Como afligir a alma?

O que é afligir a alma? Como afligir a alma? Mudança de humor? Deixar de estar alegre para ficar triste? Autoflagelação? O que é afligir?


Como afligir a alma?

“Sábado de descanso vos será; então afligireis as vossas almas; aos nove do mês à tarde, de uma tarde a outra tarde, celebrareis o vosso sábado” (Levítico 23:32).

Introdução

Quando instituiu o Sábado, Deus ordenou aos filhos de Israel que afligissem as suas almas. Dai as perguntas: O que é afligir a alma? Como afligir a alma? Mudança de humor? Deixar de estar alegre para ficar triste? Autoflagelação? O que é afligir?

No Novo Testamento vê-se Jesus repreendendo a multidão para que não se mostrassem ‘contristados’ como os hipócritas, que desfiguravam o rosto enquanto jejuavam. Esses eram alguns dos recursos que os escribas e fariseus dispunham para mostrarem aos homens que jejuavam: não ungiam a cabeça e nem lavavam o rosto, e assim, diante dos homens pareciam contristados.

É certo que ninguém será aceito por Deus porque está com o semblante descaído, aparência moribunda, deitado sobre pó e cinzas, roubas rasgadas, etc., como se estivesse sofrendo dor lancinante.

Como se afligir diante de Deus?

 

Sara e Agar

A relação ‘senhora’ e ‘serva’ que havia entre Sara e Agar lança luz ao tema de modo impar.

Lá no Gênesis está registrado que, como Sara não podia ter filhos, ela entregou sua serva Agar, uma Egípcia, a Abraão para que Sara desse filho a Abraão através da escrava (Gn 16:1 -3).

Após Agar conceber de Abraão, desprezou Sara, que era a sua senhora (Gn 16:4 -5). Sara, por sua vez, revelou o seu descontentamento para Abraão, que deixou a cargo de Sara resolver aquela pendenga.

A Bíblia diz que Sara ‘afligiu’ Agar, e Agar fugiu da presença de sua senhora (Gn 16:6). O termo hebraico traduzido por ‘afligir’ é עָנָה [1], transliterado ‛ânâh, e entende-se que Agar foi ‘oprimida’, ‘humilhada’, por Sara, sua senhora.

Agar foi localizada junto à fonte no caminho de Sur pelo mensageiro do Senhor. Ao ser questionada de onde vinha e para onde ia, Agar declarou que estava fugindo de sua senhora, ao que o anjo lhe disse:

“Torna-te para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos” (Gn 16:9).

Chama atenção o termo ‘humilha’ na fala do mensageiro do Senhor, pois é o mesmo termo utilizado para afligir: ענה. Agar foi instruída a voltar para sua senhora e se sujeitar a ela, ou seja, se afligir.

O mesmo termo hebraico é utilizado com dois significados: a) afligir, e; b) submeter, daí a pergunta: ao determinar que os filhos de Israel afligissem as suas almas, Deus estava requerendo que ficassem tristes, aflitos, receosos, etc., ou que se sujeitassem a Deus obedecendo-O?

 

Sujeição

Quando Deus deu por estatuto perpétuo a festa anual da expiação, que deveria ser celebrado no décimo dia do sétimo mês, quando ninguém deveria realizar nenhum trabalho nas terras de Israel, ordenou que os filhos de Israel afligissem as suas almas.

“E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós” (Lv 16:29).

Seria um contra-senso Deus exigir que os filhos de Israel ficassem tristes em um dia de celebração que Ele mesmo instituiu. Pelo contexto, verifica-se que a ordenança divina para afligir a alma era para se sujeitarem a Deus guardando o dia dez do sétimo mês como dia de descanso, um sábado solene.

Contra-senso que Jesus evidenciou contrapondo ‘tristeza’ e ‘jejum’ quando se está nas bodas:

“E disse-lhes Jesus: Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão (Mateus 9:15).

No fato de não fazerem nenhuma tarefa no dia da expiação estavam afligindo as suas almas, ou seja, sujeitando-se a Deus em obediência, assim como um servo se sujeita ao seu senhor. ‘Afligir a alma’ e ‘não trabalhar’ no dia da expiação não eram ordens distintas, antes não trabalhar indicava sujeição a Deus, ou seja, afligir-se.

Parafraseando o verso 29 de Levítico 16: no sétimo mês, aos dez dias, obedeçam, não façam nenhum trabalho. A má leitura é: fiquem tristes, cabisbaixos, moribundos e guardem o decimo dia do sétimo mês.

Após compreender que ‘afligir’ é sujeitar a Deus como Senhor, podemos compreender o que foi dito pelo salmista:

“Antes de ser afligido andava errado; mas agora tenho guardado a tua palavra” (Sl 119:67).

Antes de se sujeitar a Deus, o salmista andava errado, mas agora era diferente: ele tem guardado a palavra de Deus! Através do paralelismo sintético (ou: formal, construtivo), em que a segunda parte da frase do salmo amplia e acrescenta à frase inicial uma nova ideia, segue-se que o termo hebraico traduzido por ‘afligir’ tem o sentido de guardar, obedecer, sujeitar.

Um exemplo de antes de se afligir encontramos em Davi quando foi buscar a arca da aliança em Quiriate-Jearim, quando Deus abriu uma brecha em Israel fulminando Uzá. Após a rotura, Davi consultou a lei para saber como trazer a arca do Senhor “E aquele dia temeu Davi a Deus, dizendo: Como trarei a mim a arca de Deus? (1Cr 13:12).

O profeta Daniel se afligiu, quando se predispôs a compreender e sujeitar-se a Deus:

“Então me disse: Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras” (Dn 10:12).

Os filhos de Israel em lugar de sujeitarem-se (afligir) a Deus obedecendo ao Seu mandamento, se lançavam aos jejuns, achando que com jejuns estavam afligindo (tristes) as suas almas.

“Dizendo: Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos as nossas almas, e tu não o sabes? Eis que no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento, e requereis todo o vosso trabalho” (Is 58:3).

Perceba que os filhos de Israel substituíram sujeição a Deus por jejuns. Pensaram que subjugando o corpo com práticas ascéticas estavam impondo sofrimento (afligindo) à alma. Rudimentos fracos e pobres (Cl 2:20 -21).

O profeta Isaías demonstra que não foi este tipo de ‘jejum’ e ‘dia aprazível’ que Deus escolheu. Ao estabelecer o afligir a alma, tem-se a figura de inclinar a cabeça como junco, deitar-se sobre sacos e cinzas, ou seja, figuras utilizadas para descrever o homem que deixa de ser senhor de si mesmo e passa a sujeitar-se a Deus

“Seria este o jejum que eu escolheria, que o homem um dia aflija a sua alma, que incline a sua cabeça como o junco, e estenda debaixo de si saco e cinza? Chamarias tu a isto jejum e dia aprazível ao SENHOR?” (Is 58:5).

Enquanto o que aflige a alma é aquele que se sujeita a Deus obedecendo-O, os soberbos, altivos, são aqueles que se desviam de sujeitar-se a Deus, pois seguem o que propuseram em seus corações enganosos.

“Tu repreendeste asperamente os soberbos que são amaldiçoados, que se desviam dos teus mandamentos” (Sl 119:21).

 

Como se humilhar debaixo das potentes mãos de Deus

Como afligir a alma na Nova Aliança? Obedecendo ao mandamento do Senhor, que é crer em Cristo (1Jo 3:23).

Ao crer que Jesus é o Cristo, o crente se faz servo, portanto, afligiu-se, humilhou-se, sujeitou-se a Deus.

“Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” (1Pe 5:6).

Jesus Cristo deu exemplo de como se humilhar:

“Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2:7 -8).

Quando se fez semelhante aos homens, o Verbo eterno esvaziou-se a si mesmo. Na forma de homem Cristo humilhou-se a Si mesmo quando foi obediente ao Pai até a morte, e morte de cruz. Humilhar a si mesmo é sujeitar-se, obedecer.

A obediência que Deus requer dos homens consiste em crer que Jesus é o enviado de Deus. Ao crer, o homem ‘afligiu’ a sua alma e entra no descanso do Senhor, assentando-se nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1:3; Hb 4:3).

Na Antiga Aliança os filhos de Israel que guardassem o decimo dia do sétimo mês, ou quaisquer outros dias sabáticos, afligiam a sua alma, e na Nova Aliança, qualquer dos homens que creiam que Jesus é o Cristo guardaram o mandamento de Deus.

 

 

[1] “ענה 06031 ànah uma raiz primitiva [possivelmente melhor identificada com 6030 pela ideia de menosprezar ou intimidar]; DITAT – 1651,1652; v. 1) (Qal) estar ocupado, estar atarefado com 2) afligir, oprimir, humilhar, ser oprimido, ser curvado 2a) (Qal) 2a1) ser abaixado, tornar-se baixo 2a2) ser rebaixado, estar abatido 2a3) ser afligido 2a4) inclinar-se 2b) (Nifal) 2b1) humilhar-se, curvar 2b2) ser afligido, ser humilhado 2c) (Piel) 2c1) humilhar, maltratar, afligir 2c2) humilhar, ser humilhado 2c3) afligir 2d4) humilhar, enfraquecer-se 2d) (Pual) 2d1) ser afligido 2d2) ser humilhado 2e) (Hifil) afligir 2f) (Hitpael) 2f1) humilhar-se 2f2) ser afligido” Dicionário Bíblico Strong.




Tamar e Judá

Tamar andou por fé, ao crer em uma mensagem, que tinha por alvo todos os descendentes da carne de Abraão, não em uma promessa feita, diretamente, a ela. Pela fé de Tamar Cristo é o Leão da Tribo de Judá.


Tamar e Judá

“Mais justa é ela do que eu, porquanto, não a tenho dado a Selá, meu filho.” (Gênesis 38:26)

Introdução

Todos os cristãos declaram, com alegria, conforme consta no Livro do Apocalipse, que o Senhor Jesus Cristo é o Leão da Tribo de Judá!

“E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos” (Ap 5:5).

Judá foi abençoado por Jacó, seu pai, com a seguinte bênção:

“Judá, a ti te louvarão os teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de teus inimigos; os filhos de teu pai a ti se inclinarão. Judá é um leãozinho, da presa subiste, filho meu; encurva-se e deita-se como um leão,  como um leão velho; quem o despertará? O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador. dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos. Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta à cepa mais excelente; ele lavará a sua roupa no vinho e a sua capa em sangue de uvas. Os olhos serão vermelhos de vinho e os dentes brancos de leite” (Gn 49:8-10).

A bênção anunciada por Jacó aos seus filhos, dizia acerca de um futuro distante (Gn 49:1) e destaca a linhagem de Judá como leão, no auge da sua força, que a realeza pertenceria à casa de Judá e dela nasceria o Cristo, o regente dos povos. Daí advém à designação de ‘Leão da Tribo de Judá’, à raiz de Davi, que é dada ao Messias.

Entretanto, Judá figura como um dos ascendentes de Cristo, pela ação de uma mulher estrangeira, Tamar, a nora de Judá. Tamar creu na promessa do Descendente feita a Abraão, Isaque e Jacó e agiu segundo a palavra da promessa, quando buscou descendência para o seu marido.

 

A história

Tudo começou com Judá, o quarto filho de Jacó e de Lia, a primeira esposa de Jacó, a que foi desprezada (Gn 35:23). Em vez de buscar para si uma esposa, em meio à sua parentela, como fizeram Isaque e Jacó, Judá apartou-se de seus irmãos, logo após ele, Judá e seus irmãos, venderem José para os ismaelitas (Gn 37:28).

Judá foi morar em Adulão, na casa de um homem chamado Hira. Em Adulão, Judá conheceu a filha de um cananeu, Sua, e teve três filhos: Er, Onã e Selá. Judá escolheu uma mulher para Er, o seu filho primogênito, uma canaanita de nome Tamar.

O casamento de Er e Tamar não durou muito, pois ele era perverso diante de Deus, pelo que Deus o matou (Gn 38:7). Judá, com cuidado da sua linhagem, deu ordem ao seu segundo filho, Onã, para deitar-se com Tamar e assim, o seu filho do meio cumpriria o dever de cunhado, suscitando linhagem ao seu irmão Er (Gn 38:8).

Onã, por sua vez, sabendo que a linhagem não lhe pertenceria, antes, seria do seu irmão Er, sempre que se unia a Tamar, mulher do falecido, lançava o sêmen na terra, com o propósito de não dar descendência ao seu irmão (Gn 38:9). Em função desse posicionamento mesquinho, Deus matou Onã (Gn 38:10).

Observe que Onã não foi morto em função de utilizar o método contraceptivo mais antigo da história: lançar o sêmen na terra (coito interrompido), mas, sim, por negar descendência ao seu irmão. Entender, com base nesta passagem bíblica, que os métodos contraceptivos constituem pecado, é tremendo equívoco, pois, o mal praticado por Onã resume-se em:

a) não dar descendência ao seu irmão, e;

b) enganar Judá, se passando por obediente.

Com a morte de dois filhos, Judá não quis dar o seu filho mais novo à Tamar, pois pensou que Selá também poderia morrer. Com medo, Judá combinou com Tamar que daria o seu filho mais novo, posteriormente, quando Selá se tornasse homem, e assim cumpriria a obrigação de cunhado.

Percebe-se, através do pensamento de Judá, que ele inferiu que Tamar poderia levar o seu terceiro filho à morte, como se o problema estivesse em Tamar. Ele nem mesmo aventou a maldade dos seus filhos diante de Deus, porque foi a maldade deles que os levou à morte.

A maldade dos filhos de Judá, que morreram, estava no fato de não quererem filhos, tanto Er quanto Onã. Alguém pode se perguntar: Onde está a maldade em alguém não querer ter filhos? Para qualquer outra família na face da terra não havia e continua não sendo mal algum, mas para os descendentes de Abraão, Isaque e Jacó a maldade resume-se na falta de confiança na promessa que Deus fez a Abraão.

Todos da casa de Judá tinham conhecimento da promessa que Deus fez a Abraão, Isaque e Jacó. Todos sabiam que Deus abençoara a Abraão, o bisavô de Judá, concedendo a ele um filho, sendo Sara, mulher de Abraão, estéril, que deu à luz com 90 anos. Com Isaque, que nasceu segundo a promessa, não foi diferente, pois, Rebeca, também, era estéril e deu à luz gêmeos: Esaú e Jacó.

Como ignorar o fato de que Raquel, também, estéril, tivera dois filhos: José e Benjamim? Mas, os dois filhos de Judá, Er e Onã não fizeram caso do que souberam, através de seu pai, pois não se portaram segundo a palavra que ouviram. Nem mesmo Judá considerou a promessa e a fé de Abraão, ao negar o seu filho mais novo a Tamar.

“Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, o ressuscitar” (Hb 11:18).

O rei Ezequias foi outro descendente de Abraão, que esteve à beira da morte, por não prover descendência à casa de Abraão e Davi. Quando lhe foi dito, por intermédio do profeta Isaías: “Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa porque morrerás e não viverás”, tal alerta se deu por Ezequias não ter filhos, até aquele momento. (II Rs 20:1)

‘Casa’, no texto, refere-se à descendência, diferentemente do que muitos pensam, que se tratava de alguma dívida, ofensa, mágoa ou dano que Ezequias deveria reparar. Ezequias não iria morrer por erros cometidos, visto que ele mesmo declarou que andava em verdade diante de Deus e fazia o que era bom aos olhos de Deus, antes iria morrer por se postar como obstáculo à linhagem messiânica, não provendo descendência para si. (II Rs 20:3)

Como Deus prometeu a Davi que lhe edificaria casa, Davi ficou admirado que Deus falasse acerca da sua linhagem, para tempos distantes (2 Sm 7:19). Ao dar mais 15 anos a Ezequias, Deus assim o fez, por duas razões: a) o amor ao Seu nome e; b) pela promessa que fez a Davi (2 Rs 20:6). Se Ezequias acreditava na palavra de Deus, anunciada a Abraão e a Davi, deveria se preocupar em ter filhos.

Quando Ezequias morreu, o seu filho Manassés reinou em Israel, com apenas doze anos de idade, demonstrando que, após a palavra do Senhor, Ezequias ainda demorou três anos para colocar a sua ‘casa’ em ordem! (2 Rs 21:1)

Tamar, por sua vez, apesar de estrangeira, ao ficar sabendo da história da família de Judá, diferentemente dos seus filhos, considerou as histórias que ouviu, acerca da promessa feita a Abraão e buscou linhagem para o seu marido.

Por que podemos inferir que Tamar soube da promessa? Porque Abraão ensinou aos seus filhos e à sua casa, depois dele, para guardarem o estabelecido por Deus, conforme se lê:

“Porque eu o tenho conhecido e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa. depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (Gn 18:19).

A filha de Sua, mulher de Judá, faleceu muito tempo depois da promessa que Judá fez a Tamar, o que demonstra que Judá não iria cumprir a sua palavra. Depois de consolado da sua viuvez, Judá, juntamente com o seu amigo, Hira, subiu a tosquiar as ovelhas. Tamar, por sua vez, foi avisada que Judá estava se deslocando para Timna, onde ficavam os tosquiadores de suas ovelhas.

Como havia passado o tempo e como Tamar percebeu que o seu sogro não lhe daria o seu filho mais novo (visto que Selá já era homem), ela tirou os vestidos da sua viuvez, cobriu-se com um véu para se disfarçar e assentou-se à entrada de Enaim, caminho de quem ia a Timna (Gn 38:14).

Ao passar por Tamar, por causa do véu, Judá não reconheceu a sua nora e considerou que fosse uma prostituta e lhe propôs: – ‘Vem, deixa-me dormir contigo! ’ Sem se revelar, disse Tamar: – ‘Que darás para dormires comigo?’ e Judá prometeu pagar Tamar com um cabrito do rebanho.

Tamar solicitou uma garantia de que o pagamento seria honrado, então, Judá aquiesceu e perguntou: – ‘Que penhor é que te darei?’. Na sequência, ela solicitou o selo de Judá, com o seu cordão, bem como, o cajado que portava. Judá deu o penhor e, sem reconhecer Tamar, dormiu com sua nora e ela concebeu.

Tamar voltou para a casa do seu pai e cobriu-se com o vestido de sua viuvez! Judá, por mão do adulamita, enviou o pagamento para rever os objetos penhorados, porém, Hira não localizou a mulher, que julgava ser uma prostituta cultual. Após ser informado de que a prostituta não foi localizada, Judá, preocupado com a sua honra, deixou pra lá o penhor, pois apesar de enviar o pagamento, não a localizou.

Passado três meses, trouxeram ao conhecimento de Judá que a sua nora Tamar havia adulterado, pois estava grávida. Judá, de pronto, ordenou que ela fosse tirada da casa de seu pai e queimada. Mas, enquanto era conduzida para ser queimada, Tamar, de posse do penhor, informa aos seus algozes que aqueles objetos pertenciam ao pai da criança e que o seu sogro verificasse a quem pertenciam os objetos.

Ao ver os seus pertences, Judá os reconheceu e declarou sua nora mais justa que ele, pelo motivo de não ter dado o seu filho Selá, para cumprir a obrigação de cunhado, costume que, posteriormente, na lei, foi nomeadode ‘Lei do levirato’.

“Mais justa é ela do que eu, porquanto não a tenho dado a Selá, meu filho.” (Gênesis 38:26)

 

Tamar, uma mulher justa

Para a nossa análise, é imprescindível desvencilhar-se da lente moral, própria à nossa sociedade e ao nosso tempo. Os valores socioculturais, à época, eram completamente diversos da nossa, e não servem de exemplo para pautarmos as nossas condutas, hoje, e nem para tecermos críticas aos personagens bíblicos.

A análise do texto deve ter o mesmo prisma do historiador que escreveu o Livro de Gênesis, que não emitiu nenhum juízo de valor, nem em relação à conduta de Judá, por buscar uma prostituta, e nem em relação à Tamar, que se disfarçou para deitou-se com o seu sogro.

Para compreender as relações sociais à época, se faz necessário levar em conta alguns princípios de análise apontados por Jaeger, em sua obra ‘Paideia – A formação do Homem Grego’, com relação ao emprego de termos gregos utilizados na antiguidade, que, devido às transformações culturais, acabaram sendo considerados hoje com sentido completamente diverso de quando foi utilizado:

“… a unidade originária de todos aqueles aspectos – unidade vincada na palavra grega – e não na diversidade sublinhada e consumada pelas locuções modernas (…) Ao empregar um termo grego para exprimir uma coisa grega, quero dar a entender que essa coisa se contempla, não com os olhos do homem moderno, mas sim, com os do homem grego”. JAEGER, W. Paideia – A formação do Homem Grego, tradução de Artur M. Parreira, 4ª ed., São Paulo, Ed. Martins Fontes, 2001, p. 01.

O único juízo de valor que encontramos no texto é o de Judá que, ao saber da gravidez de Tamar,  mandou queimá-la, quando arguido, reconheceu os seus pertences pessoais e, de pronto, justificou a Tamar, visto não ter dado o seu filho mais novo a ela.

Percebe-se, pelo texto, que a moral vigente à época era honrar o contrato, cumprir como prometido, tanto que Judá não queria ser infamado, por não ter quitado a dívida com uma prostituta, deixando de mão o penhor que havia entregue como garantia de pagamento. No entanto, não considerou que cairia em desprezo, se não cumprisse a palavra que dera a Tamar, acerca do seu filho mais novo, Selá.

“Então disse Judá: Deixe-a ficar com o penhor, para que, porventura, não caiamos em desprezo; eis que tenho enviado este cabrito; mas tu não a achaste” (Gn 38:23);

“Então disse Judá a Tamar, sua nora: Fica-te viúva na casa de teu pai, até que Selá, meu filho, seja grande” (Gn 38:11).

Judá considerou uma desonra não honrar a sua palavra com uma prostituta, mas não honrou a sua palavra com a sua nora, que teve que permanecer viúva na casa do pai dela. Judá teve a vida do seu filho caçula por preciosa, em detrimento da promessa feita a Abraão e da obrigação de prover linhagem a Er, seu filho primogênito.

Tamar, por sua vez, sendo estrangeira e participante da família, pelo casamento, mesmo após a morte do marido, não teve a sua vida por preciosa e buscou descendência para o seu marido. Podemos afirmar de Tamar, que ela foi uma mulher sábia, pois edificou casa ao seu marido, mesmo ele sendo perverso aos olhos de Deus.

“Toda mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos” (Pv 14:1).

Prover descendência ao marido é o papel da mulher sábia e assim Tamar o fez, ao deitar-se com seu sogro, como se fosse prostituta e, ao ter a perspicácia de guardar consigo o penhor.

Outras mulheres, em Israel, não tiveram sabedoria semelhante a Tamar, a exemplo de Mical, que foi amaldiçoada pelas palavras que proferiu em desfavor de Davi, justo no dia em que Davi voltava com a Arca do Conserto e tencionava abençoar a sua casa.

“E sucedeu que, entrando a arca do SENHOR na cidade de Davi, Mical, a filha de Saul, estava olhando pela janela; e vendo ao rei Davi, que ia bailando e saltando, diante do SENHOR, o desprezou no seu coração (…) E voltando Davi para abençoar a sua casa, Mical, a filha de Saul, saiu a encontrar-se com Davi e disse: Quão honrado foi o rei de Israel, descobrindo-se hoje aos olhos das servas de seus servos, como sem vergonha alguma, se descobre qualquer dos vadios (…) E ainda mais do que isto me envilecerei e me humilharei aos meus olhos; mas das servas, de quem falaste, delas serei honrado. E Mical, a filha de Saul, não teve filhos, até o dia da sua morte” (2 Sm 6:16 e 20 e 22-23).

Observe que Tamar se disfarçou de prostituta para alcançar o que lhe era de direito e não para defraudar o seu sogro. Mical, por sua vez, por ser filha de Saul, considerou-se da realeza e desprezou Davi, por comemorar o retorno da Arca da Aliança para a cidade de Jerusalém.

Ouvir bem as histórias da família do seu marido Er, deu a Tamar os elementos necessários para ela alcançar o que era, por direito, da casa do seu marido. Uma das histórias foi a de Jacó, que em conluio com sua mãe, Rebeca, enganou seu pai, Isaque, para garantir o direito que havia adquirido do seu irmão Esaú (Gn 25:33). Outra, que possivelmente auxiliou Tamar, foi a história das filhas de Ló, que proveu linhagem ao seu pai após embriagá-lo (Gn 20:32).

Tamar estava convicta de que necessitava prover descendência ao seu marido, pois quando Er morreu, ficou livre da lei do seu marido, podendo voltar para casa dos seus pais ou casar-se novamente, mas, não quis. Porém, para honrar Er, Tamar sujeitou-se ao seu sogro, quando este instou ao seu filho Onã para cumprir o dever de cunhado, e posteriormente, continuou guardando a sua viuvez na casa do seu pai.

Durante o tempo que Tamar esperou Judá para dar-lhe o seu filho mais novo, ela não se desfez do seu luto e nem do vestido da sua viuvez, permanecendo na casa do seu pai.

Portanto, a atitude de Tamar demonstra que ela era mais zelosa da promessa feita a Abraão acerca do Descendente, do que Judá e os seus filhos. O titulo ‘O Leão da Tribo de Judá’, que hoje pertence a Cristo, se deve a Tamar, uma mulher estrangeira, que proveu descendência a Judá e, assim, figura na linhagem de Cristo.

“Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou a Isaque e Isaque gerou a Jacó;  Jacó gerou a Judá e a seus irmãos; e Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão;  Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom;  Naassom gerou a Salmom; e Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; e Boaz gerou, de Rute, a Obede; e Obede gerou a Jessé; e Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão, da que foi mulher de Urias. E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo” (Mt 1:1 -16)

Tamar figura entre as três mulheres que aparecem na genealogia de Jesus, desde a promessa feita a Abraão, até o nascimento de Cristo. Vale destacar que as três mulheres que figuram na linguagem de Cristo eram estrangeiras:

a)      Tamar era cananéia;

b)      Raabe, a prostituta, morava em Jericó, e;

c)      Rute, uma moabita.

Muito tempo após Tamar prover descendência a Judá, Jacó, próximo da sua morte, chamou os seus filhos e os abençoou. E assim, coube a seguinte benção a Judá:

“Judá, a ti te louvarão os teus irmãos; a tua mão será sobre o pescoço de teus inimigos; os filhos de teu pai a ti se inclinarão. Judá é um leãozinho, da presa subiste, filho meu; encurva-se e deita-se como um leão, e como um leão velho; quem o despertará? O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos. Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta à cepa mais excelente; ele lavará a sua roupa no vinho e a sua capa em sangue de uvas. Os olhos serão vermelhos de vinho e os dentes brancos de leite” (Gn 49:8-12).

A bênção concedida a Judá veio através de Peres, que Judá gerou de Tamar e da Tribo de Judá descende o Cristo.

 

Tamar, mulher de fé

Percebe-se, pela disposição de Tamar em dar descendência ao seu marido, que ela não tinha interesse em bens materiais, como herança, dote, recompensa, etc.

Bastou Tamar, uma mulher estrangeira, fazer parte da família de Judá e, ouvir as histórias dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, para crer na vinda do Descendente. Ela creu na palavra de Deus e executou a obra exigida: procurou manter a linhagem do seu marido e, por isso, foi bem-aventurada no seu feito (Tg 1:22-25).

Tamar, como Abraão e Raabe, agiu conforme a palavra de Deus. Tamar agiu tendo por base a palavra de Deus, assim como Abraão, que ofereceu o seu único filho em holocausto, porque Deus lhe ordenara. Raabe, a prostituta, ouviu acerca dos filhos de Israel, mas foi justificada por ter acolhido os espias em sua casa, pondo em risco a própria vida (Tg 2:21-25).

Para o Descendente prometido a Abraão vir ao mundo, era imprescindível manter a linhagem dos filhos do patriarca, sendo certo, pelas profecias, que Deus havia eleito a linhagem de Jacó (Gn 25:23), e, assim, todos os filhos de Jacó tinham obrigações em relação à promessa feita a Abraão, Isaque e Jacó, tendo filhos.

“Porque eu o tenho conhecido e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa, depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão, o que acerca dele tem falado” (Gn 18:19).

“E disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó; não te chamarás mais Jacó, mas Israel será o teu nome e chamou-lhe Israel. Disse-lhe mais Deus: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, frutifica e multiplica-te, uma nação, sim, uma multidão de nações sairá de ti e reis procederão dos teus lombos; e te darei a ti a terra que tenho dado a Abraão, a Isaque e à tua descendência, depois de ti, darei a terra” (Gn 35:10-12).

Parecia improvável o Descendente vir da casa de Judá, visto que ele não permaneceu junto da sua família e não tomou mulher dentre a sua parentela. Mas, o engajamento de Tamar, com base na palavra de Deus, anunciada à casa de Jacó, foi de suma importância para a benção repousar na Tribo de Judá.

Some-se a isso, a possibilidade de Tamar ter ouvido as histórias acerca de Simeão e Levi, na questão da violação de Diná, em que foram violentos e sanguinários, sem consideraram que as suas ações expuseram a casa de Jacó ao extermínio (Gn 34:30). Tamar, possivelmente, ouviu acerca de Rúben, o primogênito de Jacó, que subiu ao leito de seu pai, quando se deitou com Bila (Gn 35:22).

Se a linhagem escolhida por Deus fosse decorrente de Lia, a mulher de Jacó que era desprezada, a casa de Judá poderia ser eleita, tendo em vista as ações mesquinhas de Rúben, Simeão e Levi (Gn 49:3 -7), pois nada que fizeram visava à preservação da linhagem de Israel, mas, sim, atender a interesses particulares.

Analisando a conduta de Tamar, temos que, comer carne e não comer, não é pecado. Mas, se alguém tem dúvidas, acerca do que comer ou do que não comer, mas, come, está condenado. O problema não está na carne e nem no ato de comer, mas, antes, na base do conhecimento de quem come.

Se quem come está certo em Cristo, de que nenhuma coisa é imunda, não está condenado. Mas, se alguém come, todavia, se não está certo em Cristo, de que tal comida não é imunda, encontra-se em condenação, pois tudo o que não é proveniente da fé, é pecado.

“Eu sei e estou certo no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma imunda, a não ser para aquele que a tem por imunda; para esse é imunda (…) Mas, aquele que tem dúvidas, se come, está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé, é pecado” (Rm 14:14 e 23).

Se a ação de Tamar, ao enganar Judá, fosse somente para adquirir algum tipo de lucro, vingança, vã glória, etc., seria pecado. Mas, como a ação dela tinha por objetivo a promessa, visto que ela desejava descendência ao seu marido, a sua iniciativa de conceber do sogro não foi pecado.

Some-se a isso, o fato de Tamar buscar o que lhe era de direito: a descendência ao seu marido e não os seus sonhos, riquezas, vingança, etc.

Quando a Bíblia diz que o justo viverá da fé, entendemos que a ‘fé’ é a palavra de Deus:

“Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas, o justo pela sua fé viverá (Hc 2:4);

“E te humilhou e te deixou ter fome, te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR, viverá o homem (Dt 8:3);

A palavra de Deus é o temor que desvia o homem do pecado:

“E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis (Êx 20:20);

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti (Sl 119:11).

Tamar tornou-se exemplo em Israel e passou a ser louvada pela descendência que proveu a Judá, porque pautou a sua vida, segundo o que ouvira de sua nova família:

“E seja a tua casa, como a casa de Perez (que Tamar deu à luz a Judá), pela descendência que o SENHOR te der desta moça” (Rt 4:12).

 

Exemplo de fé para os homens de hoje

É comum os pregadores apresentarem a Tamar como exemplo de fé, e isso é inegável, porém, temos que analisar o que abstrair do exemplo de Tamar, para não sermos levados por falsos argumentos.

Ler que Deus honrou a Tamar por ela ser viúva e que as viúvas cristãs são assistidas por Deus por serem viúvas é um equívoco. É um equivoco entender, com base na história de Tamar, que Deus detém cuidado especial para com as mulheres viúvas, simplesmente, por elas serem viúvas.

Jesus, com base na história da viúva de Sarepta, de Sidom, evidenciou que, em Israel, havia muitas viúvas, nos dias em que Elias orou para que não chovesse sobre a face da terra, mas que, a nenhuma delas foi enviado o profeta, a não ser à uma viúva estrangeira (Lv 4:25-26).

E por que Elias foi enviado à viúva de Sarepta, de Sidom? Porque ela era obediente à palavra de Deus!

“Levanta-te e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente” (1 Rs 17:9);

“Porque, assim diz o SENHOR Deus de Israel: a farinha da panela não se acabará e o azeite da botija não faltará, até ao dia em que o SENHOR dê chuva sobre a terra. E ela foi e fez, conforme a palavra de Elias; e assim comeu ele, ela e a sua casa, por muitos dias. Da panela, a farinha não se acabou e da botija, o azeite não faltou, conforme a palavra do SENHOR, que ele falara pelo ministério de Elias” (1 Rs 17:14-16).

Ora, Deus cuidara da viúva de Sarepta, uma estrangeira, porque ela era obediente à voz de Deus, o que contrasta com as viúvas de Israel, pois não eram obedientes. Deus não se sensibiliza, puramente, com o infortúnio das viúvas, antes, Ele socorre somente aos que lhe obedecem:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos” (Dt 5:10).

“E sabemos que todas as coisas contribuem, juntamente, para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28).

A interpretação que Jesus fez da passagem bíblica, acerca do milagre que Deus concedeu à viúva da cidade de Sarepta, não agradou aos seus ouvintes, pois intentaram precipitá-lo de um penhasco (Lc 4:29).

O exemplo de fé que temos em Tamar, decorre do fato de dispor da sua vida, para proporcionar os meios necessários ao cumprimento da promessa da vinda do Messias. Sabendo-se que Tamar foi recompensada por Deus, por executar uma obra segundo a palavra da promessa, conclui-se que os cristãos, ao ter a palavra do evangelho, que promete salvação, como parâmetro para as suas vidas, Deus há de honrar a sua palavra aos que O invocarem, pois todos que invocarem a Cristo serão salvos.

Com relação às vicissitudes do dia a dia, temos a seguinte promessa:

“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (1 Pe 5:7).

Em Tamar, exemplo de fé, não se deve enfatizar que os cristãos devem perseguir os seus sonhos. Ora, todos os homens têm sonhos, aspirações, desejos, etc., mas, um crente de fé, como Tamar, não busca a Deus para realizar sonhos, desejos e aspirações, antes obedece à palavra de Deus, tendo em vista a Sua promessa.

“E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” (1 Jo 2:25).

Tamar trabalhou em prol da linhagem do seu marido, pensando na promessa do Descendente prometido a Abraão, não em função das suas aspirações diárias. Tamar não buscou os seus direitos pelos seus direitos, mas, sim, os seus direitos em função da promessa e, em função da Sua palavra, Deus honrou Tamar.

Deus honra os que creem, concedendo salvação, pois esse é o objetivo da ‘fé’:

“Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas” (1 Pe 1:9).

Quem recebe o evangelho deve estar cônscio de que Deus se propõe, em Cristo, a salvar almas, não a realizar sonhos, aspirações ou, desejos:

“Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” (Tg 1:21).

Ora, os cristãos podem ser ensinados a não abrirem mão dos seus direitos, como cidadãos, deixando claro que, direitos decorrentes de cidadania, não são garantidos por Deus, a seus filhos. O objetivo do evangelho não é garantir, neste mundo, direito de ninguém, antes, objetiva, exclusivamente, à salvação.

“Mas ele lhe disse: Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?” (Lc 12:14).

Se alguém tem um sonho, uma aspiração, um desejo, que trabalhe, estude, invista para realizá-los, mas não atribua a Deus a concretização de suas aspirações pessoais. Não tenha os seus sonhos, aspirações e desejos como promessa de Deus, pois o que Ele prometeu em Cristo foi vida eterna (1 Jo 2:25).

Se alguém que se diz profeta de Deus, profetizar que Deus vai realizar os seus sonhos, aspirações ou, desejos, considere as Escrituras, pois Deus vela sobre a Sua palavra para a cumprir e não sobre a palavra de profetas, que profetizam segundo os seus corações enganosos.

Natã era profeta de Deus e, ao ouvir as aspirações de Davi, concluiu que Deus haveria de realizá-las (2 Sm 7:3). Mas, aquela não era a palavra de Deus que, logo em seguida, ordenou ao profeta Natã, que voltasse e anunciasse a palavra do Senhor a Davi.

“Em todo o lugar em que andei, com todos os filhos de Israel, falei, porventura, alguma palavra a alguma das tribos de Israel, a quem mandei apascentar o meu povo de Israel, dizendo: Por que não me edificais uma casa de cedro? (2 Sm 7:7).

Em nossos dias têm surgido muitos profetas exigindo dos cristãos o melhor para Deus! Mas, onde está escrito na Bíblia que Deus requer dos seus filhos o melhor? O que Deus requer do homem é que obedeçam a sua palavra, ou seja, se sujeitem como servos (humildemente) à Sua palavra (1 Sm 15:22; Mq 6:8).

O apóstolo Paulo, servo de Deus, certa feita foi amarrado por um centurião para ser açoitado e, como cidadão romano, fez valer os seus direitos (At 22:25). De nada adiantaria, naquele momento, o apóstolo argumentar com o centurião: – ‘Sou um homem de Deus’.

Conhecer os nossos direitos, bem como os nossos deveres como cidadãos, possibilita um melhor viver neste mundo e, dependendo do momento, o seu direito ou, até mesmo, a sua perspicácia (At 23:6), pode livrá-lo de um revés, em função de perseguição ao evangelho.

Por que o apóstolo Paulo agiu dessa forma, nesses dois eventos? Porque ele cria em Deus, que tem poder de livrar, mas que, também, pode não fazê-lo.

“Responderam Sadraque, Mesaque e Abednego e disseram ao rei Nabucodonosor: Não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e da tua mão, ó rei. E se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste” (Dn 3:16-18).

O alerta aos cristãos é amplo:

“As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnios e açoites e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos e montes, pelas covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hb 11:35-39).

Tamar conhecia as regras sociais do seu tempo e, ao providenciar linhagem ao seu marido, tomou cuidado para ter consigo o penhor, bem como sabia que seria poupada pelo sogro, quando ele soubesse que o filho em seu ventre, lhe pertencia.

Todos os cristãos precisam ter o cuidado de não se deixarem envolver por um sentimento pernicioso, de que nada pode lhes atingir, principalmente, quando se tem a ideia de que Deus tem a obrigação de livrar dos percalços da vida quem estiver trabalhando em prol do evangelho.

Todos precisam aprender com o apóstolo Paulo, que aprendeu em tudo, ter toda suficiência!

“Sei estar abatido e sei, também, ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade” (Fl 4:12).

Tamar guardou o penhor consigo, pois sabia que aqueles objetos eram a sua garantia de vida, vez que ela entendia que o fruto do seu ventre era uma das possibilidades do Descendente vir ao mundo e, não expressamente, uma garantia, como foi feita a Abraão. Tamar não sabia, efetivamente, que o fruto do seu ventre era o que possibilitaria a vinda do Messias ao mundo, antes, ela entendia que era imprescindível constituir descendência a Er.

Tamar andou por fé, ao crer em uma mensagem, que tinha por alvo todos os descendentes da carne de Abraão, não em uma promessa feita, diretamente, a ela. Ela agiu como Rebeca, quando procurou garantir a benção, que era de direito de Jacó, em função da palavra dita a Rebeca que, em seu ventre, havia duas nações e que a maior (povo) serviria a menor (povo).

“E o SENHOR lhe disse: Duas nações há no teu ventre e dois povos se dividirão das tuas entranhas,  um povo será mais forte do que o outro povo e o maior servirá ao menor” (Gn 25:23).

Se houvesse uma palavra de Deus, afirmando que, do fruto do ventre de Tamar, viria o Cristo, era certo que ela não necessitaria de penhor, pois ai ter-se-ia a mesma cláusula do pensamento de Abraão:

“Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, o ressuscitar (Hb 11:18).

Semelhante à confiança de Tamar, deve ser a confiança do cristão, com relação à palavra de salvação, pois a promessa de salvação engloba todos os nascidos de mulher, mas ela não se faz acompanhar de uma cláusula de proteção contra as vicissitudes da vida.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto.




Por que Deus exigiu de Abraão o sacrifício de Isaque?

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ). Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!


Por que Deus exigiu de Abraão o sacrifício de Isaque?

A ordem direta de Deus a Abraão para imolar Isaque fomenta várias discussões, distorções e interpretações errôneas acerca do objetivo de tal ordem.

A despeito da onisciência de Deus, muitos questionam qual o propósito de Deus em mandar Abraão imolar o seu filho. Deus queria saber até onde Abraão era obediente? Deus queria mensurar a fé de Abraão?

A resposta é simples, porém, demanda conhecimento bíblico e raciocínio. Para responder tal indagação é necessário relembrar alguns eventos específicos concernentes a vida de Abraão. Analisemos estes três pontos principais:

 

O chamado de Abraão

Abraão era gentil, morava na cidade de Ur, terra dos Caldeus. Seu pai saiu da cidade de Ur com destino a terra de Canaã, porém, quando chegou a Harã, passou a habitar naquele lugar.

Abraão foi orientado por Deus a sair do meio de seus parentes seguindo para uma terra que ainda seria mostrada. Abraão saiu confiado em Deus tendo em vista uma promessa ( Gn 12:2 ). Obedeceu à voz divina, porém, levou consigo o seu sobrinho Ló até a terra de Canaã ( Gn 12:5 ).

Após passar pela terra de Canaã, novamente Deus apareceu a Abraão e prometeu aquela terra à sua descendência. Abraão, que à época chamava-se Abrão, ali edificou um altar ao Senhor, e seguiu em direção ao sul.

Abraão desceu ao Egito por causa da escassez de alimento e quando se estabeleceu no Egito adquirindo riquezas. Após ter alcançado bens o patriarca foi compelido a deixar o Egito, pois Deus feriu o rei do Egito por causa de Sara, mulher de Abraão. Em seguida, Abraão subiu do Egito para as regiões do Nequebe juntamente com Ló.

Perceba que Abraão poderia continuar morando no Egito, porém, a grande praga que sobreveio ao rei do Egito fez com que Abraão saísse de lá.

Abraão seguiu do Egito para a região do Neguebe e retornou ao local que fez o primeiro altar ao Senhor, Betel, ou seja, voltou ao ponto inicial de sua peregrinação. Após uma contenda entre os servos de Ló e os servos de Abraão, eles se separaram. Ló foi levado cativo e Abraão teve que lutar contra quatro reis para libertá-lo.

Após a guerra, saiu ao encontro de Abraão o rei de Sodoma e o rei de Salém. O rei de Salém abençoou Abraão, e o rei de Sodoma fez uma proposta a Abraão, que foi rejeitada de pronto: “Levantei a minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu, nem um fio nem uma correia de sapato, para que não digas: eu enriqueci a Abrão” ( Gn 14:22 -23).

De tudo que relembramos até aqui, surgem algumas considerações: Por que Abraão precisou sair do Egito, se ele não alcançou a promessa e viveu como peregrino na terra? Por que Abraão não aceitou a proposta do rei de Sodoma se era legitimo ele aceitar tal prêmio?

Diante da proposta do rei de Sodoma Abraão entendeu que, caso aceitasse, no futuro alguém poderia interpretar que Abraão foi enriquecido através dos bens da cidade que foi subvertida por Deus. Se Abraão ficasse com os bens do rei de Sodoma, ficaria ‘constado na história’ que, o rei de Sodoma, e não Deus havia abençoado Abraão.

Abraão foi tentado a lançar mão de bens, que no futuro poderia dar a entender a Abraão que a promessa de Deus efetivou-se por uma conquista própria. Como bem sabemos posteriormente a cidade de Sodoma foi subvertida devido a sua promiscuidade excessiva.

Porém, fica uma questão sem resposta: onde e quando Abraão alcançou o discernimento para não fazer aliança com o rei de Sodoma, rejeitando o que lhe era de direito? A saída do Egito motivada pela praga na casa do rei proporcionou a Abraão uma lição de vida que o capacitou a rejeitar a aliança com o rei de Sodoma.

Com relação às questões materiais Abraão estava consciente de que deveria esperar em Deus.

 

A promessa de um descendente

Deus prometeu a Abraão que a sua descendência herdaria a terra que os seus olhos estavam enxergando no momento da reiteração da promessa ( Gn 13:14 ), porém, Deus ainda não havia prometido um filho a Abraão gerado por Sara.

Em face da promessa à sua ‘descendência’ ( Gn 15:1 ), Abraão ficou incomodado por não ter filho, e pretendia fazer o damasceno Elieser, o seu servo, o seu herdeiro.

Foi quando Deus prometeu a Abraão um filho de suas entranhas, sem qualquer referência a Sara, e creu Abraão e isto lhe foi imputado por justiça ( Gn 15:4 ).

Para Abraão Deus prometeu o impossível, visto que a época da promessa era de conhecimento que Sara era estéril, porém ele creu firmado no poder e na fidelidade de Deus, sendo declarado justo diante de Deus.

Apesar de Abraão crer em Deus e ser justificado, o tempo passava e ele continuava sem filho. Diante deste quadro, a mulher de Abraão resolveu providenciar filho a Abraão, e ele aceitou dar a Sara um filho através da escrava ( Gn 16:2 ).

É bem provável que Abraão tenha interpretado a atitude de sua mulher como sendo a providência divina: 1) Ismael foi gerado segundo a carne de Abraão, e; 2) o nascimento de Ismael encaixou ‘perfeitamente’ no que Deus lhe falara (um filho de suas entranhas).

Este entendimento decorre do fato de Abraão ter feito menção do nome de Ismael quando Deus reiterou a promessa: “Oxalá viva Ismael diante de ti!” ( Gn 17:18 ). Abraão já estava compreendendo que Ismael era o filho da promessa, o seu ‘primogênito’ e herdeiro.

Algum tempo depois, Abraão foi interpelado por sua mulher, que exigiu que Ismael não herdasse juntamente com Isaque. Abraão ficou temeroso, visto que Ismael seria o seu ‘primogênito’, porém, descansou em Deus quando foi orientado a esperar na providência divina e que ele não estaria fazendo nenhum mal ( Gn 21:12 ).

 

O milagre

A despeito do riso de Abraão no coração, a promessa de Deus continuou de pé ( Gn 17:17 ), e no tempo determinado nasceu Isaque.

Isto demonstra que a fidelidade de Deus é a causa de Abraão ter sido justificado e abençoado segundo a promessa, visto que Abraão riu da promessa.

Em nossos dias a fé é tida como agente catalisador que desencadeia milagres, porém, o que a palavra de Deus demonstra é que a fidelidade e o poder de Deus devem ser à base da fé cristã.

Mesmo após Abraão apresentar seu servo damasceno e seu filho Ismael como opção diante de Deus, mesmo após rir da promessa, Deus permaneceu fiel à sua palavra.

Sara era estéril, de avançada idade (mais de 90 anos) e segundo a promessa de Deus concebeu Isaque. A bíblia demonstra que Abraão estava ciente das impossibilidades para se alcançar um filho com Sara:

  • Um homem de cem anos;
  • Sará com noventa anos;
  • Sará estéril ( Gn 17:17 ).

Diante das impossibilidades, o homem ri, pois não tem ideia da dimensão do poder de Deus. Diante do mar vermelho o homem fica temeroso, pois a impossibilidade do homem fica em evidência. Diante da necessidade de salvação o homem descobre que está à mercê do pecado e da morte, porém, o que é impossível aos homens, para Deus é possível.

 

Por que Deus exigiu o sacrifício de Isaque?

Através da análise anterior, fica demonstrado que certos eventos relatados na história de Abraão são difíceis de captar. O relato da história do patriarca Abraão não se prende a explicar certos porquês, antes se fixa somente nos fatos.

Como é possível a bíblia apontar Abraão como sendo um exemplo de fé, sendo que em determinado momento da sua vida ele riu da promessa, e apresentou uma alternativa diante de Deus? Não era para ele ter perdido a bênção neste evento?

Por que Abraão tentou ‘ajudar’ Deus cumprir a promessa através de Ismael? Uma leitura superficial da história de Abraão faz com que o leitor não perceba este detalhes de suma importância ao contexto geral das escrituras.

Outro ponto a se destacar é concernente a aliança proposta pelo rei de Sodoma. Abraão foi tentado a ajudar Deus com riquezas provenientes do fruto de suas conquistas pessoais, porém, rejeitou-a, pois entendeu que a sua prosperidade deveria ser fruto da promessa divina.

Isto é maravilhoso, porém, onde Abraão aprendeu esta lição? Se levarmos em conta o fato de Abraão ter sido expulso do Egito por causa de uma praga que sobreveio ao Faraó, veremos que neste evento ele aprendeu que rei algum seria o pivô da riqueza pertinente a sua descendência.

Se Abraão não aprendesse a lição no Egito, certamente sucumbiria diante da aliança e oferta do rei de Sodoma. Observe que o perigo rondava Abraão de perto. Se Abraão fizesse uma aliança com Sodoma, certamente diriam que:

  • Sodoma foi responsável pela prosperidade de Abraão, ou;
  • Abraão poderia reputar que as suas riquezas era fruto de suas conquistas pessoais.

Surge outra pergunta: havia algum risco para Abraão acerca do nascimento de Isaque, caso Deus não tivesse posto Abraão a prova. Como? Isto mesmo! Analisemos se havia algum risco para Abraão, caso ele não fosse submetido à provação.

Observe como é fácil o homem confundir-se:

É notório para nós que Isaque foi quem nasceu segundo a promessa de Deus, porém, Abraão fez menção de Ismael perante Deus, pois estava esperançoso que o filho da escrava fosse o seu herdeiro;

Embora Isaque tenha nascido segundo a promessa, Abraão ainda podia e continuou a gerar filhos, mesmo após os cem anos ( Gn 25:1 -2).

Neste ponto em específico (b) havia um grande perigo rondando o patriarca. Havia um risco para Abraão decorrente do fato de ele gerar filhos segundo a sua carne, mesmo em avançada idade. Havia o risco de Abraão se gloriar da sua carne, pois mesmo em avançada idade ainda gerava filhos.

Hoje seria tema de discussão cientifica se Isaque era mesmo filho segundo a promessa, ou se Sara nunca foi estéril de fato. O cuidado que Abraão teve com relação ao rei de Sodoma, para que ninguém dissesse no futuro: “O rei de Sodoma foi quem enriqueceu a Abraão”, seria sem valia, visto que questionariam se Isaque foi realmente fruto da providência divina.

Quando nasceu Isaque, Abraão reputava com base na fé, que a promessa estava sendo cumprida. Mas, após Sara morrer e Abraão casar-se com Quetura, obtendo outros filhos, havia o risco de Abraão ser dissuadido da fé, e voltar a rir da promessa, visto que ele ainda podia gerar filhos, mesmo após considerar impossível obtê-los por causa da idade avançada ( Gn 17:17 ).

Quando Deus mandou Abraão imolar Isaque, Isaque era o seu ‘único’ filho, e não era cogitado Abraão ter mais filhos ( Gn 17:17 ). O evento demonstra que Deus não estava ‘testando’ e nem ‘mensurando’ a fé de Abrão. Deus não estava pondo à fé de Abraão a prova, uma vez que ele já havia sido justificado por Deus.

Deus não estava em dúvidas quanto à fé de Abraão quando o submeteu a prova!

O que Deus pretendia com a ‘provação’?

Com a provação Deus estava cuidando de Abraão! Como?

Pedro nos diz: “Essas provações são para que a prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” ( 1Pe 1:7 e 1Pe 4:12 -14).

Ora, as provações não são instrumentos de medida para se mensurar a fé daqueles que professam a Cristo, antes tem o fito de ‘redundar’ em louvor, glória e honra na revelação de Cristo “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam” ( Tg 1:12 ).

Ou seja, a provação é conforme o propósito e segundo o conselho da vontade de Deus, ‘afim de sermos para louvor da sua glória’ ( Ef 1:11 -12). Abraão foi chamado por Deus para louvor de sua glória!

Como Abraão riu-se da promessa quando vislumbrou as impossibilidades ( Gn 17:17 ), ele poderia novamente rir-se da providência divina após gerar filhos de Quetura ( Gn 25:1 -52).

As seguintes questões poderiam sobressaltar Abraão: Será que Sara era estéril mesmo? Ismael, Isaque, Zinrá, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Sua não foram filhos da minha carne? Será que a falta do “costume das mulheres” em Sara era mesmo uma impossibilidade de ter filhos? A idade de Sara era um real impedimento para ela conceber? Visto que pude ter filhos com mais de cem anos com Quetura, o filho de Sara não poderia ser produto da minha ‘virilidade’?

Todas estas questões não poderiam levar Abraão a gloriar-se da sua carne?

Ao ser exigido o sacrifício de Isaque, Abraão teve que recobrar o seu filho dentre os mortos, confiado no poder de Deus “Abraão julgou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar, e daí também em figura o recobrou” ( Hb 11:19 ).

Ou seja, quando Abraão se predispôs obedecer à ordem divina para oferecem em holocausto o seu filho, ele deixou de ter um filho segundo a sua carne (embora o filho segundo a promessa de Deus fosse proveniente das ‘entranhas’ de Abraão e Sara), para receber o seu filho dentre os mortos.

Daquele momento em diante, Abraão estava desprovido de qualquer elemento que o levasse a considerar posteriormente que Isaque era fruto de sua carne, ou que a sua própria carne havia lhe concedido Isaque. Após o evento da oferta de Isaque, Abraão, segundo a providencia divina, teve a confirmação de que nada alcançou segundo a carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?” ( Rm 4: 1).

Ao recobrar o seu filho dentre os mortos, o que Deus proporcionou a Abraão além do seu filho Isaque? Uma âncora que penetrou até o interior do que estava oculto. Ele foi ensinado a lançar mão da esperança proposta, e não do que era aparente e que desvanece ( Hb 6:18 -19).

Isaque não era a segurança de Abraão, antes a segurança estava na esperança proposta. A consolação esta em Deus que não mente e é imutável, o que faz o homem peregrinar em busca da pátria celestial! ( Hb 6:14 -18).

Para alcançar Isaque, Abraão teve que recobrá-lo dentre os mortos, agindo de modo a dar cabo da própria promessa. Naquele momento em que Abraão ofereceu o seu único filho, a palavra de Deus foi posta acima de evidências físicas da promessa.

Abraão descansou na providência divina, pois o descendente sobre quem a promessa repousaria ainda estava por vir!

Abraão alcançou esta graça em Deus, porém, o povo de Israel, os seus descendentes não compreenderam e nem fizeram como o crente Abraão. Apesar do exemplo concedido por Abraão, o povo não foi aprovado na prova do maná concedido no deserto. As pessoas estavam confiadas no maná que aparecia no deserto, porém, não confiavam na palavra de Deus, que deu origem ao maná. Não consideravam que ‘nem só de pão viverá o homem’ ( Dt 8:3 ).

A prova da fé do homem não é porque Deus quer saber ou mensurar algo a respeito do homem. Antes, a prova da fé tem em vista a preservação da confiança do homem, o que redunda em louvor, glória e honra a Deus ( 1Pe 1:7 ).

 

O temor de Abraão

Com relação ao versículo que diz: “Agora sei que temes a Deus, pois não me negaste o teu filho, o teu único filho” ( Gn 22:12 ), temos uma caso típico de antropomorfismo, ou melhor, é um dos ‘modos’ de Deus se manifestar ou comunicar-se utilizando a forma, o modo, a características ou a linguagem humana.

O homem geralmente compara o desconhecido ou compreende algo desconhecido através de elementos e fatos conhecido. Por exemplo, ao descrever algum animal desconhecido, o homem utiliza-se do que conhece para descrevê-lo: tinha pés como o de homem; cabeça como a de cavalo, rabo como o de peru, etc ( Ez 1:10 ).

Do mesmo modo, ao fazer referência a Deus, diz-se que Deus descansou, uma vez que o homem descansa. Porém, surgem as questões: sendo Deus onisciente, onipresente e onipotente Ele pensa? Faz considerações? Chega a conclusões? Precisa descansar segundo a concepção humana? ( Is 40:8 -31).

Por certo que os ‘caminhos de Deus’ são muito elevados, e os seus ‘pensamentos’ inatingíveis! “Mas não sabem os pensamentos do SENHOR, nem entendem o seu conselho; porque as ajuntou como gavelas numa eira” ( Mq 4:12 ). Como expressar o que nunca se viu ou ouviu? O que nunca subiu ao pensamento do homem? “Mas, como está escrito: As coisas que os olhos não viram, e os ouvidos não ouviram, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam” ( 1Co 2:9 ).

Além das questões antropomorfista, é preciso considerar que a linguagem humana é dinâmica e transforma-se constantemente. Como alcançar o pensamento original de uma única palavra ou de uma frase escrita a milhares de anos? Por mais que muitos escribas procuraram ser fiéis à transcrição de textos, impressões pessoais podem afetar a idéia do texto.

É por isso que o estudo da bíblia deve ser sistemático, seguindo regras e princípios pertinentes a hermenêutica e a exegese. Não é o que um texto expressa que fará surgir ou que extirpará uma doutrina bíblica, antes o contexto geral das escrituras é observado para fazermos um juízo de valores e idéias.

Hoje já é difícil para um interprete ou tradutor secular transmitir a idéia contida em uma expressão idiomática, porém, esta é uma limitação humana.

A bíblia diz que Deus descansou no sétimo dia, porém, através da carta aos Hebreus fica demonstrado que a idéia de descanso que a bíblia imprime não tem relação com a necessidade de repouso. Através da palavra ‘descansar’ a bíblia quer evidenciar que não mais havia obras a serem realizadas.

Após o dia sexto nenhuma outra obra concernente a criação do universo foi realizada, pois tudo foi criado e estabelecido com perfeição.

‘Descansar’ no Gênesis significa não ter obrar a realizar, diferente da ideia que muitos querem dar: repouso por causa de cansaço “Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” ( Hb 4:10 ). Ora, quando a bíblia diz que Cristo entrou no seu repouso, ela quer dar a entender que a obra de Cristo é perfeita como a do Pai.

Com relação ao registro: ‘agora sei que temes a Deus’, verifica-se que o temor (confiança) de Abraão foi levado em conta quanto da justificação por Deus ( Gn 15:6 ), ou seja, ao provar Abraão, Deus não tinha como objetivo mensurar a fé do patriarca.

Se considerarmos um dos recursos linguístico próprio à retórica, percebe-se que o texto tem por objetivo transmitir (noticiar) a Abraão que ele foi provado e aprovado para louvor e glória de Deus, segundo a fé. Este verso não enfatiza falta de conhecimento em Deus, antes, a ênfase da frase está em tornar Abraão ciente de que estava aprovado.

Quando o Anjo do Senhor disse: ‘agora sei que temes a Deus’, o objetivo era louvar o homem que foi provado e aprovado com base na fé “Porque não é aprovado quem a si mesmo se louva, mas, sim, aquele a quem o Senhor louva” ( 2Co 10:18 ).




Nefilim

Os anjos são seres espirituais ( Hb 1:14 ), sem um corpo físico composto de matéria à base de carbono. Apesar do poder que possuem e da possibilidade de assumir a forma humana, não podem transmutar os seus corpos celestiais em corpos de composto orgânico. O próprio Senhor Jesus, apesar do poder que lhe é inerente, para alcança um corpo semelhante a dos homens, foi gerado no ventre de Maria para ser introduzido neste mundo.


Nefilim

“Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram” ( Gn 6:2 )

Anjos procriam?

Há várias teorias acerca da origem dos gigantes que apareceram sobre a face da terra antes do dilúvio ( Gn 6:1 -4), e dentre elas destaca-se o posicionamento de que os ‘filhos de Deus’ (anjos caídos – demônios), coabitaram com as ‘filhas dos homens’ (mulheres) dando origem aos Nefilins, os valentes (os homens de fama) que existiram na antiguidade .

Por que os demônios coabitariam com as filhas dos homens?

A Bíblia não apresenta uma resposta, visto que a pergunta acima é descabida! Como? A pergunta correta é: É factível um anjo (caído ou não) coabitar, gerar filhos, ter desejo sexual, etc?

Para motivar a primeira pergunta, muitos ajuízam de si mesmos que os demônios coabitaram com as mulheres porque são perversos, amorais e imperfeitos, ou que os demônios intentaram atrapalhar a linhagem de Cristo.

Ao que tudo indica, tal posicionamento deriva de uma má interpretação do verso 2 e 4 do capítulo 6 do livro de Gênesis, influenciado por escritos apócrifos, como é o caso do livro de Enoque, e algumas lendas judaicas, porém, diante de especulações teóricas, o que importa é a Bíblia. O que a Bíblia diz? É factível um anjo coabitar e ter filhos?

A Bíblia nos apresenta um norte a seguir em busca de uma resposta segura.

Alguns judeus pertencentes a certa seita judaica que não acreditavam: a) na ressurreição dos mortos; b) na existência dos anjos, e; c) na existência de espíritos, querendo surpreender Jesus em alguma contradição envolvendo a lei de Moisés, lembraram o seguinte: “Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se o irmão de algum falecer, tendo mulher, e não deixar filhos, o irmão dele tome a mulher, e suscite posteridade a seu irmão” ( Lc 20:28 ; At 23:8 ).

Com base na lei mosaica os saduceus propuseram uma estória acerca de uma mulher que, após o marido falecer sem deixar descendência, acabou sendo legada a outros seis irmãos segundo o que determinava a lei de Moisés, sendo que todos os irmãos que coabitaram com a desafortunada morreram sem conseguir prover descendência ao primeiro irmão.

Da estória propuseram a seguinte pergunta: “Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será a mulher, visto que todos a possuíram?” ( Mt 22:28 ).

Após alertar os saduceus que erravam por não conhecer as escrituras ( Mt 22:29 ), Jesus faz uma afirmação: “Os filhos deste mundo casam-se, e dão-se em casamento…” ( Lc 20:34 ). É patente que casar e se dar em casamento é algo próprio ao mundo dos homens, e não ao ‘mundo’ dos seres espirituais, dos anjos, quer caídos ou não.

Ou melhor, o casamento ou o dar-se em casamento é apresentado em conexão à capacidade de procriação, que é próprio aos homens, pois para este mister foram abençoados “E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra…” ( Gn 1:28 ).

Porém, com relação ao mundo vindouro, Jesus é claro: “Mas os que forem havidos por dignos de alcançar o mundo vindouro, e a ressurreição dentre os mortos, nem hão de casar, nem ser dados em casamento…” ( Lc 20:35 ). Casar é facultado e procriar é capacidades inerentes a este mundo, atributo que será tirado dos homens que alcançarem a ressurreição dentre os mortos.

Ora, o que se depreende da exposição de Cristo é que a capacidade de procriação do homem tem relação direta com a morte “… nem hão de casar, nem ser dados em casamento; Porque já não podem mais morrer” ( Lc 20:35 ). Quando o homem deixar de ser sujeito a morte não mais há de casar e nem de ser dado em casamento, isto porque serão iguais aos anjos.

Como a capacidade de procriação foi dada em decorrência de o homem ser sujeito a morte, segue-se que aos anjos não foi dado tal capacidade, visto que os anjos não são sujeitos à morte. Observe que Jesus, ao ser introduzido neste mundo foi feito menor que os anjos em decorrência da paixão da morte, o que deixa evidente que os anjos não tem risco quanto a perca das funções vitais ( Hb 2:9 ).

Como os dons de Deus são irrevogáveis “Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” ( Rm 11:29 ), a capacidade que possuíam os anjos antes da queda não foi tirada, e eles, por si só jamais adquiririam a capacidade de procriação. Procriar é capacidade humana, o que é impossível aos anjos apesar do poder que possuem.

Vemos que os anjos foram chamados a existência por ordem divina, como se lê: “Louvai-o, todos os seus anjos; louvai-o, todos os seus exércitos (…) Louvem o nome do SENHOR, pois mandou, e logo foram criados” ( Sl 148:2 e 5), e todos foram criados em um mesmo evento. Diferente dos homens, os anjos não foram criados macho e fêmea, condição essencial para que se possa ser dado em casamento, o que leva a procriação ( Gn 1:27 ).

Os anjos são seres espirituais ( Hb 1:14 ), sem um corpo físico composto de matéria à base de carbono. Apesar do poder que possuem e da possibilidade de assumir a forma humana, não podem transmutar os seus corpos celestiais em corpos de composto orgânico. O próprio Senhor Jesus, apesar do poder que lhe é inerente, para alcança um corpo semelhante a dos homens, foi gerado no ventre de Maria para ser introduzido neste mundo.

Fica claro que a união conjugal foi instituída por Deus em decorrência da necessidade de o homem procriar, o que é imprescindível para a manutenção da espécie. Ou seja, tal necessidade não recai sobre os anjos, visto que a morte não os alcança a semelhança dos homens.

 

A multiplicação dos homens

O que pensar acerca do exposto no livro do Gênesis, no capítulo 6?

“E ACONTECEU que, como os homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas” ( Gn 6:1 )

Observe que os homens (homem e mulher) começaram a multiplicar-se. O fato de o escritor ter especificado que os homens começaram a multiplicar demonstra que, culturalmente o homem desempenhava o papel de perpetuação da descendência.

Como é cediço, caso o homem morresse sem descendência masculina ( Gn 19:32 ) a mulher seria legada ao irmão do falecido para que lhe provesse descendência (ex.: Lei do levirato), o que não era próprio à mulher. Isto demonstra que, o foco da abordagem textual é o homem (macho), indivíduo que estabelece e perpetua a linhagem, como se verifica nas genealogias Bíblica ( Gn 5:1 -32 ; Dt 25:5 ). A mulher não é apresentada nas genealogias como perpetuadora da linhagem, e sim o homem.

Neste sentido a Bíblia aponta o homem como aquele que gera, e a mulher como coadjuvante: “Abraão gerou a Isaque; e Isaque gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos; E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão” ( Mt 1:2 -3).

Observe que nas genealogias aparece somente o nome dos filhos homens, e este é o foco do texto, por estar tratando de linhagem ( Gn 5:1 -32). Nas genealogias aparece o nome dos filhos, porém, o nome das filhas era dispensável, sendo indicado que foi gerado filhos e filhas ( Gn 5:4 ).

Com a multiplicação dos homens (entende-se homens como perpetuador de linhagem) nasceram filhas. Estes homens referem-se aqueles que não criam em Deus ( Gn 7:1 ). Havia também homens que criam em Deus e eram nomeados filhos de Deus, porém, estes não eram zelosos quanto à linhagem, visto que não cuidavam da sua linhagem como ocorreu com Noé ( Gn 6:9 ). Diferente dos outros filhos de Deus, Noé foi o único que preservou a sua linhagem perfeita ( Gn 6:9 ).

Observe que quando a linhagem perfeita estava perto da extinção, Deus mandou o dilúvio e preservou Noé. Após o dilúvio, os homens novamente se multiplicaram, e quando a linhagem perfeita estava novamente em risco, Deus ordena a Abrão que saísse do meio da sua parentela, pois através dele seria feito uma grande nação, onde a linguagem seria preservada ( Gn 12:1 ). Percebe-se que a família de Abrão se perpetuava entre os seus, com o fito de preservar a linhagem perfeita, cuidado que se observa quando se providenciou uma esposa para Isaque ( Gn 24:3 -4).

Quando se estabeleceu a união dos ‘filhos de Deus’ com as ‘filhas dos homens’ que se multiplicaram, surgiram os homens valentes da antiguidade, descendentes desta nova linhagem espúria.

O erro se instala na interpretação destes versos quando o leitor deixa de considerar que os livros da Bíblia originalmente não possuíam divisões em capítulos e versículos. Interpretar o capítulo 6 de Gênesis sem se ater ao capítulo 5, que apresenta a linhagem de Noé em contraste com a linhagem dos demais homens, levará o interprete a inúmeros equívocos.

 

As filhas dos homens

“Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram” ( Gn 6:2 )

As ‘filhas dos homens’ que se multiplicaram eram formosas, o que despertou o interesse dos ‘filhos de Deus’. A passagem bíblica faz referência a quais filhos de Deus? Aos anjos?

Ora, os anjos são nomeados filhos de Deus assim como o é os filhos dos homens em outras passagens bíblicas, porém, isto não implica que, neste texto especifico, a nomenclatura aponte para os anjos, quiçá os decaídos.

Quem seriam os filhos de Deus? No texto em comento, verifica tratar-se da linhagem escolhida que haveria de trazer o Messias ao mundo dos homens. Observe que, após apresentar a linhagem escolhida no capítulo 5, no capítulo 6 é apresentado a problemática envolvendo os filhos de Deus com as filhas dos homens que se multiplicaram.

Observe que em Israel era vetado aos filhos de Jacó casarem com mulheres estrangeiras, o que foi a bandeira da reforma nacional estabelecida por Neemias e Esdras ( Ed 10:10 ; Ne 13:26 ). A lei vetava expressamente o casamento com estrangeiras “E tomes mulheres das suas filhas para os teus filhos, e suas filhas, prostituindo-se com os seus deuses, façam que também teus filhos se prostituam com os seus deuses” ( Ex 34:16 ).

Neste sentido a geração de Noé era perfeita, pois ele andava com Deus e mantinha sua geração sem contaminação, pois sendo um dos filhos de Deus não escolhera dentre as filhas dos homens mulheres para si “Estas são as gerações de Noé. Noé era homem justo e perfeito em suas gerações; Noé andava com Deus ( Gn 6:9 ).

O que se observa dos versos iniciais de Gênesis 6, que neles está inserido o motivo pelo qual Noé não foi preservado quando veio as águas do dilúvio. Multiplicaram-se os homens sobre a face da terra, e a descendência dos homens justos estava em risco devido a muitos terem escolhido mulheres segundo o seu coração, e não segundo os preceitos de Deus.

Com isto, a longevidade dos homens foi reduzida, pois deste modo, a possibilidade de os filhos de Deus tomarem mulheres dentre as filhas dos homens diminuiria.

 

Gigantes sobre a terra

“Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama” ( Gn 6:4 )

Durante a narração histórica, o escritor situou no tempo quando se deu tal evento: a existência de gigantes na terra é o marco da narrativa ( Gn 6:4 ). Ou seja, o texto não aponta que a origem dos gigantes decorra da união de anjos decaídos com as mulheres, antes demonstra a que época os eventos descritos se deram. Ou seja, havia gigantes na terra quando Deus reduziu a longevidade dos homens.

Quando os homens da linhagem justa proveram descendência através da filhas dos homens ( Gn 6:4 ), nasceram homens que se tornaram os valentes e homens de fama, mas os gigantes também habitavam a terra na mesma época.

Foi neste cenário que aparece a figura de Noé, homem justo e de linhagem perfeita.

Daí, resta a pergunta: Se os demônios produziam Nefilins, por que não os produzem até os nossos dias? Lembrando que os dons de Deus são irrevogáveis, é um contra senso alegar que Deus deu um ponto final nas relações que os demônios tiveram com os seres humanos.

Relacionar o exposto por Judas como sendo este ponto final que Deus deu aos demônios é espúrio “E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia” ( Jd 1:6 ).

Faz-se necessário esclarecer que, apesar do poder que os anjos possuem, nenhum anjo possui o pode criativo de dar vida, ou de trazer a existência outro semelhante a eles. Procriar é uma capacidade dada aos homens proveniente da vontade de Deus, pois ao abençoá-los, o homem gera semelhantes em decorrência do poder que Deus lhes concedeu.

Por fim, tal capacidade só foi dada aos homens  pois diferente dos anjos que foram criados sem estarem sujeitos à morte física, se faz necessário perpetuar a espécie humana. Ou seja, não é factível a um anjo, ou a um demônio coabitar, gerar filhos, ter desejo sexual, etc., pois estas questões não são pertinentes aos seres que possuem corpo espiritual ( 1Co 15:44 ), e os que possuem corpos espirituais não casam e nem são dados em casamento ( Lc 20:35 ).




O pecado jaz à porta

Devido à estrutura gramatical de Gênesis 4, verso 7, este verso é considerado pelos tradutores bíblicos como sendo o mais difícil de traduzir do Antigo Testamento, e conseqüentemente, esta dificuldade influencia os interpretes na sua atribuição. Porém, como o verso transmite uma ideia, mesmo que nebulosa, analisemos isoladamente todas as proposições nele contido à luz das escrituras, para compreender a recomendação divina que foi dada a Caim.


“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )

Devido à estrutura gramatical de Gênesis 4, verso 7, ele é considerado pelos tradutores bíblicos como sendo o mais difícil de traduzir do Antigo Testamento, e conseqüentemente, esta dificuldade influencia os interpretes na sua atribuição.

Porém, como o verso transmite uma ideia, mesmo que nebulosa, analisemos isoladamente todas as proposições nele contido à luz das escrituras, para compreender a recomendação divina que foi dada a Caim.

 

Se bem fizeres, não é certo que serás aceito?

Qual a resposta para esta pergunta?

Se Caim tivesse ‘feito’ o bem, seria aceito? Ele fez o mal e por isso foi rejeitado?

O salmista Davi deixou claro que todos os homens, de uma única vez em um mesmo evento (juntamente), se desviaram e se fizeram imundos. Como conseqüência de terem se tornados imundos, não há quem faça o bem, nem se quer um só homem “Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há sequer um” ( Sl 14:3 ).

Ora, se não há se quer um homem que faça o bem, isto implica que Caim também estava impedido de realizá-lo. A Bíblia demonstra que Adão desviou-se, tornando-se imundo, e com ele todos os seus descendentes também se desviaram e destituídos estão da glória de Deus. Ninguém pode realizar o bem!

Por que Deus exortou Caim a ‘fazer’ o ‘bem’, se não há quem faça? A pergunta ‘Se bem fizeres, não é certo que será aceito?’, induz o leitor a concluir que fazer o bem era possível, logo, haveria uma aparente contradição nas escrituras. Quando se entende que Caim tinha condição de realizar o bem, a exortação ‘Se bem fizeres’ é contraditória “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 ).

Deus é claro: “Porventura pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas manchas? Então podereis vós fazer o bem, sendo ensinados a fazer o mal” ( Jr 13:23 ). A mesma impossibilidade do etíope, ou que qualquer homem possui com relação a mudar a cor da sua pele, é a mesma com relação a fazer o bem. Da mesma forma que o leopardo não pode desfazer-se das suas manchas, o homem não pode realizar bem.

Como Deus apresentaria a Caim a oportunidade de ser aceito fazendo o bem, se fazer o bem era impossível? Não encontramos nas escrituras apoio para o argumento de que Deus aceita os homens através do realizar o ‘bem’!

A Bíblia dá testemunho que o homem somente é aceito pela fé, sem as obras Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala” ( Hb 11:4 ), pois “… sem fé é impossível agradar-lhe” ( Hb 11:6 ).

Com base nestas premissas, é certo que Deus não estava incentivando Caim a fazer o bem para que fosse aceito, o que contraria o princípio da justificação pela fé somente.

 

E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…

Desconsiderando o livro de Jó, esta é a primeira vez que a palavra traduzida por pecado (taj’x) aparece nas Escrituras.

A proposição acima é condicional, ou seja, a frase demonstra que se Caim não fizesse o bem (o que era impossível fazer quando analisado à luz das escrituras), o pecado estaria em seu lugar: à porta.

Como entendemos que é impossível ao homem fazer o bem, segue-se que a proposição condicional ‘E se não fizeres bem’, não corresponde à ideia bíblica. Mesmo sendo possível aos homens darem boas dádivas aos seus semelhantes, são maus diante de Deus “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos …” ( Lc 11:13 ).

Fazer boas ações não torna o homem bom diante de Deus. Boas dádivas (boas ações) aos semelhantes (vossos filhos) não torna o homem bom (vós, sendo maus) “Porque cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se vindimam uvas dos abrolhos” ( Lc 6:44 ).

Apesar de ser impossível a Caim fazer o bem, segue-se a asserção: “… o pecado jaz à porta…”. O que Deus disse?

  • Que o pecado estava (jaz) morto;
  • Que Caim estava (jaz) para pecar, ou;
  • Que o pecado exerce domínio?

Que o pecado estava morto (jazia) é certo que não estava, pois o apóstolo Paulo demonstra que ele reinou desde Adão ( Rm 5:14 ).

Que Caim estava prestes (jaz) a pecar, também não é uma ideia aceitável, pois Caim foi concebido em pecado tal qual todos os homens ( Sl 51:5 ). Quem pecou e estabeleceu a parede de separação entre Deus e os homens foi Adão, e não Caim. O apóstolo Paulo demonstra que não há como os descendentes de Adão pecarem à semelhança da sua transgressão ( Rm 5:14 ).

Resta a terceira opção: que o pecado exercia domínio sobre Caim. Através do verso seguinte: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ), somos informados que:

  • A morte reinou desde Adão, e isto implica que o pecado também reinou sobre todos os homens desde Adão “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” ( Rm 5:12 );
  • Adão pecou por desobedecer a uma determinação específica, e Caim pecou porque a condenação de Adão passou a todos os seus descendentes, ou seja, Caim foi gerado em pecado ( 1Co 15:22 ).

Lembrando que ‘à porta’ diz do lugar em que se exercia na antiguidade o domínio político ou social de uma cidade, como se lê em Jó: “Quando eu saía para a porta da cidade, e na rua fazia preparar a minha cadeira. Os moços me viam, e se escondiam, e até os idosos se levantavam e se punham em pé; Os príncipes continham as suas palavras, e punham a mão sobre a sua boca” ( Jó 29:7 ). Ou seja, estar à porta diz do lugar onde se dá o exercício do poder, do domínio, e não da iminência de algo que está para acontecer.

Quando lemos nos Salmos: ‘levantai, ó portas, as vossas cabeças’, o salmista está convocando aqueles que estão assentados exercendo domínio a se postarem em pé para recepcionar reverentemente o rei da glória “Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória” ( Sl 24:9 ).

Há vasto repertório bíblico demonstrando que às portas refere-se ao local que se exerce domínio, ou ao domínio:

  • “Quando alguma coisa te for difícil demais em juízo, entre sangue e sangue, entre demanda e demanda, entre ferida e ferida, em questões de litígios nas tuas portas, então te levantarás, e subirás ao lugar que escolher o SENHOR teu Deus” ( Dt 17:8 );
  • “E será que, se te responder em paz, e te abrir as portas, todo o povo que se achar nela te será tributário e te servirá” ( Dt 20:11 );
  • “Donde se ouve o estrondo dos flecheiros, entre os lugares onde se tiram águas, ali falai das justiças do SENHOR, das justiças que fez às suas aldeias em Israel; então o povo do SENHOR descia às portas ( Jz 5:11 );
  • “Tem misericórdia de mim, SENHOR, olha para a minha aflição, causada por aqueles que me odeiam; tu que me levantas das portas da morte” ( Sl 9:13 );
  • “Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra” ( Pv 31:23 ).

Diante do exposto, Gênesis 4, verso 7 seria melhor traduzido trocando-se ‘jaz’ por ‘estar, permanecer’, ou seja, ‘o pecado está à porta’, significando que o pecado está exercendo o seu domínio sobre os homens.

A interpretação de ‘o pecado jaz à porta’ refere-se ao domínio que o pecado exerce sobre os homens alienados de Deus “A sabedoria é demasiadamente alta para o tolo, na porta não abrirá a sua boca” ( Pr 24:7 ). Porta é o mesmo que local de domínio, onde o exercício do poder político ou religioso se dá.

 

… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar

A quem pertence o desejo: pertence a Caim ou ao pecado? É possível ao homem caído dominar o pecado?

É confuso, pois quando Adão pecou, o pecado passou a exercer domínio sobre todos os homens, quer eles queiram ou não. A sujeição ao pecado é condição que se impôs ao homem quando foi gerado, independentemente de suas ações.

O homem piedoso Adão foi julgado e condenado à morte, depois disso não houve mais entre os homens ao menos um que fosse justo “Já pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja justo; todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com a rede” ( Mq 7:2 ).

Observe a tradução da Bíblia na linguagem de hoje: “Por que você está com raiva? Por que anda carrancudo? Se você tivesse feito o que é certo, estaria sorrindo; mas você agiu mal, e por isso o pecado está na porta, à sua espera. Ele quer dominá-lo, mas você precisa vencê-lo” Bíblia na Linguagem de Hoje.

Surgem algumas indagações:

  • Apesar de já exercer domínio sobre Caim por causa da queda de Adão, Deus procura alertar que o pecado ainda queria dominá-lo?
  • O pecado estava à espreita de Caim esperando que ele matasse o seu irmão para então dominá-lo?
  • Deus dá uma ordem impossível ao homem realizar: vencer o pecado?

Quantas indagações! Porém, já temos os elementos necessários para analisar o versículo.

 

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )

Considerando:

  • Que não há quem faça o bem, nem se quer um;
  • Que todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos;
  • Que a justiça é pela fé (evangelho, promessa);
  • Que os homens são maus, apesar de saberem dar boas dádivas;
  • Que o pecado exerce domínio sobre a humanidade;
  • Que o homem não domina o pecado;
  • Que ‘à porta’ diz de exercer domínio, senhorio;
  • Que fazer boas ações não faz o homem agradável a Deus, e;
  • Que fazer o mal não é o que afasta o homem de Deus, uma vez que o homem já está distante de Deus em conseqüência da desobediência de Adão.

Faz-se necessário uma releitura do verso.

Lembrando que estudiosos da língua hebraica apontam a possibilidade de se desconsiderar a famosa vocalização massorética, o que é o caso da Septuaginta, e teríamos a seguinte tradução: “Porventura não pecarias, se prudentemente o tivesses trazido, mas não o tivesses corretamente repartido? Calma ; para ti será sua submissão, e tu o dominarás”.

Porém, esta versão também não acrescenta nenhum elemento significativo à compreensão.

 

O pecado jaz à porta

Por Adão ter pecado, todos os seus descendentes pecaram. Quando o apóstolo Paulo diz que ‘a morte veio por um homem’ e que ‘todos morreram em Adão’ ( 1Co 15:21 -22), ele demonstra que o pecado entrou no mundo por Adão, e passou a todos os homens, assim também a condenação (morte) passou a todos.

Ou seja, se todos estão debaixo da mesma condenação (morte), isto significa que todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus ( Rm 3:23 ).

Nenhum dos descendentes de Adão tem condição de pecar à semelhança da transgressão de d’Ele.

  • Adão pecou quando era santo, justo e bom;
  • Não era como Deus, conhecedor do bem e do mal;
  • Desobedeceu a uma ordem específica;
  • Seus descendentes não são justos, santos e bons, mas são como Deus, no quesito conhecedores do bem e do mal ( Gn 1:31 e Gn 3:22 );
  • A transgressão de Adão sujeitou-o ao pecado e a morte, e seus descendentes são gerados todos em pecado: sujeitos ao pecado e a morte.

Com base nestas premissas é possível concluir que a asserção ‘o pecado está à porta’ é um aviso solene acerca da atual condição de Caim: o pecado já exercia pleno domínio sobre ele.

A proposição: ‘o pecado está à porta’, ou ‘O pecado exerce domínio’ não contradiz nenhum princípio bíblico, antes confirma a ideia de que o pecado é senhor dos homens quando alienados de Deus, portanto, a proposição ‘o pecado jaz á porta’ é plenamente correta e aceita.

Ora, como temos uma sentença declarativa ‘o pecado está à porta’, a frase que a antecede (Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti?), deve conduzir o leitor à ideia de que ‘o pecado exerce domínio’. Qualquer construção que conduz o leitor a uma conclusão que desconstrói a ideia de que ‘o pecado exerce domínio’, não deve ser aceita como bíblica.

Que ideia a construção frasal: “Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti?” contém? A pergunta sugere que Deus estivesse dando a entender que Caim seria aceito ‘se’ fizesse o bem. Porém, a Bíblia demonstra que, após a queda, o homem ficou impossibilitado de fazer o bem, pois é impossível que a árvore má produza fruto bom.

O evento da oferta voluntária apresentada por Caim e Abel continha a lição necessária para compreenderem como seriam aceitáveis a Deus. Deveriam aprender que, o que torna o homem agradável a Deus é aproximar-se d’Ele crendo que será galardoado, sem confiar que a oferta é o que torna o homem aceito “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

Abel ofereceu melhor sacrifício pela fé, e não por escolher o melhor animal do campo. A oferta voluntária podia ser tanto o melhor do campo quanto o melhor dos animais, pois tudo que provem da terra pertence ao Senhor “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ; Is 1:1 ).

O que tornou a oferta de Caim e Abel diferente foi como os ofertantes se aproximaram de Deus: Caim confiou que a sua oferta haveria de agradar a Deus, pois era o melhor fruto do seu trabalho, e Abel ofereceu o cordeiro pela fé, ou seja, crendo que Deus haveria de aceitá-lo por ser misericordioso ( Hb 11:4 ).

Observe a reclamação de Deus para com o seu povo: “Se eu tivesse fome, não te diria, pois meu é o mundo e tudo o que nele há. Como carne de touros, ou bebo sangue de bodes?” ( Sl 50:12 -13). Crer que Deus retribui com salvação àqueles que o buscam é o sacrifício que Ele aceita ( Sl 51:17 ; Is 57:15 ).

Se a confiança em Deus é o que torna o homem agradável a Ele, como é possível Ele exigir que Caim fizesse o bem para ser aceito? Se o pecado está à porta, ou seja, exercendo domínio sobre os pecadores, como é possível fazer o bem? É um contra senso Deus exigir algo que não satisfaz a Sua justiça.

Observe a parte inicial do verso que sugere fazer o bem para que o homem possa ser aceito, na imagem abaixo:

imagem de um texto em hebraico
Gênesis 4:7

As palavras que constroem a ideia original estão todas ali, o problema está em organizá-las de modo a evidenciar a ideia correta. A vocalização massorética auxilia a leitura das palavras, mas, não auxilia na alocação correta das palavras de modo a evidenciar a ideia correta.

Com apóio do Novo Testamento, compreendemos que não faz parte do evangelho de Cristo a ideia de que fazer o bem torna o homem agradável a Deus. Aceitar que Deus instruiu Caim a fazer o bem para que fosse aceito fere alguns atributos de Deus, como a sua santidade, imutabilidade e justiça.

É contraditório admitir que no Gênesis Deus instrua o homem a fazer o bem para que fosse aceito por Ele, e em Salmos profetizar por intermédio de Davi que é impossível alguém dar a Deus o resgate por sua alma “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre)” ( Sl 49:7 -8).

Aceitar que há uma interrogação neste verso sugestionando ao homem fazer o bem para ser aceito é admitir que Deus contraria a Sua própria palavra, o que não coaduna com a obra de Cristo, pois se fazer o bem resgata o homem, por qual motivo Deus enviou seu Filho para resgatar o homem?

A tradução para este verso não pode sugestionar que:

  • Fazer o bem é o que torna o homem agradável a Deus, ou que;
  • Fazer o mal é o que torna o homem alienado de Deus.

O verso a seguir: “Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…”, deveria ser lido assim:

“Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti, e se não fizeres bem, o pecado jaz à porta…”, para depreendermos a seguinte ideia: “Se bem fizeres, e se não fizeres bem, não haverá aceitação para ti, (pois) o pecado jaz à porta…”.

A ênfase do enunciado está em ‘não haverá aceitação para ti’ em decorrência de ‘o pecado estar exercendo domínio’.

Deus alertou Caim que, se ele fizesse boas ações, ou não, continuaria não sendo aceito, isto por causa do pecado à porta. Caim ofereceu uma oferta ao Senhor, o que entendemos como algo promissor (bom), entretanto não foi aceito, por causa da sua sujeição ao pecado.

Caim não seria aceito se fizesse o mal, e nem se fizesse boas ações, porque o pecado estava exercendo o seu domínio. Isto leva a concluir que, o bem e o mal não tornam o homem aceitável diante de Deus, como foi demonstrado antes: o homem tornou-se desagradável por causa da desobediência de Adão.

O conhecimento do bem e do mal é uma das conseqüências da desobediência, que além de alienar o homem de Deus, também tornou o homem como Deus. O conhecimento tornou o homem como Deus, mas, continuou desagradável a Deus ( Gn 3:22 ).

A interrogação na frase sugere que fazer o bem torna o homem aceito por Deus, mas, basta excluir a interrogação que a verdade vem à tona: se Caim fizesse ou não o bem (boas e más ações), segundo o conhecimento que todos os homens adquiriram da árvore do conhecimento do bem e do mal, não havia diferença para ele perante Deus, pois o pecado exerce o seu domínio independentemente de suas ações.

Por estar sob domínio do pecado, todas as realizações de Caim era o mal diante de Deus, o que não o impedia de fazer boas e más ações. Ao falar com os fariseus Jesus demonstrou que eles eram maus, mesmo sabendo dar boas dádivas aos seus semelhantes, o que demonstra que boas e más dádivas não é o que influencia a condição do homem diante de Deus ( Mt 7:11 ).

Após a ofensa de Adão todos os seus descendentes tornaram-se maus, e dentre eles não há quem faça o bem, nem se que um. Desde a madre se desviaram e proferem mentiras “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” ( Sl 58:3 ). Com base neste verso é possível declarar: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Como o coração de Caim era mau, nada de bom podia produzir “O homem bom tira boas coisas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más” ( Mt 12:35 ), pois ninguém pode tirar o imundo o puro “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” ( Jó 14:4 ).

Caim foi concebido em pecado, e continuou rejeitado quando ofertou ao Senhor ( Gn 4:5 ). Como ele poderia oferecer uma oferta pura, se era imundo? Somente pela fé Deus atentaria para Caim, e depois para a sua oferta, pois somente após o homem ser aceito é que Deus aceita o que lhe é oferecido ( Hb 11:4 ).

Sem antes alcançar o testemunho de que é justo, como Abel alcançou, é impossível fazer o bem.

A ideia de que o homem é aceito se fizer boas ações, e se não as realizar, acaba pecando, decorre da proposta de um pseudo-evangelho de que a salvação ocorre através de boas ações.

Como já enunciamos, se o homem fizer boas ações, ou não, o pecado exerce o seu domínio. Se quiser ver-se livre do domínio do pecado, necessário é nascer de novo: alcançando um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Ez 36:25 -27 ; Is 57:15 ).

Somente o aspergir de água pura pode purificar o homem da sua imundície, tornando possível oferecer o que é puro ( Lv 11:34 ).

Apesar de não ser possível ao homem fazer o bem quando sob o domínio do pecado, resta lhe mais uma instrução:

 

“… e para ti será o seu desejo, e sobre ele dominarás”

Caim não foi aceito por estar sob domínio do pecado e nada que fizesse podia livrá-lo desta condição. Por ver que seu irmão foi aceito, Caim ficou irado e com vontade de matá-lo.

Deus ‘viu’ o quanto Caim se irou ao ver que Abel foi aceito por Ele, e sabia qual era a intenção de Caim ( Gn 4:5 ). Foi quando Deus lhe disse: “Porque te iraste? E por que descaiu o seu semblante?” ( Gn 4:6 ).

Com relação a sua condição espiritual, alienado de Deus, Caim nada podia fazer. Se fizesse boas ou más ações, continuava sob o domínio do pecado, porém, o desejo de matar o seu irmão era um sentimento humano egoísta e mesquinho, e Deus avisa Caim de que ele podia reprimir tal desejo.

Apesar do ‘pecado estar no domínio’, a vontade pertence ao homem, e é através da vontade que o homem exerce o domínio que foi concedido no princípio ( Gn 1:26 ). O domínio que Deus concedeu em Gênesis 1, verso 26, não diz do domínio que o pecado exerce.

Deus podia impedir o intento de Caim, mas não o fez, uma vez que tiraria o que foi dado ao homem: o domínio sobre a face da terra “Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra” ( Gn 1:26 ).

Como já vimos, o domínio expresso no verso 7 de Gênesis 4 não diz de exercer domínio sobre o pecado, pois o pecado é quem figura como senhor dos homens quando alienados de Deus. Porém, por ter sido criado para viver em sociedade, mesmo sob o domínio do pecado, o homem deve controlar as suas emoções, agindo de modo equilibrado entre seus semelhantes.

Deus demonstrou a Caim que ele podia exercer domínio, pois a sua vontade lhe pertencia. Por que é necessário ter a vontade sob seu poder para poder exercer o domínio? Observe o que Deus disse a Eva ao declarar a sua penalidade: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará ( Gn 3:16 ).

Compare:

  • “… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar” ( Gn 4:7 )
  • “… e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” ( Gn 3:16 ).

Ao conceber a mulher sentiria dores, e o seu desejo estaria sob os cuidados do marido, que sobre ela exerceria domínio. O que isto quer dizer? Para compreendermos a proposta de Deus, temos que nos socorrer do que Paulo escreveu aos cristãos em Éfeso: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao SENHOR; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” ( Ef 5:22 – 25 ).

Quando lemos que o homem exercerá domínio sobre a mulher, muitos entendem que a mulher deve ser subjugada pelo homem, porém, não é isto que Deus ensina. Quando a Bíblia diz que o homem exerce domínio, ele diz do cuidado que lhe é outorgado.

Quando a Bíblia diz que o desejo da mulher será para o marido é o mesmo que ordenar à mulher que se sujeite ao marido, pois assim como Cristo é a cabeça da igreja, o marido é a cabeça da mulher. Qual o objetivo da comparação? Demonstrar que o papel do marido com relação à esposa é zelar, cuidar!

O domínio que Deus deu ao homem em Gênesis 1, verso 26, é para cuidar de tudo que há debaixo da terra. A mulher deve sujeitar-se ao marido porque é dever do marido cuidar da mulher, assim como Cristo cuida da igreja, ou seja, Jesus exerce domínio sobre a igreja porque zela da igreja, e entregou até sua vida por ela.

Qual o papel da cabeça? Dominar o corpo. Com que objetivo? Cuidar para que ele não definhe e venha a pereçer. Deste modo a mulher se sujeita ao marido, porque o marido tem o dever de cuidar do seu corpo “Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo” ( Ef 5:28 ).

Quando Deus falou com Caim demonstrando que o seu desejo pertencia a ele, e que ele exerceria domínio, tinha o fito de demonstrar que competia a ele cuidar e zelar de tudo que diz respeito a sua existência neste mundo. Ninguém haveria de cuidar e zelar de Caim, de modo semelhante ao zelo que marido deve para com a esposa.

O desejo da mulher é para o marido porque compete ao marido cuidar da mulher, por outro lado, o desejo de Caim era para ele mesmo, ou seja, ele devia cuidar de si mesmo. Em resumo, o intento do Criador era alertar Caim para ter cuidado com o que desejava.

O pecado sujeitou o homem como escravo, mas não a sua vontade. Apenas sobre a sua própria vontade o homem é soberano, sendo assim, Caim era capaz de controlar as suas emoções e escolher não dar cabo da vida de seu irmão.

Caim levou a efeito o seu desejo, e matou Abel. Por não cuidar das suas próprias emoções, o seu desejo o dominou, e Caim passou a ser um fugitivo e errante sobre a face da terra.

O homem deve dominar seus desejos e não os desejos dominar o homem. Quando os desejos dominam o homem ele é prejudicado perante a sociedade.




Sara e Agar

Sara e Agar é alegoria das duas alianças: graça e lei respectivamente. Agar e seu filho alcançaram possessão no deserto de Parã, que fica na região do monte Sinai, que é a Jerusalém atual. Todos os que estão debaixo da lei são escravos, pois são nascidos segundo a carne, e procuram uma possessão terrena. Já os que nascem da promessa, são filhos de Abraão pela fé em Cristo, e desejam uma possessão melhor, a Jerusalém que é livre, e é de cima ( Gl 4:26 ).


Sara e Agar

“O que se entende por alegoria; porque estas são as duas alianças; uma, do monte Sinai, gerando filhos para a servidão, que é Agar” ( Gl 4:24 )

 

Sobre a alegoria evidenciada pelo apóstolo Paulo aos cristãos nas regiões da Galácia, não podemos esquecer que ela é focada em Sara e Agar.

Deus prometeu a Abraão que faria dele uma nação numerosa e que nele todas as famílias da terra seriam benditas.

De Abraão a Escritura diz que ele teve dois filhos: Ismael com a escrava e Isaque com a livre.

Os judeus consideravam serem descendentes de Abraão segundo a linhagem de Isaque. Por Isaque nascer segundo a promessa de Deus os judeus acreditavam que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão e Isaque.

O apóstolo Paulo, porém, traz a lume o grande mistério desta passagem, e evidenciou o que os judaizantes não atinavam: foi Abraão que teve filhos, e não Deus ( Gl 4:22 ).

Ismael, um dos filhos de Abraão, foi gerado segundo a carne, segundo a vontade de Sara e Abraão. Com relação ao sangue, Ismael era filho de uma escrava, Agar, que somente podia gerar filhos para escravidão.

Diferente de Ismael, Isaque foi gerado segundo a promessa de Deus ( Gl 4:23 ).

É preciso observar que tanto Ismael como Isaque foram filhos de Abraão. O filho decorrente da promessa também era filho do pai Abraão, ou seja, filho nascido da vontade da carne, do sangue e da vontade de Abraão, porém, segundo a promessa de Deus.

Por que é preciso fazer esta distinção? Porque somente a mulher de Abraão, Sara, estava impossibilitada de gerar por causa da avançada idade. Observe que mesmo após a morte de Sara, Abraão teve concubinas e filhos ( Gn 25:1 -4).

Mesmo após serem justificados pela fé, todos os filhos de Abraão foram gerados segundo a carne. Somente o Descendente, que é Cristo, nasceu segundo a vontade de Deus e através do Espírito de Deus. Até mesmo Isaque, nascido segundo a promessa, através da operação do poder de Deus, era filho segundo a carne, segundo a vontade e sangue de Abraão.

Isaque era descendente de Abraão (filho), porém, para se tornar filho de Abraão (filho de Deus), precisou ter a mesma fé que teve o Pai Abraão, pois somente por meio da fé o homem alcança a filiação divina.

A promessa de Deus a Abraão repousa sobre o Descendente, que é Cristo, o filho Unigênito de Deus, e os seus filhos segundo a carne (descendentes) não são filhos de Deus.

Mas, o que o apóstolo Paulo procurou evidenciar através da alegoria fixa-se sobre as pessoas de Sara e Agar. O apóstolo Paulo apresenta as duas mulheres, Sara e Agar, como alegoria das duas alianças de Deus: a lei e a graça.

Deus prometeu uma nação numerosa e que todas as famílias da terra seriam benditas em Abraão. Mas, a alegoria não se fixa a promessa feita a Abraão, e sim, a promessa feita a Sara.

A promessa feita a Sara, e que Paulo evidência nesta alegoria diz: “EU a abençoarei, e dela te darei um filho” ( Gn 17:16 ), e ( Gn 18:10 ); “O Senhor visitou a Sara, como tinha dito, e lhe fez como havia prometido” ( Gn 21:1 ). Na alegoria apresentada por Paulo, o que deve ser destacado é a promessa de Deus à Sara.

Da promessa feita à Sara não surgiram filhos a Deus, como os judaizantes acreditavam, antes Deus disse a Abraão: “… em Isaque será chamada a tua descendência” ( Gn 21:12 ), que é Cristo.

A filiação divina decorre da promessa feita a Abraão, e é proveniente do Descendente, e não de Isaque. A promessa de Deus a Sara destaca-se pelo fato de ter sido concedido a ela poder para conceber um filho, embora avançada em idade “Pela fé, também, a própria Sara recebeu poder de conceber um filho, mesmo fora da idade, porque teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa” ( Hb 11:11 ).

Só através do Descendente, que é Cristo, torna-se possível gerar filhos para Deus. Filhos nascidos, não da carne, nem do sangue, e nem da vontade do varão, mas da vontade de Deus ( Jo 1:12 ). Para que os filhos de Deus sejam gerados, há a necessidade de nascerem da palavra e do Espírito de Deus. Nascer de Deus só é possível por meio da pregação do evangelho que é semente incorruptível e poder de Deus pela fé em Cristo.

A alegoria demonstra que Agar vincula-se ao monte Sinai, que corresponde à cidade de Jerusalém atual, visto que ela e Ismael habitaram antes de todos os israelitas no deserto de Parã ( Gn 21:21 ).

Como os judaizantes se gloriavam da lei, e da cidade de Jerusalém, Paulo demonstra que o único que teve possessão desde os pais, foi Ismael, o filho de Abraão com a escrava.

Da mesma forma que Ismael é alegoria para os que vivem sob a lei e estavam reduzidos à escravidão, Isaque também é alegoria para o cristão ( Gl 4:28 ).

Os cristãos são filhos da promessa como Isaque, pelos motivos seguintes:

  • Ambos nasceram segundo a promessa. Isaque pela promessa feita a Abraão e Sara, e o Cristão pela promessa feita a Abraão, que se cumpriu no Descendente;
  • Isaque não teve e os cristãos não têm possessão permanente, uma vez que morreram na fé;
  • Isaque confessou e os cristãos confessam que são peregrinos e estrangeiros na terra;
  • Tanto Isaque, quanto os cristão desejam uma pátria melhor, isto é, a celestial ( Hb 11:13 -16).

Sara e Agar é alegoria das duas alianças: graça e lei respectivamente. Agar e seu filho alcançaram possessão no deserto de Parã, que fica na região do monte Sinai. Especificamente refere-se a um monte da Arábia, que é a Jerusalém atual.

Todos os que estão debaixo da lei são escravos, pois são nascidos segundo a carne, e procuram uma possessão terrena. Já os que nascem da promessa, são filhos de Abraão pela fé em Cristo, e desejam uma possessão melhor, a Jerusalém que é livre, e é de cima ( Gl 4:26 ).

Os judaizantes se esquecem da palavra de Sara que protesta contra os filhos da escrava Agar: “…o filho desta escrava não herdará com o meu filho Isaque” ( Gn 21:10 ).

Os judeus acreditavam que eram filhos de Deus por ser Isaque filho da promessa. Porém, não observaram que Isaque era filho da promessa que foi feita à Sara, e que a promessa de filiação divina somente é possível pela fé em Deus, que prometeu o seu Filho, o Descendente.

Não podemos esquecer-nos da comparação estabelecida: “Mas nós, irmãos, somos filhos da promessa como Isaque” (v. 28). Isaque nasceu da promessa feita à Sara, e o Cristão por meio da promessa feita a Abraão. Desta forma somos filhos da promessa como Isaque, o que se entende alegoricamente. Por quê? Porque Isaque nasceu segundo a promessa, fidelidade e poder de Deus, e os cristãos através da união com o Descendente. Nascem também segundo a promessa feita a Abraão, pois Deus é fiel e concede a sua palavra, que é poder de Deus para todos quantos creem, para serem feitos filhos de Deus ( Jo 1:12 ; Rm 1:16 ).

O cristão é filho da promessa como Isaque, e não em Isaque, como os que esperavam ser justificados pela lei compreendiam.