanto, a fé é diferente da confiança, visto que, enquanto a Fé foi manifesta e é o firme fundamento das coisas que se esperam, a prova das coisas que se não veem, a ancora firme da alma ( Hb 6:19 ; Hb 11: ), por outro lado a confiança deriva da fé, pois o homem se refugia (crê) na esperança proposta em Cristo (fé) por causa de duas coisas: o conselho e o juramento de Deus ( Hb 6:17 ). Sem a esperança proposta não há refugio, portanto, não há segurança e nem o crer.

 

Pela graça sois salvos

Quando o apóstolo Paulo fala que ‘pela graça sois salvos’, ele fez referência a misericórdia de Deus, que enviou o seu Filho unigênito, que se fez pobre para que o homem por meio d’Ele enriquecesse “Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis” ( 2Co 8:9 ).

Mas, qual o meio de salvação? A Fé que foi manifesta. Ora, se o meio de salvação é a Fé que foi manifesta na plenitude dos tempos, segue-se que não é a crença do homem que salva, antes é Cristo que salva. Se fosse o crer, a crença do homem anularia a palavra que diz: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ).

A Fé manifesta diz do dom de Deus, que é Cristo ( Jo 4:10 ). O mediador entre Deus e os homens, aquele que tornou conhecido aos homens o que é exigido por Deus. Isto não veio do homem, mas de Deus.

Primeiro veio a Fé, de modo que, é por Cristo que o homem passa a confiar em Deus “E é por Cristo que temos tal confiança em Deus” ( 2Co 3:4 ). Ou seja, qualquer confiança em Deus que não for por intermédio do mediador, que é Cristo, é inócua. Muitos creem que Deus existe, que opera milagres, etc., porém, tal crença é inócua, pois só a crença em Cristo, o mediador, é que proporciona salvação aos perdidos.

Primeiro é dada a fé, o que torna possível ao homem crer. Primeiramente o evangelho foi anunciado a Abraão, o que proporcionou elementos para crer na promessa anunciada: em ti serão benditas todas as famílias da terra. Sem a promessa, seria impossível Abraão crer.

De igual modo, sem Cristo, é impossível ao homem exercer fé para ser salvo. Portanto, Cristo é o dom de Deus, e na essência o autor e consumador da fé, e os que creem na fé manifesta são declarados justos, como está escrito: O justo viverá da fé, ou seja, de Cristo, ou de toda palavra que sai da boca de Deus.

Como “autor e consumador” da fé, temos que Ele é a origem, a fonte, o começo, o autor. É aquele que a torna plena, perfeita.

De igual modo, Jesus é a paz e o amor de Deus: “Paz seja com os irmãos, e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo com amor incorruptível” ( Ef 6:23 -24). A paz, o amor e a fé cristã vem “de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo”, pois Cristo é a paz, o amor e a fé de Deus revelado aos homens.

Quando se lê: “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fl 1:29 ), o que foi concedido aos cristãos foi Cristo (em relação a cristo), a fé manifesta, o que permite ao homem crer n’Ele e padecer por Ele. Cristo é o dom concedido, pois o termo “concedido” é ecarisqh, do termo grego charizomai, “dar como um dom”.

 

O pronome neutro no grego

Os gramáticos da língua grega dizem que o pronome neutro não é empregado para fazer referencia a um substantivo feminino. Tal regra aplica-se ao verso a seguir: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” ( Ef 2:8 )? Na frase: ‘e isto não vem de vós, é dom de Deus’, o ‘isto’ refere-se à ‘fé’, ou a ideia de que a salvação é pela graça?

Por causa da frase “e isto não vem de vós, é dom de Deus” dá-se o embate entre calvinistas e arminianstas, pois questionam à qual elemento da frase o termo ‘isto’ (touto – um pronome neutro singular demonstrativo) se refere.

Dentro da língua grega, a regra básica é procurar um pronome neutro singular no contexto imediato como sendo o antecedente do pronome. Mas, na primeira frase de Efésios 2, verso 8 não há nenhum pronome neutro. Por fim, o termo “graça” é singular feminino, “sois salvos” é um particípio masculino e “fé” é singular feminino.

Podemos concluir que ‘touto’ (isto) refere-se a frase anteriores: “porque pela graça sois salvos, através da fé”, pois a redenção do homem advém de Deus por intermédio de Cristo, a Fé manifesta, o dom de Deus.

Cristo é o dom de Deus, a fé manifesta por meio de quem a graça é revelada e a salvação concedida aos homens ( Gl 3:23 ). A fé é “concedida” não como sentimento, talento, prenda, aptidão, faculdade, capacidade ou habilidade infundida no homem a parte do seu intelecto ( Fl 1:29 ), antes apresenta uma promessa firme, pois aponta o Cristo ressurreto como garantia de que, todo os que creem no Filho de Deus como o enviado do Pai, estão salvos.

 

A controvérsia

Em primeiro lugar, vale destacar que os arminianos se equivocaram quando deixaram de fazer distinção entre fé (Cristo, evangelho) e fé (crença). Se consideramos Fé como o evangelho, a Fé que se manifestou, conclui-se que a Fé não é algo que o homem decidiu ter por seu livre arbítrio. Antes é necessário considerar que a Fé é dom, foi revelada, pré-anunciada aos pais, e na plenitude dos tempos manifesta aos homens.

Porém, se entendermos que fé é acreditar, crer, confiar, repousar, descansar, etc., podemos assentir que fé é algo que o homem se pré-dispõe a crer segundo a verdade que lhe foi apresentada.

Quando o apóstolo Paulo diz que no evangelho se descobre a justiça de Deus de fé em fé, temos que considerar a fé manifesta e que é necessário ao homem confiar ( Rm 1:17 ).

É por isso que o apóstolo Paulo citado o profeta Isaías diz: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” ( Rm 10:14 ).

O apóstolo Paulo inequivocamente deixa claro que a disposição em crer é do homem quando frente à mensagem do evangelho, visto que é impossível pregar se não houver uma mensagem, ao mesmo tempo que é impossível ouvir se não há quem pregue. De igual modo, não há como crer naquele de quem não se ouviu, de modo que o homem não invocará aquele em quem não creu.

Portanto, não há que se dizer que a fé, a que os apóstolos denomina de ‘a nossa fé’ ( 1Jo 5:4 ; 1Co 15:14 ), é algo sobrenatural que Deus produz na mente do que creem, pois tal fé é Cristo. Como mensagem, a Fé é poder de Deus, pois o apóstolo Paulo diz que não se envergonhava da sua fé, uma vez que Ele cria em Cristo, a Fé que foi manifesta aos homens ( Rm 1:16 -17).

Teria razão os calvinistas na sua análise teológica? De igual modo não!

Se pensarmos a Fé como sendo o poder de Deus para salvação, certo é que soberanamente Deus providenciou o Cordeiro desde a fundação do mundo, de modo que não há salvação à parte do evangelho ( 1Co 1:18 ). A Fé como mensagem, poder, salvação, foi entregue aos homens soberanamente por Deus, de modo que, ‘… a pregação, não consiste em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder’ ( 1Co 2:4 ).

Como a confiança do homem decorre do que é verdadeiro, firme, reto, fiel, a pregação da mensagem da cruz é essencial para que o homem possa crer “Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” ( 1Co 2:5 ). Se a crença do homem fosse algo imposto soberanamente por Deus na mente dos homens, não haveria a necessidade de a pregação ser firme e fiel, como nos diz o apóstolo dos gentios.

Sem a certeza necessária ninguém planta, ou seja, ninguém semeia um campo se não tiver certeza da colheita. Sem a esperança necessária ninguém investe. Sem a fidelidade indispensável, ninguém casaria. De igual modo, sem o apoio do evangelho, a âncora firme da alma, ninguém crê para a salvação. É por isso que a mensagem da cruz é poder e sabedoria de Deus para salvação dos que creem.

Na condição de poder e sabedoria o evangelho é dom de Deus! Tal graça não advém dos homens, mas de Deus. Mas, como mensagem alcança o intelecto do homem de modo que exerça confiança no Autor da mensagem, por isso a pergunta: “QUEM deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR?” ( Is 53:1 ). Para ter contato com tal poder é necessário que a mensagem seja anunciada, e que aquele que a ouça, creia “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ).

O tema da pregação é Cristo. A pregação revela aos homens o braço do Senhor, o poder que salva aqueles que dão credito. A mensagem da pregação é graça e salvação ofertada soberanamente, porém, o ato de dar crédito é uma questão de foro intimo, nunca uma imposição. A mensagem é proclamada aos mortos, e os que dentre os mortos derem crédito alcançarão vida, pois está escrito “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ); “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 ).

De igual modo, a luz resplandeceu para os que habitavam as regiões da sombra da morte, demonstrando que, apesar de mortos (separados de Deus), os homens podem ouvir e ver “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ). Apesar dos mortos em delitos e pecados não poderem operar a própria salvação, isto não significa que os seus sentidos não estejam aptos a ouvir e ver a salvação do Senhor “Porque em ti está o manancial da vida; na tua luz veremos a luz” ( Sl 36:9 ); “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” ( Jo 1:4 ).

O que se percebe dos posicionamentos calvinista e arminianista quanto a fé é que ambos decorrem de uma má leitura da Bíblia.

Por exemplo: em Hebreus 11, verso 1, o termo ‘fé’ no verso não diz de uma atitude positiva e que envolva a vontade humana em crer, antes diz do evangelho, da promessa, da prova, que é firme e o fundamento. Por outro lado, ‘esperar’ é a atitude humana que envolve a vontade, a convicção, a certeza que é crer “ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” ( Hb 1:11 ).

Porém, ao ler o termo fé no verso, sem qualquer análise, muitos concluem precipitadamente que diz da crença do homem. Como a crença do homem poderia constituir-se o ‘firme fundamento das coisas’ e ‘prova do que não se vê’?




A escravidão da vontade

Analisaremos se é possível escravizar a vontade de um indivíduo, pois na história da humanidade verifica-se que, os escravos eram livres quanto a vontade, mesmo legalmente impossibilitado de ser livre.


A escravidão da vontade

A questão

“Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Cristo para ser salvo de seus pecados”?

Há um problema quanto à formulação da questão acima. A pergunta, diante da verdade do evangelho, é descabida e não comporta uma resposta correta, pois, invariavelmente, todos quantos se propuser a respondê-la, seja com um sim ou um não, serão induzidos a erro.

 

Questão histórica

Diante desta pergunta, tanto a resposta de Lutero quanto a de Erasmo foram equivocadas, pois a pergunta contém um erro na sua formulação que não corresponde à verdade do evangelho.

Uma pergunta que ficou sem resposta da parte de Cristo foi: “O que é a verdade?”. Ora, Jesus havia dito a Pilatos que veio dar testemunho da verdade, e Pilatos, cheio de conhecimento filosófico, questionou de modo sarcástico: Que é a verdade?

Qualquer resposta que Cristo estabelecesse diante da pergunta, seria inócua, pois Cristo estava testemunhando de Deus e Pilatos estava focado em questões de ordem filosóficas. Portanto, a melhor resposta é o silêncio, pois aquele que responde ao tolo segundo a sua tolice é semelhante ao tolo “Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia; para que também não te faças semelhante a ele” ( Pv 26:4 ).

Se Jesus se detivesse e respondesse Pilatos segundo a filosofia, seria tão somente mais um filósofo, o que é diferente de dar testemunho da verdade. Pilatos não achou crime algum em Cristo, porém, a pergunta ‘Que é a verdade’ foi um modo de desprezar a pessoa de Cristo “Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade? E, dizendo isto, tornou a ir ter com os judeus, e disse-lhes: Não acho nele crime algum” ( Jo 18:38 ).

Certa feita Jesus foi abordado por um ‘doutor’ da lei que lhe perguntou: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei?” ( Mt 22:36 ). Jesus respondeu segundo a lei: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento” ( Mt 22:37 -38).

Como se verifica através do testemunho do evangelista Marcos, nada Jesus declarava aos homens a não ser por parábolas “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ), e a resposta de Jesus foi uma parábola, visto que o mestre da lei seguia tais ensinamento, porém, ainda não havia se achegado a Deus com entendimento. A resposta que Jesus deu ao mestre da lei era uma resposta ao ‘tolo’ segundo a sua estultícia “Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus próprios olhos” ( Pv 26:5 ).

Ao interrogar a Cristo, o doutor da lei queria experimentá-lo, porém, a resposta foi a altura da sua tentativa de experimentá-lo. A resposta de Cristo agradou o mestre da lei, o mestre legalista permaneceu em pecado, pois apesar de ‘ver’ não enxergava “Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados” ( Mc 4:12 ); “E um deles, doutor da lei, interrogou-o para o experimentar …” ( Mt 22:35 ).

Mas, analisemos a questão:

“Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Cristo, para ser salvo de seus pecados?”.

  • Observe que a humanidade estava alienada de Deus e que Cristo foi enviado para desfazer a barreira de separação que havia entre Deus e os homens. Observe também que Cristo é o caminho que conduz o homem a Deus ( Mt 7:13 ). Ele é o novo e vivo caminho ( Hb 10:20 ). Ele mesmo disse: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ).

Ou seja, a pergunta deveria ser a seguinte: Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Deus, para ser salvo de seus pecados? Neste caso a resposta é não, pois sem Cristo-homem, que é o medidor entre Deus e os homens, não há como o homem, mesmo que voluntariamente, alcançar, voltar-se para Deus.

Ou seja, o pecado é uma barreira de separação erguida entre Deus e os homens por causa da desobediência de Adão, e Cristo é o mediador entre Deus e os homens, portanto, o homem só pode achegar-se a Deus por intermédio de Cristo. Não é o homem que se achega a Cristo, antes é Ele que veio até os homens anunciando boas novas de salvação. Ele é o advogado, o mediador, a ajuda que o homem necessita para ‘voltar-se’ para Deus.

Um exemplo claro é o povo de Israel, que se escudavam na lei mosaica na tentativa de se voltarem para Deus, porém, não conseguiam, pois lhe faltava o entendimento necessário, que é Cristo ( Rm 10:2 ).

  • O povo de Israel é um exemplo claro de que o homem pode, voluntariamente e até mesmo com a ajuda de outros semelhantes e da lei voltar-se para Deus, mais isto não significa que, por meio da voluntariedade irá alcançá-lo.

Ou seja, a pergunta deveria ser específica, inquirindo se é possível a alguém que busque voltar-se para Deus sem a compreensão (boas novas do reino, evangelho, etc.) fornecida pelo mediador, que é Cristo, alcançar a Deus e ser salvo da condenação do pecado.

A descrição do salmo 49 aplica-se ao povo de Israel, pois eles confiavam em suas riquezas e que poderiam salvar aos seus semelhantes “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas, Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre)” ( Sl 49:6 -8).

Qual era a fazenda de Israel? A sua descendência segundo a carne de Abraão. Esta era a ‘riqueza’ na qual o povo de Israel estava confiado que haviam adquirido a salvação.

    • De que pecado a pergunta faz referência? A condição herdada de Adão, que alienou todos os homens de Deus? Ou diz de questões comportamentais provenientes da moral dogmática platonista e aristotélica introduzida no cristianismo por Santo Agostinho e São Tomas de Aquino? O pecado refere-se aos sete pecados capitais, ou a condição decorrente da queda de Adão?

Ora, se o homem for um seguidor da filosofia de Platão e de Aristóteles, pelo ascetismo conseguirá livrar-se dos ‘pecados’ que foram classificados em capitais, que inicialmente eram oitos. De igual modo, se for um seguidor do budismo, hinduísmo, judaísmo, ver-se-á salvo de tais práticas de cunho moral. Mas, seria isto salvação do pecado? Não! Salvação do pecado não se dá por ascese, antes se dá pelo lavar regenerador: novo nascimento.

A pergunta que cabe uma resposta é a seguinte: Pode um ser humano, voluntariamente e sem a mediação de Cristo, voltar-se para Deus, para ser salvo da condenação herdada de Adão? A resposta é não, pois não há outro nome pelo qual devamos ser salvos! “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ).

 

As bases do argumento de Lutero contra o livre-arbítrio

Lutero tomou como base o verso 18 do capítulo 1 de Romanos para introduzir o seu primeiro argumento: ‘A culpa universal da humanidade prova que o “livre-arbítrio” é falso’.

O que diz Romanos 1, verso 18? Para compreender a abordagem paulina faz-se necessário analisar o contexto onde foi inserido o verso 18 do capítulo 1.

O contexto mostra que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos em Roma, porém, devemos visualizar dois subgrupos de cristãos: os convertidos dentre os gentios e os convertidos dentre os judeus.

Após a apresentação inicial e louvor ao evangelho de Cristo ( Rm 1:1 ao 17), o apóstolo demonstra a condição reprovável dos gentios, exposição que os judeus plenamente acatavam ( Rm 1:18 à 32). Porém, no capítulo 2, verso 1 em diante, o apóstolo Paulo direciona as suas observações de modo a demonstrar que a condição dos judeus em nada é diferente da dos gentios, mesmo sendo descendentes da carne de Abraão e possuidores da lei mosaica.

Ou seja, a base de argumentação do apóstolo fixa-se em demonstrar que, embora os judeus tenham recebido a lei e a circuncisão da carne, em nada eram diferentes dos gentios, e que tudo o que a lei dizia, dizia aos que estavam sob a lei, com um único objetivo: demonstrar ao judeus que, ambos os povos, judeus e gentios, eram escusáveis diante de Deus “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Em suma, segue o exposto pelo apóstolo: “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Analisemos o exposto por Lutero:

“Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus (…) Se todos os homens possuem ‘livre-arbítrio’, ao mesmo tempo que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o ‘livre-arbítrio’ os está conduzindo a uma única direção — da ‘impiedade e da iniquidade’. Portanto, em que o poder do ‘livre-arbítrio’ os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o ‘livre-arbítrio’, ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus Lutero, Martinho, versão condensada e de fácil leitura do clássico de Martinho Lutero, A Escravidão da Vontade, publicada inicialmente em 1525. Preparado por Clifford Pond Editor Geral: J.K. Davies, B.D., Th.D. EDITORA FIEL da MISSÃO EVANGÉLICA LITERÁRIA (grifo nosso).

Há várias imprecisões no parágrafo acima que invalida a proposição inicial. Vejamos:

a) Todos os homens merecem ser castigados por Deus– A Bíblia demonstra que todos os homens estão destituídos da glória de Deus, ou seja, todos formam julgados e apenados com a morte. Todos foram julgados e apenados, e do julgamento e condenação adveio a pena: perdição “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” ( Rm 5:18 ). O castigo não será impingido no futuro, antes já houve um juízo e já foi atribuída uma pena: condenação, morte, alienação. A asserção ‘os homens (…) merecem ser castigados por Deus’ é descabida, pois um só pecou e todos pecaram. Um só morreu e todos morreram, ou seja independente de merecimento ou não, todos quanto nasceram segundo a carne de Adão já foram apenados com a separação de Deus: morte ( 1Co 15:21 – 22).

b) O ‘livre-arbítrio’ os está conduzindo a uma única direção – A Bíblia demonstra que todos os homens, exceto Cristo, entraram por uma porta larga (Adão), e estão em um caminho largo que os conduz à perdição, ou seja, não é o ‘livre-arbítrio’ que conduz os homens a perdição, antes é o caminho em que estão, após terem entrado pela porta larga, que os conduz à perdição ( Mt 7:13 -14);

c) Em que o poder do ‘livre-arbítrio’ os está ajudando a fazer o que é certo – Ora, a salvação não se vincula ao que é certo ou errado, antes em aceitar a verdade do evangelho. Tudo que o homem faz pode ser certo e errado, no entanto, seus erros e acertos não contribui para salvação ou contribuíram para a perdição, pois a perdição vincula-se ao caminho em que o homem está após ser gerado segundo a carne; os homens se perderam por nascerem segundo a carne de Adão, e não por fazerem coisas erradas;

d) O ‘livre-arbítrio’ não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação – Nada ajuda o homem a atingir a salvação, e o livre arbítrio também não. Primeiro porque o único que se perdeu em decorrência de exercer o livre-arbítrio foi Adão e, em segundo lugar, todos os seus descendentes foram condenados a perdição sem a necessidade de exercerem o livre-arbítrio. O único que conduz os homens a Deus é Cristo, a porta e o caminho estreito que conduz o homem a vida;

e) O ‘livre arbítrio’ (…) os deixa sob a ira de Deus – Estar ou não sob a ira de Deus não é uma questão de ‘livre-arbítrio’, antes uma questão de filiação. Todos os filhos da desobediência são filhos da ira, ou seja, os filhos da ofensa de Adão é o que estabeleceu a ira de Deus sobre os homens. Havia um livre-arbítrio capaz de livrar o homem da condenação, o que Adão possuía antes da ofensa. Após o julgamento e a condenação, livrar-se da ira não é uma questão de livre-arbítrio, mas de mediador.

Quando o apóstolo Paulo diz no verso 18, do capítulo um que a ira de Deus se manifesta sobre a impiedade e injustiça dos homens que detém a verdade em injustiça, ele faz referencia a todos os homens que não conhecem o evangelho de Cristo, sendo que os cristãos, já não estão sob a ira, visto que são um com a Verdade “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça ( Rm 1:18 ).

Porém, a ira de Deus ainda não é manifesta aos homens, pois os homens desconhecem que estão sob a condenação de Adão. Somente por meio do evangelho é possível o homem entender que o juízo já foi estabelecido por Deus no Éden. Mas, há um dia reservado para que se dê a conhecer aos homens o juízo de Deus, que será também o dia da ira, quando os homens descobrirão que estão sob condenação (morte) e, que cada um será retribuído segundo as suas obras “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” ( Rm 2:5 ).

Portanto, o julgamento que condenou Adão e todos os seus descendentes já ocorreu no Éden. Haverá um julgamento futuro, mas refere-se as obras dos homens ímpios, que de nada lhes aproveitarão, visto que estão condenados pela ofensa de Adão.

No capítulo um de Romanos, a partir do verso 18, o apóstolo Paulo demonstra que todos os homens estão sob condenação, tanto judeus quanto gentios. No verso 16 ele declara que o evangelho é poder de Deus, salvação a todos os que creem. Isso significa que, embora os judeus estivessem voltados a buscar a Deus, não teriam êxito, pois buscavam sem entendimento ( Rm 10:2 ).

Eles tinham forças, vontade, zelo, cuidado, etc., para voltar-se para Deus, porém, a despeito de tudo, em nada eram diferente dos gentios, ou seja, o apóstolo Paulo não condenava o ‘livre-arbítrio’ ou a falta de voluntariedade em buscarem a Deus, antes condenava a falta de ‘conhecimento’ ( Mc 12:24 ). Sobre este quesito, o apóstolo Paulo dá testemunho que, como judeu, o seu homem interior tinha prazer na lei de Deus ( Rm 7:22 ), e queria fazer o bem ( Rm 7:21 ), demonstrando a sua livre-vontade e voluntariedade, porém, embora a vontade fosse livre a escolha não é.

O próprio conceito de ‘livre-arbítrio’ que Lutero debate é descabido. Por quê? Porque em todos os tempos o homem teve somente livre-vontade, e a escolha nunca foi livre, pois se restringe ao que lhe é oferecido. Através da vontade é possível desejar tudo, até o impossível, porém, a escolha limita-se a um conjunto pré-definido.

Adão, antes da queda, possuía livre-vontade, pois podia desejar comer de todas as árvores do jardim, inclusive a do conhecimento do bem e do mal, porém, a escolha era restrita ao número de árvores disponíveis no jardim.

Com a ofensa, ele permaneceu com a livre-vontade, porém, a livre-escolha de permanecer livre da morte (condenação) foi-lhe retirada quando lhe foi imposta a pena: separação de Deus. A vontade de salvar-se surgiu, porém, foi posto um anjo com uma espada protegendo a entrada no jardim para que Adão não voltasse e comesse do fruto da árvore da vida. Isto indica que, apesar do pecado, a vontade de Adão era livre, o que motivou Deus colocar um anjo para proteger a árvore da vida “E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida” ( Gn 3:24 ).

Se considerarmos que ‘livre-arbítrio’ refere-se à vontade, temos que o homem possui livre-arbítrio. Se considerarmos que ‘livre-arbítrio’ refere-se à escolha, temos que o homem não possui livre-arbítrio. Mas, o que demonstra Gêneses três, verso vinte e quatro, é que o homem tinha o desejo livre para voltar e querer livrar-se da morte, porém, o caminho de acesso a Deus não era esse.

Portanto, para as considerações ulteriores, sempre falaremos de livre-vontade e de livre-escolha.

Quando se lê: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus” ( Rm 3:10 -11), temos que pensar nos judeus, que apesar de entenderem que buscavam a Deus, as Escrituras depunham contra eles, visto que ela diz que ‘não há um justo’ e que ‘não há ninguém que busque a Deus’, pois tudo o que a lei dizia, dizia aos que estavam sob ela, e não aos gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Vale salientar o contexto do Salmo 53 que o apóstolo Paulo cita aos judeus convertidos que estavam em Roma: “Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:4 ). Quem são os obreiros da iniquidade? Quem comia o povo de Deus como se fosse pão? Não é uma referência aos lideres de Israel? Claro que sim, pois o que lhes faltava era o conhecimento ( Rm 10:2 ), portanto, não invocavam a Deus, se invocassem, por certo que seriam salvos “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

A conversão de qualquer pessoa acontece quando Deus envia o ‘mediador’, que é Cristo-homem, para que tudo que ele revele acerca de Deus possa desfazer a ignorância. A ignorância só é debelada quando é revelada a verdade do evangelho, que é poder de Deus. Sem o Mediador (Cristo) e o conhecimento (evangelho) que Ele apresenta, ninguém jamais poderia ser salvo.

Ninguém, durante toda a história humana, conceberia por si mesmo a realidade da ira de Deus sobre os filhos da ira, conforme nos ensina nas Escrituras: de que todos os homens entraram por uma porta larga e que estão sendo conduzidos à perdição.

Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com Deus por intermédio da vida e da obra de um Salvador singular, o Mediador entre Deus e os homens, pois somente através de um mediador é que os homens são conduzidos a Deus através de um novo e vivo caminho.

O evangelho do mediador foi primeiramente anunciado a Abraão “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ), mas os descendentes da carne de Abraão passaram a confiar na carne de Abraão, e não tiveram a mesma confiança (fé) que o crente Abraão, que teve por base da confiança o evangelho que lhe foi anunciado.

Confiar o povo judeu confiava, porém, não confiava que a salvação viria do Descendente, antes confiava que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão. A confiança (fé) deles não lhes aproveitou, pois ela não repousava sobre o Descendente, antes na carne de Abraão. Portanto, a salvação é pela fé, mas a confiança (fé) na fé que havia de se manifestar “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Deus tomou a iniciativa de revelar-se aos homens, e assim o fez a Abraão. Ora, como o evangelho foi por revelação, segue-se que jamais o homem descobriria por si só como se salvar. E a revelação de Deus está no Mediador, o Descendente, alguém que o homem não poderia providenciar.

Aproximar-se de Deus não tem relação com o ‘livre-arbítrio’, pois os judeus procuravam aproximarem-se de Deus, o que indica que possuíam livre-vontade, porém, a escolha que fizeram em confiar da carne e na lei fez com que rejeitassem o Mediador estabelecido por Deus.

Por fim, a conclusão de Lutero não é acertada:

“Ora, se todos os homens são possuidores de ‘livre-arbítrio’, e todos os homens são culpados e estão condenados, então esse suposto ‘livre-arbítrio’ é impotente para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte, a vontade dos homens, afinal, não é livre” Idem.

A vontade do homem é livre, pois se assim não fosse, Deus não havia posto um querubim na entrada do jardim para impedi-lo de comer da árvore da vida. A vontade do homem é livre, pois os judeus buscavam a Deus, porém, sem conhecimento, e não alcançaram a salvação por rejeitarem a revelação de Deus. A vontade do homem é livre, porém, não há uma escolha de salvação fora da que Deus propôs em Cristo.

O segundo argumento de Lutero foi: “O domínio universal do pecado prova que o ‘livre-arbítrio’ é falso”.

A relação que Lutero procurou estabelecer entre ‘domínio universal do pecado’ e ‘livre-arbítrio’ não é prova.

O domínio universal do pecado prova, diferente do proposto por Lutero, que todos entraram neste mundo por Adão, evento que os sujeitou ao pecado, o que em nada depõe contra a livre-vontade daqueles que estão sendo conduzidos pelo caminho largo à perdição.

O que o apóstolo Paulo diz em Romanos 3, verso 9: “Que se conclui? Temos nós [os judeus] qualquer vantagem [sobre os gentios]? não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado”, tem o fito de demonstrar aos cristãos convertidos dentre os judeus que todos os homens, sem exceção, estão sob condenação.

A condenação da humanidade é uma condição semelhante à condição dos escravos: os escravos possuíam a ‘livre-vontade’ de serem livres, porém, a escolha não lhes era possível. A colocação de Lutero a seguir carece ser revista:

“Não somente são todos os homens, sem qualquer exceção, considerados culpados à vista de Deus, como também são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados” Idem.

Os homens não são ‘considerados’ culpados, como disse Lutero, antes já foram julgados e apenados e estão sob condenação. Estar sob condenação é totalmente diferente de ser considerado culpado. A concepção de que ser escravo do pecado é o que torna o homem culpado é distorcida, visto que, o homem está sob condenação, uma condição que é ilustrada como escravidão ao pecado.

O fato de ser evidente que sem Deus não há quem faça o bem “…torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem” (Idem), não guarda relação com a incapacidade de se livrar da servidão ao pecado. Primeiro porque não é a prática do bem que tornar o homem livre do pecado, antes a liberdade do pecado só é possível através do evangelho como poder de Deus, a fé manifesta aos homens. Em segundo lugar, a prática do bem só é possível aos que estão em Deus, portanto, se o homem não está em Deus não há o que se falar em ‘poder que o capacite’.

Fazer o bem é condição ‘sine qua non’ dos servos da justiça, assim como é condição dos servos do pecado fazer o mal. O fazer o bem e o mal decorre da natureza, e além do mais, o bem e o mau em tela não guarda relação com questões de ordem moral, antes decorre da essência do ser. Assim como a árvore boa produz fruto bom, os servos da justiça praticam a justiça e o que é bom.

A escravidão ao pecado é universal porque todos os homens foram gerados de Adão, não importando se são retos ou melhores que seus semelhantes. Como já dissemos, ao nascer o homem entrou por uma porta larga que deu acesso a um caminho largo que conduz a perdição. Neste caminho não importa a razão, a vontade, a bondade, pois o que conduz a perdição é o caminho e não as escolhas do homem.

Ao fazer referência à passagem de Romanos 3, verso 10 a 12, Lutero diz que o significado do texto é perfeitamente claro, porém, fez uma leitura equivocado. Ora, se Deus é conhecido através da razão e vontade do homem, por que a natureza do homem deve ser levada em conta?

“O significado dessas palavras é perfeitamente claro. Deus é conhecido através da razão e da vontade humanas. Porém, nenhum ser humano, somente por sua natureza, conhece a Deus. Precisamos concluir, por conseguinte, que a vontade humana está corrompida e que o homem é totalmente incapaz, por si mesmo, de conhecer a Deus ou de agradá-Lo” Idem.

Lutero parece amalgamar razão e vontade com natureza. A natureza humana é imutável do ponto de vista dos homens, pois jamais um homem pode deixar de ser homem para ser anjo, ou até mesmo ser outro homem. Mas, o mesmo não se pode dizer da razão e da vontade, que são entes maleáveis e moldáveis.

Quando Deus se revelou na pessoa de Cristo, o Verbo encarnado, Ele deu a conhecer a verdade do evangelho que, quando compreendido muda a razão e a vontade do homem. A esta mudança dá se o nome de ‘arrependimento’ (metanóia), mudança de concepção, mudança de pensamento. Porém, a mudança de natureza só se dá através da regeneração, que é algo que somente Deus pode realizar, momento em que o homem passa a ‘conhecer’ (ter comunhão intima) a Deus, pois tornam-se um só corpo.

A ‘metanóia’ é transformação da razão, porém, conhecer a Deus não se dá através da razão, antes só é possível conhecer a Deus quando o homem torna-se um só corpo com o Filho. Conhecer a Deus é tornar-se um com Ele, portanto, é ser participante da natureza divina ( Jo 17:21 ; 2Pe 1:4 ).

Continua…