O que se entende por pecado?

O pecado pelo qual Cristo morreu, refere-se a uma escravidão, de modo que, o corpo do pecado, ao ser crucificado, juntamente, com Cristo, é aniquilado, para que o homem, nascido de novo, não sirva mais ao pecado.


O que se entende por pecado?

“E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão.” (Hebreus 2:15).

Definição de pecado

Por definição, pecado é ‘iniquidade’ ou, ‘tudo o que não é de fé’.

Ao construir duas frases que definem pecado, o evangelista João utilizou os substantivos ἁμαρτία[1] (hamartia), ἀνομία[2] (anomia) e ἀδικία[3] (adikia).

“Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade (anomia); porque o pecado é iniquidade (anomia).” (1 João 3:4);

“Toda iniquidade (adikia) é pecado e há pecado que não é para morte.” (1 João 5:17).

O apóstolo Paulo, por sua vez, conceituou o pecado como sendo tudo o que não é proveniente de fé:

“Mas, aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado.” (Romanos 14:23).

O apóstolo dos gentios utilizou os termos gregos ἁμαρτία (hamartia) e πίστεως[4] (pisteōs) para conceituar o pecado, o que nos dá elementos para compreendermos a natureza do pecado na Bíblia.

O substantivo πίστεως, traduzido por fé, possui diversos significados, mas, no contexto em análise, o termo não se refere a crer, acreditar, confiar, etc., que é próprio ao homem, mas, se refere à fidelidade, à lealdade, à firmeza, à essência do que se pode confiar, o que remete à palavra de Deus.

“Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação;” (1 Timóteo 4:9).

Que palavra é fiel e digna de confiança? Está palavra é a ‘fé’, que alguns se apostataram (1 Timóteo 4:1), ou seja, a palavra da fé, a boa doutrina (1 Timóteo 4:5). Tudo o que não é segundo o evangelho, a fé que foi entregue aos santos, por definição, é pecado (Judas 1:3).

Os nascidos de Deus

Nesse sentido, quando o evangelista João enfatiza que pecado é a iniquidade, pelo contexto da carta, percebe-se que ele utiliza o termo iniquidade para descrever o posicionamento daqueles que são contrários ao evangelho de Cristo. Quando compreendemos que, na essência, o evangelho é um mandamento (1 João 3:23; 2 Pedro 2:21), certo é que aqueles que não obedecem ao evangelho permanecem no pecado e estão em iniquidade.

É assente entre os cristãos, que Jesus se manifestou para tirar os pecados dos que n’Ele creem e que, em Cristo, não há pecado (1 João 3:5). Qualquer que permanece em Cristo é isento de pecado (1 João 3:6 e 9), mas, aquele que não permanece no que foi ensinado comete pecado, pois, pecado é iniquidade, ou seja, desprezo, injustiça, violação, etc., a tudo o que Cristo ensinou (1 João 2:24 e 27).

Quando o apóstolo João conceituou pecado como iniquidade, ele estava recomendando aos cristãos a permanecerem em Cristo (1 João 2:28; 1 João 3:24), pois, se reconheciam a Cristo com justo, deveriam igualmente praticar a justiça, que é obedecer ao mandamento de Deus (crer em Cristo) e, assim, seriam feitos filhos de Deus (1 João 2:29; 1 João 5:1).

O evangelista João enfatiza que os cristãos, agora, são filhos de Deus (1 João 3:1-2) e qualquer que se agarra à esperança proposta em Cristo, purifica-se a si mesmo, assim, como Cristo é puro (1 João 3:3). Isso significa que, basta crer em Cristo para se purificar, não sendo necessário aos que estão em Cristo se purificarem.

Quando o evangelista João declina que ‘qualquer que comete pecado, também, comete iniquidade’, a ênfase na ação ‘comete pecado’, caracteriza aqueles que são escravos do pecado (João 8:34). Substituindo ‘comete pecado’ por ‘servo do pecado’, percebe-se que os escravos do pecado são os que cometem iniquidade, pois, não são sujeitos à lei de Deus (Romanos 8:7).

Sabendo que Cristo manifestou para tirar os nossos pecados e como Ele é isento de pecado, para estarmos n’Ele e Ele em nós, igualmente, temos que estar isentos de pecado (1 João 3:24; 1 João 1:5; Efésios 5:8).

Se o cristão está em Cristo e Cristo está no cristão, isso significa que o cristão guardou o Seu mandamento (1 João 3:24), de modo que, no cristão, não há pecado, portanto, não peca por estar em Cristo (1 João 3:6). Quem peca é porque não está em Cristo, de modo que não viu e nem conheceu a Cristo.

O evangelista João deu essa instrução para que os cristãos não fossem enganados, vez que, quem pratica a justiça é justo, assim, como Cristo é justo. Já, aquele que peca é do diabo, mas, Cristo veio para desfazer as obras do adversário.

O crente em Cristo não é escravo do pecado, portanto, não peca. Como é nascido de Deus, da semente incorruptível, não pode pecar.

Violação da lei

Quando se analisa o pecado como violação da lei, os estudiosos, na sua grande maioria, fazem referência à lei mosaica.  Entretanto, há uma lei que foi violada somente por um homem, cuja consequência foi a derrocada da humanidade:

“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas, da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente, morrerás.” (Gênesis 2:16-17).

A desobediência de Adão ao mandamento dado no Éden é descrita pelo apóstolo Paulo como ofensa (paraptoma[5]), ou, em outro termo, pecado (hamartano[6]), verbo que expressa uma ação ou, a uma omissão, que viola um mandamento de Deus (Romanos 5:14).

Na atitude de Adão, que comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, temos uma ofensa, uma iniquidade ou, seja, ele ‘pecou’ (αμαρτανω) contra Deus, pois, violou uma determinação expressa e personalíssima. Nesse sentido, Adão é o único sujeito do verbo αμαρτανω:

“E não foi, assim, o dom como a ofensa, por um só que pecou (ἁμαρτήσαντος). Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas, para justificação.” (Romanos 5:16).

Como é possível um só pecar (Romanos 5:16), mas, o apóstolo haver afirmado, anteriormente, que todos pecaram?

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram.” (Romanos 5:12).

Até aqui, tratamos de um tipo de pecado: a transgressão de um mandamento ou, seja, iniquidade, ofensa, sendo que o sujeito do verbo αμαρτανω pratica uma ação ou, se omite e comete pecado.

Agora, trataremos de outro tipo de pecado, que ocorre, não por ação ou, por omissão do indivíduo, mas, porque ‘entrou’ no mundo o pecado (ἁμαρτία – hamartia). Nesse sentido, o pecado que ‘entrou’ no mundo, não se vincula a ‘uma palavra, a um ato ou, a um desejo’ contrário à lei de Deus ou, à lei ou, ainda, à moral humana.[7]

O pecado que passou a ‘existir’ no mundo, em função da ofensa de Adão, refere-se a uma falha, a um erro, a uma mancha. Por força da lei, que estabeleceu: ‘certamente morrerás’, a ofensa de Adão teve como consequência uma falha e pela falha entrou a morte.

É comum, entre os teólogos, pensarem o pecado somente como ‘errar o alvo’, ‘cometer um erro’, ‘cometer um pecado’ (contra Deus), relacionando o termo grego ἁμαρτάνω a uma ação ou, a uma omissão que viola uma lei.

Mas, devemos lembrar que o termo ἁμαρτία (pecado), utilizado pelo apóstolo Paulo, para falar do erro, da falha que entrou no mundo, era utilizado pelos gregos para fazer referência à ação de um lanceiro que errava o alvo. A falha ou, o erro do lanceiro descrito pelo termo ἁμαρτία não estava somente no resultado da ação: errar o alvo, antes, a hamartia permeia a execução do arremesso da lança por completo ou, seja, engloba toda a ação do lanceiro, o que resulta no erro do alvo.

Desse modo, é na ação do lanceiro que está a ἁμαρτία, não somente no resultado. Empunhar a lança, calcular o ângulo e a força do arremesso, visando a marca pretendida, é ação eivada de hamartia, que terá como resultado o erro de não acertar o alvo. As intenções do lanceiro, boas ou, más, não são levadas em conta para se determinar a ἁμαρτία, pois, quando o objetivo é acertar um alvo, não se cogita lei, moral ou ética.

Outra questão a se observar na ἁμαρτία, remonta a Grécia homérica, pois, os gregos acreditavam que a ἁμαρτία era ‘uma mancha que se espalhava’ e afetava o génos (família, clã, grupo familiar ou descendência) ou, seja, a consequência da falta de um indivíduo recaia sobre todos os seus parentes e descendentes (pessoas ligadas por laços de sangue), tanto com relação ao parentesco sagrado (pais, filhos, netos ou irmãos), quanto ao parentesco profano (esposos, cunhados, sobrinhos e tios), uma espécie de ‘culpa’ coletiva.

Esse pensamento influenciou a produção artística grega e o termo ἁμαρτία era utilizado, nas tragédias gregas, para retratar uma maldição, que envolvia o herói trágico, por causa de um vínculo de sangue com um antepassado amaldiçoado, não importando a ação ou omissão do herói, vez que a maldição não se dá por falta de caráter ou, por maldade do herói.

As tragédias gregas refletiam o pensamento dos gregos antigos, de que a realidade existencial era perfeita e difícil de explicar ou, de descobrir, tanto que a religião olímpica afirmava a existência de um equilíbrio que regia a tudo e a todos, harmonicamente, em uma espécie de estado universal, em perfeição. Quando havia alguma mudança ou, desvio no ‘status quo’ da perfeição, o equilíbrio devia ser restaurado. É nesse cenário que o termo ἁμαρτία era utilizado com relação ao herói trágico, pois, o equilíbrio precisava ser restaurado, mas o herói, apesar de ser integro, de boa índole, invariavelmente, falhava ao tentar recompor a perfeição e o equilibro existencial perdido. A falha do herói trágico se dava, não por violação a leis ou, por faltas de cunho moral, mas, por tentar recompor o equilíbrio, sendo que o resultado restava indesejável, em função da ἁμαρτία, uma maldição que permeava a existência do herói, mas, que ele desconhecia (ignorância).

Por má leitura das tragédias gregas, que buscavam a Catarse (do grego κάϑαρσις, kátharsis, “purificação”), pela desdita do herói trágico, frente ao seu destino, os padres da antiguidade introduziram viés moralizante na interpretação das tramas, de modo que os ‘heróis’ sofrem revezes em função dos seus erros.

Do ponto de vista teológico, os estudiosos não consideram a ἁμαρτία como uma ‘mancha que se espalha’, um ‘erro’, uma ‘falha’, do ponto de vista do ‘erro trágico’, e privilegiam o conceito de ἁμαρτία delineado na obra ‘Ética a Nicômaco’, de Aristóteles, que trabalhava questões como ética[8], moral, culpa, responsabilidade, etc., em detrimento do conceito estético presente na ‘Poética’, obra do mesmo autor.

Até aqui analisamos o pecado sob duas perspectivas: ofensa, iniquidade à vista de uma determinação legal, cujo sujeito da ação foi Adão (Romanos 5:16) e o pecado como um poder, uma força, um senhorio, que exerce seu domínio sobre os descendentes de Adão (Romanos 5:12a).

Através do pecado (ἁμαρτία) que entrou no mundo, veio, também, a morte e é, através da morte, que o pecado exerce o seu domínio.

“Não sabeis vós que, a quem vos apresentardes por servos, para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis ou, do pecado para a morte ou, da obediência para a justiça?” (Romanos 6:16).

É da lei que foi dada no Éden que a morte tem força e o pecado, por sua vez, subjuga o homem através da morte (aguilhão).

“Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei.” (1 Coríntios 15:56);

“E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão.” (Hebreus 2:15);

“Para que, assim, como o pecado reinou na morte, também, a graça reinasse pela justiça, para a vida eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor.” (Romanos 5:21).

Por um homem que pecou (iniquidade), entrou o pecado (falha, erro, mancha) no mundo e, em função do pecado, a morte.

“Porque, assim como a morte veio por um homem…” (1 Coríntios 15:21).

Como a morte passou a todos os homens, uma vez que todos morrem em Adão, é dito que ‘todos pecaram’ (Romanos 5:12b). Ora, ‘todos pecaram’, não à semelhança de Adão, que transgrediu um mandamento (Romanos 5:14), antes, todos pecaram, porque a morte, como penalidade decorrente da ofensa de Adão, passou a todos os homens.

“Porque, assim como todos morrem em Adão…” (1 Coríntios 15:22).

Quando é dito que ‘todos pecaram[9]’, temos um novo conceito de pecado, que difere dos outros dois apresentados, anteriormente, que é: ‘perda da marca’, ‘perda do padrão’. A ideia de ‘perda da marca’ quase não é utilizada pelos teólogos, que acham que o termo não é utilizado no Novo Testamento, como se observa no comentário que consta do Dicionário Bíblico Vine.

A expressão πάντες ἥμαρτον (pantes hemartov – todos pecaram) assemelha-se à linguagem camponesa, quando é dito que o ‘fruto pecou’, por ser impróprio para o consumo. Por causa da morte, que passou a todos os homens, é dito que ‘todos pecaram’, no sentido de que ‘todos perderam a marca’, o ‘padrão de qualidade’, a ‘perfeição’, ou seja, tornaram-se inúteis, reprováveis, impróprios, etc.

Da leitura indevida do termo ἁμαρτία (hamartia), é que fomentaram, ao longo da história da cristandade, inúmeras doutrinas e equívocos, acerca do pecado, vez que não consideram que o termo pode remeter a três ideias distintas:

  1. Ofensa, iniquidade, desobediência, etc.;
  2. Domínio, poder, reino, senhor, etc., e;
  3. Perda da marca, perda do padrão, perda da perfeição, etc.

Perspectiva judaica

A concepção judaica de pecado, se considerarmos a Bíblia, é difusa, pois se faz acompanhar de considerações extraídas do Talmud e da Cabala. Na essência, o Judaísmo considera pecado a violação de um mandamento divino, ou seja, da Lei Judaica, que não é necessariamente uma falta moral. Nesse diapasão, para o judaísmo, pecado é um ato, não uma condição a que o indivíduo está sujeito.

Segundo o judaísmo, há diferentes termos no Antigo Testamento, para fazer referência a diferentes tipos de pecado e dentre eles, destacamos:

  1. chet é utilizado quando o pecado é cometido por erro ou, por descuido;
  2. avon é utilizado quando o pecado é fruto de desejo ou, de paixão e;
  3. pesha, por um ato de rebelião contra o Deus.

O judaísmo descreve o homem como responsável pelo pecado, por gozar de livre-arbítrio, mas que, por ter uma natureza fraca, tende para o mal. Apesar de não considerar o pecado uma condição ou, estado do ser, o judaísmo descreve a humanidade como incapaz de escolher o bem, em vez do mal, e que todos os homens nascem em pecado, em decorrência da consequência dos atos de Adão.

Ora, os termos hebraicos chet[10] (חֵטְא ou, חֲטָאָה), comumente traduzidos por pecado, serviam para fazer referência a qualquer erro como, quando um lanceiro erra o alvo (Juízes 20:16). Além do significado secular, o termo serve para fazer referência ao erro de desobedecer ao mandamento de Deus.

Outro termo é pesha (פֶּשַׁע), utilizado para fazer referência a uma transgressão intencional do que foi estabelecido por Deus. É um termo que, também, significa maldade, maléfico, ruindade, rebeldia, comumente traduzido por transgressão, por violar o mandamento.

A palavra avon (עָוֹן), geralmente, traduzida como ‘vaidade’ ou, ‘iniquidade’, geralmente aparece em conexão com a ideia de perversão ou, de um ato de distorção do que Deus estabeleceu, para satisfazer outros fins.

O termo abar (עבר), também é utilizado para fazer referência à transgressão de um mandamento ou, da aliança estabelecida por Deus.

Ora, todos os termos mencionados até aqui servem para descrever a desobediência do homem a um mandamento de Deus, como se lê:

“Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram, aleivosamente, contra mim.” (Oséias 6:7).

Adão recebeu um mandamento e transgrediu, os filhos de Israel, por sua vez, receberam uma aliança e transgrediram. Diferentemente, de Israel, Adão estava vivo para com Deus, quando recebeu o mandamento, que era para preservar-lhe a vida, e os filhos de Israel estavam mortos para Deus, quando receberam a aliança, que era para conceder-lhes vida.

“Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR.” (Levítico 18:5).

Adão pecou, no sentido de transgredir um mandamento, e os filhos de Israel, igualmente, pecaram, ao transgredir uma aliança. A cada quesito da lei que transgrediam, os filhos de Israel multiplicavam as suas iniquidades.

“Porque as nossas transgressões se multiplicaram perante ti e os nossos pecados testificam contra nós, porque as nossas transgressões estão conosco e conhecemos as nossas iniquidades;” (Isaías 59:12).

Em um único verso, o profeta Isaías fez uso dos três termos que mencionamos antes, traduzidos por pecado: pesha, chat e avon e todos eles foram utilizados para demonstrar a desobediência dos filhos de Israel, com relação à aliança, posicionamento que pode ser escrito através do termo hamartia, no sentido de ofensa, iniquidade, desobediência.

No entanto, há versículo no Antigo Testamento que aponta para a humanidade, como um todo, sem excetuar os judeus, como, por exemplo, o Salmo 53, a que o apóstolo Paulo faz referência:

“Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois, já dantes, demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado. Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.  Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e, juntamente, se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.” (Romanos 3:9-12).

Ao citar o Salmo 53, o apóstolo Paulo evidencia que o salmista não estava tratando de transgressão de uma lei, mas, de uma condição que é própria a todos os homens: sujeição ao pecado.

‘Pecado’ em Romanos 3, verso 9, tem conotação de força, domínio, senhorio, poderio, e não de ato, ação. Já o verso 12 descreve a condição do homem sob domínio do pecado: Todos se extraviaram e, juntamente, se fizeram inúteis, ou seja, a condição de extraviado, inútil, é o mesmo que perda da marca, perda do padrão, perda da perfeição, condição que se nomeia pecado.

Perspectiva Católica

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, no seu parágrafo 1849, o pecado:

“é uma falta contra a razão, a verdade, a reta consciência. É uma falha contra o verdadeiro amor para com Deus e para com o próximo, por causa dum apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e atenta contra a solidariedade humana. Foi definido como ‘uma palavra, um ato ou, um desejo contrário à Lei eterna.’”[11].

Já, no parágrafo 1852, o mesmo Catecismo apresenta variedades de pecados:

“É grande a variedade dos pecados. A Sagrada Escritura nos fornece várias listas. A Epístola aos Gálatas opõe as obras da carne aos frutos do Espírito: «As obras da natureza decaída (“carne”) são claras: imoralidade, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, inimizades, discórdias, ciúmes, fúrias, rivalidades, dissensões, facciosismos, invejas, excessos de bebida e de comida e coisas semelhantes a estas. Sobre elas vos previno, como já vos tinha prevenido: os que praticam ações como estas, não herdarão o Reino de Deus» (Gl 5, 19-21) (93)” Idem.

No parágrafo 1854, o pecado é subdividido em pecado mortal e pecado venial, em relação à sua gravidade:

“Os pecados devem ser julgados segundo a sua gravidade. A distinção entre pecado mortal e pecado venial, já perceptível na Escritura (94), impôs-se na Tradição da Igreja. A experiência dos homens corrobora-a.”. Idem.

Analisando o Catecismo da Igreja Católica, qualquer falta do homem é tida por pecado, pois, todos os equívocos do homem são um atentado contra ‘a razão, a verdade ou, a reta consciência’, e pode se concretizar, através de ‘uma palavra, um ato ou, um desejo’.

Como tudo o que o homem realiza se concretiza por palavra, ato ou, desejo e tudo envolve questão de razão, verdade e consciência, resta que a gama de equívocos a que o homem é suscetível é enorme e, do ponto de vista humano, envolvem gradações, ao que o Catecismo deu o nome de pecados capitais e veniais.

Do que foi sintetizado acima, a definição de pecado, que consta do Catecismo Católico, está eivada de equívocos e imprecisões terminológicas, em decorrência do pensamento dos seus grandes padres: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, que entenderam o pecado como “desordem” (Faust. 22; S.Th.1-2,71,6).

Santo Agostinho, por exemplo, considerou o pecado como uma palavra, um ato ou, um desejo contrário à Lei eterna, que seria expressa em uma lei natural, nos Dez mandamentos e na determinação em amar. O pecado deixa de ser visto como um ato de rebelião contra Deus, para um ato que fere a natureza humana. Nesse sentido, qualquer falta do indivíduo contra a lei, moral, costumes, religião é tido por pecado.

Pela gama de comportamentos desregrados, a Igreja Católica rotulou os pecados em função das virtudes e dos mandamentos, que lhes são antagônicos. A oposição entre virtude e vícios é bem evidente, surgindo, assim, a ideia dos sete pecados capitais: soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça, vícios decorrentes de uma prática constante de certos pecados.

Além de classificar o pecado em sete vícios, a doutrina católica distingue o pecado em três categorias:

  1. pecado original – O primeiro casal desobedeceu a Deus e todos os seus descendentes, apesar de não terem culpa, estão sujeitos a esse pecado. Esse ‘pecado’, segundo a concepção Católica, faz com que o homem esteja sujeito à ignorância, ao sofrimento, ao poder da morte e inclinado ao pecado;
  2. pecado mortal – tem por base o tripé: falta grave, consciência plena e anuência deliberada, o que conduz o homem à morte eterna e o homem não alcança a graça divina;
  3. pecado venial – pode ser falta leve ou, grave, mas, sem pleno conhecimento ou, sem consentimento pleno; o homem pode se redimir das faltas, sofrendo as penas do Purgatório.

Do que analisamos, acerca da concepção Católica de pecado, o único pecado que podemos considerar ‘capital’, foi a ofensa de Adão, pois, pela ofensa de Adão, entrou o pecado (senhor) no mundo e pelo pecado, a morte (alienação de Deus). Ora, se todos os homens estão mortos em delitos e pecados (Efésios 2:1), não há que se falar em ‘pecado capital’ para quem já sofreu a pena capital, por causa de um só que pecou (1 Coríntios 15:22).

Para todos quantos, ainda, não ouviram a mensagem do evangelho ou, ouviram e não creram em Cristo, não há que se falar em pecado capital, pois, todos estão mortos em delitos e pecados e são alvo da ira divina. Por isso é dito: filhos da desobediência e filhos da ira (Efésios 2:2-3). A ofensa de Adão não se enquadra na classificação Católica de pecado capital e não possui correspondência com nenhum dos seus tipos.

Observe a concepção Católica, acerca do pecado Mortal:

“O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, tal como o próprio amor. Tem como consequência a perda da caridade e a privação da graça santificante, ou seja, do estado de graça. E se não for resgatado pelo arrependimento e pelo perdão de Deus, originará a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no Inferno, uma vez que a nossa liberdade tem capacidade para fazer escolhas definitivas, irreversíveis. No entanto, embora nos seja possível julgar se um ato é, em si, uma falta grave, devemos confiar o juízo sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus.” CIC – 1861

Enquanto a concepção Católica coloca a liberdade humana como essencial ao pecado mortal, a Bíblia revela que, o que torna o homem pecador não é a liberdade, antes o fato de ser filho da desobediência e da ira. Todos os homens quando entram no mundo, apesar de livres quanto à vontade, por natureza estão sujeitos ao pecado e são alvos da ira de Deus.

Ao nascer, o homem entrou por uma porta larga, que dá acesso a um caminho largo, que o conduz à perdição ou, seja, o homem já nasce alienado de Deus, excluído da sua glória (Romanos 3:23). A exclusão do reino de Cristo e a morte eterna no inferno não ocorre através do exercício da liberdade que é próprio ao homem, antes, o homem já nasce em um caminho, cujo destino do caminho, não o destino do homem, é a morte.

Para o crente em Cristo há, sim, as figuras do pecado para a morte e do pecado que não é para morte, uma vez que, pelo fato de estar em Cristo, está vivo para Deus, e morto para o pecado.

“Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte e por esse não digo que orem. Toda a iniquidade é pecado e há pecado que não é para morte.” (1 João 5:16-17).

O pecado para morte decorre do pensamento de que Jesus não é o Cristo ou, que Jesus não veio em carne ou, que é necessário se circuncidar para ser salvo ou, seja, são posicionamentos doutrinários que depõem contra a pessoa de Cristo ou, contra a eficácia do evangelho.

Considerando que ‘todas as coisas são lícitas’ aos cristãos, com a ressalva de que nem todas são convenientes ou, que edificam, percebe-se que o pecado mortal não decorre de um atentado contra ‘a razão, a verdade ou a reta consciência’ e nem se concretiza através de ‘uma palavra, um ato ou, um desejo’, mas, sim, abraçar outro evangelho que não o de Cristo.

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.” (1 Coríntios 10:23).

A justificação do homem se dá por intermédio do evangelho de Cristo, de modo que, se o homem abandonar o evangelho e tentar se justificar por qualquer outro modo, incorre no pecado que é para a morte.

“Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído.” (Gálatas 5:4).

Perspectiva evangélica e protestante

Em linhas gerais, o segmento protestante e o evangélico não classifica pecado em venial, mortal ou, capital e nem crê em purgatório. Do ponto de vista teológico, faz-se alusão ao pecado original, como consequência decorrente da ofensa de Adão, somente como uma inclinação herdada, inclinação essa que afeta todos os homens para a prática do mal.

A abordagem que os padres da antiguidade fizeram ao pecado original tinha o condão de explicar a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal, uma forma de fazer a teologia dialogar com a filosofia. Hoje, tais questões persistem, sem falar que os teólogos evangélicos e protestantes não se atêm em demonstrar somente a condenação da humanidade em Adão, mas, também, abordam questões como culpa, consciência, responsabilidade, por parte do pecador. O pecado deixou de ser somente uma questão teológica, para ser um problema de antropólogos e psicanalistas.

As concepções em torno do ‘pecado original’ fomentaram discussões no passado, dando origem a diversos segmentos doutrinários, como o Pelagianismo e o Semipelagianismo e, com a reforma, o Calvinismo e o Arminianismo.

O conceito teológico que nega o pecado original, a corrupção da natureza humana, o servo arbítrio (arbítrio escravizado, cativo) e a necessidade da graça divina para a salvação foi desenvolvida por Pelágio da Bretanha (350—423 d. C), um monge ascético. A abordagem de Pelágio não teve a Bíblia como supedâneo, visto que, na concepção dele, os cristãos em Roma eram indecentes e, moralmente, reprováveis e atribuiu tal desvelo a uma publicação de Agostinho (Confissões), onde este afirmava que ninguém podia ser continente (abster-se da imoralidade), a menos que Deus lhe desse essa dádiva.

Agostinho de Hipona, contraponto ao pelagianismo, foi influenciado pelo maniqueísmo e, logo depois, pelo neoplatonismo de Plotino, desenvolvendo uma abordagem da teologia, de modo a dialogar com a filosofia. Agostinho associa o pecado à culpa que o gênero humano herdou de Adão e Eva, após sucumbirem à tentação do Diabo e, devido ao seu orgulho e egoísmo, rejeitarem o amor e a obediência devida a Deus.

João Calvino, por sua vez, deixou de lado a concepção de que as pessoas são criadas boas e que se tornaram corrompidas pelo pecado, o que faz com que sejam imperfeitas e, excessivamente, auto interesseiras e seguiu a tradição de Agostinho de Hipona, para compor as bases da doutrina reformada: o Pecado Original, de que a corrupção da natureza humana foi causada por causa do primeiro pecado de Adão e Eva. Do Pecado Original tem-se as bases para a chamada Depravação Total, que por sua vez, leva à doutrina da predestinação, através de uma eleição incondicional.

O posicionamento doutrinário Arminiano, em vários aspectos, se assemelha à dos Calvinistas, mas, diverge sobre a abordagem da predestinação e do livre arbítrio, porém, também, afirma a doutrina do pecado original.

O Pecado Original

O pecado original é uma doutrina bíblica que explica como a humanidade ficou aquém do propósito eterno de Deus, propósito esse estabelecido na eternidade e na pessoa do Seu Filho, Jesus Cristo (Efésios 3:10-11).

A doutrina do pecado original não tem o condão de explicar as imperfeições humanas, o sofrimento dos justos, dos inocentes ou, de quem quer que seja, e nem a existência do mal no mundo. Tampouco, a doutrina do pecado original tem relação com a moral, os bons costumes, a imoralidade, a sexualidade ou, a culpa, etc.

Propósito eterno

Antes da criação do homem, Deus propôs, em si mesmo, fazer convergir em Cristo todas as coisas e, para isso, se fez necessário fazer o Cristo: a) primogênito entre muitos irmãos (Salmo 89:27) e; b) o mais elevado e sublime dos reis da terra (Isaías 52:13).

Somente, através da Igreja, que é o corpo de Cristo, que se compreende de que modo Cristo foi exaltado, soberanamente, pois, através da Igreja, Cristo assume a posição de primogênito entre muitos irmãos (Efésios 1:22). Com relação à posição de rei, é através de Abraão e Davi que Cristo é constituído rei sobre o monte Sião, tendo os gentios por herança e os termos da terra por possessão (Gênesis 2:6-8).

Quando Deus disse no Éden: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus e sobre o gado, e sobre toda a terra e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.” (Gênesis 1:26), foi o ‘start’ para levar a efeito o seu propósito de fazer o Seu Filho unigênito primogênito, o sublime entre sublimes: a cabeça da igreja.

É comum entender-se que Adão foi feito à imagem e semelhança de Deus, com domínio sobre as obras de suas mãos, porém, se analisarmos o Salmo 8, percebe-se que quem alcançou tal prerrogativa foi o Filho do homem:

“Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? Pois, pouco menor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés:” (Salmo 8:4-6).

“Mas, em certo lugar testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou, o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, de glória e de honra o coroaste, e o constituíste sobre as obras de tuas mãos; todas as coisas lhe sujeitaste, debaixo dos pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que lhe não esteja sujeito. Mas, agora, ainda, não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas. Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos.” (Hebreus 2:6-9).

O escritor aos Hebreus esclarece o que foi dito no Gênesis, que é a Cristo que Deus sujeitou todas as coisas, conforme o Salmo 8, e o apóstolo Paulo, por sua vez, esclarece que Adão foi criado à imagem do Cristo, que haveria de vir, e não a expressa imagem do Deus invisível, que é Cristo. (Romanos 5:14)

De toda criação de Deus, Cristo alcançou a preeminência: a cabeça da igreja. Ao entrar no mundo, o unigênito de Deus se fez semelhante aos homens em tudo, mas, ao ressurgir dentre os mortos, o primogênito de Deus alçou a posição de semelhante ao Altíssimo, a expressa imagem do Deus invisível (Hebreus 1:3; Colossenses 1:15).

O pecado de Lúcifer

Lúcifer não guardou a sua posição, ao desejar alcançar o mesmo status, que era próprio do Criador, na pessoa de Cristo: a semelhança do Altíssimo. É que ele disse, no seu coração, que subiria ao céu e que, acima das estrelas de Deus, exaltaria o seu trono. A intenção de Lúcifer era galgar uma hierarquia acima dos anjos, a posição de semelhante ao Altíssimo (Isaías 14:13-14).

A intenção de Lúcifer nunca foi ser igual a Deus ou, tomar o lugar do Criador, pois, ele sabia que é impossível a qualquer criatura assumir a posição de Deus. O intento de Lúcifer era ser semelhante ao Altíssimo, posição que foi dada ao Filho do homem e a todos quantos se fizerem um só corpo com Ele (1 João 3:1-2).

Satanás pecou, ao intentar lançar mão de uma glória que não lhe pertencia e não por desobedecer a um mandamento específico. O pecado de Lúcifer foi semelhante ao de Uzias, rei em Israel, que não guardou a sua posição, mas, quis exercer o ministério de sacerdote, função que ninguém toma para si. (2 Crônicas 26:16-21; Hebreus 5:4)

“Eu sou o SENHOR, este é o meu nome, a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura.” (Isaías 42:8; Salmo 110:4).

No propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo, tem-se resposta para o motivo de Deus haver criado o homem: reunir em Cristo todas as coisas.

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus, como as que estão na terra;” (Efésios 1:9-10).

Quando Adão foi criado, o foi para o beneplácito que Deus propusera em Si mesmo, o que nos remete à pessoa do último Adão. Sendo o primeiro Adão, natural e terreno, haveria de produzir descendentes, conforme a sua espécie ou, seja, todos os descendentes de Adão trazem a imagem do terreno. Cristo, por sua vez, sendo do céu, na posição de último Adão, concede aos homens tornados celestiais, que sejam conformes a sua imagem (1 Coríntios 15:45-49).

Liberdade

Deus criou o homem livre, em todos os sentidos, e deu lhe uma lei, como garantia dessa plena liberdade:

“De toda árvore do jardim comerás, livremente, mas, da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, porque, no dia em que dela comeres, certamente, morrerás.” (Gênesis 2:16-17).

Se não fosse a lei e a árvore do conhecimento do bem e do mal, colocada no meio do jardim, como Adão saberia que era livre, sem a possibilidade de perder tal prerrogativa? Adão era tão livre, que ele foi alertado das consequências de comer da árvore, que estava no meio do jardim.

No exercício de sua livre decisão, Adão comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e, por força da lei santa, justa e boa, que alertava para não comer do fruto, tendo em vista a consequência: a morte – o homem se tornou sujeito ao pecado.

“Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou e por ele me matou. E, assim, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom. Logo, o bom se me tornou em morte? De modo nenhum, mas, o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte, pelo bem, a fim de que, pelo mandamento, o pecado se fizesse, excessivamente, maligno.” (Romanos 7:11-13).

Embora, a lei dada no Éden ou, a lei dada ao povo de Israel, não seja pecado, contudo, por ela vem o conhecimento do pecado (Romanos 7:7). É, através da lei que instituiu ‘não cobiçarás’, que surge a concupiscência. Como o homem é suscetível à concupiscência, o pecado, pelo mandamento, toma ocasião, visto que, sem a lei, o pecado inexiste (Romanos 7:8).

Através do ‘eu’, o apóstolo Paulo apresenta a condição da humanidade sem lei (nalgum tempo vivi sem lei), uma representatividade de Adão, no ‘eu’. Com o mandamento, o pecado ganha existência e o homem morre (Romanos 7:9).

Condenação à morte

Como a humanidade morreu? A concupiscência dos olhos atraiu Eva, porque a árvore era boa para se comer, o fruto era agradável à vista e desejável, por causa do entendimento. Ora, não foi Satanás que obrigou Eva e nem Adão, antes, Eva foi tentada, quando atraída e engodada pela sua própria concupiscência (Tiago 1:14). Ao vir à existência a concupiscência, ela dá luz ao pecado. Como? Através da desobediência à lei.

“Mas, cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.” (Tiago 1:14-15);

“E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer e agradável aos olhos, árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto e comeu, deu, também, a seu marido e ele comeu com ela.” (Gênesis 3:6).

Como é evidente, Adão e Eva não morreram fisicamente, no ato de comerem do fruto, porque a morte produzida pela desobediência, primordialmente, não era física, mas espiritual ou, seja, produziu o afastamento do homem de Deus.

Ao desobedecerem ao mandamento do Éden, nossos primeiros pais romperam sua comunhão com Deus e passaram a viver tateando, nas trevas, até que a Semente da mulher, Cristo, restaurasse essa comunhão, novamente.

A lei e a sua força

O problema não está na cobiça, mas, na lei, que determina que não se cobice, pois, na lei, há uma penalidade e é na penalidade que está a morte, de modo que o aguilhão da morte é o pecado: “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei.” (1 Coríntios 15:56).

Adão viveu por um tempo sem lei, assim, como, também, os filhos de Israel viveram um tempo sem lei, mas, quando adentraram no deserto, os seus corações malignos expuseram toda malignidade, idolatria e concupiscência. A lei que foi dada com uma promessa, aos que a cumprissem, transmutou-se em maldição:

“Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém.” (Deuteronômio 27:26);

“Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR.” (Levítico 18:5).

O pecado que tomou ocasião pelo mandamento diz de um senhor, um poder, uma condição, cuja existência se dá por força da lei. Ao ser atraído pelo seu próprio desejo, o homem se enche da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida e aí dá luz à iniquidade: a transgressão da lei. (1 João 2:16),

No Éden, Adão cometeu iniquidade, ofensa, pois quebrou um mandamento, uma aliança. Os filhos de Israel, igualmente, mas, foram aleivosos e não honraram a aliança feita com os pais e quebraram essa aliança, estabelecida na lei mosaica.

Adão cometeu uma ofensa (pecado, iniquidade) e todos os seus descendentes passaram a ser escravos do pecado. Os filhos de Israel, apesar de escravos do pecado, quando resgatados do Egito, se tornaram livres como nação, mas, como tropeçaram (pecado, iniquidade) no mandamento, os seus filhos foram entregues à servidão dos povos estrangeiros.

Como já pontuamos, no início deste artigo, o termo ἁμαρτία remete a três ideias distintas:

  1. Ofensa, iniquidade, desobediência, etc.;
  2. Domínio, poder, reino, senhorio, etc., e;
  3. Perda da marca, perda do padrão, perda da perfeição, etc.

Adão e os filhos de Israel incorreram na ἁμαρτία descrita pelas letras ‘a’ e ‘b’. Primeiro, incorreram em ofensa a uma lei, quando eram livres, e o resultado foi venderem a sua prole, respectivamente. Adão vendeu a sua prole a um senhor e os filhos de Israel aos estrangeiros. Adão era livre do pecado e os filhos de Israel, livres como nação, embora estes, por serem descendentes de Adão, fossem escravos do pecado.

Gentios

E os gentios? Não incorreram em nenhuma iniquidade, porém, estavam todos debaixo das mãos de um senhor, o pecado, por causa da morte. Os gentios viviam alienados de Deus, porém, existiam sem lei e a única lei que seguiam era as leis que criavam para si mesmos.

“Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem, naturalmente, as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei;” (Romanos 2:14).

Se os gentios estabelecem leis para eles mesmos, pela consciência que dispõem (Romanos 2:12 -13), e, naturalmente, executam o que os judeus não cumpriram, apesar da letra (lei), certamente, os gentios estão em posição de julgar como transgressores, os que tem a letra e a circuncisão, (Romanos 2:27).

No entanto, não há um melhor, entre judeus e gentios, pois, todos, por causa da ofensa de Adão, pecaram ou, seja, perderam a marca, ficando aquém do propósito que Deus estabeleceu em Cristo: a preeminência.

Todos os gerados em Adão são vasos para desonra, criados para a perdição, por causa da ofensa. Todos são plantas que o pai não plantou, por causa da semente que lhes deu origem. Assim, como de um fruto de árvore é dito que pecou, por não ser próprio para o consumo (não serve ao propósito para o qual foi criado), todos pecaram, por estarem aquém do propósito que Deus estabeleceu em Cristo.

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;” (Romanos 3:23).

O pecado e a morte

O sentido de ‘todos pecaram’ não decorre de iniquidade, ofensa, transgressão, que  deriva de uma ‘concupiscência’, em desobediência a uma lei de Deus, específica. Na verdade, a expressão ‘todos pecaram’, por um erro que comprometeu a própria essência do ser, impede esse ser de estar apto ao seu propósito, que se amolda à definição do item ‘c’.

“No entanto, a morte reinou desde Adão, até Moisés; até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.” (Romanos 5:14).

A morte estabeleceu domínio até mesmo sobre os que não pecaram à semelhança da ofensa de Adão, ou seja, mesmo sobre os que não transgrediram um mandamento específico ou, que não praticaram uma iniquidade como Adão.

O pecado original não comprometeu a estrutura física do homem terreno e nem a imagem que Adão recebeu no Éden, visto que os dons de Deus são irrevogáveis. O que foi concedido não é tomado por Deus. No entanto, com a ofensa, a comunhão que havia com Deus foi rompida e o homem de luz, reto, santo, justo, bom, verdadeiro, passou à condição de trevas, iniquo, imundo, injusto, vil, mentiroso.

Ora, quando é dito que o homem se tornou mau, contrapõe a Deus que é bom, no sentido de nobre. Isso quer dizer que o homem se tornou mau, no sentido de inferior, ralé, não que o homem se tornou reprovável moralmente. Quando é dito que todos os homens são mentirosos, é uma descrição da natureza humana, em contraste com Deus que é verdadeiro, enquanto nobre.

“De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado.” (Romanos 3:4, Salmo 116:11).

Não é porque os homens são vis, mentirosos, trevas, maus, que não possuem a capacidade de acudir aos seus semelhantes nas suas necessidades, antes, por não terem comunhão com o Criador, não tem em si o que é próprio à natureza divina, portanto, são designados maus.

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:11);

“Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.” (Mateus 12:34).

Ao abordar a ἁμαρτία do modo que evidenciamos, estamos tratando a questão através da perspectiva bíblica que utiliza a linguagem que era própria ao homem da antiguidade.

Aristóteles, na obra A Política, cita Helena de Teodecto:

“Quem se atreverá chamar-me serva, a mim, que tenho descendência divina, por ambos os lados?” [12]

O posicionamento da personagem Helena vai ao encontro da ideia antiga de que o homem descende de homem, animais de animais e o virtuoso, somente de pais virtuosos.

O pensamento do homem grego vinculava a nobreza às questões de sangue, de modo que, os gregos consideravam a posição dos seus nobres, em qualquer lugar que estivessem, no entanto, com relação aos bárbaros, os gregos os consideravam nobres somente quando dentro dos seus limites territoriais. [13]

Aristóteles destaca que, admitir o posicionamento acima, é admitir que só há virtude e vício e que a virtude está para o homem livre e o vício para o escravo. Hoje, virtude e vício possuem outra concepção, pois se impregnou esses termos de questões comportamentais, com conteúdo moralizante, sendo que, na antiguidade, virtude e vício eram condições que se herdavam de berço.

Quando Jesus chama os seus interlocutores de maus, não tem em vista vícios do ponto de vista do comportamento e da moral humana, antes, destaca que os escribas e fariseus não descendiam de Deus (1 João 3:9), conforme apontava as Escrituras:

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é.” (Deuteronômio 32:5);

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado.” (João 8:34).

Os judeus que diziam que os que criam em Cristo não eram filhos de Deus, mas uma mancha, de fato não eram livres, por conseguinte, Jesus podia acusá-los de ‘escravos’, pois necessitavam de liberdade.

Se Davi, que foi rei em Israel, apontou para a sua mãe, consciente de que em iniquidade foi formado, vez que o seu povo quebrou a aliança com Deus e que em pecado foi concebido, vez que sobre toda a humanidade pesa a ofensa de Adão, o que poderiam alegar os súditos de Davi? Que nunca foram escravos de ninguém?

Se Davi, como rei de Israel, declarou que descendia de uma mulher, como poderia ele alegar filiação divina? Com que base alegar que tem por pai a Deus, se Deus nega que os filhos de Israel são seus filhos?

“Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.” (João 8:41);

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é.” (Deuteronômio 32:5).

Os escribas e fariseus eram maus por causa do primeiro pai da humanidade, Adão, e como não deixaram circuncidar o coração, recebendo a Deus por pai, eram perversos, vis, ralé, baixos, mentirosos, etc.

Para pertencerem à comunidade de Israel, os descendentes israelitas eram circuncidados pelos seus pais biológicos, mas, semelhantemente, se quisessem ser filhos de Deus, precisavam se permitir serem circuncidados por Deus.

“Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz.” (Deuteronômio 10:16).

O pecado à porta

A primeira vez que o termo hebraico חַטָּאָה, transliterado chatta’ah, traduzido por pecado, quando empregado no Gênesis, foi no alerta de Deus a Caim. Se considerarmos a ideia de que chet é utilizado, quando ‘o pecado é cometido por erro ou, por descuido’, o termo, de per si, não se amolda ao contexto de Caim e Abel.

“Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta e sobre ti será o teu desejo, mas, sobre ele deves dominar.” (Gênesis 4:7).

Se o leitor não compreender que o substantivo ‘pecado’, a que Deus faz referência, refere-se a um senhor e que ‘porta’, na antiguidade, se referia ao local de domínio nas cidades, a conclusão a que chegará, é que Deus estava estabelecendo o homicídio como pecado.

O que foi dito a Caim é complexo, visto que, se ele procedesse de modo correto ou, não, a condição dele diante de Deus não mudaria, em função da ofensa de Adão. Se fizesse o bem, não seria aceito por Deus e se não fizesse, também, não seria aceito, vez que o pecado já exercia domínio sobre os homens.

Entretanto, apesar de o pecado exercer domínio, Caim era livre quanto aos seus desejos e tinha, por obrigação, gerenciá-los. Embora, sob domínio do pecado, a vontade de tirar a vida de Abel era proveniente de uma insatisfação própria, diferente da ideia de que a morte de Abel foi resultado de uma espécie de ‘possessão’ do pecado. Com relação ao desejo de matar, quem deveria controlar tal despautério era o próprio Caim.

Vale frisar que o vocábulo ‘portas’ se refere a domínio  e não, como geralmente leem, como um evento que está prestes a ocorrer. (Deuteronômio 5:14; Jó 29:7; Salmo 24:7)

“Seu marido é conhecido nas portas e assenta-se entre os anciãos da terra.” (Provérbios 31:23).

Como se pensa o pecado hoje

Em nossos dias, o termo pecado é utilizado para fazer referência a todo e qualquer comportamento humano moralmente transviado ou, ao descumprimento de qualquer questão legal de um país. Se o comportamento de uma pessoa não segue as leis vigentes ou, a moral imposta pela sociedade ou, ainda, por um sistema religioso, rotula-se tal comportamento como ‘pecado’ e a pessoa é tida por ‘pecadora’.

Esse entendimento, pertinente à humanidade, hoje, se assemelha ao posicionamento de Adão que, após desobedecer ao Criador (uma ação gravíssima que trouxe o pecado e a morte ao mundo), se ocupou em remediar o fato de ele e a mulher estarem nus, sem se preocuparem com a ofensa e os seus efeitos (Gênesis 3:7). O posicionamento de Adão nos remete a considerar que a ofensa, pela perspectiva de Adão, foi um ato de somenos importância, quando analisamos as decisões dele, após a descoberta de que estavam nus.

O erro se instalou no mundo por causa da desobediência, mas, o que, visivelmente, abalou a Adão, foi a consciência que adquiriu com o fruto do conhecimento do bem e do mal. Ao descobrir que estava despido, procurou remediar aquela circunstância de imediato: fez um avental de folhas de figueira, pois sabia que teria um encontro com Deus na viração do dia.

A fala: ‘Ouvi a tua voz soar no jardim e temi, porque estava nu e me escondi.’ (Gênesis 3:10), deveria ser: ‘Ouvi a tua voz soar no jardim e temi, porque desobedeci a tua ordem e comi da árvore do conhecimento do bem e do mal’. A fala de Adão demonstra que a sua preocupação era outra, como se ele não houvesse desobedecido ao Criador e que não haveria consequências para o seu ato.

De igual modo, os descendentes de Adão (humanidade) reputam pecado toda e qualquer ação ou omissão que os deixa envergonhados perante os seus semelhantes, e não atinam que a essência do problema da humanidade não está nas ações cotidianas, mas, sim, na natureza que todos herdam de Adão.

Tudo que desperta senso de culpa no homem acaba sendo rotulado como pecado. Se alguém vê o outro jogando comida fora, logo diz: ‘Que pecado!’, em vez de dizer: ‘Que desperdício!’.

Doutrinariamente, na sua grande maioria, os teólogos vinculam pecado à depravação do caráter ou, à conduta[14]. Nesse diapasão, alguns sustentam que a salvação visa a recuperação moral e física do homem, pois, entendem a salvação como transação ética [15].

Com a ofensa, veio a condenação e da condenação, a morte, mas, o que aflorou em Adão foi um sentimento de vexação, em razão de estar despido. A humanidade não atina que a sua condição diante de Deus é de condenação e morte, o que vincula o homem ao pecado (João 3:18; Romanos 5:18), no entanto, qualquer conduta que traga vergonha, culpa, reputam-na pecado.

Deus não havia dado mandamento algum ao casal, acerca de estar ou não nu, mas, Adão e Eva tiveram medo de se apresentarem a Deus, por estarem nus (Gênesis 3:10), tanto que se preocuparam em fazer uma vestimenta. O problema de Adão não estava no conhecimento que acabara de lançar mão, o conhecimento do bem e do mal, que o tornou como Deus (Gênesis 3:22). O problema não estava no fato de terem os olhos abertos para perceberem que estavam nus, mas, sim, por ter entrado no mundo o pecado (senhor) e a morte (aguilhão), em razão da ofensa. O problema, também, não estava no fato de estarem sem vestimentas, mas, na consequência direta da ofensa, na força da lei que o pecado achou ocasião e introduziu (a morte) no mundo.

Deus não havia dado mandamento, acerca de vestimentas. Não havia proibição da parte de Deus, com relação ao casal estar ou não nu. Mas, o que preocupou o casal foi o alerta da consciência, em função do conhecimento adquirido e, por isso, se envergonharam. No entanto, não se envergonharam de ter desobedecido ao mandamento de não comerem o fruto da árvore do conhecimento e nem pensaram em como remediar tal ato.

Dentro dessa perspectiva, o maior número de perguntas formuladas por internautas é sobre condutas que possam ser pecado. Poucos compreendem que o homem é pecador por estar aquém do propósito que Deus estabeleceu em Cristo, antes querem saber quais comportamentos são ou não pecado.

Colocar brinco é pecado? Colocar piercing é pecado? Tatuagem é pecado? Dormir nu é pecado? Etc.

Analisando a última questão, estar nu ou, vestido, não muda a natureza do homem, portanto, o que torna o homem pecador é a sujeição ao pecado e não ficar nu. Pecado é o que afeta a natureza do homem e, para tanto, basta nascer, que já é pecador. A condição do pecador não se altera em função de um evento, local ou,  temporal. Isto posto, se ficar nu fosse pecado, necessariamente, jamais o indivíduo poderia tirar a roupa, mesmo quando fosse se higienizar.

Como o apóstolo Paulo é claro, ao dizer que tudo é lícito, o crente em Cristo pode tomar banho à vontade ou, dormir despido, sem temer a volta de Cristo. No entanto, quando for dormir despido, tem de se verificar se é conveniente fazê-lo, em razão de emergências ou, por questões de saúde, mas, jamais pôr em xeque a esperança da salvação em Cristo, em razão dessa questão.

Há crentes que só dormem vestidos, por medo de Jesus voltar e serem surpreendidos despidos.

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.” (1 Coríntios 10:23).

E sair na rua nu, é pecado? Pelas mesmas razões acima não é pecado, no entanto, a sociedade reprime tal comportamento e, mesmo que Deus não proíba tal prática, quem assim proceder será punido pela sociedade. Outro entrave quanto a andar nu nas ruas, refere-se à verdade do evangelho, pois, ao se expor, o cristão dá aso a ser julgado pela consciência dos não cristãos.

“Mas, se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; porque a terra é do Senhor e toda a sua plenitude. Digo, porém, a consciência, não a tua, mas a do outro. Pois, por que há de a minha liberdade ser julgada pela consciência de outrem?” (1 Coríntios 10:28).

Percebe-se, através do evento, no qual o casal se descobriu nu que, apesar de Deus não lhes dar mandamento algum, por si mesmos criaram leis para reger as ações entre si, como diz o apóstolo Paulo: “… não tendo eles lei, para si mesmo são lei;” (Romanos 2:14). Inúmeras leis e regras surgiram no mundo, desde as tradições orais, até o surgimento de códigos, como o de Hamurabi, na Mesopotâmia.

Um cidadão da Mesopotâmia que desobedecesse ao Código de Hamurabi podia ser acusado de crime, mas, não de ser iníquo ou, pecador, pois, tal código não foi dado por Deus, antes, surgiu da interação entre os homens que, em função da consciência, possuem um tribunal interno, quer acusando-os, quer defendendo-os.

Hoje, pela má leitura do termo pecado, qualquer infringência legal, inconformidade moral ou, deformidade de caráter se rotula o indivíduo como pecador. Ora, do ponto de vista bíblico, todos os homens, judeus e gentios, são pecadores, por serem escravos do pecado, em função da ofensa de Adão, mas, somente os judeus desobedientes à lei dada por Deus são denominados iníquos.

“Não terão conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo, como se comessem pão e não invocam ao SENHOR?” (Salmos 14:4).

Lembrando que o pecado estava à porta, antes mesmo da lei ser instituída ou, seja, muito antes da lei, o pecado já exercia domínio sobre todos os descendentes de Adão, por isso é evidente que todos pecaram (Romanos 5:12).

“Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei.” (Romanos 5:13).

Como o pecado está à porta, o argumento de que ‘o pecado não é imputado se não há lei’ resulta inválido, visto que, desde Adão, até Moisés, a morte reinou absoluta sobre todos os homens, o que demonstra que todos pecaram (Romanos 5:14).

Ingerir alimentos não é pecado, mas, por razões de saúde ou, por regras de etiqueta, considera-se errado comer em demasia, no entanto, tal atitude passou a ser rotulada como um dos pecados capitais: a glutonaria.

Observe se que uma conduta tida por errada passou a ser rotulada como pecado, em função da pretensa ‘experiência’, distinguida por alguém como cristã e da má leitura de algumas passagens bíblicas.

“Os vícios podem classificar-se segundo as virtudes a que se opõem, ou relacionando-os com os pecados capitais que a experiência cristã distinguiu, na sequência de São João Cassiano (102) e São Gregório Magno (103). Chamam-se capitais, porque são geradores doutros pecados e doutros vícios. São eles: a soberba, a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a preguiça ou negligência (acédia)” nº 1866, do Catecismo da Igreja Católica.

A experiência[16] humana, seja ela cristã, judaica ou gentílica, não são o crivo para estabelecer se este ou aquele comportamento é pecado. Pela experiência que possuíam, os escribas e fariseus chamaram Jesus de comilão e beberrão (Mateus 11:19), porque Jesus se assentava a comer com os ‘pecadores’.

Jesus instruiu a multidão que foi à festa, em Jerusalém, a não julgarem segundo a aparência, mas segundo a reta justiça: “Não julgueis segundo a aparência, mas, julgai segundo a reta justiça.” (João 7:24). Qual o sentido de não julgar segundo a aparência? Não julgar segundo preceitos e doutrinas de homens, que visam o exterior do homem (Mateus 23:25-26).

E o que é julgar segundo a reta justiça? É analisar o homem, segundo o estabelecido nas Escrituras. Segundo a aparência, os fariseus pareciam justos aos homens (Mateus 23:28), mas as Escrituras depunham contra os filhos de Israel, de que eles não eram filhos de Deus e que não invocavam a Deus (Salmos 53:4; Deuteronômio 32:5).

Salta aos olhos uma lista apresentada pelo apóstolo Paulo aos Gálatas, na qual ele aponta a bebedeira e a glutonaria como ações que impedem o homem de entrar no reino dos céus.

“Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus.” (Gálatas 5:21).

Esse versículo, isolado do seu contexto, produz uma falsa ideia de que, para entrar nos céus, o crente não pode exagerar na comida. Mas, quando consideramos outros textos, que deixa claro que comida e bebida não faz o homem agradável a Deus (1 Coríntios 8:8), que o reino dos céus não é comida e nem bebida (Romanos 14:17), e que quem come não é melhor do que aquele que não come, certo é que a interpretação do verso 21, de Gálatas 5, é bem mais complexa do que parece.

O leitor precisa de perspicácia para perceber que, quando faz referência à inveja, o apóstolo Paulo estava destacando o evento da revolta de Coré, Datã e Abirão.

“E invejaram a Moisés no campo e a Arão, o santo do SENHOR.” (Salmo 106:16).

Os homicídios remetem ao derramamento de sangue inocente, quando os pais sacrificaram os filhos aos ídolos.

“E derramaram sangue inocente, o sangue de seus filhos e de suas, filhas que sacrificaram aos ídolos de Canaã; e a terra foi manchada com sangue.” (Salmo 106:38).

Quando fala de bebedices e glutonarias como ‘obra da carne’, o apóstolo Paulo tem em mente o evento, no qual os filhos de Israel se deixaram levar pela cobiça e tiveram desejo de comer carne e murmuraram contra Moisés (Salmo 106:14 -15), rotulando o maná como pão vil (Números 21:5). Deus prometeu carne, em abundância, que causaria fastio (Números 11:18-20) e, por causa desse desejo e cobiça torpe, muitos pereceram quando a carne ainda estava nos dentes (Números 11:33-34).

“Então comeram e se fartaram bem; pois lhes cumpriu o seu desejo. Não refrearam o seu apetite. Ainda lhes estava a comida na boca,” (Salmo 78:29-30).

Quando se fizeram idólatras, os filhos de Israel se assentaram a comer, a beber e a folgar (1 Coríntios 10:7), o que demonstra que não viviam segundo a palavra de Deus, que é espírito, mas, segundo a carne (mandamento de homens), que produz morte.

“E no dia seguinte madrugaram e ofereceram holocaustos, trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se a comer e a beber; depois se levantou a folgar.” (Êxodo 32:6).

Ao falar das obras da carne, o apóstolo dos gentios não estava julgando segundo a aparência, se este ou, aquele, estava comendo de mais ou, de menos, antes, estava instruindo os cristãos, segundo a reta justiça ou, seja, utilizando o exemplo de desobediência dos filhos de Israel para que os cristãos não incorressem em desobediência e incredulidade (1 Coríntios 10:6; Hebreus 4:11).

A revolta de Coré evidencia a essência de quem é carnal, pois, trouxe inveja, contendas e dissensões ao arraial. Os cristãos, por serem espirituais, não podiam aceitar partidarismos, pois, essa não é a essência do evangelho de Cristo.

“Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais e não andais segundo os homens?” (I Coríntios 3:3).

Ao escrever aos cristãos, em Roma, o apóstolo Paulo disse:

“A noite é passada e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas e vistamo-nos das armas da luz. Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não tenhais cuidado da carne, em suas concupiscências.” (Romanos 13:12-14).

Para a exposição acima, o apóstolo dos gentios recomenda aos cristãos a se sujeitarem às autoridades constituídas, uma questão que os judeus eram refratários (Romanos 13:1). No mesmo capítulo, o apóstolo instrui acerca do amor, o que, consequentemente, leva à obediência dos mandamentos da lei (Romano 13:8-9).

Quando o apóstolo dos gentios enfatiza que a noite é passada, refere-se às questões judaicas e o dia, às questões do evangelho. Os cristãos deveriam rejeitar as obras das trevas, ou seja, as obras da carne, e se revestirem da armadura de Deus, que é o evangelho.

O ‘andar honestamente’, como de dia, se refere ao abster-se do vinho da contenda (Efésios 5:18), que traz dissoluções, contendas, invejas, porfias, etc., que é uma referência à doutrina dos judaizantes, vinho proveniente das vinhas dos campos de Sodoma e Gomorra, que traz destruição.

“Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm.” (Deuteronômio 32:32; Isaías 1:10).

Aquele que se reveste de Cristo pensa nas coisas que são de cima (Colossenses 3:1) e não nas que são da terra, como quando o reino de Israel será restaurado (Atos 1:6). Os judeus, no afã de ‘restaurarem’ o reino, acabaram sendo destruídos pelo general Tito.

O apóstolo Pedro fez a mesma abordagem que o apóstolo Paulo, quando utiliza a figura ‘glutonaria’. Ele lembra que, com relação ao tempo que restava aos cristãos na carne, que deveriam viver segundo a vontade de Deus (evangelho) e não em imundas concupiscências.

Se não analisarmos direito, parece que as ‘imundas concupiscências’ se referem ao apetite desordenado (1 Pedro 4:3), mas, na verdade, o apóstolo da circuncisão estava denunciando o atrevimento e a obstinação dos judeus, vez que desprezaram as autoridades constituídas, em função da esperança terrena que nutriam.

“Mas, principalmente, aqueles que, segundo a carne, andam em concupiscências de imundícia e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades;” (2 Pedro 2:10).

O irmão Judas faz referência aos judaizantes como adormecidos e que rejeitam a dominação e vituperam as dignidades (Judas 1:8) e vaticina: “Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão e pereceram na contradição de Coré.” (Judas 1:11).

Esses são os carnais (sensuais), que causam divisões, que se reúnem com os cristãos, mas, não são filhos de Deus. São uma mancha nas festas dos cristãos! (Judas 1:12 e 19 e 23).

Lavar as mãos, segundo o rito de purificação dos judeus, para serem salvos, é o mesmo que imundas concupiscências, mas, se o cristão lavar as mãos, por questões de higiene pessoal, apesar de ser um ato semelhante, não é obra da carne.

Por que é imprescindível compreendermos a natureza do pecado? Para não incorremos em conceitos dessa lavra:

“A santificação é a obra continua de Deus na vida do crente, tornando-o realmente santo. Por ‘santo’ entende-se aqui ‘portador de uma verdadeira semelhança com Deus’. A santificação é um processo pelo qual a condição moral da pessoa é moldada, de acordo com sua situação legal diante de Deus” Erickson, Millard J., Introdução à Teologia Sistemática, pág. 417.

Salvação é libertação da condenação à morte, por causa de um só que pecou e não uma ‘transação ética’. Santificação se dá por intermédio do evangelho, pois, o homem é limpo pelas palavras de Cristo, não por ter uma moral moldada.

O equívoco de muitos intérpretes está em considerar as obras da carne como vinculadas à ideia de que os termos gregos utilizados pelo apóstolo Paulo, em Gálatas 5, versos 19 a 21, remetem dentro da sociedade greco-romana. Entender que os termos porneia, akatharsia, aselgeia, eidololatria, descrevem o comportamento e a moral dos gregos, é desconsiderar o exposto pelo mesmo apóstolo, de que a lei foi feita para os injustos, obstinados, ímpios e pecadores:

“Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade, a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro.” (Gálatas 3:19);

“Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas, para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros e para o que for contrário à sã doutrina, conforme o evangelho da glória do Deus bem-aventurado, que me foi confiado.” (1 Timóteo 1:9-11).

O apóstolo dos gentios estava falando do comportamento dos gentios ou, do posicionamento dos judeus, contrários ao evangelho de Cristo?

William Barclay, no seu Livro ‘As obras da carne e o fruto do espírito’, ao fazer referência a porneia (prostituição), assim disse:

“É significativo o fato de que é com este pecado que Paulo começa. A vida sexual do mundo greco-romano nos tempos do NT era um caos sem lei. J.J. Chapman, descrevendo os tempos em que vivia Luciano, na primeira metade do século II, escreve: “Luciano vivia numa época em que a vergonha parecia ter sumido da terra”. Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988, pág. 26.

Essas seriam as obras da carne:

“Quando a frouxidão moral grega invadiu Roma, tornou-se tristemente mais grosseira. Hiberina, diz Juvenal, não se sente mais satisfeita com um só homem, do que se sentiria com um só olho (Juvenal: Sátiras 6.55). As mulheres romanas, diz Sêneca, casavam-se para serem repudiadas e divorciavam-se para casar-se de novo. Algumas delas distinguiam entre os anos, não pelos nomes dos cônsules, mas pelos nomes dos seus maridos.” Idem, pág. 27.

Barclay confessa:

“Deve ser notado que todas as evidências que aduzimos a respeito da imoralidade sexual indescritível do mundo contemporâneo com o Novo Testamento provêm, não dos escritores cristãos, mas dos pagãos que estavam enojados consigo mesmos.” Idem, pág. 28.

Enquanto muitos intérpretes das escrituras, como Barclay, olham para a literatura e conteúdo histórico, produzido por membros das sociedades greco-romanas, para interpretarem o termo grego porneia, o apóstolo Paulo estava, simplesmente, olhando para as Escrituras, pois elas foram deixadas para instruir em verdade e em justiça e avisar, enquanto que os filhos de Israel foram postos por figuras e exemplos.

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. (…) ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos.” (1 Coríntios 10:6 e 11).

“Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque a palavra de Deus é viva e eficaz e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes e penetra até a divisão da alma e do espírito, das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” (Hebreus 4:11-12).

Enquanto muitos intérpretes procuram, entre os gentios, exemplos de porneia, basta olharmos para as Escrituras, para vermos que os ‘promíscuos’ eram os filhos de Israel.

“E disse o SENHOR a Moisés: Eis que dormirás com teus pais; e este povo se levantará e prostituir-se-á, indo após os deuses estranhos na terra, para cujo meio vai e me deixará e anulará a minha aliança, que tenho feito com ele.” (Deuteronômio 31:16);

“Mas chegai-vos aqui vós, os filhos da agoureira, descendência adulterina e de prostituição.” (Isaías 57:3);

“Já vi as tuas abominações, os teus adultérios, os teus rinchos e a enormidade da tua prostituição, sobre os outeiros no campo; ai de ti, Jerusalém! Até quando, ainda, não te purificarás?” (Jeremias 13:27);

“E não fossem como seus pais, geração contumaz e rebelde, geração que não regeu o seu coração, e cujo espírito não foi fiel a Deus.” (Salmos 78:8).

Antes de falar acerca das obras da carne e do fruto do espírito, o apóstolo Paulo estava condenando a circuncisão, reputando-a como fermento que leveda toda a massa (Gálatas 5:9). Quando o apóstolo diz que as obras da carne são manifestas, ele está destacando as obras decorrentes de mandamentos de homens, estabelecidas por aqueles que confiam na carne: os judaizantes.

“Guardai-vos dos cães, guardai-vos dos maus obreiros, guardai-vos da circuncisão; porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito,  nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne. Ainda que, também, podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda, mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho, reputei-o perda por Cristo.” (Filipenses 3:2-7).

As abordagens ‘obras da carne’ e ‘fruto do espírito’ são um contraponto entre mandamentos de homens, que fazem uso equivocado da lei e do evangelho, que é o mandamento de Deus a todos os homens. Aqueles que andam no espírito, ou seja, no evangelho, não cumprem as concupiscências da carne, pois, crucificaram a carne com Cristo, bem como, as suas concupiscências.

“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” (Gálatas 5:24-25).

Ora, é nítido que a ‘carne’ crucificada não fala do comportamento moral degradante dos gentios à época, mas, da paixão e da concupiscência que devem ser reputadas como esterco, para se ter a Cristo.

O Cordeiro de Deus que tira o pecado

Jesus é o enviado de Deus, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (João 1:29). O pecado que é tirado, não possui relação com as condutas que os homens adotam, segundo a sua consciência, que é gerida em função do conhecimento do bem e do mal ou, segundo mandamentos de homens.

O pecado que é arrancado, refere-se à aniquilação do que detinha o império da morte, o adversário, pois, somente, assim, os que estavam sujeitos à servidão podem ser livres.

“E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também, Ele, participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam, por toda a vida, sujeitos à servidão.” (Hebreus 2:14-15).

Através da sua morte, Jesus livrou a todos que, com medo da morte, estavam sujeitos à servidão. A servidão se instalou pela desobediência de um só que pecou (iniquidade), e não pelo conhecimento, proveniente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, que orienta os homens quanto às suas decisões, segundo a consciência.

Jesus não veio livrar a humanidade de suas questões de ordem moral ou, comportamental. Jesus não veio estabelecer regras sobre vestimentas, regras de alimentação, regras de convivência, porque, através da sua morte, Jesus neutralizou o aguilhão do pecado!

O leitor precisa ter bem claro na mente que não são as más ações que alienam o homem de Deus e nem as boas ações que aproximam o homem de Deus. Priorizar as boas ações não aproxima o homem de Deus, visto que o bem conhecido pelo homem é proveniente do fruto de uma mesma árvore, cujo fruto continha o conhecimento, tanto do bem, quanto do mal.

Nesse aspecto, é imprescindível compreender que o bem que o homem faz, só aproveita ao próximo e a si mesmo e não faz o homem mais ou menos agradável a Deus.

“Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás? Se fores justo, que lhe darás ou, que receberá ele da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro, tal como tu; e a tua justiça aproveitaria ao filho do homem.” (Jó 35:6-8).

O conhecimento do bem e do mal está vinculado ao mesmo fruto e, ao homem, compete, dentro dos ditames da consciência, guiar-se pelo conhecimento adquirido, para tomar suas decisões. O conhecimento que produz salvação decorre da revelação de Deus, através do evangelho, o qual dá testemunho, que o Jesus de Nazaré é o Filho de Deus.

O pecado pelo qual Cristo morreu, refere-se a uma escravidão, de modo que, o corpo do pecado, ao ser crucificado, juntamente, com Cristo, é aniquilado, para que o homem, nascido de novo, não sirva mais ao pecado. Quando é dito ‘não sirvamos mais ao pecado’, o apóstolo Paulo não está falando de tropeço, viver honesto, caráter, moral, etc., mas de servidão ao pecado.

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.” (Romanos 6:6);

“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados.” (1 Pedro 2:24).

Quando o evangelista João diz que os nascidos de Deus não pecam, isso significa dizer que os nascidos de Deus não são mais escravos do pecado. Não podem pecar, porque a semente de Deus permanece no nascido de novo, portanto, é livre no Senhor e passa à condição de servo da justiça.

Não peca porque, agora, pertence a Deus, pois, os que pecam, pertencem ao diabo. Além do mais, Cristo não é ministro do pecado, se alguém acredita que o crente em Cristo é pecador.

“Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos, também, somos achados pecadores é, porventura, Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma.” (Gálatas 2:17);

“Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo.” (1 João 3:8).

Há quem conteste a verdade de que o crente não peca e, por isso, não atina para a verdade de que, quem peca, é escravo do diabo (João 8:34). Se alguém admitir que o crente peca, certamente, tem de admitir que o tal pertence ao diabo, portanto, que não está em Deus e nem Deus nele.

Quando a Bíblia diz que os nascidos de Deus não pecam, não temos em vista tropeços morais ou, o desejo de se portar de modo honesto em todas as coisas, mas, o fato de que, quem tem, em si, a semente divina, jamais pode ser denominado escravo, conforme posicionamento evidenciado na antiguidade, através da fala de Helena de Teodecto[17].

“Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado.” (João 8:34).

O que torna um homem pecador não são as suas boas ou, más ações, pois, mesmo os que praticam boas ações, segundo a religião ou, a consciência, não são justificados diante de Deus.

“O fariseu, estando em pé, orava dessa maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem, ainda, como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo.” (Lucas 18:11-12).

E mesmo aqueles que praticam más ações, do ponto de vista da moral e da lei, apesar de apenados pelos seus erros, são aceitos por Deus, como foi aceito o rei Davi.

Consciência 

Quando a Bíblia diz que aqueles que creem em Cristo são filhos de Deus (1 Jo 3:1-2), nascidos de semente incorruptível (1 Pedro 1:23) e, por isso, não podem pecar (1 João 3:9; 1 João 5:18), há quem não aceita essa verdade, pois, baliza a sua compreensão pela experiência diária, não segundo a reta justiça, que é a palavra de Deus.

Tiago declara que todos os cristãos, inclusive ele, tropeçam em muitas coisas (Tiago 3:2). Pergunta-se: um erro, um equívoco, um deslize, um tropeço de conduta, de caráter, de moral, faz o crente voltar a se sujeitar ao jugo da servidão do pecado? Se já morreu para aquilo que estava retido? Evidente que não!

Só voltam a se submeter ao jugo da servidão, aqueles que apostatarem da fé, ou seja, se voltarem à circuncisão, guarda de dias, festas, luas, etc. Quem assim procede, separado está de Cristo, portanto, Cristo de nada aproveita para quem rejeita o evangelho (Gálatas 5:2-4).

Os cristãos, com relação ao comportamento, devem adotar o posicionamento apontado pelo escritor aos Hebreus:

“Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que, em tudo, querem portar-se honestamente.” (Hebreus 13:18).

O escritor aos Hebreus acreditava ter uma boa consciência, porque havia adotado um posicionamento de ‘portar-se honestamente, em tudo’. Ele iria conseguir? Dificilmente, devido às inúmeras questões, decorrentes de religiosidade, nacionalidade, filosofia, etc.

O que se espera de um cristão é a honestidade, tanto para os que estão de fora, quanto para com os seus irmãos em Cristo. Mas, apesar de acreditar possuir boa consciência, até que ponto ele pode deixar de ser julgado pela consciência alheia?

O comportamento do cristão é regido pela sua consciência, mas, por estar em Cristo, o seu porte torna-se evidente na sociedade. É próprio dos que não possuem boa consciência falarem mal de quem segue a Cristo, mas, o bom porte do cristão deve contradizer o mal que propagam. “Tendo uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam do vosso bom porte em Cristo.” (1 Pedro 3:16).

Dentro da perspectiva de que tudo é licito, o apóstolo Paulo evidencia que tudo é puro para aqueles que estão em Cristo, mas, nada é puro para os impuros, uma vez que o entendimento e a consciência dos impuros estão contaminados.

“Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes, o seu entendimento e consciência estão contaminados.” (Tito 1:15).

Para um cristão não há contaminação, se comer sem lavar as mãos, mas, para um impuro, que acredita que comer, sem lavar as mãos, contamina o homem, para esse nada é puro.

“São estas coisas que contaminam o homem; mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem.” (Mateus 15:20).

Ora, o entendimento e a consciência dos judaizantes estavam contaminados com mandamentos de homens e para eles, nada era puro. (Marcos 7:3; Isaías 29:13).

Nesse aspecto, o apóstolo Paulo tinha uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens, visto que, mesmo sendo servo de Cristo, ao adentrar nas sinagogas, procedia segundo as práticas dos judeus, sem gritarias, ofensas, acusações, etc.

“E por isso procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus, como para com os homens. Ora, muitos anos depois, vim trazer à minha nação esmolas e ofertas. Nisto me acharam já santificado no templo, não em ajuntamentos, nem com alvoroços, uns certos judeus da Ásia, os quais convinha que estivessem presentes perante ti e me acusassem, se alguma coisa contra mim tivessem.” (Atos 24:16-19).

O posicionamento de quem é livre no Senhor e tem boa consciência é maravilhoso. Observe:

“Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos, para ganhar ainda mais. E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. E eu faço isso por causa do evangelho, para ser, também, participante dele.” (1 Coríntios 9:19-23).

Para analisarmos todas as nuances acerca do tema pecado, escreveríamos livros e livros e não esgotaríamos o tema. Mas, de tudo que foi apresentado, certo é que quem, ainda, está em busca dos rudimentos da doutrina, não está experimentado na palavra da verdade, pois é menino.

Mas, aquele que maneja bem a palavra da verdade é perfeito (Tiago 3:2) e, em razão do costume, tem os sentidos exercitados para discernir, tanto o bem como o mal (Hebreus 5:13-14).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

[1] “266 αμα ρτι α hamartia de 264; TDNT – 1:267,44; n f 1) equivalente a 264 1a) não ter parte em 1b) errar o alvo 1c) errar, estar errado 1d) errar ou desviar-se do caminho de retidão e honra, fazer ou, andar no erro 1e) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado 2) aquilo que é errado, pecado, uma ofensa, uma violação da lei divina em pensamento ou, em ação 3) coletivamente, o conjunto de pecados cometidos seja por uma única pessoa ou, várias. Sinônimos ver verbete 5879”. Dicionário Bíblico Strong.

[2] “458 ανομια anomia de 459; TDNT – 4:1085,646; n f 1) a condição daquele que não cumpre a lei 1a) porque não conhece a lei 1b) porque transgride a lei 2) desprezo e violação da lei, iniquidade, maldade. Sinônimos ver verbete 5879”. Dicionário Bíblico Strong.

[3] “93 αδικια adikia de 94; TDNT 1:153,22; n f 1) injustiça, de um juiz 2) injustiça de coração e vida 3) uma profunda violação da lei e da justiça, ato de injustiça”. Dicionário Bíblico Strong.

[4] “4102 πιστις pistis de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou, crença que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente, com a ideia inclusa de confiança e fervor santo nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou, em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar”. Dicionário Bíblico Strong.

[5] “3900 παραπτωμα paraptoma de 3895; TDNT – 6:170,846; n n 1) cair ao lado ou, próximo a algo 2) deslize ou, desvio da verdade e justiça 2a) pecado, delito. Sinônimos, ver verbete 51”. Dicionário Bíblico Strong.

[6] “264 αμαρτανω hamartano, talvez, de 1 (como partícula negativa) e a raiz de 3313; TDNT – 1:267,44; v 1) não ter parte em 2) errar o alvo 3) errar, estar errado 4) errar ou, desviar-se do caminho da retidão e honra, fazer ou, andar no erro 5) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado”. Dicionário Bíblico Strong.

[7] “1525 εισερχομαι eiserchomai de 1519 e 2064; TDNT – 2:676,257; v 1) ir para fora ou vir para dentro: entrar 1a) de homens ou animais, quando se dirigem para uma casa ou, para uma cidade 1b) de Satanás tomando posse do corpo de uma pessoa 1c) de coisas: como comida, que entra na boca de quem come 2) metáfora; 2a) de ingresso em alguma condição, estado das coisas, sociedade, emprego 2a1) aparecer, vir à existência, começar a ser 2a2) de homens, vir perante o público 2a3) vir à vida 2b) de pensamentos que vêm a mente”. Dicionário Bíblico Strong.

[8] “A ideia de que moralidade e ética podiam ser codificadas era recente, mesmo nos dias de Aristóteles, e resultava menos de um impulso para prescrever ou, pregar, do que da incessante indagação de questões e proposição de soluções, que caracterizavam o início da filosofia grega”. MCLEISH, K. Aristóteles: a Poética de Aristóteles, tradução de Raul Fiker, São Paulo, UNESP, 2000, pág. 13.

[9] “I. hamartia (ἁμαρτία) é, literalmente, “perda da marca”, mas esse significado etimológico quase que se perdeu por completo no Novo Testamento”. Vine, W. E., e outros, Dicionário VINE, O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento, Tradução de Luís Aronde Macedo, Ed. CPAD, 2002.

[10] “02399 חטא chet’ procedente de 2398; DITAT – 638a; n m 1) pecado 1a) pecado 1b) culpa pelo pecado 1c) punição pelo pecado”, Dicionário Bíblico Strong; “02403 חטאה chatta’ah ou חטאת chatta’th, procedente de 2398; DITAT – 638e; n f 1) pecado, pecaminoso 2) pecado, oferta pelo pecado 2a) pecado 2b) condição de pecado, culpa pelo pecado c) punição pelo pecado 2d) oferta pelo pecado 2e) purificação dos pecados de impureza cerimonial”, Dicionário Bíblico Strong.

[11] CIC § 1849 < http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s1cap1_1699-1876_po.html > Consulta realizada em 17/06/18.

[12] Aristóteles, A Política < http://www.uel.br/projetos/acropolis/pages/arquivos/Politica%20texto%20bilingue.pdf > Pesquisa em 06/07/18.

[13] “O mesmo ocorre com a nobreza. Consideram-na dos povos cultivados como pura e existente em toda a parte; a dos povos bárbaros, como local e boa, somente para eles. Distinguem o homem livre do escravo, a nobreza do vulgo, pelas vantagens e vícios de nascimento. Como diz a Helena de Teodecto: Escrava, eu? Que homem tão audacioso poderia chamar assim uma filha dos deuses. Os que partilham desta opinião não diferenciam o escravo do homem livre, o nobre do plebeu, senão pela distância entre o vício e a virtude; e, como o homem vem do homem e o animal do animal, acham que o bom só pode vir do bom.” Aristóteles, A Política < http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_aristoteles_a_politica.pdf > Consulta realizada em 07/07/18.

[14] “Por meio do pecado, o homem se tornou o recipiente de uma natureza depravada; e a expressão inevitável da mesma, é a depravação do caráter e conduta”. Bancroft, E. H., Teologia Elementar, EBR, 2001, pág. 226.

[15] “Visto que o espírito do homem é o centro de seu ser ético e, uma vez que a salvação é, principalmente, transação ética, segue-se que o homem precisa ser espiritualmente despertado…” Bancroft, E. H., Teologia Elementar, EBR, 2001, pág. 227.

[16] “A filosofia e a teologia são, essencialmente, uma transcrição e uma interpretação da experiência humana e a experiência humana é de que há um conflito na alma. Para Paulo, tratava-se de uma guerra entre duas forças opostas, que chamava de carne e espírito. “Porque a carne milita contra o Espírito,” disse ele, “e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si” (Gl 5.17).” Barclay, William, As obras da carne e o fruto do Espírito, Tradução Gordon Chown, Ed. Edições Vida Nova, SP, 1988. Pág. 13.

[17] “Quem se atreverá a chamar-me serva, a mim, que tenho descendência divina, por ambos os lados?” Aristóteles, A Política.




Natureza pecaminosa

A natureza pecaminosa só é aniquilada após o homem ser crucificado com Cristo, morto e sepultado (Rm 6:6).


Natureza pecaminosa

Vincent Cheung, presidente da ‘Reformation Ministries International’, define a natureza pecaminosa do homem nos seguintes termos:

“Nós podemos definir a natureza pecaminosa do homem como uma forte disposição da mente para o mal (Colossenses 1:21; Romanos 8:5-7)” Vincent Cheung, Teologia Sistemática, páginas 188-189, disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/regeneracao/regenerados_ts_cheung.htm > Acesso em 09/12/17.

A definição de Cheung é, no mínimo, equivocada, para não dizer mal intencionada, tendo por base a má leitura dos versículos que ele cita. Senão, vejamos.

 

A natureza do homem

A Bíblia é contundente em demonstrar que a natureza pecaminosa do homem abrange todo o seu ser e não somente uma disposição da mente. Por natureza pecaminosa, entende-se a essência do homem no pecado. Por ser gerado de uma semente corruptível, o pecador está separado de Deus e pertence ao pecado (Sl 51:5).

O homem é pecador por ter sido gerado e nascido no pecado, condição que não diz da disposição mental do indivíduo, mas do corpo, da alma e do espírito. Natureza pecaminosa é a condição do homem preso à condenação que herdou de Adão, a morte. Diz da má condição do homem: morto para Deus e vivo para o pecado (1 Co 15:21-22; Rm 5:16).

E, em função da alienação de Deus, que é dito que a natureza do homem é má, ou seja, ruim, vil, mentirosa, em trevas, etc., no sentido de inferior, ralé, escravo, o que contrapõe a natureza de Deus, que é bom, nobre, verdadeiro, luz. A análise acerca da natureza humana decaída não é da perspectiva moral ou, do caráter, mas do que é de per si.

Por isso é dito:

“De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, E venças quando fores julgado” (Romanos 3:4).

Os termos ‘verdadeiro’ e ‘mentiroso’ não possuem conotação moral, antes, apontam, respectivamente, para a essência de Deus e do homem: este vil e aquele nobre.

Os escribas e fariseus eram maus, ou seja, vis, escravos, ralé, etc., em função da sujeição ao pecado, o que não os impedia de dar boas dádivas aos seus semelhantes.

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:11).

Os escribas eram maus porque eram mau nascidos, ou seja, não eram filhos de Deus, uma mancha, geração perversa e depravada (Dt 32:5). Embora a disposição mental deles fosse dar esmolas, fazer jejuns, orações prolongadas, etc., contudo, eram maus diante de Deus, por causa da natureza que herdaram de berço.

Em função do coração maligno que herdaram de Adão, não conseguiam dizer coisas boas, pois, falavam segundo os seus corações enganosos (Mt 12:34; Sl 58:3).

“O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem e o homem mau, do mau tesouro do seu coração, tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca” (Lucas 6:45).

O homem bom é aquele que descende de Deus e do seu coração procede o bem. Já o homem mau, é o mau nascido, ou seja, descendente da carne, do sangue e da vontade do varão (Jo 1:12-13).

Ao escrever aos cristãos de Colossos, no verso 21, do capítulo 1, o apóstolo Paulo não estava tratando da antiga natureza pecaminosa dos seus interlocutores, mas, da compreensão equivocada que os homens possuem, antes de serem salvos.

Com relação à natureza pecaminosa, entende-se que é necessário ao homem ser transportado das potestades das trevas para o reino de Cristo, ou seja, no verso 13 o apóstolo fez referência à natureza do homem sem Cristo: está sob domínio das trevas (Cl 1:13).

E como o homem é tirado da potestade das trevas e transportado para o reino de Cristo? Morrendo com Cristo, para que o corpo do pecado seja desfeito e, assim, cesse o domínio do pecado e, em seguida, Deus faz nascer um novo homem, que pertence ao reino de Cristo, vivo para Deus e morto para o pecado.

A natureza pecaminosa só é aniquilada após o homem ser crucificado com Cristo, morto e sepultado (Rm 6:6). Quando o pecador tem um encontro com Cristo, não é crucificada ‘uma forte disposição da mente para o mal’, mas, sim, o velho homem, uma natureza em sujeição ao pecado. No encontro com Cristo, não há a circuncisão de uma disposição mental, mas, o despojar do corpo da carne, a circuncisão de Cristo (Cl 2:11).

Devemos sempre lembrar que os homens nascidos segundo a semente corruptível de Adão, inexoravelmente, possuem uma natureza pecaminosa. A natureza pecaminosa é condição que o homem herda de nascimento e não decorre das suas disposições mentais.

Natureza pecaminosa é condição própria de quem entrou neste mundo pela porta larga, Adão, e segue por um caminho largo, que conduz à perdição. É um homem mau, por ser escravo do pecado, de condição vil, inferior.

Ao citar Romanos 8, versos 5 a 7, para enfatizar que a disposição mental do homem é má, Cheung torce a temática da passagem bíblica, pois, os termos ‘carne’ e ‘espírito’ são apresentados como antagônicos, portanto, não diz de disposição mental, antes foi um modo do apóstolo Paulo contrapor aqueles que seguem mandamentos de homens (carne), com aqueles que seguem a verdade do evangelho (espírito).

No texto, carne está para ‘mandamentos de homens’, assim, como, espírito para ‘mandamento de Deus’ e os seus seguidores se opõem, sendo que os que se guiam por mandamento de homens, nunca se sujeitam à lei de Deus, diferente daqueles que se guiam pelo espírito.

Daí a máxima:

“PORTANTO, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas, segundo o Espírito” (Romanos 8:1).

Não há condenação para os que são novas criaturas, por intermédio do evangelho, pois, servem a Deus em novidade de espírito (evangelho), diferentemente, dos que permanecem na velhice da letra, ou seja, na carne, onde há condenação.

“Mas, agora, temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito e não na velhice da letra (Romanos 7:8).

 

Regeneração

Regeneração ou, novo nascimento, é ato criativo de Deus, que faz vir à existência um novo homem, participante da natureza divina (2 Pedro 1:4). Diferentemente do homem gerado segundo a semente de Adão, participante de uma natureza terrena e corruptível, o novo homem é gerado da água e do espírito, ou seja, através da palavra de Deus.

Ser ‘regenerado’ é o mesmo que ressurgir com Cristo uma nova criatura (Rm 6:4), gerada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Cl 3:1; Ef 4:24).

Quando a Bíblia fala de regeneração, ela trata da criação de um novo ser, com uma nova natureza, decorrente de uma nova semente e segundo a vontade de Deus. Não é reformulada a velha natureza ou, feito uma melhorada, como se entende, através de uma mudança de disposição mental.

Para ser regenerado, primeiro é necessário morrer, sendo crucificado, morto e sepultado com Cristo. Sem a morte do velho homem e da velha natureza, não há regeneração.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1:12-13).

Mas, segundo a concepção de Vincent Cheung que, por sinal, é calvinista, a regeneração trata de mudança de personalidade e de intelecto e, ainda, da transformação do ‘espectro inteiro de sua cosmovisão e estilo de vida’.

“REGENERAÇÃO é uma obra de Deus, na qual ele muda tal disposição má numa que se deleita nas leis e nos preceitos de Deus (Ezequiel 11:19-20, 36:26-27) e isso resulta no que significa uma ressurreição espiritual. Regeneração é uma transformação drástica e permanente no nível mais profundo da personalidade e intelecto de alguém, que podemos chamar de uma RECONSTRUÇÃO RADICAL. [35] Os compromissos mais básicos do indivíduo, são voltados de objetos e princípios abomináveis, que ele uma vez serviu, para Deus. Essa mudança no primeiro princípio de pensamento e conduta de uma pessoa gera um efeito replicante que transforma o espectro inteiro de sua cosmovisão e estilo de vida” (Idem).

São dúbias as colocações de Cheung, acerca da regeneração, vez que afirma que a regeneração é uma mudança da ‘disposição má’. O que seria tal disposição má, que ao ser mudada, também, significa ressurreição espiritual?

A ressurreição não é algo que se dá nas disposições internas do individuo, mas algo que ocorre quando o individuo se une a Cristo. É algo que ocorre somente quando o homem é batizado na morte de Cristo, pelo fato de ter se tornado participante da carne e do sangue de Cristo, ou seja, da sua doutrina.

Mudança de personalidade só ocorre por doenças, lesões, abuso de drogas ou, de transtornos psicológicos. Na Bíblia, não se vê nenhum dos discípulos de Jesus tendo alteração de personalidade ou, de intelecto.

O apóstolo Pedro é prova cabal dessa verdade, pois, é certo que ele nasceu de novo e foi salvo, segundo a fé em Cristo. Entretanto, não vemos nenhuma mudança de personalidade e nem mesmo de intelecto, pois, sendo pescador e indouto, necessitou de alguém que escrevesse as suas epístolas (1 Pe 5:12). Após anunciar Jesus aos seus concidadãos, teve de aprender que não deveria considerar ninguém comum ou, impuro (At 10:28), o que demonstra que, na conversão, não há mudança de personalidade ou, de intelecto.

Para colocar o seu ponto de vista calvinista, Cheung, claramente, contraria a Bíblia, ao dizer: ‘uma pessoa não nasce de novo pela fé’.

“Regeneração, ou ser “nascido de novo”, ocorre em conjunção com o chamado eficaz de Deus para com os seus eleitos (1 Pedro 1:23; Tiago 1:18), e os capacita a responder em fé e arrependimento a Cristo. Isso significa que a regeneração precede a fé; isto é, uma pessoa não nasce de novo pela fé, mas ela é capacitada a crer precisamente porque Deus a regenerou primeiro. Fé não é a pré-condição da regeneração; antes, a regeneração é a pré-condição da fé” (Idem).

Além de não compreender a doutrina da Regeneração, Cheung desconhece que a ‘fé’, pela qual o homem nasce de novo, não diz da crença do indivíduo, antes diz da ‘verdade’ do evangelho, que é Cristo, manifesto aos homens, sem a qual ninguém verá a Deus.

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

A ‘fé’ pela qual uma pessoa nasce de novo, diz da ‘fé’ que uma vez foi dada aos santos (Jd 1:3), e após acabar a carreira, cada crente deve estar de posse dela.

A ‘fé’, como evangelho, é pré-condição para a regeneração, pois, sem haver a mensagem de salvação e sem haver quem pregue, não há quem creia e nem regeneração. É a fé pela qual o justo viverá, ou seja, a palavra de Deus (Dt 8:3).

Cristo, como a ‘fé’ manifesta, ou seja, a verdade, é pré-condição para o homem crer (ter fé). Como estar de posse da ‘fé’, se ela não for dada? Nesse sentido, primeiro é necessário o evangelho (fé anunciada), para que o homem se arrependa (metanoia) e creia, segundo a mensagem anunciada e seja regenerado por Deus.

Desse modo, a regeneração não precede nem a ‘fé’, pois ‘fé’ é uma metonímia para fazer referência à verdade do evangelho. A ‘fé’ dada aos santos precede a crença (fé) do indivíduo, que só será regenerado se crer na pregação da fé.

 

Regeneração e justificação

A condenação é pertinente à natureza pecaminosa e a justificação e vida, são pertinentes à nova natureza do homem, gerado pela semente do evangelho.

Só é declarado justo ou, justificado, o homem que não tem nenhuma condenação. Segundo o apóstolo Paulo, só não há condenação alguma para os que estão em Cristo, ou seja, para aqueles que são novas criaturas, pois, ser nova criatura e sem condenação, é condição inerente a quem está em Cristo.

“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8:1);

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5:17).

Cheung afirma que muitos cristãos confundem regeneração com salvação, que Deus justifica pela fé, mas, que a regeneração não é pela fé.

“Uma razão pela qual muitos cristãos pensam que a regeneração ocorre pela fé é por que eles têm confundido regeneração com “salvação” em geral, e “justificação” em particular. Quando a palavra “salvação” é aplicada ao pecador, ela é um termo geral que pode implicar diversas coisas, tais como os itens que estamos discutindo nesse capítulo [*]. Por outro lado, na justificação Deus confere ao eleito a justiça legal merecida por Cristo em sua obra redentora. A Bíblia ensina que nós somos justificados pela fé, e não que nós somos regenerados pela fé. A confusão acontece quando alguém considera tanto a justificação como a regeneração, como significando “salvação”.” (Idem).

Ao escrever aos Efésios, o apóstolo Paulo diz:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2:8).

Os crentes são graciosamente salvos por meio do evangelho, a ‘fé’ dada aos santos (Jd 1:3). É por meio dessa ‘fé’ dada aos santos que o homem passa a estar em Cristo e Cristo no homem: “Nisto conhecemos que estamos nele e ele em nós, pois, que nos deu do seu Espírito. E vimos e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo. Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele em Deus” (1 Jo 4:13-15).

O evangelho como ‘fé’ não é proveniente de homem algum, mas, de Deus. O evangelho é o firme fundamento que o homem não pode se demover.

“Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro.” (Colossenses 1:23).

Para o homem ser salvo, precisa ouvir e crer na esperança do evangelho, que é pregado sem distinção alguma aos homens de todas as tribos e línguas. A crença advém da ‘fé’ como promessa, fundamento firme e por meio dela o homem é regenerado, justificado e salvo.

 

O reino dos céus

No anunciado: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3:3), o termo ‘ver’ tem o significado de ‘entrar’, ‘ter acesso’, mas para enfatizar o seu posicionamento, Cheung afirma que o termo ‘ver’ refere-se à capacidade de compreensão do homem.

“Jesus diz: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo” (João 3:3). A palavra “ver” aqui se refere principalmente à capacidade de entender, ou “investigar”. Paulo escreve em 2 Coríntios 4:4: “O deus desta era cegou as mentes dos descrentes, para que não possam ver a luz do evangelho da glória de Cristo”. Se eles não podem ver o evangelho, então eles não podem aceitá-lo, o que consequentemente torna impossível que eles sejam salvos” (Idem).

Basta comparar os versos 3 e 5 para compreender o significado do termo ‘ver’ no verso 3. A proposta de Jesus é acesso ao Reino dos céus e não a capacidade de investigar.

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20).

Nascer de novo é entrar por Cristo. Cristo é a porta estreita e se o homem não nascer de novo, permanece em um caminho largo, que conduz à perdição. O que Jesus está expondo a Nicodemos é a necessidade do novo nascimento para a salvação e não se o homem é capaz de compreender o evangelho.

Além de não compreender a exposição de Jesus a Nicodemos, Cheung aplica à humanidade, que é alvo do amor de Deus, entraves que são próprios aos filhos de Israel, por causa da incredulidade.

“Mateus 13:15 estabelece um ponto similar: “Pois o coração deste povo se tornou insensível; de má vontade ouviram com seus ouvidos, e fecharam seus olhos. Se assim não fosse, poderiam ver com os olhos, ouvir com os ouvidos, entender com o coração e se converter e eu os curaria”. Ou, como Marcos 4:12 diz: “De outro modo, poderiam converter-se e ser perdoados!”. Uma pessoa entenderá somente quando for capaz de ver, e somente quando ela entender é que ela será capaz de se voltar, isto é, se “converter” (Mateus 13:15). Se é necessário “ver” antes que alguém tenha fé e se a capacidade de “ver” é somente possível após a regeneração (João 3:3), então naturalmente a regeneração vem antes da fé” (Idem).

Mateus 13, verso 15 e Marcos 4, verso 12, são passagens que demonstram que os filhos de Israel sempre foram tardios de coração para crer nos profetas. Mas, dos gentios é dito:

“Antes, como está escrito: Aqueles a quem não foi anunciado, o verão e os que não ouviram o entenderão (Romanos 15:21).

Os textos bíblicos citados por Cheung tem a seguinte proposta: expor a condição dos judeus diante de Deus. Os textos da Antiga Aliança foram escritos para os judeus, de modo que se faz necessário considerar o seguinte princípio evidenciado pelo apóstolo dos gentios:

“Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19).

O povo de coração insensível, que ouve de má vontade e fecha olhos, refere-se aos judeus, demonstrando o endurecimento de Israel, em parte, para que a graça de Deus fosse dada aos gentios.

“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado” (Romanos 11:25).

A questão abordada nos textos acerca de ouvidos mocos, olhos cegos, não diz que os homens não podem compreender a mensagem do evangelho, mas que os filhos de Israel foram postos nesta condição para incitá-los à emulação.

“Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram e os outros foram endurecidos. Como está escrito: Deus lhes deu espírito de profundo sono, olhos para não verem e ouvidos para não ouvirem, até ao dia de hoje. E Davi diz: Torne-se-lhes a sua mesa em laço e em armadilha, E em tropeço, por sua retribuição; Escureçam-se-lhes os olhos para não verem, E encurvem-se-lhes continuamente as costas. Digo, pois: Porventura tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum, mas pela sua queda veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação” (Rm 11:7-11).

A citação que o apóstolo Paulo faz de Isaías demonstra que todos os homens são capazes de crer na mensagem do evangelho, condição diferente à imposta aos filhos de Israel, que eram tardios em ouvir:

“Assim borrifará muitas nações e os reis fecharão as suas bocas por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão e aquilo que eles não ouviram, entenderão” (Isaías 52:15; Romanos 15:21);

“Porque o SENHOR derramou sobre vós um espírito de profundo sono e fechou os vossos olhos, vendou os profetas e os vossos principais videntes” (Isaías 29:10).

Para enfatizar a ideia de que Deus, na eternidade, estabeleceu quem haveria de ser salvo, e que Cristo veio pagar o preço do pecado dos que foram eleitos, se fez necessário Cheung torcer a verdade, acerca da rejeição dos filhos de Israel e ignorar que o povo junto ao caminho do mar, a Galileia das nações, vira uma grande luz, apesar de habitar nas regiões das trevas.

“O povo que andava em trevas, viu uma grande luz e sobre os que habitavam na região da sombra da morte, resplandeceu a luz” (Isaías 9:2).

Deus não intima somente alguns homens a crer, antes, o evangelho é luz que os habitantes das regiões da sombra da morte estão aptos a ver!

“Mas a todos quantos o receberam, a eles ele deu o direito de se tornarem filhos de Deus, àqueles que creem em seu nome, que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:12-13).

A passagem de João 1, verso 12 e 13 evidencia que a regeneração não se dá por pertencer a uma descendência natural em particular, ou seja, a descendência da carne de Abraão. Os judeus acreditavam que não precisavam de Cristo por terem Abraão por pai, e é tão somente isso que João evidencia.

Na verdade, todos quantos recebem a Cristo (e isso só é possível após ouvir a pregação da ‘fé’), crendo n’Ele, recebem o direito de serem feitos filhos de Deus. Os nascidos segundo a carne possuem genealogia, mas os nascidos de Deus nascem do espírito, por isso não se sabe de onde vem e nem para onde vai (Jo 3:8).

É equivocada a ideia de que a regeneração precede a fé.

“É fácil entender porque a regeneração deve preceder a fé se guardarmos em mente que o homem está espiritualmente morto antes da regeneração (Efésios 2:1; Romanos 3:10-12, 23). Por causa da hostilidade da mente às coisas de Deus, antes da regeneração, os eleitos por si mesmos nunca chegariam à fé em Cristo quando o evangelho lhes fosse apresentado. É Deus quem age primeiro, e tendo mudado a disposição deles de má para boa, e das trevas para a luz, eles então respondem ao evangelho pela fé em Cristo, e por ela eles se tornam justificados aos olhos de Deus. Atos 16:14 registra a conversão de Lídia, e o versículo diz que foi Deus quem primeiro “abriu seu coração” para que ela pudesse “responder à mensagem de Paulo”.” (Idem).

A pregação da fé precede a regeneração, pois apesar de o homem estar morto em delitos e pecados, contudo vive para o pecado e por estar vivo para o pecado, pode ouvir os embaixadores de Deus.

“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25).

Através da pregação da fé, é Deus que age primeiro, indo em direção aos pecadores para resgatá-los. Através da pregação da fé, o homem passa a viver pela palavra de Deus (Dt 8:3). Sem a palavra da fé que demonstra ser necessário crer em Cristo, os mortos não viverão.

É em função da pregação da fé, o evangelho anunciado à Lídia, que Deus lhe abriu o coração, para estar atenta ao que o apóstolo Paulo dizia. Mas, por que o coração de Lídia foi aberto, ante à palavra do evangelho? Porque ela já servia a Deus, à sua maneira, assim como o centurião Cornélio e através do que lhe foi anunciado que Deus lhe abriu o coração, se não permaneceria na sua própria religiosidade.

“E uma certa mulher, chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus, nos ouvia, e o SENHOR lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia” (At 16:14).

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto




Deus odeia o pecado, mas ama o pecador?

O sentido do verbo grego ἀγαπάω (agapaó), ou do verbo hebraico אָהַב (aheb), traduzido por amor, quando utilizado na Bíblia detém um valor aristocrático voltado para a realidade do homem camponês da antiguidade, utilizado para descrever as relações que envolviam os senhores e os servos, ou as relações familiares entre marido e mulher, pais e filhos nos tempos antigos.


Deus odeia o pecado, mas ama o pecador?

Em uma conversa informal, um cristão afirmou: – “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”!  Não pude deixar de questionar:  – “Está na Bíblia”? Não obtive resposta!

É comum citações de pensamentos de origem desconhecida, como se fossem uma verdade bíblica. Sermões e pregações, em nossos dias, estão repletos de frases, pensamentos, provérbios, como: – “Quem não vem pelo amor, vem pela dor”.

Quem cunhou a frase ‘Deus odeia o pecado, mas ama o pecador’, não compreendia verdades bíblicas essenciais, além de desconhecer o significado bíblico de termos como ‘ódio’, ‘amor’, ‘pecado’ e ‘pecador’.

Para entender qual a relação de Deus com o pecador, primeiro faz-se necessário entender o significado dos termos ‘amor’ e ‘ódio’; após isso, abordaremos o significado de ‘pecado’ e ‘pecador’.

 

Amor e ódio

“Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

Segundo esse provérbio, pergunta-se: – a quem Deus ama? A resposta é direta: – àqueles que O amam!

Esse provérbio trata do amor[1], segundo os sentimentos ou as emoções humanas?  Qual o melhor significado para a palavra ‘amor’, segundo os termos utilizados pelos gregos? Eros, Fhilia, Ágape? Deus exige do homem afeição, amizade, caridade?

Não! Absolutamente, não! Deus não exige do homem que tenha afeição por Ele! Deus não está em busca de amizade! Deus não quer caridade! Todos esses significados que se atribui ao termo amor, não condizem com o que Deus requer do homem.

Mas, alguém pode contra argumentar, dizendo: – “O termo grego ‘ágape’ define o amor de Deus para com os homens e vice-versa”.  Alto lá! Essa concepção, é fruto de uma má leitura bíblica, engendrada por vários padres, influenciados pela filosofia grega, como Agostinho, de Hipona e Tomás de Aquino, da Itália, sendo que este pendia para a tradição aristotélica enquanto que, aquele, para as ideias platônicas.

Diante de tantas teorias, como amar a Deus? No que consiste o amor a Deus?

O sentido do verbo grego ἀγαπάω (agapaó), ou do verbo hebraico אָהַב (aheb), utilizado na Bíblia, detém um valor aristocrático, voltado para a realidade do homem camponês da antiguidade, apontando para as relações que envolviam os senhores e os servos, ou as relações familiares entre marido e mulher, pais e filhos nos tempos antigos.

Quando lemos:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Depreende-se do texto que ‘amor’ está para sujeição a um senhor, assim como ‘ódio’ está para insubordinação a outro senhor. Os termos não foram empregados para fazer referências a sentimentos ou, emoções, mas, sim, para destacar a relação entre senhor e servo.

Ama a Deus aquele que O obedece, ou seja, que se sujeita a Ele, como servo obediente.

Jesus mesmo disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” (Jo 14:21). “Se me amais, guardai os meus mandamentos” (Jo 14:15). “Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra,  meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14:23). “Quem não me ama, não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14:24).

Jesus não estava exigindo que gostassem d’Ele! Na verdade, Jesus exigia que os homens se sujeitassem a Ele, tomando sobre si o jugo d’Ele. “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29). “E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Jesus nos deixou exemplo de como se ama a Deus: “Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Por conseguinte, obediência é a essência do amor bíblico: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5:3).

Quando os apóstolos escreveram os Evangelhos e as cartas do Novo Testamento, o termo ἀγαπάω[2] (agapaó) foi escolhido dentre outros por uma caraterística impar: não tinha um significado específico e, raramente, era utilizado! A ideia do termo deriva do seu significado básico: honra.

Quando é dito que Deus ama os que O amam, é o mesmo que dizer que Ele honra aqueles que O honram: “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram, honrarei, porém os que me desprezam, serão desprezados” (1Sm 2:30).

 

É possível Aquele que é amor, odiar?

O apóstolo João afirma que Deus é amor, mas como compreender essa declaração acerca de Deus? Comparemos os dois versos abaixo, considerando que ambos foram extraídos do mesmo contexto:

“Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele, em Deus” (1Jo 4:15);

“E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus e Deus nele” (1Jo 4:16).

O apóstolo afirma que quem confessar que Jesus é o Filho de Deus, significa que Deus está nele e ele em Deus. Por conseguinte, o Pai e o Filho fizeram morada naquele que confessa a Cristo. Mas, como o Pai e o Filho passam a fazer morada no homem? Obedecendo a palavra de Cristo, ou seja, ao amá-Lo:

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra,  meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14:23).

Perceba que, confessar a Cristo, é o mesmo que amar, obedecer e crer, e resulta em salvação: “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10:9).

Por intermédio de Moisés, Deus deixou bem claro que Ele faz misericórdia aos que o amam, ou seja, àqueles que guardam os mandamentos de Deus.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6).

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17)

O amor de Deus para com os que O obedecem, não diz de um sentimento ou de uma emoção. O amor de Deus para os que O amam é misericórdia, ou seja, bondade, benignidade, fidelidade.

“Deus amou o povo de Israel”. Esta frase é verdadeira! Mas, como Deus amou os filhos de Israel? R: guardando o juramento feito a Abraão, a Isaque e a Jacó.

“Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito” (Dt 7:8).

O amor de Deus é demonstrado na sua fidelidade à Sua palavra. Como Deus fez aliança com Abraão e prometeu que ele seria pai de muitas nações, Deus ‘amou’ os filhos de Israel, mantendo a palavra que falara a Abraão: resgatando-os da servidão do Egito (Gn 17:4-8).

Mas, apesar de Deus demonstrar a sua benignidade, conforme a boa palavra que falara aos patriarcas, Ele também odeia a todos os que praticam a maldade, ou seja, que não O obedecem.

“Os loucos não pararão à tua vista; odeias a todos os que praticam a maldade” (Sl 5:5);

“E retribui no rosto a qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lhe pagará” (Dt 7:10);

“Se eu afiar a minha espada reluzente e se a minha mão travar o juízo, retribuirei a vingança sobre os meus adversários e recompensarei aos que me odeiam” (Dt 32:41);

“Eis que o justo recebe na terra a retribuição; quanto mais o ímpio e o pecador!” (Pv 11:31).

Enquanto o amor de Deus é dar o que prometeu, segundo a sua palavra aos que O amam, o ódio de Deus refere-se à sua retribuição a todos os que são ímpios e pecadores.

“Amai ao SENHOR, vós todos que sois seus santos; porque o SENHOR guarda os fiéis e retribui, com abundância, ao que usa de soberba” (Sl 31:23);

“Mas, o que pecar contra mim, violentará a sua própria alma; todos os que me odeiam amam a morte” (Pv 8:36).

Quando a Bíblia fala daqueles que odeiam a Deus, não fala de pessoas que tem um sentimento rancoroso ou que falam impropérios contra Deus. O ódio a Deus decorre da desobediência, de propagar o engano, ou seja, de pronunciar mentiras em nome de Deus: “Efraim era o vigia com o meu Deus, mas o profeta é como um laço de caçador de aves, em todos os seus caminhos e ódio na casa do seu Deus” (Os 9:8).

Não basta dizer: – “Deus existe”; “Deus é bom”; “Eu amo a Deus”; “Vive o Senhor”, etc., mas não fazer o que Ele manda. Os filhos de Israel eram religiosos, legalistas, moralistas e ritualistas e tinham a lei chegada à boca, mas longe do coração: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Quando Jesus faz referência aos que O odiaram, diz daqueles que não O obedeceram, pois não creram em Cristo, por consequência, não creram em Deus. Quem crê em Cristo, obedeceu a Deus, ou seja, amou a Deus. Mas, quem não crê em Cristo, desobedeceu, tanto a Cristo, quanto a Deus, ou seja, odiou tanto o Filho, quanto o Pai: “Aquele que me odeia, odeia também a meu Pai. Se eu, entre eles, não fizesse tais obras, quais nenhum outro tem feito, não teriam pecado; mas agora, viram-nas e me odiaram a mim e a meu Pai. Mas é para que se cumpra a palavra que está escrita na sua lei: Odiaram-me sem causa” (Jo 15:23-25). “Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

Enquanto o amor do homem para com Deus consiste em obediência ao seu mandamento, o amor de Deus, diz do seu cuidado, expresso em um mandamento: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

O amor de Deus é proteção, cuidado, abrigo, fidelidade, como se lê:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

O apóstolo Paulo expressa a essência do amor de Deus, nessas palavras:

“Palavra fiel é esta: que, se morrermos com Ele, também com Ele viveremos; Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará; Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2:11 -13).

 

Pecado e pecador

No imaginário popular, o pecado é representado por um fardo pesado que o pecador leva sobre os seus ombros.  Várias ilustrações e canções advertem os pecadores a deixarem o fardo do pecado aos pés de Cristo. Mais um engano!

A Bíblia apresenta o pecado com um senhor, não como um fardo: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que, todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (Jo 8:34). Os servos do pecado pecam, por isso são nomeados pecadores! Nas sociedades escravagistas a servidão era intrínseca ao escravo, portanto, era impossível ao servo se separar do seu senhor.

A ilustração que apresenta o pecado como um fardo não descreve a verdade das Escrituras, pois o pecador é apresentado como quem tem autonomia para deixar o pecado (fardo) ao pé da cruz e sair livre.

Além dessa figura, há várias considerações equivocadas, acerca do pecado: “O pecado nasce no coração do homem”. “O homem é uma fábrica de pecado”. “O homem não apenas, ama praticar o pecado, como ele em si mesmo é o pecado”, etc.

O homem não é o pecado, por não ser senhor de si mesmo. O pecado não é uma questão de gostar, querer, etc., na verdade, é uma questão de sujeição. O pecado não nasce no homem, antes o homem é concebido no pecado, ou seja, escravo do pecado.

Uma má leitura de Tiago 1, versos 12 à 15, leva ao entendimento de que o pecado é gerado dentro da pessoa, ou seja, em algum momento da existência do indivíduo o pecado nasce. Erro gravíssimo de interpretação do versículo, pois o que gera o pecado é a concupiscência, não o indivíduo.

O evento em que a concupiscência deu a luz ao pecado, ocorreu no Éden, quando Eva foi tentada e, ao observar o fruto da árvore do conhecimento, surgiu a concupiscência dos olhos: olhou para a árvore do conhecimento do bem e do mal e entendeu que o fruto era bom para comer, vez que agradou os seus olhos e considerou ser desejável para dar entendimento.

O evangelista João aponta três tipos de concupiscência: da carne, dos olhos e a soberba da vida (1Jo 2:16). A concupiscência não é pecado, mas se deixar guiar por ela levará o homem a sujeitar-se ao pecado. A prática reprovável não é o pecado, antes é uma ofensa. O pecado é o senhor que o indivíduo se sujeita, após a ofensa decorrente da concupiscência.

O pecado não é uma ‘simbiose’, antes, um senhor que utiliza o corpo do indivíduo como instrumento, independentemente do tipo de ação que o indivíduo vier a praticar: “Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade, mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” (Rm 6:13).

A concupiscência que deu à luz ao pecado pela ofensa e que trouxe a morte a todos os homens, iniciou-se com Eva e foi consumada por Adão. Tiago não estava tratando com os pecadores, quando fez essa descrição do surgimento do pecado, mas com os cristãos judeus (das doze tribos da dispersão). Esses cristãos estavam livres do pecado, pois se fizeram servos da justiça, quando creram em Cristo (Rm 6:18).

Entretanto, se os cristãos se deixassem levar por falsos discursos (a tentação que leva à concupiscência), e não perseverassem na lei perfeita da liberdade, novamente seriam presas do pecado, consequentemente, sujeitos à morte (Tg 1:22 e 25). Cristo de nada aproveitaria aos cristãos das doze tribos da dispersão, caso se deixassem levar por falsos discursos.

As Escrituras apontam que o único modo de desfazer a sujeição do pecador ao pecado é através da morte do pecador:

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6:6).

Não se separa o pecado do pecador. É impossível punir o pecado ou deixar o pecador sem punição. O pecador é instrumento do pecado, de modo que o pecador só peca por ser servo do pecado.

O pecado (senhor) entrou no mundo por causa da ofensa de Adão, e, em função do pecado, entrou a morte, pela força que há na lei, que diz: “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16-17).

Adão foi quem ofendeu a Deus, porém, a consequência do seu ato (morte) passou a todos os seus descendentes, por isso é dito que todos pecaram (Rm 5:12). Isso equivale a dizer que todos se tornaram imundos, pecadores, não por suas próprias ações ou omissões, mas, pelo fato de terem herdado essa condição de Adão: morte!

Equivocadamente, as pessoas acham que os homens tornam-se pecadores porque fazem coisas inconvenientes, contrárias à moral e aos bons costumes, ou, por transgredirem a ordens legais. Na verdade, os homens são pecadores por causa da morte que lhes foi transmitida. Todos pecaram, porque a morte passou a todos, e não porque todos ofenderam a Deus: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5:12).

Ocorreu somente uma transgressão, e por meio dela entrou no mundo o pecado (senhor) e a morte (aguilhão). O que prende o homem ao pecado é a morte, ou seja, a condenação decorrente da ofensa de Adão (1Co 15:56).

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um, muitos serão feitos justos” (Rm 5:19).

O salário que o pecado (senhor) dará aos seus servos (pecadores) é a morte. Aqui temos uma figura decorrente das relações que existiam nas sociedades escravocratas, pois, a única certeza dos escravos é que morreriam. Tudo o que os escravos produziam, pertenciam, por direito, a seu senhor:

“Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos, para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, do pecado para a morte, ou da obediência, para a justiça?” (Rm 6:16).

Deus, sendo justo, estabeleceu que:

  • A alma que pecar, essa mesma morrerá, portanto, a pena não pode passar da pessoa do transgressor: “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá pelo seu pecado” (Dt 24:16).
  • Não pode justificar o ímpio: “De palavras de falsidade te afastarás e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei ao ímpio” (Êx 23:7).
  • Não faz acepção de pessoas: “Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas” (Dt 10:17).
    Todos os homens que veem ao mundo, independente das suas ações, são pecadores, ou seja, servos do pecado. Todos os descendentes de Adão estão condenados à morte, sem exceção. Todos os descendentes de Adão foram gerados segundo a carne, portanto, são carnais, e carne e sangue não podem herdar o reino dos céus (1Co 15:50).

Estamos diante de um impasse: como é possível esse Deus justo, justificar o ímpio? O que é necessário para que Deus seja, simultaneamente, justo e justificador?

“Para demonstração da sua justiça, neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador, daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3:26).

Deus não pode negar-se a si mesmo, portanto, segundo a Sua palavra, Ele não justifica o ímpio (Ex 23:7). Mas, o apóstolo Paulo, por sua vez, afirma categoricamente que Deus justifica o ímpio: “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Rm 4:5).

Como inocentar um culpado? Como perdoar o ímpio sem ser injusto?

Há outro problema: a pena imposta ao pecador não pode ser paga por outro, pois a alma que pecar, essa mesma morrerá (Ez 18:4 e 20).

A figura de um homem carregando um fardo pesado de pecados não explica essas várias nuances que envolvem a relação senhor/servo, pecado/pecador, por isso não deve ser utilizada ou propagada.

Todos os homens são concebidos em pecado, ou seja, sujeitos ao pecado. Da mesma forma que os filhos dos escravos nasciam escravos, o homem é concebido servo do pecado. O único modo de o homem ser livre do pecado é através da morte, por isso é dito que ‘o salário do pecado é a morte’.

Quando o homem recebe o convite, que há no evangelho, e crê em Cristo, na verdade, seguiu após Cristo, até o calvário, sendo crucificado com Ele, tornando-se participante da morte de Cristo. O pecador, quando tem um encontro com Cristo, não deixa um fardo ao pé da cruz, na verdade, deixa o seu corpo crucificado na cruz:

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Rm 6:6).

Quando o pecador é crucificado com Cristo, Deus é justo, pois a pena, efetivamente, não passou da pessoa do transgressor. Na morte do pecador com Cristo, Deus não justificou o ímpio, antes o pecador sofreu a pena, pois a alma que pecar, essa mesmo morrerá.

O batismo em Cristo significa morrer com Cristo, não sepultar pecados. Em Cristo, o pecador é declarado morto para o pecado, pois o corpo do pecado é desfeito e sepultado (Cl 3:3).

“Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte?” (Rm 6:3)

Após o pecador ser sepultado com Cristo, por intermédio d’Ele ressurge com Cristo, pela fé no evangelho, um novo homem, criado segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 3:24). Sómente após morrer com Cristo e ser sepultado, é que ocorre o novo nascimento, passando a existir uma nova criatura: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2Co 5:17).

“Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé, no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos” (Cl 2:12).

“De sorte, que fomos sepultados com ele, pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Rm 6:4).

Deus é justo, por isso é necessário que o homem morra com Cristo, e é justificador, quando cria o novo homem e o declara justo. O novo homem é livre do pecado e servo da justiça. Como é impossível servir a dois senhores, o novo homem não é mais pecador: “E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça” (Rm 6:18).

O pecado decorre da semente, não do comportamento. Os nascidos da semente corruptível, a semente de Adão, são pecadores. Já os nascidos da semente incorruptível, a palavra de Deus, são santos, irrepreensíveis e inculpáveis, pois nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” (1Jo 3:9). “No corpo da sua carne, pela morte, para, perante ele, vos apresentar santos, irrepreensíveis e inculpáveis” (Cl 1:22).

 

Deus amou o mundo

Vale destacar que os termos ‘pecador’ e ‘ímpio’ são intercambiáveis, pois o ímpio é pecador e vice-versa: “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” (Rm 5:6).

A frase “Deus ama os pecadores, mas odeia o pecado” não está na Bíblia e nem evidencia uma verdade das Escrituras. Deus é essencialmente justo e fidedigno à justiça. Deus olha (mostra o seu favor) somente para os retos, consequentemente, Deus não olha para os ímpios, pois olhar para o ímpio não é ser justo: “Porque o SENHOR é justo e ama a justiça; o seu rosto olha para os retos” (Sl 11:7).

O termo ‘amor’, quando tem Deus por sujeito, não diz de um sentimento de afinidade, afeição, carinho, afeto, antes, revela, essencialmente, o cuidado que Ele dispensa aos que O obedecem: “O SENHOR guarda a todos os que o amam; mas todos os ímpios serão destruídos” (Sl 145:20).

O cuidado, a proteção, a fidelidade de Deus se faz presente somente naqueles que ouvem o mandamento de Deus e creem: “A salvação está longe dos ímpios, pois não buscam os teus estatutos” (Sl 119:155). Por isso, é dito que Deus ama os que O amam e honra os que O honram, mas para os ímpios é dito: não há paz! (Is 57:21)

Semelhantemente, o termo ‘ódio’ quando tem Deus como sujeito, não possui o sentido de antipatia, desgosto, aversão, raiva, rancor, horror, inimizade, execração, ira ou repulsa. O termo é utilizado para fazer referência a justa retribuição que Deus dá aos que são desobedientes à sua palavra: “Eis que vem o dia do SENHOR, horrendo, com furor e ira ardente, para pôr a terra em assolação e dela destruir os pecadores” (Is 13:9).

Quem obedece, é retribuido com salvação, aos pecadores, por sua vez, destruição. Se Deus amasse o pecador, preservaria a vida do pecador, sem ser necessário morrer e ser sepultado com Cristo. Mas, como é imprescindível o pecador ser batizado na morte de Cristo para ressurgir uma nova criatura, certo é que Deus não ama o pecador. “Mas, os transgressores e os pecadores, serão juntamente destruídos; e os que deixarem o SENHOR serão consumidos” (Is 1:28). “Pois, eis que os que se alongam de ti, perecerão; tu tens destruído todos aqueles que se desviam de ti” (Sl 73:27).

Mas, alguém pode contra argumentar utilizando a seguinte passagem bíblica:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

É em função deste versículo que muitos dizem: – “Deus ama o pecador”.

Vamos analisar o versículo? Esse verso é explicação do verso anterior, portanto não é uma asserção independente do seu contexto, em decorrência do ‘Porque…’. O que diz o verso anterior?

“Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:15).

O evangelista João estava explicando que, assim como Moisés levantou a serpente de metal no deserto, para que aqueles que foram picados pelas serpentes olhassem para ela, a fim de serem curados, importava que o Filho do homem, também, fosse levantado (morto).

O motivo de Cristo ser levantado da terra é para que todo aquele que crê n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Semelhantemente, era necessário que os picados pelas serpentes cressem na palavra anunciada por Moisés para não morrerem, pois assim foi anunciado: “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” (Nm 21:8).

Mas, para que a palavra de Deus tivesse efeito sobre os mortalmente picados, a serpente de metal precisava ser erguida por Moisés. Se Moisés não levantasse a serpente de metal não haveria cura e os picados, por sua vez, deveriam crer na palavra dita por intermédio de Moisés e olharem para serpente de metal, erguida segundo a palavra de Deus.

E como Deus amou o mundo? Dando o seu Filho Unigênito! Esse amor diz de afeição? Não! O amor de Deus diz do mesmo amor com que Jesus amou o Jovem rico:

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me” (Mc 10:21).

Jesus amou o Jovem rico dando, um mandamento: – “Vai, vende tudo quanto tens…”. Jesus não estava afeiçoado ao rapaz, não tinha predileção e nem estimava aquele jovem, antes deu um mandamento, para ser Senhor daquele homem rico. Se acatasse o mandamento de Cristo, aquele jovem se faria servo, ou seja, se humilharia a si mesmo e Cristo tornar-se-ia seu Senhor. Entre Jesus e o jovem rico, dar-se-ia a mesma relação que havia entre Jesus e Deus:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

Se Cristo é Senhor, os homens devem obedecê-Lo: “E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Quando o evangelista João disse que Deus amou ao mundo, na verdade estava evidenciando que Deus estava dando um mandamento a todos os homens, mandamento esse que demanda obediência. Quando o evangelista João disse que Deus deu o seu Filho unigênito, estava anunciando o mandamento de Deus: crer naquele que Ele enviou!

Outra questão que se faz necessário observar no versículo é que Deus amou O MUNDO, não indivíduos. Ao enviar o Seu Filho, Deus deu o mesmo mandamento para todos os homens, ou seja, não há acepção de pessoas. Cristo ter sido enviado ao mundo, demonstra que Deus não tem preferência por ninguém.

O amor de Deus pela humanidade já havia sido expresso a Abraão, quando foi dito: “… em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3). Semelhantemente, Deus amou os filhos de Israel e, por isso, foram resgatados do Egito, entretanto, o amor de Deus estava no mandamento que deviam seguir e, como não obedeceram, pereceram no deserto (Dt 7:8). Deus não amou a indivíduos, mas a nação, em função da promessa dada a Abraão, agora, cada indivíduo da nação de Israel deveria permanecer no amor de Deus, obedecendo ao Seu mandamento (Dt 4:1).

Deus amou todas as famílias da terra, assim como amou a Israel, de modo que, para ter vida eterna, se faz necessário crer em Cristo (o mandamento de Deus na Nova Aliança), assim, como era necessário ouvir e cumprir todos os mandamentos e estatutos da Antiga aliança (Jo 3:16 e Dt 4:1; 1Jo 3:23).

Quando lemos: Deus amou o mundo, temos que ter esse versículo em mente:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1Jo 5:3).

E qual é o mandamento de Deus?

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 Jo 3:23)

A salvação em Cristo se dá por substituição de ato. Adão desobedeceu ao mandamento de Deus no Éden, e Cristo foi obediente ao pai em tudo (Rm 5:19). Agora, para ser salvo, é necessário obedecer ao mandamento de Deus, por isso o Salmista pede um mandamento:

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Vale destacar que o termo ‘mundo’ em João 3, verso 16 tem o sentido de ‘toda criatura’, ‘todos os povos’, evidenciando que Deus não faz acepção de pessoas, ou seja, deviam pregar para judeus e gentios da mesma forma que Deus amou judeus e gentios: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15; Mt 28:19; Cl 1:23; At 10:34).

 

Deus ‘odeia’ o ímpio e ‘ama’ o justo

“O Senhor prova o justo, mas o ímpio e a quem ama a injustiça, a sua alma odeia” (Sl 11:5)

Quando é dito que Deus ‘prova’ os justos (צַדִּ֪יק), significa que é Ele quem purifica os justos, assim como se purifica a prata: “Pois tu, ó Deus, nos provaste; tu nos afinaste como se afina a prata” (Sl 66:10; Is 1:25; Sl 51:2). Neste verso, ‘prova’ não é sinônimo de provação, aflição, mas, sim, de redenção.

Tanto o ouro, quanto a prata, se purificam com meios específicos, já o coração do homem, só Deus pode purificar: “O crisol é para a prata e o forno para o ouro; mas, o SENHOR é quem prova os corações” (Pv 17:3). “Tenha já fim a malícia dos ímpios; mas estabeleça-se o justo; pois tu, ó justo Deus, provas os corações e os rins” (Sl 7:9).

A partir do momento que o homem (pecador) ama a justiça, ou seja, obedece à palavra de Deus, Deus o purifica e o torna justo. É só o homem reconhecer a sua cegueira e se humilhar (se fazer servo), debaixo das potentes mãos de Deus, guardando os Seus mandamentos, que será amado por DeusL “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo 15:10). “O SENHOR abre os olhos aos cegos; o SENHOR levanta os abatidos; o SENHOR ama os justos” (Sl 146:8).

Se o pecador guardar os mandamentos de Deus, ou seja, esconder a Sua palavra no coração, deixará de pecar (não mais será servo do pecado) e passa à condição de justo. Como a boca fala do que o coração está cheio, transbordará a boca do justo de sabedoria e juízo: “A boca do justo fala a sabedoria; a sua língua fala do juízo” (Sl 37:30). “Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Sl 119:11).

Antes de ter um encontro com Cristo, o homem é nomeado pecador, mas após obedecê-Lo, crendo que Ele é o Filho de Deus, passa à condição de justo.

O uso do termo ‘pecador’ é semelhante ao uso do termo ‘náufrago’. Enquanto alguém está à deriva no mar, é um náufrago, mas após ser resgatado, tornou-se passageiro da embarcação. O título de náufrago já não se aplica a quem foi resgatado. Semelhantemente, quando servo do pecado, o homem é pecador, mas após deixar a servidão do pecado, é servo da justiça, portanto, justo e amado de Deus.

Mas, aos ímpios, ou seja, aqueles que não obedecem a Deus (amam a injustiça), Deus os odeia: “Os arrogantes não são aceitos na tua presença; odeias todos os que praticam o mal” (Sl 5:5).

Como Deus poderia amar os que amam a injustiça? Ele é claro: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17), ou: “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam, serão desprezados” (1 Sm 2:30).

Podemos dizer que ‘Deus ama o pecador’? Teologicamente tal asserção é equivocada, porém, na linguagem evangelística é plenamente aceitável, desde que você aponte o mandamento de Deus: crer em Cristo, assim como Jesus fez com o Jovem rico, quando o amou dizendo: – ‘Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres…’ “E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me” (Mc 10:21).

O evangelista deve saber qual é o amor de Deus, antes de dizer aos pecadores: – ‘Jesus te ama’.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

Deus não justifica o ímpio, mas podemos dizer, evangelisticamente, como o apóstolo Paulo disse, que Deus justifica o ímpio, desde que não deixemos de enfatizar que é necessário crer naquele que justifica o homem: “Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Rm 4:5). “De palavras de falsidade te afastarás e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” (Êx 23:7).

 


[1] “Amor (do latim amore) é uma emoção ou sentimento, que leva uma pessoa a desejar o bem a outra pessoa ou a uma coisa”. Dicionário Aurélio.

[2] “Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.; 4.7,8,16; Jd 21). Esta palavra, raramente, era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, oferecer hospitalidade e ser caridoso” O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.

“agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou, “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente, nítida quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy. 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é, frequentemente, uma palavra descolorida”. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento/Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000 págs. 113 e 114.




Introdução à Hamartiologia – Doutrina do Pecado

Através deste artigo que trata da Doutrina do pecado, você compreenderá que, da mesma forma que é dito que um fruto pecou quando impróprio para consumo, assim os homens ‘pecaram’ porque são impróprios para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Neste sentido, a hamartia diz de uma mancha, um princípio, um poder, um senhor, um reino, etc., que afetou a natureza do homem. Esse significado do termo ἁμαρτία não possui condão ético ou moral, antes aponta para a condição do homem alienado de Deus.


Doutrina do Pecado

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12)

 

Entenda como todos os homens pecaram

Como foi possível todos os homens pecarem? Qual lei transgrediram? Onde, quando e como pecaram? Que ação, ou omissão, fez com que todos pecassem?

 

Introdução

Na frase: ‘… por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12), o termo ‘pecaram’ é tradução do verbo grego ἁμαρτάνω, transliterado ‘hamartano’[1].

Geralmente, os teólogos consideram o significado do termo grego ἁμαρτάνω (hamartano) somente como ‘errar o alvo’, ‘cometer um erro’, ‘cometer um pecado’ (contra Deus), relacionando o termo grego ἁμαρτάνω à transgressão de uma lei, porém, o apóstolo Paulo enfatiza que os gentios ‘pecaram’ (ἁμαρτάνω), mesmo sem lei (ἀνόμως).

Considerando que ‘onde não há lei também não há transgressão’ (Rm 4:15), como é possível os gentios pecarem sem uma lei para transgredirem? Na ausência de lei, o que se espera é que não haja transgressão, porém, o apóstolo Paulo afirma que, mesmo sem uma lei semelhante a lei de Moisés os gentios pecaram, o que nos compele a investigar se há distinção entre ‘transgressão’ e ‘pecado’ e qual a relação entre estes dois termos: “Porque todos os que sem lei (ἀνόμως) pecaram (ἁμαρτάνω), sem lei, também, perecerão; e todos os que, sob a lei, pecaram, pela lei serão julgados” (Rm 2:12).

Se é possível um indivíduo ‘pecar’ mesmo não tendo recebido uma lei semelhante a de Moisés, isso, por si só, demonstra que, o significado do termo grego ἁμαρτάνω quando empregado no Novo Testamento não decorre da transgressão da lei de Moisés, portanto, se faz necessário analisar os significados dos termos αμαρτια e ἁμαρτάνω para compreendermos as várias nuances destas palavras quando empregadas no Novo Testamento.

Neste estudo procuraremos demonstrar que os descendentes de Adão são contados como transgressores porque são filhos da desobediência (Cl 3:6), ou seja, nenhum dos descendentes de Adão teve que desobedecer um mandamento específico de Deus para ser pecador. Todos os homens nascidos de Adão são pecadores em função da morte, maldição que passou a todos, daí o qualificativo ‘filhos da desobediência’.

Também procuraremos demonstrar que o ‘pecado’ atribuído a Adão refere-se a perda da perfeição dada por Deus. A perfeição é o padrão que Deus estabeleceu ao criar o homem, uma espécie de marca dada por Deus ao homem,

 

Qual a definição bíblica de pecado?

Quando o apóstolo Paulo afirmou que, tanto gentios, quanto judeus, estavam debaixo do pecado, citou algumas passagens do Antigo Testamento que evidenciam que os judeus também eram pecadores, assim como os gentios.

Além de evidenciar a condição dos judeus, essas passagens do Antigo Testamento também servem para entendermos o significado do termo αμαρτια (pecado), transliterado ‘hamartia’ quando empregado no Novo Testamento.

“… pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado. Como está escrito:

‘Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus’ ” (Rm 3:9-11).

A preposição ὑφ’ (debaixo) da frase “ὑφ’ ἁμαρτίαν εἶναι” (estão debaixo do pecado) serve para dizer de ‘alguém que trabalha especificamente como servo’, de modo que, ‘estar debaixo do pecado’, significa ‘estar a serviço do pecado’, que, neste verso, é apresentado como senhor de escravos.

‘Estar debaixo do pecado’ (ὑφ’ ἁμαρτίαν εἶναι) ou ‘ser constituído pecador’ (ἀνθρώπου ἁμαρτωλοὶ κατεστάθησαν οἱ πολλοί) é o mesmo que estar ‘extraviado’, ser ‘inútil’.

O apóstolo Paulo demonstra que todos os homens sem Cristo estão a serviço do pecado, e cita as Escrituras para demonstrar o que é estar a serviço do pecado (Rm 3:10-11). Os servos do pecado são injustos e ignorantes (sem compreensão), daí o emprego do adjetivo ‘pecadores’ (ἁμαρτωλός)[2].

O termo hamartia serviu ao propósito de descrever o homem caído, apresentando a humanidade sob o domínio do pecado. Quando o apóstolo Paulo afirmou que ‘todos estão debaixo do pecado’ (Rm 3:9), sendo o termo grego ὑπό (hupo) traduzido por ‘debaixo’, ‘sob autoridade’, e o termo grego ἁμαρτία (hamartia) traduzido por pecado, utilizou as seguintes passagens bíblicas para demonstrar o que é o pecado:

“Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Rm 3:10-12; Sl 14:1-3; Sl 53:1-3);

“A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios” (Rm 3:13; Sl 5:9; Jr 5:16; Sl 141:3);

“Cuja boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos” (Rm  3:14-18; Is 59:7-8; Sl 36:1; Pv 1:16).

O termo hamartia foi utilizado pelo apóstolo Paulo para descrever a humanidade como extraviada (desviada, afastada, perdida, errante) e sem valor (inútil, corrompida, assim como algo que azeda), conforme o que é apresentado pelas Escrituras.

Os versos elencados pelo apóstolo Paulo apresentam a condição da humanidade afetada pelo pecado decorrente da transgressão de um só homem, e o termo grego hamartia serviu ao propósito de revelar esta realidade aos cristãos.

Quando é dito que não há um justo (δίκαιος), significa que não há ninguém conforme o padrão de justiça de Deus (Mq 7:2), ou seja, todos perderam o padrão que Deus concedeu a Adão: a perfeição. Com a ofensa de Adão ocorreu a ‘perda da marca’, ou seja, a hamartia, concomitantemente o homem perdeu a comunhão com Deus.

Quando é dito que não há quem entenda (συνίημι), significa que não há compreensão, conhecimento de Deus, portanto, o homem, sob domínio do pecado, é um ignorante (Ef 4:18). Embora tenha zelo, falta o conhecimento; o conhecimento revelado em Cristo (Rm 10:2-3).

A descrição dos Salmos demonstra que o termo hamartia foi utilizado para descrever a natureza do homem, ressaltando que a humanidade está arruinada por completo.

A garganta do homem descrita no salmo como sepulcro evidencia que a boca do homem sem Deus é plena de maldição e amargura, o que remete ao próprio coração do homem, pois do que há no coração disto fala a boca (Mt 12:34; Jr 17:9). A condição de maldito o homem herda de berço ( Sl 58:3 ), e a bem-aventurança se alcança somente através do novo nascimento.

O profeta Jeremias dá um argumento notável, que se amolda ao significado do termo hamartia: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17:9), ou seja, a natureza caída do homem (raça de víboras), é incorrigível. Embora saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus o homem é mau (no sentido de sem valor, baixo, ralé), daí a descrição do salmista: inúteis.

A sujeição ao pecado impossibilita o homem de fazer o bem, mesmo que dê ‘boas dádivas’ aos seus semelhantes (Rm 3:12; Rm 7:21).

Portanto, dentre os muitos significados atribuídos ao termo αμαρτια[3] (hamartia) na literatura grega, devemos escolher aquele que melhor estampa a condição da humanidade, como descrita pelo apóstolo dos gentios, em Romanos 3, versos 10 a 18.

Durante a análise do termo, é imprescindível considerar que, na sociedade grega, todas as coisas se definiam pela função[4], de modo que questões éticas[5] ficavam em segundo plano, pois só, tardiamente, tais questões foram abordadas em tratados filosóficos.

Na Grécia Antiga, o verbo ἁμαρτάνω (harmatano), cognato do substantivo ἁμαρτία, era regularmente utilizado para fazer referência à ação de um lanceiro que errava o alvo, ou seja, não atingia a marca pretendida, significando ‘erro’, ‘perda da marca’, ‘errar o alvo’.

Entretanto, estudiosos entendem que o significado ‘perda da marca’ do termo ἁμαρτία não é empregado no Novo Testamento, por considerarem que o termo adquiriu nova significação, em função de questões como ética, moral, culpa, responsabilidade, etc.

Vale destacar que a falha, ou o erro, que o termo ἁμαρτία remete, não está somente no resultado de uma ação, antes permeia a execução da ação por completo, ou seja, engloba toda ação que resulta no erro. Desse modo, a partir do momento que uma lança era empunhada, calculado o ângulo e arremessada, visando a marca pretendida – um alvo – em não o atingindo, ocorria a ἁμαρτία.

No arremesso de uma lança, as intenções boas ou más, não eram preponderantes para a utilização do termo ἁμαρτία, pois, quando um atleta empunhava uma lança com o objetivo de acertar o alvo, tal ação não abrigava viés moral.

Mas, se voltarmos no tempo, veremos que a postura tradicional da Grécia homérica, era a culpa coletiva, pois se acreditava que a ἁμαρτία era ‘uma mancha que se espalhava’ e afetava o génos (família, clã, grupo familiar ou descendência), ou seja, a consequência da falta de um indivíduo recaia sobre todos os seus parentes e descendentes (pessoas ligadas por laços de sangue), tanto com relação ao parentesco sagrado (pais, filhos, netos ou irmãos) quanto ao parentesco profano (esposos, cunhados, sobrinhos e tios).

Como a ‘arte imita a vida’, nas tragédias gregas, o termo hamartia era utilizado para retratar a ação ou omissão do herói[6] não por falha de caráter ou por maldade. A hamartia, na verdade, apontava para uma maldição que envolvia o herói grego, por causa de um vínculo de sangue com um antepassado amaldiçoado.

As tragédias gregas refletiam o pensamento dos gregos antigos, de que a realidade existencial era perfeita e difícil de explicar ou de descobrir, tanto que a religião olímpica afirmava a existência de um equilíbrio e harmonia que regia a tudo e a todos, em uma espécie de estado universal em perfeição.

Quando havia alguma mudança ou desvio no ‘status quo’ da perfeição, o equilíbrio devia ser restaurado. É neste cenário que o termo hamartia era utilizado com relação ao herói trágico, pois o equilíbrio precisava ser restaurado, mas o herói, apesar de ser integro, de boa índole, invariavelmente, falhava ao tentar recompor a perfeição e o equilibro existencial perdido.

A falha do herói trágico não decorre de violações legais e nem por faltas de cunho moral. O resultado das ações do herói, na tentativa de recompor o equilíbrio, é sempre indesejável em função da hamartia, uma maldição que permeia a existência do herói, mas que ele desconhece (ignora).

Do ponto de vista teológico, os estudiosos não abordam a questão da hamartia como uma ‘mancha que se espalha’, ou do ponto de vista do ‘erro trágico’, e acabam por preferir o conceito de hamartia presente na obra aristotélica ‘Ética a Nicômaco’, em detrimento do conceito estético presente na ‘Poética’, obra do mesmo autor.

Daí a pergunta: Qual definição de ‘hamartia’ adotar ao ler o Novo Testamento?

 

Adão

Adão transgrediu a lei que Deus deu no Éden (Gn 2:16-17) e a ação dele, contrária àquele mandamento específico, é designada pelo apóstolo Paulo como transgressão (παράπτωμα). Em outras palavras, a ‘ofensa’ de Adão foi uma ação deliberada, em oposição ao mandamento de Deus, que envolve dolo e responsabilização.

De Adão é dito que ‘transgrediu’ (Rm 5:18), porque não deu ouvidos à palavra de Deus (desobedeceu- παρακοῆς, cf. Rm 5:19). Também é dito que, por Adão, entrou o pecado (ἁμαρτία) no mundo (Rm 5:12).

Daí surge a pergunta: a transgressão (παράπτωμα) de Adão em não dar ouvidos a palavra de Deus é ἁμαρτία, ou resultou na ἁμαρτία?

É comum confundirem a ‘transgressão’ com o ‘pecado’, porém a παράπτωμα precede a ἁμαρτία, e esta decorre daquela. Concomitantemente, Adão transgrediu e pecou, ou seja, desobedeceu e perdeu o padrão de perfeição que possuía.

O verbo grego ἁμαρτάνω traduzido por ‘pecou’, com relação a Adão, não encerra, em si, uma ação contrária ao mandamento de Deus (Rm 5:16), mas à perda da marca, à perda do padrão concedido por Deus. Adão errou ao desobedecer, daí a culpa e responsabilização e, agregado ao erro, tornou-se injusto, ou seja, perdeu o padrão de justiça concedido por Deus.

Se considerarmos que ‘hamartia’ diz de um ‘erro’, conforme a definição do dicionário VINE: ‘originalmente vinculado ao arremesso de lança (significando errar ou não atingir o alvo)’, certo é que, ao transgredir o mandamento de Deus, Adão errou, ou seja, neste sentido pode-se dizer que Adão ‘pecou’, ‘errou o alvo’.

Entretanto, a ideia contida no verso 16, de Romanos 5 ao afirmar que Adão pecou (ἁμαρτήσαντος) não remete ao erro de ter transgredido o mandamento, mas à condição de extraviado, de inútil.

Vale destacar que há termos gregos que servem para designar o erro, como o termo grego πλάνη (plané), que significa erro, desvio, errante, vaguear, coxear, etc., e que poderia ter sido utilizado pelo apóstolo para descrever o comportamento de Adão, contrário ao mandamento de Deus, assim como foi utilizado em Romanos 1, verso 27.

Se considerarmos o argumento de que a hamartia ‘entrou’ no mundo por um homem, o significado do termo traduzido por ‘erro’, apresentado pelo dicionário VINE, fica aquém da ideia apresentada pelo apóstolo Paulo, vez que após entrar no mundo a hamartia, a morte (aguilhão) também entrou, e por causa da morte é dito que todos pecaram.

Percebe-se que o significado da hamartia, no capítulo 5 de Romanos, possui mais relação com a postura tradicional da Grécia homérica ‘uma mancha que se espalha’[7] e afetava o génos[8] em função do vínculo de sangue que o clã tinha com o faltoso, do que com o erro em função de não ter atingido um alvo.

É só de Adão, que a Bíblia diz, especificamente, que transgrediu (παράπτωμα) um mandamento; transgressão que trouxe consequências para toda a humanidade, pois é dito que ‘por uma transgressão’ entrou o pecado no mundo.

Se entendermos a hamartia como ‘erro’ ou ‘transgressão’, cada indivíduo que viesse ao mundo, teria que transgredir um mandamento à semelhança de Adão. Entretanto, o significado do termo hamartia transcende a ideia de uma transgressão (παράπτωμα) ou de um erro (πλάνη), pois atinge, indistintamente, a todos os descendentes de Adão, por ‘personæ sanguine conjunctæ’ (pessoas ligadas por laços de sangue), vez que a morte passou a todos.

Os descendentes de Adão são contados como transgressores porque são filhos da desobediência (Cl 3:6), ou seja, nenhum dos descendentes de Adão teve que desobedecer um mandamento específico de Deus para ser pecador. Todos são pecadores em função da morte, maldição que passou a todos pelo vínculo de sangue com Adão, daí filhos da desobediência.

Vale salientar que, para os descendentes de Adão transgredirem à semelhança de Adão, seria necessário:

  • Não estarem sujeitos ao pecado e à morte, o que é impossível, visto que foram concebidos em pecado (Sl 51:5);
  • Receberem um mandamento que os alertasse das consequências da transgressão.

No entanto, os descendentes de Adão estão sob o domínio de um senhor – o pecado – que tem por aguilhão a morte, situação completamente diferente da de Adão, quando foi criado.

Após o mandamento no Éden, Deus deu mais dois mandamentos:

  • Através de Moisés, para conscientizar os judeus de que eles também eram pecadores como os gentios, e;
  • O evangelho, que livra do pecado e da morte a todos quantos creem, portanto, é impossível a qualquer descendente de Adão transgredir à semelhança de Adão.

A lei de Moisés serviu de ‘aio’ – guia, mestre – para conduzir os homens a Cristo e o mandamento de Deus no Evangelho, não envolve condenação, pois Cristo mesmo evidenciou que não veio julgar o mundo, mas salvá-lo (Jo 14:47). O mundo já foi julgado e condenado (Rm 5:18), portanto, a lei só evidencia a condição do homem perdido (Rm 3:20).

Adão desobedeceu ao mandamento de Deus e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, de modo que, pela transgressão (παραπτώματι), entrou o pecado (ἁμαρτία) no mundo, e pelo pecado a morte: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse…” (Rm 5:17); “Porque, assim como a morte veio por um homem (…) Porque, assim como todos morrem em Adão…” (1Co 15:21-22); “De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16-17).

Por uma transgressão (παραπτώματι) entrou o pecado (ἁμαρτία), uma falha, um erro, ou seja, a humanidade perdeu a marca, ficou aquém do alvo. Neste sentido, a hamartia diz de uma mancha, um princípio, um poder, um senhor, um reino, etc., que afetou a natureza do homem.  Esse significado do termo ἁμαρτία não possui condão ético ou moral, antes aponta para a condição do homem alienado de Deus.

 

Hamartano (ἁμαρτάνω)

No capítulo 2, verso 12, o apóstolo Paulo diz que ‘todos que sem lei pecaram, sem lei também perecerão’. Observe que ele não utiliza o termo transgressão (παραπτώματι), mas o termo ἁμαρτάνω (hamartano), para ‘pecaram’.

Ele não diz que todos transgrediram, mas, sim, que todos pecaram, o que demonstra que o verbo hamartano, refere-se à perda da marca concedida por Deus, e não à transgressão de uma lei, ou a erros de cunho moral ou de caráter.

O apóstolo demonstra, no mesmo verso, que, mesmo os judeus, que estavam sob o domínio da lei, pecaram ἁμαρτάνω, ou seja, estavam fora do padrão de justiça estabelecido por Deus. O termo hamartano não foi utilizado para relatar que os judeus transgrediram a lei, mas, sim para descrevê-los em sujeição ao pecado.

Quando é dito que os judeus ‘pecaram’, devemos entender que eles estavam fora do padrão de justiça estabelecido por Deus, ou seja, que eram injustos, tanto que a lei foi entregue a eles: “Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas” (1Tm 1:9; Dt 9:4). Aqui vai um adendo, para esclarecer que essa é uma linguagem enigmática, pois o homicídio se refere à morte espiritual do indivíduo, perpetrada pelo engano, ou por uma indisposição de contrariar a palavra dada por Deus.

Os judeus, assim como os gentios, perderam a perfeição, perderam a marca (padrão), por isso é dito que pecaram. A lei foi dada para demonstrar que os judeus também eram contados entre os ‘transgressores’, um modo de revelar que eram injustos e obstinados, pois também são filhos da desobediência: “Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade, a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro” (Gl 3:19).

Das oito palavras base para falar das questões relativas ao pecado no Antigo Testamento, os termos hebraicos ןוֹועָ (avon) e אטְחֵ (chet) remetem à ideia de uma maldição, decorrente de um vínculo de sangue:

“Eis que em iniquidade fui formado e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5).

Os termos avon e chet – ambos significando perversidade, iniquidade, pecado – são intercambiáveis, considerando o paralelismo sintético construtivo ou formal, visto que a segunda parte do verso 5 do Salmo 51 amplia ou acrescenta nova ideia à asserção anterior.

Por intermédio de Moisés, Deus demonstra que não se esquece da condição do homem no pecado (visito), pois a condição do homem se perpetua, indefinidamente, através das gerações (terceira e quarta).

“Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” (Êx 20:5).

Para o homem livrar-se do pecado de Adão, era necessária a circuncisão do coração, ou seja, morrer para o pecado e não a circuncisão do prepúcio, uma marca física.

Quando os judeus receberam a lei, já estavam sob o domínio do pecado, de modo que foi dito que, para obterem vida, era necessário observar o que estava sendo prescrito por Deus, o que demonstra que estavam presos ao pecado, por causa da morte: “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o SENHOR” (Lv 18:5).

Mas, por intermédio da lei, era impossível ao homem obter vida, pois havia uma obrigação para os mortos alcançarem vida: “Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá” (Gl 3:12). Ora, se a lei não é da fé, segue-se que tudo o que não é proveniente da fé é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23).

Na definição do apóstolo, o termo ‘fé’ não se refere à crença (πιστεύω-pisteuó) do homem, antes diz de Cristo, que foi enviado por Deus. Tudo que não é proveniente de Cristo, a ‘fé’ manifesta na plenitude dos tempos, é pecado (ἁμαρτία): Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé, que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

Com lei ou sem lei, todos pecaram (Rm 3:23), o que demonstra que não se aplica ao termo hamartano a ação do verbo παραπτώματι (transgressão), antes a transgressão (παραπτώματι) de um homem resultou em uma queda, que comprometeu todos os homens, igualmente.

No verso 25 de Romanos 4, o apóstolo Paulo utiliza o termo παράπτωμα[9] (paraptóma), traduzido por ‘pecados’, demonstrando que Jesus morreu pelo παράπτωμα, ou seja, o termo aponta para um erro que não decorre de questões morais, comportamentais e nem de caráter.

Onde ocorreu o desvio, ou seja, a παραπτωμα (paraptóma)? No Éden, ou seja, na madre, como se lê: “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” (Sl 58:3). É por esse desvio que Jesus morreu, vez que todos necessitam nascer de novo!

O pecado (ἁμαρτία), que entrou no mundo (κόσμος-kósmos), decorre da transgressão (παραπτώματι) de um só homem, portanto, nesse contexto, a hamartia não pode ser confundida com a ação de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, antes a hamartia resultou daquela ação.

A transgressão de lançar mão do fruto e comer, muitos rotulam como ‘pecar’, porém, quando é dito que ‘um só pecou’, a ideia do termo ‘pecou’, no texto, é ‘perda da marca’, ou seja, ‘ficar aquém do padrão’. Quando é dito que ‘um só pecou’, significa que um só perdeu a marca, por conseguinte, todos perderam; um se fez inútil, todos foram feitos inúteis. A marca ou o padrão que Adão perdeu, quando é dito que ‘pecou’, diz da perda da perfeição concedida por Deus.

Quando o apóstolo Paulo pergunta se o cristão há de ‘pecar’ por não estar sujeito à lei (Rm 6:15), o termo ‘pecar’ é tradução do verbo ἁμαρτάνω (hamartano). A discussão do apóstolo é existencial, e não comportamental, assim como a abordagem de Jesus:

“Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34).

A pergunta: ‘Havemos de pecar?’, é o mesmo que: ‘Permaneceremos no pecado’? (Rm 6:1). Quem está morto para a ἁμαρτία, já não vive para a ἁμαρτία, antes vive para Deus (Rm 6:2), de modo que, se o corpo que pertence ao pecado foi desfeito, é impossível servir ao pecado, portanto, é impossível pecar (Rm 6:6).

Ao ser crucificado com Cristo, o homem deixa de estar debaixo (ὑπό hupo, traduzido por ‘debaixo’, ‘sob autoridade’) do pecado, portanto, não peca (Jo 3:6). O verbo hamartano foi utilizado pelo apóstolo João para demonstrar que aquele que permanece sob autoridade de Cristo, não perde a marca, ou seja, o padrão de justiça imputado através de Cristo é conservado. Pecar é perder o padrão, o que é contraponto a conservar, manter inalterado, intacto.

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo e o maligno não lhe toca” (1Jo 5:18).

A discussão que o apóstolo Paulo introduz, no capítulo 5 de Romanos, não tem relação com a prática de ações inconvenientes reprováveis, segundo a moral e as leis dos homens (Rm 1:27), ou dos tropeços a que todos estão sujeitos (Tg 3:2), onde as questões de cunho comportamental devam ser consideradas.

A ideia discutida, tem relação com o senhorio da justiça ou do pecado (Rm 6:17), vez que aqueles que pecam pertencem ao diabo (1Jo 3:8) e os que não pecam pertencem a Deus (1Co 6:20). Por outro lado, os filhos de Deus não (impossibilidade) pecam (perder o padrão, a marca), pois a semente de Deus permanece em seus filhos (1Jo 3:9).

A questão é de domínio da justiça ou do pecado, portanto, não se trata de questões éticas, de moral, de culpa, de responsabilidade, etc.

Aquele que está morto com Cristo, está livre (δικαιόω)[10] do pecado (Rm 6:7), no sentido de estar em conformidade com o padrão de justiça que há em Cristo. Por que livre do pecado? Porque é livre do aguilhão (morte) (Rm 6:9), que prende o homem no pecado (Rm 6:14; Hb 2:15).

Quando se questiona: ‘Havemos de pecar por não estarmos debaixo da lei?’ (Rm 6:15), a pergunta não se refere a fazer coisas inconvenientes do ponto de vista moral, mas sim, se o crente em Cristo, por não estar debaixo da lei, mas da graça, se não teria o padrão de justiça tal como é exigido por Deus (Rm 6:18).

Esta mesma verdade verifica-se na seguinte premissa:

“Todo aquele que comete[11] pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34).

A ênfase do período está na sujeição do homem ao pecado como servo e não no comportamento inconveniente ou depravado, visto que Jesus estava tratando com religiosos.

O termo grego ποιεω (poieo), comumente traduzido por ‘comete’, dá ideia de ação contrária a um mandamento, porém, o termo grego possui diversos significados, dependendo do contexto.

O problema dos interlocutores de Jesus não eram as suas ações, mas, sim, o fato de que eram guiados, ou seja, ‘levados a fazer algo’, ou ‘fazer algo a partir de alguma coisa’, que, no texto em comento, é o pecado, o que nos remete à explicação do apóstolo Paulo:

“Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento e me prende debaixo da lei do pecado, que está nos meus membros” (Rm 7:21-23).

Os filhos de Deus são guiados pelo Espírito de Deus (Rm 8:14) e os filhos da desobediência, guiados pelo pecado. A carne milita contra o Espírito e o Espírito contra a carne, para terem domínio sobre o homem, ou seja, para que não realizem o seu próprio querer (Gl 5:17).

‘Pecar’ é consequência da sujeição ao pecado: – O homem é escravo do pecado e, por ser servo, ‘peca’. Tal afirmação não comporta o argumento como motivo, só como consequência, até porque, em função da transgressão de Adão: “… não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e nunca peque” (Ec 7:20).

É por isso que é dito: “Quem do imundo tirará o puro? Ninguém” (Jó 14:4). Embora saiba dar boas dádivas aos seus semelhantes, diante de Deus o homem é mal, vil, ralé, baixa estirpe (Mt 12:34). A árvore má só produz maus frutos, semelhantemente o pecador: todos os seus pensamentos e ações estão comprometidos, pois o homem está sob o domínio da ἁμαρτάνω. Tudo que o homem faz com os seus membros, quando sob domínio do pecado é o mal, até as boas dádivas aos semelhantes (Rm 7:19).

Por definição, os escravos do pecado praticam o pecado e os servos da justiça praticam a justiça (1Jo 3:4 e 7), vez que um servo não pode servir a dois senhores (Mt 6:24), de modo que, a expressão ‘aquele que comete pecado’, deve ser entendida como aquele que está sujeito (escravo) ao pecado – ὑφ’ ἁμαρτίαν -, ou seja, ὑφ’  significa ‘em poder de’, ou, ‘sob a autoridade’ do pecado (Rm 3:9).

Quando lemos: “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou” (Rm 5:16), o termo ἁμαρτήσαντος traduzido por ‘pecou’ não se refere a transgressão (παραπτώματι) da lei no Éden, mas, sim à perda da marca, que afetou todos os descendentes de Adão.

A hamartia que entrou no mundo, se assemelha à falha que afeta o herói trágico, à chamada ‘falha aristotélica’ ou ao ‘erro trágico’, que se dá pela ignorância do herói, e não por falha de caráter. Diante desta perspectiva, não importa o que o homem faça para livrar-se da sua condição desventurosa, sempre estará fadado ao erro.

Além do pecado e da morte, a transgressão também introduziu no mundo questões relativas ao bem e ao mal, pois o bem e o mal é conhecimento produzido pelo fruto da árvore que estava no meio do jardim. O conhecimento do bem e do mal, por sua vez, não é a hamartia, pois o próprio Deus é conhecedor do bem e do mal.

A hamartia que entrou no mundo não está vinculada ao conhecimento do bem e do mal, mas, sim à transgressão. Essa hamartia assemelha-se à mancha que se espalha em função do vínculo de sangue. Tem mais relação com o conceito estético da Poética do que com a abordagem filosófica da Ética a Nicômaco.

Quando foi dito pelo apóstolo Paulo que ‘todos pecaram’, é comum o entendimento de que ‘pecaram’ porque todos cometeram atos (ação ou omissão) contrários à lei de Deus.

Inúmeras concepções doutrinárias equivocadas, como a que diz que o homem aprende[12] a pecar, ou que o ensinamento de que o homem herda o pecado de Adão, remove do pecador a responsabilidade dos seus erros, surgem da má leitura do termo hamartia.

Há quem confunda inocência[13] com ‘não sujeição ao pecado’, que ser inocente é o mesmo que ser justo e se esquece do alerta que diz: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples (inocente) passam e sofrem a pena” (Pv 27:12).

Sabemos que Deus não destrói o justo com o ímpio (Gn 18:23-25). Quando Deus prometeu que não destruiria Sodoma e Gomorra se lá houvesse dez justos (Gn 18:32), apesar dos inúmeros inocentes que haviam na cidade, Deus não teve as crianças como justas, pois as duas cidades foram destruídas.

 

Todos pecaram

Assim como é dito que um fruto ‘pecou’ quando não ‘vinga’ e é impróprio para o consumo, devemos entender que o termo ‘todos pecaram’, como ‘todos perderam a marca’, o padrão de qualidade, ou seja, são inúteis, reprováveis, impróprios, etc.

O apóstolo Paulo utilizou o termo grego ἁμαρτάνω para enfatizar que a humanidade está aquém do padrão exigido por Deus, portanto, são inúteis:

“ἐφ’ ᾧ πάντες ἥμαρτον” (Rm 5:12)

“em que todos pecaram” (Rm 5:12)

Quando o apóstolo Paulo diz: ‘… em que todos pecaram’ (Rm 5:12), fez uma releitura do Salmo 53, para demonstrar que, tanto judeus quanto gregos, estavam sob o pecado, portanto judeus e gentios são inúteis: “Porque em Jesus Cristo, nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” (Gl 5:6); “A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” (1Co 7:19).

 “πάντες ἐξέκλιναν

ἅμα ἠχρεώθησαν[14](Rm 3:12; Sl 53:3);

‘Todos se desviaram, juntos se fizeram inúteis’ (Rm 3:12).

O termo grego ‘ἥμαρτον’ (pecaram), no contexto de Romanos 5, não se refere a nenhuma ação ou omissão, antes diz da condição da humanidade afetada pelo pecado e pela morte, que entram no mundo. Por causa de um motivo específico que é dito ‘todos pecaram’: porque a morte passou a todos os homens e não por terem transgredido um mandamento! “… e assim a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram” (Rm 5:12)

Como a morte passou a todos os homens, é dito que todos pecaram, ou seja, estão em falta, são inúteis, de modo que são impróprios para o objetivo para o qual foram criados.

Quando disse que ‘todos pecaram’, o apóstolo Paulo demonstrou que o homem está aquém do exigido por Deus, no sentido de que “não atingiu a marca”, sem amalgamar à ideia questões de culpa, consciência, responsabilidade, etc.

A ‘marca’, neste caso, diz de um padrão de perfeição (τέλειος[15]-teleios), que deve ser entendido do ponto de vista funcional e não do ponto de vista moral.

O apóstolo Paulo não enfatizou que todos são pecadores, porque transgrediram um mandamento específico, antes, é dito que, como a morte passou a todos os homens, todos são imundos, inúteis, impróprios, ou seja, pecaram (ἥμαρτον), condição que independe de consciência, culpa, ação/omissão ou responsabilidade: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5:12).

A morte passou a todos os homens, de modo que: “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos” (Mq 7:4). Daí a máxima: ‘Não há entre os homens um que seja justo’ (Mq 7:2; Sl 53:3).

Os espinhos são inúteis e só servem para serem queimados: “E os povos serão como as queimas de cal; como espinhos cortados arderão no fogo” (Is 33:12).

Da mesma forma que é dito que um fruto pecou quando impróprio para consumo, assim os homens ‘pecaram’ porque são impróprios para o propósito que Deus estabeleceu em Cristo. Por causa da pena estabelecida no Éden: a morte, é dito que todos pecaram.

Qual o propósito de Deus para o homem?

O propósito de Deus é a preeminência de Cristo, pelo que Deus o fez primogênito entre muitos irmãos e o mais sublime dos reis da terra: “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra” (Sl 89:27).

Em Israel cumpre-se o propósito de estabelecer Cristo como o mais sublime dos reis da terra, pois se assentará sobre o trono de Davi, e na Igreja cumpre-se o propósito da primogenitura de Cristo, pois são conduzidos a Deus muitos filhos que serão semelhantes a Ele (1Jo 3:2).

Os homens são pecadores no sentido de impróprios para o que foram criados, pois Deus é vida e o homem está morto. Daí a necessidade de nascerem de novo da semente incorruptível que é a palavra de Deus.

Por serem descendentes de Adão, também é dito nas Escrituras que todos os homens são ‘mentirosos’. Não significa que todos os homens são desonestos e faltam com a verdade com os seus semelhantes, antes são mentirosos, no sentido de serem impróprios para o que foram criados: “De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro e todo o homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e venças quando fores julgado” (Rm 3:4); “Dizia na minha pressa: Todos os homens são mentirosos” (Sl 116:11).

Os filhos de Israel eram designados por Deus como mancha, mentirosos, corrompidos, perversos, etc., no sentido de não terem parte com Ele, no sentido de serem adversários: “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” (Is 30:9); “Corromperam-se contra Ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é” (Dt 32:5).

Todos os homens se fizeram inúteis em Adão, ou seja, ‘pecaram’ (Sl 58:3), pois, toda a humanidade estava unida no lombo de Adão, assim como Levi estava no lombo de Abraão, quando este deu dízimo a Melquisedeque: “Porque ainda ele estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (Hb 7:10).

Conclui-se, portanto, que, quando o apóstolo Paulo deixou registrado que todos pecaram, não fez referência à ação ou omissão de indivíduos, antes, estava indicando que, por serem descendentes de Adão, todos os homens estavam em pecado: mortos, separados de Deus, portanto, impróprios, inúteis, aquém da marca.

 


[1] “264 αμαρτανω hamartano talvez de 1 (como partícula negativa) e a raiz de 3313; TDNT – 1:267,44; v 1) não ter parte em 2) errar o alvo 3) errar, estar errado 4) errar ou desviar-se do caminho da retidão e honra, fazer ou andar no erro 5) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado” Dicionário Bíblico Strong; “hamartanô (desde Homero) significava originalmente, “errar”, “errar o alvo”, “perder”, “não participar de alguma coisa”, “enganar-se”. O conceito gr. do erro tem orientação intelectual. O subs. cognato é hamartia (desde Ésqu.), “erro”, “falta de alcançar um alvo” (mormente espiritual). O resultado desta ação é hamartêma, “fracasso”, “erro”, “ofensa” cometida contra os amigos, contra o próprio corpo, etc. Derivaram-se daí (no século V a.C.) o adj. e o subs. hamartólos, “coisa ou pessoa que falha” ; em Aristóf. ocorre como barbarismo que se emprega em tom depreciativo e irônico, hamartètikos (a forma melhor) também é raro, e de data posterior. A raiz hamart-, com seu significado de “fracassar”, produziu muitos compostos populares, e.g. hamartinoos, “louco”. 1. No mundo de língua grega, o subs. hamartèma prevaleceu sobre o vb. hamartano. Aristóteles o colocava entre adikèma, “injustiça”, e atychéma, “infortúnio”, como ofensa contra a ordem estabelecida, mas sem intenções malignas, i.é, sem kakia, “maldade”, “perversidade” (Eth. Nic. 5,8, 1135b 18)” Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown]. — 2. ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000.

[2] “268 αμαρτωλος hamartolos de 264; TDNT – 1:317,51; adj 1) dedicado ao pecado, um pecador 1a) não livre de pecado 1b) pre-eminentemente pecador, especialmente mau 1b1) homens totalmente malvados 1b2) especificamente de homens marcados por determinados vícios ou crimes 1b2a) coletores de imposto, pagão, idólatra” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “266 αμαρτια hamartia de 264; TDNT – 1:267,44; n f 1) equivalente a 264 1a) não ter parte em 1b) errar o alvo 1c) errar, estar errado 1d) errar ou desviar-se do caminho de retidão e honra, fazer ou andar no erro 1e) desviar-se da lei de Deus, violar a lei de Deus, pecado 2) aquilo que é errado, pecado, uma ofensa, uma violação da lei divina em pensamento ou em ação 3) coletivamente, o conjunto de pecados cometidos seja por uma única pessoa ou várias Sinônimos ver verbete 5879” Dicionário Bíblico Strong; “I. hamartia (ἁμαρτία) é, literalmente, “perda da marca”, mas este significado etimológico quase que se perdeu por completo no Novo Testamento” Vine, W. E., e outros, Dicionário VINE, O Significado Exegético e Expositivo das Palavras do Antigo e do Novo Testamento, Tradução Luís Aronde Macedo, Ed. CPAD, 2002; “Hamartia significa ‘erro’, nem mais nem menos. Originalmente vinculado ao arremesso de lança (significando errar ou não atingir o alvo), passou a ser usado para qualquer tipo de engano, desde tropeçar em uma pedra até deixar escapar a palavra errada ou simplesmente criar um mal entendido. Na filosofia grega, imperfeição moral podia ser descrita como hamartia, significando ‘não alcançar’ o ideal em pensamento ou conduta” MCLEISH, K. Aristóteles: a Poética de Aristóteles. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 2000. Pág. 28.

[4] “Todas as coisas se definem pelas suas funções” (ARISTÓTELES, 2011, p. 22).

[5] “A ideia de que moralidade e ética podiam ser codificadas era recente, mesmo nos dias de Aristóteles, e resultava menos de um impulso para prescrever ou pregar do que da incessante indagação de questões e proposição de soluções que caracterizavam o início da filosofia grega” MCLEISH, K. Aristóteles: a Poética de Aristóteles. Tradução de Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 2000, pág. 13.

[6] “Resta, portanto, a situação intermediária. É a do homem que não se distingue muito pela virtude e pela justiça; se cai no infortúnio, tal acontece, não porque seja vil e malvado, mas por força de um erro; e esse homem há de ser algum daqueles que gozam de grande reputação e fortuna, como Édipo, Tiestes ou outros insignes representantes de famílias ilustres. É, pois, necessário que um mito bem estruturado seja antes simples do que duplo, como alguns pretendem; que nele se não passe da infelicidade para a felicidade, mas, pelo contrário, da dita para a desdita; e não por malvadez, mas por algum erro de uma personagem, a qual, como dissemos, antes propenda para melhor do que para pior” Souza, Eudoro de. A Poética de Aristóteles: tradução e comentários. Porto Alegre: Editora Globo, 1966, cap. 13 – 1453ª, 7-22.

[7] “… um ato perigoso, cometido porque o agente não é conhecedor de alguma circunstância vital. A essência da hamartía é a ignorância combinada com a ausência de intenção criminosa” Hirata, Filomena Yoshie, Anais de Filosofia Clássica, vol. 2, nº 3, A hamartía aristotélica e a tragédia grega, 2008

[8] “Quanto à génos pode o vocábulo ser traduzido, em termos de religião grega, por “descendência, família, grupo familiar” e definido como personae sanguine coniunctae, quer dizer, pessoas ligadas por laços de sangue. Assim, qualquer falta, qualquer hamartía cometida por um génos contra o outro tem que ser religiosa e obrigatoriamente vingada. Se a hamartía é dentro do próprio génos, o parente mais próximo está igualmente obrigado a vingar o seu sanguine coniunctus. Afinal, no sangue derramado está uma parcela do sangue e, por conseguinte, da alma do génos inteiro. Foi assim que, historicamente falando, até a reforma jurídica de Drácon ou Sólon, famílias inteiras se exterminavam na Grécia. É mister, no entanto, distinguir dois tipos de vingança, quando a hamartía é cometida dentro de um mesmo génos: a ordinária, que se efetua entre os membros, cujo parentesco é apenas em profano, mas ligados entre si por vínculo de obediência ao gennétes, quer dizer, ao chefe gentílico, e a extraordinária, quando a falta cometida implica em parentesco sagrado, erínico, de fé — é a hamartía cometida entre pais, filhos, netos, por linha troncal e, entre irmãos, por linha colateral. Esposos, cunhados, sobrinhos e tios não são parentes em sagrado, mas em profano ou ante os homens. No primeiro caso, a vingança é executada pelo parente mais próximo da vítima e, no segundo, pelas Erínias” Brandão, Junito de Souza, Mitologia Grega, Vol. 1, Editora Vozes, Petrópolis, 1986, pág. 77.

[9] “3900 παραπτωμα paraptoma de 3895; TDNT – 6:170,846; n n 1) cair ao lado ou próximo a algo 2) deslize ou desvio da verdade e justiça 2a) pecado, delito. Sinônimos ver verbete 51”, e; “51 αγνοημα agnoema de 50; TDNT 1:115,18; n n 1) um pecado cometido por ignorância ou descuido” Dicionário Bíblico Strong.

[10] “1344 δικαιοω dikaioo de 1342; TDNT – 2:211,168; v. 1) tornar justo ou com deve ser 2) mostrar, exibir, evidenciar alguém ser justo, tal como é e deseja ser considerado 3) declarar, pronunciar alguém justo, reto, ou tal como deve ser” Dicionário Bíblico Strong.

[11] “4160 ποιεω poieo aparentemente forma prolongada de uma palavra primária arcaica; TDNT – 6:458,895; v 1) fazer 1a) com os nomes de coisas feitas, produzir, construir, formar, modelar, etc. 1b) ser os autores de, a causa 1c) tornar pronto, preparar 1d) produzir, dar, brotar 1e) adquirir, prover algo para si mesmo 1f) fazer algo a partir de alguma coisa 1g) (fazer, i.e.) considerar alguém alguma coisa 1g1) (fazer, i.e.) constituir ou designar alguém alguma coisa, designar ou ordenar alguém que 1g2) (fazer, i.e.) declarar alguém alguma coisa 1h) tornar alguém manifesto, conduzi-lo 1i) levar alguém a fazer algo 1i1) fazer alguém 1j) ser o autor de algo (causar, realizar) 2) fazer 2a) agir corretamente, fazer bem 2a1) efetuar, executar” Dicionário Bíblico Strong.

[12] “É assim que aprendemos a pecar: linguagem obscena, comentários desnecessários prejudiciais, usar o nome de Deus em vão, tornam-se hábitos pela prática dentro de um ambiente, onde ninguém cria objeção alguma” Shedd, Russell P., Lei, Graça e Santificação, São Paulo: Ed. Edições Vida Nova, 1990, pág. 99.

[13] “2. Jesus não herdou a mancha do pecado, porque nenhuma criança herda o pecado. A pureza de Jesus, quando nasceu, nada tinha a ver com qualquer Imaculada Conceição de sua mãe para quebrar a maldição herdada do pecado. A culpa não é herdada, nem por Jesus, nem por nossos filhos ou netos” Dennis Allan, artigo disponível na Web < http://www.estudosdabiblia.net/d34.htm > Consulta realizada em 23/08/15; “É claro que a referência não pode ser a pecados efetivos, mas somente a pecados potenciais, já que a criancinha ainda não desenvolveu sua consciência moral nem sua responsabilidade (…) Todos os seres humanos são “por natureza filhos da ira” (Ef 2:3), porque todos nascem com a tendência para o pecado, mas não nascem em pecado na realidade. A condenação que recai sobre cada um que vem à raça adâmica é uma culpa judicial, não uma culpa pessoal. Todos estão condenados diante de Deus porque “todos pecaram” em Adão, nosso representante (Rm 5:12)” Norman Geisler – Thomas Howe, Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia, Editora Mundo Cristão.

[14] “889 αχρειοω achreioo de 888; v 1) tornar inútil, corromper-se 1a) de caráter” Dicionário Bíblico Strong.

[15] “A ideia grega de perfeição é funcional. Uma coisa é perfeita quando se realiza plenamente o propósito para o qual foi planejado, projetado e feito. Na verdade, esse significado está envolvido na derivação da palavra. O adjetivo teleios é formado a partir do substantivo telos. Telos significa um fim, um propósito, um objetivo, uma meta. Uma coisa é teleios, se realiza a finalidade para a qual foi planejado, um homem é perfeito se ele percebe o propósito para o qual foi criado, e enviado ao mundo. Tomemos uma analogia muito simples. Suponha que na minha casa há um parafuso solto, e eu quero apertar e ajustar esse parafuso. Eu saio para comprar uma chave de fenda. Acho a chave de fenda que se encaixa exatamente no aperto da minha mão, não é nem muito grande nem muito pequena, muito áspero, nem muito suave. Eu coloco a chave de fenda na ranhura do parafuso, e eu vejo que se encaixa exatamente. Eu, então, giro o parafuso e o parafuso é fixado” Barclay, W: O Estudo Diário da Bíblia Series, Rev. ed Filadélfia: A imprensa de Westminster ou Logos.




Iniquidade é transgressão de qual lei?

Havia alguma lei a ser guarda pelo gentio Abrão? Não, pois nada havia sido ordenado aos homens! Mas, quando foi dito a Abraão que ele teria uma descendência numerosa sobre a face da terra, mesmo não tendo filhos, Abraão creu, e isto lhe foi imputado por justiça. Observe que não havia lei e nem mesmo a circuncisão.


Iniquidade é transgressão de qual lei?

A primeira atitude de muitos quando procuram definir o que é ‘iniquidade’ centra-se em buscar o significado do termo na língua grega. Primeiro demonstram que o termo vem do Grego ‘ανομια’ [anomia] (Substantivo feminino), e que, dependendo da frase, assume a conotação de ‘negação da lei’, ‘ilegalidade’, ‘falta de conformidade com a lei’, ‘violação da lei’, ‘desacato à lei’, ‘iniquidade’, ‘impiedade’, ‘pecado’, etc.

O termo ανομος [anomos] traduzido por iniquidade é composto por um prefixo ‘α’ [a] que desempenha a ideia de ausência, falta, exclusão e o termo νομος [nomos] “lei”. Dai a construção “sem lei”, “ausência de lei”.

O próximo passo restringe-se a determinar quantas vezes o termo é utilizado no Novo Testamento. Contabilizando, chega-se ao consenso de que a palavra ανομια [anomia] aparece 15 vezes no Novo Testamento.

Tudo o que foi visto acima é verdadeiro, mas, a análise não dá base para afirmar que a lei de Moisés, como faziam os judaizantes, é o meio pelo qual o homem alcança a salvação, é recalcitrar contra a verdade do evangelho.

Pelo fato de ‘iniquidade’ ser o mesmo que ‘negação da lei’, interpretar o versículo que diz: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de quase todos se esfriará” ( Mt 24:12 ), como sendo ‘negação da lei’ (iniquidade) o não guardar a lei mosaica é desconsiderar o contexto do versículo.

No verso anterior Jesus alerta que surgiriam muitos falsos profetas, e que enganariam a muitos ( Mt 24:11 ). Qual a ação dos falsos profetas? Trazer uma mensagem adversa da ordenada por Deus, ou seja, uma mensagem que transtorna o mandamento de Deus. No contexto do Novo Testamento qual é o mandamento de Deus? A resposta é: crer no enviado de Deus! “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo…” ( 1Jo 3:23 ).

Com a vinda do Messias, o mandamento de Deus resume-se na seguinte ‘obra’: “Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). Quem faz a obra determinada por Deus, que é crer em Cristo, se fez servo, portanto, cumpriu o mandamento de Deus como o fez Abraão que, mesmo antes de ser dada a lei de Moisés cumpriu todos os preceitos de Deus “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos, e as minhas leis” ( Gn 26:5 ).

A lei mosaica só foi dada 430 anos após Abraão ter obedecido à voz de Deus, e Deus deu testemunho de Abraão, um gentios da cidade de Ur dos Caldeus, de que guardou todas as suas leis.

Havia alguma lei a ser guarda pelo gentio Abrão? Não, pois nada havia sido ordenado aos homens! Mas, quando foi dito a Abraão que ele teria uma descendência numerosa sobre a face da terra, mesmo não tendo filhos, Abraão creu, e isto lhe foi imputado por justiça. Observe que não havia lei e nem mesmo a circuncisão.

Somente após Abraão crer é que Deus instituiu a circuncisão do prepúcio da carne, como símbolo da aliança firmada entre Deus e Abraão, e que os descendentes da carne de Abraão deveriam guardar ( Gn 17:9 ). A circuncisão não era a aliança, antes a circuncisão era símbolo da aliança estabelecida entre Deus e Abraão.

Quando Abraão fez a circuncisão do prepúcio da carne era gentio e justo diante de Deus. Dai a pergunta do apóstolo Paulo: “Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou também sobre a incircuncisão?” ( Rm 4:9 ).

Para um judaizante, a bem-aventurança prometida Abraão só é possível quando o homem circuncida o prepúcio da carne, mas se observarmos Abraão, verifica-se que o selo da circuncisão só foi determinado após Abraão ter tido o testemunho das Escrituras de que era justo diante de Deus ( Gn 15:6 ; Gn 17:24 ; “ENTÃO alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos” At 15:1 ).

Deus não fez promessa a Abraão por intermédio da lei de Moisés, antes por meio da palavra da fé, ou seja, da promessa ( Rm 4:13 ). Abraão vivia sem lei quando lhe foi feita a seguinte promessa: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ).

Se observarmos a mensagem dos judaizantes: – ‘Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos’, tem-se nesta determinação a fala de um falso profeta, pois diz algo que Deus não falou. Daí a necessidade de observarmos oque disse o apóstolo Paulo: “Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” ( Gl 5:2 -4).

Quando Jesus disse que surgiriam muitos falsos profetas, Ele tinha em vista as inúmeras pessoas que surgiriam anunciando mensagens utilizando o nome de Deus, porém, negando obra realizada por Cristo. Sobre este assunto asseverou o apóstolo Paulo: “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” ( 2Tm 3:5 ).

Qual o significado de piedade neste verso? Seria: “amor e respeito às coisas religiosas; religiosidade; devoção; Pena dos males alheios; compaixão, dó, comiseração”? Não! Piedade neste verso é o mesmo que ‘evangelho’. Tem aparência de evangelho, porém, negam a eficácia.

Tal sentido do termo piedade depreende-se da seguinte passagem bíblica: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória” ( 1Tm 3:16 ). O mistério da piedade diz do evangelho de Cristo ( ), portanto, todos quantos quiserem viver segundo a palavra do evangelho, sofrerão perseguições ( 2Tm 3:12 ).

Mensagens como: É necessário circuncidar-se; É necessário guardar os sábados; É necessário abster-se de alimentos; É necessário abster-se de casar-se, são todas falsas profecias. Qualquer que dar ouvidos a tais mensagens, da graça de Cristo caiu.

Ora, tais mensagens são negações do mandamento de Deus (iniquidade), pois o seu mandamento é: “Quem crer e for batizado será salvo…” ( Mc 16:16 ). Foi Deus que estabeleceu uma Pedra preciosa em Jerusalém, Jesus, o Cristo “Por isso também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; E quem nela crer não será confundido” ( 1Pd 2:6 ).

Ora, por se multiplicar as mensagens de engano, as mensagens dos falsos profetas, a obediência de muitos seria anulada. Ora, o verso: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos” ( Mt 24:12 ), foi dito por enigmas, portanto, é uma parábola.

Como é possível aumentar a iniquidade? O que se multiplica é a mensagem de engano, pois surgiriam muitos falsos profetas e anticristos “AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1Jo 4:1 ). Com o surgimento de muitos falsos profetas a mensagem de engano aumenta, consequentemente, o mandamento contido no evangelho de Cristo deixa de ser anunciado.

Se a necessidade de crer em Cristo não é anunciada, antes outra mensagem é divulgada, tem-se a iniquidade, ou seja, ausência da lei, do mandamento. Sem o mandamento não há amor, pois ama aquele que cumpre o mandamento “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele” ( Jo 14:21 ).

Ou seja, quando Jesus aponta que o amor se esfriará, Ele estava demonstrando que, em virtude da ausência do mandamento verdadeiro (iniquidade), a obediência (amor) diminui, esfria.

É neste sentido que Jesus pergunta: Quando, porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra? O termo fé deve ser compreendido como a mensagem do Filho do homem. Cristo é a Fé, a fé que havia de se manifestar, portanto, sem a sua mensagem não há fé, pois a Fé que a Bíblia faz alusão tem a capacidade de residir nos homens ( Gl 3:23 ; 2Tm 1:5 ). A Fé que Jesus faz menção refere-se ao fundamento de Deus, que é firme e faz o homem agradável a Deus ( 2Tm 2:19 : Hb 11:1 ).

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo alerta quanto às falsas doutrinas “Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns, que não ensinem outra doutrina, nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora” ( 1Tm 1:3 -4 ).

Quando se ensina outra doutrina, instala-se a iniquidade, pois transtorna o mandamento de Deus. A edificação em Deus consiste na fé, no firme fundamento estabelecido por Ele, que é firme e permanente.

Ora, sabemos que hoje estamos mais próximo do fim ( Rm 13:11 ), porém, o que se observa é que as pessoas tem-se tornado mais crédulas, visto que muitos dizem acreditar em Deus, no impossível, em milagres, no impossível, etc. Mas, a questão é: quando o Filho do homem voltar, a sua mensagem, a palavra da fé estará sendo anunciada ao mundo?

O que foi manifesto aos homens? Cristo foi manifesto, portanto, foi manifesto a palavra, ou seja, a fé: “Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” ( Tt 1:3 ); “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Dai a explicação: “Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas; Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” ( 1Tm 1:5 -7).

Neste verso o apóstolo aponta qual é o objetivo do mandamento de Deus: a obediência de um coração puro que abraça uma fé genuína. O mandamento neste verso diz do evangelho de Cristo, e não da lei mosaica. Quando se ensina a doutrina de Cristo, temos um mandamento que demanda obediência, ou seja, é preciso crer no enviado de Deus.

O objetivo, a finalidade do mandamento de Cristo é a obediência de coração, o que trás uma boa consciência e uma crença genuína. Mas, quando há a distorção, o desvio da verdade, surge a ‘contenda’. É o que o apóstolo Paulo nomeia de ‘vinho da contenda’, do qual o cristão deve se abster, ou seja, do ensinamento dos judaizantes “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ).

Perceba que ‘contenda’ é uma FIGURA utilizada para fazer referência à doutrina dos judaizantes “Do que, desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas” ( 1Tm 1:6 ). A doutrina dos judaizantes é o ardente vinho de serpentes “O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” ( Dt 32:33 ; Ef 5:18 ).

O mandamento de Deus é: creiam no nome do meu Filho ( 1Jo 3:23 ). Qualquer que não crê nunca conheceu o Pai e nem o Filho, de modo que naquele dia ouvirá: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade” ( Mt 7:23 ). Ora, os judaizantes confessam com a boca que amam a Deus, porém, negam-No com as suas obras. Estes verdadeiramente negam a lei de Deus! “Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” ( Jo 14:24 ).

Os judaizantes estão em iniquidade porque dizem amar a Deus, mas se negam obedecer ao mandamento de Deus, que é crer em Cristo. Ora, quem confessa que Jesus é o Cristo, está em Deus e Deus nele ( 1Jo 4:15 ), de modo que conheceu a Deus ( 1Jo 4:7 ), pois para ser nascido de Deus é necessário receber poder ( Jo 1:12 ), o que é concedido aos que creem em Cristo.

Mas, a qualquer que conhece a Deus, ou seja, que creu em Cristo, jamais deve voltar aos argumentos fracos da lei que tem por base questões de ordem moral e severidade com o corpo “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” ( Gl 4:9 ).

Os judaizantes dos nossos dias geralmente lançam mão do seguinte verso para expor a ideia de que é necessário guardar a lei: “Qualquer que comete pecado transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ).

O termo ‘mandamento’ é utilizado por diversas vezes na epístola joanina, porém, somente neste verso o tradutor sentiu-se à vontade para traduzir o mesmo termo por ‘lei’, o que constrói a ideia de que se trata de um código escrito.

No inicio da carta o apóstolo diz: “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos o seu mandamento” ( 1Jo 2:3 ). Já no verso 23 de 1João 3, temos: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo …”. O correto é traduzir o verso 4 do capítulo 3 da epístola utilizando o termo mandamento: “Qualquer que comente pecado transgride o mandamento, pois o pecado é a transgressão do mandamento” ( 1Jo 3:4 ).

Dai a pergunta: que ‘mandamento’ quando transgredido, ou ‘lei’ quando transgredida é pecado? Seria a lei de Moisés? É certo que não, pois antes de ser entregue a lei mosaica já havia pecadores no mundo “Porque até à lei estava o pecado no mundo…” ( Rm 5:13 ).

Ora, os fariseus cumpriam o que entendiam da lei, porém, Jesus Lhes disse: “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ). Os fariseus achavam que cumpriam a lei, porém, Jesus lhes disse: “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ).

Ora, crer em Cristo é a lei da liberdade. Crer em Cristo é o mandamento, e qualquer que n’Ele não crê, transgrede a lei. A lei que transgredida é pecado e que o evangelista João faz referência não tem por base regras tais como: “Não toques, não proves, não manuseies?” ( Cl 2:21 ).

Entender que a lei de Moisés é eterna e perfeita é desconsiderar o que disse o escritor aos Hebreus: “Dizendo Nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar” ( Hb 8:13 ).

A lei foi dada para conduzir os descendentes de Jacó a Cristo, demonstrando que eles eram pecadores, apesar de serem descendentes da carne de Abraão. A lei foi dada aos descendentes da carne de Abraão para demonstrar que todos os homens estavam em igual condição diante de Deus “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” ( Rm 3:19 -20 ).

Antes de chegar a esta conclusão, o apóstolo cita várias passagens da lei e dos salmos que protestavam contras os judeus “Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:2 -4).

Observe que o salmista aponta que não há um justo se quer, e que ninguém buscava a Deus, embora houvesse o povo de Israel na terra. Em um dos salmos citados pelo apóstolo, o salmista faz um protesto contra os obreiros fraudulentos, que se alimentavam de Israel como se fosse pão, porém, não lhes dava a palavra que alimenta “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Tais obreiros eram obreiros da iniquidade, ou seja, obreiros que violavam a lei. Eram semelhantes ao juiz iníquo, que apesar de existir um código de leis a serem seguidas, era avesso ao seu dever. Por que ele era um juiz iníquo? Porque não existia lei? Não! Antes, o iníquo é aquele que não observa o prescrito.

Outro equivoco dos judaizantes está em considerar que Cristo veio cumprir a lei aos moldes daquilo que os judeus executavam, e isto pela seguinte passagem: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” ( Mt 5:17 ).

A multidão enquanto ouvia o discurso de Jesus poderia pensar que Ele estava destruindo o que constava na lei e nos profetas. Antes que chegassem a tal entendimento, Jesus se antecipa e afirma categoricamente que não veio anular o que estava posto, antes que Ele era o próprio cumprimento do que os profetas anunciaram. Em outras palavras, Cristo estava demonstrando que tudo o que estava previsto na lei e nos profetas estava cumprindo-se n’Ele.

Enquanto a lei era sombra, Cristo é a realidade, de modo que Ele não viveu segundo os rudimentos frágeis e pobres dos filhos de Jacó. Tudo o que foi predito acerca de Cristo foi cumprido, de modo que não foi omitido ‘nem um jota ou um til’, pois Cristo é o cumprimento da lei.

Diferente dos demais, Jesus entrava na casa dos pecadores e dos cobradores de impostos para comer ( Lc 5:30 ). Não jejuava aos moldes dos fariseus e escribas, antes praticava o verdadeiro jejum apregoado por Isaías ( Is 58:6 ; Mt 9:14 ). Jesus não guardava o sábado aos moldes dos seus acusadores “E alguns dos fariseus lhes disseram: Por que fazeis o que não é lícito fazer nos sábados?” ( Lc 6:2 ). Foi tido por comilão e beberão “Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos” ( Mt 11:19 ).

Quando lemos que o apóstolo Paulo utilizava a lei e os profetas para persuadir os seus ouvintes ao evangelho, isto não quer dizer que ele estava impondo aos seus ouvintes os preceitos da lei mosaica. Ele se utilizava da lei e dos profetas para demonstrar que, o Jesus de Nazaré que crucificaram a pretexto de um a lei, na verdade era o Cristo de Deus “…procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” ( At 28:23 ); “Porventura o trono de iniquidade te acompanha, o qual forja o mal por uma lei?” ( Sl 94:20 ).

Esta também foi a tônica da mensagem do apóstolo Pedro, que lanço mão dos salmos para demonstrar que seus compatriotas haviam crucificado o Autor da vida ( At 2:36 ). O apóstolo Pedro não expôs aos seus irmãos segundo a carne a lei mosaica, antes apresentou-lhes o Cristo, que é a justiça eterna, ou seja, o caminho, a verdade e a vida “A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade” ( Sl 119:142 ).

É temerário utilizar um termo e o seu significado isolado para emitir opinião acerca de uma verdade. Lançar mão do termo ανομος [anomos] para argumentar que a não observância da lei mosaica é iniquidade é argumento frágil, pois ‘ler’ Moisés não é cumprir a lei “E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará” ( 2Co 3:15 -16).

Semelhantemente, cumprir um quesito da lei, não é guardar a lei mosaica, pois qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, é culpado “E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei” ( Gl 5:3 ); “Todos os que querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo” ( Gl 6:12 ).

Portanto, quando lemos que: “A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus” ( 1Co 7:19 ), não podemos concluir que os mandamentos de Deus refere-se a lei de Moisés, antes se faz necessário comparar a passagem com outros versos, e aí teremos o seguinte quadro: “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” ( Gl 5:6 ).

A fé que opera pelo amor é o mesmo que observância dos mandamentos, de modo que ‘fé’ diz do mandamento em Cristo: crer naquele que Deus enviou, e o ‘amor’ diz da obediência exigida. Em outras palavras, o mandamento de Deus é a obediência da fé “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ; Rm 1:5 ).

Daí a advertência: “Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão” ( Tt 1:10 ).




Por teus pecados

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).


Por teus pecados

Li um trecho do Sermão nº 350, do Dr. Charles Haddon Spurgeon, sob o título “Um tiro certeiro na justiça própria”, e não consegui deixar de tecer um comentário acerca de uma afirmação contida no sermão.

Chamou-me a atenção a última frase do sermão, que diz:

“Cristo foi castigado por teus pecados antes que fossem cometidos” Charles Haddon Spurgeon, trecho do sermão nº 350 “Um tiro certeiro na justiça própria”, extraído da web.

Ora, se o Dr. Spurgeon considerou o texto bíblico que diz que Jesus é ‘o cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo’, na verdade ele devwria destacar que Cristo morreu antes que o pecado fosse introduzido no mundo ( Ap 13:8 ; Rm 5:12 ). Porém, como ele afirma que Jesus foi castigado antes que cada pecado dos cristãos fossem cometidos individualmente, entendo que o Dr. Spurgeon não fez referência ao verso 8, capítulo 13 do Livro de Apocalipse.

Cristo foi castigado pelo pecado de toda a humanidade, porém, quem cometeu a ofensa que levou toda a humanidade a estar debaixo do pecado? Ora, pelas Escrituras entendemos que o pecado é proveniente da ofensa (desobediência) de Adão, e não pelos erros de condutas que os homens cometem.

O castigo que trouxe a paz não se deu por causa de erros de conduta cometidos individualmente’, visto que todos os homens são gerados na condição de alienados de Deus (pecadores). Cristo é cordeiro de Deus morto antes da fundação do mundo, ou seja, o cordeiro foi ofertado antes que a ofensa de Adão ocorresse.

O castigo que recaiu sobre Cristo não decorre da conduta dos homens (pecados cometidos), antes decorre da ofensa de Adão. Em Adão os homens foram feitos pecadores, visto que, por uma ofensa veio o juízo e a condenação sobre todos os homens, sem exceção ( Rm 5:18 ).

Se o pecado (condição do homem sem Deus) decorre da conduta dos homens, para que a justiça fosse estabelecida, necessariamente a salvação somente seria possível através da conduta dos homens. Seria exigível que os homens praticassem algo bom para amenizar a sua conduta ruim, porém, jamais seria ‘justificado’.

Mas, a mensagem do evangelho demonstra que pela ofensa de um homem (Adão) todos foram condenados à morte, e somente por um homem (Cristo, o último Adão) o dom da graça de Deus abundou sobre muitos ( Rm 5:15 ). Quando Jesus morreu pelos nossos pecados, ocorreu uma substituição de ato: como Adão desobedeceu, o último Adão foi obediente até o calvário.

A última frase do trecho do sermão do Dr. Spurgeon demonstra que não foi considerado que:

  • Todos os homens são pecadores porque o primeiro pai da humanidade (Adão) pecou ( Is 43:27 );
  • Que todos os homens são formados em iniquidade e concebidos em pecado ( Sl 51:5 );
  • Que toda a humanidade desviou-se de Deus desde a madre ( Sl 58:3 );
  • Que todos os homens andam errados desde que nascem ( Sl 58:3 ), porque entraram por uma porta larga que dá acesso a um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 -14);
  • Que por terem sido vendidos como escravo ao pecado, ninguém transgride conforme a transgressão de Adão ( Rm 5:14 );
  • Que o melhor dos homens é comparável a um espinho, e o mais reto pior que uma sebe de espinhos ( Mq 7:4 );
  • Que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus por causa da condenação estabelecida em Adão;
  • Que não há nenhum justo, nenhum sequer, entre os descendentes de Adão ( Rm 3:10 ), etc.

Que bem ou mal comete uma criança no ventre materno para ser concebido em pecado? Que pecado uma criança comete para andar ‘errada’ desde que nasce? Quando e onde todos os homens desviaram e juntamente se fizeram imundos? ( Rm 3:12 ) Acaso o extravio da humanidade não se deu através da ofensa de Adão?

Em Adão todos os homens juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ), isto porque Adão é a porta larga por onde todos os homens entram ao nascer. O nascimento segundo a carne, o sangue e a vontade do varão é a porta larga por onde todos os homens entram, se desviam e juntamente se fazem imundos ( Jo 1:13 ).

Que evento fez com que todos os homens ‘juntamente’ se tornassem imundos? Somente a ofensa de Adão explica o fato de todos os homens, em um mesmo evento, tornarem-se imundos (juntamente), visto que é impossível a todos homens de inúmeras épocas praticarem um mesmo ato juntos.

Considere: Cristo morreu porque Caim matou Abel, ou Cristo morreu por causa da ofensa de Adão? Qual dos eventos comprometeu a natureza de toda humanidade? O ato de Caim ou a ofensa de Adão?

Observe que a condenação de Caim não é proveniente do seu ato criminoso, antes decorre da condenação em Adão. Jesus demonstrou que não veio condenar o mundo, antes salvá-lo, pois seria contraproducente julgar o que já está condenado ( Jo 3:18 ).

Cristo foi castigado por causa do pecado da humanidade, porém, o pecado não se refere àquilo que os homens cometem, antes diz da ofensa que trouxe juízo e condenação sobre todos os homens, sem distinção.

As ações dos homens sob o jugo do pecado também é denominado pecado, visto que, qualquer que peca, peca porque é escravo do pecado. A barreira de separação entre Deus e os homens se deu através da ofensa de Adão, e por causa da ofensa no Éden não há entre os filhos dos homens quem faça o bem. Por que não há quem faça o bem? Porque se extraviaram todos e juntamente se fizeram imundos. Portanto, por causa da ofensa de Adão, tudo que o homem sem Cristo faz é imundo.

Quem do imundo tirará o que é puro? Ninguém! ( Jó 14:4 ) Ou seja, não há quem faça o bem porque todos são escravos do pecado.

Ora, o escravo do pecado comete pecado, visto que, tudo que realiza pertence por direito ao seu senhor. As ações dos servos do pecado são pecaminosas porque são feitas por escravos do pecado. É por isso que Deus libertou os que creem para que sejam servos da justiça ( Rm 6:18 ).

Já os filhos de Deus não podem pecar porque são nascidos de Deus e a semente de Deus permanece neles ( 1Jo 3:6 e 1Jo 3:9 ). Qualquer que comente pecado é do diabo, mas os que creem em Cristo pertencem a Deus ( 1Co 1:30 ; 1Jo 3:24 ; 1Jo 4:13 ), visto que são templo e morada do Espírito ( 1Jo 3:8 ).

Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo ( 1Jo 3:5 e 1Jo 3:8 ), e todos que são gerados de Deus permanecem n’Ele ( 1Jo 3:24 ) e em Deus não há pecado ( 1Jo 3:5 ). Ora se em Deus não há pecado, segue-se que todos que estão em Deus não pecam, visto que foram gerados de Deus e a semente de Deus permanece neles.

Uma árvore não pode dar dois tipos de frutos. Assim, aqueles que são nascidos da semente de Deus não podem produzir frutos para Deus e para o diabo, da mesma forma que é impossível um servo servir dois senhores ( Lc 16:13 ). Toda planta plantada pelo Pai dá muito fruto, porém, frutifica somente para Deus ( Is 61:3 ; Jo 15:5 ).

Após morrer para o pecado, o antigo senhor, resta ao homem ressurreto apresentar-se a Deus como vivo dentre os mortos, e os membros do seu corpo como instrumento de justiça ( Rm 6:13 ). A condição ‘vivo’ dentre os mortos é adquirida pela fé em Cristo, através da regeneração (novo nascimento). Através do novo nascimento o homem torna-se vivo dentre os mortos, e resta, portanto, voluntariamente apresentar a Deus os membros do seu corpo como instrumento de justiça.

O pecado não mais reina, pois não tem mais domínio sobre os que creem ( Rm 6:14 ). O cristão deve oferecer os seus membros para servirem a justiça, ou seja, para servirem Aquele que os santificou, visto que Cristo é a justificação e a santificação dos cristãos ( Rm 6:19 ; 1Co 1:30 ).

Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos com o objetivo de conduzir os homens a Deus ( 1Pe 3:18 ). Ele é a propiciação pelos pecados do mundo todo ( 1Jo 2:2 ), desfazendo a barreira de inimizade que havia entre Deus e os homens. Uma vez liberto da condenação de Adão o homem está apto a produzir boas obras, pois elas são feitas somente quando se está em Deus ( Is 26:12 ; Jo 3:21 ).

Os homens sem Deus, por sua vez, existem sem esperança neste mundo, pois são como o imundo e tudo que produzem, é imundo. Não há como o homem sem Deus fazer o bem, pois a natureza má só produz o mau “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” ( Is 64:6 ).

O profeta Isaias ao descrever a condição do seu povo, comparou-os com:

  • O imundo – Quando o povo de Israel tornou-se imundo? Quando todos se desviaram e juntamente se tornaram imundos, ou seja, em Adão, o primeiro Pai da humanidade ( Sl 14:3 ; Is 43:27 );
  • Justiça como trapos de imundície – Todas as obras de justiça dos imundos são comparáveis a trapos de imundície, que não servem para vestes. Embora fossem religiosos, as obras do povo de Israel eram obras de iniquidade, obras de violência ( Is 59:6 );
  • Murcham como a folha – Não havia esperança para o povo de Israel, visto que como a folha estavam mortos ( Is 59:10 );
  • As iniquidades são como vento – Nada que Israel fazia podia livrá-los desta horrenda condição, visto que a iniquidade é comparável ao vento que arrebata a folha, ou seja, o homem não pode livrar-se do senhoril do pecado.

Cristo, a seu tempo, morreu pelos ímpios. O Cordeiro de Deus foi imolado desde a fundação do mundo pelos pecadores “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” ( Rm 5:6 ); “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” ( Rm 5:8 ).

Ora, Cristo morreu pelos escravos do pecado, e não pelos ‘pecados’ que os escravos do pecado praticam, como entendeu o Dr. Spurgeon.

Cristo morreu pelos pecadores, logo os que creem morrem juntamente com Ele. Cristo morreu por todos para que os que são vivificados não mais vivam para si, antes vivam para Aquele que morreu e ressurgiu ( 2Co 5:14 ).

Os que ressurgiram com cristo estão em segurança, visto que:

  • Estão em Cristo;
  • São novas Criaturas;
  • As coisas velhas passaram;
  • Tudo se fez novo ( 2Co 5:17 ).

Deus reconciliou consigo mesmo os que creem por intermédio de Cristo e deu aos vivos dentre os mortos o ministério da reconciliação ( 2Co 15:18 ).

Aos vivos dentre os mortos resta a exortação: não recebais a graça de Deus em vão ( 2Co 6:1 ). Deus te ouviu em tempo aceitável, por tanto, como instrumento de justiça os cristãos são recomendados a:

  • Não dar escândalo em coisa alguma – Por que os cristãos não devem dar escândalos? Para serem salvos? Não! Para que o ministério da reconciliação não seja censurado;
  • Sendo recomendáveis em tudo – Na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, etc ( 2Co 6:3 -6).

Cristo foi morto desde a fundação do mundo, antes mesmo que toda a humanidade se tornar-se escrava da injustiça em função da desobediência de um só homem que pecou: Adão.




A escravidão da vontade

Analisaremos se é possível escravizar a vontade de um indivíduo, pois na história da humanidade verifica-se que, os escravos eram livres quanto a vontade, mesmo legalmente impossibilitado de ser livre.


A escravidão da vontade

A questão

“Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Cristo para ser salvo de seus pecados”?

Há um problema quanto à formulação da questão acima. A pergunta, diante da verdade do evangelho, é descabida e não comporta uma resposta correta, pois, invariavelmente, todos quantos se propuser a respondê-la, seja com um sim ou um não, serão induzidos a erro.

 

Questão histórica

Diante desta pergunta, tanto a resposta de Lutero quanto a de Erasmo foram equivocadas, pois a pergunta contém um erro na sua formulação que não corresponde à verdade do evangelho.

Uma pergunta que ficou sem resposta da parte de Cristo foi: “O que é a verdade?”. Ora, Jesus havia dito a Pilatos que veio dar testemunho da verdade, e Pilatos, cheio de conhecimento filosófico, questionou de modo sarcástico: Que é a verdade?

Qualquer resposta que Cristo estabelecesse diante da pergunta, seria inócua, pois Cristo estava testemunhando de Deus e Pilatos estava focado em questões de ordem filosóficas. Portanto, a melhor resposta é o silêncio, pois aquele que responde ao tolo segundo a sua tolice é semelhante ao tolo “Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia; para que também não te faças semelhante a ele” ( Pv 26:4 ).

Se Jesus se detivesse e respondesse Pilatos segundo a filosofia, seria tão somente mais um filósofo, o que é diferente de dar testemunho da verdade. Pilatos não achou crime algum em Cristo, porém, a pergunta ‘Que é a verdade’ foi um modo de desprezar a pessoa de Cristo “Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade? E, dizendo isto, tornou a ir ter com os judeus, e disse-lhes: Não acho nele crime algum” ( Jo 18:38 ).

Certa feita Jesus foi abordado por um ‘doutor’ da lei que lhe perguntou: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei?” ( Mt 22:36 ). Jesus respondeu segundo a lei: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento” ( Mt 22:37 -38).

Como se verifica através do testemunho do evangelista Marcos, nada Jesus declarava aos homens a não ser por parábolas “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ), e a resposta de Jesus foi uma parábola, visto que o mestre da lei seguia tais ensinamento, porém, ainda não havia se achegado a Deus com entendimento. A resposta que Jesus deu ao mestre da lei era uma resposta ao ‘tolo’ segundo a sua estultícia “Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus próprios olhos” ( Pv 26:5 ).

Ao interrogar a Cristo, o doutor da lei queria experimentá-lo, porém, a resposta foi a altura da sua tentativa de experimentá-lo. A resposta de Cristo agradou o mestre da lei, o mestre legalista permaneceu em pecado, pois apesar de ‘ver’ não enxergava “Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados” ( Mc 4:12 ); “E um deles, doutor da lei, interrogou-o para o experimentar …” ( Mt 22:35 ).

Mas, analisemos a questão:

“Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Cristo, para ser salvo de seus pecados?”.

  • Observe que a humanidade estava alienada de Deus e que Cristo foi enviado para desfazer a barreira de separação que havia entre Deus e os homens. Observe também que Cristo é o caminho que conduz o homem a Deus ( Mt 7:13 ). Ele é o novo e vivo caminho ( Hb 10:20 ). Ele mesmo disse: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” ( Jo 14:6 ).

Ou seja, a pergunta deveria ser a seguinte: Pode um ser humano, voluntariamente e sem qualquer ajuda, voltar-se para Deus, para ser salvo de seus pecados? Neste caso a resposta é não, pois sem Cristo-homem, que é o medidor entre Deus e os homens, não há como o homem, mesmo que voluntariamente, alcançar, voltar-se para Deus.

Ou seja, o pecado é uma barreira de separação erguida entre Deus e os homens por causa da desobediência de Adão, e Cristo é o mediador entre Deus e os homens, portanto, o homem só pode achegar-se a Deus por intermédio de Cristo. Não é o homem que se achega a Cristo, antes é Ele que veio até os homens anunciando boas novas de salvação. Ele é o advogado, o mediador, a ajuda que o homem necessita para ‘voltar-se’ para Deus.

Um exemplo claro é o povo de Israel, que se escudavam na lei mosaica na tentativa de se voltarem para Deus, porém, não conseguiam, pois lhe faltava o entendimento necessário, que é Cristo ( Rm 10:2 ).

  • O povo de Israel é um exemplo claro de que o homem pode, voluntariamente e até mesmo com a ajuda de outros semelhantes e da lei voltar-se para Deus, mais isto não significa que, por meio da voluntariedade irá alcançá-lo.

Ou seja, a pergunta deveria ser específica, inquirindo se é possível a alguém que busque voltar-se para Deus sem a compreensão (boas novas do reino, evangelho, etc.) fornecida pelo mediador, que é Cristo, alcançar a Deus e ser salvo da condenação do pecado.

A descrição do salmo 49 aplica-se ao povo de Israel, pois eles confiavam em suas riquezas e que poderiam salvar aos seus semelhantes “Aqueles que confiam na sua fazenda, e se gloriam na multidão das suas riquezas, Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele (Pois a redenção da sua alma é caríssima, e cessará para sempre)” ( Sl 49:6 -8).

Qual era a fazenda de Israel? A sua descendência segundo a carne de Abraão. Esta era a ‘riqueza’ na qual o povo de Israel estava confiado que haviam adquirido a salvação.

    • De que pecado a pergunta faz referência? A condição herdada de Adão, que alienou todos os homens de Deus? Ou diz de questões comportamentais provenientes da moral dogmática platonista e aristotélica introduzida no cristianismo por Santo Agostinho e São Tomas de Aquino? O pecado refere-se aos sete pecados capitais, ou a condição decorrente da queda de Adão?

Ora, se o homem for um seguidor da filosofia de Platão e de Aristóteles, pelo ascetismo conseguirá livrar-se dos ‘pecados’ que foram classificados em capitais, que inicialmente eram oitos. De igual modo, se for um seguidor do budismo, hinduísmo, judaísmo, ver-se-á salvo de tais práticas de cunho moral. Mas, seria isto salvação do pecado? Não! Salvação do pecado não se dá por ascese, antes se dá pelo lavar regenerador: novo nascimento.

A pergunta que cabe uma resposta é a seguinte: Pode um ser humano, voluntariamente e sem a mediação de Cristo, voltar-se para Deus, para ser salvo da condenação herdada de Adão? A resposta é não, pois não há outro nome pelo qual devamos ser salvos! “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ).

 

As bases do argumento de Lutero contra o livre-arbítrio

Lutero tomou como base o verso 18 do capítulo 1 de Romanos para introduzir o seu primeiro argumento: ‘A culpa universal da humanidade prova que o “livre-arbítrio” é falso’.

O que diz Romanos 1, verso 18? Para compreender a abordagem paulina faz-se necessário analisar o contexto onde foi inserido o verso 18 do capítulo 1.

O contexto mostra que o apóstolo Paulo escreveu aos cristãos em Roma, porém, devemos visualizar dois subgrupos de cristãos: os convertidos dentre os gentios e os convertidos dentre os judeus.

Após a apresentação inicial e louvor ao evangelho de Cristo ( Rm 1:1 ao 17), o apóstolo demonstra a condição reprovável dos gentios, exposição que os judeus plenamente acatavam ( Rm 1:18 à 32). Porém, no capítulo 2, verso 1 em diante, o apóstolo Paulo direciona as suas observações de modo a demonstrar que a condição dos judeus em nada é diferente da dos gentios, mesmo sendo descendentes da carne de Abraão e possuidores da lei mosaica.

Ou seja, a base de argumentação do apóstolo fixa-se em demonstrar que, embora os judeus tenham recebido a lei e a circuncisão da carne, em nada eram diferentes dos gentios, e que tudo o que a lei dizia, dizia aos que estavam sob a lei, com um único objetivo: demonstrar ao judeus que, ambos os povos, judeus e gentios, eram escusáveis diante de Deus “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Em suma, segue o exposto pelo apóstolo: “Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” ( Rm 3:9 ).

Analisemos o exposto por Lutero:

“Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus (…) Se todos os homens possuem ‘livre-arbítrio’, ao mesmo tempo que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o ‘livre-arbítrio’ os está conduzindo a uma única direção — da ‘impiedade e da iniquidade’. Portanto, em que o poder do ‘livre-arbítrio’ os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o ‘livre-arbítrio’, ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus Lutero, Martinho, versão condensada e de fácil leitura do clássico de Martinho Lutero, A Escravidão da Vontade, publicada inicialmente em 1525. Preparado por Clifford Pond Editor Geral: J.K. Davies, B.D., Th.D. EDITORA FIEL da MISSÃO EVANGÉLICA LITERÁRIA (grifo nosso).

Há várias imprecisões no parágrafo acima que invalida a proposição inicial. Vejamos:

a) Todos os homens merecem ser castigados por Deus– A Bíblia demonstra que todos os homens estão destituídos da glória de Deus, ou seja, todos formam julgados e apenados com a morte. Todos foram julgados e apenados, e do julgamento e condenação adveio a pena: perdição “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação…” ( Rm 5:18 ). O castigo não será impingido no futuro, antes já houve um juízo e já foi atribuída uma pena: condenação, morte, alienação. A asserção ‘os homens (…) merecem ser castigados por Deus’ é descabida, pois um só pecou e todos pecaram. Um só morreu e todos morreram, ou seja independente de merecimento ou não, todos quanto nasceram segundo a carne de Adão já foram apenados com a separação de Deus: morte ( 1Co 15:21 – 22).

b) O ‘livre-arbítrio’ os está conduzindo a uma única direção – A Bíblia demonstra que todos os homens, exceto Cristo, entraram por uma porta larga (Adão), e estão em um caminho largo que os conduz à perdição, ou seja, não é o ‘livre-arbítrio’ que conduz os homens a perdição, antes é o caminho em que estão, após terem entrado pela porta larga, que os conduz à perdição ( Mt 7:13 -14);

c) Em que o poder do ‘livre-arbítrio’ os está ajudando a fazer o que é certo – Ora, a salvação não se vincula ao que é certo ou errado, antes em aceitar a verdade do evangelho. Tudo que o homem faz pode ser certo e errado, no entanto, seus erros e acertos não contribui para salvação ou contribuíram para a perdição, pois a perdição vincula-se ao caminho em que o homem está após ser gerado segundo a carne; os homens se perderam por nascerem segundo a carne de Adão, e não por fazerem coisas erradas;

d) O ‘livre-arbítrio’ não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação – Nada ajuda o homem a atingir a salvação, e o livre arbítrio também não. Primeiro porque o único que se perdeu em decorrência de exercer o livre-arbítrio foi Adão e, em segundo lugar, todos os seus descendentes foram condenados a perdição sem a necessidade de exercerem o livre-arbítrio. O único que conduz os homens a Deus é Cristo, a porta e o caminho estreito que conduz o homem a vida;

e) O ‘livre arbítrio’ (…) os deixa sob a ira de Deus – Estar ou não sob a ira de Deus não é uma questão de ‘livre-arbítrio’, antes uma questão de filiação. Todos os filhos da desobediência são filhos da ira, ou seja, os filhos da ofensa de Adão é o que estabeleceu a ira de Deus sobre os homens. Havia um livre-arbítrio capaz de livrar o homem da condenação, o que Adão possuía antes da ofensa. Após o julgamento e a condenação, livrar-se da ira não é uma questão de livre-arbítrio, mas de mediador.

Quando o apóstolo Paulo diz no verso 18, do capítulo um que a ira de Deus se manifesta sobre a impiedade e injustiça dos homens que detém a verdade em injustiça, ele faz referencia a todos os homens que não conhecem o evangelho de Cristo, sendo que os cristãos, já não estão sob a ira, visto que são um com a Verdade “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça ( Rm 1:18 ).

Porém, a ira de Deus ainda não é manifesta aos homens, pois os homens desconhecem que estão sob a condenação de Adão. Somente por meio do evangelho é possível o homem entender que o juízo já foi estabelecido por Deus no Éden. Mas, há um dia reservado para que se dê a conhecer aos homens o juízo de Deus, que será também o dia da ira, quando os homens descobrirão que estão sob condenação (morte) e, que cada um será retribuído segundo as suas obras “Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” ( Rm 2:5 ).

Portanto, o julgamento que condenou Adão e todos os seus descendentes já ocorreu no Éden. Haverá um julgamento futuro, mas refere-se as obras dos homens ímpios, que de nada lhes aproveitarão, visto que estão condenados pela ofensa de Adão.

No capítulo um de Romanos, a partir do verso 18, o apóstolo Paulo demonstra que todos os homens estão sob condenação, tanto judeus quanto gentios. No verso 16 ele declara que o evangelho é poder de Deus, salvação a todos os que creem. Isso significa que, embora os judeus estivessem voltados a buscar a Deus, não teriam êxito, pois buscavam sem entendimento ( Rm 10:2 ).

Eles tinham forças, vontade, zelo, cuidado, etc., para voltar-se para Deus, porém, a despeito de tudo, em nada eram diferente dos gentios, ou seja, o apóstolo Paulo não condenava o ‘livre-arbítrio’ ou a falta de voluntariedade em buscarem a Deus, antes condenava a falta de ‘conhecimento’ ( Mc 12:24 ). Sobre este quesito, o apóstolo Paulo dá testemunho que, como judeu, o seu homem interior tinha prazer na lei de Deus ( Rm 7:22 ), e queria fazer o bem ( Rm 7:21 ), demonstrando a sua livre-vontade e voluntariedade, porém, embora a vontade fosse livre a escolha não é.

O próprio conceito de ‘livre-arbítrio’ que Lutero debate é descabido. Por quê? Porque em todos os tempos o homem teve somente livre-vontade, e a escolha nunca foi livre, pois se restringe ao que lhe é oferecido. Através da vontade é possível desejar tudo, até o impossível, porém, a escolha limita-se a um conjunto pré-definido.

Adão, antes da queda, possuía livre-vontade, pois podia desejar comer de todas as árvores do jardim, inclusive a do conhecimento do bem e do mal, porém, a escolha era restrita ao número de árvores disponíveis no jardim.

Com a ofensa, ele permaneceu com a livre-vontade, porém, a livre-escolha de permanecer livre da morte (condenação) foi-lhe retirada quando lhe foi imposta a pena: separação de Deus. A vontade de salvar-se surgiu, porém, foi posto um anjo com uma espada protegendo a entrada no jardim para que Adão não voltasse e comesse do fruto da árvore da vida. Isto indica que, apesar do pecado, a vontade de Adão era livre, o que motivou Deus colocar um anjo para proteger a árvore da vida “E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida” ( Gn 3:24 ).

Se considerarmos que ‘livre-arbítrio’ refere-se à vontade, temos que o homem possui livre-arbítrio. Se considerarmos que ‘livre-arbítrio’ refere-se à escolha, temos que o homem não possui livre-arbítrio. Mas, o que demonstra Gêneses três, verso vinte e quatro, é que o homem tinha o desejo livre para voltar e querer livrar-se da morte, porém, o caminho de acesso a Deus não era esse.

Portanto, para as considerações ulteriores, sempre falaremos de livre-vontade e de livre-escolha.

Quando se lê: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus” ( Rm 3:10 -11), temos que pensar nos judeus, que apesar de entenderem que buscavam a Deus, as Escrituras depunham contra eles, visto que ela diz que ‘não há um justo’ e que ‘não há ninguém que busque a Deus’, pois tudo o que a lei dizia, dizia aos que estavam sob ela, e não aos gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Vale salientar o contexto do Salmo 53 que o apóstolo Paulo cita aos judeus convertidos que estavam em Roma: “Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:4 ). Quem são os obreiros da iniquidade? Quem comia o povo de Deus como se fosse pão? Não é uma referência aos lideres de Israel? Claro que sim, pois o que lhes faltava era o conhecimento ( Rm 10:2 ), portanto, não invocavam a Deus, se invocassem, por certo que seriam salvos “Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo” ( Rm 10:13 ).

A conversão de qualquer pessoa acontece quando Deus envia o ‘mediador’, que é Cristo-homem, para que tudo que ele revele acerca de Deus possa desfazer a ignorância. A ignorância só é debelada quando é revelada a verdade do evangelho, que é poder de Deus. Sem o Mediador (Cristo) e o conhecimento (evangelho) que Ele apresenta, ninguém jamais poderia ser salvo.

Ninguém, durante toda a história humana, conceberia por si mesmo a realidade da ira de Deus sobre os filhos da ira, conforme nos ensina nas Escrituras: de que todos os homens entraram por uma porta larga e que estão sendo conduzidos à perdição.

Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com Deus por intermédio da vida e da obra de um Salvador singular, o Mediador entre Deus e os homens, pois somente através de um mediador é que os homens são conduzidos a Deus através de um novo e vivo caminho.

O evangelho do mediador foi primeiramente anunciado a Abraão “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” ( Gl 3:8 ), mas os descendentes da carne de Abraão passaram a confiar na carne de Abraão, e não tiveram a mesma confiança (fé) que o crente Abraão, que teve por base da confiança o evangelho que lhe foi anunciado.

Confiar o povo judeu confiava, porém, não confiava que a salvação viria do Descendente, antes confiava que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão. A confiança (fé) deles não lhes aproveitou, pois ela não repousava sobre o Descendente, antes na carne de Abraão. Portanto, a salvação é pela fé, mas a confiança (fé) na fé que havia de se manifestar “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” ( Gl 3:23 ).

Deus tomou a iniciativa de revelar-se aos homens, e assim o fez a Abraão. Ora, como o evangelho foi por revelação, segue-se que jamais o homem descobriria por si só como se salvar. E a revelação de Deus está no Mediador, o Descendente, alguém que o homem não poderia providenciar.

Aproximar-se de Deus não tem relação com o ‘livre-arbítrio’, pois os judeus procuravam aproximarem-se de Deus, o que indica que possuíam livre-vontade, porém, a escolha que fizeram em confiar da carne e na lei fez com que rejeitassem o Mediador estabelecido por Deus.

Por fim, a conclusão de Lutero não é acertada:

“Ora, se todos os homens são possuidores de ‘livre-arbítrio’, e todos os homens são culpados e estão condenados, então esse suposto ‘livre-arbítrio’ é impotente para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte, a vontade dos homens, afinal, não é livre” Idem.

A vontade do homem é livre, pois se assim não fosse, Deus não havia posto um querubim na entrada do jardim para impedi-lo de comer da árvore da vida. A vontade do homem é livre, pois os judeus buscavam a Deus, porém, sem conhecimento, e não alcançaram a salvação por rejeitarem a revelação de Deus. A vontade do homem é livre, porém, não há uma escolha de salvação fora da que Deus propôs em Cristo.

O segundo argumento de Lutero foi: “O domínio universal do pecado prova que o ‘livre-arbítrio’ é falso”.

A relação que Lutero procurou estabelecer entre ‘domínio universal do pecado’ e ‘livre-arbítrio’ não é prova.

O domínio universal do pecado prova, diferente do proposto por Lutero, que todos entraram neste mundo por Adão, evento que os sujeitou ao pecado, o que em nada depõe contra a livre-vontade daqueles que estão sendo conduzidos pelo caminho largo à perdição.

O que o apóstolo Paulo diz em Romanos 3, verso 9: “Que se conclui? Temos nós [os judeus] qualquer vantagem [sobre os gentios]? não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado”, tem o fito de demonstrar aos cristãos convertidos dentre os judeus que todos os homens, sem exceção, estão sob condenação.

A condenação da humanidade é uma condição semelhante à condição dos escravos: os escravos possuíam a ‘livre-vontade’ de serem livres, porém, a escolha não lhes era possível. A colocação de Lutero a seguir carece ser revista:

“Não somente são todos os homens, sem qualquer exceção, considerados culpados à vista de Deus, como também são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados” Idem.

Os homens não são ‘considerados’ culpados, como disse Lutero, antes já foram julgados e apenados e estão sob condenação. Estar sob condenação é totalmente diferente de ser considerado culpado. A concepção de que ser escravo do pecado é o que torna o homem culpado é distorcida, visto que, o homem está sob condenação, uma condição que é ilustrada como escravidão ao pecado.

O fato de ser evidente que sem Deus não há quem faça o bem “…torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem” (Idem), não guarda relação com a incapacidade de se livrar da servidão ao pecado. Primeiro porque não é a prática do bem que tornar o homem livre do pecado, antes a liberdade do pecado só é possível através do evangelho como poder de Deus, a fé manifesta aos homens. Em segundo lugar, a prática do bem só é possível aos que estão em Deus, portanto, se o homem não está em Deus não há o que se falar em ‘poder que o capacite’.

Fazer o bem é condição ‘sine qua non’ dos servos da justiça, assim como é condição dos servos do pecado fazer o mal. O fazer o bem e o mal decorre da natureza, e além do mais, o bem e o mau em tela não guarda relação com questões de ordem moral, antes decorre da essência do ser. Assim como a árvore boa produz fruto bom, os servos da justiça praticam a justiça e o que é bom.

A escravidão ao pecado é universal porque todos os homens foram gerados de Adão, não importando se são retos ou melhores que seus semelhantes. Como já dissemos, ao nascer o homem entrou por uma porta larga que deu acesso a um caminho largo que conduz a perdição. Neste caminho não importa a razão, a vontade, a bondade, pois o que conduz a perdição é o caminho e não as escolhas do homem.

Ao fazer referência à passagem de Romanos 3, verso 10 a 12, Lutero diz que o significado do texto é perfeitamente claro, porém, fez uma leitura equivocado. Ora, se Deus é conhecido através da razão e vontade do homem, por que a natureza do homem deve ser levada em conta?

“O significado dessas palavras é perfeitamente claro. Deus é conhecido através da razão e da vontade humanas. Porém, nenhum ser humano, somente por sua natureza, conhece a Deus. Precisamos concluir, por conseguinte, que a vontade humana está corrompida e que o homem é totalmente incapaz, por si mesmo, de conhecer a Deus ou de agradá-Lo” Idem.

Lutero parece amalgamar razão e vontade com natureza. A natureza humana é imutável do ponto de vista dos homens, pois jamais um homem pode deixar de ser homem para ser anjo, ou até mesmo ser outro homem. Mas, o mesmo não se pode dizer da razão e da vontade, que são entes maleáveis e moldáveis.

Quando Deus se revelou na pessoa de Cristo, o Verbo encarnado, Ele deu a conhecer a verdade do evangelho que, quando compreendido muda a razão e a vontade do homem. A esta mudança dá se o nome de ‘arrependimento’ (metanóia), mudança de concepção, mudança de pensamento. Porém, a mudança de natureza só se dá através da regeneração, que é algo que somente Deus pode realizar, momento em que o homem passa a ‘conhecer’ (ter comunhão intima) a Deus, pois tornam-se um só corpo.

A ‘metanóia’ é transformação da razão, porém, conhecer a Deus não se dá através da razão, antes só é possível conhecer a Deus quando o homem torna-se um só corpo com o Filho. Conhecer a Deus é tornar-se um com Ele, portanto, é ser participante da natureza divina ( Jo 17:21 ; 2Pe 1:4 ).

Continua…




Nenhuma condenação

A humanidade perdeu a liberdade por estar cativa da condição proveniente condenação e da punição imposta a ofensa de Adão. Ele não ficou cativo quanto à sua vontade (livre arbítrio), e sim com relação à sua natureza. A natureza do homem passou à condição de escrava do pecado (morto), o que cortou o vínculo do homem com aquele que é a vida.


Nenhuma condenação

“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8:1)

 

A Queda

Após a queda Adão passou a condição de morto para Deus e vivo para o mundo. Esta condição está atrelada à natureza do homem.

Adão foi criado com uma natureza segundo a natureza divina: santo, justo e bom. Diante de Deus Adão era inculpável e irrepreensível. Após a queda Adão perdeu o vínculo (comunhão) com o Autor da vida e tornou-se morto para Deus. Ele passou à condição de culpável, repreensível e condenável diante de Deus.

Esta ‘nova’ condição de Adão é descrita e representada de diversas maneiras pelos escritores da Bíblia.

A figura da escravidão é uma maneira simples de representar a condição do homem caído. Em Deus Adão era livre, ou seja, ele estava em uma condição cômoda, não precisava tomar nenhuma decisão. Alienado de Deus passou a ser escravo do pecado e vendeu todos os seus descendentes ao pecado.

A humanidade perdeu a liberdade por estar cativa da condição proveniente da punição imposta a ofensa de Adão. Ele não ficou cativo quanto à sua vontade (livre arbítrio), e sim com relação à sua natureza. A natureza do homem passou à condição de escrava do pecado (morto), o que cortou o vínculo do homem com aquele que é a vida.

O homem era agradável a Deus quando participante da natureza divina. Após a queda esta capacidade se perdeu devido à nova condição do homem: alienado do Criador. Ele passou a servir outro senhor, o pecado. A condição de servo de Deus perdeu-se e todos quantos nascem, nascem mortos para Deus, vivos para o pecado e servindo ao pecado.

Embora o homem tenha desejo de ser livre, ele não dispõe de meios para se salvar. O homem sem Deus não consegue alcançar a vida que tinha antes por intermédio de suas ações, visto que todas elas pertencem por direito ao seu senhor, o pecado. Muitos querem se salvar através de uma religião, boas ações, sacrifícios, bom comportamento, etc. Todas estas coisas são inócuas, uma vez que o homem continua vivo para o mundo e morto para Deus.

É neste ponto que entra a oferta redentora de Deus.

 

A Redenção: uma necessidade!

A figura da árvore ilustra bem a condição do homem: pelo fruto se conhece a árvore. A árvore boa produz fruto bom e a arvore má, frutos maus. Só é possível produzir frutos bons quando o homem é de novo gerado da semente incorruptível (a palavra de Deus), e daí por diante todos os seus frutos serão bons, pois são produzidos em Deus.

Quem é nascido da carne e do sangue e da vontade do varão sempre produzirá segundo a sua espécie (natureza). As suas obras não são feitas em Deus, visto que não foi plantado por Deus ( Mt 15:13 ), ou seja, nasceu de Adão, da semente corruptível que teve origem na queda.

Neste aspecto se encaixa a figura da escravidão, visto que é impossível servir a Deus e ao mesmo tempo produzir para o pecado, ou vice-versa: servir ao pecado e produzir para Deus.

Antes de viver para Deus o homem precisa morrer para o pecado e o mundo!

Para o homem submeter a sua velha natureza à morte é preciso ter um encontro com a cruz de Cristo. É preciso morrer para depois ressurgir uma nova criatura gerada pela palavra de Deus (poder).

A necessidade da redenção é dupla: primeiro é preciso morrer para depois tornar-se participante da vida que há em Deus: ser gerado de novo!

Muitos alegam que o homem perdeu a capacidade de crer na mensagem do evangelho, e que essa vontade só é restaurada após a regeneração. Observe que estes esquecem que não há um novo nascimento se antes não houver morte. Como morrer com Cristo se a capacidade de crer, como dizem os monergistas, só é concedida após a regeneração?

Se para morrer com Cristo o homem precisa crer na mensagem do evangelho ( Mt 10:38 ), como é possível crer se tal ‘capacidade’ só contempla os regenerados? Se a fé vem pelo ouvir, como os mortos alcançarão fé se não podem crer sem antes serem regenerados?

O pecado de Adão fez com que a humanidade passasse a existir na condição de mortos para Deus e vivos para o mundo. Para reverter este processo, o homem precisa morrer para o mundo para voltar a ter vida em Deus, o que só é possível quando o homem crê em Cristo, conformando-se com Cristo na sua morte.

É por isso que Jesus disse a Nicodemos: Necessário vos é nascer de novo ( Jo 3:7 ).

O novo nascimento é simples: Quando o homem obedece à verdade do evangelho recebe de Deus poder para ser feito (criado) de novo. É de novo plantado (de uma semente incorruptível). O novo nascimento se dá através da ressurreição de Cristo, pois se o homem foi sepultado na semelhança da sua morte, ressurge à semelhança de Cristo ( 1Pd 1:3 e 22- 23).

É por esse motivo que Paulo é enfático ao dizer que os cristãos já morreram com Cristo “Ora, se já morremos com Cristo…” ( Rm 6:8 ). A certeza da morte com Cristo é que confirma a fé na ressurreição dentre os mortos. Sem crer que já está morto com Cristo, é impossível crer que com Ele ressurgiu.

Após crer em Jesus, o homem passa a estar vivo para Deus e mortos para o pecado ( Rm 6:11 ). Esta condição não era assim antes de ser plantado (sepultado) com Cristo na sua morte: antes estava vivo para o pecado e morto para Deus.

Se o homem quiser livrar-se do pecado precisa ser sepultado com Cristo, ou seja, ser plantado juntamente com ele na sua morte ( Rm 6:4 -5). Após morrer com Cristo o homem terá direito a comparecer perante o Tribunal de Cristo, e estará livre do Trono Branco ( Rm 8:1 ).

É por isso que Paulo diz: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo…”, visto que ao ser gerado de novo e na condição de nova criatura, o homem livra-se da condenação em Adão e de comparecer perante o Grande Trono Branco.

Caso houvesse somente uma condenação, o apóstolo Paulo diria: “Portanto, agora não há condenação…”, mas, como o homem foi julgado, condenado e apenado com a morte em Adão, e será apresentado perante o Trono Branco para ser julgado com relação às obras, segue-se que, para os que estão em Cristo, nenhuma condenação há.

Se permanecer na mesma condição que veio ao mundo, o homem seguirá para o Grande Trono Branco na condição de condenado à perdição eterna. Neste tribunal somente será analisada as obras do condenado, e, consequentemente, não haverá salvação ( Ap 20:15 ).




O homem após a queda

O homem após a queda morreu para Deus e passou a viver para o pecado, e segue o curso do mundo (existência separada da vida que há em Deus).


O homem após a queda

Com a condenação de Adão todos os homens passaram a condição de mortos para Deus. Toda a humanidade passou a nascer da semente corruptível, a semente corrompida de Adão. Estes estão mortos para Deus, e vivos para o mundo. O homem nascido da semente de Adão não tem vínculo com Deus: está morto em delitos e pecados. Está em inimizade, não tem paz com Deus.

A penalidade descrita na ordenança divina para a desobediência de Adão foi clara:

“…pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Adão desobedeceu, foi condenado e apenado com a morte.

“E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação” ( Rm 5:18 ).

Alguns estudiosos não vêem desta maneira, pois questionam se realmente uma pena foi imposta por Deus ao primeiro homem, visto que Adão não ‘morreu’ de imediato. Por não compreenderem a penalidade descrita por ‘certamente morrerás’, pensam que a penalidade refere-se ao termino das funções vitais do corpo físico de Adão.

Mas, este não é o conceito de morte que Deus estabeleceu quando disse: “…certamente morrerás” ( Gn 2:17 ). A morte física foi estabelecida quando Deus diz: “…és pó, e ao pó tornarás” ( Gn 3:18 ), e difere da penalidade imposta pela desobediência de Adão.

Certa feita Jesus disse que todos os que desceram ao pó da terra, vivem para Deus ( Lc 20:38 ). Se os que descem ao pó da terra continuam existindo para Deus, isto demonstra que a pena de morte imposta a Adão atingiu a natureza de Adão.

Todos os que descem a tumba fria para Deus vivem (continuam a existir), mas os que permanecem vivos sob a condenação de Adão, para Deus estão mortos: alienados, separados.

Sobre este aspecto o Novo Testamento é bem esclarecedor: se o homem não houvesse morrido em Adão, jamais o apóstolo Paulo diria que estávamos mortos ( Ef 2:5 ). Por diversas vezes o apóstolo Paulo, ao se referir às pessoas que ainda não tiveram um encontro com Cristo, aponta a condição delas como ‘mortas’.

Após a queda de Adão os homens passaram a ser designados como sendo filhos da ira, filhos da desobediência, filhos da carne, filhos da vontade do varão, filhos nascidos do sangue ( Ef 2:2 e 3; Jo 1:13 ). O homem passou estar debaixo da ira divina. Por ser filho nascido da vontade da carne, passaram a ser carnais. Filhos de Adão.

Com a condenação de Adão todos os homens passaram a condição de mortos para Deus. Toda a humanidade passou a nascer da semente corruptível, a semente corrompida de Adão. Estes estão mortos para Deus, e vivos para o mundo. O homem nascido da semente de Adão não tem vínculo com Deus: está morto em delitos e pecados. Está em inimizade, não tem paz com Deus.

O homem após ter morrido para Deus passou a viver para o pecado e segue o curso do mundo (existência separada da vida que há em Deus), que é segundo Satanás. Por natureza o homem está fadado a receber a ira de Deus.

Após a separação da vida que há em Deus, a humanidade passou a viver segundo a futilidade de seus pensamentos; com o entendimento obscurecido; e, continuam separados de Deus por causa da ignorância ( Ef 4:18 ). Os incrédulos seguem entenebrecidos no entendimento e não se deixam iluminar pela luz que é Cristo ( 2Co 4:4 ; 1Jo 1:5 ).

Estes permanecem debaixo da condenação estabelecida em Adão.

Mas, alguém poderia questionar a justiça de Deus por estar a humanidade perdida em conseqüência da queda de Adão. Sobre este aspecto da queda da humanidade em Adão Paulo deixou registrado o seguinte:

“Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Dirá a coisa formada ao que a formou: Porque me fizeste assim?” ( Rm 9:20 )

Quem é o barro para contestar o Oleiro? Deus tem todo poder sobre o barro (os homens), para de uma mesma massa fazer vasos para honra e vasos para desonra ( Rm 9:21 ). O apóstolo Paulo deixa bem claro que os vasos para desonra são criados em Adão, visto que em Adão surgem ‘os vasos da ira preparados para a perdição’ ( Rm 9:22 ), porém, da mesma massa que se formou os vasos para desonra, Deus faz vasos para honra, que são criados em Cristo, o último Adão.

Todos quantos aceitam o sacrifício de Cristo na cruz do calvário, estes são de novo criados e feitos vasos para honra “… os quais somos nós…” ( Rm 9:24 ).

Antes, quando estávamos mortos em delitos e pecados, éramos vasos para desonra, preparados para a ira e perdição ( Ef 2:1 -3). Hoje, após nascermos da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, nós que cremos em Cristo somos vasos para honra ( 1Pe 1:23 ).

Todos que nasceram somente da vontade da carne, da vontade do homem e do sangue, estão mortos perante Deus. Precisam nascer da água e do Espírito, ou seja, de Deus e da sua palavra, que é viva e eficaz ( Jo 1:12 -13).