Salmo 17 – Proteção contra os inimigos

O Senhor Jesus Cristo é o que anda em sinceridade, pratica a justiça e do coração fala a verdade (Sl 15:2). Ele também é descrito por Isaías como o que fala com retidão: “O que anda em justiça e o que fala com retidão; o que rejeita o ganho da opressão, o que sacode das suas mãos todo o presente; o que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de derramamento de sangue e fecha os seus olhos para não ver o mal” (Is 33:15).


SALMO 17 – Proteção contra os inimigos​

Introdução

A grande maioria dos leitores do Livro dos Salmos ainda veem os Salmos como expressão decorrente do estado emocional dos salmistas. Corroboram com tal pensamento, os títulos introdutórios que muitas Bíblias apresentam e, assim, constituem um obstáculo à boa leitura e compreensão dos Salmos. A interposição de títulos introdutórios, que seria auxilio ao leitor no momento de localizar uma passagem bíblica, serve de obstáculo à compreensão do texto, pois impõem ideias e conceitos divorciados da verdade que o Salmo contém.

Em uma Bíblia na língua portuguesa, encontramos o seguinte título no Salmo 17:

“Davi pede a Deus que o proteja contra os seus inimigos. Davi confia na sua inocência e na justiça de Deus” Oração de Davi.

Além do título, acresce a informação: Oração de Davi.

Seria isso verdadeiro?

Davi mesmo disse que o Espírito de Deus falava por ele, ou seja, que a palavra de Deus estava em sua boca (2Sm 23:2). Os apóstolos nomeavam o salmista Davi de profeta e não de compositor, musicista, levita, etc. (At 2:30).

Jesus, ao fazer referência a um Salmo, nomeou o Salmo de lei e, em outro lugar, disse que tudo o que d’Ele estava escrito na Lei, nos Salmos e nos Profetas, convinha que se cumprisse, evidenciando qual o ‘status’ dos Salmos: profecias “Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses?” (Jo 10:34); “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse, estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lc 24:44).

O rei Davi, quando separou os capitães dos seus exércitos, deu-lhes a missão de profetizarem ao som de instrumentos musicais, portanto, os Salmos são profecias em forma de poesia e canto.

“E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, de Hemã e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério: Dos filhos de Asafe: Zacur, José, Netanias, e Asarela, filhos de Asafe; a cargo de Asafe, que profetizava debaixo das ordens do rei Davi. Quanto a Jedutum, os filhos: Gedalias, Zeri, Jesaías, Hasabias, e Matitias, seis, a cargo de seu pai, Jedutum, o qual profetizava com a harpa, louvando e dando graças ao SENHOR” (1Cr 25:1-3).

A estrutura da poesia hebraica, na qual os Salmos foram produzidos, facilita a exposição de ideias e possui recursos de cunho lógico que impedem alguém de má índole de transtornar a mensagem.

Os Salmistas não buscavam tocar a emoção dos ouvintes, através de ritmos, rimas, melodia, harmonia, etc.

A proposta dos Salmos é tocar o entendimento dos ouvintes, de modo que pudessem conhecer o seu Deus e, por isso, utilizavam o paralelismo[1] para compor ou evidenciar uma ideia que, geralmente, constitui uma instrução, uma profecia, uma repreensão ou um exemplo ao povo de Israel.

 

A Justiça

1 OUVE, SENHOR, a justiça; atende ao meu clamor; dá ouvidos à minha oração, que não é feita com lábios enganosos. 2 Saia a minha sentença de diante do teu rosto; atendam os teus olhos à razão.

O Salmo tem início com um pedido da ‘justiça’ e não do rei Davi. Se o Salmo fosse um pedido, um rogo de Davi, por certo ele diria: – “Ouve, ó Senhor, o teu servo”, no entanto, temos um pedido da própria ‘justiça’.

Não estamos diante de uma oração de Davi mas, sim, diante de uma profecia que aponta para a justiça personificada. Neste verso, a justiça não trata de um conceito abstrato, que deriva de uma perspectiva humana mas, sim, à justiça que vem de Deus, segundo o que profetizou Isaías:

“ASSIM diz o SENHOR: Guardai o juízo e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir e a minha justiça, para se manifestar (Is 56:1)

Da justiça que vem por meio do evangelho foi profetizado:

“Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem tampouco está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, para que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:12-14); “Mas a justiça, que é pela fé, diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo)” (Rm 10:6).

O Senhor Jesus, para os que creem, foi feito justiça: “Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1Co 1:30).

O Senhor Jesus, ao interpretar o Salmo 110, demonstra que Davi estava profetizando acerca do Filho do homem, quando disse: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés?” (Sl 110:1; Mt 22:43-44).

Davi, no Salmo 17, registra, em espírito, o clamor do Cristo, quando manifesto aos homens. Neste Salmo a justiça diz do Renovo justo, o Filho de Davi, que terá o nome: ‘O Senhor, Nossa Justiça’!

“Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” (Jr 23:5-6).

Algumas traduções vertem o Salmo 17, verso 1 desta forma: ‘Ouve, ó Senhor, a minha causa justa’, o que remete o leitor à pessoa do rei Davi, sendo que o que está sendo dito refere-se ao Descendente prometido a Davi.

Certo homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, quando leu uma profecia no Livro de Isaías, tinha a seguinte dúvida: – “Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” (At 8:34). O eunuco lia: “Foi levado como a ovelha para o matadouro; e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim não abriu a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra” (At 8:32-33) e não conseguia entender quem ‘foi levado como a ovelha para o matadouro’. Seria o profeta Isaías que estava sendo levado? Ou seria alguma outra pessoa?

De quem é a boca que fez a oração deste Salmo, cujos lábios não são enganosos? O único homem que nunca houve engano em sua boca foi Jesus, portanto, claro está que este clamor não diz do salmista Davi “E puseram a sua sepultura com os ímpios e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” (Is 53:9); “O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça e conforme a integridade que há em mim” (Sl 7:8).

O Salmo 15 também faz referência a Cristo como Aquele que anda em sinceridade, pratica a justiça e do coração fala a verdade (Sl 15:2). Ele também é descrito por Isaías como o que fala com retidão: “O que anda em justiça e o que fala com retidão; o que rejeita o ganho da opressão, o que sacode das suas mãos todo o presente; o que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de derramamento de sangue e fecha os seus olhos para não ver o mal” (Is 33:15).

Se dentre os homens não há ninguém que faça o bem; Se todos juntamente se desviaram e se fizeram imundos (Sl 14:1-3); Se os ímpios falam mentiras desde que nascem (Sl 58:3), certo é que ninguém havia entre os filhos dos homens tivesse os lábios puros, pois como todos foram formados em iniquidades (Sl 51:5), todos herdaram coração imundo.

Qualquer homem, em sã consciência, e conhecedor da sua condição miserável, clamará por misericórdia, e não por uma sentença segundo a sua justiça, equidade, retidão (מֵישָׁרִים)[2] “JULGA-ME, SENHOR, pois tenho andado em minha sinceridade; tenho confiado também no SENHOR; não vacilarei” (Sl 26:1; Sl 7:3-5).

Davi não possuía esses predicativos, antes quando errou confiou na misericórdia de Deus, atitude que por si só demonstra que jamais Davi pleitearia algo a Deus com base em sua retidão e justiça “Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu” (2Sm 24:14).

Há um titulo introdutório nas Bíblias para o Salmo 26 que diz: “Davi recorre a Deus, confiando na sua própria integridade”. Homem algum pode recorrer a Deus confiado em sua própria integridade[3], pois diante de Deus não há homem que seja justo, nem mesmo Davi “Na verdade que não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque” (Ec 7:20).

 

Retidão​

3 Provaste o meu coração; visitaste-me de noite; examinaste-me e nada achaste; propus que a minha boca não transgredirá.

Jesus Cristo-homem foi provado, examinado minuciosamente por Deus, e restou confirmado que Ele andou integramente diante de Deus, pois confiou em Deus sem vacilar “JULGA-ME, SENHOR, pois tenho andado em minha sinceridade; tenho confiado também no SENHOR; não vacilarei. Examina-me, SENHOR, e prova-me; esquadrinha os meus rins e o meu coração” (Sl 26:1-2; Sl 139:1 3 e 23; Sl 7:9).

Jesus esteve ao abrigo da sombra protetora de Deus, vez que, a fidelidade de Deus expressa em sua palavra, era como escudo e broquel “Louvarei ao SENHOR que me aconselhou; até o meu coração me ensina de noite” (Sl 16:7; Sl 63:7).

Continuamente, Cristo esteve sob proteção, ao abrigo da sombra das asas de Deus, pois tinha o ‘amor’ de Deus diante dos seus olhos, ou seja, meditava na palavra de Deus, continuamente (de dia e de noite), deste modo, nada de pecaminoso foi achado n’Ele “O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita” (Sl 121:5); “Guarda-me como à menina do olho; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas” (Sl 17:8; Sl 91:1; Sl 26:3; Sl 1:2).

Este é o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho, Jesus Cristo: “E puseram a sua sepultura com os ímpios e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” (Is 53:9); “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” (1Pd 2:22).

 

4 Quanto ao trato dos homens, pela palavra dos teus lábios me guardei das veredas do destruidor. 5 Dirige os meus passos nos teus caminhos, para que as minhas pegadas não vacilem.

Ao se pautar pelas palavras de Deus, Jesus permaneceu longe dos caminhos dos transgressores[4] (destruidor) (Sl 1:1; Sl 26:2 -6). Como Servo obediente, Jesus se deixou guiar pela lei do Senhor, de modo que os seus pés não vacilaram: “Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei” (Sl 16:8; Sl 121:3 e 5).

 

6 Eu te invoquei, ó Deus, pois me queres ouvir; inclina para mim os teus ouvidos, e escuta as minhas palavras. 7 Faze maravilhosas as tuas beneficências, ó tu que livras aqueles que em ti confiam dos que se levantam contra a tua destra.

Pela confiança de que o Pai havia de respondê-Lo, é que o Filho invocava (Jo 11:42). E pelo que o Filho clama? Para que Deus estenda as suas misericórdias, ou seja, faça maravilhosa as suas beneficências. Como? Salvando os que buscam refugio em Deus através da sua Destra, ou seja, através de Cristo.

Cristo é a Destra do Senhor desnudada perante os olhos de todos os povos: “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10). Cristo é a firme beneficência prometida a Davi e salvação para todos quantos O invocar: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3). Cristo é o homem que, após ser glorificado, assentou-se à destra da Majestade nas alturas: “Seja a tua mão sobre o homem da tua destra, sobre o filho do homem, que fortificaste para ti” (Sl 80:17).

Mas, apesar das beneficências prometidas por Deus em Cristo, haveria homens ímpios que se levantariam contra a Destra do Altíssimo.

 

Adversários

8 Guarda-me como à menina do olho; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas, 9 Dos ímpios que me oprimem, dos meus inimigos mortais que me andam cercando. 10 Na sua gordura se encerram, com a boca falam soberbamente. 11 Têm-nos cercado agora os nossos passos; e baixaram os seus olhos para a terra;12 Parecem-se com o leão que deseja arrebatar a sua presa, e com o leãozinho que se põe em esconderijos.

Por causa da oposição dos pecadores, nesta previsão, Jesus roga a Deus que O proteja como os homens protegem as meninas dos olhos. Cristo espera em Deus que O proteja debaixo de suas asas (Sl 20:6).

O pedido é para que Deus livrasse o Cristo dos ímpios, homens que O oprimiriam. Estes homens seriam seus inimigos mortais, pois procurariam saqueá-Lo e, por fim, apoderarem-se da sua alma.

Quem eram esses inimigos de Jesus? Os escribas, fariseus, sacerdotes, príncipes, etc., homens que honravam a Deus com a boca, porém, os seus corações estavam longe de Deus “Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15:8).

Como estava predito: “Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Mq 7:6), Jesus veio para os que eram seus e os seus não O receberam (Jo 1:12) e foi rejeitado pelos seus concidadãos.

Os líderes da religião se colocavam à espreita buscando pegar Jesus nalguma contradição: “E, observando-o, mandaram espias, que se fingissem justos, para o apanharem nalguma palavra e o entregarem à jurisdição e poder do presidente” (Lc 20:20; Lc 10:25; Mt 22:15), e assim cumpriu-se neles o provérbio que diz: “No entanto estes armam ciladas contra o seu próprio sangue; e espreitam suas próprias vidas” (Pv 1:18).

O ‘laço do passarinheiro’ predito no Salmo 91 refere-se às armadilhas dos escribas e fariseus que buscavam pegar Jesus nalguma contradição (Sl 91:3). Homens, cujas línguas comparam-se a da serpente, pois veneno (engano) procedem dos seus lábios (Sl 140:3). Lábios mentirosos que se propuseram a desviar o Cristo das veredas de justiça estabelecida pelo Pai. Através de laços e cordas (armadilhas), estendem uma rede, na intenção de terem do que acusar o Cristo (Sl 140:4-5).

Sobre esses homens profetizou Jeremias:

“Porque ímpios se acham entre o meu povo; andam espiando, como quem arma laços; põem armadilhas, com que prendem os homens. Como uma gaiola está cheia de pássaros, assim, as suas casas estão cheias de engano; por isso, se engrandeceram e enriqueceram” (Jr 5:26-27).

Jeremias protesta contra os filhos de Israel, visto que os profetas profetizavam falsidades, os sacerdotes estavam em conluio com os profetas e o povo se deleitava no engano, pois, não gostavam da palavra de Deus (Jr 5:31 e Jr 6:10).

Por estarem tão seguros na mentira e no erro dos seus corações enganosos (Jr 17:9), rejeitaram o profeta que Deus avisou, por intermédio de Moisés, que seria levantado dentre os seus irmãos: “Eis lhes suscitarei um profeta do meio de seus irmãos, como tu, e porei as minhas palavras na sua boca, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18:18). Tendo por pretexto a lei, se mancomunaram contra o Cristo e condenaram sangue inocente “Porventura o trono de iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei? Eles se ajuntam contra a alma do justo e condenam o sangue inocente. Mas o SENHOR é a minha defesa; e o meu Deus é a rocha do meu refúgio. E trará sobre eles a sua própria iniquidade; e os destruirá na sua própria malícia; o SENHOR nosso Deus os destruirá” (Sl 94:20-23).

Os escribas e fariseus assemelhavam-se aos leões que ficam a espreita da presa, ou como o filho do leão que caça por emboscada. Por causa de um coração incrédulo, repeliram a piedade de Deus revelada em Cristo e falaram arrogantemente, segundo os seus corações malignos: “Pois a boca do ímpio e a boca do enganador estão abertas contra mim. Têm falado contra mim com uma língua mentirosa” (Sl 109:2).

 

Homens, cuja porção está nesta vida

13 Levanta-te, SENHOR, detém-no, derriba-o, livra a minha alma do ímpio, com a tua espada; 14 Dos homens com a tua mão, SENHOR, dos homens do mundo, cuja porção está nesta vida, e cujo ventre enches do teu tesouro oculto. Estão fartos de filhos e dão os seus sobejos às suas crianças.

Em espírito, o profeta Davi nesta previsão antecipa a oração do Cristo, para que Deus detenha e livre a sua alma dos ímpios. No verso 14 o Salmista deixa uma descrição dos ímpios: Homens do mundo cuja porção está nesta vida!

O apóstolo Paulo faz uso deste verso ao falar dos inimigos do evangelho: “Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fl 3:18-19).

Os homens do mundo se satisfazem com o que proferem as suas bocas, ou seja, fartam os seus ventres com o que há em seus corações malignos, pois do que o coração está cheio, disso fala a boca “Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” (Pv 18:20); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34; Sl 7:14).

Deus há de retribuir os homens segundo as suas obras, de modo que aquele que tem um coração impenitente, ou seja, que não creu no testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho, receberá a ira de Deus: “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” (Rm 2:5); “Se eu afiar a minha espada reluzente, e se a minha mão travar o juízo, retribuirei a vingança sobre os meus adversários e recompensarei aos que me odeiam” (Dt 32:41; Jr 17:10).

Sobre os fim dos ímpios profetizou Jeremias:

“JUSTO serias, ó SENHOR, ainda que eu entrasse contigo num pleito; contudo falarei contigo dos teus juízos. Por que prospera o caminho dos ímpios, e vivem em paz todos os que procedem aleivosamente? Plantaste-os, e eles se arraigaram; crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém longe dos seus rins” (Jr 12:1 -2).

Os ímpios descritos por Jeremias são homem que tem Deus nos lábios, mas longe do coração (Is 29:13). Aos olhos dos homens, os religiosos em Israel prosperavam e viviam em paz. Foram plantados por Deus, mas desviaram-se e se firmaram nas suas conquistas decorrentes da força do seu próprio braço e se esqueceram do Senhor. Multiplicaram e cresceram, mas não viam a ruina que se avizinhava (Jr 12:3).

Os ímpios só podem ser combatidos através da espada de Deus, ou seja, com a palavra do evangelho (Ef 6:17), mas se não se converterem, sofrerão a ira de Deus (Sl 7:12; Rm 2:16).

Como se multiplicaram e cresceram, fartos estão de filhos e dão dos seus sobejos (doutrina) aos seus rebentos. Os filhos de Israel se fartavam das regras e mandamentos, que por tradição herdavam de seus pais (Mc 7:8-9), uma herança que dava a falsa sensação de que eram ricos, fartos, diante de Deus.

 

Anseio pela glorificação

15 Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar.

O Salmo é encerrado com uma confissão admirável: – “Quanto a mim, por minha integridade, contemplarei a Tua face”. Diferentemente de todos os outros homens, que a revelação da face do Senhor significa misericórdia, o Salmo descreve o Messias pleiteando a sua causa com base na sua retidão.

Enquanto o Salmo 80 relata o arrependimento dos filhos de Israel clamando por misericórdia, no Salmo 17 o Salmista descreve Aquele que se manteve integro e que nunca se achou engano e sua boca “O SENHOR julgará os povos; julga-me, SENHOR, conforme a minha justiça, e conforme a integridade que há em mim” (Sl 7:8).

“Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos. Ó SENHOR Deus dos Exércitos, até quando te indignarás contra a oração do teu povo? Tu os sustentas com pão de lágrimas, e lhes dás a beber lágrimas com abundância. Tu nos pões em contendas com os nossos vizinhos, e os nossos inimigos zombam de nós entre si. Faze-nos voltar, ó Deus dos Exércitos, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 80:3 -7)

O final do Salmo 17 aborda a morte e a ressurreição de Cristo. Como Cristo andou firme em Deus, a sua alma não foi deixada na morte, soltas as ânsias da morte: “Ao qual, Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela” (At 2:24).

O Salmo 16 aponta para Cristo, sendo que o corpo de Cristo ficaria em repouso e seguro na sepultura. O Pai prometeu que o Filho não seria deixado na sepultura e que nem experimentaria a corrupção (Sl 16:9 -10; At 2:25).

Sobre a morte de Cristo, temos essa predição: “Atenta para mim, ouve-me, ó Senhor, meu Deus. Ilumina-me os olhos para que eu não adormeça na morte” (Sl 13:3).

No Salmo 138, verso 7 temos uma expressão de confiança do Cristo em Deus, pois mesmo na angustia o Pai estaria com Ele. A certeza de que invocaria e seria atendido decorre da promessa:

“Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos e a tua destra me salvará” (Sl 138:7);

“Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei. Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação” (Sl 91:15 -16).

Quando introduzido no mundo, Jesus se fez, em tudo, semelhante aos homens, sendo participante de carne e sangue (Hb 2:14 e 17). O Verbo Eterno despiu-se da sua glória e se fez carne e passou a habitar entre os homens como o Unigênito de Deus (Fl 2:7-8).

Após ser achado na forma de homem, se fez Servo e foi obediente até a morte, e morte de cruz: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2:8).

A parte ‘b’ do versículo 15, do Salmo 17, faz referência à condição do Cristo ressurreto. Enquanto no mundo, tinha a forma de homem e, quando ressurreto, herdou a Semelhança do Altíssimo, ou seja, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível, o primogênito dentre os mortos, pois todos os que creem ressurgem com Ele e são feitos semelhantes a Ele “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1:15; 1Jo 3:1-3).

Enquanto na carne (homem), Jesus era o Unigênito de Deus, depois de glorificado, tornou-se a expressa imagem do Deus invisível, o resplendor da sua glória “O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas” (Hb 1:3).

Quando Deus criou o mundo expressou a sua vontade de dar à sua imagem e semelhança ao homem (Gn 1:26). Adão foi criado à imagem de Cristo homem, a imagem daquele que havia de vir, e não a expressa imagem e semelhança do Deus invisível.

A vontade de Deus expressa no Gênesis foi levada a efeito, quando Cristo ressurgiu dentre os mortos com um corpo glorificado: o homem a expressa imagem do Deus invisível. Todos quantos n’Ele creem ressurgem uma nova criatura semelhante a Ele, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos.

Quando o querubim da guarda ungido se insurgiu contra o Criador, a intenção não era tomar o lugar de Deus, antes era alcançar a posição que foi dada a Cristo e ao seu corpo (Igreja): a semelhança do Altíssimo “E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14:14).

O propósito de Deus, estabelecido em Cristo, esteve oculto em Deus, mas, através da igreja, a multiforme sabedoria de Deus se tornou conhecida das potestades e principados nas regiões celestiais. Através da igreja, que é o seu corpo, Cristo agora tem a preeminência em tudo (Cl 1:18).

 


[1] Os diversos tipos de paralelismos são utilizados: a) Paralelismo Sinônimo – A segunda asserção repete o pensamento da primeira, porém, utiliza-se de termos diferentes. Ex: “Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam” ( Salmo 24.1 ); b) Paralelismo Antitético – A segunda asserção contrasta a ideia da primeira. Ex: “Pois o Senhor conhece o caminho dos justos; mas o caminho dos ímpios perecerá” (Sl 1:6 ); c) Paralelismo Sintético – A segunda asserção enfatiza o estipulado pela primeira. Ex: “Não te furtes a fazer o bem a quem de direito, estando na tua mão o poder de fazê-lo” (Pv 3:27 ); d) Paralelismo Climático – A segunda asserção faz uso de palavras da primeira asserção e complementa a ideia. Ex: “Tributai ao SENHOR, filhos de Deus, tributai ao SENHOR glória e força” (Sl 29:1); e) Paralelismo Emblemático – A primeira asserção estabelece um comparativo que ilustra a segunda asserção. Ex: “Como água fria para o sedento, tais são as boas-novas vindas de um país remoto” (Pv 25:25).

[2] “04339 meyshar procedente de 3474; DITAT – 930e; n m 1) igualdade, honestidade, retidão, equidade 1a) igualdade, plano, suavidade 1b) retidão, equidade 1c) corretamente (como advérbio)” Dicionário Strong.

[3] “O clamor do salmista para que Deus ouça a sua oração baseia-se não somente na misericórdia e graça de Deus, mas também na sua continua fidelidade nos caminhos do Senhor (vv. 1-5). Deus sondou seu coração e viu que no seu esforço para agradá-lo não havia fingimento (cf. 1Jo 3:18-21). O fato de Davi orar a Deus com base na sua própria fidelidade pessoal expressa a verdade fundamental que Deus promete ouvir as orações dos que o amam e o honram” Comentário de Nota de Rodapé da Bíblia de Estudo Pentecostal, Editora CPAD.

[4] “06530 פָּרִיץ parits procedente de 6555; DITAT – 1826b; n. m. 1) pessoa violenta, infrator 1a) ladrão, assassino” Dicionário Bíblico Strong.




Salmo 23 – O Senhor é o meu pastor, nada me faltará

O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará! O ‘cálice transbordante’ é símbolo de alegria ou de ignominia? A ‘mesa preparada’ propõe reconciliação com o inimigo, ou aponta para a vítima da festa? O Salmo 23 é uma parábola que faz referência a um rebanho, ou é uma profecia acerca de uma ovelha específica? O Salmo 23 só ganha sentido quando analisado sob o prisma da vítima perfeita escolhida e preservada por Deus: o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo: “Mas Jesus disse a Pedro: Põe a tua espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” ( Jo 18:11 ).


Salmo 23 – O Senhor é o meu pastor, nada me faltará

Salmo 23

  1. O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.
  2. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.
  3. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome.
  4. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.
  5. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.
  6. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias.

 

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Introdução

À época de Jesus, os judeus liam diariamente as Escrituras porque entendiam que elas contêm vida eterna, porém, quando a vida eterna que estava junto ao Pai se manifestou, rejeitaram o Verbo da vida ( 1Jo 1:1 -2; Rm 2:20 ). É neste contexto que Jesus disse: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” ( Jo 5:39 ).

Para analisar o Salmo 23, seguiremos a orientação de Jesus: “São elas (as Escrituras) que de mim testificam”, ou seja, os salmos, os profetas e a lei apresentam o testemunho de Cristo “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” ( Lc 24:44 ).

O salmista Davi era profeta e os seus cânticos são profecias acerca de Cristo em forma de poesia ( Mc 12:36 ; At 2:30 e 1Cr 25:1 ).

O Salmo 23 nos faz lembrar que todos os que creem em Cristo são ovelhas do Seu rebanho, porém, diferente do que muitos foram condicionados a pensar, o Salmo 23 não apresenta a expressão de um rebanho de ovelhas, antes é a expressão de confiança de uma ovelha específica: ‘O Senhor é o meu pastor…’, e não o Senhor é o ‘nosso’ pastor.

O segredo para interpretar as figuras e os enigmas do Salmo 23 está em descobrir quem é a pessoa que expressa tamanha confiança em Deus. Como o salmo 23 não foi composto da perspectiva de um rebanho, antes apresenta a perspectiva de uma única ovelha, devemos responder a pergunta feita pelo eunuco da rainha de Candace: “E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro?” ( At 8:34 ).

Através da exposição de Filipe fica claro que um profeta não profetiza acerca de si mesmo. Como profeta, Davi não foi diferente de Isaías, ambos profetizavam acerca do Messias. Para descobrir quem é a pessoa que assume a condição de ovelha confiante em Deus é essencial visualizar os salmos como profecias que apresentam aspectos da vida, morte e ressurreição de Cristo.

Há um aspecto essencialmente importante a se considerar antes de interpretar o Salmo 23: a vítima da festa. Para um cordeiro ser oferecido em holocausto, segundo a lei, devia ter um ano de idade e sem defeito algum, portanto, para a oferta ser agradável a Deus, o pastor devia dispensar um cuidado especial para com a vítima.

O cuidado do pastor era indispensável para que a ovelha chegasse à idade estabelecida sem qualquer defeito como cegueira, quebradura, aleijamento, verrugas, sarnas, impigens, etc. “O cordeiro, ou cabrito, será sem mácula, um macho de um ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras” ( Êx 12:5 ).

Diante da necessidade e do volume de oferendas pela expiação, as ovelhas para o sacrifício tinham que receber cuidados especiais para não faltar vítimas de um ano e sem defeito. O cuidado do pastor era indispensável para que a ovelha estivesse à altura da sua missão: posta como vítima da festa para expiação ( Nm 6:14 ).

Deus escolheu Cristo como a vítima da festa a ser atada sobre o altar ( Sl 118:27 ), concomitantemente, o Cordeiro de Deus recebeu um cuidado específico e efetivo para cumprir a missão do Sumo Pastor, que colocou a alma de Cristo por expiação dos pecados da humanidade ( Is 53:10 ).

O Salmo 23 apresenta o Cordeiro de Deus sob cuidado do Sumo Pastor, pois Ele foi enviado como a vítima para o sacrifício perfeito ( Is 53:7 ). Muitos, equivocadamente, buscam e pedem a proteção exarada no Salmo 23, porém, não atinam que a proteção nele descrita tem em vista um cálice “Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos” ( Mt 20:22 ).

O salmo 23 é uma parábola, e como parábola contém várias figuras que compõe um enigma. Primeiro desvendaremos as figuras que compõe o enigma e, ao final da releitura do Salmo 23, apresentaremos o significado da parábola.

 

O Senhor é Deus fiel

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará” (v. 1)

Temos neste verso uma expressão de confiança: O Senhor é o meu pastor, e, em seguida, uma conclusão: nada me faltará. Como poesia, há nesta frase do Salmo um paralelismo sintético construtivo ou formal, em que a segunda parte da frase amplia ou acrescenta nova ideia a asserção anterior.

Vale destacar algumas nuances linguísticas pertinentes à segunda assertiva da frase ‘… nada me faltará’.  Segundo os linguistas que trabalham o hebraico, o verso 1 do Salmo 23 pode ser traduzido por: “O Senhor é pastagem”, isto porque o termo ‘pastagem’ no hebraico assemelha-se ao possessivo ‘meu pastor’ por possuírem radicais idênticos com sutil diferença quanto aos pequenos sufixos e pontuações.

Para uma interpretação segura, vale lançar mão de outro salmo. O Salmo 16, verso 2 e 5, assim reza: “A minha alma disse ao SENHOR: Tu és o meu Senhor. Não tenho outro bem além de ti (…) O SENHOR é a porção da minha herança e do meu cálice” ( Sl 16:2 e 5; Sl 142:5 ). A ênfase dos versos está em Deus, que é ‘bem’, ‘herança’ e ‘cálice’, figuras que não têm conotação de bens materiais.

Neste diapasão, concordo com alguns linguistas que entendem que o termo traduzido por ‘nada’ é uma adaptação linguística dos tradutores, e quando sugerem ser mais conveniente traduzir o verso por: “O Senhor é o meu pastor, não faltará a mim” (v. 1 ; Sl 23:4 ). Deste modo o verso enfatiza o cuidado perene de Deus, e não o patrocínio de bens materiais ou status deste mundo.

 

Verdes pastos e águas tranquilas

“Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas” (v. 2)

Após declarar que o Senhor é pastor, o salmo 23 apresenta algumas figuras que representam o cuidado provedor de Deus para o homem que se posiciona confiante diante de Deus, como uma ovelha se sujeita ao cuidado de um pastor.

‘Pastos verdejantes’ e ‘águas tranquilas’ é tudo o que uma ovelha necessita, de modo que são figuras para retratar o cuidado de Deus.

A nação de Israel foi preparada para trazer o Cristo ao mundo, de modo que foi concedido a Israel a adoção de filhos, a glória, as alianças, a lei, o culto e as promessas ( Rm 9:4 ; Dt 4:8 ). Um retrato perfeito da missão dada a Israel vê-se na visão de João que consta no livro de Apocalipse, capítulo 12, onde é narrado através de um parábola o resumo da história do povo de Israel, demonstrando que uma mulher (Israel) prestes a dar a luz um varão que irá reger as nações com vara de ferro (o Filho do homem), é perseguida pelo dragão (Satanás) “E deu à luz um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono” ( Ap 12:1 -17 ).

Apesar da apostasia dos lideres e do povo de Israel, ao outorgar a lei e o testemunho dos profetas, Deus estabeleceu um pasto verdejante para o Cristo. A linhagem de Cristo recebeu proteção especial, sendo necessário a inclusão de duas mulheres gentílicas, Rute e Raabe, para que o Cristo viesse ao mundo. Por sua vez, a nação de Israel quase é exterminada, mas Deus a protegeu ( Et 3:13 ; Sl 22:9 -10).

O apóstolo Paulo ensinou que Deus não tem cuidado de bois, quando disse: “Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Porventura tem Deus cuidado dos bois?” ( 1Co 9:9 ), de modo que o Salmo 23 não faz referencia a animais de rebanho, como bois e ovelhas, antes diz de um homem que confia no cuidado que Deus dispensa a Ele.

A ênfase do Salmo 23 está no cuidado de Deus como Sumo Pastor, o homem que figura como ovelha é parte coadjuvante!

‘Pastos verdejantes’ e ‘águas tranquilas’ são figuras que rementem à vontade de Deus revelada na sua palavra, que é alimento, água e vida “E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” ( Dt 8:3 ).

Alimentar-se de maná (pão) não trouxe vida ao povo de Israel, antes é o comer da palavra de Deus que dá vida ao homem “Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre” ( Jo 6:58 ).

Apesar de Israel abrigar a vinda do Messias ao mundo, estava como ovelha sem pastor, o que contrasta com a condição do homem do salmo 23, que tem Deus como pastor em função da sua total confiança na fidelidade de Deus.

O povo de Israel foi levado cativo por falta de entendimento, ou seja, não gozaram do cuidado de Deus, antes estavam famintos e sedentos. A falta de conhecimento de Deus resulta em sede e fome, o que demonstra que ter o Senhor como pastor é o mesmo que ser farto do conhecimento de Deus.

Estar em pastos verdejantes e com águas tranquilas é estar pleno de entendimento “Portanto o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; e os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede” ( Is 5:13 ); “Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR” ( Am 8:11 ; Ez 34:1 -15).

Enquanto era dito às ovelhas desgarradas que andavam sem pastor: “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ), a ovelha sob cuidado do Senhor tinha a certeza de que a sua alma seria restaurada ( Sl 62:1 ).

A ovelha sob cuidado do Senhor de nada tem falta, pois se alimenta da palavra de Deus, o que contrasta com a condição dos filhos dos leões (lideres de Israel que devoravam o povo como se fosse pão) que necessitam e passam fome “A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada” ( Sl 57:4 ;  Sl 34:10 ; Sl 53:4 ; Is 28:14 ).

Os lideres de Israel são nomeados ‘loucos’, ‘néscios’, ‘faltos de entendimento’ por rejeitarem a palavra de Deus, a comida que livra da destruição “Os loucos, por causa da sua transgressão, e por causa das suas iniquidades, são aflitos. A sua alma aborreceu toda a comida, e chegaram até às portas da morte. Então clamaram ao SENHOR na sua angústia, e ele os livrou das suas dificuldades. Enviou a sua palavra, e os sarou; e os livrou da sua destruição” ( Sl 107:17 -20).

O corpo depende de alimento cotidiano, e a alma da palavra de Deus, de sorte que quem ouve a palavra de Deus come o que é bom ( Is 55:2 ); “Pois fartou a alma sedenta, e encheu de bens a alma faminta” ( Sl 107:9 ).

No salmo 57 temos uma profecia acerca de Cristo quando abrigado sob a sombra das asas do Pai ( Sl 57:1 ; Sl 91:1 ). O salmo descreve que Deus envia a sua misericórdia e a sua verdade para livrar o Messias daqueles que procuravam matá-lo ( Sl 57:3 -4); “Ó Deus, quebra-lhes os dentes nas suas bocas; arranca, SENHOR, os queixais aos filhos dos leões” ( Sl 58:6 ; Sl 23:6 ).

Como Deus é apresentado como pastor, e a ovelha uma figura que representa um homem sob o cuidado de Deus, ‘pastagem’ e ‘águas tranquilas’ não diz de roupas, casas, carros, casamentos, alimento, antes diz da justiça de Deus proveniente da Sua palavra.

O pasto e as águas que Deus providencia tem por alvo os que têm sede e fome de justiça, ou seja, de ouvir a palavra de Deus “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” ( Mt 5:6 ); “Eis que vêm dias, diz o Senhor DEUS, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR” ( Am 8:11 ); “Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura” ( Is 55:2 ).

O descanso e o refrigério só são possíveis quando se dá ouvido à palavra de Deus, que é doutrina e conhecimento “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ; Is 28:9 ).

Os mestres de Israel tropeçaram quando interpretavam os profetas e a lei considerando-se filhos de Abraão por serem descendentes da carne de Abraão. Não consideraram que só os crentes que detém a mesma fé que crente Abraão são filhos de Abraão, pois a Abraão foi anunciado o Cristo e ele creu. Quando Cristo veio esses mestres tropeçaram na pedra que Deus estabeleceu e a mesa (doutrina) deles se tornou em laço, de modo que perseguiram o aflito de Deus “Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha. Escureçam-se-lhes os seus olhos, para que não vejam, e faze com que os seus lombos tremam constantemente. Derrama sobre eles a tua indignação, e prenda-os o ardor da tua ira. Fique desolado o seu palácio; e não haja quem habite nas suas tendas. Pois perseguem àquele a quem feriste, e conversam sobre a dor daqueles a quem chagaste. Acrescenta iniquidade à iniquidade deles, e não entrem na tua justiça” ( Sl 69:22 -27 ; Is 28:8 ; Is 43:27 ).

É por isso que Jesus disse: “Adverti, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus” ( Mt 16:6 ), pois a mesa deles era um laço: “Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus” ( Mt 16:12 ).

Israel não se alimentou do pasto e das águas tranquilas providenciadas por Deus, antes se assentavam em uma mesa plenas de vômitos e imundícias, uma mesa que não continha o conhecimento de Deus “Porque todas as suas mesas estão cheias de vômitos e imundícia, e não há lugar limpo” ( Is 28:8 ; Is 65:11 ).

Embora os filhos de Jacó fossem os guardiões da lei e do testemunho dos profetas, eles não davam ouvidos à palavra de Deus “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ).

 

Refrigério

“Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome” (v. 3)

O verso 3 complementa a ideia do verso 2:

Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas” (v. 2)

Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome” (v. 3)

O alimento providenciado por Deus proporciona descanso, refrigério e restaura a alma aflita, pois é Ele quem guia as águas tranquilas, ou seja, pelas veredas da justiça A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do SENHOR é fiel, e dá sabedoria aos símplices” ( Sl 19:7 ).

O cuidado do Senhor está atrelado ao zelo do Seu nome, pois Ele é fiel “Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; assim, por amor do teu nome, guia-me e encaminha-me” ( Sl 31:3 ).

As vicissitudes do mundo fazem parte da existência do homem, quer seja salvo ou não ( Jo 16:33 ; Ec 7:14 ), pois foi Deus quem estabeleceu como consequência da ofensa de Adão que o homem se sustentaria (comerá) do suor do seu rosto até retornar ao pó ( Gn 3:19 ). É um erro pensar que os salmos possuem poderes místicos para livrar o homem dos problemas diários.

 

A sombra da morte

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam” (v. 4)

A confiança da ‘ovelha’ no Sumo Pastor pode ser dimensionada através da circunstância que o cerca: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum…”. O motivo de tamanha confiança vem expresso no Salmo 138: “Andando eu no meio da angústia, tu me reviverás; estenderás a tua mão contra a ira dos meus inimigos, e a tua destra me salvará” ( Sl 138:7 ).

A penalidade decorrente da ofensa de Adão impôs medo a todos os homens, mas a ‘ovelha’ em comento não teme mal algum ao percorrer as ‘regiões da morte’, pela certeza de que Deus, como Pastor, jamais faltará (v. 1; Hb 2:15 ). Deus é o Pastor da ‘ovelha’ porque ela não pertence ao pecado como os demais homens.

A ‘sombra da morte’ é uma figura para fazer referencia ao mundo dos homens que jazem separados de Deus, ou seja, estão mortos, alienados de Deus “Alguns se assentam nas trevas e nas sombras da morte, presos de aflição e em ferro, por se haverem rebelado contra as palavras de Deus, e desprezado o conselho do Altíssimo (…) Tirou-os das trevas e das sombras da morte e quebrou as suas cadeias” ( Sl 107:10 -11 e 14; Is 9:2 ).

Esta mesma figura é utilizada pelo profeta Isaías quando faz referencia a Cristo como a luz dos povos “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

A humanidade alienada de Deus habita na região da sombra da morte e estão presos por causa da lei que diz: ‘certamente morreras’ ( 1Co 15:56 ). Mas Cristo foi dado como luz dos que jazem em trevas, tirando-os da prisão “Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:7 ); “Para dizeres aos presos: Saí; e aos que estão em trevas: Aparecei. Eles pastarão nos caminhos, e em todos os lugares altos haverá o seu pasto” ( Is 49:9 ); “Venha perante a tua face o gemido dos presos; segundo a grandeza do teu braço preserva aqueles que estão sentenciados à morte” ( Sl 79:11 ); “Para ouvir o gemido dos presos, para soltar os sentenciados à morte” ( Sl 102:20 ).

‘Sombra’ é uma figura que pode representar proteção, abrigo, ou o que é efêmero, passageiro, ou uma imagem desfocada ( Gn 19:8 : Jz 9:15 ; Sl 17:8 ; Jó 8:9 ; Jó 14:2 ; Sl 102:11 ; Hb 10:1 ). O versículo 4 do Salmo 23 faz referencia à condição do homem que está no mundo apenado com a morte em decorrência da ofensa de Adão.

Por causa da ofensa de Adão toda a humanidade passou à condição de mortos para Deus, a retribuição decorrente da ofensa ( Rm 5:15 ).

Deus é vida, e o homem alienado de Deus está morto. Deus é luz, e o homem separado de Deus é trevas. Como a humanidade está morta em delitos e pecados (jaz no maligno), todos os homens residem à sombra da morte, visto estarem alienados de Deus.

Para resgatar a humanidade que estava em trevas, Cristo foi introduzido no mundo, à sombra da morte, de modo que Ele é o Sol nascente das alturas que brilhou sobre a humanidade “E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” ( Jo 1:5 ) “Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz” ( Lc 1:79 ).

Quando o homem crê em Cristo é arrancado do reino da morte e transportado para o reino do Filho do amor de Deus ( Cl 1:13 ); “Então clamaram ao SENHOR na sua angústia, e os livrou das suas dificuldades. Tirou-os das trevas e sombra da morte; e quebrou as suas prisões. Louvem ao SENHOR pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens. Pois quebrou as portas de bronze, e despedaçou os ferrolhos de ferro” ( Sl 107:13 -16).

Mas a profecia é mais especifica: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte…” (v. 4). A sombra da morte refere-se à humanidade alienada de Deus, o vale refere-se aos filhos de Jacó que não se deixam alcançar pela luz.

O profeta Jeremias nomeia os filhos de Jacó como a ‘moradora do vale’, ‘pedra da campina’ “Eis que eu sou contra ti, ó moradora do vale, ó rocha da campina, diz o SENHOR; contra vós que dizeis: Quem descerá contra nós? Ou quem entrará nas nossas moradas?” ( Jr 21:13 ); “Por isso farei de Samaria um montão de pedras do campo, uma terra de plantar vinhas, e farei rolar as suas pedras no vale, e descobrirei os seus fundamentos” ( Mq 1:6 ).

Quando João Batista passou a clamar no deserto da Judeia dizendo: – “Arrependei-vos”, buscava cumprir a sua missão: aplainar o caminho do Senhor. Era imprescindível uma mudança de concepção acerca de como ser salvos, abandonando as veredas não aplainadas por Deus ( Is 40:2 -3 ; Is Lc 1:76 ; “Contudo o meu povo se tem esquecido de mim, queimando incenso à vaidade, que os fez tropeçar nos seus caminhos, e nas veredas antigas, para que andassem por veredas afastadas, não aplainadas” ( Jr 18:15 ).

O ‘vale’ diz dos filhos de Jacó que se opuseram a Cristo, conforme descrevem os Salmos 69, 22, 64, etc. Por que o Cordeiro de Deus não haveria de temer quando no vale entre os leões? “A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada” ( Sl 57:4 ). Porque estaria abrigado à sombra das asas de Deus ( Sl 57:1 ; Sl 91:1 ).

Enquanto os que habitavam nas regiões da sombra da morte viram uma grande luz, os que estavam no vale da sombra da morte se opuseram à luz verdadeira, tornando-se opositores da luz “Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo” ( Jo 1:9 ; Jo 10:36 ).

Fazer a vontade de Deus é ser guiado em terra aplainada, o caminho preparado por Deus “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ). Cristo foi guiado por terra plana “Ensina-me a fazer a tua vontade, pois és o meu Deus. O teu Espírito é bom; guie-me por terra plana” ( Sl 143:10 ).

 

Uma mesa na presença dos inimigos

“Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda” (v. 5).

Do verso 4 para o verso 5 ocorre uma transição de cenário, onde havia pasto e águas, agora há uma mesa posta.

Enquanto os versos 1 a 4 enfatizam o cuidado do Senhor e a confiança do Servo, nos versos que se seguem, a ênfase está missão do Servo.

Os versos de 1 a 4 destacam que o Servo do Senhor estava sob o cuidado de Deus em virtude da missão que lhe foi confiada. Já os versos 5 a 6 destacam a finalidade do cuidado dispensado ao homem que se posiciona como ovelha.

O cenário do campo e das águas tranquilas é desfeito abruptamente e se volta para uma mesa posta em um ambiente de hostilidade. A parábola do Salmo 23 e as suas figuras ganham novo contorno: o cuidado de Deus tem em vista preservar a vítima da festa.

O quadro bucólico dos versos 1 a 4 (ovelha, campo, água) é substituído no verso 5 por uma ‘mesa preparada’ que representa tanto a vontade do Sumo Pastor quanto a satisfação do Servo eleito em realizar a vontade do seu Senhor. Através da mesa preparada demonstra-se o prazer do Servo do Senhor em atender a vontade de Deus.

O Servo do Senhor destaca que Deus (o Sumo Pastor) preparou uma mesa em uma ocasião nada favorável: na presença dos seus inimigos. Há uma mesa preparada, mas qual é o seu significado? “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos…” (v. 5).

A figura da ‘mesa preparada’ tem a conotação de proporcionar prazer a alguém. Como o prazer do Servo fiel é fazer a vontade de seu Senhor, a mesa preparada representa a vontade de Deus. A mesa posta na presença dos inimigos não guarda relação com o sustento cotidiano, antes reúne em uma mesma figura a vontade expressa de Deus e o prazer do seu Servo.

Quando lemos a declaração de Jesus, que diz: “… convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” ( Lc 24:44 ), e que a ‘comida’ de Cristo era fazer a vontade de Deus Pai, é possível saber o que foi posto sobre a mesa “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

O testemunho do Salmo 23 não diz do salmista Davi, ou de qualquer outra pessoa. O Salmo 23 é um testemunho específico acerca do Cristo, que se apresentou para fazer a vontade de Deus “Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” ( Sl 40:7 -8; Hb 10:9 ).

Tudo o que está escrito no rolo das Escrituras testificam de Cristo, pois Ele teve prazer em fazer a vontade de Deus. O deleite, o alimento de Cristo, era fazer o prescrito por Deus, pois a lei de Deus é refrigério “A lei do SENHOR é perfeita, e refrigera a alma” ( Sl 19:7 ; Sl 23:2 ).

Para identificarmos que tipo de alimento foi servido à mesa que o Senhor preparou para o Messias não podemos ter a mesma visão dos discípulos quando pediram ao Senhor Jesus que comesse: “E entretanto os seus discípulos lhe rogaram, dizendo: Rabi, come. Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis. Então os discípulos diziam uns aos outros: Trouxe-lhe, porventura, alguém algo de comer?” ( Jo 4:31 -33).

É necessário ver além! A comida de Cristo que os discípulos não conheciam refere-se a realizar a vontade de Deus. Quando lemos: “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou ( Jo 5:30 ); “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ), percebe-se que a vida de Cristo era realizar a vontade Deus “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ), vemos que a vida do Messias foi alimentar-se à mesa de Deus.

Como Cristo veio ao mundo para cumprir a vontade do Pai, a lei, os salmos e os profetas era o alimento colocado à mesa. As escrituras é a mesa preparada que, para o Cristo teve peso de glória porque fez a vontade do Pai, enquanto para os filhos de Jacó a mesma mesa tornou-se ‘laço’ e ‘tropeço’ “Torne-se-lhes a sua mesa diante deles em laço, e a prosperidade em armadilha”( Sl 69:22 ). A mesa de Deus que estava diante dos filhos de Jacó diz da mesa mesa preparada perante o Cristo “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos…” ( Sl 23:5 ).

Enquanto a descrição da vida e ministério de Cristo nas Escrituras, ou o cumprimento das Escrituras na vida e no ministério de Cristo era a mesa preparada perante os opressores de Cristo, o cálice diz das agruras da cruz. Quando Jesus estava no Getsemani, começou a entristecer-se e a angustiar-se, foi quando Jesus por três vezes fez a seguinte oração ao Pai, dizendo: “E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” ( Mt 26:42 ); “A minha alma está cheia de tristeza até a morte” ( Mt 26:38 ).

O Messias saiu do Getsemani resoluto e certo de uma coisa: “Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores” ( Mt 26:45 ). Ele tinha plena certeza do que Deus havia reservado “Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora” ( Jo 12:27 ).

Quando Cristo se entregou aos homens segundo a vontade do Pai, ali estava fazendo a vontade de Deus na presença dos seus inimigos. Enquanto os homens contemplavam o Cristo ser crucificado, na verdade, Cristo estava à mesa, realizando (comendo) a vontade do Pai. Além de fazer a vontade de Deus, ao final da ‘refeição’, Jesus bebeu o cálice que Deus lhe deu “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ).

Enquanto os inimigos injuriavam e se arremetiam contra o Ungido do Senhor, Cristo estava bebendo o cálice dado por Deus, pois era do agrado de Deus enfermá-Lo e moê-Lo “Mas Jesus disse a Pedro: Põe a tua espada na bainha; não beberei eu o cálice que o Pai me deu?” ( Jo 18:11 ); “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” ( Jo 10:18 ); “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão” ( Is 53:10 ).

Cristo sabia que, após comer à mesa posta pelo Pai (fazendo a vontade de Deus), e, bebendo o cálice (sujeitando-se à ignomínia da cruz), receberia a recompensa “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ).

Na cruz o Filho estava pagando o seu voto diante dos filhos do seu povo ( Sl 116:14 e 18). Dele estava escrito: “Eis aqui venho (…) Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu” ( Sl 40:7 -8). É por isso que Jesus declarava abertamente: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ).

 

A bondade e a misericórdia

“Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias” (v. 6)

Apesar de saber que Deus haveria de lhe dar um cálice a beber, a confiança do Cristo em Deus é imutável, pois confessa: a bondade e a misericórdia certamente me seguirão, por fim, após ser participante da mesa e do cálice tinha plena confiança que habitará eternamente junto ao Pai.

A certeza de que a bondade e a misericórdia de Deus e abundancia de dias decorre da obediência de Cristo “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” ( Dt 5:10 ). Deus havia estabelecido que teria misericórdia dos que O obedecem, e como a comida, o prazer de Cristo era executar a vontade de Deus, a bondade e a misericórdia de Deus era certa, de modo que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos ( Sl 56:13 ; Is 53:12 ; Pv 14:32 ; Sl 30:3 ; Sl 49:15 ; Sl 88:3 ).

 

O Servo do Senhor é cordeiro morto desde a fundação do mundo

Como homem, Jesus confiou inteiramente no Pai, de modo que nesta previsão escrita por Davi ( At 2:30 ; At 4:25 ), temos o Verbo encarnado expressando a sua confiança em Deus assim como uma ovelha entrega-se ao cuidado do Pastor.

O salmo apresenta uma figura própria ao servo do Senhor: o cordeiro de Deus “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca” ( Is 53:7 ). Neste salmo as figuras ‘servo’ e ‘cordeiro’ fundem-se “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” ( Is 42:19 ); “Mas eu, como surdo, não ouvia, e era como mudo, que não abre a boca. Assim eu sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação” ( Sl 38:13 -14).

Na condição de ovelha o Cristo teve o Pai como pastor. O que isto significa? Que o descendente prometido a Davi assumiria a condição de servo ( Is 42:1 ; Is 49:5 ), e que os servos não fazem a sua própria vontade, antes esperam inteiramente em seu senhor “Assim como os olhos dos servos atentam para as mãos dos seus senhores, e os olhos da serva para as mãos de sua senhora, assim os nossos olhos atentam para o SENHOR nosso Deus, até que tenha piedade de nós” ( Sl 123:2 ).

No Salmo 23 a relação ‘Senhor’ e ‘servo’, ‘Pai’ e ‘Filho’ é apresentada através de uma nova figura: ‘pastor’ e ‘ovelha’. Lembremos que Deus veio em carne e habitou entre os homens “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” ( Jo 1:14 ). Ao assumir um corpo à semelhança da carne do pecado ( Rm 8:3 ; HB 10:5 ), Cristo se sujeitou às mesmas paixões que os homens ( Lc 22:28 ; Hb 4:15 ; Hb 2:17 ).

Para cumprir a missão dada pelo Pai, o Verbo que habitava o esconderijo do Altíssimo foi introduzido no mundo e, quando no mundo dos homens (região da sombra da morte) esteve abrigado sob as asas do Onipotente porque em tudo foi obediente “AQUELE que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará” ( Sl 91:1 ; Is 9:2 ).

A promessa do Pai ao Filho enquanto na região da sombra da morte era de que o Cristo não seria deixado na morte e que nem um dos seus ossos seria quebrado ( Sl 16:10 ; Sl 49:9 ; Sl 34:20 ). As promessas de Deus são firmes, pois Ele zela do Seu nome ( Sl 138:2 ).

É em função do cordeiro que seria morto na plenitude dos tempos, mas que foi morto desde a fundação do mundo, que destacamos que o Salmo 23 não foi escrito na perspectiva de um rebanho de ovelhas, antes foi redigido na perspectiva de uma ovelha que necessitava de proteção para ser oferecida como vitima segundo a vontade de Deus.

 

Cristo – O Bom Pastor

O salmo 23 foi analisado na perspectiva da Ovelha escolhida por Deus para beber o cálice da ignomínia – Cristo – o Servo do Senhor ( Jo 8:15 ; Jo 12:47 ) “PORQUE brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. E deleitar-se-á no temor do SENHOR; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos. Mas julgará com justiça aos pobres, e repreenderá com equidade aos mansos da terra; e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará ao ímpio, E a justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade o cinto dos seus rins” ( Is 11:1 -5; Is 4:2 ).

Cristo, o rebento do tronco de Jessé prometido por Deus é fonte de água que jorra para a vida eterna ( Jo 4:14 ). Ele é o pão vivo que desceu dos céus ( Jo 6:51 ). Quem crê em Cristo, o Verbo que se fez carne, passa a viver especificamente da palavra que sai da boca de Deus ( Jo 6:58 ).

O tronco de Jessé é Deus feito homem habitando com os homens (Deus conosco), e neste quesito, Ele é o Bom Pastor que deu a sua vida pelas ovelhas ( Jo 10:11 e 14; Is 9:6 ). Para as ovelhas, os verdes pastos e a água perene são os ensinos de Cristo ( Ef 1:3 ; 1Co 1:5 ; 2Pe 1:3 ; Mt 28:20 ).

Jesus é o Bom Pastor e por isso disse aos seus discípulos: “NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim” ( Jo 14:1 ); “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” ( Jo 12:36 ); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

No Salmo 110, Davi ‘em espírito’ chamou o Filho de Deus de ‘meu Senhor’, já no Salmo 23, em espírito temos o Filho de Deus, na condição de Cordeiro escolhido, chamando o Pai de pastor.

“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará” ( Sl 23:1 );

“DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

Mas, na plenitude dos tempos, o Senhor Jesus Cristo anunciou ser o Bom Pastor: “Eu sou o bom Pastor… “ ( Jo 10:11 e Jo 10:14 ; Ef 1:10 ; Gl 4:4 ). Por quê? Porque o Jesus de Nazaré, que foi reputado por aflito de Deus, antes de ser introduzido no mundo, era o Verbo eterno que estava com Deus. Devemos enxergar o rebento de Jessé de dois modos: a) em ignomínia; b) glorioso.

Da mesma forma que os homens ficaram pasmos diante do Cristo crucificado, hão de ficar pasmos diante da sua glória ( Is 52:13 -15). Num primeiro momento o renovo justo não tinha parecer e nem formosura ( Is 53:2 ), em um tempo vindouro se apresentará cheio de beleza ( Is 4:2 ).

Por que Jesus utilizou o predicativo ‘bom’ ao identificar-se como Pastor? Porque Ele é o Verbo de Deus encarnado ( Jo 1:14 ), o Deus Altíssimo ( Is 57:15 ), o Senhor entronizado conforme prediz o Salmo 45: “O Teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a retidão e odeias a impiedade; portanto Deus, o teu Deus te ungiu com o óleo de alegria, mais do que a teus companheiros” ( Sl 45:6 -7).

Compare:

“DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

“O Teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo (…); portanto Deus, o teu Deus te ungiu com o óleo de alegria, mais do que a teus companheiros” ( Sl 45:6 -7).

No salmo 45 Jesus é apresentado pelo salmista no reino da sua glória, o Senhor Deus que reina com justiça e equidade, do mesmo modo que foi apresentado no salmo 110 em igualdade com o Pai. O escritor aos Hebreus destaca este fato: “Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino” ( Hb 1:8 ).

Sem sombras de dúvidas Jesus Cristo é o Bom Pastor, visto que, Ele e o Pai são um: “Eu e o Pai somos um” ( Jo 10:30 ).

A relação ‘Pai’ e ‘Filho’ não existia na eternidade, pois as pessoas da divindade na eternidade são co-iguais e co-eternas. Somente quando o Verbo foi introduzido no mundo, passou a ter eficácia o acordo estabelecido na eternidade, como se lê: “Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho?” ( Hb 1:5 ).

Na eternidade não havia a relação Pai e Filho, mas ao ser introduzido o Unigênito no mundo, ficou estabelecido: ‘Eu lhe serei por pai, e tu me será por Filho’. O termo ‘hoje’ utilizado em algumas profecias refere-se a eventos pertinentes ao mundo dos homens.

Os que recebem a Cristo estão sob a proteção do Bom Pastor, de modo que em tudo os que creem em Cristo têm toda suficiência, ou seja, de ‘… nada têm falta’! “Temei ao SENHOR, vós, os seus santos, pois nada falta aos que o temem” ( Sl 34:9 ; 2Co 9:8 ).

Há os que pensam que a promessa de que ‘nada faltará’ àqueles que têm a Cristo como Senhor lhes proporcionará farturas de bens materiais aqui neste mundo, porém, estão equivocados em suas mentes carnais. O apóstolo Paulo explica que Deus é poderoso para fazer abundar toda graça com o objetivo de que os cristãos tenham sempre, em tudo, toda suficiência.

Os cristãos terão fartura (abundeis) em toda boa obra, e não em riquezas materiais. Com relação aos bens materiais, será agraciado com suficiência em tudo. Mesmo no pouco, o cristão possui suficiência, contentamento ( 1Tm 6:6 ).

Aquele que tem Cristo como Pastor (meu), é ovelha do seu aprisco “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem” ( Jo 10:27 ). Entram no aprisco do Senhor e encontraram paz e descanso para a suas almas ( Mt 11:29 ), porém, as aflições deste mundo persistem ( Jo 16:33 ).

Jesus anunciou ser:

  • A Porta – ‘Eu sou a porta’ ( Jo 10:9 ) – Ou seja, Cristo é a porta das ovelhas, pela qual os homens que ouvirem a sua voz necessitam entrar para serem salvos ( Mt 7:13 );
  • O Bom Pastor ( Sl 10:11 ) – ‘Eu sou o bom Pastor’ ( Jo 10:11 ) – Aquele que dá a sua vida em prol das ovelhas.

Aqueles que entram por Cristo, a porta estreita, são comparados a ovelhas, visto que o Pastor é quem guia pelas veredas eternas. Ora, qualquer que entra pela porta estreita que é Cristo, está num caminho estreito que o conduz a vida eterna “Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida…” ( Mt 7:14 ), e encontra descanso para a alma ( Mt 11:29 ; Sl 118:20 ).

A figura do ‘caminho apertado’ quanto a o ‘Bom Pastor’ é Cristo, visto que:

  • ‘o caminho apertado’ conduz o homem a Vida, e;
  • O Bom Pastor conduz ‘as ovelhas’ as águas tranquilas.

Qualquer que crê em Cristo de nada tem falta e alcança o descanso prometido. Aquele que confia em Cristo encontra descanso, conforme o escritor aos Hebreus escreveu: “Ora, nós que temos crido, entramos no descanso…” ( Hb 4:3 ). Após crer no Bom Pastor, que é Cristo Jesus, as suas ‘ovelhas’ descansam, pois é Ele quem guia as ‘ovelhas’ em segurança à vida eterna “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ).

A confiança em Cristo como pastor proporciona aos seus seguidores descanso, segurança e refrigério. Tal condição é descrita pelo apóstolo Paulo como ‘estar assentado’ em Cristo Jesus nas regiões celestiais ( Ef 1:3 ).

Jesus, o Bom Pastor, é o caminho de Justiça que conduz os homens a Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ). Somente trilham o novo e vivo caminho aqueles que são nascidos da água (palavra) e do Espírito (Deus) ( Hb 10:20 ).

Todos quantos tem o Senhor Jesus como Pastor são crucificados, morrem e são sepultados com Cristo “Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será nosso guia até à morte” ( Sl 48:14 ; Rm 6:6 ), porém, ressurgem vitoriosos em Cristo, sendo criados de novo em verdadeira justiça e santidade ( Cl 3:1 ).

As palavras do Pastor, a verdade do evangelho, desempenham a função da vara e do cajado: guia, correção e consolo ( Jo 10:4 ; Jo 5:24 ). É o Senhor quem peleja em favor daqueles que creem no bom Pastor ( Ex 14:14 ). Quantos inimigos o Senhor Jesus derrotou na sua morte? O mundo, a carne, o pecado, satanás e as potestades, de modo que, os seus seguidores são mais que vendedores!

Por desconhecer que os salmos são profecias em forma de cânticos e poesias, e que tais profecias têm por tema o Cristo e a sua obra, muitos buscam proteção nas promessas contidas nos salmos. Se as pessoas buscassem nos salmos o conhecimento do Santo, encontrariam proteção e descanso para a alma, pois encontrariam a salvação de Deus em Cristo “E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, e de Hemã, e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos, e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério” ( 1Cr 25:1 ).

Se os leitores dos salmos compreenderem que as promessas dos salmos dizem do Messias, e que por Ele ser o ungido do Senhor, que Deus reservou para o Cristo um cálice a beber, não teriam uma visão superficial dos salmos.

Na sua maioria, os leitores dos salmos querem ‘se assentar à direita e a esquerda do Cristo em seu reino’, porém, desconhecem, como os filhos de Zebedeu, que o cálice que Cristo ia beber era derramar a sua alma na morte “Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos” ( Mt 20:22 ).

Para alcançar as promessas de Deus é essencial que o homem beba o cálice dado pelo Pai: crer em Cristo. Quando o homem crê em Cristo, significa que pegou a sua própria cruz e seguiu após Cristo até o calvário, foi morto, sepultado e ressurgiu segundo o poder de Deus. Aquele que crê que Cristo, o Jesus de Nazaré, é o Bom Pastor, bebeu o cálice de Cristo “E diz-lhes ele: Na verdade bebereis o meu cálice e sereis batizados com o batismo com que eu sou batizado, mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado” ( Mt 20:23 ).




Salmo 91 – Aquele que Habita no esconderijo do Altíssimo

Estudo bíblico completo do Salmo 91, uma das profecias com várias promessas de proteção e livramento para o Cristo. O Salmo 91 faz referência a encarnação, sofrimento, morte e ressurreição de Jesus.


Salmo 91 – Aquele que Habita no esconderijo do Altíssimo

Obs.: O Salmo 91 evangélico é idêntico ao Salmo 90 da Bíblia católica.

  1. AQUELE que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.
  2. Direi do SENHOR: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.
  3. Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.
  4. Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel.
  5. Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia,
  6. Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.
  7. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti.
  8. Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios.
  9. Porque tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação.
  10. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.
  11. Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.
  12. Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.
  13. Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.
  14. Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome.
  15. Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.
  16. Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Leia também: Salmo 23

 

Introdução

É comum nas casas, nas empresas e escolas encontrarmos uma Bíblia aberta no Salmo 91. Às vezes, pela ação do tempo, as páginas até ficam empoeiradas e amareladas. Outros penduram na porta de suas residências quadros que estampam uma cópia do Salmo 91.

Muitos utilizam o Salmo 91 para rezar, enquanto outros citam trechos do Salmo 91 em suas orações, mas será que compreendem o seu significado? E ainda existem aqueles que, nem mesmo leram o Salmo 91 por completo, mas por recomendação, fazem dele um amuleto.

Desde longa data o Salmo 91 é utilizado como amuleto. Os adeptos das religiões espiritualistas entendem que o Salmo 91 é poderoso e que deve ser utilizado nas horas de necessidades para pedir e agradecer a proteção divina para tudo e todos, mas, a despeito destas concepções místicas, surge a pergunta: como entender e interpretar o Salmo 91?

 

Salmos são cânticos proféticos

O salmista e rei Davi era profeta e separou os levitas para profetizarem com toda a sorte de instrumentos musicais:

“E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, e de Hemã, e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos, e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério:” ( 1Cr 25:1 ).

O livro das Crônicas de Israel deixa bem claro que a função precípua de um salmista era profetizar. O rei Davi comissionou os músicos a redigirem o que profetizavam em forma de poesia, de modo que fosse possível cantá-los ao som de instrumentos musicais.

Esta proposta de Davi visava suprir a deficiência de leitura da população, que na sua maioria não sabiam ler e escrever. Apenas escrever as profecias em textos formais não facilitava o processo de memorização do povo, enquanto que, a poesia e a música atendem muito bem a este propósito.

Portanto, ao analisar um salmo, deve-se ter em mente que eles são composições de cunho profético, e não somente expressões da alma, produto da psique humana. Em uma análise dos salmos deve-se priorizar o conteúdo da mensagem, visando desvendar seu conteúdo profético. As questões poéticas e musicais ficam em segundo plano.

Certa feita o Senhor Jesus questionou os fariseus acerca do Salmo 110, e eles não puderam respondê-lo de quem o Messias era filho:

“Dizendo: Que pensais vós do Cristo? De quem é filho? Eles disseram-lhe: De Davi. Disse-lhes ele: Como é então que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, Até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho? E ninguém podia responder-lhe uma palavra; nem desde aquele dia ousou mais alguém interrogá-lo” ( Mt 22:42 -46).

Através da abordagem que Jesus fez, verifica-se que os Salmos, como parte das Escrituras, tem por objetivo dar testemunho do Cristo. O Salmo 110 demonstra que o Messias não seria somente filho de Davi, antes era Senhor de Davi, indicando a sua divindade.

Vale salientar que, na sua grande maioria, os Salmos fazem referência ao Messias, porém, cada um deles se atém a uma característica da vida do Messias, tais como: reino, humanidade, divindade, missão, morte, ressurreição, etc.

Alguns Salmos até fazem referência às relações estabelecidas na eternidade entre as pessoas da divindade ( Hb 1:5 ; Sl 2:7 ). O escritor aos Hebreus demonstra, através dos Salmos, que os acordos firmados na eternidade foram levados a efeito quando o Primogênito de Deus foi introduzido no mundo.

O Salmo 110, verso 1 diz: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ), temos aqui o ‘Senhor’ estabelecendo um prazo para que o ‘Senhor’ do salmista permanecesse assentado à Sua mão direita. O salmista estava profetizando acerca de si mesmo, ou do Cristo? ( At 8:34 ). O que pensar acerca do Cristo neste texto? ( Mt 22:42 ).

Antes de prosseguirmos, leia atentamente os Salmos 56 e 57, pois eles contêm elementos essências para interpretarmos o Salmo 91. Observe que o Salmo 56 e 57 descrevem profeticamente uma realidade que não era a do salmista Davi ou de seus cantores e, que os eventos descritos podem fazer referência à outra pessoa.

Outro ponto a se observar nos salmos, que na sua grande maioria são composições proféticas com vários enigmas, parábolas, figuras, adágios, provérbios, etc. Antes de interpretar qualquer frase, desvende o enigma da parábola. Por exemplo: por que Jesus chama os escribas e fariseus de raça de víboras? Primeiro é necessário compreender de onde Jesus tirou tal figura para fazer referencia aos escribas e fariseus como ‘raça de víboras’, e no que consiste tal figura.

Não é possível afirmar categoricamente quem é o autor deste Salmo. Alguns apontam o profeta Moisés como o escritor do Salmo 91 por causa de certas evidências internas (expressões idiomáticas). Outros apontam como autor o salmista e rei Davi, mas não há como precisar quem redigiu o Salmo 91.

 

O esconderijo do Altíssimo

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará” (Salmo 91:1)

O primeiro passo para interpretar Salmo 91 é responder a seguinte pergunta ( Sl 91:1 ): Quem habita no esconderijo do Altíssimo? É possível aos homens mortais residirem no recôndito do Altíssimo? A resposta está no decurso do próprio Salmo: “Porque tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação” ( Sl 91:9 ).

Quando escreveu esta profecia, o salmista fez referência a alguém que, naquele exato momento estava residindo no esconderijo (lugar oculto) do Altíssimo, e que, no futuro, haveria de deixar a habitação do Altíssimo. Quando deixasse o esconderijo do Altíssimo, seria necessário refugiar-se à sombra do Onipotente ( Jo 16:28 ).

Analisando a primeira questão: “Quem é Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo?”; “Onde fica o esconderijo do Altíssimo?”.

“Os pecadores de Sião se assombraram, o tremor surpreendeu os hipócritas. Quem dentre nós habitará com o fogo consumidor? Quem dentre nós habitará com as labaredas eternas?” (Isaías 33:14).

O ‘esconderijo de Altíssimo’ não fica na Terra, pois tal esconderijo diz de um ‘lugar’ inacessível aos homens, na eternidade.

“Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos.” (Isaías 57:15).

“Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” ( 1Tm 6:16 );

“Para o entendido, o caminho da vida leva para cima, para que se desvie do inferno em baixo” ( Pv 15:24 );

“Trovejou desde os céus o SENHOR; e o Altíssimo fez soar a sua voz” ( 2Sm 22:14 );

“Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu” ( Jo 3:13 ).

Considerando que o esconderijo do Altíssimo é o céu e, que ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que de lá desceu ( Jo 3:13 ), conclui-se que Jesus é aquele que habitava no esconderijo do Altíssimo antes de ser introduzido no mundo.

Jesus habitava o céu quando o Salmo 91 foi escrito e o salmista prediz que Aquele que habita no céu haveria de descansar sobre a proteção do Onipotente, ou seja, o Salmo diz de Cristo quando se esvaziasse da Sua glória e fosse introduzido no mundo como o Unigênito de Deus.

Não há registro nas Escrituras de alguém que tenha habitado no esconderijo do Altíssimo, mas Aquele que havia de vir, o Filho do homem, d’Ele as Escrituras dá testemunho que na eternidade habitou o recôndito da divindade ( Sl 45:6 ; Is 7:14 ; Is 8:17 ; Pv 30:3 ). Jesus mesmo falou acerca da sua glória: “E agora me glorifica tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse ( Jo 17:5 ). Os santos apóstolos de Cristo também falaram da glória de Cristo ( Jo 1:1 e 1Jo 1:1- 3; Hb 1:5 e 8), de modo que Jesus é aquele que habitava no esconderijo de Deus, pois Ele é o Verbo Eterno que estava com Deus ( Jo 1:1 ).

A sombra do Onipotente refere-se à proteção que Deus estabeleceu sobre o Messias:

“O SENHOR é quem te guarda; o SENHOR é a tua sombra à tua direita” ( Sl 121:5 );

“Guarda-me como à menina do olho; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas” ( Sl 17:8 );

“Porque foste a fortaleza do pobre, e a fortaleza do necessitado, na sua angústia; refúgio contra a tempestade, e sombra contra o calor; porque o sopro dos opressores é como a tempestade contra o muro” ( Is 25:4 ).

Analisando a segunda questão do primeiro verso: Como Jesus descansou à sombra do Onipotente? Obedecendo a palavra de Deus. Obedecer a palavra de Deus é descansar à sombra do Onipotente. Confiar na palavra de Deus é descansar, o que se demonstra na obediência. Quando Jesus resignou-se a fazer a vontade de Deus entregando a sua alma na morte, estava descansado, pois confiou na salvação do Onipotente.

É em função desta verdade que Jesus diz: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ). A satisfação, o desejo, a alegria de Cristo estava em obedecer à palavra de Deus, de modo que Isaías profetizou dizendo que a palavra de Deus estava na boca do Cristo. Mas, a boca fala da abundância do que há no coração, de modo que a palavra de Deus é a essência do Cristo.

“Porque tu tens sido o meu auxílio; então, à sombra das tuas asas me regozijarei” ( Sl 63:7 );

“E ponho as minhas palavras na tua boca, e te cubro com a sombra da minha mão; para plantar os céus, e para fundar a terra, e para dizer a Sião: Tu és o meu povo” ( Is 51:16 );

“E fez a minha boca como uma espada aguda, com a sombra da sua mão me cobriu; e me pôs como uma flecha limpa, e me escondeu na sua aljava” ( Is 49:2 ).

Há um enigma a ser desvendado na profecia de Isaías quando Ele diz que o Messias seria como uma flecha limpa escondida na aljava do Todo-poderoso. A flecha refere-se à filiação divina do Messias, pois flecha na aljava diz da descendência de um homem “Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade” ( Sl 127:4 ). O Messias, por sua vez, tornou-se proteção para os que n’Ele confiam:

“E será aquele homem como um esconderijo contra o vento, e um refúgio contra a tempestade, como ribeiros de águas em lugares secos, e como a sombra de uma grande rocha em terra sedenta” ( Is 32: 2)

Ou seja, Aquele que habitava na eternidade, por ser o Altíssimo ( Is 57:15 ), ao ser introduzido no mundo na condição de Servo do Senhor, viveu o predito pelo salmista: confiou inteiramente no Pai “Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste” ( Jo 11:42 ); “Confiou no SENHOR, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer” ( Sl 22:8 ) compare com “Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus” ( Mt 27:43 ; Is 42:1 ).

O Salmo 91 é profético e messiânico. O salmista registra algumas promessas para o Verbo de Deus que haveria de se fazer homem. O Altíssimo, sendo Senhor de tudo, deixa a sua glória e assume a condição de Filho sobre a sua própria casa ( Sl 47:2 ; Hb 3:6 ). Este foi o acordo estabelecido entre as pessoas da divindade na eternidade, como se lê:

“Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho?” ( Hb 1:5 ).

Na eternidade as pessoas da divindade acordaram entre si e uma delas assumiu a condição de Filho quando introduzido no mundo dos homens. É por isso que as Escrituras refere-se a Cristo como sendo aquele que tudo criou “Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim” ( Hb 3:6 ; Jo 1:3 ; Cl 1:16 ).

No Salmo 110, outra profecia sobre Jesus, o Cristo é descrito como Senhor do salmista e é visto assentado à destra da Majestade nas alturas. No Salmo 110 temos o Cristo ressurreto voltando ao seu lugar por direito, enquanto no Salmo 91 temos uma predição apontando que o Cristo deixaria a sua glória.

Os fariseus relutavam em admitir que o Pai celeste tivesse um Filho, isto porque não observavam as Escrituras:

“Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas numa roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome? E qual é o nome de seu Filho, se é que o sabes? ( Pv 30:4 ).

O Salmo 91 complementa outros salmos. O Salmo 15 diz: “Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte?” ( Sl 15:1 ). Como já analisamos em outros Salmos, somente Jesus andou em sinceridade, praticou a justiça e falou a verdade segundo o seu coração ( Sl 15:3 ). Somente o Cristo de Deus tem olhos capazes de desprezar o réprobo. Somente Ele pode honrar os que temem ao Senhor ( Sl 15:4 ).

O Salmo 24 diz: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem estará no seu tabernáculo?” ( Sl 24:3 ). A resposta é clara e aponta para alguém em específico: “Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente. Este receberá do Senhor a bênção e a justiça do Deus da sua salvação” ( Sl 24:4 -5; Isaías 33:14 -16). Somente Jesus dentre os filhos dos homens foi limpo de mãos e puro de coração, cumpriu toda a lei, recebeu a benção e a justiça.

Por falar especificamente do Messias, o salmista não diz ‘qualquer que’, antes utiliza o pronome demonstrativo ‘aquele’ nos Salmos 15, 24 e 91, isto porque somente o Cristo de Deus nunca foi abalado ( Sl 15:5 ).

O convite do evangelho é universal, visto que ‘todo aquele que crê’ ou ‘qualquer que crer’ receberá vida eterna por Jesus, porém, os Salmos são profecias que apresentam o Cristo de Deus aos homens.

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam;” (João 5:39)

Como parte das Escrituras, os salmos anunciam o Cristo, tornando possível reconhece-lo mesmos com a vinda de muitos outros cristos, e pois somente por Cristo é possível aos homens o ‘conhecimento’ (união intima) de Deus, ou seja, que os homens venham a ser participantes da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

Qualquer homem que queira habitar com o Altíssimo necessita crer em Cristo conforme diz as Escrituras para receber de Deus poder para ser feito filho de Deus ( Jo 1:12 ). Todos quantos forem criados de novo, em verdadeira justiça e santidade, serão, ainda aqui neste mundo, tal qual Cristo é ( 1Jo 4:17 ; 1Co 15:48 ). Ora, se os que creem são tal qual Ele é neste mundo, habitarão onde Ele habita, visto que, onde Ele estiver ali também estarão.

“E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” ( Jo 14:3 ).

Através da desobediência de Adão a geração dos ímpios estabeleceu-se e, através de Cristo, que é o último Adão, a geração dos justos é estabelecida ( Sl 24:6 ). Todos quantos são gerados de novo em Cristo Jesus são limpos de mãos e puros de coração. Estão aptos a residir no lugar santo, visto que os irmãos conduzidos à glória são como o Primogênito, co-herdeiros de Deus ( Rm 8:29 ; Hb 2:10 ).

O Salmo 91 é uma profecia que apresenta dois ‘momentos’ distintos pertinentes ao Verbo de Deus. À ‘época’ que o salmista profetizou, o Verbo de Deus estava habitando no esconderijo do Altíssimo, porém, quando o Verbo se fez carne precisou abrigar-se sob a sombra do Onipotente por estar despido de sua glória.

 

O refúgio do Messias

“Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei” (Salmo 91:2)

Aquele que reside no lugar secreto do Altíssimo haveria de anunciar o nome de Deus aos homens, dizendo: “Ele é o meu Deus, o meu refugio, a minha fortaleza, e n’Ele confiarei” ( Sl 91:2 ). O escritor aos Hebreus cita o Salmo 18 para demonstrar que o próprio Filho disse por intermédio do salmista que colocaria em Deus a sua confiança “E outra vez: Porei n’Ele a minha confiança” ( Hb 2:13 ; Sl 18:1 -2 ; Sl 56:4 ).

Nos Salmos 103 e 104, o salmista demonstra a sua confiança em Deus e o bendiz pela sua grandeza e por tudo o que realizou em prol dos homens, mas o Salmo 91 utiliza o verbo ‘confiar’ no futuro (nele confiarei), o que nos faz questionar se o salmista ainda não confiava em Deus quando escreveu este Salmo.

Na glória, o Verbo eterno não precisava confiar, mas ao ser introduzido no mundo participante da carne e do sangue e sujeito às mesmas paixões que os homens, porém, sem pecado, também precisaria confiar inteiramente em Deus ( Hb 4:15 ).

O verso 2 do Salmo 91 é equivalente à introdução do Salmo 31, quando o salmista deixa registrado as últimas palavras do Messias:

“Em ti, ó Senhor, me refugio; nunca seja eu envergonhado; livra-me pela tua retidão (…) Nas tuas mãos encomendo o meu espírito… ( Sl 31:1 -5).

O Verbo de Deus encarnado, o Filho de Davi haveria de dizer do Senhor: “Ele é meu Deus, o meu refugio, a minha fortaleza”. O salmista predisse que o Messias haveria de confiar plenamente em Deus, até mesmo no momento mais cruento da existência dele entre os homens haveria de se refugiar, abrigar-se em Deus, encomendando o seu espírito.

Se o próprio salmista estivesse bendizendo ao Senhor, não haveria necessidade de utilizar o verbo ‘dizer’ no futuro (direi). Geralmente, os salmistas, quando fazem referência a eventos que lhes são pertinentes dizem: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor” ( Sl 103:1 ). O cântico do salmista Davi é: “No SENHOR confio; como dizeis à minha alma: Fugi para a vossa montanha como pássaro?” ( Sl 11:1 ).

Jesus Cristo homem ao ouvir desde menino a leitura das Escrituras nas sinagogas e no seio da sua família, aliado ao testemunho de sinais e maravilhas que cercaram o evento do seu nascimento, compreendeu pelas Escrituras que Ele era o Messias, o Filho de Deus encarnado. Jesus precisou crer no testemunho que Deus estabeleceu nas Escrituras e descobrir por si mesmo que era o Cristo.

Diante das promessas que o Pai deixou registrado nas Escrituras, Ele creu, para que se tornasse o Autor e Consumador da fé “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” ( Hb 12:2 ); “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” ( Hb 5:8 ).

 

Laços e pestilencias

“Porque Ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com as Suas penas, e debaixo das Suas asas te confiarás; a Sua verdade será o teu escudo e broquel. Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará próximo de ti. Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios” (Salmo 91:3 -8)

Nestes versos estão elencados alguns eventos que não atingiria o Primogênito de Deus quando fosse introduzido no mundo. As promessas de Deus elencadas nestes versos são específicas para o seu Filho.

  • “Porque Ele te livrará do laço do passarinheiro…” – O Filho do homem ‘certamente’ não seria pego nas armadilhas (palavras) dos homens ímpios, por mais engenhosas que fossem. Quando inquiriram o Messias se era lícito pagar tributo a Cesar ( Mt 22:17 ), ou quando apresentaram a mulher pega em ato de adultério ( Jo 8:5 ), tais armadilhas não o enlaçaram “Armaram uma rede aos meus passos; a minha alma está abatida. Cavaram uma cova diante de mim, porém eles mesmos caíram no meio dela” ( Sl 57:6 ; Sl 56:5 ). O profeta Jeremias descreve quem são os ‘passarinheiros’: “Porque ímpios se acham entre o meu povo; andam espiando, como quem arma laços; põem armadilhas, com que prendem os homens. Como uma gaiola está cheia de pássaros, assim as suas casas estão cheias de engano; por isso se engrandeceram, e enriqueceram” (Jr 5:26 -27).
  • “…e da peste perniciosa” – O Filho de Davi era livre do pecado (a peste perniciosa), visto que Ele foi gerado de Deus ( Sl 2:7; 2Sm 7:14 ). Todos os descendentes da carne de Adão, ou seja, que entraram pela porta larga, foram contaminados pelo pecado (ou, vendidos ao pecado como escravos), porém, Jesus, o último Adão, é a porta estreita pela qual todos os homens que querem ser livres do pecado precisam entrar.
  • “Ele te cobrirá com as Suas penas, e debaixo das Suas asas te confiarás” – O Messias haveria de ser protegido, abrigado em segurança na palavra Deus. “TEM misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia de mim, porque a minha alma confia em ti; e à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades” ( Sl 57:1 ).
  • “a Sua verdade será o teu escudo e broquel” – Em todos os ataques dos adversários, a Palavra de Deus (verdade) haveria de ser a defesa de Cristo. Diante dos escribas, fariseus e saduceus Jesus citou as Escrituras. Quando da tentação pelo diabo no deserto, Cristo utilizou a verdade das Escrituras como escudo e broquel (defesa).
  • “Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia” – O ‘terror de noite’, a ‘seta lançada durante o dia’, a ‘peste que se move na escuridão’ e a ‘mortandade que acomete ao meio-dia’ não amedrontou o Messias.

Estes versos possuem alguns enigmas como: noite, escuridão e mortandade.

Quando o homem anda segundo a palavra de Deus, anda na luz, pois a palavra de Deus é lâmpada para os pés e luz para o caminho. A escuridão refere-se à ausência da palavra da verdade ( Is 9:2 ). Diz da palavra de engano que faz com que o homem permaneça na morte “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” ( Ef 4:18 ).

Jesus despojou-se de sua glória e majestade e em tudo se tornou semelhante aos seus irmãos ( Hb 2:17 ), porém, o medo que os homens detinham da morte e do pecado não o acometeu, visto que Ele nunca esteve sujeito a escravidão do pecado, e não se deixou levar pela doutrina de engano ( Hb 2:15 ).

As palavras dos escribas e fariseus constituem-se em laço, armadilhas ( Sl 119:110 ), pois tinha o objetivo de desviar o Cristo de fazer a vontade do Pai. O ‘laço do passarinheiro’ são palavras cheias de engano e malícia que fazem o homem desviar-se do mandamento de Deus “Também os que buscam a minha vida me armam laços e os que procuram o meu mal falam coisas que danificam, e imaginam astúcias todo o dia” ( Sl 38:12 ); “Firmam-se em mau intento; falam de armar laços secretamente, e dizem: Quem os verá?” ( Sl 64:5 ; Pv 13:14 ).

Desde o Éden a ‘peste perniciosa’ assola a humanidade, pois um pecou e todos pecaram. Um morreu e todos morreram ( 1Co 15:21 -22), e passaram a falar segundo os seus corações mentirosos ( Sl 58:3 ). A peste perniciosa não se assemelha a peste negra que dizimou a Europa. Nem tão pouco diz de agentes químicos ou de armas biológicas.

Os filhos do povo do Messias armaram diversas armadilhas com o fito de ‘pegar’ o Cristo nalguma contradição, porém, somente eles permaneceram enlaçados.

“Armaram uma rede aos meus passos; a minha alma está abatida. Cavaram uma cova diante de mim, porém eles mesmos caíram no meio dela” ( Sl 57:6 ; Sl 56:5 ; Mt 22:17 ; Jo 8:5 );

“Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina, E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados” ( 1Pe 2:6 -8; Rm 9:33 ).

O Filho de Davi desde o ventre de Maria era livre do pecado (a peste perniciosa), visto que Ele foi lançado na madre por Deus ( Sl 22:10 ) e gerado pelo Espírito Eterno ( Sl 2:7; 2Sm 7:14 ). Todos os descendentes da carne de Adão, a porta larga por quem todos os homens entram ao virem ao mundo, foram contaminados pelo pecado (o mesmo que ser vendidos ao pecado como escravos), porém, Jesus, o último Adão, é a porta estreita pela qual todos os homens que creem torna-se livres do pecado.

A proteção de Deus dispensada ao Messias era específica: “Ele te cobrirá com as Suas penas, e debaixo das Suas asas te confiarás” (v. 4). Da mesma forma que a galinha protege os seus pintainhos debaixo de suas asas, o Cristo estava seguro debaixo das asas do Onipotente “TEM misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia de mim, porque a minha alma confia em ti; e à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades” ( Sl 57:1 ; Sl 63:7 e Sl 61:4 ).

A verdade ou a fidelidade de Deus foi constituída como escudo e broquel do Messias. Todos os adversários vieram contra Ele utilizando-se de palavras de engano, mas na Palavra de Deus (verdade e fidelidade) estava a defesa de Cristo. Diante dos religiosos Judeus, Jesus apresentou as Escrituras em sua defesa. Quando tentado pelo diabo no deserto, Cristo fez uso das Escrituras.

Há pessoas que ficam até arrepiadas quando leem o verso seguinte por falta de compreensão: “Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia” (v. 5 ). Este verso é resumo do exposto profeticamente pelo Salmo 64:

“OUVE, ó Deus, a minha voz na minha oração; guarda a minha vida do temor do inimigo. Esconde-me do secreto conselho dos maus, e do tumulto dos que praticam a iniquidade. Que afiaram as suas línguas como espadas; e armaram por suas flechas palavras amargas, A fim de atirarem em lugar oculto ao que é íntegro; disparam sobre ele repentinamente, e não temem. Firmam-se em mau intento; falam de armar laços secretamente, e dizem: Quem os verá? Andam inquirindo malícias, inquirem tudo o que se pode inquirir; e ambos, o íntimo pensamento de cada um deles, e o coração, são profundos” ( Sl 64:1 -6).

Os soldados geralmente são atormentados pelo medo do inimigo quando no campo de batalha. Durante a noite a possibilidade do ataque sorrateiro do inimigo é um tormento, e durante o dia, os perigos que as flechas inimigas representam também atemorizam. O inimigo ataca nas trevas, ou seja, quando lhe falta a luz do entendimento da palavra de Deus. A setas são ataques deferidos contra o Messias enquanto ele se fazia presente entre os homens ( Jo 12:35 -36).

Mas, por confiar no Pai é que a confiança do Messias é expressa no Salmo 64: – “Guarda a minha alma do temor do inimigo!” (v. 1) Quais seriam as armas dos inimigos dos Messias? A resposta é: a língua!

“A minha alma está entre leões, e eu estou entre aqueles que estão abrasados, filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas, e a sua língua espada afiada ( Sl 57:4 );

Aguçaram as línguas como a serpente; o veneno das víboras está debaixo dos seus lábios” ( Sl 140:3 ).

Os inimigos de Davi possuíam espadas afiadas, mas o Filho de Davi, o Messias, enfrentaria homens que possuíam as línguas afiadas como se fossem espadas. As setas deles constituíam-se em palavras amargas! Secretamente engendravam planos para dar cabo do Messias ( Jo 11:53 ), mas sendo a Palavra de Deus escudo e broquel, o Messias não seria atingido.

Por se desviarem da palavra do Senhor, os filhos de Israel tornaram-se uma vinha que produzia vinho venenoso “O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” ( Dt 32:33 ). Este veneno estava na língua dos filhos do povo de Jacó “Aguçaram as línguas como a serpente; o veneno das víboras está debaixo dos seus lábios. (Selá.)” ( Sl 140:3 ). Mas, Jesus sabia desta peculiaridade:

“Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

 

Mil à direita e dez mil à esquerda

“Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará próximo de ti. Somente com os teus olhos contemplarás, e verás a recompensa dos ímpios” (Salmo 91:7 -8)

Para evitar a queda de muitos, o precursor do Messias foi enviado para que fosse arrancado os tropeços do caminho do povo para que não rejeitassem a Cristo “E dir-se-á: Aplanai, aplanai a estrada, preparai o caminho; tirai os tropeços do caminho do meu povo” ( Is 57:14 ).

Há muito o profeta Isaías predisse que os moradores das duas casas de Israel haveriam de tropeçar por se escandalizar do Cristo “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” ( Is 8:14 ).

A queda de milhares estava prevista, pois tropeçariam na pedra de esquina “E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados” ( 1Pe 2:8 ).

O Cristo não precisaria fazer nada com relação aos ímpios, antes só olhar a recompensa deles ( Sl 56:7 ). Por quê? Porque Cristo escolheu o Senhor como refúgio, o Deus que tudo executa para o Messias ( Sl 57:2 –3); “E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” ( Jo 12:47 ).

Jesus não veio para condenar, antes para salvar, portanto, ele não emitia juízo acerca das pessoas ( Jo 8:15 ; Jo 12:47 ).

 

Deus é refúgio

“Porque Tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a Tua habitação” (Salmo 91:9)

Todas as promessas seriam levadas a efeito porque o Messias fez do Altíssimo o seu lugar de refugio. Este verso remete ao pensamento do verso 1: O Verbo habitava o lugar oculto do Altíssimo, porém, após ser introduzido no mundo como Primogênito de Deus, o Verbo encarnado passou a descansar na sombra do Onipotente ( Sl 57:1 ).

Aquele que fez a sua habitação (refugiou-se) no Altíssimo (v. 9) é quem reside no esconderijo do Altíssimo (v. 1). Quem fez a sua morada no Altíssimo? O único homem que fez a sua morada no Altíssimo foi o Descendente prometido a Davi, o Senhor que o salmista viu à mão direita de Deus.

 

Proteção perene

“Nenhum mal Te sucederá, nem praga alguma chegará próximo da Tua tenda. Porque aos Seus anjos dará ordem a Teu respeito, para Te guardarem em todos os Teus caminhos. Eles Te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o Teu pé contra uma pedra. Pisarás sobre o leão e a cobra; calcarás aos pés o leão jovem e o dragão” (Salmo 91:10 -13)

Quando Jesus nasceu, muitas crianças foram mortas, porém, mal algum O atingiu. A sua família mudou-se para o Egito, e nenhuma praga acometeu a sua família terrena ( Mt 2:16 ). Aos anjos foi dado ordem acerca do Messias para guardá-lo em todos os seus caminhos. Eles haveriam de amparar o Cristo para livrá-lo de todo mal ( Sl 57:3 ; Sl 56:13 ).

O diabo ciente de que as promessas da profecia deste Salmo faziam referência a Cristo, lançou mão do Salmo 91 para tentá-Lo. E o diabo disse:

“Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo. Pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e eles te tomarão nas mãos, para que não tropeces nalguma pedra” ( Mt 4:6 ).

Observe que:

  • O diabo conhece as Escrituras;
  • Lançou dúvidas acerca da filiação do Messias;
  • Estabeleceu um teste para por à prova a filiação divina de Cristo;
  • Deu uma ordem com falso embasamento nas Escrituras;
  • Ele sabia que o cuidado de Deus estipulado no Salmo 91 para o Messias visava protegê-Lo de ataques direto dos anjos decaídos e dos homens maus ( Sl 56:5 ; Mt 2:12 e Mt 2:13 );

O diabo sabia que Deus não interfere nas decisões dos homens, e que, se Cristo decidisse pular, não seria socorrido, antes sofreria as consequências da sua decisão, assim como sofreu o primeiro Adão.

Através da verdade (v. 4) que é escudo e broquel, Jesus respondeu: “Também está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus” ( Mt 4:7 ). A confiança deriva do amor e da fidelidade de Deus ( Sl 57:3 b), atributos imutáveis, visto que ao prometer, Ele se interpôs com juramento, segundo o seu conselho. Duas coisas imutáveis ( Hb 6:18 ).

O Messias estava descansado à sombra do Onipotente, ou seja, ciente da proteção divina em todos os seus caminhos e que não haveria de ‘tropeçar’, porém, tal proteção não englobava forçar Deus agir.

Foi dado poder ao Filho do homem para andar entre o leão e a cobra. Acerca da serpente temos uma profecia no Gênesis: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e o seu descendente; este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” ( Gn 3:15 ).

Além de ter ferido a cabeça da serpente, o Salmo 57 demonstra que os filhos do povo do Messias são comparáveis às bestas famintas, ou seja, aos leões “A minha alma está entre leões; estou deitado entre bestas famintas, homens cujos dentes são lança e flechas, e cuja língua é espada afiada” ( Sl 57:4 ).

As ações destes homens resumem-se em atacar o Cristo com palavras, mentiras forjadas em seus conselhos malignos com o intento de matar o enviado de Deus ( Sl 1:1 ). Porém, mesmo entre leões e áspides, o Messias permaneceu descansado (deitado), pois confiava em Deus.

 

Vida eterna ao Filho

“Porquanto tão encarecidamente Me amou, também Eu O livrarei; pô-Lo-ei num alto retiro, porque conheceu o Meu nome. Ele Me invocará, e Eu Lhe responderei; estarei com Ele na angústia; dela O retirarei, e O glorificarei. Fartá-lo-ei com longura de dias, e Lhe mostrarei a Minha salvação” (Salmo 91:14 -16)

Até o verso 13 do Salmo 91 o salmista profetiza, do verso 14 ao 16, ele transcreve o que o Senhor diz, ou seja, mudou a pessoa do discurso.

Como o Messias descansou (confiança), o Pai Eterno O livrou “Pois tu livraste a minha alma da morte, como também os meus pés de tropeçarem, para que eu ande diante de Deus na luz da vida” ( Sl 56:13 ). Enquanto no Salmo 91 temos uma profecia em que o Senhor protocola uma promessa de livramento que seria concedido ao Messias, no Salmo 56 temos o Messias declarando que havia sido resgatado da morte.

Por ‘conhecer’ (união intima) o Pai, Cristo foi posto num alto retiro, ou seja, à destra de Deus nas alturas ( Sl 110:1 ; Jo 10:30 ). A palavra ‘conhecer’ tem dois significados na Bíblia. Um dos significados é ‘ter ciência de algo’, ‘saber acerca de’, porém, o significado que o termo ‘conhecer’ tem neste Salmo é o de comunhão íntima.

Do mesmo modo que o Pai e o Filho são pessoas distintas, e, no entanto, são um ( Jo 10:30 ), todos quantos crerem no Filho são um com o Pai e o Filho ( Jo 17:21 -23).

Cristo haveria de invocar o Senhor ( Sl 56:1 ; Sl 57:1 ), e Deus haveria de respondê-lo. E como Deus haveria de respondê-lo? Não deixando o Cristo à mercê da angustia? Não! Deus não prometeu livrá-lo da angustia, antes prometeu estar com Ele durante o período da angustia. Para que Deus estivesse presente na angustia, necessariamente o Cristo deveria ser e foi angustiado “E tomou consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, e começou a ter pavor, e a angustiar-se” (Mc 14:33 ).

Cristo não foi abandonado na cruz, antes o Pai o ouviu e o atendeu ( Sl 22:24 ). Pelo fato de ter citado as Escrituras quando estava na cruz, muitos reputam que Cristo foi abandonado, mas esta má leitura ocorre quando as pessoas não conseguem ver que os salmos são profecias ( Sl 22:1 ; Mt 27:46 ).

Como lemos nos evangelhos, Jesus clamou ao Pai no Getsêmani, porém, Ele foi angustiado até a morte, e morte de cruz “Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar” ( Mt 26:36 ). O Messias foi glorificado quando entregou ao Pai o seu espírito, momento em que o Pai O retirou da angustia “Em ti, ó Senhor, me refugio; nunca seja eu envergonhado; livra-me pela tua retidão (…) Nas tuas mãos encomendo o meu espírito…” ( Sl 31:1 -5).

O Cristo de Deus foi glorificado com a glória que Ele tinha antes de ser introduzido no mundo, e entrou no descanso do Pai até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés.

“E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” ( Jo 17:5 ).

A promessa do Pai para o Filho é abundância de dias, longura, ou seja, vida eterna “Vida te pediu, e lha deste, mesmo longura de dias para sempre e eternamente” ( Sl 21:4 ). O Filho do homem viu a salvação de Deus:

“Tu és o mais formoso dos filhos dos homens e os lábios foram ungidos com a graça, por isso Deus te abençoou para sempre. Cinge a tua espada à coxa, ó valente; cinge-te de glória e majestade” ( Sl 45:2 -3).

A cerca do Verbo Eterno que assumiu a condição de Filho, o Salmo 45 declara: “O teu trono , ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a retidão e odeias a impiedade; portanto Deus, o teu Deus te ungiu com o óleo de alegria, mais do que a teus companheiros” ( Sl 45: 6 -7 ; Hb 1:8 ).

Agora que você sabe que estas promessas foram feitas para o Filho do homem e, que elas dizem do Cristo, creia no enviado de Deus, Jesus Cristo homem, que foi morto e glorificado ( 1Tm 3:16 ; Rm 1:2 -4), para que você possa receber de Deus poder para ser feito um dos seus filhos ( Jo 1:12 ). Através da fé em Cristo você passará a ser co-herdeiro de Deus e participante das promessas “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” ( 2Co 1:20 ; 2Pe 1:4 ).

Você que creu em Cristo conforme diz as Escrituras ( Jo 7:38 ), e que é, portanto, uma nova criatura ( 2Co 5:17 ), não pode se deixar levar por crendices várias, tais como rezas e orações com trechos de Salmos, ou de qualquer outra parte das Escrituras.

Não se deixe levar por supostos ‘desafios de fé’, onde certas pessoas incitam os seus ouvintes a doarem seus bens ou que se lance em certas promessas, que muitas das vezes são vazias. Dizeres como: “Se você não for abençoado rasgo a minha Bíblia!”; “Se você tem fé doe o melhor, ou doe tudo”.

A Bíblia garante que todos os que creem já receberam de Deus todas as bênçãos espirituais ( Ef 1:3 ; 2Pe 1:3 ). Se alguém promete bênçãos que não estejam elencadas no capítulo 1 da carta de Paulo aos Efésios, ou às que estão enumeradas no Salmo 103, desconfie.

Da mesma forma que o Pai prometeu ao Filho estar com Ele na angustia, Jesus também prometeu aos que creem estar com eles todos os dias ( Mt 28:20 ). Para que tivessem paz, alertou que, no mundo os cristãos terão aflições ( Jo 16:33 ). Qualquer que prometa livrá-lo das aflições diárias, não fala conforme a verdade do evangelho, visto que o próprio Cristo não prometeu livrar os cristãos das aflições, antes avisou que seriam suscetíveis as aflições.

Os cristãos devem estar certos que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus e que em todas as coisas são mais que vencedores “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” ( Rm 8:28 ); “Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou” ( Rm 8:37 ).

 

Claudio Crispim