Crer e ter fé é a mesma coisa?

A ‘fé’ como mandamento (doutrina, querigma, evangelho) antecede o crer, por isso é dito que a fé é dom de Deus (Efésios 2.8).


Crer e ter fé é a mesma coisa?

Introdução

Apesar do aviso do irmão Tiago, muitos ainda se propõem a ensinar as Escrituras.

“MEUS irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo.” (Tiago 3.1).

O cristão é passível de cometer muitos erros (tropeçar em muitas coisas), mas com relação ao evangelho não pode cometer erros, pois pode trazer condenação sobre si mesmos e induzir outros.

“Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo.” (Tiago 3.2).

O alerta é claro:

“De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?” (Hebreus 10.29).

Com relação ao ensino, nem Jesus podia tergiversar.

“E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito.” (João 12.50).

 

Ter fé é estar ‘sintonizado’?

Para o leitor ter noção do quanto é sério ser mestre, e dos perigos em utilizar ilustrações acerca de um tema bíblico, analisaremos o seguinte texto disponível na internet:

“Crer e ter fé é a mesma coisa? Normalmente a uma certa confusão entre o significado de ‘ter fé’ e ‘crer’. A palavra fé vem do grego ‘pistis’ cujo verbo correspondente é ‘pisteuein’, que significa literalmente ‘ter fé’, e a sua correlata latina é ‘fides’. Tanto ‘pistis’ como ‘fides’ significam primariamente fidelidade e tem o sentido de harmonia, sintonia, etc. Um exemplo esclarecedor é a comparação do rádio com a fé, pois o aparelho só poderá receber o ‘som’ se estiver sintonizado na mesma frequência da estação transmissora. Se a emissora de rádio transmite na frequência 1000 o rádio só vai tocar se estiver sintonizado na mesma frequência 1000. Assim meu aparelho de rádio ‘tem fé’ estar sintonizado, e quando é sintonia é bem ajustada, a chamada ‘sintonia fina’, denomina-se alta fidelidade de transmissão. Ter fé é estar sintonizado com Deus. Tiago 2.19 diz que os demônios creem em Deus, ou seja, acreditam em que Deus existe, mas não significa que eles tenham fé. Crer é acreditar e ter fé é estar sintonizado com Deus. No tão belo e citado versículo de João 3.16 diz que ‘todo aquele que crê (pisteuein) será salvo’. Temos aqui um exemplo da dificuldade que a língua portuguesa tem para traduzir o verbo ‘pisteuein’ (ter fé). Na língua portuguesa não temos nenhum verbo derivado do substantivo fé e por isso os tradutores foram obrigados a recorrerem ao verbo crer. João quer dizer que aquele que tiver fé em Cristo será salvo e não somente aquele que acredita que ele existe, mas tem que estar harmonizado, sintonizado com Ele. Não basta somente que crer que Deus existe, acreditar Nele, a Bíblia vai além, exige que tenhamos fé ou seja harmonia, sintonia com o Salvador.” Postado pelo Pr. Cleber Barros no Portal ISET – Instituto Superior de Estudos Teológicos < http://iset-teologia.blogspot.com/2009/03/crer-e-ter-fe-e-mesma-coisa.html >. Consulta realizada em 03/04/19.

É difícil determinar quem fez alusão à ideia de que ter fé é estar ‘sintonizado com Deus’, e fez uso da parábola do receptor do rádio para explicar a diferença entre crer e fé, porém, o portal espirita do Centro de Estudos Espíritas Paulo Apóstolo, atribui ao professor, filósofo e humanista brasileiro, Huberto Rohden, tal comparativo no livro “A Mensagem Viva do Cristo”.

“Para o ilustre filósofo, aí está um dos maiores problemas que em muito vem prejudicando a teologia e, para explicar a diferença de significado entre uma coisa e outra, estabelece ele o seguinte paralelo ilustrativo: “Um receptor de rádio só recebe a onde eletrônica emitida pela estação emissora, quando o receptor está sintonizado ou afinado perfeitamente com a frequência da emissora. Se a emissora, por exemplo, emite uma onda de frequência 100, o meu receptor só reage a essa onda e recebe-a quando está sintonizado com a frequência 100. Só neste caso, o meu receptor tem fé, fidelidade, harmonia; fideliza com a emissora”. Dentro desse contexto, “se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé. Ter fé é estar em sintonia com Deus, tanto pela consciência como também pela vivência, ao passo que um homem sem sintonia com Deus pela consciência e pela vivência, pela mística e pela ética, pode crer vagamente em Deus. Crer é um ato de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência”, argumenta o professor Rohden.” Equipe Consciesp < http://www.ceef-pr.org/a-diferenca-entre-crer-e-ter-fe/ > Consulta realizada em 03/04/19.

Sem entrar no mérito de quem plagiou quem, ou quem se inspirou em quem, temos que verificar se os argumentos apresentados são bíblicos ou não.

 

Fé πιστις (pistis) e crer πιστευω (pisteuo)

Os termos πιστις (pistis) e πιστευω (pisteuo) são respectivamente substantivo e verbo. Temos o substantivo pistis, traduzido por fé, e o verbo pisteuo, traduzido por crer, isto porque o radical do vocábulo latino ‘fé’ não flexiona para compor um verbo, e em função disso, os lexicógrafos lançaram mão de outro verbo latino credere, para traduzirem o verbo πιστευω (pisteuo), compondo assim o verbo crer.

Com relação a tradução dos termos gregos πιστις (pistis) e πιστευω (pisteuo), tanto o Pr. Cleber Barros, quanto a Equipe Consciesp, estão corretos, entretanto, ambos se equivocam na conclusão.

A definição da Equipe Consciesp é uma inferência proveniente do significado que atribuíram a palavra grega pistis, que originalmente significava harmonia, sintonia, consonância. Daí a conclusão:

“Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia”.

O Pr. Cleber segue a mesma linha de pensamento:

“Não basta somente que crer que Deus existe, acreditar Nele, a Bíblia vai além, exige que tenhamos fé ou seja harmonia, sintonia com o Salvador”.

 

‘Fé’ e ‘ter fé’

O Dicionário bíblico Strong assim define fé:

“4102 πιστι ς pistis de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário bíblico Strong.

Geralmente quando se pensa o termo fé, a primeira definição utilizada é a convicção de alguém acerca de algo, ou seja, diz de uma disposição subjetiva do indivíduo. Exemplo: convicção de que Deus existe.

Entretanto, no Novo Testamento, principalmente nas cartas do apóstolo Paulo, o significado mais utilizado para o substantivo fé é o de mensagem, querigma, doutrina.

“Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome,” (Romanos 1.5);

“Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.” (Romanos 1.8);

“Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha.” (Romanos 1.12).

‘Fé’ no sentido de convicção não se invoca obediência, mas o anuncio de uma mensagem requer obediência de quem foi alcançado. A fé que é anunciada não diz de uma disposição subjetiva, antes refere-se a um querigma a ser anunciado, pregado. A fé mutua não se refere as questões subjetivas dos indivíduos, mas a uma doutrina objetiva divulgada a todos os homens.

Os três versos citados da epístola aos Romanos demonstram que o substantivo ‘fé’ não se trata de convicção, acreditar, que é questão subjetiva, antes trata da verdade do evangelho, uma doutrina a ser anunciada, portanto, objetiva.

A má leitura do substantivo fé, muitas das vezes, subvertem o sentido da definição de fé apresentada pelo escritor aos Hebreus:

“ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem.” (Hebreus 11.1).

A fé é o fundamento firme daquilo que se espera, e não o que se espera. Pela má compreensão, há tradutores que vertem o verso 1, de Hebreus 11, como se a fé fosse a certeza das coisas que se esperam.

“ORA, a certeza das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem.” (Hebreus 11.1).

Sem o fundamento, que é a fé, a certeza é inócua. Sem Cristo, que é a pedra angular, o firme fundamento, é inócuo esperar ser salvo “Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.” (1 Pedro 1.9).

“Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.” (1 Coríntios 2.5).

Cristo é a fé, o firme fundamento dos apóstolos e dos profetas, para aqueles que esperam a salvação “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;” (Efésios 2.20).

A convicção do indivíduo se não estive alicerçada no fundamento não produz salvação, pois o que é poderoso para salvação é o evangelho (Romanos 1.16; Efésios 1.13), a fé que foi dada aos santos (Judas 1.3).

E ‘ter fé’ é o mesmo que ‘fé’ (doutrina, querigma, evangelho)? Depende do contexto em que é utilizado o ‘ter fé’!

A fé que os cristãos das doze tribos da dispersão tinham diz do evangelho, pois é a fé (mensagem) de nosso Senhor Jesus Cristo. Quem tem o evangelho (fé) não pode fazer acepção de pessoas, pois acepção é contrário a mensagem do evangelho. A fé nesse contexto não é do individuo, antes pertence ao Senhor Jesus ‘… a fé de nosso Senhor…”.

“MEUS irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas.”  (Tiago 2 : 1).

Mas, dependendo do contexto, o substantivo fé pode significar crer, acreditar, convicção:

“Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.” (1 Coríntios 2.5).

Nesse versículo, fé tem o significado de crer, acreditar, ter convicção, vez que ‘poder de Deus’ significa evangelho, fé.

 

Crer e ter fé é a mesma coisa?

Contrariando o Pr. Cleber, que disse que “normalmente a uma certa confusão entre o significado de ‘ter fé’ e ‘crer’”, conforme o exposto acima, verifica-se que não se trata de uma certa confusão, mas de uma grande confusão.

Conforme demonstrado, a definição do Pr. Cleber é equivocada: “A palavra fé vem do grego ‘pistis’ cujo verbo correspondente é ‘pisteuein’, que significa literalmente ‘ter fé’, e a sua correlata latina é ‘fides’”. Embora o termo fé vem do grego ‘pistis’, e o seu verbo correspondente seja ‘pisteuein’, somente o contexto no qual o termo ‘fé’ e ‘ter fé’ são utilizados podem determinar o seu significado.

O professor, filósofo e humanista brasileiro, Huberto Rohden, citado pela Equipe Consciesp, com relação a história do trabalho dos lexicógrafos ao verterem o termo ‘pistis’ para as línguas neo latinas — português, espanhol, italiano, francês, romeno – está correto, porém, a definição utilizada para o termo não está em consonância com as Escrituras.

“Ora, a palavra pistis ou fides significa originariamente harmonia, sintonia, consonância.” Apud Equipe Consciesp.

Os termos hebraicos[1] אמונה (’emuwnah) ou (forma contrata) אמנה (’emunah) e אמון (’emuwn) significam firmeza, fidelidade, estabilidade, ou indicam a qualidade do que é fiel e confiável, o que corresponde ao significado dos termos gregos πιστις (pistis) e πιστευω (pisteuo).

Quando lemos: “Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação;” (1 Timóteo 4.9), a qualidade do evangelho, que é fiel, confiável אמנה (’emunah) é o que estabelece o aceitar, crer, acreditar אמונה (’emuwnah).

Quando foi dito: “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós.” (2 Coríntios 1.20), é do termo ‘amém’ אמן[2] (’aman) que decorre אמונה (’emuwnah).

Ao utilizar os termos gregos πιστις (pistis) e πιστευω (pisteuo), os apóstolos não tinham em mente a ideia atribuída ao termo grego harmonia, sintonia, consonância, e sim a ideia do termo hebraico que se refere a fidelidade, firmeza, estabilidade.

Quando Huberto Rohden, citado pela Equipe Consciesp, diz: “se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia.”, equivoca-se completamente.

Primeiro, não há na Bíblia qualquer alusão a ideia de o espírito humano estar ‘sintonizado’ com o espírito de Deus. Tal assertiva não passa de uma tentativa de espiritualização de uma questão objetiva. Com essa ideia, estar ‘sintonizado’ com o espírito de Deus pode ser interpretado ao bel prazer de um líder religioso, como: dar esmolas, promover ações humanitária, ser caridoso, fazer meditação, fazer orações, repetir rezas, anunciar imprecações, etc.

Segundo, na colocação de Rohden, o crer nunca é suficiente, pois jamais se tem a fé. A Bíblia demonstra que quem crer em Cristo como Senhor será salvo, ou seja, crer é suficiente para salvação, mas os religiosos sempre vão acrescentar ao crer um quê de ‘atitude de consciência e de vivência’.

O quer diz as Escrituras? “Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido.” (Romanos 10.11), de modo que: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3.16).

Crer é obedecer, algo objetivo, diferente da ideia de ter harmonia, sintonia, consonância, que é algo subjetivo. Crer é obedecer a um mandamento específico, a fé que foi dada aos santos (Judas 1.3). Este é mandamento da fé (doutrina) que foi dada aos santos:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.” (I João 3.23).

Quem crê que Jesus é o Filho de Deus cumpre o mandamento de Deus, de modo que tem em si mesmo o testemunho de Deus, ou seja, a fé.

“Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho.” (1 João 5.10-11).

O Pr. Cleber Barros segue a mesma linha de pensamento do filósofo Humberto quando diz: “Ter fé é estar sintonizado com Deus. Tiago 2.19 diz que os demônios creem em Deus, ou seja, acreditam em que Deus existe, mas não significa que eles tenham fé. Crer é acreditar e ter fé é estar sintonizado com Deus.” Cleber Barros.

Crer é obedecer, diferente da ideia de ‘estar sintonizado com Deus’. A citação de Tiago 2, verso 19, demonstra a enormidade do equívoco da definição de que fé é sintonia.

Por que o irmão Tiago afirmou que os demônios creem em Deus?

“Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem.” (Tiago 2.19).

Porque os interlocutores de Tiago diziam que criam em um só Deus. Que adianta dizer que crê em um só Deus se não faz o que Ele ordena?

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (João 14.1).

Os judeus afirmavam que criam em Deus, mas negavam-no com suas obras, pois não criam que Jesus era o enviado de Deus.

“E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza. E eis que tu és para eles como uma canção de amores, de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra.” (Ezequiel 33.31-32).

A obra que Tiago exigiu das doze tribos da dispersão (judeus) é crer em Cristo, em lugar de somente dizerem ‘eu tenho fé’, fé essa que se resumia em dizer que criam em um só Deus.

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (João 6.29).

No comentário que faz do verso 16, de João 3, se evidencia o desatino do Pr. Cleber:

“João quer dizer que aquele que tiver fé em Cristo será salvo e não somente aquele que acredita que ele existe, mas tem que estar harmonizado, sintonizado com Ele. Não basta somente que crer que Deus existe, acreditar Nele, a Bíblia vai além, exige que tenhamos fé ou seja harmonia, sintonia com o Salvador” Idem.

Ora, quem crê que Jesus existe é porque crê que Deus O ressuscitou dentre os mortos, pois se não crê na ressurreição, não crê que Jesus existe.

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Romanos 10.9).

Quem crê em Cristo, ou tem fé em Cristo será salvo, pois ao crer em Cristo acredita que Deus existe e que é galardoador dos que O busca.

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.” (Hebreus 11.6).

“E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração.” (Jeremias 29.13).

A definição de que ‘crer é um ato de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência’, não reflete a premissa bíblica de ‘crer’ e nem de ‘ter fé’.

Crer é um ato de submissão, pois quando crê o homem obedece ao mandamento de Deus, ou seja, se faz servo. Dependendo do contexto, ‘crer’ e ‘ter fé’ assume o mesmo significado.

“E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê.” (Atos 13.39).

“Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim.” (Atos 26.18).

A ‘fé’ como mandamento (doutrina, querigma, evangelho) antecede o crer, por isso é dito que a fé é dom de Deus (Efésios 2.8). Crer em Cristo por meio da mensagem do evangelho jamais pode ser considerado uma espécie de altives do livre arbítrio do indivíduo, antes é o humilhar-se a si mesmo, se rendendo a vontade de Deus como servo.

“De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus.” (2 Coríntios 5.20).

O homem que diante da mensagem do evangelho delibera crer em Cristo deixa a sua altivez, pois ao obedecer ao mandamento de crer em Cristo se oferece para ser servo da justiça.

O mesmo erro que compromete a compreensão do Pr. Cleber, e o filosofo espirita Huberto, acerca da ‘fé’ e do ‘crer’, também afeta a doutrina reformada Mogernista, pois esta não considera que é imprescindível a quem obedece se oferecer (apresentar), o que não é o mesmo que o indivíduo ter a vontade subvertida por uma ‘graça irresistível’.

“Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça? Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues.” (Romanos 6.16-17).

 

[1] “אמון 0529 ’emuwn procedente de 539; DITAT – 116d; n m 1) fidelidade, confiança 1a) fiel, confiável (as adj.)” Dicionário bíblico Strong. “אמונה 0530 ’emuwnah ou (forma contrata) אמנה ’emunah procedente de 529; DITAT – 116e; n f 1) firmeza, fidelidade, estabilidade” Dicionário bíblico Strong.

[2] “אמן 0539 ’aman uma raiz primitiva; DITAT – 116; v 1) apoiar, confirmar, ser fiel 1a) (Qal) 1a1) apoiar, confirmar, ser fiel, manter, nutrir 1a1a) pai adotivo (substantivo) 1a1b) mãe adotiva, enfermeira 1a1c) pilares, suportes da porta 1b) (Nifal) 1b1) ser estável, ser fiel, ser carregado, firmar 1b1a) ser carregado por uma enfermeira 1b1b) firmado, certificado, duradouro 1b1c) confirmado, estável, seguro 1b1d) verificado, confirmado 1b1e) digno de confiança, fiel, confiável 1c) (Hifil) 1c1) permanecer firme, confiar, ter certeza, acreditar 1c1a) permanecer firme 1c1b) confiar, crer” Dicionário bíblico Strong.




Qual o poder da fé?

A fé como escudo (Efésios 6:16), não diz da crença do indivíduo, mas da fidelidade expressa na palavra de Deus, que é escudo e broquel (Salmo 91:4).


Qual o poder da fé?

“Porque nós pelo espírito da fé aguardamos a esperança da justiça.” (Gálatas 5:5).

Introdução

Este artigo tem por objetivo abrir os olhos do leitor, com relação à má leitura que muitos cristãos fazem, acerca do tema fé.

Aleatoriamente, escolhemos um artigo na internet, que aborda o tema, e, junto com você, leitor, verificaremos os erros e os acertos, acerca do tema ‘fé’.

 

A fé tem poder?

Analisaremos o texto “Qual é o poder da fé”, disponível no site Respostas Bíblicas, que começa com a seguinte colocação:

“A Bíblia ensina que a fé é fundamental para a vida cristã. A fé tem muito poder e pode fazer toda a diferença em sua vida. Siga esse estudo bíblico e descubra como a fé pode mudar sua vida:” Respostas Bíblicas < https://www.respostas.com.br/estudo-biblico-o-poder-da-fe/ >, consulta realizada em 14/07/2018.

A Bíblia ensina que a fé é fundamental para a vida cristã ou, a Bíblia ensina que a fé é o firme fundamento? (Hebreus 11:1) A Bíblia ensina que a fé tem muito poder ou, ela ensina que o evangelho é o poder de Deus, para a salvação daquele que crê? (Romanos 1:16)

Para a nossa análise, precisamos seguir o que preceitua a Bíblia:

a) a fé é o firme fundamento do que se espera e;

b) o evangelho é o poder de Deus. Dizer que a fé tem muito poder e que pode fazer toda a diferença ou, que é fundamental para a vida cristã, é leviano e você irá descobrir o porquê.

A salvação vem pela fé

O artigo que não vem assinado, prossegue com o subtítulo: ‘A Salvação vem pela fé’ e explica o que significa ter fé, com base no texto de Hebreus 11, verso 1:

“Fé é acreditar em alguma coisa, mesmo quando não a vemos. Quando você tem certeza sobre aquilo em que você acredita, você tem fé”. Idem.

Enquanto o escritor aos Hebreus fala de modo objetivo, que a fé é ‘o firme fundamento do que se espera’, o artigo apresenta a fé de uma perspectiva subjetiva: acreditar em alguma coisa. Para o escritor do artigo, se alguém tem certeza quanto ao que acredita, significa que tal pessoa tem fé.

É isso o que a Bíblia diz? A fé que o escritor ao Hebreus define, pode ser a certeza que alguém tem de que irá chover? A certeza que alguém tem, de que irá fazer muito frio, é a fé que o escritor aos Hebreus evidencia?

Os homens possuem inúmeras certezas, conforme o que bem acredita, mas, isso não significa que tenham a fé manifesta.

Quando lemos, na Bíblia, que a salvação vem pela fé, significa que a salvação vem por Cristo, pois, Cristo é a fé manifesta.

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.” (Gálatas 3:23).

Portanto, Cristo é a fé manifesta, o firme fundamento daqueles que esperam a salvação. Cristo é o tema do evangelho, portanto, a fé que foi entregue aos santos (Judas 1:3). Por isso é dito que a salvação é pela fé, pois o evangelho é o poder de Deus para salvação dos que creem.

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois, é o poder de Deus, para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e, também, do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.” (Romanos 1:16-17).

É pelo evangelho que o homem é salvo (Efésios 1:13). É pela graça que o homem é salvo, visto que Cristo é a graça de Deus, que traz salvação a todos os homens, ou seja, por meio da fé, Cristo, a fé manifesta:

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens.” (Tito 2:11).

 

Por que precisamos de fé?

Tendo por base Hebreus 11, verso 6, o escritor questiona o motivo de precisar de fé e arremata:

“Se você quer agradar a Deus, você precisa crer que Ele existe! A fé é a base para um bom relacionamento com Deus.” Idem.

Quando o artigo, em análise, diz que precisamos de fé e enfatiza que precisamos ‘acreditar em alguma coisa’, sendo que o homem precisa de Cristo, a graça de Deus manifesta, pois, só por intermédio de Cristo, o firme fundamento, é possível ao homem agradar a Deus. (1 Coríntios 3:11; Efésios 2:20)

Sem Cristo, é impossível agradar a Deus, pois, é por intermédio de Cristo, que o homem crê na existência de Deus e que Ele dá galardão aos que O buscam.

“E é por Cristo que temos tal confiança em Deus;” (2 Coríntios 3:4);

“E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;” (1 Pedro 1:21);

“Não rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão.” (Hebreus 10:35).

A evidência de que alguém, de fato, crê na existência de Deus, está em obedecê-Lo, isto é, crendo que Jesus é o Cristo.

Os judeus criam na existência de Deus? Claro que criam na existência de Deus, porém, Jesus os descreve como descrentes, pois, não criam em Cristo, como enviado de Deus.

“E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós.” (João 5:38);

“E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou.” (João 12:44).

Com base nos versos acima, fica claro que, crer que Deus existe, de modo a agradá-Lo, só é possível, crendo que Jesus é o Cristo.

 

Qual é a fé que salva?

No item 3, o texto sob análise, enfatiza que ‘há muitas pessoas com crenças diferentes no mundo’, para, em seguida fazer duas perguntas: ‘Será que qualquer tipo de fé é válido?’; ‘Qual é a fé que salva?’, concluindo com a seguinte explicação:

“Só há um caminho para Deus: Jesus. Somente a fé em Jesus como seu salvador, que ressuscitou dos mortos, salva. Isso significa reconhecer que você tem pecado e merece castigo. Você não consegue se reconciliar com Deus sozinho. Você precisa de um salvador. Se você crê que Jesus morreu na cruz, no seu lugar, para pagar o castigo de seus pecados, e ressuscitou para lhe dar a salvação, você será salvo.” Idem.

Da explicação, somente quatro frases estão corretas:

  1. só há um caminho para Deus, Jesus Cristo-homem (João 14:6; 1 Timóteo 2:5);
  2. somente crendo (fé em Jesus) em Cristo como salvador, e que Ele ressurgiu dos mortos, é que o homem alcança salvação (Romanos 10:9);
  3. é impossível ao homem se reconciliar com Deus e;
  4. precisa de um salvador.

Só crê em Cristo para ser salvo aquele que reconhecer que é pecador, pois está sob a ira divina: morto em delitos e pecados. A questão não está em merecer castigo, antes, que veio o juízo e está condenado, em função da desobediência de Adão.

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação (…) Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores…” (Romanos 5:18 -19).

O homem é pecador, ou seja, escravo do pecado, e por isso peca, diferente da ideia de que ‘tem pecado’ (cometido erros) e que será merecedor de castigo por ‘ter pecado’.

“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.” (João 3:36).

Outro equívoco é afirmar que Jesus morreu para ‘pagar o castigo de seus pecados’, sendo que Jesus morreu em obediência ao Pai, para haver substituição de ato, obediência do último Adão, em decorrência da desobediência do primeiro Adão.

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.” (Romanos 5:18).

Jesus morreu a cruz, no lugar dos pecadores, em obediência ao Pai, de modo que o Pai O ressuscitou e o exaltou soberanamente.

“E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;” (Filipenses 2:8 -9).

Através da sua carne, Jesus consagrou um novo e vivo caminho, de modo que, quem crê em Cristo se torna participante da sua morte, sendo crucificado, morto e sepultado com Cristo, para que possa ressurgir dentre os mortos uma nova criatura.

“Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne,” (Hebreus 10:20).

Na cruz Jesus morreu no seu lugar, para substituir a desobediência de Adão. Agora, através da oferta do corpo de Cristo, todos quanto creem, são julgados com Cristo, para não serem condenados com o mundo, por isso, morrem com Cristo, para serem justificados.

“Porque aquele que está morto está justificado do pecado.” (Romanos 6:7).

Quem está morto com Cristo, está livre (justificado) do pecado, portanto, sem nenhuma condenação (Romanos 8:1) e, como Jesus ressurgiu dentre os mortos, para justificação dos que creem, os que ressurgem com Cristo são declarados justos (justificados) por Deus.

“O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação.” (Romanos 4:25).

 

De onde vem a fé que salva?

No item 4, do artigo em análise, tem-se a pergunta: ‘De onde vem a fé que salva?’, apresentando os textos de Efésios 2:8-9 e de Romanos 10:17. Em seguida é dada a seguinte explicação:

“A fé é um dom que Deus dá. Ela vem, quando você ouve a palavra de Deus. Por isso, é importante ler a Bíblia e ir à igreja, onde você ouvirá mais de Cristo.” Idem.

Quando é dito que ‘a fé é um dom que Deus dá’, a qual ‘fé’ o escritor está se referindo? Cristo, o dom de Deus, ou, o ato de crer, de acreditar? Percebe-se que, no texto, o escritor não consegue diferenciar a ‘fé’ (objetiva) do ‘crer’ (subjetivo).

“Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos.” (Romanos 5:15).

Cristo é o dom de Deus (João 4:10), portanto, Ele é a fé, pela qual o justo viverá:

“Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.” (João 6:57);

“E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé.” (Gálatas 3:11).

‘Viver da fé’ é ‘viver de Cristo’, ‘viver do evangelho’. Quando o apóstolo Paulo sublinhou que a ‘fé é pelo ouvir’, ele havia destacado que seria apenas quem invocasse ao Senhor (Romanos 10:13) e citou Isaías, para evidenciar que, nem todos tem obedecido ao evangelho, pois Isaías diz que: ‘Senhor, quem creu na nossa pregação?’ (Romanos 10:16).

Ao anunciar o evangelho a Abraão, Deus estava dando a entender que justificaria os gentios pela fé, ou seja, pela sua fidelidade, e por isso Ele enviou o Cristo.

“Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.” (Gálatas 3:8).

Isso demonstra que a ‘fé’, que ‘é pelo ouvir’, diz da palavra de Deus, diz do evangelho, mas, também, que não creram na pregação.

“Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.” (Romanos 16 -17).

A fé não é um dom que vem quando o homem ouve a palavra de Deus; na verdade, a palavra de Deus é a fé (πίστις), ou seja, a verdade, a fidelidade, independentemente, de que creiam ou, de quando não ouvem.

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Timóteo 2:11 -13).

 

Como a fé em Jesus afeta sua vida?

No item 5, verifica-se que o escritor do artigo, que consta disponível no site Respostas Bíblicas, faz algumas afirmações, tendo por referência os seguintes versículos: 1 João 5:4, Efésios 6:16, Gálatas 2:20, Lucas 17:6 e João 3:36.

Ora, quando o apóstolo João diz que ‘a vitória que vence o mundo é a nossa fé’ (1 João 5:4), ele não se refere ao ato de crer do indivíduo, mas, na doutrina do evangelho. O que vence o mundo é Cristo e Cristo é a nossa vitória, Ele é a nossa fé (João 16:33).

A fé como escudo (Efésios 6:16), não diz da crença do indivíduo, mas, da fidelidade expressa na palavra de Deus, que é escudo e broquel (Salmo 91:4). A fidelidade de Deus é efetiva na proteção contra os ‘dardos inflamados’ do inimigo, que são doutrinas de engano.

O apóstolo Paulo dá testemunho de que estava crucificado com Cristo, portanto, estava morto e Cristo vivia nele. A vida que agora possuía na carne, o apóstolo Paulo vivia no evangelho de Cristo, na fé do Filho de Deus.

Viver na fé é estar no espírito, ou seja, no espírito da fé, na mensagem da fé:

“Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.” (Romanos 8:9);

“Porque nós pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça.” (Gálatas 5:5).

Cristo fazia milagres ocorrerem, mas, a crença do indivíduo não tinha esse ‘poder’. Quando os discípulos pediram a Cristo para aumentar a fé (crença) deles, Jesus demonstra que a crença deles não era problema, pois, mesmo que fosse pequenina como um grão de mostarda, ela é capaz de realizar o que é ‘impossível’ aos homens.

Assim, o segredo não está no tamanho da fé que alguém possui, mas, no poder de realização da palavra de Deus, que é firme e imutável. Basta crer na palavra de Deus, mesmo que seja uma crença do tamanho de um grão de mostarda, que o homem consegue realizar o impossível: a salvação da alma.

“Os seus discípulos, ouvindo isto, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá pois salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível.” (Mateus 19:25 -26).

A fidelidade de Deus é a garantia da vida eterna para todos os que creem em Cristo. O homem alcança salvação quando crê, mas a garantia da salvação está na fidelidade de Deus (João 3:36).

 

Como sua fé pode aumentar?

A ‘fé’, como pregação, não há como ser fortificada, mas, somente a crença do indivíduo.

“Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (Gálatas 3:2).

Outros discípulos de Cristo não conseguiram expulsar um demônio de um menino (Marcos 9:14 e 18), o que pode ter suscitado uma discussão entre aqueles seguidores de Cristo e alguns escribas (Marcos 9:16).

Jesus dá o seu veredito: Ó geração incrédula! Quando trouxeram o menino, ele caiu, ficou agitado e espumava. Diante daquele quadro, Jesus pergunta ao pai da criança, há quanto tempo ela estava daquele jeito, e o pai respondeu que, desde a infância. O pai roga por compaixão, se Cristo pudesse fazer alguma coisa (Marcos 9:22).

Jesus enfatiza a condição: se tu podes e declara: tudo é possível ao que crê!

A palavra de Cristo fortificou a confiança daquele pai e ele afirma, categoricamente: eu creio e roga para ser ajudado quanto à sua falta de confiança (Marcos 9:24).

A confiança do homem só resulta em uma ação sobrenatural, quando Deus dá a sua palavra. Jesus ordenou ao espírito mudo e surdo que deixasse o menino e que não mais voltasse, e o milagre ocorreu e a crença daquele homem em Cristo se robusteceu.

Com relação à salvação, se você não acredita que basta confiar que Jesus é o Cristo, basta ler a Bíblia, que você terá a sua confiança restabelecida. Aquele que crê que Jesus é o enviado de Deus, recebe de Deus poder para ser feito filho de Deus, pois, por intermédio de Cristo, você recebe a salvação e a vida eterna.

 

Conclusão

Devemos analisar as Escrituras para não sermos levados por palavras vazias, pois, se não for conforme o expresso na Bíblia, não é real e não é garantido por Deus.

Quantas pessoas se decepcionam com Deus, pois firmaram a sua crença em falsas esperanças, pois, Deus vela sobre a sua palavra para a cumprir, mas, Ele não se responsabiliza por mentiras ditas em seu nome.

Devemos julgar os espíritos, para verificarmos se eles são provenientes de Deus ou, não (1 João 4:1). Não podemos nos alimentar de tudo o que é dito em nome de Deus, sem, antes, submetermos o que é oferecido ao crivo do que está nas Escrituras.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




Jesus morreu por nossos pecados

Basta ensinar a verdade do evangelho, de que Jesus morreu pelos nossos pecados, e que a morte de Cristo se deu em obediência ao Pai, que jamais alguém sentirá culpa alguma pelos sofrimentos suportados por Jesus.


Jesus morreu por nossos pecados

A vontade de Deus

Em época de comemoração religiosa sempre aparece estudiosos com teorias e divagações acerca de questões bíblicas, mas, tem ideias que, pelo absurdo da proposta, carece ser comentado.

Na chamada sexta-feira da paixão, me deparei com um artigo na internet sob o título “Jesus não morreu por ‘nossos pecados’ e sim por enfrentar o interesse, a conveniência e a cobiça”[1], texto assinado por um frade da Ordem dos Servos de Maria, Alberto Maggi, rotulado biblista italiano, traduzido por Francisco Cornélio.

O frade Maggi fez uma rápida releitura do funcionamento do templo de Herodes, à época de Jesus, e chega a seguinte conclusão:

“Jesus não morreu pelos nossos pecados, e muito menos por ser essa a vontade de Deus, mas pela ganância da instituição religiosa, capaz de eliminar qualquer um que interfira em seus interesses, até mesmo o Filho de Deus: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38). O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado, que o Senhor em sua misericórdia sempre consegue apagar, mas o interesse, a conveniência e a cobiça que tornam os homens completamente refratários à ação divina.” Alberto Maggi, Jesus não morreu por ‘nossos pecados’ e sim por enfrentar o interesse, a conveniência e a cobiça, artigo disponível na Web.

Nesta conclusão, o frade Maggi, nas duas primeiras frases do parágrafo contraria duas questões essenciais ao evangelho de Cristo:

  1. Jesus morreu pelos nossos pecados – O apóstolo dos gentios é contundente: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,” (1 Coríntios 15:3). Se o apóstolo Paulo afirmou categoricamente que Jesus morreu pelos nossos pecados, qual é a pessoa que detém autoridade, por mais que possua formação acadêmica, para falar que Jesus não morreu pelos nossos pecados? Cristo, a seu tempo, morreu pelos pecadores, ou seja, pelos ímpios “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” (Romanos 5:6).
  2. A morte de Cristo era a vontade de Deus – O apóstolo dos judeus, ao fazer a sua primeira exposição foi taxativo: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos;” (Atos 2:23). Cristo foi entregue segundo a vontade (conselho) de Deus e conforme o previsto nas Escrituras (presciência). O escritor aos Hebreus deixa evidente que os cristãos são santificados pela oferta do corpo de Cristo (Hebreus 10:10), e, Cristo mesmo, tem a vontade de Deus como um cálice a beber (Mateus 20:22; Marcos 14:36).

 

A parábola do herdeiro

Após negar duas questões essenciais ao evangelho de Cristo, o frade Maggi enfatiza a ideia de que Jesus morreu por causa da ganancia de uma instituição religiosa, e cita trecho de uma parábola contada por Jesus; “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mateus 21:38).

A parábola não expõe nenhuma instituição, antes homens que, apesar de serem leitores das Escrituras, não atinaram que, conforme predito nos Salmos, rejeitariam o Cristo, que por sua vez, seria anunciado aos gentios:

“Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, Essa foi posta por cabeça do ângulo; Pelo Senhor foi feito isto, E é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos.” (Mateus 21:42 -43).

Ora, os evangelistas Mateus e Marcos registraram que Pilatos sabia que, por inveja, os líderes judaicos entregaram o Cristo para ser morto.

“Porque sabia que por inveja o haviam entregado.” (Mateus 27:18; Marcos 15:10).

Mas, o fato de os principais dos judeus invejarem o ministério de Jesus e O entregarem para morrer, não depõem contra a verdade de que Jesus morreu pelos nossos pecados e que essa era a vontade de Deus.

Pela abordagem do frade Maggi, percebe-se uma crítica velada as instituições religiosas. Mas, não é somente as instituições religiosas que sofrem deste mal, pois, na essência, todas as instituições humanas são potencialmente capazes, em razão de interesses da liderança, tentar eliminar quem interfira em seus interesses.

Mas, esta questão última, nem de longe depõe contra a verdade de que Jesus morreu pelos pecadores, e segundo a vontade do Pai.

Outra questão a ser analisada é a ideia de que os ‘interesses’, as ‘conveniências’ ou a ‘cobiça’ humana é o que torna o homem refratário à ação divina, pois o frade parece desconhecer que a ação divina não é tolhida por questões humanas. A ação divina, apesar da oposição dos escribas e fariseus, foi dar o seu Filho Unigênito ao mundo para que todo aquele que nele crê não pereça, mas alcance a vida eterna (João 3:15 -16).

Quando alguém pergunta por que o Filho de Deus morreu crucificado, certo é que a resposta imediata somente apresenta um dos aspectos, que é: Cristo morreu pelos nossos pecados. No entanto, a morte de Cristo na cruz decorre de outra questão, e que possibilitou o perdão dos nossos pecados.

Cristo morreu crucificado em obediência ao Pai, pois apesar de ser o Filho, no mundo Ele teve que se fazer servo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz (Filipenses 2:8), pois como o pecado entrou no mundo pela desobediência de um homem, somente por um ato de justiça de outro homem (e o ato é a obediência), muitos são feitos justos (Romanos 5:19).

Morrer por morrer muitos morreram e morrem, e  cada qual com um determinado grau de sofrimento. Muitos morreram ao longo da história por suas causas, como mártir, como heróis, etc., outros como covardes, massacrados,  guerras, etc.

Mas, com relação a Cristo, Ele morreu não porque desejava a morte para ser um mártir e inspirar outras pessoas, antes morreu em obediência. Na morte de Cristo a questão maior é a obediência, pois Deus mesmo enfatizou: obediência quero e não sacrifício! (Oseias 6:6; Salmo 40:6 -8)

Cristo, na condição de servo de Deus, devia obediência ao Pai, e só foi morto porque Ele também era o cordeiro de Deus. Se não compreendermos a questão da obediência, não compreendemos como se dá a justificação do homem, pois necessariamente para Deus ser justo e ser possível Ele justificar o homem, teve que haver substituição de ato: obediência pela desobediência (Romanos 5:18).

Que é inevitável que quem tenha conhecimento de como foi o sofrimento e a crucificação de Cristo acabe recordando e, de certa forma, trazendo à memoria alguma imagem cruenta do evento, isto é fato. Mas, querer dizer que, quem se lembra da morte de Cristo, poderá ser acometido por um sentimento de culpa pelo fato de que a doutrina cristã estabelece que Jesus morreu pelos nossos pecados é inferência vazia.

 

A psique humana

No dia a dia são inúmeras as pessoas que frequentam psicólogos e psiquiatras por questões mil. No entanto, inferir que, por causa da doutrina que evidencia que Jesus morreu pelos nossos pecados, corre-se o risco de se infiltrarem sentimentos de culpa nas profundezas da psique humana, sob o argumento de ‘como bem sabem psicólogos e psiquiatras’, é leviano, pois nesse dito ‘saber’ dos profissionais de saúde mental não há nenhum dado cientifico.

Pelo artigo do frade, parece que os psiquiatras e psicólogos atendem somente pessoas religiosas, e mais, em razão de culpa por Cristo ter morrido pelos nossos pecados, e que somente as pessoa religiosas são acometida de medos e distúrbios.

O que se percebe através do artigo frade Maggi, que na tentativa de evitar que as pessoas se sintam culpas pelo fato de Jesus ter morrido pelos nossos pecados, lançou mão da ideia de que Jesus morreu por causa de interesses institucionais.

Há pessoas que sentem culpa sim em função de questões religiosas, porém, a culpa advém justamente de ensinamentos refratário as Escrituras em função dos interesse de líderes de instituições religiosas que querem manter o controle sobre os seus adeptos através de elementos como: não toques, não manuseies e não proves (Colossenses 2:21), e que não ensinam a verdade do evangelho.

Basta ensinar a verdade do evangelho, de que Jesus morreu pelos nossos pecados, e que a morte de Cristo se deu em obediência ao Pai, que jamais alguém sentirá culpa alguma pelos sofrimentos suportados por Jesus.

Que seja ensinado segundo a verdade qual é o pecado pelo qual Jesus Cristo morreu: a morte (separação) em decorrência da ofensa de Adão, que ergueu a barreira de separação entre Deus e os homens, e não conceitos humanos como os ‘sete pecados capitais’.

É imprescindível a quem anuncia o evangelho deixar bem claro as pessoas que somente um homem pecou, no sentido de transgredir um mandamento (Gênesis 2:16 -17), o que o apóstolo Paulo chamou de ‘ofensa’ (Romanos 5:12 -19). O pecado que afetou todos os descendentes de Adão diz de uma condição herdada de berço, isto por causa da ‘morte’ ter entrado no mundo pela ofensa de Adão e, essa condição ter passado a todos os homens.

Como a condenação de Adão passou a todos os homens, é dito que todos os homens pecaram, não em um sentido moral, comportamental ou de caráter, antes ‘pecaram’ no sentido do uso camponês do termo, quando é dito que um fruto de uma árvore ‘pecou’ ao não estar dentro dos parâmetros estabelecidos para consumo.

Jesus não diz que os escribas e fariseus eram pecadores por questões próprias aos sete pecados capitais, como moral, comportamento e caráter. Eles eram pecadores por não admitirem que o testemunho das Escrituras é verdadeiro, de que eles eram de fato cegos.

“Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver.” (Isaías 42:18);

“Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece.” (João 9:41).

 

[1] <https://www.diariodocentrodomundo.com.br/jesus-nao-morreu-por-nossos-pecados-e-sim-por-enfrentar-o-interesse-a-conveniencia-e-a-cobica/ >  Consulta em 30/03/18.




A graça de Deus sobre todos os homens

Este artigo vai de encontro ao posicionamento teológico de John Owen, que consta de uma versão condensada do seu livro ‘A Morte da morte na morte de Cristo’, sob o titulo ‘Por quem Cristo morreu’.


A graça de Deus sobre todos os homens

“Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.”  (Gálatas 3:8)

Introdução

Este artigo vai de encontro ao posicionamento teológico de John Owen, que consta de uma versão condensada do seu livro ‘A Morte da morte na morte de Cristo’, sob o titulo ‘Por quem Cristo morreu’.

No prefácio do seu livro, o Dr. John Owen alega que abordou o tema após ter sido consultado por diversas vezes, isto motivado pela exposição de Judas, que diz: “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 1:3).

O irmão Judas ao impor o dever de batalhar pela fé, não estava convocando os cristãos a defenderem as suas crenças pessoais, antes que defendessem a doutrina do evangelho, que muitas vezes no Novo Testamento também é denominado ‘fé’, ‘verdade’.

Em razão dessa ordem, o objetivo deste artigo não é defender questões pessoais, mas sim defender a verdade exarada nas Escrituras acerca da doutrina que uma vez foi dada aos santos.

 

Pressuposto

O Dr. Owen parte do pressuposto[1] de que a ‘Bíblia diz que a morte de Jesus Cristo foi como um pagamento para libertar os homens do pecado’ Owen, John, Por quem Cristo morreu? Editora PES, 2º Ed. 1996, Imprensa da fé, versão eletrônica em PDF. Pág. 13.

E ele conclui que, até essa afirmação esta tudo bem. Daí, pergunto: será? Se a morte de Cristo foi um pagamento, como se deu essa transação comercial? Quem pagou o que para quem? O pecado colocou à venda os seus servos?

Ora, a salvação do homem não se resume em uma transação comercial, como se o pecado fosse um senhor que negocia os seus escravos. Na verdade, a salvação é substituição de ato, obediência pela desobediência, para que Deus seja justo e justificador.

O apóstolo Paulo não aborda transação comercial, antes substituição de ato, de modo que haja justiça:

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.” (Romanos 5:18).

O primeiro Adão desobedeceu a uma lei santa, justa e boa no Éden, e por seu ato ofensivo veio o juízo de Deus sobre todos os homens para condenação. Mas, para reparar este dano, o último Adão, que é Cristo teve que obedecer ao Pai em tudo: entregando-se aos pecadores para ser morto em uma cruz.

A morte de Cristo, apesar do seu imensurável valor em razão do resgate da humanidade, não pode ser confundido como se fosse uma moeda em uma transação comercial, ou um sacrifício que Cristo se propôs fazer. Na verdade, Cristo teve que obedecer a Deus, mesmo contra a sua vontade, e em razão disso se fez servo, morrendo morte de cruz.

Sem a morte de Cristo na havia um caminho pelo qual o homem tivesse acesso a Deus, mas pela sua carne entregue em obediência ao Pai, Cristo deu amplo acesso aos homens a Deus.

Como a morte de Cristo Deus pagou o pecado para deixar livres os homens? Não! Por duas razões: a) os servos do pecado não estavam à venda; b) o vínculo dos homens com o pecado só termina com a morte dos pecadores.

Sem a morte de Cristo, caso alguém morresse fisicamente, estava perdido por causa da condenação em Adão e seguia ao juízo de obras no Tribunal do Grande Trono Branco. Mas, como Cristo morreu, todos os que creem morrem juntamente com Ele para o pecado, e são de novo gerados de semente incorruptível e ressurgem uma nova criatura.

De modo que:

“Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram.” (2 Coríntios 5:14).

Se a morte de Cristo fosse como um pagamento como diz o Dr. Owen, não seria necessário a morte dos pecadores com Cristo. Quando Cristo morreu, não morreu como forma de pagamento, antes morreu para consagrar um novo e vivo caminho pelo véu, ou seja, pela sua carne.

“Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne,” (Hebreus 10:20).

A morte de Cristo não foi uma forma de pagamento, pois é impossível a mulher se ver livre da lei do marido por transação comercial.

“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.  De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.  Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.” (Romanos 7:2 -4).

Enquanto o marido viver a mulher estará ligada pela lei ao marido. A mulher só estará livre do marido se este morrer. Não há outra forma. Por isso, pelo corpo de Cristo, os cristãos estão mortos para lei, e assim, passaram a pertencer a Deus.

O segredo para o homem se ver livre do pecado é morrer e ser sepultado com Cristo, pois só os mortos estão livres da servidão ao pecado.

“De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;  Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.  Porque aquele que está morto está justificado do pecado.” (Romanos 6:4 -7).

Deus não adquire pecadores para Si através da morte de Cristo. Na verdade, todos os pecadores que crerem no evangelho se conformam com Cristo na sua morte, de modo que o velho homem é crucificado, e o corpo que pertencia ao pecado é desfeito. Após os pecadores morrerem com Cristo, Deus por sua maravilhosa graça os faz ressurgir dentre os mortos uma nova criatura, e são estás criaturas que pertencem a Deus como servos da justiça.

 

A morte de Cristo

Toda a argumentação de Owen parte do pressuposto de que a Bíblia afirma que Jesus morreu como forma de pagamento, sendo que, na verdade, Jesus morreu pelos pecadores.

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5:8).

Deus pagou quem com a morte de Cristo? Não há essa ideia na Bíblia. Na verdade, Cristo morreu a morte física em obediência ao Pai, e a morte física de Cristo é substitutiva, pois os pecadores não precisam morrer uma morte física.

“Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão.” (Isaías 53:10).

Entretanto, apesar de os pecadores não terem que morrer uma morte física, visto que Cristo morreu em lugar dos pecadores, todos os pecadores precisam morrer para o pecado antes que possam viver para Deus.

Do ponto de vista da morte física, a morte de Cristo é substitutiva, mas como está determinado que ‘a alma que pecar essa mesma morrerá’, do ponto de vista espiritual, a pena não pode passar da pessoa do transgressor: o pecador tem que morrer (Ezequiel 18:20).

Sem a morte do pecador não há libertação do pecado, pois o pecado é um senhor que não vende os seus escravos, visto que o salário do pecado é a morte (Romanos 6:23). O servo do pecado só é livre do pecado quando morre para quem estava retido, de modo que quando o pecador morre com Cristo está livre da lei e do pecado.

“Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.” (Romanos 7:6).

Para compreender o significado da morte de Cristo, se faz lembrar o ordenado por Deus a Arão após a morte dos seus dois filhos. Arão deveria entrar no santuário com um novilho para expiação do seu pecado e um carneiro para holocausto. Com relação ao povo, Arão precisava de dois bodes para expiação do pecado do povo e um carneiro para holocausto (Levítico 16:5).

Arão deveria lançar sorte sobre os bodes, de modo que um pertenceria ao Senhor para ser imolado, e o outro seria o bode emissário (Levítico 16:6). O bode cuja sorte caiu e que pertencia ao Senhor seria oferecido para expiação do pecado do povo, mas o outro bode seria o emissário, seria apresentado vivo perante Deus para se fazer expiação com ele (Levítico 16:10).

O primeiro bode representa a morte substitutiva de Cristo, pois ninguém precisa ser pendurado no madeiro à semelhança de Cristo para ser liberto do pecado (Levítico 16:15 -16).

Como a transgressão não pode passar da pessoa do transgressor, o sacerdote chamava o bode emissário, e colocava ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e confessava (admitia) as transgressões, os pecados e as iniquidades de todos os filhos de Israel e, por mão de um homem designado para tal, o bode era conduzido ao deserto (Levítico 16:21 -22).

O que simbolizava o bode emissário? Que cada indivíduo dará conta de si mesmo a Deus, e após admitir que é pecador, deve ser conduzido fora do arraial ao deserto, onde será morto com Cristo.

“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?  De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.  Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;” (Romanos 6:3 -5).

Observe que o batismo na morte de Cristo é essencial à doutrina do evangelho, pois sem ser plantado juntamente com Ele na semelhança da sua morte não há como ser ressuscitado juntamente com Ele.

“Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer.” (1 Coríntios 15:36).

O valor da morte de Cristo está em que todos que creem n’Ele, igualmente morrem com Ele.

“Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram.” (II Coríntios 5:14).

Isto posto, não podemos aquiescer da premissa do Dr. John Owen de que ‘a morte  de Cristo foi um resgate, ou pagamento’, quer seja por alguns ou por toda a raça humana.

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Colossenses 2:11 -12).

 

Persuasão

O apostolo Paulo alertou os cristãos a não se deixarem enganar por palavras persuasivas (Colossenses 2:4; Efésios 5:6).

Uma das artimanhas da persuasão é fazer perguntas com base em um pressuposto, de modo que o interlocutor fica sem opções a considerar em razão do pressuposto, e adote o posicionamento que lhe é apresentado.

John Owen apresenta o pressuposto de que a morte de Cristo foi como um pagamento para libertar os homens do pecado, e em momento algum faz referência à necessidade de o pecador ser batizado na morte de Cristo.

Se o leitor do Livro do Dr. Owen não considerar a questão do batismo na morte de Cristo, a pergunta que é introduzida a seguir: “A morte de Cristo libertou todos os homens, ou somente alguns homens, dos seus pecados?”, deixa abertura para qualquer ensinamento divorciado das Escrituras.

Devemos analisar com cuidado, pois mesmo uma premissa verdadeira pode dar azo a inverdades. Como pode ser isso?

Elifaz, um dos amigos de Jó, tendo por base uma pergunta decorrente de premissas verdadeiras, alimentou inverdades acerca da condição de Jó.

Tendo por base o que ouviu em uma visão noturna durante o sono: “Pode o homem mortal ser mais justo do que Deus? Pode o homem ser mais puro do que o seu Criador?” (Jó 4:17), Elifaz equivocadamente acusou Jó de pecado.

As perguntas de Elifaz por causa do ‘mais’ só tem como resposta um sonoro ‘não’, entretanto, mesmo sendo impossível aos homens serem ‘mais’ justos ou ‘mais’ puros que o Criador, tal premissa não autorizava Elifaz acusar Jó de pecado.

Com base na premissa: ‘se a morte de Cristo foi como um pagamento para libertar os homens do pecado’, o Dr. Owen argumenta que, ‘se dissermos que a morte de Cristo foi por todos, então não podemos ao mesmo tempo dizer que foi apenas por aquelas pessoas a quem Deus escolheu’.

Se o posicionamento doutrinário do Dr. Owen, de que não podemos ao mesmo tempo dizer que foi apenas por aquelas pessoas a quem Deus escolheu’ não comporta a verdade de exarada nas Escrituras, de que Cristo morreu por toda humanidade, então tal posicionamento doutrinário deve ser descartado, pois o que importa é o exposto nas Escrituras:

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens,” (Tito 2:11).

Cristo é a graça de Deus manifesta conforme predito pelos santos profetas, e por Ele foi providenciado salvação a todos os homens, vez que Ele morreu pelos ímpios.

“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” (Romanos 5:6).

Ora, Jesus não morreu somente ‘por aquelas pessoas a quem Deus escolheu’, um pressuposto calvinista, visto que, a seu tempo, Cristo morreu pelos ímpios, o que significa que Jesus morreu por todos os descendentes de Adão, pois todos os descendentes de Adão são ímpios.

O pressuposto seguinte do Dr. Owen é mais esdrúxulo, de que se Cristo morreu por todos, então Deus não precisava escolher um povo especial’, ou, ‘se Deus escolheu um povo especial, então Cristo não precisava morrer por todos’.

Para entender essa questão do Dr. Owen, precisamos verificar a asserção paulina de que Deus escolheu para si um povo especial? Observe:

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo; o qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” (Tito 2:11 -14).

Primeiro o apóstolo Paulo afirma que Cristo se manifestou e trouxe salvação a todos os homens, cumprindo-se assim as profecias bíblicas de que ‘em Abraão seriam benditas todas as famílias da terra’ (Gênesis 12:3), ou ‘que Deus derramaria do seu espírito sobre toda carne (Joel 2:28).

Devemos nos lembrar do anunciado por Moisés, de que a doutrina de Deus deveria ser gotejada como a chuva e a palavra de Deus como o orvalho, como chuvisco sobre a erva, e como gotas de água sobre a relva (Deuteronômio 32:2), e do alerta de Isaías, de que todos os homens são como a erva, e que o povo é erva (Isaías 40:6 -8), portanto, todos os homens necessitam da palavra de Deus que subsiste eternamente (1 Pedro 1:24 -25).

Ao enfatizar que a graça manifesta trouxe salvação a todos os homens, o apóstolo Paulo estava destacando que Deus não fez acepção de pessoas, manifestando a graça somente aos judeus, antes que a graça foi dada a todos os homens (judeus e gentios).

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15).

Se esse ponto não fica esclarecido, que o evangelho é para toda criatura, todo homem, todos os povos, etc., todos os cristãos convertidos dentre o judaísmo teriam que ter uma visão semelhante a que o apóstolo Pedro teve, quando viu um vaso como toda espécie de animal imundo, para poder chagar a seguinte conclusão:

“E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo. A palavra que ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o SENHOR de todos);” (Atos 10:34 -36).

A graça revelada em Cristo ensina aos homens (nós) que é necessário renunciar à impiedade e às concupiscências, e que se viva no tempo presente sóbria, justa e piamente esperando a volta de Cristo.

A graça ensina as questões elencadas acima, justamente por que Cristo entregou a si mesmo pelos homens (nós), objetivando remir os homens de toda iniquidade, purificando assim um povo como sua propriedade, o que os torna especial, zeloso de boas obras.

Qual o objetivo do Dr. Owen ao utilizar o termo ‘escolher’ em lugar do termo ‘purificar’, ao dizer ‘então Deus não precisava escolher um povo especial’? Por que a questão que está em voga no seu livro não é ‘Por quem Cristo morreu?’, e sim, enfatizar a doutrina calvinista.

“… o qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras.” (Tito 2:14).

 

Morte como pagamento

Até aqui analisamos os dois primeiros parágrafos da Introdução do livro do Dr. John Owen.

Agora, vamos à aplicação que o Dr. Owen fez do pressuposto de que a morte de Cristo foi um resgate, ou pagamento, por toda a raça humana.

O Dr. Owen alega que, se a morte de Cristo foi um resgate, ou um pagamento por toda humanidade (friso que a Bíblia não diz isto), que resta dois posicionamentos:

  • Todos os homens têm o poder para aceitar ou rejeitar aquela redenção; ou
  • Todos os homens realmente são redimidos por Cristo, tenham eles conhecimento disso ou não.

Em seguida, no último parágrafo da página 13, o Dr. Owen equipara a falácia de que ‘a morte de Cristo foi um resgate, ou um pagamento por toda a humanidade’, como a verdade de que ‘Cristo morreu por todos os homens’, como se ambas as asserções fossem equivalentes, o que não é. A Bíblia afirma que Cristo morreu por todos os homens, mas não afirma que a morte de Cristo é resgate ou pagamento por todos os homens.

Faremos a analise dos dois pontos apresentado por Owen tendo por base o posicionamento bíblico, de que Cristo morreu por todos, e não só pelos ‘escolhidos’, segundo o que apregoa o calvinismo.

O Dr. Owen alega que a morte de Cristo por todos os homens só poderia ser real se um dos dois pontos fosse verdadeiro, posicionamento que aquiesço.

O Dr. Owen afirma que o primeiro posicionamento: ‘Todos os homens tem o poder para aceitar ou rejeitar aquela redenção’, nega o ensino bíblico de que todos os homens estão irremediavelmente perdidos no pecado e em si mesmos não tem poder para se achegar a Cristo.

Há um erro no ensinamento que o Dr. Owen apresenta como bíblico em desfavor do primeiro ponto.

Primeiro, a Bíblia afirma que todos os homens estão perdidos no pecado, porém, essa é uma situação remediável por Deus, pois aos homens é impossível se salvarem, mas para Deus tudo é possível (Marcos 10:27). A Bíblia afirma que todos os homens estão perdidos no pecado, o ‘irremediavelmente’ é acréscimo desnecessário.

Segundo, a Bíblia afirma que em si mesmo o homem não tem poder de se achegar a Deus, e não a Cristo. Como o homem não podia se achegar a Deus em razão do pecado, Deus enviou o seu Filho unigênito como mediador, de modo que Cristo é o caminho pela qual o homem pode se achegar a Deus.

O argumento de que o homem não tem como se achegar a Cristo é invencionice calvinista, pois seria sem propósito ser impossível o homem se achegar a Deus, e Deus enviar um mediador que igualmente fosse impossível ao homem se achegar.

No convite: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28), não há qualquer empecilho que impeça o homem de se achegar a Cristo.

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” (1 Timóteo 2:5).

Se fosse impossível ao homem se achegar a Cristo, outro mediador deveria ser interposto entre Cristo e os homens. Se é impossível ao homem se achegar a Cristo, porque era necessário que em tudo Ele fosse semelhante aos irmãos? Como Cristo poderia ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, se Ele foi enviado ao povo que, de alguma maneira estão impedidos de se achegarem a Ele?

“Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados.” (Hebreus 2:17 -18).

Observe que o escritor aos Hebreus enfatiza que devemos nos aproximar com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, o que seria impossível tal convite se fosse impossível aos homens se aproximar de Cristo.

“Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão. Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno.” (Hebreus 4:14 -16).

O posicionamento do Dr. Owen acerca da impossibilidade de os homens ir a Jesus decorre de uma má leitura da seguinte passagem bíblica:

“Respondeu, pois, Jesus, e disse-lhes: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim.” (João 6:43 -45).

Como os judeus murmurarem por Jesus ter dito ser o pão vivo que desceu dos céus, Jesus disse por parábolas e enigmas aos seus interlocutores judeus, que ninguém poder vir a Cristo, se o Pai que o enviou não o trouxer. Isto significa que é impossível aos homens ir a Cristo? Não! Significa que todos que de Deus ouviu e aprendeu, conforme predito pelos profetas, vem a Cristo, mas aqueles judeus, como não haviam ouvido e aprendido de Deus, não puderam vir a Cristo.

Em função do contento e da citação de Isaías: “E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante.” (Isaías 54:13), é evidente que os judeus não puderam ir a Cristo por não serem ensinados do Pai, e que o ensino do pai é o que traz os homens a Cristo.

“E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós. Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam; E não quereis vir a mim para terdes vida. Eu não recebo glória dos homens; Mas bem vos conheço, que não tendes em vós o amor de Deus. Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis.” (João 5:38 -43).

O Dr. Owen com falsas premissas rejeita a verdade de que todos os homens têm o poder para aceitar ou rejeitar a redenção em Cristo, sendo certo que Cristo morreu por todos os homens, mas somente os que creem na mensagem do evangelho serão salvos.

O segundo ponto: ‘Todos os homens realmente são redimidos por Cristo, tenham eles conhecimento disso ou não’, está completamente equivocado, pois tal posicionamento decorre do pressuposto que ser ‘redimido’ é o mesmo que a morte de Cristo ser um pagamento por todos os homens.

O Dr. Owen pressupõe que, enfatizar que Jesus Cristo morreu por todos, decorre de cinco razões:

  1. Parece tornar Deus mais ‘atraente’, se dizer que a morte de Cristo foi por todos;
  2. Parece tornar o amor de Deus ‘maior’, se dizer que Ele ama todos os homens igualmente;
  3. Parece tornar a morte de Cristo de maior ‘valor’, se podem dizer que ela foi um pagamento pelos pecados de todos;
  4. A Bíblia parece usar as palavras ‘mundo’ e ‘todo’ como se significasse todas as pessoas;
  5. Alguns podem querer dizer que a morte de Cristo foi por todos, para que eles possam ser incluídos, embora não queiram mudar a forma ímpia como estão vivendo.

A Bíblia enfatiza que Cristo é o cordeiro de Deus que foi morto desde a fundação do mundo, a e sua morte se deu em favor dos ímpios, dos pecadores, pois Cristo é mediador entre Deus e os homens (Apocalipse 13:8; Romanos 5:6 e 8).

Enfatizar o que a Bíblia diz não é tornar Deus mais atraente. Dizer que Deus demonstrou o seu amor a todos igualmente ao enviar o seu Filho ao mundo não é tornar o amor de Deus maior, antes enfatizar justamente que Ele não fez acepção de pessoas ao enviar o seu Filho como salvador do mundo.

“O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus.” (Isaías 52:10).

A morte de Cristo é de valor incomparável, visto que o valor de uma alma é superior às riquezas de todo o mundo. Agora, a ideia de que a morte de Cristo é um pagamento pelo pecado de todos os homens é equivocada.

O problema de interpretação dos termos ‘mundo’ e ‘todo’ depende do contexto em que os termos são utilizados, portanto, não devem ser lidos sob o prisma de um sistema doutrinário.

Agora, o fato de dizer que a morte de Cristo foi por todos não quer dizer que todos estão salvos, pois apesar de Cristo morrer por todos, aprouve a Deus salvar os crentes. Cristo é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, mas só será salvo quem crer em Cristo como diz as Escrituras.

 

Cristo, a solução do problema

O apostolo Paulo é enfático acerca da salvação em Cristo:

“Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.” (1 Coríntios 1:21).

Uma verdade insofismável: par ser salvo é imprescindível crer que Jesus é o Cristo.

O carcereiro que guardava a prisão onde o apóstolo Paulo e Silas, perguntou o que era necessário fazer para ser salvo, e obteve a seguinte resposta:

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa.” (Atos 16:31).

Sem crer em Jesus não há como ser salvo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.” (Marcos 16:16).

E o motivo é apresentado pelo apóstolo Paulo:

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido.” (Romanos 10:9 -11).

O termo grego traduzido por ‘crer’ nos versos acima é o verbo πιστεύω, transliterado ‘pisteuó’, que significa ‘acreditar’, ‘depositar confiança’, ‘ter fé em’, ‘convicção’, etc. Crer é uma questão subjetiva, e com relação ao evangelho decorre da verdade. O acreditar para salvação, apesar de ser uma questão subjetiva, tem um elemento objetivo: o Cristo.

Para ser salvo não adianta crer no milagre, no impossível, nos anjos, em Deus, nos santos, nos profetas, etc., pois se não crer que Jesus é o Filho de Deus, não será salvo. ‘Crer’ em Cristo se dá por constatação, admissão de uma verdade, e essa faculdade humana não é o dom de Deus.

Alguém pode argumentar: mas a fé não é dom de Deus? Sim, a fé é dom de Deus, mas o crer não. Neste ponto é imprescindível diferenciarmos ‘crer’ de ‘fé’.

No grego, a ‘fé’ apresentada como ‘dom de Deus’ é tradução do substantivo πίστις, transliterado ‘pistis’, e não significa ‘crer’, ‘acreditar’ ou ‘convicção’. O substantivo πίστις (fé), em função do contexto empregado ganha a conotação de verdade, fidelidade, doutrina, e, em muitos versículos, significa evangelho, Jesus.

O apóstolo Paulo ao acabar a sua carreira, afirmou que guardou a ‘fé’. Essa fé seria ‘acreditar’? Não! Ele guardou o evangelho. Nesse sentido, o irmão Judas disse que devemos batalhar pela fé dada aos santos, ou seja, devemos batalhar pela verdade do evangelho.

Em outras passagens, como Cristo é o autor e consumador da fé, os apóstolos fazem referencia a Cristo como a ‘fé’. Observe:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gálatas 3:23).

A ‘fé’ que havia de manifestar é Cristo, pois por Ele o homem se torna agradável a Deus:

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe” (Hebreus 11:6).

Quando o apóstolo Paulo fala que ‘pela graça sois salvos, por meio da fé – e isto não vem de vós, é dom de Deus’ (Efésios 2:8), Cristo é a ‘fé’ pela qual os homens são salvos, e Ele é o dom de Deus.

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.” (João 4:10).

Após diferenciar ‘fé’, o dom de Deus, de crer, uma faculdade humana, analisemos ao exposto pelo Dr. Owen no capítulo 1, do seu livro, sob o titulo ‘Apresentando um problema’.

O Dr. Owen faz várias citações de versículos bíblicos, destacando o motivo pelo qual Cristo veio ao mundo:

“Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.” (Lucas 19:10).

O que se perdeu? A humanidade, ou melhor, todos os descendentes de Adão, que sejam judeus ou gentios.

“Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um.” (Salmos 53:3).

Ele cita outra passagem, em que Jesus deixa claro que veio servir e dar a sua vida em resgate de muitos:

“Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.” (Marcos 10:45).

O ‘resgate’ não é uma transação comercial, antes representa uma substituição. Quando é dito que Jesus deu a sua vida, não se pode pensar que a morte de Cristo foi um pagamento, antes que Ele deu a sua vida em substituição, de modo que os resgatados não necessitam dar a sua vida.

Mas, por que Jesus deu a vida em resgate ‘de muitos’ e não ‘de todos’? Porque Jesus como homem é exceção, pois Ele não resgatou a si mesmo, mas os outros. Essa questão também é abordado pelo apóstolo Paulo:

“Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos.” (Romanos 5:15).

Geralmente dizemos que, pela ofensa de Adão morreram todos, pois todos pecaram (Romanos 5:12), entretanto, o apóstolo Paulo enfatiza que morreram muitos, pois um homem é exceção: o último Adão. Semelhantemente a graça, que é por Cristo, abundou sobre muitos, pois Cristo é o dom de Deus.

Mas, a redenção em Jesus é para todos os homens? Sim!

“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade. Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo.” (1 Timóteo 2:4 -6).

O Dr. Owen faz mais três citações das cartas paulinas:

“O qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus nosso Pai,” (Gálatas 1:4);

“O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade,…” (Tito 2:14);

“Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.” (1 Timóteo 1:15).

O Dr. Owen afirma que é evidente o propósito da morte de Cristo: a) salvar as pessoas do pecado; b) libertar as pessoas do mundo mau; c) tornar as pessoas puras e santas, e; d) criar pessoas que façam boas obras.

No meu entender, o fato de Jesus salvar alguém do pecado já abarca todas as outras questões elencadas. Se Jesus morreu para salvar as pessoas do pecado, fica a pergunta: quais pessoas? Todas as pessoas que estavam sujeitas ao pecado.

Novamente o Dr. Owen destaca cinco questões decorrentes da morte de Cristo, e todas as outras são reflexos da primeira: As pessoas são reconciliadas com Deus por intermédio da morte de Cristo (Romanos 5:1), de modo que a reconciliação se deu porque foram justificadas (Romanos 3:24), purificadas e santificadas (Hebreus 9:14), feitos filhos de Deus (Gálatas 4:4 -5), compartilham da glória de Cristo e, por fim, vida eterna (Hebreus 9:15).

Em seguida, o Dr. Owen apresenta um raciocínio por demais simplista: com base nas questões decorrentes da morte de Cristo, se Ele morreu por todos os homens, então todos os homens estão livres do pecado ou Cristo falho no seu propósito.

Neste argumento o Dr. Owen faz uso de uma falácia, conforme categorizado no ‘Guia das falácias de Stephen Downes’, pois ele apresenta um falso dilema, pelo número limitado de opções (na maioria dos casos apenas duas), quando de fato há mais. O falso dilema é um uso ilegítimo do operador “ou”. Pôr as questões ou opiniões em termos de “ou sim ou sopas” gera, com frequência (mas nem sempre), esta falácia.

Primeiro, considerando que Cristo morreu por todos, e que muitos homens permaneceram no pecado, isto não significa que Cristo falhou. Um exemplo está no seguinte fato: nem todos os que são de Israel são de fato israelitas, o que não significa que a palavra de Deus tenha falhado (Romanos 9:6).

Semelhantemente, do mesmo modo que é anunciado o evangelho hoje aos homens, não importando se judeus ou gentios (todos os homens), aos filhos de Israel também foi anunciado boas novas, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou.  Seria o caso de que a palavra anunciada falhou? Não! O problema não estava na palavra, e sim no fato de não estar misturada com a fé naqueles que a ouviram, ou já, ouviram de mal grado.

“Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram.” (Hebreus 4:2; Mateus 13:15).

Onde Cristo falhou pelo fato de morrer por todos, e, no entanto, muitos se perderem? Há falha em Ele ser fiel e não negar a Si mesmo?

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Timóteo 2:11).

Em segundo lugar, qualquer experiência diária não suplanta a verdade das Escrituras. Cristo morreu por todos, mas nem todos estão livres do pecado! Por que? Porque primeiro Cristo teve que morrer, por isso é cordeiro morto desde a fundação do mundo, para então poder instruir os homens a entrarem pela porta estreita.

Não fujo da questão: Cristo morreu por todos, e nego as duas questões levantadas pelo Dr. Owen: que todos estão livres do pecado ou que Cristo falhou. Além do mais, além de dizer que Cristo morreu por todos, evidencio que era propósito de Deus que todos os homens fossem beneficiados, conforme se lê:

“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.” (1 Timóteo 2:4).

Não sei quem possa ter dito tamanha besteira, conforme noticiado pelo Dr. Owen, de que ‘o benefício é só para aqueles que produzem uma fé para crer em Cristo’.

Neste ponto, vale destacar que homem algum pode produzir ‘fé’, quer seja salvo ou perdido. ‘Fé’ não é algo que o homem produz, pois a ‘fé’ em questão é Cristo, a verdade, o dom de Deus.

A ‘fé’ possui um único autor e consumador, que é Cristo. Cristo é a ‘fé’ manifesta, pois Ele é proveniente de Deus. Para o homem crer é imprescindível a ‘fé’ noticiada no evangelho. O homem crê porque a ‘fé’ é firme fundamento, pois tem por base a palavra de Deus, que em única instancia remete ao Verbo de Deus, que é Cristo.

Percebe-se que o Dr. Owen não consegue distinguir a ‘fé’ pela qual o justo viverá (Habacuque 2:4), que em essência é a palavra de Deus (Deuteronômio 8:3), do ato de crer, que diz de uma questão subjetiva, quando diz:

“Este ato de fé deve ser algo que alguns homens fazem por si mesmos, tornando-os diferentes dos outros homens. (Se fé fosse alguma coisa obtida pela morte de Cristo, e se ele tivesse morrido por todos os homens, então todos os homens teriam fé!).” Owen, John, Por quem Cristo morreu? Pág. 18.

Se o Dr. Owen pelo menos cogitasse que o evangelho é ‘fé’, a ‘fé’ que foi entregue aos santos para batalharem por ela (Judas 3), saberia que todos quantos ouviram a mensagem do evangelho tiveram a sua disposição ‘fé’, ‘fé’ essa decorrente da morte de Cristo.

Todos quantos ouvirem a verdade do evangelho tiveram à sua disposição ‘fé’, que é definida como firme fundamento, que torna os homens agradáveis a Deus, que é Cristo, que segundo o apóstolo Paulo é a ‘fé’ que havia de se manifestar e que a seu tempo veio (Gálatas 3:23 -25).

O evangelho é a ‘fé’ (crença, doutrina, mensagem) que estava sendo anunciada em todo o mundo (Romanos 1:8), fé essa que era mútua, pois pertencia ao apóstolo e aos cristãos em Roma (Romanos 1:12), ‘fé’ essa que estava em Timóteo e, que habitou na avó, na mãe e em Timóteo (2 Timóteo 1:5).

“Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho.” (Filipense 1:27).

O substantivo grego traduzido por ‘fé’ ganha vários significados no Novo Testamento, pois em essência o termo pistis (fé) decorre da verdade, da fidelidade, e por isso o apóstolo Paulo utilizou o termo para dizer ‘fé do evangelho’, que é o mesmo que ‘verdade do evangelho’.

“Assim que, sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens à fé, mas somos manifestos a Deus;” (2 Coríntios 5:11).

O apóstolo Paulo sabendo que era necessário aos homens obedecerem (temor) a Deus, convencia os homens à fé, ou seja, ao evangelho.

A ‘fé’ é decorrente da morte de Cristo, pois sem a morte de Cristo não haveria o escândalo para os judeus e nem a loucura pra os gregos, o tema da pregação do evangelho.

“Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.” (1 Coríntios 1:23);

“Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado.” (1 Coríntios 2:2).

‘Crer’ não é algo que alguns homens possam fazer por si mesmos, pois a ‘fé’ constitui um mandamento, e crer é obedecer. Sem o mandamento, sem a fé, não existe o crer, a esperança e nem a perseverança.

O apóstolo João é enfático:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.” (1 João 3:23).

Se Deus não tivesse enviado o Cristo ao mundo para ser levantado, assim como Moisés levantou a serpente de metal no deserto (João 3:14), não haveria mandamento, por conseguinte, seria impossível obedecer a Deus.

Mas, como Deus deu o seu Filho Unigênito, implicitamente estabeleceu um mandamento: ‘para que todo aquele que nele crê não pereça’, de modo que quem crê se faz servo de Deus, pois executou a obra de Deus.

“Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (João 6:28 -29).

Concluo enfatizado que, se o ‘ato de fé’ a que o Dr. Owen se refere diz do substantivo grego pistis, não é algo que os homens possam fazer por si mesmo, pois se refere ao dom de Deus. Por outro lado, se o ‘ato de fé’ tem em vista o verbo grego πιστεύω, igualmente não é algo que os homens fazem por si mesmos, antes devem fazê-lo em obediência a um mandamento.

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza.” (Salmos 71:3);

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador;” (Tito 1:3).

O sistema doutrinário do qual o Dr. Owen é adepto, por não compreenderem a essência da ‘fé’ e a natureza do ‘crer’, inferem que se o homem crer na verdade do evangelho sem intervenção direta de Deus, intervenção essa chamada por eles de ‘graça preveniente’, o homem teria méritos ao crer.

Em primeiro lugar, quando o homem crê em Deus por intermédio de Cristo, o mérito é única e exclusivamente de Deus, pois Ele é fiel e imutável, de modo que crer é resultado da fidelidade de Deus.

Em segundo lugar, crer em Cristo é o mandamento de Deus, e não há mérito algum em o homem obedecer, antes, ao obedecer, o homem nega-se a si mesmo, fazendo-se servo. Onde está a jactância em obedecer? Quem se vangloria por obedecer? Onde está o mérito de quem obedece?

Abraão saiu do meio da sua parentela em obediência. Qual o mérito de Abraão? Abraão ofereceu o seu único filho em obediência. Qual a jactância de Abraão? Na verdade Abraão foi tido como amigo de Deus por ter cumprido todos os mandamentos de Deus.

“Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis.” (Gênesis 26:5).

Ao enviar o Cristo, a fé (verdade, fidelidade) foi manifesta, e a essência da fé é o mandamento de Deus: crer em Cristo, e quem crê, torna-se servo, portanto, não tem do que se vangloriar, pois em se fazer servo não há mérito.

“Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.” (João 15:14).

 

Os agentes da salvação

Deus enviou o seu Filho como salvador do mundo, e foi dado mandamento aos homens para crerem nele para serem salvos, e como a doutrina calvinista não adota o posicionamento das Escrituras, o Dr. Owen para enfatizá-la busca atribuir as pessoas da divindade papeis distintos na questão da salvação do homem.

“Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse.” (Isaías 28:16).

O Dr. Owen infere que Deus como agente da salvação do homem agiu de duas maneiras: a) Deus enviou o seu Filho para morrer, e; b) puniu o Cristo por causa dos nossos pecados.

Temos dois problemas nestas afirmações, pois com relação à primeira, Deus enviou o seu Filho na condição de servo para obedecer, de modo que Cristo teve que sujeitar-se a vontade do Pai: bebendo o cálice (Mateus 26:42).

“E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Filipenses 2:8);

“Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu.” (Hebreus 5:8).

Com relação a segunda colocação, Cristo não foi punido pelos nossos pecados, antes foi do agrado do Pai moê-lo, fazendo-O enfermar (Isaías 53:10). Cristo foi ferido por causa das nossas transgressões, mas isso não significa que Ele foi punido por causa dos nossos pecados (Isaías 23:5), pois punir o inocente em lugar do culpado não reflete a justiça de Deus “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro.” (Êxodo 32:33).

Ora, a redenção da humanidade dependia da obediência do Cristo, pois por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, e por um ato de justiça veio a graça sobre todos os homens (Romanos 5:18), de modo que a humilhação e sofrimento de Cristo demonstra quão efetivamente Cristo foi obediente, o que é diferente da ideia de punido. Cristo não foi desobediente, portanto, não podia ser punido, entretanto, foi tentado e padeceu (Hebreus 2:18).

Abro aqui um parêntese: o juízo que veio sobre todos os homens, efetivamente refere-se a toda humanidade, por isso é dito que todos pecaram. Semelhantemente a graça veio sobre todos os homens, mas segundo a doutrina calvinista, todos não são todos.

Certo é que Deus enviou o seu Filho ao mundo como salvador (João 3:16: Gálatas 4:4 -5), por isso o sangue de Cristo é precioso, como de um cordeiro sem defeito e sem macula, conhecido antes da fundação do mundo (1 Pedro 1:19 -20).

O que foi concedido pelo Pai ao Filho para realizar a obra de Deus foi mandamentos (João 10:18; João 12:49), e não habilidades, pois em tudo Cristo foi semelhante aos seus irmãos, mas sem pecado.

Deus não prometeu ajuda ao Cristo, antes a fidelidade e imutabilidade de Deus era segurança para o Cristo desempenha a sua missão. A palavra de Deus era o bastante para Cristo se fazer servo:

“Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome. Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.  Fartá-lo-ei com longura de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.” (Salmo 91:14 -16).

Após destacar que Deus é o agente na salvação, no item 2, da página 20, novamente o Dr. Owen enfatiza que Deus puniu o Cristo por causa dos nossos pecados, e cita o seguinte versículo:

“Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Coríntios 5:21).

Em seguida, enfatiza que Cristo sofreu e morreu em nosso lugar, para depois questionar, alegando ser estranho, que Cristo tivesse sofrido em lugar daqueles que vão sofrer por causa dos seus próprios pecados.

Certo é que Cristo em obediência ao Pai sofreu e morreu fisicamente em nosso lugar, entretanto, novamente o Dr. Owen ignora o fato de que, não basta o Cristo ter sofrido em nosso lugar para sermos salvos, visto que é imprescindível aquele que vai ser salvo ser crucificado com Cristo, morto, sepultado, para ressurgir com Cristo.

Cristo sofreu e morreu em nosso lugar para estabelecer um novo e vivo caminho pela qual o homem tem acesso a Deus, porém, Deus não tem comunhão com o homem nascido segundo a carne, pois antes se faz necessário ao homem morrer para o pecado, para então viver para Deus.

Embora Cristo tenha morrido por todos, pois a graça veio sobre todos os homens (Romanos 5:18), como muitos não se fizeram servos obedecendo ao mandamento de Deus, sofrerão em razão dos seus próprios pecados.

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador;” (Tito 1:3).

Devemos nos atentar que o amor de Deus não é sentimento, mas mandamento:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (1 João 5:3);

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me.” (Marcos 10:21).

Observe que Deus é Senhor, e como Senhor tem uma obra a realizar, obra essa que fica a cargo dos seus servos, de modo que crer em Cristo é o mandamento que Deus deu aos seus servos, obra essa que o homem na condição de servo deve realizar:

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.” (João 6:29).

Diante do que já expusemos, as conjecturas do Dr. Owen colocadas em três opções são um despautério, pois o pecado pela qual Cristo morreu diz de uma condição inerente à natureza dos homens gerados de Adão, e não de questões de cunho comportamental, moral ou legal.

A ideia de que Cristo morreu por alguns dos pecados de todos os homens contraria a exposição do escritor aos Hebreus, que Cristo pela sua morte aniquilou (tornar indolente, desempregado, inativo, inoperante, fazer uma pessoa ou coisa não ter mais eficiência, privar de força, influência, poder) o diabo, que tinha o império da morte (Hebreus 2:14), e livrasse todos que, com medo da morte, estivessem sujeito a servidão.  ‘Alguns dos pecados’ é ideia de pecados comportamentais, sendo que o pecado que Jesus morreu para redimir o homem, diz da condição do homem em sujeição ao pecado e a morte.

Certo é que Cristo morreu para expiar o pecado do povo, ou seja, Ele morreu pelos pecados de todos os homens.

“Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo.” (Hebreus 2:17).

O Dr. Owen pergunta: Se Cristo morreu pelos pecados de todos, por que não estão todos os homens livres do pecado? A resposta é objetiva: por causa da incredulidade.

Ao perguntar se a incredulidade é pecado, para tentar negar a verdade de que Cristo veio para expiar os pecados do povo, percebe-se que o Dr. Owen desconhece a natureza do pecado pelo qual Cristo morreu, e a natureza da desobediência, ofensa pela qual Cristo não morreu.

Cristo morreu pelo ‘pecado’ que entrou no mundo em função da ofensa de Adão, e pelo pecado também entrou no mundo a morte, pois Adão desobedeceu à lei que tinha como consequência a morte (certamente morrerás). Como a consequência da ofensa de Adão passou a todos os homens, ou seja, a morte passou a todos, por isso é dito que todos pecaram, ou seja, estavam separados, alienados de Deus.

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.” (Romanos 5:12).

Cristo morreu por causa do pecado que é a separação que há entre Deus e o homem, separação essa também denominada ‘morte’. A morte de Cristo visa reparar a separação que há entre Deus e os homens, e não remediar a desobediência de Adão. Para reparar a separação que havia entre Deus e os homens, Cristo teve que obedecer ao Pai em tudo, estabelecendo assim uma oportunidade de salvação.

“Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram;” (Hebreus 2:3).

Ora, todos os descendentes de Adão são por natureza filhos da ira e da desobediência, e para serem salvos precisam obedecer ao evangelho de Cristo.

“Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome,” (Romanos 1:5);

“Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé;” (Romanos 16:26).

A incredulidade com relação à mensagem do evangelho, de que Cristo é o Filho de Deus, não é um pecado pelo qual Cristo morreu, pois esse é um pecado contra o mandamento de Deus: a obediência da ‘fé’.

“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.” (João 3:36);

“Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece.” (João 9:41);

“Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados.” (João 8:24).

O pecado pelo qual Cristo morreu visa livrar o homem da ira de Deus, de modo que a incredulidade não está inclusa no pecado pela qual Cristo morreu. A incredulidade faz com que o homem pereça na condição que nasceu, sujeito a ira de Deus.

Ao argumentar que, se a incredulidade é um pecado,então deve estar incluída entre os pecados que Cristo morreu, no afã de refutar a premissa de que Cristo morreu pelos pecados de todos os homens, não atentou para o fato de que a incredulidade dos homens não aniquila a fidelidade de Deus.

“Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado. E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus, que diremos? Porventura será Deus injusto, trazendo ira sobre nós? (Falo como homem.)  De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?” (Romanos 3:3 -6).

Deus sendo fiel enviou o seu Filho ao mundo para remir a todos os pecadores, mas se alguns ou muitos forem incrédulos, Deus permanece fiel e verdadeiro. E se a injustiça desses incrédulos for causa da justiça de Deus, que trará ira sobre eles, não há injustiça em Deus.

“Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade.” (2 Tessalonicenses 2:12);

“Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2 Coríntios 4:4).

A incredulidade é o modo pela qual o homem nega a Cristo, por isso Jesus não morreu pelo pecado da incredulidade, antes Ele morreu para que pudéssemos morrer com Ele e, então, com Ele vivermos.

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Timóteo 2:11 -13).

No quesito Cristo como agente da salvação, entendemos que Cristo é o autor e consumador da ‘fé’, pois na eternidade sendo uma das três pessoas da divindade, acordou que abriria mão do seu poder e glória, e passaria a habitar no mundo dos homens na posição de Filho de Deus (2 Samuel 7:14).

No mundo dos homens, ainda que fosse Filho, se fez servo, não usurpando a condição de Deus, antes aprendeu a obediência, isto em vista do que Ele padeceu (Filipenses 2:6 -7).

Como filhos tem que ter vínculo de carne e sangue, Cristo também participou de carne e sangue, para que pudesse chamar os homens de irmãos, e assim tornou-se sujeito à morte, para poder aniquilar o que tinha o império da morte. Por isso era conveniente que em tudo Cristo fosse semelhante aos homens, para ser sumo sacerdote e misericordioso, e assim expiar o pecado do povo (Hebreus 2:14 -17).

O Dr. Owen afirma que a prontidão de Cristo não tinha em vista a raça humana, e sim ‘os filhos que Deus lhe deu’, uma citação do profeta Isaías, que são humanos (Hebreus 2:13; Isaías 8:18).

Evidente que não é isso que diz o texto de Hebreus, visto que Cristo se fez homem por causa da paixão da morte, para que pudesse experimentar a morte por todos. E, como os filhos participam de carne e sangue, Cristo teve que participar de carne e sangue, para poder chamar aqueles que Deus o deu de irmãos, e pudesse pela sua morte aniquilar o diabo.

“Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos.” (Hebreus 2:9).

O Dr. Owen não considera que tudo o que Jesus fez foi em obediência, e não voluntariamente. Cristo, sem pecado, se apresentou ao Pai como sacrifício e em obediência, e por isso o seu sofrimento e morte teve valor diante de Deus. Qualquer outro que se prontificasse a morrer não teria valor diante de Deus, primeiro por ter sigo gerado em pecado e, portanto, pecador; e segundo, porque Deus não requereu tal obediência de ninguém, a não ser dos seu Filho aquém Ele elegeu.

A interpretação que o Dr. Owen faz da oração sacerdotal de Jesus, para alegar que Jesus não morreu por todos os homens, pelo fato de Cristo não ter rogado pelo mundo todo, é no mínimo leviana.

Cristo veio ao mundo com a missão de revelar o Pai (João 1:10 e 18), mas o mundo não O conheceu (João 17:25). Após completar a sua missão, Jesus roga ao Pai pelos seus discípulos e por todos os que pela palavra de Deus haveria de crer em Cristo (João 17:20).

O fato de Jesus rogar somente pelo seu corpo, que é a Igreja, não depõe contra o fato de que Cristo é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, a graça sobre todos os homens “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” (João 1:29; Romanos 5:18).

Quando na página 24, o Dr. Owen diz que a entrega voluntária e a intercessão de Cristo destinam-se a trazer muitos filhos a glória de Deus, citando Hebreus 2, verso 10, percebesse uma má leitura do versículo, que diz:

“Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles.” (Hebreus 2:10).

Como o que santifica como os que são sanificados pertencem todos a Deus (Hebreus 2:11), Cristo é o príncipe da salvação daqueles filhos que foram conduzidos à gloria, porém, o texto destaca que a consagração de Cristo se deu pelas aflições. No texto citado não há qualquer referência a uma voluntariedade de Jesus, pois Ele é o servo cego e surdo (Isaías 42:19), portanto, só agiu em obediência ao Pai, e nem faz referência à intercessão.

Certo é que Cristo morreu por todos os homens, e todos que crerem receberá eterna salvação.

Apesar de no capítulo 6 o Dr. Owen enfatizar que o seu argumento destrói completamente o ensino de que Cristo morreu por todos, no capítulo 7 o mesmo argumento volta à tona.

Enquanto o texto bíblico enfatiza que com o seu ‘conhecimento’, o Cristo, justificará a muitos, o Dr. Owen alega que Jesus justifica aqueles cujas iniquidades levou sobre si.

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si.” (Isaías 53:11).

O Dr. Owen procura ignora a verdade de que toda a humanidade andava desgarrada como ovelhas, cada qual pelo seu caminho, mas Deus fez cair sobre Cristo a iniquidade de todos.

“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” (Isaías 53:6).

Quando Cristo derramou a sua alma na morte, levou sobre si o pecado de muitos, e neste ato intercedeu por todos os homens, pois todos eram transgressores.

“Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores.” (Isaías 53:12).

Alegar que Cristo intercedeu somente por aqueles cujos pecados levou sobre si é leviano, pois além de Deus fazer cair sobre Cristo a iniquidade de todos que andavam desgarrados, intercedeu por eles.

Alegar com base em Romanos 4, verso 25: “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação”, que Cristo ressurgiu dos mortos para justiçar aqueles pelos quais Ele morreu, é deturpar a essência do texto.

Cristo foi entregue pelos nossos pecados para que pudéssemos morrer com Ele, pois somente aqueles que morrem com Cristo estão justificados do pecado “Porque aquele que está morto está justificado do pecado” (Romanos 6:7). Agora, como Cristo ressurgiu dos mortos, os que são mortos e sepultados com Ele, ressurgem uma nova criatura, quando são declarados justos por Deus: justificação.

‘Justificado do pecado’ é questão diferente de ‘justificação’. Justificação é uma declaração de Deus de que o homem gerado de novo pela palavra da verdade foi criado em verdadeira justiça e santidade, portanto, é justo. Já o ato de ser justificado do pecado ocorre no momento em que o velho homem é crucificado com Cristo, quando o corpo que pertencia ao pecado é desfeito.

Cristo morreu por todos os homens, para que por meio da pregação da fé pudessem crer em Deus por meio de Cristo “E é por Cristo que temos tal confiança em Deus;” (2 Coríntios 3:4), pois sem Cristo não há como o homem exercer confiança em Deus.

O Dr. Owen procura de várias maneiras enfatizar a intercessão de Cristo como essencial à salvação, e se esquece que o evangelho de Cristo é poder de Deus para salvação de todo que crê (Romanos 1:16 -17; 1 Coríntios 1:18). Basta ouvir o evangelho da salvação e crer para ser salvo (Efésios 1:13), pois crer no evangelho é crer na encarnação virginal, que Jesus veio sem pecado, habitou entre os homens, foi morto, sepultado, ressurgiu dentre os mortos e está assentado a destra de Deus nas alturas.

Cristo é o único meio para salvação dos homens, pois não há outro nome dado entre os homens pela qual devamos ser salvos (Atos 4:12). Dizer que Cristo associou a sua morte e sua intercessão como o único meio para a nossa salvação é ignorar que, para o homem ser salvo é necessário crer em Cristo como diz as Escrituras, e crer em Cristo é crer em toda a mensagem do evangelho: na encarnação virginal, que Jesus veio sem pecado, habitou entre os homens, foi morto, sepultado, ressurgiu dentre os mortos e está assentado a destra de Deus nas alturas.

O Dr. Owen quer fazer valer tanto a premissa da morte e intercessão, que se utiliza de um texto bíblico que fala da ressureição para enfatizar a intercessão.

“E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.” (1 Coríntios 15:13 -17).

Ora, sabemos que Cristo é nosso intercessor junto ao Pai, e que o Espírito Santo intercede com gemidos inexprimíveis, no entanto, quando enfatiza que há ressurreição dos mortos, o apóstolo Paulo não estava frisando que Jesus ressuscitou para interceder, antes que, se não há ressurreição dos mortos, Jesus não ressuscito, e se Ele não ressuscitou, a pregação dos cristãos era inócua e a crença (fé) deles também.

 

De tudo o que analisamos na primeira parte do livro ‘Por quem Cristo morreu?’, do Dr. Owen, alguns argumentos utilizado por ele decorrem de má leitura dos textos bíblicos, ou a interpretação de vários versículos é tendenciosa, de modo a dar suporte à doutrina reformada calvinista.

 

 

[1] “Pressuposto – aquilo que se supõe antecipadamente; pressuposição, conjectura, suposição”.




A propiciação pelos pecados de todo o mundo

Os cristãos gozam dos benefícios decorrentes da propiciação: o perdão dos pecados (Romanos 8:1), no entanto, essa benesse é concedida a qualquer que invocar ao Senhor, ou seja, a todo mundo.


A propiciação pelos pecados de todo o mundo

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:2).

Introdução

O Dr. Arthur W. Pink fez um artigo intitulado ‘UMA EXPOSIÇÃO DE 1JOÃO 2.2’[1], onde há vazão a eterna disputa entre calvinistas e arminianistas sobre a redenção nos quesitos ‘eficácia’ e ‘extensão’.

Analisaremos de modo critico o posicionamento do Dr. Pink, entretanto, isto não significa que dizer que os arminianistas estão corretos, pois ambos os sistemas doutrinários defendem que Deus, pela soberania ou presciência, predestinou alguns à salvação e o restante da humanidade à danação eterna.

O objetivo da análise deste artigo do Dr, Pink é expor o esforço e a parcialidade dos calvinistas em interpretar as Escrituras de modo a apoiar o seu núcleo doutrinário determinista e fatalista.

 

O mundo

Quanta controvérsia sobre o significado do substantivo grego κόσμος (cosmos)! O apóstolo amado falou acerca do universo, do cosmo, do mundo, de uma extensão geográfica?

O evangelista Marcos também fez uso do termo κόσμος (cosmos) quando registrou a ordem de Cristo aos seus discípulos, que diz:

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.” (Marcos 16:15 -16).

Os evangelistas Mateus e Lucas não fizeram uso do termo κόσμος (cosmos) ao registrarem a mesma ordem:

“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mateus 28:18 -19).

“E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos, e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém.” (Lucas 24:46 -47).

Segundo o registrado pelo evangelista Marcos, Jesus estava preocupado com questões geográficas, como o novo continente que ainda não havia sido descoberto, extensão territorial das tribos aborígenes, de modo que, os discípulos, percorressem toda extensão do globo terrestre?

Quando o apóstolo Paulo registrou que o evangelho (a fé dos cristãos), estava sendo anunciada ‘em todo o mundo’, qual o significado do termo ‘mundo’? Extensão territorial? Globo terrestre?

“Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.” (Romanos 1:8).

Qual a definição de mundo na declaração do apóstolo Paulo aos cristãos de Colossos?

“Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro.” (Colossenses 1:23);

“Por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual já antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho, que já chegou a vós, como também está em todo o mundo; e já vai frutificando, como também entre vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade;” (Colossenses 1:5 -6).

Quando o evangelista João registra a declaração mais conhecida de Jesus acerca do amor de Deus, qual o significado do termo ‘mundo’:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (João 3:16 -17).

Percebe-se através dos textos citados e do conhecimento que hoje dispomos acerca do planeta terra, que a abordagem de Jesus e dos discípulos à época, com o termo ‘mundo’, não visava o globo terrestre como extensão territorial, fauna, bioma, biodiversidade, etc.

O termo ‘mundo’ foi utilizado para evidenciar a universalidade da mensagem do evangelho, e que não há impedimento algum quanto a anuncia-lo a qualquer etnia, língua, povo, tribo ou nação: a todos os homens, sem exceção, deve-se anunciar a verdade do evangelho.

A ordem: ‘Ide por todo o mundo’ tem em vista excluir qualquer tipo de acepção de pessoas quando do anuncio do evangelho, ou seja, pregar o evangelho a toda criatura.

Quando o apóstolo Paulo diz aos cristãos em Roma que ‘em todo o mundo’ ou que ‘a toda criatura que há debaixo do céu’ a mensagem do evangelho era anunciada, a expressão ‘todo mundo’ e ‘toda criatura’ não se refere, respectivamente, à extensão territorial ou a todos os indivíduos que existiam à época, antes que, quanto ao anuncio do evangelho, não estava ocorrendo acepção de pessoas.

Quando é dito que ‘Deus amou o mundo’, certo é que Deus amou a todos os homens sem qualquer distinção de etnia, povo, nação, língua, etc.

O termo κόσμος (cosmos) nas mensagens da nova aliança serve para indicar que a mensagem do evangelho derruba as barreiras das divisões sociais, culturais, étnicas, línguas, povos, nações, etc.

Entretanto, a definição de ‘mundo’ adotado por Pink segue outra perspectiva:

“Em sexto lugar, nossa definição de “todo o mundo” está em perfeito acordo com outras passagens do Novo Testamento. Por exemplo: “da qual já antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho, que já chegou a vós, como também está em todo o mundo; e já vai frutificando, como também entre vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade” (Colossenses 1:5-6). Será que “todo o mundo” aqui significa, absoluta e deliberadamente toda a humanidade? Havia toda a família humana ouvido o Evangelho? Não. O significado óbvio do apóstolo é que o Evangelho, em vez de ser estar confinado apenas à terra da Judéia, havia ido para o exterior, sem restrições, para as terras dos gentios. Assim como em Romanos 1:8: “Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé”. O apóstolo está aqui se referindo à fé daqueles santos Romanos sendo anunciada em uma forma de elogio. Mas certamente toda humanidade não havia falado da fé deles! Era todo o mundo dos crentes que ele estava se referindo! Em Apocalipse 12:9 lemos de Satanás “que engana todo o mundo”. Mas novamente esta expressão não pode ser entendida como sendo universal, porque Mateus 24:24 nos diz que Satanás não tem conseguido e não pode “enganar” os eleitos de Deus. Esta passagem de apocalipse refere-se a “todo o mundo” dos incrédulos.” (Idem).

Ao analisar Colossenses 1, versos 5 à 6, o Dr. Pink confere ao termo ‘mundo’ a conotação de extensão geográfica ao dizer ‘confinado à terra da Judeia’, ‘exterior’, ‘terras dos gentios’, enquanto o apóstolo demonstra que a palavra da verdade, que já havia chegou aos cristãos de Colossos, também estava entre outros povos, de outras línguas e etnias.

As restrições ao alcance do evangelho não está em questões geográficas, antes a barreira era cultural e religiosa. Está questão fica nítido no comportamento do apóstolo Pedro, que mesmo após pregar aos judeus fazendo uso de uma passagem do livro de Joel, que diz: “E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne (Atos 2:17), teve que sofrer um arrebatamento de sentidos e ser instruído em uma visão.

Perto da hora sexta, o apóstolo Pedro sentiu fome, e, enquanto preparava o alimento, teve os seus sentidos arrebatado e viu o céu aberto, e um vaso que descia dos céus, como que amparado por um lençol atado pelas quaro pontas, repleto de animais quadrúpedes e répteis da terra, e aves do céu, quando lhe foi dada uma ordem: ‘Levanta-te, Pedro, mata e come’.

O apóstolo relutou, dizendo: “De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda.” (Atos 10:14), quando foi instruído que não deveria fazer comum o que Deus havia purificado.

Através desta passagem fica nítido que o apóstolo Pedro, apesar da ordem de Jesus para ir a todas as gentes anunciar o evangelho, nem mesmo havia entrado na casa de um gentio, e somente após esse evento compreendeu que Deus não faz acepção de pessoas.

“E disse-lhes: Vós bem sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo (…) E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo.” (Atos 10:28 e 34 -35).

Embora Jesus tenha ordenado que se anunciasse o evangelho a todos os povos, e o apóstolo ter citado o profeta Joel acerca do ‘espírito’ ser derramado sobre toda carne, tal verdade ainda não tinha sido ‘digerida’ pelo apóstolo. Para o apóstolo Pedro, até o evento do arrebatamento de sentidos, o evangelho deveria permanecer confinado aos judeus.

Quando Jesus disse ‘ide por todo mundo’, não estava enfatizando que seus discípulos deveriam percorrer territórios, antes que era imperativo anunciar o evangelho a todos os homens, sem qualquer distinção.

 

Em todo mundo é anunciada a vossa fé

Ao citar Romanos 1, verso 8, o Dr. Pink faz outra má leitura, mas que não se refere a questão ‘mundo’. Observe:

“Romanos 1:8: “Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé”. O apóstolo está aqui se referindo à fé daqueles santos Romanos sendo anunciada em uma forma de elogio. Mas certamente toda humanidade não havia falado da fé deles! Era todo o mundo dos crentes que ele estava se referindo!” (Idem).

A questão apresentada aos cristãos de Roma pelo apóstolo dos gentios não se refere à humanidade elogiando ou comentando acerca da fé dos cristãos, antes o motivo pelas graças apresentada pelo apóstolo se devia ao fato de a crença (fé) dos cristãos ser anunciada em todo o mundo.

Quando é dito ‘em todo mundo’, certo é que se refere a todas as gentes, povos. Mas, o motivo de ter sido dada graça a Deus pelos cristãos, é o fato de o evangelho (vossa fé) estar sendo anunciado aos povos.

 

Propiciação pecados de todo o mundo

A interpretação do Dr. Pink tem início com uma explanação do verso 1, do capítulo 2 de primeira João:

“Em primeiro lugar, o fato deste verso iniciar com “e” necessariamente liga-o com o que veio antes. Nós, portanto, apresentamos uma palavra literal para a tradução da palavra “mundo” de 1 João 2:1 da interlinear de Bagster: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; e, se alguém pecar, um Paráclito temos com o Pai, Jesus Cristo (o) justo”. Assim, é visto que o apóstolo João está aqui escrevendo para e sobre os santos de Deus. Seu propósito imediato era duplo: primeiro, o de comunicar uma mensagem que iria distanciar os filhos de Deus da prática do pecado; segundo, fornecer conforto e segurança para aqueles que viessem a pecar, e, em consequência, serem abatidos e ficarem com medo de que isto fosse fatal. Ele, portanto, dá a conhecer a eles a disposição que Deus tem dado ao tipo de emergência desse tipo. Isto encontramos no final de v. 1 e ao longo do v. 2. O fundamento do conforto tem dois pontos: fazer com que o crente abatido e arrependido (1 João 1:9) tenha certeza de que, primeiro, ele tem um “Advogado junto ao Pai”; em segundo lugar, que este Advogado é “a propiciação pelos nossos pecados”. Agora, somente os crentes podem tomar conforto disto, porque somente eles têm um “Advogado”, porque somente para eles que Cristo é a propiciação, como é provado pelo elo de Propiciação (“e”) com “o Advogado”!” (Idem).

Como se está analisando uma carta, tudo o que está escrito tem vinculo com uma ideia anterior. Não é o fato de o verso iniciar com ‘e’ que o liga ao verso anterior, antes a ideia promovida pela epístola.

“MEUS filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” (1 João 2:1 -2).

A carta foi endereçada aos filhos na fé do apóstolo Amado. O motivo pela qual o apóstolo redigiu a carta é objetivo: para que não pequeis! Mas, quais coisas escritas são obstes a pratica do pecado? O que devem observar para não pecar? O que foi dito no capítulo 1.

Para não pecarem, o evangelista enfatiza que ele teve contato pessoal com Cristo, inclusive, não só de ver e ouvir, mas de tocar o Verbo da vida (1 João 1:1); ele dá testemunho abertamente de que Cristo estava junto ao Pai e é a vida manifesta (1 João 1:2); o que foi visto e ouvido foi retransmitido aos cristãos, ou seja, nada foi omitido ou acrescentado, de modo que a comunhão no corpo de Cristo (apóstolos, Pai e Filho) se tornar efetiva (1 João 1:3).

Só com essas questões destacadas nos três primeiros versos, os cristãos não podiam errar em questões como Cristo ter vindo em carne, ser o Verbo que estava junto ao Pai no princípio e que é imprescindível ter comunhão com os irmãos, para se ter comunhão com o Pai e o Filho.

Nestes três primeiros versos fica evidente que, para estar em Deus é imprescindível permanecer no ensino dos apóstolos sem se demover, de modo que quem diz que crê em Deus, também tem que crer em Cristo, pois qualquer que negar que Jesus é o Cristo ou, que Ele não veio em carne, é o anticristo (1 João 2:22 -24).

O evangelista João também destaca a essência da mensagem de Cristo anunciada aos homens: ‘que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas’ (1 João 1:5), de modo que alguém só pode estar em Deus e Deus nele se igualmente for luz, e não trevas.

Como saber se efetivamente é luz? Se efetivamente guarda o mandamento de Deus, que é crer que Jesus é o Cristo, já que quem guarda os seus mandamentos está em Deus e Deus nele.

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento. E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado.” (1 João 3:23 -24).

Devido a introdução de heresias no seio da comunidade cristã, alguns diziam ter comunhão com Deus, mas andavam em trevas, ou seja, não criam que Jesus é o Cristo ou que Ele veio em carne. Não crer em Cristo ou dizer que Ele não veio em carne é ser mentiroso, consequentemente, não pratica a verdade, não anda segundo o testemunho que o Pai deu acerca de seu Filho (1 João 1:6).

‘Andar na luz’ é praticar a verdade, crer que Jesus é o Cristo, pois Cristo é a verdade, o que promove comunhão uns com os outros, de modo que todo aquele que crê é purificado do pecado (1 João 1:7).

Mas, se alguém for recalcitrante contra a verdade de que é necessário a todos os homens andarem na luz para serem purificados do pecado sob o argumento de que ‘não tem pecado’, assim como os judeus que diziam que criam em Cristo alegaram que nunca foram escravos de ninguém (João 8:33), engana-se a si mesmo e não está na verdade (1 João 1:8).

A observação do verso 8: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós.”, não se aplica aos cristãos que o evangelista João escreveu, antes descreve o posicionamento dos judaizantes que, diante da verdade do evangelho, alegavam que tinham por Pai a Abraão, e que, portanto, julgavam que nunca serviram a ninguém (João 8:39; Mateus 3:9).

Os cristãos a quem o apóstolo amado havia enviado a carta, quando creram em Cristo como o Filho de Deus, tiveram que reconhecer que eram pecadores e foram purificados de seus pecados, conforme o verso 7. A condição do crente não é descrita no verso 8, e sim nos capítulos subsequentes: os que permanecem em Deus não peca (1 João 3:6 e 9).

Já quem se posiciona conforme o verso 8, é quem diz que crê somente em Deus, motivo pelo qual não reconhece que está no pecado, e rejeita o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho (1 João 5:9-10). Diz das mesmas pessoas descritas por Tiago, que diziam crer em Deus, mas que não executavam a sua obra: crer em Cristo (João 6:29; Tiago 1:25).

Daí o aviso:

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (João 14:1).

Por má leitura dos versos 7 e 8 é que surgiu o sacramento da confissão na Igreja Católica, onde o pecador faz confissão dos seus pecados perante um sacerdote. Na verdade, quando o evangelista diz: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”, instrui alguns dos seus leitores a deixarem de confiar na carne, ou seja, de que eram descendentes de Abraão e, que, portanto, não estavam sujeitos ao pecado.

Agora podemos compreender o motivo do alerta do verso 1 do capítulo dois da primeira epístola de João:

“MEUS filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.” (1 João 2:1).

O evangelista escreveu as orientações anteriores para que os seus filhinhos na fé não errassem questões essenciais ao evangelho. Ele utiliza o verbo ἁμαρτάνω[2] (hamartanó), termo descreve alguém em sujeição ao pecado, mas que também serve para descrever equívocos, erros de qualquer natureza, como os descritos pelo verbo πλα ναω[3] (planao).

As questões conceituais apresentadas pelo evangelista João tinha o condão de evitar que os cristãos errassem ou fossem induzidos ao erro, alerta semelhante aos emitidos por outros escritores do Novo Testamento.

“Não erreis, meus amados irmãos.” (Tiago 1:16);

“Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.” (Gálatas 6:7).

Mas, se alguém dentre os cristão pecasse seguindo alguma dissolução dos enganadores, que considerasse que Jesus é Advogado junto a Deus. Por exemplo: se alguém até a chegada da carta tivesse acreditado na mentira de que Jesus não veio em carne, evidentemente cometeu um equívoco, um erro, contra a verdade. No entanto, depois de advertido, se o ouvinte se demovesse do erro, podia confiar em Jesus, que é Advogado junto ao Pai.

O ‘e’ do verso 2, do capítulo 2 da primeira epístola de João, tem a função de evidenciar que a atribuição de Jesus junto ao Pai: advogado, decorrente do fato de Ele ser a propiciação pelos pecados dos que creem (nossos pecado).

No entanto, o apóstolo evidencia que Cristo não é propiciação somente para os cristãos, mas que é propiciação pelos pecados do mundo todo! O que João destaca com essa asserção é que essa benesse está ao alcance dos homens de qualquer tribo, nação, povo, língua, etc., tendo em vista que todo aquele que invocar o Senhor será salvo (Romanos 10:13).

Certo é que os cristãos gozam dos benefícios decorrentes da propiciação: o perdão dos pecados (Romanos 8:1), no entanto, essa benesse é concedida a qualquer que invocar ao Senhor, ou seja, a todo mundo.

Ao dizer: ‘porque somente para eles que Cristo é a propiciação’, o Dr. Pink flagrantemente contradiz o apóstolo João para tentar dar sustentabilidade à doutrina calvinista da predestinação, restringindo assim o alcance da propiciação:

“Em segundo lugar, se outras passagens no Novo Testamento que falam de “propiciação” forem comparadas com 1 João 2:2, será descoberto que ela é estritamente limitada em seu alcance. Por exemplo, em Romanos 3:25 lemos que Deus apresentou Cristo “como propiciação, mediante a fé em Seu sangue”. Se Cristo é a propiciação “pela fé”, então Ele não é uma “propiciação” para aqueles que não têm fé! Novamente, em Hebreus 2:17 lemos: “Para fazer propiciação pelos pecados do povo” (Hebreus 2:17).” (Idem).

Não há qualquer ideia de limitação na propiciação de Cristo no verso citado da epístola aos Hebreus, antes que se estende ao ‘povo’:

“Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Hebreus 2:17).

Outro equivoco evidente há na leitura que o Dr. Pink faz do verso 25 de Romanos 3, por duas questões. Primeiro ele não destaca o conteúdo dos versículos anteriores, acerca da justiça de Deus manifesta (Romanos 3:21), que alcança a todos os que creem (Romanos 3:22), vez que todos os homem pecaram (Romanos 3:23), e todos indistintamente, quer sejam judeus ou gentios, são justificados pela redenção que há em Cristo.

Segundo, o texto propõe que a redenção não se limita as questões de povos, tribos e línguas (Romanos 3:29), vez que tem por alvo todos que pecaram e destituídos estão da gloria de Deus. Como a redenção se dá pela propiciação pela fé no sangue de Cristo, não há barreira quanto a povos, tribos ou línguas, diferente das questões imposta na Antiga Aliança, vez que os membros de outros povos tinham que se tornarem prosélitos.

A propiciação pela fé é garantia de que todos que estão no pecado, não importando se judeus ou gentios, têm acesso à graça de Deus. Pink, por sua vez, entende que se é ‘pela fé’, que a propiciação é limitada, isto em função da doutrina que professa acerca de uma graça irresistível.

A asserção: “Se Cristo é a propiciação “pela fé”, então Ele não é uma “propiciação” para aqueles que não têm fé!”, contraria a exposição do evangelista João, vez que o fato de a propiciação ser alcançada pela fé em Cristo, não depõe contra o fato de que Cristo é a propiciação pelos pecados de todo o mundo.

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:2).

É evidente que o apóstolo João, assim como o apóstolo Pedro e Tiago escreveram a cristãos convertidos dentre os judeus. E quando o evangelista João diz: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados”, se considerar o público alvo da carta, escreveu a judeus convertidos.

Mas, dizer que era impossível ao apóstolo Paulo começar uma carta aos moldes da carta do evangelista João é disparates sem proporção. Veja o que Pink diz:

“Na abertura do verso ele fala de Cristo, “o qual vimos com os nossos olhos…. e as nossas mãos apalparam”. Quão impossível seria para o Apóstolo Paulo ter iniciado qualquer uma de suas epístolas aos santos gentios com tal linguagem!” (Idem).

Em todas as epístolas o apóstolo Paulo faz confissão, como por exemplo:

“PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Romanos 1:1 -4).

Embora não tenha dito que tocou o Cristo, o apóstolo Paulo destaca o fato de que muitos conheceram a Cristo segundo a carne, mas que agora já não se conhece a Cristo deste modo:

“Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo.” (2 Coríntios 5:16).

Mas o ponto significativo da asserção: “… e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:2), é evidenciar que os cristãos judeus não eram privilegiados em relação aos demais homens de outros povos, tribos e línguas.

A conclusão do Dr. Pink resta equivocada:

“Os “muitos anticristos” sobre quem João declara “saíram de nós”, eram todos judeus, pois, durante o primeiro século ninguém senão um judeu apresentou-se como o Messias. Portanto, quando João diz: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados” ele só pode ter se referido aos pecados dos crentes judeus. (…) Em quarto lugar, quando João acrescentou: “E não somente pelos nossos, mas também pelo mundo inteiro”, ele anuncia que Cristo foi a propiciação pelos pecados dos crentes gentios também, pois, como demonstrado anteriormente, “o mundo” é um termo contrastado com Israel.” (Idem).

É tergiversar alegar que ‘E não somente pelos nossos, mas também pelo mundo inteiro’ diz dos cristãos convertidos dentre os gentios. Principalmente quando define o termo ‘mundo’ como contrastado com Israel ao apontar os versos 51 e 52, do capítulo 11, do evangelho de João, como ‘uma passagem estritamente paralela’. Comparemos:

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1 João 2:2);

“E Caifás, um deles que era sumo sacerdote naquele ano, lhes disse: Vós nada sabeis, nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação. Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. E não somente pela nação, mas também para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos.” (João 11:49 -52).

Enquanto o pronunciamento do evangelista João aos cristãos convertidos dentre os judeus evidencia que eles não eram melhores que os gentios, vez que Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo todo, a profecia de Caifás destaca que era melhor um homem só morrer em beneficio do povo[4], ou seja, dos judeus, evitando-se que a nação[5] toda fosse destruída.

O evangelista João demonstra, ao interpretar a profecia de Caifás, que a troca dos termos λαος (laos) por εθνος (ethnos) evidencia o sentido profético das palavras, vez que o termo grego εθνος (ethnos) correspondia ideia de povos, gentios.

O Dr. Pink parece desconhecer o ‘paralelismo’, recurso próprio às poesias hebraicas, na qual a segunda linha geralmente repete a ideia dum trecho da primeira linha, mas em palavras diferentes, quando rotula a forma de escrita do evangelista João de tautológica ociosa:

Em quinto lugar, a interpretação acima é confirmada pelo fato de que nenhuma outra é consistente ou inteligível. Se o “todo o mundo” significa toda a raça humana, então a primeira cláusula e o “também” na segunda cláusula são absolutamente sem sentido. Se Cristo é a propiciação por todos, seria uma tautologia (redundância) ociosa dizer, primeiro, “Ele é a propiciação pelos nossos pecados e também por todos”. Não deve haver “também” se Ele é a propiciação por toda a família humana. Tivesse o apóstolo o intuito de afirmar que Cristo é a propiciação universal, ele teria omitido a primeira cláusula do v. 2, e simplesmente dito: “Ele é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro”. Confirmando com “não pelos nossos (crentes judeus) somente, mas também pelo mundo inteiro — crentes gentios, também; compare João 10:16; 17:20.” (Idem).

‘Deus é luz’, portanto, dizer que ‘que nele não há trevas nenhuma’ poderia ser redundância, mas não é. Estamos diante de uma trava lógica, de modo que os elementos das proposições devem ser considerados em função do outro de modo a evitar qualquer tipo de desvirtuamento.

João não disse: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados”, antes disse: E ele é a propiciação pelos nossos pecados…”. Não podemos esquecer a importância do ‘e’ que introduz a asserção, como fez o Dr. Pink.

Ao dizer: “E ele é a propiciação dos nossos pecados”, destacando ‘e não somente pelos nossos’, além de consistente a exposição, torna plenamente inteligível a ideia de que os gentios não foram preteridos em relação à graça de Deus.

O Dr. Pink levanta questionamento em desfavor do texto como se os seus argumentos possuíssem peso, e não as Escrituras. O questionamento: ‘que segurança temos de que os crentes também não estejam perdidos’, se o termo κόσμος significa ‘toda a raça humana’, não leva em conta a fidelidade de Deus. Observe: 

“Em sétimo lugar, insistir que “todo o mundo” em 1 João 2:2 significa toda a raça humana é minar os próprios fundamentos da nossa fé. Se Cristo é a propiciação para aqueles que estão perdidos tanto quanto para aqueles que são salvos, então que segurança temos de que os crentes também não estejam perdidos? Se Cristo é a propiciação para aqueles que estão agora no inferno, que garantia há que eu mesmo não possa terminar no inferno? O derramamento de sangue do Filho de Deus encarnado é a única coisa que pode livrar qualquer um do inferno e se muitos pelos quais este precioso sangue fez propiciação estão agora no terrível lugar dos condenados, então pode ser que este sangue se prove ineficaz para mim! Fora com um pensamento tão desonroso para com Deus.” (Idem).

O que é desonroso para Deus é honrar aquele que não O honra, ou ter misericórdia de quem não O ama.

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados.” (1 Samuel 2:30).

A fidelidade de Deus é que garante salvação para toda a raça humana, ainda que muitos por quem Cristo morreu, se perdem por não crer no enviado de Deus.

Ao anunciar o evangelho do Dr. Pink, o evangelista deveria ter o cuidado de dizer: – “Cristo não morreu por você, mas se você aceitar o fato de que Ele não morreu por você e Deus o despertar para crer, aí Ele morreu por você”.

Se cremos em Cristo, morremos com Ele e ressurgimos com Ele para a gloria de Deus Pai (Colossenses 3:1). Se padecermos as aflições como bom soldado de Cristo, certo é que com Ele reinaremos. Mas, se demovermos da esperança proposta no evangelho, certo é que Cristo nos negará. Se formos infiéis, Ele permanece fiel!

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Timóteo 2:11 -13).

A imutabilidade de Deus é firme consolação, de modo que se faz necessário reter a esperança proposta.

“Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta;” (Hebreus 6:18).

Por fim, as Escrituras ensina que Cristo morreu por toda a raça humana, vez que Deus amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito. Entretanto, se faz necessário destacar que, por mais que a passagem de primeira João 2, verso 2, pareça favorecer a visão Arminiana sobre a Expiação, segue-se que tanto as visões Calvinistas e Arminianistas estão equivocadas ao considerarem que Deus predestinou alguns homens à salvação, e o restante a danação eterna.

 

 

[1] Artigo disponível na Web: < http://oestandartedecristo.com/data/UmExposiC_Ceode1JoCeo2.2ApCondiceIVASoberaniadeDeusporA.W.Pink.pdf > Acessado em 19/02/2018. Fonte: The Sovereignty of God: Appendix IV – 1 John 2:2, tradução de Timóteo Werner.

[2] 264 αμα ρτ ανω hamartano talvez de 1 (como partícula negativa) e a raiz de 3313; TDNT – 1:267,44; v 1) não ter parte em 2) errar o alvo 3) errar, estar errado 4) errar ou desviar-se do caminho da retidão e honra, fazer ou andar no erro 5) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “4105 πλα ναω planao de 4106; TDNT – 6:228,857; v 1) fazer algo ou alguém se desviar, desviar do caminho reto 1a) perder-se, vagar, perambular 2) metáf. 2a) desencaminhar da verdade, conduzir ao erro, enganar 2b) ser induzido ao erro 2c) ser desviado do caminho de virtude, perder-se, pecar 2d) desviar-se ou afastar-se da verdade 2d1) de heréticos 2e) ser conduzido ao erro e pecado” Dicionário Bíblico Strong.

[4] “2992 λαο ς laos aparentemente, palavra primária; TDNT – 4:29,499; n m 1) povo, grupo de pessoas, tribo, nação, todos aqueles que são da mesma origem e língua 2) de uma grande parte da população reunida em algum lugar Sinônimos ver verbete 5832 e 5927” Dicionário Bíblico Strong.

[5] “1484 εθν ος ethnos provavelmente de 1486; TDNT – 2:364,201; n n 1) multidão (seja de homens ou de animais) associados ou vivendo em conjunto 1a) companhia, tropa, multidão 2) multidão de indivíduos da mesma natureza ou gênero 2a) a família humana 3) tribo, nação, grupo de pessoas 4) no AT, nações estrangeiras que não adoravam o Deus verdadeiro, pagãos, gentis 5) Paulo usa o termo para cristãos gentis Sinônimos ver verbete 5927” Dicionário Bíblico Strong.




Davi e o pecado

Davi não abordou as questões pertinentes ao pecado de Adão, mas, as consequências de tal ofensa.


Davi e o pecado

Introdução

Como é possível um filho herdar o pecado do seu pai? A Bíblia ensina que é possível herdar pecado?

Encontrei na internet um artigo de Dennis Allan, um norte-americano residente em São Paulo, com o título ‘Davi herdou o pecado?’, no qual ele toma por base o verso 5, do Salmo 51: “Eu nasci na iniquidade e em pecado me concebeu minha mãe”, onde faz várias afirmações equivocadas.

Na primeira abordagem, tenta contradizer a doutrina equivocada da ‘Depravação Total’, do Calvinismo, e incorre em mais equívocos. Observe:

“Salmo 51:5 diz: Este versículo é frequentemente arrancado de seu contexto para defender a doutrina da depravação herdada. São muitos os problemas com tal interpretação. Outros textos negam claramente a ideia do pecado herdado (Ezequiel 18:20, por exemplo). Jesus usou as crianças como exemplo da pureza inocente que todos nós precisamos adquirir (Mateus 19:13-15). 1 João 3:4 nos diz que o pecado é cometido (não herdado). Romanos 5:12 diz que todos nós participamos da morte que Adão sofreu, não porque herdamos seu pecado, mas porque cometemos nossos próprios pecados. Qualquer interpretação de Salmo 51:5 que sugira depravação herdada contradiz estas afirmações claras da Escritura”  Dennis Allan , Davi herdou o pecado? < https://www.estudosdabiblia.net/bd59.htm > Consulta realizada em 23/01/2018.

Ao longo da história, várias doutrinas foram formuladas, tendo por base o evento da ofensa de Adão, e a doutrina de Agostinho, que leva o nome ‘pecado original’, tornou-se a mais conhecida.

O Calvinismo, para firmar as suas bases doutrinárias, introduziu algumas questões à ideia do pecado original, enfatizando que o pecador, por estar morto, não pode ver e nem ouvir acerca das coisas de Deus.

O que a Bíblia diz? Davi herdou o pecado? Se pecado for uma referência à condição de separação de Deus, sim, Davi herdou o pecado. Mas, se considerar o contexto de Ezequiel 18, verso 20, Davi não herdou pecado de ninguém.

Como pode ser isso?

 

Certamente morrerás

Devemos considerar que, quando Deus deu um mandamento no Éden, no mandamento estava estabelecida uma penalidade: a morte (Gn 2:16-17). Após a ofensa de Adão, a morte, como penalidade, foi introduzida no mundo, de modo que pecado é estar sujeito à morte.

As considerações paulinas acerca da morte, do pecado e da lei são pertinentes ao evento do Éden:

“Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.” (1 Coríntios 15:56).

Pecado é estar sendo conduzido à morte, como por um aguilhão[1], e é da lei que o pecado se impõe com força invencível.

 

Concebido em pecado

Quando Davi, na condição de profeta, disse ‘Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu minha mãe’, não só fez alusão à condição de todos os homens, antes evidenciou que os descendentes da carne de Abraão, os judeus, também, eram pecadores.

Ao dizer ‘em pecado me concebeu a minha mãe’, implicitamente, Davi estava dizendo que foi gerado de Jessé, seu pai, em pecado que, por sua vez, era da tribo de Judá e Judá de José, José de Jacó, Jacó de Isaque e Isaque de Abraão. Se Davi, da qual as Escrituras davam testemunho, de que era filho de Abraão, foi concebido em pecado, que se dirá dos demais descendentes de Abraão.

A questão que Davi aborda no Salmo 51 não possui relação com o adultério de Davi com Bate-Seba e nem com o homicídio de Urias, antes, o Salmista evidencia que, como a penalidade decorrente da ofensa de Adão passou a todos os homens, a morte, por isso é dito que todos pecaram.

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12).

Davi não abordou as questões pertinentes à ofensa de Adão, mas, as consequências de tal ofensa. Davi não abordou as questões de foro íntimo e nem a feiura dos seus atos, mas, a condição pertinente a todos os homens.

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;” (Romanos 3:23).

Como as consequências da ofensa de Adão passaram a todos os homens, é dito que todos pecaram, consequentemente, que estão destituídos da comunhão com Deus, o que incluía os ascendentes e descendentes de Davi.

 

O filho não levará a iniquidade do pai

Dennis Allan enfatizou que, frequentemente, o Salmo 51, verso 5, é arrancado do seu contexto e, ao trazer à baila o texto de Ezequiel 18, verso 20, comete o mesmo deslize.

O verso: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.” (Ezequiel 18:20), deve ser considerado à luz da parábola que era divulgada entre os filhos de Israel:

“Que pensais, vós, os que usais esta parábola sobre a terra de Israel, dizendo: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram?” (Ezequiel 18:2);

“Naqueles dias nunca mais dirão: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram” (Jeremias 31:19).

Em razão do que, essa parábola passou a ser divulgada em Israel? Em função das consequências, decorrentes da ofensa de Adão? Não! Os filhos de Israel haviam transgredido a aliança de Deus e foram dispersos entre as nações, mas, em vez de reconhecerem que haviam invalidado a aliança, faziam uso desse provérbio para alegarem que estavam sofrendo as consequências dos erros dos pais.

Esta era uma questão recorrente em Israel, pois, à época de Jesus, os filhos de Israel edificavam os túmulos dos profetas e acusavam os pais de pecado.

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que edificais os sepulcros dos profetas, adornais os monumentos dos justos e dizeis: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas. Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.” (Mateus 23:29-32).

Os pais ao seu tempo pereceram no deserto pelos seus próprios erros e os filhos entraram na terra prometida. Os filhos que adentraram a terra prometida, também, se desviaram e foram desterrados. Os desterrados, por sua vez, em lugar de se arrependerem, alegavam que os pais haviam pecado e que eles estavam sofrendo os revezes.

 

Inocência

Dennis Allan enfatiza que Jesus utilizou as crianças como exemplo de pureza, mas, ao ler o texto indicado, não encontrei tal exemplo.

“Trouxeram-lhe, então, alguns meninos, para que sobre eles pusesse as mãos e orasse; mas, os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, disse: Deixai os meninos e não os impeçais de virem a mim; porque, dos tais, é o reino dos céus. E, tendo-lhes imposto as mãos, partiu dali.” (Mateus 19:13-15).

Os discípulos repreenderam algumas pessoas que trouxeram crianças para que Jesus colocasse as mãos sobre elas, mas, Jesus repreendeu os seus discípulos, para não atrapalharem as crianças de se achegarem a Ele.

Se o reino dos céus pertence às criancinhas por serem criancinhas, por que Jesus repreendeu os discípulos? Se elas eram exemplo de pureza, não precisavam de Jesus! Mas, Jesus exorta que as deixassem ir até Ele e aí está o segredo: o reino dos céus pertence a todos que se achegam a Cristo!

Esta é a proposta de Jesus:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei.” (Mateus 11:28).

Criança pode ser um exemplo de inocência, mas, mesmo assim está sujeita à pena.

“O prudente prevê o mal e esconde-se; mas os simples passam e acabam pagando.” (Provérbios 22:3).

Criança pode ser um exemplo de inocência, mas, diante de Deus não é tida por justa, pois havia inúmeras crianças em Sodoma e Gomorra, mas não havia dez justos:

“Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez.” (Gênesis 18:32).

 

Vendidos ao pecado

Dennis Allan afirma que o pecado é cometido e não herdado, citando 1 João 3, verso 4: “Qualquer que comete pecado, também, comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade.”.

Diferentemente, do que pensa Allan, Jesus afirmou que todo que peca é escravo do pecado (João 8:34), uma condição herdada. Como? Respondo: Adão era livre e pela ofensa se tornou servo do pecado, consequentemente, todos os seus descendentes foram ‘vendidos’ ao pecado.

“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas, eu sou carnal, vendido sob o pecado.” (Romanos 7:14).

Os descendentes de Adão não pecam para se tornarem pecadores, antes, são pecadores (servos do pecado) e por isso, pecam.

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado.” (João 8:34).

Embora o Salmo 51, verso 5, não apresente a doutrina da ‘Depravação herdada’, contudo, a abordagem de Allan destoa, completamente, das Escrituras, a ponto de dizer que Romanos 5, verso 12, enfatiza que o homem é participante da morte de Adão. por cometer os seus próprios pecados.

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram.” (Romanos 5:12).

O verso é claro, ao enfatizar que todos pecaram porque a morte passou a todos os homens, ‘até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão’, demonstrando que o pecado é condição decorrente de berço.

 

Não pecou somente contra Deus?

Enquanto o Salmista confessa que pecou somente contra Deus, Dennis Allan contradiz o texto, abertamente: ‘O fato é que ele não pecou somente contra Deus.’

“Mas o que Davi está tentando dizer? Salmo 51 é o apelo agoniado de um coração ensanguentado. Davi tinha encarado a feiura de seu próprio pecado. Ele não está falando sobre o pecado de Adão ou, de sua própria mãe. Ele fala sobre “minha iniquidade”, “meu pecado” e “minhas transgressões” (51:2-3). O versículo 4 é uma declaração absoluta de culpa pessoal: “Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar.” No versículo 4, encontramos as chaves que precisamos para entender o versículo 5: 1. Davi está usando uma hipérbole ou, figura de linguagem exagerada, para ressaltar a profundidade do seu pecado diante de Deus. O fato é que ele não pecou somente contra Deus. Pecou contra Bate-Seba quando cometeu adultério com ela, contra Urias quando roubou sua esposa e assassinou o esposo inocente, contra Joabe que foi o cúmplice involuntário no assassinato de Urias e de outros soldados (2 Samuel 11). 2. Davi está realçando a magnitude de seus pecados contra o Senhor. 3. Ele está reconhecendo a pureza e a justiça de Deus, em contraste com seu próprio estado pecaminoso.” (Idem), Grifo nosso.

Pelo fato de negar o que diz o verso 4 e declarar que o verso 4 é a chave para interpretar o verso 5, tudo o que é dito fica em suspeição. Se a base está eivada de equívocos, a conclusão, também, estará repleta de enganos.

A conclusão ignora o fato de Davi ser profeta e que o Salmo 51 não é uma poesia que retrata as mazelas pessoais do rei Davi, antes, é uma profecia que elucida a condição da humanidade diante de Deus, inclusive a condição dos filhos de Israel.

“É aqui que entra o versículo 5, Davi sente-se tão longe da intimidade com Deus, isto é, como se jamais tivesse estado em comunhão com ele. Quando Davi olha para seus próprios pecados desprezíveis, ele não pode imaginar jamais ter andado com Deus. Portanto, o Salmo 51 não é uma defesa da doutrina humana da depravação herdada e não empresta nenhum apoio a tais práticas não bíblicas, como o batismo dos recém-nascidos. Mas, este Salmo é um olhar angustiado para a feiura do pecado e a profundidade do verdadeiro arrependimento”. (Idem).

Após essa pequena análise, fica o alerta: não é porque alguém condena um sistema doutrinário equivocado, que tudo o que fala está em consonância com as Escrituras. Devemos provar os espíritos sempre!

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.” (1 João 4:1).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

[1] “Aguilhão é a ponta afiada na extremidade de uma haste utilizada para estimular, principalmente os bovinos, a se movimentarem. Em Atos 26:14, na frase ‘Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões’, temos uma expressão proverbial própria do povo para demostrar que é inútil resistir a um poder imenso”.




Os seis pontos do Calvinismo de Augustus Nicodemus

O Pr. Nicodemus acredita que Deus predestinou tudo o que acontece ou, seja, que todos os eventos estão fixados por Deus.


Os seis pontos do Calvinismo de Augustus Nicodemus

 

Introdução

Analisando os argumentos do Pr. Augustus Nicodemus, no seu artigo intitulado:‘Os Seis Pontos do Meu Calvinismo[1], não pude deixar de considerar o posicionamento do apóstolo Paulo que, diante da proposta de qualquer outro evangelho, além do que ele já havia anunciado, que fosse anátema.

“Mas, ainda que nós mesmos ou, um anjo do céu, vos anuncie outro evangelho, além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.” (Gálatas 1:8).

Se não for o evangelho de Cristo, que seja anátema, pois, se alguém quiser se salvar, tem que guardar o mandamento do evangelho de Cristo, sem mácula ou, repreensão, até a Sua volta.

“Que guardes este mandamento sem mácula e repreensão, até à aparição de nosso Senhor Jesus Cristo;” (1 Timóteo 6:14).

Enquanto o Calvinismo pode ter cinco, seis ou inúmeros pontos, seus seguidores serem concordes uns com os outros ou, não, moderados ou extremados, etc., o evangelho de Cristo, por sua vez, é único e não comporta correntes. Não vi o mesmo brilho do apóstolo Paulo no Pr. Nicodemus, pois, este é uma vertente do Calvinismo e admite que há mais pontos, enquanto que aquele não tolera a ideia de outro evangelho.

O evangelho é matéria que ninguém deva propor teorias, posicionamentos, entendimentos, etc., antes, tem que anunciá-lo, tal qual o proposto por Cristo e pelos apóstolos.

“E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito.” (João 12:50).

Como o evangelho não comporta dissidentes, ramificações, etc., é de se estranhar que um Calvinista admita pontos a mais em sua doutrina. Por isso, analisaremos as premissas de mais um Calvinista sobre o que entendem acerca da salvação, comparando-as com as Escrituras.

 

Mistérios

Enquanto o apóstolo Paulo rogou pelos cristãos de Éfeso, para que pudessem compreender perfeitamente a dimensão do amor de Deus, todo Calvinista vai argumentar que, com relação à revelação de Deus, ainda há mistérios que o homem não pode alcançar.

O apóstolo Paulo não roga por algo impossível de ser alcançado, tanto que o termo empregado, com relação ao crente compreender o amor de Deus, significa ‘ser plenamente capaz’, ‘hábil’, ‘ter plena força’.

Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade,” (Efésios 3:18).

O Pr. Nicodemus acredita que Deus predestinou tudo o que acontece, ou seja, que todos os eventos estão fixados por Deus. Se considerarmos que tudo está pré-fixado do Deus, não há que se falar em planos infalíveis. Um plano levado a efeito, mesmo um infalível, demonstra que Deus não predestinou tudo o que acontece, pois ‘predestinar’ e ‘planejar’ são eventos que excluem um ao outro.

“1 – Creio que Deus predestinou tudo o que acontece. O Deus que determinou todas as coisas é um Deus pessoal, inteligente, justo, santo e bom, que traçou seus planos infalíveis levando em conta a responsabilidade moral de suas criaturas. Ele não é uma força impessoal, como o destino. Portanto, as decisões que tomamos não são mera ilusão e nossa sensação de liberdade ao tomá-las não é uma farsa. Eu acredito que as nossas decisões e escolhas são bem reais e que fazem a diferença. Elas não são uma brincadeira de mau gosto da parte de Deus. De uma maneira para mim misteriosa, porém perfeitamente compatível com um Deus onipotente e infinito, ele consegue ser soberano sem que a vontade de suas criaturas seja violentada. Ao mesmo tempo, ao final, sempre prevalecerá aquilo que Deus já determinou desde a eternidade. Encaro essa relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana como sendo parte dos mistérios acerca do ser Deus, como a doutrina da Trindade e das duas naturezas de Cristo” Augustus Nicodemus, ‘Os Seis Pontos do Meu Calvinismo’.

A fala ‘Deus predestinou tudo o que acontece’ depõe contra o livre-arbítrio de Adão no evento da queda, pois, ou, Deus predestinou Adão a comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal ou, Ele traçou um plano infalível para que Adão comesse do fruto. Nas duas alternativas não há o que se falar em responsabilidade moral por parte de Adão, pois, segundo o proposto pelo Pr. Nicodemus, o homem foi criado, especificamente, para pecar.

Percebe-se, através do argumento do Pr. Nicodemus, ao apontar para o destino, que a sua fala se amolda, justamente, ao pensamento que atribui a uma força impessoal ou, para um dos deuses gregos fatalista, o deus Destino, a quem todos os outros deuses do Olimpo estavam sujeitos, impondo um fatalismo à queda da humanidade.

Por que introduzimos a figura de Adão para contrapor aos argumentos de Nicodemus? Porque, na concepção Calvinista, Adão foi o único homem com livre-arbítrio e, assim sendo, as asserções do Pr. Nicodemus não se sustém ante um dos mais importantes personagens das Escrituras. O Pr. Nicodemus afirma que ‘Deus predestinou tudo o que acontece’ ou que ‘traçou seus planos infalíveis’ e que, mesmo assim (a decisão de Adão), foram reais e que fizeram  a diferença.

Deus é onipotente, onisciente, onipresente, infinito e soberano e as suas criaturas, por sua vez, autônomas. Soberania é posição, que só se consolida diante de subalternos. A soberania de ninguém, de Deus ou de reis, sobrepuja a vontade alheia.

Há uma grande diferença entre essas duas colocações: a) ‘sempre prevalecerá aquilo que Deus já determinou desde a eternidade’, e; b) ‘Deus predestinou tudo o que acontece’, pois, essa asserção é falsa e aquela, se tomada isolada do contexto do Pr. Nicodemus, verdadeira.

Considerando o texto do Pr. Nicodemus, vale destacar que Deus não predestinou Adão a comer do fruto da árvore do conhecimento e nem o ato de Adão comer do fruto decorre de um plano meticulosamente engendrado na eternidade.

A verdade que escapa a todo Calvinista que, com relação a Deus, sempre prevalecerá, por estar determinado desde a eternidade, diz do propósito eterno de Deus. Propósito este que não é antropocêntrico, antes teocêntrico, pois foi estabelecido em Cristo.

“Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:10 -11).

Na eternidade, Deus propôs convergir todas as coisas em Cristo, fazendo-O cabeça da Igreja, preeminente entre muitos irmãos e o mais elevado do que os reis da terra.

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.” (Colossenses 1:18);

“Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra.” (Salmos 89:27).

Desde a criação do homem no Éden, os únicos eventos preordenados por Deus estão expressos nestes dois versículos, pois, foram estabelecidos em Deus, ou seja, em Cristo.

Agora, nada que envolva os homens foi pré-determinado. Se Adão obedecesse a Deus, permanecendo firme, o propósito de Deus estaria firme, por Aquele que chama e não por causa de Adão. De outro modo, conforme ocorreu com a queda de Adão, o propósito de Deus permaneceu firme, mesmo Adão sendo infiel, tendo em vista que a infidelidade do homem não altera a fidelidade de Deus.

Outro exemplo de que o propósito de Deus é firme se vê na escolha de Deus, ao chamar Faraó para libertar os filhos de Israel do Egito. Para preservar a linhagem do Cristo e, assim, permanecer o propósito eterno, Deus determinou tornar conhecido o seu nome em todo o mundo e o Faraó serviu a esse propósito.

Se Faraó libertasse o povo de Israel, conforme o determinado por Moisés, o nome de Deus seria conhecido em todo o mundo, pois o Faraó teria se curvado ante o mando do Senhor. Mas, como o Faraó não se curvou, o propósito de Deus continuou firme, pois o nome de Deus se tornou conhecido em toda a terra, por Deus ter arrancado o seu povo com mão poderosa (Romanos 9:17).

“Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor” (Rm 9:11-12).

O propósito de Deus, segundo a eleição, permanece firme, por isso pode ser anunciado de antemão, como foi antecipado a Rebeca. Qual o propósito de Deus em Esaú e Jacó? A vinda de Cristo ao mundo! Em ambos, a linhagem de Cristo poderia ser preservada, pois, o propósito eterno de Deus é maior que ambos.

O propósito de Deus não está vinculado a obras ou méritos, mas Àquele que chama. E quem Deus chamou para o seu propósito em Cristo? A linhagem de Abraão, da qual faziam parte Esaú e Jacó. O propósito de Deus em Esaú e Jacó não dependia de fazerem bem ou mal, só de serem gerados de Abraão.

Mas, por que não Esaú? Por que foi dito a Rebeca que o maior serviria o menor? Deus tinha preferência entre homens? Certamente, não!

Porque Deus estabeleceu a primogenitura como base para alguém permanecer na linhagem de Cristo. Mas, com relação a Esaú e a Jacó, essa questão não foi resolvida no nascimento, pois, não houve interrupção do parto, quando ambos nasceram.

A questão de quem seria abençoado, ficou a cargo dos dois irmãos, que deveriam saber da importância da primogenitura e de agirem crendo no estabelecido por Deus. Esaú, com medo da morte, desprezou o direito de primogenitura e vendeu ao seu irmão por um prato de lentilhas, portanto, não teve a mesma fé que o crente Abraão. Jacó, por sua vez, negociou o direito, tendo em vista que tal questão não havia sido definida no parto e adquiriu o direito para si.

Quando foi dito a Rebeca que o maior serviria ao menor, não foi expresso que Deus tinha preferência por Jacó, antes, o que foi dito evidenciou que não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são contados como descendência.

A palavra da promessa foi: ‘Em Isaque será chamada a tua descendência’ e ‘Por este tempo virei, e Sara terá um filho’, mas como Isaque não era a descendência prometida, antes ‘em quem a descendência seria chamada’, foi dito a Rebeca, mulher de Isaque: ‘O maior servirá o menor’.

Só foi dito que ‘o maior servirá o menor’, para evidenciar qual dos descendentes de Isaque continuaria a linhagem, na qual o descendente seria chamado e não que Deus tinha preferência por alguém. E assim se cumpriu a palavra dita a Abraão, mesmo que muitos dos filhos de Israel fossem incrédulos.

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.” (Gálatas 3:16).

É sem apoio bíblico o ditado, na essência Calvinista, que diz: “Não cai uma folha da árvore se Deus não quiser”. Na criação, Deus deixou estabelecido que todas as folhas de todas as árvores cairiam, porém, não estabeleceu como e quando cairiam; se pela ação do vento, tempestade, arrancada por ação humana ou, por ter envelhecido.

Está determinado que as folhas das árvores cairão, mas não está determinado se cairá, antes ou, depois de a árvore ser cortada. Está determinado que as folhas cairão, mas não está determinado se antes ou depois de a árvore produzir flores ou frutos.

Quando se lê as considerações do Pregador, no Livro de Eclesiastes, acerca do tempo e dos eventos, as asserções não se enquadram no fatalismo, determinismo ou mecanicismo. Encontramos nas asserções do Pregador um quê do Co-determinismo, isso se considerarmos uma definição filosófica.

“TUDO tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;” (Eclesiastes 3:1-2).

Não vivemos em um mundo que tudo se resume em causa e efeito, do mesmo modo que não estamos sob a égide de um fado, destino ou, de outro modo, que tudo o que vivenciamos é um meio que visa a um fim. Observe:

O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena.” (Provérbios 27:12).

Vivemos em um mundo em que a ignorância (falta de conhecimento) não livra ninguém das consequências, pois, mesmo o inocente, está sujeito às consequências do que desconhece.

No universo, eventos podem ocorrer ao acaso, ou seja, são regidas por leis, mas sem uma fórmula previsível. Neste mundo, nada é garantia de nada:

“Voltei-me e vi debaixo do sol que não é dos ligeiros a carreira, nem dos fortes a batalha, nem, tampouco, dos sábios o pão, nem, tampouco, dos prudentes as riquezas, nem, tampouco, dos entendidos o favor, mas, que o tempo e a oportunidade ocorrem a todos.” (Eclesiastes 9:11).

Soberanamente, Deus estabeleceu a preeminência de Cristo em tudo e Ele vela para levar o seu propósito a efeito e as vontades, anseios e decisões dos homens não promovem e nem são obstes ao propósito eterno de Deus.

O livre-arbítrio ou livre-vontade, diferente do conceito equivocado da livre-agência, é atributo de todas as criaturas de Deus e nenhuma das vontades ou, decisões dos homens, foram, são ou serão violadas por Deus. O propósito eterno de Deus está a seu cargo e em nada depende da concordância ou, da discordância, mesmo que forçada, das suas criaturas.

 

Evangelismo

Esse tópico aborda o segundo ponto do Pr. Augustus Nicodemus.

“2 – Creio que Deus predestinou desde a eternidade aqueles que irão se salvar. Esta convicção não me impede de orar pelos descrentes e evangelizar. Ao contrário, evangelizo com esperança, pois Deus haverá de salvar pecadores. Creio que Deus já sabe, mas oro assim mesmo. Sei que ele ouve e responde, e que minhas orações fazem a diferença. Sei também que, ao final, através de minhas orações, Deus terá realizado toda a sua vontade. Não sei como ele faz isso. Mas, não me incomoda nem um pouco. Não creio que minha oração seja um movimento ilusório no tabuleiro da soberania divina.” (Idem)

É contraditória a ideia de quem acredita em uma predestinação que ocorreu na eternidade e, concomitantemente, crê que a sua própria oração é elemento que faz a diferença. Deus realiza a sua vontade, segundo o seu propósito e através da sua palavra, não através de orações.

Se Deus se propôs a não ouvir a oração de Jeremias, em favor do povo de Israel, quando, sobre eles, viessem os males decorrentes da desobediência, quiçá uma oração seria motivo de esperança se, realmente, Deus tivesse predestinado alguns ao inferno.

“Tu, pois, não ores por este povo, nem levantes por ele clamor nem oração; porque não os ouvirei no tempo em que eles clamarem a mim, por causa do seu mal.” (Jeremias 11:14).

Orar em favor dos perdidos, no caso do Pr. Nicodemus, é ser contraditório com a sua própria crença, a ponto de instituir absurdos.

Moisés foi repreendido por Deus ao orar, pedindo que o povo de Israel fosse perdoado, ou, se não, que o seu nome fosse riscado do livro da vida. Como orar contra a vontade de Deus, que estabeleceu que a alma que pecar essa mesmo morrerá?

Como cristãos, devemos crer na verdade, não em absurdos, conforme sugere a frase “Credo quia absurdum” (Creio, porque é absurdo!), exposta por Tertuliano de Cartago,  escritor cristão do século III.

Em se falando do evangelho, temos a verdade, não absurdos. A ‘fé’, como doutrina, não é compreensível ao homem natural, mas, isso não significa que está fundamentada em absurdos, de modo a desafiar a lógica e a razão, pertinentes à dedução e à compreensão humana.

“Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.” (João 17:17).

Geralmente, os absurdos ocorrem por má leitura das passagens bíblicas, não que a passagem bíblica contenha absurdos. Outro dia li um absurdo, em que um cristão dizia que ‘maldito o homem que confia em outro homem’, enquanto a ideia defendida pelo profeta Jeremias é ‘maldito o homem que confia em si mesmo’, aquele que faz da carne o seu braço.

“Assim, diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jeremias 17:5).

Vários textos bíblicos são mutilados por má leitura, por exemplo, o que Deus disse por intermédio de Moisés: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êxodo 33:19) pois, leem como se Deus, arbitrariamente, determinou ter misericórdia de alguns em detrimento de outros, quando, na verdade, Deus está enfatizando que tem misericórdia dos que O obedecem, contrariando Moisés, que queria que o seu nome fosse riscado do livro da vida.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.” (Êxodo 20:6).

Se Deus faz misericórdia aos que guardam os seus mandamentos, claro está que Ele faz misericórdia de quem Ele quer e não com base na interseção de um dos seus servos. Nas proposições bíblicas há lógica pura, o que é enfatizado por outros servos de Deus:

“E a sua misericórdia é de geração em geração sobre os que o temem.” (Lucas 1:50).

Mas, as asserções do Pr. Augustus Nicodemus são por demais confusas, pois, acredita que ninguém merece a graça de Deus e, no entanto, também acredita que Deus não deixa de conceder a sua graça a quem merecia recebê-la.

Segundo a Bíblia, a graça não envolve merecimento ou, demérito, visto que a graça foi manifesta a todos os homens. O termo ‘todos’ não pode ser considerado no sentido de totalidade, como se todos os homens estão salvos, mas, sim no sentido de que não houve acepção: a salvação é manifesta a qualquer homem de qualquer tribo, língua ou, nação.

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens,” (Tito 2:11).

E qual a graça manifesta? Cristo! Cristo foi manifesto e trouxe salvação, sem fazer acepção de pessoas. Algum homem merecia o Cristo? Não! Mas, mesmo assim, foi manifesto, da mesma forma que a ‘fé’, que é Cristo, foi manifesta.

“Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gálatas 3:22-23).

É fato que Deus não predestinou todos à salvação, mas, é igualmente fato, que Ele não predestinou alguns para a salvação. É fato que não há inocentes, entre os membros da raça humana, mas, isso não valida à ideia de que Deus tenha predestinado alguém ao inferno.

É comum no raciocínio Calvinista tomar uma premissa bíblica verdadeira, para tentar validar um argumento falso. Deus não predestinou ninguém à salvação, antes, salva os crentes pela loucura da pregação. A predestinação não é o meio ou, o modo de salvação.

A predestinação serve ao propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo e a graça e a misericórdia é o que provê salvação. Graciosamente, Deus proporcionou salvação em Cristo, por meio do evangelho, misericórdia demonstrada sem acepção, a todos os homens. E todos os homens que creem em Cristo, pelo fato de serem gerados de novo de semente incorruptível, estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, para que Ele figure como primogênito entre muitos irmãos.

A predestinação não visa à salvação dos homens, antes, o propósito eterno estabelecido em Cristo, pois, ao entrar no mundo, o Cristo era o Unigênito do pai e agora, pela igreja, é o primogênito entre muitos irmãos, pois, os que creram foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo.

“Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29).

Questões absurdas, nas quais alguns creem, decorrem de má leitura, não que o que Deus decretou seja absurdo. É absurdo ler no verso acima que Deus predestinou alguém a ser salvo, sendo que o verso diz que Deus predestinou os que ‘dantes conheceu’ para terem a mesma imagem que o Filho de Deus.

E qual o objetivo de serem predestinados? O homem se ver livre do pecado? Não! O objetivo é que Cristo seja o primogênito entre muitos irmãos. A questão aqui é fatalista, pois, ao ser gerado de Deus, em Cristo, não há outro destino para o homem de novo nascido, pois todos serão conforme a imagem do Filho de Deus.

Por outro lado, é um absurdo afirmar que Deus, que não tem o culpado por inocente, predestinou ‘para a salvação pecadores perdidos, merecedores do inferno’, ao mesmo tempo em que se diz que ‘não há pessoa alguma que mereça qualquer coisa de Deus’ e ‘que ele tenha deixado de conceder sua graça a quem merecia recebê-la’.

“3 – Não creio que Deus predestinou todos para a salvação. Da mesma forma, não creio que ele foi injusto e nem que ele fez acepção de pessoas para com aqueles que não foram eleitos. Não creio que Deus tenha predestinado inocentes ao inferno, pois não há inocentes entre os membros da raça humana. E nem acredito que ele tenha deixado de conceder sua graça a quem merecia recebê-la, pois igualmente não há pessoa alguma que mereça qualquer coisa de Deus, a não ser a justa condenação por seus pecados. Deus predestinou para a salvação pecadores perdidos, merecedores do inferno. Ao deixar de predestinar alguns, ele não cometeu injustiça alguma, no meu entender, pois não tinha qualquer obrigação moral, legal ou emocional de lhes oferecer qualquer coisa.” (Idem).

 

Onisciência versus presciência

Outro absurdo, é estabelecer um reducionismo na onisciência de Deus, a chamada presciência. Deus não prevê o que vai acontecer e nem determinou o que irá acontecer, antes, por ser onisciente, é conhecedor de todas as coisas, quer seja do passado, quer do presente ou, quer do futuro.

Deus é onisciente, porque é onipresente e não porque previu ou, porque determinou algo. Previsão é algo concernente aos homens, visto que Deus, de antemão faz conhecido aos seus servos os seus planos e desígnios.

A onisciência é atributo divino, a presciência não. Na onisciência já está incluso o conhecimento do futuro, portanto, com relação a Deus o termo presciência não tem razão de ser utilizado. Observe os seguintes argumentos:

“4 – Creio que Deus sabe o futuro, não porque previu o que ia acontecer, mas porque já determinou tudo que acontecerá. Por isso, entendo que a presciência de que a Bíblia fala é decorrente da predestinação, e não o contrário. Negar a predestinação e insistir somente na presciência de Deus com o alvo de proteger a liberdade do homem levanta outros problemas. Quem criou o que Deus previu? E, se Deus conhece antecipadamente a decisão livre que um homem vai tomar no futuro, então ela não é mais uma decisão livre.” (Idem).

A má leitura acerca do termo grego ‘conhecer’, quando empregado nas Escrituras, fomenta vários equívocos. Para elucidá-los, analisemos a seguinte passagem bíblica:

“E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.” (Mateus 7:23).

Tendo por base esse versículo, Cristo, na sua glória, não sabe todas as coisas? Não previu o que ia acontecer ou, não determinou o que acontecerá? O indivíduo que ‘nunca foi conhecido’ não foi predestinado para esse fim e mesmo, assim, não é conhecido?

Observe que as perguntas formuladas pelo Pr. Augustus Nicodemus não se adequam ao que Jesus dirá: ‘Nunca vos conheci’! Isso porque o termo grego traduzido por ‘conhecer’ não tem o significado de ‘saber’, mas, tem o sentido de não ter se tornado um só corpo.

Tornar-se membro do corpo de Cristo é imprescindível à salvação, pois, só assim, o homem torna-se um com o Pai e o Filho:

“E eu lhes dei a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um.” (João 17:22);

“Ora, vós sois o corpo de Cristo e seus membros em particular.” (1 Coríntios 12:27)

“Por isso deixai a mentira e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros.” (Efésios 4:25).

Essa comunhão intima nomeia-se ‘conhecer’, portanto, se não se tornou um com o Pai e o Filho, nunca foi ‘conhecido’, conforme se lê:

“Mas agora, conhecendo a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gálatas 4:9).

Somente quando o homem se torna um com a verdade, sendo gerado de Deus, é liberto do Senhor, como estabeleceu Jesus:

“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (João 8:32);

“E sabemos que já o Filho de Deus é vindo e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (I João 5:20).

‘Saber’ e ter ‘entendimento’ decorre da mensagem do evangelho, pelo qual o homem se faz discípulo, o que promove a união com o Pai e o Filho, ou seja, o ‘conhecer’, o ‘estar em Cristo’.

Se não souber ler esses versos, o intérprete se equivocará, quando se deparar com esse versículo:

“Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29).

Quem são os que ‘dantes’ conheceu? Segundo o Calvinismo diz do que Deus determinou que irá acontecer e, segundo o Arminianismo, refere-se ao que Deus previu que ia acontecer.

Ambos os posicionamentos doutrinários estão equivocados, pois o verso trata daqueles que se tornaram um só corpo com Cristo, ou seja, dos que ‘conheceram’. Daí a explicação: os que se fizeram um só corpo com Cristo, ou seja, ‘dantes’, ‘anteriormente’, ‘previamente’, também, foram predestinados a serem conforme a imagem de Cristo.

Ninguém é predestinado a ‘conhecer’, pois só ‘conhece’ a Cristo aquele que permanece no seu ensino, tornando-se seu discípulo. Só são ‘predestinados’ os que ‘conhecem’ a Cristo!

 

Deus compreensível

Equívocos doutrinários levam a uma crença, cuja base não passa de conjecturas:

“5 – Creio que apesar de ter decretado tudo que existe desde a eternidade, Deus acompanha a execução de seus planos dentro do tempo, e se comunica conosco nessa condição. Quando a Bíblia fala de um jeito que parece que Deus nem conhece o futuro e que muda de ideia algumas vezes, é Deus falando como se estivesse dentro do tempo e acompanhando em sequência, ao nosso lado, os acontecimentos. É a única maneira pela qual ele pode se fazer compreensível a nós. Quem melhor explica isso é John Frame, no livro “Não Há Outro Deus,” da Editora Cultura Cristã, que recomendo entusiasticamente.” (Idem).

Daí o alerta:

“E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber.” (1 Coríntios 8:2).

A única maneira que Deus poderia se fazer compreensível aos homens, foi se fazendo carne e habitando entre os homens.

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” (João 1:18).

Deus se comunicou com os homens através dos seus profetas e nos últimos tempos, por seu Filho:

“HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,” (Hebreus 1:1).

 

Contradições

É uma crença isolada, quando se afirma que Deus é soberano, bom e predestinou tudo o que acontece, mas, sem explicar quanto ao mal no universo.

Quando afirmamos que Deus é soberano, assim afirmamos porque Ele é o criador de todas as coisas e não que Ele exerça controle sobre as suas criaturas. Quando afirmamos que Deus é bom, não estamos dizendo que Ele é condescendente e bonzinho, antes, dizemos que Ele é nobre, veraz, superior. O termo ‘bom’ evidencia o senhorio de Deus e não uma condescendência.

O termo grego traduzido por ‘bom’ é ἀγαθούς (agathos), cuja raiz etimológica significa ‘alguém que é, que tem realidade, que é real, verdadeiro’, o que distingue o nobre do homem comum, vil, mentiroso.

“… continha em si a conjugação de nobreza e bravura militar (…) quase nunca tem o sentido posterior de ‘bom’, como arete não tem o de virtude moral”  Jaeger, Werner, Paideia, A Formação do homem Grego, tradução Artur M. Parreira, São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2003. Pág. 27;  

“Senhorio e arete estavam inseparavelmente unidos. A raiz da palavra é a mesma: άριστος, superlativo de distinto e escolhido…” (Idem), pág. 26.

O verso: “Sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso” (Rm 3:4), contrapõe o homem a Deus, este como nobre, soberano, senhor, etc., enquanto aquele como vil, plebe, mau, etc. Nesse verso, o significado de ‘verdadeiro’ e ‘mentiroso’ não possui conotação moral.

O Pr. Nicodemus acredita que:

“6 – Creio que Deus é soberano e bom. A contradição que parece haver entre um Deus soberano e bom que governa totalmente o universo, por um lado, e por outro, e a presença do mal nesse universo é apenas aparente e, por enquanto, sem explicação. Diante da perversidade e dos horrores desse mundo, alguns dizem que Deus é soberano mas não é bom, pois permite tudo isto. Outros, que ele é bom mas não é soberano, pois não consegue impedir tais coisas. Para mim, a Bíblia diz claramente que Deus não somente é soberano e bom – mas que ele é santo e odeia o mal. Ao mesmo tempo, a Bíblia reconhece a presença do mal do mundo e a realidade da dor e do sofrimento que esse mal traz. Ainda assim, não oferece qualquer explicação sobre como essas duas realidades podem existir ao mesmo tempo. Simplesmente afirma ambas e pede que vivamos na certeza de que um dia Deus haverá, mediante Jesus Cristo, de extinguir completamente o mal e seus efeitos nesse mundo.” (Idem).

Há dois tipos de mal no mundo:

  1. Um decorre do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, e ambos, bem e mal, estão intrinsicamente ligados, como faces de uma mesma moeda, e o outro;
  2. Refere-se à natureza do homem e dos anjos caídos.

A presença do mal neste mundo não é apensa aparente, antes o mundo está no maligno.

“Sabemos que somos de Deus e que todo o mundo está no maligno.” (1 João 5:19).

O mundo estar no maligno não se refere às perversidades e horrores desse mundo, como guerras, doenças, calamidade, etc. , antes à condição do homem separado de Deus.

Os homens, sendo maus, sabem dar boas coisas aos seus semelhantes. A condição herdada de berço pertinente ao homem é má e todos os descendentes de Adão são maus, mentirosos, trevas, perdidos, pecadores, etc.

“Pois, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” (Lucas 11:13)

No entanto, pelo conhecimento decorrente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, todos os homens, além de maus, sabem dar boas coisas aos seus semelhantes e podem fazer o mal a eles, conforme bem lhes parece.

Deus soberano e bom não está interessado em reverter o conhecimento do bem e do mal que o homem adquiriu por causa da ofensa de Adão, pois o bem que o homem faz só aproveita aos seus semelhantes.

“Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás? Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal, como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem.” (Jó 35:6-8).

A proposta do evangelho visa reparar o mal decorrente da ofensa de Adão e para isso é necessário mudar a condição do homem, nascido como filho da ira e da desobediência. O único modo para essa mudança é a existência de um último Adão, que substitua a desobediência pela obediência, gerando de novo, por meio da semente incorruptível, filhos em comunhão com Deus.

A Bíblia não se cala ante homens que questionam o poder e o saber de Deus e não nega que há males no universo.

“Por causa das muitas opressões, os homens clamam, por causa do braço dos grandes. Porém, ninguém diz: Onde está Deus que me criou, que dá salmos durante a noite;” (Jó 35:9-10).

Quando o homem se depara com calamidades, infortúnios, desgraças, etc., questionam a existência de Deus em universo que o mal permeia, entretanto, quando em bonança, venturosos e alegres, não consideram onde Deus está.

Se um filho nasce com certa deficiência física, se lembram de questionar a grandeza de Deus, mas, quando os seus rebentos vem perfeitos e formosos ao mundo, se esquecem de questionar onde está Deus.

A proposta deste artigo não é dar todas as respostas às questões Calvinistas e nem de afrontar o Pr. Nicodemus, mas, como o artigo reúne as principais questões Calvinistas não respondidas, o artigo do Pr. Nicodemus serviu ao propósito de nos debruçarmos sobre o tema, à luz das Escrituras.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 

[1] Fonte: < http://tempora-mores.blogspot.com/2013/12/os-seis-pontos-do-meu-calvinismo.html >  Consulta realizada em 22/01/18.




O perfeito amor lança fora o temor 

O medo ocorre ao desobediente em vista da pena, da punição, diferentemente de que é perfeito em amor, ou seja, obedece perfeitamente.


O perfeito amor lança fora o temor 

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” (1 João 4:18). 

 

Introdução

O que aprenderemos ao interpretar esses três versos escritos pelo apóstolo João?

Em primeiro lugar, se faz necessário entender a perspectiva do apóstolo ao utilizar os termos ‘temor’, ‘medo’, ‘amor’ e ‘pena’, e qual a relação entre eles.

Em segundo lugar, analisaremos o Sermão ‘O Perfeito amor lança fora o temor’, de Robert Murray M’Cheyne (1813 – 1843), de modo a evidenciar como não se deve fazer a leitura destes versos.

 

No amor não há temor 

É essencial à interpretação entender o significado da palavra grega ‘ágape’ empregada no texto.

O equivoco mais comum é entender o termo traduzido por amor como sentimento, afeição, como o afeto e carinho que a mãe nutre pelo seu filho enquanto embala o berço. Ou, o sentimento preferencialista do pai para com o seu filho, se considerarmos os demais garotos de uma comunidade.

O sentido do termo ‘ágape’[1] no contexto bíblico refere-se à obediência que o servo deve ao seu Senhor. Isto porque o termo, na antiguidade, raramente era utilizado na literatura grega, antes era um termo comumente utilizado nas relações cotidianas, como ser caridoso, oferecer hospitalidade, demonstrar gentileza aos estrangeiros, etc.

Por que era um termo que era utilizado na relação senhor e servo? Por causa da leitura deste verso:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mateus 6:24).

Observe que o evangelista Mateus faz uso do termo ‘ágape’ para evidenciar a sujeição do homem a Deus. Quando o evangelista disse que “No amor não há temor”, o ‘amor’ em comento diz da obediência devida a Deus.

Ora, quem obedece a Deus não fica amedrontado, receoso, temeroso, isto porque o amor funcionalmente exclui o medo. O termo grego traduzido por ‘perfeito’ é τέλειος [teleios], que indica perfeição funcional[2], e não perfeição do ponto de vista moral.

O medo decorre da possibilidade da pena, da punição, de modo que quem tem medo é porque não obedeceu a contento, ou seja, perfeitamente.

O evangelista João geralmente utiliza o termo traduzido por ‘temor’ significando somente ‘medo’, ‘receio’, porém, dependendo do contexto, o temo se reveste de outro significado, observe:

“E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis.” (Êxodo 20:20);

Na fala de Moisés temos o verbo ‘temer’ יָרֵא (yare) e o substantivo ‘temor’ יִרְאָה (yirah), este significando a palavra de Deus e aquele o medo. Em uma mesma frase, o verbo significa não ter medo, e o substantivo significa mandamento, ensino.

No verso:

“Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR.” (Salmos 34:11).

O termo ‘temor’ refere-se à palavra de Deus, e não ao medo. Diz do princípio da sabedoria, e não de um receio: “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; bom entendimento têm todos os que cumprem os seus mandamentos; o seu louvor permanece para sempre.” (Salmos 111:10).

 

O sermão de M’Cheyne

Com base na primeira epístola de João, capítulo 4, verso 18, o Rev. M’Cheyne, calvinista convicto, apresenta dois tipos de temor na Bíblia, opostos entre si, de modo que um temor é a atmosfera do céu, e o outro, a atmosfera do inferno.

“O estado de uma alma despertada. ‘O temor tem consigo a pena’. Há dois tipos de temor mencionados na Bíblia em oposição um do outro. Um é a real atmosfera do céu, o outro é a genuína atmosfera do inferno”. M’Cheyne, Robert Murray, ‘O Perfeito amor lança fora o temor’ < www.poesias.omelhordaweb.com.br >. 

Em seguida, M’Cheyne aponta que ali está o temor de amor, o verdadeiro temperamento próprio a uma criança: o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, um entendimento que era próprio de Jó e o entendimento de Cristo.

“Aqui está o temor de amor. Este é o verdadeiro temperamento de uma pequena criança: o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Este era o entendimento de Jó: ‘Ele temia o Senhor e aborrecia o mal’. Mas do que isso, este é o real espírito do Senhor Jesus Cristo. Sobre Ele repousava ‘o espírito de temor do Senhor, e deleitar-se-á no temor do Senhor’” (idem).

Ora, vale destacar que ‘o temor do Senhor’ não diz do temperamento de uma criança, e sim, da palavra de Deus:

O temor do SENHOR é limpo, e permanece eternamente; os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente.” (Salmos 19:9);

“Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.” (I Pedro 1:25).

Com relação a Jó, quando é dito que ‘ele temia’, o texto demonstra que ele obedecia a Deus, e não que este era o entendimento de Jó.

O espírito que repousou sobre Cristo não diz do temperamento de uma criança pequena, e sim, a palavra de Deus. Na condição de Servo do Senhor, a comida de Cristo (deleite) era o temor do Senhor, ou seja, fazer a Sua vontade.

“Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra.” (João 4:34).

O espírito de temor que repousou sobre Cristo diz das boas novas de salvação que trouxe justiça aos gentios, de modo que Cristo apregoou o ano aceitável do Senhor por causa da palavra de Deus que é espírito.

“EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” (Isaías 42:1; 61:1 -3; Zc 4:6; Is 30:1; Pv 1:23).

Para apresentar o segundo tipo de temor, o Rev. M’Cheyne aponta para um suposto ‘temperamento’ dos demônios, alegando que eles creem e estremecem, uma inferência decorrente de um verso da carta de Tiago.

Quando Tiago diz que os demônios creem e estremecem, ele o faz no seguinte contexto: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem” (Tiago 2:19). Havia judeus que cria na existência de Deus, o que é correto, no entanto, tal crença não é a essência da salvação, visto que é além de crer em Deus, é imprescindível crer em Cristo (João 14:1).

Se não queriam crer em Cristo, a crença deles em nada era diferente da dos demônios, pois eles também creem e se submetem.

O Rev. M’Cheyne identifica o tal ‘temor do terror’ como sendo o que ocorreu com Adão e Eva após a queda, que, ao ouvir a voz de Deus, fugiram e se esconderam; ou, o que ocorreu com o carcereiro, quando indagou ao apóstolo Paulo o que seria necessário fazer para se salvar.

“Aqui está o temor do terror. Este é o verdadeiro temperamento dos demônios: “os demônios creem e estremecem”. Isto foi o que ocorreu com Adão e Eva após a queda; eles fugiram da voz de Deus, e tentaram se esconder em uma das árvores do jardim. Este foi o estado do Carcereiro, quando trêmulo, saltou dentro e os trouxe para fora, e prostrou-se aos seus pés, dizendo: “Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?”. Este é o temor aqui exposto; temor penoso. “O temor tem consigo a pena”. Alguns de vocês sentiram este temor que tem consigo a pena. Muitos mais podem senti-lo neste dia; vocês estão dentro do alcance disto. Deixem-me explicar esta elevação na alma” (Idem).

Tremenda falácia, pois de não impõe medo a ninguém, como se lê:

“Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça.” (Jó 37:23).

Ao dizer que o homem natural ‘lança fora o temor’, percebe-se que o Rev. M’Cheyne não compreendeu os significados possíveis ao termo. Ao comparar o homem natural a uma terra que está à espera de plantio, portanto, cheia de ervas daninhas por ainda não ser arada, percebesse que o reverendo apregoa o ‘temor’ como medo de Deus.

“Primeiro. Um homem natural lança fora o temor, e restringe a oração diante de Deus. “Eles estiveram descansados desde a sua mocidade, eles não foram mudados de vasilha para vasilha, e por isso, conservaram o seu sabor, e o seu cheiro não se alterou” [Jeremias 48:11]. Eles são como pousio, que nunca foi quebrado pelo arado, mas está cheio de sarças e de espinheiros. Não há aqui alguns dentre vós que nunca temeram por vossas almas? Você imagina que é tão bom quanto os seus vizinhos. Ah! bem, o seu sonho será interrompido, um dia, em breve.” (Idem).

Ao dizer que, quando o Espírito de Deus abre os olhos do pecador e o faz temer, a ideia de temor que o reverendo expressa é tão somente medo. Enquanto as Escrituras aponta que temer a Deus é sabedoria, no sentido de obedece-lo, a exposição do reverendo considera temor somente da perspectiva do medo.

“Segundo. Quando o Espírito de Deus abre os olhos, ele faz o pecador arrogante temer. Ele mostra a ele a quantidade de seus pecados, ou melhor, que eles não podem ser numerados. Antes, ele tem uma memória que facilmente esquece seus pecados, juramentos deslizam sobre a sua língua e ele não os conhecia; a cada dia adicionava novos pecados às suas páginas no livro de Deus, ainda que não se lembrasse. Mas agora, o Espírito de Deus coloca todos os seus pecados explícitos diante dele. Todos não perdoados, enormidades há muito esquecidas, erguidas atrás dele. Então, ele começa a temer. “Males sem número me têm rodeado”” (Idem).

Ora, a Bíblia não diz que Deus coloca explicitamente os pecados perante o pecador, pois a condenação do homem não vem de pecados, e sim da ofensa de Adão. O que o homem visualiza através do evangelho é tão somente que é pecador por causa da morte decorrente da ofensa de Adão que passou a todos os homens, não importando se tal pecador é a Madre Tereza ou se é Adolf Hitler.

Definir que o temor que traz consigo a pena diz de um sentimento imposto pelo Espírito é má leitura do texto do evangelista João. O que se percebe da descrição que o reverendo faz é inferências, e não interpretação do texto bíblico.

“Terceiro. O Espírito o faz sentir a grandeza do pecado, a excedente pecaminosidade disto. Antes, isto parecia [como] nada; mas agora, isto se ergue como um dilúvio sobre a alma. A ira de Deus, sente permanecendo sobre ele; um terrível som está em seus ouvidos. Ele não sabe o que fazer; seu temor traz consigo a pena. O pecado é compreendido agora como cometido contra um santo Deus, cometido contra um Deus de amor, cometido contra Jesus Cristo e Seu amor. (…) Quarto. Uma terceira coisa que terrivelmente atormenta a alma é: a corrupção operando no coração. Com frequência pessoas sob convicção são capacitadas a sentir as terríveis obras de corrupção em seu coração. Frequentemente a tentação e convicção de pecado encontram-se juntas, e terrivelmente atormentam a alma, rasgando-a em pedaços. A convicção de pecado está trespassando o seu coração, levando-o a fugir da ira vindoura, e assim, no mesmo momento alguma atroz lascívia, ou inveja, ou horrível malícia, está fervendo em seu coração, conduzindo-o em direção ao inferno. Então, um homem sente um inferno junto a ele. No inferno, ali será esta horrenda mistura; ali haverá um devastador terror da ira de Deus, e ainda, junto com corrupção fervendo, conduzirá a alma mais e mais [para] dentro das chamas. Isto é frequentemente sentido na terra. Alguns de vocês podem estar sentindo isto. Este é o temor que tem consigo a pena” (Idem).

A exposição é contraditória, pois diz que o Espírito convence a alma da sua inabilidade de ajudar a si mesmo, mas ao ser ‘despertado’, resolve se livrar de sua condição por meios próprios. Mas, piora, quando diz que o pecador tem o temor que traz consigo a pena quando ouve o evangelho e fica temeroso de que não será um seguidor de Cristo.

“Quinto. Outra coisa de que o Espírito convence a alma é, a sua inabilidade de ajudar a si mesma. Quando um homem é primeiramente despertado, ele diz: eu brevemente livrarei a mim mesmo desta triste condição. Ele recorre a muitos artifícios para justificar a si mesmo. Ele muda a sua vida, ele tenta arrepender-se, orar. Ele é logo ensinado que as suas “justiças são como trapos de imundície” [Isaías 64:6]; que ele está tentando cobrir trapos com trapos imundos; ele é levado a sentir que tudo o que pode fazer significa simplesmente nada, e que ele nunca pode tornar algo puro a partir do impuro. Isto afunda a alma em escuridão. Este temor tem consigo o pesar. (…) Sexto. Ele sente que nunca esteve em Cristo. Alguns de vocês talvez sabem que este temor tem consigo a pena. O livre oferecimento de Cristo é a própria coisa que despedaça vocês no coração. Você ouve que Ele é totalmente desejável, que Ele convida pecadores a virem até Ele, que Ele nunca lança fora aqueles que vêm. Mas, você teme que nunca será um destes. Você teme que tenha pecado por muito tempo, ou tanto, [que] você pecou para além de seu dia de graça! Ah! Este temor tem consigo a pena” (Idem).

Diferente dos demais calvinistas que alegam que Deus não tem um método com relação à eleição, o Rev. M’Cheyne o método da escolha de Deus é fazer com que a pessoa tenha um sentimento de que precisa de Cristo, antes que o homem se achegue a Cristo.

“Alguns dirão: “Então, não é bom ser despertado”. Resposta 1: Esta é o caminho da paz que excede o entendimento. Este é o método de escolha de Deus, levar você a sentir que necessita de Cristo antes que você venha até Cristo. No presente a sua paz é como um sonho; quando você desperta encontrá-la-á. Pergunte às almas despertadas se elas gostariam de voltar às suas letargias. Ah! Não; seu eu morrer, deixe-me morrer ao pé da cruz; não me deixe perecer não despertado” (Idem).

No inferno não haverá ‘tementes’. Temer é obedecer, e no inferno não há mandamento a se sujeitar. “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem” (Eclesiastes 12:13).

“Resposta 2: Você deve ser despertado um dia. Se não agora, você o será posteriormente, no inferno. Após a morte, o temor virá sobre as suas almas seguras. Não há nenhuma alma não despertada no inferno; todos estão temendo ali. Os demônios estremecem; os espíritos condenados estremecem. Não seria melhor tremer agora, e correr para Jesus Cristo, para refugiar-se? Agora, Ele está esperando para ser gracioso para você. Depois, Ele zombará quando o seu temor vier. Você saberá por toda a eternidade que o “temor tem consigo a pena.”” (Idem).

Enquanto o apóstolo João aponta o amor como exigência a ser satisfeita pelo homem, o Rev. M’Cheyne troca os fatores e aponta para o amor de Deus.

No afã de negar perfeição ao homem, o Rev. M’ Cheyne torna-se parcial como os amigos de Jó, que falavam do que não entendiam. Deus não precisa de ninguém sendo parcial por Ele.

“Porventura por Deus falareis perversidade e por ele falareis mentiras? Sereis parciais por ele? Contendereis por Deus?” (Jó 13:7 -8).

O obediente como o crente Abraão é perfeito, assim como perfeito é o Pai celeste. O perfeito em amor diz do obediente, daquele que se fez servo, pois anda na presença de Deus.

“Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.” (Mateus 5:48);

“O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre.” (Lucas 6:40).

“II. A mudança em crer. “No amor não há temor”. “O Perfeito amor lança fora o temor”. 1. O amor aqui exposto não é o nosso amor a Deus, mas o Seu amor por nós; por isso é chamado de perfeito amor. Tudo o que é nosso é imperfeito. Quando nós fizermos tudo, devemos dizer: “Somos apenas servos inúteis”. O pecado se mistura com tudo o que fazemos. Não haveria consolo algum em contar-nos que, se nós amássemos perfeitamente a Deus, isto lançaria fora o temor; pois como nós podemos operar este amor em nossas almas? É o amor do Pai por nós que lança fora o temor. Ele é o Único Perfeito. Todas as Suas obras são perfeitas. Ele não pode fazer nada, senão o que é perfeito. Seu conhecimento é perfeito conhecimento; sua ira é perfeita ira; seu amor é perfeito amor. É o perfeito amor que lança fora o temor. Assim como os raios de sol lançam fora a escuridão aonde que incidam, assim este amor lança fora o medo” (Idem).

Por desconhecer a essência do amor bíblico, o Rev. M’ Cheyne aponta para Cristo como alvo do amor de Deus. Deus se compraz em Cristo, mas Ele também amou perfeitamente o mundo, pois deu o seu único Filho para redenção de muitos. O amor de Deus é exclusivamente perfeito para com Cristo, e não igualmente para com os que creem?

“2. Mas, aonde cai este amor? Em Jesus Cristo. Por duas vezes Deus falou do céu, e disse: “Este é o meu filho amado, em quem me comprazo”. Deus ama perfeitamente o seu próprio Filho. Ele vê beleza infinita em Sua pessoa. Deus vê a Si mesmo manifestado. Ele se agrada infinitamente em Sua obra finalizada. O infinito coração do infinito Deus flui em direção ao nosso Senhor Jesus Cristo. E não há temor no seio de Cristo. Todos os Seus temores passaram. Uma vez Ele disse: “os pavores que me causas me destruíram”; mas agora Ele está em perfeito amor, e o perfeito amor lança fora o temor. Ouçam, almas temerosas! Aqui vocês podem encontrar descanso para as suas almas. Vocês não precisam viver outra hora sob os seus temores atormentadores. Jesus Cristo tem suportado a ira, a qual vocês temem. Ele, agora, oferece um refúgio para o oprimido, um refúgio em tempo de tribulação” (Idem).

Já pelos idos de 1800, as pessoas consideravam o termo ‘amor’ do ponto de vista afetivo, sendo que o amor bíblico diz de uma relação entre senhor e servo.

Quando Jesus amou o jovem rico, de imediato deu-lhe um mandamento.

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me.” (Marcos 10:21).

Deus amou primeiro porque primeiro Ele deu um mandamento, um mandamento que possibilita aos homens amá-Lo, sendo servos. Primeiro Deus deu o seu único Filho, e por Ele um mandamento, pelo qual é salvo todo que crê.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (I João 5:3).

O Rev. Robert Murray M’Cheyne, já em 1800 havia se rendido ao amor romântico de Shakespeare, e se esquecido que o amor de Deus é que guardemos os seus mandamentos.

“IV. As consequências de estar no amor de Deus. “Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro”. Quando um miserável pecador vem para Jesus, encontra o amor perdoador de Deus, ele não pode senão amar a Deus em retribuição. Quando o pródigo voltou para casa e sentiu os braços de seu Pai em volta de seu pescoço, então ele sentiu o transbordar de afeições em direção ao seu pai. Quando o brilho do sol de verão incide plenamente sobre o mar, este atrai os vapores para cima, em direção ao céu. Assim, quando os raios de sol do Filho de Justiça incidem sobre a alma, eles atraem para fora as constantes elevações de amor a Ele, em retribuição” (Idem).

O amor do homem para com Deus não é retributivo, e sim, em sujeição. As alegorias utilizadas não acrescentam nada a asserção inicial de amar em retribuição.

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (João 14:21).

A ideia equivocada de que Deus está inclinado a amar o homem afetuosamente é despautério de uma mente natural, pois Deus só ama aqueles que o amam, ou tem misericórdia de quem Ele aprouve ter misericórdia, ou seja, dos que o amam.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Deuteronômio 5:10).

 

 

[1] “Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.

[2] “A ideia grega de perfeição é funcional. Uma coisa é perfeita quando se realiza plenamente o propósito para o qual foi planejado, projetado e feito. Na verdade, esse significado está envolvido na derivação da palavra. O adjetivo teleios é formado a partir do substantivo telos. Telos significa um fim, um propósito, um objetivo, uma meta. Uma coisa é teleios, se realiza a finalidade para a qual foi planejado, um homem é perfeito se ele percebe o propósito para o qual foi criado, e enviado ao mundo. Tomemos uma analogia muito simples. Suponha que na minha casa há um parafuso solto, e eu quero apertar e ajustar esse parafuso. Eu saio para comprar uma chave de fenda. Acho a chave de fenda que se encaixa exatamente no aperto da minha mão, não é nem muito grande nem muito pequena, muito áspero, nem muito suave. Eu coloco a chave de fenda na ranhura do parafuso, e eu vejo que se encaixa exatamente. Eu, então, giro o parafuso e o parafuso é fixado. No sentido grego, e, especialmente, no sentido do Novo Testamento, a chave de fenda é teleios, porque cumpriu exatamente a finalidade para a qual eu desejava e a comprei. Assim, então, um homem será teleios se ele cumpre a finalidade para qual ele foi criado. Com que finalidade foi criado o homem? A Bíblia não nos deixa em dúvida quanto a isso. Na história da criação das Eras, encontramos Deus dizendo. “Façamos o homem à nossa imagem conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26). O homem foi criado para ser semelhante a Deus. A característica de Deus é esta benevolência universal, este agir invicto, esta constante busca do bem supremo de cada homem. A grande característica de Deus é o amor ao santo e ao pecador igualmente. Não importa o que os homens fazem a Ele, Deus procura nada, a não ser o bem mais elevado deles”. (Barclay, W: O Estudo Diário da Bíblia Series, Rev. ed Filadélfia:. A imprensa de Westminster ou Logos




Jesus Cristo-homem, o mediador entre Deus e os homens

Os homens não tinham como ter acesso a Deus, de modo que Deus providenciou um mediador e sumo sacerdote, Jesus Cristo-homem.


Jesus Cristo-homem, o mediador entre Deus e os homens

“Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim” (João 6:43 -45).

 

Introdução

Arthur W. Pink, no artigo ‘Obstáculos para Vir a Cristo’[1], segue as mesmas premissas de João Calvino, de que é impossível ao homem crer em Cristo se antes não receber uma graça especial.

Este artigo tem por objetivo esclarecer o papel do mediador, e esclarecer o ensinamento de Jesus que consta do evangelho de João, capítulo 6, versos 43 à 45.

 

O mediador

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Timóteo 2:5)

Eliú foi a primeira pessoa na Bíblia que faz alusão a um mediador, e apresenta um protoevangelho.

Enquanto falava com Jó, Eliú demonstra que continuamente Deus procura falar ao homem (Jó 33:14), mas, como não atentam para o que Ele revela, definham a ponto de estarem no pó da morte.

“Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão” (Jó 33:23).

Mas, apesar da condição miserável do homem, se houvesse um mediador, ou seja, um mensageiro ou interprete, um escolhido entre milhares, que declarasse ao homem o que Deus exige (Jó 33:23), então Deus teria misericórdia e anunciaria a seguinte mensagem:

“Livra-o, para que não desça a cova; já achei resgate. Sua carne se reverdecerá mais do que era na mocidade, e tornará aos dias da sua juventude” (Jó 33:24).

A notícia de livramento da morte porque Deus já providenciou resgate, e de que Deus dará nova vida, fará com que o homem confie em Deus (orará, invocará), e Deus lhe será favorável, revelando a sua face, concedendo ao homem a justiça divina.

Após invocar ao Senhor, o homem se volta para os seus semelhantes, e confessará:

“Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou. Porém Deus livrou a minha alma de ir para a cova, e a minha vida verá a luz. Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem, para desviar a sua alma da perdição, e o iluminar com a luz dos viventes” (Jó 33:27 -30).

Em poucas palavras Eliú apresentou a Jó a essência do evangelho: um mensageiro de Deus, que é mediador, declara ao homem o que Deus exige. O homem, por sua vez, ao ouvir de que há resgate para os pecadores, passa a confiar em Deus por intermédio da mensagem anunciado pelo mediador. Após invocar o Senhor, passa a anunciar a mensagem de salvação aos seus semelhantes.

Ora, Cristo é esse mediador! Cristo é o interprete, o mensageiro, que tornou conhecido aos homens um fato relevante: Deus providenciou o resgate! Qualquer que invoca-Lo, será salvo, e confessará Cristo aos demais homens, pois esse é o fruto de quem estiver ligado a Cristo (Hb 13:15; Jo 15:4).

 

Alienados de Deus

Por causa da ofensa de Adão, todos os seus descendentes passaram a condição de mortos para Deus e vivos para o pecado. A condição de todos os nascidos da semente corruptível de Adão é separado, destituído, alienado de Deus (Rm 3:23).

Ao abrir a madre, todos os descendentes de Adão acessaram uma porta larga e estão em um caminho largo que os conduz à perdição (Mt 7:13 -14). Sem a misericórdia de Deus em Cristo, toda a humanidade estava perdida, pois todos foram julgados e condenados à morte em Adão.

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” (Romanos 5:18)

Todos pecaram e destituídos foram da gloria de Deus, inclusive os judeus (Sl 53:3). Nem mesmo os judeus tinham entendimento que os permitisse buscar a Deus (Sl 53:2; Rm 10:2).

Mas, Deus na sua infinita misericórdia, enviou o seu Filho Unigênito ao mundo como mediador, para trazer o conhecimento que possibilita ao homem ter acesso a Deus.

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si.”  (Isaías 53:11).

Como era impossível ao homem ser agradável a Deus, Deus deu o seu Filho Unigênito para anunciar aos homens o que é justo. Por isso Jesus se apresenta aos homens como o caminho, a verdade e a vida, pois ninguém pode ir a Deus senão por Cristo Jesus.

“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6).

Para haver um caminho que desse acesso a Deus, se fez necessário o Cristo obedecer a Deus em tudo, contrapondo o primeiro Adão, que desobedeceu. Para estabelecer a justiça de Deus era necessário uma substituição de ato, obediência em lugar da desobediência, e por isso Jesus foi obediente ao Pai em tudo, até a morte e morte de cruz (Rm 5:19).

Só é possível ao homem se achegar a Deus entrando por Cristo, a porta estreita. Entrar por Cristo é o mesmo que nascer de novo, pois após o novo nascimento, o homem estará em um caminho estreito que o conduzirá a Deus: Jesus.

Todos os homens com ousadia podem entrar no santuário, pela doutrina de Jesus, pois Cristo é o novo e vivo caminho de acesso a Deus, consagrado pela sua carne!

“Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne. E tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa” (Hb 10:19 -22).

 

Jesus Cristo-homem

Os homens não tinham como ter acesso a Deus, de modo que Deus providenciou um mediador e sumo sacerdote, Jesus Cristo-homem, o Ungido (escolhido) do Senhor escolhido entre milhares, encarregado de anunciar aos homens que Deus providenciou um resgate.

Em tudo o Verbo eterno encarnado tornou-se semelhante aos homens, pois só assim poderia ser misericordioso para com os pecadores e fiel sumo sacerdote para administrar aos homens o conhecimento de Deus.

“Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Hb 2:17).

Como fiel sumo sacerdote, Jesus anunciou aos homens especificamente o que o Pai lhe ensinou:

“Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou” (João 8:28);

“Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” (João 12:49 -50).

Como o homem não podia aproximar-se de Deus pela falta de entendimento, e Deus não podia aproximar-se do homem por causa da barreira de separação, o pecado, Deus providenciou resgate antes mesmo da fundação do mundo: Cristo, o cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo (Apocalipse 13:8). A própria vítima do sacrifício também e o mensageiro de Deus ungido para anunciar as boas novas aos homens (Isaías 61:1; Is 11:2 -4; Is 42:1 e 7).

O escritor aos Hebreus apresenta a vinda de Cristo como mensageiro nestes termos:

“HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (Hb 1:1).

E por isso Ele contou a parábola dos lavradores maus:

“E começou a dizer ao povo esta parábola: Certo homem plantou uma vinha, e arrendou-a a uns lavradores, e partiu para fora da terra por muito tempo;  E no tempo próprio mandou um servo aos lavradores, para que lhe dessem dos frutos da vinha; mas os lavradores, espancando-o, mandaram-no vazio.  E tornou ainda a mandar outro servo; mas eles, espancando também a este, e afrontando-o, mandaram-no vazio.  E tornou ainda a mandar um terceiro; mas eles, ferindo também a este, o expulsaram. E disse o senhor da vinha: Que farei? Mandarei o meu filho amado; talvez, vendo-o, seja respeitado.  Mas, vendo-o os lavradores, arrazoaram entre si, dizendo: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, para que a herança seja nossa” (Lucas 20:9 -14).

O único método de Deus atrair o homem esta em sua palavra anunciada por intermédio dos seus santos profetas, e nesses últimos dias, enviou o Seu Filho.

Mas, considerando a doutrina calvinista, como é possível Deus providenciar um mediador inacessível aos homens? É um contrassenso a ideia de que Deus solucionou o problema do pecado enviando ao mundo um mediador a qual os homens não têm acesso.

A Bíblia demonstra que é impossível ao homem ter acesso a Deus, se não por Cristo, e não que é impossível ao homem achegar-se a Cristo. Jesus Cristo-homem é a destra de Deus estendida à humanidade, e por Cristo qualquer homem tem acesso a Deus.

É equivocada a asserção de Arthur W. Pink de que “O homem natural é incapaz de ‘vir a Cristo’”. A única impossibilidade do homem natural está em ir a Deus à parte de Cristo, pois Cristo é o único caminho de acesso a Deus.

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12).

Não há nenhuma barreira ou obstáculo entre os homens perdidos e Cristo, pois Ele mesmo veio em carne e sangue, em tudo semelhante aos homens, para buscar o que se havia perdido (Lc 19:10).

 

Quem pode ir a Cristo?

O primeiro equívoco de João Calvino é considerar que Deus não se limitou em acusar a humanidade de impiedade, antes que crer no evangelho anunciado é um dom peculiar de Deus[2].

Com exceção dos dons ministeriais, o dom de Deus concedido aos homens é Cristo, e não a faculdade de o homem crer no evangelho. O equívoco de se entender que crer é um dom de Deus se dá pela má leitura do verso 8 de Efésios 2:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

O apóstolo Paulo no verso em questão faz uso de uma metonímia, quando substitui o autor pela sua obra. Como Jesus é o autor e consumador da ‘fé’, em vez de escrever que o crente é salvo por meio de Cristo, ou do evangelho, o apóstolo Paulo utiliza o termo ‘fé’. Os homens são salvos pela graça de Deus, por meio do evangelho, a fé que foi dada aos santos, manifesta aos homens (Ef 1:13; Rm 1:16 -17; Jd 1:3; Gl 3:23).

A ‘fé’ por meio pela qual o homem é salvo diz do evangelho. Como o evangelho é a verdade, e o substantivo grego πίστις (pistis) traduzido por ‘fé’ significa fiel, fidelidade, lealdade, verdade, etc., em vez do apóstolo dizer que o homem é salvo por meio do evangelho, escreveu que o homem é salvo pela fé.

O que não vem do homem, e é dom de Deus? Cristo! A verdade do evangelho não vem de homem algum, a não ser de Deus. Os calvinistas no afã de dar sustentabilidade na sua doutrina, ignoram a essência do texto bíblico.

Cristo é a fé, o dom de Deus, por meio do qual os homens são salvos!

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (João 4:10)

O apostolo Paulo no capítulo 2 da carta aos Efésios em momento algum faz alusão a crença do homem, como faz equivocadamente João Calvino:

Cristo declara que a doutrina do Evangelho, embora seja pregada a todos sem exceção, não pode ser abraçada por todos, pois uma nova compreensão e uma nova percepção são necessárias; e, por conseguinte, a fé não depende da vontade dos homens, porque é Deus quem a dá João Calvino < http://www.onortao.com.br/noticias/para-ir-a-jesus-e-necessario-ser-atraido-a-ele-por-deus-pai,83684.php > Consulta em 20/12/2017.

A fé que não depende da vontade dos homens, e que foi concedida por Deus diz de Cristo, o firme fundamento, pela qual o homem torna agradável a Deus.

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar. De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio” (Efésios 3:23 -25).

Ao interpretar o verso 43, do capítulo 6, do evangelho de João, que diz: “Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6:43), especificamente com relação a ‘ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer, tem por objetivo contrapor aos judeus murmuravam entre eles pelo fato de Jesus ter dito ‘Eu sou o pão que desceu dos céus’.

“Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu. E diziam: Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu?” (João 6:41 -42).

Embora tivessem ouvido a mensagem de Jesus, não creram por não considerarem o anunciado pelos profetas nas Escrituras, e sim, consideraram o fato de saberem quem eram os pais de Jesus. Ao não crer na doutrina de Cristo, aqueles judeus também não creram no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho nas Escrituras.

Absolutamente Jesus não estava afirmando que o homem natural estava impossibilitado de crer em Cristo, ou que necessita de uma graça especial, ou que houvesse uma barreira entre Ele e os pecadores que veio resgatar, etc.

Ao dizer: ‘Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer’, Jesus tinha em vista o que foi predito pelo profeta Isaías:

E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Isaías 54:13).

“Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” (João 6:45).

O que os judeus ouviram de Deus? O que está estabelecido nas Escrituras. Ora, se eles houvessem realmente ouvido as Escrituras e aprendido, iriam a Cristo. Ora, os judeus cuidavam que a vida eterna estava nas Escrituras, mas as Escrituras testificavam acerca de Cristo.

“Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (João 5:39).

A base de tudo o que Jesus disse é o predito pelo profeta Isaías: ‘E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR’, daí Ele faz a conclusão: Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim’. Se quem ouviu e aprendeu do Pai são aqueles que vão até Cristo, conclui-se que estes são aqueles que o Pai trouxe a Cristo.

Por que aqueles judeus não foram conduzidos por Deus a Cristo? Porque após eles ouvirem o que Jesus anunciou: ‘Eu sou o pão que desceu do céu’, não examinaram as Escrituras para verificar se a doutrina de Jesus era de Deus.

Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo” (Jo 7:16 -17).

Em vez disto, questionavam uns aos outros, murmurando entre si, o motivo de Jesus ter dito que era o pão vivo que desceu dos céus, sendo que Ele era o filho de Maria e de José que conheciam (João 7:27). Tropeçaram por confiarem no testemunho do amigo, que Deus avisou para não confiarem, e não examinaram as Escrituras.

“Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca. Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” (Miqueias 7:5 -6; Mateus 10:34 -36).

Por causa de Jesus havia uma grande celeuma entre os filhos de Israel, pois alguns achavam que Ele era de Deus, e outros não:

“E havia grande murmuração entre a multidão a respeito dele. Diziam alguns: Ele é bom. E outros diziam: Não, antes engana o povo. Todavia ninguém falava dele abertamente, por medo dos judeus” (João 7:12 -13);

“Então muitos da multidão, ouvindo esta palavra, diziam: Verdadeiramente este é o Profeta. Outros diziam: Este é o Cristo; mas diziam outros: Vem, pois, o Cristo da Galileia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi, e de Belém, da aldeia de onde era Davi? Assim entre o povo havia dissensão por causa dele” (João 7:40 -43)

Os judeus não iam a Cristo por não conhecerem as Escrituras, pois os judeus estavam como que vedados por ouvirem a palavra de Deus de mal grado, e assim rejeitaram o Cristo que trouxe o conhecimento de Deus que justifica a muitos “E Jesus, respondendo, disse-lhes: Porventura não errais vós em razão de não saberdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Marcos 12:24).

Alguns dos discípulos ao ouvirem o discurso de Jesus acabaram murmurando que o discurso de Jesus era duro, e muitos dos seus seguidores se retiraram (Jo 6:60). Se a doutrina de Jesus escandalizava, que diriam se vissem Jesus subindo de onde desceu? Mas, explicando o fato de ter dito que a sua carne era verdadeiramente comida, e o seu sangue verdadeiramente bebida, o que escandalizou muitos dos seus seguidores  (Jo 6:55 -57), Jesus enfatiza que são as suas palavras que concedem vida, e não o seu corpo mortal constituído de carne (Jo 6:63).

Bastava os seus ouvintes ouvirem e crerem nas palavras de Cristo para serem participantes da sua carne e sangue, mas como havia aqueles que não creram, em função desta questão em particular foi que Ele disse  que ninguém pode ir a Ele, se o Pai não conceder.

Mas há alguns de vós que não creem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido” (João 6:64 -65).

O motivo pelo qual Jesus disse que ninguém vai a Ele, se pelo Pai não for concedido é específico: havia alguns dos seus discípulos que não criam! Inventar outros motivos é heresia!

Jesus disse o que disse por um único motivo: alguns não creram, já João Calvino afirma que as pessoas que vão a Cristo refere-se àqueles, ‘cujos corações ele inclina e transforma para a obediência a Cristo’.

“’Se o Pai não o trouxer’. ‘Vir a Cristo’, que está sendo usado aqui metaforicamente como ‘crer’ – o Evangelista diz que as pessoas que são atraídas são aquelas cujos entendimentos Deus ilumina, e cujos corações ele inclina e transforma para a obediência a Cristo. A declaração equivale a isto: que não devemos perguntar se muitos se recusam a abraçar o Evangelho; porque nenhum homem, de si mesmo, jamais será capaz de vir a Cristo, mas Deus deve primeiro abordá-lo pelo seu Espírito; e, portanto, segue-se que nem todos são inclinados, a menos que Deus conceda esta graça àqueles a quem ele elegeu” João Calvino.

Ao explicar Isaías 54, verso 13, Calvino infere que a forma de ensino de Deus não consiste ‘simplesmente’ no alerta dos profetas, como se a mensagem de Deus anunciada fosse algo ‘simples’, ‘comum’. Ora, a palavra de Deus é comparável ao fogo e a um martelo, que esmiúça a penha, portanto, a palavra não consiste simplesmente em uma voz exterior “Porventura a minha palavra não é como o fogo, diz o SENHOR, e como um martelo que esmiúça a pedra?” (Jeremias 23:29).

A palavra de Deus é tão efetiva, que o apóstolo Paulo ensina que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Sem a palavra de Deus anunciada por Cristo não há como o Consolador desempenhar o seu papel: convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8).

“A forma de ensino, da qual o profeta fala, não consiste simplesmente na voz exterior, mas igualmente na operação secreta do Espírito Santo. Em suma, este ensinamento de Deus é a iluminação interior do coração” João Calvino.

A palavra de Deus é sobremodo eficaz, e faz o que lhe apraz:

“Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura. Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:2 -3).

Causa estranheza Calvino aplicar Isaías 54, verso 13 à Igreja de Cristo, sendo que esta palavra foi dita aos judeus. Como considerar o contexto de Isaías 54 como se referindo a Igreja, se o texto faz alusão a alguém que foi abandonado por Deus? A Igreja de Cristo em algum momento será abandonado por Deus? A Igreja foi desposada com Deus, ou a Igreja é noiva de Cristo?

“Por um breve momento te deixei, mas com grandes misericórdias te recolherei; Com um pouco de ira escondi a minha face de ti por um momento; mas com benignidade eterna me compadecerei de ti, diz o SENHOR, o teu Redentor. Porque isto será para mim como as águas de Noé; pois jurei que as águas de Noé não passariam mais sobre a terra; assim jurei que não me irarei mais contra ti, nem te repreenderei. Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão abalados; porém a minha benignidade não se apartará de ti, e a aliança da minha paz não mudará, diz o SENHOR que se compadece de ti. Tu, oprimida, arrojada com a tormenta e desconsolada, eis que eu assentarei as tuas pedras com todo o ornamento, e te fundarei sobre as safiras. E farei os teus vitrais de rubis, e as tuas portas de carbúnculos, e todos os teus termos de pedras aprazíveis. E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Isaías 54:7 -13).

Ora, a Igreja é edificada com pedras vivas (1Pe 2:5), e a profecia de Isaías diz de uma cidade edificada com pedras preciosas, e de um povo que foi deixado, e que Deus escondeu o seu rosto (Is 54:8; Dt 32:17). Claramente Deus fala de Israel, e Calvino aplica o texto à Igreja. Comparando Deuteronômio 32 e Isaías 54, verifica-se que que o povo da qual Deus escondeu o seu rosto trata-se de Israel, e não da Igreja.

“’E serão todos ensinados por Deus’. A palavra todos deve ser limitada aos eleitos, os únicos que são os verdadeiros filhos da Igreja. Agora, não é difícil ver de que maneira Cristo aplica esta predição ao presente assunto. Isaías mostra então que a Igreja é somente verdadeiramente edificada, quando ela tem seus filhos ensinados por Deus em Cristo, portanto, conclui que os homens não têm olhos para contemplar a luz da vida, até que Deus lhos abra” João Calvino.

Longe de qualquer cristão afirmar que há poder no livre-arbítrio para salvação, pois o poder para salvação está no evangelho (Rm 1:16-17). As colocações de Calvino são dúbias, pois não é possível saber o que ele entende por ‘fé’. Observe:

“Estas duas cláusulas absolutamente derrubam todo o poder do livre-arbítrio para a salvação, porque se é apenas quando o Pai nos atraiu que começamos a vir a Cristo, não há em nós qualquer início de fé, ou qualquer preparação para isso. Por outro lado, se todo o que vem é porque o Pai lhe ensinou, Ele dá a eles não somente a escolha de crer, mas a própria fé. Quando, portanto, voluntariamente nos rendemos à orientação do Espírito, isto é uma parte, e, por assim dizer, um selo da graça; porque Deus não iria nos chamar, se Ele fosse apenas estender a sua mão, e deixar a nossa vontade, em um estado de suspense. Mas em estrita propriedade de linguagem Ele diz que nos atrai, quando Ele estende o poder do seu Espírito para o efeito pleno da fé” João Calvino (grifo nosso).

Na Bíblia há nítida diferença entre ‘fé’ e ‘crer’, pois este é tradução do verbo πιστός (pistos) e aquele tradução de πίστις (pistis). ‘Pistis’ diz de crença, doutrina, fidelidade, verdade, etc., com um significado secundário como ‘convicção’, ‘acreditar’, etc., com respeito a Deus e à Sua Palavra. ‘Pistos’ significa no sentido ativo, ‘acreditar’, ‘confiar’, e no sentido passivo, “leal, fiel, confiável”.

Hora, Deus dá não somente a escolha de o homem crer na sua palavra, o que denominamos livre-arbítrio, mas também a fé no sentido de crença, doutrina. Primeiro é necessário a palavra da fé, ou a pregação da fé, ou pregação do evangelho (Gálatas 3:2 e 5), pois sem essa ‘fé’ que vem pelo ouvir, é impossível ao homem crer, pois como invocar aquele em quem não crê, e como crerão se não ouviram,  e como ouvirão se não há quem pregue, e como pregarão se não forem enviados?

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:14 -17).

Segundo Calvino, Deus não iria chamar o homem, se tão somente ele apenas estendesse a mão e deixasse o homem responder, mas o apóstolo Paulo deixa claro que é impossível crer naquele de que não ouviram, demonstrando efetivamente que não é bíblica a ideia primeiro o homem precisa ser abordado pelo Seu Espírito através de um poderoso impulso.

É verdade que, de fato, quanto ao tipo de inclinação, esta não é violenta, de modo a obrigar os homens por força externa; mas ainda é um poderoso impulso do Espírito Santo” João Calvino.

Pink repete a essência das palavras de João Calvino:

“Devido à queda de Adão, e por causa do nosso próprio pecado, a nossa natureza se tornou tão corrompida e depravada que é impossível para qualquer homem “vir a Cristo”, amá-lO e serví-lO, estimá-lO mais que tudo neste mundo e submeter-se a Ele, até que o Espírito de Deus o regenere e implante nele uma nova natureza” Arthur W. Pink.

Se João Calvino e Arthur W. Pink estivessem corretos, os termos apresentados pelo apóstolo Paulo deveriam ter outra redação que não essa:

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?”

Em lugar de diz: ‘e como crerão naquele de quem não ouviram’, teríamos que ter: “e como crerão ‘até que o Espírito de Deus o regenere e implante nele uma nova natureza’”?

Como o homem crerá? Basta ouvir acerca d’Aquele que Deus enviou, pois não há nenhuma barreira entre Cristo e os pecadores, o mediador entre Deus e os homens!

Ora, os homens sem Deus procuram por salvação, e essa é a pergunta que fazem:

“E, tirando-os para fora, disse: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?” (Atos 16:30).

A resposta do apóstolo Paulo e Silas, segundo calvinismo, para o carcereiro, deveria ser:

“Nós afirmamos que nenhum homem deseja vir a Cristo por sua própria vontade; não, não somos nós que o dizemos, mas Cristo mesmo declara: “Contudo não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo. 5:40); e enquanto esse “não quereis vir” estiver registrado nas Escrituras nós não podemos ser levados a crer em nenhuma doutrina do livre arbítrio”  Arthur W. Pink.

Ao perguntar o que fazer para ser salvo, o carcereiro queria um caminho de acesso a Deus, momento em que o apóstolo Paulo e Silas recomendou: crê no Senhor Jesus e serás salvo.

“E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa. E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa” (Atos 16:31 -32).

Um calvinista diria ao carcereiro: – ‘Você deve esperar o Espírito Santo te regenerar e dar uma nova natureza, pois só assim você poderá ir a Cristo’; – ‘Você não pode expressar a sua vontade, pois nem mesmo você tem livre-arbítrio, se não for regenerado’.

O apóstolo Paulo passou a pregar a palavra do Senhor porque a ‘fé’ vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.

 

 

[1] < http://www.monergismo.com/textos/depravacao_total/obstaculos_pink.htm > Consulta realizada em 20/12/2017.

[2] “Ele não se limita a acusá-los de impiedade, mas também lembra-lhes, que é um dom peculiar de Deus abraçar a doutrina que é exibida por ele (…)Cristo declara que a doutrina do Evangelho, embora seja pregada a todos sem exceção, não pode ser abraçada por todos, pois uma nova compreensão e uma nova percepção são necessárias; e, por conseguinte, a fé não depende da vontade dos homens, porque é Deus quem a dá.” João Calvino.




A parábola dos gafanhotos do profeta Joel

O estrago descrito pela ação de gafanhotos, remete aos grandes males decorrentes da guerra com as nações estrangeiras e não a legiões de demônios. É uma mentira sem precedentes dizer que cada tipo de gafanhoto representa legiões de demônios, que agem sobre a vida dos homens.


A parábola dos gafanhotos do profeta Joel

Introdução

É absurdo o número de sermões, artigos, livros e exposições que descrevem a visão dos gafanhotos, anunciada pelo profeta Joel, como sendo legiões de demônios que se arremetem contra o patrimônio de crentes não dizimistas.

Uma pesquisa simples na internet retorna inúmeros artigos e livros[1] afirmando, categoricamente, que os gafanhotos são legiões de demônios que agem diretamente no patrimônio das pessoas, destruindo casas, carros, roupas, mantimentos, salários, etc. Que esses demônios provocam desastres de carros, aviões, afundam navios, derrubam prédios, matam pessoas, destroem nações, famílias, igrejas, casamentos e lares.

É isso mesmo, o que a parábola dos gafanhotos anunciada por Joel, representa? Os gafanhotos são demônios?

 

A parábola

“O que ficou da lagarta, o gafanhoto o comeu, o que ficou do gafanhoto, a locusta o comeu e o que ficou da locusta, o pulgão o comeu.” (Jl 1:4)

Antes de analisar o texto, quero tranquilizar o leitor de que as figuras da lagarta, do gafanhoto, da locusta e do pulgão, que compõem a parábola do profeta Joel não são demônios. Qualquer abordagem, nesse sentido, tem por objetivo enganar os incautos, tornando o leigo e neófito presa fácil de homens inescrupulosos ou, no mínimo, ignorantes da verdade bíblica.

A parábola que o profeta Joel anunciou tinha um público específico: os judeus, antes da dispersão. Quando Joel anuncia a mensagem de Deus aos anciões e moradores da terra, não tinha em vista a humanidade, como se estivesse falando do planeta terra, antes, a mensagem tinha por alvo os líderes judaicos e os moradores da terra de Canaã, ou seja, os judeus. (Jl 1:2)

Ampliar o alcance da profecia, para falar aos gentios ou, até mesmo, para falar aos membros da igreja de Cristo, é torcer a mensagem do profeta Joel, pois, o público alvo da mensagem, são os israelitas, conforme se depreende da última frase do verso: ‘… ou, nos dias de vossos pais’, um modo de fazer referência às gerações anteriores dos filhos de Israel.

“Ouvi isto, vós anciãos e escutai, todos os moradores da terra: Porventura, isto aconteceu em vossos dias ou, nos dias de vossos pais?” (Jl 1:2)

Os israelitas deveriam retransmitir a mensagem do profeta Joel, acerca dos gafanhotos, aos seus filhos e os filhos aos seus filhos, para que a mensagem alcançasse as gerações futuras. (Jl 1:3)

E o que seriam os gafanhotos da parábola? A resposta encontra-se no verso 6: uma nação estrangeira poderosa e numerosíssima!

“Porque subiu contra a minha terra uma nação poderosa e sem número; os seus dentes são dentes de leão e têm queixadas de um leão velho.” (Jl 1:6)

O profeta Jeremias, também, fez alusão à invasão estrangeira, utilizando-se de outras figuras:

“Porque visitá-los-ei com quatro gêneros de males, diz o SENHOR: com espada para matar e com cães, para os arrastarem,  com aves dos céus e com animais da terra, para os devorarem e os destruírem.” (Jr 15:3)

A invasão de nações estrangeiras já estava prevista pelo profeta Moisés:

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço; E comerá o fruto dos teus animais e o fruto da tua terra, até que sejas destruído; e não te deixará grão, mosto, nem azeite, nem crias das tuas vacas, nem das tuas ovelhas, até que te haja consumido.” (Dt 28:49-51)

O profeta Joel faz a mesma previsão, porém, compõe uma parábola para facilitar o anúncio dos eventos futuros, dos pais aos filhos. Como alguém se esqueceria de uma parábola que apresenta gafanhotos, que devoram tudo à sua frente?

A invasão dos caldeus é comparada à destruição causada por gafanhotos, pois invadiriam as cidades de Israel, que se assemelhavam ao Éden, das quais, após a invasão babilônica, restaria somente desolação.

“Dia de trevas e de escuridão; dia de nuvens e densas trevas, como a alva espalhada sobre os montes; povo grande e poderoso, qual nunca houve, desde o tempo antigo, nem depois dele haverá pelos anos adiante, de geração em geração. Diante dele um fogo consome e atrás dele uma chama abrasa; a terra diante dele é como o jardim do Éden, mas, atrás dele, um desolado deserto; sim, nada lhe escapará.” (Jl 2:2-3)

A parábola dos gafanhotos serviu ao propósito de ilustrar o predito por Moisés, pois a nação que invadiria Israel devoraria tudo o que os animais e o campo produziam. Não ficaria grão, mosto, azeite e nem crias dos animais, em razão da invasão estrangeira.

A vide e a figueira são figuras que remetem às duas casas dos filhos de Jacó: Judá e Israel, de modo que a profecia e a parábola representam, única e exclusivamente, os filhos de Israel. Colocar os homens ou, os gentios ou, a igreja, como objetos da ação dos gafanhotos, é fantasia da cabeça de alguém mal informado.

Os profetas Isaías e Jeremias comparam as nações estrangeras a bestas feras do campo, em lugar de utilizar-se da figura dos gafanhotos:

“Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” (Is 56:9);

“Por isso, um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias.” (Jr 5:6)

O estrago descrito pela ação de gafanhotos, remete aos grandes males decorrentes da guerra com as nações estrangeiras e não a legiões de demônios. É uma mentira sem precedentes dizer que cada tipo de gafanhoto representa legiões de demônios, que agem sobre a vida dos homens.

Qualquer que diga que o gafanhoto cortador é um tipo de legião de demônios, que age na vida de quem não obedece a Deus, é mentiroso.

Deus amaldiçoou a terra, em função da desobediência de Adão e, por fim, determinou que o homem comeria do suor do seu rosto (Gn 3:17-19). Essa determinação divina recai sobre justos e injustos! Outra maldição que se abateu sobre a humanidade, judeus e gentios, foi a morte, pela qual todos os homens estão alienados da glória de Deus.

Mas, apesar da maldição decorrente da ofensa de Adão, a sorte está lançada sobre o regaço de todos os seus descendentes, sem distinção de justos e injustos “pois o tempo e o acaso afetam a todos, indistintamente” (Pv 9:11). Todos quantos nesta vida trabalharem, tem direito a comer, pois a lei da semeadura é igual para todos: justos e injustos.

Dizer que o gafanhoto cortador atua sobre a vida dos infiéis é falácia. Dizer que parte do que um infiel ganha com o seu trabalho, pertence aos demônios é escabroso, pois do Senhor é a terra e a sua plenitude.

Utilizar Isaías 55, verso 2, para falar de finanças, depõe contra a verdade das Escrituras. Quando Isaías interpela o povo, acerca de gastarem o que ganharam com trabalho naquilo que não é pão, não estava falando de cigarro, bebida, diversão, remédio, etc. Deus estava repreendendo o povo por gastar o que adquiria com sacrifícios, ofertas que não agradavam a Deus (Is 1:11-12; Is 66:3).

O que Deus se agrada e, que verdadeiramente satisfaz o homem, é que se dê ouvidos à palavra de Deus, isso, porque, ‘atender é melhor do que sacrificar’. (1 Sm 15:22) Mas, os filhos de Israel, eram dados aos sacrifícios ou, seja, gastavam o fruto do trabalho com o que não podia satisfazer!

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros.” (1 Sm 15:22)

Já é desatino dizer que o gafanhoto destruidor refere-se às calamidades naturais, desastres, intempéries, etc., mas, aplicar João 10, verso 10, em que o ladrão veio, senão a matar, roubar  e destruir, como sendo ação do diabo, é má leitura eivada de segundas intenções. Dizer que a legião de demônios, que o gafanhoto destruidor representa, é assassinos que cumprem o que diz João 10, verso 10; é nefasto.

O ladrão que Jesus disse que veio matar, roubar e destruir não se refere ao diabo, mas,sim aos líderes de Israel, que vieram antes d’Ele. Os líderes de Israel eram ladrões e salteadores, pois eles agiam antes de Jesus vir, por causa do predito pelos profetas:

“É pois esta casa, que se chama pelo meu nome, uma caverna de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o SENHOR.” (Jr 7:11);

 “Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram.” (Jo 10:8);

O ladrão não vem senão a roubar, a matar e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.” (Jo 10:10);

“E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões. (Mt 21:13)

A conclusão dos preletores que utilizam a parábola dos gafanhotos é mais esdrúxula, ainda, quando propõe uma maneira de vencer os gafanhotos: ser dizimista!

Considerando que os gafanhotos representaram a nação dos caldeus, que invadiu Jerusalém no ano de 586 a.C., quando Nabucodonosor II — imperador babilônico — invadiu o Reino de Judá, destruindo tanto a cidade de Jerusalém, como o Templo, e deportando os judeus para a Mesopotâmia, como fazer para vencer os tais ‘gafanhotos’, se os caldeus estão extintos?

Além de dizerem que os gafanhotos da parábola de Joel são várias espécies de demônios, muitos preletores dizem que a única forma de vencê-los é através da fidelidade nos dízimos e ofertas! Inverdade!

Os filhos de Israel sofreram a invasão das nações estrangeiras, em razão de não terem descansado a terra, segundo a palavra do Senhor, e não em razão de não serem dizimistas, como se lê:

“E espalhar-vos-ei entre as nações, e desembainharei a espada atrás de vós;  a vossa terra será assolada e as vossas cidades serão desertas. Então a terra folgará nos seus sábados, todos os dias da sua assolação e vós estareis na terra dos vossos inimigos; então, a terra descansará e folgará nos seus sábados. Todos os dias da assolação descansará, porque não descansou nos vossos sábados, quando habitáveis nela” (Lv 26:33 -35).

É em função de não terem descansado a terra, que Deus estabeleceu as 70 semanas de Daniel, como registrado no Livro das Crônicas:

“Para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da assolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram.” (2 Cr 36:21).

O reclame de Malaquias, quanto a trazer todos os dízimos à casa do tesouro, se dá muito tempo após a deportação babilônica (Ml 3:10). O profeta Malaquias foi contemporâneo de Esdras e Neemias, no período após o exílio, quando os muros de Jerusalém já estavam reconstruídos, por volta de 445 a.C.

A Bíblia é clara:

“Como ao pássaro o vaguear, como à andorinha o voar, assim a maldição sem causa não virá”. (Pv 26:2)

A maldição que se abateu sobre os filhos de Israel se deu pela ação de demônios? Não! Demônios são malditos por natureza, mas não são a causa de maldições sobre a humanidade. A causa da maldição que se abateu sobre os filhos de Israel foi a desobediência aos preceitos de Deus, entregues por Moisés. A invasão babilônica só ocorreu em função da desobediência de Israel e não pela ação de demônios!

Aos filhos de Israel, Deus propôs bênçãos e maldições e o mote para recebê-las era, respectivamente, obediência e desobediência. A causa da maldição foi a desobediência, pois sem causa não virá maldição.

E quem instituiu a maldição? O próprio Deus!

“Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições e te alcançarão: Maldito serás tu na cidade e maldito serás no campo. Maldito o teu cesto e a tua amassadeira. Maldito o fruto do teu ventre e o fruto da tua terra e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas. Maldito serás ao entrares e maldito serás ao saíres. O SENHOR mandará sobre ti a maldição; a confusão e a derrota em tudo em que puseres a mão para fazer; até que sejas destruído e até que, repentinamente, pereças, por causa da maldade das tuas obras, pelas quais me deixaste.” (Dt 28:15-20)

Certo é que, sem causa, não há maldição!

Contribuição pecuniária para uma determinada instituição não livra ninguém de demônios, maldições, mal olhado, etc. Tais mensagens são engodo para enlaçar os simples. Não é porque não se tem conhecimento, que se não será penalizado:

“O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena.” (Pv 27:12)

Alegar desconhecimento, diante de Deus, não livra ninguém das consequências. Daí a necessidade de o homem estar atento à voz de Deus.

Mas, há quem ouve a palavra de Deus, porém, delibera andar segundo o que propõe o seu coração enganoso, achando que terá paz. Grande engano, pois a benção do Senhor é para aqueles que atendem à Sua palavra.

“E aconteça que, alguém ouvindo as palavras desta maldição, se abençoe no seu coração, dizendo: Terei paz, ainda que ande conforme o parecer do meu coração; para acrescentar à sede, a bebedeira.” (Dt 29:19)

A lição que o crente em Cristo Jesus tira do anunciado na parábola dos gafanhotos é a expressa pelo apóstolo Paulo aos Coríntios:

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram.” (1 Co 10:6).

Para quem crê que Jesus é o Cristo, já não há condenação, e o que lemos dos filhos de Israel é para que não incorramos nos mesmos erros. Se não há condenação para quem é nova criatura, certo é que está escondido com Cristo em Deus, portanto, não tem que ter medo de demônios, maldições, etc.

Quem está em Cristo o maligno não toca, pois está escondido com Cristo, em Deus:

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado, conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca.” (I Jo 5:18);

“Porque já estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus.” (Cl 3:3)

Todos os crentes em Cristo foram abençoados com todas as bênçãos espirituais em Cristo Jesus (Ef 1:3), portanto, não há que temer a ação de demônios.

A única maldição que pode atingir um crente é se deixar enganar por homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente, afastando-se da verdade do evangelho (Ef 4:14; 2 Pe 2:20-21), pois, com relação a todas as coisas, é mais que vencedor, e nenhuma criatura pode separá-lo do amor de Deus, que está em Cristo.

“Mas, em todas estas coisas, somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura, nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8:37-39)

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] Welfany Nolasco Rodrigues, Os Gafanhotos: Cortador, Migrador, Devorador e Destruidor, Varginha/MG, 2014.