Tamar e Judá

Tamar andou por fé, ao crer em uma mensagem, que tinha por alvo todos os descendentes da carne de Abraão, não em uma promessa feita, diretamente, a ela. Pela fé de Tamar Cristo é o Leão da Tribo de Judá.


Tamar e Judá

“Mais justa é ela do que eu, porquanto, não a tenho dado a Selá, meu filho.” (Gênesis 38:26)

Introdução

Todos os cristãos declaram, com alegria, conforme consta no Livro do Apocalipse, que o Senhor Jesus Cristo é o Leão da Tribo de Judá!

“E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos” (Ap 5:5).

Judá foi abençoado por Jacó, seu pai, com a seguinte bênção:

“Judá, a ti te louvarão os teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de teus inimigos; os filhos de teu pai a ti se inclinarão. Judá é um leãozinho, da presa subiste, filho meu; encurva-se e deita-se como um leão,  como um leão velho; quem o despertará? O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador. dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos. Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta à cepa mais excelente; ele lavará a sua roupa no vinho e a sua capa em sangue de uvas. Os olhos serão vermelhos de vinho e os dentes brancos de leite” (Gn 49:8-10).

A bênção anunciada por Jacó aos seus filhos, dizia acerca de um futuro distante (Gn 49:1) e destaca a linhagem de Judá como leão, no auge da sua força, que a realeza pertenceria à casa de Judá e dela nasceria o Cristo, o regente dos povos. Daí advém à designação de ‘Leão da Tribo de Judá’, à raiz de Davi, que é dada ao Messias.

Entretanto, Judá figura como um dos ascendentes de Cristo, pela ação de uma mulher estrangeira, Tamar, a nora de Judá. Tamar creu na promessa do Descendente feita a Abraão, Isaque e Jacó e agiu segundo a palavra da promessa, quando buscou descendência para o seu marido.

 

A história

Tudo começou com Judá, o quarto filho de Jacó e de Lia, a primeira esposa de Jacó, a que foi desprezada (Gn 35:23). Em vez de buscar para si uma esposa, em meio à sua parentela, como fizeram Isaque e Jacó, Judá apartou-se de seus irmãos, logo após ele, Judá e seus irmãos, venderem José para os ismaelitas (Gn 37:28).

Judá foi morar em Adulão, na casa de um homem chamado Hira. Em Adulão, Judá conheceu a filha de um cananeu, Sua, e teve três filhos: Er, Onã e Selá. Judá escolheu uma mulher para Er, o seu filho primogênito, uma canaanita de nome Tamar.

O casamento de Er e Tamar não durou muito, pois ele era perverso diante de Deus, pelo que Deus o matou (Gn 38:7). Judá, com cuidado da sua linhagem, deu ordem ao seu segundo filho, Onã, para deitar-se com Tamar e assim, o seu filho do meio cumpriria o dever de cunhado, suscitando linhagem ao seu irmão Er (Gn 38:8).

Onã, por sua vez, sabendo que a linhagem não lhe pertenceria, antes, seria do seu irmão Er, sempre que se unia a Tamar, mulher do falecido, lançava o sêmen na terra, com o propósito de não dar descendência ao seu irmão (Gn 38:9). Em função desse posicionamento mesquinho, Deus matou Onã (Gn 38:10).

Observe que Onã não foi morto em função de utilizar o método contraceptivo mais antigo da história: lançar o sêmen na terra (coito interrompido), mas, sim, por negar descendência ao seu irmão. Entender, com base nesta passagem bíblica, que os métodos contraceptivos constituem pecado, é tremendo equívoco, pois, o mal praticado por Onã resume-se em:

a) não dar descendência ao seu irmão, e;

b) enganar Judá, se passando por obediente.

Com a morte de dois filhos, Judá não quis dar o seu filho mais novo à Tamar, pois pensou que Selá também poderia morrer. Com medo, Judá combinou com Tamar que daria o seu filho mais novo, posteriormente, quando Selá se tornasse homem, e assim cumpriria a obrigação de cunhado.

Percebe-se, através do pensamento de Judá, que ele inferiu que Tamar poderia levar o seu terceiro filho à morte, como se o problema estivesse em Tamar. Ele nem mesmo aventou a maldade dos seus filhos diante de Deus, porque foi a maldade deles que os levou à morte.

A maldade dos filhos de Judá, que morreram, estava no fato de não quererem filhos, tanto Er quanto Onã. Alguém pode se perguntar: Onde está a maldade em alguém não querer ter filhos? Para qualquer outra família na face da terra não havia e continua não sendo mal algum, mas para os descendentes de Abraão, Isaque e Jacó a maldade resume-se na falta de confiança na promessa que Deus fez a Abraão.

Todos da casa de Judá tinham conhecimento da promessa que Deus fez a Abraão, Isaque e Jacó. Todos sabiam que Deus abençoara a Abraão, o bisavô de Judá, concedendo a ele um filho, sendo Sara, mulher de Abraão, estéril, que deu à luz com 90 anos. Com Isaque, que nasceu segundo a promessa, não foi diferente, pois, Rebeca, também, era estéril e deu à luz gêmeos: Esaú e Jacó.

Como ignorar o fato de que Raquel, também, estéril, tivera dois filhos: José e Benjamim? Mas, os dois filhos de Judá, Er e Onã não fizeram caso do que souberam, através de seu pai, pois não se portaram segundo a palavra que ouviram. Nem mesmo Judá considerou a promessa e a fé de Abraão, ao negar o seu filho mais novo a Tamar.

“Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, o ressuscitar” (Hb 11:18).

O rei Ezequias foi outro descendente de Abraão, que esteve à beira da morte, por não prover descendência à casa de Abraão e Davi. Quando lhe foi dito, por intermédio do profeta Isaías: “Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa porque morrerás e não viverás”, tal alerta se deu por Ezequias não ter filhos, até aquele momento. (II Rs 20:1)

‘Casa’, no texto, refere-se à descendência, diferentemente do que muitos pensam, que se tratava de alguma dívida, ofensa, mágoa ou dano que Ezequias deveria reparar. Ezequias não iria morrer por erros cometidos, visto que ele mesmo declarou que andava em verdade diante de Deus e fazia o que era bom aos olhos de Deus, antes iria morrer por se postar como obstáculo à linhagem messiânica, não provendo descendência para si. (II Rs 20:3)

Como Deus prometeu a Davi que lhe edificaria casa, Davi ficou admirado que Deus falasse acerca da sua linhagem, para tempos distantes (2 Sm 7:19). Ao dar mais 15 anos a Ezequias, Deus assim o fez, por duas razões: a) o amor ao Seu nome e; b) pela promessa que fez a Davi (2 Rs 20:6). Se Ezequias acreditava na palavra de Deus, anunciada a Abraão e a Davi, deveria se preocupar em ter filhos.

Quando Ezequias morreu, o seu filho Manassés reinou em Israel, com apenas doze anos de idade, demonstrando que, após a palavra do Senhor, Ezequias ainda demorou três anos para colocar a sua ‘casa’ em ordem! (2 Rs 21:1)

Tamar, por sua vez, apesar de estrangeira, ao ficar sabendo da história da família de Judá, diferentemente dos seus filhos, considerou as histórias que ouviu, acerca da promessa feita a Abraão e buscou linhagem para o seu marido.

Por que podemos inferir que Tamar soube da promessa? Porque Abraão ensinou aos seus filhos e à sua casa, depois dele, para guardarem o estabelecido por Deus, conforme se lê:

“Porque eu o tenho conhecido e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa. depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (Gn 18:19).

A filha de Sua, mulher de Judá, faleceu muito tempo depois da promessa que Judá fez a Tamar, o que demonstra que Judá não iria cumprir a sua palavra. Depois de consolado da sua viuvez, Judá, juntamente com o seu amigo, Hira, subiu a tosquiar as ovelhas. Tamar, por sua vez, foi avisada que Judá estava se deslocando para Timna, onde ficavam os tosquiadores de suas ovelhas.

Como havia passado o tempo e como Tamar percebeu que o seu sogro não lhe daria o seu filho mais novo (visto que Selá já era homem), ela tirou os vestidos da sua viuvez, cobriu-se com um véu para se disfarçar e assentou-se à entrada de Enaim, caminho de quem ia a Timna (Gn 38:14).

Ao passar por Tamar, por causa do véu, Judá não reconheceu a sua nora e considerou que fosse uma prostituta e lhe propôs: – ‘Vem, deixa-me dormir contigo! ’ Sem se revelar, disse Tamar: – ‘Que darás para dormires comigo?’ e Judá prometeu pagar Tamar com um cabrito do rebanho.

Tamar solicitou uma garantia de que o pagamento seria honrado, então, Judá aquiesceu e perguntou: – ‘Que penhor é que te darei?’. Na sequência, ela solicitou o selo de Judá, com o seu cordão, bem como, o cajado que portava. Judá deu o penhor e, sem reconhecer Tamar, dormiu com sua nora e ela concebeu.

Tamar voltou para a casa do seu pai e cobriu-se com o vestido de sua viuvez! Judá, por mão do adulamita, enviou o pagamento para rever os objetos penhorados, porém, Hira não localizou a mulher, que julgava ser uma prostituta cultual. Após ser informado de que a prostituta não foi localizada, Judá, preocupado com a sua honra, deixou pra lá o penhor, pois apesar de enviar o pagamento, não a localizou.

Passado três meses, trouxeram ao conhecimento de Judá que a sua nora Tamar havia adulterado, pois estava grávida. Judá, de pronto, ordenou que ela fosse tirada da casa de seu pai e queimada. Mas, enquanto era conduzida para ser queimada, Tamar, de posse do penhor, informa aos seus algozes que aqueles objetos pertenciam ao pai da criança e que o seu sogro verificasse a quem pertenciam os objetos.

Ao ver os seus pertences, Judá os reconheceu e declarou sua nora mais justa que ele, pelo motivo de não ter dado o seu filho Selá, para cumprir a obrigação de cunhado, costume que, posteriormente, na lei, foi nomeadode ‘Lei do levirato’.

“Mais justa é ela do que eu, porquanto não a tenho dado a Selá, meu filho.” (Gênesis 38:26)

 

Tamar, uma mulher justa

Para a nossa análise, é imprescindível desvencilhar-se da lente moral, própria à nossa sociedade e ao nosso tempo. Os valores socioculturais, à época, eram completamente diversos da nossa, e não servem de exemplo para pautarmos as nossas condutas, hoje, e nem para tecermos críticas aos personagens bíblicos.

A análise do texto deve ter o mesmo prisma do historiador que escreveu o Livro de Gênesis, que não emitiu nenhum juízo de valor, nem em relação à conduta de Judá, por buscar uma prostituta, e nem em relação à Tamar, que se disfarçou para deitou-se com o seu sogro.

Para compreender as relações sociais à época, se faz necessário levar em conta alguns princípios de análise apontados por Jaeger, em sua obra ‘Paideia – A formação do Homem Grego’, com relação ao emprego de termos gregos utilizados na antiguidade, que, devido às transformações culturais, acabaram sendo considerados hoje com sentido completamente diverso de quando foi utilizado:

“… a unidade originária de todos aqueles aspectos – unidade vincada na palavra grega – e não na diversidade sublinhada e consumada pelas locuções modernas (…) Ao empregar um termo grego para exprimir uma coisa grega, quero dar a entender que essa coisa se contempla, não com os olhos do homem moderno, mas sim, com os do homem grego”. JAEGER, W. Paideia – A formação do Homem Grego, tradução de Artur M. Parreira, 4ª ed., São Paulo, Ed. Martins Fontes, 2001, p. 01.

O único juízo de valor que encontramos no texto é o de Judá que, ao saber da gravidez de Tamar,  mandou queimá-la, quando arguido, reconheceu os seus pertences pessoais e, de pronto, justificou a Tamar, visto não ter dado o seu filho mais novo a ela.

Percebe-se, pelo texto, que a moral vigente à época era honrar o contrato, cumprir como prometido, tanto que Judá não queria ser infamado, por não ter quitado a dívida com uma prostituta, deixando de mão o penhor que havia entregue como garantia de pagamento. No entanto, não considerou que cairia em desprezo, se não cumprisse a palavra que dera a Tamar, acerca do seu filho mais novo, Selá.

“Então disse Judá: Deixe-a ficar com o penhor, para que, porventura, não caiamos em desprezo; eis que tenho enviado este cabrito; mas tu não a achaste” (Gn 38:23);

“Então disse Judá a Tamar, sua nora: Fica-te viúva na casa de teu pai, até que Selá, meu filho, seja grande” (Gn 38:11).

Judá considerou uma desonra não honrar a sua palavra com uma prostituta, mas não honrou a sua palavra com a sua nora, que teve que permanecer viúva na casa do pai dela. Judá teve a vida do seu filho caçula por preciosa, em detrimento da promessa feita a Abraão e da obrigação de prover linhagem a Er, seu filho primogênito.

Tamar, por sua vez, sendo estrangeira e participante da família, pelo casamento, mesmo após a morte do marido, não teve a sua vida por preciosa e buscou descendência para o seu marido. Podemos afirmar de Tamar, que ela foi uma mulher sábia, pois edificou casa ao seu marido, mesmo ele sendo perverso aos olhos de Deus.

“Toda mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos” (Pv 14:1).

Prover descendência ao marido é o papel da mulher sábia e assim Tamar o fez, ao deitar-se com seu sogro, como se fosse prostituta e, ao ter a perspicácia de guardar consigo o penhor.

Outras mulheres, em Israel, não tiveram sabedoria semelhante a Tamar, a exemplo de Mical, que foi amaldiçoada pelas palavras que proferiu em desfavor de Davi, justo no dia em que Davi voltava com a Arca do Conserto e tencionava abençoar a sua casa.

“E sucedeu que, entrando a arca do SENHOR na cidade de Davi, Mical, a filha de Saul, estava olhando pela janela; e vendo ao rei Davi, que ia bailando e saltando, diante do SENHOR, o desprezou no seu coração (…) E voltando Davi para abençoar a sua casa, Mical, a filha de Saul, saiu a encontrar-se com Davi e disse: Quão honrado foi o rei de Israel, descobrindo-se hoje aos olhos das servas de seus servos, como sem vergonha alguma, se descobre qualquer dos vadios (…) E ainda mais do que isto me envilecerei e me humilharei aos meus olhos; mas das servas, de quem falaste, delas serei honrado. E Mical, a filha de Saul, não teve filhos, até o dia da sua morte” (2 Sm 6:16 e 20 e 22-23).

Observe que Tamar se disfarçou de prostituta para alcançar o que lhe era de direito e não para defraudar o seu sogro. Mical, por sua vez, por ser filha de Saul, considerou-se da realeza e desprezou Davi, por comemorar o retorno da Arca da Aliança para a cidade de Jerusalém.

Ouvir bem as histórias da família do seu marido Er, deu a Tamar os elementos necessários para ela alcançar o que era, por direito, da casa do seu marido. Uma das histórias foi a de Jacó, que em conluio com sua mãe, Rebeca, enganou seu pai, Isaque, para garantir o direito que havia adquirido do seu irmão Esaú (Gn 25:33). Outra, que possivelmente auxiliou Tamar, foi a história das filhas de Ló, que proveu linhagem ao seu pai após embriagá-lo (Gn 20:32).

Tamar estava convicta de que necessitava prover descendência ao seu marido, pois quando Er morreu, ficou livre da lei do seu marido, podendo voltar para casa dos seus pais ou casar-se novamente, mas, não quis. Porém, para honrar Er, Tamar sujeitou-se ao seu sogro, quando este instou ao seu filho Onã para cumprir o dever de cunhado, e posteriormente, continuou guardando a sua viuvez na casa do seu pai.

Durante o tempo que Tamar esperou Judá para dar-lhe o seu filho mais novo, ela não se desfez do seu luto e nem do vestido da sua viuvez, permanecendo na casa do seu pai.

Portanto, a atitude de Tamar demonstra que ela era mais zelosa da promessa feita a Abraão acerca do Descendente, do que Judá e os seus filhos. O titulo ‘O Leão da Tribo de Judá’, que hoje pertence a Cristo, se deve a Tamar, uma mulher estrangeira, que proveu descendência a Judá e, assim, figura na linhagem de Cristo.

“Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou a Isaque e Isaque gerou a Jacó;  Jacó gerou a Judá e a seus irmãos; e Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão;  Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom;  Naassom gerou a Salmom; e Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; e Boaz gerou, de Rute, a Obede; e Obede gerou a Jessé; e Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão, da que foi mulher de Urias. E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo” (Mt 1:1 -16)

Tamar figura entre as três mulheres que aparecem na genealogia de Jesus, desde a promessa feita a Abraão, até o nascimento de Cristo. Vale destacar que as três mulheres que figuram na linguagem de Cristo eram estrangeiras:

a)      Tamar era cananéia;

b)      Raabe, a prostituta, morava em Jericó, e;

c)      Rute, uma moabita.

Muito tempo após Tamar prover descendência a Judá, Jacó, próximo da sua morte, chamou os seus filhos e os abençoou. E assim, coube a seguinte benção a Judá:

“Judá, a ti te louvarão os teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de teus inimigos; os filhos de teu pai a ti se inclinarão. Judá é um leãozinho, da presa subiste, filho meu; encurva-se e deita-se como um leão, e como um leão velho; quem o despertará? O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos. Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta à cepa mais excelente; ele lavará a sua roupa no vinho e a sua capa em sangue de uvas. Os olhos serão vermelhos de vinho e os dentes brancos de leite” (Gn 49:8-12).

A bênção concedida a Judá veio através de Peres, que Judá gerou de Tamar e da Tribo de Judá descende o Cristo.

 

Tamar, mulher de fé

Percebe-se, pela disposição de Tamar em dar descendência ao seu marido, que ela não tinha interesse em bens materiais, como herança, dote, recompensa, etc.

Bastou Tamar, uma mulher estrangeira, fazer parte da família de Judá e, ouvir as histórias dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, para crer na vinda do Descendente. Ela creu na palavra de Deus e executou a obra exigida: procurou manter a linhagem do seu marido e, por isso, foi bem-aventurada no seu feito (Tg 1:22-25).

Tamar, como Abraão e Raabe, agiu conforme a palavra de Deus. Tamar agiu tendo por base a palavra de Deus, assim como Abraão, que ofereceu o seu único filho em holocausto, porque Deus lhe ordenara. Raabe, a prostituta, ouviu acerca dos filhos de Israel, mas foi justificada por ter acolhido os espias em sua casa, pondo em risco a própria vida (Tg 2:21-25).

Para o Descendente prometido a Abraão vir ao mundo, era imprescindível manter a linhagem dos filhos do patriarca, sendo certo, pelas profecias, que Deus havia eleito a linhagem de Jacó (Gn 25:23), e, assim, todos os filhos de Jacó tinham obrigações em relação à promessa feita a Abraão, Isaque e Jacó, tendo filhos.

“Porque eu o tenho conhecido e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa, depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão, o que acerca dele tem falado” (Gn 18:19).

“E disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó; não te chamarás mais Jacó, mas Israel será o teu nome e chamou-lhe Israel. Disse-lhe mais Deus: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, frutifica e multiplica-te, uma nação, sim, uma multidão de nações sairá de ti e reis procederão dos teus lombos; e te darei a ti a terra que tenho dado a Abraão, a Isaque e à tua descendência, depois de ti, darei a terra” (Gn 35:10-12).

Parecia improvável o Descendente vir da casa de Judá, visto que ele não permaneceu junto da sua família e não tomou mulher dentre a sua parentela. Mas, o engajamento de Tamar, com base na palavra de Deus, anunciada à casa de Jacó, foi de suma importância para a benção repousar na Tribo de Judá.

Some-se a isso, a possibilidade de Tamar ter ouvido as histórias acerca de Simeão e Levi, na questão da violação de Diná, em que foram violentos e sanguinários, sem consideraram que as suas ações expuseram a casa de Jacó ao extermínio (Gn 34:30). Tamar, possivelmente, ouviu acerca de Rúben, o primogênito de Jacó, que subiu ao leito de seu pai, quando se deitou com Bila (Gn 35:22).

Se a linhagem escolhida por Deus fosse decorrente de Lia, a mulher de Jacó que era desprezada, a casa de Judá poderia ser eleita, tendo em vista as ações mesquinhas de Rúben, Simeão e Levi (Gn 49:3 -7), pois nada que fizeram visava à preservação da linhagem de Israel, mas, sim, atender a interesses particulares.

Analisando a conduta de Tamar, temos que, comer carne e não comer, não é pecado. Mas, se alguém tem dúvidas, acerca do que comer ou do que não comer, mas, come, está condenado. O problema não está na carne e nem no ato de comer, mas, antes, na base do conhecimento de quem come.

Se quem come está certo em Cristo, de que nenhuma coisa é imunda, não está condenado. Mas, se alguém come, todavia, se não está certo em Cristo, de que tal comida não é imunda, encontra-se em condenação, pois tudo o que não é proveniente da fé, é pecado.

“Eu sei e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda (…) Mas, aquele que tem dúvidas, se come, está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé, é pecado” (Rm 14:14 e 23).

Se a ação de Tamar, ao enganar Judá, fosse somente para adquirir algum tipo de lucro, vingança, vã glória, etc., seria pecado. Mas, como a ação dela tinha por objetivo a promessa, visto que ela desejava descendência ao seu marido, a sua iniciativa de conceber do sogro não foi pecado.

Some-se a isso, o fato de Tamar buscar o que lhe era de direito: a descendência ao seu marido e não os seus sonhos, riquezas, vingança, etc.

Quando a Bíblia diz que o justo viverá da fé, entendemos que a ‘fé’ é a palavra de Deus:

“Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas, o justo pela sua fé viverá (Hc 2:4);

“E te humilhou e te deixou ter fome, te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR, viverá o homem (Dt 8:3);

A palavra de Deus é o temor que desvia o homem do pecado:

“E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis (Êx 20:20);

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti (Sl 119:11).

Tamar tornou-se exemplo em Israel e passou a ser louvada pela descendência que proveu a Judá, porque pautou a sua vida, segundo o que ouvira de sua nova família:

“E seja a tua casa, como a casa de Perez (que Tamar deu à luz a Judá), pela descendência que o SENHOR te der desta moça” (Rt 4:12).

 

Exemplo de fé para os homens de hoje

É comum os pregadores apresentarem a Tamar como exemplo de fé, e isso é inegável, porém, temos que analisar o que abstrair do exemplo de Tamar, para não sermos levados por falsos argumentos.

Ler que Deus honrou a Tamar por ela ser viúva e que as viúvas cristãs são assistidas por Deus por serem viúvas é um equívoco. É um equivoco entender, com base na história de Tamar, que Deus detém cuidado especial para com as mulheres viúvas, simplesmente, por elas serem viúvas.

Jesus, com base na história da viúva de Sarepta, de Sidom, evidenciou que, em Israel, havia muitas viúvas, nos dias em que Elias orou para que não chovesse sobre a face da terra, mas que, a nenhuma delas foi enviado o profeta, a não ser à uma viúva estrangeira (Lv 4:25-26).

E por que Elias foi enviado à viúva de Sarepta, de Sidom? Porque ela era obediente à palavra de Deus!

“Levanta-te e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente” (1 Rs 17:9);

“Porque, assim diz o SENHOR Deus de Israel: a farinha da panela não se acabará e o azeite da botija não faltará, até ao dia em que o SENHOR dê chuva sobre a terra. E ela foi e fez, conforme a palavra de Elias; e assim comeu ele, ela e a sua casa, por muitos dias. Da panela, a farinha não se acabou e da botija, o azeite não faltou, conforme a palavra do SENHOR, que ele falara pelo ministério de Elias” (1 Rs 17:14-16).

Ora, Deus cuidara da viúva de Sarepta, uma estrangeira, porque ela era obediente à voz de Deus, o que contrasta com as viúvas de Israel, pois não eram obedientes. Deus não se sensibiliza, puramente, com o infortúnio das viúvas, antes, Ele socorre somente aos que lhe obedecem:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” (Dt 5:10).

“E sabemos que todas as coisas contribuem, juntamente, para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28).

A interpretação que Jesus fez da passagem bíblica, acerca do milagre que Deus concedeu à viúva da cidade de Sarepta, não agradou aos seus ouvintes, pois intentaram precipitá-lo de um penhasco (Lc 4:29).

O exemplo de fé que temos em Tamar, decorre do fato de dispor da sua vida, para proporcionar os meios necessários ao cumprimento da promessa da vinda do Messias. Sabendo-se que Tamar foi recompensada por Deus, por executar uma obra segundo a palavra da promessa, conclui-se que os cristãos, ao ter a palavra do evangelho, que promete salvação, como parâmetro para as suas vidas, Deus há de honrar a sua palavra aos que O invocarem, pois todos que invocarem a Cristo serão salvos.

Com relação às vicissitudes do dia a dia, temos a seguinte promessa:

“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (1 Pe 5:7).

Em Tamar, exemplo de fé, não se deve enfatizar que os cristãos devem perseguir os seus sonhos. Ora, todos os homens têm sonhos, aspirações, desejos, etc., mas, um crente de fé, como Tamar, não busca a Deus para realizar sonhos, desejos e aspirações, antes obedece à palavra de Deus, tendo em vista a Sua promessa.

“E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” (1 Jo 2:25).

Tamar trabalhou em prol da linhagem do seu marido, pensando na promessa do Descendente prometido a Abraão, não em função das suas aspirações diárias. Tamar não buscou os seus direitos pelos seus direitos, mas, sim, os seus direitos em função da promessa e, em função da Sua palavra, Deus honrou Tamar.

Deus honra os que creem, concedendo salvação, pois esse é o objetivo da ‘fé’:

“Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1 Pe 1:9).

Quem recebe o evangelho deve estar cônscio de que Deus se propõe, em Cristo, a salvar almas, não a realizar sonhos, aspirações ou, desejos:

“Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” (Tg 1:21).

Ora, os cristãos podem ser ensinados a não abrirem mão dos seus direitos, como cidadãos, deixando claro que, direitos decorrentes de cidadania, não são garantidos por Deus, a seus filhos. O objetivo do evangelho não é garantir, neste mundo, direito de ninguém, antes, objetiva, exclusivamente, à salvação.

“Mas ele lhe disse: Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?” (Lc 12:14).

Se alguém tem um sonho, uma aspiração, um desejo, que trabalhe, estude, invista para realizá-los, mas não atribua a Deus a concretização de suas aspirações pessoais. Não tenha os seus sonhos, aspirações e desejos como promessa de Deus, pois o que Ele prometeu em Cristo foi vida eterna (1 Jo 2:25).

Se alguém que se diz profeta de Deus, profetizar que Deus vai realizar os seus sonhos, aspirações ou, desejos, considere as Escrituras, pois Deus vela sobre a Sua palavra para a cumprir e não sobre a palavra de profetas, que profetizam segundo os seus corações enganosos.

Natã era profeta de Deus e, ao ouvir as aspirações de Davi, concluiu que Deus haveria de realizá-las (2 Sm 7:3). Mas, aquela não era a palavra de Deus que, logo em seguida, ordenou ao profeta Natã, que voltasse e anunciasse a palavra do Senhor a Davi.

“Em todo o lugar em que andei, com todos os filhos de Israel, falei, porventura, alguma palavra a alguma das tribos de Israel, a quem mandei apascentar o meu povo de Israel, dizendo: Por que não me edificais uma casa de cedro? (2 Sm 7:7).

Em nossos dias têm surgido muitos profetas exigindo dos cristãos o melhor para Deus! Mas, onde está escrito na Bíblia que Deus requer dos seus filhos o melhor? O que Deus requer do homem é que obedeçam a sua palavra, ou seja, se sujeitem como servos (humildemente) à Sua palavra (1 Sm 15:22; Mq 6:8).

O apóstolo Paulo, servo de Deus, certa feita foi amarrado por um centurião para ser açoitado e, como cidadão romano, fez valer os seus direitos (At 22:25). De nada adiantaria, naquele momento, o apóstolo argumentar com o centurião: – ‘Sou um homem de Deus’.

Conhecer os nossos direitos, bem como os nossos deveres como cidadãos, possibilita um melhor viver neste mundo e, dependendo do momento, o seu direito ou, até mesmo, a sua perspicácia (At 23:6), pode livrá-lo de um revés, em função de perseguição ao evangelho.

Por que o apóstolo Paulo agiu dessa forma, nesses dois eventos? Porque ele cria em Deus, que tem poder de livrar, mas que, também, pode não fazê-lo.

“Responderam Sadraque, Mesaque e Abednego e disseram ao rei Nabucodonosor: Não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e da tua mão, ó rei. E se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste” (Dn 3:16-18).

O alerta aos cristãos é amplo:

“As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnios e açoites e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos e montes, pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hb 11:35-39).

Tamar conhecia as regras sociais do seu tempo e, ao providenciar linhagem ao seu marido, tomou cuidado para ter consigo o penhor, bem como sabia que seria poupada pelo sogro, quando ele soubesse que o filho em seu ventre, lhe pertencia.

Todos os cristãos precisam ter o cuidado de não se deixarem envolver por um sentimento pernicioso, de que nada pode lhes atingir, principalmente, quando se tem a ideia de que Deus tem a obrigação de livrar dos percalços da vida quem estiver trabalhando em prol do evangelho.

Todos precisam aprender com o apóstolo Paulo, que aprendeu em tudo, ter toda suficiência!

“Sei estar abatido e sei, também, ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade” (Fl 4:12).

Tamar guardou o penhor consigo, pois sabia que aqueles objetos eram a sua garantia de vida, vez que ela entendia que o fruto do seu ventre era uma das possibilidades do Descendente vir ao mundo e, não expressamente, uma garantia, como foi feita a Abraão. Tamar não sabia, efetivamente, que o fruto do seu ventre era o que possibilitaria a vinda do Messias ao mundo, antes, ela entendia que era imprescindível constituir descendência a Er.

Tamar andou por fé, ao crer em uma mensagem, que tinha por alvo todos os descendentes da carne de Abraão, não em uma promessa feita, diretamente, a ela. Ela agiu como Rebeca, quando procurou garantir a benção, que era de direito de Jacó, em função da palavra dita a Rebeca que, em seu ventre, havia duas nações e que a maior (povo) serviria a menor (povo).

“E o SENHOR lhe disse: Duas nações há no teu ventre e dois povos se dividirão das tuas entranhas,  um povo será mais forte do que o outro povo e o maior servirá ao menor” (Gn 25:23).

Se houvesse uma palavra de Deus, afirmando que, do fruto do ventre de Tamar, viria o Cristo, era certo que ela não necessitaria de penhor, pois ai ter-se-ia a mesma cláusula do pensamento de Abraão:

“Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, o ressuscitar (Hb 11:18).

Semelhante à confiança de Tamar, deve ser a confiança do cristão, com relação à palavra de salvação, pois a promessa de salvação engloba todos os nascidos de mulher, mas ela não se faz acompanhar de uma cláusula de proteção contra as vicissitudes da vida.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto.




A figura da adúltera no Livro de Provérbios

A sedução da mulher adúltera está em se apresentar como alguém que serve ao Senhor (Is 58:1-3), pois, trás consigo, sacrifícios pacíficos e faz votos, porém, não se sujeita ao seu Senhor, e nem possui o conhecimento de Deus (Pv 9:13; Dt 32:28).


A figura da adúltera no Livro de Provérbios

Introdução

O Livro de Provérbios, embora, seja, comumente, interpretado, através de um prisma moral, é, na realidade, uma alegoria, um conjunto de figuras, que exprimem uma ideia.[1]

Este artigo destacará, resumidamente, a figura da mulher adúltera e o que ela, de fato, representa.

 

Instruções para o Messias

As instruções do Livro dos Provérbios são proferidas por meio  da figura de um Pai que tem um cuidado singular pelo seu Filho.

“Filho meu, ouve a instrução de teu pai…” (Pv 1:8).

É significativo o fato de os provérbios serem endereçados a um filho e não a todos os filhos de Israel, como se falasse de muitos. Isto, também, nos remete ao que foi anunciado por Moisés, de que os filhos de Israel já não eram filhos de Deus, mas, uma mancha (Dt 32:5).

Quando Provérbios diz: ‘Filho meu’, evoca a questão da descendência, da filiação, o que nos remete à seguinte lição, do apóstolo Paulo:

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” (Gl 3:16).

A proposta do Livro dos Provérbios é fornecer o conhecimento necessário para o Descendente, segundo a promessa feita a Abraão, de se proteger dos seus irmãos, pois os inimigos d’Ele seriam os seus próprios familiares (Mt 10:36; Mq 7:6; Jr 6:21; Jr 12:6; Jr 9:4).

O Descendente, segundo a promessa anunciada a Abraão, é Cristo, o Filho de Deus, que, na plenitude dos tempos, despiu-se da sua glória, se fez carne e habitou entre os homens.

Através do conteúdo do Livro dos Provérbios, o Messias é alertado de que o ‘conhecimento’ de Deus O manteria afastado da mulher adúltera:

Para te afastar da mulher estranha, sim da estranha que lisonjeia com suas palavras (Pv 2:16).

A mulher adúltera

Os versos que retratam a mulher adúltera, não evocam questões vinculadas à luxúria, volúpia ou sensualidade, antes, destacam as palavras que procedem dos seus lábios. O cuidado que consta da orientação do Pai ao Filho, visa protegê-lo das palavras suaves que a mulher adúltera profere. Palavras comparáveis ao mel e ao azeite (Pv 5:3).

Estas são as características da mulher adúltera:

  • Deixou o companheiro da sua mocidade e esqueceu-se da aliança com o seu Deus (Pv 2:17);
  • Os seus lábios destilam favos de mel e as suas palavras são suaves como o azeite (Pv 5:3);
  • A sedução esta na língua (Pv 6:24; Pv 7:21);
  • Seduz, argumentando, que já ofereceu sacrifícios pacíficos e pagou os seus votos (Pv 7:14);
  • É indisciplinada e não possui conhecimento (Pv 9:13).

Considerando as características acima, certo é que o Pregador não está tratando das questões próprias a uma mulher de vida fácil. A mulher em questão é uma alegoria que retrata a apostasia do povo de Israel no deserto, que fez uma aliança com Deus e O deixou.

“Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas, agora, homicidas” (Is 1:21).

“Vai e clama aos ouvidos de Jerusalém, dizendo: Assim diz o SENHOR: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Por isso, foram retiradas as chuvas, e não houve chuva serôdia; mas tu tens a fronte de uma prostituta e não queres ter vergonha” (Jr 2:2-3);

“E, engordando-se Jesurum, deu coices (engordaste-te, engrossaste-te e de gordura te cobriste) deixou a Deus, que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação” (Dt 32:15);

“Como, vendo isto, te perdoaria? Teus filhos me deixam a mim e juram pelos que não são deuses; quando os fartei, então adulteraram, e em casa de meretrizes se ajuntaram em bandos” (Jr 5:7);

“Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ez 16:35).

Alegoria semelhante à feita pelo Pregador, encontramos no Livro do profeta Ezequiel, que destaca o cuidado de Deus por Jerusalém, ao estabelecer uma aliança, bem como, os desvarios das suas prostituições:

“E, passando eu junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; e estendi sobre ti a aba do meu manto, cobri a tua nudez; e dei-te juramento, entrei em aliança contigo, diz o Senhor DEUS, e tu ficaste sendo minha” (Ez 16:8);

“Mas confiaste na tua formosura, te corrompeste por causa da tua fama e prostituías-te a todo o que passava, para seres dele” (Ez 16:15).

Com base no alerta contido no Livro dos Provérbios, a mulher adúltera representa as cidades em que habitavam os filhos de Israel, que deixaram a Deus e se esqueceram da aliança (Pv 2:17; Dt 32:5).

A sedução da mulher adúltera está em se apresentar como alguém que serve ao Senhor (Is 58:1-3), pois, trás consigo, sacrifícios pacíficos e faz votos, porém, não se sujeita ao seu Senhor, e nem possui o conhecimento de Deus (Pv 9:13; Dt 32:28).

O profeta Davi faz uso da figura da cidade, em vez da mulher prostituta, para demonstrar a apostasia de Israel:

“Despedaça Senhor e divide as suas línguas, pois tenho visto violência e contenda na cidade. De dia e de noite a cercam sobre os seus muros; iniquidade e malícia estão no meio dela. Maldade há dentro dela; astúcia e engano não se apartam das suas ruas. Pois, não era um inimigo que me afrontava; então, eu o teria suportado; nem era o que me odiava, que se engrandecia contra mim, porque dele me teria escondido. Mas eras tu, homem, meu igual, meu guia e meu íntimo amigo” (Sl 55:9-13).

 

Os moradores da cidade

Ao introduzir a alegoria da mulher adúltera no Livro dos Provérbios, o Pregador evidencia a gravidade da apostasia dos filhos de Israel.

O Pregador apresenta a palavra de Deus como a suprema sabedoria, dirigindo um apelo aos habitantes da cidade:

“Até quando, ó simples, amareis a simplicidade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós insensatos, odiareis o conhecimento? Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei, abundantemente, do meu espírito e vos farei saber as minhas palavras. Entretanto, porque eu clamei e recusastes; estendi a minha mão e não houve quem desse atenção, antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão, também, de minha parte, eu me rirei na vossa perdição e zombarei, em vindo o vosso temor” (Pv 1:22-26).

A mensagem de Deus visa alcançar o povo e os seus líderes e, para isso, o Pregador faz uso de várias figuras, como a do ‘louco’ e a do ‘escarnecedor’.

“Até quando, ó néscios, amareis a necedade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós, insensatos, odiareis o conhecimento?” (Pv 1:22);

“Ouvi, pois, a palavra do SENHOR, homens escarnecedores, que dominais este povo que está em Jerusalém” (Is 28:14);

O clamor da Sabedoria indica que Deus estende a Sua mão para conceder do Seu espírito (Pv 1:24), no entanto, o povo se mostra rebelde, seguindo os seus próprios conselhos:

“AI dos filhos rebeldes, diz o SENHOR, que tomam conselho, mas não de mim; e que se cobrem com uma cobertura, mas não do meu espírito, para acrescentarem pecado sobre pecado” (Is 30:1);

Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Is 65:2);

“Entretanto, porque eu clamei e recusastes; estendi a minha mão e não houve quem desse atenção. Antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão” (Pv 1:24-25);

“Mas, não ouviram, nem inclinaram os seus ouvidos, andaram nos seus próprios conselhos, no propósito do seu coração malvado; e andaram para trás e não para diante” (Jr 7:24).

A palavra do Senhor é a essência da sabedoria, mas como os filhos de Israel rejeitaram a palavra de Deus e como rejeitaram ao Senhor, não havia em Israel conhecimento de Deus.

“Os sábios foram envergonhados, foram espantados e presos, eis que rejeitaram as palavras do Senhor; que sabedoria, pois, teriam?” (Jr 8:9);

“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução” (Pv 1:7).

O Salmista Davi destaca o comportamento dos filhos de Israel, em rejeitar o conhecimento de Deus: “Diz o louco no seu coração: – ‘Não há Deus’” (Sl 53:1), pois se corromperam e cometeram iniquidade. Os líderes de Israel são classificados como obreiros da iniquidade, pois, não tem conhecimento de Deus e devoram o povo, como se fosse pão (Sl 53:4).

Os filhos de Israel são tidos por néscios, loucos, visto que rejeitaram a palavra de Deus, de modo que já não invocavam a Deus, o que nos remete à reprimenda que Moisés fez aos filhos de Israel:

“Recompensais, assim, ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, que te fez e que te estabeleceu? (…) O meu povo é gente falta de conselhos e neles não há entendimento” (Dt 32:6 e 28).

Por rejeitarem o conhecimento de Deus, os filhos de Israel são classificados como altivos, ímpios, vis, perversos, maus, filhos de Belial, opressores, mentirosos, violentos, homicidas, adúlteros, etc.

Os filhos de Israel recusavam o conhecimento do Senhor e preferiram os seus próprios conselhos (Jr 9:6; Jr 7:24; Jr 9:13; Pv 3:5), daí a designação adúlteros, ajuntamento de infiéis (Jr 9:2).

Como rejeitaram o conselho de Deus, que é firme e verdadeiro (Is 25:1), os lábios dos filhos de Israel destilavam mentiras, engano:

“Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9);

“E encurvam a língua como se fosse o seu arco, para a mentira; fortalecem-se na terra, mas não para a verdade; porque avançam, de malícia em malícia, e a mim não me conhecem, diz o SENHOR” (Jr 9:3);

“Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13).

Ao transtornarem a palavra do Senhor, os filhos de Israel fizeram violência. As imposições dos líderes de Israel sobre o povo é classificada como violência, daí o alerta:

“E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4:6);

“Porque, desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8);

“Assim, diz o Senhor DEUS: Basta já, ó príncipes de Israel; afastai a violência e a assolação e praticai juízo e justiça; tirai as vossas imposições do meu povo, diz o Senhor DEUS” (Ez 45:9).

 

Má leitura das figuras do Livro dos Provérbios

O Livro dos Provérbios vai além da temática do uso de sentenças poéticas, antes o Pregador é um formulador de parábolas. Através de alegorias, o Pregador apresenta a realidade espiritual dos filhos de Israel, por meio de enunciados, formulados como comparações.

Observe a análise de um teólogo, acerca do Livro dos Provérbios:

“A sabedoria de Provérbios se centra acima de tudo nos âmbitos da vida que não são regulados por ordenanças cúlticas ou, por mandamentos expressos pelo Senhor. Por essa razão, a maior parte do livro não se refere a temas propriamente religiosos. Refere-se, muito mais, aos temas que são específicos da existência humana, seja, na sua dimensão pessoal (o indivíduo) ou, coletiva (a família e a sociedade em geral)” Nota de introdução ao Livro dos Provérbios de Salomão, Bíblia de Estudo Almeida, Barueri–SP, SBB, 2000, p. 659.

Observe a nota da Bíblia de Scofield, com Referências, acerca do Livro dos Provérbios:

“Provérbios é uma coleção de ditados substanciais, nos quais, através de comparação ou contraste, algumas verdades importantes são expostas. Provérbios são ditados comuns a todas as nações do mundo antigo. Essa coleção, em particular, foi compilada, principalmente, por Salomão que, em 1 Rs 4:32, diz-se ter enunciado três mil provérbios”. Bíblia de Scofield, com referências, p. 636.

É imperioso observar que o Livro de Provérbios não guarda qualquer paralelo com os provérbios das nações do mundo antigo e nem se centra em reger as relações humanas. A sabedoria dos Provérbios de Salomão foca-se, especificamente, na Palavra de Deus, de modo a demonstrar a condição dos filhos de Israel, após deixarem o mandamento do Senhor.

Apesar de recitarem os estatutos e fazerem menção da aliança de Deus, os filhos de Israel odiavam a correção e rejeitavam a Palavra de Deus.

“Mas, ao ímpio, diz Deus: Que fazes tu em recitar os meus estatutos e, em tomar a minha aliança, na tua boca? Visto que odeias a correção e lanças as minhas palavras para detrás de ti. Quando vês o ladrão, consentes com ele e tens a tua parte com adúlteros. Soltas a tua boca para o mal e a tua língua compõe o engano. Assentas-te a falar contra teu irmão; falas mal contra o filho de tua mãe” (Sl 50:16-20).

Embora jurassem e fizessem menção ao nome de Deus, contudo, não o faziam segundo a verdade e a justiça, ou seja, segundo a palavra do Senhor.

“OUVI isto, casa de Jacó, que vos chamais do nome de Israel e saístes das águas de Judá, que jurais pelo nome do SENHOR e fazeis menção do Deus de Israel, mas não em verdade, nem em justiça” (Is 48:1).

Tinham a palavra de Deus chegada aos lábios, mas longe do coração e o que diziam era somente o que memorizaram, mas não punham em prática.

“Plantaste-os e eles se arraigaram; crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém, longe dos seus rins” (Jr 12:2);

“Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

As blandícies[2] dos filhos de Israel tinham por base a sua religiosidade (Pv 1:10), o que nos remete à essência da sedução da mulher adúltera, cujas palavras são doces como o mel e suaves como o azeite, alegoria que destaca a apostasia dos filhos de Israel, pois é o que a religião faz: seduzir!

Apesar do alto grau moral dos filhos de Israel, se comparado ao comportamento moral dos gentios, vez que os líderes de Israel eram tidos por justos, aos olhos dos homens, Deus acusa os hebreus de serem aleivosos (Jr 9:2). Dai a recomendação paulina:

“Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens, que se desviam da verdade” (Tt 1:14).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] “Alegoria – modo de expressão ou, interpretação que consiste em representar pensamentos, ideias, qualidades, sob forma figurada”.

[2] “Comportamento ou, palavra carinhosa, afetuosa; recomendação. [Por Extensão] Expressão meiga; comportamento de quem é terno; meiguice. [Figurado] Modo de agir de quem agrada muito a alguém, tentando obter algo dessa pessoa; adulação: usava de blandícia para conseguir vantagens na empresa” Dicionário Online de Português.




As filhas de Ló

Só era possível a um descendente homem de Ló preservar a linhagem do pai, mesmo se a mulher fosse estrangeira, pois quem gera filhos são os homens, o que torna possível a continuidade da linguagem. Somente aos homens cabia resgatar uma mulher, pela lei do levirato.


As filhas de Ló

Introdução

Ao analisar a passagem bíblica que faz alusão às duas filhas de Ló, invariavelmente, o leitor fará um julgamento. Se o julgamento é inevitável, sigamos a recomendação de Cristo:

“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7:24).

No caso das filhas de Ló, temos que abrir mão da aparência e julgar o comportamento delas segundo a reta justiça.

 

Três justos

Antes de exterminar os povos de Sodoma e Gomorra, Deus deu aviso a Abraão do que haveria de fazer (Gn 18:17-22). Sabedor de que o juízo de Deus sobre as cidades de Sodoma e Gomorra já estava determinado, Abraão perguntou a Deus se os justos seriam destruídos, juntamente, com os ímpios (Gn 18:23-25).

Abraão perguntou a Deus sobre a possibilidade de existir cinquenta justos na cidade e se Deus pouparia a cidade, em função desses cinquenta justos. Deus respondeu que não destruiria a cidade (Gn 18:26). Como a possibilidade de existir cinquenta justos na cidade era pequena, Abraão conseguiu reduzir o número para dez e Deus foi taxativo:

“Não a destruirei por amor dos dez”.

Como não havia dez pessoas justas em Sodoma e Gomorra, dois mensageiros (anjos) foram enviados à cidade de Sodoma, onde Ló residia com a sua família, após apartarem-se de Abraão.

Os anjos concitaram Ló e sua família a deixarem a cidade, apressadamente, mas, como se demoravam, os anjos pegaram os quatro membros da família pelas mãos e os arrastaram para fora da cidade (Gn 19:16).

Já fora de Sodoma, os anjos ordenaram à família de Ló, que escapassem para o monte, e que não ficassem nas campinas de Sodoma e Gomorra e nem olhassem para trás (Gn 19:17). Ló rogou aos anjos que deixasse sua família escapar para uma cidade pequena, que, posteriormente, recebeu o nome de Zoar.

Quando o sol estava nascendo, desceu fogo e enxofre dos céus e destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra, bem como tudo que nelas havia. Naquele momento, a mulher de Ló olhou para trás e foi transformada em uma estátua de sal (Gn 19:26).

Nessa passagem bíblica, fica implícito que Ló, bem como as suas duas filhas, eram justas diante de Deus, porquanto não foram destruídos, juntamente, com Sodoma e Gomorra.

Antes de saírem de Sodoma, Ló concitou os seus genros a deixarem a cidade, mas eles zombaram de Ló, o que demonstra que as filhas de Ló estavam prometidas àqueles homens (Gn 19:8 e 14).

 

As duas filhas de Ló

Com medo de habitarem na cidade de Zoar, Ló, com suas duas filhas, foram morar no monte e se instalaram em uma caverna.

Com o passar do tempo, a filha mais velha de Ló conversou com a filha mais nova e expôs a seguinte problemática:

  1. Nosso pai é velho;
  2. E não havia na terra homem que, segundo o costume, as ‘conhecesse’ (Gn 19:31);

Em seguida a primogênita apresentou uma solução:

  • Embriagar o pai com vinho e se deitarem com ele (Gn 19:32).

Por fim, ela dá o motivo do seu intento:

  • Conservarem a descendência de Ló (Gn 19:32).

Se analisarmos a questão, segundo a concepção do homem da atualidade, o veredicto é rápido e pesado: duas filhas desavergonhadas! Mas, se analisarmos o evento com os olhos do homem daquela época, teremos outro veredicto.

Já é cediço que, na era patriarcal, era desonroso para uma mulher não ter filhos e era até motivo de chacota e disputas. Como exemplo, temos Sara que, sendo estéril, deu a Abraão a sua serva, Agar, para que Sara tivesse filhos, por intermédio da escrava (Gn 16:2-3).

A tristeza e a amargura de uma mulher impossibilitada de dar descendência ao marido eram indescritíveis, como se observa em Ana:

“Não tenhas, pois, a tua serva por filha de Belial; porque, da multidão dos meus cuidados e do meu desgosto, tenho falado até agora” (1 Sm 1:16).

A preocupação das filhas de Ló não era com elas mesmas, pois não havia homens na terra que, como ditava o costume, que entrasse a elas. Os possíveis genros de Ló foram dizimados, por permanecerem em Sodoma, o que testifica que não eram justos.

A filha primogênita de Ló, após considerar que a mãe havia morrido e que o pai não tinha descendente homem, preocupou-se com a descendência de Ló, assim como Tamar preocupou-se em prover descendência ao seu falecido marido, Er, quando ela se deitou com seu sogro Judá.

Hoje anunciamos que Jesus é o ‘Leão da Tribo de Judá’, mas, essa confissão só é possível, em virtude da fé da estrangeira Tamar, que não mediu esforços ao providenciar descendência ao seu marido Er, mesmo que isto pudesse custar a sua vida.

A atitude da estrangeira Tamar foi tão nobre, que o nome dela consta na linhagem de Cristo e dela as Escrituras dão testemunho de  bem-aventurada, por causa da casa de Perez:

“E seja a tua casa como a casa de Perez (que Tamar deu à luz de Judá), pela descendência que o SENHOR te der desta moça” (Rt 4:12);

“E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão” (Mt 1:3).

Devemos considerar também, que à época de Ló, as regras sociais de coabitação ainda estavam sendo estabelecidas, sendo certo que Caim e Sete tiveram que se relacionar com as suas irmãs para terem descendência, pois, Adão viveu oitocentos anos, após gerar sete e gerou filhos e filhas (Gn 5:4).

Além das questões próprias aos primórdios da humanidade, quanto à procriação, há outros exemplos na Bíblia de relações incestuosas, como foram os casos de Jacó e suas duas esposas, que eram irmãs (Gn 29:30), e Rubens, que teve relação com a concubina do próprio pai (Gn 35:22), isso sem se falar de Judá e Tamar.

 

O incesto

Devemos recordar que as famílias que surgiram após Adão e Eva, se deram através de relações incestuosas entre membros da família: irmãos se casaram com irmãs, tios se casaram com sobrinhas e vice e versa e primos com primas, etc.

No início, Deus não criou um clã ou, uma comunidade ou, ainda, uma população de indivíduos compostos por homens e mulheres, simplesmente, para evitar relações incestuosas. Adão e Eva não tiveram filhos antes de serem expulsos do Éden e nem havia certa população de indivíduos, fora do jardim, que possibilitasse o convívio dos filhos de Adão e Eva.

A história da humanidade iniciou-se com um casal, que evoluiu para uma família e, daí por diante, formaram-se tribos, cidades, comunidades, etc. As regras sociais, morais e, até mesmo as leis, foram surgindo das relações sociais, ou seja, Deus não impôs regra alguma aos homens, antes os homens estabeleceram leis para si, guiando-se pelo que entendiam ser certo e errado, segundo o conhecimento que adquiriram da árvore do fruto do bem e do mal.

No início da história do homem,  não haviam leis escritas e as regras sociais surgiram, ao longo do tempo, das relações e interações entre os indivíduos. Muitas regras sociais convencionadas pelos homens foram validadas por Deus, como o fato de Deus prover para o casal túnicas de peles, ao perceberem que estavam nus (Gn 3:21).

As relações entre familiares eram funcionais, visando a propagação da espécie e da preservação da descendência. O casamento e as relações sexuais na sociedade contemporânea, fundamenta-se em viés emocional, o que foge do aspecto funcional da época, que era prover descendência ao homem.

Com a evolução das culturas e as convenções morais estabelecidas, a humanidade passou a proibir e a condenar o incesto. Posteriormente, com a Lei dada ao povo de Israel, foi vedada aos hebreus as relações incestuosas (Lv 18:6; Lv 20:12).

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo recriminou  um cristão da cidade de Corinto, por ter coabitado com a esposa do seu próprio pai (1 Co 5:1-5).

 

A reta justiça

O apóstolo Paulo, após fazer uma exposição acerca da liberdade dos cristãos e deixar claro que nenhuma coisa é imunda, se não para aquele que a considera imunda (Rm 14:14), fez a seguinte afirmação:

“… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23).

Ao utilizar o substantivo πίστεως (pisteó), o apóstolo Paulo estava afirmando que tudo o que não é proveniente da verdade, da fidelidade e da lealdade de Deus é pecado. A fé é apresentada como prova (evidência) e não como mera convicção pessoal.

Ora, a palavra de Deus é verdade e fidelidade e por isso mesmo é dito que o evangelho é a palavra da fé ou, a fé que foi dada aos santos.

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé que pregamos” (Rm 10:8; Jd 1:3; Fl 1:27).

À época dos patriarcas, a palavra da fé era de que havia de vir ao mundo o Messias, tanto que o patriarca Jó confessou: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19:25).

Todos os Santos do Antigo Testamento tinham essa mesma esperança, pois estava previsto que o descendente da mulher feriria a cabeça da serpente (Gn 3:15). Por causa dessa previsão, Sete preservou a sua linhagem e, por fim, gerou Enoque. Enoque, por sua vez, gerou Matusalém, que gerou Lameque, que gerou Noé (Gn 5).

Noé gerou Sem, Cão e Jafé. Sem, por sua vez gerou filhos e filhas, de quem descende o pai Abraão. Em Abraão, fica evidente o quão importante era a linhagem, visto que Sara era estéril e Deus prometeu a Abraão que, em sua descendência, seriam benditas todas as famílias da terra.

Todos que abraçaram a esperança de Abraão viveram por fé e tudo o que fizeram por causa dessa verdade/fidelidade, não é tido por pecado.

A estrangeira Tamar, por confiar na promessa de Deus, se deitou com seu sogro Judá. Este, embora descendente dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, não seguiu os costumes dos seus pais e casou o seu filho com a filha de um cananeu: Tamar (Gn 38:37).

Judá não estava preocupado com a promessa feita, por Deus, aos seus pais, mas, sim, em preservar o seu filho caçula. Somente com a intervenção de Tamar é que Judá reconheceu e deu testemunho de que a sua nora era mais justa que ele:

“Mais justa é ela do que eu, porquanto não a tenho dado a Selá meu filho” (Gn 38:26).

Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo, contemporâneo de Abraão, demonstra que, à época, Deus não se deixou sem testemunho sobre a terra (Gn 14:19).

Ló era primo de Abraão e foi declarado justo por Deus, visto que foi resgatado de Sodoma (2 Pe 2:8).

As filhas de Ló, por sua vez, eram justas, pois escaparam de Sodoma e, possivelmente, foram informadas de que o Salvador haveria de vir sobre a terra, conforme o anunciado a Adão e Eva, de modo que era imprescindível preservar a linhagem santa, para o cumprimento da profecia.

Sendo justas, as filhas de Ló foram informadas de que a linhagem escolhida por Deus passava por Sete, descendente de Adão, de quem descendeu Noé, linhagem não exterminada pelo diluvio.

Elas também foram informadas de que Noé gerou três filhos, Sem Cão e Jafé e de que a linguagem de Cão foi amaldiçoada, enquanto que a linhagem de Sem, abençoada (Gn 9:25-28).

Por conviver com Abraão, Ló, certamente, sabia que seu avô, Terá, era da linhagem abençoada de Sem, que, por consequência, Abraão e Ló faziam parte dessa linhagem abençoada de Sem, o que, provavelmente, tornou-se conhecido pelas filhas de Ló. (Gn 11:27)

A filha mais velha de Ló, possivelmente, observou que, quando alguém da linhagem escolhida para trazer o Messias ia casar, geralmente procurava alguém de sua própria parentela.

“Mas, que irás à minha terra e à minha parentela e dali tomarás mulher para meu filho Isaque” (Gn 24:4).

Como a filha mais velha viu que Ló, seu pai, sem esposa, já era velho e só tinha elas por filhas, ela considerou que, sem um filho homem, não havia como Ló manter a esperança de ter o Cristo como descendente. Com base nestas considerações, foi que a filha mais velha de Ló concebeu o plano de embebedar o seu próprio pai, para lhe dar descendência.

“Vem, demos de beber vinho a nosso pai e deitemo-nos com ele, para que, em vida, conservemos a descendência de nosso pai(Gn 19:32).

Na proposta da irmã mais velha, o fim justifica o meio: deitemo-nos com ele, para que conservemos a descendência de nosso pai!

Assim, seria correto acusar as duas filhas de Ló de pecadoras? Infamá-las de desavergonhadas?

Portanto, julguemos segundo a reta justiça, ou seja, segundo as Escrituras!

Se o escritor do Livro dos Gênesis se resignou somente em registrar a história, sem emitir juízo de valor, acerca do comportamento das filhas e Ló, e nem fez qualquer alusão às questões de ordem moral; se o narrado não emitiu julgamento, durante a narrativa, e nem opinou como sendo certo ou errado, o que se esperar do leitor? Ora, que tenha a mesma perspicácia do autor do Livro de Gênesis!

Jesus instruiu, dizendo: “Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15) e deu prova do que ensinou, quando encontrou com a mulher samaritana, que, apesar de ter tido cinco maridos, e o que tinha não era dela, enfatizou que, se ela pedisse, Ele não lhe negaria a água viva.

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva (Jo 4:10).

O escritor do Livro do Gênesis, após destacar como as filhas conceberam do próprio pai, dando lhe vinho a beber (Gn 19:36), resignou-se a apontar que, de tal relação, surgiram dois povos: os moabitas e os amonitas (Gn 19:37-38).

Há quem diga, que a origem desses dois povos, por serem gerados de um ato impuro, fez surgirem povos que não prestavam, visto que eles se opuseram a Israel. Isso não é verdade, pois, de Tamar e Raabe, descende o Cristo (Mt 1:3 e 5), sendo esta uma prostituta e aquela se passado por uma.

O escritor do Livro dos Gênesis narrou a origens de diversos povos e, em nenhuma narrativa, sublinhou qualquer deles como impuros ou, como pessoas que não prestavam.

Mas, vale destacar que, por causa da atitude das duas filhas de Ló vieram, à existência duas mulheres: Rute e Orfa, as moabitas que se casaram com os filhos de Noemi (Rt 1:4). Sem as filhas de Ló, não existiriam os moabitas e, consequentemente, não existiriam Rute e Orfa.

Se a moabita Rute não viesse à existência, não se casaria com um dos filhos de Noemi, que por sua vez, não seria resgatada por Boaz e a sua descendência (casa) não seria abençoada, assim como a descendência de Tamar, que gerou de Boaz a Obede, que veio a ser o pai de Jessé, o pai de Davi (Rt 4:18-22).

“E de que, também, tomo por mulher a Rute, a moabita, que foi mulher de Malom, para suscitar o nome do falecido sobre a sua herança, para que o nome do falecido não seja desarraigado dentre seus irmãos e da porta do seu lugar; disto sois hoje testemunhas. E todo o povo que estava na porta e os anciãos, disseram: Somos testemunhas; o SENHOR faça a esta mulher, que entra na tua casa, como a Raquel e como a Lia, que ambas edificaram a casa de Israel; e porta-te valorosamente em Efrata e faze-te nome afamado em Belém. E seja a tua casa como a casa de Perez (que Tamar deu à luz a Judá), pela descendência que o SENHOR te der desta moça” (Rt 4:10-12).

Se não fosse pela coragem das duas filhas de Ló, Roboão, filho de Salomão com uma amonita, de nome Naamá, não nasceria. Se Roboão não viesse à existência, tanto Salomão e Roboão, quanto Abias, não figurariam na linhagem de Cristo.

“E Roboão, filho de Salomão, reinava em Judá; de quarenta e um anos de idade era Roboão, quando começou a reinar, e dezessete anos reinou em Jerusalém, na cidade que o SENHOR escolhera de todas as tribos de Israel, para pôr ali o seu nome; e era o nome de sua mãe Naamá, amonita” (1 Rs 14:31);

“E Salomão gerou a Roboão; Roboão gerou a Abias e Abias gerou a Asa” (Mt 1:7).

Percebe-se que, ao embriagarem o pai, as duas filhas tinham consciência de que Ló não consentiria em ter relações sexuais com as suas filhas. Mas, pelas circunstâncias, a filha primogênita de Ló vislumbrou que aquela era a única maneira de impedir a extinção da linhagem de Ló.

Por que seria extinta a linhagem de Ló? Por dois motivos:

  1. Porque as filhas de Ló eram estrangeiras em terra que não havia ninguém de seu parentesco que pudessem se casar;
  2. Se gerassem de qualquer outro homem daquelas terras, a linhagem não seria de Ló, mas do homem que as fecundasse.

Só era possível a um descendente homem de Ló preservar a linhagem do pai, mesmo se a mulher fosse estrangeira, pois quem gera filhos são os homens, o que torna possível a continuidade da linguagem. Somente aos homens cabia resgatar uma mulher, pela lei do levirato.

“E Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; e Boaz gerou, de Rute, a Obede; e Obede gerou a Jessé;” (Mt 1:5).

Em função de tudo o que demonstramos, fica claro o motivo pelo qual não podemos julgar pela aparência o comportamento das filhas de Ló. Se Cristo é da descendência de Abraão e de Davi, foi por causa da fé de mulheres como as filhas de Ló, Tamar, Raabe e Rute, que não se importaram com as suas reputações, mas com a promessa do Messias.

Diante desse quadro, torna-se significativo o fato de Ló e suas duas filhas ficarem com medo de habitarem em Zoar e terem subido para habitar em uma caverna nos montes, local em que os anjos sugeriram, inicialmente, para que fugissem, ao saírem de Sodoma (Gn 19:30).

Se permanecessem em Zoar, possivelmente as filhas de Ló coabitariam com os homens daquela terra e Ló ficaria sem descendência e, por conseguinte, a linhagem de Cristo ficaria comprometida.

Por fim, vale salientar que o incesto não cabe a um cristão, pois, para o cristão, cabe a regra de ouro sublinhada pelo apóstolo Paulo, que condenou o ato do irmão de Corinto, por coabitar com a mulher do seu pai, sendo que, nem entre os gentios tal prática era nomeada (1 Co 5:1):

“Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus” (1 Co 10:32).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




O que torna um homem pecador?

O evangelista deve entender que, primeiro é essencial a ação regeneradora de Deus, que faz um novo homem, e então, tudo se faz novo. Para tanto, basta ao evangelista anunciar as boas novas do evangelho, ou seja, que Cristo foi manifesto em carne, viveu sem pecado por ter sido gerado de Deus, foi crucificado, ressurgiu e está assentado à destra de Deus.

 


“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 )

É comum em evangelismo a seguinte pergunta aos descrentes: “Você é bom o suficiente para entrar no céu por seu próprio merecimento?”, e não pude me furtar a algumas considerações.

É uma estratégia evangelística enfatizar a miserabilidade do homem em pecado para apresentar Cristo, o redentor, porém, erram ao considerar que a miserabilidade da humanidade decorre das disposições internas do homem.

Muitos cristãos ainda não compreendem porque o homem é pecador, pois reputam que o pecado está atrelado ao comportamento, à moral e ao caráter do homem.

O que torna um homem pecador?

O apóstolo Paulo responde, pois ele demonstrou que todos os homens estão destituídos e carecem da glória de Deus ( Rm 3:23 ). O homem é pecador porque foi destituído, ou seja, está alienado de Deus. É tido por miserável porque carece, ou seja, necessita da glória de Deus.

Por estar alienado de Deus o homem está destinado ao inferno de fogo, pois o inferno é o lugar destinado ao diabo e todas as gentes que se esquecem de Deus ( Sl 9:17 ). Estar destinado ao inferno não é uma questão de merecimento, antes diz de uma condição própria a todos os homens gerados de Adão.

É temerário simplesmente destacar que o homem é ‘merecedor’ do inferno, o que pode levar os pecadores a considerar a perdição como sendo algo proveniente de questões comportamentais, o que inexoravelmente acaba promovendo a ideia da salvação pelas obras.

A Bíblia não ensina que o homem é ‘merecedor’ do inferno, ou seja, que o inferno vincula-se a uma questão meritória, antes ela demonstra que todos que entraram pela porta larga seguem por um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 -14).

Cristo é a porta estreita, e para entrar por Ele é necessário ao homem nascer de novo ( Jo 3:3 ). Isto indica que Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer ( 1Co 15:45 ).

Nenhuma questão meritória é destacada com relação à perdição ou a salvação, antes é demonstrado na Bíblia que o homem é gerado em pecado, ou seja, alienado de Deus ( Sl 51:5 ). Que desde a madre os homens desviam-se de Deus, e por possuírem um coração corrupto, proferem mentiras desde que nascem ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ).

A porção dos filhos de Adão é somente este mundo, e estão destinados a saciarem-se somente da ira que Deus entesourou para eles. Sem qualquer mérito ou demérito, todos os filhos dos homens deste mundo também serão fartos da ira do Senhor, e dela sobejarão, pois são filhos da ira e da desobediência ( Sl 17:14 ).

É por isso que o apóstolo Paulo reitera o que anunciou o salmista Davi: “Não há um justo se quer” ( Rm 3:10 ). Ou seja: “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis” ( Rm 3:12 ).

O que fez com que todos os homens se extraviassem? O apóstolo Paulo anuncia que todos se extraviaram porque um pecou, e por isso, todos pecaram. Um só foi destituído, e todos foram destituídos da glória de Deus ( Rm 5:12 ).

Segundo o profeta Miqueias, um homem piedoso pereceu, e desde que ele (Adão) pereceu não há entre os filhos dos homens um que seja justo. O melhor dos homens é um espinho, e o mais justo não passa de uma sebe de espinhos, o que demonstra que ser pecador e estar destinado ao inferno não é uma questão de mérito, antes diz de uma condição própria