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03Jesus não falou do amor segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou ‘ágape’. O amor da qual Jesus fala é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15). O amor que Jesus exige é serviçal, sujeição ao seu senhorio…


O amor de Deus é condicional e não sentimental

Introdução

Qual a natureza do amor bíblico? Como entender a declaração: ‘Deus é amor’? Para essas perguntas há mil e uma respostas, inúmeros sermões, uma vastidão de livros e muitas definições, acerca do amor de Deus.

No seu livro ‘Os quatro amores’, no primeiro parágrafo da introdução[1], C. S. Lewis deixou registrado que acreditou que, no axioma ‘Deus é amor’, conforme anunciado pelo evangelista João, encontraria um caminho plano para o assunto, mas, ao que parece, pelas argumentações no seu livro, que Lewis não conseguiu encontrar um caminho plano.

Lewis deixou a Bíblia de lado e foi buscar nos termos gregos[2], que se traduzem por amor, a inspiração necessária para abordar o tema. Ele buscou nos termos στοργη (storge) afeição fraternal, φιλια (philia) amizade, έρως (eros) sexualidade e αγαπη (agapē) caridade, o conhecimento que o levou a uma concepção[3] própria do amor bíblico, e elegeu o agapē como o maior dos amores,  como uma virtude puramente cristã.

Mas, por que não se contentar com o axioma ‘Deus é amor’? Não há na Bíblia um caminho plano para o assunto?

O axioma anunciado pelo evangelista João: “… ὅτι ὁ θεὸς ἀγάπη ἐστίν” no grego ou, na língua portuguesa: “… porque Deus é amor” ou, na língua inglesa: “…because God is love” ou, em qualquer outro idioma ou dialeto, possui o mesmo valor.

O ‘agapē’, por ser escrito no grego, não é superior ao ‘love’ inglês, principalmente por causa do contexto onde é utilizado. Não é Lewis quem define o significado do amor bíblico e nem os lexicógrafos, mas, sim, o contexto onde foi utilizado.

O mesmo autor, que disse: ‘Deus é amor’, em seguida, definiu o amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes, que andeis nEle” (2 Jo 1:6).

Essa definição joanina será a bússola que nos conduzirá durante a análise do tema e que permitirá chegarmos a um entendimento seguro da natureza do amor de Deus para com os homens.

 

O amor dos homens para com Deus

Sobre o uso do termo amor, Jesus deixou explicito, de como amar a Deus:

“Mas, é para que o mundo saiba, que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Jesus amava a Deus, fazendo, especificamente, o que Ele ordenou e qualquer que diz amar a Deus, tem que fazer, exatamente, o que Jesus fez: obedecer a Deus!

Nesse mesmo sentido, qualquer que diz ‘amar’ a Jesus, tem que obedecer aos Seus mandamentos, pois, se não obedecer aos mandamentos de Jesus, significa que não O ama (Jo 14:21 e 23-24).

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama. não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou” (Jo 14:23-24).

Jesus não falou do amor, segundo os termos gregos ‘storge’, ‘eros’, ‘philia’ ou, ‘ágape’. O amor, do qual Jesus falou, é condicional, portanto, foge das definições que muitos livros de teologia apresentam:

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15).

O amor que Jesus exige é serviçal, sujeito ao seu senhorio, conforme expresso no seu convite:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11:28-30).

“E por que me chamais, SENHOR, Senhor, se não fazeis o que eu vos digo?” (Lc 6:46).

Qualquer que se achegar a Cristo, precisa tomar sobre si o jugo de Jesus, se fazendo servo, ou seja, é o mesmo que humilhar-se a si mesmo. “E o que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar, será exaltado” (Mt 23:12).

 

O amor de Deus para com os homens

Ao fazer o que Deus manda, o homem ama a Deus e, em contra partida, o homem estará sob o amor de Deus, ou seja, sob o seu cuidado, como se lê:

“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15:10).

A definição do amor bíblico foi dada por Deus ao povo de Israel, por intermédio de Moisés, conforme expresso no livro do Êxodo:

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Ex 20:6).

Assim, decorre de Êxodo 20, verso 6, a declaração: “Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

Os que guardam os mandamentos de Deus, são os que O amam, portanto, Deus ama os que O amam, ou seja, faz misericórdia aos que guardam o Seu mandamento.

Voltemos à definição joanina do amor de Deus:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5:3).

O amor de Deus está expresso em seus mandamentos e os homens, por sua vez, amam a Deus, obedecendo-O. Quando Deus dá um mandamento, há um objetivo: a obediência de um coração puro.

“Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida” (1 Tm 1:5)

Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo não falou do fim da lei, antes, do objetivo do mandamento de Deus: a obediência. O termo grego τέλος (telos), traduzido por ‘fim’, na verdade significa ‘finalidade’, ‘objetivo’. O mandamento que o apóstolo Paulo destaca, refere-se à doutrina do evangelho (1 Tm 1:3).

O mandamento de Deus expressa o Seu cuidado e tem por objetivo a obediência do homem e quando a obediência ocorre, o homem estará ao abrigo do cuidado de Deus.

O leitor deve estar atento, pois, algumas vezes, os escritores bíblicos fazem referência ao amor de Deus e outras vezes, ao amor do homem. Por exemplo, neste verso da epístola de João, o amor em destaque é o do homem:

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

O amar que não remete ao medo, não diz do amor de Deus, mas, sim, do amor do homem. O amor como obediência, não tem espaço para o medo, antes a perfeita obediência lança fora o medo. O medo só vem à tona por causa da pena e, qualquer que tem medo, é porque não é um obediente perfeito.

O salmista, no Salmo 71, faz referência ao mandamento de Deus que salva, expressão do amor de Deus:

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer, continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Um exemplo de amor bíblico, ocorre no evento em que Jesus se encontra com o jovem rico. Ao amar o jovem rico, Jesus deu-lhe um mandamento: – “Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21).

Caso o jovem desse ouvidos à ordem de Cristo, teria obedecido ao Mestre. Em outras palavras, haveria amado a Cristo e seria amado por Deus. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama, será amado de meu Pai, eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21).

Semelhantemente, Deus, ao amar homens de todas as tribos, povos e línguas (mundo), deu o seu Filho Unigênito, pois, em Cristo, está implícito o Seu mandamento, um mandamento que salva: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 3:23), visto que o amor de Deus é especifico:

“Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos” (1 Jo 4:9).

“E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos” (2 Jo 1:6).

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

O apóstolo João destaca que os cristãos só amam a Deus, porque Deus os amou primeiro: “Nós o amamos a ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:19). O amor de Deus para com a humanidade foi manifesto, quando Ele enviou o Seu Filho Unigênito ao mundo, porém, o amor de Deus foi estabelecido na fundação do mundo, uma vez que o cordeiro de Deus foi morto, desde a fundação do mundo (Ap 13:8).

Só é possível obedecer, quando há um mandamento, uma vez que, primeiro Deus deu o Seu mandamento em Cristo, daí o ‘amamos (obedecemos) a Ele, porque Ele nos amou (deu um mandamento) primeiro’.

Deus estabeleceu o seu mandamento, já na fundação do mundo. Deus não tem que provar nada e nem deu provas, antes, ‘estabeleceu’ o Seu amor, quando fundou o mundo, uma vez que o cordeiro foi morto, desde a fundação do mundo e o evidenciou aos olhos do mundo, na plenitude dos tempos, quando Cristo veio e morreu na cruz!

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

O apóstolo Paulo, ao abordar o amor de Deus, evidencia que Ele estabeleceu o seu amor para com os cristãos, no fato de Cristo ter morrido, quando ainda éramos pecadores. Os tradutores utilizam o verbo ‘provar’, para traduzir as variantes συνισταω (sunistao), συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi) [4].

A ideia de um amor que admite prova, é decorrente do humanismo, movimento cultural/filosófico que se apegou aos conceitos filosóficos platonista e aristotélico, e que, em muitos casos, deixou de lado o sentido da linguagem do homem do campo, da antiguidade, que permeava as relações aristocráticas.

 

O termo ‘ágape’

Cristo, por sua vez, ao fazer uso do termo αγαπη (agapē), não o fez, no sentido de caridade, mas, no sentido de honra. Para que o mundo soubesse que Cristo honrou o Pai, Ele fez, especificamente, o que o Pai ordenou: “Mas, é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui” (Jo 14:31).

Apesar dos estudiosos conhecerem a essência do termo grego αγαπη (agapē), quando abordam o tema ‘amor’ na Bíblia, dão um novo significado ao termo e fazem um desserviço ao evangelho. Observe:

“Amor (gr. agape) (1 Pe 4.8; Rm 5.5, 8; 1 Jo 3.1; 4.7, 8,16; Jd 21) Esta palavra raramente era usada na literatura grega, antes do Novo Testamento. E quando isso acontecia, ela era usada para expressar um ato de gentileza aos estrangeiros, de oferecer hospitalidade e ser caridoso”. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao Alcance de Todos, Editores Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H. Wayne House, Rio de Janeiro, 2010, pág. 701.

“agapaõ que, originalmente, significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no Gr. clássico, a palavra que tem menos definição específica; frequentemente, se emprega como sinônimo de phileõ, sem haver qualquer distinção, necessariamente nítida, quanto ao significado (…) 4. Não está clara a etimologia de agapaõ e agapè. O vb. agapaõ aparece, frequentemente, na literatura gr. de Homero em diante, mas o subs. agapè é uma construção, que só aparece no Gr. posterior. Foi achada uma só referência fora da Bíblia: ali, a deusa Isis recebe o título de agapè (P. Oxy, 1380, 109; século II d.C.), agapaõ é frequentemente uma palavra descolorida em Grego e aparece, com frequência, como alternativa para, ou sinônimo com, eraõ e phileõ, com o significado de “gostar de”, “tratar com respeito”, “estar contente com”, e “dar as boas-vindas”. Quando, em raras ocasiões, se refere a alguém que foi favorecido por um deus (cf. Dio. Cris., Orationes 33, 21), fica claro que, diferentemente, de eraõ, não se refere ao anseio humano por posses ou valores, mas, sim, uma iniciativa generosa de uma pessoa por amor à outra”. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown] — 2ª ed. — São Paulo; Vida Nova, 2000, págs. 113 e 114.

Por causa da má leitura do termo αγαπη (agapē), quando empregado nas Escrituras, surgiu a ideia de que o amor de Deus é incondicional[5], ou seja, que Deus não exige nenhum quesito para amar e nem espera reciprocidade. Por outro lado, as Escrituras apresentam o amor de Deus, em outros termos:

“Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

O amor de Deus para com o homem é condicional, pois Ele ama aos que O amam. É condicional por haver um quesito e demanda reciprocidade. Concluir que o amor de Deus é incondicional, geralmente decorre da má leitura dos seguintes versículos:

“Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou (…) Nós o amamos a Ele, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4:10 e 19).

“Mas, Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

Só é possível ao homem amar a Deus porque Ele amou primeiro, ou seja, se Deus não houvesse primeiramente dado um mandamento aos homens, seria impossível aos homens amarem a Deus. Daí a definição joanina:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).

A essência do amor bíblico é a obediência à palavra de Deus, enquanto as elucubrações humanas entendem o amor, a partir de termos gregos e daí surgem só especulações, como: amor-doação, amor-entrega, que sai de si, em benefício do outro, capaz de doar-se, dar a vida, amor que faz tudo pelo amado, amor incondicional, amor que também é perdão, amor-caridade, misericórdia, etc.

Observe a exposição de Bancroft, acerca do amor de Deus:

“Assim como existe uma mente mais alta que a nossa, semelhantemente, existe um coração maior que o nosso. Deus não é, simplesmente, Aquele que ama; Ele é igualmente o Amor que é amado. Há uma infinita vida de sensibilidade e afeição em Deus. Deus tem sensibilidade e isso, em grau infinito. O sentimento por si só, porém, ainda não é amor. O amor implica não apenas em receber, mas em dar, não meramente em emoção, mas em concessão…”  Bancroft, Emery H., Teologia Elementar, Doutrinária e Conservadora, Editora Batista Regular, São Paulo, 2001, pág. 73.

A definição de Bancroft não passa de tergiversações e elucubrações, sem nenhuma fundamentação bíblica, pois trata o amor de Deus do ponto de vista da sensibilidade e da afeição humana.

Um exemplo claro do amor de Deus, nas Escrituras, encontramos na pessoa de Naamã, o capitão do exército do rei da Síria. Naamã não nutria nenhuma sensibilidade ou afeição pelo Deus de Israel, visto que ele nem mesmo sabia que somente em Israel havia Deus.  Ao saber que teria de mergulhar sete vezes no rio Jordão, a reação de Naamã foi de indignação.

Do mesmo modo, Deus não fez concessões e nem se sensibilizou com Naamã, por causa da sua enfermidade. Se Deus não se sensibilizou para atender aos milhares de leprosos que haviam em Israel, não seria o caso de se sensibilizar por um único homem estrangeiro (Lc 4:27).

O amor de Deus foi demonstrado por intermédio de um mensageiro do profeta, que disse: – “Vai e lava-te sete vezes no Jordão, que a tua carne será curada e ficarás purificado” (2Rs 5:10). Deus não se ocupou com o fato de Naamã ficar indignado e nem com a ideia que ele possuía acerca de Deus e do seu profeta (2Rs 5:11), mas, sim, em que se obedecesse à Sua palavra.

Deus não se sensibilizou e nem sentiu qualquer afeto pela viúva de Sarepta, de Sidom, pois, em igual situação, estavam muitas outras viúvas em Israel. Ele atendeu a viúva, por ela se dispor a atender a ordem de Deus: sustentar o profeta de Deus, mesmo não tendo recursos para fazê-lo: “Levanta-te e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente” (1Rs 17:9).

Devemos conhecer (tornar um com Ele) e prosseguir em conhecer ao nosso Deus (Os 6:3), pois o que Ele requer é a obediência:

“Porque eu quero a misericórdia e não o sacrifício e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22).

Mas, como ler o verso 16, do capítulo 3, do evangelho de João?

“Porque Deus amou ao mundo de tal[6] maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16).

Como temos a definição joanina: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos”. (1 Jo 5:3), para compreendermos o verso 16, de João 3, temos que localizar onde está expresso o mandamento de Deus que os homens devem guardar.

Como desconhecem a natureza do amor de Deus, muitos intérpretes da Bíblia vislumbram, equivocadamente, que, no ato de Deus dar o Seu Único Filho, tem-se prova da intensidade do amor de Deus.

Considerando o texto na língua grega, verifica-se que Jesus estava explicando a Nicodemos como Deus amou o mundo: deu o Seu Filho único, o que é completamente diferente da ideia de que Deus amou intensamente o mundo. Ao dar o Seu Filho, temos como Deus amou o mundo, não um vislumbre da intensidade do amor de Deus.

“οὕτως[7] γὰρ[8] ἠγάπησεν[9] ὁ θεὸς τὸν κόσμον, ὥστε τὸν υἱὸν τὸν μονογενῆ ἔδωκεν ἵνα πᾶς ὁ πιστεύων εἰς αὐτὸν μὴ ἀπόληται ἀλλ’ ἔχῃ ζωὴν αἰώνιον” (João 3:16), Westcott and Hort.

“assim[2] Pois[1] amou[4] deus[3] o mundo, que o[2] Filho[3] único[4] deu[1], para que todo o que crê em ele não pereça mas tenha vida eterna”. Novo Testamento Interlinerar,  grego-português, Barueri, SP, SBB, 2004.

O texto, na língua grega, não tem um advérbio que modifique o sentido do verbo ἠγάπησεν (amou) intensificando-o, antes, temos um advérbio explicativo: οὕτως (deste modo, assim, desta maneira). Entretanto, apesar de não termos um advérbio que intensifique a ação do verbo, os tradutores passaram a considerar que o termo grego ἠγάπησεν (ēgapēsen), traduzido por ‘amou’, demonstra intensidade.

O termo ἠγάπησεν ocorre 12 vezes no Novo Testamento, incluindo João 3, verso 16: Marcos 10:21; Lucas 7:47; João 13:1; João 15:9; Efésios 2:4; Efésios 5:2 e 25; 2 Pedro 2:15; 1 João 4:10-11 e 19 e, em nenhuma dessas referências, o termo ἠγάπησεν denota amor com intensidade.

Vale destacar que, no capítulo 2 da carta de Paulo aos Efésios, verso 4, o apóstolo faz referência a Deus como rico em misericórdia, em virtude do seu grande amor. Mesmo fazendo referência à grandeza do amor de Deus, dimensionando-o, o apóstolo dos gentios afirma somente que Deus amou, portanto, não faz referência à ideia de intensidade.

O apóstolo Paulo ao fazer referencia aos elementos que utilizamos para dimensionar um objeto (largura, comprimento, altura e profundidade), demonstra que o amor de Deus é um conhecimento invariável e plenamente compreensível “Poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” (Ef 3:18).

“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou” (Ef 2:4).

Percebe-se que os tradutores do Novo Testamento seguiram a tendência dos tradutores da Septuaginta[10], que utilizaram o termo grego αγαπαω. para verterem o termo hebraico עגב, donde a concepção de intensidade, quando da tradução do termo ἠγάπησεν, no verso em comento, possivelmente surgiu.

Se o leitor seguir a definição dada pelo evangelista João e procurar o mandamento de Deus no versículo em análise, verá que Deus deu o Seu Filho com uma finalidade: para que, qualquer (judeu ou grego) que crer em Cristo, não pereça, mas tenha a vida eterna. Em crer em Cristo está o mandamento de Deus, como se lê:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Portanto, o amor de Deus é objetivo[11]: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, como já lemos:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3).


[1] “Deus é amor”, diz o apóstolo João. Quando tentei começar a escrever este livro pensei que seu axioma iria fornecer-me um caminho plano, através de todo o assunto. Estava certo de poder dizer que o amor humano só merecia ser assim chamado, naquilo em que se assemelhava àquele Amor que é Deus” Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[2]  Para os eruditos, o amor possui quatro vertentes, conforme os termos gregos utilizados para fazer referência ao amor: Storge, Eros, Philia e Ágape. Analisam o amor através da mitologia grega ou, através dos escritos de Platão (Eros) ou, procuram compreender o amor através da percepção de Aristóteles (philia), e, quando se deparam com a Bíblia, alegam que as ideias ditas cristãs devem ser analisadas através do amor ‘ágape’.

[3] “Deus é amor. De novo: “Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou” (I João 4:10). Não devemos principiar com misticismo, com o amor da criatura por Deus, ou com a maravilhosa antecipação da fruição de Deus, concedida a alguns na vida terrena. Começamos no verdadeiro inicio, com o amor, como a energia Divina. Este amor primevo é o amor-Doação. Em Deus não existe fome a ser satisfeita, apenas fartura que deseja doar. A doutrina de que Deus não tinha necessidade de criar não é uma peça de especulação acadêmica, mas essencial”. Lewis, C. S., Os quatro amores, 2ª ed., São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009.

[4] “4921 συνισταω (sunistao) ou (fortalecido) συνιστανω (sunistano) ou συνιστημι (sunistemi), de 4862 e 2476 (que inclui suas formas concomitantes); TDNT – 7:896, 1120, v. 1) estabelecer com, colocar no mesmo lugar, juntar ou unir 1a) permanecer com (ou próximo) 2) colocar alguém com outro 2a) apresentando-o ou introduzindo-o 2b) compreender 3) colocar junto por composição ou combinação, ensinar pela combinação e comparação 3a) mostrar, provar, estabelecer, exibir 4) colocar com, unir as partes num todo 4a) ser composto de, consistir”, Dicionário Bíblico Strong.

[5] “Mas o amor-Doação divino – o próprio Amor operando no homem – é inteiramente desinteressado e deseja o que é, simplesmente, melhor para o ente amado” Lewis, C. S., Os Quatro Amores.

[6] “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que não morra quem nele acredita, mas tenha a vida eterna”. Nova Bíblia Pastoral, Editora Paulus, 2014.

[7] “3779 ουτω (houto) ou (diante de vogal) ουτως (houtos) de 3778; adv 1) deste modo, assim, desta maneira”, Dicionário Bíblico Strong.

[8] “1063 γαρ (gar), partícula primária; conj 1) porque, pois, visto que, então”, Dicionário Bíblico Strong.

[9] “25 αγαπαω (agapao) talvez de agan (muito) [ou cf 5689 עגב ]; TDNT 1:21,5; v 1) com respeito às pessoas 1a) receber com alegria, acolher, gostar muito de, amar ternamente 2) com respeito às coisas 2a) estar satisfeito, estar contente sobre ou com as coisas. Sinônimos, ver verbete 5914”; “05689 agab (עגב), uma raiz primitiva, grego 25 αγαπαω; DITAT, 1559; v 1) (Qal) ter afeição desordenada ou cobiça 1a) cobiça (particípio) 1b) amantes (particípio como subst)”, Dicionário Bíblico Strong.

[10] “Na LXX, agapaõ se emprega, de preferência, para traduzir o verbo heb. Ãhèb. O subs. agapè acha aqui a sua origem, ao representar o Heb. ’ah bâk. O vb. Ocorre, muito mais, frequentemente, do que o subs. ’ahèb e pode se referir, tanto a pessoas, como a coisas, e denota, em primeiro lugar, o relacionamento de seres humanos entre si, e, em segundo lugar, o relacionamento entre Deus e o homem (…) Na LXX (Septuaginta), surge diante de nós um quadro bem diferente’; phileõ, ocorre raras vezes, enquanto o vb. agapaõ, e o subs. agapè (doutra forma, quase, inteiramente, desconhecido no Gr.) se acham a cada passo. Não é possível discernir se se empregam conforme regras fixas, pois phileò (30 vezes), tal como agapaò (cerca de 263 vezes), geralmente traduz o Heb. ahèb (e.g. Gn 27:4 e segs.; 37:4 [cf. 37:3]; Is 56:10; Pv 8:17 [cf. 8:21]). Embora o Heb. tenha uma gama inteira de palavras para expressar o conceito contrário do ódio (enquanto a LXX só tem a palavra única miseõ – Inimigo, art. miseõ), tem, virtualmente, a única raiz .ahèb à sua disposição para a gama de sentimentos, que se associam com o amor. O Gr., de outro lado, tem várias raízes e palavras derivadas para expressar as várias matizes do amor: philia (38 vezes), que geralmente traduz ‘aheb, ’ahabâh, é comparativamente rara, embora philos (cerca de 181 vezes), que, geralmente, traduz rèa, embora, frequentemente, sem equivalente heb., seja mais comum na LXX”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordón Chown], 2ª ed., São Paulo, Vida Nova, 2000, págs. 114 e 121.

[11] “A névoa do subjetivismo, permeado pelo idealismo, que as concepções religiosas de nossos dias prescrevem aos seus seguidores, através do termo ‘amor’, não guarda relação com o imperativo grave e objetivo definido no N. T., como: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Lc 16:13)” Crispim, Claudio, in A obra que Demonstra Amor a Deus, São Paulo, NewBook, 2012, pág 78. “Tanto o amor de Deus, quanto o amor a Deus, é objetivo: Cristo é o amor de Deus e quem O obedece, O ama. Quando compreendemos o amor, segundo o proposto por Cristo e pelos apóstolos, saímos do campo do subjetivismo. O amor deixa de ter relação com o que se passa no íntimo do sujeito pensante: julgamentos, sentimentos, hábitos, paradigmas, etc., de cada indivíduo, visto que o mandamento de Deus não sofre variação”, idem, pág. 108.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

10 comentários em “O amor de Deus

  • 04/02/2018 em 18:28
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    A ideia que eu tinha, no fato do amor de Deus, venho a se confirmar com essa explicação muito consistente a respeito do fato da Incondicionalidade. Nós somos semelhança de Deus e nosso amor sempre depende de uma condição, como por exemplo, carinho, respeito, etc. Sim Deus ama aqueles que fazem o mandamento Dele e tem misericórdia e paciência daqueles que ainda não fazem, por isso não caiamos na armadilha de que Deus ama a todos incondicionalmente, Façamos o que é certo e andemos em seus mandamentos para que consigamos andar nessa vida sem medo tendo o firme pensamento de que Deus , pelo seu Amor nos livrará nas horas difíceis e nos dará força para atravessar esse Jordão.

    Resposta
  • 26/09/2019 em 08:11
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    Leitura muito interessante e estou ávido de perceber melhor a tese defendida pelo seu autor. De facto, em Deus, não deverá existir, com toda a certeza, contradição ou mudanças de significado. A Sua natureza será imutável e só a limitação humana permite que surjam múltiplas interpretações da Palavra.

    No entanto, do aqui li, fica-me a sensação de que se corre o risco de afirmar o que Deus pode ou não pode fazer, de colocar limites à sua Misericórdia, o que seria inteiramente desprovido de senso. Mesmo analisando as passagens da Bíblia escolhidas para ilustrar o que o autor deste texto deseja afirmar, fico com a sensação de que se subverte a lógica.

    Por exemplo, a passagem escolhida, “Eu amo aos que me amam e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

    O comentário do autor foi o seguinte: «Os que guardam os mandamentos de Deus, são os que O amam, portanto, Deus ama os que O amam, ou seja, faz misericórdia aos que guardam o Seu mandamento». A interpretação do autor parece-me intocável e é exactamente o que está escrito na passagem supra citada. O meu problema está quando se vai além do que ali está escrito, porque parece-me claro que o evangelista afirma que Deus ama os que O amam e guardam o Seu mandamento, mas nada afirma sobre os que não guardam. Aqueles que reconhecem Cristo como a Palavra de Deus e O seguem são amados. Não encontro em lado nenhum dizer que Deus não ama a quem não O segue ou mesmo não O conhece.

    Parece-me que a única coisa que poderia inferir daquela passagem seria: se Deus não me ama, então eu não o amo nem sigo o Seu mandamento. Mas Deus amou-nos primeiro (1Jo 4:19), pelo que a hipótese terá de ser falsa.

    Como disse, estou procurando entender, pelo que se o autor tiver a paciência de me esclarecer, ficaria muito agradecido. Desculpe se a minha dúvida for descabida. Me perdoe pois também eu tenho as minhas limitações. Obrigado pela sua atenção.

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    • 26/09/2019 em 08:37
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      Só um esclarecimento… não defendo de maneira nenhuma que o Senhor Nosso Deus, a todos recebe no seu Reino, de qualquer jeito… mas o Senhor é Rei e só Ele tudo sabe.

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  • 26/09/2019 em 12:14
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    Olá, Carlos…

    Não somos nós que estabelecemos o que Deus pode ou não fazer. Isto é fato. Mas, Deus não pode fazer algumas coisas, sendo que Ele é todo poderoso? De fato não pode fazer algumas coisas: Ele não pode mentir e não pode negar a si mesmo. Deus não pode deixar de fazer justiça, etc.

    Com relação a misericórdia, temos:

    “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará” (Dt 7:9-10).

    Ora, se Deus ama os que O amam, tautologicamente, os que não O amam Ele não ama, ou seja, retribuirá em rosto, fazendo perecer os que não O amam.

    Quando se vai além do que está escrito, corremos um risco, pois nos apegamos ao que pensamos e não ao que está de fato escrito. (1 Co 4.3).

    Lendo Deuteronômio 7, fica cristalino que quem ama Deus ama, mas que odeia, Deus retribui em rosto, fazendo o tal perecer, de modo que encontra-se nas Escrituras várias passagem que assim demonstram.

    O problema da leitura que o dileto irmão fez utilizando-se da passagem de 1 Jo 4.19, é o conceito que se tem de amor hoje. A ideia de amor do homem da atualidade é sentimento, sendo que o homem à época dos apóstolos tinham no amor ágape a ideia que rege a relação senhor versus escravo.

    A ideia de amor está para submissão, assim como a ideia de ódio para insubmissão:

    “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” (Lucas 16 : 13)

    Quando é dito que Deus nos amou primeiro, isto significa que Deus nos deu um mandamento primeiro, para que por meio do seu mandamento O amassemos, e não que Deus se afeiçoou de nós primeiro.

    Jesus amou o jovem rico primeiro quando disse: vai e vende tudo o que tense dá aos pobres.

    “E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me.” (Marcos 10 : 21)

    O amor de Deus está em dar a oportunidade de o homem se fazer servo, mas o jovem rico não obedeceu, ou seja, não se fez servo, não amou. Deus ama ao dar um mandamento, e o homem ama ao obedecê-Lo.

    “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.” (João 14 : 21)

    Para o jovem rico ser salvo tinha que ter a mesma fé que o crente Abraão, e por isso, Jesus o amou dando-lhe um mandamento. Deus amou Abraão ao ordenar sai do meio da tua parentela, e Abraão amou ao sair. Deus ordenou a Abraão, oferece em sacrifício o seu único filho, e Abração amou ao oferecer Isaque.

    O jovem rico julgava ser filho de Abraão, mas não amou a Cristo.

    “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.” (Mateus 10 : 37)

    Fico feliz pelo interesse do irmão em querer compreender essas nuances.

    Tem outros artigos que abordam o tema e que pode auxilia-lo quanto ao significado do termo amor na bíblia.

    Att.

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  • 26/09/2019 em 19:51
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    Olá Cláudio,

    Antes de mais quero dizer-lhe que lhe estou profundamente grato pela sua resposta rápida, cuidada e pedagógica. Devo dizer que estou entendendo melhor o que está querendo afirmar. Espero não estar abusando da sua boa vontade ao apresentar seguidamente mais algumas dúvidas que melhor poderão esclarecer essas nuances que mencionou.

    Olhando para outras passagens da Bíblia encontramos o seguinte:

    Jesus disse: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei, para que também vós vos ameis uns aos outros». (João 13:34)

    Que amor é esse sobre o qual Jesus fala? Amar-mo-nos «como» Ele nos amou? Quererá Ele que nos amemos uns aos outros como servos e senhores? Quem são os servos e quem são os senhores? Que demos mandamentos uns aos outros? Com que autoridade?

    Disse ainda: «Ouvistes o que foi dito : amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Mas eu digo-vos: amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para vos tornardes filhos do Pai vosso, do que está nos céus, porque Ele faz nascer o sol para maus e bons e chover em cima dos justos e injustos. Se amais aqueles que vos amam, que compensação tendes nisso?» (Mateus 5:43)

    Que quer Jesus dizer aqui? Amar os nossos inimigos e não odiá-los? Retribuir ódio com amor? Parece estar pedindo para fazermos entre nós o contrário do que o Cláudio defende que Deus faz connosco. Então se assim é, porque pediu Ele que amássemos como Ele nos amou? Esta nuance se revela muito difícil de entender.

    E porque chorou Jesus diante de Jerusalém e diante da família de Lázaro? Que sentimentos foram aqueles?

    Por último, outra dúvida me assalta. Se o Senhor Jesus, o Cristo, é a Palavra de Deus encarnada, as Suas palavras não podem ser senão perfeitas. Da Sua boca saíu unicamente aquilo que quis dizer. Porque haveria de se sujeitar a vícios de linguagem como tautologias, ao invés da mais perfeita lógica?

    Mais uma vez espero não estar abusando da sua paciência e considere-me grato pela atenção que me dispensou.

    Resposta
    • 26/09/2019 em 21:58
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      Olá, amado..

      Para explicar esses versículos tive que escrever o livro ‘A obra que demonstra amor a Deus’.

      https://estudosbiblicos.org/o-perfeito-amor-lanca-fora-o-temor/
      https://estudosbiblicos.org/critica-ateista-ao-amor-de-jesus/
      https://estudosbiblicos.org/o-emprego-do-termo-agape-na-biblia/
      https://estudobiblico.org/deus-odeia-o-pecado-mas-ama-o-pecador/

      Quando a Bíblia diz que Cristo é a palavra de Deus encarnada, significa que a palavra de Deus foi cabalmente cumprida em Cristo, pois todas as promessas que há de Deus, por Cristo é o sim.

      “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós.” (II Coríntios 1 : 20)

      Quando falei de tautologia, não disse do ponto de vista gramatical, e sim do ponto de vista lógico.

      LÓGICA
      proposição analítica que permanece sempre verdadeira, uma vez que o atributo é uma repetição do sujeito (p.ex. o sal é salgado ).

      Quando é dito, eu amo os que me amam, certo é que Deus não ama os que não O amam, o que não precisa ser dito, por tornar-se evidente do ponto de vista da lógica.

      Daí o recurso de se dizer de modo diferente:

      “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará” (Dt 7:9-10).

      A TAUTOLOGIA é utilizada em frases como: Deus é luz, e nele não há trevas nenhuma.

      Jesus chorou, ou seja, esse é um sentimento humano, que na Bíblia é expresso como ‘entranháveis afetos’, visto que o sentimento na antiguidade era descrito como algo proveniente das entranhas.

      “PORTANTO, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões,” (Filipenses 2 : 1)
      “Porque Deus me é testemunha das saudades que de todos vós tenho, em entranhável afeição de Jesus Cristo.” (Filipenses 1 : 8)

      Hoje vinculamos o sentimento ao coração, mas na antiguidade, sentimento era ‘vinculado’ as vísceras, entranhas.

      O mandamento de Jesus para salvação é: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.” (I João 3 : 23).

      É através desse mandamento que se expressa o amor:

      “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (I João 5 : 3).

      O amor de Deus é especifico: que se guarde o seu mandamento.

      Quando Jesus deu o mandamento novo aos seus discípulos, assim o fez com base no mandamento de Deus. De nada adiantaria os discípulos serem afetuosos uns com os outros, e não crerem em Jesus.

      Dai a premissa: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.” (I João 3 : 23).

      O cristão deve crer em Cristo para ‘amar’ a DEUS, e, amar uns aos outros segundo o seu mandamento, ou seja, segundo o evangelho. Se alguém anuncia um outro evangelho ou uma doutrina que não seja a de Cristo, não ama o ‘seu irmão’ segundo o mandamento de Cristo. Cristo amou os seus discípulos quando anunciou especificamente o que Deus determinou.

      “Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui.” (João 14 : 31)

      “E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito.” (João 12 : 50).

      Esse amor que Jesus fala, amar como ele nos amou, é sujeitar-se ao determinado por Ele. Quando Jesus perguntou se Pedro O amava, o amor estava em Pedro obedecer: apascentar as suas ovelhas.

      Como Jesus nos amou? Sujeitando-se beber o cálice dado pelo Pai. Ao crer, o homem é limpo pela palavra, mas tem que fazer com os irmãos o que Jesus fez com os discípulos, aos lavar os pés deles.

      Jesus disse: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei, para que também vós vos ameis uns aos outros». (João 13:34).

      Ao se fazer servo, amamos o nosso irmãos. Ao nos sujeitar uns aos outros, amamos os nossos irmãos, pois obedecemos o imposto por Cristo.

      “Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus.” (Efésios 5 : 21)

      O temor de Deus é o seu mandamento.

      Agora, com relação a determinação de Mateus, a análise é mais complexa ainda.

      Disse ainda: «Ouvistes o que foi dito : amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Mas eu digo-vos: amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para vos tornardes filhos do Pai vosso, do que está nos céus, porque Ele faz nascer o sol para maus e bons e chover em cima dos justos e injustos. Se amais aqueles que vos amam, que compensação tendes nisso?» (Mateus 5:43)

      Dê uma verificada na explicação do sermão do monte:

      https://estudosbiblicos.org/estudosbiblicos/novo-testamento/evangelho-mateus/

      Att.

      Resposta
  • 27/09/2019 em 09:49
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    Querido irmão,

    Antes de dizer alguma coisa mais quero só tornar claras as minhas intenções. Ao longo da vida e das experiências e aprendizagens, vão-se formando opiniões ou mesmo convicções sobre uma multitude de assuntos. Por formação, é sempre meu cuidado estar aberto a ouvir e a tentar compreender a opinião e argumentação de qualquer pessoa. Creio ser esse o verdadeiro espírito científico e, consequentemente, a melhor forma de procurar a verdade e não me deixar encurralar nos meus próprios esquemas mentais. Pois daí resulta que, ou a minha argumentação sai fortalecida, ou estou laborando num erro e posso corrigir. Essa minha atitude tem uma contrariedade grave: posso ser muito chato! Isso porque o método que conheço obriga-me a ir ao limite da argumentação para validar ou não aquilo que me estão dizendo. Por isso, se e quando me tornar chato ou inconveniente, peço que o Cláudio mo diga claramente, e pararei com o meu questionário. De todo o modo agradeço toda a sua paciência.

    Dito isto, vou prosseguir.

    Uma tautologia é, de facto, uma proposição sempre verdadeira, independentemente do valor lógico das suas proposições componentes, ou seja, o valor lógico dela depende da forma de como ela é construída e não da veracidade ou falsidade das proposições elementares que a compõem.

    Quando é dito, «eu amo os que me amam», esta proposição não é de forma nenhuma uma tautologia, pois a sua “forma” bem conhecida é uma condicional muito simples. Estas proposições são falsas quando o antecedente é verdadeiro e o consequente é falso, ou seja, se O amamos e Ele não nos ama. De qualquer outra forma, a proposição fica verdadeira, ou seja, quando: 1. nós O amamos e Ele nos ama; 2. nós não O amamos e ele não nos ama; 3. nós não O amamos e Ele nos ama.

    Portanto, se Deus não ama quem não O ama, isso precisa ser dito, do ponto de vista lógico. Poderia dar uma infinidade de exemplos de condicionais do mesmo género. É minha opinião de que se Jesus quisesse dizer isso mesmo, teria utilizado uma bicondicional, e tudo ficaria claro.

    No entanto, há um exemplo que me parece ser bastante claro quanto à misericórdia de Deus. Tem que ver com um homem que perseguia com ódio contra os que amavam a Cristo e eram amados por Ele e, portanto odiado (no contexto da sua tese) por Deus. Esse homem, Saulo, deveria ter sido retribuído no rosto e perecido. No entanto, encontrou misericórdia em Deus e foi um dos Seus apóstolos, Não o inverso. Dir-se-ia que Saulo foi retribuído no rosto e pereceu e renasceu pelo baptismo já como Paulo. Seguramente esta misericórdia o marcou para o resto da sua vida e isso ficou expresso nas suas epístolas que encontramos na Bíblia. Parece que o Senhor o quis salvar apesar do seu ódio. Não tentará Ele do mesmo modo com todos nós? Esperando o nosso amor para nos poder salvar?

    Quanto aos “entranháveis afectos”, de facto onde se lê afectividade deve ler-se vísceras ou entranhas, que inclui o coração, portanto algo que vem de dentro, fisiológico e emotivo porque consciente. Não será assim?

    Resposta
    • 27/09/2019 em 16:48
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      Obg por explicitar as suas intenções, Carlos… Sem problema algum fazer perguntas.

      É correto que uma tautologia é uma ‘proposição sempre verdadeira, independentemente do valor lógico das suas proposições componentes’.

      Do ponto de vista bíblico, temos que assumir que todas proposições atribuídas a Deus sempre serão verdadeiras. Quando é dito ‘eu amo os que me amam’ temos uma proposição simples, mas que em seguida é complementada: “e os que cedo me buscarem, me acharão.” (Provérbios 8 : 17). Esse tipo de construção na poesia hebraica é denominada paralelismo. Quando a segunda frase complementa ou enfatiza a ideia da primeira, temos um paralelismo sinônimo. Em um paralelismo sinônimo ocorre uma relação entre as frases que se aproxima de uma relação tautológica.

      O condicional da frase ‘eu amo os que me amam’, por ser verdadeiro, comporta uma negativa semelhante e igualmente verdadeira: eu não amo os que não me amam.

      “Folguem e alegrem-se em ti todos os que te buscam; e aqueles que amam a tua salvação digam continuamente: Engrandecido seja Deus.” (Salmos 70 : 4)
      “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8 : 28)

      Corretíssimo os números 1 e 2, mas o 3 não: 3. nós não O amamos e Ele nos ama.

      Outra questão que tem que ser observada, que tudo o que Jesus dizia vinculava-se as Escrituras, por isso, ao ler o que Jesus diz, temos que analisar o que foi dito através dos profetas. Ex:

      “Pois nunca deixará de haver pobre na terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra.” (Deuteronômio 15 : 11).

      Daí a afirmação:

      “Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes.” (João 12 : 8).

      Com relação a misericórdia, é um termo intercambiável, como se verifica:

      “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros.” (1 Sm 15.22)
      “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.” (Os 6.6).

      Nesse sentido, enquanto matava os amalequitas, Saul exercia ‘misericórdia’. Quando poupou a vida do rei Agague, deixou de exercer misericórdia. Dai voltamos ao verso inicial:

      “Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará” (Dt 7:9-10).

      A misericórdia de Deus foi manifesta em Cristo, pois ao dar o Cristo em resgate da humanidade, deu a todos os homens um mandamento: crer que Jesus é o Cristo.

      O apostolo Paulo odiava os cristão, um sentimento. Mas, ele fazia isso na ignorância. Se persistisse na ignorância, Deus haveria de retribuir segundo a desobediência de ‘Saulo’.

      “Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo;” (II Tessalonicenses 1 : 8)

      Mas, como Saulo ouviu a Cristo em tempo aceitável, e obedeceu ao evangelho, encontrou misericórdia. Não foi retribuído em rosto.

      O ‘ódio’ de Saulo era um sentimento em desfavor dos cristãos, e não com relação ao ‘evangelho’. O que ele fazia era na ignorância. Ao ter um contato com o evangelho, ele creu, ou melhor, obedeceu, portanto, já fugiu da ira futura.

      A misericórdia que marcou o apóstolo Paulo foi manifesta em Cristo, e como Deus tem misericórdia dos que obedecem o seu mandamento, ao crer, Paulo passou a estar debaixo da misericórdia divina.

      Não podemos pensar que alguém é odiado por Deus. Na verdade, com a promessa do Cristo no Éden, o amor de Deus destina-se a todos os homens. Agora, quando alguém se depara com a sua palavra e não obedece, ou seja, odeia, o tal receberá a paga pelo ódio. “E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará” (Dt 7:9-10).

      Essa abordagem tinha em vista os filhos de Israel, que diziam amar a Deus, mas que não O obedecia. O que nos remete a parábola dos dois filhos, ao que disse que ia e não foi, e o que disse que não ia e foi.

      “Mas, que vos parece? Um homem tinha dois filhos, e, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha.” (Mateus 21 : 28).

      Nesse sentido, um dos filhos amou e o outro odiou. Sei que é complicado fazer uma leitura de um texto tendo que adotar um significado diverso de termos tão usuais.

      Mas, essa é a linguagem da Bíblia:

      “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.” (Mateus 11 : 29)

      Jesus é manso e humilde, mas quem quer segui-Lo, tem que se fazer servo: tomar o jugo!

      Att.

      Resposta
  • 30/09/2019 em 19:29
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    Caro irmão Claudio,

    Quero antes de mais confessar que dou graças por ter encontrado este seu sítio, que me obrigou sadiamente a refletir. Tem sido desafiante e, ao mesmo tempo, instrumental para amadurecer estes assuntos. Estou-lhe grato.

    Discordo em algumas coisas do que escreveu e se, me permitir, exprimo aqui onde reside a minha discordância.

    Em primeiro lugar, a minha divergência vai para a forma como utiliza as propriedades lógicas que, do ponto de vista formal e material, não está correta. Repará que aqui será o único ponto de discordância em que direi que o Claudio está errado. Por uma única razão: em minha atividade profissional, há mais de 20 anos, eu lido diariamente com as propriedades lógicas. Permita-me então que explique um pouco melhor com um exemplo:

    Se eu disser: “Não vou à praia se chover”. Esta proposição só é mentira se 1. chover e eu for à praia. Caso aconteça qualquer outra coisa, não terei mentido, ou seja, se: 2. Se chover e eu não for à praia; 3. Se não chover e eu não for à praia e 4. Se não chover e eu for à praia. Se eu for uma pessoa absolutamente íntegra e nunca mentir, a única coisa que não posso fazer é 1. Nada perco da minha integridade se fizer 2, 3 ou 4.

    Da mesma forma, na proposição condicional «Eu amo os que me amam», só é mentira se amarmos e Ele não. Não será mentira se amarmos e Ele amar, se não amarmos e Ele não amar, ou se não amarmos e Ele amar. Não se trata de uma opinião minha, mas sim de um imperativo lógico, da mais perfeita lógica, sobre a qual assenta a mais pura ciência.

    Esta condicional só seria equivalente à bicondicional «Eu amo os que Me amam, os que não Me amam Eu não amo» se a relação entre elas fosse tautológica, o que de facto não é. As duas proposições não são materialmente nem formalmente equivalentes.

    Por outro lado, João diz-nos que Deus é amor, não diz tem amor ou assemelha-se ao amor, ou seja, o Amor e Ele são idênticos. Independentemente do significado que se atribua ao Amor, não podendo negar-se a Si mesmo, Deus não poderá deixar de amar, pois não pode deixar de ser Ele próprio.
    O que não significa que o meu ódio ou desamor seja mesmo assim premiado. A minha podridão não se poderá jamais unir-se a Ele, que é todo e completamente perfeito. É como água e azeite. No entanto, Deus deu-nos a Palavra para nos curar e podermos estar junto a Ele quando chegar o momento.

    Provavelmente não concordará comigo mas Jesus, sendo plenitude da Palavra de Deus, cumpriu o Antigo Testamento mas foi mais além, completou-o. Foi Jesus quem disse: «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei». Jesus não mente e se Ele afirma que é novo, onde encontrar a novidade? Já no Levítico encontramos escrito: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Encontramos a novidade em Mateus e Lucas: «amai os vossos inimigos». Deus não nos pediria, a nós seres imperfeitos, para fazer algo que Ele, na Sua perfeição não fosse capaz de fazer. E Ele mostrou-nos o caminho, esteve entre os inimigos quando, para escândalo dos doutores da lei, comia e bebia com os publicanos e pecadores; quando pediu perdão a Deus Pai pelos seus perseguidores e carrascos; quando nos pediu para perdoar 70×7 vezes; quando manifestou a sua misericórdia por Paulo (que não acredito que fosse ignorante sobre o evangelho anunciado pelo próprio Cristo e repetido pelos apóstolos e discípulos, pois foi por essa mesma Boa Nova que ele os perseguiu), e o interpelou no caminho de Damasco, sinal de misericórdia prévia à própria conversão de Saulo.

    Por último, seja esse Amor incondicional ou não (e tão pouco me importa se é emotivo ou não), Ele ensinou-nos a perdoar, a usar de misericórdia para com o inimigo, a elevar-nos acima das fraquezas e maldades humanas. Pensou em mim, nesta pobre criatura, e me permitiu que respirasse, que abraçasse um estranho na rua que me pedia uma moeda, que concebesse um filho com minha mulher e que, apesar dos infindáveis momentos em que não estive à altura do Seu Amor, dos seus Mandamentos, permite que continue mais um momento mais, interpelando-me para que O siga, porque me quer salvar. A mim! Que escândalo! A mim, quando Ele não precisa de mim para nada. Seja qual o significado do Amor que se queira dar, só posso afirmar que nunca fui, nem serei, mais amado por ninguém do que por Ele.

    Um grande abraço fraterno, meu irmão, e obrigado por tudo.

    Resposta
    • 01/10/2019 em 16:05
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      Olá, Carlos …

      De fato Deus é amor, mas também é justiça. Justiça não sobrepuja o amar, e nem o amor sobrepuja a justiça.

      Eu entendo que o conceito de amor que adotamos é imprescindível para conhecermos a Deus. Se o apóstolo João aponta qual é amor de Deus, devo aquiescer da definição, e não buscar outras definições se não aquela.

      “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (I João 5 : 3).

      A definição que Jesus dá do amor, é bem clara:

      “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.” (João 14 : 21)

      Somente quem guarda as palavras de Cristo é que O ama. Qualquer sentimento, canção, oração, sacrifício, penitencia, etc., não é amor.

      “Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou.” (João 14 : 24).

      O amor é específico:

      “Se me amais, guardai os meus mandamentos.” (João 14 : 15).

      E como Deus ama o homem? Dando mandamento!

      “Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza.” (Salmos 71 : 3).

      O significado do termo ágape auxilia na compreensão, desde que busquemos na fonte certa:

      “A obediência exigida por Deus, que aceita em todas as nossas ações a vontade pelos atos, é um esforço sério de lhe obedecer e é também denominada com todos aqueles nomes que significam esse esforço. E, portanto a obediência é umas vezes denominada com os nomes de caridade e amor, porque implicam a vontade de obedecer e, mesmo nosso Salvador, faz de nosso amor a Deus e ao próximo um cumprimento de toda a lei”. Hobbes de Malmesbury, Thomas, Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil, Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva.

      “Obedecer é honrar, porque ninguém obedece a quem não julga capaz de ajudá-lo ou prejudicá-lo. Consequentemente, desobedecer é desonrar (…) Louvar, exaltar ou felicitar é honrar, pois nada é mais prezado do que a bondade, o poder e a felicidade. Depreciar, troçar ou compadecer-se é desonrar” Idem, pág. 78.

      O Dicionário Vine, por causa das muitas nuances do termo ágape, disse:

      “Às vezes, ‘ãhab (ou ‘ãheb) descreve um forte afeto especial que um escravo tem por seu senhor sob cujo domínio ele deseja permanecer: “Mas, se aquele servo expressamente disser: Eu amo a meu senhor, e a minha mulher, e a meus filhos, não quero sair forro” (Êx 21.5). Talvez aqui haja uma implicação de amor familiar; ele “ama” seu senhor como um filho “ama” seu pai (cf. Dt 15.16). Esta ênfase pode estar em 1 Sm 16.21, onde lemos que Saul “amou muito” Davi. Israel veio a “amar” e admirar profundamente Davi, de forma que eles observavam todos os seus movimentos com admiração (1 Sm 18.16) (…) Uso especial desta palavra diz respeito a um afeto especialmente íntimo entre amigos: “A alma de Jônatas se ligou com a alma de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma” (1 Sm 18.1). (…) Este verbo é usado politicamente para descrever a lealdade de um vassalo ou subordinado ao seu senhor. Hirão, rei de Tiro, “amou” Davi no sentido de que este lhe era completamente leal (1 Rs 5.1)” Dicionário Bíblico VINE, CPAD.

      Deus pode odiar alguém, mesmo sendo amor?

      Claro que pode:

      “Eu vos tenho amado, diz o SENHOR. Mas vós dizeis: Em que nos tem amado? Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó, E odiei a Esaú; e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto.” (Malaquias 1.2-3).

      Deus odiou Esaú. Qual o significado de amor e ódio em Malaquias? Quando deu o que era de direito a Jacó, Deus amou. Quando deu o que era de direito a Jacó, Deus o amou. Quando não deu a Esaú o que ele não tinha direito, Deus odiou Esaú.

      “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados.” (I Samuel 2 : 30)

      O termo amor está para honra, assim como ódio para desprezo. Deus só honra aquele que o honra, e Deus despreza os que O desprezam.

      Isto porque:

      “Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável.” (Salmos 18 : 26).

      Israel foi desprezado porque não honrou a aliança, e foi disperso entre seus inimigos:

      “Portanto, assim diz o Senhor DEUS: Vivo eu, que o meu juramento, que desprezou, e a minha aliança, que quebrou, isto farei recair sobre a sua cabeça.” (Ezequiel 17 : 19).

      É temerária a afirmação que o irmão fez, de que ‘Deus não poderá deixar de amar’ por Ele ser amor, visto que Deus é justiça também. O versículo não fala do amor, mas da fidelidade de Deus:

      “Palavra fiel é esta: que, se morrermos com ele, também com ele viveremos;
      12 Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará;
      13 Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” 2 Timóteo 2.11.

      Se fosse verdade que Deus sendo amor, não pode deixar de amar, quando é dito que se o negarmos, Ele não poderia nos negar. Mas, o fato é: se negar, ele também nega. Se formos infiéis, ele permanece fiel! Por quê? Porque Deus é fiel a sua palavra, e não a indivíduos.

      Se alguém que estar ao abrigo do amor de Deus, que cumpra o seu mandamento, pois se não cumprir, ele permanece fiel, e o homem será alvo da sua ira, pois é isso que a Bíblia diz.

      “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.” (João 15 : 10)

      Daí, vê-se que o amor de Deus não é incondicional, antes condicional. Se guardar os mandamentos permanece no amor. E se não guardar? Permanece no amor?

      Temos que lembrar que Deus é amor e ira!

      “A quem jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso.” (Salmos 95 : 11)

      Como já mencionei, o amor aos inimigos é uma parábola para os judeus, pois aos crentes Paulo instrui para termos paz om todos os homens, caso dependa de nós.

      O ensinamento de Jesus para com a igreja é perdoar os irmãos e amar os irmãos.

      https://estudobiblico.org/a-parabola-do-credor-incompassivo/

      Com relação as propriedades lógicas, o irmão está corretíssimo quanto a proposição:

      “Se eu disser: “Não vou à praia se chover”. Esta proposição só é mentira se 1. chover e eu for à praia. Caso aconteça qualquer outra coisa, não terei mentido, ou seja, se: 2. Se chover e eu não for à praia; 3. Se não chover e eu não for à praia e 4. Se não chover e eu for à praia. Se eu for uma pessoa absolutamente íntegra e nunca mentir, a única coisa que não posso fazer é 1. Nada perco da minha integridade se fizer 2, 3 ou 4.”

      Agora, com relação a Deus, não é da mesma forma na proposição condicional «Eu amo os que me amam», pois além de não ser verdadeiro ‘se amarmos e Ele não’, também não será verdadeiro ‘se não amarmos e Ele amar’. Com relação a Deus só é verdade ‘se amarmos e Ele amar’ e ‘se não amarmos e Ele não amar’.

      Na questão, apesar de trabalharmos com operadores lógicos, não se trata de um imperativo lógico, pois Deus é amor e ao mesmo tempo fogo consumidor.

      Dai o fato de ter feito alusão a questão tautológica, pois Deus «Eu amo os que Me amam, os que não Me amam Eu não amo».

      Se ao dar a Jacó o que era de direito, a primogenitura, Deus o amou, certo é que Deus odeia quando não dá o que não é de direito a alguém, com foi o caso de Esaú.

      “Não era Esaú irmão de Jacó? disse o SENHOR; todavia amei a Jacó, E odiei a Esaú; e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto.” (Malaquias 1.2-3).

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