A nação cujo Deus é o Senhor

Quem acredita que uma imprecação ‘O Brasil é do Senhor Jesus’ há de estabelecer prosperidade e justiça social, se esquece que, embora ainda não vemos todas as coisas sujeitas a Cristo, o Pai já lhe sujeitou todas as coisas.


A nação cujo Deus é o Senhor

“Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo ao qual escolheu para sua herança.” (Salmos 33.12)

Introdução

De longa data grande parcela dos evangélicos fazem imprecações utilizando o slogan ‘O Brasil pertence ao Senhor Jesus’, principalmente em tempos que antecedem as eleições.

Há base bíblica para afirmar que o Brasil é do Senhor? Tem algum efeito prático alardear que o Brasil pertence a Jesus? O que a Bíblia diz?

A terra é do Senhor

“Do SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam.” (Salmos 24.1).

O Salmo 24, verso 1, declara que a terra pertence ao Senhor, e através do paralelismo sinônimo, que é próprio a estrutura das poesias hebraicas, na qual a segunda linha do verso repete a ideia do verso anterior, não há dúvidas de que todas nações, povos, etnias, etc., igualmente pertencem ao Senhor.

Diante do que afirma o Salmo 24, verso 1, é reducionismo enfatizar que o Brasil é do Senhor, visto que, a verdade exarada nas Escrituras aponta para a terra e a sua plenitude, ou seja, para todos os povos.

Os judeus entendiam ser o povo de Deus, e mesmo sendo verdade que Israel pertence a Deus, certo é que todas nações igualmente pertencem a Ele.

Outra questão de sua importância para o leitor do Salmo 24, é entender que o Salmo é messiânico, pois aponta para o Verbo encarnado como o Criador dos céus e da terra (Salmo 102.25 -27 compare com Hebreus 1.10 -12; João 1.1 -3), e por isso pertence a Ele o mundo e aqueles que nele habitam.

Os céus e a terra pertencem a Cristo, porque, como aponta o verso 2, Ele é o criador de todas as coisas (Salmo 24.2), o que demonstra que Ele não tem ninguém em preferência, pois é misericordioso para com todos que O invocam (Salmo 86.5).

“Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” (Romanos 10.12- 13).

Além de todos os povos pertencerem ao Verbo que se fez carne, o Unigênito Filho de Deus e Criador de todas as coisas, ao ressurgir dentre os mortos, na condição de primogênito, Cristo herdou do Pai todas as coisas. O mundo pertence a Cristo por dois motivos:

a) Na eternidade, antes de despir-se da sua gloria, o Verbo criou todas as coisas “A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.” (Hebreus 1.2);

b) Na condição de Filho obediente, ao ressurgir dentre os mortos, tornou-se herdeiro de todas as nações “Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão.” (Salmos 2.8); “A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.” (Hebreus 1.2).

Em decorrência do exposto acima é producente dizer que ‘A terra é do Senhor Jesus’, em vez de dizer que ‘O Brasil é do Senhor Jesus’, pois diferentemente dessa declaração, aquela demonstra que não há diferença entre judeu e grego, vez que Jesus é rico para com todos os que O invocam.

É fato que Deus amou o mundo ao dar o Seu Filho unigênito (João 3.16), e ‘mundo’, no texto, refere-se a todas as famílias da terra, demonstrando que a promessa feita a Abraão se cumpre em Cristo, manifesto a todas as nações (Gênesis 12.3; Isaías 52.10).

Quando é dito ‘Ide por todo mundo’, a ideia é ‘Ide por podas as nações’, ou seja, sem fazer acepção de pessoas.

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;” (Mateus 28.19);

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16.15).

Mas, de tudo que foi dito, vale destacar que o Senhor é rico para com todos os que O invocam, objetivando salvar os homens da condenação à perdição estabelecida em Adão. Jesus não veio salvar uma sociedade, nação, povo, indivíduo, etc., de suas mazelas socioeconômicas, ou livrar a humanidade da corrupção, imoralidade, violência, pobreza, etc.

Certo é que Deus amou todas as nações indistintamente ao dar o Seu único Filho, mas tal amor é verdadeiramente efetivo (completo) somente sobre aqueles que obedecem a sua palavra, ou seja, que O invocam.

“Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele.” (1 João 2.5).

O amor de Deus a todos os homens foi anunciado por intermédio de Moisés, mas os filhos de Israel não compreenderam. Observe:

“INCLINAI os ouvidos, ó céus, e falarei; e ouça a terra as palavras da minha boca. Goteje a minha doutrina como a chuva, destile a minha palavra como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como gotas de água sobre a relva.” (Deuteronômio 32.1 -2).

Muito tempo depois, o profeta Isaías explicou o motivo de se destilar a palavra como o orvalho sobre a erva:

“E a glória do SENHOR se manifestará, e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do SENHOR o disse. Uma voz diz: Clama; e alguém disse: Que hei de clamar? Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo. Seca-se a erva, e cai a flor, soprando nela o Espírito do SENHOR. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente.” (Isaías 40.5 -8).

Complementando a ideia de que a terra (os povos) deve ‘ouvir’ as palavras da boca de Deus, Isaías demonstrando que toda carne é erva, portanto, todos os homens, sem distinção alguma, deveriam receber o gotejar da palavra de Deus. Como todos os homens são ervas, segue-se que a terra é do Senhor, bem como a sua plenitude.

O evangelho que, primeiramente, foi anunciado a Abraão, deveria ter sido anunciado a todos os povos, mas somente na plenitude dos tempos, através da Igreja, o espírito de Deus está sendo derramo sobre toda carne.

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre. Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; Mas a palavra do SENHOR permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.” (1 Pedro 1.23-25);

“E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões.” (Joel 2.28);

“Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.” (Gálatas 3.8).

A nação cujo Deus é o Senhor

“Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo ao qual escolheu para sua herança.” (Salmos 33.12).

Deixando as considerações do Salmo 24 em segundo plano, qual é a nação bem-aventurada, cujo Deus é o Senhor? O Brasil, como nação, pode arrogar para si a condição de bem-aventurado?

O único povo que foi escolhido por Deus dentre todos os povos é o povo de Israel:

“Porque povo santo és ao SENHOR teu Deus; o SENHOR teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra.” (Deuteronômio 7.6);

“Porque és povo santo ao SENHOR teu Deus; e o SENHOR te escolheu, de todos os povos que há sobre a face da terra, para lhe seres o seu próprio povo.” (Deuteronômio 14.2).

Por que Israel foi escolhido? Eram mais justos? Mais nobres? Mais numerosos? Evidente que não, antes foram escolhidos porque Deus os amava, pois fez uma promessa aos pais: Abraão, Isaque e Jacó.

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos;” (Deuteronômio 7.7 e 9.6).

“Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito.” (Deuteronômio 7.8 e 9.5).

A única nação que poderia dizer ser bem-aventura, cujo Deus é o Senhor era Israel, mas foram rebeldes (Deuteronômio 9.24), não cumpriram com a exigência divina:

“Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha.” (Êxodo 19.5).

Por causa de Abraão, Deus escolheu a descendência de Jacó para serem propriedade peculiar dentre todos os povos, mas não ouviram a voz de Deus e nem guardaram a aliança que prometeram cumprir com juramento.

“Então todo o povo respondeu a uma voz, e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado, faremos. E relatou Moisés ao SENHOR as palavras do povo.” (Êxodo 19.8);

“E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos.” (Êxodo 20.19);

“E Deus disse: Põe-lhe o nome de Lo-Ami; porque vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus.” (Oseias 1.9).

Se o povo de Israel, que foi escolhido por Deus foi rejeitado por não ouvirem e nem obedecerem a aliança, que se dirá do Brasil, que não foi concedido uma promessa especifica, não possui uma aliança a ser honrada e nem foi citado por Deus?

Como o povo de Israel poderia cumprir a palavra de Deus para serem propriedade peculiar, se rejeitaram ouvir a palavra de Deus? Como cumprir o que rejeitaram ouvir?

O povo de Israel, mesmo eleito, foi endurecido por causa da rebeldia, até o tempo determinado por Deus, quando serão salvos, visto que, quanto a eleição, são amados por causa dos pais.

“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades. E esta será a minha aliança com eles, Quando eu tirar os seus pecados. Assim que, quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais.” (Romanos 11.25-28).

Como o povo de Israel foi rejeitado, agora, na eleição segundo a graça, de dois povos (judeus e gentios) Deus fez um, de modo que a Igreja agora é o povo de Deus, a nação santa:

“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” (1 Pedro 2.9);

“Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.” (1 Pedro 2.10).

O povo de Deus se estabelece por vínculo de nascimento (geração eleita), e não por vínculo de sangue ou território. A igreja é a nação cujo Deus é o Senhor, o povo escolhido para Sua herança.

“Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade;” (Efésios 1.11);

“Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho.” (1 Pedro 5.3).

A igreja é o povo de Deus, pois muito tempo após Josué introduzir o povo de Israel na Jerusalém terrena, profetizou o salmista Davi que ainda havia um descanso para o povo de Deus, e esse povo não é os brasileiros, antes todos quantos Deus chamar de todos os povos, línguas e nações.

“Determina outra vez um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações. Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria depois disso de outro dia. Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus.” (Hebreus 4.7-9).

Povo de Deus, declare isso: – ‘O Brasil é do Senhor Jesus’!

Por trás do pensamento: ‘quanto mais pessoas entrarem no reino de Deus, mais visível será a transformação social’, ou seja, ocorrerá mudanças na família, politica, ciência, cultura, etc., temos a dissimulada Teologia do Domínio, movimento que surgiu nos Estados Unidos da América, e que produziu vários gritos de guerra como: “America, a nation under God” (América, uma nação sob Deus), “Washington for Jesus” (Washington para Jesus), etc., anunciado em passeatas, marchas, caminhadas, etc. Tomando por base o ide de Jesus, a Teologia do Domínio apregoa a cristianização do mundo, mas o foco não é o evangelho de Cristo, antes impor, através da dominação política, o que consideram ser ‘princípios cristãos’.

Os gritos de guerra utilizado pela Teologia do Domínio decorrem de outro movimento, a Confissão Positiva, movimento que acredita ser possível moldar e influenciar o mundo através das palavras que se emite no dia a dia.

Qual o fundamento bíblico para se declarar ou profetizar que o Brasil pertence a Jesus? Nenhum!

A fé bíblica não tem por base aquilo que o indivíduo deseja, declara ou acredita. Pela má leitura que muitos fizeram das escrituras, confundiram fé com aquilo que se acredita, e vice-versa.

Ter fé não é acreditar em devaneios tal qual ‘O Brasil é de Jesus’, antes é ter o evangelho, a fé que foi dada aos santos (Judas 1.3), ou seja, acreditar que Jesus é o Cristo enviado de Deus.

Desejar, declarar ou acreditar que o Brasil pertence a Jesus não muda o status quo da realidade social dos brasileiros. Deus tem compromisso com a Sua palavra, ou seja, Ele não tem compromisso com o que o homem deseja, declara ou acredita se não estiver em consonância com a sua palavra.

O evangelho de Cristo não foi e não é anunciado para estabelecer transformação social, político e nem cultural. Por exemplo, à época de Jesus e dos apóstolos, a sociedade se utilizava de mão de obra escrava, e não se encontra no Novo Testamento qualquer censura a essa prática social repugnante aos olhos da sociedade atual, quando um ser humano assume direitos de propriedade sobre outro por meio da lei ou da força.

A ilusão de que um país dito cristão gozará de prosperidade e que os seus concidadãos terão paz não tem suporte no evangelho de Cristo, até porque Jesus afirmou que sempre existirá pobres em meio ao povo “Porque sempre tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes; mas a mim nem sempre me tendes.” (Marcos 14.7).

“Pois nunca deixará de haver pobre na terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra.” (Deuteronômio 15.11).

A atividade laboral jamais será extinta por força da penalidade, que diz:

“E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.” (Gênesis 3.17-19).

O apóstolo Paulo, ciente desta verdade, recomendou:

“E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado;” (1 Tessalonicenses 4.11).

Verifica-se nos ensinamentos do apóstolo Paulo que o evangelho jamais teve o mote de dominação ou transformação cultural dos gregos, insurgência contra os romanos e/ou liquidar com a religião dos judeus.

Os apóstolos não identificaram nenhuma cultura como sendo cristã, não apontaram nenhum comportamento alinhado com princípios cristãos ou um sistema de governo propício ao evangelho. Qualquer posicionamento doutrinário que aponte este ou aquele modelo de sistema de governo, este ou aquele modelo econômico, esta ou aquela cultura, etc., como alinhados com as Escrituras, não passam de palavras falaciosas.

Trata-se de líderes avarentos, que fazem dos seus seguidores negócios utilizando-se de palavras fingidas.

“E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita.” (2 Pedro 2.2).

Muitos pastores, sob a bandeira do slogan ‘O Brasil é do Senhor Jesus’, venderam a políticos a promessa de que seus seguidores votariam em certos partidos e em determinados políticos. Fizeram de seus ajuntamentos solenes verdadeiro curral eleitoral visando facilidades e o lucro.

O Brasil não pertence ao Senhor Jesus, assim como não pertencem os países árabes, asiáticos, etc. O Brasil não é melhor ou pior que outras nações diante de Deus, mesmo tendo estampado na moeda corrente ‘Deus seja louvado’. Neste mesmo diapasão, os Estados Unidos da América também não pertencem ao Senhor Jesus, mesmo que os americanos tenham cunhado em suas cédulas de dinheiro o lema In God We Trust (Em Deus Confiamos).

Se a Bíblia diz que Deus é louvado quando os ramos ligados à oliveira produzem fruto, não basta alguém desejar, declarar ou acreditar que Deus será louvado, ou até mesmo estampar em uma moeda dizeres em louvor a Deus, visto que somente através do fruto daqueles que foram plantados por Deus é que de fato Ele é louvado.

“Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos.” (João 15.8);

“E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado.” (Isaías 60.21).

Afirmar que o reino de Deus chegou ao território brasileiro, e fazer votos que o seu governo se estabeleça sobre a nação brasileira é mero proselitismo, com o objetivo de angariar seguidores, o que é diferente de fazer discípulos de Cristo. Ora, o reino de Deus chegou ao mundo a mais de 2.000 anos, e veio para todos os homens (Mateus 3.2).

O reino só será dado a Cristo quando o Pai colocar os inimigos de Jesus por escabelo dos seus pés, e não quando alguém desejar, declarar ou acreditar. De nada adianta uma marcha para Jesus, pois só a cruz de Cristo (evangelho) atrairá os homens a Cristo.

“DISSE o SENHOR ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés.” (Salmos 110.1);

“E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.” (João 12.32).

A Teologia do Domínio é cepa da Teologia da Prosperidade misturado ao misticismo do movimento da Confissão Positiva, doutrina que impregnou seguimentos da teologia calvinista, e frutificou entre os pentecostais nos EUA.

O que dizer de pessoas que se dizem cristãs e lançam mão de serpentes sob o pretexto de que está escrito que, se pegarem nalguma serpente, não sofrerão dano algum (Marcos 16.18)? Esses cristãos se esquecem da regra de ouro, que diz: também está escrito! Lançar mão de uma serpente a pretexto do que está escrito é tentar a Deus, e o tal estará sujeito ao seu próprio devaneio.

“Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.” (Mateus 4.7).

Que dizer de pseudos teólogos que dizem que Deus ordenou ao homem sujeitar a terra, e citam Gênesis 1, verso 28: “Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a” (Gênesis 1.28), e se esquecem de que ‘também está escrito’ nos Salmos:

“Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés: Todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, As aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares.” (Salmo 8.4-8).

O domínio pertence a Jesus, pois tudo foi posto debaixo dos seus pés.

“Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém.” (Judas 1.25).

“Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, De glória e de honra o coroaste, E o constituíste sobre as obras de tuas mãos; Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que lhe não esteja sujeito. Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas.” (Hebreus 2.7-8).

A bênção de Deus dada a humanidade foi frutificar e multiplicar, e em povoar a terra está o ‘sujeitai-a’, e não em estabelecer governos, quer sejam laicos ou teocráticos. O domínio aos homens é sobre os animais que se movem no mar, na terra e no ar, e não que Deus tenha em preferência um governo.

“E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.” (Gêneses 1.28).

Quem acredita que uma imprecação ‘O Brasil é do Senhor Jesus’ há de estabelecer prosperidade e justiça social, se esquece que, embora ainda não vemos todas as coisas sujeitas a Cristo, o Pai já lhe sujeitou todas as coisas.

A única coisa que cabe ao cristão é almejar: ‘Maranata’!, o que não ocorre em marchas, passeatas e procissões por Jesus, vez que muitos não O amam de fato.

“Se alguém não ama ao Senhor Jesus Cristo, seja anátema. Maranata!” (1 Coríntios 16.22);

“Se me amais, guardai os meus mandamentos.” (João 14.15).

Está reservado aos cristãos a coroa da justiça, e não o domínio sobre homens ímpios. Quem busca implantar um reino e dominar em nome do evangelho, na verdade, é inimigo do evangelho, pois só pensa nas coisas terrenas.

“Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas. Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas.” (Filipenses 3.18-21).

“Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.” (2 Timóteo 4.8).

Os adeptos da Teologia do Domínio estão mais perdidos que Simão no momento que cortou a orelha de Malco, pois estão em uma luta inglória, como se Cristo fosse incapaz de estabelecer o seu próprio domínio.

“E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha. Então Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (Mateus 26.51-54).

Qualquer que lançar mão da política sob o argumento de que é necessário estabelecer domínio dos cristãos sobre outras pessoas, através da política perecerão, pois se esquecem que os cristãos devem se sujeitar as autoridades constituídas.

“TODA a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus.” (Romanos 13.1).

À época dos apóstolos, os judaizantes eram sectários, e segundo uma doutrina carnal, se insurgiram contra Roma. O apóstolo Pedro descreveu os judeus como atrevidos, obstinados e que não se refreavam quando falavam das dignidades.

“Mas principalmente aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia, e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades;” (2 Pedro 2.10).

Os judaizantes prometiam aos seus ouvintes liberdade, contudo, eles mesmos eram escravos do pecado (2 Pedro 2.20).

De tudo o que foi analisado e exposto, não significa que os cristãos estão alijados das questões da nação, até porque gozam de cidadania. Entretanto, apesar de o crente poder se manifestar a favor ou contra um sistema de governo, partido ou candidato, que faça como cidadão, e não como cristão.

“Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus.” (1 Coríntios 10.32);

“Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado;” (2 Coríntios 6.3).

No que depender do cristão, deve procurar ter paz com todos os homens, pois somente através do evangelho de Cristo é possível aos homens se tornarem herança, o povo de Deus.

“Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens.” (Romanos 12.18).