Crítica ateísta ao amor de Jesus

Deus não converteu a sabedoria de Nietzsche em estultícia, pois a loucura da qual fala as Escrituras, é figura utilizada pelos profetas, para fazer referência, única e exclusivamente, ao povo de Israel. Portanto, só resta considerar má leitura de Nietzsche, considerar ‘a sabedoria deste mundo’, como sendo a ciência ou, o conhecimento lecionado nas faculdades seculares, fruto tão somente da soberba de Nietzsche, sem qualquer intervenção divina.


Crítica ateísta ao amor de Jesus

Em um site ateísta está estampada a seguinte charge:

“amor cristão — Chega a ser comovente”

Introdução

Em primeiro lugar, vale enfatizar que a sátira ácida do portal é de mau gosto, pois brinca com um ícone da crença de muitas pessoas religiosas do ocidente. Analisando o conteúdo do site, percebe-se que os editores não arriscam fazer o mesmo com personagens históricos de outras religiões, principalmente as orientais, a exemplo do islã, porque são covardes, ante a perspectiva de reprimendas.

Em segundo lugar, fica patente que é impossível satisfazer a gana dos que se declaram ateus, à vista da crítica ácida de um dos seus maiores ícones, o filólogo Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken, 15 de outubro de 1844 — Weimar, 25 de agosto de 1900).

A despeito das divergências, quanto à crença na existência de Deus, antes de qualquer coisa, tenho que louvar a brilhante leitura que Nietzsche fez da sociedade e do homem grego[2], fruto do vislumbre que lhe era peculiar. Em suas obras, se vê leituras da sociedade e questionamentos firmes e objetivos, como esse trecho incrustado na obra, O Anticristo, que aqui destaco:

“O que me importa é o tipo psicológico do Salvador. Esse tipo talvez seja descrito nos evangelhos, apesar de que em uma forma mutilada e saturada de caracteres estrangeiros — isto é, a despeito dos Evangelhos; assim como a figura de Francisco de Assis se apresenta em suas lendas a despeito de suas lendas. A questão não é a veracidade das evidências sobre seus feitos, seus ditos ou sobre como foi sua morte; a questão é se seu tipo, ainda, pode ser compreendido, se foi conservado. Todas as tentativas de que tenho conhecimento, de se ler a história da “alma” nos Evangelhos, revelam para mim, apenas uma lamentável leviandade psicológica” Nietzsche, Friedrich W., O Anticristo.

 

Guerra contra a ciência?

Para alguém que empunhava a flâmula do niilismo[3], Nietzsche não poderia abrir mão de considerar as evidências dos evangelhos acerca dos feitos, ditos e morte de Jesus, lançando-se somente em considerar o que entendia ser importante. Analisar os Evangelhos somente questionando se o tipo ‘psicológico’ do Cristo foi de fato compreendido e a sua essência conservada é atuar num campo restrito de volumosas evidencias. Acostumado que era a atuar no campo da linguagem, Nietzsche esqueceu que a escrita constitui um campo ‘arqueológico’ vasto de evidencias que pode indicar se o tipo do Salvador foi preservado, e se é possível compreende-Lo. Nietzsche confessa, abertamente, que, das obras que se aventuraram explicar os Evangelhos, de que ele teve conhecimento, todos os trabalhos se revelaram infrutíferos ou, em suas palavras: ‘lamentável leviandade psicológica’.

Aquele que sentia arrepios ante uma má leitura do mundo, tornou-se transgressor, pela má leitura que fez dos Evangelhos, bem como das cartas paulinas. Senão, vejamos:

Uma religião como o cristianismo, que não possui um único ponto de contato com a realidade, que se esfacela no momento em que a realidade impõe seus direitos, inevitavelmente será a inimiga mortal da “sabedoria deste mundo”, ou seja, da ciêncianomeará bom tudo que serve para envenenar, caluniar e depreciar toda disciplina intelectual, toda lucidez e retidão em matéria de consciência intelectual, toda frieza nobre e liberdade de espírito. A “fé”, como um imperativo, veta a ciência – in praxi(2), mentir a todo custo… Paulo compreendeu muito bem que a mentira – que a “fé” – era necessária; e posteriormente a Igreja compreendeu Paulo. – O Deus que Paulo inventou, um Deus que “reduz ao absurdo” a “sabedoria deste mundo” (especialmente as duas grandes inimigas da superstição, a filologia e a medicina), é em verdade uma indicação da firme determinação de Paulo para realizar isto: dar o nome de Deus à sua própria vontade, thora(3) – isso é essencialmente judaico. Paulo quer desvalorizar a “sabedoria deste mundo”: seus inimigos são os bons filólogos e médicos da escola alexandrinaa guerra é feita contra eles. De fato, nenhum homem pode ser filólogo e médico sem, ao mesmo tempo, ser anticristo. O filólogo vê por detrás dos “livros sagrados”, o médico vê por detrás da degeneração fisiológica do cristão típico. O médico diz “incurável”; o filólogo diz “fraude”…” Idem. (grifo nosso)

Nietzsche acreditava que o apóstolo dos gentios tinha os filólogos e médicos da escola alexandrina como inimigos e que guerreou contra eles tendo como objetivo desvalorizar a ciência!

Que tremendo desserviço esse comentário do filólogo e teólogo Nietzsche, em que coloca o apóstolo Paulo como contrário à filologia e à medicina dos acadêmicos alexandrinos, por entender que, a ‘sabedoria deste mundo’, a qual o apóstolo faz alusão, se refere ao conhecimento secular que é ensinado nos bancos acadêmicos.

Através de um bom exame do contexto da abordagem paulina, verifica-se que a ‘sabedoria deste mundo’, a qual o apóstolo fez alusão, refere-se à doutrina religiosa judaica e aos seus diversos seguimentos, pois os religiosos judeus consideram a lei mosaica e as suas tradições como ciência.

Eis o que o apóstolo Paulo disse da relação dos religiosos judeus com a lei:

“Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei” (Rm 2:20).

A rejeição do apóstolo Paulo à ‘sabedoria deste mundo’, nem chega a tangenciar o conhecimento que é produzido nos campos acadêmicos, antes, a ‘sabedoria deste mundo’ condenável, refere-se às bases doutrinárias da religião judaica, conforme se lê:

“Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes, pela loucura da pregação” (1 Co 1:20-21);

“Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios, na sua própria astúcia” (1 Co 3:19).

A concepção de que Deus transtornou a sabedoria deste mundo em loucura nem mesmo é do apóstolo Paulo, antes, ele cita, implicitamente, as Escrituras, mais especificamente o profeta Isaías, que denunciou os filhos de Israel, dizendo:

“Que desfaço os sinais dos inventores de mentiras e enlouqueço os adivinhos; que faço tornar atrás os sábios e converto em loucura o conhecimento deles(Is 44:25);

“Portanto, eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; porque a sabedoria dos seus sábios perecerá e o entendimento dos seus prudentes se esconderá(Is 29:14).

O apóstolo Paulo faz referência à doutrina do evangelho como ‘sabedoria’, contrapondo o evangelho com a ‘sabedoria deste mundo’, ou seja, com o conhecimento que os líderes judaicos tinham acerca da lei.

“Todavia, falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se aniquilam” (1 Co 2:6).

Basta ler um pequeno trecho da obra O Anticristo, para constatar que, a despeito da crítica que fez, classificando como ‘lamentável leviandade psicológica’ a abordagem que muitos outros fizeram do evangelho, Nietzsche não soube ler o Novo Testamento, apesar de ter sido bom filólogo em outras áreas do conhecimento humano.

“Não se pode ler o Novo Testamento, sem adquirir uma predileção por tudo que nele é maltratado – para não falar da ‘sabedoria deste mundo’, que um insolente fanfarrão, tenta reduzir a nada, com a ‘loucura da pregação…’” Idem.

 

A sabedoria deste mundo

Para compreender o malogro da interpretação que Nietzsche fez sobre a sabedoria deste mundo que consta no Novo Testamento, vale destacar que, desde Moisés, a nação do apóstolo dos gentios foi constituída guardiã das Escrituras, que vaticinava a vinda do Messias. É em função da promessa do Messias que foi feita ao patriarca Abraão que os seus descendentes foram povo e nação. Mas quando o Cristo (Messias) chegou, rejeitaram-No, por causa do conhecimento equivocado que possuíam das Escrituras. Os ‘sábios’ de Israel foram enlaçados e presos em um conhecimento próprio, o que se denomina ‘loucura’. Os líderes do povo de Israel se intitulava-se sábios, mas rejeitaram o Cristo, a sabedoria de Deus. Conforme foi vaticinado pelos profetas, os filhos de Israel tropeçaram na pedra de tropeço (1 Co 1:18-19). Por causa deste contexto histórico e conforme o predito pelos profetas é que o apóstolo disserta sobre a sabedoria deste mundo.

“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1:22).

Isto não quer dizer que Deus converteu a sabedoria de Nietzsche ou de qualquer homem da ciência em estultícia, pois a loucura da qual fala as Escrituras, é figura utilizada pelos profetas para fazer referência à falta de conhecimento do povo de Israel acerca das coisas de Deus (Jr 5:4). Portanto, Nietzsche fez má leitura ao considerar ‘a sabedoria deste mundo’ como sendo a ciência ou, o conhecimento lecionado nas faculdades seculares. Tal interpretação malograda é fruto tão somente da soberba do filólogo, sem qualquer intervenção divina.

“Aqui, pela primeira vez, toco o problema da psicologia do Salvador. Para começar, confesso que muitos poucos livros, para mim, são mais difíceis de ler do que os Evangelhos”. Idem.

Nietzsche, de outra banda, tropeçou na sua própria soberba, ao achar os Evangelhos uma leitura ruim (entediante, difícil), desclassificando-os.

Assim como a crítica de Nietzsche ao Cristo brotou de uma má leitura dos Evangelhos, a charge no início deste artigo, também, tem origem em uma má leitura dos ensinamentos de Jesus.

Antes de analisarmos a charge, faremos uma pequena digressão, com enfoque no que Nietzsche postulou, acerca do Antigo e do Novo Testamento, em face da má leitura que ele fez da Bíblia. Observe:

“52 – No Antigo Testamento dos judeus, que é o livro da justiça divina, há homens, coisas e discursos de um tão grande estilo, que as literaturas grega e indiana nada têm que se lhe compare. Com receio e veneração, é que nos extasiamos, perante estes vestígios grandiosos do que o homem era no passado e far-se-á uma triste ideia da velha Ásia e da sua península, a Europa, que a todo custo queira representar o ‘progresso do homem’ em relação à Ásia. Positivamente, aquele que não é mais do que um animal doméstico (semelhante aos nossos homens cultos de hoje, incluindo os cristãos do cristianismo ‘culto’), esse não tem de que se espantar e, ainda, menos de que afligir entre essas ruínas – o gosto pelo Antigo Testamento faz-se uma pedra de toque, no que diz respeito ao ‘grande’ e ao ‘pequeno’-; talvez encontre no Novo Testamento, que é o livro da graça, maior conformidade com o seu coração (há nele muito do autêntico cheiro adocicado e sufocante dos beatos e das almas pequenas). Este Novo Testamento, espécie de rococó do gosto, sob todos os aspectos, ter sido reunido com o Antigo Testamento, num só livro, a que se chamou Bíblia, ‘o livro por excelência’, terá sido, talvez, o maior atrevimento, o maior ‘pecado contra o espírito’ que pesa na consciência da Europa literária.” Nietzsche, Friedrich, Para além do bem e do mal, Prelúdio a uma filosofia do futuro, 3ª Ed., Martin Claret, p. 79.

Nietzsche conseguiu ver no Antigo Testamento, pelo fascínio que nutria pelas sociedades aristocratas, a ‘grandiosidade’ das relações retratadas entre os senhores e servos da antiguidade. A análise de Nietzsche tem por base as inúmeras relações entre senhores e servos, reis e súditos, nobres e plebeus, etc., relações que sublinhavam as sociedades retratadas no Antigo Testamento e, por isso, o elogio de que não há nada que se compare em estilo ao Antigo Testamento, nem mesmo as literaturas grega e indiana. No entanto, Nietzsche despreza o Novo Testamento, o que nos causa estranheza, pois quando fez a sua defesa diante do rei Agripa, o apóstolo Paulo enfatizou que não falou nada além do que está registrado no Antigo Testamento. Escapou ao entendimento do filólogo que o Deus do apóstolo Paulo não foi invenção dele, antes, é herança decorrente do Antigo Testamento. O apóstolo Paulo menciona que era hebreu, da tribo de Benjamim e fariseu (estudioso dos Escritos de seus ancestrais), portanto, o Deus do apóstolo dos gentios é o Deus dos hebreus e não uma invencionice tardia.

Escapou ao filólogo a grandeza da linguagem aristocrática que permeia o Novo Testamento que é próprio às sociedades de dois mil anos atrás, isto em função dele ‘calçar luvas’ antes da leitura e, por fim, emitiu a opinião de que os Evangelhos são ‘rococó’.

“Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará” (Jo 12:26).

Os seguidores de Nietzsche, por sua vez, ao desenvolverem uma crítica ao Evangelho de Cristo, através da charge estampada no início deste artigo, quase conseguiram abstrair a essência do Evangelho, o que nos permitiu apresentar uma resposta, ao seguinte questionamento de Nietzsche:

“… a questão é se seu tipo, ainda, pode ser compreendido, se foi conservado.” Idem.

 

O ‘amor’ que é exigido por Jesus

Se o tal ‘ser subterrâneo’[4], como se autodenominou Nietzsche, tivesse cavado, perfurado e corroído o Evangelho como fez com a moral, certamente descobriria que o termo grego ‘ágape’ (amor), não foi utilizado nos Evangelhos segundo uma concepção sentimentalista, que é própria ao homem do nosso tempo. Talvez ele perceberia que o termo ‘ágape’ no Novo Testamento reflete a essência das sociedades aristocráticas, como se observa na seguinte parábola:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro ou, se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Os termos ἀγαπάω (agapaó) e μισέω (miseó), traduzidos, respectivamente, por ‘amar’ e ‘odiar’, estão para ‘obediência’ e ‘desobediência’, assim como ‘dedicar’ e ‘desprezar’. Os termos ἀγαπάω e μισέω, quando empregados na fala de Jesus, não trazem no seu bojo a ideia de sentimento ou de afeição, mas, respectivamente, a ideia de obediência e desobediência.

Jesus, no Novo Testamento, se apresenta como Mestre e Senhor (Jo 13:13) e, questiona aqueles que não O obedecem, mas que chamavam-no  ‘Senhor, Senhor’ (Lc 6:46).

“E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Jesus se apresenta como manso e humilde de coração, no entanto, concita seus ouvintes a se sujeitarem a Ele como servos, tomando o seu jugo e levando o seu fardo.

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt 11:28-30).

Jesus declarou que, aquele que O obedece é o que O ama:

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21; Jo 14:15; Jo 14:23-24).

Na fala de Jesus, inexiste a temida ‘democracia’, tão criticada pela visão nitiniana, antes, afloram, abundantemente, expressões que evidenciam o ‘pathos da distância’[5], pela qual o senhor se sobressai sujeitando o servo, o que era comum às relações sociais à época (Jo 13:13).

Desde o Antigo Testamento, a ideia que o termo hebraico, traduzido por amor, refere-se à relação senhor e servo, como se lê:

 “Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

Deus cuida daqueles que O obedecem, ou seja, Ele demonstra misericórdia (cuidado) aos seus servos, àqueles que lhe obedecem:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e que guardam os meus mandamentos” (Dt 5:10).

A crítica que Nietzsche faz ao cristianismo (entenda-se o bíblico), de que é a religião da compaixão[6], como fruto de um sentimento humano (paixão), é furto de uma má leitura colossal, pois compadecer ou ter misericórdia, em função do contexto bíblico, o termo trás a ideia de ‘obediência’:

“Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender, melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22);

“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

Deus ordenou a Saul que exterminasse da face da terra os amalequitas (1 Sm 15:3). Enquanto Saul matava o povo amalequita, diante de Deus o rei de Israel exercia ‘misericórdia’. Mas, quando poupou Amaleque e o melhor do gado, Saul tornou-se rebelde e iníquo (1 Sm 15:23). Na desobediência de Saul, não houve exercício da ‘misericórdia’, o mesmo que amor (obediência)[7] a Deus.

Como os escribas e fariseus não obedeciam a Deus, Jesus ordenou que fossem e aprendessem o significado de ‘misericórdia quero e não sacrifício’.

“Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não sacrifício. Porque eu não vim chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” (Mt 9:13).

Um religioso do nosso tempo, ao ler essa ordem que Jesus deu aos escribas e fariseus, equivocadamente, considerará que Jesus ordenou aos fariseus que executassem ações com base em um sentimento de dó e de solidariedade ou, que exercessem o perdão de alguma dívida ou, ofensa, com base na indulgência, graça, clemência, compaixão ou, piedade.

No entanto, a ordem: ‘ide e aprendei’, sublinhou o que, de fato, importa: obedecer ao mandamento de Deus, e não seguir preceitos tendo por base sentimentos humanos de afeição!

Jesus nunca se apresentou aos homens como coitado, antes como Senhor:

“Se alguém me serve, siga-me e onde eu estiver, ali estará, também, o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará” (Jo 12:26).

Jesus não se intimidou ante um jovem rico, antes o amou, quando deu uma ordem para que o jovem vendesse tudo o que possuía:

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me (Mc 10:21).

O amor de Jesus não tem por base o sentimento ou, as afeições humanas. O amor é mandamento que expressa o cuidado de Deus. Só estarão ao abrigo da sua proteção aqueles que põem o mandamento de Jesus por obra (Jo 15:10).

 

Cristo é Senhor

Em certa parábola, Jesus se apresenta como Senhor, onde fica nítido que os seus valores não se igualam aos valores dos homens comuns:

“E, recebendo-o, murmuravam contra o pai de família, dizendo: Estes derradeiros trabalharam só uma hora e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia. Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço agravo; não ajustaste, tu comigo, um dinheiro? Toma o que é teu e retira-te; eu quero dar a este derradeiro, tanto como a ti. Ou, não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou, é mau o teu olho, porque eu sou bom? Assim, os derradeiros serão os primeiros e os primeiros, os derradeiros; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mt 20:11-16)

É plenamente lícito a um Senhor, fazer o que bem entende com o que é seu! Percebe-se, no questionamento dos trabalhadores, um mau julgamento, ao exigirem que fossem distinguidos pelo maior tempo de trabalho. De outra banda, os que trabalharam menos e receberam igual salário, poderiam alegar que é imprescindível ao trabalhador tratamento igualitário.

Entretanto, o Senhor se apresenta como o bom, ou seja, o nobre, o bem nascido e não se deixou levar pelo julgamento dos vis, ou seja, dos maus, pelos comuns, pela plebe.

A pessoa que compôs a charge acima desconhece que a essência do amor que Jesus exige não provém do sentimentalismo, e nem é, ao gosto de Nietzsche, dogmatismo ‘religioso’. A fala de Cristo é de aristocrata, pois Ele se apresenta como Senhor e questiona a visão dos trabalhadores, de modo a realizar a sua vontade, ao que os trabalhadores tiveram que se submeter.

Em outra feita, Jesus evidencia que nenhum dos seus ouvintes agradeceria o seu servo por ter feito o que lhe foi ordenado ou, permitiriam que avançassem à mesa para comer antes de prepará-la para o seu senhor. Jesus destaca que deveriam se considerar servos inúteis, quaisquer que se resignarem a fazer somente o que foi mandando pelo seu senhor:

“Porventura, dá graças ao tal servo, porque fez, apenas, o que lhe foi mandado? Creio que não” (Lc 17:9).

Essa é a tônica da mensagem de Jesus:

“Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará, também, o meu servo. E, se alguém me servir, meu Pai o honrará” (Jo 12:26).

O filólogo Nietzsche fez uma leitura acertada das sociedades antigas e conseguiu abstrair a essência dos termos ‘bom’ e ‘ruim’[8]. Pela sua perspicácia, se Nietzsche não tivesse calçado luvas, poderia ter percebido que a essência do amor[9] bíblico no Novo Testamento deriva, originalmente, de um termo que, raramente, era utilizado pelos gregos e que o seu significado original era “honrar”, “dar boas-vindas”, “cumprimentar”, muito diferente da concepção que o homem do nosso tempo atribui ao termo ‘ágape’.

Considerando a composição da charge, o amor de Cristo não é comovente, antes um mandamento: honre-me!

“Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (Jo 5:23).

Quando Jesus utilizou o termo ‘amigo’, não o fez no sentido de amizade entre iguais, antes se refere ao amigo que é o servo ladino, que serve dentro da casa de seu senhor. Para alcançar a posição de amigo, necessário era fazer o que Jesus ordena.

“Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando (Jo 15:14).

Ao lavar os pés aos seus discípulos, muitos entendem que Jesus estava dando uma lição de humildade, porém, o que se depreende do texto é que Jesus estava se apresentando como Senhor e Mestre (Jo 13:13). Quem está na posição de Senhor e Mestre exerce cuidado para com aqueles que lhe é sujeito.

À época, lavar os pés era o ‘ágape’ a ser dispensado aos viajantes, ato essencial à hospitalidade. Ao lavar os pés dos seus discípulos, Jesus impõe aos seus seguidores um mandamento: o dever de cuidarem uns dos outros.

“Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou” (Jo 13:14 -16).

Em cuidarem (ágape) uns dos outros segundo o exemplo e mandamento de Cristo, as pessoas identificariam os discípulos de Cristo, e não através de ideais ascéticos e princípios filosóficos.

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13:35).

 

Amor como mandamento

A charge só teria humor, se o amor que Jesus exige dos homens fosse de cunho sentimental. A segunda parte da charge, considerando, efetivamente o ensino de Cristo, não foi apresentada aos homens desta maneira: ‘me ame ou te mandarei para o inferno’.

Jesus disse que a ninguém julgava, o que foi evidenciado quando não emitiu juízo de valor em desfavor da mulher samaritana, tendo em vista o peso dos valores morais à época. Jesus não julgou porque todos os homens já estão condenados! Seria um contrassenso Jesus julgar quem já foi julgado e apenado com morte (Jo 3:18).

“Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15).

Jesus não manda as pessoas ao inferno, antes elas já nascem condenadas e destinadas ao inferno. A doutrina de Cristo demonstra que salvação ou perdição não decorrem da moral ou do comportamento humano, mas, são condições que os homens adquirem da semente que são gerados (herdam de berço).

Os nascidos do sangue, da vontade da carne ou da vontade do homem são herdeiros da condenação de Adão. Já os nascidos de novo, segundo a semente incorruptível, que é a palavra de Deus, são herdeiros da salvação em Cristo. É a semente da qual os homens nascem que dita quem é salvo ou não.

Da mesma forma que a escravidão ou o principado são questões que se herdam de berço por vínculo de sangue, a perdição é condição de todos os homens que vem ao mundo em função do vínculo de sangue que detém com o pai da humanidade, Adão, que pecou.

A virtude que torna o homem uma nova criatura é desvinculada do moralismo, antes decorre da natureza divina que herdam aqueles que são gerados da semente incorruptível (2Pe 1:4).

A leitura que Nietzsche fez dos Evangelhos e de Cristo, como se este tivesse legado um estilo de vida aos seus seguidores, é completamente equivocada.

“O “portador da boa-nova” morreu assim, como, viveu e ensinou – não para “salvar a humanidade”, mas para demonstrar-lhe como viver. Seu legado ao homem foi um estilo de vida: sua atitude ante os juízes, ante os oficiais, ante seus acusadores – sua atitude perante a cruz. Não resiste; não defende seus direitos; não faz qualquer esforço para evitar a maior das penalidades – ainda mais, a convida… E roga, sofre e ama com aqueles, por aqueles que o maltratam. Não se defender, não se encolerizar, não culpar… Mas igualmente não resistir ao mal – amá-lo…” Idem.

Jesus não instituiu nenhum ideal ascético, nem mesmo estabeleceu um padrão de moral como essência da sua doutrina. Jesus comia e bebia como os demais homens, tanto que foi chamado de comilão e beberrão (Lc 7:34). Jesus se vestia como os demais homens, tanto que era impossível identificá-lo pela roupa (Lc 19:5; Mc 14:44).  Jesus não aderiu às práticas de jejuns, lavagem de mãos, orações nas praças, etc., demonstrando que não era religioso, portanto, ele não legou aos homens um estilo de vida.

Jesus não foi metódico e nem puritano! Os seus seguidores, no primeiro Concílio em Jerusalém, resolveram que não imporiam nenhum encargo aos cristãos convertidos dentre os gentios, o que demonstra que a doutrina de Cristo não é moralizante (At 15:28 -29).

A atitude de Cristo na cruz não foi passiva, antes ativa. Ainda no jardim do Getsêmani, Jesus demonstra o motivo pelo qual não reagiu, pois rejeitou fazer a sua vontade. O fato de Jesus não se opor aos seus algozes demonstra que Ele foi resoluto em obedecer ao mando do Pai.  As ações de Jesus eram todas segundo o que o Pai mandou, de modo que o mundo saberia que Cristo honrou (amou) ao Pai.

“Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Deus havia ordenado ao seu Filho que se portasse como ovelha conduzida ao matadouro, de modo que, pela recompensa que lhe aguardava, suportou as afrontas dos seus opositores (Is 50:6).

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

A crítica de Nietzsche parece sublinhar que ele adquiriu plena compreensão dos Evangelhos e que de sua cúpula podia emitir juízo sobre os meros mortais que, ao longo da historia não compreenderam a mensagem de Cristo.

“Nossa época orgulha-se de seu senso histórico: como, então, se permitiu acreditar que a grosseira fábula do fazedor de milagres e Salvador constitui as origens do cristianismo – e que tudo nele de espiritual e simbólico surgiu apenas, posteriormente? Muito pelo contrário, toda a história do cristianismo – da morte na cruz em diante – é a história de uma incompreensão, progressivamente, grosseira de um simbolismo original”. Nietzsche, Friedrich W., O Anticristo.

O cristianismo fundamenta-se na pessoa de Cristo. Inúmeras incompreensões surgiram posteriormente, pois não deram ouvidos ao alerta paulino, e amalgamaram a um pseudo evangelho conteúdo platonista e aristotélico (Cl 2:8). Se bem analisado, verifica-se que os ideais ascéticos[10] nunca estiveram ligados aos ensinamentos de Cristo.

A doutrina de Cristo é tão somente crer que Ele é o Messias, o enviado de Deus como salvador do mundo decorrente da condenação que se deu no Éden.  Ele se apresentou como o caminho, a verdade e a vida, portanto, nenhuma ascese pode substituí-lo, ou complementar a sua obra.

Jesus não requer dos homens que se afeiçoem a Ele, antes que O obedeçam, e assim, tornam-se servos. Jesus não manda ninguém ao inferno, antes a sua missão, ao requer que os homens O sirvam, é livrá-los da condenação que os destina ao inferno (Jo 12:47).

Jesus não veio ao mundo sensibilizar, comover ou mudar o estilo de vida dos homens, antes veio como cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! Jesus ordena aos homens que O obedeçam, pois só assim não permanecem no caminho de perdição que os conduz ao inferno.

“Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14:24);

“Se me amais, guardai os meus mandamentos” (Jo 14:15).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

Redação e estilo: Jussara Crispim


[1] Charge “< http://ateus.net/humor/cartoons/amor-cristao/ > Consulta em 23/03/17.

[2] A FILOSOFIA NA ERA TRÁGICA DOS GREGOS, Friedrich Nietzsche, Apresentação de Gabriel Valladão Silva, Tradução de Gabriel Valladão Silva, Coleção L&PM Pocket.

[3] Niilismo – ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou, utilidade na existência.

[4] “Neste livro encontra-se agindo um ser ‘subterrâneo’ que cava, perfura e corrói” Nietzsche, Friedrich, Aurora, Prefácio. 2ª Edição, Editora Escala. Pág. 17.

[5] “Nietzsche analisa fisiologicamente a concepção do ressentimento, caracterizando-o como um afeto enfraquecedor ou deprimente que corrói e destrói as estruturas sociais da antiguidade. Ele formulou o conceito de ‘pathos da distância’ para designar outro afeto, fortalecedor e ascendente, que seria próprio a todo tipo nobre que se impõe pela diferença superioridade hierárquica, próprio à necessidade de separação e de organização social, como uma “força organizadora””.

[6] “Chama-se cristianismo a religião da compaixão. – A compaixão está em oposição a todas as paixões tônicas que aumentam a intensidade do sentimento vital: tem ação depressora. O homem perde poder quando se compadece” Nietzsche, Friedrich W., O Anticristo.

[7] A obediência exigida por Deus, que aceita em todas as nossas ações a vontade pelos atos, é um esforço sério de lhe obedecer e é,  também, denominada com todos aqueles nomes que significam esse esforço. E, portanto, a obediência é umas vezes denominada com os nomes de caridade e amor, porque implica a vontade de obedecer e, mesmo nosso Salvador, faz de nosso amor a Deus e ao próximo, um cumprimento de toda a lei”. Hobbes de Malmesbury, Thomas, Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil, Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva.

[8] “O pathos da nobreza e da distância, como já disse o duradouro, dominante sentimento global de uma elevada estirpe senhorial, em sua relação com uma estirpe baixa, com um “sob” eis a origem da oposição “bom” e “ruim”” Nietzsche, Friedrich W., A Genealogia da moral.

“Descobri então que todas elas remetem à mesma transformação conceitual – que, em toda parte, “nobre”, “aristocrático”, no sentido social, é o conceito básico a partir do qual necessariamente se desenvolveu “bom”, no sentido de “espiritualmente nobre”, “aristocrático”, de “espiritualmente bem-nascido”, “espiritualmente privilegiado”: um desenvolvimento que sempre corre paralelo àquele outro que faz “plebeu”, “comum”, “baixo” transmutar-se finalmente em “ruim”” Idem.

[9] “Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701. “agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114. “Na LXX, agapaõ se emprega, de preferência, para traduzir o verbo heb. Ãhèb. O subs. agapè acha aqui a sua origem, ao representar o Heb. ’ah bâk. O vb. Ocorre, muito mais, frequentemente, do que o subs. ’ahèb e pode se referir, tanto a pessoas, como a coisas, e denota, em primeiro lugar, o relacionamento de seres humanos entre si, e, em segundo lugar, o relacionamento entre Deus e o homem (…) Na LXX (Septuaginta), surge diante de nós um quadro bem diferente’; phileõ, ocorre raras vezes, enquanto o vb. agapaõ, e o subs. agapè (doutra forma, quase, inteiramente, desconhecido no Gr.) se acham a cada passo. Não é possível discernir se se empregam conforme regras fixas, pois phileò (30 vezes), tal como agapaò (cerca de 263 vezes), geralmente traduz o Heb. ahèb (e.g. Gn 27:4 e segs.; 37:4 [cf. 37:3]; Is 56:10; Pv 8:17 [cf. 8:21]). Embora o Heb. tenha uma gama inteira de palavras para expressar o conceito contrário do ódio (enquanto a LXX só tem a palavra única miseõ – Inimigo, art. miseõ), tem, virtualmente, a única raiz .ahèb à sua disposição para a gama de sentimentos, que se associam com o amor. O Gr., de outro lado, tem várias raízes e palavras derivadas para expressar as várias matizes do amor: philia (38 vezes), que geralmente traduz ‘aheb, ’ahabâh, é comparativamente rara, embora philos (cerca de 181 vezes), que, geralmente, traduz rèa, embora, frequentemente, sem equivalente heb., seja mais comum na LXX” Idem. Págs. 114 e 121.

[10] “ascetismo – doutrina de pensamento ou de fé que considera a ascese, isto é, a disciplina e o autocontrole estritos do corpo e do espírito, um caminho imprescindível em direção a Deus, à verdade ou à virtude”.




O mito do renovo da águia

O mesmo Senhor que anuncia que ‘todo vale será exaltado’ (Is 40:4), também, anuncia que os que confiam n’Ele renovarão as forças, de modo que subirão com asas como de águias, ou seja, plenos de força, de vigor. A força proporcionada por Deus fará com que os que confiam n’Ele corram e não se cansem, caminhem e não se fatiguem.


O mito do renovo da águia

Introdução

À época do apóstolo Paulo a exposição de fábulas[1] em meio aos cristãos já ganhava notoriedade, tanto que ele alertou os irmãos Timóteo e Tito, a quem incumbia o cuidado de algumas igrejas, acerca dos ‘mitos’ que circulavam entre os primeiros cristãos.

“Nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora (…) Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas e exercita-te a ti mesmo em piedade” (1 Tm 1:4 e 4:7);

“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Tm 4:4);

“Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens, que se desviam da verdade” (Tt 1:14).

A questão é seríssima, pois, o apóstolo Pedro lembra que o poder de Cristo e a sua vinda não foi anunciado aos irmãos através de estórias inventadas (fábulas artificialmente compostas), antes, os apóstolos viram a majestade de Cristo e, por isso, tornaram notório aos homens quem era Jesus de Nazaré: o Filho de Deus (2 Pe 1:17).

“Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas, nós mesmos vimos a sua majestade” (2 Pe 1:16; 1Jo 1:3).

Vale destacar que, lá pelos idos do século VI a. C., viveu entre os gregos um escravo que foi liberto pelo seu senhor: Esopo, um hábil contador de estórias, cujos personagens eram animais[2] e que se encerrava com uma deixa de cunho moral. Esopo foi citado por vários escritores como Heródoto, Aristófanes e Platão e várias de suas estórias foram editadas e citadas por diversos autores.

Muitos escritos judaicos sofreram forte influência das filosofias e dos ensinos pagãos que, pela tradição dos anciãos, foram incorporados à chamada lei oral e, por fim, ao Talmude. Os escritos apócrifos possuem inúmeras estórias fictícias, produto da imaginação humana, mas que utilizam personagens bíblicos como Moisés, Daniel, etc.

Os apóstolos Paulo e Pedro alertam os cristãos contra os mitos judaicos, ou seja, as suas invenções, que tinham por base genealogias, filosofias, mandamentos de homens, misticismo, etc., mas, apesar do alerta, a quantidade de fábulas que, em nossos dias, circulam em meio aos cristãos, é surpreendente.

Dentre elas, destaco a estória da renovação da águia, de autoria desconhecida e muito divulgada nos círculos cristãos, em redes sociais, e, até mesmo, em sermões.

 

O renovo da águia

A primeira informação que o mito da renovação da águia apresenta é acerca da longevidade desse predador: de que a águia possui a maior longevidade entre as aves e, que a média de expectativa de vida de uma águia é de 70 anos. Fontes mais confiáveis afirmam que a média de expectativa de vida da maioria das águias, dependendo da espécie, é de 30 anos, e que grandes águias e abutres podem viver em cativeiro até 60 anos[3].

As asserções seguintes, acerca do renovo da águia, são mais absurdas ainda, pois dá conta que, para atingir a casa dos 70 anos, primeiro a águia precisa tomar uma difícil decisão. Ora, sabemos que os animais, em determinadas fases do seu desenvolvimento, adotam comportamento instintivo[4], portanto, é temeroso o argumento de que um animal deve tomar uma decisão e com um complicador: uma decisão séria e difícil.

A descrição que fazem de uma águia quando envelhece é descabida, pois as unhas de qualquer animal, quando na natureza, são afiadas pelo uso, e, com o passar do tempo, se fortalecem ainda mais. O mesmo principio se aplica ao bico, uma estrutura de queratina com crescimento continuo durante a vida da ave.

Se uma ave de rapina, pela velhice, não consegue agarrar uma presa, não é porque suas unhas se tornaram flexíveis, antes a causa está na falta de agilidade decorrente da debilidade muscular que é próprio à velhice.

As considerações acerca das asas, de que elas se tornam pesadas, em função das penas envelhecidas pelo tempo, também são descabidas, pelas imprecisões terminológicas. Ave alguma arranca as suas penas para renová-las, o que pode ocorrer em função de alguma patologia como o estresse, o que pode ocorrer quando uma ave está em cativeiro.

A águia, como todas as aves, troca as suas penas ao longo da vida, num processo denominado ‘muda’, o que depende do clima, alimentação, período de reprodução, etc., nunca por uma decisão que envolva intencionalidade ou instinto.

A descrição do processo de renovação que o mito da águia apresenta, não encontra paralelo na natureza. Não há achados de penas, bicos ou unhas de águias que comprovem que elas se renovam quando se refugiam no alto dos picos das montanhas, em ninhos construídos próximos a um paredão de pedras.

As aves, geralmente, afiam seus bicos nas pedras, mas a estória do renovo da águia diz que ela arranca o bico batendo na parede de pedra e que espera um novo bico crescer para arrancar as unhas. Ora, bicos e unhas são irrigados com sangue e possuem terminações nervosas, o que impossibilita um animal sadio de se automutilar.

A estória do renovo da água diz que a águia, quando decide não morrer aos 40 anos, arranca as penas com as unhas e a sua restauração se dá através de um processo que dura míseros 150 dias. Vale destacar que uma pena arrancada do seu folículo, se não for naturalmente durante a ‘muda’, demora no mínimo um ano para nascer e o mito do renascimento da águia diz que, após cinco meses, a águia está renascida para o seu ‘famoso’ voo de renovação, quando viverá por mais 30 anos.

 

As Escrituras

Questões da natureza à parte, ou até mesmo referências à mitologia grega, de um pássaro, a fênix, que, quando morria, entrava em autocombustão e, depois de um tempo, renascia das próprias cinzas, voltemos às Escrituras para analisar a figura da águia.

No Pentateuco, ao falar aos filhos de Israel, Deus utiliza as asas da águia para indicar que eles estavam sob a proteção de Deus:

“Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias e vos trouxe a mim” (Êx 19:4);

“Como a águia desperta a sua ninhada, move-se sobre os seus filhos, estende as suas asas, toma-os e os leva sobre as suas asas (Dt 32:11).

A passagem de Deuteronômio evidencia qual a ideia que a frase: ‘levei sobre asas de águia’ evidencia. Os filhos de Israel, ao serem resgatados do Egito, eram uma nação que havia acabado de alcançar a liberdade, portanto, sem experiência e sem condições de se defender, de modo que precisaram da proteção de Deus, assim como um filho necessita do cuidado do pai, ou uma ninhada necessita do cuidado da águia.

Em algumas passagens, a águia é utilizada como figura para fazer referência à rapidez, à velocidade desse predador:

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás” (Dt 28:49; Jr 4:13; Hc 1:8);

“Saul e Jônatas, tão amados e queridos na sua vida, também na sua morte não se separaram; eram mais ligeiros do que as águias, mais fortes do que os leões” (2 Sm 1:23; Jó 9:26).

Outras passagens apontam para a força de destruição dessa ave de rapina:

“Porque assim diz o SENHOR: Eis que voará como a águia e estenderá as suas asas sobre Moabe” (Jr 48:40);

“Eis que ele, como águia subirá, e voará, e estenderá as suas asas contra Bozra; e o coração dos valentes de Edom, naquele dia, será como o coração da mulher que está com dores de parto” (Jr 49:22).

O contexto demonstra que nestes dois versos de Jeremias ‘estender a asa’ significa as nações estão ao alcance da destruição, ou seja, não há escape.

Mas, há dois versos em que a figura da águia aparece em um mesmo verso, com a ideia de renovo:

“Que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia” (Sl 103:5);

“Mas os que esperam no SENHOR renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão” (Is 40:31).

 

Subirão com asas

O profeta Isaías utiliza a figura da águia para descrever aqueles que confiam em Deus: eles renovarão as forças. O verso não diz que os que esperam em Deus se renovarão como águias, antes, que renovarão as forças, pois Deus é o que concede força ao cansado: “Dá força ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor” (Is 40:29).

A abordagem de Isaías deixa evidente que o renovo proposto por Deus é da força e do vigor dos que confiam, o que difere do equivoco de considerar que os que confiam em Deus se renovam como uma águia se renova, o que poderia dar supedâneo à má ideia expressa no mito do renovo da águia.

 

A mocidade renovada

O que entender do Salmo 103, verso 5?

“Que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia” (Sl 103:5);

Como a águia não se renova, certo é que a mocidade não se renova como a da águia, antes, o que se renova é o vigor, a força, segundo o que expressa a tradução do Rei Tiago:

“Ele sacia de bens a tua existência, de maneira que a tua juventude se renova como o vigor de uma águia(Sl 103:5) KJA.

O renovo da águia não possui comprovação cientifica e, muito menos, decorre ou fundamenta-se em alguma asserção das Escrituras. Há farto material na internet que denuncia a farsa que o mito da águia promove, mas poucos se detém a comentar o Salmo 103, verso 5.

O entendimento equivocado acerca da águia, que muitos depreendem e atribuem ao Salmo 103, verso 5, essencialmente decorre de má leitura. A má leitura e a falta de compreensão de alguns, permeia todo o verso.

 

Boca cheia (plena) de bens

Considerando que a vida de um homem não consiste nos bens materiais que possui (Lc 12:15), para que o homem tenha a boca cheia de bens, Deus troca o seu coração, arrancando o coração de pedra herdado de Adão e concede um novo, pois do que há no coração, disso fala a boca: “E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36:26); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mt 12:34).

Ciente dessa verdade, o Salmista roga a Deus que lhe dê um novo coração. Como? Que Deus crie um coração puro, o que contrasta com o antigo coração (Sl 51:10). Os bens, dos quais a boca se torna cheia (plena), referem-se ao louvor que essa boca entoará (Sl 51:15).

A boca plena de bens não diz de riquezas materiais, até porque o êxito de um homem de Deus está em guardar a fé e não em seu poder aquisitivo, para comprar roupas e alimentos: “A bênção do SENHOR é que enriquece; e não traz consigo dores” (Pv 10:22; Hb 13:7).

Um coração enganoso não pode dizer boas coisas, antes produz engano, mentira, pois uma árvore não produz duas qualidades de frutos: bons e maus: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17:9); “Por seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7:16).

Os bens os quais Deus farta a boca, diz de um cântico novo, que só pode entoar aqueles que são gerados de uma semente incorruptível, pois os lábios passam a produzir sacríficio de louvor, o fruto de lábios que confessam que Jesus Cristo é o Senhor (Hb 13:15; Sl 51:14).

Somente aqueles que são plantados por Deus, são árvores de justiça, para que Ele seja glorificado (Jo 15:8; Mt 15:13; Is 60:21 e Is 61:3). Ter a boca cheia de bens só é possível ao novo homem gerado da água e do espírito, pois o novo homem possui o vigor próprio à águia: nunca se cansa e nem se fatiga (Is 40:31).

Jesus convida os cansados e oprimidos, pois Ele diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei” (Mt 11:28).

Vale destacar que Deus não reformula o velho homem, antes é criado um novo homem, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24). Deus não transforma o velho coração, antes cria um novo (Sl 51:10). O corpo do velho homem é desfeito quando crucificado com Cristo, pois é sepultado (Rm 6:4 -6; Cl 2:12; ). Com Cristo, ressurge um novo homem, portanto, não há um renovar mas,  um novo nascimento, uma nova criação (Cl 2:12).

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos de todas as ofensas” (Cl 2:11-13).

O mito do renovo da águia é uma entre milhares de mensagens que circulam nas redes sociais, com viés de autoajuda. Geralmente, ganham versões ilustradas, trilha sonora e voz atraente para capturar a atenção e a credibilidade do ouvinte.

Mas, o alerta é claro:

“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores, conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2Tm 4:4).

O poder do evangelho decorre da cruz de Cristo, e não de estórias, fábulas e mitos. É por isso que o apóstolo Paulo lembra:

“Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” (1Co 1:23);

“Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado (1 Co 2:2);

“A minha palavra e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas, em demonstração de Espírito e de poder” (1 Co 2:4).

Fica o alerta: o evangelho de Cristo não é filosofia de autoajuda, não segue e nem depende da moral humana, porque os caminhos de Deus não seguem o curso deste mundo!

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o SENHOR. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos” (Is 55:8-9).

 


[1] Da palavra grega μῦθος (mýthos), uma estória, uma ficção, um mito, uma invenção.

[2] “As fábulas (do Latim fabula: história, jogo ou narrativa), são composições literárias curtas, escritas em prosa ou versos, em que os personagens são animais, que apresentam características antropomórficas, muito presente na literatura infantil. As fábulas possuem caráter educativo e fazem analogia entre o cotidiano humano, com as histórias vivenciadas pelos personagens, essa analogia é chamada de moral e geralmente, é apresentada no fim da narrativa (…) provérbios sumérios, escritos cerca de 1500 a.C., já compartilhavam semelhanças com as fábulas gregas. Esses provérbios já incluíam em suas narrativas animais antropomórficos e uma lição moral”, cf. Wikipédia.

[3] Kirschbaum, Kari (2004). «EOL Encyclopedia of Life: Accipitridae: Life Expectancy» [S.l.: s.n.] Referência citada na Wikipédia – Consultado em 2016-06-26.

[4] “Instintos são típicos do comportamento animal, sobretudo com relação a comportamentos que favorecem a sobrevivência da espécie (acasalamento, busca de alimento, construção de ninhos, fuga). Os comportamentos instintivos podem assumir formas muito complexas, com longas sequências de ações especializadas para determinados fins (por exemplo, a reprodução e a alimentação de insetos)” Wikipédia.




Cristo – O dom de Deus para salvação

Quando Deus disse a Moisés, que tem misericórdia de quem Ele tiver, Moisés estava querendo e correndo atrás do perdão de Israel. Ora, Moisés não alcançou a misericórdia de Deus para o povo de Israel, pois todos que saíram do Egito, exceto dois, morreram no deserto. Não dependia de Moisés querer ou correr, mas de Deus, que tem misericórdia dos que O amam.


Cristo – O dom de Deus para salvação

O Dr. Arthur W. Pink ao argumentar em defesa da doutrina calvinista, especificamente com relação à soberania divina na reprovação, reitera o seu posicionamento defendido em seu livro, dizendo:

“Novamente; fé é um dom de Deus e o propósito de dá-la somente a alguns, envolve o propósito de não dá-la a outros. Sem fé não há salvação — “Quem crê nele não é condenado” — portanto, se há alguns descendentes de Adão aos quais Ele propôs não dar fé, deve ser porque Ele ordenou que eles deveriam ser condenados” – Arthur W. Pink, A Soberania de Deus na Reprovação[1].

O dom inefável

O Dr. Pink argumenta que a ‘fé é um dom de Deus’. Sem problema algum, pois neste ponto ele cita o apóstolo Paulo aos Efésios, quando diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

O erro surge quando ele diz que Deus dá a fé somente a alguns[2], e que, por conseguinte, Deus se resignou a não dar a fé a outros. Está correto o argumento do Dr. Pink?

O problema do Dr. Pink é de interpretação de texto, pois no verso 5, o apóstolo Paulo afirma que, quando os agora cristãos estavam mortos em ofensas, foram vivificados por Cristo. Neste ponto o apóstolo argumenta: “Pela graça sois salvos”.

Ora, o ato de dar vida ao homem é ação graciosa de Deus, pois quando morto em ofensas, o velho homem foi crucificado com Cristo e sepultado. Neste quesito a justiça de Deus é estabelecida, pois a pena não passa do transgressor, visto que a alma que pecar, essa mesma morrerá.

Quando o homem no pecado morre com Cristo, Deus é justo e não tinha nenhuma obrigação para com os que são crucificados com Cristo, mortos no batismo com Cristo e sepultados. Mas, graciosamente, Deus faz ressurgir da sepultura um novo homem, criado, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade, portanto, na nova criação, Deus é justificador, pois declara o novo homem em Cristo, justo e santo.

Na ressurreição com Cristo, está a graça de Deus, visto que, na morte com Cristo, se opera a justiça de Deus:

“Ou não sabeis que, todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também, em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado. Porque aquele que está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6:3 -8).

Foi cravado na cruz o escrito de dívida que era contra os incircuncisos de coração, sendo que, na cruz, a circuncisão de Cristo foi feita, pois, nela, o corpo do pecado da carne foi desfeito. Após ser sepultado com Cristo, no batismo de sua morte, os que creem foram ressuscitados, de modo que todas as ofensas foram perdoadas.

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão, não feita por mão, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.  E, quando vós estáveis mortos nos pecados e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual, de alguma maneira, nos era contrária e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” (Cl 2:11-14).

Além dos cristãos terem sido ressuscitados com Cristo, Deus os fez assentar nas regiões celestiais em Cristo, ou seja, agora entram no descanso. Ora, este evento de vivificar os que creram e fazê-los assentar-se nas regiões celestiais, será notificado nos séculos vindouros, o quão abundantes são as riquezas da graça, por intermédio de Cristo (Ef 2:7).

Após apontar a benignidade de Deus, em Cristo, o apóstolo Paulo enfatiza, novamente, que, pela graça, os cristãos são salvos. Ora, os cristãos são salvos pela graça, pois a benignidade de Deus em Cristo, nada exige do homem para ser salvo, vez que é impossível ao homem salvar-se a si mesmo.

Mas, apesar de o homem ser salvo pela graça, a salvação é operada por meio da fé, ou seja, algo definido como não proveniente dos homens (não vem de vós), antes diz do dom de Deus.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

O Dr. Pink confunde o ‘dom de Deus’ com a ‘crença’ do homem pela má leitura que faz do texto.

O dom de Deus é Cristo e não a crença do homem, conforme se lê:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (Jo 4:10).

Se a mulher samaritana conhecesse o dom de Deus e soubesse quem lhe pediu água, reconheceria, de pronto, que aquele homem à beira do poço de Jacó era o Cristo, o dom inefável de Deus dado aos homens. Cristo é o dom de Deus dado a todos os homens: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Sem Cristo não há salvação, pois não há entre os homens nenhum outro nome dado pelo qual devamos ser salvos: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4:12); “Sempre dou graças ao meu Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Jesus Cristo” (1Co 1:4).

Isso significa que, pela graça de Deus o homem é salvo, por meio de Cristo, ou como vem expresso no verso: por meio da fé. Ora, quando é dito que o homem é salvo por meio da fé, fé não tem o significado de crença, mas, sim, o significado de O enviado de Deus, pois Cristo é a fé que havia de se manifestar:

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar (Gl 3:23).

Quando lemos: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8), temos que ter a perspicácia de substituir a frase: ‘por meio da fé’, pela frase: ‘por meio daquela fé que se havia de manifestar, que é Cristo, o dom de Deus.

No afã de enfatizar o seu credo, o Dr. Pink não teve o cuidado de observar que o termo traduzido por fé, não se trata de um verbo, mas do substantivo grego πίστις, transliterado pistis. Sem πίστις (fé) não há salvação, mas com πιστεύω (pisteúo=fé, crer, acreditar) ou sem πιστεύω  há salvação, pois Deus é fiel e não pode negar a si mesmo: “Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” (Rm 3:3; 2Tm 2:13).

Quando o apóstolo Paulo faz referência à fé, que por meio dela o homem é salvo, faz menção da fé, que a incredulidade do homem jamais pode aniquilar.

O termo fé foi empregado pelo apóstolo Paulo, no verso 8, do capítulo 2, de Efésios, como figura de linguagem, a metonímia[3] onde, no caso, temos a substituição do autor pela obra: Cristo é o autor e consumador da fé: “Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta e assentou-se à destra do trono de Deus” (Hb 12:2).

Quando Cristo, o dom de Deus, foi concedido, Deus não fez distinção entre homens. Deus amou o mundo, ou seja, todos os povos, nações, tribos e de todas as línguas, pois, sobre isso, vaticinou o profeta:

“Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até a extremidade da terra” (Is 49:6);

“E toda a carne verá a salvação de Deus” (Lc 3:6);

“Porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação, até os confins da terra” (At 13:47);

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tt 2:11).

Segundo o profeta Isaías, Deus se propôs a conceder salvação a todos os descendentes de Adão, ou seja, Deus se propôs a dar fé a todos os homens, do que se conclui que a assertiva do Dr. Pink é equivocada.

A fé foi dada, primeiramente, aos judeus (Jo 1:11), mas, como eles a rejeitaram, ela foi transferida aos gentios:

“Seja-vos, pois, notório que esta salvação de Deus é enviada aos gentios e eles a ouvirão” (At 28:28).

Além de ‘fé’, Cristo também é nomeado de ‘poder de Deus’, ‘sabedoria de Deus’, etc. Sem Cristo não há salvação, o que nos leva a considerar que, sem o poder de Deus, ou sem a sabedoria de Deus, não há como ser salvo.

Daí a máxima:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e, também, do grego” (Rm 1:16).

Ora, o apóstolo Paulo não se envergonhava do evangelho de Cristo, ou seja, da palavra da cruz (1 Co 1:18), da pregação da fé (Gl 3:2), da loucura da pregação (1Co 1:21), pois é poder de Deus para salvação de todo aquele que crer.

A pregação está intimamente ligada à fé, ou seja, a Cristo, de modo que, se a mensagem apregoada não é segundo Cristo, tanto a pregação, quanto aquele que é anunciado, se faz vão. Sabemos que Cristo ressuscitou dentre os mortos, mas se alguém apregoa que Jesus não ressuscitou, a pregação é inútil, bem como o próprio Cristo, se Ele não houvesse ressuscitado: “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação e também é vã a vossa fé” (1 Co 15:14 e 17).

Quando lemos: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pd 1:5), temos que entender que é mediante o evangelho (fé) que os cristãos são guardados para a salvação.

Observe que, pregar com base em sabedoria de palavras e não com base na mensagem da cruz, torna inócua a cruz de Cristo, para quem é anunciado somente em sabedoria de palavras: “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã” (1 Co 1:17).

Embora Deus tenha enviado o seu Filho ao mundo para salvação, aprouve a Deus salvar aqueles que dão crédito à pregação, ou seja, Deus só salva os crentes, não os ouvintes da pregação: “Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1 Co 1:21).

Crer no dom de Deus

Daí a pergunta: “Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR?” (Is 53:1). Embora os filhos de Israel não dessem crédito à pregação, contudo, o braço do Senhor – Cristo – foi manifesto a todos os povos: “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10).

A πιστεύω (pisteúo=crença) jamais precede a πίστις (pistis=fé). A πιστεύω (crença) decorre da πίστις (fé), pois a πίστις remete à verdade, à fidelidade, à lealdade e à imutabilidade de Deus. Tanto que o termo grego πίστις, decorre da raiz de um termo, que significa fidelidade. Segundo o Dicionário Bíblico Strong, o termo fé (πιστις, pistis), entre outras coisas, significa fidelidade, lealdade.

Quando deparamos com a definição: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem” (Hb 11:1), a fé é objetiva, ou seja, é o firme fundamento, algo imutável. O que se espera, diz respeito à crença do homem, que é algo subjetivo, de foro íntimo. A fé é prova, ou seja, algo objetivo, mesmo quando não conseguimos contemplar, ver.

Ora, as Escrituras deixam claro que o firme fundamento é Cristo, pois Ele é a pedra de esquina, no qual aquele que crê não é confundido: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Ef 2:20); “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3:11).

Sem Cristo (fé) é impossível agradar a Deus: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11:6).

Mas, para que alguém creia, primeiro é necessário pregar, pois crer decorre da palavra da fé: “Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos” (Rm 10:8); “Então, ou seja eu, ou sejam eles, assim pregamos e assim haveis crido” (1 Co 15:11).

Só é possível ‘estar em Cristo’, ou seja, ‘ser uma nova criatura’, após ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação e crer: “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1:13).

Daí a exposição paulina aos cristãos em Roma:

“Mas, a justiça que é pela fé, diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo) Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.)” (Rm 10:6-7).

A justiça de Deus não é pela crença do homem, mas pela palavra de Deus, que é firme e fiel: a FÉ. Ou seja, a justiça, que é pela palavra de Deus, protesta contra os homens para não dizerem em seus corações: quem subirá ao céu? Quem descerá ao abismo?

Esta é a palavra firme e fiel, digna de toda aceitação:

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto e tampouco está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem, tampouco, está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós, além do mar, para que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:11-14).

Não crer nesta palavra é injustiça!

A palavra da fé, ou seja, a palavra de Deus é esta:

“Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tm 1:15).

Sobre a palavra da fé, orientou o apóstolo Paulo a Timóteo:

“Propondo estas coisas aos irmãos, serás bom ministro de Jesus Cristo, criado com as palavras da fé e da boa doutrina que tens seguido. Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas e exercita-te a ti mesmo em piedade; porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir. Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação” (1 Tm 4:6-9).

Por que foi dada esta orientação? Porque muitos apostatariam da fé, ou seja, da verdade, da palavra digna de total aceitação! Deixariam a Cristo e seguiriam fábulas de homens corruptos de entendimento.

O termo grego πιστεύω (pisteúo), traduzido por crença, quando empregado nas Escrituras, tem o sentido de obediência. A palavra da fé é que Cristo é o enviado de Deus, que foi morto e ressurgiu ao terceiro dia. Crer nesta mensagem é o mandamento de Deus para que o homem não pereça. A obediência da fé (evangelho) é crer que Jesus é o Senhor e que Deus o ressuscitou entre os mortos.

“Mas, que se manifestou agora e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações, para obediência da fé” (Rm 16:26).

“A saber: se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto, não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10:9-12).

Quem crê em Cristo não perece, antes alcança a vida eterna: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê, já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18). Por que? Porque, quem crê em Jesus, crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho nas Escrituras: “Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e essa vida está em seu Filho” (1 Jo 5:10 -11).

A mensagem apregoada pelos profetas apontava para o Cristo, mas, quando Jesus veio, os homens O rejeitaram; por conseguinte, rejeitaram as Escrituras, pois elas testificam de Cristo: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

Crer em Cristo é obedecer ao mandamento de Deus, ou, segundo uma linguagem própria aos judeus, realizar a obra de Deus: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23); “Jesus respondeu e disse-lhes: a obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29).

Deus só é favorável a quem obedece, ou seja, a quem O ama, a quem realiza a obra, a quem cumpre o mandamento, pois assim está escrito:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

A benevolência de Deus está em Cristo, porém, para alcançá-la, o homem tem que obedecer a Deus, como está escrito:

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam, serão desprezados” (1 Sm 2:30);

“Com o benigno te mostrarás benigno e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro e com o perverso te mostrarás indomável” (Sl 18:25-26).

A mensagem da salvação é direcionada a todos os homens, porém, a salvação é só para os que obedecem, ou seja, para os que creem em Cristo: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem(Hb 5:9).

O Dr. Pink apregoa que Deus salva e reprova os homens segundo a sua Soberania, porém, as Escrituras não dizem assim. Observe:

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará. Guarda, pois, os mandamentos e os estatutos e os juízos que hoje te mando cumprir” (Dt 7:7-11).

Embora Deus seja Deus, ou seja, exerça soberania, contudo, a relação dele com suas criaturas se dá através do amor e do ódio. Quando a Bíblia fala de amor e ódio, não fala de sentimentos, mas, de obediência e desobediência, como se lê:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Desde sempre, Deus se propôs a exercer misericórdia aos que O amam, ou seja, aos que guardam os seus mandamentos e faz perecerem os que O odeiam, ou seja, aos que não guardam os seus mandamentos. Daí a ordem: Guarda, pois os mandamentos!

Deus é fiel à Sua palavra: Ele guarda a aliança e concede a sua misericórdia aos que O amam. Esta lição é incontestável! Mas, quando o povo de Israel não guardou a aliança e desobedeceu a Deus, fazendo um bezerro de ouro, Moisés se interpôs diante de Deus e fez a seguinte oração:

“Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito” (Êx 32:32).

Ora, Deus só risca do livro aquele que pecar, portanto, a oração de Moisés foi descabida e atentatória à justiça de Deus, pelo que Deus respondeu:

“Então, disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” (Ex 32:33).

Em outras palavras, a alma que pecar essa mesma morrerá, ou seja, Moisés não podia perecer no lugar do povo que pecou: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18:20).

Deus concedeu a Moisés que continuasse conduzindo aquele povo, porém, o mal já estava estabelecido: visitarei neles o seu pecado! “Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha visitação, visitarei neles o seu pecado” (Ex 18:34).

Mas, ao dar prosseguimento em sua missão, Moisés roga pela presença de Deus e que considere o povo de Israel, que havia pecado, como o Seu povo (Ex 33:12-13). Deus concede o desejo de Moisés, de mostrar a sua glória, fazendo passar a bondade de Deus e anunciar o nome de Deus perante Moisés (Ex 33:19).

Mas, apesar de Deus conceder o desejo de Moisés, reitera a sua palavra: “… e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Ex 33:19). Onde os calvinistas veem soberania, na verdade é a reiteração de um mandamento: “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Ex 7:7).

De quem Deus tem misericórdia? Deus tem misericórdia dos que O amam, ou seja, dos que guardam o seu mandamento. Quando é dito: ‘terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia’, ocorre uma figura de linguagem conhecida por ‘elipse’, que consiste na supressão de parte da frase, geralmente utilizada por bons escritores, pois intensifica e valoriza a porção restante do discurso.

Deus não utiliza dois pesos e duas medidas: “E orei ao SENHOR meu Deus, confessei e disse: Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” (Dn 9:4).

Jesus mesmo disse que aquele que ama é o que guarda os seus mandamentos: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21). Ora, se tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, certo é que tudo concorre para o bem dos que obedecem a Deus (Rm 8:28).

Aquele que não obedece (ama), não conhece a Deus: “Aquele que não ama, não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 Jo 4:8); “Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:4); “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis e desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16).

De nada adianta o homem dizer que crê em Deus, mas não crê em Cristo, pois a boa obra, segundo o mandamento de Deus, é crer naquele que Ele enviou e, concomitantemente, está crendo em Deus: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas nAquele que me enviou” (Jo 12:44); “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que Ele enviou não credes vós” (Jo 5:38).

Conhecendo a Deus

Observe o seguinte verso:

“Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1Co 8:3).

Como o homem se torna ‘conhecido’ de Deus? Obedecendo-o! Amando-o!

Essa abordagem se faz necessária em função dos equívocos apresentado pelo Dr. Pink no seguinte parágrafo:

“E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7:23). No capítulo anterior foi demonstrado que as palavras “conhecer” e “pré-conhecimento”, quando aplicadas a Deus nas Escrituras, têm referência não, simplesmente, à Sua presciência (isto é, a Seu conhecimento desnudo, de antemão), mas, ao Seu conhecimento de aprovação. Quando Deus disse a Israel: “De todas as famílias da terra, somente a vós (Israel) vos tenho conhecido” (Amós 3:2), é evidente que Ele quis dizer: “Somente vocês têm o meu favor”. Quando lemos em Romanos 11:2: “Deus não rejeitou o seu povo (Israel), o qual de antemão conheceu”, é óbvio que o significado é: “Deus não rejeitou, finalmente, aquele povo que Ele escolheu como objeto de Seu amor — conforme Deuteronômio 7:7,8. Da mesma forma (e é a única forma possível) devemos entender Mateus 7:23. No Dia do Julgamento o Senhor dirá a muitos: “Eu nunca vos conheci”. Observe, é mais do que simplesmente “Eu não vos conheço”. Sua declaração solene será: “Eu nunca vos conheci” — vocês nunca foram os objetos da Minha aprovação. Contraste isto com o “Eu conheço (amo) as Minhas ovelhas e das Minhas sou conhecido (amado)” (João 10:14). As “ovelhas”, Seus eleitos, os “poucos”, Ele “conhece”; mas os réprobos, os não-eleitos, os muitos, Ele não conhece — não, nem mesmo antes da fundação do mundo Ele os conheceu — Ele “NUNCA” os conheceu!” Arthur W. Pink, A Soberania de Deus na Reprovação.

Para o Dr. Pink, ‘conhecer’ é o mesmo que ‘aprovação’, porém, o termo não possui este significado. Na verdade, o termo ‘conhecer’ aplica-se aos que obedecem, aos que amam, no sentido de que se tornaram um com Ele: “Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts 1:8); “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2:3 -4).

Deus tomará vingança dos que não obedecem ao evangelho de Cristo, ou seja, em sentido contrário, os que obedecem ao evangelho se tornam um com o Pai e o Filho, isto é, conheceram a Deus, ou antes, foram conhecidos d’Ele: “Mas, agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gl 4:9); “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (Jo 17:22).

‘Conhecer’ a Deus é se tornar membro do corpo de Cristo, é pertencer à Sua Igreja. ‘Conhecer’ a Deus, ou antes, Deus ‘conhecer’ ao homem, não possui relação com “pré-conhecimento”, “presciência”, “conhecimento desnudo, de antemão”, e nem com “conhecimento de aprovação”, definições utilizadas pelo Dr. Pink para explicar o que não compreende.

Assim, como Adão ‘conheceu’ à sua mulher e se fez uma só carne, um só corpo com ela, aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus, se faz uma só carne, um só corpo com Cristo. “Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos. Por isso, deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja” (Ef 5:30-32).

Quando é dito: “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21), significa que Cristo nunca foi participante do pecado, ou seja, que nunca esteve unido ao pecado.

A doutrina calvinista da reprovação, ou como alguns dizem, preterição, surge da má leitura de alguns termos bíblicos. Na sua grande maioria, os estudiosos leem os termos com a mente do nosso tempo e se esquecem de que os termos têm que ser compreendidos com a mente do homem da época em que o termo foi empregado.

O absurdo de tentar embasar a preterição em passagens bíblicas como Romanos 9, verso 13: “Como está escrito: amei Jacó e aborreci a Esaú”, decorre da má leitura de termos como ‘amar’ e ‘aborrecer’ e de não observar o contexto.

O apóstolo Paulo estava demonstrando que a palavra de Deus não falhou, embora nem todos os pertencentes à comunidade de Israel fossem israelitas, ou seja, não é porque os filhos de Jacó descendiam de Abraão que eram, de fato, filhos de Abraão (Rm 9:6-7).

Como foi dito a Abraão que, em Isaque seria chamada a descendência de Abraão, isso significava que não eram os filhos da carne, que eram filhos de Abraão, mas, sim, os filhos da promessa (Rm 9:8). Em seguida, o apóstolo cita a palavra da promessa que não falhou: “Pois a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei e Sara terá um filho” (Rm 9:9).

Seguindo o raciocínio de que a palavra de Deus não falhou (Rm 9:6), o apóstolo Paulo cita outra promessa, a palavra que foi dita a Rebeca quando concebeu de um só, Isaque (Rm 9:10). Mas, antes de Esaú e Jacó terem nascido, ou feito bem ou mal, Deus disse a Rebeca: “O maior servirá o menor” (Rm 9:12).

Por que foi dita esta palavra a Rebeca? Deus tinha preferência entre os filhos de Rebeca e de Isaque? Não! Foi dito que o ‘maior serviria o menor’ para evidenciar que o propósito de Deus, segundo a eleição, é firme, não por obra, mas pelo que chama.

O propósito de Deus, segundo a eleição, era abençoar o primogênito. Mas, como Esaú desprezou o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, Jacó adquiriu esse direito. Deus deu o que era de direito a Jacó, ou seja, amou a Jacó. Jacó buscou o direito de primogenitura, ou seja, a bênção de Deus e Deus lhe concedeu, enquanto que negou o mesmo direito a Esaú, pois este o desprezara e o vendera a seu irmão mais novo.

A primogenitura era o parametro para a eleição de Deus, e não a sua soberania. Soberanamente, antes de Esaú e Jacó terem nascido, Deus já havia estabelecido abençoar o primogênito.

A escolha do povo de Israel não se deu porque Deus tinha preferência por Israel, em detrimento dos outros povos, pois, em nada Israel era diferente dos outros povos (Dt 9:6), antes, a escolha se deu para que Deus guardasse o juramento feito a Abraão (Dt 9:5).

Quando Deus disse, por intermédio de Malaquias: “Amei a Jacó, mas odiei a Esaú” (v. 13), foi uma resposta ao povo, que questionava de que forma foram amados (Ml 1:2). Deus ‘amou’ Israel, porque guardou o juramento que fizera aos pais, o que significa que a palavra de Deus não falhou (Sl 44:3).

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou, com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” (Dt 7:7-8).

“Será, pois, que, se ouvindo estes juízos, os guardardes e os cumprirdes, o SENHOR teu Deus te guardará a aliança e a misericórdia que jurou a teus pais; E amar-te-á,  abençoar-te-á e te fará multiplicar; abençoará o fruto do teu ventre e o fruto da tua terra, o teu grão e o teu mosto, o teu azeite, a criação das tuas vacas e o rebanho do teu gado miúdo, na terra que jurou a teus pais te dar” (Dt 7:12-13).

Por causa da promessa feita aos pais, Israel foi preservado e Edom, por não ter direito segundo a promessa, tornou-se uma desolação, morada de chacais. A citação de Malaquias evidencia que a palavra de Deus não falhou e não que Deus escolhe alguns para serem salvos e outros destinou à danação.

Há injustiça da parte de Deus, por ter dado a sua palavra aos pais? Não! Pois Deus mesmo disse a Moisés: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9:15).

Deus teve misericórdia da humanidade, quando anunciou o evangelho, primeiramente, a Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gl 3:8). Alguém assim quis, ou correu atrás desta promessa? Não! Conclui-se que a promessa não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que se compadeceu da humanidade (Rm 9:16).

Quando Deus disse a Moisés, que tem misericórdia de quem Ele tiver, Moisés estava querendo e correndo atrás do perdão de Israel. Ora, Moisés não alcançou a misericórdia de Deus para o povo de Israel, pois todos que saíram do Egito, exceto dois, morreram no deserto. Não dependia de Moisés querer ou correr, mas de Deus, que tem misericórdia dos que O amam.

O capítulo 9, de Romanos, foi escrito para demonstrar que a palavra de Deus não falha, mas por má leitura, utilizam-no para endossar doutrinas que não tem por base a fé, que foi dada aos santos.

De cinco termos bíblicos que analisamos: fé, crença, misericórdia, amor e conhecimento, percebe-se que a doutrina anunciada pelo Dr. Pink é resultado de má leitura e de má compreensão de algums termos, ou, de algumas figuras de linguagem, quando empregadas nas Escrituras.


[1] O livro “A Soberania de Deus”, de Arthur Pink foi traduzido para o português e publicado pela Editora Fiel, com o título “Deus é Soberano”, contudo, não consta na versão brasileira o capítulo sobre “A Soberania de Deus na Reprovação”.

[2] “Ele concede o dom da fé para que as pessoas possam crer. Deus dá esta fé só àqueles que Ele tem escolhido e sem dúvidas tem o direito de atuar como e quando quer neste assunto” Pink A. W. Deus é Soberano, Tradução do espanhol para o português realizada por Daniela Raffo, 2007. Arquivo disponível na Web < http://cristaoreformado.com.br/2018/05/10/por-quem-morreu-cristo/?print=print > Consulta realizada em 17/10/15.

[3] “Metonímia ou transnominação é uma figura de linguagem que consiste no emprego de um termo por outro, dada a relação de semelhança entre o segundo e o termo entre as orações, ou a possibilidade de associação entre cinco ou mais figuras de linguagem destes. Por exemplo: “Palácio do Planalto” é usado como um metônimo (uma instância de metonímia) para representar a presidência do Brasil, por ser esse o nome do edifício do governo federal” (Wikipédia).




Aprendendo o temor do Senhor

Temer ao Senhor não consiste em regras do tipo: “Não toques, não proves, não manuseies” ( Cl 2:21 ), antes é obedece-Lo crendo que Jesus é o Cristo, pois este é o Seu mandamento, e obedecer tudo o que Jesus ordenou “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).


Aprendendo o temor do Senhor

“Vinde, meninos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor” ( Sl 34:11)

Ensino do temor

O salmista Davi pelo Espírito Eterno fez o seguinte convite:

Vinde, meninos, e escutai-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor” ( Sl 34:11).

Na plenitude dos tempos Jesus diz:

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” ( Mt 11:29 ).

Somente aqueles que se sujeitam como servos tomando sobre si o jugo de Jesus estão aptos a aprender e encontrar descanso para a alma.

Quando Jesus se apresou aos filhos de Israel, deixou claro que as profecias, a lei e os salmos falavam acerca d’Ele. Os filhos de Israel continuamente examinavam as Escrituras, pois pensavam ter nelas vida eterna, porém, eram essas mesmas Escrituras que testificavam de Cristo e não perceberam, isto conforme o predito pelo Salmista: “Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito” ( Sl 40:7 ); “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (João 5 : 39); “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” ( Lc 24:44 ).

Mas, o que Jesus ensinaria quando em meio aos filhos que Deus lhe concedeu? O temor do Senhor!

“Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu” ( Hb 2:13 ; Is 8:18 ).

No que consiste o ‘temor do Senhor’ que Cristo ensinaria aos filhos (meninos) que Deus lhe deu? A Bíblia dá a resposta:

“O temor do SENHOR é limpo, e permanece eternamente;

os juízos do SENHOR são verdadeiros e justos juntamente” ( Sl 19:9 ).

Através do paralelismo que há no Salmo 19, verso 9, conclui-se que o temor do Senhor é o mesmo que juízos, mandamentos, testemunho, lei, etc.

A Bíblia define o ‘temor’ do Senhor como ‘limpo’ e que ‘permanece para sempre’, o que remete à palavra de Deus, que é pura e permanece para sempre:

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” ( 1Pd 1:23 ).

Ora, apesar de as Escrituras anunciarem que a palavra de Deus é o princípio da sabedoria, há quem define o ‘temor do Senhor’ segundo uma concepção própria e ignora a ênfase que o paralelismo na poesia hebraica evidencia.

O profeta Jeremias vaticinou em nome do Senhor: “Porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” ( Jr 32:40 ), e o Salmista destaca a mesma verdade dizendo: “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 ), tais versos demonstram efetivamente que ‘temor’ é o mesmo que a ‘palavra’, a ‘doutrina’ de Deus.

 

Temor é diferente de horror

Considerando as Escrituras, não posso aceitar que o temor do Senhor é o expresso por A. W. Pink:

“Deus está tão acima de nós que o simples pensamento de Sua majestade nos deveria fazer estremecer. O Seu poder é tão grande que a percepção dele deveria aterrorizar-nos. E Ele é tão inefavelmente Santo, e Seu ódio ao pecado é tão infinito, que o próprio pensamento de atos errados nos deveria encher de horror” Pink. A. W. Enriquecendo-se com a Bíblia, São Paulo: Editora Fiel, 1973.

Deus estabeleceu o amor como base do seu relacionamento com os homens quando entregou o seu único Filho. Como seria possível Deus estabelecer o horror à sua majestade como base de um relacionamento em que o homem necessita confiar n’Ele?

Os homens são ímpios não por não possuírem uma percepção[1] da grandeza de Deus, ou porque não se preocupam com Ele. Os homens são ímpios porque não obedecem a palavra de Deus. Ora, os céus anunciam a gloria de Deus ( Sl 19:1 ), e seu eterno poder e sua divindade se entendem e se veem pelas coisas criadas ( Rm 1:20 ), ou seja, pela natureza é possível ao ímpio uma percepção da grandeza de Deus, no entanto, para salvação é imprescindível que o homem O obedeça.

Os judeus possuíam uma percepção de Deus e até tinham zelo de Deus, porém, não tinham o conhecimento necessário para agradá-Lo ( Rm 10:2 ),

A. W. Tozer escreveu que “… ninguém pode conhecer a verdadeira graça de Deus, se antes não conhecer o temor de Deus”, no entanto, é justamente o contrário: é no temor do Senhor que a graça de Deus é revelada.

Outra frase perigosa diz: “Aquele que sabe o que é ter prazer em Deus temerá sua perda. Aquele que viu sua face, terá medo de suas costas” Richard Alleine. Se o crente tem prazer em Deus, nunca terá medo, pois sabe que nada poderá separá-lo de Cristo e do amor de Deus ( Rm 8:35 -39).

‘Temor’ e ‘temer’ não possuem conotação de medo[2], antes o ‘temor’ refere-se a doutrina de Deus e o ‘temer’ a obediência que lhe é devida. Dizer que o crente não pode ‘temer’ o inimigo porque o ‘temor’ é devido a Deus, é dizer que o ‘medo’ e o ‘temor’ são equivalentes. É admitir que se deve ter medo de Deus. Ao confundir ‘temor’ com ‘medo’ evocam o medo sórdido de Deus, sob a alegação de que Ele é soberano ou porque desconhece os seus desígnios.

Temer ao Senhor não consiste em regras do tipo: “Não toques, não proves, não manuseies” ( Cl 2:21 ), antes é obedece-Lo crendo que Jesus é o Cristo, pois este é o Seu mandamento, e obedecer tudo o que Jesus ordenou “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Ora, o temor a Deus não é dogmatismo religioso, antes o temor a Deus é o que nos torna fiéis[3]. Permanecer no mandamento de Deus é o que torna o homem fiel, ou seja, perseverar até o fim crendo em Cristo.

O que se observa em muitos ensinamentos é que se deve ter medo de Deus, e por fim, apelam para um argumento sutil, mas falho: – “O temor do Senhor não se trata do medo d’Ele, mas de uma reverência piedosa à Sua pessoa e aos Seus mandamentos”[4], que destila medo nos cristãos.

Amados, ouçamos a recomendação do Pregador:

“De tudo o que se tem ouvido, a suma é:

Teme a Deus, e

guarda os seus mandamentos;

porque isto é o dever de todo homem” (Ec 12:13).

A construção da ideia utiliza paralelismo, de modo que ‘teme a Deus’ é equivalente a ‘guardar os seus mandamentos’, o dever de todos os homens!

Ora, o mandamento do Senhor não é penoso, e o apóstolo amado evoca a lei mosaica para declarar esta verdade no advento da Nova Aliança:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados ( 1Jo 5:3 );

“Ora, este mandamento, que hoje te ordeno, não te é difícil demais, nem está longe de ti” ( Dt 30:11).

O apóstolo Paulo cita aos cristãos de Éfeso essa passagem de Deuteronômio demonstrando que não é necessário subir aos céus e nem descer ao abismo para alcançar a justiça da fé, pois a palavra está junto de nós, no coração: e a palavra é Cristo.

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 );

“Mas a justiça que é pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a trazer do alto a Cristo.) Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, a tornar a trazer dentre os mortos a Cristo.) Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” ( Rm 10:6 -10).

Quem obedece (teme) a Deus não tem medo (receio), antes aquele que teme (obedece) lança fora o temor (receio), pois o temor (receio) decorre da pena, e o que teme (tem receio) não é obediente (1Jo 4:18).

Não podemos confundir ‘temor’ a Deus com medo de Deus. A ordem para o povo de Deus é não ter medo: “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” ( Êx 20:20 ).

Quando Deus revela a sua palavra (temor), o objetivo é para que não pequemos “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 ).

 

Para saber mais: Temor e tremor

 


[1] “Esses homens não têm qualquer percepção acerca da majestade de Deus, não tem nenhuma preocupação com a Sua autoridade, não tem qualquer respeito pelos Seus mandamentos, não se alarmam ante o fato de que Ele os julgará” Pink. A. W. Enriquecendo-se com a Bíblia, São Paulo: Editora Fiel, 1973.

[2] Cândido, Levi. Aprendendo o temor do Senhor, artigo disponível na Web < http://filhovarao.blogspot.com.br/2008/11/aprendendo-o-temor-do-senhor-levi.html > Consulta realizada em 16/06/2015.

[3] “O temor reverente de Deus é a chave para a fidelidade em qualquer situação” Redpath, Alan.

[4] “Muitos têm a tendência de minimizar o temor de Deus dos crentes a apenas “respeito” por Ele. Embora respeito faça parte do conceito, temer a Deus na verdade significa mais do que isso. O bíblico temor de Deus, para o crente, inclui a compreensão do quanto Deus odeia o pecado, assim como temer Seu julgamento do pecado – mesmo na vida de um crente. Hebreus 12:5-11 descreve a disciplina de Deus na vida de um crente. Embora sua disciplina seja feita em amor (Hebreus 12:6), ainda é algo atemorizante. Quando crianças, o medo da disciplina de nossos pais preveniu, assim esperamos, algumas ações perversas. Assim também deve ser com o nosso relacionamento com Deus. Devemos temer Sua disciplina e, portanto, procurar viver nossas vidas de uma forma que O agrade” O que significa ter temor a Deus? Artigo disponível na web < https://www.gotquestions.org/Portugues/temor-de-Deus.html > consulta realizada em 22/06/15.




Parasita

‘Pobre’, ‘humilde’, ‘abatido’, etc., não diz de pobreza financeira ou abatimento (humilhação) social! Qualquer que obedece a Deus, quer seja pobre quer seja rico financeiramente, se faz servo, portanto diante de Deus é pobre, humilde, abatido. Só é possível compreender o verso: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ) quando o leitor considera que os que ‘tremem’ da palavra de Deus são os que ‘obedecem’ a Deus.


Parasita

 “Assim diz o SENHOR acerca dos profetas que fazem errar o meu povo, que mordem com os seus dentes, e clamam paz; mas contra aquele que nada lhes dá na boca preparam guerra” ( Ml 3:5 )

“O termo parasita descende do latim parasitus que, por sua vez, deriva do grego παράσιτος (parásitos), ou seja, “aquele que come na mesa de outrem”. O termo grego é composto de παρά (para), “junto a, ao lado” e σῖτος (sitos), “alimento”. O termo acabou por significar o comensal que adulava alguém de alta posição social para que pudesse comer gratuitamente em sua casa” Wikipédia

 

A crônica ‘O parasita’, do escritor Machado de Assis publicada no Jornal O Espelho em 18 de Setembro de 1859, bem como a continuação da crônica publicada em 09 de Outubro de 1859 é uma notável critica social que descreve acertadamente certa classe de indivíduos que ‘infestam’ a sociedade e se instalam principalmente em setores como imprensa, religião e governo.

O cronista trás à baila a existência de ‘ervas parasitas’ que não tiram os seus nutrientes da terra, antes retiram o que lhe é necessário das árvores, e estabelece um paralelo com certos indivíduos que se ‘alimentam’ de estruturas que há na sociedade como a política, a igreja e a literatura (leia-se governo, religião e imprensa).

Deixando de lado o trabalho impecável quanto à crítica social de “O Parasita”, a nossa abordagem tem por alvo somente a citação que o escritor Machado de Assis fez de uma passagem do Novo Testamento. Vejamos:

“(…)

Que gente!

Os tragos fisiológicos do parasita são especiais e característicos. Não podendo imitar os grandes homens pelo talento, copiam na postura e nas maneiras o que acham pelas gravuras e fotografias. Assumem um certo ar pedantesco, tomam um timbre dogmático nas palavras; e, ao contrário do fanqueiro, que tem a espinha dorsal mole e flexível, — ele não se curva nem se torce; a vaidade é o seu espartilho.

Mas, por compensação, há a modéstia nas palavras ou certo abatimento, que faz lembrar esse ninguém elogiado da comedia. Mas ainda assim vem a afetação; o parasita é o primeiro que está cônscio de que é alguma coisa, apesar da sinceridade com que procura pôr-se abaixo de zero.

Pobre gente!

Podiam ser homens de bem, fazer alguma coisa para a sociedade, honrar a musa nacional, contendo-se na sua esfera própria; mas nada, saem uma noite da sua nulidade e vão por aí matando a ferro frio…

É que têm o evangelho diante dos olhos…

Bem-aventurados os pobres de espírito.

O parasita ramifica-se e enrosca-se ainda por todas as vértebras da sociedade. Entra na Igreja, na política e na diplomacia; há laivos dele por toda a parte

(…) ” Obra Completa, Machado de Assis, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994. Publicado originalmente em O Espelho, Rio de Janeiro, 11 e 18/09 e 9, 16 e 30/10/1859.< https://www.passeidireto.com/arquivo/36447602/aquarelas—machado-de-assis > Acesso realizado em 21/07/18.

Ora, que os ‘parasitas sociais’ são ‘pobre gente’, não devemos negar. Talvez esta seja a pior espécie de ‘pobreza’, que de longe não se compara à ‘pobreza’ caracterizada pela falta de recursos financeiros.

Os ‘parasitas sociais’ são indivíduos que, apesar de viverem regaladamente, somente agravam as diferenças socioeconômicas acentuando a percepção da miserabilidade dos que vivem à margem da sociedade.

Em um trabalho anterior, Machado de Assis fez alusão aos ‘mascates literários’ sob o título ‘Os fanqueiros literários’, espécie de indivíduos mais flexíveis que ‘os parasitas’, produzem textos (literatura) que visam somente o lucro, e serve para entorpecer o leitor desavisado. Machado d Assis crítica a este tipo de literatura que imita os ‘espíritos sérios’ dando o nome de ‘ópio encadernado’.

A crítica aos ‘fanqueiros literários’ decorre do que o escritor entendeu ser verdade, mas, a alegação que os ‘parasitas sociais’ são ‘pobre gente’ porque “… têm o evangelho diante dos olhos” é sarcasmo.

Vale esclarecer que o evangelho não promove ‘parasitas’, antes que alguém chegue a esta conclusão guiado pelo sarcasmo machadiano.

O Novo Testamento recomenda aos cristãos que sejam produtivos na sociedade em que estão inseridos. Para ser um cristão (discípulo de Cristo), não basta ter o evangelho diante dos olhos, antes o evangelho é conhecimento intrínseco ao discípulo.

A ociosidade ou o parasitismo não é a temática e nem é promovido pelo evangelho de Cristo conforme se verifica através da seguinte determinação paulina:

“Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão” ( 2Ts 3:10- 12)

O apóstolo Paulo observou que em meio aos cristãos havia alguns que não possuíam uma ocupação. Daí a ordem: – trabalhem com sossego para poder comer o seu próprio pão – ou seja, o evangelho não é conivente com quem se arvora no direito de buscar alimento na mesa alheia ( Pv 28:19 ).

A recomendação do apóstolo é objetiva pelo exemplo que ele apresenta:

“Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós” ( 2Ts 3:8 )

O apóstolo Paulo é contundente com relação àqueles que se propõe a seguir a doutrina de Cristo:

“Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade” ( Ef 4:28 )

Para Machado de Assis o ‘parasita’ é alguém sem talento, mas que imita posturas e maneiras. Para compensar a falta de talento, o parasita é modesto na fala, ou seja, possui tom humilde (abatimento). Sinceramente procura negar que é importante, mas é o primeiro a concluir que de fato é superior, daí a falsidade (afetação).

Ao dizer que as maneiras e a postura do ‘parasita’ se dá por terem o evangelho diante dos olhos, Machado de Assis sarcasticamente denuncia a hipocrisia deles. Daí a pergunta: Os parasitas, por terem o evangelho diante dos olhos, procuram imitar ‘maneiras’ e ‘posturas’ dos bem-aventurados anunciados por Cristo?

Se o leitor da obra de Machado de Assis não observar as nuances do texto, poderá entender que os ‘parasitas’ que sobrevivem à custa da sociedade são assim por procurarem seguir o evangelho, entretanto a abordagem sarcástica de Machado de Assis é desfavorável à hipocrisia dos parasitas que pensam ser alguma coisa.

A citação bíblica: ‘Bem-aventurados os pobres de espírito…’  foi introduzido na crônica somente para servir ao sarcasmo do escritor. A intertextualidade[1] da citação decorre da intencionalidade do escritor que, sem se importar com a significação da frase no contexto do evangelho de Cristo, deu uma nova significação à citação sem se preocupar com o fato de ter subvertido o seu significado.

Portanto, considerando que a afirmação de que os parasitas assim são por procurarem se ajustar à condição de bem-aventurado estabelecida por Cristo, não partiu de um teólogo e tem por finalidade servir ao sarcasmo do autor, a nossa abordagem será apenas de esclarecimento.

“O parasita ramifica-se e enrosca-se ainda por todas as vértebras da sociedade” Idem.

A partir desta frase faremos uma crítica pontual à crônica machadiana pela citação de um verso bíblico.

Segundo Machado de Assis há indivíduos que, como uma planta ‘parasita’ se ramifica e se enrosca por todas as vértebras da sociedade. Se há ‘laivos’ (vestígios) de parasitismo em todas as ‘vértebras da sociedade’, é certo que as estruturas religiosas não se elidem deste mal, quer sejam as religiões ditas cristãs ou as pagãs, mas é possível afirmar que o parasitismo social não surgiu dos ensinamentos de Cristo porque ser religioso não é o mesmo que ser um seguidor de Cristo.

Os ‘parasitas’ se alimentam de toda estrutura que dá sustentação à sociedade, quer sejam religiosas, cientificas, filosóficas, políticas, etc., no entanto, o Senhor Jesus não instituiu nenhuma estrutura religiosa como guardiã dos seus ensinos, e sim homens fiéis. Jesus não flertou com nenhum sistema filosófico, não se filiou a partidos político e nem buscou apoio de qualquer sistema de governo.

Jesus fez parte da cadeia produtiva da sociedade na qual estava inserido, pois exerceu a profissão de carpinteiro até os seus 30 anos de idade, sem falar que a sua nação como escrava era fazia parte da base produtiva de Roma. Todos os discípulos que Jesus escolheu para o seu ministério faziam parte da cadeia produtiva: alguns eram pescadores, outro médico, outro cobrador de impostos, etc.

A seguinte colocação de Machado de Assis: ‘E como não ser assim, se ele não tem outro cuidado nesta vida? e se os limites da mesa redonda são os horizontes das suas aspirações?’ Idem, é um convite à reflexão acerca da pessoa de Jesus e o seu comportamento ministerial.

Durante seu ministério Jesus aceitou vários convites para participar de refeições, porém, a sua postura na mesa não era a de um comensal. Jesus não elogiava e nem adulava os seus anfitriões. Pelo contrário, publicamente Jesus repreendia os religiosos e lideres de Israel pela compreensão equivocada que possuíam em relação ao reino dos céus ( Lc 7:36 -50).

Jesus não estava interessado em comida como os seus concidadãos ( Jo 6:27 ), seu interesse era anunciar as palavras de Deus ( Mt 4:4 ). Jesus também não veio estabelecer regras com relação ao que o homem coloca ou não em sua mesa, pois o reino dos céus não é comida nem bebida “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” ( Rm 14:17 ).

Jesus disse que tinha uma ‘comida a comer’, e em seguida deixou claro que essa comida era realizar a vontade do Pai. Jesus não esteve focado nas questões deste mundo, antes veio para cumprir tudo o que acerca d’Ele foi predito pelos profetas “Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis” ( Jo 4:32 ); “Em seguida, Jesus lhes explicou: São estas as palavras que Eu vos ensinei quando ainda estava entre vós: Era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos!” Lc 24:44 ).

Quando tentado a transformar pedras em pães, Jesus enfatizou o contido nas Escrituras, de que o homem tem vida através da palavra de Deus, demonstrando que está estabelecido nas Escrituras que o homem adquire alimento através do trabalho ( Mt 4:4 ; Gn 3:17 ).

A questão do alimento cotidiano era tão premente na cabeça de seus ouvintes, que Jesus teve que orientá-los a não ficarem preocupados com o que comer ou vestir ( Mt 6:25 ). A preocupação com a escassez de pão tolhia os sentidos, pois esperavam que Deus lhes enviasse um líder, ou um profeta que resolvesse o problema de pão ( Jo 6:14 ).

Assim como os profetas da antiguidade, Jesus utilizou o pão como figura para falar por enigmas ao povo e, até mesmo os seus discípulos concluíam que Jesus estava tratando do pão cotidiano “Entretanto, eles discutiam entre si, dizendo: “É porque não trouxemos pães” ( Mt 16:7 ); “Houve, então, grande discussão entre os judeus e esbravejavam uns com os outros: “Como pode este homem dar-nos a comer a sua própria carne?” ( Jo 6:52 ).

Conhecendo pelas Escrituras a natureza do homem ( Jo 2:25 ), de que todos são ‘mentirosos’ ( Sl 116:11 ; Rm 3:4 ), Jesus enfatizou que tudo o que sai da boca procede do coração, e o que há no coração é o que contamina o homem ( Mt 12:34 ; Mt 15:11 ), perspectiva que norteou o seu ministério, pois só a palavra de Deus concede nova natureza ao homem. Ora, o interesse de Cristo não estava no alimento cotidiano, e sim livrar os homens da condenação decorrente da ofensa de Adão.

Jesus não se utilizou das estruturas sociais estabelecidas para angariar prestigio político e religioso, antes reprovou publicamente os escribas e fariseus por seguirem preceitos religiosos que satisfazia somente o desejo de serem vistos pelos seus semelhantes: desejam os primeiros lugares nas refeições, as primeiras cadeiras nas sinagogas, etc. ( Mt 23:5 -6).Geralmente os judeus convidavam os seus amigos para cear com intuito de serem honrados posteriormente, mas Jesus orientou que convidassem aqueles que não tinham condição financeira de retribuir a honraria ( Lc 14:12 -14).

Jesus deixa claro que os seus seguidores, enquanto neste mundo, seriam perseguidos por causa da Sua doutrina, e sendo rei, Jesus deixou claro que o Seu reino não era deste mundo “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18:36). Cristo não buscou promover a si mesmo, antes buscou realizar a vontade de Deus “Eu não busco a minha glória; há quem a busque, e julgue” (Jo 8:50).

Quem tem o evangelho no coração não tem o apoio dos poderes deste mundo. Os cristãos apoiam-se única e exclusivamente no poder de Deus (evangelho), e não a ‘facilmente manipulável decência moral nos lábios’ Idem “Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu SENHOR. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo 15:20).

Os astuciosos religiosos à época, a contragosto admitiram que Cristo não aceitava ninguém segundo a aparência “E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus” (Lc 20:21).

O evangelho genuíno não possui qualquer elemento que os parasitas possam lançar mão, mas como a fisiologia dos parasitas é a imitação, no máximo o que copiam é a postura e as maneiras dos religiosos. As religiões decorrem de concepções humanas acerca do divino, já o evangelho de Cristo é revelação de um mistério oculto que não possui conexão com a religiosidade humana.

A religião estabelece posturas, maneiras conforme a moral vigente. É ela que concede o timbre dogmático às posturas e modos, o que inexoravelmente será campo fértil aos parasitas.

Machado de Assis apresenta as instituições como árvore onde os parasitas ramificam-se e enroscam-se, enquanto a Bíblia apresenta as pessoas como árvores e, para ter direito ao reino de Deus, é necessário que tal árvore pertença à lavoura de Deus ( Is 63:1 ). João Batista anunciou o veredito de Deus: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ); “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” (Mt 15:13).

Enquanto os ‘parasitas’ são ‘pobre gente’ pelo mal que causam à sociedade, os ‘pobres de espírito’ são descritos como herdeiros de um reino que não tem relação com as estruturas sociais deste mundo. Machado de Assis associa negativamente a ‘pobre gente’ aos ‘pobres de espírito’, enquanto Jesus ensina positivamente que os pobres de espíritos são eleitos de Deus!

A figura do ‘pobre bem-aventurado’ não tem vínculo com questões de ordem econômica, moral ou religiosa, antes se refere ao que foi anunciado pelo profeta Isaías:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” (Is 66:2).

Jesus utilizou os profetas para ensinar à multidão que só é possível alcançar a bem-aventurança obedecendo à palavra de Deus “Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2:5).

Aquele que guarda os mandamentos de Cristo é o que o ama, e a Palavra de Deus garante que quem obedece a Cristo é herdeiro do seu reino, portanto, assume a condição descrita pelos profetas como ‘pobre’: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

A lição de Tiago não tem relação com o evangelho humanista (teologia da libertação[2]) apregoado hoje, antes repete a formula do ensino de Cristo: “Bem-aventurado os pobres de espírito…”. A herança do reino é promessa aos que obedecem a Deus (amam), e que ouve a palavra de Deus, ou seja, são os que reconhecem que não dispõem de recursos para adquirir a vida eterna “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele. Pois a redenção da sua alma é caríssima, e seus recursos acabariam antes” ( Sl 49:7 -8).

Ao analisar a citação do profeta Isaías, devemos fazer e responder algumas perguntas: Para quem Deus ‘olhará’? Ou, seja, a quem Deus é favorável? Ao pobre! Ao abatido de espírito! A quem não tem dinheiro! E quem são os pobres e abatidos de espírito? Os que obedecem à palavra de Deus.

Quem obedece à palavra de Deus se fez servo da justiça, ou seja, abateu-se a si mesmo! ‘Abater-se’ é o mesmo que ‘humilhar-se’, ou seja, sujeitar-se ao senhorio de Deus, obedecendo-O ( Tg 4:7 ). Quem se humilha a si mesmo abriu mão de tudo o que possui ( Mt 19:21 ), portanto, é pobre, abatido ( Sl 51:17 ).

‘Pobre’, ‘humilde’, ‘abatido’, etc., não diz de pobreza financeira ou abatimento (humilhação) social! Qualquer que obedece a Deus, quer seja pobre quer seja rico financeiramente, se faz servo, portanto diante de Deus é pobre, humilde, abatido. Só é possível compreender o verso: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ) quando o leitor considera que os que ‘tremem’ da palavra de Deus são os que ‘obedecem’ a Deus.

A palavra ‘temor’ é figura de instrução, mandamento, e a palavra ‘tremor’ é figura de obediência, sujeição. O significado de ‘temor’ e ‘tremor’ se abstrai do paralelismo existente nas poesias hebraicas, que associa ‘temor’ a doutrina e ‘tremor’ a obediência ( Sl 34:11 ; Pv 1:9 ; Is 66:5 ).

O profeta Isaías faz referencia ao pobre através de um convite gracioso: “Ó VÓS, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” ( Is 55:1 ). Ter sede remete a figura do necessitado, e o que não tem recursos (dinheiro) ao pobre.

Deus convida os necessitados a beberem água, e aos pobres que adquiram e comam sem dinheiro e sem preço vinho e leite. Para os necessitados alcançarem água e os pobres vinho e leite, bastava inclinar os ouvidos que comeriam o que é bom, de modo que seriam felizes (deleite com o que é bom).

Enquanto é feito um convite aos necessitados e pobres, Isaías censura aqueles que têm posses (ricos), pois adquirem o que não podem satisfazer suas necessidades ( Is 55:2 ). Isaías estabelece um contraste entre os que não têm posses e aqueles que têm diante de Deus, de modo que aquele que inclina os ouvidos a voz de Deus são os ‘pobres’, e aqueles que rejeitam a voz de Deus os ‘ricos’.

A figura do ‘pobre’ e do ‘rico’ são enigmas utilizados para demonstrar como o homem alcança o dom de Deus. A palavra de Deus é água que dá refrigério (salvação) ao necessitado. A palavra de Deus é pão que dá vida (salvação) e alegria (vinho e leite). Esta é a bem-aventurança!

Que água Deus estava oferecendo a Israel através de Isaías: Cristo! Cristo é a firme beneficência prometida a Davi ( 2Sm7:13 -14), a fonte de água viva ( Jo 4:14 ).

O jovem rico foi concitado por Jesus a vender tudo o que possuía e, o que fosse arrecadado deveria ser dado aos pobres financeiramente ( Mc 10:21 ). Esta ordem de Cristo contém uma grande lição: é necessário obedecer a Cristo para alcançar o favor divino!

Embora o jovem rico possuísse muitos bens materiais, esses bens não o impediam de entrar no reino dos céus. A riqueza dele consistia em guardar alguns mandamentos desde a sua mocidade, mas não considerou que qualquer que tropeça em um quesito da lei é culpado de toda a lei ( Tg 2:10 ).

O mandamento foi dado: ‘Vende tudo e dá aos pobres’! Se o jovem obedecesse à ordem de Cristo, tornaria servo de Cristo, ou seja, seria abatido de espírito, pois humilhou-se a si mesmo ( 1Jo 5:1 ). Assim como Cristo o amou e deu um mandamento, o jovem deveria obedecer ao mandamento que Cristo deu, pois só ama quem obedece. Ora, o mandamento de Deus é especifico: que creiam no Filho de Deus! ( 1Jo 3:23 )

O jovem rico retirou-se triste. O problema do jovem rico não era as riquezas materiais, e sim não obedecer a Cristo. De modo semelhante, muitos judeus não obedeceram a Cristo, tanto os que possuíam muitos bens como os desprovidos deles, porque não abriam mão de dizer que tinham por pai Abraão, pois julgavam que já estavam ao abrigo da bem-aventurança prometida por Deus.

Os pobres descritos por Jesus como bem-aventurados são aqueles que reconhecem que não possuem recursos para se salvar e, através desta abordagem, fica implícito que qualquer (judeu ou gentio) que obedece ao mandamento de Deus é herdeiro da promessa, pois Deus não faz acepção de pessoas.

As bem-aventuranças anunciadas por Cristo depunha contra os seus ouvintes, uma multidão de judeus. É significativo o fato de a plateia de Cristo ser formada de homens judeus, pois após anunciar as bem-aventuranças, volta-se para os seus ouvintes e faz uma exigência: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ).

Os pobres são apresentados como herdeiros do reino dos céus, mas os ouvintes de Cristo são instados a realizarem obras que exceda a dos seus lideres e mestres religiosos para que possa alcançar a bem-aventurança! Através do anuncio das bem-aventuranças Jesus enfatizou que os judeus estavam em igual condição aos gentios se não obtivessem obras superiores aos escribas e fariseus ( Jo 3:3 ; Mt 5:20 ).

A obra que excede as dos escribas e fariseus é obediência ao mandado de Deus: crer no enviado de Deus. A obra de Deus é perfeita: Cristo! Cristo veio ao mundo revelar aos homens a vontade de Deus e realizar a sua obra! ( Jo 6:29 ) Não basta como os judeus dizer que crê em Deus, antes é necessário realizar o que Ele determina: crer no testemunho que Ele deu acerca do seu Filho Jesus Cristo “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” ( 1Jo 3:18; 1Jo 5:9 -11).

Os judeus diante da mensagem de Cristo não reconheciam que precisavam de salvação, pois entendiam que ser descendente da carne de Abraão era requisito suficiente e imprescindível para ser salvo “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão” ( Jo 8:32 ); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8).

Em lugar de confiarem em Deus, faziam da carne de Abraão o seu ‘braço’ (salvação). Ora, aquele que confia na carne (faz da carne o seu braço) é maldito, pois confia em si mesmo (homem que confia no homem) “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 ; Fl 3:3 ).

Os judeus, por serem descendentes de Abraão, se consideravam bem-aventurados, ricos para com Deus. Não compreenderam que a bem-aventurança prometida por Deus só é concedida aos gerados por Deus participante da carne e do sangue do Descendente prometido a Abraão, que é Cristo.

Por não compreenderem as profecias, os judeus como povo prevaricam nas suas atribuições ( Is 43:27 ). As escrituras eram como um livro selado para eles, daí o porquê eram tidos por cegos, loucos, bêbados, etc. Em lugar de atenderem a voz de Deus que é vinho e leite, beberam dos cachos de uvas de Sodoma e Gomorra “Mas também estes erram por causa do vinho, e com a bebida forte se desencaminham; até o sacerdote e o profeta erram por causa da bebida forte; são absorvidos pelo vinho; desencaminham-se por causa da bebida forte; andam errados na visão e tropeçam no juízo” ( Is 28:7 ); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( Is 59:10 ; Dt 32:28 -32).

Citar o evangelho somente para destilar sarcasmo demonstra que o escritor é só mais um na grande massa de homens que não compreendem o evangelho de Cristo “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” ( 1Co 2:14).

A crítica aos parasitas que infestam as inúmeras estruturas religiosas, quer sejam elas pagãs ou dita cristãs, é válida. Uma análise da sociedade nos revela que os parasitas não poupam as religiões pagãs e nem os sistemas de governos laicos, pois todas as organizações humanas ‘sofrem’ com as ações dos parasitas. Tomando a Igreja Católica Apostólica Romana como exemplo, verifica-se que ela não foi instituída por Cristo como seu corpo e nem o estado do Vaticano como pertencente ao seu reino.

No quesito ‘igreja’, Cristo erigiu o seu próprio corpo: templo santo para habitação de Deus em espírito ( Ef 2:21 ). Após a morte de Cristo, o seu corpo está repartido por todos os cristãos. O corpo de Cristo, a sua igreja, não se trata de uma organização religiosa ou de um estado teocrático onde parasitas possam se instalar. A igreja de Cristo é formada por homens que igualmente confessam que Jesus é o Filho de Deus.

Mas, como Cristo sabia que surgiriam homens que imitariam os seus seguidores, copiando posturas e acrescendo tom dogmático as palavras, ele notificou os seus seguidores a terem cuidado com os falsos profetas, pois só é possível conhecê-los pelo fruto, e não pela aparência ( Mt 7:15 ).

Enquanto os seguidores de Cristo pensam nas coisas de cima, onde Cristo está assentado, os falsos mestres só atentam para as coisas terrenas. Os falsos mestres se infiltram nas comunidades a fim de banquetear-se com os cristãos, mas apascentam a si mesmos “Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Fl 3:19); “Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas” ( Jd 1:12).

‘O parasita’ de Machado de Assis é crítica severa a certas figuras do seu tempo que sobrevivia à custa das instituições. Através do sarcasmo, Machado de Assis tentou driblar a sina de se tornar um ‘fanqueiro literário’, mas sucumbiu ao fado: muitos dos seus trabalhos são ramas que se enroscaram na Bíblia pelo prestigio que ela contém. Ex: Dom Casmurro, Adão e Eva, A Igreja do Diabo, O espelho, Esaú e Jacó, etc.

Reitero que as abordagens de Machado de Assis não são de todo mal do ponto de vista sociocultural, pois a sua produção literária é de grande valor cultural. O mal se instala quando um leitor dos textos de Machado de Assis desconhece a essência dos textos bíblicos que foram utilizados, pois poderá chegar a conclusão que Machado de Assis detinha conhecimento suficiente para interpretar as Escrituras.

 

 

[1] Intertextualidade – é uma referência explícita ou implícita de um texto em outro “Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto. Em lugar da noção de intersubjetividade, instala-se a de intertextualidade” KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974a, p.64,

[2] Teologia da Libertação é um movimento supra-denominacional, apartidário e inclusivista de teologia política, que engloba várias correntes de pensamento que interpretam os ensinamentos de Jesus Cristo em termos de uma libertação de injustas condições econômicas, políticas ou sociais. Ela foi descrita, pelos seus proponentes como reinterpretação analítica e antropológica da fé cristã, em vista dos problemas sociais, mas outros a descrevem como marxismo, relativismo e materialismo cristianizado – Wikipédia<http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_Libertação> consulta realizada em 19/01/15




A soberania de Deus assusta?

Agora, dizer que Deus através da sua soberania ‘ordena’ todo sofrimento é temerário, pois os infortúnios do homem decorrem dos seus próprios erros.


A soberania de Deus assusta?

As emoções humanas

Deparei-me com um texto sob o título ‘Quando a soberania de Deus lhe assusta’, escrito pela Sra. Keri Seavey*, e não pude me furtar a comentá-lo.

O artigo original na língua inglesa encontra-se no seguinte link: < http://thegospelcoalition.org/blogs/tgc/2014/04/28/when-gods-sovereignty-scares-you >, e publicando na língua portuguesa no Blog do Andrew: < http://oblogdoandrew.wordpress.com/2014/04/29/quando-a-soberania-de-deus-lhe-assusta > Consulta realizada em 30/04/14.

A Sra. Seavey conta em seu artigo que ao ouvir uma pregação do seu marido, foi necessário conter a enxurrada de emoções que tentava inundar o seu ser, conforme se lê:

Enquanto ouvia o meu marido pregar no Domingo, eu tentava frear a enxurrada de emoções mistas atravessando a represa interna que ergui. Eu estava espantada, cambaleante por conta da auto-reflexão. Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus” Seavey.

Surpreende-me o argumento:

“Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus”.

É temerário ter conclusões decorrente de uma ‘auto-reflexão’ em momento de forte emoção, mas a alegação de que ela afastou o ‘benefício da dúvida’ confiante de que foi ‘guiada pelo Espírito’ à conclusão de que ‘estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus’, deve ser analisado à luz das Escrituras.

O artigo da Sra. Seavey possui quatro subtítulos, e o último possui argumentação supostamente de cunho teológico que parece ser o fundamento da argumentação dos outros três subtítulos.

 

Deus ordena o sofrimento?

Analisaremos primeiro o último subtítulo “Sofrendo soberano”, onde a Sra. Seavey afirma que as Escrituras revelam ‘Deus como Rei amoroso que ordena e supervisiona todo sofrimento’ Idem. O pronome inclusivo ‘todo’ generaliza a assertiva, e em ‘generalizar’ é grande o risco de cometer um erro.

Se entendermos ‘supervisiona’ todo sofrimento como algo inerente a onisciência de Deus, que tudo vê e tudo sabe, poderíamos entender como verdadeira a segunda parte da assertiva “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” ( Hb 4:13 ).

Agora, dizer que Deus ‘ordena’ todo sofrimento é temerário, pois os infortúnios do homem decorrem dos seus próprios erros.

“De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados ( Lm 3:39 ).

É por isso que o apóstolo instrui dizendo: – “Não erreis’! E o motivo de o homem não errar é específico: tudo o que semeia, ceifará “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” ( Gl 6:7 ).

Deus estabeleceu a lei da semeadura, o que é completamente diferente de ter ‘ordenado todo sofrimento’. E como a colheita é abundante comparado ao que se planta, certo é o ditado: quem planta vento colhe tempestade “Porque semearam vento, e segarão tormenta, não haverá seara, a erva não dará farinha; se a der, tragá-la-ão os estrangeiros” ( Os 8:7 ).

Neste sentido, o sofrimento não é determinado por Deus, visto que não há maldição sem causa “Como ao pássaro o vaguear, como à andorinha o voar, assim a maldição sem causa não virá ( Pv 26:2 ). A morte só entrou no mundo por causa da desobediência de um homem que pecou, Adão ( Rm 5:12 ). O mandamento que foi dado no jardim alertava quanto à maldição que sobreviria sobre o homem, porém, a decisão do homem foi causa da maldição.

Deus é soberano, no entanto, apesar do seu eterno poder, Ele é fiel, justo e reto, ou seja, a ninguém oprime, de modo que jamais ordena o sofrimento de indivíduos em particular “Ao Todo-Poderoso não podemos alcançar; grande é em poder; porém a ninguém oprime em juízo e grandeza de justiça” ( Jó 37:23 ).

A maldição que se abateu sobre a terra se deu em função de Adão ter dado ouvidos à mulher e comido da árvore que lhe foi vetada por Deus, e a maldição atingiu todos os homens. No Éden a dor foi posta como maldição decorrente do pecado, de modo que com dor o homem passou a comer do produto da terra até retornar ao pó da terra “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:17 -19).

Vemos a lei da semeadura aplicada a Israel, pois a rebelião deles trouxe consequência funestas ( Os 8:1 ), ou seja, fizeram um plantio de vento, e a tormenta se abateu sobre eles. Por terem transgredido a aliança é que sobreveio a guerra, a fome e a peste, conforme o testemunho contra os filhos de Israel que consta em Deuteronômio ( Dt 31:19 -21).

Em virtude da palavra de Deus que advertiu que viria um grande mal sobre Israel quando se desviassem do Senhor “Porque eu sei que depois da minha morte certamente vos corrompereis, e vos desviareis do caminho que vos ordenei; então este mal vos alcançará nos últimos dias, quando fizerdes mal aos olhos do SENHOR, para o provocar à ira com a obra das vossas mãos” ( Dt 31:29 ), é que o profeta Habacuque diante da calamidade que se instalava, permaneceu confiante em Deus, pois Ele sabia que a maldição que se abatia sobre o seu povo de Israel era em decorrência da apostasia, e não porque Deus é soberano “Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado; Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação” ( Hc 3:17 -18).

Não foi Deus que estabeleceu o mal sobre o povo de Israel, antes Ele estabeleceu a sua lei para que, ao obedece-la, gozassem o bem, mas ao transgredirem ficaram a mercê das maldições. E qual a causa da maldição? A desobediência à palavra de Deus “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão” ( Dt 28:15 ).

Deus não ordena sofrimento, antes que se obedeça a sua palavra. O que traz sofrimento é a desobediência à palavra de Deus. O medo sobressalta o homem quando se afasta de Deus: “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do deus vivo” ( Hb 3:12 ).

Dizer que Deus ordena todo sofrimento não tem respaldo bíblico. Deus não é a causa do sofrimento, e nem mesmo o fato de deus corrigir é cauda de sofrimento. Deus corrige seus filhos para evitar que sofram. Deus corrige o que ama e açoita a quem recebe por filho, e após ser contristado pela correção, virá alegria pelo fruto pacífico de justiça “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” ( Hb 12:11 ).

A quem Deus recebe por filho? Todos quantos creem em o nome do seu Filho, Jesus Cristo ( Jo 1:12 ). E quem Deus ama? Ora, Deus ama a todos quanto o amam “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” ( Pv 8:17 ).

Há uma confusão em torno do amor de Deus. Primeiro por não compreenderem o significado do termo ‘amor’. Em segundo lugar por não distinguirem passagens bíblicas que abordam o tema com uma linguagem teológica e outras passagens que abordam o tema com uma linguagem evangelística.

João 6, verso 16 expressa o amor de Deus em uma linguagem evangelística: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( Jo 3:16 ). O que entender por mundo? O termo ‘mundo’ não se refere ao ‘cosmos’. O termo é utilizado no sentido de que Deus amou indistintamente todos os povos, nações e línguas, e daí a ordem: – “Ide por todo mundo” “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” ( Mc 16:15 ); “E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim” ( Mt 24:14 ; Mt 28:19 ; “E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” ( Lc 24:47 ),

Mas, como foi dado o amor de Deus? Concedendo aos homens o Seu Filho unigênito (justiça de Deus) para que cressem n’Ele para não perecerem. Em uma linguagem teológica, Deus deu um mandamento pelo qual o homem deva ser salvo, que é: crer naquele que Ele enviou “Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” ( Sl 71:3 ); “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ); “Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador” ( 2Pd 3:2 ).

Ora, o mandamento de Deus é vida “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ), e em última instância, só desfruta do amor de Deus o indivíduo que acata o seu mandamento “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Em João 6, verso 16 temos Deus revelando o seu amor ao mundo, Cristo como esperança da glória. Mas, só desfruta do amor de Deus o indivíduo que ouve a mensagem da cruz e crê que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo, pois só o que ama a Cristo é amado do Pai ( Jo 14:21 ).

 

Soberania

Com relação à fala:

“Se Ele fosse retratado somente como soberano, seríamos tentados a nos afastar dele por medo” Idem, percebe-se que a Sra. Seavey não compreende a soberania. Soberania diz de quem detém domínio sem que haja quem lhe seja igual ou superior, o que não pode ser confundido com tirania.

Deus como soberano (não está sujeito à condições ou encargos postos por outrem, não recebe ordens ou instruções de ninguém) possui poder e a faculdade de impor aos outros um mandamento que demanda obediência, entretanto, resigna-se somente a ensinar ao homem o caminho que deve escolher. Escolher o caminho é faculdade que o homem exerce, pois onde está o espírito do Senhor, ai há liberdade “Qual é o homem que teme ao SENHOR? Ele o ensinará no caminho que deve escolher” ( Sl 25:12 ; 2Co 3:17 ).

Um soberano que impõe medo é aquele que não respeita as suas próprias leis, mas Deus, mesmo possuindo eterno poder, submete-se a sua própria palavra ( Sl 138:2 ; Sl 110:4 ).

Deus é essencialmente bom, ou seja, superior, nobre, excelente “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13); “O SENHOR é bom, ele serve de fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele” ( Na 1:7 ).

Não há fundamentado na Bíblia para ter medo da soberania divina. Tal medo pode existir em se tratando de um sistema de governo humano em que o mais forte oprime o mais fraco. Ter medo de Deus é um sentimento derivado do desconhecimento, de uma impressão ou entendimento equivocado.

Quando não se entende que amor é obediência ao mandamento surge o medo da soberania de Deus “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor” ( 1Jo 4:18 ).

O evangelista João demonstra no verso acima que aquele que ‘obedece’ ao mandamento de Deus não tem medo, pois a obediência lança fora o medo. Por outro lado, o medo decorre da pena, e não de Deus ou do seu mandamento, pois aquele que tem medo é porque não obedece. Quem ama obedece a Deus e constata que Ele dá mandamentos para a vida. Quem é desobediente teme, pois ainda não percebeu que o mandamento de Deus é cuidado.

Ficar aterrorizado com a soberania de Deus é acreditar que Deus é punidor, enquanto a Bíblia diz que Ele é galardoador “… porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” ( Hb 11:6 ).

O medo da Sra. Seavey é infundado por dois motivos:

a) Dá crédito às suas emoções e desconhece que o amor de Deus não é sentimento (subjetivo), e sim, um mandamento (objetivo); e,

b) Desconhece que, na Bíblia, o termo ‘temor’ possui mais de um significado: ‘obediência’ ou ‘medo’, dependendo do contexto.

‘Medo’ diz do sentimento do desobediente em vista da pena, já o ‘temor’ diz da reverencia a Deus por estar com Ele o perdão “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” ( Sl 130:4 ). Com Deus está o perdão para que Ele seja reverenciado, honra, obedecido, etc., já o medo é em vista da punição e não do perdão.

Bem asseverou Moisés ao povo de Israel que não temessem, ou seja, não ficassem amedrontado, antes Deus estava provando o povo para que o ‘temor’ (palavra) dele estivesse diante dos filhos de Israel “E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis ( Êx 20:20 ).

Ora, aquele que esconde a palavra de Deus no coração não peca contra Deus “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” ( Sl 119:11 ). A mesma mensagem foi dada por Moisés ao povo afim de não pecarem: para que o seu temor esteja diante de vós! Aquele que não peca, não tem medo. Adão só teve medo depois que pecou, desobedeceu.

A Bíblia revela que Deus já escolheu o seu Rei, ungindo o Seu Filho conforme o seu decreto: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” ( Sl 2:6 -7).

O Cristo é o Filho de Deus Ungido sobre Israel que exercerá domínio sobre todos os povos, línguas e nações. Quando Cristo se assentar no trono da sua glória a reger as nações ( Mt 19:28 ), aos que se sentirem tentados a se afastarem do Rei estabelecido por Deus fica o alerta: sedes prudentes e deixai-vos instruir, ou seja, operai a vossa salvação com temor e tremor “Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” ( Sl 2:9 -12; Fl 2:12 ).

 

O temor do Senhor

O ‘temor’ do Senhor é a sua palavra, e o ‘tremor’ diz da obediência à sua palavra “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra” ( Is 66:5 ).

Jesus revelou o Pai quando se fez carne ( Jo 1:18 ). No fato de Cristo ter sido encarnado segundo a descendência de Abraão, Isaque e Jacó, nascido na casa de Davi, demonstra a fidelidade de Deus à sua palavra e o seu eterno poder “O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor” ( Rm 1:2 -4).

O Filho, por sua vez, foi revelado aos homens através do testemunho do Pai contido nas Escrituras. As Escrituras descrevem o Cristo de Deus como Servo sofredor, o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele ( Is 53:4 -5). Quando a Bíblia diz que o Senhor é sofredor: “Piedoso e benigno é o SENHOR, sofredor e de grande misericórdia” ( Sl 145:8); “Porém tu, Senhor, és um Deus cheio de compaixão, e piedoso, sofredor, e grande em benignidade e em verdade” ( Sl 86:15 ), é uma referencia a Cristo, o Senhor que se assentou à destra de Deus nas alturas “DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” ( Sl 110:1 ).

Quando a Bíblia assegura a bondade de Cristo, não podemos entender que Ele é condescendente com a desobediência do homem “Ele cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor, e os salvará. O SENHOR guarda a todos os que o amam; mas todos os ímpios serão destruídos” ( Sl 145:19 -20). A bondade e a severidade de Cristo andam de mãos dadas, pois ele salva os que o temem, ou seja, amam, porém, os ímpios serão destruídos “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

 

Na cruz Jesus foi abandonado por Deus?

Dizer que:

“Na cruz, Jesus perdeu a sua intimidade tenra com o Pai em troca da fúria da sua ira feroz. Jesus foi afligido e abandonado pelo seu Pai para que nós nunca estivéssemos sozinhos e abandonados nas nossas aflições” Idem, é anti-bíblico, pois apesar de ser o aflito de Deus, Jesus nunca foi abandonado pelo Pai. Deus nunca escondeu de Cristo o seu rosto, nem mesmo quando Cristo estava pendurado na cruz “Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu” ( Sl 22:24 ).

Foi do agrado de Deus fazer o Cristo enfermar ( Is 53:10 ), e o Cristo, por sua vez, resignou-se como Servo obedecer “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ). Cristo não escolheu sofrer “E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” ( Mt 26:39 ), mas sendo Sevo resignou-se a obedecer.

Ao que se conclui: “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu. E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” ( Hb 5:7 -9). Quando na carne, Cristo com clamor e lágrimas rogou ao Pai que tinha poder de livra-lo da morte, e Ele foi ouvido por ser piedoso, temente a Deus, de modo que a sua alma não foi deixada na morte: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” ( Sl 16:10 ).

Cristo foi ouvido pelo Pai quanto a não ser deixado na morte, porém, Deus sempre esteve com Ele enquanto era afligido “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ).

A invocação do Cristo é bela, pois profeticamente por boca do Salmista disse: “Fira-me o justo, será isso uma benignidade; e repreenda-me, será um excelente óleo, que não me quebrará a cabeça; pois a minha oração também ainda continuará nas suas próprias calamidades” ( Sl 141:5 ).

 

Deus aterroriza as pessoas?

A ‘teologia’ da Sra. Seavey não se sustem diante das Escrituras, de modo que é de se contestar o fato de ela dizer que as suas conclusões foram, sem dúvidas, conduzida pelo Espírito.

“Cheguei à conclusão, sem dúvida de que fui conduzida pelo Espírito, de que eu estava com medo, assustada e aterrorizada por Deus” Idem.

Ora, a função do Espírito Santo é guiar o cristão em toda verdade, de modo que, se a Sra. Seavey estivesse sendo guiada pelo Espírito, não poderia estar à mercê destes equívocos “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir” ( Jo 16:13 ).

A função do Espírito Santo é ensinar em todas as coisas e lembrar-se de tudo o que Cristo disse: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” ( Jo 14:26 ), porém, ao encarar o seu coração, a Sra. Seavey não lembra das Escrituras, e sim das palavras de Aslan, um personagem das Crônicas de Nárnia, que ela cita ‘Ipsis litteris’:

“Seguro?” disse o Sr. Castor, “É claro que ele não é seguro. Mas ele é bom. Ele é o Rei, eu lhe digo.” As Crônicas de Nárnia, C. S. Lewis.

A Bíblia nos garante que Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente, em quem não há mudança nem sombra de variação e vela sobre a sua palavra para a cumprir pois a elevou acima do seu próprio nome. Tem algo mais seguro que Cristo, o firme fundamento? “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” ( Hb 13:8 ); “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” ( Tg 1:17 ; 2Tm 2:19 ).

O Sr. Castor da fábula de Clive Staples Lewis não tem um testemunho seguro sobre o Rei Jesus! O Rei Jesus é totalmente seguro, pois Ele é a Pedra de Esquina “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” ( Is 28:16 ); “Qualquer que cair sobre aquela pedra ficará em pedaços, e aquele sobre quem ela cair será feito em pó” ( Lc 20:18 ).

O apóstolo Pedro aponta como firme as palavras dos profetas, e na condição de apóstolo não ousou compor fábulas para expor o poder contido no Evangelho “E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações” ( 2Pd 1:19 ).

Ora, as Escrituras revelam que o Senhor é bom ( Lc 19:15 ), excelente, superior, distinto, nobre, excelso (diz da sua posição). O homem é concitado a louvá-lo porque Ele é bom e porque a sua benignidade dura para sempre “Louvai ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre” ( Sl 118:29 ). Além de ser bom, o Senhor é pronto a perdoar e a sua benignidade é abundante pra os que o invocam “Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam” ( Sl 86:5 ).

Sob o subtítulo ‘Encarando o meu coração’, a lembrança da Sra. Keri Seavey se socorre de uma fábula engenhosamente composta que não reflete a verdade das Escrituras.

A ordem do Senhor é meditar nas Escrituras continuamente, porém, a Sra. Seavey revela que os seus pensamentos sobre a bondade e o amor de Deus surgiu do ‘agitado rios de confusão do ‘seu’ coração’, o que a levou a ter dúvidas sobre o caráter de Deus.

A resposta do Senhor livra o homem dos seus temores e angustias “Busquei ao SENHOR, e ele me respondeu; livrou-me de todos os meus temores (…) Clamou este pobre, e o SENHOR o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias” ( Sl 34:4 e 6).

Cristo é segurança para os que n’Ele se refugiam, por isso é dito: “Ó! Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia. Temei o Senhor, vos os seus santos” ( Sl 34:8 -9). Mas, só é possível ‘temer’ ao Senhor quando se aprende o temor (palavra) do Senhor “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” ( Sl 34:11 ).

A palavra do Senhor é o que santifica, pois somos limpos por sua palavra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 ); “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” ( Jo 17:17 ).

 

Deus santifica o homem através de mazelas?

Entretanto, parece não ser esta a crença da Sra. Seavey quando pergunta:

“Mas sendo sincera, as coisas que Deus usa para trazer à tona este bem prometido às vezes me aterrorizam. Será que Ele vai me fazer passar por mais um ano escuro para me santificar?” Idem.

Jesus deixou claro que o homem é santificado pela fé n’Ele, e não em sofrimento “Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim” ( At 26:18 ).

Ao citar Romanos 5, verso 3, a Sra. Seavey confunde as vicissitudes da vida com as perseguições por causa do Evangelho. As perseguições promovem a perseverança e evidência à bem-aventurança do cristão que em decorrência das injurias terá grande galardão “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa” ( Mt 5:11 )

As vicissitudes da existência terrena decorrem da ofensa no Éden que trouxe maldição a terra até que o homem torne ao pó da terra, já as tribulações de Romanos 5, verso 3 é para quem já está santificado, pois é trata-se de privilégio o padecer por Cristo “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:17 -19); “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fl 1:29 ).

Observe que qualquer que quiser viver segundo a verdade do evangelho será perseguido: “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” ( 2Tm 3:12 ), o que produz no crente perseverança, experiência e esperança.

O resistir firme na fé é o mesmo que perseverar, sabendo que as mesmas aflições assaltam todos os cristãos no mundo “Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo” ( 1Pd 5:9 ). Estas aflições referem-se à perseguição por causa da palavra, e não se configura em perda de ente queridos, desemprego, falta de pão, doenças, etc.

A perseguição por causa do evangelho causa aflição, porém, a aflição que sobrevêm aos que querem viver piamente não tem relação com o dia da adversidade estabelecido por Deus em oposição ao dia da bonança. O dia da adversidade possui objetivo definido: para que o homem não saiba o que há de vir depois. Já a aflição por causa do evangelho se dá por causa da palavra “Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro” ( Rm 8:36 ; El 7:14 ).

As Escrituras mostram que o mal veio sobre o povo de Israel somente para confirmar o que anteriormente Deus havia dito pelos seus santos profetas no caso de desobediência, ou seja, estavam colhendo o que plantaram “E ele confirmou a sua palavra, que falou contra nós, e contra os nossos juízes que nos julgavam, trazendo sobre nós um grande mal; porquanto debaixo de todo o céu nunca se fez como se tem feito em Jerusalém” ( Dn 9:12 ).

Entretanto, quanto mais eram corrigidos, mais o povo de Israel se distanciava de Deus. O mal que sobreveio sobre o povo de Israel era um sinal da parte de Deus de que precisavam se arrepender e se voltar para Deus “Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco” ( Is 1:5 ).

O que se observa através do mal decretado diante da desobediência do povo de Israel é a longanimidade de Deus através da correção apontando a felicidade do povo de Israel “Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e andai em todo o caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem” ( Jr 7:23 ), entretanto, a consideração da Sra. Seavy sobre a soberania de Deus causar ‘medo’ retrata o Criador como um déspota.

Não sei onde nas Escrituras que a Sra. Seavy leu e abstraiu o pensamento de que ‘A Bíblia afirma com firmeza que na sabedoria soberana de Deus, Ele pode propositadamente ordenar aquilo que mais tememos’ Idem.

O subtítulo do artigo em comento ‘Dores passadas, medos futuros’ faz referência a uma concepção de um místico, São João da Cruz, expressa em um poema de título “A noite escura da alma”. O que seria esta noite? Seria a ausência de Deus na vida daquele que nutre uma crença. O indivíduo sente como se Deus o tivesse abandonado ou como se sua vida de prece tivesse entrado em colapso pelo sobressalto das dúvidas.

 

Pode a fé ser obscura?

O Pe. Elílio de Faria Matos Júnior, ao falar das Provações da Madre Teresa Calcutá, fez a seguinte análise:

“São João da Cruz (séc. XVI), um dos maiores místicos da Igreja, ensina que sem “noites escuras” não se pode aproximar de Deus como convém. “Noite escura” é o termo que o santo doutor achou para, metaforicamente, falar do processo de purificação da alma, que se dá na obscuridade da fé e que nos dispõe para o matrimônio místico com o Senhor.” Provações de Madre Teresa de Calcutá < http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/elilio/24.htm > Consultado em 02/05/14.

O poema de São João da Cruz aponta um caminho mítico até Deus, onde é abordadas questões como os vícios capitais, tais como a soberba, a avareza, a luxuria, a ira, a preguiça, etc.

“A cada passo tropeçava com mil imperfeições e ignorâncias, como já mostramos a propósito dos sete vícios capitais” São João da Cruz, A noite escura da alma, Capítulo XI, 3º parágrafo.

Para São João da Cruz a porta e o caminho estreito da qual Cristo fez referência no Sermão do Monte seria a ‘noite escura’.

“… entrando por esta ‘porta apertada e este caminho estreito que conduz à vida’, conforme diz Nosso Senhor (Mt 7, 14). A ‘porta apertada’ é esta noite do sentido do qual a alma é despida e despojada para poder entrar firmando-se na fé, que é alheia a todo o sentido, a fim de caminhar depois pelo ‘caminho estreito’ que é a outra noite, a do espírito” Idem.

Há equívocos absurdos na abordagem de São João da Cruz, visto que Cristo é a porta estreita e o caminho apertado que conduz o homem a Deus ( Jo 10:9 ). Jesus se apresentou como a luz do mundo, e que n’Ele anda não estará em trevas ( Jo 12:46 ). O apóstolo Paulo enfatiza que os que creem pertencem ao dia, e não as trevas.

“Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” ( 1Ts 5:5 ).

Mas, deixemos as mitificações de São João da Cruz de lado, e analisemos a atitude da Sra. Seavey quando enfrentou a chamada ‘noite escura da alma’. Ela enfatiza que ‘fez tudo o que sabia para mudar o seu coração’, e passou a sondar minunciosamente, ela mesma, o seu coração em busca de ‘pecados ocultos’.

Apóstolo Paulo alerta: “E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” ( 1Co 8:2 ). Ela desconhece que só Deus sonda os corações dos homens ( Sl 139:23 ), e que só por meio da palavra de Deus é que se compreende os erros “Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos” ( Sl 19:12 ).

Quais os erros ocultos do homem? O fato de ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ). Que todos os homens se desviaram de Deus e juntamente se fizeram imundo através da ofensa de Adão ( Sl 53:3 ). Que desde o ventre os homens se desviam de Deus e andam errados desde nascem e falam mentiras ( Sl 58:3 ).

Ora, a Bíblia nos informa que: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” ( Jr 17:9 ), e que só Deus pode esquadrinhar o coração “Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” ( Jr 17:10 ).

Não há nada que o homem faça que possa mudar o seu coração, pois isto é impossível aos homens. Mas, quando o homem crê no enviado de Deus – Cristo – há a circuncisão de Cristo, que é o despojar de toda carne, momento em que Deus dá um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ; Cl 2:11 ).

Entendo a complexidade dos sentimentos e o torvelinho que move as emoções do homem em momentos de perda de um ente querido. Estas emoções podem se somar a outras questões físicas e psíquicas, como é o caso da tensão pré-menstrual, o nervosismo, as frustrações, etc.

Qualquer um fica assustado quando se deixa levar pelas emoções de reviver algumas das vicissitudes pertinentes a existência do homem na terra. A expectativa dos problemas que estão por vir provocam ansiedade, porém, a ansiedade nada resolve “E disse aos seus discípulos: Portanto vos digo: Não estejais apreensivos pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis (…) Pois, se nem ainda podeis as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras?” ( Lc 12:22 e 26).

Por causa da ofensa de Adão ficou estabelecido que todo homem há de retornar ao pó ( Gn 3:19 ), e a dor da separação não torna o homem melhor ou pior diante de Deus.

Jesus teve que enfrentar a tristeza e a angustia dos momentos que antecederam a sua morte “E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo” ( Mt 26:37 -38).

Por causa da aflição e da angustia Cristo pediu ao Pai que passasse dele o cálice, porem, acatar a vontade do Pai era um prazer que suplantou a angustia a e a aflição “Aflição e angústia se apoderam de mim; contudo os teus mandamentos são o meu prazer” ( Sl 119:143 ).

A certeza da morte trazia aflição “Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura” ( Sl 88:3 ), porém, Ele não perdeu de vista a presença constante do Pai naqueles momentos cruentos “Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei” ( Sl 91:15 ).

O medo de Deus em vista das vicissitudes da existência humana não se justifica, pois Deus deixa claro que Ele mesmo prova o coração e os rins, e dará a cada um segundo o fruto de suas ações “Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações” ( Jr 17:10 ).

Passar desta existência para a eternidade não deve ser o mote da preocupação do Cristão, mas sim onde o homem passará a eternidade “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” ( Dn 12:2 ).

 

*Keri Seavey mora em Vancouver, Washington, com seu marido que é pastor na Living Water Community Church. Eles têm quatro filhos. Keri é líder do ministério feminino, conselheira bíblica, palestrante e escritora que posta com frequência no blog da Biblical Counseling Coalition.




A cruz serrada

A estória da cruz serrada foi tão difundida que, se fosse possível, enxertariam a narrativa no Canon sagrado. Muitos consideram a estória da cruz serrada uma ilustração do convite registrado nos evangelhos: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ).


A cruz serrada

“Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á” ( Mt 16:24 -25)

Era uma vez…

A estória da cruz serrada foi tão difundida que, se fosse possível, enxertariam a narrativa no Canon sagrado. Muitos consideram a estória da cruz serrada uma ilustração do convite registrado nos evangelhos: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ).

Apesar do grande número de variantes, resumidamente a estória da cruz serrada apresenta os seguintes pontos:

Certo moço foi convidado a fazer uma jornada até o paraíso. Para chegar ao paraíso era necessário carregar uma cruz que foi posta em seu ombro e seguir a seguinte recomendação: a) seguir por um caminho reto ascendente, e; b) nunca deixar a cruz à beira do caminho.

O moço iniciou a jornada e, após certo tempo, a cruz começou a incomodar e a ficar cada vez mais pesada. O jovem trocou a cruz de obro por diversas vezes e, por fim, resolveu cortar um pedaço da cruz. O moço prosseguiu na jornada e, como a cruz continuou a incomodar, repetiu a ação anterior por várias vezes: cortou pedaços da cruz. Por estar com a cruz mais leve, o jovem notou que começou a ultrapassar outros caminhantes que carregavam as suas cruzes intactas. Porém, em certo momento o jovem se deparou com um rio e o caminho continuava do outro lado e não havia como atravessar.

Quando os retardatários chegaram, cada indivíduo utilizava a cruz como ponte, e atravessaram o precipício. O moço, tardiamente percebeu que a cruz era o único meio de atravessar o rio, porém, ele havia reduzido em muito o seu tamanho. Ele buscou um lugar no qual a sua cruz alcançasse o outro lado, e após apoiá-la na beirada do precipício, tentou atravessar e caiu, sendo levado pela correnteza < http://www.dnadedeus.com.br/2014/03/a-cruz-cortada-medite-sua-vida-nunca.html > 07/04/14 ou < http://recife.blog.arautos.org/2013/09/a-cruz-serrada > Consulta realizada em 07/04/2014 ou < http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=7911&cod_canal=67 > Consulta realizada em 17/04/14.

Após narrar a estória, os pregadores concitam os seus ouvintes com os seguintes argumentos:

  • a ilustração corresponde perfeitamente com o que o Senhor Jesus disse, e cita Mateus 16, verso 24: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”;
  • que existe uma cruz a ser carregada, a mesma que Jesus carregou;
  • que Jesus não cortou a sua cruz, antes carregou uma cruz que não era feita de madeira, mas de pecados;
  • a cruz é a chave que abrirá as portas do maravilhoso reino prometido, e;
  • no final, se você conduziu a cruz, fará a grande travessia que te conduzirá a vida eterna.

A estória é narrada pausadamente, acompanhada de um fundo musical e busca um clímax. A música envolve o ouvinte que, em vez de analisar o narrado, se emociona e fica extasiado, deixando de considerar o que realmente é necessário para que o homem seja salvo.

Será que esta estória da cruz serrada realmente representa a ordem de Cristo estampada em Mateus 16, verso 24: – “… tome sua cruz e siga-me”? Será que há algum abismo a ser atravessado antes do salvo herdar a vida eterna?

 

O que é necessário para ser salvo?

O apóstolo Paulo fez uma breve exposição acerca do que é necessário:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:8 -13).

Ora, para ser salvo basta reconhecer que é pecador, admitir (confessar) que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus crendo que Deus o ressuscitou dentre os mortos. A confissão é necessária para salvação e o crer para a justiça, pois está estabelecido nas Escrituras que ao invocar o nome do Senhor o homem é salvo da ira vindoura.

É necessário que fique bem claro que, para ser salvo basta a qualquer pessoa crer e confessar Cristo conforme o apóstolo Pedro: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” ( Mt 16:16 ).

Esta mesma confissão foi feita por Marta, irmã de Lazaro: “Disse-lhe ela: Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” ( Jo 11:27 ).

Antes de ser batizado, o eunuco etíope, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, professou: “E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” ( At 8:37 ).

Jesus se apresentou ao povo como o caminho, a verdade e a vida “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ), e é Ele que conduz os homens a Deus “E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” ( Mt 7:14 ).

Não é ao final da existência que o homem será provado se é digno ou não de estar com Deus. O homem precisa compreender que está perdido, alienado de Deus, e que é necessário crer no evangelho para entrar pelo caminho que conduz o homem a Deus.

A Bíblia é clara dizendo que pela carne de Cristo foi consagrado um novo e vivo caminho que dá acesso a Deus, portanto, não há outro caminho “Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” ( Hb 10:20 ).

A crença de que a cruz do indivíduo é o ‘passaporte’ para o paraíso não é conforme o evangelho de Cristo, pois o que conduz à vida é Cristo, que a si mesmo se entregou para salvar a humanidade.

Jesus censurou muitos de seus ouvintes, pois acreditavam que Cristo era um dos profetas pelos sinais miraculosos que operava, pois para ser salvo é necessário crer e confessar Cristo conforme as Escrituras, de que o Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o Filho de Davi, que veio ao mundo sem pecado, foi morto e ressuscitou e que tira o pecado do mundo “Então muitos da multidão, ouvindo esta palavra, diziam: Verdadeiramente este é o Profeta” ( Jo 7:40 ); “E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas” ( Mt 16:13 -14).

Havia muitos que diziam crer em Cristo, porém, não queriam admitir que eram escravos do pecado e que necessitavam ser libertos por Cristo “Dizendo ele estas coisas, muitos creram nele. Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:30 -33).

Para ser salvo basta crer que Jesus é o Eu Sou “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ), o descendente prometido a Davi “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens” ( 2Sm 7:12 -14).

 

No que consiste a renúncia de si mesmo e o tomar a cruz?

A renúncia de si mesmo e o tomar a cruz é uma mensagem para os seguidores de Cristo, ou seja, para aqueles que creram na mensagem de salvação, e que, portanto, já deixaram o caminho de perdição.

É uma mensagem de aviso solene e alento para que os discípulos não desanimem quando chegar a angustia e a perseguição por causa da palavra. Sofrer por causa da mensagem do evangelho não é dado a quem ainda não entrou pela porta estreita, ou seja, renunciou a si mesmo “Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende” ( Mt 13:21 ).

Aquele que ‘nega a si mesmo’ e ‘toma a sua cruz’ é bem-aventurado, pois compreende que com relação ao evangelho não somente é concedido crer em Cristo, mas também padecer pela mensagem da cruz “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fl 1:29 ); “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” ( Mt 5:10 ).

A mensagem sobre a necessidade de tomar a cruz visa estabelecer paz no coração dos verdadeiros cristãos que sofrem perseguição no mundo “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ).

 

A renuncia de tudo

Jesus deixa claro que, para ser um seguidor d’Ele é necessário ‘renunciar a si mesmo’. Mas, como se dá a ‘renuncia de si mesmo’?

“Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:33 ).

Esta é uma exigência de Cristo que permeia o Novo Testamento:

“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” ( Mt 19:21 );

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me” ( Mc 10:21 );

“E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a” ( Mt 13:46 );

Jesus estava falando de doação de bens materiais? Não!

Primeiro temos que observar qual é o público alvo do ensinamento de Jesus: a multidão “Ora, ia com ele uma grande multidão; e, voltando-se, disse-lhe:” ( Lc 14:25 ).

Jesus estava falando a multidão, e devemos lembrar que Ele só fala à multidão por parábolas: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ); “E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado” ( Mt 13:10 -11).

Como Jesus só falava por parábolas à multidão, ao ler o convite: – “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” ( Mt 16:24 ), é necessário questionarmos se Jesus falou abertamente à multidão ou se utilizou de uma parábola, conforme Deus sempre fez com a casa de Israel “Filho do homem, propõe um enigma, e profere uma parábola para com a casa de Israel” ( Ez 17:2 ; Sl 78:2 ).

A parábola é a forma que Deus utilizou para falar com a casa rebelde de Israel, homens que rejeitaram a aliança com Deus ( Sl 78:10 ; Ez 17:19 ).

A repreensão de Deus através do profeta Oséias nos auxilia compreender as parábolas de Jesus acerca de vender tudo que possuem:

“Tu, pois, converte-te a teu Deus; guarda a benevolência e o juízo, e em teu Deus espera sempre. É um mercador; tem nas mãos uma balança enganosa; ama a opressão. E diz Efraim: Contudo me tenho enriquecido, e tenho adquirido para mim grandes bens; em todo o meu trabalho não acharão em mim iniquidade alguma que seja pecado” ( Os 12:6 -8).

Há muito Deus requer de Israel conversão, ou seja, que guardasse a misericórdia e o juízo confiando em Deus sempre. Israel, por sua vez, é comparável a um negociante que traz uma balança enganosa na mão que rouba os seus clientes. Apesar de ser comparável a um negociante fraudulento, Israel se sente abastado, possuidor de grandes bens e sem pecado.

Esta era a condição do homem que possuía uma herdade que produziu muito:

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus” ( Lc 12:16 ).

A acusação dos profetas era contra o povo de Israel, que confiavam nos bens que possuíam: “Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas, e não sabem quem as levará” ( Sl 39:6); “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará, e no seu fim será um insensato” ( Jr 17:11 ); “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas” ( Sl 49:6 ); “Eis aqui o homem que não pôs em Deus a sua fortaleza, antes confiou na abundância das suas riquezas, e se fortaleceu na sua maldade” ( Sl 52:7 ); “Não confieis na opressão, nem vos ensoberbeçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração” ( Sl 62:10 ); “Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas” ( Jr 9:23 ).

A mensagem de Mateus 10, verso 37 é diferente da mensagem em Lucas 14, verso 26 em função do público alvo. Em Mateus 10, o público alvo da mensagem são os doze discípulos, pessoas que Jesus dava o sentido das parábolas, apesar de muitas das vezes não compreenderem “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ); “Disseram-lhe os seus discípulos: Eis que agora falas abertamente, e não dizes parábola alguma” ( Jo 16:29 ).

Em Lucas, o público alvo é a multidão, portanto, Jesus lhes falou por parábola.

Considerando que a mensagem registada por Lucas tinha por alvo a multidão, quais eram os ‘bens’, ou ‘tudo o que tinham’ que a multidão foi concitada a dispor?

 

Ódio ao pai e a mãe

Jesus apresenta os familiares ou a própria vida dos seus ouvintes como um obstáculo a ser transposto para que pudessem ser os seus discípulos:

“Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ).

Jesus não disse que há um abismo entre o homem e o paraíso, antes que havia a necessidade de odiar pai e mãe para ser um seguidor d’Ele.

No que consiste odiar pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs?

Primeiramente é necessário deixar bem claro que Jesus não estava incitando o povo a desrespeitarem o primeiro mandamento com promessa “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa” ( Ef 6:2 ; Lc 18:20 ; Mc 7:10 ; Ex 20:12 ; Dt 5:16 ). Se observarmos o contexto, percebemos que não é esta a ideia decorrente da mensagem: hostilizar entes queridos.

O termo grego traduzido por aborrecer é μισεω (miseo), e significa odiar, detestar, perseguir com ódio, ser odiado, detestado. O termo traz em seu bojo a ideia de perseguição, hostilidade permanente, como se os seguidores de Cristo devessem perseguir e permanentemente hostilizar os seus entes queridos.

“miseõ (a etimologia é incerta) é atestado de Homero em diante, e significa “odiar”, “aborrecer”, “rejeitar”. O vb. conota não somente a antipatia para com certas ações, como também uma hostilidade permanente e arraigada para com outros homens ou até para com Deus” Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Paulo ; Vida Nova, 2000, pág. 1027.

Para interpretar o verso, precisamos de outro texto, onde o termo ‘odiar’ é empregado: “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” ( Lc 16:13 ).

O termo ‘odiar’ aparece contrapondo o termo ‘amar’ ao fazer referencia a dois senhores. Os termos ‘amor’ e ‘ódio’ são empregados para descrever a relação senhor e escravo, de modo que ‘amar’ é obedecer e ‘odiar’ é desobedecer. O elemento ‘afeição’ como sentimento é ausente nos dois termos.

Ora, quando Jesus utilizou o termo grego agapé (amor) em Lucas 16, verso 13, a essência do termo é ‘honrar’ “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” ( Ml 1:6 ).

Veja a definição original do termo agapé (amor):

“agapaõ, que originalmente significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção necessariamente nítida quanto ao significado” Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Pauio ; Vida Nova, 2000, pág. 113.

Ora, Jesus não esta reclamando aos seus ouvintes ‘entranháveis afetos’, o sentimento de afeto denominado amor. Ele está reivindicando a ‘honra’ devida, o agapaõ, que originalmente no grego clássico significava “honrar”.

Qual a extensão deste amor (agapaõ)?

Para compreender este ‘amor’, basta lembrarmos que uma mulher pecadora soube que Jesus estava à mesa com um fariseu, e ela levou um vaso de alabastro com unguento e, chorando aproximou-se dos seus pés por detrás, e regava os pés de Cristo com lágrimas e enxugava com os cabelos de sua cabeça e beijava os pés e ungia com o unguento ( Lc 7:37 -38).

O fariseu censurou o seu convidado ao pensar: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora” ( Lc 7:39 ).

Em seguida Jesus dirigiu a palavra ao fariseu e contou-lhe uma parábola dizendo: “Um certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinquenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?” ( Lc 7:41 -42).

O amor dos devedores é de cunho sentimental, ou conforme a raiz do termo grego ‘agapaõ’?

A descrição que Jesus faz logo após o fariseu responder que o devedor que mais devia é o que ‘amaria’ mais nos esclarece a questão: “E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e mos enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento” ( Lc 7:44 -46).

Jesus demonstra que o fariseu o convidou para jantar em sua casa, porém, não o ‘honrava’ como Mestre.

Em seguida Jesus anuncia à mulher que a fé que ela tinha a salvou, e perdoou os seus pecados: “Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama. E disse-lhe a ela: Os teus pecados te são perdoados. E os que estavam à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados? E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz” ( Lc 7:47 -48).

A ‘honra’ é que cobre multidão de pecados: “Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados” ( 1Pe 4:8 ); “Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados” ( Tg 5:20 ); “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todos os pecados” ( Pv 10:12 ).

Quem recebe (dá as boas vindas) a Cristo o ama, ou seja, honra. Quem recebe um discípulo de Cristo, recebe a Cristo e recebe aquele que o enviou, de modo que honrou tanto o Pai quanto o Filho “Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou. Quem recebe um profeta em qualidade de profeta, receberá galardão de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá galardão de justo. E qualquer que tiver dado só que seja um copo de água fria a um destes pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão” ( Mt 10:40 -42); “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” ( Jo 5:23 ).

O ‘renunciar-se a si mesmo’ em Mateus 16, verso 24 é o descrito no verso 37 de Mateus 10: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim”.

O ‘renunciar a si mesmo’ para seguir a Cristo é o mesmo que entregar o velho homem para ser crucificado com Cristo, de modo que o corpo que estava sob o domínio do pecado seja desfeito ( Rm 6:6 ). É na renuncia que se dá a morte com Cristo. É na renuncia que o crente é batizado na morte de Cristo ( Rm 6:3 ).

Ao ‘renunciar a si mesmo’ ocorre o arrependimento, a mudança completa de concepção acerca de como salvar-se. Antes de ouvir a mensagem do evangelho o homem possui uma concepção própria acerca de como ser salvo. Após ouvir o evangelho, o homem abandona a concepção que tinha e adota o posicionamento revelado no evangelho (metanoia).

A mudança completa de concepção (arrependimento) de um Judeu se dá quando ele deixa de confiar que sua herança genética lhe confere salvação e crê no coração que o Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o descendente prometido a Abraão em quem seriam benditas todas as famílias da terra e professa que Jesus é o Filho de Davi.

E qual é a mudança de concepção de um cristão convertido dentre os gentios que demonstra a ‘renuncia de si mesmo’? Abandonar dogmas que entendia ser o que proporcionava salvação.

O argumento: – “Nasci nesta religião e morro nela”, ou a concepção: – “Todas as religiões levam a Deus”, ou a filosofia: – “Basta ser uma pessoa boa”, etc., deve ser substituída pelo seguinte argumento:

“Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, em nome desse é que este está são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina. E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:10 -12).

Certa feita Jesus estava ensinando a multidão e os seus parentes segundo a carne (mãe e irmãos) estavam do lado de fora querendo falar com Jesus. Alguém trouxe um recado e disse: – “Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te” ( Mt 12:47 ). Foi quando Jesus respondeu: – “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe” ( Mt 12:48 -50).

Quem Jesus ‘honrou’ (agapé) quando estendeu sua mão para os discípulos? Os seus familiares segundo a carne ou os que fizeram a vontade de Deus?

Ora, Jesus não abandonou a sua mãe, visto que até na cruz dispensou um cuidado para com ela “Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa” ( Jo 19:27 ). Ninguém deve abandonar os seus parentes ( 1Tm 5:4 à 8).

‘Odiar’ pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãs, segundo a perspectiva do ensinamento de Jesus só se compreende quando se descobre que a família de Cristo é QUALQUER que faz a vontade de Deus, ou seja, QUALQUER um que crer em Cristo ( 1Jo 3:23 ). Em segundo lugar é necessário entender que ter vínculo de sangue com Abraão não torna ninguém filho de Deus.

A multidão a quem o Senhor Jesus dirigia a palavra era formada por judeus, homens que se orgulhavam de possuir o sangue de Abraão. A multidão era uma grande família que consideravam a descendência segundo a carne de Abraão lhes conferia filiação divina, ou seja, salvação, o seu maior tesouro.

Qualquer um que fizer a vontade de Deus pertence à família de Cristo, no entanto, para pertencer à família de Israel era necessário ser descendente da carne de Abraão e circuncidado ao oitavo dia.

Para honrar a Deus era necessário a multidão crer em Cristo como o Filho de Deus ( Jo 5:23 ), e isto significa que deviam abrir mão do que lhes era mais caro: confiar que eram filhos de Deus por serem descendente de Abraão “Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão (…) Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus” ( Jo 8:39 e 41).

Ser descendência de Abraão era o obstáculo que os judeus precisavam transpor para serem discípulos de Cristo e verdadeiramente livres. No entanto, honravam mais o vínculo familiar com Abraão do que a mensagem de Cristo. Isto significa que aquele que ‘honra’ o seu vínculo de sangue com Abraão em detrimento da vontade de Deus, não é digno de Cristo.

Não basta presumir e dizer: – “Temos por pai Abraão” ( Mt 3:9 ; Jo 8:39 ), é necessário crer em Cristo para fazer parte da família de Deus.

Quando Jesus diz para ‘odiar’, ‘hostilizar permanentemente’, etc., os membros da família, utilizou uma parábola para expor a necessidade de ‘odiarem’, ‘rejeitarem’ a doutrina dos escribas e fariseus que era segundo a tradição dos anciões. Era doutrina de homens que tinha por base a carne e a circuncisão de Abraão “Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo, procurais matar-me, porque a minha palavra não entra em vós” ( Jo 8:37 ).

Quando é dito: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ), Jesus está demonstrando a impossibilidade de a multidão servir a dois senhores, pois se quisessem servi-Lo, deveriam ‘obedecer’, ‘amar’, ou ‘honrar’ somente a Ele.

Não há como obedecer a Cristo e ao mesmo tempo considerar que se alcança a salvação pela carne e o sangue de Abraão, pois não há outro nome pela qual o homem é salvo. Quem serve a Deus, odeia a Mamom, e quem ama a Deus, não serve a Mamom, porém, aqueles que se gloriam na carne serve as ‘riquezas’ herdadas de seus pais.

Cristo foi desamparado por seus familiares segundo a carne, como se lê: “E, quando os seus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si” ( Mc 3:21 ); “Porque, quando meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me recolherá” ( Sl 27:10 ), pois Ele veio para os que eram seus, mas os seus não O receberam ( Jo 1:11 ).

Por que não obedecer (odiar) os familiares? A resposta é esta: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” ( Mt 6:21 ). Ser descendente da carne de Abraão era uma ‘riqueza’ que os filhos de Israel não abriam mão.

Quando Jesus interpelou algumas pessoas que criam n’Ele dizendo ser necessário permanecerem na doutrina de Cristo para serem livres, de pronto responderam que eram descendentes de Abraão, e que, portanto, nunca foram escravos de ninguém “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” ( Jo 8:33 ).

O apóstolo Pedro estava se enveredando pelo caminho de honrar ‘pai’ e ‘mãe’ quando foi repreendido pelo apóstolo Paulo:

“Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão. E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação. Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” ( Gl 2:12 -14).

A dissimulação do apóstolo Pedro fez com que outros judeus convertidos e até Barnabé se deixasse levar, se comportando de maneira que não era segundo a verdade do evangelho. Ao temer os da circuncisão (judeus), o apóstolo Pedro estava honrando os seus familiares em detrimento de Cristo e do seu corpo, que é a igreja.

 

Deixar tudo quanto tem

Como os judeus poderiam seguir a Cristo se continuavam apegados aos preceitos instituídos pelos anciões? Estes preceitos tornaram-se uma riqueza cultural que cegou o povo de Israel quando o reino de Deus se manifestou “Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas” ( Mc 7:8 ).

A tradição é uma espécie de ‘riqueza’ que os antepassados judeus legaram aos filhos. Ora, Deus deu uma lei aos pais para que transmitissem aos seus filhos, porém, em lugar de ensinarem os preceitos de Deus, substituíram por mandamentos de homens “Porquanto se rebelaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altíssimo” ( Sl 107:11 ).

Quando o povo de Israel estava para entrar na terra da promessa, Deus os avisou por intermédio de Moisés dizendo para não confiarem que entraram na terra por serem justos, mas que foi dada aquela benesse porque os povos daquela terra eram ímpios “Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o SENHOR teu Deus te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo obstinado” ( Dt 9:6 ).

Ora, Deus deu o alerta para que os filhos de Israel não considerassem que eram melhores que os outros povos, ou que possuíam a melhor religião, visto que eles não eram justos. No entanto, os filhos de Israel desprezaram a palavra do Senhor, pois em lugar de serem ensinados que foram introduzidos na terra por causa da promessa que Deus fez aos pais ( Dt 9:5 ), os anciões do povo prevaricaram na sua atribuição e assenhoram dos filhos de Israel ensinando mandamentos de homens.

Ao entrar na terra Deus deu a ordem: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz” ( Dt 10:16 ). Era para os filhos de Jacó gravarem estas palavras e ensinar aos seus filhos ( Dt 11:18 -19), porém, enfatizavam a circuncisão do prepúcio da carne e não enfatizavam a circuncisão do coração. Enfatizavam os sacrifícios e negligenciavam a obediência à palavra de Deus. Estabeleceram ritos, mas não guardaram a palavra de Deus no coração.

Os ensinamentos dos anciões tornaram-se tradição, e a tradição uma riqueza aos filhos de Israel. Dai a repreensão dos profetas contra os filhos de Israel, homens que se gloriavam em suas fazendas, na multidão de suas riquezas, uma gloria que não os tornava ricos para com Deus “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas (…) O seu pensamento interior é que as suas casas serão perpétuas e as suas habitações de geração em geração; dão às suas terras os seus próprios nomes (…) Não temas, quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa se engrandece. Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem a sua glória o acompanhará” ( Sl 49:6 , 11 e 16-17).

A exigência de Cristo à multidão é específica: “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 ), porque Ele sabia que abrir mão de conceitos como a filiação de Abraão, a circuncisão, as linhagens, as tribos, as festas, as luas, os sábados, etc., eram algo muito caro ao povo de Israel.

O apóstolo Paulo ciente de que não dava para seguir a Deus e as ‘tradições’ dos seus pais dá uma lição de como um judeu deixa pai, mãe e riquezas para ganhar a Cristo:

“Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” ( Fl 3:4 -8).

É necessário aborrecer, até mesmo, a sua própria vida, ou seja, era necessário considerar que a maneira de viver que herdaram por tradição dos pais não os salvava. Precisavam deixar as suas próprias concepções e tradições para servir a Deus.

“Se alguém vier a mim, e não aborrecer (…) ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:26 );

“Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” ( Jo 8:31 -32)

Aborrecer os familiares ou ainda a própria vida é abandonar a vã maneira de viver que por tradição o crente judeu recebeu dos seus pais “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais” ( 1Pd 1:18 ).

Mas, apesar de dizerem que criam, muitos ouvintes de Jesus não permaneceram no seu ensino, pois continuavam fiados que a condição de descendentes de Abraão os salvaria.

 

A cruz de Cristo

Ao crer em Cristo o homem é transportado do domínio das trevas para o reino do Filho do seu amor, onde permanece assentado nas regiões celestiais em Cristo Jesus “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” ( Cl 1:13 ); “E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” ( Ef 2:6 ).

Se o crente está assentado, não há abismo a ser transposto. Ao ser transportado do domínio das trevas para o reino de Cristo, resta ao crente levar a sua cruz , mas a cruz do cristão não possui relação com a cruz da estória da cruz serrada.

A cruz que o crente tem que levar refere-se a ignominia, ao desprezo, a oposição, a perseguição por causa do evangelho “Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” ( Mt 10:25 ). O ódio do mundo é contra os discípulos de Jesus ( Mt 10:22 ; Mc 13:13 ; Lc 21:17 ; Jo 15:18 ; 1 Jo 3:13 ).

Os discípulos estarão expostos diariamente aos vitupérios da cruz “E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:27 ).

É neste sentido que o apóstolo Pedro disse: “Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus; quanto a eles, é ele, sim, blasfemado, mas quanto a vós, é glorificado” ( 1Pd 4:14 ); “Em parte fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações, e em parte fostes participantes com os que assim foram tratados” ( Hb 10:33 ); “Tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa” ( Hb 11:26 ); “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério” ( Hb 13:13 ).

Sobre tomar sobre si a cruz de Cristo disse o apóstolo Paulo: “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

O apóstolo Paulo preferiu ser perseguido a deixar de professar a mensagem da cruz, pois pela mensagem da cruz é que o apóstolo foi crucificado para o mundo, e o mundo para ele “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ).

Ora, o apóstolo se dispôs das suas riquezas para estar ‘em Cristo’, o que o torna justo diante de Deus ( Fl 3:9 ). Após se achar em Cristo (nova criatura), o apóstolo passou a ser um com Cristo (conhece-lo), sendo ressuscitado com Ele ( Cl 3:1 ); “Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte” ( Fl 3:10 ).

Só após conhecer a Cristo e a virtude da sua ressurreição, é que se dá a comunicação das aflições de Cristo, conformando-se em tudo com a morte de Cristo “E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” ( 2Co 1:7 ).

Sabendo que a perseguição por causa da palavra viria sobre os seus discípulos ( Mt 13:21 ; Mc 4:17 ), Jesus anuncia, à multidão que o seguia, a necessidade de calcularem bem o quanto estavam dispostos a ‘perder’ para seguir a Cristo. Além de abrirem mão de tudo (pai, mãe e riquezas), deveriam atentar que haveria perseguições e aflições por causa da palavra.

Após enfatizar que os seus seguidores sofrem perseguições e muitas aflições, Cristo conta à multidão duas parábolas: a do construtor, e a do rei em prenuncio de guerra.

“Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, Dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar” ( Lc 14:28- 30).

“Ou qual é o rei que, indo à guerra a pelejar contra outro rei, não se assenta primeiro a tomar conselho sobre se com dez mil pode sair ao encontro do que vem contra ele com vinte mil? De outra maneira, estando o outro ainda longe, manda embaixadores, e pede condições de paz” ( Lc 14:31 -32).

As duas parábolas envolve consideração e previsibilidade.

Jesus questiona a multidão sobre qual deles ali presente, ao desejar edificar uma torre, primeiro não se assentaria para verificar os gastos da obra e o montante que dispõe. Ora, é necessária a análise para que, após iniciada a obra, não falte o subsidio necessário para termina-la, e o construtor não seja alvo de escarnio.

Semelhantemente, qualquer rei que vai à peleja, primeiro analisa que tem condições de vencer a guerra com o número de homens que dispõe, comparando com o número de homens que o outro rei dispõe para a guerra. Por que é necessária esta atitude por parte do rei? Se estiver em desvantagem, melhor é verificar quais são as condições de paz imposta pelo outro rei.

Jesus contou estas duas parábolas para enfatizar que: “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo” ( Lc 14:33 ).

É essencial ao discípulo estar consciente da sua nova condição em Cristo e conhecer as riquezas da graça. É este conhecimento (saber) que torna o cristão apto a levar os vitupérios (tomar a sua cruz) e seguir após o Mestre. Quando o cristão descobre a extensão da gloria que há de ser revelada em nós, suportará as aflições do tempo presente: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” ( Rm 8:18 ).

Esta mesma mensagem foi registrada por Lucas no capitulo 9, e ela foi anunciada por Cristo a todos os seus ouvintes: “E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará. Porque, que aproveita ao homem granjear o mundo todo, perdendo-se ou prejudicando-se a si mesmo? Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos” ( Lc 9:23 -26).

O evangelista Marcos registrou a mesma mensagem: “E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará. Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate da sua alma? Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos” ( Mc 8:34 -38).

O evangelista também deixou consignado: “Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me; Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma? Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras” ( Mt 16:24 -27).

Os evangelhos deixam estampado um convite amplo a todos os homens de todos os povos, línguas e nações: ‘Se alguém quiser vir após mim’. O verbo grego traduzido por querer é θελω, e significa querer, ter em mente, pretender. Ou seja, Jesus não obriga ninguém segui-Lo, antes o indivíduo de livre e espontânea vontade precisa ter o desejo de segui-Lo.

 

Eu vim trazer espada

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” ( Mt 10:34 )

Durante o discurso de preparação dos doze, Jesus anunciou que não veio trazer paz ao mundo, mas espada ( Mt 10:34 ). Como é possível o ‘príncipe da paz’ trazer espada?

Há muito o profeta Jeremias havia predito que não era para ninguém dentre os filhos de Israel confiar em seus entes queridos nas questões concernentes as coisas de Deus, pois ninguém em Israel falava a verdade ( Jr 9:3 -8; Sl 58:3 ), e há muito haviam deixado de ouvir a voz de Deus ( Jr 9:13 -14).

Os filhos de Israel se gloriavam em seus príncipes, gloriavam na força que a lei e Abraão representavam, de modo que se consideravam salvos, ou seja, abastados, ricos perante Deus ( Jr 9:23 ), e quando o Cristo veio trazendo salvação a todos os povos, ou seja, fazendo misericórdia, juízo e justiça na terra ( Jr 9:24 ), era inevitável a dissensão que haveria entre os filhos de Israel “Tornou, pois, a haver divisão entre os judeus por causa destas palavras. E muitos deles diziam: Tem demônio, e está fora de si; por que o ouvis? Diziam outros: Estas palavras não são de endemoninhado. Pode, porventura, um demônio abrir os olhos aos cegos?” ( Jo 10:19 -21).

O profeta Miquéias quando profetizou acerca da vinda de Cristo disse: – “Veio do dia dos seus vigias”, ou seja, o dia daqueles que esperavam a visitação de Deus! Mas, o dia da visitação do Messias, também é descrito como dia de confusão!

Na visitação seria semeada a desconfiança ( Mq 7:5 ), e a confusão seria enorme, pois o filho despreza o pai, a filha é contra a mãe e a nora e a sogra não entram em acordo, pois: “Os inimigos do homem são os da sua própria casa”.

Quando diz que veio trazer espada, significa que Ele é o valente que luta pela causa da verdade, da mansidão e da justiça ( Sl 45:3 -4). A espada que empunha é a sua doutrina “E fez a minha boca como uma espada aguda, com a sombra da sua mão me cobriu; e me pôs como uma flecha limpa, e me escondeu na sua aljava” ( Is 49:2 ), que traria confusão entre os filhos de Israel.

O texto de Miquéias é claro: O Messias não haveria de trazer paz, mas confusão e dissensão ( Mq 7:5 -6).

Como crer em atalaias e pastores nesta condição funesta: “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono. E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte” ( Is 56:10 -11).

Ora, o Cristo inteirado de que os líderes do seu povo eram atalaias que nada viam e que eram gananciosos, prevê que eles perseguiriam os seus próprios irmãos de sangue caso se convertessem ao Senhor: “E o irmão entregará à morte o irmão, e o pai o filho; e os filhos se levantarão contra os pais, e os matarão. E odiados de todos sereis por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” ( Mt 10:21 -22).

A perseguição aos profetas sempre foi uma constante em Israel “E ele disse: Eu tenho sido em extremo zeloso pelo SENHOR Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada, e só eu fiquei; e buscam a minha vida para ma tirarem” ( 1Re 19:14 ).

Ao dizer: – “Não vim trazer paz, mas espada”, Cristo estava anunciando que a profecia de Miqueias estava se cumprindo: “Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca. Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” ( Mq 7:5 -6).

 

Salvo em Cristo e discípulo

Por não compreender o significado da cruz de Cristo, muitos elegem para si uma cruz a ser levada. Muitos cristãos estabelecem que os problemas diários sejam a cruz.

Se o marido é um homem difícil de lidar, a mulher considera que aquela é a sua cruz. Se os filhos são desobedientes, assumem a condição de cruz. Se a mulher é rixosa, a cruz do homem é a mulher, etc.

As vicissitudes da vida não é a cruz que Cristo convocou os homens a carregarem. É imprescindível o cristão entender que a prosperidade e a adversidade foram estabelecidas por Deus, para que o homem não saiba o que há de ser do dia de amanhã, e que tudo ocorre igualmente ao justo e ao injusto “No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele” ( Ec 7:14 ); “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento” ( Ec 9:2 ).

O que ocorre igualmente ao justo e ao injusto? O estabelecido na lei da semeadura: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” ( Gl 6:7 ); “Mas quem fizer agravo receberá o agravo que fizer; pois não há acepção de pessoas” ( Cl 3:25 ).

A cruz que Cristo mandou carregar refere-se à mensagem do evangelho. Não diz dos problemas e conflitos diários “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 ).

Quando o homem ouve a mensagem de que o Verbo eterno despiu-se da sua glória, se fez carne, revelou o Pai aos homens, foi crucificado, morto, sepultado e ressurgiu ao terceiro dia e está assentado à destra da majestade nas alturas e crê, é salvo.

Embora esta mensagem que anuncia que Cristo morreu pela humanidade seja o poder de Deus para salvação dos que creem, para muitos esta mensagem é loucura e escândalo “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” ( 1Co 1:23 ).

Quando o homem crê, renuncia-se a si mesmo e é crucificado e morto com Cristo “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” ( Rm 6:6 ); “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” ( Gl 2:20 ); “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Quando o crente passa a anunciar o evangelho de Cristo que é segundo as Escrituras será perseguido. A exemplo do apóstolo Paulo que pregava evangelho e era perseguido, mas se pregasse a circuncisão, não haveria perseguição, pois não estaria anunciando o escândalo da cruz “Eu, porém, irmãos, se prego ainda a circuncisão, por que sou, pois, perseguido? Logo o escândalo da cruz está aniquilado” ( Gl 5:11 ).

Havia aqueles que se diziam cristãos e ainda não haviam ‘odiado’ pai e mãe. Queriam participar do convívio dos cristãos e permanecerem sendo louvados na comunidade judaica por anunciarem a circuncisão. Estes não queriam levar a cruz de Cristo, ou seja, não queriam ser perseguidos por causa da mensagem do evangelho “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses os obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

Enquanto muitos se gloriavam por serem descendente da carne e do sangue de Abraão, da circuncisão, dos sábados, etc., o apóstolo Paulo gloriava-se na mensagem do evangelho. Considerou todas as coisas pertinentes ao judaísmo como escória para ganhar a Cristo “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” ( Gl 6:14 ; Fl 3:8 ).

É dada a missão, aos que creem, de evangelizar, e quem evangeliza deve ter o cuidado de não apresentar um conhecimento próprio, desprezando a mensagem da cruz “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo se não faça vã” ( 1Co 1:17 ); “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” ( 1Co 2:2 ).

O apóstolo Pedro enfatizou que não anunciou a virtude daquele que nos tirou das trevas para a sua maravilhosa luz através de fábulas artificialmente compostas, antes anunciaram o que realmente viram “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade” ( 2Pd 1:16 ).

Mas, nos que não vimos pessoalmente a majestade de Cristo, devemos pautar a nossa pregação na mensagem dos profetas e no que foi anunciado pelos santos apóstolos ( 2Pd 1:19 ).

Quando nos deparamos com estórias como a da cruz serrada, de que certo moço foi convidado para fazer uma jornada até o paraíso, encontramos diversas incongruências com a mensagem do evangelho, pois Cristo não convida ao paraíso, antes convida a Ele “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ).

Por que é necessário ao homem ‘vir’ a Cristo? Porque Ele é o caminho, a verdade e a vida que conduz o homem a Deus “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ).

Como Cristo é o caminho que conduz o homem a Deus, certo é que n’Ele não há um abismo que seja necessário o homem transpor, ou que seja necessária uma cruz para transpor um obstáculo entre os homens e o paraíso.

A estória da cruz serrada diz que as pessoas faziam muito esforço para conduzir as suas cruzes e que tal cruz é chave que abre as portas do maravilhoso reino prometido. O evangelista João, por sua vez, orienta dizendo que os mandamentos de Deus não são pesados “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ).

Enquanto a mensagem da cruz é revelação de Deus por intermédio de Cristo, o mediador, a estória da cruz serrada reflete a elucubração do coração do homem, pois entender que o sofrimento desta vida concede a vida eterna é negar a eficácia da cruz de Cristo.

Não vemos na Bíblia Jesus carregado todos os dias uma cruz até ser crucificado. Nem mesmo a cruz de madeira na qual foi crucificado foi carregada por Cristo até o Calvário “E, quando saíam, encontraram um homem cireneu, chamado Simão, a quem constrangeram a levar a sua cruz” ( Mt 27:32 ).

A cruz que Cristo foi crucificado não era feita de pecados, pois quem carregou a cruz foi o cirineu, de nome Simão. O pecado da humanidade foi levado por Cristo em seu corpo, e não na cruz de madeira confeccionada pelos Romanos.

Somos informados pela Bíblia que Cristo levou sobre si as nossas enfermidades e dores, ou seja, o pecado de muitos “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido (…) Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores” ( Is 53:4 e 12); “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados” ( 1Pd 2:24 ).

A cruz de madeira na qual Jesus foi morto representa a ignominia de ter sido contado entre os transgressores, apesar de nunca haver engano em sua boca “Quando também em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, o seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o SENHOR teu Deus te dá em herança” ( Dt 21:22 -23); “O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” ( 1Pd 2:22 ).

A essência da ordem de Cristo para tomar a cruz refere-se às perseguições daqueles que querem viver segundo o evangelho de Cristo, o que demonstra que a cruz é dada para quem já passou da morte para a vida, ao contrário da estória cruz serrada que apresenta uma cruz para conduzir à vida “E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” ( 2Tm 3:12 ).

O apóstolo Paulo ao escrever aos Tessalonicenses faz esta abordagem demonstrando que da mesma forma que mataram a Cristo e os profetas, os judaizantes perseguiam os que creram em Cristo “Os quais também mataram o SENHOR Jesus e os seus próprios profetas, e nos têm perseguido; e não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens” ( 1Ts 2:15 ).

O apóstolo se gloriava por causa da perseverança (paciência) dos cristãos no evangelho (fé) e por tudo que suportavam “De maneira que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa paciência e fé, e em todas as vossas perseguições e aflições que suportais” ( 2Ts 1:4 ), pois esta foi a abordagem de Cristo ao ordenar que cada um tome a sua cruz e siga-O “Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” ( Mt 10:25 ).




Manso e humilde de coração

No mesmo discurso em que se declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai  “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai…” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.


Manso e humilde de coração

Introdução

Deparei-me com a seguinte máxima estampada em uma rede social atribuída a um pastor: “Humildade é aquela virtude que, quando você percebe que a tem, já a perdeu”  Andrew Murray. A frase parece resumir uma ideia grandiosa e completa em si mesma, mas a ideia se sustenta à luz das Escrituras?

Andrew Murray foi um pastor que teve o seu ministério eclesiástico influenciado pelo pai, um pastor vinculado à Igreja Presbiteriana da Escócia, que, por sua vez, mantinha estreita relação com a Igreja Reformada da Holanda. Como pastor, Murray é caracterizado no meio cristão como alguém que possuía uma profunda e ardente espiritualidade. Pelos idos de 1877, Murray fez inúmeras conferências acerca do tema santidade. Ele era adepto de uma teologia conservadora, opondo-se ao liberalismo, enfatizando em seus escritos a necessidade de uma consagração integral e absoluta a Deus através da oração e da santidade.

Como a frase foi proferida pelo Pr. Murray e sintetiza uma espécie de louvor à humildade, muitos cristãos abraçam o conteúdo da frase como verdade, porém, vejo a necessidade de analisa-la à luz das Escrituras.

Considerando que o Senhor Jesus apresentou-se como ‘manso’ e ‘humilde’ de coração, e comparando com a ideia exposta na frase do Pr. Murray, temos a seguinte interrogação: Jesus deixou de ser humilde quando afirmou ser manso e humilde?

Se ‘humildade é uma virtude que, quando se percebe que se tem, já perdeu’, o que dizer de Cristo quando afirmou ser manso e humilde de coração? Considerando a frase do Pr. Murray como verdadeira, teríamos que concluir que Jesus perdeu a humildade por entender e declarar ser humilde.

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 )

Se admitirmos que o pastor Andrew foi verdadeiro em sua asserção, teremos que admitir que, naquele instante o Senhor Jesus deixou de ser humilde, por conseguinte, também faltou com a verdade.

Se admitirmos que Cristo falou a verdade, ou seja, que o seu coração realmente era manso e humilde, temos que admitir que o Pr. Murray se expressou de modo equivocado.

Cristo é a verdade, e as Escrituras dão testemunho de que nunca houve engano em sua boca, portanto, não dá para aceitar que seja uma expressão verdadeira a frase atribuída ao Pr. Andrew Murray.

“E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca” ( Is 53:9 );

“O qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” ( 1Pe 2:22 ).

A comparação acima evidencia o perigo em aceitar como verdadeiras frases de efeito, sem analisar a ideia à luz das Escrituras.

Para analisar a frase, ou o pensamento à luz das Escrituras, você precisa dispor de conhecimento bíblico. Existe a necessidade de você estar alimentado com sólido alimento, pois o sólido alimento é o que torna o cristão apto a distinguir tanto o bem quanto o mal, como se lê: “Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” ( Hb 5:14 ).

 

Humildade

Quando Jesus se apresentou dizendo: – ‘Sou manso e humilde de coração’, o termo grego traduzido por humilde é ‘ταπεινος’, transliterado ‘tapeinos’.

Humilde –“5011 ταπεινος tapeinos de derivação incerta; TDNT – :1,1152; adj 1) que não se levanta muito do chão 2) metáf. 2a) como uma condição, humilde, de grau baixo 2b) abatido pela tristeza, rebaixado, deprimido 2c) humilde de espírito, humilde 2d) num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão” Dicionário Bíblico de Strong.

“ταπεινος (tapeinos), primariamente “aquilo que é baixo e não sobe muito do chão”, como na Septuaginta em Ez 17.24. daí, metaforicamente, significa “humildemente, de nenhum grau” (2 Co 10.1; cf. Lc 1.52; Tg 1.9). Contraste com os termos tapeinophrosune, “humildade de mente”, e tapeinoõ, “humilhar”” Dicionário VINE

Um dicionário secular apresenta as seguintes definições:

Humilde – “adj. Que tem ou aparenta humildade, que se diminui voluntariamente: uma criatura humilde. Que denota respeito, deferência. Medíocre, baixo, obscuro: exercer funções humildes. (Usa-se como expressão de modéstia e civilidade: sou seu humilde criado.) S.m. Pessoa humilde: sempre protegeu os humildes” Dicionário online de português <http://www.dicio.com.br/humilde/>.

Naquele momento Jesus não estava falando da sua aparência física, não estava se diminuindo voluntariamente e nem estava falando das mazelas decorrentes da sua condição social ou econômica como carpinteiro. Não! Ele foi específico: – “Sou manso e humilde de coração”.

Quando Jesus declarou ser manso e humilde não estava se apresentando como alguém respeitoso, nem estava emocionalmente triste ou exercendo uma função medíocre. Não!

Quando Jesus disse ser manso e humilde estava exigindo que os homens se sujeitassem a Ele na condição de servos.

As definições de humilde que constam no dicionário online de português não se encaixam na exposição de Cristo, até porque Ele não esta se diminuindo, ou sendo respeitoso, antes estava exigindo sujeição (diminuíssem) a Ele.

Considerando o exposto no Dicionário Bíblico de Strong, vale destacar que Jesus não estava falando de suas emoções e sentimentos, como se estivesse triste, abatido, deprimido, etc., ou de sua condição socioeconômica: pobre, oprimido, etc. Ele também não está se apresentando como alguém que ‘não se levanta muito do chão’, no sentido de condição modesta e nem como alguém que foi abatido, humilhado.

Na verdade, ao se apresentar como ‘manso e humilde de coração’, Cristo reivindicou seu senhorio, dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim…” ( Mt 11:29 ). Jesus enfatiza que é necessário tomar sobre si o seu jugo e carregar o seu fardo ( Mt 11:30 ).

No mesmo discurso em que se declara manso e humilde de coração, Jesus exige submissão e não se despoja da condição de guardião das coisas entregues pelo Pai  “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai…” ( Mt 11:27 ). A declaração de Jesus acerca da sua mansidão e humildade se dá após demonstrar ser o único que conhece a Deus, e que só Ele pode revelar o Pai aos homens, o que demostra que a humildade de Jesus não se dá através do despojar-se do que é ou possui.

Quando Jesus diz: ‘todas as coisas me foram entregues por meu Pai’, estava se apresentado como o Filho de Deus prometido a Davi, o rebento da raiz de Jessé ( Is 11:1 -4 ; 2Sm 7:14 ).

Resta considerar um último sentido do termo apontado por Strong: ‘num mau sentido, que se comporta de forma humilhante, que se submete à servidão’. Ora, Jesus não era alguém que se comportava de modo humilhante, subserviente. Não encontramos nas Escrituras Jesus se submetendo aos homens, quem quer que eles fossem ( Mc 12:14 ; Lc 13:32 ).

Para Strong humilhar-se no mau sentido é ‘submeter-se à servidão’, mas, se olharmos para as profecias acerca do Cristo, veremos que Ele foi escolhido por Deus para ser o servo do Senhor ( Is 49:1 -6). Cristo foi nomeado ‘o Sevo do Senhor’ quando foi dito: – “Tu és o meu servo” ( Sl 49:3 ). Cristo foi formado desde o ventre para ser servo, com a missão de trazer a casa rebelde (Jacó) a Deus e ajuntar a nação escolhida (Israel). Mas, Deus não restringiu a missão de Cristo, pois ela não se limitou à casa de Israel: Cristo também foi dado por Deus como Luz para os gentios ( Is 49:6 -7).

Analisando o termo ‘humilde’ com a visão do homem do nosso tempo, é compreensível a concepção de que há um mau sentido no termo ‘humilde’ por estar associada à escravidão, à crueldade do ser humano, porém, é possível considerar que há um ‘mau sentido’ quando o termo é utilizado para indicar que o homem submeteu-se a Deus?

Vale destacar que consta nos profetas que Deus fez menção do Cristo desde a fundação do mundo. Cristo foi colocado na aljava de Deus como uma flecha limpa e fez a boca d’Ele como uma espada aguda. Flecha na aljava aponta para a filiação divina do Cristo ( Sl 127:4 -5).

Deus concede apenas aos filhos o privilégio de servirem a Ele. Ser servo de Deus é honroso, de modo que não cabe ao termo ‘humildade’ um mau sentido quanto a ser servo de Deus. O mau sentido de ‘humildade’ decorre dos eventos recentes na historia da humanidade “Como livres, e não tendo a liberdade por cobertura da malícia, mas como servos de Deus” ( 1Pd 2:16 ).

Acerca de Cristo, profetizou Davi:

“Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste. Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração” ( Sl 40:6 -8; Hb 10:5 -10).

Apesar das variantes nas traduções: a) ‘os meus ouvidos abriste’, e; b) ‘corpo me preparaste’, o Salmo descreve a submissão voluntária do servo do Senhor à vontade de Deus. Cristo é o servo eleito de Deus, e o Salmista descreve esta sujeição através de uma prescrição na lei de Moisés, pois o escravo que ganhava a liberdade e que quisesse continuar sujeito ao seu senhor teria a ‘orelha furada’ pelo seu senhor diante dos lideres do povo (à porta). Temos aí a figura do servo voluntário, que se sujeita ao seu senhor porque o ama e se sente bem “Então tomarás uma sovela, e lhe furarás a orelha à porta, e teu servo será para sempre; e também assim farás à tua serva” ( Dt 15:17 ).

Ao apresentar-se como manso e humilde, Jesus não estava falando acerca do que estava sentido, antes estava apontando para a sua condição. Quando Ele disse: Sou manso e humilde de coração, estava dizendo, eu sou o Servo do Senhor enviado de Deus conforme a predito nas Escrituras.

Jesus foi comissionado a ensinar aos homens as coisas de Deus, e como servo resignou-se a falar somente o que o Pai estabeleceu nas Escrituras sem nada acrescentar ou diminuir “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ); “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada” ( Jo 8:28 -29).

O termo ‘humilde’ na fala de Jesus aponta para a condição dele como servo, no sentido de quem ‘se submete à servidão’. Segundo a visão do homem da antiguidade não há como considerar um mau sentido em ser ‘humilde’, ou seja, ser ‘servo’ de Deus. Sujeitar-se a Deus é uma honra, e estar a serviço de Deus é uma honra que ninguém toma para si se não for chamado “E ninguém toma para si esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão” ( Hb 5:4 ; Is 49:3 ).

A missão do servo do Senhor era proclamar a mensagem que dá descanso e refrigério a alma “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” ( Jr 6:16 ); “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” ( Is 28:12 ).

Por intermédio de quem Deus daria descanso. Por intermédio de Cristo, a pedra provada, bem firme e fundada. Por intermédio de Cristo, o servo eleito, a paz foi concedida a todos os homens “Disse mais: Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tornares a trazer os preservados de Israel; também te dei para luz dos gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:6 -7); “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” ( Is 28:16 ).

Cristo é o servo do Senhor por sujeitar-se de coração à vontade do Pai: “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” ( Jo 4:34 ); “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” ( Jo 6:38 ); “Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo” ( Hb 10:9 ).

Cristo é o servo do Senhor no qual Deus teve prazer ( Is 42:1 ; Mt 3:17 ), porque Ele se resignou a fazer a vontade de Deus em todo o tempo “Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” ( Lc 22:42 ).

O termo ‘humilde’ não se refere a uma questão de foro íntimo, pessoal, subjetivo, antes aponta para algo objetivo. A humildade decorre da sujeição a um mandamento, o mesmo que submissão, obediência, fidelidade. Sem a ordem, sem o mandamento, sem a figura do senhor que ordena, não há humildade “Sendo fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés em toda a sua casa” ( Hb 3:2 ).

A exortação para dar o seu melhor para Deus não contempla a humildade de Jesus, antes exalta a voluntariedade dos homens. O voluntarioso é altivo, é aquele que anula a vontade do Senhor expressa no mandamento e que realiza a própria vontade sob o argumento de que está servindo, como foi o caso do rei Uzias, que ousou entrar no templo e oferecer holocausto a Deus. Agiu guiado por intuição (carnal compreensão).

Obstinado – “authades (aúôriòriç), “que agrada a si mesmo” (formado de autos, “mesmo, próprio”, e hedomai, “agradar”), denota aquele que, dominado por interesse pessoal e em desconsideração de outros, afirma arrogantemente a própria vontade, “obstinado, rebelde, voluntarioso” Dicionário VINE.

Os filhos de Arão, Nadabe e  Abiú experimentaram as consequências da altives quando ofereceram fogo estranho ao Senhor e foram rejeitados:

“E OS filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o SENHOR, o que não lhes ordenara” ( Lv 10:1 );

“Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o SENHOR seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar do incenso” ( 2Cr 26:16 ).

A forma em que Davi fez a condução da arca da aliança exala a voluntariedade, o que trouxe a punição divina, mas a correção de atitude segundo a lei é submissão: “E temeu Davi ao SENHOR naquele dia; e disse: Como virá a mim a arca do SENHOR?” ( 2Sm 6:9 ).

Ao despir-se da sua gloria para ser introduzido no mundo, no Verbo de Deus houve prontidão de vontade, pois tinha autonomia de fazê-Lo. Mas, após se fazer homem, ou seja, achado na forma de servo, o Verbo eterno não foi voluntarioso propondo sacrifício ou oferta a Deus ( Hb 10:5 ; Hb 5:4 -5), antes resignou-se a obedecer tudo o que foi prescrito pelo Pai ( Hb 10:9 ).

“Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Fl 2:7-8)

A obediência é sacrifício agradável, é a disposição em resignar-se a cumprir a determinação de Deus. Para compreendermos o valor da obediência e do voluntarioso, é necessário observar o crente Abraão quando teve que apresentar o seu único filho em holocausto em obediência a Deus. Abraão não queria sacrificar o seu único filho, mas seguiu para o monte Moriá em obediência. O que estava sendo posto à prova no holocausto de Isaque era a obediência de Abraão, e não a sua voluntariedade “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

Voluntariedade é uma disposição do homem em agradar a Deus através do que possui ou representa, mas o homem só agrada a Deus quando obedece à sua palavra. É Deus quem estabelece o que é agradável a Ele.

A humildade é condição de quem se sujeita ao Senhor como servo:

“Isto está claro em passagens como o Sl 86, onde Davi confessa que, embora ele seja o rei de Israel, ele é humilde (santo) e que, embora desfrute das riquezas do reino, ele é necessitado (confia em Deus). Com base nestas condições espirituais, ele ora pela resposta do concerto de Deus: “Guarda a minha alma, pois sou santo; ó Deus meu, salva o teu servo, que em ti confia” (Sl 86.2). As bênçãos buscadas são eternas (Sl 86.11-13) e temporais (Sl 86.14-17)” Dicionário VINE.

Embora a identificação do paralelismo seja perfeita, contudo a observação de Vine não se refere ao rei Davi, antes o Salmo 86 é messiânico, uma profecia acerca do filho de Davi – Cristo.  Como rei na sua primeira vinda, Cristo é o pobre (humilde) e necessitado (confia em Deus).

A condição ‘pobre’ e ‘necessitado’ não é de bens materiais. São figuras extraídas da lei, pois Deus deixou a sua casa como abrigo dos pobres e necessitados ( Dt 26:12 ), referência de socorro e subsistência. Os termos apontam para aquele humilde (separado como servo) porque é necessitado (confia em Deus).

O servo (humilde) é santo (fiel) e pede que o seu Senhor guarde a sua alma, livrando-a do poder da morte ( Sl 86:13 ).

 

Manso

Semelhantemente, na declaração: ‘Sou manso e humilde de coração’ o termo ‘manso’ na frase em comento não é uma questão de foro íntimo, subjetiva, antes possui valor objetivo. A ‘mansidão’ de Cristo não decorre da relação com o próximo, mas da relação entre Ele e o Pai.

“praütes ou p ra o /e s, forma mais antiga (TTpaúrriç ou Tipaoníç) denota “mansidão”. Em seu uso na Escritura, no qual tem um significado mais extenso que nos escritos gregos seculares, não consiste só no “comportamento exterior da pessoa; nem ainda em suas relações para com o próximo; tampouco na sua mera disposição natural (…) está relacionado de perto com a palavra tapeinophrosune [humildade], e resulta diretamente dela (E f 4.2; Cl 3.12; cf. os adjetivos na Septuaginta em S f 3.12, ‘humilde e pobre’); […] é somente o coração humilde que também é manso, e o qual, como tal, não luta contra Deus e mais ou menos se debate e combate com Ele (…) O significado de praütes “não é expresso prontamente em nosso idioma, pois os termos mansidão, brandura, comumente usados, sugerem fraqueza e pusilanimidade em maior ou menor extensão, ao passo que praütes não diz nada disso. Não obstante, é difícil encontrar uma tradução menos aberta à objeção que ‘mansidão’; gentileza’ foi sugerido. Mas como praütes descreve uma condição da mente e coração, e visto que ‘gentileza’ é apropriada preferivelmente para ações, esta palavra não é melhor que a outra. Deve ser entendido claramente que a mansidão manifestada pelo Senhor e recomendada para o crente c o fruto de poder. A suposição comum é que quando o homem é manso, é porque ele não pode se ajudar; mas o Senhor era ‘manso’ porque Ele tinha os recursos infinitos de Deus à Sua disposição” Dicionário VINE.

Da relação, Senhor e Servo estabelecida entre o Pai e o Filho, decorre a condição ‘manso’ do Filho, e como Deus quer salvar todos os homens, a submissão do servo proporciona aos homens a graça da redenção.

Competia ao Servo do Senhor substituir a desobediência de Adão pela obediência para que, pela obediência do Servo do Senhor, muitos possam ser feitos justos “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Para compreender a declaração de Cristo, vale destacar novamente que, no contexto, Jesus havia acabado de declarar que ‘Todas as coisas me foram entregues pelo meu Pai’. A qualidade de ‘manso’ se dá pelo poder investido pelo Pai no Filho, o Servo que se sujeitou a vontade do Pai em tudo “Sairei na força do Senhor DEUS, farei menção da tua justiça, e só dela” ( Sl 71:16 ).

O Filho é manso mesmo quando propõe seu senhorio aos homens, ele é manso mesmo quando a sua linguagem parece ser rude, como se lê na parábola dos trabalhadores contratados em horários diferentes “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” ( Mt 20:15 ).

Só é possível compreender a declaração de Cristo como ‘manso’ quando se compreende a total sujeição de Cristo a Deus, mesmo Deus entregando todas as coisas a Cristo “Sou como um prodígio para muitos, mas tu és o meu refúgio forte” ( Sl 71:7 ).

O termo grego traduzido por ‘entregue’ é παραδιδωμι, transliterado paradidomi, significa:

“1) entregar nas mãos (de outro), 2) transferir para a (própria) esfera de poder ou uso, 2a) entregar a alguém algo para guardar, usar, cuidar, lidar” Dicionário Bíblico de Strong.

Ao convidar os homens sobrecarregados e cansados em decorrência de um jugo duro e do fardo pesado que levam, Jesus prometeu alivio aos que se sujeitam a Ele. O convite expressa o poder de um Senhor que oferece um jugo suave e um fardo leve aos seus servos. Ele demonstra ter o poder de livrar qualquer homem da opressão e do cansaço do jugo do pecado, desde que se submeta ao seu senhorio.

As Escrituras testificam de Cristo ( Jo 5:39 ), apresentando dois aspectos pertinente àquele que declarou: – “Sou manso e humilde de coração”: a) era o Servo do Senhor, porque se sujeitou a vontade do Pai ( Sl 40:8 ), b) e Rei, porque todas as coisas foram entregues a Ele pelo Pai;

O Servo do Senhor foi descrito por Isaías como prudente e, quando exaltado, elevado e mui sublime: rei “Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime” ( Is 52:13 ); “Aumentarás a minha grandeza, e de novo me consolarás” ( Sl 71:21 ).

Este mesmo Servo trouxe um conhecimento específico, de modo que demanda por parte dos homens aprenderem este conhecimento e, em contra partida, serem aliviados de suas iniquidades, pois o jugo e a carga que pesa sobre os homens, o Servo do Senhor levou sobre si “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

O conhecimento das Escrituras é imprescindível para que os homens entendam, assim como as criancinhas que estavam no templo, que Cristo é aquele que veio em nome do Senhor: – “Hosana ao que vem em nome do Senhor” ( Mt 21:15 ), e lembrar do profetizado por Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvo, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta” ( Zc 9:9 ). Diante deles não estava um profeta, mas o filho de Davi, o rei de Israel, o Filho de Deus ( Mt 16:13 -14).

É um equivoco considerar que Jesus era manso no sentido de possuir um gênio submisso aos homens. Ele era manso por enfatizar a autoridade do Pai como servo. A autoridade que viam em Jesus decorria do seu ensino e, diferente dos escribas que transtornavam o mandamento de Deus, Cristo cumpriu o mando do Pai “Porquanto os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas” ( Mt 7:29 ); “E admiravam a sua doutrina porque a sua palavra era com autoridade” ( Lc 4:32 ).

O termo grego traduzido por manso é:

“4239 πραυς praus aparentemente, palavra primária, ver 4235; TDNT – 6:645,929; adj1) gentileza, bondade de espírito, humildade” Dicionário Bíblico de Strong

O termo hebraico traduzido por manso é:

“06035 anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT – 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico de Strong

A definição de ‘manso’ que consta dos dicionários não é o que Jesus enfatizou ao dizer: – “Sou manso e humilde de coração”. Cristo era ‘manso’ não no sentido de ser pobre, aflito, fraco, modesto, etc., mas em função da maneira em que, como Servo do Senhor cumpria a sua missão.

Os homens reputaram o Cristo como aflito e ferido de Deus, no entanto, o Cristo estava sendo manso, ou seja, não lançou mão das prerrogativas que possuía antes de ser encarnado, e nem antecipou as prerrogativas que receberia ao ser glorificado pelo Pai ‘… e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido’ ( Is 53:4 ).

O termo não deve ser compreendido do ponto de vista moral ou socioeconômico e nem como autocontrole.

No texto a seguir muitos veem autocontrole, mas nele fica estampada a obediência: “E aconteceu que, completando-se os dias para a sua assunção, manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém. E mandou mensageiros adiante de si; e, indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos, para lhe prepararem pousada, Mas não o receberam, porque o seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém. E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia” ( Lc 9:51 -56).

A orientação de Cristo aos discípulos vai além da ideia de autocontrole, pois deveriam identificar, compreender, a que espirito pertenciam, portanto, deviam se ater à missão recebida “Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido” ( Mt 18:11 ).

Como servo do Senhor, Jesus é o majestoso salvador que cavalgou prosperamente pela causa da verdade, mansidão e da justiça, e como Ele punha a confiança em Deus, Deus ensinou a Ele coisas terríveis “E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” ( Sl 45:4 ); “Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei” ( Sl 16:8 ).

Jesus era manso porque nada realizou entre os homens que promovesse uma glória própria. Apesar de o Pai entregar a Ele todas as coisas, tudo o que realizou visava a glória do Pai “Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei” ( Jo 12:28 ).

Cristo não promoveu a si mesmo buscando honra e glória ( Jo 8:50 ), tudo o que falou restringia-se ao mandamento que o pai determinou que falasse “Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:49 -50).

Através do paralelismo antitético do provérbio: “Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos” ( Pv 16:19 ), em que ‘humilde de espírito’ é condição oposta a ‘soberbo’, verifica-se que o manso não visa lucro no exercício do seu mister, diferente dos soberbos querem o despojo “Por que, pois, não deste ouvidos à voz do SENHOR, antes te lançaste ao despojo, e fizeste o que parecia mau aos olhos do SENHOR?” ( 1Sm 15:19 ).

Apesar de ser herdeiro de todas as coisas e ter o poder de fazer todas as coisas assim como o Pai, Cristo abriu mão de qualquer ação autônoma “Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente” ( Jo 5:19 ).

Ser manso é ter o poder de realizar ou de se vingar, mas resignar-se a cumprir estritamente a vontade do seu Senhor. É ter à mão doze legiões de anjos, e não fazer uso do recurso por preocupar-se com a palavra do seu Senhor “Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” ( Mt 26:53 -54).

Ora, temos registrado nas Escrituras que Moisés foi o homem mais ‘manso’ da terra ( Nm 12:3 ). O termo manso (עָנָו anav) refere-se a um sentimento ou a uma virtude? O termo não aponta para questões do sentimento e nem da moral!

“Em sua primeira ocorrência a palavra descreve a condição objetiva como também a postura subjetiva de Moisés. Ele era completamente dependente de Deus e via o que era: ‘E era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra’ (Nm 12.3)” Dicionário VINE.

“06035 עָנָו anav ou [pela combinação com 6041] עניו anayv procedente de 6031; DITAT – 1652a; n. m. 1) pobre, humilde, aflito, manso 1a) pobre, necessitado 1b) pobre e fraco 1c) pobre, fraco e aflito 1d) humilde, modesto, manso” Dicionário Bíblico Strong

Em nossos dias não é aprovado como manso um homem que lança mão de um homem para mata-lo ( Ex 2:12 ). Alguém gentil pode ser severo, pesado ao falar? ( Ex 4:10 ) Como o homem mais manso fica irado a ponto de arremessar e quebrar as tábuas dos mandamentos? ( Ex 32:19 )

As Escrituras designam Moisés como mui manso porque ele não defendia a sua causa ou posição, antes deixava a cargo de Deus defende-Lo. Por várias vezes o profeta Moisés foi desafiado por seus irmãos segundo a carne, e em nenhuma delas Moisés utilizou da autoridade concedida para vindicar a sua posição.

Miriam e Arão confabularam contra Moisés, e Deus interveio ( Nm 12:1 ). Eles até poderiam censurar Moisés por ter tomado para si uma mulher cusita, mas não tinham o direito de contestar o ministério e a autoridade de Moisés com base em uma questão familiar ( Nm 12:2 ); “A Deus não amaldiçoarás, e o príncipe dentre o teu povo não maldirás” ( Êx 22:28 ).

O povo revoltou-se contra Moisés e queriam eleger um líder que os conduzisse de volta ao Egito ( Nm 14:4 ). Moisés poderia se impor sobre o povo como líder, no entanto, ele se voltou para Deus se prostrando como servo ( Nm 14:5 ). Apesar de estar investido de poder sobre a casa de Deus, Moisés evidencia a força de Deus ( Nm 14:17 -19).

Coré, Datã e Abirão, juntamente com duzentos e cinquenta príncipes do povo, se opuseram a Moisés contestando a sua autoridade sob o argumento de que toda a congregação era santa ( Nm 16:3 ), e Moisés nada argumentou em seu favor. Apesar da ira que lhe sobreveio, porque nunca havia defraudado a nenhum dos filhos de Coré, Datã e Abirão ( Nm 16:15 ), deixou a cargo de Deus evidenciar quem era o escolhido para conduzir o povo ( Nm 16:28 ).

Por ser mui manso, Moisés fez com que os filhos de Israel apresentassem segundo o número de suas tribos doze varas. Após serem identificadas com os nomes das tribos, as varas foram deixadas de um dia para o outro na tenda da congregação, e no dia seguinte a vara de Arão havia florescido, as flores desabrocharam e produziam amêndoas ( Nm 17:8 ).

A Bíblia descreve Moisés como ‘mui’ manso. O termo hebraico traduzido por ‘mui’ é מְאֹ֑ד, significando:

“1) extremamente, muito subst. 2) poder, força, abundância n m 3) grande quantidade, força, abundância, extremamente 3a) força, poder 3b) extremamente, grandemente, muito (expressões idiomáticas mostrando magnitude ou grau) 3b1) extremamente 3b2) em abundância, em grau elevado, excessivamente 3b3) com grande quantidade, grande quantidade” Dicionário Strong.

Se comparado aos outros homens, Moisés era muito manso, e não foi nomeado ‘manso’, o que indicaria uma condição plena, porque certa feita, em lugar de obedecer a palavra do Senhor e falar a rocha, feriu a rocha duas vezes, de modo que não evidenciou ao povo quem lhes deu água a beber da rocha ( Nm 20:11 -12).

Cristo por sua vez apresenta-se manso e humilde, condição que O habilita a ensinar os seus ouvintes o conhecimento que lhes dará descanso “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Jesus não se defendeu, antes confiou inteiramente no Pai “Pois tu tens sustentado o meu direito e a minha causa; tu te assentaste no tribunal, julgando justamente” ( Sl 9:4 ); “O qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” ( 1Pd 2:23 ).

Quando Jesus foi incisivo, a intervenção visou a causa do Pai, como podemos ver quando Ele expulsou os cambistas da casa do Pai, mas em tal evento ele permaneceu manso “E disse aos que vendiam pombos: Tirai daqui estes, e não façais da casa de meu Pai casa de venda. E os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devorará” ( Jo 2:16 -17).

Da mesma forma, Cristo, como Filho sobre a sua própria casa, foi um servo gentil, obediente, conforme o expresso nas Escrituras: “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR?” ( Is 42:19 ).

Quem é cego, surdo e perfeito? A resposta está no verso 1: “EIS aqui o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito, em quem se apraz a minha alma; pus o meu espírito sobre ele; ele trará justiça aos gentios” ( Is 42:1 ).

Ser cego, surdo e perfeito aponta para condição, e não para questões circunstanciais como a emoção ou o sentimento. Cristo é o servo do Senhor em quem Deus se apraz. E Jesus foi ungido com o espírito do Senhor porque, como servo, tinha que tirar da prisão os presos “Eu, o SENHOR, te chamei em justiça, e te tomarei pela mão, e te guardarei, e te darei por aliança do povo, e para luz dos gentios. Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” ( Is 42:6 -7).

Quando Jesus disse: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim…”, estava anunciando as boas novas de salvação. Qualquer que se fizesse servo de Cristo, ou seja, tomasse sobre si o jugo de Cristo, aprenderia d’Ele, o servo (humilde) gentil (manso) de coração, consequentemente, tais pessoas encontrariam o descanso prometido por Deus.

Jesus não disputava uma cadeira na galeria dos humildes que a humanidade elegeu para si com pessoas como Ghandi, Madre Paulina, Madre Tereza de Calcutá, etc. Quando Jesus disse: “… sou manso e humilde de coração…” ( Mt 11:29 ), estava se apresentando aos seus ouvintes como Aquele que se submeteu a vontade do Pai como servo, ungido (escolhido, eleito) a pregar boas novas que dá liberdade aos cativos “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” ( Is 61:1 -2).

  • Jesus continuou sendo o servo do Senhor quando disse: “… sou manso e humilde de coração…” ( Mt 11:29 ).
  • Jesus continuou manso e humilde quando expulsou os cambistas do templo (Jo 2:15 ).
  • Jesus não deixou de ser humilde quando se apresentou como o ‘Eu Sou’ que existia antes mesmo que Abraão existisse “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ).
  • Jesus continuou humilde após se apresentar a Pilatos “Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” ( Jo 18:37 ).
  • Jesus não perdeu a humildade após se declarar Mestre e Senhor “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” ( Jo 13:13 ).
  • Ao dizer ser o Filho de Deus, Jesus não faltou com a verdade e nem perdeu a sua condição de humilde, pois continuou sendo o servo (ταπεινος tapeinos) do Senhor “Àquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?” ( Jo 10:36 ).
  • Mesmo após dar testemunho de Si mesmo, Cristo continuou sendo o servo do Senhor, ou seja, humilde e manso de coração “Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai que me enviou” ( Jo 8:18 ).
  • Cristo, o Verbo eterno se esvaziou a si mesmo ao tomar a forma de servo se fazendo semelhante aos homens “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” ( Fl 2:7 ). Mas, tomar a forma de servo não é o mesmo que ser servo. Porém, Cristo após se achar na forma de servo, ou seja, semelhante aos homens, humilhou-se a si mesmo sendo obediente até a morte “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” ( Fl 2:8 ).

Tomar a forma de servo é se fazer homem, mas ser servo (humilhar a si mesmo) é obedecer.

Onde está o segredo da humildade? Na obediência! Ao obedecer a vontade do Pai resignando-se a morrer na cruz, Cristo humilhou-se a si mesmo fazendo-se servo.

Além de Cristo humilhar a si mesmo se fazendo servo apresentando-se como cordeiro sobre a cruz, os seus algozes negaram-lhe um julgamento justo “Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra” ( At 8:33 ; Is 53:8 ).

O que se depreende da frase em comento, como do livro ‘Humildade – A Beleza da Santidade’, ambos produzidos pelo Pr. Andrew Murray é que ele não compreendeu o que é humildade do ponto de vista bíblico.

 

Quem se humilha será exaltado

Em dois momentos que Jesus censurou os escribas e fariseus, foi dito: “E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado” ( Mt 23:12 ; Lc 18:14 ).

O texto não diz que os cristãos são aqueles que são humilhados, no sentido de serem desprezados. Jesus enfatizou que aquele que se humilha é que será exaltado, ou seja, se humilha aquele que se sujeita a Deus “Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” ( 1Pd 5:6 ).

À época de Cristo um homem livre estava na mais alta posição, se contrastada a sua condição social com a de um escravo. Como alguém poderia ‘humilhar’ a si mesmo? Se fazendo servo!

Como se humilhar a si mesmo do ponto de vista bíblico? Se fazendo servo de Deus. E como tornar-se servo de Deus? Obedecendo a sua ordem? E qual a sua ordem? Que creiais naquele que Ele enviou.

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 );

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Daniel foi um homem que se humilhou diante de Deus. Como? Primeiro ele se aplicou a compreender o que o profeta Jeremias havia profetizado (Dn 9:2 ), e ao querer colocar em prática o que compreendeu, estava se humilhando, ou seja, se fez servo de Deus “Então me disse: Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras (…) Mas eu te declararei o que está registrado na escritura da verdade” (Dn 10:12 e 21).

Já o rei Belsazar, apesar de saber tudo o que o seu pai, o rei Nabucodonosor, passou por não reconhecer que Deus é o Altíssimo, não se fez servo de Deus “E tu, Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o teu coração, ainda que soubeste tudo isto” ( Dn 5:22 ).

O servo do Senhor não pode ter a iniciativa de falar de si mesmo, antes deve seguir o exemplo do apóstolo Paulo: “Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras” ( Rm15:18 ). Para fazer os gentios obedientes, o apóstolo Paulo não ousou falar coisa alguma que Cristo não houvesse feito por intermédio do apóstolo.

Cristo como servo falou as palavras de Deus conforme Deus havia estabelecido sem alterá-la em nada “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis quem eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou” ( Jo 8:28 ). E porque Jesus teve o cuidado de falar conforme o Pai ensinou? Porque Ele sabia que o mandamento de Deus é a vida eterna, e alterar o mandamento de Deus produz morte “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito” ( Jo 12:50 ).

Ao crer em Cristo o apóstolo Paulo se humilhou a si mesmo, pois se fez servo de Cristo. Ao perseverar anunciando o evangelho tal qual aprendeu, o apóstolo permanecia na posição de servo, pois somente anunciando tal qual aprendeu os outros seriam exaltados “Pequei, porventura, humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus?” ( 2Co 11:7 ).

Obediência estrita ao conteúdo do evangelho é a essência da auto humilhação, e não questão de caráter, como aponta Murray:

“Vamos estudar o caráter de Cristo até nossa alma estar cheia de amor e admiração por Sua humildade” Andrew Murray, Série Riquezas de Cristo – Humildade – A Beleza da Santidade, Título do original em inglês: Humility – The BeautyofHoliness © 1994 Christian LiteratureCrusade, EUA © 2000 CCC Edições; Tradução: Alessandra Schmitt Mendes.

Obediência não diz de um feitio moral, senão o reino de Deus estaria vetado às meretrizes e publicanos. ‘Obediência’ ou ‘se fazer servo’ está em que se faça o que foi determinado, como se lê: “Mas, que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele, porém, respondendo, disse: Não quero. Mas depois, arrependendo-se, foi. E, dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo; e, respondendo ele, disse: Eu vou, senhor; e não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram-lhe eles: O primeiro. Disse-lhes Jesus: Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus. Porque João veio a vós no caminho da justiça, e não o crestes, mas os publicanos e as meretrizes o creram; vós, porém, vendo isto, nem depois vos arrependestes para o crer” ( Mt 21:28-32).

A Bíblia apresenta a desobediência de Adão como a ofensa contra Deus que trouxe a queda da humanidade e a obediência de Cristo como causa da justificação, de modo que a salvação é substituição de ato, obediência pela desobediência “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ).

Por não compreender que a humildade de Cristo teve relação exclusiva com o fato de Ele ser o servo obediente é que surgem colocações como:

“Cristo é a humildade de Deus incorporada na natureza humana: o Amor Eterno humilhando-se a Si mesmo, revestindo-se com as vestes da mansidão e da bondade para vencer, e servir e nos salvar. Como o amor e condescendência de Deus fazem Dele o benfeitor, e auxiliador e servo de todos, assim, Jesus, por necessidade, se tornou a Humildade Encarnada. E, assim, mesmo no centro do trono, Ele é o manso e humilde Cordeiro de Deus” Idem.

Cristo foi humilde porque se sujeitou a Deus como servo. Mas, a quem o Altíssimo se sujeitaria para ser humilde? Há humildade em Deus? Deus deixou de ser bom (ἀγαθός agathos)? Ora, o predicativo ‘bom’ quando aplicado a Deus significa aquele que é superior, de cima, nobre, em contrate com aqueles que são de baixo, ralé, inferiores, significado que não contempla a ideia do homem do nosso tempo que acha que Deus é bonzinho, condescendente, etc. “E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos” ( Mt 19:17 ).

“18 αγαθοςagathos uma palavra primitiva; TDNT 1:10,3; adj 1) de boa constituição ou natureza. 2) útil, saudável 3) bom, agradável, amável, alegre, feliz 4) excelente, distinto 5) honesto, honrado” Strong

Por não compreender que o termo ‘humildade’ na Bíblia faz parte de uma linguagem utilizada para se fazer compreender diante dos homens à época, ou seja, homens que não pertencem ao nosso tempo, é que o Pr. Murray fez a seguinte colocação:

“É nesse estado de mente, nesse espírito e disposição, que a redenção de Cristo tem sua virtude e eficácia. É para trazer-nos para essa disposição que somos feitos participantes de Cristo. Esta é a verdadeira abnegação, para a qual nosso Salvador nos chama: o reconhecimento de que o ego não tem nada de bom em si mesmo, exceto como um recipiente vazio que Deus tem de preencher, e de que sua pretensão de ser ou fazer qualquer coisa não deve, nem por um momento, ser permitida. É nisto, acima e antes de todas as coisas, que consiste a conformidade com Jesus: nada ser e nada fazer de nós mesmos, para que Deus seja tudo” Idem.

Sendo Cristo o ente santo gerado de Deus, em tudo semelhante aos homens, significa que o seu ego não tinha nada de bom em si mesmo? E os que creem em Cristo, portanto, gerados de novo participantes da natureza divina, não possuem nada de bom no ego?

Cristo era participante da natureza do seu Pai, Ele era bom porque seu Pai é bom. Primeiro era ‘bom’ no sentido de ‘bem nascido’, ‘distinto’, ‘nobre’, segundo, porque Cristo era benevolente.

É um erro entender que o mal decorre do ego do indivíduo, pois o mau se instalou no homem decaído por causa da barreira de separação (pecado) que alienou o homem de Deus, o bom e o bem supremo. O conhecimento do bem e do mal que tornou o homem como Deus não é a causa do mau, portanto, não se deve afirmar que o ego não tem nada de bom em si mesmo.

Leia a seguinte definição de Ego:

“Ego é termo da psicanálise que aponta para o eu de cada indivíduo, a essência da personalidade. A principal função do ego é harmonizar os desejos com a realidade, e depois harmonizar os desejos e a realidade com as exigências presentes nos valores da sociedade. O ego define a personalidade, filtrando os conteúdos do inconsciente impedido que passem para o campo da consciência” Teoria psicanalítica  < http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_psicanal%C3%ADtica > Consulta realizada em 17/03/2014.

Tudo que o homem é e realiza possui relação com o ego. Mesmo o salvo tem ego, pois Deus jamais anula o indivíduo, mesmo após o evento do novo nascimento. O ego faz parte da massa, que Deus, o oleiro, tem poder para fazer vasos para honra. O ego não é sinônimo de altivez, orgulho, etc. Não há como falar em homem se não considerarmos o ego. Se excluir o ego do homem, o homem deixa de ser homem.

O Pr. Murray chegou a conclusão de que Cristo negou o seu ego após listar alguns versos onde aparece o advérbio de negação ‘não’, como se vê:

“O Filho nada pode fazer de Si mesmo” ( Jo 5:19 );

“Eu nada posso fazer de Mim mesmo (…) O Meu juízo é justo, porque não procuro a Minha própria vontade” (v. 30);

“Não aceito glória que vem dos homens” (v. 41);

“Eu desci do céu, não para fazer a Minha própria vontade” ( Jo 6:38 );

“O Meu ensino não é Meu” (Jo 7:16 );

“Não vim de Mim mesmo” (v. 28);

“Nada faço por Mim mesmo” (Jo 8:28 );

“Não vim de Mim mesmo, mas Ele Me enviou” ( Jo 8:42 );

“Eu não procuro a Minha própria glória” (v. 50);

“As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim mesmo” ( Jo 14:10 );

“A palavra que estais ouvindo não é Minha” (v. 24).

A análise de um psicólogo com base nestes versículos daria a ideia de que Jesus estava negando o seu ego, porém, o que dizer dos versos em que Ele enfatiza o ‘Eu’?

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” ( Jo 6:35 );

“E dizia-lhes: Vós sois de baixo, eu sou de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo” ( Jo 8:23 );

“Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 );

“Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 );

“Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” ( Jo 10:9 );

“Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” ( Jo 10:11 );

“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” ( Jo 11:25 );

“Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 );

“Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” ( Jo 13:13 ).

Após ler estes versos, seria Jesus narcisista?

Que dizer das seguintes palavras:

“Elas mostram o que Cristo considerou como o estado de coração que Lhe cabia como o Filho do Pai. Elas nos ensinam o que são a natureza e vida essenciais dessa redenção que Cristo cumpriu e agora transmite. É isto: Ele não era nada para que Deus fosse tudo. Ele renunciou a Si mesmo totalmente, com Sua vontade e Suas forças, para que o Pai trabalhasse Nele. De Seu próprio poder, Sua própria vontade, Sua própria glória, de toda a Sua missão com todas as Suas obras e Seu ensinamento — de tudo isso, Ele disse: “Não sou Eu, não sou nada. Eu Me dei totalmente ao Pai para trabalhar; não sou nada, o Pai é tudo”” Idem.

Jesus não disse as palavras acima, ou buscou apregoar a ideia expressa pelo Pr. Murray. Ora, João Batista foi quem procurou se diminuir, e não Cristo “É necessário que ele cresça e que eu diminua” ( Jo 3:30 ).

Cristo não disse que não era nada, antes Ele disse: “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ). Jesus não disse ‘eu me dei totalmente ao pai para trabalhar, antes Ele disse: “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” ( Jo 5:17 ).




As fábulas de C. S. Lewis

Ora, não pode haver confusão entre parábola e fábula. Cristo veio anunciando o reino dos céus utilizando-se de parábolas porque estava previsto nas Escrituras que o Cristo utilizaria este recurso ao falar ao povo ( Mc 4:34 ; Mt 13:34 ). Jesus mesmo cita o profeta Isaías ao dar justificativa porque falava por parábolas ( Mt 13:13 ), e o evangelista Mateus deixou claro que ele falava por parábolas para que se cumprisse o que fora dito pelo salmista ( Mt 13:35 ).


As fábulas de C. S. Lewis

Após ler um artigo intitulado: ‘Os significados bíblicos em As Crônicas de Nárnia’ disponível na Web < http://bibliacomentada.com.br/index.php/2014/1/1/significados-biblicos-cronicas-narnia > consulta realizada em 04/01/14, não pude deixar de tecer um comentário.

O escritor aos Hebreus deixou claro que, na antiguidade Deus falou de muitas maneiras ao povo de Israel através dos seus profetas e na plenitude dos tempos falou a todos através do seu Filho, Jesus Cristo ( Hb 1:1 ).

Jesus Cristo deixou claro que águas vivas correm apenas do interior (ventre) daqueles que creem n’Ele conforme diz as Escrituras ( Jo 7:38 ), evidenciando que as palavras dos profetas são o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho ( Jo 5:37 e 39), e que Ele, Jesus, não aceitava testemunho de homens ( Jo 5:34 ).

O apóstolo Pedro teve o cuidado de enfatizar que não se utilizou de fábulas artificialmente compostas quando notificou aos cristãos da dispersão a virtude e a manifestação de Cristo ( 2Pe 1:16), antes Ele teve por firme a palavra dos profetas ( 2Pe 1:19 ).

Se o apóstolo Pedro não se utilizou de nenhuma fábula para apresentar Cristo aos homens, com que autoridade um defensor de Lewis lança mão do argumento de que Lewis evangelizava crianças através de fábulas?

Quando escreveu a Timóteo, o apóstolo Paulo deixa claro que, desde a infância Timóteo conhecia as Escrituras, e que somente a palavra de Deus notificada pelos seus santos profetas fazem o homem sábio para salvação pela fé que há em Cristo Jesus ( 2Tm 3:15 ).

Alegar que fábulas possibilitam que as crianças percebam Cristo é negar as Escrituras, visto que somente as Escrituras é perfeita e somente ela refrigera a alma ( Sl 19:7 ). Somente a Escritura é pura, verdadeira, justa e permanece para sempre ( Sl 19:9 ).

Se a Escritura não estivesse ao alcance das crianças, Deus não teria ordenado ao povo de Israel que ensinasse aos seus filhos as ordenanças de Deus ( Dt 6:7 ).

As escrituras é Deus se revelando aos homens através da pessoa de Cristo, ou seja, alcançar a compreensão de Deus não deve ficar a cargo da imaginação do homem, seja ela ampla ou restrita, quer seja criança ou adulto, quer seja judeu ou grego, etc.

Somente as Escrituras desvenda o mistério de Deus que pelos séculos esteve oculto, pois ela apresenta riquezas insondáveis ( Ef 3:9 ), visto que é através da igreja, o corpo de Cristo que tornou-se conhecido aos principados e potestades a multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 ).

Quem disse que as crianças precisam de fábulas, estórias (crônicas), magia, etc., para compreender o evangelho, sendo que muitos homens, inclusive os doutores da lei, não reconheceram que Jesus era o Cristo, e as criancinhas O reconheceram como aquele que veio em nome do Senhor? ( Mt 21:15 )

Ora, não pode haver confusão entre parábola e fábula. Cristo veio anunciando o reino dos céus utilizando-se de parábolas porque estava previsto nas Escrituras que o Cristo utilizaria este recurso ao falar ao povo ( Mc 4:34 ; Mt 13:34 ). Jesus mesmo cita o profeta Isaías ao dar justificativa porque falava por parábolas ( Mt 13:13 ), e o evangelista Mateus deixou claro que ele falava por parábolas para que se cumprisse o que fora dito pelo salmista ( Mt 13:35 ).

O apóstolo Pedro enfatiza que a Escritura é firme porque não foi produzida pela vontade dos homens, antes eles falaram inspirados por Deus ( 2Pe 1:21 ), anunciando de antemão os sofrimentos de Cristo e a glória que se seguiria ( 1Pe 1:11 ). As escrituras apresenta Cristo aos homens, a base do testemunho dos apóstolos e dos profetas ( Ef 2:20 ).

Toda a Escritura divinamente inspirada possui o fito de fazer que o homem creia que Jesus Cristo é o Filho de Deus que havia de vir ao mundo “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ).

Evidenciar a pessoa de Cristo nem sempre é o mesmo que pregar o evangelho. Pregar o evangelho não é dizer que Jesus foi um homem bom, um profeta, um líder, um psicólogo, um marceneiro, um judeu, o filho de Maria, nazareno, etc. Pregar o evangelho é ensinar a doutrina de Cristo, ou seja, ensinar a obedecer tudo o que foi mandado “Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém!” ( Mt 28:20 ).

Estabelecer um arquétipo (Aslam) que transmita as qualidades de Jesus não cumpre o papel de anunciar o evangelho, pois a salvação da humanidade repousa sobre o fato de Jesus ser o servo e o cordeiro de Deus ( Is 49:6 ).

Anunciar o evangelho não é o mesmo que promover uma crença em Deus ou apenas levantar uma bandeira contra o ateísmo, antes é imprescindível anunciar a mensagem imperativa do evangelho, que é crer em Cristo. Quando o homem crê em Cristo é porque verdadeiramente crê em Deus que enviou a Cristo “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” ( Jo 12:44 ). Qualquer que diga que crê em Deus, mas não crê em Cristo, não está salvo, pois não crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou. Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” ( Jo 5:23 -24).

O irmão Tiago abordou esta questão da crença em Deus demonstrando que os demônios também creem em Deus. Ora, os judeus criam em Deus, porém, apesar de terem tal fé, não possuíam a obra “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem” ( Tg 2:19 ).

E qual é a obra que os judeus não possuíam, apesar de dizerem que tinham fé em Deus? Não criam em Cristo, pois está é a obra de Deus “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). É por isso que Jesus disse aos seus discípulos: “NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim ( Jo 14:1 ).

Para alcançar salvação não adianta crer que Jesus foi um profeta. É necessário crer que Jesus é o descendente prometido a Abraão, o Filho de Davi, o Filho de Deus, como asseguram as Escrituras.

Os judeus criam que Jesus era um dos profetas, mas ao ouvir que Ele é o Eu Sou, e que existia antes mesmo que Abraão, pegaram em pedras para apedreja-Lo “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ); “E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas” ( Mt 16:13 -14); “E a multidão dizia: Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia” ( Mt 21:11 ).

Deus anunciou a Davi que, depois da sua morte, levantaria um da sua descendência cujo reino seria estabelecido para sempre. Este descendente de Davi seria o Filho de Deus, uma flecha na aljava de Deus “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens” ( 2Sm 7:12 -14; Is 49:2 ; Sl 127:5 ).

O evangelho não possui relação alguma com magia, feitiçaria, encantamento, etc., antes é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus que nasceu da descendência de Davi segundo a carne e foi declarado Filho de Deus em poder pela ressurreição dentre os mortos ( Rm 1:2 -4 ; Rm 1:17 ).

Se as Crônicas de Lewis ‘possuem figuras com significados muito mais amplos do que se pode imaginar na primeira leitura’, se as crianças ‘têm imaginação ampla e pronta para mais novidades do que os adultos’, e nos livros de Lewis ‘não é comentado claramente o verdadeiro significado ou a base bíblica de qualquer cena ou personagem’ (Os significados bíblicos em As Crônicas de Nárnia), percebe-se que o trabalho de Lewis não apresenta ao leitor o evangelho de Cristo.

Primeiro que não há paralelo algum entre Deus e o Imperador do Além Mar. Deus não é protetor das crianças do nosso mundo, antes é Ele é o salvador dos que O temem “Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece daqueles que o temem” ( Sl 103:13 ). Não vemos Deus preservando nenhuma criança da destruição de Sodoma e Gomorra, nem tão pouco do dilúvio. Segundo, que não há com que comparar o Criador, pois Ele mesmo diz: “A quem me assemelhareis, e com quem me igualareis, e me comparareis, para que sejamos semelhantes?” ( Is 46:5 ).

Segundo que não há semelhança entre Cristo e o leão Aslam, pois Cristo morreu em obediência ao Pai. As Escrituras mesmo previam que Deus jamais quis sacrifício, antes a obediência. O sacrifício é caracterizado pela voluntariedade, diferente da obediência, que exige sujeição “E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” ( Mt 26:42 ).

O que ocorreu com Cristo foi obediência, pois um pecou desobedecendo a Deus, e muitos são justificados porque um obedeceu “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), Para fazer, ó Deus, a tua vontade. Como acima diz: Sacrifício e oferta, e holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradaram (os quais se oferecem segundo a lei). Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:5 -10).

O que atribuem ao sacrifício, na verdade diz de obediência: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ). Seria um contra senso Deus demonstrar aos homens que o melhor é a obediência, e não exigir do Seu Filho o melhor: obediência “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

A redenção da humanidade se dá pela obediência, pois o Pai deu o seu único Filho ( Jo 3:16 ), e o Filho em obediência realizou a vontade do Pai: entregou-se a Si mesmo em sacrifício.

É torcer a verdade bíblica afirmar que o tal Aslam é uma figura de Cristo porque nas crônicas de Lewis o leão Aslam morre no lugar de Edmundo para salvá-lo do seu erro: a traição. A base da ideia das fábulas de Lewis remonta ao pensamento filosófico dito cristão dos primeiros sete séculos (Patrística), de que o pecado decorre de questões comportamentais comprometidas por vícios.

Enquanto a Bíblia demonstra que todos pecaram porque um pecou, a ideia que consta da fábula é que cada indivíduo se faz pecador após praticar um delito contrário a moral (platonismo).

Enquanto a Bíblia demonstra que todos são pecadores por causa da ofensa de um só homem, a fábula aponta que as condutas tidas reprováveis do ponto de vista da moral e dos bons costumes é o que separa o homem de Deus.

Se Lewis escrevesse suas fábulas como o fazem Walt Disney, Joanne Rowling, e muitos outros, não caberia a reprimenda acima, pois não induzem as pessoas as pensarem a Bíblia através de suas mistificações. Agora, com relação ao Sr. Clive Staples Lewis fica o alerta do apóstolo Paulo: “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo” ( 1Co 5:6 -10); “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” ( Cl 2:8 ).

Para saber mais acerca de Lewis, acesse: < http://www.espada.eti.br/narnia.asp > Problemas com Nárnia: O Lado Ocultista de C. S. Lewis, de Mary Ann Collins, acessado em 04/01/14.




‘Quem é a fé’, e não ‘O que é a Fé’

Nas Escrituras fidelidade (Fé) produz confiança (fé), mas a confiança (crença) de alguém não produz fidelidade. A fé-confiança é sempre fruto da Fé-fidelidade, nunca o contrário.  Quando cremos na PALAVRA de Deus que não passa, mas que permanece para sempre (Fé-fidelidade), a fé-confiança que possuímos é fruto da Fé-fidelidade de Deus.


‘Quem é a fé’, e não ‘O que é a Fé’

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” (Efésios 2:20);

O que é a fé

O Pr. Airton Evangelista da Costa assim respondeu a pergunta ‘O que é a fé’?:

“A fé não se explica através da lógica humana. Fé é crença, convicção, certeza, confiança, entrega. É a certeza de que algo vai acontecer, não importando se as condições sejam contrárias. A definição bíblica para a fé é a seguinte: ‘É a CERTEZA das coisas que se esperam, e a prova das coisas QUE NÃO SE VÊEM’ ( Hb 11:1 ). Fé é a crença de que o Senhor está no comando de todas as coisas, em quem depositamos total e irrestrita confiança”  Airton Evangelista da Costa, O Que é a Fé?, Artigo disponível no link: < http://www.estudosgospel.com.br/a-biblia-responde/soteriologia/o-que-e-a-fe.html> visitado em 0105/13.

Há equívocos na definição acima, tanto na argumentação do Pr. Airton quanto na tradução bíblica utilizada por ele.

Na Bíblia a fé não é definida como certeza, antes a fé é descrita como ‘firme fundamento’ “ORA, a fé é o FIRME FUNDAMENTO das coisas que se esperam, e a PROVA das coisas que se não veem” ( Hb 11:1 ). O ‘firme fundamento’ é objetivo e a ‘certeza’, por sua vez, é questão subjetiva, de foro íntimo e varia de pessoa para pessoa.

A certeza ou opinião varia de pessoa para pessoa, mas o fundamento de Deus não! O fundamento de Deus fica firme ( 2Tm 2:19 ), as opiniões e certezas não.

Qual é o fundamento de Deus? Cristo, Ele é a fé anunciada de antemão pelos apóstolos e profetas e se manifestou aos homens na plenitude dos tempos “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” ( Ef 2:20 ); “Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” ( 1Co 3:11 ).

Jesus Cristo é o fundamento de Deus, a rocha inabalável, firme. Enquanto a Bíblia aponta para o fundamento que é firme, o Pr. Airton aponta para uma crença, uma certeza. Ele deixa de olhar para o que é firme para olhar o que é transitório:

“É a certeza de que algo vai acontecer, não importando se as condições sejam contrárias” (Idem).

O firme fundamento

Quando o escritor aos Hebreus diz que a fé é o firme fundamento, ele está falando de Cristo, a pedra firme que os edificadores rejeitaram “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina” ( At 4:11 ); “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina” ( Ef 2:20 ).

Na Bíblia, Cristo é a personificação da fé, ou seja, Ele é a fé que havia de se manifestar e foi manifesta na plenitude dos tempos “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ). A FÉ que havia de se manifestar é Cristo, por meio da qual o justo vive “Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá” ( Hc 2:4 ). Se o homem vive da palavra que sai da boa de Deus (Verbo), consequentemente a fé não é uma certeza, uma opinião ou um sentimento, isto porque certezas, opiniões e sentimentos são volúveis enquanto a palavra de Deus permanece para sempre e faz tudo o que lhe é aprazível “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” ( Is 55:11 ; 1Pe 1:25 ).

Da palavra de Deus temos o testemunho de que jamais mudará, mas com relação aos homens há a exortação para que creiam na palavra de Deus até o fim ( Mt 24:13 ).

Jesus disse: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” ( Jo 16:33 ), ao fazer referencia a Cristo, o evangelista João diz: “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” ( 1Jo 5:4 ). Não é a certeza do homem que vence o mundo, antes quem venceu o mundo foi Cristo, e Ele é a nossa fé.

Cristo é a fé que habita no coração daqueles que creem ( 2Tm 1:5 ), pois Ele prometeu fazer morada nos crentes ( Jo 14:23 ).

A fé que não se explica através da lógica humana é a fé que consta nos dicionários. Por exemplo:

“Fé (do Latim fides, fidelidade e do Grego πίστη pistia1 ) é a firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta ideia ou fonte de transmissão” Wikipédia.

Se alguém possui a opinião de que algo é verdade, os lexicógrafos definem que tal opinião ou crença é fé. Por exemplo: se alguém tiver a firme opinião de que um pedaço de madeira é pedra, a opinião, a crença de tal pessoa é tida por fé.

A verdade como fundamento

Mas, observando na Bíblia, verifica-se que, quando Deus ordenou ao povo de Israel que subisse e tomasse a terra prometida por herança, se houvessem obedecido, a crença (pisteuein) deles na palavra de Deus (verdadeira e firme= pistis) seria designada fé (pisteuein), porém, como o povo desobedeceu, isto demonstra que não tinham o que é proveniente do que é verdadeiro e firme (pistis): fé (confiança=pisteuein). Observe que em seguida os filhos de Israel se animaram em adentrar a terra e o que fizeram a seguir também não era fé, pois não estavam apoiados na palavra de Deus ( Nm 14:39 -45 ).

A opinião do povo estava formada: ‘Não podemos subir contra aquele povo porque é mais forte que nós’ ( Nm 13:31 ). Logo em seguida surgiu nova opinião: ‘Eis-nos aqui, e subiremos ao lugar que o SENHOR tem falado; porquanto havemos pecado’ ( Nm 14:40 ), mas em ambos os casos a opinião que possuíam não era fé.

Não é a covardia ou a coragem que determina se o homem tem fé ou não. O que promove a fé é a verdade da palavra de Deus, de modo que, quando o homem anda segundo o que lhe é ordenado, anda por fé. Aceitar ou não um desafio não é prova de fé, antes resignar-se a obedecer a palavra de Deus é fé “E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” ( Mt 4:3 -4).

Há uma grande confusão com relação ao termo ‘fé’ e o termo ‘crer’, visto que na língua grega o mesmo radical da palavra é utilizado como substantivo e verbo. Quando os tradutores foram traduzir o substantivo e o verbo ‘fé’ para a língua portuguesa, como o termo fé não é flexionável para ser utilizado como verbo, o termo foi substituído pelo verbo crer.

Em resumo, o substantivo latino fides (fé), correspondente ao termo grego pistis (fé=substantivo), não tem verbo e, assim, os tradutores viram-se obrigados a recorrer a um verbo latino de outro radical para exprimir o verbo grego pisteuein. Passaram a utilizar o verbo credere, que em português é crer.

No hebraico arcaico, o termo fé é ‘emunah’, palavra feminina com dois significados: fidelidade e adesão, e no hebraico moderno o termo passou a ser utilizado com vários significados, incluindo o verbo ‘crer’, que na língua hebraica é ‘boteach’ (creio) e ‘livtoach’ (acreditar).

Na língua grega o termo fé (Pistis [substantivo], Pisteuō, [verbo], Pistos [adjetivo]) deriva dos termos verdadeiro, fidedigno, fiel, de modo que a fé decorre do que é verdade, fiel, fidedigno. Não há fé no que é falso, na crendice, no conto de fada. Somente o que é verdadeiro produz fé, de modo que um tabelião só dá fé do que é verdadeiro.

Ora, a fé está vinculada à verdade, e a fidelidade ao que é fidedigno, de modo que a confiança deriva da verdade, do que é real, nunca o contrário. Jamais a confiança produz uma verdade ou altera a realidade.

A ‘lei da gravidade’ contém os elementos essenciais para que se possa compreender o sentido da fé. Se uma pessoa acredita (opinião firme) que se saltar de um penhasco uma força de atração o trará para o solo, temos a fé: confiança na verdade. Mas, se uma pessoa acredita que ao saltar do penhasco alçará voo, temos uma crença. Ainda que esta confiança ou opinião seja absoluta, não mudará a verdade de que uma força o atrairá para o solo.

A fé não decorre de uma firme opinião de que algo é verdade, antes a fé decorre da verdade. Sem a verdade não há fé. À parte do que é verdadeiro, firme, seguro, fidedigno, fiel, não há que se falar em fé.

Acreditar na fada do dente, ter a firme opinião de que a fada Sininho existe não é fé, é ilusão. Tal crendice, tal opinião, por mais intensa que seja, não torna a fantasia real. Agora, a verdade, por sua vez, é o que produz fé, confiança, mesmo quando não podemos ver.

As definições contidas nos dicionários apresentam diversos significados com relação ao termo fé porque a língua é dinâmica. Observe algumas frases construídas com o termo fé:

  • “Fazer fé”: acreditar em alguém ou em algum ato; ter esperança;
  • “Dar fé”: afirmar como verdade;
  • “Boa fé”: forma de agir honestamente, sem quebrar um compromisso;
  • “Má fé”: agir de forma intencional para prejudicar terceiros;
  • “Botar fé”: acreditar sem questionar;
  • “Fé cega”: o ato de acreditar sem questionar;
  • “A fé remove montanhas”: o impossível pode ser alcançado quando você acredita em Deus.

A ideia bíblica: ‘Creio porque é verdadeiro’ acabou sendo substituída pela asserção ‘creio porque é absurdo, improvável’, etc. pelo uso incorreto do termo fé (fides).  Tremendo equivoco!

Nas Escrituras fidelidade (Fé) produz confiança (fé), mas a confiança (crença) de alguém não produz fidelidade. A fé-confiança é sempre fruto da Fé-fidelidade, nunca o contrário.  Quando cremos na PALAVRA de Deus que não passa, mas que permanece para sempre (Fé-fidelidade), a fé-confiança que possuímos é fruto da Fé-fidelidade de Deus.

Qualquer que planta limão e se põe a espera de uma colheita de laranja é louco, desvairado, pois o fato de esperar, acreditar, firmar opinião, etc., jamais mudará o fato de que sementes de limão produzem limão, isto porque Deus disse: “Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi” ( Gn 1:11 ).

Acreditar jamais mudará o que foi estabelecido por Deus: as árvores darão frutos segundo a sua espécie, ou seja, segundo a sua semente.

Agora, quando alguém acredita, tem certeza, a firme opinião de que ao plantar limão, colherá limão, a fé-confiança (pisteuein ) é fruto da Fé-fidelidade (pistis) que estabeleceu que a ‘árvore frutífera dê fruto segundo a sua espécie’.

A verdade de que uma semente produz frutos segundo a sua espécie é o que denominamos fé (verdade, fiel, fidedigno), pois apesar de não se ver as árvores e os seus frutos quando se está lançando a semente ao solo, a semente é prova suficiente daquilo que não se vê. O que espero tem por base um firme fundamento.

Quando Jesus anunciou ser o Filho de Deus, muitos não creram porque não criam nas Escrituras “Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” ( Jo 5:47 ). Além do testemunho das Escrituras, as obras que Jesus realizava testificavam acerca d’Ele “Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim” ( Jo 10:25 ).

Por que era necessário o testemunho das Escrituras e o testemunho das obras de Cristo? Porque a fé deriva do fundamento, da verdade, do que é firme, e não de uma crença, convicção, certeza, confiança, entrega.

Por que o crente crê em Deus? Por causa de milagres?  Não! O crente crê em Deus por causa de Cristo, visto que Deus o ressuscitou dentre os mortos. Deus o ressuscitou para que a confiança e esperança do crente estejam em Deus “E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” ( 1Pe 1:21 ).

O evento da ressurreição é tão importante para o crente que, os seus discípulos foram estabelecidos por testemunhas da ressurreição “E matastes o Príncipe da vida, ao qual Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas ( At 3:15 ).

A concepção de que a fé não é afeta a lógica humana decorre de uma má leitura feita desde os patristicos, sendo atribuída a Tertuliano a frase ‘credo quia absurdum’ (creio porque é absurdo) em decorrência da frase: “E o Filho de Deus morreu, o que é crível justamente por ser inepto; e ressuscitou do sepulcro, o que é certo porque é impossível”, pois entendiam que a verdadeira fé tem de se opor a razão.

Se a fé não se explicasse através da lógica humana, ou se a fé fosse contrária à razão, seria sem sentido a orientação do apóstolo Pedro: “Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” ( 1Pe 3:15 ). Ou ainda a exortação do apóstolo Paulo em Romanos 12.1 para apresentar a Deus sacrifício vivo, santo e agradável que é o culto racional.

Seria sem sentido Cristo ter aparecido aos seus discípulos com muitas e infalíveis provas “Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando das coisas concernentes ao reino de Deus” ( At 1:3 ).

A fé não é a ‘crença de que Deus está no comando de todas as coisas’, antes a fé é proveniente de Deus que é fiel, verdadeiro e poderoso para cumprir a sua palavra, portanto, digno de total e irrestrita confiança Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” ( 2Tm 2:11 -13).

Quando o homem crê que pode salvar-se através das suas boas ações, sacrifícios, orações, votos, etc., não é fé, antes fé é quando o homem crê que Cristo é o enviado de Deus que tira o pecado do mundo.

Cristo é a fé manifesta, o firme fundamento estabelecido por Deus. Por intermédio de Cristo é que cremos em Deus que ressuscita os mortos. Sem Cristo é impossível agradar a Deus, pois Ele é o autor e o consumador da fé ( Hb 11:6 ; Hb 12:2 ; 1Pe 2:5 ).